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Cultura dia 05 junho

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  • 1. Cultura QUARTA-FEIRA • 5 DE JUNHO DE 2013Diário do MinhoEste suplemento faz parte da edição n.º 29971de 5 de junho de 2013, do jornal Diário do Minho,não podendo ser vendido separadamente> “Gato desconfiado...”– Bragança, agosto de 2012[Foto de Sofia Barbosa]
  • 2. II Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 5 de junho de 2013CulturaCulturaEnvio de trabalhos para publicação neste suplementoDiário do MinhoCulturaCultura Diário do Minho / Secção CulturalRua de S.taMargarida, 4 - 4710-306 Braga; Fax: 253609469. E-mail: cultura@diariodominho.pt5.Junho.2013N.º 701O pressuposto essencial da vidaem sociedade é o da mútua de-pendência, a qual, sem embargodos eventuais aspectos negativos,possibilita e condiciona o desen-volvimento das virtualidades decada um; mesmo quando se tra-duzem na crítica, mais ou menosagressiva, dos valores em cujo ho-rizonte a pessoa veio à luz da vida,dos afectos e da razão. Com efeito,é no modo como recebemos, as-similamos e aperfeiçoamos essasinfluências que nos assemelhamose distinguimos uns dos outros. Daíresulta que, conforme se ascendena escala humana, mais subtissejam as formas de comunicação;razão pela qual se fala em con-genialidade a propósito das afini-dades entre homens superiores;as quais, no limite, escapam aosmétodos positivos da análise.Isso me dispensa de tentar de-monstrar algumas aproximações,que não estou à altura de esclare-cer, em especial quando se tratade movimentos espirituais, cujaverdadeira razão de ser apenasposso inferir de textos e teste-munhos, susceptíveis no entantode diferente exegese. Assim, porexemplo, se está documentada arelação de amizade que Mário Saamanteve com Teófilo Braga nosúltimos anos da vida do profes-sor, já afastado das lides públicas,nada posso alegar de semelhantequanto a Bruno; ainda que, tantopor via do velho professor, comode Fernando Pessoa e até deJosé Leite de Vasconcelos, possapresumir que conheceria bem ainvulgar personalidade do autorde O Encoberto. Cada vez maisdesligado da vida partidária epolítica, a sua atenção polarizara--se na decifração dos enigmas danossa história próxima e remota,sobretudo desde que, em 1909,passou a dirigir a Biblioteca Públi-ca e o Museu Municipal do Porto,pelo que não poderia deixar dedespertar a curiosidade do autorda Erridânia.O que se me afigura evidente éque, descontadas as diferençasde estilo, tanto pessoal como degeração literária e mental, as tesesenfeixadas no volume A Invasãodos Judeus recebem inesperadaluz, assim como ilustram, as doinacabado Plano de um Livro aFazer, que Álvaro Ribeiro aproximada Historia de los HeterodoxosEspañoles, de Menéndez Pelayo, enós da História Secreta de Portu-gal, de António Telmo. O judaísmofora objecto da persistente inda-gação de Bruno, atento ao que elerepresentou na história universal esobretudo na de Portugal, apesarde pouco sabermos do que nesseinteresse influiu, durante o exíliode 1891 a 1893, a estadia em Parise a passagem por Amesterdão, emcuja comunidade sefardita, aindanão esquecida das raízes portu-guesas, teria colhido importantesrevelações. A verdade é que, talcomo n’O Encoberto se afastara dealgumas noções correntes acercado messianismo, assim tambémn’Os Cavaleiros do Amor se propu-nha desvendar uma história secre-ta, não apenas de Portugal; tarefaque a morte, no entanto, deixouinterrompida, como em suspensoficara entretanto a Teoria Nova daAntiguidade, de que conhecemosapenas os primeiros lineamentos.A reflexão sobre o tempo e ahistoricidade, mormente os temasatinentes à génese e fenomeno-logia das revoluções, fossem assúbitas e sangrentas ou as de largofôlego e quase imperceptíveis,tinha primacial importância paraquem considerava o movimen-to a essência da realidade. Mascompreende-se que, ao postular aqueda no homogéneo, em con-sequência da qual se destacarao mundo, onde reina o mal e oerro, prestasse especial atençãoà agência dos factores subtis, dosmovimentos ocultos e das socie-dades secretas, num devir de suanatureza misterioso. Na série dosvolumes que tencionava publicar,o último intitular-se-ia, em sime-tria com o primeiro, a Síntese daCrença Cristã; infelizmente, po-rém, nem mesmo os amigos maispróximos, como Teixeira Rego, ou-saram suprir a enorme perda que,nessa como em outras vertentes, amorte do filósofo significou.Por isso continua a valer comoderradeira expressão do seupensamento o artigo que, poucoantes de ser internado na Ordemdo Terço, onde faleceria, entregoupara publicação n’A Águia, com aindicação expressa de que seria oúltimo… No tom de tantos outrostextos eruditos, nele deixou umamensagem a que por certo atri-buía grande importância, mas que,como era hábito num escritor queamiúde ocultava o essencial soba capa do banal, deixou ao nossocuidado decifrar, com a quota-parte de responsabilidade que issoimplica. O título, “O ‘Judeu’”, reme-te ostensivamente para o contro-verso autor das peças do teatro defantoches que, aliás sem provasconcludentes, como mostrouClaude-Henri Frèches (Bulletind’Histoire du Théatre Portugais,n.º 1, Lisboa, 1950, pp. 33-61), setem identificado com AntónioJosé da Silva; mas o que está emcausa, como se depreende daleitura atenta, é o modo pelo qualos judeus, ou antes, uma cama-da social de progénie hebraica,combatia os valores tradicionais,mormente nos séculos XVIII e XIXe não só em Portugal.As poucas páginas de um arti-go redigido quando a doença oconstrangera ao último recurso,a que sempre se furtara, apenaslhe permitiram chamar a atenção,com a objectividade que era seutimbre, para o modo como, a partirdas instituições da sociedade ondese acolhia e prosperava, um de-terminado estrato lhe minava ascrenças e os valores. Que Brunoachasse importante deixar estaúltima mensagem, na sequênciado Plano que vinha publicandodesde os fins do ano anterior, aum ritmo cada vez mais espaçado,dá que pensar. Tanto mais que ti-nha já redigidos e mais ou menosprontos para o prelo outros vinte equatro textos, que ficaram inéditospor muitos anos.Homem de génio foi como Álva-ro Ribeiro qualificou o autor deA Ideia de Deus, livro onde leu oque Bruno entendia por tal e, porisso, com a perfeita noção do quesignificava. Por isso, tal como emoutros passos da vida arrepiara ca-minho, corrigindo o erro cometidoquando, da primeira vez, no “casi-no”, resistiu à voz que lhe indicavao número da sorte, é de presumirque agora também se decidira aabrir um pouco mais o jogo. Comefeito, o último texto oferece umachave para ler o Plano de um LivroUma herançaUma herançainconscienteinconscientePORJOAQUIM DOMINGUESPROFESSOR DE FILOSOFIAO escritor e filósofoJosé Pereira de Sampaio(1857 - 1915),de pseudónimo Sampaio Bruno
  • 3. CulturaCultura IIIDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 5 de junho de 2013a Fazer, que talvez não estivessena sua mente quando o iniciou.Não sendo um pensador apolíneo,como observa José Marinho, masinspira-do pelas constelaçõesinvisíveis, fizera ele de Bruno umnome de combate pela luz, nãopelo ocultismo; de modo que olivro de que traçou o Plano seintitularia, bem a propósito, OsCavaleiros do Amor ou a Religiãoda Razão. Compreende-se a pre-ferência editorial pela primeiraparte do título, tal como saiu novolume de Guimarães Editores,mas importa prestar igual aten-ção à segunda parte, que evocaaliás a Defesa do Racionalismo ouAnálise da Fé, de Amorim Viana, ede algum modo antecipa A RazãoAnimada, de Álvaro Ribeiro. Numalinhagem consentânea ao amploracionalismo da nossa tradiçãoque, sem excessos nem exclusivis-mos, sempre buscou ver claro, nasenda de um iluminismo integral,que não o de restrita feição físico-matemática.Seria isso, porventura, o que Brunopretendia distinguir, ao mostrar afeição corrosiva dessoutra linha-gem que, impondo-se já entãonos meios prestigiosos da CidadeLuz, tivera bem modesta géne-se, em meios como o do BairroAlto lisboeta do século XVIII?! Umrebate me levou a aproximar o textobrunino do livro que nem sequer ocita; para mais assaz díspar no estiloe nas circunstâncias em que sur-giu, como é A Invasão dos Judeus.Admitida a hipótese, porém, tenhohoje como assente que, mesmoque nada devesse à leitura de Bru-no, o livro de Mário Saa nele poderiaencontrar a perfeita epígrafe parauma das mais penetrantes tentativasde compreensão da nossa históriamoderna e contemporânea.Faltaria à verdade se dissesse que,por minha vez, nada lhe fiquei adever também, pelo menos nodomínio da informação que pro-digaliza e até de algumas ilações.A verdade, porém, é que chegarapor mim a idêntica conclusão,ainda que interpretando de formamais ampla e vaga o que MárioSaa explica, em termos categóri-cos, como obra judaica ou, antes,judaico-portuguesa. A distinção éimportante, pois tem a ver com atese de que os homens de naçãoacabaram por se fundir na so-ciedade onde se acolheram, mascomo um elemento heterogéneoque, em vez de ser o fermentorenovador, corrompeu o corposocial de que se assenhoreou.No seu característico jeito polémi-co, julgo no entanto que demons-trou demais, visto o ascendenteda comunidade judaica não poderexplicar, por si só, a decadênciada nobreza e do clero, que abriuvia à subversão da escala dosvalores sociais. Em todo o caso,julgo fecunda e pertinente, desdeque corrigidos alguns exagerosretóricos (para já não falar nasgralhas), uma abordagem quepermite compreender o que, deoutro modo, se não entende; emespecial uma sanha destruidorada herança cultural e da estruturasocial, que só por equívoco seatribuiu ao povo, de sua naturezaconservador, ainda que fácil deiludir pelos demagogos. Se admi-tirmos, porém, que houve umamudança dos detentores do poder,não só isso resulta lógico, comoa notória desafeição do povo aosseus dirigentes e a consequentecrise da identidade nacional.A pulsão auto-destruidora, suicida,como diria D. Miguel de Unamuno,ganha foros de compreensível,apesar da sua insanidade, se ad-mitirmos que a vida colectiva – doponto de vista mental, económicoe político – passou a ser dirigidapor uma camada social marcadapelo ressentimento, cujas causasentretanto esqueceu ou ignora. Airracionalidade, já apontada porBasílio Teles, de muitas das deci-sões tomadas pelos dirigentes emcertos momentos decisivos, resul-taria, nesse caso, duma tão irrepri-mível como inconsciente atitudede retaliação contra os que teriamoprimido os seus antepassados.Com efeito, Mário Saa insiste naideia de que nem os protagonistasteriam consciência das razões doseu procedimento, até porque setrataria de pessoas de todo des-prendidas já da tradição religiosa eda pertença étnica.Passado quase um século sobreo diagnóstico e ultrapassados osaspectos mais datados da argumen-tação, justo será reconhecer que oessencial da tese se mantém válido,se não foi mesmo reforçado peloque nem o autor podia prever. Ele,que refere o sintomático projectorepublicano de construir em Angolaum estado judaico, não imaginariatalvez que passados cinquenta anostodos os territórios portugueses dealém-mar, à excepção dos arqui-pélagos dos Açores e da Madeira,seriam alienados sem especialsobressalto da consciência política,aliviada por se libertar de um fardoincómodo e sobretudo incompre-ensível para os seus critérios. Oque por certo não estranharia seriaque, sucedendo-se os governose os titulares dos órgãos políticos,económicos e culturais, tenha noentanto permanecido a directriz docombate aos valores cristãos; osquais o povo continua a prezar, nãoobstante o permanente desgaste aque são submetidos pelos meios decondicionamento social.O que distingue um povo é preci-samente a fidelidade a um sistemade valores, que ora é potenciadoora reprimido por quem dominaas instituições, formais e informais,onde se concentram os meios deacção e de reacção social. É inegá-vel que a relação dos portuguesescom essas instituições e os seusdetentores se alterou radicalmentenos dois últimos séculos. Não foi opovo que mudou, por certo. ◗Braga, 2013“O que distingue um povo é precisamente a fidelida-de a um sistema de valores, que ora é potenciado orareprimido por quem domina as instituições, formais einformais, onde se concentram os meios de acção e dereacção social. É inegável que a relação dos portu-gueses com essas instituições e os seus detentores sealterou radicalmente nos dois últimos séculos. Não foio povo que mudou, por certo.”SolDizem que o sol é importante...Porquê? Penso que descobri...O sol oferece-nos sorrisos, boa disposição e uma boa vida.No entanto, há algo que o sol não consegue oferecer:Uma mãe dedicada, carinhosa, esperta, querida, divertida...Bem: acabei por te descrever, minha querida Mãe!Os sorrisos e abraços partilhados...A felicidade sentida...Sinto-me bem ao teu lado:És o sol da minha vida!ChuvaPlin, plin, plop, plop...Ouve-se o som da chuva quando há tristeza, dor, sofrimento...É um som triste, mas também pode ser agradável,porque depois de chorares tudo o que tens,recebes um abraço quente e protetor...Não gostas de me ver chora;Tu desejas partilhar o meu desgosto;Proteges-me de tudo...Não permitindo que a chuva alcance o meu rosto!TempestadeEu não gosto, tu detestas, nós odiamos...Afinal, por que é que existem?Penso que a culpa é minha...Não faz sentido!Não há nenhuma razão!Às vezes tudo acaba mal...Acabando por surgir uma tempestade com tanta confusão...LuaAs fadas existem” Sou infantil? Não...Sou alguém sortudo que temuma fada sempre ao meu lado... mesmo de noite,Protegendo-me dos pesadelos, dando-me sonhos!É no passado, presente, futuro...Deixando tudo sereno:És a lua que me observa no escuro!O amor de uma mãe reflete-se no tempo...Sol: felicidade; Chuva: tristeza; Tempestade: discussões; Lua: serenidade...Em relação à lua, queria dizer-te: Obrigada!Em relação à tempestade, queria dizer-te: Desculpa!Em relação à chuva, queria dizer-te:Estarei sempre do teu lado.Em relação ao sol, queria dizer: Adoro-te!Poemasà Mãe!Sara Daniela Gomes Braga(15 anos)
  • 4. IV Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 5 de junho de 2013CulturaCulturaAmanhã, na Faculdade de Teologia (Braga)Amanhã, na Faculdade de Teologia (Braga)HomeHomenagem ao compositornagem ao compositorManuel FariaManuel FariaA Faculdade de Teologia (Braga), e oA Faculdade de Teologia (Braga), e oSeminário Maior vão homenagear ama-Seminário Maior vão homenagear ama-nhã, dia 6 de junho, o compositor Manuelnhã, dia 6 de junho, o compositor ManuelFaria, assinalando o 30.º aniversário daFaria, assinalando o 30.º aniversário dasua morte. Esta iniciativa tem lugar nosua morte. Esta iniciativa tem lugar noAuditório S. Tomás de Aquino, na Fa-Auditório S. Tomás de Aquino, na Fa-culdade de Teologia (Rua de Santa Mar-culdade de Teologia (Rua de Santa Mar-garida), às 21h30. A iniciativa é marcadagarida), às 21h30. A iniciativa é marcadapor uma conferência proferida pelopor uma conferência proferida pelomúsico Jorge Alves Barbosa, seguidamúsico Jorge Alves Barbosa, seguidade um concerto pelo grupo “Cappellade um concerto pelo grupo “CappellaBracarensis”. A entrada é livre.Bracarensis”. A entrada é livre.O Cónego e compositor Manuel Faria nasceu emS. Miguel de Seide, V. N. de Famalicão, em 18 denovembro de 1916, e faleceu no Porto em 5 dejulho de 1983 (aos 66 anos) Iniciou os estudosmusicais no seu tempo de seminarista, em Bra-ga. Assimilou, desde cedo, modelos alternativosaos cânones de harmonia e composição e exibiucom êxito, nos meios académico-musicaisreligiosos, composições de sua autoria consi-deradas extemporâneas para a época.Em 1939, a arquidiocese de Braga enviou-o parao Pontifício Instituto de Música Sacra, em Roma.Depois da Segunda Guerra Mundial, conseguiuconcluir a sua formação em órgão, canto gre-goriano e composição sacra como bolseiro doInstituto de Alta Cultura. No regresso a Portugal,Manuel Faria passou a desempenhar, nos Se-minários bracarenses, as funções de professorde música. Ainda em 1945, o compositor deu aconhecer obras de sua autoria interpretadas peloCoro da Rádio Roma, num concerto que obtevebastante reconhecimento por parte da imprensamusical italiana.AenormeapetênciaparaoconhecimentodenovasexperiênciaseasuapassagemporParis,noregressoa Braga, tornaram-no admirador dos compositoresfranceses de meados do Século XX.Manuel Faria incutiu um espírito de renovaçãomusical nas paróquias nortenhas (especialmentenas da diocese de Braga), afirmando que aquelaarte,“antes de ser litúrgica, tem que ser música”.Ensaiou canto gregoriano na Sé de Braga e foidinamizador de coros litúrgicos sem nunca terdescurado a faceta de compositor, tanto paramúsica sacra como para música de câmara. Em1949, o autor dos“Cânticos Litúrgicos” preparou,no Palácio de Cristal (Porto) um concerto por sidirigido, inteiramente dedicado à apresentaçãodas suas obras, desde motetes“em estilo moder-no” até às obras consagradas a coro e orquestrade câmara.A sua música foi conhecida na Áustria, país ondeesteve durante algum tempo, tendo sido gra-vada pela rádio de Viena, em 1956, a “Missa emHonra de Nossa Senhora de Fátima”. Também omaestro Frederico de Freitas levou a sua mú-sica sinfónica para Baía e Recife, no Brasil. Em1961, Manuel Faria tornou-se bolseiro da Fun-dação Calouste Gulbenkian, estabelecendo-senovamente em Itália para aprofundar estudosna área da Composição e proceder à divulgaçãoda sua obra.Posteriormente, foi o responsável pela criaçãoda Semana de Música Sacra em Braga e da “NovaRevista de Música Sacra”. Em 1972, recebeu o 1.ºPrémio do Concurso Nacional Carlos Seixas.No que diz respeito à música de cariz profano,salientam-se as obras compostas sobre poesiade Antero de Quental e de Fernando Pessoa.Manuel Faria escreveu ainda uma ópera em doisactos, nunca estreada, na ocasião do 9.º Cente-nário da Conquista de Coimbra aos Mouros.Em 1983, foi agraciado com o grau de Comen-dador de Santiago de Espada, vindo a falecernesse mesmo ano. ◗V. Blanco de Vasconcellosdo meu querido Mestredo meu querido MestreDr. Manuel FariaDr. Manuel FariaPoeta,Poeta,Calou-se a tua lira para nósCalou-se a tua lira para nós– Essa lira que era a voz– Essa lira que era a vozD’Aquele que a tangiaD’Aquele que a tangiaNo silêncio da entregaNo silêncio da entregaE da oração!E da oração!Mas não morreu! Apenas se calouMas não morreu! Apenas se calou– Que à nossa alma ainda chega– Que à nossa alma ainda chegaEsse canto profundo e sonhadorEsse canto profundo e sonhadorDe quem amou a dorDe quem amou a dorE a transformou em ritmo e melodia!E a transformou em ritmo e melodia!Era divina e terna a sinfoniaEra divina e terna a sinfoniaDo teu ser!Do teu ser!Tão meiga e tão suaveTão meiga e tão suaveA tua fala,A tua fala,Que a minha lira, ao recordá-la,Que a minha lira, ao recordá-la,Entoa os versos tristes da saudadeEntoa os versos tristes da saudadeE da ternura...E da ternura...Poeta,Poeta,Irmão deste outro que te rezaIrmão deste outro que te rezaNa tristezaNa tristezaDo derradeiro adeus da despedida:Do derradeiro adeus da despedida:A tua lira não morreuA tua lira não morreu– Apenas emudeceu– Apenas emudeceuPara cantar na eterna vidaPara cantar na eterna vidaA suprema beleza do Amor...A suprema beleza do Amor...Por isso, Mestre, a minha humilde avenaPor isso, Mestre, a minha humilde avenaSe ajoelhaSe ajoelhaNo lajedo da tua sepulturaNo lajedo da tua sepultura(E muito já se orgulha a pobre ovelha(E muito já se orgulha a pobre ovelhaNa venturaNa venturaDe se dobrar à voz de tal pastor!).De se dobrar à voz de tal pastor!).Ajoelha... mas não choraAjoelha... mas não chora– Que as lágrimas desfolham a Saudade– Que as lágrimas desfolham a SaudadeE, essa, eu quero tê-la vida fora,E, essa, eu quero tê-la vida fora,Até poder sonhar, na minha Aurora,Até poder sonhar, na minha Aurora,Os hinos que cantaste à Eternidade!Os hinos que cantaste à Eternidade!Abílio PeixotoAbílio PeixotoInIn “No Coração da Ausência” (1984)“No Coração da Ausência” (1984)Em MemóriaEm Memória
  • 5. CulturaCultura VDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 5 de junho de 2013Ocorre hoje, 5 de junho, mais um aniversário da morte de um dos maiorespoetas de Espanha e do mundo: Federico García Lorca. Sendo um poeta pormuitosconsideradoum“revolucionário”,nemsempreasuaobratemmerecidoa relevância que se lhe ajusta, sendo até bastante desconhecida entre nós.Porisso, evocamos hoje a sua memória, nomeadamente através de uma breve re-senha biográfica e a transcrição de um dos seus mais belos sonetos.O poetaO poeta FedericoFedericoGarcíaGarcía LORCALORCANo 115.ºNo 115.ºaniversárioaniversáriodo seudo seunascimentonascimentoFederico García Lorca nasceu emFuente Vaqueros, Província deGranada, no dia 5 de junho de1898 — e foi assassinado às portasda cidade de Granada no dia 19 deagosto de 1936.Considerado um dos maiores poe-tas de Espanha (e do mundo), foitambém um dramaturgo de enor-me talento – e, por que não dizê--lo desde já?, uma das primeirasvítimas da Guerra Civil Espanhola,devido ao seus alinhamentos políti-cos com os republicanos.Nascido de família abastada numapequena localidade da Andaluzia,García Lorca ingressou na faculda-de de Direito de Granada em 1914,e cinco anos depois transferiu-separa Madrid, onde ficou amigo deartistas como Luis Buñuel e Sal-vador Dali, ali publicando os seusprimeiros poemas.Grande parte dos seus trabalhosiniciais remetem para temasrelativos à Andaluzia (Impressõese Paisagens, 1918), bem comopara a música e para o folcloreregionais (Poemas do CantoFundo, 1921-1922). Os ciganossurgem também como um dosseus temas preferidos, como odemonstra o volume RomanceroGitano, que publicou em 1928.Concluído o curso, foi para osEstados Unidos e para Cuba. Aliiniciou a sua fase poética eivadados princípios surrealistas, mani-festando grande desprezo pelo“modus vivendi” dos EstadosUnidos. Expressou esse seu horror,sobretudo pela brutalidade da civi-lização mecanizada, nas chocantesimagens da obra Poeta em NovaIorque, publicado em 1940.Regressado a Espanha, criou umgrupo de teatro chamado“La Barra-ca”. Não ocultava suas ideias so-cialistas, pelo que foi um dos alvosmais visados pelo conservadorismoespanhol da altura, que ensaiava atomada do poder, dando início auma das mais sangrentas guerrasfratricidas do século XX.Intimidado a depor em tribunal,Federico García Lorca deslocou-separa Granada, na esperança de en-contrar um refúgio na casa paterna.Ali, porém, foi preso por ordem deum deputado, sob o argumento(que se tornou célebre) de que seria“mais perigoso com a caneta doque outros com o revólver”.Assim, no dia 19 de agosto de 1936,sem julgamento, o grande poetafoi executado com um tiro na nucapelos nacionalistas, e o seu corpofoi lançado num local ermo daSerra Nevada.Com este assassinato, calava-separa sempre uma das mais ilustrescanetas espanholas. Todavia, a suaPoesia nascia para a eternidade, jáque o crime teve repercussão emtodo o mundo, despertando portodas as partes um sentimento deque o que ocorria em Espanha diziarespeito a todo o planeta. E isso terásido, também, um prenúncio daSegunda Guerra Mundial, que trêsanos depois teve inícioTal como a obra de muitos outrosartistas republicanos espanhóis –entre as quais a famosa“Guernica”,de Pablo Picasso –, durante o longoregime ditatorial do GeneralíssimoFranco, a obra dramática e poéticade García Lorca foi remetida, emEspanha, para as catacumbas da“clandestinidade”.Com o fim do regime, porém, e oregresso do país vizinho à demo-cracia, finalmente a sua terra natalrendeu-lhe homenagens, sendohoje considerado o maior autor es-panhol desde Miguel de Cervantes.Lorca foi o mais notável poe-ta numa constelação de vatessurgidos durante a Guerra Civil,conhecida como“Geração de 27”.Foi ainda um excelente pintor,compositor precoce e pianista. Asua música reflete o ritmo e sono-ridade de sua obra poética. E comodramaturgo, Lorca fez incursões nodrama histórico e na farsa antes deobter grande sucesso com peçastrágicas. As três tragédias ruraispassadas na Andaluzia – Bodasde Sangue (1933), Yerma (1934) eA Casa de Bernarda Alba (1936) –asseguraram-lhe uma posição derelevo entre os mais importantesdramaturgos do século passado.Lorca era defensor da Repúblicae um empenhado ativista. Em1934, chegou mesmo a declarar:“Sempre estarei ao lado dos quenão têm nada”. Assinava com fre-quência manifestos antifascistas emantinha vínculos com organiza-ções humanitárias internacionais.Durante a sua curta existência,García Lorca deixou importantesobras-primas da literatura, muitasdelas publicadas postumamente,dentre as quais destacamos asseguintes:– Poesia: Livro de Poemas - 1921;Ode a Salvador Dalí - 1926; Can-ciones (1921-24) - 1927; Roman-cero Gitano (1924-27) - 1928; Poe-ma del cante jondo (1921-22) -1931; Ode a Walt Whitman - 1933;Canto a Ignacio Sánchez Mejías -1935; Seis poemas galegos - 1935;Primeiras canções (1922) - 1936;Poeta em Nueva York (1929-30)- 1940; Divã do Tamarit - 1940; eSonetos del Amor Oscuro - 1936;– Prosa: Impressões e Paisagens- 1918; Desenhos (publicados emMadrid) - 1949; Cartas aos Amigos- 1950;– Teatro: Assim que passaremcinco anos - Lenda do tempo -1931;Retábulo de Don Cristóvão eD. Rosita - 1931; Amores de DomPerlimplim e Belisa em seu jardim”- 1926; Mariana Piñeda - 1925;Dona Rosinha, a solteira - 1927;Bodas de Sangue (Trilogia) - 1933;Yerma (Trilogia) - 1934; A Casa deBernarda Alba (Trilogia) - 1936;Quimera - 1930; El publico - 1933;O sortilégio da mariposa - 1918;A sapateira prodigiosa - 1930;Pequeno retábulo de Dom Cristó-vão - 1931.Atualmente, Espanha conta comuma “Casa-Museu Federico GarcíaLorca”, instalada na Veiga de SãoVicente, moradia de veraneioda família do poeta entre 1926e 1936, pouco depois do poetater sido executado pelas tropasfranquistas no início da GuerraCivil. Esta Casa foi aberta ao pú-blico como Museu em 1995, apóster sido adquirida pelo governomunicipal de Granada em 1985.Situa-se no centro do parqueFederico García Lorca e nela épossível ver muitos objetos (mó-veis) relacionados com o poeta,bem como alguns documentos emanuscritos que lhe estão dire-tamente associados. A finalizar,e como curiosidade, diga-se quefoi nesta Casa (agora Museu) queGarcía Lorca terá escrito a trilogia“Bodas de Sangue”. ◗V. Blanco de VasconcellosTenho medo de perder a maravilhade teus olhos de estátua e aquele acentoque de noite me imprime em plena facede teu alento a solitária rosa.Tenho pena de ser nesta ribeiratronco sem ramos; e o que mais eu sintoé não ter a flor, polpa, ou argilapara o verme do meu sofrimento.Se és o tesouro que oculto tenho,se és minha cruz e minha dor molhada,se de teu senhorio sou o cão,não me deixes perder o que ganheie as águas decora de teu riocom as folhas do meu outono esquivo.Federico García Lorca(In ‘Poemas Esparsos’) - Trad. de V.B.V.Tenho medode Perdera Maravilha
  • 6. VI Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 5 de junho de 2013CulturaCulturaAh, há quanto tempo lá não vou,disse eu de mim para mim. Desdeos dezanove anos. Vivi um dia naRússia, sentia-a minha, tinha liber-dade plena para viajar por ondeme apetecesse, e não era grandedificuldade fazer umas trezentasverstás1. Mas nunca ia, adiavasempre. E tinham passado anos eanos, décadas. Mas eis que já nãoé possível adiar mais: é agora, oununca. É preciso aproveitar a únicae última oportunidade, tanto maisque a hora é tardia e não encon-trarei ninguém.E eu fui pela ponte sobre o rio,vendo, ao longe, tudo em redor àluz do luar da noite de Julho.A ponte era tão familiar, a mesmade outrora, tal como se ontem ativesse visto: tosca e vetusta, ar-queada, e como se nem fosse feitade pedra, mas de uma indestruti-bilidade petrificada pelo tempo atéà eternidade, – quando eu andavano liceu, pensava que ela existia jános tempos de Bati2. Do passadoancestral da cidade, porém, falamsó alguns vestígios das muralhasna encosta abaixo da igreja e estaponte. Tudo o resto é simples-mente velho, provinciano, e nãomais do que isso. Só uma coisa eraestranha, uma coisa indicava, noentanto, que algo havia mudadoà face da terra desde o tempoem que eu era rapazinho, depoisadolescente: dantes o rio nãoera navegável, e agora, decerto,aprofundaram-no, dragaram-no; alua ficava à minha esquerda, bemlonge acima do rio, e à sua luz va-cilante, no brilho trémulo da água,alvejava um vapor de rodas, queparecia vazio – de tão silencio-so – embora todas as janelas devigia estivessem iluminadas, quaisolhos doirados imóveis, e tudo sereflectisse na água em rastos deluz, como colunas doiradas emque o vapor parecia assentar. Eraassim também em Iaroslav, e noCanal do Suez, e no Nilo. Em Parisas noites são húmidas e escuras,roseia no céu impenetrável umbrilho nebuloso, e o Sena corresob as pontes como alcatrão ne-gro, mas delas estão suspensas se-melhantes colunas de rastos de luzdo reflexo dos candeeiros, só queestas são tricolores: branco, azule vermelho – bandeiras nacionaisrussas. Aqui não há candeeiros naponte, e ela é seca e poeirenta. Eadiante, no outeiro, anoitecem osjardins da cidade, acima deles so-bressai a torre de vigia. Meu Deus,que inefável felicidade aquela! Foidurante o incêndio nocturno queeu beijei a tua mão pela primei-ra vez e tu estreitaste a minhaem resposta – nunca esquecereiesse teu secreto consentimento.A rua inteira negrejava de genteno clarão descomunal e sinistro.Eu estava em vossa casa quan-do, de repente, tocou a rebate etodos correram para as janelas,e depois para a cancela. Ardia aolonge, para lá do rio, mas comum calor, uma voracidade e umaprontidão terríveis. Elevavam-se,densas, espessas nuvens de fumonum velo negro-rúbido, alto sesoltavam delas panos de andri-nópola3de chamas, que, perto denós, reverberavam, tremendo, emreflexos acobreados na cúpula doArcanjo São Miguel. E no meio damultidão compacta, do burburi-nho ora alarmado, ora lamentoso,ora de regozijo do tropel da gentesimples que acorria de todos oslados, eu sentia o cheiro dos teuscabelos virginais, do teu pescoço,do teu vestido de linho – e eis quesubitamente me atrevi, tomei, como coração a parar-me no peito, atua mão...Depois da ponte subi a encosta edirigi-me para a cidade pela estra-da empedrada.Na cidade não se via vivalma enem uma única luz. Tudo eramudo e amplo, tranquilo e tris-te – com a tristeza da noite daestepe russa, a tristeza das cida-des adormecidas da estepe. E sóos jardins mal se ouviam, com opalpitar cauteloso da folhagemsob o ritmo constante do sopro doleve vento de Julho, que, alguresvindo dos campos, me afagava orosto. Eu andava – a grande luaandava também, passeando-seno negrume dos ramos e trans-parecendo como um círculoespelhado; as ruas largas ficavamna penumbra – só nas casas dolado direito, que a sombra nãoalcançava, as paredes brancasestavam alumiadas e as vidraçasrutilavam num brilho de luto; eeu ia pelo passeio manchado desombras, – diafanamente cobertopor rendas de seda negra. Ela tinhaum vestido de noite assim, muitoelegante, comprido e gracioso.Ficava-lhe singularmente bem aocorpo delicado e aos jovens olhosnegros. Nele ela parecia misteriosae, ofensivamente, não reparara emmim. Onde é que isto tinha sido?Em casa de quem?O meu propósito consistia em iraté à rua Velha. E eu podia cortarcaminho até lá. Mas desviei-meem direcção a estas ruas amplasnos jardins, pois queria relancearo liceu. E, uma vez lá chegado,de novo me espantei: tambémaqui tudo permanecera tal comohá meio século atrás; o muro depedra, o pátio de pedra, o grandeedifício de pedra no pátio – tudoigualmente formal e enfadonho,como fora outrora, no meu tempo.Detive-me um pouco aos portões,queria evocar em mim a mágoa ea pena das recordações – mas nãoera capaz: sim, primeiro entravapor estes portões um aluno da pri-meira classe com o cabelo cortadoà escovinha num boné azul novi-nho com palmazinhas de prata napala e sobretudo novo com botõesde prata, depois um jovem magronum jaquetão cinzento e janotascalças de presilha; mas acasoserei eu?Hora TardiaHora Tardia– um conto do poeta russo Ivan A.– um conto do poeta russo Ivan A. BuninBuninPORIVAN A. BUNINTRADUÇÃO DO RUSSOPORANA LUÍSA GAMBOASÃO PETERSBURGO – RÚSSIA“E nós tínhamo-nos sentado, e ficado assim, numainconcebível felicidade. Eu enlaçava-te com umadas mãos, ouvindo o bater do teu coração, na outrasegurava a tua mão, sentindo através dela todo o teuser. E era já tão tarde que nem mesmo a matraca seouvia – deitou-se algures num banco e ficou a dor-mitar o velho de cachimbo na boca, aquecendo-se aoluar. Quando eu olhava para o lado direito, via quãoalta e inocente resplandecia a lua acima do pátio ebrilhava luzidio o telhado da casa, como um peixe.Quando olhava para o lado esquerdo, via a veredade relva seca que se sumia sob outras ervas ainda, e,para além delas, baixa, uma estrela verde, solitária,que espreitava de um outro jardim, e, indiferente eao mesmo tempo expectante, irradiava uma luz té-nue e dizia qualquer coisa, inaudivelmente. Porém,pátio e estrela eu via só de relance – só uma coisahavia no mundo: a suave penumbra e o cintilarradioso dos teus olhos.”
  • 7. CulturaCultura VIIDiário do Minho QUARTA-FEIRA, 5 de junho de 2013A rua Velha pareceu-me apenasum pouco mais estreita do queantigamente me parecera. Tudo omais não tinha mudado. A calça-da cheia de buracos, nem umaúnica arvorezinha, de ambos oslados as casas dos comerciantescobertas de poeira, os passeiostambém cheios de buracos, tais,que é melhor ir pelo meio darua, em pleno luar... E a noite eraquase tal como aquela. Só queaquela tinha sido no fim de Agos-to, quando toda a cidade cheiraàs maçãs que se amontoam nosmercados, e tão quente que eraum deleite andar só de kossovo-rotka4, cingida por um cintozinhodo Cáucaso... Lá, supostamenteno céu, será possível recordar estanoite?Não me decidi, no entanto, a iraté à vossa casa. Também ela,decerto, não mudara, e, por isso,tanto mais terrível vê-la. Nela viveagora gente nova, estranha. Teupai, tua mãe, teu irmão – todos tesobreviveram, jovem, mas, che-gada a sua hora, também morre-ram. E também a mim todos memorreram; e não só familiares,mas também muitos, muitos, comquem eu, em relações de amizadeou camaradagem, começara avida, há muito a tinham tambémeles começado, certos de que elanão teria fim, e tudo começara,passara e findara diante dos meusolhos, – tão célere e diante dosmeus olhos! E eu sentei-me nummarco de pedra perto de uma dascasas dos comerciantes, inexpug-nável por detrás das suas trancase portões, e pus-me a pensar emcomo ela era naquele nosso tem-po distante: os cabelos escurosarranjados de maneira simples,o olhar límpido, a pele do jovemrosto levemente crestada pelosol, o vestido leve de verão, e porbaixo dele a candura, o vigor e aliberdade do corpo jovem... Istofora o princípio do nosso amor,tempo de felicidade ainda não pornada ensombrada, de intimidade,confiança, de ternura enlevada,contentamento...Há qualquer coisa verdadei-ramente singular nas tépidase claras noites das cidades daprovíncia no fim do verão. Quepaz, que bem-estar! Vagueiapela alegre cidade nocturna umvelhote com uma matraca, masunicamente para seu bel-prazer:não há nada para guardar, dormisossegada, boa gente, zela porvós a benevolência Divina, estealto céu resplandecente queo velho despreocupadamenterelanceia, ao vaguear pela calçadaaquecida durante o dia, e só dequando em quando, por diverti-mento, fazendo soar o trino damatraca. E eis que numa noiteassim, àquela hora tardia, quandona cidade era só ele o único quenão dormia, tu esperaste por mimno vosso jardim já um poucoseco antecipando o Outono, e eu,furtivamente, me esgueirei nele:sem ruído empurrei a cancela deantemão aberta por ti, sem ruídoe sem demora atravessei o pátioa correr, e, por detrás do telheiro,ao fundo do pátio, penetrei napenumbra matizada do jardim,onde ao longe levemente alveja-va, no banco sob as macieiras, oteu vestido, e, ao aproximar-mecélere, com um sobressalto felizencontrei o brilho dos teus olhosà minha espera.E nós tínhamo-nos sentado, eficado assim, numa inconcebívelfelicidade. Eu enlaçava-te comuma das mãos, ouvindo o baterdo teu coração, na outra segu-rava a tua mão, sentindo atravésdela todo o teu ser. E era já tãotarde que nem mesmo a matracase ouvia – deitou-se algures numbanco e ficou a dormitar o velho decachimbo na boca, aquecendo-seao luar. Quando eu olhava para olado direito, via quão alta e ino-cente resplandecia a lua acima dopátio e brilhava luzidio o telhadoda casa, como um peixe. Quandoolhava para o lado esquerdo, via avereda de relva seca que se sumiasob outras ervas ainda, e, paraalém delas, baixa, uma estrelaverde, solitária, que espreitava deum outro jardim, e, indiferentee ao mesmo tempo expectante,irradiava uma luz ténue e diziaqualquer coisa, inaudivelmente.Porém, pátio e estrela eu via sóde relance – só uma coisa haviano mundo: a suave penumbra e ocintilar radioso dos teus olhos.E depois tu acompanhaste-me atéà cancela, e eu disse:– Se houver vida para além destae nós nela nos encontrarmos, eupôr-me-ei de joelhos e beijarei osteus pés por tudo o que me destena terra.Saí para o meio da rua clara edirigi-me para a minha hospe-daria. Ao virar-me, via que aindaalvejava na cancela.Agora, erguendo-me do mar-co, voltei para trás pelo mesmocaminho pelo qual tinha vindo.Não, eu tinha, para além da ruaVelha, ainda um outro propósitoque a mim próprio me era terrívelconfessar, mas cujo cumprimentosabia ser inevitável. E eu fui – umúltimo olhar antes de partir, destavez para sempre.A estrada era de novo familiar.Sempre a direito, depois à esquer-da, pelo mercado, e do merca-do – pela rua do Mosteiro – emdirecção à saída da cidade.O mercado é como que umacidade dentro da cidade. Fileirasde vendas muito odorosas. Naala dos Comes e Bebes, debaixodos toldos acima das mesas, reinaa penumbra. Na das Ferragensestá pendurado, numa correntelá em cima, a meio da passa-gem, o ícone do Salvador, deolhos grandes, numa guarniçãoenferrujada. Na da Farinha, pelamanhã, havia sempre um bandointeiro de pombos que corriam edebicavam pela calçada. Vais parao liceu – quantos! E todos gor-“Eu sabia para onde era preciso ir, fui sempre a direito pelaalameda – e, bem ao fundo, já a alguns passos do muro dastraseiras, detive-me: diante de mim, num lugar plano, no meiodas ervas secas, jazia, solitária, uma laje alongada e bemestreita, com a cabeça para o muro.”Ivan Alekseyevich Bunin (à esquerda) nasceu em 22 de Outubro de 1870, na Rússia, e mor-reu em 8 de Novembro de 1953 em Paris. Foi laureado com o Prémio Nobel da Literaturaem 1933. Está sepultado no cemitério russo de Sainte-Geneviève-des-Bois (mais conhecidopor “Cimetière de Leirs”, em Essonne, França. Este conto (“Hora Tardia”) está datado de 19 deoutubro de 1938.A autora da tradução deste conto – Ana Luísa Simões Gamboa (à direita) – é doutorada emQuímica pela Univ. de Lisboa e autora de várias publicações científicas. Atualmente, é profes-sora em S. Petersburgo, Rússia, e tem colaborado regularmente no caderno“Cultura” do Diáriodo Minho (o seu último trabalho aqui publicado – em 3 de Abril do corrente ano – incidiusobre a exposição “Sem Barreiras - Arte Russa 1985-2000: Que farei com esta liberdade?”).
  • 8. VIII Diário do MinhoQUARTA-FEIRA, 5 de junho de 2013CulturaCulturados, de papos irisados – debicame correm, com graça feminina,ziguezagueando aos poucochi-nhos, balançando-se, meneandouniformemente as cabecinhas,como se não reparassem em ti:levantam vôo, com um assobio deasas, só quando por pouco nãopisas um deles. E à noite, aqui,corriam apressadas grandes rata-zanas, abjectas e horríveis, rápidae alvoroçadamente.A rua do Mosteiro é, ao mesmotempo, clareira nos campos eestrada: para uns, da cidade paracasa, para a aldeia, para outros– para a cidade dos mortos. EmParis, durante dois dias e duasnoites, distingue-se dos demaiso prédio número tal na rua talpela falsa aparência de peste daentrada, a sua cortina drapeadafúnebre com prata, dois dias eduas noites na entrada jaz umafolha de papel tarjada de luto nacobertura fúnebre da mesinha –nela assinam, expressando as suascondolências, os visitantes cor-teses; depois, num derradeiro mo-mento, detem-se à entrada, enor-me, com um baldaquim fúnebre,uma carruagem de madeira negrade azeviche como um caixão dapeste, as abas arrendondadas dobaldaquim dão testemunho doscéus em grandes estrelas brancas,e os cantos do tecto são coroadosde penachos negros encaraco-lados nas pontas – plumas deavestruz do reino dos mortos;à carruagem estão atreladosmonstros alentados cobertos porxairéis negros como carvão, comchifres e com os anéis brancosdas órbitas; na boleia, infinita-mente alta, está sentado, à esperado féretro, um velho borrachão,também simbolicamente ataviadonuma grotesca farda fúnebre esemelhante chapéu de três bicos,intimamente, por certo, sempredando risadinhas ao escutar aspalavras solenes: “Requiem ae-ternam dona eis, Domine, et luxperpetua luceat eis”5. – Aqui tudoé diferente. Sopra dos campos abrisa pela rua do Mosteiro, e, emtoalhas6, levam-lhe ao encontro ocaixão aberto, balouça-se o rostobranco de arroz com a coroamulticolor na fronte7, acima dasproeminentes pálpebras fechadas.Assim a levaram também a ela.À saída, à esquerda da rodovia,fica o mosteiro do tempo do czarAlexei Mikhailovitch8, com portõesde fortaleza sempre fechados emuros de fortaleza, para lá dosquais brilham os bolbos doiradosda igreja. Mais adiante, inteira-mente no campo, fica um quadra-do muito amplo de outros muros,mas não muito altos: neles seencerra todo um pequeno bosque,dividido por longas alamedasque se intersectam, ao longo dasquais, sob velhos ulmeiros, tíliase bétulas, tudo está semeado devariegadas cruzes e lápides. Aquios portões estavam abertos depar em par, e eu vi a alamedaprincipal, recta e interminável.Eu, timidamente, tirei o chapéu eentrei. Quão tarde e quão mudo!A lua ficava já baixa para além dasárvores, mas tudo em volta, tantoquanto a vista podia alcançar,se via ainda claramente. Toda aextensão deste pequeno bosquede mortos, com as suas cruzes elápides, se recortava na sombratransparente. O vento cessou pelahora da alvorada – as manchasclaras e escuras, todas matizadassob as árvores, dormiam. Longedo bosquete, para além da igre-ja do cemitério, algo perpassousubitamente e, com uma veloci-dade louca, em novelos escurosrolou sobre mim – eu, fora demim, saltei bruscamente para olado, a cabeça toda logo gelou econtraiu-se, o coração disparou eemudeceu... O que foi isto? Pas-sou como um relâmpago e desa-pareceu. Mas o coração no peitopermaneceu parado. E assim, comum coração que não bate, carre-gando-o em mim como um cáli-ce pesado, continuei para diante.Eu sabia para onde era preciso ir,fui sempre a direito pela alameda –e, bem ao fundo, já a alguns passosdo muro das traseiras, detive-me:diante de mim, num lugar plano,no meio das ervas secas, jazia,solitária, uma laje alongada e bemestreita, com a cabeça para o muro.E, do outro lado do muro, comouma deslumbrante pedra preciosa,espreitava uma estrela verde, baixa,radiosa, como aquela, de outrora,mas muda, e imóvel. ◗Notas da tradutora:1Antiga medida russa (1 verstá é iguala cerca de 1,06 km)2Bati Khan (ou Batu Khan) (1208-1255),neto de Genghis Khan, fundou a Hordade Ouro (1236-1502), que dominou aAntiga Rússia cerca de 250 anos.3Tecido vermelho de algodão.4Camisa russa com gola abotoadaao lado.5“Dai-lhes eterno descanso, Senhor, eque a luz eterna os ilumine.”6Antigamente, o féretro era colocadosobre três faixas de tecido – toalhas –e levado até ao cemitério em ombrospor seis homens, cada um segurandouma das extremidades das toalhas.7De acordo com a tradição da IgrejaOrtodoxa, na testa do morto é colo-cada uma coroa (uma faixa de papelou tecido) onde estão representadosícones e o texto de um cântico.8Alexei Mikhailovitch (1629-1676), czarda Rússia (1645-1676), segundo Czarda dinastia dos Romanov e pai dePedro I, o Grande.S. Petersburgo, Abril de 2013Ko-haru 2O amor tem destas coisas:por vezes acaba. A alma deKo-haru dissolve-se por en-tre as emanações de fumoperfumado do crematório deKasugano.Pobre Ko-haru! Caída na florda juventude, tísica do pul-mão esquerdo. Doce Ko-haru!quantas e quantas vezes estevelho de bengala velou con-tigo as noites sombrias dohospital branco.– Mestre, não se apoquente,deixe-me só – pedias-me,fintando a tosse que rompiaos teus lábios finos. Mas comopodia deixar-te eu?… agoraque os ardores do corpo já nãome acompanham, restam-meos ímpetos da alma, e essaainda está bem viva e lateja porti, leve borboleta.Agora que és Mariposa diáfanade ar puro, recordo a candura detua mão enquanto a segurava namaca que te levaria para o hospíciodos ocidentais. Recordava o teu rir,os teus dentinhos alvos, o teu tiquede poetisa aluada, minha pobrerapariga de rua. Sempre desconfieique sabias. Afinal, meus olhos develho que te admiravam no sepul-cro adiado eram de amante e nãode amigo. Amante já sem o vigordo corpo, mas creio que não teimportavas. Afinal estavas sozinha,rodeada de vómitos de dispépti-cos, tosse e escarro de tísicos, e,no meio da loucura, estava eu, oestranho velho ocidental barbudoque te acarinhava, que te elevavapor entre os nenúfares dos jardinsdas cerejeiras.– Vive, meu amor… – dizia paramim próprio e minha mente va-gueava pelos opiários das geishasda minha destravada juventude namarinha.Comopossuir-teàsportasdamorte?Serápecadopensarnaluxúriajásemcarne?Doce Ko-haru, enquanto teu corpose desfaz impotente, eu tento erigirum altar lascivo sem um físico queme acompanhe.Amo-te…intensamente…semmedidanem tempo… imerso nos templosbudistas da eternidade solitária.Seráloucuraumkeô-jin3amarassim,sofregamente, uma moribunda?Amarrei-me ainda à esperança de tever erguer, deixando cair o lençol delinho do hospício, parecias vendersaúde e acorrentei-me à ideia deque recuperarias, de que a malditatuberculose cederia caminho à tuavontade, à tua alegria, à tua formo-sura,lindaKo-haru!mas,paragrandetristeza minha, afinal o que sempretemera acabara de acontecer… ◗1Cidade no Japão onde Wenceslau deMoraes passou a velhice2Pequena primavera3Selvagem barbudoMário EscotoTokushima, 1919Tokushima, 19191Fixando o meu olhar no teuEu dou-me conta, bom Jesus,Que amor assim não pode haverQuando me olhas cravado nessa cruz.Que vês em mim,Humilde criatura pecadora?Nesse Teu olhar só há amor!Pois sei que Tu me amas… E mesmo assimNão Te esqueceste de mim na tua dor!Quero dizer-Te, nesta hora,Que sinto o Teu amor até ao fim.E sendo o que sou, tão pequenina,Decidiste pousar o Teu olhar em mim...Ó olhar bondoso e penetranteQue deixas meu olhar enternecido:Não o desvies de mim um só instante,Deixa ficar o Teu olhar comigo!Ajuda-me a levar a minha cruzFixando sempre em mim o Teu olhar,E, quando eu não puder, ó bom Jesus,Ajuda-me a minha cruz a carregar!Quando ao Céu subires Glorioso,Guardarei o Teu olhar no coração:Cantar-Te-ei, ó meu Jesus bondoso,O Aleluia da Ressurreição!Emília Fechas (Inédito. Quaresma de 2013)Contemplação

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