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Lea velho com ciência   mulheres na ciência Lea velho com ciência mulheres na ciência Document Transcript

  • Editorial No que o mundo da ciência difere dos outros mundos? A Bela e a Fera Carlos Vogt Léa Velho e Maria Vivianna Prochazka Mulheres entram em pauta A pequena proporção de mulheres em posições de poder e destaque Mariluce Moura na maioria dos ramos de atividade tem sido freqüentemente associada ao menor nível de escolaridade das mulheres. Como corolário, seria deReportagens se esperar que, uma vez que as mulheres tivessem acesso à educaçãoNas humanas, elas são de maneira similar aos homens, elas passariam a partilhar com eles,maioria. Mas chegar ao proporcionalmente, tais posições de poder e destaque, inclusive topo ainda é difícil aquelas do mundo da ciência. Este artigo apresenta evidências de que Físicas enfrentam acesso à educação é condição necessária, mas não suficiente, para a preconceito em área almejada paridade entre gêneros em termos de inserção e progresso predominantemente masculina profissional, rendimentos financeiros e, principalmente, de poder. O argumento é construído com base em alguns dados para a América Pesquisas revelam a Latina e Caribe, com destaque para aqueles relativos às atividades generalização dainformalidade entre as científicas. mulheres ocupadas Delegacias da mulher Nos últimos 20 anos, as disparidades entre gêneros em termos de extrapolam funções acesso à educação diminuíram sensivelmente na maioria dos países da legais América Latina e Caribe. Na verdade, em alguns destes países, as Fisiologia feminina mulheres têm conseguido melhores resultados que os homens neste ainda é atravessada aspecto. Na educação primária, as taxas de matrícula são similares por enigmas para meninos e meninas, exceto em alguns países que têm umaMulher pode ter reação população indígena bastante significativa, como a Bolívia, o Equador e diferente a a Guatemala. Em outros países como Venezuela, Honduras, Nicarágua medicamentos e República Dominicana e também nas pequenas ilhas de TrinidadeArtigos Tobago e Barbados, a taxa de matrícula de mulheres é maior que a de homens na escola primária. No que o mundo da ciência difere dos outros mundos? Essa vantagem das mulheres aparece com maior força e num número Léa Velho e MariaVivianna Prochazka maior de países na educação secundária: apenas na Bolívia a taxa de meninas é inferior a de meninos na escola secundária (85%), embora,As mulheres na ciência de modo geral, a taxa de matrícula nesse nível seja sensivelmenteregional: diagnóstico e estratégias para a mais baixa para os dois gêneros que na educação primária. Isso igualdade María Elina significa que, embora a evasão do primeiro para o segundo nível Estébanez escolar seja grande na América Latina, esse fato não afeta mais as meninas que os meninos. Pelo contrário, em média, as meninas As desigualdades degênero e o novo Código continuam a sua educação por mais anos que os meninos, na medida Civil em que os últimos tendem a abandonar a escola mais freqüentemente Fabiane Simioni que as meninas, pelas mais diversas razões, entre as quais, para
  • Estudos da ciência na trabalhar. (ver tabelas) ótica feminista Claudia Fonseca Entre os matriculados na educação superior a participação dos gêneros Gênero e ciências no é, no conjunto, equilibrada na região, talvez até mesmo mais favorável país: exceções à regra? para as mulheres em países como Argentina, Uruguai e Brasil. Embora Maria Margaret em algumas disciplinas técnicas e científicas, como ciências agrárias, Lopes engenharias e física, exista uma prevalência dos homens, as mulheresO gênero na ciência: os são maioria em química e biologia e, em alguns países, como Cuba,interesses da medicina Costa Rica e Peru, até mesmo na medicina. Já nas ciências sociais, a na mulher Fabíola Rohden proporção de mulheres é de cerca de 50% e nas ciências humanas, é superior a 60%. As mulheres e a filosofia como ciência do esquecimento Concomitantemente ao aumento da educação formal das mulheres na Marcia Tiburi região, deu-se o incremento da participação delas na força deHistória das mulheres e trabalho, atingindo 45% da população economicamente ativa em 2000 relações de gênero: (fatos que, não necessariamente, refletem relação de causa e efeito). debatendo algumas questões Entretanto, maiores níveis de escolaridade não garantiram Rachel Soihet oportunidades equivalentes de emprego para mulheres em relação aos homens. Pelo contrário: a disparidade de renda entre os sexos parece O futuro da físicadepende das mulheres aumentar com os anos de estudo. As mulheres nos países latino- Marcia Barbosa americanos precisam, em média, dois anos mais de escolaridade do que os homens para ter as mesmas oportunidades de emprego formalPoema e quatro anos mais de escolaridade que eles para receber o mesmo Parábola de Mulher salário. A disparidade em termos de renda permanece um dos mais Carlos Vogt importantes indicadores de desigualdade de gênero na América Latina, particularmente revelador quando se considera que quase todos esses países são signatários das convenções da Organização Internacional do Créditos Trabalho (OIT) que reconhecem o princípio de salários iguais para trabalhos similares. (ver documento). É de se esperar que essa situação discriminatória contra a mulher trabalhadora não se repita no mundo da ciência que se orienta por critérios universalistas e meritocráticos. Nele, acredita-se, o que conta é a qualidade do trabalho realizado e não as características pessoais de quem o realizou, sejam elas relativas a gênero, raça, religião ou outras. Vamos examinar brevemente o que se passa em alguns países da região para os quais se dispõe de informação, com destaque para o Brasil. A proporção entre gêneros é mais ou menos equilibrada entre estudantes no nível de Mestrado: as mulheres já representavam 50% deste contingente no Brasil e 41% no México em meados dos anos 90. No mesmo período os cursos de doutorado brasileiros tinham 46% de estudantes mulheres e, na Argentina, entre os que obtiveram título de doutor na Universidade de Buenos Aires, nos anos de 1996 a 1999, 55% eram mulheres. Entretanto, quando se considera acesso a bolsas de pós-graduação, a situação é, em muitos casos, menos favorável às mulheres. As pós-graduandas brasileiras que estudavam no país em meados da década passada, no conjunto, não se diferenciavam de seus colegas homens quanto a bolsas. Apenas nas ciências exatas e engenharias os homens doutorandos tinham, proporcionalmente,
  • maior cobertura de bolsas que as mulheres - 55% das mulheres e65% dos homens eram bolsistas nas exatas, e 41% das mulheres e57% dos homens nas engenharias. Entretanto entre os brasileiros quereceberam bolsa Fulbright para pós- graduação no exterior na décadade 90, apenas 32% eram mulheres. No México, de cada 10 bolsas depós-graduação, apenas 3 são concedidas a mulheres. No Uruguai asmulheres receberam cerca de 35% das bolsas de doutorado e noEquador apenas 27%. Na Nicarágua, para cada 3 homens bolsistas dedoutorado da agência sueca SAREC, encontra-se apenas 1 mulher(fontes para os dados sobre Brasil e Nicarágua podem ser conseguidascom a autora; para o México, Equador e Argentina,ver www.segecyt.org.uy; para Uruguai,www.conicyt.gub.uy).Graças ao crescimento da participação das mulheres na educaçãosuperior e na pós-graduação, hoje elas representam entre 35 e 50%do total de pesquisadores dos países latino-americanos. Taisproporções encontram-se bem acima daquela exibida pelas mulheresnos países da União Européia onde, em média, mais de 2/3 dospesquisadores em institutos públicos de pesquisa e ¾ daqueles nasinstituições de ensino superior são homens; ou nos Estados Unidos,onde em cada 5 pesquisadores se encontra apenas 1 mulher. (vejadados detalhados para a América Latina, União Européia, no Theme 9 -7/2001, e para os Estados Unidos).Os dados acima parecem indicar que o acesso à formação científica eao trabalho em instituições de pesquisa não parece ser diferente parahomens e mulheres na região e tende a se igualar. Entretanto, umavez dentro do sistema, em termos de progresso na carreira científica eposição hierárquica, as mulheres na América Latina têm que enfrentaras mesmas dificuldades e barreiras que suas colegas pesquisadorasnos demais países do mundo. Hierarquia implica poder de decisão, queé importante para a seleção de tópicos de pesquisa e alocação derecursos, e é exatamente neste aspecto que a posição das mulheresdeteriora sensivelmente. A única exceção parece ser Cuba, onde asmulheres são 58% dos pesquisadores e cerca de 50% dos diretores depesquisa nas universidades.Na Argentina, de todas as pesquisadoras registradas no ConsejoNacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), 72% seconcentram nos níveis mais baixos, comparados com 51% dospesquisadores do sexo masculino. Somente 0.4% das mulheresalcançam o nível mais alto da carreira, comparado com 4.5% doshomens que o fazem, o que significa uma proporção de 10 homenspara 1 mulher no topo.O mesmo ocorre no Uruguai onde os homens ocupam 80% dasposições de direção no Consejo Nacional de Ciência yTecnologia(Conacyt). Lá também se identificou uma relação negativaentre o valor do projeto e ter o mesmo uma mulher comopesquisadora principal: 33% dos projetos com valores abaixo deUS$30 mil são coordenados por mulheres, mas apenas 19% daqueles
  • com valor acima de US$150 mil. No Equador, as mulheres conduziram13% dos projetos de pesquisa nas universidades e 9% daquelesfinanciados pela Fundación para la Ciência y la Tecnologia (Fundacyt)entre 1994 e 1996.No Brasil, existe equilíbrio de gênero apenas nos estágios iniciais dacarreira científica (entre os pesquisadores com menos de 30 anos, oslíderes distribuem-se eqüitativamente entre homens e mulheres); daíem diante a situação deteriora para cerca de 40% nas demais faixasetárias. Dos pesquisadores líderes com mais de 65 anos, 33% apenassão mulheres. A diferença entre a menor e a maior faixa etária indicauma tendência a crescimento da liderança científica das mulheres,que, mesmo não sendo equivalente à dos homens, encontra-se emsignificativos 40%. Isso deveria se refletir, por exemplo, nacomposição dos comitês de julgamento de projetos de pesquisa, maspelo menos no caso do CNPq, o quadro é bastante diferente doesperado. Entre os 75 membros dos comitês assessores dasengenharias, ciências exatas e da terra, encontram-se apenas 3mulheres (menos de 4%). Nas áreas de ciências da vida, as decisõessão tomadas por 60 homens e 19 mulheres (24%) e existem comitêsespecíficos (agronomia e genética, por exemplo) conformadosinteiramente por homens. Apenas nas áreas de ciências humanas esociais existe uma participação equivalente entre homens e mulheresna composição dos comitês assessores.Inúmeros outros casos podem ser citados no Brasil, assim como nosdemais países da região, sobre a pequena participação das mulherespesquisadoras em postos de direção e de poder de decisão no sistemade C&T. Mesmo que os dados não estejam à mão, basta olhar quemocupa as pró-reitorias e diretorias nas universidades, a composiçãodos conselhos superiores das mais variadas agências definanciamento, os comitês assessores, a filiação honorífica àsacademias, e rapidamente se revela a preponderância masculina. Oque é ainda bastante desconhecido nas nossas condições, é se, e emque medida, essa exclusão das mulheres é provocada por práticasdiscriminatórias (ainda que involuntárias e inconscientes) e que efeitostal exclusão tem na atual e futura participação da mulher no sistemade C&T, assim como na natureza do conhecimento que se produz.Estudos recentes revelaram a existência de práticas discriminatóriasem instituições de alta reputação e em países-modelos de democracia.No prestigioso Massachusetts Institute of Technology(MIT) encontrou-se clara evidência de diferenças institucionais em termos de salário,espaço, financiamento e resposta a ofertas externas, com as mulheresconsistentemente recebendo menos que os homens apesar de terem amesma qualificação e desempenho profissional que eles. Resultadossemelhantes foram encontrados nos centros internacionais de pesquisaagrícola do sistema Consultative Group on International AgriculturalResearch (CGIAR) (ver relatório)Mas o estudo que mais provocou impacto e acabou publicado
  • naNature foi sobre o Conselho de Pesquisa Médica da Suécia que foiconsiderado como a primeira prova cabal de discriminação contras asmulheres no sistema de julgamento de propostas de pesquisa. Osresultados indicam que as mulheres tinham que ser 2.5 (duas e meia)vezes mais produtivas que os homens com quem competiam, para queconseguissem receber financiamento. Na Europa esse estudo éconsiderado um marco de que não é mais possível assumir que amenor presença das mulheres nos postos mais altos da ciência deve-se às próprias mulheres que não produzem tanto quanto os homens,que decidem criar filhos ou acompanhar os maridos e por issointerrompem suas carreiras ou caminham mais lentamente.Reconhece-se, a partir deste estudo, que as disparidades entrehomens e mulheres na ciência devem-se às próprias instituiçõescientíficas e à maneira como elas operam. A partir dessereconhecimento, pode-se desenhar políticas e criar mecanismos paraevitar descriminação.Não existem estudos semelhantes para os países da América Latina.Uma indicação de que algo nesta linha pode ocorrer foi obtida em umapesquisa sobre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) querevelou que as pesquisadoras do Instituto de Física e do de Químicaeram tão produtivas quanto seus colegas homens (inclusive emperiódicos indexados pelo Índice de Citação Científica - SCI), masavançavam muito mais lentamente na carreira do que eles. Mas esteestudo está longe de ser representativo. Muito mais tem que ser feito,a começar pela iniciativa básica que é desagregar as estatísticas detodo o sistema de C&T de modo a permitir a análise comparativa entregêneros.Garantir uma participação eqüitativa entre homens e mulheres naciência não é importante apenas por uma questão de justiça, aindaque esse motivo por si já seja suficiente. Mas é também fundamentalporque a visão de mundo das mulheres é diferente da dos homens, oque faz com que elas façam perguntas científicas diferentes, tenhamopinião distinta quanto a prioridades e tragam perspectivas de análisediversas.Os novos sociólogos da ciência vêm argumentando há anos que não hánada no mundo científico que o diferencie das demais esferas daatividade humana. A ciência, como qualquer outra forma deconhecimento, é socialmente construída e incorpora os valores epráticas de seu contexto, incluindo aqueles que permeiam a relaçãoentre gêneros. Isso é o que o breve relato acima parece confirmar.Léa Velho é professora do Departamento de Política Científica eTecnológica, Unicamp e pesquisadora do Instituto para NovasTecnologias, Universidade das Nações Unidas. Maria ViviannaProchazka é consultora na área de economia para a América Latina.
  • Atualizado em 10/12/2003 http://www.comciencia.br contato@comciencia.br © 2003 SBPC/Labjor Brasil