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  • Interesante presentacion sobre odontologia costa rica, me fue de mucha utilidad ya que estoy iniciando mis estudios en esta area, si están interesados comparto con ustedes el sitio http://medicoscr.net/26-odontologia.html donde encontrarán un directorio de especialistas en odontologia, saludos y espero ver más aportes.
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    Landes cap5 Landes cap5 Presentation Transcript

    • CAPÍTULO 5 FALTA DE AR E RECUPERAÇÃO DO FÔLEGOOs anos decorridos entre 1873 e 1896 pareceram a muitos contemporâneos umassombroso desvio da experiência histórica. Os preços caíram de maneira desigual eesporádica, mas inexorável, através de crises e explosões de crescimento - uma médiade aproximadamente 1/3 em todos os produtos. Foi a mais drástica deflação namemória do homem. A taxa de juros também caiu, a ponto de os teóricos da economiacomeçarem a invocar a possibilidade de que o capital se tornasse tão abundante aponto de passar a ser uma mercadoria gratuita. E os lucros encolheram, enquanto o queentão se reconhecia como depressões periódicas parecia arrastar-se interminavelmente.O sistema econômico parecia estar desmoronando. Então, a roda girou. Nos últimos anos do século, os preços começaram a subir,levando consigo os juros. Com a melhora dos negócios, a confiança voltou - não aconfiança irregular e evanescente dos breves surtos de crescimento que haviam pontuadoo desalento das décadas precedentes, mas uma euforia geral de um tipo que não haviaprevalecido desde os Gründerjahre do inicio da década de 1 8 70 . Tudo pareciacorrer bem outra vez - apesar do matraquear das armas e das admonitórias referênciasmarxistas ao "último estágio" do capitalismo. Em toda a Europa ocidental, esses anosperduram na memória como os bons tempos - a era edwardiana, Ia belle époque. Sua lembrança é abrilhantada pelo contraste com os anos de morte e desencantoque se seguiram. Em todos os campos, a guerra parece constituir o grande divisor:entre o otimismo e o pessimismo, a democracia par- 239
    • lamentar e o fascismo, o progresso e o declínio. A maciça mobilização de preços como um sintoma. Schumpeter talvez seja o mais famoso desse grupo, com seupessoas e recursos para o conflito, bem como sua destruição nele, pareceram tirar tudo modelo de uma máquina econômica movida a surtos de inovação. Também nesse campodos eixos, para nunca mais se aprumar. Na vida econômica a guerra assistiu à encontra-se Rostow, com uma análise mais matizada, baseada nos deslocamentos dointrodução de controles e restrições "temporários" - do comércio, dos preços, dos investimento entre aplicações com diferentes velocidades de gestação: quanto maisinvestimentos, da movimentação do capital e da pessoas - que, desde então, persistiram longo o intervalo entre o desembolso e o retorno (infinito, no caso dos gastos comsob uma ou outra forma. A economia internacional que se auto-ajustava serenamente armamentos), maior o efeito inflacionário imediato.cedeu lugar a um mecanismo atabalhoado e ineficiente, só mantido emoperação através de ajustes e consertos reiterados. Entre essas duas posições situa-se um homem como Kondratiev, que afirma que o Todavia, um exame mais criterioso deixa claro que a guerra foi apenas um movimento ascendente do ciclo longo está associado a aumentos tanto do investimento (devidocatalisador, um precipitador de mudanças que já estavam em andamento. Os sinais de a novas invenções, recursos naturais e mercados) quanto da oferta de capital. Kondratievum afastamento do otimismo e da liberdade evidenciam-se bem antes de 1 9 0 0 , tanto não encara esses elementos concomitantes da flutuação como causas, mas como produtosna literatura e na filosofia quanto na política e na economia. Isso não equivale a negar o da conjuntura, e fala enigmaticamente de "causas que são inerentes à essência da economiaimenso impacto da guerra, mas simplesmente a situá-lo em seu contexto. O sistema já capitalista". Não obstante, à parte as questões de ideologia, está claro que elas ocupamestava passando por uma dolorosa transformação, a qual, por sua vez, foi mais causa em seu esquema o mesmo lugar explicativo que têm, mutatis mutandis, nos dos outrosdo que consequência da rivalidade e do conflito internacionais. Neste ponto, en- autores que escrevem sobre o assunto.2tretanto, estamos tocando num assunto complicado e polêmico, e mais vale adiar sua Num aspecto, porém - a periodização das tendências longas -, todos estão de acordo.discussão por enquanto. Começando pelo fim do século XVIII, eles pontuariam a história econômica da era industrial mais ou menos assim: 1790-1817, inflação; 1817-50, deflação; 1 8 5 0 - 7 3 , Superficialmente, as tendências cíclicas da economia européia nesse periodo inflação; 1 8 7 3 - 9 6 , deflação; 1 8 9 6 - 19 14, inflação. (As datas exatas variam de umaafiguraram-se, para a maioria dos analistas, uma repetição das alternâncias anteriores análise para outra, mas o esquema e os pontos de demarcação aproximados continuamde contração e expansão a longo prazo. Os teóricos monetários apontaram uma os mesmos.) Além disso, a maioria concordaria quanto ao caráter cíclico dessasdiminuição da oferta de capital em relação a demanda entre 1873 e 1896, seguida flutuações. Sem dúvida, é presumível que um marxista como Kondratiev fizesse umapor um aumento acentuado do estoque de reservas, em decorrência das descobertas ressalva a isso (embora ele não a faça explicitamente), restringindo esse padrão àsde ouro na África do Sul e no Klondike.* Essa tese talvez tenha recebido sua mais economias capitalistas e sujeitando sua repetitividade à influência de mudançasplena elaboração analítica na obra de Simiand, que generalizou a experiência do século subjacentes, e de alcance ainda mais longo, no sistema total. Similarmente, o recenteXIX e construiu um modelo de tendências inflacionárias e deflacionárias longas e trabalho de Rostow sobre os estágios da industrialização parece implicar aalternadas, as primeiras caracterizadas pelo rápido crescimento quantitativo, apoiado possibilidade de que o ritmo e o caráter dessas ondas se alterem com o amadurecimentonuma base tecnológica relativamente estável (análogo ao que hoje chamamos expansão da economia. Não obstante, essas ressalvas não afetam a periodicidade aceita dodo capital), e as últimas, pelo aperfeiçoamento qualitativo (aprofundamento do capital) século XIX.e pela eliminação forçada das empresas ineficientes.1 Esse quadro me parece inexato e, em minha opinião, leva a um entendimento Opondo-se em geral a essa interpretação, há os economistas e historiadores que equivocado da relação entre o processo subjacente de industrialização e os outrosencaram o investimento como o determinante primordial e os aspectos da transformação econômica. A principal fonte de dificuldade é a ilusão de ótica produzida pelo contraste entre a explosão de crescimento da década de 1850 e a depressão da de 1870; ambas se destacam do restante e parecem introduzir uma nova * O rio canadense cujo nome passou a designar a região que foi palco de uma era, marcando um período de alta inflacionária de 1850 a 1873. Na verdade, a das mais célebres corridas do ouro, no fim do século XIX. (N. da T.) seqüência dos preços não mostra esse tipo de tendência longa. A longa deflação iniciada 240 241
    • após as guerras napoleônicas foi momentaneamente revertida pela entrada de metais nesse aspecto, as diferenças em termos de recursos materiais e instituições e as preciosos em barra e pela explosão de crédito da década de 1850. Mas a inflação não defasagens quanto ao momento do desenvolvimento foram determinantes. O durou mais do que a alta do ciclo curto. Os preços caíram em 1857 e, embora tivessem resultado foi uma variação substancial de um país para outro. altos e baixos na década e meia seguinte, a tendência foi ligeiramente descendente (no A economia a cuja carreira o curso dos preços mais se adequa é a da Grã- máximo, estável em alguns casos), com a instalação de um declínio acentuado a partir Bretanha. Isso não chega a surpreender. Primeira nação a se industrializar, ela de 18 73.3 continuou, pelo século XX adentro, a liderar o mercado internacional. Mesmo depois Em suma, o século XIX foi marcado por uma deflação prolongada e aguda, que se de ter perdido sua supremacia, na década de 1890, para os Estados Unidos e a estendeu desde 1817 até 1896, tendo apenas uma breve interrupção de uns seis ou Alemanha, em setores críticos como o ferro e o carvão, sua posição de mediadora do sete anos. Na longa história da moeda e dos preços desde a Idade Média até o presente, comércio e das finanças mundiais sustentou sua influência predominante nos preços não há nada que lhe seja semelhante - com a possível exceção de alguns declínios mais das mercadorias. brandos nas décadas que se seguiram à Peste Negra e no século XVII. Além disso, Não é minha intenção empreender, neste ponto, um exame detalhado da diversamente desses períodos anteriores, quando a queda dos preços vinculou-se a experiência britânica. Podemos simplesmente observar que os cálculos de que catástrofes, despovoamentos e depressão muito disseminada, o século XIX foi um pe- dispomos sobre suas taxas de crescimento industrial e seu aumento de produtividade - e ríodo de paz, de aumento sem precedentes da população e de rápida expansão eles são confirmados pela principal série temporal da indústria - mostram uma nítida econômica. No mais, com ou sem a conivência de reis e governos, o longo prazo é queda depois das décadas sumamente prósperas de meados do século. Eles só sempre feito de depreciação e inflação. voltaram a subir depois de 1900. De 1870 em diante, com exceção de um ramo A explicação da aberração do século XIX parece residir, precisamente, nos como a siderurgia, que foi transformada por uma série de avanços técnicosaumentos de produtividade que estimularam e possibilitaram esse crescimento fundamentais, a indústria inglesa esgotou o impulso trazido pelo grupo original deeconômico. Ao longo do século, os custos reais caíram sistematicamente, a princípio inovações que havia constituído a Revolução Industrial. Mas, esgotados esses grandessobretudo na indústria e, mais tarde após uma revolução dos transportes que abriu incrementos, as indústrias estabelecidas não ficaram paradas. A mudança estavavastos novos territórios ao cultivo comercial , também na produção de alimentos. (É a embutida no sistema e a inovação foi, no mínimo, mais freqüente do que nunca. Comsafra de avanços nesses dois setores que responde pela queda particularmente a alta do custo dos equipamentos e a queda da vantagem física sobre as técnicasacentuada dos anos de 1873-96.) Sem dúvida, haviam ocorrido aperfeiçoamentos existentes, no entanto, diminuiu o produto marginal dos aperfeiçoamentos.tecnológicos e economias de custo em épocas anteriores. Por que, então, essa deflação Essa desaceleração só foi revertida por volta da passagem do século, quando umasingularmente persistente? A resposta reside, é claro, na singularidade das inovações série de grandes avanços abriu novas áreas de investimento. Esses anos assistiram aque constituíram a Revolução Industrial; nunca houve, antes dela, um feixe de novidades vigorosa infância, senão ao nascimento, da energia e dos motores elétricos; da químicade aplicação tão generalizada e de implicações tão radicais. orgânica e dos sintéticos; do motor de combustão interna e dos dispositivos Portanto, a queda dos preços do século XIX foi uma conseqüência e um barômetro da automotores; da indústria de precisão e da produção em linhas de montagem um feixe deindustrialização européia. Desnecessário dizer que isso não implica que, por ter sido inovações que mereceu o nome de Segunda Revolução Industrial. Como essas inovaçõesmais ou menos idêntico o rumo das alterações de preços em todos os países da Europa, traziam em si a possibilidade de diminuir custos, seria concebível que sua vigorosao curso da industrialização também tenha sido o mesmo. Dadas as comunicações exploração gerasse um declino adicional dos preços - embora, dadas as condições dacomerciais e monetárias então vigentes, a sincronização das tendências dos preços era tecnologia, seu impacto relativo estivesse fadado a ser menor que o dos avanços pioneirosinevitável. Isso é da natureza do mercado. Mas os padrões e as taxas de crescimento são do século XVIII. No caso, porém, a Inglaterra não tirou pleno proveito dasoutra história. Embora a mesma comunicação internacional que deu origem à deflação oportunidades oferecidas, e o incentivo inicial fornecido aos preços pelos fluxos degeral também conduzisse a movimentos solidários na tecnologia, lingotes de ouro vindos da África do Sul (Witwatersrand, 1887), do oeste da Austrália (1887) e do 242 243
    • Klondike (1896) foi substituído e reforçado por um padrão de investimentos que gerou de minério de ferro na Lorena. Antes dessa revitalização e mesmo depois, já que aretornos lentos em bens e serviços de consumo. E então, é claro, veio a Primeira opinião é sempre variável nessas questões -, a sonolência da economia francesa evocouGuerra Mundial, trazendo consigo pressões inflacionárias que tornam impossível reiteradas advertências das Cassandras horrorizadas com a crescente defasagem entreuma comparação com o período anterior. as economias francesa e alemã. A "capacidade de crescimento" não é, em absoluto, uma Mesmo assim, esse conjunto de inovações marcou o início de uma nova subida, um invenção do debate político norte-americano contemporâneo.segundo ciclo de crescimento industrial que ainda está em andamento e cujas Ao lado das economias avançadas, certo número do que hoje chamaríamos de naçõespossibilidades tecnológicas ainda estão longe de ter-se esgotado. É nesse contexto que se "subdesenvolvidas" embarcou, durante esses anos de transição tecnológica, em suaspode compreender o debate sobre o momento do "época crítica" da Grã-Bretanha. próprias revoluções industriais. Algumas delas, como a Suécia e a Dinamarca, realizaramMudança de vida, houve. A questão é: terá ela ocorrido na década de 1870 ou na de a mudança suavemente e alcançaram rápidos aumentos da produtividade e da renda real1890? 4 A resposta, obviamente, depende do ponto de vista. O fim da grande per capita. Outras, como a Itália, a Hungria e a Rússia, assimilaram apenas parte daprosperidade após 1873 e o persistente mal-estar das décadas seguintes apontam, de fato, tecnologia moderna, e esses avanços, conquistados em pontos precisos da economia,para o ocaso da Revolução Industrial, ao passo que a articulação da década de 1890 marca demoraram a desarticular o tenaz atraso da maioria dos ramos da atividade econômica.o início de uma nova aceleração. Nesses países, além disso, a indústria respondia por uma fração tão pequena da riqueza A Alemanha proporciona um contraste impressionante. Apesar de sua capacidade, a e da renda nacional, que até os rápidos aperfeiçoamentos desse setor fizerameconomia desse país estava muito atrás da inglesa, em 1870, em termos da assimilação e relativamente pouco, a princípio, pela produção global ou pelo padrão de vida. Nãodisseminação da tecnologia da Revolução Industrial. Amplos setores da indústria ainda obstante, seu crescimento industrial foi, em geral, mais rápido nesse período que o dosestavam por ser mecanizados; a fabricação domiciliar continuava a predominar em países mais avançados, ate mesmo a Alemanha. Em parte, isso reflete uma faláciamuitos ramos; a rede ferroviária estava longe de ter sido concluída; e a escala de estatística: sua produção era tão reduzida, nesses estágios iniciais, que ate as melhoriasprodução costumava ser pequena. Assim, uma vez deixado para trás o revés de meados modestas afiguravam-se proporcionalmente grandes. Porém, reflete ainda mais ada década de 1870, a Alemanha retomou sua alta taxa de crescimento. E ainda não havia precariedade da base tecnológica desses países e o grande potencial de suas própriasesgotado esse impulso quando as novas oportunidades do fim do século deram outro revoluções industriais: o hiato entre o que eles tinham e o que poderiam fazer era muitoempurrão em sua economia. Como resultado, tem-se a impressão de uma ascensão maior do que tinha sido para os primeiros a se industrializar.5ininterrupta. Também para a Alemanha, entretanto, a década de 1890 foi um divisorde águas. O esgotamento das possibilidades tecnológicas da Revolução Industrial coincidiu A França apresenta mais um padrão diferente. Ao lado da Bélgica, ela fora a com alterações na estrutura e no tamanho do mercado que agravaram o efeitoprimeira do Continente a seguir o exemplo britânico. Mas sua taxa global de depressivo da diminuição do investimento autônomo. Nem todas essas alteraçõescrescimento industrial tinha-se tornado mais lenta, em virtude de suas décadas funcionaram na mesma direção, mas, no cômputo geral, elas contribuíram para umaprovisórias de preparação e experimentação e do desenvolvimento, dentro de seu corpo impossibilidade de a demanda se manter à altura da capacidade crescente da indústria.social, de anticorpos psicológicos e institucionais contra o vírus da modernização. "A Clientes havia, para quem soubesse encontrá-los e conquistá-los, mas era precisoFrança", escreveu Clapham, "nunca passou por uma revolução industrial." Passou, sim, procurar por eles em novos locais e cortejá-los de novas maneiras. E essa tarefamas ela foi amortecida. Os contornos do impulso que acompanhou a mudança para a não era tão simples quanto tinha sido para os industriais pioneiros da primeira metademecanização, a energia a vapor, o sistema fabril e o transporte ferroviário foram do século.suavizados, antes e depois. Após a expansão relativamente rápida do Segundo Império, A relação histórica entre a procura e a oferta no correr do século XIX não éa Terceira República foi um período de avanço outonal comedido, finalmente simples. Já assinalamos a pressão da demanda interna e externa, emacelerado pela ascensão de 1900-13, que se baseou, em parte, na nova tecnologia, e,em parte, no inicio da exploração de valiosos depósitos 244 245
    • rápido crescimento, sobre o sistema industrial da Inglaterra no século XVIII; essa pressão posta dinâmica: ali estava um comandante naval que se encarregou de zarpar com sua deu origem a pontos de estrangulamento e tensões, finalmente resolvidos por uma esquadra através do Atlântico, em tempos de guerra, a fim de roubar um pedaço do transformação dos meios e do modo de produção. Essa Revolução Industrial, por sua império espanhol para o comércio britânico. E, quando a Marinha de Sua Majestade vez, alterou radicalmente os termos do problema. De um lado, deslocou a ênfase do mostrou-se ofendida e instituiu um processo na corte marcial, Popham salvou-se consumo para o investimento: havia necessidade de capital para construir fábricas e arregimentando a comunidade mercantil britânica em sua defesa.8 realizar as potencialidades das novas técnicas. De outro, tornou os mercados Já no período de 1819-21, 2/3 dos fios de algodão produzidos na Inglaterra eram estrangeiros muito mais importantes, pois, mesmo que a taxa de poupança do país vendidos no exterior, quer diretamente, quer sob a forma de tecidos; 3/5 dos tecidos não fosse muito alta, o mercado interno seria incapaz de acompanhar o rápido aumento comercializados em jardas eram vendidos da mesma forma. Sessenta anos depois, em da produção de artigos manufaturados. 1880-2 , as proporções equivalentes foram de 84,9% e 81,6%. Os maiores aumentos De fato, a demanda interna global aumentou substancialmente em todos os países ocorreram no Oriente: em 1814, menos de um milhão de jardas de tecidos foram em- em processo de industrialização, mesmo durante o período de capitalização mais rápida. barcadas para portos a leste do Suez; em 1830, essa cifra havia aumentado para 57 Quanto aumentou, no entanto, é difícil dizer. Nesse ponto, deparamos com a questão da milhões de jardas; em 1815, para 4 1 5 milhões; e, em 1870, para 1,402 bilhão, ou cerca "miserabilização" das classes trabalhadoras, que tem despertado uma quantidade de 43% do total das exportações.9 extraordinária de debates, particulamente com respeito à experiência britânica.6 Sem dúvida, nenhum outro grande produto dependia tão maciçamente de mercados Terá o padrão de vida das classes mais pobres caído em decorrência da Revolução estrangeiros quanto o algodão. Mas quase todos os artigos manufaturados exibiam asIndustrial, digamos, durante os anos de 1780 a 1850? Seria pretensioso tentar resolver mesmas tendências: um aumento substancial do volume absoluto vendido no exterior eem poucas linhas uma questão tão complexa e emocional. As teses comumente da proporção dessas vendas na produção total. Não temos estimativas diretas daformuladas concernem ao consumo, não apenas de produtos manufaturados, mas proporção global das exportações ao longo do tempo, mas Schlote calculou a proporçãode todos os bens e serviços, e se fundamentam tanto ou mais em deduções teóricas, entre um índice das exportações de produtos acabados e um índice da produçãodogmas políticos e simpatias, quanto em dados empíricos - qualquer que seja o valor industrial (nos dois casos, 1913 = 100) que mostra uma subida de cerca de 45%, nadestes. Boa parte disso fica fora de nosso campo de interesse. O que realmente década de 1820, para quase 90% no começo da década de 1870.°nos interessa é, em primeiro lugar, que houve um aumento da demanda interna media e Essa extroversão sistemática da economia foi o principal motor da expansãoglobal de produtos manufaturados. O consumo de artigos de algodão, por exemplo, persistente, embora espasmódica, do imperialismo britânico durante todo o século. Ateelevou-se de cerca de 35.600.000 libras anuais em 1819-21 para 149.600.000 em recentemente, os estudiosos inclinavam-se a subestimar o alcance dessa expansão.1844-6 (os "famintos anos quarenta"!), dando um salto de quatro vezes num período Permitiam-se confundir os princípios e até a política incorporados no lema "Pequenaem que a população cresceu pouco menos de 1/3.7 E, se dispuséssemos de estatísticas Inglaterra" com o desempenho; e, ainda mais grave, desprezavam aquilo que, do pontocomparáveis sobre outros produtos- sobre o ferro sob a forma de bens de consumo, por de vista econômico, é a variedade mais importante e lucrativa da dominaçãoexemplo -, elas sem dúvida contariam a mesma história. imperialista - o controle sem formalidades." A verdade é que, durante esses anos, a Mesmo assim, a demanda interna não conseguiu manter-se à altura da oferta. Inglaterra não apenas anexou grandes áreas da índia, Oceania e África do Sul, comoDesde o começo, a Inglaterra teve que depender maciçamente de mercados também sua esfera de influência comercial ampliou-se enormemente, passando a abarcarultramarinos, e as interrupções das relações comerciais normais pela guerra e pelos a maior parte da América Latina, da costa da África e do sul e leste asiáticos.bloqueios, antes de 1815, e pelas tarifas protecionistas, depois disso, só fizeram com que No último terço do século, entretanto, a expansão comercial havia-seela saísse em busca de novos mercados em cantos distantes do globo. A picaresca alterado drasticamente. O monopólio cedera lugar à concorrência; a Inglaterra já não seexpedição de Popham a Buenos Aires, em 1806, é uma prova dramática das destacava sozinha como a oficina do mundo. Isso sempreansiedades comerciais e da res- 246 247
    • acontecera em relação a alguns artigos: os tecidos finos de algodão da AIsácia e da planalto de Castela e nas águas do Mediterrâneo. Politicamente, a conquista foi fonte deSuíça haviam-se equiparado aos de Lancashire desde o início do século XIX, enquanto satisfação para muitos: o sol nunca se punha sobre a bandeira britânica.os "merinos" franceses revelaram-se um rival reconhecidamente inimitável dos Economicamente, os resultados foram menos impressionantes. Já em 1870, poucoestames de Yorkshire. Mas, a partir de 1870, houve um aumento acentuado dessas restava além do refugo: os melhores mercados já tinham sido formalmente anexados ouexportações concorrentes, em particular as que vinham das nações industrializadas mais informalmente integrados na economia européia em expansão. Ainda haviajovens - Alemanha, Estados Unidos e até a Índia e o Japão. lucros por realizar na África e, especialmente, na Ásia. De fato, a parcela das Os observadores comerciais ingleses do século XIX estavam habituados a se exportações enviada para essas áreas aumentou nas décadas subseqüentes. Mas, dada aentregar a um joguinho que podemos chamar de "contar os fregueses", numa analogia pobreza desses países e suas baixas taxas de crescimento, sua demanda de produtoscom a contagem das galinhas e outros passatempos similares. Eles estimavam o número manufaturados era limitada: às vésperas da Primeira Guerra Mundial, as potênciasde pessoas de uma dada área, observavam seu consumo de produtos ingleses, em industrializadas do mundo ainda eram as melhores clientes umas das outras.comparação com os mercados mais estabelecidos, e depois calculavam o lucro que Mais ainda, eram suas próprias melhores freguesas: à medida que as potencialidadesresultaria de um possível aumento das vendas ate esse padrão hipotético. A China era dos mercados externos foram diminuindo, o mercado interno adquiriu importância cadaum alvo favorito dessas suposições. Uma população de bem mais de 300 milhões de vez maior. E com razão. Ali estavam os consumidores mais ricos do mundo, e tanto seupessoas! Se seu consumo per capita de algodão inglês pudesse elevar-se até o nível número quanto sua riqueza estavam aumentando mais depressa que os das áreas maisindiano, calculou Ellison, as vendas totalizariam £25 milhões por ano, em vez dos £5 atrasadas. De 1870 a 1910, a população da Europa elevou-se de 290 milhões para 435milhões de 1883. Nada ilustra melhor as implicações comerciais do surto de milhões de habitantes, e a das principais nações industrializadas (o Reino Unido e a Ale-industrialização de retardatários, como a Índia e o Japão, do que o que aconteceu com manha), de 72 milhões para 110 milhões, enquanto as rendas nacionais dobraram ouesses devaneios. De 1885 a 1913, as vendas inglesas de fios na China caíram de 20 triplicaram. (A França, é claro, era uma exceção: sua população ficou praticamentemilhões de libras esterlinas para 2 milhões. Em 1905 , a Índia, sozinha, vendeu ali inalterada.) Se os dias de fácil expansão comercial estavam terminados, e se era chegada200 milhões de libras.12 A cifra japonesa foi de 156 milhões em 1913. A exportação a hora de cultivar a demanda em profundidade, não havia melhor lugar paratotal de fios e linhas deste país valia bem mais do dobro da que vinha da Alemanha, e trabalhar do que em casa.cerca de 4 0 % da do Reino Unido.13 Mais importante do que o crescimento do poder global de compra foi a mudança Essa passagem do monopólio para a competição foi, provavelmente, o mais do padrão de consumo. A elevação sistemática da renda per capita, que atingia até asimportante fator isolado a dar o tom da iniciativa industrial e comercial européia. O camadas mais baixas da população, liberou somas crescentes para a aquisição decrescimento econômico passou então a ser também a luta econômica - uma luta que produtos manufaturados em vez de alimentos, de confortos materiais em vez deserviu para separar os fortes e os fracos, desencorajar alguns e endurecer outros, e gêneros de primeira necessidade.14favorecer as nações novas e ávidas à custa das antigas. O otimismo em relação a um Diversos fatores reforçaram esse processo. Antes de mais nada, depois de 1875 osfuturo de progresso infindável cedeu lugar à incerteza e a um sentimento de agonia, no preços dos gêneros alimentícios caíram em relação aos demais, como resultado dossentido clássico da palavra. Tudo isso fortaleceu e, por sua vez, foi fortalecido por fluxos maciços de grãos provenientes das grandes planícies e estepes da América dorivalidades políticas que se aguçavam, fundindo-se essas duas formas de competição no Norte e do sul da Rússia, e das importações ainda maiores de carne da Argentina e desurto final de avidez de terras e na caçada de "esferas de influência" que foram óleos e frutas de áreas tropicais e semitropicais. Foi preciso uma combinação dechamados de Novo Imperialismo. aperfeiçoamentos tecnológicos para possibilitar esse aumento e diversificação De 1876 a 1914, as potências colonialistas do mundo anexaram mais de i I milhões radicais do abastecimento de gêneros alimentícios na Europa: as ferrovias, que ligaramde milhas quadradas de território. Esse foi o ponto culminante da expansão européia regiões agrícolas interioranas ao mar; o transporte marítimo mais eficiente, queiniciada no século XI, nas planícies a leste do Elba, no levou a um aumento acentuado da capacidade e a uma queda correspondente das taxas de frete; as novas técnicas de cultivo, especialmente a lavoura 248 249
    • irrigada em planícies desérticas; e os novos métodos de conservação de alimentos, abelhas para não ter que comprar açúcar e que fazia o terno dominical durar a vida inteira,entre eles o enlatamento e a refrigeração. era capaz de comprar para si um relógio de pulso, dar um pingente de ouro à sua Essa concorrência dos produtores externos, por sua vez, provocou uma vigorosa filha, deixar seu filho visitar uma cidade de veraneio ou permitir que sua mulherresposta tecnológica de alguns setores da agricultura européia. Alguns países ou decorasse a casa.15 (Em tudo isso, a influência predominante das mulheres e criançasregiões voltaram-se para a especialização, optando pelos gêneros em que a natureza e sobre o consumo, tendência esta que persiste até hoje, foi evidente.) A longo prazo,as habilidades combinavam-se na produção de uma qualidade diferenciada, que entretanto, esse "efeito do exibicionismo" interno foi, provavelmente, o fator maisdesafiava a concorrência. A Dinamarca é o melhor exemplo disso, com seus produtos importante - mais importante do que a elevação da renda no desenvolvimento de umsuínos e seus laticínios (o separador de nata foi a inovação vital neste último mercado de consumo superior (adaptando o termo de W.W. Rostow), ou seja, de umcaso). Mas a Suíça e a França tinham seus queijos, e toda grande cidade tinha seu corpo de consumidores aptos e dispostos a comprar acima da linha daanel de hortas para fins comerciais. Ao mesmo tempo, os cultivadores obtiveram necessidade.índices de produção muito mais altos por acre em todas as lavouras, mediante o uso Mais uma vez, os processos econômicos e sociais mais amplos muito deveram àextensivo de fertilizantes, especialmente os novos tipos minerais e artificiais e as inovação tecnológica - nesse caso, à introdução de novos métodos de distribuiçãoimportações orgânicas puras, como o guano peruano (outro dividendo da revolução varejista. Foram essas as décadas que assistiram ao espetacular desenvolvimento dasnos transportes). O resultado foi o mais elevado padrão de alimentação que o lojas de departamentos e das cadeias de lojas (magazines com sucursais), com todos osmundo já havia conhecido. Pela primeira vez, o homem pôde dar-se o luxo de seus recursos associados para tentar o consumidor: preços fixos, direito de devoluçãoalimentar os animais com seu próprio sustento vital, os cereais, a fim de engordá-los gratuita das mercadorias, embalagens padronizadas, encomendas através de catálogos,para sua mesa. vitrines eficazes, liquidações periódicas e propaganda.16 E a estes convém acrescentar os Em segundo lugar, os mesmos aperfeiçoamentos dos transportes que tanto esforços dos comerciantes e industriais para aumentar o próprio mercado, cultivandocontribuíram para diminuir o custo dos gêneros alimentícios também funcionaram mudanças consonantes com a moda e firmando a reputação de marcas registradas eno sentido de reduzir o preço dos produtos manufaturados. Não só o processo de nomes comerciais.embarque tornou-se menos dispendioso, como também a criação de mercados Tudo isso foi ainda mais importante em virtude da relação entre a novarealmente nacionais conduziu à eliminação das peculiaridades locais de gosto e, com tecnologia industrial e o caráter do consumo. Como veremos, os grandes avançosisso, à economia da produção em massa. dessas décadas - aço barato, indústria de precisão, energia elétrica - possibilitaram toda Em terceiro lugar, as necessidades dos consumidores aumentaram sig- uma nova gama de bens de consumo, ou o que agora chamamos bens de consumonificativamente. Houve, para começar, o processo sistemático de urbanização, que durável: a máquina de costura, relógios baratos, bicicletas, iluminação elétrica e,apresentou a milhões de camponeses um estilo de vida mais expansivo. E esse apetite de eventualmente, eletrodomésticos. A conseqüente expansão da produção após o rápidobens materiais tampouco se restringiu apenas aos que se estabeleceram nas cidades. incremento inicial, primordialmente baseado nos bens de capital e no complexo deLenta, mas inexoravelmente, ele seduziu o homem do interior, tradicionalmente demandas associadas às ferrovias, só foi possível nesse novo tipo de mercado-não ligado àabnegado a ponto de chegar à avareza. Alguns, visitando a cidade, principalmente subsistência básica.graças às ferrovias, nunca voltaram a ser os mesmos; e alguns sentiram necessidade de O rigor da competição pelos mercados externos e a importânciaimitar os primos citadinos, fosse em nome da auto-estima, fosse para enfrentar a con- concomitantemente crescente da demanda interna levaram a uma intensa reação contracorrência de uma vida mais confortável e variada, em nome da lealdade dos filhos, a liberdade econômica, e portanto, contra a insegurança de meados do século. Anamoradas e esposas. Visto em linhas gerais, o processo foi dolorosamente lento e liberalização do comércio mal fora atingida quando a maré se inverteu. Na França, adesigual: o atraso material da maioria das propriedades rurais continua a ser um agitação contra a nova política de baixa proteção nunca desapareceu; desde o início, osproblema ainda hoje. E foi inevitavelmente errático: o mesmo camponês que representantes dos interesses indus triais deixaram o protocolo de lado e denunciaram ovendia seu queijo e comia coalho, que criava acordo com a Inglater- 250 251
    • ra como um ato arbitrário abusivo e até fraudulento. (Em certo sentido, o Império familiar, com seu apego à independência empresarial, ocupava um lugar de peso, mesmocomeçou a morrer em janeiro de 1860.) Todos os males da indústria francesa foram nos ramos industriais com elevado coeficiente de capital. Em segundo, a ênfase naimputados "ao Tratado"; todos os sucessos eram obtidos apesar dele. A campanha pelo diversidade e na diferenciação dos produtos dificultava o controle grupal. Por último, eretorno do protecionismo fortaleceu-se com a crise de 1867, obteve alguns pequenos mais importante, a indústria francesa mantinha, desde longa data, limites tácitos àsucessos nos primeiros anos da Terceira República e, finalmente, atingiu seu objetivo competição, que tinham mais ou menos a mesma eficácia dos contratos formais. Nãocom a aprovação da tarifa de Méline em 1892. Na Alemanha, a depressão da década de apenas o empresário, como também o trabalhador e, a rigor, a sociedade em geral1870 e o desejo de Bismarck de obter o apoio da nova aliança formada entre os encaravam a guerra de preços como essencialmente desleal (déloyale) e subversiva. E, dadaindustriais e os aristocratas levaram à rejeição, em 1879, da política tradicional de tarifas a situação de oligopólio abrandado que era característico de muitas indústrias umasbaixas, que havia atingido seu auge com a livre importação de ferro-gusa em 1873. A poucas empresas grandes e eficientes em meio a um enxame de firmas pequenas eItália adotou uma proteção elevada em 1887; a Áustria e a Rússia retornaram a ela em atrasadas -, esses sentimentos moralistas eram reforçados por recomendações de1874-5 e em 1877, respectivamente; a Espanha estabeleceu novas tarifas em 1877 e prudência: a competição vigorosa só poderia convidar a retaliações por parte de rivais tão1891; e assim por diante, na Europa inteira. No exterior, as tarifas de importação norte- grandes e poderosos quanto a empresa que a praticasse. Em suma, a França não precisavaamericanas tenderam a subir a cada nova lei tarifária a partir da Guerra Civil. Até na de cartéis. Chegou realmente a desenvolver alguns, em particular na fabricação de ferroInglaterra, a confiança no livre comércio ficou abalada. A interdependência comercial e aço. Mas o papel deles foi mais de conveniência do que de influência.dessas economias cada vez mais especializadas multiplicou o impacto desses aumentos; A indústria britânica viu-se numa situação confusa em matéria de integração. Emcada ação trazia suas reações, até que as tarifas alfandegárias passaram a ser estipuladas primeiro lugar, os complôs para restringir o livre comércio eram proibidos pelotanto para fins de barganha quanto de proteção. A espiral continuou subindo, com direito consuetudinário; no entanto, os cartéis remontavam a séculos antes napoucas pausas ou inversões, até que as limitações da guerra fizeram com que essas Inglaterra, e foi Adam Smith que escreveu: "As pessoas de um mesmo ramorestrições anteriores se assemelhasem à liberdade. raramente se reúnem, mesmo para o prazer e o divertimento, sem que a conversa Paralelamente a essa encapsulação dos mercados nacionais, houve esforços para acabe numa conspiração contra o público ou em algum estratagema para elevar osminizar a concorrência internacional. Os cartéis de controle dos preços e da produção - preços." Em segundo lugar, a ausência de barreiras tarifárias era um grave obstáculo àuma instituição que remontava ao século XVII ou antes (cf. a Venda de Newcastle) - fixação dos preços ou da produção num regime de conluio; entretanto, os custos decomeçaram a se multiplicar, especialmente depois de períodos de depressão, transporte ou as vantagens locais da produção serviam para proteger alguns setores,prolongada ou aguda. Caracteristicamente, eles eram encontrados em indústrias como regional ou nacionalmente, e para tornar sua integração lucrativa. Por fim, a estruturaas de carvão, ferro ou produtos químicos, onde a homogeneidade do produto facilitava a da empresa, ao contrário da que havia na Alemanha, era pouco adequada à cooperaçãoespecificação de quotas e preços, os vultosos requisitos de capital geravam importantes formal; a maioria das firmas, mesmo as que eram nominalmente sociedadeseconomias de escala, o número de empresas concorrentes era conseqüentemente anônimas, tinha um caráter privado e um comportamento independente; alémpequeno e o ingresso era difícil. Os cartéis tiveram seu número e eficiência máximos na disso, havia pouca integração vertical ou controle bancário. No entanto, tal como naAlemanha, onde a psicologia empresarial, a estrutura da indústria, as instituições legais França, havia também uma forte tendência para o tipo de acordo de cavalheiros(os cartéis podiam fazer valer seus contratos nos tribunais) e a proteção tarifária contra que torna os cartéis desnecessários.os intrusos combinaram-se, todos, para promover acordos de restrição do comércio. Com essas forças contraditórias em ação, a Inglaterra desenvolveu uma tendência Os cartéis foram menos importantes na França, por razões que podem ser branda para uma integração branda. Surgiram cartéis na metalurgia, na moagem, nadeduzidas da análise de seu sucesso na Alemanha. Em primeiro lugar, a indústria leve indústria química e na fabricação de vidro, mas eles foram menos rígidos do queera muito mais importante ali do que a pesada, e a firma seus análogos alemães, tiveram um caráter 252 253
    • menos compulsório, foram menos eficazes em épocas de contração e mostraram-se indústrias erradas, ou, quando nas certas, pelas razões erradas; muitas vezes, erammenos duradouros. Os intrusos estrangeiros sempre constituíram um problema. fundados por agentes promocionais, e não por produtores, e a supervalorização inicialAssim, a Associação Britânica de Fabricantes de Vidro, altamente eficiente, teve seus do capital onerava o desempenho posterior; a própria multiplicidade de seus membrosesforços de manutenção dos preços no mercado interno continuamente prejudicados complicava sua tarefa e, também nesse caso, a falta de proteção tarifária expunha ospela concorrência belga. As propostas de estabelecimento de um acordo internacional membros prósperos às incursões dos intrusos - o sucesso era quase tão perigoso quantoforam desconsideradas durante décadas, até que os distúrbios trabalhistas do início da o fracasso.década de 1900 convenceram os produtores belgas de que a segurança trazida pela Não é fácil isolar as conseqüências dessa nova versão comercial do movimento deunião mais do que compensava as restrições. Tal como finalmente criado, o Convênio enclosure [demarcação de terras] e a multiplicidade de outros fatores quedo Vidro para Espelhos de 1904, o mais exitoso dos cartéis internacionais do vidro, determinaram o caráter e o volume do comércio mundial; tampouco se prestam aincluiu não apenas o Reino Unido e a Bélgica, mas também a Alemanha, França, Itália, generalizações simplistas. A volta do protecionismo desestimulou algumas formas deAustro-Hungria e Holanda. Acordos similares foram negociados em campos como a intercâmbio internacional, mas serviu para estimular a rivalidade nos mercados abertos.fabricação de trilhos e o tabaco, onde, por estar o grosso da demanda no exterior, ou em Similarmente, os cartéis contribuíram para restringir a competição e estabilizar osvirtude de o valor em relação ao peso ser tão elevado que os custos de transporte não preços e a produção até certo ponto, mas seu próprio sucesso alimentou ambições queofereciam nenhuma proteção, os acordos nacionais eram ineficazes. Grosso modo, esses levaram a rupturas eventuais e a flutuações maiores do que antes. Mesmo quando oscartéis internacionais funcionavam bem enquanto havia acordo, mas mostravam pouca acordos eram mantidos, o esforço de cada um dos membros no sentido de garantirresistência à dissenção e à ruptura; sua história tem um ritmo alternado de vigência e quotas maiores amiúde estimulava um desenvolvimento mais rápido da capacidade donão-vigência. 18 que a livre concorrência teria produzido, ou do que uma política racional de À parte os cartéis, ou seja, as associações de empresas independentes, havia investimentos, baseada no retorno esperado, teria justificado. Em última análise,também vários "trustes" instituições monopolistas, ou de pretensões monopolistas, que entretanto, esses novos arranjos institucionais nos interessam como esforços paraagrupavam uma parcela considerável das empresas produtoras de determinado ramo em curar - e portanto, como indícios de - um mal-estar interno. O fato de nem semprevários graus de amalgamação. Em alguns casos, essas coalizões eram simplesmente o que terem cumprido sua finalidade não deve causar surpresa.os alemães chamam de Interessengemeinschaft:* cada participante preservava sua Qual é, pois, a significação mais ampla dessa profusão de inovações, ora mutuamenteautonomia, e a direção central era fornecida por um colegiado as vezes difícil de reforçadoras, ora contraditórias? A resposta parece residir no vívido termo de Phelps-manejar, cuja influência dependia da boa vontade das empresas-membros. A primeira Brown, "climatério" - só que aplicado não apenas à Inglaterra, mas à economia mundialEnglish Sewing-Cotton Company [Companhia Inglesa de Linhas de Algodão (1897) e como um todo, e primordialmente concebido em termos das relações das economiasa Calico Printers Association [Associação dos Estampadores de Algodão (1899) foram nacionais entre si. O que temos, em suma, é uma passagem da monarquia para adesse tipo. Outras eram verdadeiras fusões, como a União Salina de 1888, que afirmava oligarquia, de um sistema industrial uninacional para outro multinacional, ou, secontrolar 91% da produção de sal do Reino Unido, ou a Companhia Unida de Álcalis, quisermos preservar a metáfora biológica, de um organismo unicelular para um multi-formada em 1891 num derradeiro esforço dos produtores que usavam o método de celular. O fato de essa mudança de vida ter coincidido com uma transformaçãoLeblanc para se sustentarem contra a concorrência do processo de Solvay. tecnológica igualmente fundamental só fez complicar o que era, intrinsecamente, uma Os trustes foram a resposta da Inglaterra a integração e à concentração da indústria adaptação difícil - tão difícil, na verdade, que os mais decididos esforços dos homensalemã. De modo geral, uma resposta precária: surgiram nas mais sensatos não conseguiram aplacar os ressentimentos e inimizades nascidos do equilíbrio conseqüentemente alterado do poder político. Os estudiosos marxistas da história têm costumado encarar as rivalidades internacionais que precederam a *Comunidade de interesses. Em alemão no original. (N. da T.) Primeira Guerra Mundial como a derrota de um sistema em processo de declínio e dissolu- 254 255
    • ção. A verdade é que essasforam as dores de crescimento de um sistema em processo de dem-se do pequeno grupo de indústrias que se acham no cerne da revolução para ogerminação. restante do setor produtivo. Nessa situação, teremos de abandonar nossa concentração Não foi a primeira vez que a economia mundial, como sistema interatuante, passou em alguns focos selecionados de transformação. Em vez disso, tentaremos organizar ospor esse climatério. Uma crise comparável fora concomitante ao avanço da Inglaterra dados do progresso tecnológico em linhas analíticas, agrupando-os de acordo com oem direção a uma ordem industrial moderna. Também nessa ocasião, como vimos, o princípio, e não com a área de aplicação: (a) novos materiais e novas maneiras deequilíbrio do poder econômico e político tinha-se alterado drasticamente, impondo um preparar materiais antigos; (b) novas fontes de energia e força; (c) mecanização esevero desafio a todas as nações que aspiravam a participar do concerto das potências divisão do trabalho.de primeira classe. O fato de as conseqüências internacionais não terem sido tão A ordem escolhida não indica importância relativa, já que não ha maneira de avaliar odesafortunadas quanto viriam a ser durante o climatério seguinte reflete, em parte, impacto de cada um desses elementos na produtividade geral. Minha intenção é, antes,algumas consideraçõés mercadológicas: de um lado, no período anterior, a existência conciliar tanto quanto possível o esquema analítico, que em certo sentido é intemporal,de uma demanda mundial ainda inexplorada e altamente elástica de produtos com a seqüência cronológica da transformação tecnológica, de modo a que o leitor nãomanufaturados, e de outro, as oportunidades de interação frutífera entre o grande centro perca o fio da história econômica qua história. Por essa razão, o grosso do espaço seráprodutor isolado e seus rivais ainda principiantes. destinado aos tópicos (a) e (b), pois eles se prestam melhor à descrição como um Se o climatério do fim do século XIX não foi o primeiro desse sistema internacional, processo, um desenvolvimento através do tempo. Mais do que os outros, além disso,tampouco foi o último. Tanto quanto o historiador é capaz de compreender sua própria eles permitem ao historiador introduzir as questões gerais do crescimento econômicoépoca, parecemos estar agora atravessando mais uma mudança de vida, novamente comparado, que são o leitmotif deste capítulo.acarretada pelo ingresso, na disputa, de um novo grupo de nações industrializadas e emprocesso de industrialização, sendo a mais importante dentre elas a Rússia soviética. Destavez, porém, o problema da adaptação é agravado por diferenças fundamentais de estrutura NOVOS MATERIAISe organização sociais entre o velho e o novo. Na verdade, os recém-chegados estãocompetindo com as nações industrializadas mais antigas menos em termos econômicos do O tema dos novos materiais e das novas maneiras de produzir antigos materiaisque políticos, e os esforços econômicos não são direcionados para a busca da riqueza, apresenta muitas faces. Se fôssemos acompanhá-lo até seu limite, ele nos faria penetrarcom as conseqüências políticas lamentáveis que isso possa ou não implicar, mas para a em todos os ramos da indústria. A bem da economia, entretanto, vamos concentrar-busca do poder, com resultados mais provavelmente desastrosos. Aqui, uma certa nos em dois temas: a invenção e disseminação do aço barato e a transformação dareserva melancólica e ansiosa, além da prudência costumeira do historiador, desaconselha indústria química.qualquer tentativa de predição. Com esta breve alusão ao desafortunado presente, inserida apenas para completar alógica desta análise, podemos voltar-nos com alívio para os detalhes anódinos da A idade do açohistória da tecnologia. O homem é um animal denominador. Adora pespegar rótulos às coisas. E ninguém é Nas últimas décadas do século XIX, o avanço tecnológico prosseguia numa frente mais prolífico em matéria de nomenclatura do que o historiador, que não conseguetão ampla, nas indústrias mais antigas, que a tarefa do historiador fica imensamente resistir à oportunidade de designar cada setor cronológico de sua matéria por um títulocomplicada. E isso, por sua vez, contribui muito para explicar por que esse tema tem vigoroso - o Século das Luzes, a Era dos Bons Sentimentos, a Idade da Reforma -, emsido negligenciado.19 O progresso amplo, como observa Rostow, é a marca da parte por conveniência pedagógica ou heurística, em parte por um efeito proclarnatório,maturidade: as inovações básicas difun- e em parte como um substituto da compreensão. Temos, pois, a Idade do Aço. Trata-se de um dos melhores desses títulos-lemas. Se tivéssemos que destacar o traço primordial da tecnologia do 256 257
    • último terço do século XIX, ele seria a substituição do ferro pelo aço e o aumento pudlagem e da laminação acentuou essa tendência, que era fonte permanente deconcomitante do consumo de metal per capita. assombro para os visitantes oriundos de terras mais pobres. Foi o caso do É lugar-comum observar que a indústria moderna se constituiu (e, a rigor, siderurgista francês Achille Dufaud, de Fourchambault, em 1823 : "Dizem que ocontinua a ser construída, mesmo após o desenvolvimento dos plásticos e do consumo interno é de 110.000 toneladas; é uma quantidade assombrosa, mas,concreto) sobre uma estrutura de metal, particularmente o metal ferroso. Vale a quando se percorre a Inglaterra, não parece inacreditável.20 Passada apenas umapena fazermos uma pausa, entretanto, para examinar por que isso foi e é assim. A geração, em 1849, ela consumia talvez quinze vezes mais.resposta encontra-se menos nas características isoladas do metal, algumas das O aço é um tipo superior de ferro. Possui todas as vantagens acimaquais estão presentes em outros materiais, do que na combinação delas, que é atribuídas ao metal, e especialmente ao metal ferroso, em grau mais elevado.única, e da qual, até hoje, nenhum outro produto da engenhosidade humana se Quimicamente, os dois se distinguem pelo teor de carbono: ferro-gusa, 2,5-4%;aproximou. aço, 0,1% a cerca de 2%; ferro forjado, menos de 0,1%. Quanto mais alto o As vantagens mais destacadas são três: grande força em relação ao peso e ao teor carbônico, mais duro o metal; quanto menor o carbono presente, mais elevolume, plasticidade e dureza. A primeira está implícita na elasticidade do metal, é macio, maleável e dúctil. A tenacidade atinge seu auge a aproximadamente 1, 2%isto é, em sua resistência às várias formas de compressão tênsil (inclusive o tipo de carbono, na zona do aço, e depois diminui rapidamente até 3%. Comoconhecido como percussão), estiramento e vergadura ou torsão. Nem mesmo resultado, o ferro-gusa é duro, mas é também quebradiço. Não pode serum material tão notável quanto o concreto reforçado ou protendido, leve em processado sem partir, e tem que ser moldado para poder ser usado. Além disso,relação ao volume e capaz de desempenhos surpreendentes como elemento de não suporta a tensão, e por isso se presta apenas à fabricação de coisas como panelascontenção ou suporte de estruturas fixas, consegue competir com o metal de cozinha, radiadores ou blocos de motores, nas quais a compressão e a torsão sãoquando a economia de espaço e o movimento são considerações importantes. insignificantes. O ferro forjado, por outro lado, pode tornar-se tão macio que éNos primórdios da Revolução Industrial, quando as técnicas de metalurgia eram possível trabalhálo manualmente. Na Índia, os ferreiros testam seus pregosrudimentares e os artesãos empregavam voluntariamente quaisquer materiais vergando-os na testa. Pela mesma razão, entretanto, o ferro forjado ésubstitutos que se oferecessem - em especial a madeira, mas também o couro e a extremamente suscetível ao desgaste causado pelo uso, altera-se facilmente com ocorda, dependendo do uso -, as partes mais importantes das máquinas, como os impacto e oferece baixa resistência à distensão ou à vergadura. Onde o ferro-gusafusos, por exemplo, já eram de ferro. E não se passou muito tempo para que tudo, racha ou quebra, o ferro forjado cede.inclusive a armação, fosse feito dessa maneira. Nenhum material melhor para as O aço combina as vantagens de ambos. É duro, elástico e deformável. Podepeças articuladas foi descoberto desde então. ser esmerilhado até obter um gume afiado, e depois mantê-lo; nenhuma outra coisa A superioridade do ferro nessas utilizações decorre de sua força excepcional - presta-se tão bem para cortar e fresar outros metais. Sua resistência ao impacto e àmaior que a dos outros metais - e de sua plasticidade e rigidez. Ele pode ser abrasão torna-o ideal para martelos, bigornas, -limas, trilhos e outros objetos sujeitosmodelado sem perda significativa da elasticidade - martelado (maleabilidade), à percussão ou ao desgaste. Sua força, proporcionalmente ao peso e ao volume,trefilado (ductilidade), cortado, cunhado e perfurado; limado e esmerilhado; possibilita máquinas e motores mais leves, menores e, ainda assim, mais precisosfundido e moldado. E pode ser processado com precisão: nele se pode fazer um e rígidos - portanto, mais rápidos. A mesma combinação de compacidade e forçatalhe preciso, um furo uniforme, uma impressão nítida. Por fim, ele preserva faz do aço um excelente material de construção, especialmente na construção naval,bem sua forma sob o efeito do atrito e do calor: o gume continua liso e, quando onde o peso da embarcação e o espaço deixado para a carga são de importâncianecessário, afiado; os furos continuam uniformes; a impressão permanece fundamental. 21 Os metalurgistas da Antiguidade tinham conhecimento dasnítida. peculiaridades do aço. Os antigos fornos de lingotes, que faziam o ferro maleável di- Como resultado dessa íntima ligação entre os metais ferrosos e as máquinas, retamente a partir do minério, produziam uma massa de metal heterogêneoo consumo de ferro per capita sempre foi uma das medidas mais exatas daindustrialização. Já tivemos oportunidade de assinalar o precoce "temperamentoferruginoso" dos ingleses no século XVIII. A introdução da 258 259
    • cujo grau de descarbonização variava conforme a eficiência da oxidação e o contato com de combustível. Não surpreende que o aço de qualidade superior fosse um produtoo combustível. A maior parte do lingote era de ferro doce ou forjado (fer doux), mas caro, que chegava a custar várias centenas de libras esterlinas por tonelada. Na verdade,uma parte, especialmente a matéria que ficava na superfície ou próxima dela (o fe r esse era um metal vendido e usado, em quantidades mínimas, na fabricação de pequenosfort), tinha a qualidade do aço ou até do ferro-gusa. objetos de alto valor em relação ao peso, especialmente navalhas de barbear, A reação dos ferreiros primitivos era rejeitar como imprestável esse material instrumentos cirúrgicos, lâminas, tesouras, lixas e limas grossas. Mesmo o aço de bolharebelde. Com o tempo, entretanto, as virtudes do aço foram sendo reconhecidas, comum era caro demais para ser usado em quantidade: a lâmina da foice doespecialmente na produção de ferramentas de corte e armas. Em algum lugar e em camponês - quando ele podia arcar com o preço de uma foice - geralmente consistiaalgum momento do mundo antigo, os ferreiros aprenderam a produzir deliberadamente numa superfície de aço soldada sobre o núcleo de ferro. A única área em que haviao aço, em vez de aceitar o que era acidentalmente gerado na fabricação das barras. A pouca ou nenhuma parcimônia era a fabricação de armas: o homem raramente usaprincipal técnica empregada era a carbonização do ferro doce por cementação, isto é, por subterfúgios no que tange ao custo dos instrumentos da morte.sua imersão, a uma temperatura elevada, num banho sólido de matéria carbonífera; o Era essa a situação da tecnologia do aço às vésperas da Revolução Industrial. Aresultado era o que passou a ser conhecido como aço de bolha, assim chamado por primeira grande inovação nessa área, desde a invenção anônima e imemorial dacausa do empolamento característico da superfície quando a carbonização se cementação, foi a técnica do cadinho de Huntsman (1740-2), que gerou melhoras decisivascompletava. Uma alternativa, menos satisfatória, era o metodo direto de interromper o na qualidade do produto. Huntsman tomou o aço de bolha, conseguiu uma temperaturaprocesso de separação antes que o carbono fosse inteiramente eliminado pela suficientemente alta para fundi-lo em pequenos recipientes, junto com um fluxo decombustão. carbono e outros metais, retirou a película de escória e verteu-o. O resultado foi Pela natureza do processo de cementação, em que o metal quente, mas sólido, (1) um aço mais puro, pois a separação natural entre a matéria imprópria e o ferroabsorvia seu carbono de fora, o aço de bolha era de qualidade irregular, indo desde o derretido era muito mais eficaz do que jamais conseguiria ser a eliminação dasaço doce (na parte mais interna) até o ferro (na superfície). Era possível obter maior impurezas por martelamento ou compressão, e (2) um aço mais homogêneo do que seriahomogeneidade quebrando o aço de bolha em pequenos fragmentos, envolvendo-os possível obter pelo martelamento do metal sólido na bigorna (compare-se a diferençanum revestimento e martelandoos juntos sob o calor da solda, assim distribuindo mais entre bater massas moles e preparar massa de pão).igualmente o carbono pela massa e gerando o que veio a ser conhecido como aço O aço de cadinho era mais duro e resistente até do que o melhor aço cisalhado;cisalhado. As barras resultantes podiam então ser vergadas em duas, repetindo-se o pro- seu único ponto fraco era que ele não podia ser tratado com mais do que ocesso de martelamento tantas vezes quantas necessárias para obter a qualidade aquecimento ao rubro, e portanto, era difícil de usinar, especialmente com asdesejada. Na Inglaterra, um martelamento era considerado suficiente para a maioria das ferramentas do século XVIII. (Evidentemente, podia ser moldado.) Além disso, nosfinalidades, e o aço cisalhado malhado duas vezes era tido como o melhor que se primórdios do monopólio ou quase-monopólio de Huntsman, seu preço era mais altoproduzia. Na Alemanha, a habilidade artesanal foi levada mais longe, e o chamado que o do aço cisalhado, apesar da economia de mão-de-obra resultante da eliminação doviermal raf nierter Stahl * consistia em barras duras e fortes que consolidavam, em seu trabalho repetitivo de forja. Em decorrência disso, os ferreiros mostraram-se hostis, e operfil de 30 centímetros, cerca de 320 camadas separadas de aço a carvão vegetal. uso do novo metal ficou limitado aos objetos em que o preço da matéria-prima era uma Esse tipo de trabalho levava tempo: uma a duas semanas para concluir a fração desprezível do custo total - peças de relojoaria, por exemplo, e as ferramentas decementação e vários dias de trabalho de forja depois disso. Ademais, o aquecimento corte mais finas. Ele só se impôs realmente depois de 1770.e o martelamento alternados exigiam um dispêndio fabuloso Com o tempo, entretanto, a entrada de concorrentes fez o preço baixar. O efeito do monopólio pode ser avaliado, em parte, com base na experiência francesa: em 1815, o aço moldado tinha que ser importado da* Aço quatro vezes refinado. Em alemão no original. (N. da T.) 260 261
    • Inglaterra a £700 ou £ 800 por tonelada; em 1819, após a instalação de fábricas em se separasse como uma massa pastosa, em virtude de seu ponto de fusão mais elevado. O Badevel (Doubs), por Japy, e nas imediações de Saint-Etienne, por James Jackson resultado era que o aço pudlado raramente era tão homogêneo e resistente quanto o (inglês, como indica o nome), o preço foi de £140.22 Os aperfeiçoamentos da técnica aço de cadinho, ou tão duro quanto o aço cisalhado. Muitas vezes, era conduziram ao mesmo resultado. Os produtores aprenderam a trabalhar com simplesmente um substituto do aço cisalhado ou do ferro no processo do ingredientes mais baratos, a começar pelo ferro forjado, por exemplo, e ir chegando ao cadinho. Por outro lado, ele era barato - na década de 1850, era vendido na Alemanha aço através da adição de carbono em pó. Em meados do século XIX, os siderurgistas por cerca de £22 por tonelada - e podia ser produzido em grandes volumes para suecos misturavam ferro-gusa e minério de ferro com carvão vegetal e vendiam o utilizações pacíficas, como pneus, rodas, engrenagens e eixos de transmissão. O produto a £5 0 - £ 6 0 por tonelada. processo foi adotado com mais rapidez no Continente do que na Inglaterra, onde o mi- A técnica do cadinho tinha uma vantagem adicional, que abriu as portas para a nério, aparentemente, produzia um gusa impuro demais para servir de base para amoderna tecnologia do aço: ela possibilitava - de forma implícita, no início, e de forma fabricação de aço por pudlagem.24 Na França, o novo metal superou todas as outrasefetiva em meados do século XIX - a fabricação de peças grandes. Não é que fosse formas de aço em termos de importância em 1857; as cifras alemãs não permitem umapossível fazer cadinhos muito grandes: eles tinham, inicialmente, talvez 9 a 11 polegadas comparação similar (o aço pudlado e o cisalhado aparecem juntos), mas é provável que ode altura - o tamanho de um vaso - e, decorrido mais de um século (em 1860), ainda ano decisivo tenha ocorrido pelo menos com a mesma precocidade. 25atingiam uma altura de apenas cerca de 16 polegadas; é possível que contivessem 45 a 6o Na falta de coisa melhor, o aço pudlado teria sido o mais próximo do açolibras-peso, embora, ocasionalmente, se usassem tamanhos maiores. Mas eles podiam ser produzido em massa - os custos acabaram sendo comprimidos para cerca de £ 1 oaquecidos e vertidos en masse, ou melhor, em estreita sucessão; e, com o tempo, os por tonelada -, não fosse pela invenção dos processos de Bessemer e Siemens-fabricantes aprenderam a coordenar o trabalho de um pequeno exército de homens, que Martin, em suas variações ácida e básica.despejavam centenas de cadinhos, para produzir lingotes de muitas toneladas. Krupp foi o (i) Bessemer. Mais uma vez, a inspiração veio das armas. Henry Bessemerpioneiro nessa área, e seu cilindro de 2,25 toneladas foi a sensação da Exposição do (1813-1898), que não era metalurgista, mas uma espécie de experimentador de altaPalácio de Cristal; mal decorrida uma geração, em 1869, Vickers usava 672 cadinhos de classe, já abastado por sua engenhosidade e versatilidade, concebeu, no início dauma vez para fabricar peças dez vezes mais pesadas. 2 3 década de 1850, um projétil de artilharia que requeria um canhão excepcionalmente Os produtos desses tours de force destinavam-se a ser broqueados como canhões; longo e forte. O problema era produzir aço suficientemente barato para viabilizar, emao preço de £100 ou mais por tonelada, os grandes lingotes de aço de cadinho eram termos orçamentários, a produção em massa de peças tão grandes. (Até os militaresexcessivamente caros para os fins industriais comuns. Todavia, as vantagens do aço torceram o nariz diante do custo, consideradas as técnicas de aceração existentes.)sobre o ferro forjado eram patentes, e considerável dinheiro e esforço foram Bessemer encontrou uma daquelas soluções que, depois de imaginadas, surpreendemempenhados na tentativa de descobrir um método de produção de aço barato em por sua simplicidade. Em vez de refinar o ferro-gusa pela aplicação tradicional de calorgrande quantidade. na sua periferia, ele soprou ar dentro e através do metal fundido, usando o calor O primeiro passo foi o desenvolvimento do aço pudlado; a principal contribuição emitido pela própria oxidação para manter o ferro liquefeito.26 Como resultado, afoi feita no início da década de 1840 por dois técnicos alemães, Lohage e Bremme. O descarbonização era extremamente rápida: três a cinco toneladas, nos primeirosprincípio era simples: se o processo de pudlagem era capaz de separar o ferro-gusa, tempos, em dez ou vinte minutos, em contraste com talvez 24 horas para se obter umtransformando-o em ferro forjado livre de carbono, por que não interrompê-lo antes volume equivalente de aço pudlado. 27 Um conversor Bessemer em plenode sua conclusão, enquanto ainda havia carbono suficiente no metal para fabricar aço? A funcionamento praticamente entra em erupção com a súbita descarga de energia. Éexecução foi outra história. Era particularmente difícil saber quando o aço estava pronto, um pequeno inferno. Com suas chamas e suas fagulhas velozes, de tonalidademas não cozido demais, e a temperatura tinha que se manter suficientemente alta cambiante, ele é também uma das mais excitantes visões que a indústria tem apara derreter o ferro-gusa, mas baixa o bastante para permitir que o aço oferecer. 262 263
    • A conseqüente economia de mão-de-obra e de matéria-prima (Bessemer deu ao plesmente enfatizou de novo o problema do minério: o processo de Siemens-Martinartigo em que anunciou sua descoberta, em 1856, o título de "A fabricação de ferro também requeria ferro não fosfórico. Como o nome indica, a inovação foi dupla. Osem combustível") possibilitou o primeiro aço capaz de competir em termos de preço forno em si foi obra de Frederick e Wilhelm Siemens, irmãos e membros de uma famíliacom o ferro forjado - £7 (incluindo royalties de aproximadamente £1) por tonelada, alemã que ficará registrada como a mais criativa da história. (O ramo principal dacontra cerca de £4 por tonelada para o ferro. Mas a adoção foi lenta. Por um lado, os família, como veremos, foi de pioneiros nas comunicações e engenharia elétrica.) Asiderurgistas e os usuários relutavam em admitir que a maior força e durabilidade do aço originalidade do forno residia em sua utilização do princípio da regeneração, pelo qualmais do que compensavam a diferença de preço remanescente; na verdade, o próprio os gases de oxidação desperdiçados eram usados para aquecer uma estrutura faviforme deadvento do aço barato foi o bastante para mexer com os brios dos produtores de ferro tijolos refratários, a qual, por sua vez, superaquecia o ar e o combustível gasoso emforjado, estimulando-os a envidar esforços mais enérgicos. Por outro lado, o processo combustão; ao mesmo tempo, a geração do gás necessário numa câmara separadade Bessemer era cercado de dificuldades técnicas, sendo algumas o concomitante possibilitava o emprego de carvão de qualidade inferior. O resultado foi a obtençãoinevitável da inovação, e outras inerentes ao próprio processo. de temperaturas muito mais altas - o único limite imediato era a resistência do próprio A mais grave delas era a incapacidade de o conversor eliminar o fósforo, por forno - e uma economia substancial de combustível.combustão, juntamente com as outras impurezas do gusa; qualquer coisa acima de uma A contribuição potencial do princípio da regeneração não se restringiu à metalurgia;proporção diminuta desse elemento tornava o aço imprestável. Foi por mero acaso que ele foi um método eficiente de produção de calor aplicável a qualquer processo industrialBessemer usou o tipo certo de gusa puro ao inventar sua técnica. (Compare-se isso com a que consumisse energia. Sua estréia na fabricação do ferro ocorreu no forno a jato de arsorte de Darby, 150 anos antes.) Seus produtores licenciados tiveram menos sorte: mal quente de E.A. Cowper, um sócio de Siemens, em 1857; desde o início, ele produziuhaviam iniciado a produção, tiveram que parar. O contratempo surgiu, nas palavras um jato de ar de 620 °C, com isso aumentando a produção de gusa em 20%.28 Ode Bessemer, "como um raio surgido do nada". forno de revérbero concebido por Carl Wilhelm Siemens teve sua primeira utilização Recomeçou-se o trabalho com minérios de hematita, não fosfóricos. A dificuldade em 1861 , numa fábrica de cristal em Birmingham. Foram um fiasco os primeiros esforçosconsistia em que eles eram mais raros e mais dispendiosos do que o minério de ferro para usá-lo na fabricação do aço, onde, ao lado do conversor de Bessemer, ele tinha acomum. Em todo o mundo industrial, somente os Estados Unidos tinham um vantagem de conseguir derreter o gusa completamente (o forno de pudlagem produzia,suprimento suficiente: aproximadamente metade da bacia do Lago Superior era não no máximo, uma massa viscosa). O sucesso comercial só foi alcançado em 1864, quandofosfórica. A Inglaterra tinha um grande depósito de hematita na área de Cumberland- Pierre Martin introduziu sucata no banho de imersão para facilitar o processo deFurness, que floresceu em virtude disso, mas, quase que desde o começo, ela teve de descarbonização. Mesmo assim, a difusão teve que esperar até que os diferentes centrosimportar suprimentos adicionais da Espanha; os leitos de minério duro de ferro não fosfórico de produção de aço, cada qual usando suas próprias qualidades de minério, ferro e hulha,da região de Bilbao eram, provavelmente, os mais ricos da Europa. A Alemanha aprendessem por ensaio e erro a combinação de ingredientes adequada. Alguns usavamdispunha de pequenas quantidades no Siegerland, mas teve que suprir o grosso de suas uma mistura que continha mais de 50% de sucata; outros acrescentavam apenas umanecessidades a partir da Espanha e da Áustria. A França, que possuía apenas pitada de limalha de ferro; outros, ainda, usavam aço velho juntamente com o ferro, ouafloramentos dispersos de hematita na região central, teve que trazer em vez dele; o próprio Siemens usava minério de ferro. O uso efetivo da técnica dominério do Elba e da Argélia para suplementar as importações vindas da Espanha. A forno Siemens-Martin data, realmente, da década de 1870.Bélgica não tinha nada. Não surpreende que o uso da técnica de Bessemer tenha-se (3) Aço básico. Em decorrência de sua situação favorável em termos de recursosdesenvolvido devagar no Continente e que, quase uma década após sua invenção, o naturais, a Inglaterra dominou a idade inicial do aço apesar de nenhum outro país teraço pudlado continuasse a predominar. mais interesses em jogo na antiga maneira de fazer as coisas. Até o fim da década de (2) Siemens-Martin. O segundo grande avanço na fabricação de aço sim- 1870, ela respondeu por mais de metade 264 265
    • da produção dos quatro grandes países industrializados da Europa ocidental pelos sica, em lugar dos habituais tijolos siliciosos ácidos, para impedir que essaprocessos Bessemer e Siemens-Martin. Essa deficiência dos países continentais numa escória básica corroesse as paredes e tornasse a liberar fósforo dentro do metal. Eranova situação tecnológica tinha, potencialmente, importância crucial em termos uma solução simples, baseada num princípio amplamente conhecido. O sucessoeconômicos e políticos. Para a Alemanha, em particular, os grandes avanços das residiu na engenhosidade das disposições práticas – a combinação de fluxo edécadas de 1850 e 1860 foram substancialmente contrabalançados, e o novo equilíbrio revestimento básicos - e, provavelmente, não foi por coincidência que a idéia ocorreu ado poder foi questionado. Obviamente, é difícil dizer o que teria acontecido se o um amador que abordou o problema com a mente aberta.30 Nesse aspecto, Thomas éproblema do minério não tivesse sido solucionado (compare-se a questão do comparável a Bessemer, que, apesar de toda a sua experiência como inventorcombustível na Inglaterra do século XVIII). A conjuntura não fornece nenhuma pista. profissional, não era um homem do aço. Mas, enquanto Bessemer havia feito seuFica-se tentado a atribuir a gravidade da depressão da indústria siderúrgica alemã na trabalho uma geração antes, quando a química metalúrgica estava ainda em suadécada de 1870 - cinco anos no vermelho e uma queda de 19% da .produção, entre o primeira infância, Thomas solucionou um problema que durante anos havia atraído aauge e o ponto mais baixo - a razões estruturais: uma quase-inanição por falta de atenção de alguns dos engenheiros mais altamente preparados da Europa. Ele foi um dosalimento. Admite-se que o declínio foi compartilhado, embora em menor grau, pela últimos, e talvez o mais importante, da linhagem de experimentadores que fizeram aInglaterra e também pela França e a Bélgica. Ainda assim, parece sumamente Revolução Industrial. Depois dele, os profissionais praticamente tomaram conta doimprovável que a espetacular ascensão do Reich a .uma posição de preeminência terreno.econômica na Europa, no final do século, tivesse sido possível sem uma indústria A invenção do aço básico foi um evento de alcance mundial. Thomas viu-sesiderúrgica vigorosa, e é duvidoso que os siderurgistas do Ruhr pudessem cercado de ofertas; os pleiteantes nem sequer o deixavam tomar seu desjejum em paz.florescer como o fizeram, se tivessem sido forçados a ir buscar sua matéria- Conta-se a história de que duas das principais empresas siderúrgicas alemãs enviaramprima na região do Mediterrâneo e no norte da Espanha, concorrendo com os representantes a Middlesbrough numa espécie de corrida da lebre e da tartaruga: quemprodutores britânicos, já beneficiados pelos depósitos domésticos de hematita.29 A não parasse para dormir venceria. A história talvez seja apócrifa, mas transmite um poucoLorena, é claro, longe do bom carvão de coque e dependente da minette barata, mas da excitação da época. No fim, um punhado de gigantes industriais do Continentecom alto teor de fósforo, teria saído da competição com o ferro forjado e o forno de (Schneider, na França; Wendel, na Lorena alemã; e as siderúrgicas Hõrder-Verein epudlagem. Rheinische, na Alemanha) alugaram os direitos de patente por somas que, embora não A resposta foi encontrada em 1878-9 por dois ingleses: Sidney Gilchrist tenham sido tão inconseqüentes quanto pretende a tradição, foram uma esplêndidaThomas, escriturário de ofício num tribunal de policia, e seu primo Sidney Gilchrist, barganha; a maioria deles, por sua vez, sublocou-os a outros produtores. A fabricaçãoquímico numa usina de ferro galesa. Eles puseram calcário básico no ferro fundido, para comercial do aço Thomas começou no fim de 1879; em quatro anos, havia 84que se combinasse com o fósforo ácido numa escória passível de ser retirada, e conversores básicos em funcionamento na Europa ocidental e central (inclusive a Austro-revestiram o conversor com matéria bá- Hungria), com uma capacidade de 755 toneladas. A produção de 1883 totalizou mais de 6oo.ooo toneladas; compare-se isso com a produção ácida de Bessemer, que levou bem mais de uma década para atingir esse nível. 31 A adaptação do processo ao forno Siemens- TABELA 9. PRODUÇÃO DE AÇO PELOS PROCESSOS Martin teve quase a mesma rapidez. BESSEMER E SIEMENS-MARTIN (FLUSSEISEN) - (em milhares (4) Aço versus ferro forjado. Juntos, os processos de Bessemer, SiemensMartin e de toneladas) básico empurraram o custo real do aço bruto uns 80% ou 90% para baixo, entre o início da década de 1860 e meados da de 1890, e abriram os depósitos de minério 1865 1869 1873 1879 de ferro da terra a uma exploração frutífera. As conseqüências podem ser Grã-Bretanha 225 275 588 1030 acompanhadas na curva da produção, que se comporta, em sua íngreme Alemanha , 99,5 161 310 478 tendência ascendente, como a de uma França 40,6 110 151 333 Bélgica 0,65 2,9 22 111a. Inclui Luxemburgo. Novas fronteiras a partir de 1893.Fonte: Beck, Geschichte des Eisens, V, p. 233 e 308. 267 266
    • nova substância confrontada com uma demanda extremamente elástica. A produção nha, as curvas de produção só se cruzaram em 1887; na França, somente em 1894.conjunta da Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica em 1861 - antes que o processo Essas fases amenas de retomada do crescimento e das realizações na obsolescênciaBessemer se impusesse - foi de aproximadamente 125.000 toneladas; em 1870, a são um fenômeno econômico comum: basta testemunhar os anos dourados dasprodução total talvez tenha atingido 385.000 toneladas; em 1913, importou em carruagens depois do surgimento da ferrovia, ou o desenvolvimento dos veleiros32.020.000 toneladas, ou um aumento de 83 vezes (10,8% por ano) ao longo do e das grandes escunas intercontinentais após a introdução dos navios a vapor. Elasperíodo de 43 anos. derivam de um ou mais dentre vários fatores: (1) uma resposta tecnológica Convém contrastar com isso o declínio do ferro forjado, que fora por muito criativa ao desafio do novo concorrente; (2 ) uma compressão dos custos e umatempo o sustentáculo da estrutura industrial. A princípio, a antiga forma maleável eliminação do desperdício na luta pela sobrevivência; (3 ) oportunidades decorrentes daresistiu: era mais barata e, em países como a Inglaterra, havia uma fortuna investida em demanda criada pela técnica mais eficiente (cf. o papel dos coches como alimentadoresusinas de pudlagem. Além disso, a homogeneidade dos primeiros aços bessemerizados dos troncos ferroviários nas décadas de 1830 e 1840).deixava a desejar, e mesmo a variedade produzida nos fornos de revérbero, Como vimos, o ferro forjado experimentou o primeiro desses fatores semantes de tudo mais dispendiosa, não era suficientemente boa para os usos mais sucesso. A meta revelou-se uma quimera. Dadas as vantagens qualitativas do aço, éexigentes - as grandes chapas laminadas, por exemplo. Tampouco se deve subestimar a altamente improvável que a mecanização pudesse ter feito mais do que retardar oforça da inércia e do conservadorismo nessas questões o ceticismo do Almirantado inevitável. Mais eficazes foram a racionalização geral dos métodos e a redução dosbritânico, a relutância dos ferroviários franceses em admitir que os trilhos de aço salários (compare-se com a compressão dos salários dos tecelões manuais empodiam durar mais que os de ferro, numa proporção de seis para um. Em pouco décadas anteriores), que possibilitaram uma redução dos preços a cerca da metade,tempo, entretanto, os fabricantes de aço aprenderam a corrigir as falhas de seu desde o início da década de 1870 até meados da seguinte.produto, e os aumentos de eficiência eliminaram uma fração suficiente da diferença de Quanto ao terceiro fator, o ferro forjado e o aço eram essencialmente substitutos,preços para tornar impossível a concorrência na maioria das aplicações. As ferrovias e não complementares, sobretudo após a invenção do aço básico. Sem dúvida, aforam os primeiros grandes consumidores (depois dos militares, é claro) a adotar o demanda geral de metal - de todos os metais - estava aumentando, e o efeito do açonovo metal. A mudança estava substancialmente consumada na década de 1870; foi es- barato sobre a renda pode ter redundado num certo beneficio para a antigatimulada pela razão decrescente entre os preços dos trilhos de aço e de ferro- 2,65:1 substância. No fim, entretanto, o ferro passou a ficar restrito a aplicações em que aem 1867, 1,50:1 em 1871 e 1,16:1 em 1875. 32 Em contraste, a construção naval, maleabilidade não era uma desvantagem e a resistência à corrosão era especialmenteque estabelecia padrões mais altos, sob o olhar vigilante de seguradoras como o desejável: âncoras e correntes de âncora, grades e portões ornamentais, móveis paraLloyds, só começou a aceitar aço em lugar do ferro no fim da década de 1870. Em jardim e coisas similares.1880, 38.000 toneladas de embarcações feitas de aço foram acrescentadas ao cadastro (5) Divisão internacional do trabalho e competição. Seria demasiadamente demoradodo Reino Unido, contra 487.000 toneladas feitas de ferro. Cinco anos depois, o ferro discutir em detalhe as diferentes características técnicas do aço bessemerizado eainda predominava 308.500 toneladas contra 185.000 -, especialmente na do fabricado pelo processo de Siemens-Martin, ácido e básico, e analisar asconstrução de barcos a vela, nos quais o custo inicial era uma consideração decisiva. implicações de ambos para o desenvolvimento industrial. Elas estão resumidasMais cinco anos de economia na fabricação de chapas nos fornos de revérbero, na tabela aqui apresentada. Em termos muito sucintos, o aço Bessemer era mais barato,entretanto, bastaram para virar a mesa: 913.000 toneladas de aço contra 46.000 de de qualidade mais aproximativa, e produzido em fábricas maiores e que exigiamferro em 1890 .33 maior inversão de capital; o Siemens-Martin era mais homogêneo, mais próximo das A rigor, o ponto alto da fabricação de ferro forjado só foi atingido na especificações e mais adequado à montagem feita por encomenda. O primeiro tinhaInglaterra e na França em 1882 (2.841.000 e1.073.000 toneladas, respectivamente), seu emprego mais importante nos trilhos; o segundo, nas chapas. À medida quee em 1889 na Alemanha (1.65o.ooo toneladas). Ainda em 1885, a Grã-Bretanhaproduzia mais ferro pudlado do que aço; na Alema- 268 269
    • os padrões de produção se elevaram e a construção de ferrovias foi reduzida, a tendência a longo prazo passou a ser para o aço Siemens-Martin; porém foi muito mais rápida na Inglaterra, a maior construtora mundial de navios, do que na Europor continental (Tabela 11). Parte dessa diversidade deveu-se a diferenças nos recursos naturais. A Inglaterra, com seus minérios de hematita, permaneceu fiel ao processo ácido durante muito tempo. Já os países continentais - obrigados a se concentrar na técnica básica por causa da ausência de minério de hematita e incentivados pela abundância de minério rico em fósforo, na Lorena e na Suécia - constataram que o aço de Thomas (isto é, o Bessemer básico) era especialmente recompensador. Todavia, não se deve subestimar o fator humano. Estimulados pela necessidade, os siderurgistas continentais trabalharam no processo básico com uma determinação científica: obtiveram e conservaram uma mistura adequada e produziram um metal de qualidade boa e uniforme. Os ingleses experimentaram e improvisaram, e a irregularidade de seu produto meramente confirmou as dúvidas dos consumidores, o que, por sua vez, desestimulou a experimentação e os investimentos. A situação inteira era auto-reforçadora. Por volta de 1890, os países continentais produziam mais aço básico do que ácido, enquanto este último respondeu por 92% da produção inglesa nos fornos de revérbero e por 73% de sua produção em conversores ainda em 1897.34 As proporções respectivas foram de 63% e 65% em 1913, e foi preciso haver a Primeira Guerra Mundial para afastar a Grã-Bretanha de sua fidelidade ao processo mais antigo e mais dispendioso.35 Essa especialização por tipo de processo moldou e foi moldada pelos padrões de crescimento das respectivas indústrias siderúrgicas nacionais. A Inglaterra tinha usinas relativamente pequenas; a Alemanha, grandes. Por volta da passagem do século, as maiores usinas inglesas produziam apenas o equivalente à produção das usinas vestfalianas médias. (Contraste-se isso TABELA 11. PERCENTAGEM DO AÇO PRODUZIDO PELO PROCESSO SIEMENS-MARTIN 1890 1913 1930 Grã-Bretanha 43,6 79,2 94,3 Alemanha 17,4 40,2 52,3a França 36,8 33,8 27,5 Bélgica desprezível desprezível desprezível a. Chegara a atingir 6o,6% em 1920. Fonte: T.H. Burnham e G.O. Hoskins, Iron and Steel in Britain 1870-1930, Londres 1943, p. 183270 271
    • com a situação de uma geração antes, que já descrevemos.) Isso tampouco foi inclináveis ate a boca do forno - ocasionalmente suplementados pela força muscularsimplesmente uma questão de uma resposta demorada à oportunidade: as novas fábricas humana e pelas pás manuais -, eram desalentadoramente inadequados. Em seu lugar,inglesas, na década de 1890, tinham 1/4 a 1/3 do tamanho de suas concorrentes alemãs. surgiram as esteiras contínuas, os guindastes móveis e os trilhos suspensos, movidos a Essa disparidade estendia-se, retrospectivamente, ao estágio da fundição: o energia elétrica.membro médio do cartel alemão do aço (1903) era quatro vezes maior do que seu E havia também as 3.000 toneladas de ferro a ser escoadas, despejadas nas formas,análogo inglês (1900) e mais de duas vezes maior do que a empresa siderúrgica média na suspensas e fragmentadas para a refundição; ou, melhor ainda, diretamente entregues àárea de Cleveland. E a desvantagem da Inglaterra era cumulativa, pois a Alemanha usina para serem convertidas em ferro forjado ou aço. Como se assinalou antes, o rápidojuntava os grandes com os grandes, enquanto a Grã-Bretanha deixava separados os processo bessemerizado exigiu a mecanização desde o início. A título de comparação, opequenos. Em 1902, apenas 21 das firmas com fornos de revérbero, das 72 existentes período mais longo requerido pela descarbonização no processo Siemens-Martinna Inglaterra, respondendo por 1/4 da produção, dispunham de altos-fornos adjacentes, incentivava uma certa tolerância para com as interrupções para transporte e manipula-ao passo que a integração com a fundição era quase universal no Reich. O mesmo se ção: havendo instalações adequadas, levava umas três horas e meia para se encheraplicava aos vínculos com as etapas posteriores da manufatura: enquanto a tendência da manualmente um forno de quarenta toneladas.39 Também aí, porém, a tendência para aVestfália era construir usinas de laminação nas siderúrgicas, os laminadores mecanização foi inexorável. No final do século, os siderurgistas alemães, em especial,ingleses dependiam cada vez mais de fontes externas para a obtenção de metal estavam imitando a praxe norte-americana e construindo fornos inclináveis combruto. capacidade de 100 a 300 toneladas, aparelhados com equipamentos de carga movidos a O tamanho e a integração das fábricas, além disso, estavam estreitamente energia hidráulica ou elétrica. O efeito do simples carregamento mecânico foirelacionados com a técnica e a produtividade. A maquinaria alemã, originalmente reduzir uma força de trabalho de 46 operários especializados e não especializados pormenor e menos eficiente do que a inglesa, aumentou rapidamente de tamanho e forno para 16, cortando os custos de mão-de-obra (já se levando em conta adesempenho, até que, na virada do século, superou a de sua precursora por ampla amortização do capital adicional) em 58%.40margem.36 Em 1870, o alto-forno médio inglês produzia mais 74% de ferro-gusa do Finalmente, e talvez mais importante, houve uma forte tendência à maiorque seu equivalente alemão - 8.700 contra 5.000 toneladas. Em 1910, as posições automatização da forja. O desenvolvimento deu-se em duas direções. Uma delas,haviam-se invertido: Alemanha, 49.000 toneladas; Inglaterra, 30.000. O mesmo se retomando o avanço implícito na combinação de pudlagem e laminação dedeu no aço: em 1890, o forno de revérbero médio na Alemanha era também 50% Cort, consistiu em eliminar o martelo tanto quanto possível e fazer com que todo omaior do que o inglês - 15 toneladas contra 10 - e a produção era correspondentemente trabalho de compressão e moldagem fosse feito pelo laminador. Por mais potente esuperior; e os conversores alemães vertiam uma média de 34.000 toneladas em 1901, rápido que fosse o martelo a vapor, ele tinha por natureza uma operação intermitente eenquanto o equipamento inglês produzia 21.750.37 originava um problema custoso e difícil na manipulação manual. Basta olhar para E mais, o próprio tamanho do equipamento alemão impunha uma extensa qualquer das centenas de desenhos de forjas de meados do século XIX que chegaram atemecanização. Um forno que produzia 3.000 toneladas de ferro-gusa por semana nós, para aquilatar as desvantagens da antiga técnica: a oficina, em geral, é uma cavernaconsumia 6.000-9.000 toneladas de minério, talvez 1.000 toneladas de calcário e abobadada, iluminada pelo brilho dos fornos e dos lingotes e barras ardentes; o piso éumas 4.000 toneladas de coque. Eram necessários cerca de 6oo caminhões de frete, uma selva vulcânica de máquinas resfolegantes, movidas a vapor, pilhas de ferro emcom capacidade média de 20 toneladas, apenas para levar as matérias-primas até a incineração, ferramentas momentaneamente deixadas de lado e o emaranhado suspensousina. (Teriam sido necessários 1.200 ou mais dos caminhões ingleses menores.) 38 das gruas aéreas; e no meio, pendendo silencioso mas mortífero de seu cabo deE, uma vez entregues, essas matérias-primas tinham que ser levadas até o fogo de algum sustentação, tem se o enorme cilindro ou bloco de metal incandescente, cutucado emodo. Os sistemas tradicionais de guincho e contrapeso, para puxar pequenos vagões empurrado até a bigorna, depois torcido e largado noutra posição, e depois mais outra, pelas torquezes e varas de até dezenas de pigmeus enegrecidos e 272 273
    • suados. Ao que devemos acrescentar o que os desenhos não conseguem transmitir: o reaquecimento através de guindastes hidráulicos (posteriormente, elétricos), barulho, o calor enervante e o mortífero ar enfumaçado e poeirento.41 equipados com tenazes gigantescas. O próprio reaquecimento foi progressivamente Por volta de 1870, a laminação direta de grandes massas estava essencialmente eliminado com o aumento da rapidez do processo de moldagem. Havia até restrita aos trilhos; afora isso, considerava-se necessário "consolidar a estrutura" dos laminadores contínuos para a moldagem de peças estreitas, com dez ou mais conjuntos lingotes por batedura antes da compressão. Alguns dos ingleses começaram a escapar de cilindros que estiravam e moldavam a barra num único passe. Exigia-se grande dessa etapa intermediária na década de 186o, e a contração dos anos 187o ajudou a precisão para chegar a esse resultado: numa extremidade, o metal muito reduzido e quase disseminar essa prática em função da concorrência que se acentuava. Na fundição de acabado passava célere pelos últimos cilindros, de quarenta a sessenta milhas por hora, John Brown, em Sheffield, um laminador e 18 homens executavam o trabalho de 3 enquanto, no outro extremo, a mesma peça de metal, grossa e não moldada, ainda era martelos e 54 homens.42 lentamente alimentada nos cilindros desbastadores. Também se requeria Observe-se, no entanto, o coeficiente 3: mesmo com o laminador, eram engenhosidade e pesados desembolsos de capital para beneficiar o produto final:necessários 18 homens para direcionar o curso do metal, recebê-lo ao completar o "tesouras volantes" para o corte e instalações para resfriamento, empilhamento epercurso e mandá-lo de volta para outra passagem. A tarefa era tão difícil quanto a de movimentação. Esses foram os ancestrais do moderno trem de tiras a quente. Oguiar os lingotes para baixo do martelo; se havia menos necessidade de força e sistema contínuo foi originalmente inventado na Inglaterra, onde um ou dois exemplosprecisão, exigia-se mais agilidade para manejar a barra ou a chapa ao ser cuspida do meio foram construídos na década de 18 6o para fazer vergalhões e trilhos. Mas não tevedos cilindros. O cansaço podia ser fatal e, na verdade, a maioria dos acidentes ocorria nas aceitação geral. Só na década de i 89o a idéia foi retomada nos Estados Unidos, dali seprimeiras horas da manhã.43 difundindo para a Europa. De modo geral, os engenheiros continentais, especialmente A resposta - e essa é a segunda das duas linhas de desenvolvimento a que nos os alemães, os adotaram com maior rapidez. 44referimos acima - estava em minimizar a manipulação, automatizando o laminador. Um A eficiência gera eficiência: na verdade, torna-a necessária. Assim como odos aperfeiçoamentos, introduzido pela primeira vez na Inglaterra em 1866, consistiu tamanho e a integração facilitaram, na Alemanha, uma maior intensidade de capital,em adaptar um motor de reversão aos cilindros, para que o metal pudesse ser levado também a intensidade de capital incentivou uma organização mais racional do trabalho epara frente e para trás sem sair da máquina. A economia de tempo e mão-de-obra foi uma simplificação da integração dos fatores de produção. O leitor deve estar lembradotamanha que a capacidade mais do que duplicou; mas o esforço imposto ao motor, que a de que um dos mais graves obstáculos à disseminação do tear automático quecada intervalo de poucos segundos tinha que inverter seu momento e o dos cilindros para modificava os padrões de produção - foi o alto custo imobilizado numa maquinariarecomeçar no sentido inverso, era tremendo. A solução norte-americana, amplamente valiosa; pela mesma razão, a necessidade de modificar os cilindros foi umadotada na Alemanha, foi o laminador com cadeira em trio, no qual um terceiro empecilho à adoção de laminadores mais longos e mais rápidos. Para extrair o máximocilindro, posicionado sobre os dois habituais, permitia que o metal passasse de volta de seu equipamento, os alemães foram obrigados a padronizar e, dessa maneira, esten-num "nível superior", sendo moldado enquanto isso. der seus fluxos de produção. Já em 1883, a União das Sociedades de Arquitetos e O trabalho mais rápido exigiu aperfeiçoamentos nas técnicas de alimentação, pois Engenheiros Alemães elaborou um conjunto completo de cortes padronizados para oa tarefa de apanhar o metal num laminador em trio e erguê-lo ou abaixá-lo para enviá- ferro laminado na construção naval, na engenharia e na construção civil.45 Em 1900, oslo de volta pela trilha inversa era, no mínimo, mais árdua e perigosa do que nos siderurgistas ingleses produziam rotineiramente 122 cortes estriados e angulares,laminadores com cadeira em duo. Na virada do século, a praxe mais avançada consistia enquanto os alemães produziam 34.em mover o metal sobre mesas rolantes, virá-lo através de barras inversoras Finalmente, havia a questão do desperdício. No século XVIII e início doautomáticas, levantá-lo e abaixá-lo por meio de içadores, e introduzi-lo e retirá-lo XIX, as melhores empresas britânicas eram internacionalmente famosas por suados fornos de limpeza, sua atenção para com os detalhes e seus controles meticulosos do estoque. Wedgwood era inflexível nesse aspecto; os visitantes continentais da usina de ferro de Crawshay, no País de Gales, oriundos de 274 275
    • regiões mais pobres, consideraram isso um dos traços mais impressionantes e glesas vergam-se como flores emurchecentes, enquanto as alemãs continuam em suaapropriados da organização produtiva da siderúrgica. No fim do século, íngreme ascensão até bem às vésperas do conflito. No início da década de 1870, aentretanto, as posições tinham-se invertido. Os ingleses que visitaram as aciarias Inglaterra produzia quatro vezes mais ferro e o dobro do aço da Zollverein. No qüinqüênioalemãs maravilhavam-se com os depósitos de coleta do óleo que pingava das caixas de 1910-14, em contraste, a Alemanha produziu em média quase o dobro do ferro e maislubrificação e com o vapor que era coletado, condensado e reutilizado.46 Acima de do dobro do aço. O ponto de passagem foi 1893, no tocante ao aço, e 1903 quanto aotudo, eles admiravam a eficiente utilização alemã do combustível, tantas vezes ferro-gusa.considerado o melhor critério do desempenho metalúrgico. A discrepância, nesse Vale a pena assinalar mais um aspecto sobre a perda da hegemonia metalúrgica pelaaspecto, evidenciava-se em todas as etapas - desde a coqueificação, onde os fornos Grã-Bretanha, que efetivamente datou de 1890, quando os Estados Unidos assumiramcontinentais forneciam energia para as máquinas a vapor e geravam como subprodutos de forma estável o primeiro lugar na produção de ferro e aço. Durante muito tempo, osalcatrão e amoníaco para a indústria química;47 até a fundição, onde a mise au mille alemã efeitos dolorosos da expansão no exterior foram parcialmente mitigados pela absorçãoera 15% a 25% mais baixa do que a praxe britânica, e os gases quentes dos altos- da grande maioria da produção adicional pelos mercados dos países produtores; tanto osfornos acionavam motores de combustão interna cuja produção superava os Estados Unidos quanto a Alemanha precisavam de vastas quantidades de aço em suasrequisitos da empresa e fornecia energia elétrica a consumidores externos; e ainda à próprias economias. Em 1910, no entanto, a Alemanha estava exportando mais ferro eprodução do aço, na qual a integração vertical alemã possibilitava a montagem do aço do que a Inglaterra, que fora o principal fornecedor mundial por mais de um século; piormetal a quente do começo ao fim, enquanto os ingleses, cuja alta proporção gusa- ainda, os siderurgistas do Ruhr estavam vendendo parte de sua produção no próprio Reinosucata tornava esses métodos ainda mais lucrativos, tinham que movimentar e Unido. A coroa real estava caindo, e as doutrinas dos teóricos econômicos sobre areaquecer os lingotes e barras em várias etapas. As estatísticas sobre o consumo de vantagem comparativa e a divisão internacional do trabalho eram um consolo precário.combustível nos processos pós-fundição são eloqüentes: 22,5 quintais por toneladaproduzida na Inglaterra em 1929 (31 quintais em 1920), 4,9 nas usinas belgasmédias, 3,2 nas usinas integradas belgas e menos ainda na Alemanha.48 Uma nova indústria química Os efeitos do maior coeficiente de capital e da organização mais racionalevidenciaram-se na produtividade. A produção por homem-ano (uma aproximação A indústria química, que é, por definição, a transformação da matéria para finsnecessariamente grosseira da produtividade real) na fundição e laminação do aço produtivos, é a mais multiforme das indústrias. Assim, a metalurgia é, tecnicamente, umatingiu 77 toneladas na Alemanha, em 1913, comparadas a 48 toneladas na Inglaterra ramo da química aplicada, e entre nossos novos materiais da passagem do século, comoem 1920, quandq, presumivelmente, a produtividade foi superior à de antes da guerra.49 vimos, teriam que figurar as ligas de aço e os metais não ferrosos, como oTambém se evidenciaram nos preços. Os trilhos e chapas ingleses, originalmente os mais alumínio. A fabricação de vidro e a de papel também são ramos do setor químico,baratos do mundo, tornaram-se mais caros do que os produtos equiparáveis o mesmo acontecendo com a fabricação de cimento e borracha e com a cerâmica.alemães por volta da passagem do século, tanto nos respectivos mercados internos Em todas essas áreas, o fim do século XIX assistiu a importantes inovaçõesquanto na exportação. Às vésperas da guerra, a diferença das cotações das chapas em tecnológicas. Dentre os aperfeiçoamentos químicos propriamente ditos, podemosEssen e Clyde era de 20% a 25%. assinalar a invenção e aprimoramento do papel de polpa de madeira, Como resultado, a tecnologia superior caminhou de mãos dadas (utilizo essa aproximadamente a partir de 1855 (há bibliófilos e estudiosos que se recusariam aexpressão deliberadamente, pois era óbvia a existência de uma relação recíproca) com a aceitar isso como um avanço); o processo eletrolítico de Hall-Héroult para extrairexpansão industrial. Um gráfico semi-logarítmico da produção de ferro e aço oferece a alumínio da bauxita (1886), que transformou um metal precioso, usado nas colheres damais vívida ilustração possível do curso da rivalidade econômica internacional no mesa de Napoleão III, num substituto industrial leve e não corrosivo para o ferro e o açoperíodo de 1870-1914: as linhas in- em algumas de suas aplicações; e a criação de materiais mais refratários, na fabricação de tijolos para os fornos (magnesita e dolomita, a partir de 1860), indispensáveis para 276 277
    • as temperaturas mais elevadas, tornou-se costumeira nos processos que usavam calor. de caráter instrumental e mais economizador de mão-de-obra do que de capital: tanques Pelo menos igualmente importantes na elevação da produtividade nos ramos químicos de decomposição maiores; torrefadores mecânicos; o forno rotativo (fim da década de foram, provavelmente, as inovações mecânicas e instrumentais: a introdução do forno 1860); e a cuba de Shanks (1861), que possibilitou a extração da cinza negra por meio de regeneração (fim da década de 1850) e da máquina de garrafas semi- da pressão hidrostática, em vez do trabalhoso padejamento de um tanque para automática (a partir de 1859) na indústria de vidro; o uso de prensas automáticas e outro. 51 Mas, no cômputo geral, essa indústria nunca havia usado muita mão-de- máquinas de extrusão e de fabricação de mangueiras na indústria de borracha; do obra, e o impacto dessas inovações foi correspondentemente limitado. Em 1862, cerca forno contínuo de câmara longa, de prensas especiais e de máquinas de extrusão na de 10.000 homens estavam empregados na fabricação pelo processo de Leblanc na fabricação de tijolos e cerâmicas; do forno de cuba (desenvolvido na década de Inglaterra e no País de Gales, em contraste com 400.000 na indústria têxtil. Dentre 1870 e introduzido na Inglaterra, proveniente da Alemanha, na de 1880) e do forno eles, uma pequena parcela (provavelmente menos de 1/5) era necessária para executar o rotativo (aperfeiçoado no começo da década de 1890) na indústria de cimento. processo químico propriamente dito; os demais ocupavam-se do empacotamento, Mas todos esses aperfeiçoamentos ocorreram no que ainda eram pequenas áreas manuseio e manutenção. 52de atividade industrial - os grandes dias da borracha e do cimento, por exemplo, ainda Mesmo assim, a oferta mal se mantinha à frente da procura. O nível dosestavam por vir -, ou então, tendo ocorrido na fabricação de produtos acabados, tiveram preços dos álcalis a longo prazo ficou inalterado durante esses anos; somente osum impacto limitado na economia como um todo, através da economia indireta e da materiais de alvejamento mostraram um declínio significativo e, mesmo assim,demanda derivada. Os grandes avanços da indústria química no período que estamos apenas depois da crise de 1873, quando a deflação geral já se havia instalado. Foiexaminando tiveram duas características: oportunidade imediata e conseqüências nesse ponto que a soda de amoníaco entrou em cena.ramificadas. Os dois mais importantes foram o método de fabricação de álcalis de Solvay A técnica de Leblanc era uma ofensa tanto para os químicos quanto para ose a síntese de compostos orgânicos. fabricantes. Mesmo depois de Gossage ter desenvolvido, em 1836, suas torres de i. L.F. Haber chamou o período de 1860 a 1880 de "anos dourados da indústria da condensação do ácido clorídrico obtido como subproduto, cujos vaporessoda de Leblanc". A demanda de álcalis aumentou junto com a de produtos têxteis e envenenavam o campo nas imediações de todas as fábricas de álcalis, o cloro existentesabão, cujo consumo subiu paralelamente à elevação da renda, à melhoria do nele era perdido pela indústria. Além disso, o processo ainda desperdiçava umsaneamento e aos padrões de vida mais elevados; e a introdução do esparto na enxofre valioso, para não falar do cálcio e de grandes volumes de carvão inalterado, sobfabricação de papel, a fim de suplementar a oferta obviamente insuficiente de a forma de um lodo malcheiroso que os habitantes de Lancashire batizaramfarrapos, exigiu grandes quantidades de pó branqueador. Na geração de 1852 expressivamente de "galligu", o que acrescentava ao prejuízo da perda o insulto daa 1878, a produção inglesa de soda calcinada triplicou, passando de 72.000 para remoção dispendiosa.208.000 toneladas; a produção de cristais de soda subiu quase com a mesma Comparativamente, a técnica da soda de amoníaco era mais apurada (no sentidorapidez, de 61.000 para 171.000 toneladas; e a de pó alvejante aumentou quase matemático da concisão e da simplicidade) e trazia todas as promessas de ser maisoito vezes, de 13.000 para 100.000 toneladas. A maioria desses álcalis era consumida lucrativa. A reação química fora descoberta por Fresnel já em 1811: podia-se obterinternamente, mas uma parcela expressiva e crescente ia para o exterior, primeiro bicarbonato de sódio e cloreto de amônio a partir de soluções concentradas de sal (cloretopara os Estados Unidos e, em seguida, para a França, após o tratado comercial de 1860, de sódio) e amoníaco (NH3), tratando-as com ácido carbônico (HCO3). O bicarbonatoe para a Zollverein. As exportações passaram de 16.500 toneladas em 1847 para de sódio, ao ser aquecido, liberava o carbonato de sódio (soda) desejado, além de água273.000 em 1876, num salto de mais de 1.500 %. A produção dos países e dióxido de carbono. A única dificuldade prática - e que se revelou séria - eracontinentais, embora crescente, era uma pequena fração da britânica.50 a impossibilidade de recuperar o amoníaco, naquela época um composto dispendioso, a Esse crescimento evocou vários aperfeiçoamentos da técnica, a maioria partir do cloreto de amônio obtido como subproduto. O problema era essencialmente de instalações - construir equipa- 278 279
    • mentos para fazer o que todos sabiam que devia e podia ser feito. Dezenas de cientistas como subproduto (processo de Weldon, 1869-70). Os preços dos álcalis de Leblance empiristas gastaram dezenas de milhares de libras esterlinas para encontrar uma caíram, em 1890, para cerca de 1 / 3 do auge que havia atingido às vésperas do processosolução. "Nunca a realização industrial de qualquer processo foi tentada com tanta Solvay (1872-3).freqüência e por um período de tempo tão extenso..." Nesse nível, os álcalis ingleses eram competitivos, e a estabilidade do preço do pó Ernest Solvay (1838-1922), nascido no pequeno vilarejo belga de Rebecq, herdou branqueador gerado como subproduto foi um dividendo inesperado. As exportaçõessua participação na indústria química. Seu pai era refinador de sal, entre outras coisas; inglesas tiveram sua tonelagem mais do que duplicada de 1870 a 1883 e permaneceramseu tio, diretor de uma fábrica de gás, o único lugar em que o amoníaco era quase um em torno desse nível elevado até 1895. Então começou a agonia. Em parte, ela teveproduto gratuito. Foi na fábrica do tio que ele observou pela primeira vez o desperdício uma origem química. A introdução dos métodos eletrolíticos de preparação do cloro edo amoníaco na destilação do carvão mineral; e foi ali que realizou seus primeiros de substâncias cáusticas na década de 1890 atingiu diretamente a operação maisexperimentos na fabricação de soda, concebeu sua torre para misturar dióxido lucrativa da indústria que usava o processo Leblanc. Mais uma vez, a Inglaterra viude carbono com salmoura amoniacal e construiu seu destilador para recuperar o outros países assumirem a liderança: em 1904, toda a produção norte-americana deamoníaco. Em dezembro de 1863 ele tinha apenas 25 anos de idade , Solvay fundou, cloro e 65% da alemã foi eletrolítica; os números correspondentes na França e nocom ajuda externa, a firma que leva seu nome e que continua a ser, ate hoje, um dos Reino Unido foram 19% e 18%.54 E, em parte, a agonia foi resultante do protecionismogigantes da indústria química mundial. no exterior; a tarifa Dingley, de 1897, nos Estados Unidos, foi particularmente Os anos imediatamente subseqüentes assistiram a numerosas decepções e a danosa. O total das exportações caiu de 312.400 para 188.5oo toneladas; a produçãoexperimentos contínuos. Foi preciso mais uma década para aperfeiçoar o processo; decresceu muito menos, cerca de 10%, mas o fato é que decresceu - pela primeira vezmas, em meados da década de 1870, o álcali de Solvay, mesmo com o ônus dos desde o começo da Revolução Industrial. A produção alemã aumentou, nesse meio-pagamentos de royalties, podia ser vendido a um preço cerca de 20% mais barato que o tempo, e começou a competir até mesmo nas áreas tropicais que sempre tinham sidodos produtos do processo Leblanc. A maior economia se dava na matéria-prima. uma reserva britânica. Seguiu-se então uma luta tecnologicamente análoga à ocorrida entre o aço barato Assim desapareceu a última reserva da indústria pautada no processo Leblanc (ose o ferro forjado, e economicamente análoga à competição entre as indústrias de aço lucros proporcionados pelo processo de recuperação de enxofre de Chance-Claus -inglesas e alemãs. A nova técnica espalhou-se rapidamente pelo Continente, finalmente, uma maneira de salvar o enxofre! - não foram suficientes como forma depredominantemente na versão de Solvay, mas, em pequena medida, sob a forma de compensação). A fundação, em 1890, da United Alkali Co. Ltd., que reuniu num amplovariações. Na França, menos de 1/4 do álcali produzido em 1874 foi feito pelo processo truste o grosso da capa cidade Leblanc do país, e a subseqüente negociação de preços edo amoníaco; passada uma geração, em 1905, a cifra foi de 99,65%. A Alemanha foi os acordos sobre produtos básicos feitos com o principal produtor de soda de amoníaco, amais lenta a princípio; da quantidade relativamente pequena de soda produzida em Brunner, Mond & Co., serviram apenas para retardar o fim. Apesar de toda a1878, cerca de 42.500 toneladas, apenas 19% foram do tipo feito com amoníaco. Em determinação e engenhosidade que a companhia conseguiu concentrar, houve uma1887, porém, a proporção foi de 75%; em 1900, superou 90% das cerca de 300.000 decepção após outra, os dividendos pararam e as ações reduziram-se a uma fração de seutoneladas.53 valor original, a ponto de não haver capital suficiente para jogar fora a sucata e Somente a Inglaterra ficou para trás. Havia nela um grande investimento nas recomeçar. Em 1920, nem bem decorrido um século desde a sua introdução, a antesfábricas do tipo Leblanc, que os empresários não estavam dispostos a abandonar. E grandiosa indústria Leblanc da Inglaterra fechou as portas.esses produtores, duramente pressionados, espremeram novas economias e uma renda Tal como no aço, as diferenças de técnica refletiram-se nas taxas deadicional de suas fábricas Leblanc, através de uma atenção mais rigorosa para com os crescimento. Não dispomos de cifras inglesas sobre a fabricação de álcalis nos anoscustos, da introdução de equipamentos mais eficientes e da recuperação de cloro do imediatamente precedentes à Primeira Guerra Mundial, e as estatísticas alemãs queácido clorídrico gerado possuímos não são comparáveis, porque os produtos são 280 281
    • medidos em diferentes graus de pureza. Mas temos, sim, estimativas das respectivas que as sínteses experimentais estavam muito longe dos processos comerciais. A produções de ácido sulfúrico, "a mais importante substância ,química inorgânica para transposição dessas reações dos laboratórios para as fábricas exigiu o desenvolvimento fins técnicos". Ele é usado na produção de outros compostos inorgânicos, como o de novas fontes e padrões de suprimento, de técnicas auxiliares para a fabricação sulfato de sódio; na fabricação de fertilizantes, especialmente os superfosfatos; na barata de materiais escassos, e a invenção de equipamentos confiáveis para realizar refinação de petróleo, na siderurgia e metalurgia e na indústria têxtil; na produção de o que poderiam ser reações perigosas. Numa instalação inglesa primitiva, o galpão explosivos; e ainda na fabricação de corantes e em outros ramos da química orgânica. de nitração era conhecido como "galeria de tiro". Ao mesmo tempo, a utilização dessas Em função disso, seu consumo é um parâmetro aproximado do tinturas na indústria têxtil requereu outras inovações: mordentes para os tecidos re- desenvolvimento industrial em geral. Ainda em 19oo, a produção inglesa de ácido beldes e padronagens que tirassem proveito das oportunidades oferecidas sulfúrico era quase o dobro da alemã: cerca de um milhão de toneladas contra 55o.ooo. por essas cores novas e firmes. Nesse campo, a contribuição francesa foi decisiva. Passados apenas treze anos, as posições quase se haviam invertido: Alemanha, Como implica este relato, os primeiros anos do novo ramo da indústria química 1.7oo.ooo toneladas; Inglaterra, 1.1oo.ooo. 55 pertenceram à Inglaterra, com a França em segundo lugar. Não só a maioria das 2. O trabalho teórico e experimental situado na base da indústria química pesquisas iniciais foi conduzida em laboratórios ingleses, como em nenhum outro país aorgânica foi predominantemente alemão e inglês. Alguns de seus marcos são o isolamento destilação de alcatrão de hulha para fins comerciais avançou tanto. As mesmas empresasdo benzeno por Faraday em 1825, a descoberta de Wõhler do isomerismo dos que produziam óleos pesados para a preservação da madeira (patente de Bethell de 1838)compostos orgânicos (1828), a análise e fracionamento do alcatrão de hulha por e "nafta" para utilização no fabrico de borracha e verniz podiam facilmente produzirHofmann e seus discípulos (o histórico artigo de Mansfield, "Researches on Coal Tar, também "óleos leves". As condições da oferta, portanto, eram especialmente favoráveis,Part I", foi publicado em 1849), e a reconstituição teórica da molécula de benzeno por e de fato, vários dos pioneiros da indústria química orgânica inglesa passaram doKekulé (1865). As descobertas práticas que constituíram a essência da nova indústria foram alcatrão de hulha para as matérias corantes.obra de ingleses, alemães que trabalhavam na Inglaterra e franceses. Em 1856, Perkin Na França, a ênfase em tecidos altamente coloridos e de padronagens criativassintetizou fortuitamente a primeira tintura de anilina, um tom purpúreo que recebeu o proporcionou um mercado pronto para as novas tinturas. Lyon, pátria da fabricação danome francês de mauve; Natanson e Verguin, na França, aperfeiçoaram o corante seda (a seda aceitava as tinturas de anilina melhor do que as outras fibras), foi um dosvermelho de anilina, ou magenta, em 1859; em 1863, Martius, apoiando-se nas centros. A Alsácia, com sua indústria de estampas de algodão em alta e seu antigopesquisas de Gries, fez o primeiro azocorante de sucesso comercial, o marrom de pioneirismo na química têxtil, foi outro. A área de Paris foi um terceiro. Em 1864, umBismarck; 56 e finalmente, em 1869, Perkin, na Inglaterra, e Graebe e Liebermann, na dos mais fortes produtores uniu-se ao jovem Credit Lyonnais para fundar o que foi,Alemanha, produziram a alizarina, a primeira tintura artificial a substituir um corante provavelmente, a maior empresa de corantes do mundo, La Fuchsine, comnatural, no caso, a garancina. Esse foi o último dos grandes avanços britânicos e a capital de quatro milhões de francos.primeira de uma longa série de grandes descobertas dos laboratórios alemães; marcou Nos dois países, entretanto, esse desenvolvimento precoce logo foi frustrado. Nauma mudança no locus da inovação. Simbolizou também a chegada de uma era de Inglaterra, os amadores que usavam alcatrão de hulha foram deslocados, e ospesquisas deliberadas: Perkin esbarrou no malva por acidente, mas procurou e especialistas perderam seus melhores cientistas alemães para empresas de sua terraencontrou a alizarina, enquanto Graebe empreendeu sua pesquisa sob as ordens diretas natal. Todas as firmas, com poucas exceções, estagnaram ou faliram. A cada momento,de seu patrão, Baeyer. Os dois momentos decisivos na localização e no caráter da elas se descobriam diante de preços menores dos concorrentes estrangeiros e, quandopesquisa estiveram inter-relacionados. prosperavam, faziam-no por consentimento tácito, mediante acordos de preços ou de Um último comentário sobre os antecedentes científicos: como nos outros mercado. O capital de risco afastou-se, assustado, acentuando a espiral do declínio. Naexemplos de inovação industrial, também na química orgânica é tentador recordar as França, muitos dos produtores arruinaram uns aos outros numa dispendiosarealizações famosas e presumir as restantes. A verdade é 282 283
    • guerra de patentes na década de 1860. La Fuchsine pediu falência em 1868, contribuindo Chardonnet, 1889; a viscose de C.F. Cross, em 1892). A viscose, por sua vez, deumais do que qualquer outra coisa para convencer Henri Germain, o ríspido diretor do origem a uma família própria, que incluiu o celofane (Brandenberger, 1912), osCredit Lyonnais, de que não havia na França nenhum industrial digno de apoio.57 compostos para engomagem e uma miscelânea de outros artigos de maior ou menor A produção alemã de matérias corantes disparou. No fim da década de 1860, a utilidade. E, em 1909, Baekeland patenteou a primeira das resinas sintéticas, o chamadoindústria ainda era pequena, dispersa e essencialmente imitativa. Mal decorrida uma "plástico de mil utilidades", a baquelita. O ponto a ser assinalado é a engenhosidadedécada, a Badische Anilin, a Hõchst, a AGFA e as demais detinham cerca de metade do quase inacreditável dessas técnicas, e sua ramificação incessante para novasmercado mundial; na virada do século, sua parcela era de aproximadamente 90%. direções e produtos. Como diz o titulo da história de uma indústria química, One ThingAdemais, isso não leva em conta a produção das subsidiárias e filiais em outros países. Leads to Another [Uma coisa leva a outra]. Ali estava, sob forma inesperada, umAssim, na França, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, apenas uma das principais substituto do segredo longamente buscado da transmutação e criação da matéria.fábricas de tinturas pertencia e era dirigida por franceses; seis eram alemãs, e duas, suíças;e as quatro ou cinco pequenas empresas nacionais dependiam de firmas estrangeiras,principalmente alemãs, para obter produtos intermediários. NOVAS FONTES DE ENERGIA E FORÇA Em termos de virtuosismo técnico e agressividade de iniciativa, esse salto para ahegemonia, ou para o quase-monopólio, não teve paralelo. Foi a maior realização Este tema divide-se logicamente em três partes:industrial da Alemanha imperial. Dentre as outras nações do mundo, apenas a Suíça (i) As fontes de energia propriamente ditas: quedas dágua, carbonologrou desenvolver uma vigorosa indústria de corantes frente a essa competição. combustível (sob a forma de hulha, madeira, gás, petróleo ou similares); o sol; e asImportando substâncias químicas brutas e produtos intermediários do norte da substâncias químicas que liberam calor ou corrente elétrica nas reações.fronteira, concentrando-se em tinturas especiais que exigiam as mais avançadas técnicas (2 ) Os motores e a transformação da energia em movimento.de produção, e oferecendo a seus clientes assessoria técnica de ponta, a Ciba, a Geigy e as (3) A distribuição da energia. É sob esta última rubrica que o historiadoroutras indústrias da Basiléia conquistaram e preservaram uma importante parcela do econômico pode situar mais convenientemente a eletricidade como uma inovaçãomercado internacional. A produção suíça, em 1895, equivaleu a quase 1/5 (em valor) da tecnológica. A eletricidade não é uma fonte, mas uma forma de energia. Os dínamosalemã e a aproximadamente o mesmo volume da de todos os outros países reunidos. elétricos e os geradores similares são, essencialmente, conversores que transformam Na Alemanha, a química orgânica respondia por bem mais da metade água, vapor ou outra força primária em corrente, que então pode ser armazenada emda força de trabalho e dos investimentos de capital da indústria desse setor quando da baterias, usada diretamente na iluminação, aquecimento ou comunicação, ouPrimeira Guerra Mundial; outros países, embora com muito mais lentidão, seguiam o transformada em movimento através de motores.mesmo caminho. E que os corantes eram apenas a ponta de um novo mundo: os Por causa da inextricável relação entre esses três elementos, entretanto, não éprincípios científicos que estavam por trás dos corantes artificiais eram passíveis da conveniente dissecar o desenvolvimento histórico por esse caminho. Em vezmais vasta aplicação. Havia toda a gama de produtos derivados da celulose, essa notável disso, construiremos a história em torno das áreas de inovação que tiveram a maisfamília de carboidratos que constitui o principal elemento sólido das fábricas. Os ampla significação econômica, conservando em mente o esquema acima comoexplosivos de nitrocelulose (o algodão-pólvora de Schõnbein, 1846) vieram em um guia da lógica tecnológica.primeiro lugar, seguidos pelas lacas, pelas chapas e filmes fotográficos, pelo celulóide (oprimeiro plástico moderno, criado por Hyatt em 1868 e, apesar de toda a suainflamabilidade, ainda útil, entre outras coisas, para a fabricação de bolas de pingue- O vapor e as máquinas a vaporpongue) e pelas fibras artificiais (a sole artificielle de As décadas finais do século XIX assistiram ao esgotamento gradativo das possibilidades tecnológicas das máquinas a vapor de movimento alternado. 284 285
    • Os avanços anteriores haviam apontado o caminho para uma potência e uma zeta e biela tinha que ser acionado e parado a cada meia-volta da manivela, e a força eficiência maiores - primeiro, as pressões mais elevadas, e depois, a expansão composta requerida para a reversão desse momento aumentava conforme a velocidade do curso - e, no final do período em exame, as pressões de quarenta libras da década de 185o do pistão. A tensão acabava sendo tão grande que a máquina quebrava. Assim, haviam aumentado quatro a cinco vezes, enquanto se haviam desenvolvido motores de embora as velocidades do pistão tivessem sido levadas a atingir 1.ooo pés por expansão tripla e quádrupla para canalizar essas concentrações de energia. minuto na passagem do século, elas estavam começando a esbarrar no limite da A composição, conhecida, como vimos, por décadas, porém negligenciada, viabilidade comercial: era possível construir máquinas maiores e mais resistentes, porém a ganhou posição em meados do século. Teve sua adoção mais rápida nas embarcações, um custo desproporcionalmente mais alto de matéria-prima e espaço. onde a usina de força tendia a ser maior do que em terra e a economia de Nesse ponto, a turbina a vapor possibilitou um novo avanço tecnológico, tanto combustível era de importância crucial - cada pequeno espaço ocupado pelo em termos de potência quanto de economia. O princípio era simples: em vez de carvão era perdido pela carga. Uma espécie de máquina composta improvisada foi transformar a força em movimento alternado e converter este último em movimento obtida por MNaught em 1845, quando ele juntou um cilindro de alta pressão ao antigo giratório, ia-se diretamente para o movimento rotativo, impulsionando pás ou palhetas cilindro de baixa pressão e usou os dois para impulsionar o balancim. Foi uma solução de formato apropriado, que saíam de um eixo giratório. Qualquer criança que já tenha relativamente barata para o problema da força insuficiente, e dezenas de máquinas brincado com um cata-vento está familiarizada com essa técnica. foram "Mnaughtizadas" nos anos seguintes. Somente em 1854, porém, é que a Como foi anteriormente assinalado, a turbina hidráulica remontava já a 1827 e fora primeira máquina composta construída dessa forma foi instalada num navio; no muito aperfeiçoada nas décadas subseqüentes, particularmente em conexão com a espaço de uma década, elas se tornaram a regra nos grandes vapores oceânicos. A utilização da energia das grandes quedas dágua. Entretanto, apesar de experiências que variedade de tripla expansão foi introduzida em 1874, mas só se difundiu da década remontavam ao século XVIII, só se conseguiu uma turbina a vapor prática em seguinte, tornando-se o padrão nas grandes usinas de força, tanto em terra quanto no 1884, quando Charles H. Parsons aprendeu a dominar a energia cinética do jato de mar, no final do século.58 vapor, juntando uma série de turbinas e deixando a pressão diminuir em estágios. A principal contribuição desses aprimoramentos técnicos foi a potência: compare- Ali estava, mais uma vez, o principio da máquina composta, sob forma idealizada: co-se, por exemplo, o primeiro vapor da Peninsular & Oriental, lançado em 1829 com rodas locava-se quase todo o calor útil para trabalhar, deixando que o vapor es-propulsoras e uma máquina de baixa pressão de 60 HP, com o Campania ou o Lucania, de friasse apenas por expansão e transmitisse força ao avançar. Assim usadas em série,1893, ambos equipados com duas hélices e máquinas de expansão tripla cada uma das coroas tinha uma eficiência de 70% a 8o%, tão alta quanto a das turbinastotalizando 30.000HP; ou então, os motores industriais de 10 e 20 HP das primeiras hidráulicas e muito mais alta até mesmo que a das melhores máquinas a vapor dedécadas do século com os gigantes superaquecidos de 3.000HP das últimas. Mesmo movimento alternado.descontando os extraordinários desempenhos relatados das máquinas de balancim da A máquina de Parsons era mais potente do que qualquer motor construído atéCornuália nas décadas de 1830 e 1840, é claro que a grande redução do consumo de então. Fora concebida para acionar geradores elétricos, mas nenhum gerador era capazenergia por unidade de produção já havia ocorrido na década de 185o, quando as de empregá-la a velocidade máxima dos dínamos existentes era de 1.2oo r.p.m.máquinas em bom funcionamento usavam menos de 4 libras de hulha por HP/hora. No Assim, Parsons desenvolveu seu próprio gerador, que funcionava a 18.ooo r.p.m., e ofim do século, o desempenho máximo havia baixado para cerca de 1,5 e a curva seguia patenteou ao mesmo tempo que a turbina. Juntos, os dois representaram a maioruma linha assintótica. inovação no uso da energia a vapor desde que Watt construíra uma máquina para Contudo, a demanda de energia continuou a crescer, especialmente de alta produzir movimento rotativo; e também possibilitaram uma eficiente indústria depotência em relação ao espaço. A maneira de obter mais potência era aumentar a energia elétrica em larga escala.velocidade de funcionamento da máquina, mas, nesse caso, a necessidade de Nos anos seguintes, surgiram diversos t ipos modificados deconverter o movimento alternado em movimento giratório criava uma séria dificuldade. turbinas, dentre os quais as máquinas de ação pura, como as de C.G. Curtis, nosO conjunto do êmbolo, haste do êmbolo, cru- 287 286
    • Estados Unidos, e C.G.P. de Laval, na Suécia, que se revelaram as mais úteis. Essa forma de combustão interna ofereceu aos industriais importantes Esta última, uma turbina de um só estágio, mostrou-se particularmente eficaz vantagens sobre o vapor. Era mais eficiente, especialmente ao trabalhar em ritmo para as instalações de baixa e média potência. A turbina Parsons, entretanto, intermitente ou abaixo da carga total,61 condições estas que eram freqüentemente dominou o campo da alta potência. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, encontradas nas pequenas indústrias. Era mais limpo, e a natureza do alguns turboalternadores em série geravam mais de 1o. 000 kW (13.400HP), combustível era tal que era fácil automatizar o abastecimento; a economia de custos de enquanto navios como o Lusitânia e o Mauritânia (1907) eram equipados mão-de-obra, muitas vezes, era substancial. Por fim, o gás era comumente obtenível com turbinas duplas que somavam 68.000HP cada uma.59 como subproduto de outras operações industriais - coqueifcação e fundição, por exemplo - e, obtido dessa maneira, era muito mais barato do que quando deliberadamente destilado da hulha, ou mais barato do que a própria hulha.62 Combustão interna e novos combustíveis A principal deficiência do motor a gás era sua imobilidade. Ele ficava preso a sua fonte de abastecimento, fosse ela um cabo de alimentação ou um forno. O princípio de um motor de combustão interna é o de uma explosão direcionada: a Isso não era uma grave desvantagem para a maioria dos objetivos industriais, mas rápida expansão dos gases num espaço restrito, como um cilindro, por exemplo, realmente tornava o gás menos adequado como fonte de energia nos transportes .63 A impulsiona um objeto, geralmente um pistão, na direção desejada. A forma mais resposta foi encontrada nos combustíveis líquidos - basicamente, o petróleo e seus primitiva e elementar de um motor de combustão interna é uma arma de fogo. Essa derivados destilados. Eles tinham uma combustão praticamente tão eficiente quanto a do observação talvez pareça jocosa para alguns, ou no máximo uma curiosidade, e de gás e produziam cerca do dobro do trabalho da hulha por peso, enquanto ocupavam fato, até hoje, tais mecanismos de curso único têm tido pouca ou nenhuma utilização metade do espaço;64 como o gás, além disso, seu abastecimento podia ser feito de forma produtiva. Nos últimos anos, entretanto, mostrou-se viável moldar por explosão peças limpa e mecanizada, mediante controles automáticos. Tudo isso era especialmente de metal grandes demais para as prensas, com isso eliminando a necessidade de importante no mar, pois ali a economia contava duplamente, e tudo o que era soldas dispendiosas e intrinsecamente indignas de confian ça. Se a economizado em combustível ou em tripulação significava uma renda adicional transformação tecnológica seguir seu padrão costumeiro, esse princípio encontrará uma correspondente, oriunda da carga e dos passageiros. Não menos importante era a variedade crescente de aplicações nos anos vindouros. eliminação dos foguistas, que geralmente respondiam por mais de metade da O emprego mais importante dos dispositivos de combustão interna, tripulação. Estava ficando cada vez mais difcil encontrar homens para esse trabalhoevidentemente, foi nos motores. A possibilidade desse tipo de dispositivo, acionado por extenuante e, o que não chega a surpreender, os que eram contratados notabilizavam-seexplosões repetidas regularmente, já fora concebida no século XVII, quando o Abade por sua intratabilidade e seu apetite.Hautefeuille propôs (1678) e Huygens efetivamente construiu uma máquina A principal objeção ao petróleo era seu custo - situado entre quatro e doze vezes o doexperimental movida a pólvora. Só em 1859 porém, quando Etienne Lenoir produziu um carvão mineral na Inglaterra, por volta de 19oo. Mas o preço dos produtos demotor acionado por uma mistura de gás e ar, é que se conseguiu uma versão petróleo caiu rapidamente, à medida que se abriram novas fontes de abastecimento e apotencialmente prática. indústria aperfeiçoou seus métodos de refino e suas técnicas de distribuição. Os O protótipo de Lenoir consumia gás em demasia para ser comercialmente primeiros motores a óleo comercialmente viáveis foram, provavelmente, os utilizados nacompetitivo. Mas forneceu o padrão e, a partir dali, grande número de engenheiros e Rússia, a partir da década de 1870, para queimar os restos de ostatki provenientes dacuriosos dedicou-se ao problema. A contribuição conceitual crucial foi feita em 1862 destilação do óleo cru de Baku na fabricação de querosene e óleo para lampiões.por Beau de Rochas, cujo ciclo de quatro tempos tornou-se um padrão desde então. Mas Segundo Lunge, "praticamente toda a energia a vapor do sul da Rússia, tanto nasninguém utilizou esse princípio eficazmente até que N.A. Otto o combinou, em 1876 , fábricas quanto na navegação dos mares e rios nacionais", era extraída, c. 1910, docom a pré-compressão da carga, produzindo o primeiro motor viável a gás. O motor combustível de ostatki .6S No Ocidente, contudo, apesar das"silencioso" de Otto, como era chamado, açambarcou o mercado: em poucos anos,havia mais de 35.000 deles em funcionamento em todo o mundo.60 288 289
    • lado, a eletricidade libertou as máquinas e ferramentas da escravidão da localização;experiências difundidas e exitosas com motores a óleo, o petróleo só se impôs por outro, tornou a energia onipresente e a colocou ao alcance de todos. Essas duasrealmente depois que a abertura dos campos de Bornéu (1898) e do Texas (poço de coisas - e elas estão inextricavelmente ligadas - merecem uma consideraçãoSpindletop, 1901) tornou disponível um óleo especialmente adequado, por sua pormenorizada.composição química, para servir de combustível. Pouco depois (1902), a Hamburg- Até a segunda metade do século XIX, as máquinas sempre tinham estadoAmerika Line adotou o petróleo em lugar do carvão em seus novos navios e. foi seguida estreitamente vinculadas a sua fonte de energia. Não podiam ser colocadas longe demais,por uma após outra das grandes companhias de navegação a vapor. Ao mesmo tempo, as em virtude da ineficiência das correias e eixos de transmissão como método deesquadras das grandes potências européias começaram o processo de transformação: a distribuição da energia: cada engrenagem, junta ou volante era uma fonte de perda deItália instalou um combustor de petróleo já em 1890; a Inglaterra começou, em 1903, energia, e a torsão nos eixos longos era tamanha que a rigidez e a rotação regular sópelos navios que operavam em águas próximas das fontes de petróleo sobretudo no podiam ser mantidas através do uso de materiais desproporcionalmente pesados.Extremo Oriente , mas, decorrida uma década, construiu uma rede mundial de Também por isso, as máquinas ficavam enraizadas em sua posição ou restritas a umarmazenagem que permitiu o uso de combustível líquido em toda a frota. posicionamento ao longo do trajeto dos eixos, pois só ali eram capazes de retirar energia A aceitação no uso terrestre foi mais demorada, embora algumas ferrovias britânicas da fonte.e firmas industriais do Tâmisa experimentassem o petróleo e só o abandonassem quando Essas não eram desvantagens graves em indústrias como a têxtil, onde bancadas deos preços em alta o tornaram caro demais em relação ao carvão. A única aplicação em equipamento criteriosamente alinhadas trabalhavam lado a lado em ritmo idêntico,que ele ganhou terreno sistematicamente foi sob a forma do que os contemporâneos embora, mesmo nesse caso, o uso de eixos com mais de 200 pés de comprimento criassechamavam éter de petróleo, nossa atual gasolina. Apesar disso, o automóvel ainda era problemas dispendiosos.66 Mas elas geravam toda sorte de dificuldades em ramos comoum luxo na Europa anterior à Primeira Guerra Mundial: as estradas eram terríveis e as a siderurgia ou a engenharia mecânica, onde o trabalho era disperso, o ritmo eraquebras, freqüentes. Ninguém tinha qualquer possibilidade de prever a desigual e boa parte do equipamento estava sempre sendo movimentada. A resposta,imensa expansão da procura de combustível líquido para veículos rodoviários que nesses casos, era uma multiplicidade de máquinas a vapor, grandes e pequenas.ocorreu desde então. As próprias companhias de petróleo transportavam seus Tratava-se de uma solução dispendiosa, não apenas em termos de desembolso deprodutos em carroças puxadas por cavalos. capital mas também de custos operacionais. Como já vimos, essas máquinas menores, que muitas vezes funcionavam abaixo da potência total, eram extremamente Eletricidade ineficientes; pela mesma razão, tinham um apetite voraz de mão-de-obra. E, o que é não menos importante, eram um incômodo, com suas pilhas de carvão espalhadas porDo ponto de vista do historiador econômico, a importância da eletricidade residiu em toda parte, seu barulho e sujeira, seus gases de descarga e sua necessidade desua combinação singular de duas caracteristicas: a transmissibilidade e a flexibilidade. manutenção se parada.Com a primeira referimo-nos a sua capacidade de deslocar a energia no espaço sem A energia só pode ser economicamente transmitida ao longo de distânciasgrandes perdas. E com a segunda referimo-nos a sua conversão simples e eficiente em superiores a algumas centenas de pés através de fluidos ou gases, que podem seroutras formas de energia - calor, luz ou movimento. Uma corrente elétrica pode ser fornecidos sob pressão em tubulações rígidas ou mangueiras flexíveis, ou através dausada para produzir um ou todos eles, separadamente ou em conjunto, e o usuário corrente elétrica. Cada técnica tem seus próprios méritos e sua área de aplicação; todaspode passar de um para outro a seu critério. Ele também pode usar exatamente a são muito eficazes. Na segunda metade do século XIX, todos esses três métodosquantidade de energia necessária, grande ou pequena, e modificála quando preciso, sem começaram a ser usados, na ordem indicada.adaptações demoradas ou sacrifício da eficiência. E paga pelo que utiliza. Os sistemas de fluidos geralmente usam água - nenhum líquido é mais barato – ou Dessas caracteristicas emergiram duas grandes conseqüências. Por um óleo, que faz a lubrificação enquanto trabalha; os sistemas a 290 291
    • gás quase sempre usam o ar. São especialmente adequados para a transmissão de licos municipais de Genebra e Lyon, duas cidades abundamentemente dotadas de água pequeno e médio alcance, a distâncias de até algumas milhas entre a fonte de energia e corrente, incluíam-se nessa categoria. a máquina. Seu forte é o trabalho em que a incompressibilidade é uma vantagem e a (b) Quando as operações industriais da região prestavam-se a essas técnicas - por ação mecânica é direta elevadores, bombas, prensas, furadores e freios. Seu efeito exemplo, em portos como Liverpool e Londres, onde havia muito trabalho de nessas operações tem uma certa qualidade inexorável, e seu trabalho mais se levantamento de carga a ser feito, ou em cidades algodoeiras como Manchester, com caracteriza pela força do que pelo movimento - como pode testemunhar qualquer um suas centenas de prensas de enfardamento. que tenha andado num elevador hidráulico. No mais, a partir dos últimos anos do século XIX, a eletricidade tomou conta do Em princípio, a água e a pressão atmosférica também podem ser usadas com campo da transmissão de energia. A história desse desenvolvimento merece ser turbinas para produzir movimento giratório (cf. os moinhos). Nesse caso, porém, não acompanhada como um exemplo de cooperação científica e técnica, de invenção são tão flexíveis quanto a eletricidade nem tão adequadas ao trabalho pesado. Mas o ar múltipla, de progresso através de uma infinidade de pequenos aperfeiçoamentos, de comprimido, em especial, é excelente nos motores leves encontra hoje uma nova espírito empresarial criativo, de demanda derivada e de conseqüências imprevistas. O aplicação na odontologia, onde provou ser o acionador mais conveniente das brocas de crescimento simbiótico da energia elétrica e dos motores elétricos é como o das alta velocidade - e é quase indispensável em campos como a mineração, onde a presença máquinas têxteis e da máquina a vapor no século XVIII: uma nova técnica e sistema de de partículas inflamáveis impede o uso de motores de explosão. produção tornaram-se acessíveis, com possibilidades ilimitadas. Era o Gênese mais uma Historicamente, os sistemas de pressão pneumática quase sempre foram vez. obra de. empresas isoladas, enquanto a pressão hidráulica costuma ser distribuída a partir No início do século XIX, a eletricidade era uma curiosidade científica, um de usinas centrais. A criação dessas instalações data da invenção, em 18 5 o, do brinquedo de -laboratório. Em decorrência da investigação e experimentação acumulador, que possibilitou armazenar pressão e economizar na capacidade largamente difundidas, no entanto, tornou-se uma-forma de energia comercialmente máxima. A princípio, a água era obtida por simples retirada.das tubulações públicas. útil, primeiro nas comunicações,67 logo depois nos processos da indústria química leve e Mas, nas duas últimas décadas do século, a técnica havia chegado a um ponto em da metalurgia68 e, finalmente, na iluminação. Dentre estes, a última teve o maior que o capital privado estava disposto a investir em usinas de bombeamento e impacto econômico, em. virtude de suas implicações para a tecnologia da energia em sistemas de distribuição independentes. A iniciativa inglesa foi particularmente ativa geral. nesse aspecto. Ainda em meados dos anos noventa, havia engenheiros convencidos de A invenção da lâmpada de filamento incandescente, sobretudo o tipo que a pressão hidráulica era superior a qualquer outro meio de transmissão de de alta resistência de Edison, foi crucial nesse aspecto. Pela primeira vez, a eletricidade energia. Em 1894, a Antuérpia chegou realmente a tentar usá-la para distribuir oferecia algo que era útil não apenas na indústria, ou no comércio, ou nos palcos teatrais, energia para centrais elétricas espalhadas pela cidade, em vez de enviar a corrente mas em todos os lares. Nenhuma das aplicações anteriores tinha tido uma voracidade diretamente da usina central. A operação não deu lucro. especial de energia, e cada empresa, conforme a escala de seus requisitos, podia gerar A verdade é que a, energia hidráulica e a ar comprimido deveram muito de.seu sua própria energia de maneira lucrativa. Agora, entretanto, havia uma demanda -sucesso a sua prioridade. Elas chegaram primeiro. Mas, depois que a eletricidade incalculavelmente grande no total, mas pulverizada numa multiplicidade de necessida-entrou em cena, estavam fadadas a perder terreno. Eram mais fortes onde prevaleciam des individuais - que só podia ser atendida por um sistema centralizado de geração euma ou ambas as condições abaixo: distribuição de força. Também este foi concebido por Edison, e fez toda a diferença a (a) Quando a fonte primária de energia tinha sido construída para outras disponibilidade de iluminação elétrica para todas as pessoas, em vez de para unsfinalidades e existia independentemente, como no caso das usinas hidráulicas poucos abastados.públicas ou das bombas de ar comprimido usadas na escavação subaquática. Nessas O desenvolvimento das centrais elétricas foi obra das duas últimas décadas docondições, a água ou o ar usados para fins motrizes eram subprodutos cujo custo século XIX. Foi uma conquista tecnológica extraordinária, somente possibilitada pormarginal era muito baixo. Os sistemas hidráu- quase um século de grandes e pequenos avanços teóricos e inovações práticas. Os marcos merecem destaque: a pilha química de 292 293
    • Volta, em 18oo; a descoberta do eletromagnetismo por Oersted, em 1820; a de toda sorte de empresas agrícolas e industriais, para não mencionar as casas e lojas,formulação da lei do circuito elétrico por Ohm, em 1827; as experiências de Arago, podia recorrer a uma eficiente fonte de energia comum. Assim, às substanciaisFaraday e outros, que culminaram na descoberta da indução eletromagnética por economias de escala na geração de energia acrescentaram-se as vantagens daFaraday, em 1831; a invenção do gerador eletromagnético auto-estimulado (Wilde, diversificação: quanto mais heterogênea a demanda, mais favoráveis os fatores da carga eVarley, E.W. von Siemens, Wheatstone et al.), em 1866-7; o dínamo de Z.T. da capacidade.Gramme, primeiro gerador de corrente direta comercialmente viável, em 1870; e o Os alemães assumiram a liderança nessa área. O desenvolvimento mais rápidodesenvolvimento de alternadores e transformadores para a produção e conversão de ocorreu na Vestfália, onde o calor eliminado pelos altos-fornos e os gases dacorrente alternada de alta voltagem, na década de 188 o. Menos famosos, mas igualmente coqueificação constituíam uma fonte excepcionalmente barata de energia; mesmo assim,vitais, no entanto, foram os avanços na fabricação de cabos e materiais isolantes, nos a procura superou a oferta, e imensas fábricas geradoras de vapor movidas a carvãodetalhes da construção de geradores, na operação das máquinas motrizes, na interligação foram construídas para atender às necessidades dos consumidores, industriais edas unidades componentes do sistema, na escolha de características da corrente e nos domésticos. O maior produtor de corrente era a Rheinisch-Westfálische Elektrizitãts-A.registros do fluxo e do consumo.69 G., fundada em 1900, cuja rede de linhas cobria toda a extensão do vale do Reno, de A primeira central elétrica pública da Europa foi fundada pelos irmãos Siemens Koblenz até a fronteira holandesa; de 2,7 milhões de kWh em 19oo-1, sua produçãoem Godalming, na Inglaterra, em 1881.70 Nos dez anos e meio seguintes, outras saltou para 121,7 milhões em 191o-1 e 388 milhões em 1915-6. Outras companhias sóbrotaram por toda a Europa ocidental: uma colcha de retalhos múltipla, composta de eram menores em termos comparativos; e a estas conviria acrescentar as várias empresasunidades locais situadas segundo o mercado, cada qual com seu próprio equipamento e de carvão e ferro, que também funcionavam como fornecedores independentes demétodo de transmissão. Na Inglaterra, em particular, onde a Lei de Iluminação Elétrica energià.73 No resto da Europa, entretanto, a efetivação dessas possibilidades só ocorreubaseou-se na proposição de que todo condado deveria ter sua própria estação de força, uma década depois, ou mais.a multiplicidade de técnicas daí resultante viria a ser um legado dispendioso. Todavia, a corrente elétrica era mais do que um meio conveniente de distribuir os Muito cedo, entretanto, os empresários se aperceberam de que era possível combustíveis já aceitos. Graças à transmissão a longa distância,as quedas dáguaconseguir economias importantes, caso a fábrica geradora fosse localizada na (ou impuseram-se mais uma vez como fontes de energia, que agora podia ser fornecida àspróxima da) fonte de energia, com a corrente sendo enviada dali. Sem dúvida, quanto fábricas, assim como o carvão às máquinas a vapor. O acréscimo aos recursosmais longas as linhas, maior a perda de energia, mas esta podia ser minimizada pelo naturais do mundo foi imenso: em 1913, a produção mundial de energia hidráulica,uso da corrente alternada de alta voltagem.71 A primeira grande estação desse tipo foi a usada em sua maioria para gerar eletricidade, foi de 5 1 o milhões de kWh, ou oque Ferranti construiu em 1887-9, em Deptford-no-Tâmisa, para abastecer Londres, equivalente a 8oo.ooo toneladas longas de hulha (a um consumo de 3,5 libras decom 1o.ooo volts. Enquanto isso, as experiências feitas no Continente, onde havia hulha por kWh); dezesseis anos depois, apesar da guerra mundial, a produçãoum grande incentivo ao uso de energia hidroelétrica, iam demonstrando a possibilidade hidroelétrica superou os 120 bilhões de kWh, equivalentes a pouco mais de 1oode transmitir a energia a distâncias ainda mais longas. Em 1885, enviou-se energia de milhões de toneladas de carvão (a uma taxa mais eficiente de uma libra por kWh),um gerador de 15okW localizado em Creil para Paris, cobrindo uma distância de 56km, representando 40% da produção mundial total de eletricidade.74 Àquela altura, as usinasem caráter experimental; e em 1891 veio o avanço decisivo, quando Oscar Müller e a geradoras de eletricidade estavam-se encarregando de aproximadamente 2/3 dafirma suíça Brown, Boveri & Co. forneceram 225kW a uma distância de 179km, a capacidade motriz dos principais países industrializados.30.000 volts, partindo de Lauffen, no alto Neckar, até Frankfurt-no-Maine.72 Vinte A causa precipitante da geração de energia em larga escala foi a iluminaçãoanos depois, a corrente era transmitida por linhas que funcionavam a até 1oo.ooo volts, elétrica, mas esta logo foi ultrapassada, como fator de demanda, por aplicaçõese foi criado o princípio das redes regionais de distribuição. Tornouse então possível diferentes e mais pesadas da nova forma de energia. A primeira delas foi a tração. Emdesenvolver grandes municípios de energia integrada, on- 1879, mais ou menos na mesma época em que a 295 294
    • lâmpada de filamento incandescente entrou no mercado, Siemens apresentara a trando em objetos maiores ou em artigos padronizados que se prestassem a técnicas com primeira ferrovia elétrica na Exposição Industrial de Berlim. Durante a geração alto coeficiente de capital, enquanto a oficina se especializava em processos de mão-de- seguinte, a direção elétrica havia-se padronizado nas linhas de bonde e de metrô e obra intensiva que usassem ferramentas mecânicas leves. E a complementaridade, fora introduzida com êxito nos sistemas ferroviários de bitola larga. A segunda muitas vezes, transformou-se em simbiose: a moderna estrutura de terceirização na aplicação foi na eletroquímica pesada: tanto o método de fabricação de alumínio de indústria de bens de consumo duráveis apóia-se na eficiência tecnológica da pequena Hall-Héroult (1886) quanto os processos de fabricação de sódio, cianeto de sódio e oficina mecânica. soda cáustica de Castner (18 86 e 1894) requeriam enormes quantidades de energia.75 A Os novos usos e a energia mais barata promoveram a capitalização. A maior terceira foi na eletrometalurgia: a principal inovação foi o forno elétrico de Sir eficiência das fontes motoras foi mais do que compensada pela maior demanda de William Siemens (1878). Essa técnica, cujas grandes virtudes são a limpeza e as tem- energia e pela multiplicação dos motores e máquinas, não apenas na indústria, mas peraturas elevadas, recebeu um impulso considerável do desenvolvimento de ligas de também na agricultura e, eventualmente, nas casas. Sem dúvida, a grande expansão aço especiais por volta da virada do século. prometida pela eletrificação doméstica ainda estava muito longe: na Europa, o A quarta e mais importante aplicação foi a energia motriz fixa. Ironicamente, os refrigerador, o aquecedor elétrico, a lavadora de roupa e os grandes usuários deprodutores e engenheiros demoraram a aquilatar seu potencial. Ainda em 1894, energia similares (em contraste com a iluminação elétrica, o rádio e o gramofone, queuns seis anos depois que a invenção do motor de indução de corrente alternada e dos consumiam pouca força) só apareceram em larga escala depois da Segunda Guerrasistemas polifásicos por Tesla havia "tornado a corrente alternada tão adequada para fins Mundial. Ainda na década de 1950, a maciça maioria das casas e apartamentos semecânicos quanto ela fora para a iluminação",76 o presidente do Instituto Britânico de arranjava com circuitos de entrada de dez amperes ou menos; o aparelho mais vorazEngenheiros Mecânicos afirmou que a principal finalidade das usinas elétricas públicas era o ferro elétrico. Mas a proliferação e a disseminação leigas de equipamentos"era, e provavelmente sempre será, o fornecimento de energia para fins de iluminação".77 elétricos, que estão longe de ter-se esgotado, remontam a essas décadas anteriores à Ele não poderia ter estado mais equivocado. Por sua flexibilidade e Primeira Guerra Mundial. Àquela altura, não havia atividade que não pudesse serconveniência, a eletricidade transformou as fábricas. Agora, o motor podia ser ajustado mecanizada e movida a energia. Era a consumação da Revolução Industrial.à ferramenta, e a ferramenta, deslocada para a tarefa - uma vantagem especial na Parte desse investimento representou simplesmente uma mudança do capital deengenharia e em outras indústrias voltadas para a fabricação de objetos pesados. E agora giro para o capital fixo, pois os recursos antes reservados para os suprimentos deera possível limpar o emaranhado de eixos e correias de transmissão que tinha sido a combustível e a mão-de-obra dos fornos foram liberados para outras utilizações. Mascaracterística mais destacada das salas de máquinas desde os moinhos hidráulicos da sua maior parte era, de longe, constituída por capital novo, criado em resposta àsdécada de 1770 - uma ameaça à segurança, uma interferência nos movimentos, uma fonte oportunidades oferecidas pelas novas funções da produção. Nesse aspecto, não se devede quebras e um devorador de energia. esquecer a própria indústria elétrica - dezenas de milhares de empresas gerando e Mas a eletricidade fez mais do que modificar as técnicas e a aparência das fábricas: ao distribuindo corrente, além de construir e fazer a manutenção de equipamentos.tornar disponível uma energia barata fora e dentro da fábrica, ela inverteu as forças Nela, como na indústria química, as realizações mais notáveis ocorre ram nahistóricas de um século, deu vida e âmbito novos a dispersa indústria domiciliar e Alemanha. Os paralelos são numerosos: o começo tardio, o crescimento rápido,artesanal e modificou o modo de produção. Em particular, ela possibilitou uma baseado na excelência tecnológica e na organização racional, a concentração da produçãonova divisão do trabalho entre grandes e pequenos estabelecimentos. Enquanto, e a sólida posição no mercado mundial. Ate a própria véspera da Primeira Guerraanteriormente, os dois tinham sido quase inevitavelmente opostos num dado ramo Mundial, é possível que a Inglaterra ainda estivesse à frente no consumo de energiaindustrial - um usando novas técnicas e florescendo, outro agarrando-se aos antigos elétrica, embora as estatísticas dos dois países se pautassem em bases tão diferentes que ahábitos e declinando -, tornou-se então possível uma complementaridade. Os dois tipos comparação é arriscada.78 Em menos de dez anos, entretanto, a Alemanha havia ultra-passaram a poder usar equipamentos modernos, com a fábrica se concen- passado sua rival e a deixara muito para trás - a despeito das pesadas per- 297 296
    • das territoriais devidas à guerra. Assim, em 1925, a produção regular das fontesmotoras alemães totalizou 21.186.825HP, contra 16.808.700 na Inglaterra em 1924; gás -, o carvão conservou sua primazia. Perdeu terreno, sem úvida: em 1913,os números correspondentes no tocante aos geradores elétricos foram respondeu por cerca de 88,5% da produção mundial de energia; em 1925, por 75,5%; e13.288.8oo e 8.51o.000HP, respectivamente. E mais, como implica o fator alemão em 1931, por apenas 66,5%. Mas esses números tendem a exagerar o declínio, poismais alto de capacidade, suas centrais e redes de distribuição eram, em média, maiores, uma proporção elevada da energia derivada de outras fontes sempre foi direcionadasuas características de corrente, mais uniformes, e seu desempenho, mais para os transportes e o consumo doméstico; o carvão, ao contrário, detinha umeficiente. lugar muito mais sólido na indústria, quer diretamente, por meio das máquinas a Ainda mais impressionante foi o progresso da indústria elétrica alemã. Ela vapor, quer indiretamente, por intermédio dos geradores elétricos.era a maior da Europa - mais de duas vezes maior que a da Inglaterra - e só A proporção da energia derivada do carvão variou em cada país conforme os recursosperdia por uma pequena margem para a dos Estados Unidos.79 As firmas, como naturais. A Inglaterra e a Alemanha, ricas em minério, confiaram maciçamente nasna indústria química, eram grandes e bem financiadas, solidamente apoiadas máquinas a vapor como fonte primária; a Bélgica, uma terra plana e sem quedas dágua,pelo mercado de capitais e pelos grandes bancos de investimentos. A maior mais ainda. Em comparação, a França, com um déficit perene de carvão, mas uma dotação hidroelétrica abundante (Alpes, Pireneus, Vosges, Maciço Central), utilizoudelas, a Allgemeine Electricitãts-Gesellschaft (ou AEG) de Emil Rathenau, menos as máquinas térmicas, enquanto a Itália e a Suíça, quase sem nenhum carvão masbem como o conglomerado Siemens-Schuckert, eram companhias detentoras com uma profusão de montanhas, passaram a depender quase inteiramente da energiado controle acionário, dotadas de extraordinária versatilidade e complexidade. hidráulica.Seus produtos eram engenhosos, solidamente fabricados e de preços Até hoje, o carvão continua a ser a fonte primária de energia industrial e, portanto,competitivos; o apoio financeiro possibilitava um crédito generoso aos o recurso natural básico das economias industrializadas. Até quando isso continuará, éclientes. Como resultado, as exportações alemãs às vésperas da guerra eram impossível prever, dada a rapidez da transformação tecnológica, o esgotamentoas maiores do mundo, equivalendo a mais de duas vezes e meia o total do progressivo dos depósitos mais acessíveis, a concorrência do petróleo barato e aReino Unido e a quase o triplo das exportações norte-americanas.80 competição potencial da energia nuclear.81 Até na metalurgia ferrosa, onde o carvão Mas não se deve superenfatizar a importância do capital. Assim como na indústria parece estar mais firmemente instalado, em virtude de seu papel como fonte de energiaquímica, o conhecimento científico, a habilidade técnica e os altos padrões de e agente redutor, as recentes inovações na prática da fundição tornaram possíveldesempenho tiveram maior peso na colocação no mercado. Também nesse campo, um trabalhar com o gás natural, e seria temerário prever o curso da técnica. Mesmopequeno país como a Suíça obteve um êxito extraordinário, e nomes como a Brown- assim, o carvão tem a vantagem do preço baixo e da elasticidade da oferta, pois ainda háBoveri, a Oerlikon, a Eggi-Wyss e a Cie. de 1Industrie Electrique et Mécanique importantes depósitos por explorar, e a proporção(CIEM) adquiriram fama internacional. Pelas mesmas razões, até uma economia agráriacomo a da Hungria conseguiu produzir uma empresa como a Ganz, de Budapeste. TABELA 12. PROPORÇÃO DA ENERGIA PRIMÁRIA DERIVADA Algumas considerações gerais DAS MÁQUINAS A VAPORHá dois pontos que merecem ser enfatizados: a estabilidade subjacente da base derecursos naturais necessários à energia industrial e o aumento contínuo do consumo de 1911 (%) 1925 (%)energia. A espetacular contribuição dos novos métodos de produção e distribuição Grã-Bretanha 92 90da energia tende a obscurecer as continuidades desse aspecto da história industrial. Alemanha 82 82Trata-se de uma ilusão de ótica: o olhar é sempre captado pelo movimento. França 73 71Apesar de todo o desenvolvimento das novas fontes de energia - hidroeletricidade, Itália 29 22petróleo, gasolina, Suíça 20 6 Fonte: G.F. Hiltpold, Erzeugung and Verwendung motorischer Kraft, Zurique, 1934, p. 12. 298 299
    • entre a produção e as reservas continua relativamente baixa. O carvão ficaríamos TABELA 14. CONSUMO DE CARVÃO EM PAÍSES SELECIONADOS (em milhares de toneladas), tentados a dizer o Rei Carvão - não tende a ser destronado durante nossa vida. Qualquer que fosse sua fonte, entretanto, o uso da energia dentro e fora da Reino Unido Alemanha França Bélgica indústria aumentou rapidamente. Mesmo admitindo as notórias deficiências de nossos dados estatísticos, particularmente resistentes a comparações internacionais, a tendência Volume Razão Volume Razão Volume Razão Volume Razão ao longo do tempo foi marcante demais para ser perdida de vista. Estima-se que a 1861 77.657 100 13.9576 100 15.403 100 6.140 100 produção mundial de fontes comerciais de energia tenha aumentado do equivalente a 1913 189.074 244 187.000` 1.340 64.834 d 421 26.032 424 1,674 bilhões de megawatts-hora em 1870 para 10,840 bilhões em 1913.82 Quanto aos avanços nacionais, temos melhores informações sobre os países do Continente, como a. Toneladas longas no Reino Unido; toneladas métricas nos demais. b. Inclui 4.522 toneladas de linhita, deflacionadas à razão de 9: 2. se vê na Tabela 13. Inclui 94.16o toneladas de linhita, deflacionadas à razão de 9:2. Não podemos oferecer estatísticas comparáveis em relação a Inglaterra, mas as d. Ao que poderíamos acrescentar aproximadamente io.ooo toneladas consumidas na Alsácia Lorena. cifras referentes ao consumo de carvão já dizem tudo (Tabela 14). Fontes: Reino Unido: Finlay A. Gibson, The Coal Mining Industry of the United Kingdom, Cardiff, Convem.notar, além disso, que esses números relativos ao carvão no mínimo 1922, p. 77, e William Page, Commerce and Industry, Londres, 1919, II, p. 154 e 18o. subestimam a rapidez do avanço industrial alemão. Na Inglaterra, os transportes, em França: Annu. statistique, LVII, 1946, p. 230-1. Alemanha: Bienengrãber, Statistik des Verkehrs and Verbrauchs im Zollverein, p. 2S9 e 263, quanto ao especial a navegação, responderam por uma parcela grande e crescente do consumo ano de 1861; StatistischesJahrbuchfur das Deutsche Reich, XLI, 1920, p. 149, quanto ao ano de 1913. de energia nas últimas décadas do século XIX. As estimativas de Mulhall indicam a potência das máquinas fixas como sendo de 20% ou menos da capacidade total da menos de 1/10 do total da energia a vapor, enquanto as instalações fixas respondiam energia a vapor; outras conjecturas chegam a atingir 33%, mas isso ainda constitui uma por cerca de 85%. pequena fração.83 Na Prússia, em contraste, os motores navais forneciam Podemos concluir essa discussão com algumas considerações sobre a significação mais ampla dessas estatísticas meio entediantes da produção de energia e do consumo de combustível. Elas têm interesse por si, porém mais ainda como indicadores doTABELA 13. ENERGIA A VAPOR NA INDÚSTRIA (capacidade em milhares de cavalos-vapor) crescimento industrial e da formação de capital. A correlação entre as estimativas de Alemanha França Bélgica consumo de energia e de estoque de capital industrial é espantosamente elevada - nos Estados Unidos, de 1880 a 1948, apresenta um coeficiente de 0,9995; no Reino Unido, c. 1860 a 100 169 102 de 1865 a 1914, 0,96 ou 0,99, dependendo da série empregada.84* Na verdade, fica-se 1875 949 401 212 quase tentado a indagar se a mensuração direta da formação de capital, de forma 1895 3.357 1.163 - combinada, justifica o esforço. 1907 b 6.500 c 2.474 d 1.038 À primeira vista, esse paralelismo pode ser surpreendente: os aperfei- çoamentos tecnológicos tenderam a melhorar a relação entre a quantidade de energiaa. 1861 na Zollverein; 18S9 na França; ,86, na Bélgica. recebida e a efetivamente utilizada, diminuindo assim os requisitos de capitalb. 1909 na Bélgica.c. 8.008.000w de todas as fontes energéticas. correspondentes a um dado nível de consumo de energia. Mas, como vimos nad. 3.191.500HP de todas as fontes energéticas. discussão sobre a eletricidade, isso foi contrabalançado pela difusão dos motores e daFontes: Alemanha: G. Viebahn, Statistik deszollvereinten und nõrdlichen Deutschlands, p. 1.036-7 (seu número maquinaria em atividades anteriormente entregues ao trabalho manual ou animal; nanão parece concordar com o de Engel, "Das Zeitalter des Dampfes", Z. Kõniglichen Preussischen Statistischen verdade, cada aperfeiçoamento daLandesamtes, XX, 1880, p. 122, que indica 142.658HP na agricultura e indústria prussianas em 186,);F. Zweig, Economics and Technology, Londres, 1936,p. 119-20; G. F. Hiltpold, Erzeugung und Verwendung,p. 68.França: Annu. statistique, LVII, 1956, res. retrosp., p. 116-117. * O coeficiente de correlação estatística pode variar entre zero e um. Quando atinge o valor da unidade, aBélgica: Expose dela situation du royaumme, 1861-1875, II, p. 834-5; Annu. statistique, 191 1-2, p. 349. correlação é perfeita. Nos exemplos citados por Landes, a formação de capital responde por praticamente todo o incremento no consumo de energia. (N. da T.) 300 301
    • eficiência na produção ou utilização de energia incentivava incrementos no capital fixo, e carretel giratórios, que possibilitaram o movimento contínuo em vez doem detrimento do capital variável. Em certo sentido, a história da energia é a história alternado., e o mecanismo alimentador em quatro movimentos, em 1850 e 1854).da industrialização. Singer foi o Arkwright dessa indústria. Visualizou o papel que a nova máquina poderia ter, não apenas na indústria, mas também nas casas: ela foi o primeiro aparelho doméstico. Singer divulgou-a amplamente, ofereceu cursos sobre sua utilização, tornou-a acessível através do crediário e foi pioneiro nos contratos de venda e MECANIZAÇÃO E DIVISÃO DO TRABALHO manutenção. Enfrentando a feroz oposição dos alfaiates e das costureiras profissionais, a máquina impôs-se rapidamente. Estava fadada a fazê-lo - não apenas pelo fato de a indústria julgá-la muito econômica, mas também porque as mulheres descobriram nelaQualquer esforço de acompanhar a difusão da mecanização em todas as suas ramificações a libertação de antigos grilhões. A máquina de costura não marcou o fim daestá fadado a chafurdar numa confusão de detalhes. Entretanto, os princípios básicos exploração e do suor na indústria de roupas, ao contrário. Mas realmente tornou agulhaestabelecidos em 1850 foram poucos. Como assinalamos antes, a máquina que perfurava e linha obsoletas e, ao fazê-lo, pôs fim à "mão fatigada" e ao "ponto-ponto-ponto" dametal podia ser usada para perfurar couro; a prensa que cunhava moedas podia ser dolorosa "canção da camisa".adaptada para moldar tubos ou prensar peças de carroceria para automóveis; a lâmina A máquina de costura deu origem a uma família de equipamentos correlatos: asque cortava tecidos podia ser ajustada para talhar metal. O período iniciado em 18 50 máquinas de chulear, casear, coser com ponto invisível, bordar e tecer renda.foi fecundo em adaptações desse tipo. Um exemplo, escolhido por sua importância Mais importantes ainda foram suas aplicações em outras indústrias: na fabricação desocial e econômica, é suficiente: a máquina de costura. luvas, de arreios e selas, na encadernação de livros e, acima de tudo, na produção de Não é fácil atribuir o mérito pela invenção da máquina de costura. Como botas e sapatos (a máquina de BlakeMcKay, para costurar as gáspeas nas solas, 186 o; afreqüentemente acontece, há uma distinção a ser feita entre a descoberta nominal e a máquina de pregar viras de Goodyear, 1871 e 1875). Sua versatilidade fez dela a inovaçãoefetiva, e entre o inventor e o inovador; e, nesse caso, a questão se complica por mais radical na produção de bens de consumo desde o tear mecânico.invenções paralelas e nem tão paralelas. A primeira máquina viável foi a de Barthélemy O resultado foi uma nova extensão do sistema fabril e uma substituição da mesaThimmonier, de St. Etienne, patenteada em 1830. Era de madeira, lenta e desajeitada, da costureira e da bancada do artesão pelas grandes oficinas (muitas vezes, explorando omas realmente se impôs na fabricação de uniformes do exército, atividade em que a trabalho em troca de salários de fome) ou por arranjos de produção domiciliar. Aqualidade era uma consideração secundária e a padronização era viável. Em 1841, havia, fabricação mecanizada de roupas, em especial, exigia um capital inicial relativamentetalvez, 81 dessas máquinas em funcionamento numa grande oficina em Paris; elas foram pequeno (uma máquina de costura nova, em 1870, custava entre £4. 1os1 e, talvez,destruídas por uma turba, numa explosão quase esquecida de ludismo.* Thimmonier £14);85 a oferta de mão de-obra, alimentada pelos imigrantes vindos da Europa centralaperfeiçoou seu modelo nos anos posteriores, mas as perturbações decorrentes da e oriental, era abundante; e a produção podia ser dispersada, subcontratada ou entregue arevolução de 1848 e o desenvolvimento de técnicas superiores por outras pessoas trabalhadores domiciliares. E virtude disso, o ingresso no ramo era fácil, emborafrustraram seus esforços. Ele morreu pobre e desconhecido em 1857. também o fosse a saída. A linha principal do desenvolvimento das máquinas de costura passa por Elias A longo prazo, a demanda mostrou-se elástica e em crescimento constante. OsHowe (a agulha com furo na ponta, a lançadeira para colher o fio inferior e o pesponto primeiros produtores de roupas prontas tinham-se restringido a uniformes deduplo característico, em 1846), Isaac Singer (o pedal e a agulha reta, em 1851 e anos marinheiros, encomendas do exército e ao mercado colonial de além-mar. As pessoasposteriores) e Allen B. Wilson (o gancho de posses mandavam fazer suas roupas segundo sua preferência; os pobres confeccionavam as deles. No fim do século, entretanto, a aceitação das confecções prontas havia-se disseminado, a começar pelos artigos - casacos, camisas e roupas de * Os luditas eram um grupo de trabalhadores ingleses do início do século XIX que tentavam baixo - em que o corte impedir a mecanização, poupadora de mão-de-obra, mediante a destruição das máquinas. Seu nome proveio de Ned Ludd, um operário de Leicestershire que, em 1779, tomou-se conhecido por destruir vários teares. (N. da T.) 303 302
    • que usavam alguma quantidade de energia; os demais eram trabalhadores externosera uma consideração menos importante. O "terno de domingo" foi um fator (13.700) ou artesãos que trabalhavam em oficinas (21.600). Essas fábricas eram, em suafundamental nessa mudança de atitude: o trabalhador, que antes se contentava em maioria, pequenas empresas que usavam equipamento leve; a capacidade energéticapassar a vida usando calças de tecido canelado ou brim e suéteres de algodão ou total era de apenas 20.171 HP, ou cerca de 1/5HP por homem.89 Mas elas respondiammalha, passou então a ter algumas roupas formais. E, para a clientela mais exigente, por 88% da produção industrial.havia os departamentos de encomendas especiais, que produziam artigos de fábrica de Os números alemães não são estritamente comparáveis. Mas, admitindo-se asacordo com as medidas pessoais. Infelizmente, não temos estatísticas da produção da diferenças de classificação, eles mostram uma indústria um pouco menor do que aindústria de vestuário ao longo do tempo, mas os indícios parciais e qualitativos de que inglesa e, provavelmente, mais mecanizada. Uma coisa fica clara: a indústria alemã dedispomos atestam a rapidez de sua expansão e a importância dessa nova categoria de calçados apoiava-se muito mais na energia elétrica.produtos para o campo do comércio varejista. Apesar de toda a impressionante proliferação da máquina de costura em suas A fabricação de calçados foi uma outra história: o equipamento era caro e volumoso formas variáveis, sua importância tecnológica talvez resida ainda mais nas condições dedemais para utilização doméstica e, por sua especialização funcional, não se adequava à sua própria produção. A introdução desse aparelho complexo nas residênciasprodução dispersa. Na verdade, todos os esforços da indústria direcionaram-se para a proporcionou uma grande oportunidade para os fabricantes de máquinas, mas suscitoufragmenação do trabalho em etapas suficientemente simples para serem executadas por novos problemas de técnica. Por um lado, a máquina tinha de funcionar suavemente emáquinas de uma só finalidade. Em 1858, um sapateiro levava 1.025 horas para em silêncio: nenhuma dona-de-casa se disporia a levar a barulheira da fábrica para seuproduzir 100 pares de sapatos femininos, a um custo de mão-de-obra de US$ 2 56,33; quarto ou sua sala, se pudesse evitá-lo. Por outro lado, os consertos tinham que serem 1895 85 homens levavam 80 homens-hora para realizar a mesma tarefa, a um custo simples e baratos: uma fábrica podia arcar com o custo de uma equipe detrabalhista total de US$18.59.86 manutenção permanentemente acessível; uma casa, ou mesmo uma pequena loja, não. Isso foi nos Estados Unidos, onde o preço da mão-de-obra era relativamente alto e Essas duas condições exigiam uma indústria de precisão com peças intercambiáveis -os consumidores eram mais receptivos aos artigos padronizados e produzidos em tema a que chegaremos num instante.massa. Na Europa, o avanço da indústria mecanizada de calçados foi mais lento, e o daprodução fabril, mais vagaroso ainda. Não obstante, o exemplo do desenvolvimento Com a mecanização veio a busca da velocidade, tanto no sentido literal donorte-americano e, na Inglaterra, a pressão das importações baratas vindas do outro movimento mais rápido das máquinas quanto no sentido correlato da maior produçãolado do Atlântico incentivaram a adoção das novas técnicas. Entre 1890 e 1903, o por unidade de tempo.valor das importações de calçados de couro pelo Reino Unido elevou-se em £607.000, Nenhum campo assistiu a maiores avanços nesse aspecto do que a metalurgia e aenquanto as exportações tiveram uma queda de £53.ooo. Ate mesmo o Sindicato dos engenharia. Não só as máquinas operatrizes tornaram-se mais potentes e convenientes,Operários Produtores de Botas e Sapatos, intransigente opositor da mecanização e como também o desenvolvimento de ligas de aço duras colocou nas mãos dosdefensor das imaculadas virtudes do artesão, ficou abalado, resignando-se trabalhadores instrumentos de corte dignos da força mecânica a sua disposição. Orelutantemente à necessidade da mudança. 87 primeiro desses materiais especiais foi o simples aço com alto teor de carbono; ele A reação empresarial foi apropriadamente vigorosa: "Não ha dúvida de que a podia usinar economicamente em velocidades de corte de aproximadamente 40 pés porindústria de calçados acha-se agora em processo de uma revolução mais súbita e minuto. Nas décadas de 1850 e 1860, Kõller, na Áustria, e Mushet, na Inglaterra, desen-completa, na transição de uma indústria manual para uma indústria mecânica, do que volveram ligas de tungstênio, vanádio e manganês que se auto-resfriavam, superavamqualquer outra grande indústria inglesa", assinalou um observador em 1904. 88 A em cinco ou seis vezes a duração das ferramentas de aço comum e conseguiam cortar 6oafirmação só se aplicava às maiores fábricas, que haviam recuperado a maior parte do pés por minuto. E isso em circunstâncias desfavoráveis: as máquinas da época não eramatraso tecnológico em 1907. O recenseamento industrial desse ano mostrou 75% dos fortes o bastante para suportar a velocidade que o aço possibilitava. Essa discrepância,trabalhadores do ramo de calçados inglês (105.200 dos 140.000) empregados em no entanto, foi pron-"fábricas" 304 305
    • tamente corrigida. Na década de 1890, tinham-se desenvolvido ferramentas capazes de produtos do solo ou do mar, ou mesmo produtos da caça. Mas não deram valor àcortar 150 pés de aço doce por minuto, sem lubrificação. Finalmente, em 1900, F.W. lubrificação.Taylor e Maunsel White demonstraram sua liga de aço e cromo-tungstênio, de E, no entanto, desde o começo da Revolução Industrial, a lubrificação foi umaalta velocidade de corte, na Exposição de Paris. O metal operava aquecido ao questão de importância decisiva. Em 1823, o jovem siderurgista francês Achille Dufautrubro, mas não amolecia nem se embaciava. Mais uma vez, as máquinas é que ficaram escreveu para Fourchambault, sua terra natal, dizendo que Cyfarthfa só usava sebopara trás, tendo sido necessário construir modelos mais pesados, quatro a seis vezes russo da melhor qualidade. O custo era alto - 6 d. por libra -, mas, no verão, quando amais potentes do que os que usavam aço-carbono, para que o novo metal pudesse ser água baixava, o uso desse sebo conseguia um aumento de dez revoluções por minutoexplorado. Quando da Primeira Guerra Mundial, tinham-se alcançado velocidades de na roda de azenha; a economia anual total era de £3.000.90 E, passada uma geração,300 e 400 pés por minuto nos cortes leves, e era comum uma única ferramenta Fairbairn escreveu em seu clássico Treatise on Mills and Millwork: "Nos grandesremover vinte libras-peso de resíduos por minuto. Pouco lembrada atualmente, essa cotonificios, tomei conhecimento da absorção de uma potência de até dez a quinzeinovação foi uma das maravilhas da época. Podese sentir, ao ler os relatos cavalos por uma mudança da qualidade do óleo usado na lubrificação; e no frio, oucontemporâneos, a quase-incredulidade dos observadores ao verem o metal ser quando a temperatura da fiação é muito reduzida (como geralmente acontece depoisperfurado e cortado como manteiga. de ficar parada no domingo), a potência necessária nas manhãs de segunda-feira é No entanto, a metalurgia fornece apenas um exemplo, reconhecidamente invariavelmente maior do que em qualquer outra ocasião durante a semana." 91impressionante e importante, de um fenômeno geral. O aperfeiçoamento da Poucos fabricantes davam à lubrificação a atenção que ela merecia - E nãomaquinaria têxtil nesse período consistiu, basicamente, em mais revoluções ou batidas surpreende que os historiadores a tenham ignorado. Mais uma vez, Fairbairn observapor minuto. Assim, da década de 1830 até a de 1890, o tempo necessário para que o que, na maioria das fábricas, a tarefa de lubrificar os eixos de transmissão era entreguesuporte do guia-fios dos filatórios corresse de um lado para outro foi reduzido em 1/3 a ao operário mais desleixado da empresa: "O resultado é que todas as aberturas para que2/3, dependendo da finura do fio; a velocidade de rotação dos fusos mais do que duplicou o óleo chegue aos mancais ficam entupidas, os suportes de latão são cortados peladesde o falatório de estame até a fiandeira de anéis, o mesmo acontecendo com o abrasão e os pinos ou moentes dos eixos são destruídos." Com o tempo, entretanto, aritmo do simples tear mecânico. Na indústria pesada, a invenção do martelo a vapor construção de equipamentos mais pesados e mais rápidos tornou impossível que se fi-significou batidas mais rápidas e mais pesadas; a substituição progressiva do casse indiferente ao custo do movimento perdido e do desgaste. A experiência fezmartelamento pela laminação acelerou consideravelmente a produção de ferro surgir uma consciência das numerosas facetas do que, a princípio, havia-se afiguradoforjado e de aço; e o maior automatismo do equipamento de laminação levou, como um problema simples. Os industriais e engenheiros aprenderam a diferenciar osvimos, aos laminadores contínuos que moviam o metal quente à velocidade de um lubrificantes sólidos, semi-sólidos e líquidos, e a distingui-los pela viscosidade,trem. oleosidade, pontos de congelamento e fusão, inflamabilidade, tendência ao E assim por diante. Tomaria tempo demais rever em detalhe esses aperfeiçoamentos espessamento ou engrossamento, e tendência a mancharem os tecidos ou a senumerosos e variados; o importante é examinar as melhorias subjacentes que viabilizaram decomporém e depositarem ácido ou carbono. Aprenderam a adaptar o materiala propulsão mais rápida. Três mudanças foram cruciais. ao uso, muitas vezes misturando dois ou mais tipos de lubrificantes para obter as A primeira foi a melhor lubrificação. Esse é um tema que tem sido muito vantagens de cada um; a introdução dos óleos e graxas minerais, a partir da décadanegligenciado pelos observadores e estudiosos da tecnologia e sua história. As de 1850, inaugurou toda uma nova gama de possibilidades. Eles também inventaramgrandes exposições internacionais do século XIX reuniram e exibiram atividades e maneiras engenhosas de manter a lubrificação de peças de movimentaçãoprodutos industriais do homem com uma abrangência e um entusiasmo taxonômico que rápida sem interromper o movimento: colocar as superfícies de atrito num banho denunca deixam de causar espanto. Juntaram toda sorte de ferramentas e máquinas, as imersão permanente; impregnar almofadas em contato com as quais as peças sematérias-primas que elas transformavam e os produtos acabados que faziam. Não moviam; fazer ranhuras pelas quais o óleo podia correr,desprezaram os 306 307
    • sob o efeito da gravidade, ou ser escoado com um sifão; e instalar bombas automáticas os laços estreitos entre a indústria e as finanças facilitavam a formação, a expansão eou pistolas de pulverização. Um grande avanço foi o uso, a partir de 1890, primeiro as fusões de companhias. Além disso, a própria prevalência dos acordos de cartéis, emnas máquinas a vapor e depois nas outras, da lubrificação sob pressão, que possibilitou muitos campos, amiúde tornava imperativa a integração vertical, para que se ficasseo funcionamento silencioso a altas velocidades, com pouco desgaste e sem risco livre das exigências de fornecedores ou clientes coniventes; e a integração abriu caminhode grimpagem. 92 para novas economias de escala. No período de 1882 a 1907, a proporção dos O segundo de nossos avanços fundamentais foi a substituição do ferro forjado pelo trabalhadores em empresas que empregavam mais de cinqüenta pessoas subiu de 26,3%aço na construção mecânica com uso de um material duro, homogêneo e resistente ao para 45 ,5% ; o número de pessoas em indústrias com mais de mil empregados maisdesgaste em lugar de um metal comparativamente mole, de estrutura heterogênea e do que quadruplicou, passando de 205.000 para 8 7 9 . 0 0 0 .abrasão irregular. O resultado foi a redução do atrito. E o terceiro foi a maior precisão Como se poderia esperar, o baluarte dos negócios em grande escala foi a indústriana fabricação das partes móveis (voltaremos a elas mais adiante), com ganhos similares. pesada de capital intensivo: o ferro e o aço, onde quase 3 / 4 dos homens em 1907Juntos, estes dois últimos avanços possibilitaram uma grande inovação, destinada a trabalhavam em empresas com mais de mil empregados; a construção e engenhariaeliminar ou diminuir a necessidade de lubrificação. O princípio do rolamento mecânicas, onde 84% estavam empregados no que se designava por Grossbetriebe (51esférico é muito conhecido, e tão antigo quanto a história; é idêntico ao que subjaz empregados ou mais); a fabricação de equipamentos elétricos pesados (dínamos,ao uso da roda em vez do trenó no transporte de superfície - a substituição do atrito geradores, motores, transformadores), com 96,4% na categoria dos 51 empregados oudeslizante pelo contato rolante. Benvenuto Cellini colocou, para esse fim, "quatro mais; e a indústria química, onde os ramos de álcalis, explosivos e tinturaspequenos globos de madeira" na base de uma estátua, já no século XVI, e é quase certo que orgânicas exibiam proporções que iam de 8 2,6% a 98,2% nessa faixa. Mas essanão tenha sido o primeiro a faze-lo. Todavia, só em torno de 1880 os equipamentos tendência era claramente geral, e até uma indústria como a manufatura têxtil viu aumentarde precisão e o desenvolvimento de aços duros transformaram o rolamento esférico a proporção da força de trabalho nas Grossbetriebe, na fiação, de 71,1 % em 1882 paranum instrumento industrial prático, possibilitando ate mesmo a distribuição da carga 89% em 1907, e na tecelagem, de 34,3% para 7 3 ,5 %. 94e reduzindo a proporções toleráveis a distorção produzida pelo desgaste. A Esse acréscimo de pessoal, além disso, foi acompanhado por outro ainda maior napatente decisiva foi obtida em 1877 por William Bown, de Birmingham, um fabricante produção física por unidade, pois a produtividade estava subindo. Nem sempre podemosde peças para máquinas de costura e de patins de rodas. A primeira aplicação medir esse crescimento diretamente, por causa da variação nos produtos ao longo doimportante, no entanto, foi sob a forma de rolamentos de esferas na fabricação de tempo, mas, ao lidarmos com um produto homogêneo, a evidência é clara. Assim, nabicicletas - Rudge anunciava suas vantagens em 1886 - e, durante algum tempo, a siderurgia, a produção anual das fundições aumentou 7 ,5 vezes de 1880 a 1910 - detécnica pareceu adequar-se apenas às cargas leves. O desenvolvimento dos mancais de 19.500 para 149.000 toneladas95 - , enquanto a das indústrias de bessemerização passourolamento, porém, ao distribuir a pressão por linhas e não pontos de contato, corrigiu de 109.000 toneladas em 1890 para 205.000 em 1905. 96essa deficiência e possibilitou economias de até 90% das perdas de potência na O que acontecia na Alemanha também estava acontecendo na Inglaterra, França,transmissão axia1.93 Bélgica e demais países da Europa - embora em menor grau.97 Parte desse aumento da As máquinas eram não apenas mais rápidas, mas também maiores, como o era toda escala explicou-se pelas novas fábricas, que se erguiam prontas do solo como Vênusa extensão das indústrias manufatureiras. Não é necessário insistir nesse ponto. Já surgia da espuma. Mas boa parte dele, e especialmente o gigantismo, consistiu noobservamos essa tendência na indústria do ferro e do aço e na construção de máquinas crescimento de empresas já estabelecidas, algumas novas, outras antigas, quemotrizes. Ao mesmo tempo, e em grande medida graças a esse crescimento dos acrescentavam máquinas, oficinas, prédios e fábricas inteiras às suas instalaçõesequipamentos, a escala de operação eficiente aumentou. A tendência para as grandes existentes. Basta olharmos para os mapas que amiúde adornam os orgulhosos livrosdimensões, já acentuada no período de 1850 a 1873, prosseguiu. Teve sua maior comemorativos da história das firmas comerciais - quer mostrando-as "antes e depois",rapidez na Alemanha, onde a indústria era mais jovem, o crescimento, mais rápido, e quer distinguindo por cores e datas as etapas de seu crescimento. 98onde 308 309
    • Salvo por sua linearidade, nada se assemelha mais a eles do que os mapas Pela mesma razão, o gigantismo aumentou a influência das operações logísticas e históricos da expansão e consolidação de reinos e impérios - uma fronteira corrigida do desempenho dos trabalhadores em geral nos resultados financeiros da empresa. É aqui, um avanço estabelecido ali, um encrave absorvido acolá. freqüente ficarmos tão impressionados com o aumento da produtividade resultante das Esse caráter aditivo do crescimento industrial teve importantes conseqüências inovações que economizam mão-deobra, que esquecemos o outro lado da moeda o efeitotecnológicas. Havia uma certa racionalidade subjacente a tudo, mas o oportunismo e multiplicador que a ineficiência tem sobre os custos. Quanto maior o desembolso coma improvisação foram igualmente determinantes. Como resultado, a matriz dos arranjos instalações e equipamentos, menos se pode arcar com pontos de estrangulamento,anteriores tornou-se cada vez mais restritiva. A cada mudança de equipamento ou desmazelo ou negligência. Pior ainda: a ineficiência é contagiosa e tende a contaminaracréscimo à fábrica, aumentava o hiato entre o "melhor possível" e o "melhor exeqüível". tudo ao seu redor.Em parte alguma essa herança constituiu uma desvantagem mais grave do que na Os empresários do fim do século XIX, portanto, incitados pela necessidade eorganização do fluxo do trabalho - no que podemos chamar a logística da produção. atiçados pela perspectiva de retornos mais altos, foram levados a descobrir maneiras, primeiro, de facilitar a movimentação do trabalho nas fábricas e, segundo, de A maior intensidade do capital e a escala de produção tornaram o velho demônio do extrair uma produção maior de cada homem com um dado conjunto de equipamentos.estrangulamento logístico mais temível do que nunca. Isso era inevitável estava implícito As duas coisas estavam inter-relacionadas, não apenas porque o fluxo regular de trabalhona discrepância geral entre a previsão e o evento. Uma cidade é construída para lidar levava a uma produtividade mais alta, mas porque a mudança da organização e docom a população e o trânsito de hoje, ou, no máximo, de uma década a contar de caráter da mão-de-obra era, na verdade, um pré-requisito para se rever o padrão dehoje; com o tempo, as ruas tornam-se estreitas demais, os becos, inacessíveis, e os trânsido dentro da fábrica.prédios, inconvenientes e espremidos em espaços exíguos. Pela mesma razão, até uma Além disso, esse impulso em direção à eficiência foi reforçado pelas tendênciasfábrica bem planejada inicia sua obsolescência no momento em que suas portas se comerciais e tecnológicas subjacentes no período iniciado em 1870. Na medida emabrem. As transformações da técnica alteram, de um modo que lhe é desvantajoso, a que a capacidade começava a superar a demanda, a competição, como vimos, estava-relação entre o trabalho e o meio ambiente; o aumento da velocidade e do volume de se acirrando nos mercados nacionais e internacionais, e a pressão em favor da economiatrabalho fazem pressão contra o confinamento das paredes e equipamentos fixos, como as aumentava junto com ela. Ao mesmo tempo, no entanto, a inovação nas indústrias maismoléculas agitadas de um gás aquecido num recipiente rígido. Sem dúvida, a criatividade antigas ia-se tornando mais lenta: os novos equipamentos custavam mais e produziame os dispositivos potentes de manuseio e movimentação podem reduzir essa dificul- menos. Assim, a única área que oferecia grandes oportunidades de redução de custos eradade como veremos. Mas até estes têm seus limites, e os problemas logísticos dessa a da organização e administração; o único fator passível de ser comprimido era onatureza com os custos correlatos que eles vinculam a qualquer inovação - talvez trabalho.tenham constituído o maior obstáculo material isolado a transformação técnica nas É difícil acompanhar o progresso efetivo desses esforços para racionalizar aeconomias amadurecidas. Considere-se o comentário feito em 1960 por um produção e aumentar a eficiência. Outros aspectos da transformação tecnológica e dosiderurgista norte-americano, confrontado com um novo processo que, supostamente, desenvolvimento industrial prestam-se à quantificação, e temos nesses casosmais do que duplicava a produção de um forno de revérbero: "Podemos fazer a mesma uma rica herança estatística com que trabalhar. Mas as mudanças na disposição ecoisa em qualquer forno de revérbero, em qualquer dia que quisermos, para realizar organização das fábricas não são fáceis de aquilatar. Mesmo quando isso é possível emuma demonstração. Mas eu gostaria de vê-los fazerem isso dia após dia, com todos os alguns casos isolados, a variação da abordagem torna a padronização, e a comparaçãofornos de uma usina de fornos Siemens-Martins. Isso cria uma congestão tremenda e difíceis, senão impossíveis. Talvez por essas razões, esses temas têm sidoenormes problemas para aquecer os fornos e mantêlos adequadamente aquecidos, relativamente negligenciados pelos estudiosos. Não existe nenhuma história geral, e aretirar o metal e conseguir carretas de alimentação em número suficiente."99 maioria dos relatos contemporâneos diz mais respeito a arranjos ideais do que à prática efetiva. Nosso conhecimento desta última pode ser construído a 310 311
    • partir de estudos de casos ocasionais, referências passageiras e inferências rolantes acionadas manualmente ainda eram a norma na indústria alemã;100e, entre as cultas. A maior parte da pesquisa ainda está por fazer. novas instalações de uma fábrica francesa de construção de maáquinas em processo de Para esclarecer essa questão, é útil dividir as indústrias em duas classes: as que modernização, na década de 1920, havia "quatro pequenas pontes rolantes de duas transformam e as que montam. A primeira incluiria a maior parte das indústrias têxteis e toneladas operadas à mão".° químicas, a metalurgia, a fabricação de vidro, o refino de petróleo, o processamento Mas as limitações da força humana são óbvias: quatro operários levavam 50 industrial de alimentos e os outros ramos cuja finalidade primária é a conversão de minutos para içar cinco toneladas a uma altura de quatro metros, mediante o uso de determinado conjunto de matérias-primas nalguma outra forma. A segunda abrange guinchos; dois trabalhadores levavam 12,5 minutos usando polias. Fez-se um esforço campos como a construção mecânica e a engenharia, a fabricação de roupas e calçados e de usar pequenas máquinas a vapor par fins especiais; provavelmente, a aplicação mais as indústrias de construção; todas estas podem empreender alguma transformação, mas freqüente das máquinas autopropulsoras - afora seu emprego na agricultura foi no a característica mais destacada de seu trabalho é a montagem. içamento e nas manobras. Mas tratava-se de uma técnica que causava desperdício e era Essa distinção tem implicações diretas na técnica. O princípio básico da problemática: as máquinas costumavam ser operadas bem abaixo de sua capacidade e,organização industrial é o fluxo de produção regular e direto, do começo ao fim do além disso, apenas intermitentemente; e, por seu movimento, a tarefa de mantê-lasprocesso manufatureiro; os desvios, retornos e interrupções devem ser tão evitados lubrificadas era complicada. O vapor tinha sua melhor utilização quando os grandesquanto possível. Para as indústrias de transformação, o problema conceitual é simples: há volumes não eram uma desvantagem e a velocidade de ação não era particularmenteum fluxo de atividade, e tudo o que se faz necessário é um arranjo espacial seqüencial importante - na escavação de superfície, por exemplo -, ou quando o peso era umadas operações. A movimentação efetiva da matéria-prima, no entanto, pode dar origem a vantagem positiva, como no nivelamento de pavimentos de asfalto.sérias dificuldades. Ela pode ser quente demais para manusear, como na metalurgia ou em A solução eventual, como vimos, foi tríplice:certos processos químicos; pode ser corrosiva ou tóxica, como na fabricação de ácidos e (1) Pressão hidráulica ou atmosférica, quando o raio de ação da máquina eraálcalis; e pode ser volumosa ou pesada. Esses problemas estimularam uma ampla relativamente limitado e sua ação era direta e simples. As duas foram introduzidas emvariedade de providências engenhosas para deslocar materiais sólidos, líquidos e gasosos larga escala na década de 1860 e dominaram o cenário até cerca de 1900.em todas as temperaturas: transportadores e esteiras, elevadores e guinchos, sistemas de (2) Eletricidade, quando o raio de ação era limitado mas a liberdade, a rapidez e atubulações e válvulas, bombas, depósitos e tanques de armazenagem, medidores, versatilidade de ação eram desejáveis. Foi introduzida na década de 1890 nos Estadoscalibradores, manômetros e comandos. Unidos, e dez anos depois na Europa. Os sólidos foram os que mais causaram dificuldades. Sem dúvida, o homem é (3) Petróleo ou gasolina, quando o raio de ação era muito amplo, como noscapaz de feitos surpreendentes de força e destreza: existem hoje fábricas de porcelana em projetos de construção dispersos, por exemplo.Limoges onde os trabalhadores carregam quase cem pratos caríssimos de uma vez, Dentre eles, a eletricidade foi a mais importante. Sua área de aplicação mais útil foiatravessando corredores, fazendo curvas, cruzando portas e descendo escadas - com o acionamento de "pontes rolantes", aspecto em que sua rapidez e responsividade ao2/3 de seu precioso fardo nas mãos e o restante empilhado na cabeça! Além disso, a controle geraram aumentos de produtividade da ordem de várias centenas por cento.mecânica da manipulação é conhecida há muito tempo; os dispositivos básicos - tarraxas, O guindaste elétrico revolucionou o trabalho nas docas e em indústrias como apolias, alavancas, manivelas e planos inclinados - remontam à Antigüidade. Contudo, a metalurgia, onde era freqüentemente usado em combinação com ímãs gigantescos notransmissão de força a essas máquinas foi cercada de dificuldades. O equipamento içamento de objetos de ferro e aço. Esta última técnica foi particularmente eficaz nomóvel, por sua própria natureza, só podia ser ligado a sistemas de hastes e correias manuseio de coisas como sucata, cujos fragmentos eram grandes demais para ser ma-dentro de limites estreitamente circunscritos. A força humana era suficiente, até certo nuseados com pás e demasiadamente irregulares e pequenos para as pinças. Tambémponto, quando a mão-de-obra era barata. Matschoss observa que, ainda na década de nesse caso, como em toda parte, houve uma tendência para as grandes dimensões, com1870, as pontes máquinas com capacidade de 100 toneladas ou 312 313
    • mais em uso comum nos estaleiros, e de até 75 ou 100 toneladas na engenharia pesada, mostrar satisfatório) e poucos movimentos repetitivos do tipo certo (nos quais umàs vésperas da Primeira Guerra Mundial. objeto após outro segue a mesma trilha, passa pelos mesmos processos e emerge da linha Quão importante foi essa mecanização do transporte e da manipulação dentro das de produção com a presteza que nasce da prática e da mecanização).fábricas? A resposta varia conforme a natureza das empresas; em alguns processos, o Nessas indústrias, dois tipos de arranjo da produção eram comumentemanuseio representa mais de 85% do custo do produto final; em indústrias leves como empregados:a de produtos têxteis, representa muito pouco. Além disso, os grandes guindastes de (i) As máquinas eram agrupadas por tipo - perfuradoras, plainas, tornos etc, nacavalete ou elevadores móveis não são, em si, uma garantia de economia. Em muitos engenharia e na construção mecânica, por exemplo e as peças eram deslocadas decasos, as empresas eram exageradamente providas de equipamentos grandes ou um ponto para outro até serem finalmente reunidas para encaixe na oficina decomplexos demais para o trabalho exigido. E, algumas vezes, a mão-de-obra era tão ba- montagem. Esse era o Platzarbeit alemão.rata que as máquinas eram um luxo. É muito fácil confundir a parafernália da (2) Quando o trabalho era extremamente volumoso, como na construção naval, namodernidade com eficiência. construção civil ou na engenharia pesada, homens e ferramentas eram levados até ele e Não obstante, é licito dizer que o manuseio foi um foco de avanços rápidos na os componentes eram preparados no local, ou feitos em outro lugar, geralmente noprodutividade - não tanto pelas espetaculares realizações em indústrias pesadas primeiro sistema, e também levados até ele.como a metalurgia, mas em virtude dos incontáveis pequenos aperfeiçoamentos em Assim, em vez do fluxo linear das indústrias de transformação, prevalecia umatodos os ramos da indústria. O atraso de algumas empresas desse período é espantoso: disposição nodal do tráfego, com um ziguezaguear da matéria-prima de um lado paralemos sobre dezenas de homens carregando toneladas de terra ou carvão nas costas; outro entre esses postos de trabalho e com as diferentes pecas seguindo caminhossobre cadeias de operários postados em escadas, passando o material de mão em mão. diferentes. O primeiro padrão pode ser comparado com o fluxo regular dos veículosMuitas vezes, um simples guincho, algumas carretas pequenas ou a instalação de quadros numa via expressa, e o segundo, com o movimento espasmódico e irregular dasde içamento ou sistemas de esteiras transportadoras fariam toda a diferença. Numa era ruas de uma cidade.102 É possível levar essa analogia mais adiante. Numa via expressa,de equipamentos cada vez mais dispendiosos e de retornos decrescentes, essa era a única o aumento na extensão do trajeto provoca apenas um aumento linear do tempo neces-área em que, repetidamente, os investimentos se pagavam em meses ou até semanas. sário para percorrê-lo, mas nos complexos urbanos a proporção tende a ser geométrica, Muitos desses avanços também foram importantes nas indústrias montadoras, como ou até exponencial. Da mesma forma, no Platzarbeit o crescimento da fábricamostram vários exemplos. Aqui, a natureza do trabalho dera origem a um padrão de significa maiores distâncias entre os postos e multiplica o tempo perdido naoperações complexo e gerador de desperdício. Primeiro - e isso era realmente decisivo movimentação repetitiva do material. As empresas mais bem-sucedidas dedicavam-, o processo de montagem, na maioria dos setores, era impreciso, consistindo numa andares inteiros, ou até oficinas separadas, a um único tipo de máquina. Assim,questão de ensaio e erro, com ajustamentos reiterados; esse caráter do trabalho ainda se dificuldades logísticas estabeleceram um teto para as economias de escala.reflete em nossos vocabulários, em palavras inglesas como fitter [adaptador, ajustador] Por último, os mesmos problemas tecnológicos que deram origem ao padrãoe steam f tter [ajustador de vapor], ou no termo francês ajusteur [ajustador]. Segundo, nodal - a imprecisão e a variação, de um lado, e o trabalho por encomenda, de outro -poucas dessas indústrias beneficiavam-se das longas seqüências de produção de artigos provocaram e mantiveram instituições sociais que eram fonte de outras ineficiências. Ashomogêneos que caracterizavam a metalurgia e a indústria química. A engenharia e a indústrias montadoras eram a fortaleza dos artesãos especializados, pois, no períodoconstrução mecânica, em particular, executavam boa parte de seu trabalho por anterior aos gabaritos e às máquinas-ferramentas automáticas, somente uma mãoencomenda, e ate os componentes básicos variavam conforme a tarefa. Como habilidosa era capaz de fazer componentes razoavelmente precisos ou de ajustá-los unsresultado, havia muitos movimentos repetitivos de tipo errado (com determinado aos outros. Esses homens eram a aristocracia da força de trabalho. Mestres de suasobjeto correndo várias vezes de um lado para outro pelo mesmo caminho, até se técnicas, aptos a manter e utilizar suas ferramentas, encaravam os equipa- 314 315
    • mentos como algo seu, mesmo quando pertenciam a empresa. No trabalho, eram (comparem-se os artigos têxteis ou o couro, que cedem, com os metais, que nãoeficazmente autônomos. A maioria deles pagava a seus assistentes e muitos cedem). Foi basicamente por causa de suas cômodas margens de tolerância que adesempenhavam o papel de subempreiteiros dentro das fábricas, negociando o preço de indústria de calçados figurou entre as primeiras indústrias montadoras a desenvolvercada tarefa com a diretoria, contratando os homens necessários e organizando o trabalho uma montagem progressiva, como é às vezes chamada.de acordo com sua própria preferência e conveniência. Os melhores dentre eles Os artigos de metal - do tipo que tinha que ser forjado peça a peça e montado,"faziam" as firmas para as quais trabalhavam. em contraste com os objetos simples que podiam ser cunhados ou No entanto, sua independência era cara. Avaliado pelos modernos métodos de prensados - eram uma outra história. Ali, as margens eram amiúde muito tempo e movimento, o trabalho especializado tendia a ser menos eficiente do que o estreitas, medidas em centésimos e milésimos de polegada. Em decorrência trabalho semi-especializado ou não especializado, feito sob supervisão disso, a permutabilidade era dispendiosa e só o atingimento da produção em grandes direta; e isso era perfeitamente esperável, pois o operário especializado estabelecia volumes fazia com que o esforço valesse a pena. (Os empresários acabaram aprendendo seu próprio ritmo, em vez de se ajustar ao da máquina. Além disso, esses mestres que o inverso também era verdadeiro: o esforço, quando bem-sucedido, gerava preços artesãos eram orgulhosos, melindrosos e, em geral, bem organizados. Seus baixos e um mercado em massa.) Não por coincidência, as primeiras aplicações interesses adquiridos no status quo eram um obstáculo à inovação, ainda mais que importantes dos princípios das peças intercambiáveis e da linha de montagem sua habilidade e virtuosismo eram incompatíveis com o princípio fundamental da ocorreram na indústria de armas de pequeno porte, que eram necessárias em grande tecnologia industrial - a substituição do toque e do esforço humanos pela exatidão e a quantidade para uso militar. infatigabilidade inanimadas. Tradicionalmente, a história tem atribuído essa inovação crucial a Eli Whitney, Os impulsos em direção a uma mecanização e aumento da escala, por um lado, e famoso pelo descaroçador de algodão, mas sua reivindicação não resiste a um exame a uma organização mais racional da produção, por outro, convergiram nesse rigoroso. Robert S. Woodbury assinalou que um mecânico sueco, Christopher Polhem, ponto. Para eliminar a especialização e fazer recuar a barreira logística, dois passos eram já fazia engrenagens uniformes para relógios na década de 1 720, e que um francês necessários: (i) a fragmentação da tarefa em operações simples, susceptíveis de ser chamado Blanc produzia rifles nos arsenais do governo, em bases intercambiáveis, antes executadas por maquinas destinadas a uma única função, operadas por mãos não da Revolução. Mas nenhuma dessas conquistas precoces firmou raízes, e somente especializadas ou semi-especializadas; e (2) o desenvolvimento de métodos de quando vários fabricantes de armas norte-americanos dentre eles Whitney, embora de fabricação tão precisos que a montagem se tornasse rotineira, ou, em outras palavras, a modo algum ele tenha sido o primeiro - elaboraram os princípios e desenvolveram as produção de peças intercambiáveis. Somente dessa maneira seria possível ferramentas necessárias, nas duas primeiras décadas do século XIX, é que passamos mudar de um fluxo nodal para um fluxo linear; só dessa maneira seria possível levar a ter um registro ininterrupto de disseminação. 103 A princípio, a técnica teve sua o trabalho aos trabalhadores num ritmo predeterminado, para que fosse processado e aplicação mais ampla no nordeste dos Estados Unidos, na fabricação não apenas de combinado através de uma série de atos simples e repetitivos. A linha de montagem, armas de pequeno porte, mas também de fechaduras, relógios e máquinas portanto, muito mais do que apenas uma nova técnica, foi um meio de obter maior agrícolas.- Somente na década de 1850 é que ela foi introduzida na Grã-Bretanha, na produção com menor custo. Nos ramos em que se impôs, ela marcou a passagem da fábrica de armamentos do governo em Enfield, após uma visita de inspeção do outro oficina, por maior e mais bem equipada que fosse, para a fábrica. lado do Atlântico. Dali, as técnicas se espalharam para duas das principais firmas As seqüências coerentes de máquinas e peças intercambiáveis são mais fáceis de particulares, a London Small Arms Company e a Birmingham Small Arms Company estabelecer em algumas indústrias do que em outras. A consideração decisiva é o grau de (fundada em 1861). Mesmo assim, o tamanho do mercado não era tão conducente à precisão requerido, que varia não apenas de acordo com a finalidade do produto fabricação pelo sistema de peças intercambiáveis quanto nos Estados Unidos: a (comparemos um cronômetro, um rifle, um alicate e a estrutura de uma casa), mas Inglaterra não tinha fronteiras turbulentas. Tampouco a política oficial ajudava: o também com o material empregado governo racionava as encomendas 316 317
    • decrescentes de armas de pequeno porte entre três ou quatro companhias, em Ao se aproximar o final do século, a produtividade dessas máquinas fora quatro ou cincoproporções fixas, na verdade invalidando os estímulos competitivos ao vezes aumentada pelo uso de fusos múltiplos, que possibilitaram o trabalho simultâneoaperfeiçoamento tecnológico.105 em várias peças. Eventualmente, instalaram-se fileiras dessas máquinas, usando No entanto, o rifle e a pistola são, no que concerne à articulação, mecanismos carrinhos transversais e castelos, para que trabalhassem lado a lado, tal como agrosseiros. A contribuição da segunda metade do século XIX situou-se, primeiro, na fileira de fusos de um filatt rio. A única mão-de-obra requerida era para o ajusteinvenção de diversos aparelhos não militares - a máquina de costura, depois a ocasional das ferramentas e para recarregar a alimentação de matéria-prima.máquina de escrever e a bicicleta, e por fim o automóvel - que exigiam um grau de (2) A fresadora. Sua característica distintiva é o uso de um cortador múltiploprecisão muito mais elevado e, ao mesmo tempo, desfrutavam do tipo de procura que giratório, que se assemelha a um pequeno cilindro ou a um cone seccionado comtornava digna do esforço, senão indispensável, a conquista da permutabilidade; e, em lados denteados. Ela ofereceu várias grandes vantagens em relação às ferramentas usuaissegundo lugar, no desenvolvimento dos equipamentos e técnicas necessários. de ponta única, com seus movimentos alternados intermitentes:106 arestas de corteTrês áreas de inovação foram cruciais: as máquinas-ferramentas, o tratamento* e a relativamente largas; movimento contínuo; e a possibilidade de perfilar os dentesmensuração. para permitir a produção de qualquer forma geométrica desejada. Além disso, quando Já tivemos oportunidade de discutir os primeiros aperfeiçoamentos das máquinas a fresa era combinada com um cabeçote giratório para permitir que a peça em monta-produtoras de máquinas. Em meados do século XIX, todos os requisitos essenciais gem fosse atacada por todos os ângulos ou por ângulos mutáveis, para cortar espirais,estavam presentes: a plaina retificadora, que fornecia o padrão de referência uniforme; por exemplo, o resultado foi a chamada fresadora universal (1861), uma maravilhao carrinho deslizante, que retirou a ferramenta de corte das mãos falíveis do artesão; de versatilidade. Ela acabou sendo ainda mais aperfeiçoada, através de uma espécie dee os ajustes rosqueados, que possibilitavam o trabalho delicado. O que as duas processo de composição comparável ao que havia produzido o torno múltiplo. 107gerações seguintes fizeram foi, essencialmente, adaptar e elaborar essas técnicas, na Dizem que a primeira fresa remonta a Vaucanson, no século XVIII; a primeiracriação de formas mais eficientes para as ferramentas básicas: máquinas perfuratrizes, fresadora foi construída por Eli Whitney em 1818. Mais uma vez, porém, foi atornos, plainas e os demais. Houve, entretanto, duas grandes novidades, ambas ligadas demanda decorrente da Guerra Civil que firmou o equipamento nos Estados Unidos; noà crescente demanda do que hoje são os bens de consumo duráveis: início da década de 1870, ela era um padrão na fabricação de máquinas de costura. (i) O torno-revólver (eventualmente, automático). A máquina era equipada Também na Inglaterra, a máquina de costura parece ter sido um fator decisivo na adoçãocom um castelo rotativo que chegava a carregar até oito ferramentas de corte, cada uma da nova técnica. A maior fábrica mundial para produção dessa combinação de bem dedas quais podia ser utilizada alternadamente no trabalho. O passo seguinte foi a rotação capital com bem de consumo durável era a Singer, em Clydebank, na Escócia, queautomática, obtida em 186i1, ou talvez antes; a invenção concomitante de um dispositivo iniciou suas operações em 1870 e produzia 8.000 máquinas por semana em 1885. Apara segurar e alimentar a peça a ser usinada reduziu o papel do trabalhador a inserção, Singer instalou cerca de 216 fresadoras na década de 1870 e um total de 2.233 durante osupervisão e retirada. Embora a idéia talvez tenha vindo da Inglaterra, a primeira período de 1870-1914. A vasta maioria destas foi construída em Clydebank ou pelautilização ampla dessas máquinas ocorreu nos Estados Unidos, na década de 1840; a matriz da empresa nos Estados Unidos, de modo que houve pouca propagação da novaGuerra Civil, com sua demanda de artigos de metal produzidos em massa, incentivou tecnologia entre os fabricantes ingleses independentes de máquinas-ferramentas. Semsua difusão. Na década de 1870, elas eram largamente usadas na Europa. dúvida, o fresamento estava-se impondo em outros ramos da indústria; assim, algumas das fábricas de locomotivas estavam-no utilizando com eficiência na montagem pesada no fim da década de 1870 e início da seguinte, mas sua verdadeira difusão esperou* No original, grinding. O verbo correpondente pode ter o sentido de moer, afiar, triturar, desgastar, que a explosão das bicicletas, na década de 1890, inaugurasse um novo campo de polir. Preferimos a tradução "tratamento" para permanecermos mais próximos à terminologia moderna aplicação.108 dos metais e ligas "tratados". (N. da T.) 318 319
    • Parte da dificuldade era técnica: durante muito tempo, o projeto e os materiais baixar e, nas duas décadas seguintes, o corndon praticamente eliminou o esmeril nadas máquinas não estiveram à altura da concepção. As largas arestas de corte da moldagem e acabamento. Ao mesmo tempo, o caráter desejável de uma superfíciefresadora, mais de uma das quais podiam ficar em contato com a peça usinada ao abrasiva retificada e duradoura levou ao desenvolvimento de rodas de amolar sólidas,mesmo tempo, submetiam o fuso e a árvore a uma tensão extrema, e só a mais rígida onde os grãos cortantes eram misturados com aglutinantes como cola, borrachaconstrução impedia a ferramenta de vibrar e trepidar; mesmo nesse caso, o vulcanizada, argila ou silicatos. A primeira delas remonta pelo menos a 1837 naaplainador e o limador alternados faziam uma montagem mais precisa, especialmente Inglaterra, 1843 na França e 1850 na Alemanha. Conjugados a elas havia dispositivosem grandes superfícies. Além disso, a continuidade e a rapidez do fresamento requeriam engenhosos para desbastar, ou seja, refazer o gume da roda (a partir de 1860) e paraum metal resistente, principalmente porque o desgaste desigual de qualquer das arestas retificar sua forma (aproximadamente no mesmo período).cortantes exigia um novo tratamento para todas elas; como vimos, os aços especiais Ao mesmo tempo, os fabricantes de máquinas estavam instalando essas rodas empara ferramentas, necessários para isso, só foram inventados na virada do século.109 dispositivos mecânicos capazes de operá-las do mesmo modo que a furadeira opera sua A introdução de aços ligados novos e mais duros, não apenas para ferramentas mas broca, ou a fresadora sua cabeça de corte. A primeira dessas pedras de amolar remontatambém para peças mecânicas, intensificou o desafio já lançado pelo impulso em direção ao Renascimento, senão a épocas anteriores, e teve considerável utilização na indústriaà velocidade e à precisão. A montagem rápida e exata requeria gumes afiados e um bom óptica, na fabricação de relógios e em ramos leves similares nos séculos seguintes,acabamento; as duas coisas só podiam ser obtidas através do tratamento. mas seu aperfeiçoamento e especialização para a indústria de larga escala foi obra da É importante distinguir entre estas duas funções básicas do tratamento - a Revolução Industrial. Mecânicos ingleses (Whitelaw, Bodmer, Nasmyth, Barker emanutenção e a moldagem de ferramentas. Até a passagem do século, a primeira era de Holt), alemães (Krupp) e, acima de tudo, norte-americanos (David Wilkinson,longe a mais importante: o tratamento costumava restringir-se a afiação irregular e Bridges, Wheaton, Darling e Poole) empenharam-se nessa elaboração, que atingiu seuassistemática das ferramentas por cada trabalhador. Gradualmente, porém, os próprios auge no trabalho de Joseph Brown, da Brown & Sharpe, o idealizador, senão oabrasivos começaram a ser usados como ferramentas. Como na maioria das outras projetista, da retificadora universal (1875).áreas da metalurgia, os Estados Unidos abriram o caminho: já na década de 1870, um Não foi por coincidência que esses aperfeiçoamentos concomitantes na superfícieobservador pôde escrever que "a grandiosidade [Grossartigkeit] da indústria de tratamento abrasiva e no mecanismo de montagem aceleraram-se com a aproximação do final dona América assombra qualquer estrangeiro". Nesses primeiros anos, entretanto, a século e vieram a inspirar um conceito radicalmente novo da técnica de tratamento. Maistécnica limitava-se ao acabamento esmerado. Foi preciso haver uma série de avanços uma vez, a revolução nesse terreno esteve intimamente ligada a crescente procura decorrelatos no preparo e manipulação dos abrasivos, somados a uma reinterpretação máquinas complexas, de operação suficientemente fácil e robusta para suportar oscriativa da natureza e das possibilidades da técnica, para tornar possível o que desde maus-tratos do consumidor doméstico, incompetente em matéria de mecânica. Aentão veio a ser conhecido como tratamento na produção. 110 máquina de costura deu um gostinho antecipado dessas conseqüências tecnológicas O principal problema material era a obtenção de uma superficie abrasiva derivadas, como fez a bicicleta com seus rolamentos; mas nenhuma teve algo parecidoverdadeiramente eficiente, de características conhecidas e uniformes. Até o com o impacto do automóvel. É difícil superestimar esse impacto, que é comparável aofim do século XIX, todo o tratamento industrial era feito com abrasivos naturais, como da máquina a vapor no século XVIII. O automóvel não foi o primeiro objeto dao arenito, o esmeril (óxido de alumínio impuro) ou, a começar na década de 1820, o indústria a requerer uma montagem complexa, ou delicada, ou precisa. Mas nada antescorindon (óxido de alumínio quase puro). O último destes era o mais duro, mas era dele jamais havia exigido todas elas, muitas vezes em materiais demasiadamente durostambém o mais caro, pois, até a década de 1870, tinha que ser importado de regiões às para serem moldados pelos meios tradicionais, e em quantidades tais que pressionavam amargens do oceano fndico. A descoberta de grandes depósitos na América do Norte fez oferta de mão-de-obra especializada. Desde o início, a indústria automobilística pagouo preço os salários mais altos a seus artesãos: precisava e podia fazêlo. E, desde o começo, ela foi forçada a fazer coisas novas e a descobrir 320 321
    • novas maneiras de fazer as antigas. Além disso, tanto havia a promessa da E, nas outras indústrias, os europeus se apressaram em comprar equipamentos norte-recompensa econômica quanto a compulsão tecnológica: a elasticidade da demanda americanos ou a produzir máquinas segundo as patentes norte-americanas; a partir dede transporte privado trazia um enorme incentivo a aperfeiçoamentos que 1904, por exemplo, Ludwig Loewe & Co. começaram a produzir retificadoras do tipoeconomizassem custos, os quais, dada a natureza do trabalho, consistiam quase Norton em Berlim. Não demorou muito, além disso, para que eles e outrosinvariavelmente na substituição da mão-de-obra pelo capital. projetassem seus próprios modelos, de acordo com suas concepções e os requisitos A resposta a muitos dos problemas de produção da nova indústria residiu em da indústria européia.substituir o fresamento e o desbaste pelo tratamento. Não apenas a nova técnica Enquanto isso, os novos padrões de fabricação provocaram uma revolução noassegurava a maior precisão exigida por peças intercambiáveis que funcionavam a outro campo do tratamento, o da manutenção das ferramentas de corte. Aqui, osaltas velocidades e temperaturas, como também se revelava inestimável na montagem avanços fundamentais foram, mais uma vez, a introdução de abrasivos aperfeiçoados e opreliminar - na retirada de material dos virabrequins e dos eixos de carnes, por desenvolvimento de máquinas precisas para fins especiais. A utilização efetiva desseexemplo. E permitia o uso de ligas leves e duras, como o aço-vanádio, sem as quais não equipamento, entretanto, implicava uma reorganização das fábricas, que muitas vezesteria sido possível um automóvel econômico de uso geral. provocava uma oposição acirrada dos metalúrgicos, altamente especializados e Os avanços que possibilitaram essa espécie de tratamento na produção foram três: correspondentemente melindrosos. Em particular, tornou-se então necessárioprimeiro, a invenção de abrasivos artificiais, particularmente o carborundum designar retificadores especializados e criar uma sala de ferramentas separada para(primeira utilização comercial em 1896), mais duro que os materiais naturais armazenar as peças em montagem e mantê-las em condições adequadas. Isso significou,tradicionais (sempre com exceção do diamante) e passível de ser preparado em por parte do trabalhador, a renúncia ao controle sobre suas ferramentas; privou-ogranulações variáveis, de modo a se adequar aos requisitos da montagem; segundo, o também do agradável relaxamento da fila da pedra de amolar - o equivalentedesenvolvimento de equipamentos de tratamento de precisão, de construção pesada e oitocentista do intervalo para o café.112potente, que usavam rodas maiores e mais largas; e por fim, a introdução do Com as ferramentas aperfeiçoadas vieram os controles padronizados - não portratamento por imersão, em que a roda recebia o formato da peça desejada e era meio de instrumentos de medida como a régua e o compasso, mas por instrumentosintroduzida no material em montagem, em vez de passar por cima dele. independentes dos caprichos do olho humano, estáveis em sua exatidão e que exigiam O tratamento na produção oferece um excelente exemplo da contribuição pouca ou nenhuma habilidade. Os medidores de pino e coroa de Whiiworth foram osdos engenheiros como inovadores-empresários. O pioneiro, aqui, foi Charles H. protótipos de toda uma família de aparelhos - os calibres de limite (passa - não passa),Norton, um gigante na tradição de Maudslay, Nasmyth e Whitworth. Norton calibres de tolerância, medidores reguláveis, discos de referência e cubos de medida -concebeu a nova técnica, chamou atenção para suas implicações econômicas cuja margem de tolerância era às vezes tão ínfima quanto 1/50.000 de polegada, e cujapositivas, projetou numerosas máquinas para efetuá-la e elaborou os princípios da operação era quase à prova de idiotices. Apesar disso, o ganho não foi na qualidade dooperação ótima, sobretudo a escolha do abrasivo e da velocidade de tratamento produto final, mas em seu custo. A natureza dessa mudança foi bem descrita por H. F.adequada à tarefa. Mas seu sucesso e o dos outros pioneiros norte-americanos nessa Donaldson, um fabricante de equipamentos de Woolwich e membro do Conselho daárea muito deveu a orientação empresarial e tecnológica da indústria automobilística Instituição de Engenheiros Mecânicos, numa palestra de 19 09:norte-americana - a ênfase precoce na quantidade, na leveza e no baixo custo. A prática européia não estava muito atrás da norte-americana. Certamente, a Quando comecei a fazer meu aprendizado nas oficinas, lembro-me que "um bom i /64 deampla adoção do tratamento na produção na fabricação de veículos automotivos polegada" era mais ou menos a medida mais rigorosa a que se referia qualquer trabalhador,só chegou à Inglaterra e à Alemanha durante ou depois da Guerra. Por outro lado, ambos ou, aliás, seus superiores. Ainda assim, mesmo com uma dimensão nominal tão grosseira, eos países se anteciparam aos Estados Unidos na aplicação do tratamento na construção com o uso de um compasso comum, produzia-se um trabalho magnífico, graças à habilidade manutenção de locomotivas. de cada trabalhador e à precisão de seu sentido do tato. Nem o operário nem, em muitos casos, seus superiores, tinha qualquer conhe- 322 323
    • cimento real do grau de exatidão com que a montagem era feita, mas persiste o fato Se a padronização dentro da empresa era difícil, quão mais difícil era persuadir de que se faziam e montavam trabalhos da melhor qualidade, com encaixes pelo os fabricantes em toda uma indústria a aceitar uma norma nacional? O problema menos tão exatos quanto os atualmente assegurados por métodos mais sistemáticos era agravado pela instituição singularmente britânica do engenheiro consultor, e, segundo cremos, melhores e certamente mais baratos. A grande diferença existente que tendia a conceber cada projeto como se o fabricante fosse um alfaiate de entre aquela época e agora é que, embora a montagem de então fosse da mais alta roupas sob medida que trabalhasse com metal. Também aí, entretanto, a qualidade, no que tange a cada máquina montada, o grau de exatidão que prevalecia concorrência externa se fez sentir. Os norteamericanos tinham sido os primeiros em cada peça era inteiramente desconhecido, e as peças de uma dessas máquinas a adotar formatos e dimensões uniformes, impondo-os arbitrariamente aos clientes não eram intercambiáveis nem passíveis de substituição mútua numa outra máquina e consumidores industriais a partir da década de 1880.116 Os alemães haviam que tivesse, nominalmente, as mesmas dimensões em todos os pormenores. Em seguido seus passos, em grande parte por uma questão de princípios - a outras palavras, as máquinas eram feitas e "ajustadas", na época, com grande cuidado e com grande quantidade de trabalho manual dispendioso, enquanto hoje, pelo simplificação era racional; além disso, a organização industrial facilitava a menos nas usinas mais progressistas, as máquinas são "montadas" a partir de peças introdução e a imposição de padrões inter-empresariais. As vendas inglesas feitas segundo um grau conhecido de exatidão, e com um mínimo de ajustamento defasadas, tanto nesses países quanto em outros mercados, junto com a maior manual dispendioso, e com a vantagem adicional de que as peças das máquinas assim inquietação dos técnicos, finalmente levaram, em 1901, à criação de uma produzidas são intercambiáveis entre si, quando a montagem é feita com base num Comissão de Padrões de Engenharia na Inglaterra, sob os auspícios das principais sistema apropriado de limites ou calibres de limite.113 associações nacionais de engenharia. Os primeiros esforços da comissão foram no campo da indústria side- rúrgica, onde os fabricantes ingleses produziam 122 cortes angulares e estriados, A citação é tão interessante pelo que deixa implícito quanto pelo que diz. contra 33 nos Estados Unidos e 34 na Alemanha.117 Nessa área, eles obtiveram umAntes da Primeira Guerra Mundial, afora as poucas indústrias que fabricavam sucesso considerável, pois os fabricantes queriam eliminar o desperdício daprodutos para o mercado de massa, como a máquina de costura, apenas as diversificação, e a própria existência de padrões lhes fornecia uma resposta prontaempresas mais progressistas da Inglaterra trabalhavam com peças intercambiáveis. para as preferências idiossincráticas dos clientes.118 Em 1914, 95% da produção deUma equipe norte-americana de mecânicos de automóveis, enviada pela Cadillac cinco das maiores usinas de laminação do Reino Unido estavama Inglaterra em 1906, causou sensação ao expor os componentes misturados de padronizados. 119 A padronização também progrediu bem numa indústria novatrês carros, no piso de um barracão na pista de Brooklands, e montar os veículos como a da eletricidade, operada por técnicos cientificamente formados ecom chaves inglesas, chaves de fenda, martelos e alicates.114 A maioria das firmas dirigentes relativamente progressistas, embora a diversidade da oferta debritânicas desse período estava presa num circulo vicioso: a produção não era correntes elétricas complicasse consideravelmente a questão.suficientemente grande ou uniforme para justificar desembolsos pesados em Em contraste, as indústrias montadoras mais antigas, como a de construçãoequipamentos de precisão e numa reorganização do traçado das fábricas; no mecânica, demoraram a se modificar. Cada firma tinha um orgulho deentanto, esse era o único meio de obter os custos e preços baixos que gerariam proprietário por seu trabalho, a ponto de muitas simplesmente não seuma demanda maior e justificariam seqüências de produção mais longas. Muitos interessarem por normas e pelas técnicas de produção que as acompanha-fabricantes argumentariam, plausivelmente, que qualquer esforço de fixar a vam. 120 Além disso, a mão-de-obra nos setores de engenharia mecânica,forma e a estrutura de seus produtos lhes roubaria a flexibilidade, que é a arma fortemente organizada, orientada para seu ofício e temerosa do desempregomais poderosa da pequena e da média empresas. Era preciso espírito de iniciativa para tecnológico, combatia todas as mudanças nas condições de trabalho.121 Mais umaromper essa cadeia conservadora de lógica, e ele raramente estava à mão. Na vez, foi a Primeira Guerra Mundial, com sua grande demanda de toda sorte demaioria dos casos, foi preciso haver uma pressão externa, como as incursões maquinas e sua escassez de operários especializados, que deu impulso à luta contracrescentes de Henry Ford no mercado inglês, ou incentivos ex- a idiossincrasia; na verdade, as descrições dos avanços feitos depois de 1914 sãotraordinariamente favoráveis, como as imensas encomendas governamentais do nossa melhor fonte de consulta - implícita, masperíodo da guerra, para induzir a uma transformação. 115 324 325
    • válida - sobre a ineficiência que prevalecia anteriormente. 122 Mesmo assim, o desenvolvimento econômico de qualquer país, visto isoladamente, bem comoprogresso foi lento em muitos ramos, que foram descritos em 1927 como dos países, vistos em conjunto; nesse aspecto, sua importância cresceu ao longo"ainda atados pela tradição e se arrastando com um imenso número de peças da Revolução Industrial, até que, na virada do século, essa era umaa das áreas deavulsas, sem fazer nenhuma tentativa de simplificação".123 maior negligência e, pela mesma razão, de maior aumento potencial da Comparada à Inglaterra, portanto, a Alemanha era nitidamente mais produtividade.adiantada, embora haja uma tendência a nos concentrarmos nos exemplos mais Nos dias que antecederam a maquinaria mecanizada, a habilidade e aimpressionantes da realização alemã nesse campo, assim exagerando a rapidez eram diferenciais decisivos. Defoe tinha perfeita ciência disso; comparandodiscrepância. Até mesmo uma empresa tão moderna quanto a fábrica de os salários e o trabalho na Inglaterra e na França, escreveu:equipamentos mecânicos Loewe, em Berlim, reconstruída em 1898-9 de acordocom a melhor prática norte-americana, só estabeleceu "Arbeitskreise", * ou seja, Eu poderia examinar esse Elemento dos Salários e levar esse exame a cabo emsó passou de um padrão nodal para um padrão de fluxo linear, em 1 9 2 6 . 124 quase todos os Ramos de Negócios da Inglaterra; e ficaria evidente que os PobresSimilarmente, a fábrica de máquinas Wolf, em Magdeburg, produzia peças Ingleses ganham mais Dinheiro do que a mesma Categoria de Homens ou Mulheres éintercambiáveis junto com equipamentos para fins especiais antes da guerra, mas capaz de fazer, no mesmo tipo de Trabalho, em qualquer outra Nação.esses componentes eram usados, na época, para montar fileiras de máquinas fixas Tampouco se há de negar que eles também executam mais Trabalho: Assim, pois,no galpão de montagem.125 Para ambos os países, o novo sistema de produção em se executavam mais Trabalho e têm também melhores Salários, devemmassa era, essencialmente, obra da famosa "racionalização" da década de 1920. necessariamente viver melhor e ter a mesa mais farta; e é também verdade que não poderiam suportar sua Labuta sem isso. E aqui posso admitir que um Francês realizará mais Trabalho do que um Inglês, sendo Como já ficou implícito, a reorganização do trabalho acarretou a reor- ambos obrigados a sobreviver com a mesma Dieta; ou seja, se apostar passar fome comganização da mão-de-obra: a relação dos homens entre si e com seus em- o Inglês, o Estrangeiro com certeza vencerá: Irá viver e trabalhar, enquanto o Inglêspregadores estava implícita no modo de produzir; a tecnologia e o padrão social soçobrará e morrerá; mas, a deixálos viver da mesma Maneira, o Inglês superará oreforçavam-se mutuamente. Francês, pois, ainda que o Francês gaste todo o seu Salário, o Inglês o suplantará no Mas a mão-de-obra não é um fator como os outros. Ela é ativa, enquanto o Trabalho.equipamento e a matéria-prima são passivos. Tem mente própria; resiste, tanto Verdadeiro é também que é maior a Diligência do Francês, que ele trabalhaquanto é receptiva. Seu desempenho, independentemente de outras mais horas do que o Inglês; mas o Inglês realiza tantas Tarefas nessas Horas reduzidasconsiderações - aquilo a que podemos chamar sua eficiência, em contraste com quanto o Estrangeiro que nelas despende mais tempo. 126sua produtividade -, não é fácil de calcular, a não ser através dos modernossistemas de contabilidade de custos. Os dados históricos são subjetivos e Nas primeiras décadas da Revolução Industrial, entretanto, quando asescassos. É especialmente difícil separar o esforço puro, a diligência e a técnicas em rápida transformação ofereciam grandes retornos, e quando ahabilidade da organização e da supervisão, que obviamente fazem diferença. mecanização, em particular, gerava aumentos espetaculares de produtividade emFelizmente, essa discriminação apurada não é necessária para nossa análise. comparação com o trabalho manual, a eficiência da mão-de-obra perdeu importânciaPodemos juntar esses elementos num aglomerado, sem sacrifício indevido da relativa e - sensatamente ou não - foi negligenciada. Eric Hobsbawm, numprecisão. importante artigo sobre os "Costumes, Salários e Carga de Trabalho na Nosso desconhecimento sobre as variações da eficiência da mão-deobra no Indústria do Século XIXI,127 cita o Carding and Spinning Masters Assistant* deespaço e no tempo é ainda mais lamentável. Temos todas as razões para crer que 1832, que advertia contra a reformulação das instalações mecânicas, ainda que elasela foi um determinante importante do ritmo e do caráter do fossem deficientes, sob a alegação de que o custo provavelmente ultrapassaria a economia obtenível.* Circuitos de trabalho, ou linhas de montagem. Em alemão no original. (N. da T.) * Publicação cujo titulo se traduziria por "Ajudante do mestre de cardagem e fiação". (N. da T.) 326 327
    • A maioria dos empresários e gerentes desse período preferia os salários fixos e cesso de produção. Em todas as indústrias, houve uma insatisfação generalizada com aconfiava na "pressão" dos capatazes e mestres-de-obras para lhes obter o valor de seu substituição de operários qualificados por trabalhadores não especializados ou semi-dinheiro a curto prazo, bem como no efeito silencioso da transformação tecnológica especializados, que eram mais fáceis de gerenciar e mais receptivos ao ritmopara reduzir os custos trabalhistas a longo prazo. Quando era possível fracionar a estabelecido de cima para baixo.produção, usavam-se às vezes pagamentos por unidade produzida, como um incentivo à A estrutura salarial refletiu a nova política. À medida que o trabalhodiligência, mas diversas considerações conjugavam-se no sentido de anular seu efeito diversificado do artesão, não fracionável em unidades de produção homogêneas, cedeuestimulador. Assim é que as taxas costumavam ser calculadas com base nas normas lugar à operação rotineira das máquinas com funções específicas, os salários pagos porcostumeiras e ajustadas conforme as mudanças na técnica, de modo a reservar para o horas trabalhadas deram lugar aos salários pagos por unidade produzida. Essa mudança foicapital a maior parte de quaisquer aumentos de produtividade. Essa divisão do sentida da maneira mais aguda nos ramos da engenharia, onde a remuneração porproduto adicional pode ter sido justa ou não, mas seu efeito sobre o trabalhador foi hora sempre fora a norma geral. Houve numerosos protestos, que testemunham asconvencê-lo de que a assiduidade era inútil. Além disso, a mão-de-obra, mesmo tensões e ressentimentos produzidos por essas mudanças na técnica e na organização. Enas fábricas, tinha freqüentemente o tipo de curva de oferta flexionada para trás que bem verdade que a mão-de-obra, e particularmente a mão-de-obra organizada,sempre havia caracterizado o trabalho domiciliar.128 Assim como os salários tendiam a geralmente preferia a remuneração por unidades produzidas. Admite-se que estaser definidos pelo costume, também o nível de desempenho era fixado pela tradição e levasse alguns homens a se sobrecarregar de tarefas (embora as restrições coletivasas expectativas de renda compare-se o ideal, ainda persistente, de "um bom dia de habitualmente o impedissem), que estimulasse um trabalho apressado e até malfeitotrabalho por um bom dia de pagamento" -, sendo imposto por uma intensa pressão (embora não fosse difícil estar alerta contra isso) e que levasse alguns a adotar o ritmogrupal que contrariava as tentações da ambição. Esse racionamento do esforço produzia de pressa-lentidão que sabemos ter caracterizado o sistema de produção domiciliar douma lentidão que contribui muito para explicar a capacidade da mão-de-obra de manter a século XVIII. Contudo, mais importante do que todos esses inconvenientes era aprodução a curto prazo sempre que havia uma redução no horário, como aconteceu convicção da maioria dos homens de que os salários por unidade produzida lhes davamrepetidamente no correr do século. Inversamente, contribui também para sua única segurança de terem uma parcela do aumento de produção decorrente dosexplicar a incapacidade quase universal que as inovações tecnológicas tiveram de avanços da técnica. Mesmo quando os empregadores tentavam ajustar os salários paragerar os aumentos de produtividade que, teoricamente, elas mesmas podiam possi- baixo, ao menos havia alguma coisa a negociar. Com os salários por horas trabalhadas,bilitar. 129 em contraste, o trabalho podia aumentar, e de fato o fazia, imperceptivelmente, à A tendência da direção a deixar que o costume estabelecesse o nível de desempenho medida que aumentava a produtividade; mesmo quando esse processo era visível, o no trabalho foi abalada pela adversidade. As contrações do fim da década de 1860 sistema de remuneração dava poucas oportunidades de correção. (especialmente na indústria têxtil) e de meados da década de 1870 (em toda a indústria), Para o trabalhador inglês do fim do século XIX, entretanto, o salário por unidade quando os salários se sustentaram melhor do que os lucros, foram cruciais nesse produzida mais parecia um instrumento de exploração do que uma defesa. Sem aspecto. Os empregadores tentaram reduzir os custos trabalhistas aumentando o dúvida, ele acenava com a promessa de uma remuneração mais elevada. Mas os desempenho, e a questão da natureza e do tamanho da carga de trabalho suplantou a trabalhadores alegavam que os valores pagos eram estipulados de acordo com o dos salários como tema principal das disputas trabalhistas. Na indústria têxtil, o casus desempenho dos homens mais rápidos; os lentos tinham que acompanhá-los, ou então belli foi a tentativa da administração de aumentar o número de teares mecânicos por "ficavam arruinados".130 A remuneração mais alta, achavam eles, não passava de tentativa tecelão; a luta foi particularmente acirrada no Continente. Na construção mecânica e de adoçar a pílula para fazêlos engolir normas de trabalho mais rígidas; e, de fato, os na engenharia, um sério pomo da discórdia foi o direito de a direção deslocar os novos valores raramente se mantinham além do que era considerado um aumento homens de um lado para outro conforme a necessidade, isto é, de tratar o trabalhador razoável - de 1/3, ou talvez a metade - sobre os salários costumeiros. como uma peça intercambiável no pro- Nisso, tanto quanto no apetite de lucro do empregador, estava o cerne 328 329
    • da dificuldade. O empregador, como a maioria dos ingleses das "classes proprietárias", dos trabalhadores; segundo, a mensuração exata do custo trabalhista de cada operação;presumia como certo que seus homens e os filhos deles estavam destinados a continuar e terceiro, o estabelecimento de normas baseadas nesses cálculos. A introdução dessessendo trabalhadores, e "que todo o tecido social, político e industrial desmoronaria" novos padrões, quase invariavelmente superiores aos que eram costumeiros no setor,se, de repente, os trabalhadores enriquecessem, ficassem insatisfeitos com sua sorte e viria a ser abrandada por taxas favoráveis de remuneração por tarefa, pagamentos deambicionassem uma posição mais elevada.131 Ora, talvez tenha havido uma época, como bonificações ou outros incentivos.dizem alguns, em que o trabalhador - ou, pelo menos, muitos trabalhadores- não Nesse ponto, o círculo descreveu a volta completa: o esforço de aprimorar aacreditasse nisso, em que sinceramente achasse que poderia ascender, e em que fosse eficiência do trabalhador, um esforço nascido da maior eficiência do capital,suscetível aos apelos à diligência e à "auto-ajuda". Nas últimas décadas do século, abriu caminho para avanços na utilização dos equipamentos. A administraçãotodavia, o desencanto se havia claramente instalado, em parte graças a uma experiência cientifica estava logicamente vinculada, como causa e como efeito, às inovações namais longa com as dificuldades de progredir, e em parte graças a consciência de classe operação das máquinas-ferramentas, no manuseio dos materiais, na divisão do trabalhomais aguçada de um movimento trabalhista organizado, ideologicamente fortalecido na fábrica e na organização dos fluxos de trabalho discutidos anteriormente, pois opela doutrina militante. A essa altura, o trabalhador estava pronto a encarar qualquer estabelecimento de normas apoiava-se numa análise do processo de produção e,iniciativa do patrão como uma armadilha. E a isso convém acrescentar seu medo do inevitavelmente, revelava os pontos fracos e as possibilidades de aprimoramento. Odesemprego tecnológico. A despeito da política econômica, ele se agarrava q u e Taylor pregou foi uma substituição do hábito pela razão, uma nova maneira deinstintivamente à doutrina da "quota de trabalho": havia apenas uma certa quantidade encarar as coisas conhecidas. Não por coincidência, ele descobriu o aço de altade trabalho em circulação, e o pão que um homem ganhava através do trabalho mais velocidade e elaborou as tensões e velocidades corretas da correagem mecanizada,rápido tirava da boca de seu semelhante. Em decorrência disso, o trabalhador tendia a bem como um método eficiente para a manutenção daquilo que sempre foraresistir, como membro de um grupo, até mesmo as inovações que lhe eram vantajosas responsabilidade de qualquer um, sem designação específica (como a lubrificação ou acomo indivíduo; e enquanto, no início do século XIX, o esforço da mão-de-obra para afiação). A questão a ser frisada é que sua busca de um ritmo de trabalho ótimo levou-oarrancar melhorias do empregador tinha sido um estímulo à inovação, no final do a estudar e a estabelecer padrões de eficiência para todos os aspectos da produção.132período que estamos considerando, esse mesmo esforço - mais eficaz, porém visando Quase com a mesma precocidade, no entanto, os europeus estavam elaborando seumais às condições de trabalho do que aos salários bem pode ter sido, no próprio pensamento e escrevendo sobre a administração das fábricas, e algumas idéiascômputo geral, um obstáculo à transformação tecnológica. Decerto isso se aplicava paralelas vinham encontrando uma aplicação ocasional e descontínua. Em 1896, J.com freqüência ao curto prazo, e na história, senão na teoria, o longo prazo, muitas Slater Lewis, chefe do departamento de engenharia elétrica de uma siderúrgica devezes, não passa do curto prazo cultuado como uma praxe, uma tradição ou um Manchester, publicou "o que é, aparentemente, o primeiro livro moderno sobre ainteresse adquirido. organização fabril".133 Na passagem do século, as principais publicações de engenharia Nesse meio-tempo, o esforço para maximizar o produto do trabalho levou a um na Inglaterra e na Alemanha, bem como nos Estados Unidos, estavam repletas do novocriterioso estudo do trabalhador como uma máquina inanimada, pelos olhos de um novo evangelho e fundamentavam sua pregação em exemplos de inovações bem-sucedidas.tipo de engenheiro. A iniciativa veio dos Estados Unidos, como sempre preocupados Não por coincidência, entretanto, a área de avanço mais rápido foi a contabilidade: eracom essa questão. Foi na Siderúrgica Midvale, na Pensilvânia, no início da década de mais fácil aperfeiçoar o fluxo e a qualidade da informação do que agir com base nela.1880, que Frederick W. Taylor (1856-1915) conheceu e aprendeu, como operário e Mesmo assim, alguns controles de custos mais rigorosos possibilitaram uma organizaçãocapataz da oficina de máquinas, a prática e os truques da "cera", e foi ali que desenvolveu mais centralizada da produção; é isso, por exemplo, que explica em grande parte oo sistema que passou a ser conhecido como administração cientifica, ou declínio do chamado "sistema de parceria", no qual a administração entregava tarefas,taylorismo. Tal como acabou sendo elaborado, seu método compreendia, num sistema de subempreitada, a mestres-de-obras que contratavam seus pró-primeiro, a observação cuidadosa, a análise e o cálculo do tempo dos gestos 330 331
    • prios ajudantes. O sistema, em geral, era dispendioso, mas suas mais sérias entrar em contato e a juntar forças em algumas áreas de interesse comum. Na verdade,desvantagens eram suas implicações nocivas para a disciplina e o moral: a porém, elas não se tocam, e esse é um casamento que, para funcionar, requer umainterposição de um empreiteiro entre o empregador e o empregado dificultava o intermediação permanente; o abismo entre a ciência e a tecnologia é largo demaiscomando efetivo, e a competição por esses contratos dava margem ao tipo de arrocho para que haja uma comunicação direta. A ligação é fornecida por doissalarial que tantas vezes acompanhara o sistema de produção domiciliar. Apesar disso intermediários: a ciência aplicada, que tem por meta o controle, mais do que otudo, o sistema de parceria era quase indispensável em indústrias como a construção saber, e que transforma as descobertas da ciência pura em formas adequadas paranaval, nas quais permitia que a administração calculasse antecipadamente os custos de uso prático; e a engenharia, que toma as generalizações da ciência aplicada, juntamentetarefas complicadas. Sem uma previsão, não poderia haver cotações de preços com uma multiplicidade de outras considerações, econômicas, legais e sociais, e extraicompetitivas. A partir da década de 1890, a contabilidade de custos foi a resposta. O os elementos necessários para solucionar um problema técnico específico - seja ele aescritório estava começando, mas apenas começando, a dominar a fábrica. construção de uma ponte, o projeto de uma fábrica ou a regulagem de uma máquina. Vista do prisma retrospectivo de meados do século XX, a administração científica foi a Quando se fala, portanto, do casamento da ciência com a tecnologia, realmente seseqüência natural do processo de mecanização que constituíra o cerne da Revolução está fazendo referência a uma união complexa, que não foi consagrada num dadoIndustrial: primeiro, a substituição da habilidade e força humanas pela energia momento do tempo, mas desenvolveu-se lentamente e de maneira desigual, e que atémecânica e inanimada; depois, a conversão do operador num autômato, para equipará-lo hoje varia de país para país e de indústria para indústria. Ainda existem áreas daa seu equipamento e fazê-lo acompanhar o ritmo deste. A terceira etapa acha-se agora produção que têm que confiar maciçamente num empirismo talentoso. Não obstante,entre nós: a automação a substituição do homem por máquinas que, além de fazer, "pen- foi a segunda metade do século XIX que viu, pela primeira vez, alguns estreitossam". Até onde e com que rapidez essa nova técnica avançará, e se, em combinação com a vínculos sistemáticos entre as duas, em importantes ramos da atividade industrial; eenergia atômica, irá representar uma segunda (ou terceira) Revolução Industrial, ainda é foi seu sucesso nessas áreas que estabeleceu o padrão e trouxe o incentivo para umacedo demais para dizer. Mas há um certo consolo em pensar que, aparentemente, é mais cooperação adicional.134fácil fazer máquinas semelhantes ao homem do que transformar o homem numa As razões desse fenômeno podem ser buscadas tanto na oferta quanto na procura domáquina. conhecimento. Do lado da oferta, a fundação, já na década de 1790, de instituições de formação em engenharia, parcialmente dirigidas por homens de instrução e Por trás desse caleidoscópio de mudanças - ora marcado por brilhantes explosões inclinação teóricas, possibilitou não apenas transmitir aos alunos certos elementosde crescimento, ora entediante em sua complexa fragmentação, e sempre estonteante (às vezes equivocados) da ciência contemporânea, mas também, e mais importante,em sua variedade -, uma tendência geral é patente: o casamento cada vez mais estreito equipá-los com os instrumentos da análise e as atitudes mentais que possibilitam aentre a ciência e a tecnologia. Já tivemos oportunidade de observar a independência passagem do abstrato para o concreto, do geral para o específico. Do lado da procura, aessencial dessas duas atividades durante a Revolução Industrial e de assinalar que o natureza dos campos de atividade industrial mais novos a química orgânica e aestímulo e a inspiração que efetivamente cruzaram esse abismo partiram da tecnologia engenharia elétrica, em particular - tendeu a reduzir a confiança na combinaçãopara a ciência, e não o inverso. A partir de meados do século XIX, entretanto, tradicional de empirismo e bom senso e a impor uma abordagem mais científica. É quedesenvolveu-se uma estreita aliança; a tecnologia continuou a suscitar problemas esses métodos mais antigos só são capazes de lidar adequadamente com o que é suscetívelfrutíferos para a pesquisa científica, mas o fluxo autônomo de descobertas científicas à percepção sensorial comum e formulável em termos daquilo que é familiar: pode-sealimentou uma torrente cada vez mais ampla de novas técnicas. ver uma alavanca levantar um peso e deduzir daí um principio exato da vantagem Como se deu esse casamento? A resposta costumeira é que ele foi a consequência mecânica; outra coisa é inferir a natureza e as possibilidades de uma corrente elétrica a inevitável da ampliação do conhecimento: à medida que cresciam o conteúdo e o alcance partir da observação de seus efeitos. Admitimos que a engenhosidade do das duas atividades, elas estavam fadadas a 332 333
    • homem como experimentador e executante é quase inacreditável: observe-se a deliberada e planejada. Para citar apenas um exemplo: até este século, os engenheirosprecedência da engenharia a vapor em relação à teoria da termodinâmica. Mas persiste o contentavam-se em utilizar em seu trabalho os materiais prontamente colocados à suafato de que a tarefa da invenção estava-se tornando sistematicamente mais complexa, e a disposição pelos metalurgistas; mas, a começar por um ramo como a indústria elétrica,questão da invenção, mais obscura. Como resultado, a ciência aplicada era uma chave que introduziu toda uma gama de novos requisitos, a demanda de ligas especiaismais eficiente para o desconhecido, e portanto, mais prolífera em inovações. aumentou a ponto de os usuários não se disporém a esperar pelo prazer e pela Tampouco essas realizações se limitaram aos ramos mais novos da indústria. Por imaginação dos fornecedores. As técnicas e equipamentos de laboratóriotoda parte, o aumento da escala foi transformando o que antes tinham sido elementos aperfeiçoaram-se sistematicamente, enquanto somas cada vez maiores eram destinadasdesprezíveis do custo em fontes potencialmente graves de perda: a mais ínfima à pesquisa. Para os que não tinham possibilidade ou disposição de empatar capital emeconomia, numa fábrica a vapor que consumisse uma tonelada de carvão por minuto, instalações e equipes permanentes, começaram a surgir consultores científicos epodia economizar milhares de libras esterlinas por ano. O resultado disso foi uma técnicos uma divisão do trabalho que evidenciava, por si só, o crescimento dopressão constante em prol de um planejamento mais exato e racional, tendência esta mercado de conhecimentos. O sucesso acabou por alimentar, na indústria,que foi reforçada pela maior complexidade e precisão dos equipamentos uma verdadeira mística da lucratividade da ciência - a ponto de as empresas começarem amanufatureiros e pelo controle de qualidade mais rigoroso, num período de financiar tanto a pesquisa aplicada quanto a básica.competição crescente. Mais do que nunca, a ênfase recaiu sobre a mensuração, e os Esse elo cognitivo entre a ciência e a prática acelerou enormemente o ritmo dapróprios instrumentos de medida figuraram entre as aplicações mais engenhosas dos invenção. Não apenas a expansão autônoma das fronteiras do saber gerou toda sorte deprincípios científicos puros às necessidades industriais: foi o caso do moderno frutos práticos imprevistos, como também a indústria passou a poder encomendarrefratômetro-goniômetro, usado na indústria química, e do pirômetro, usado em suas aspirações ao laboratório, tal como um cliente fazia encomendas a uma fábrica.toda sorte de trabalhos com altas temperaturas. Outros produtos dessa colaboração Assim, estranhamente, a importância da tecnologia como fator da transformaçãoentre a teoria e a prática foram a turbina a vapor de Parsons, que requeria uma econômica foi simultaneamente elevada e diminuída. De um lado, ela se tornou, maiscombinação de "todos os recursos disponíveis da matemática, da ciência e da do que nunca, a chave do sucesso e do crescimento competitivos. Quanto maiscriação de projetos de máquinas", e inovações fundamentais da metalurgia não rápida a marcha da transformação, mais importante era conseguir acompanhar o passoferrosa, como os processos de alumínio de Hall-Héroult e de níquel de Mond. Até na dos que determinavam o ritmo. De outro lado, a tecnologia deixou de ser umsiderurgia, onde o empirismo e o dom das descobertas fortuitas continuaram a determinante relativamente autônomo. Em vez disso, tornou-se apenas mais umdesempenhar um papel frutífero pelo século XX adentro, a necessidade de novos insumo, aliás com uma curva de oferta relativamente elástica.materiais (em contraste com os problemas tradicionais da fundição e do refino) tornouindispensável o recurso à mensuração precisa, à análise química e à metalografia ALGUNS PORQUÊSmicroscópica.136 É claro que, muitas vezes, estas foram apenas instrumentos maisaguçados a serviço do empirismo. Mas a ênfase no exame rigoroso e no experimento Agora é chegada a hora de juntar os fios de nossa história e de nos indagar por que assistemático abriu as portas para os princípios científicos, pois o homem treinado para diferentes nações da Europa ocidental cresceram e se modificaram como o fizeram.executar o primeiro era, muitas vezes, capaz de aplicar o segundo. E, conquanto Em particular - pois a falta de espaço nos compele a selecionar nossos problemas -, porpudesse arranjar-se sem eles e geralmente o fizesse -, ele podia fazer muito mais com que a liderança industrial passou, nas décadas finais do século XIX, da Inglaterra para aeles. A concorrência encarregou-se do resto. Alemanha? Em geral, houve uma institucionalização gradual do avanço tecnológico. As empresas O interesse maior dessa questão não há de escapar ao leitor. Ela é de interessecomerciais mais progressistas já não se contentavam em aceitar as inovações e explorá-las, não apenas para o estudioso do crescimento econômico, mas também para omas buscavam-nas através da experimentação historiador geral que procura entender o curso da política mundial a partir de 1870. A rápida expansão industrial de uma Alemanha uni- 334 335
    • ficada foi o mais importante fenômeno do meio século que antecedeu a imperialista" e do "último estágio do capitalismo", os estudiosos têm-se in-Primeira Guerra Mundial - mais importante até do que o crescimento clinado, retrospectivamente, a riscar de suas elucubrações o mais leve ves-comparável dos Estados Unidos, simplesmente porque a Alemanha estava tígio de determinismo econômico. Todavia, a doutrina nunca foi um guiainserida na rede européia de poder e, nesse período, o destino do mundo válido do saber, em qualquer das extremidades do espectro ideológico, eestava nas mãos da Europa. esse esforço de eliminar as considerações materiais como causas da Guerra E m 1788, um perspicaz demógrafo francês chamado Messance escreveu: Mundial trai uma naïveté, ou uma ignorância sobre a natureza do poder e a"O povo que conseguir manter por último suas forjas em funcionamento importância das relações de poder para a definição dos interesses nacionais.será forçosamente o senhor, pois somente ele disporá de armas. 137 Messance Esses interesses políticos vão longe na explicação da agitada reação da Grã-estava um pouco adiantado em relação a sua época. Nos anos subseqüentes, Bretanha a expansão econômica alemã. A Alemanha não era, afinal, o únicoos exércitos revolucionários, e depois Napoleão, iriam mostrar o que o país a competir com a Inglaterra nos mercados internos e externos. Osmaterial humano bem dirigido - uma nação em armas -, usando produtos norte-americanos, particularmente as máquinas-ferramentas e outrosarmamentos tradicionais, era capaz de fazer com os exércitos tradicionais. Na dispositivos que valorizavam a engenhosidade, invadiram o Reino Unido jádécada de 1860, porém, a análise de Messance foi confirmada, primeiro pela em meados do século e continuaram a perturbar os produtores ingleses até oGuerra Civil norte-americana, e depois pela Guerra FrancoPrussiana. A essa fim do período que estamos considerando. E já assinalamos o sucesso dosaltura, eram o Blut und Eisen * que contavam, e nem todo o sangue do tecidos de algodão indianos e japoneses na concorrência pelo mercado oriental,mundo seria capaz de compensar o poder de fogo acionado oportunamente potencialmente inesgotável.e bem dirigido. Mas foi a Alemanha que ficou atravessada na garganta de John Bull.* Nas Levou muito tempo para que as pessoas se adaptassem a essa nova base décadas precedentes a 1870, ela passara gradativamente de um dos melhoresdo poder. Quando a coalizão prussiana derrotou a França em 1870, inúmeros mercados de artigos manufaturados britânicos para uma nação industrializadabretões, inclusive a Rainha, regozijaram-se ao ver o tradicional inimigo e auto-suficiente; esse processo, como vimos, pode ser acompanhado em suaperturbador da paz gaulês ser humilhado pelo honrado e sóbrio teutão. dependência cada vez menor das importações de produtos reveladores comoNum prazo de quinze anos, entretanto, os britânicos despertaram para o o fio de algodão e o ferro-gusa (57,5% do consumo em 1843, no auge dafato de que a Revolução Industrial e os índices diferenciados de crescimento explosão ferroviária, 34% em 1857 e 11% uma década depois). 138 Após 1870,populacional haviam elevado a Alemanha à hegemonia continental e deixado a conquistado o mercado interno, a indústria alemã começou a criar para siFrança muito para trás. Essa foi uma das mais demoradas "reações retardadas" um lugar importante no exterior. Na verdade, o processo havia começadoda história: os ingleses permaneceram combatendo o ogre corso, morto já antes, mas foi mais ou menos a partir desse ponto que o aumento dohavia uns cinqüenta anos ou mais, enquanto Bismarck seguia seu caminho. volume de exportações de produtos manufaturados se acelerou e os ingleses Nas décadas subseqüentes, essa modificação na balança do poder foi a começaram a despertar para seu novo rival. De 1875 a 1895, enquanto o valorinfluência dominante nas relações internacionais européias. Esteve subjacente das exportações britânicas mantinha-se estagnado (embora o volumeà gradativa recomposição de forças que culminou na Tríplice Entente e na aumentasse cerca de 63%), o valor das exportações alemãs cresceu 30%, e oTríplice Aliança; alimentou a rivalidade política e naval anglo-germânica, bem volume, correspondentemente mais. Ao mesmo tempo, enquanto apenascomo os temores franceses do inimigo a leste do Reno; tornou a guerra 44% das exportações alemãs eram de produtos acabados em 1872, 62%provável e muito contribuiu para ditar a escolha dos membros dos campos enquadraram-se nessa categoria em 1900 (em contraste com 7S% do Reinoopostos. Sei que tem estado em voga, há mais de uma geração, negar essa Unido).interpretação. Na reação contra os lemas marxistas da "guerra Além disso, os pormenores dessa tendência eram mais perturbadores do que a maré geral. Havia, por exemplo, a exportação de ferro e aço* Sangue e ferro. Em alemão no original. (N. da T.) * Personificação da Inglaterra ou dos ingleses. (N. da T.) 336 337
    • alemães para áreas que a Inglaterra tinha passado a encarar como territórios privados - O aumento da participação no estrangeiro teve conseqüências estatísticas similares.143Austrália, América do Sul, China e a própria Inglaterra. Havia a acentuada Em parte, no entanto, o desempenho global relativamente bom da Inglaterra erasuperioridade da Alemanha nos ramos mais novos da indústria: produtos da química resultado de uma alocação mais eficiente dos recursos. A rapidez da expansão industrialorgânica, a partir da década de 1880, e equipamento elétrico, a partir da de 1890. alemã havia deixado para trás importantes setores da economia do país, protegidosAcima de tudo, havia os métodos "desleais" supostamente empregados pelos teutões: mesmo assim do choque da obsolescência e da lógica da racionalidade marginal pelaseles vendiam mercadorias vulgares e de má qualidade, muitas vezes disfarçadas de fraquezas humanas e por dispositivos institucionais, como as tarifas protecionistas. Umaartigos ingleses; aceitavam contratos de treinamento com firmas britânicas a fim de área surpreendentemente grande da fabricação, por exemplo, agarrava-se obstina-espionar determinado ramo; satisfaziam as preferências dos habitantes nativos e os damente a processos manuais e à produção domiciliar;144 enquanto a Inglaterra haviaseduziam através de concessões a sua ignorância - a ponto de traduzirem catálogos de eliminado os aspectos menos rentáveis de sua agricultura, uma expressiva parcela davendas para sua língua. As queixas chegaram ao auge durante o que Ross Hoffman população alemã continuava a viver dos produtos da terra.145 A economia alemã, emchamou de "loucura de verão de 1896". 140 Os oradores parlamentares exerceram sua outras palavras, apresentava alguns dos contrastes entre setores avançados e atrasados queeloqüência acerca das compras governamentais de lápis bávaros, ou da importação de passamos a chamar de dualismo e a associar com o crescimento rápido eescovas produzidas pela mão-deobra presidiária alemã; os jornais denunciaram a desequilibrado. 146aquisição de roupas alemãs baratas, muitas delas produzidas com lãs inglesas Mesmo assim, os juros compostos são um árbitro implacável. A diferença nasreaproveitadas. Nenhum artigo era insignificante demais para ser empilhado na taxas de crescimento não pode ser ignorada, e qualquer projeção das tendênciasfogueira da indignação: baralhos, instrumentos musicais, chicotes para charretes.141 constitui um julgamento desfavorável à Inglaterra. E isso é ainda mais verdadeiro na Certamente, é fácil demonstrar o exagero desse alarmismo. O progresso da medida em que a discrepância entre os dois países aplicava-se não apenas a rendaAlemanha ainda a deixava muito atrás da Inglaterra como potência comercial: o volume nacional, ou seja, ao rendimento do presente, mas também à formação de capital, oude seu comércio em 1895 talvez correspondesse a 3 /5 do da Inglaterra, e a tonelagem seja, ao rendimento do futuro. Nesse aspecto, o contraste era particularmentede sua marinha mercante teria apenas 1/6 das dimensões da inglesa. O comércio marcante: enquanto a Inglaterra diminuía o ritmo, a Alemanha o acelerava (verbritânico ainda continuava a crescer, as perdas num dado mercado eram geralmente Tabela 15).compensadas por lucros em outro e sua indústria não havia desaprendido a Nesse ponto, ademais, nossa estatística global alia-se a nossos dados qualitativos eenfrentar a concorrência. Além disso, a diferença nos índices globais de crescimento microquantitativos. Todos os indícios concordam quanto ao atraso tecnológico deentre os dois países era consideravelmente menor do que levaria a esperar a discrepância grande parte da indústria manufatureira inglesa quanto às vantagens perdidas, àsnas taxas de crescimento industrial. A produção inglesa de artigos manufaturados oportunidades desperdiçadas e aos mercados abandonados, que não precisariam tê-lo(inclusive minerais e alimentos industrializados) pouco mais do que duplicou de 1870 sido. Esses são temas que se repetiram em todos os inquéritos oficiais e relatóriosa 1913, em contraste com um aumento alemão de quase seis vezes, mas a proporção de delegações em viagem durante as duas últimas gerações. E os própriosentre o crescimento da renda dos dois países, tanto calculada globalmente quanto per tensionamentos da atividade, que alguns ramos fizeram de tempos em tempos, sãocapita, era da ordem de 0,7 ou 0,8 por 1.142 prova de um esforço de atualização e de um potencial previamente inexplorado. Não há dúvida, em suma, de que a indústria inglesa não foi tão vigorosa e adaptável, a partir da Em parte, esse paradoxo simplesmente refletia uma mudança nos recursos. Mais década de 1 8 7 0 , quanto poderia ter sido. Por quê?madura do que a Alemanha, a Inglaterra estava começando a desenvolver seu setor de Antes de tentar responder a essa pergunta, talvez seja útil preparar o terreno,serviços (distribuição, transporte, atividade bancária e seguros) à custa de sua indústria eliminando as habituais explicações convenientes. Os recursos industriais da Grã-manufatureira, de modo que a participação desta última na produção nacional vinha Bretanha eram tão bons quanto os de qualquer outro pais europeu no fim dodiminuindo sistematicamente. século XIX. No mundo inteiro, somente os Estados Unidos a superavam na produção de carvão mineral; e nenhum país possuía um carvão melhor para a energia, a metalurgia ou a indústria química. Uma 338 339
    • das ironias da história econômica é que a Alemanha, que quase monopolizou a a dora das mercadoriais mundiais declinou um pouco à medida que países como aprodução de derivados de alcatrão de hulha, obtinha no Reino Unido boa parte de sua Alemanha, França e Estados Unidos aprenderam a comprar diretamente das áreasbulha.147 Muito se falou sobre os grandes depósitos de ferro da Lorena e sua produtoras; mas eles - e menos ainda outros países - nunca aprenderam a contornaradequabilidade para a produção do aço Thomas, mas a Inglaterra tinha seus próprios inteiramente o entreposto britânico, e o valor absoluto desse comércio degrandes depósitos de minério fosfórico nos condados do centro-leste, muito mais reexportação continuou a crescer até pouco antes da guerra. Na verdade, produtospróximos de um bom carvão de coque do que os leitos da Lorena e igualmente como o algodão e a lã tendiam a ser alguns centavos mais baratos em Liverpool e outrosfáceis de minerar. Quanto às matérias-primas industriais que tinham que vir de fora - portos ingleses do que em Le Havre e Hamburgo; e, embora a diferença não fosseo algodão, por exemplo, e quase toda a lã -, a Inglaterra estava mais bem-situada do que grande, os industriais estrangeiros julgavam-na suficientemente vultosa para fazer suasseus concorrentes europeus. Nenhuma nação tinha sob seu comando uma rede compras ali.comercial tão vasta, e não era por acidente que quase todos os principais produtos Tampouco o tamanho menor ou a taxa de crescimento ligeiramente mais baixa daprimários tinham seus mercados centrais em Liverpool e Londres. Sem dúvida, a população inglesa eram uma desvantagem. Do ponto de vista da oferta de mão-de-obra,importância relativa da Inglaterra como reexporta- era a Alemanha, e não a Grã-Bretanha, que tinha dificuldade de atender às necessidades das indústrias em crescimento no fim do século; entre outras coisas, ela teve de deslocar dezenas de milhares de pessoas das aldeias da Pomerânia e da Prússia TABELA 15. FORMAÇÃO DE CAPITAL COMO PARCELA DO PRODUTO Oriental, cruzando todo o interior, até as fábricas da Vestfália e da Renânia. NACIONAL Quanto à demanda, embora o mercado interno alemão sem dúvida estivesse (em percentagens) crescendo mais depressa e fosse potencialmente maior, o mercado dos fabricantes ingleses, na verdade, alcançava a maior parte do mundo conhecido. Também nesse as- Reino Unido Alemanha pecto, suas relações comerciais experientes e de largo alcance davam-lhes uma FLC(I)/PIL FLC(N)/PNL FLC(I) FLC(N)/PNL importante vantagem inicial em relação aos concorrentes potenciais. Os negociantes e /PNL colonos ingleses detiveram por muito tempo uma posição de destaque até em algumas colônias alemãs, em virtude de seu estabelecimento anterior nessas áreas, de sua R. Unido Alemanha Preços Preços Preços Preços Preços Preços Preços familiaridade com os problemas e possibilidades das regiões atrasadas, e da maior 1851-60 correntes constantes correntes constantes correntes correntes constantes disposição dos investidores ingleses de colocar seu dinheiro em empreendimentos 8,4 8,6 7,9 distantes.148 1860-9 7,2 8,6 10 11,5 Por fim, a Inglaterra tinha mais capital com que trabalhar do que a Alemanha. Seu 1861-70 8,S 9,7 I o,6 papel como precursora da industrialização havia possibilitado uma acumulação de riqueza sem precedentes, que transbordou de suas fronteiras com uma 1870-9 8,2 7,3 11,8 10,9 abundância crescente a partir do fim do século XVIII. A primeira de uma 1871-80 11,6 13,5 13 série de explosões de crescimento nos investimentos externos ocorreu na década de 1880-9 6,4 3,4 10,9 8,1 1820; em meados do século, a Bolsa de Valores de Londres já havia assumido o toque 1881-90 11,2 14 14,5 cosmopolita que a distinguia de todas as demais. Ao se aproximar o fim do século ela 1890-9 7,3 3 10,1 6 era, e continuou a ser, a despeito da rivalidade com a Bolsa de Paris, o mais importante mercado de títulos internacionais do mundo, de diversos tipos (financiamento de 1891-1900 13,9 I5.4 15,9 ferrovias, ações de mineração ou novos empreendimentos industriais e agrícolas).149 1895-1904 8,8 4,8 10,5 6,7 1900-9 8,2 4,1 11,7 7,8 1901-13 15,6 16,5 1519 1905-14 6,7 1,2 13 8,oa. Fronteiras de 1913.Abreviaturas:FLC(I) - Formação Líquida de Capital (Interna)PIL - Produto Interno LíquidoFLC(N) - Formação Líquida de Capital (Nacional)PNL - Produto Nacional LíquidoFonte: S. Kuznets, "Quantitative Aspects of the Economic Growth of Nations: VI. Long-TermTrends in Capital Formation Proportions", Economic Development and Cultural Change, IX, 4, parte II,julho de 1961, p. S8, S9 e 64 341 340
    • A Alemanha, em contraste, foi uma importadora de capital durante os Não, as razões do sucesso alemão na concorrência com a Grã-Bretanha nãoprimeiros 2/3 do século XIX. E, mesmo depois disso, tal era o apetite de sua foram materiais, mas sociais e institucionais, implícitas, mais uma vez, no que se temindústria florescente que os investimentos no exterior nunca tiraram mais do que uma denominado de economia do atraso.pequena fração da poupança disponível. Durante realmente muito tempo, o governo Houve, primeiramente, algumas desvantagens inerentes à prioridade cronológica:desestimulou a exportação de capital, sob a alegação explícita de que as necessidades menos, entretanto, os tão citados ônus do pioneirismo do que os chamadosinternas eram urgentes e deviam receber prioridade. Essa atitude, mais tarde, cedeu "custos correlatos " da adaptação às mudanças s ubseqüentes. Oslugar a outras considerações - o desejo de desenvolver um império e de ampliar a primeiros têm sido superenfatizados. Reconhecidamente, um pioneiro em qualquerinfluência política alemã no exterior.150 Ainda assim, e apesar da rápida ramificação dos área incorre em despesas adicionais em virtude da ignorância e da inexperiência, e, eminteresses bancários alemães no mundo inteiro, a saída de recursos era esporádica e, a tese, os que o seguem podem tirar proveito de seus erros. Mas isso pressupõe, porpartir da década de 1890, representou uma parcela decrescente da formação líquida de parte dos imitadores, uma sabedoria que a experiência histórica desmente. Se ocapital (Tabela 16). pioneiro, muitas vezes, peca pela modéstia excessiva, o seguidor freqüentemente Essa avidez de dinheiro refletiu-se numa defasagem contínua, de um a dois sofre de um excesso de ambição; se um não sabe muito bem para onde está indo, opontos, entre a taxa de juros em Berlim e as taxas que prevaleciam nos outros mercados outro sabe bem demais e se desarticula em função de sua avidez. Há, como os técnicosda Europa ocidental. Os recursos de curto prazo moviam-se de um lado para outro do fim do século XIX tiveram o cuidado de assinalar, coisas como máquinas grandesconforme o ciclo comercial, mas o saldo líquido favorecia a Alemanha, mesmo frente demais, motores potentes demais, fábricas com um coeficiente de capitala um país como a França, que desestimulava os empréstimos a ex-inimigos. Os bancos demasiadamente elevado.franceses talvez relutassem em confiar seus recursos à indústria doméstica, por julgá-la Muito mais sérios são os ônus impostos pela inter-relação, isto é, pela vinculaçãoindigna de confiança, mas consideravam os bancos alemães um bom risco e estes repas- técnica entre as partes integrantes das instalações industriais de uma empresa ou desavam o dinheiro para seus próprios empresários. Financeiramente, esse procedimento uma economia. Em princípio, o empresário está livre para escolher, a qualquerera irrepreensível; politicamente, tinha os ingredientes de um escândalo. tempo, a técnica mais remuneradora que esteja disponível. Na verdade, seu cálculo é complicado por sua incapacidade de restringi-lo à técnica em exame. Por um lado -- e aqui enfatizaremos o ponto de vista da empresa , nenhum equipamento trabalha no TABELA 16. ALEMANHA E REINO UNIDO: INVESTIMENTO EXTERNO COMO vazio: o motor, a máquina que ele aciona e os meios pelos quais transmite sua po- PERCENTAGEM DA FORMAÇÃO LÍQUIDA DE CAPITAL tência são construídos, todos, de modo a se encaixar; similarmente, o número e os (preços correntes) tipos de máquinas empregadas, bem como a capacidade e o tipo de canais de Alemanha Reino Unido fornecimento, transferência e retirada de matéria-prima e produto acabado, são racionalmente calculados em relação uns aos outros. Como resultado, a substituição de 1851/5-1861/5 2,2 1855-64 29,1 um equipamento por outro, ou a introdução de um novo dispositivo, raramente ou 1861/5-1871/5 12,9 1865 -74 40,1 nunca podem ser consideradas isoladamente. E mais, a decisão a respeito de determinada mudança nem sempre está inteiramente nas mãos da empresa, mas 1871/5-1881/5 14,1 1875-84 28,9 depende, antes, em maior ou menor grau, da cooperação de unidades externas. Novas 1881/5-1891/5 19,9 1885 -94 51,2 técnicas de montagem, por exemplo, podem exigir novos padrões de exatidão, e 1891/5-1901/5 9,7 1895-1904 20,7 portanto, novos equipamentos nas instalações dos subempreiteiros; facilidades de 1901/5-1911/3 5,7 1905-14 52,9 carregamento mais rápido podem gerar muito menos do que suas possibilidades, se os carregadores não adaptarem seus métodos ao novo ritmo. Nesses casos, a alocação deFontes: A série alemã provém de um manuscrito gentilmente cedido pelo professor Simon Kuznets custos e riscos impõe um sério obstáculo,e baseado em informações do professor Walter Hoffman. A série relativa ao Reino Unido baseia-se no cálculo de lmlah sobre o saldo no exterior em conta corrente, Economic Elements in the PaxBritannica, p. 70-5, e em estimativas da capitalização interna líquida fornecidas pela srta. PhyllisDeane. 342 343
    • não apenas porque os cálculos são objetivamente difíceis, porém, mais ainda, porque os rios de minas de carvão não conseguiram, durante muito tempo, chegar a um acordoseres humanos são tipicamente desconfiados e teimosos nesse tipo de situação de sobre a adoção de caminhões de frete de maior porte, e a indústria elétrica foibarganha. 151 prejudicada, durante décadas, pela diversidade inicial dos métodos de fornecimento. A Por outro lado - e aqui estamos examinando o problema do ponto de vista da simples visão da disposição espaçosa da usina de Homestead, nos Estados Unidos,economia -, a indústria mecanizada em larga escala requer não apenas máquinas e levou Windsor Richards a desejar que ele "pudesse derrubar toda a usina de Bolckow einstalações, como também um investimento pesado no que tem sido chamado começar de novo".152 Se os desejos fossem cavalos, os mendigos cavalgariam.capital social: em particular, estradas, pontes, portos e sistemas de transporte, além de Assim, quando a defasagem entre o líder e o seguidor não é grande demais noescolas para o ensino geral e o técnico. Pelo fato de estes serem dispendiosos, por ser começo - ou seja, quando não origina uma pobreza auto-reforçadora - a vantagem é devultoso o investimento exigido, que ultrapassa em muito os recursos das empresas quem vem depois. E isso, principalmente, porque o esforço de cobrir a distânciaisoladas, e porque, finalmente, o retorno desses desembolsos é amiúde adiado por exige respostas empresariais e institucionais que, uma vez estabelecidas, constituemmuito tempo, eles constituem um ônus pesado para qualquer economia pré-industrial, poderosos estímulos ao crescimento contínuo.condenada por seu atraso tecnológico a uma baixa produtividade. Além disso, esse ônus Os franceses, entre outros, têm um provérbio: "É mais fácil enriquecer do quetem tendido a aumentar com as dimensões crescentes das instalações industriais, de permanecer rico" (compare-se isso com o ditado correlato "de mangas de camisa amodo que, atualmente, muitos dos chamados países subdesenvolvidos estão presos mangas de camisa em três gerações"). No tocante à validade geral desse aforismo, por maisnum círculo vicioso de pobreza e incapacidade. A tão decantada liberdade dos que vêm céticos que sejam aqueles dentre nós que não tiveram a oportunidade de testá-lo, estádepois, no sentido de escolherem os últimos e melhores equipamentos com base nas claro que ele se assenta na observação empírica da ascensão e queda das fortunas. Pormais avança das técnicas, tornou-se um mito. um lado, a prosperidade e o sucesso são seus próprios piores inimigos; por outro, não Existem, pois, dois tipos de custos correlatos: um, microeconômico, recai com há aguilhão que se compare à inveja. maior peso sobre os que se industrializam mais cedo; o outro, essencialmente Os ingleses do fim do século XIX lagarteavam complacentemente ao sol do macroeconômico, recai com mais peso sobre os países seguidores. O peso ocaso da hegemonia econômica. Em muitas firmas, o avô que iniciara o negócio e o relativo desses dois custos nunca foi historicamente medido, nem é provável que as construíra através de uma dedicação incansável, além de uma parcimônia que beirava a informações de que dispomos jamais permitam esse cálculo. Parece, no entanto, que a avareza, há muito havia falecido; o pai, que recebera uma empresa sólida e que, partindo proporção tem variado ao longo do tempo. Se hoje a balança favorece os países de ambições maiores, a tinha elevado a alturas nunca sonhadas, passara as rédeas adiante; adiantados, cuja liderança na produção e no padrão de vida continua a aumentar, a agora era a vez da terceira geração: os herdeiros da abundância, entediados dos negócios vantagem pendia no sentido inverso em meados e no fim do século XIX. Nessa e afogueados com as aspirações bucólicas da fidalguia rural. (Talvez fosse mais exato falar ocasião, a Alemanha havia acumulado um estoque mais produtivo de capital social do que em "de mangas de camisa a jaquetas de caça - ou casacas, ou mantos de arminho - em a Inglaterra (ela nunca foi tão atrasada quanto os países "atrasados" de hoje), enquanto os três gerações".) Muitos deles se afastaram e forçaram a transformação de suas custos correlatos do crescimento recaíam sobre as empresas do infeliz pioneiro. Toda empresas em sociedades anônimas. Outros continuaram, simulando um espírito a indústria britânica sofreu com o legado da urbanização precoce; as cidades do empresarial entre prolongados fins de semana - trabalhavam brincando e brincavam no início do século XIX não foram construídas para acomodar as fábricas do século XX trabalho. Alguns tiveram sensatez suficiente para entregar a direção de suas empresas a (mais uma vez, a logística!). As siderúrgicas, em especial, com suas instalações apertadas e profissionais, comparáveis, em termos de privilégios e função, aos intendentes das mal projetadas, tiveram dificuldade de se integrar à fundição, em sentido retrospectivo, propriedades medievais. Mas esse tipo de arranjo é, na melhor das hipóteses, um ou ao acabamento, no sentido da finalização do processo; e a falta de integração, substituto precário da posse interessada e, na pior, um convite aos conflitos de por sua vez, inibiu a adoção de diversas inovações importantes, entre elas a interesses e ao abuso da autoridade. Os anais da história coqueificação derivada. De modo similar, as ferrovias e os proprietá- 344 345
    • estão repletos de intendentes, almoxarifes, meirinhos, criados de quarto e similares algum exagero embutido em qualquer contraste dessa natureza. Por outro, as provasque enriqueceram e se nobilitaram. são tendenciosas, num grau difícil de avaliar. Os observadores contemporâneos Tampouco as sociedades anônimas eram significativamente melhores. Por um lado, enfatizavam os fracassos da iniciativa empresarial inglesa e os perigos iminentes daas considerações familiares amiúde determinavam a escolha do pessoal administrativo. concorrência alemã, exatamente do mesmo modo que os jornais alardeiam os aspectosPor outro, os indícios escassos e subjetivos de que dispomos indicam que tanto as mórbidos das notícias. Era assim que se vendiam artigos ou que se atraía a atençãoempresas particulares quanto as sociedades anônimas recrutavam um número das autoridades de Londres. Além disso, há um certo modismo nas opiniões, eexcessivamente grande de seus executivos nos escritórios de contabilidade, e não nas essa era, claramente, uma das cantilenas populares da época.fábricas.153 E os homens de produção elevados a cargos de alta responsabilidade eram, A questão é complexa. Berrick Saul mostrou que várias empresas inglesas, emnão raro, pessoas "práticas", que haviam aprendido seu ofício in loco e tinham campos como a engenharia, reagiram de maneira vigorosa e imaginativa à concorrênciaum interesse adquirido na maneira já instituída de fazer as coisas. estrangeira nos anos que antecederam à Primeira Guerra Mundial. Ele cita um As deficiências da empresa britânica refletiam essa combinação de amadorismo e relatório consular norte-americano de 1906:complacência. Seus negociantes, que um dia haviam capturado para si os mercados domundo, passaram a presumi-los como coisa certa; os relatórios consulares estão repletos Ninguém que não tenha vivido na Inglaterra nos últimos sete ou oito anos é capaz de se darda incompetência dos exportadores ingleses, de sua recusa a adequar suas conta de como foi grande a conscientização aqui, ou de quão mudada está a atitude mental inglesa com respeito às novas maneiras de fazer as coisas. Tem havido muitas adaptações sensatas e inteligentes das idéiasmercadorias ao gosto e ao bolso dos clientes, de sua má-vontade em experimentar norte-americanas sobre maquinaria à mão-de-obra inglesa mais barata.155novos produtos em novas áreas, e de sua insistência em que todas as pessoas domundo tinham que saber ler em inglês e contar em libras, xelins e pence.Similarmente, o fabricante inglês era célebre por sua indiferença para com o estilo, seu Em alguns campos, portanto, é provável que a defasagem estivesse diminuindo.conservadorismo diante das novas técnicas e sua relutância cm abandonar o Mas ainda havia muita coisa por fazer, como iriam mostrar as investigações de guerraindividualismo da tradição em troca da conformidade implícita na produção em massa. sobre essas mesmas indústrias. Ademais, essa própria irregularidade do ritmo e essa Em contraste, o empresário alemão do fim do século XIX era, em geral, um novus distribuição desigual do avanço tecnológico levantam importantes questões para o homo; estava quase fadado a sê-lo, dadas a recenticidade e a rapidez da historiador econômico. Se muitas empresas mais antigas eram complacentes, por que as industrialização de seu país. Muitas vezes, era um técnico formalmente treinado para mais novas não aproveitaram essa oportunidade para tirá-las do caminho? Em outras sua tarefa; treinado ou não, entretanto, era sumamente sério. Trabalhava horas a fio e palavras, por que a mudança não se disseminou com mais rapidez? E que dizer das novas esperava que seus subordinados fizessem o mesmo; vigiava cada pfennig e conhecia cada indústrias, como a da engenharia elétrica e a da química orgânica, onde o detalhe do funcionamento de sua empresa. Os observadores da época unem-se na endurecimento das artérias ainda não se havia instalado? descrição dele como obsequioso, engenhoso, agressivo a ponto de chegar à intromis- Várias considerações são sugeridas. Havia os habituais atritos no mercado. A são e, vez por outra, inescrupuloso. Ele não votava nenhuma veneração antiquada à transformação macroeconômica raramente é abrupta, simplesmente porque o sistema qualidade pela qualidade, era hábil na apresentação espalhafatosa, conciliador em termos funciona de maneira imperfeita. A natureza das imperfeições competitivas da economia de vendas, enérgico na busca de novos clientes e obstinado em servi-los. inglesa antes de 1914 é um tema que bem merece ser investigado. Aquele era, em Mas essas comparações pouco lisonjeiras, que soam verdadeiras e combinam com a princípio, o mercado mais livre do mundo - nenhuma barreira contra os produtos experiência histórica de rivalidades similares (compare-se a inflexibilidade da declinante externos e, como vimos, um movimento limitado rumo à cartelização formal. indústria italiana de tecidos dos séculos XVII e XVIII),154 também contêm uma boa dose Todavia, somente um estudo detalhado das práticas efetivas de compra e venda poderá de caricatura. Por um lado, há mostrar até que ponto o hábito, os laços pessoais e a simples inércia distorceram a atuação da concorrência. 346 347
    • Um segundo esteio do conservadorismo foi a dificuldade crescente de ingresso. Havia duas dificuldades que afligiam todo o setor industrial, porém, acima deEla se mostrou mais grave na indústria pesada, especialmente em ramos como a tudo, seus ramos mais novos: a escassez de qualificações e a escassez de capital de risco.metalurgia, onde a localização e o acesso rápido a recursos minerais escassos Qualificação se aprende. E a oferta de qualificações à indústria dependeeram de importância crucial; mas o aumento na escala das empresas - e, essencialmente da educação. Observar isso, contudo, é formular um truísmo. Para fazerconseqüentemente, nos requisitos iniciais de capital - era generalizado, e já não era fácil mais do que isso, deve-se começar por decompor essa palavra multifacetada,para um indivíduo, ou mesmo para um grupo de sócios, encarregar-se da fabricação de "educação", e relacionar seu conteúdo com os requisitos da produção.um produto para o mercado de consumo em massa. Com educação queremos dizer, realmente, a transmissão de quatro tipos de Havia exceções. Para os que ingressavam na indústria, continuavam atrativos ramos conhecimento, cada qual com sua contribuição própria a dar ao desempenhocomo o do vestuário, onde o gosto desempenhava um certo papel, os caprichos da moda econômico: (1) a capacidade de ler, escrever e calcular; (2) as qualificações profissionaislimitavam a padronização, o equipamento era barato e a produção em oficinas era viável. do artesão e do mecânico; (3) a combinação de princípios científicos e treinamentoE houve uma proliferação sistemática de pequenas firmas de consertos e manutenção, não aplicado do engenheiro; e (4) o conhecimento científico de alto nível, teórico eapenas nos setores mecânicos mais antigos, mas também em novos campos como os con- aplicado. Em todas as quatro áreas, a Alemanha representava o melhor que a Europasertos elétricos e de bicicletas. Algumas dessas empresas transformaram-se em gigantes - tinha a oferecer; em todas quatro, com a possível exceção da segunda, a Inglaterra ficavabasta pensarmos nos primórdios da indústria de automóveis inglesa ou, aliás, de qualquer muito atrás.outra nacionalidade. A maioria, porém, teve um desempenho modesto; as economias A primeira delas suscita problemas especiais de avaliação. Não é fácilde escala eram limitadas e, com elas, também o era a capacidade empresarial; embora a definir e aquilatar a relação entre o ensino primário e a eficiência industrial. As conexõestaxa de penetração no mercado fosse elevada, o mesmo acontecia com a taxa de mais óbvias são, provavelmente, as menos importantes. Assim, embora algunsmortalidade das empresas. trabalhadores em particular, o pessoal de supervisão e de escritório precisem saber ler e Tudo isso estava ligado ao fato de que, em geral, o talento estava se afastando dos efetuar as operações aritméticas elementares para executar suas tarefas, grande parcela ramos mais antigos da indústria, cujos retornos insuficientes ao mesmo tempo do trabalho industrial pode ser executada por analfabetos, como a rigor o foi, justificavam e eram agravados por esse abandono. A área de maior oportunidade para os especialmente nos primórdios da Revolução Industrial. Assim, é provável que as recém-chegados estava no atendimento das necessidades de uma classe empresarial há principais vantagens econômicas de um sistema amplo e bem dirigido de ensino primário muito enriquecida, livre do hábito e da necessidade de abstinência, de uma força de obrigatório sejam, primeiro, a base que ele fornece para o trabalho mais avançado, e trabalho que desfrutava pela primeira vez de uma renda acima do mínimo de segundo, sua tendência a facilitar e estimular a mobilidade, com isso promovendo uma decência, e de uma crescente classe especuladora que se baseava nos lucros dos seleção do talento que se ajuste as necessidades da sociedade. Ele ajuda a otimizar, em investimentos internos e externos. O lazer para consumo em massa tinha-se tornado suma, a distribuição dos recursos humanos. uma poderosa força de mercado, e o setor de serviços crescia em ritmo acelerado - não Todavia, uma coisa é apontar a importância desse mecanismo; outra é avaliar sua apenas as atividades bancárias, os seguros e as profissões liberais, mas toda a gama de eficácia. Não existem estudos empíricos das relações entre a educação e a seleção, de um atividades voltadas para a recreação e as viagens. Começava a parecer que os britânicos lado, e entre a seleção e o desempenho industrial, de outro, no período que estamos logo estariam vivendo da transferência, de um lado para outro, da renda obtida do examinando. Tudo de que dispomos são observações qualitativas, além de dados sobre trabalho de terceiros. Essa imagem era caricatural, mas atestava a direção da a duração e a generalidade da escolarização e sobre algumas das conseqüências cognitivas transformação econômica. A situação oferece algumas analogias interessantes com a da mais elementares da instrução - sobretudo as percentagens de analfabetismo. O resto, Holanda do século XVIII.156 somos obrigados a inferir. 348 349
    • Esses dados - e eles estão sujeitos a sérias reservas quando usados para fins de 1870", escreveu H.G. Wells, "não foi uma lei de educação universal comum, mascomparações internacionais -, eles mostram uma imensa defasagem entre as realizações uma lei para educar as classes inferiores para empregos nos moldes das classesinglesas e alemãs nessa área. De um lado, temos uma nação que, até as últimas décadas inferiores, e com professores inferiores especialmente treinados, que não tinhamdo século, preferiu deixar a escolarização entregue ao zelo, à indiferença ou à nenhuma qualidade universitária."159 Em resumo, ela não era destinada a descobrir eexploração da iniciativa privada. Não se tratava apenas de uma questão de laissez faire. Para promover o talento. Mas, poderíamos ir mais longe: quaisquer que fossem as metascada idealista ou visionário que via na educação o caminho para uma cidadania esclareci- ostensivas da educação elementar compulsória, sua função essencial (o que Robertda, havia vários homens "práticos" que achavam que a instrução era uma bagagem Merton poderia chamar sua função latente) não era nem mesmo instruir. Era, antes,supérflua para os lavradores e os operários industriais. Essas pessoas, afinal, tinham disciplinar uma massa cada vez maior de proletários descontentes e integrá-los naestado arando os campos ou tecendo desde tempos imemoriais, sem saber ler ou escrever; sociedade britânica. Seu objetivo era civilizar os bárbaros; como disse o Inspetor de Suanão apenas não havia razão para mudar agora, como também, em última análise, tudo Majestade em Londres, "não fosse por suas quinhentas escolas elementares, Londreso que elas aprenderiam na escola seria a insatisfação. Como resultado dessa indiferença seria invadida por uma horda de jovens selvagens".160e dessa resistência, somente em 1870 os conselhos locais foram autorizados a redigir A educação primária obrigatória remonta, em algumas partes da Alemanha, aoregulamentos sobre a freqüência compulsória, e somente em 1880 a instrução primária século XVI; na Prússia, Frederico, o Grande, emitiu seu General Landschulreglement emtornou-se obrigatória em todo o reino. 1763. A qualidade do ensino, muitas vezes, era precária - fazia tempo que os cargos de Nessas circunstâncias, a Inglaterra saiu-se bem por ter cerca de metade de suas professor eram encarados como excelentes colocações para velhos soldados, mas se crianças em idade escolar recebendo algum tipo de instrução elementar por volta de aprimorou com o tempo. No início do século XIX, os sistemas escolares da 1860. Essa, pelo menos, foi a constatação da Comissão Newcastle, excepcionalmente Alemanha eram famosos em toda a Europa, e viajantes como Madame de Staël e tolerante com os testemunhos auriculares e sempre tendente a encarar a situação observadores como Victor Cousin faziam questão de visitar e examinar essa suprema com imbatível otimismo.157 Havia boas razões para crer que muitos desses estudantes, realização de um povo ávido de conhecimentos. senão a maioria, mais honravam sua salas de aula com sua ausência do que A obrigatoriedade de as crianças freqüentarem a escola primária era cumprida - com sua presença, e que, em alguns dos grandes centros industriais, a freqüência foi como geralmente o são as leis na Alemanha: na Prússia, na década de 1860, a mais baixa na década de 1 8 6 0 do que tinha sido uma geração antes .168 Mesmo admi- proporção de crianças em idade escolar que freqüentavam as aulas era de tindo a exatidão das estimativas de Newcastle, observa-se que apenas 2/5 dessas aproximadamente 97,5 %;161 na Saxônia, alcançava, na verdade, mais de 100%. 162 Mais crianças freqüentavam escolas inspecionadas pelo Estado, e destas, apenas 1/4 importantes do que os resultados quantitativos, entretanto, eram o caráter e o permanecia por tempo suficiente para ingressar nas classes superiores, as únicas conteúdo do sistema. Para começar, ele expressava a convicção, profundamente "razoavelmente eficientes". arraigada, de que a escolarização era uma pedra angular do edifício social; de que o A situação melhorou consideravelmente nos anos posteriores. Pelo menos, houve Estado não apenas tinha a obrigação de instruir seus cidadãos, como também se um aumento acentuado da freqüência a partir de 1870, e O conteúdo da educação beneficiava disso, já que um povo educado é um povo forte e de bons princípios morais. elementar foi enriquecido pelo simples ato de se incorporar a instrução das escolas em Em segundo lugar, a própria antigüidade do sistema excluía a ênfase na geral aos modestos padrões das instituições submetidas a inspeção. Mesmo assim, o "desbarbarização" que marcou a primeira geração do ensino obrigatório na Inglaterra. sistema continuou esterilizado pelo preconceito exacerbado e pelas restrições das Os observadores estrangeiros ficavam impressionados com o asseio e o decoro dos condições sociais patológicas. Assim é que se presumiu largamente que a aptidão para a estudantes alemães, qualquer que fosse sua classe social originária; as escolas, por instrução - ou, em termos mais sutis, a capacidade de usar a instrução - era uma função conseguinte, ficavam livres para concentrar seus esforços no ensino. Em terceiro da classe social, e que o conteúdo e o nível da formação deveriam adequar-se à situação lugar, a escolarização tendia a durar mais do que na Inglaterra; havia certa seleção de vida dos estudantes. "A Lei de Educação de de talentos, tal a maneira como as 351 350
    • turmas elementares eram vinculadas as chamadas séries "intermediárias" e secundárias. De nada serviria retratar em detalhe o conhecido claro-escuro do crescimento tardioO processo era apenas moderadamente eficaz; nas grandes áreas, sobretudo nos e atrofiado da instrução técnica e cientifica na Inglaterra, em contraste com o vigorosodistritos rurais, era inoperante. Todavia, já nas décadas intermediárias do século XIX, sistema alemão precocemente desenvolvido. Em resumo, enquanto a Inglaterra deixou aos visitantes impressionavam-se com a universalidade do recrutamento das escolas formação técnica e o ensino primário a cargo da iniciativa privada - o que levou, nessesecundárias (bem como das primárias): "Em geral, elas têm muito boa freqüência dos caso, a uma provisão sumamente desigual e inadequada de oportunidades -, os Estadosfilhos de pequenos comerciantes", escreveu Joseph Kay em 1850, "e abrigam também alemães financiaram generosamente toda uma gama de instituições, construindomuitas crianças oriundas das camadas mais pobres da sociedade." 163 prédios, instalando laboratórios e, acima de tudo, mantendo corpos docentes É quase desnecessário dizer que a discussão acima é uma certa violação da competentes e, no nível mais alto, destacados. Até meados do século, a Inglaterra nãocomplexidade do contraste entre os dois países. Podem-se encontrar alguns notáveis tinha nada além da jovem Universidade de Londres, de institutos de mecânica bons,pontos luminosos na realização britânica - certas escolas primárias e secundárias, por ruins e indiferentes, de ocasionais palestras ou aulas noturnas e de cursos sobre osexemplo, que ofereciam um ensino excelente tanto a estudantes pobres quanto a filhos de rudimentos da ciência em algumas escolas secundárias e primárias esclarecidas. Depoispais abastados -, assim como é possível encontrar entre os junkers a leste do Elba disso, o aperfeiçoamento chegou devagar, embora o ritmo se acelerasseexemplos de uma tenebrosa hostilidade à educação, equiparável a qualquer coisa que mensuravelmente após cerca de 18 8 o. As primeiras melhorias vieram, mais ou menos emhouvesse na Inglaterra.164 Do mesmo modo, seria possível discutir meados do século, na educação científica (o Real Colégio de Química, em 1845; a Escolainterminavelmente os méritos das filosofias educacionais dos dois países, não só porque Governamental de Minas, em 1851; o Colégio Owen, em Manchester, em 1851; eo tema é intrinsecamente passível de controvérsia, mas porque é quase impossível diplomas universitários em ciências na década de 1850); elas surgiram no nível maisconciliar a massa contraditória de indícios subjetivos. Seria um sistema de ensino alto e, durante muitos anos, foram parcialmente prejudicadas pela já mencionadaprimário mais dado às "viradas finais" do que o outro? Um mais prático, o outro mais incapacidade de as escolas primárias e secundárias encontrarem e prepararem osliberal? Um mais dedicado aos fatos, o outro, à capacidade de pensar? Não há resposta iniciantes. A formação técnica e profissionalizante teve de esperar mais umacategórica possível. geração e, até o período do entre-guerras, sofreu da mesma deficiência. Às vésperas da A ligação entre a educação formal profissional, técnica e cientifica, de um Primeira Guerra Mundial, o sistema britânico ainda tinha muito que caminhar para selado, e o progresso industrial, de outro, é mais direta e evidente. Além disso, equiparar ao alemão pelo menos do ponto de vista da produtividade econômica. (Notornou-se mais estreita no decorrer do século XIX, por razões que podem ser sistema teutônico, havia aspectos sociais e psicológicos que provocavam hesitação nasdeduzidas de nossa discussão anterior sobre a tecnologia. Em primeiro lugar, pessoas de fora.) O longo coro de lamúrias de alguns doutos que afora isso erama maior complexidade e precisão dos equipamentos industriais e o controle de sóbrios, escrevendo na imprensa, dirigindo-se ao público ou depondo perante uma notável sucessão de comissões parlamentares, a partir de 1867, testemunha o altoqualidade mais rigoroso, em conjunto com o custo crescente da ineficiência e a custo desse atraso educacional.pressão da concorrência, conduziram a padrões mais elevados de conhecimento Mais importantes que o atraso em si foram suas razões. Essencialmente, elas see proficiência técnicos, especialmente nos níveis superiores da hierarquia resumiram na demanda, pois uma sociedade livre geralmente consegue o sistemaprodutiva e entre os projetistas das instalações industriais. Em segundo, o educacional que deseja, e a demanda, mais uma vez, foi uma função, em parte, daalto custo do equipamento tornou o trei namento no exercício da função cada prioridade industrial inglesa e da concorrência alemã.vez mais caro e ajudou a derrubar um sistema de mestres e aprendizes que estava Como vimos, até o ensino fundamental esbarrou em desconfiança e resistênciamoribundo fazia muito tempo. E, por fim, a mudança do conteúdo científico da na Inglaterra; a, fortiori, o ensino técnico. Havia os industriais que temiam que eletecnologia obrigou os empregados supervisores e até os operários a se familiarizarem levasse à revelação de segredos do ramo ou lhes diminuísse o valor. Muitos achavamcom novos conceitos, realçando enormemente o valor do pessoal treinado para se que a "aprendizagem livresca" era não ape-manter a par das novidades científicas, reconhecer sua importância econômica e adaptá-las às necessidades da produção. 353 352
    • nas enganosa, como tinha a desvantagem de instilar em seus beneficiários ou vítimas - "homens práticos, que estivessem sintonizados com seus cilindros e tudo o mais. Elesdependendo do ponto de vista - um sentimento exagerado de seu próprio mérito e poderiam fazer um bocado de coisas com sua maquinaria, se estivesseminteligência. Nesse aspecto, a direção recebia a adesão dos capatazes e mestres-de- sintonizados com ela".168obras que, sendo produto do aprendizado no exercício da função, desprezavam ou Além disso, mesmo quando os empregadores chegavam realmente a reconhecer atemiam as aptidões e conhecimentos dos técnicos de formação escolar - ou pelo necessidade de pessoal técnico formado, cediam de má vontade. Os "cientistas" sub-menos lhes tinham ressentimento. Outros empregadores, por sua vez, não podiam remunerados eram colocados em galpões, oficinas reaproveitadas e outros locaisimaginar-se gastando dinheiro em nada que não gerasse um retorno imediato, principal- improvisados que mal permitiam condições controladas e testes precisos. Seu trabalhomente porque as noções transmitidas por essas aulas e institutos requeriam, quase ficava um grau acima das técnicas empíricas do trabalhador habilidoso, grau muitoinvariavelmente, novos desembolsos de capital. abaixo do dos pesquisadores de laboratório alemães.169 Alguns tinham medo de aumentar a concorrência.165 Mas a maioria sorria Em suma, as oportunidades de emprego e promoção para os diplomados emdesdenhosamente da própria idéia: eles estavam convencidos de que a coisa toda era ciência e tecnologia eram escassas e pouco atraentes. O campo mais compensador,um engodo, de que a educação técnica eficaz era impossível, e a instrução apesar do que foi dito, era a química, e mesmo nela, os melhores cargos eramcientífica, desnecessária. Sua própria carreira era a melhor prova disso: a maioria dos freqüentemente reservados aos homens formados no exterior; sem dúvida, afabricantes havia começado com um mínimo de instrução formal e subido por seus qualidade medíocre de muitos diplomados ingleses servia para reforçar opróprios méritos, ou cursado o currículo liberal tradicional nas escolas secundárias e, vez ceticismo da administração. Não havia praticamente nada para os físicos até apor outra, em escolas superiores. Além disso, essa lição da experiência pessoal era última década do século XIX. A pior situação era a das camadas inferiores, noconfirmada pela história da indústria inglesa. Ali estava uma nação que havia erigido seu nível do ensino profissionalizante, no qual os alunos, de vez em quando, sofriampoderio econômico sobre experimentadores práticos - um barbeiro como Arkwright, por sua ambição: uma testemunha que depôs perante a Comissão de Ensino Científicoum clérigo como Cartwright, um produtor de instrumentos como Watt, um de 1868 declarou que apenas um em cada quatro dos que freqüentavam as aulas"inventor amador" profissional como Bessemer, e milhares de mecânicos anônimos que profissionalizantes do Departamento de Ciências e Artes, na década de 1850,haviam sugerido e executado o tipo de pequenos aperfeiçoamentos das máquinas, reingressava em seu ramo.170 Em 1884, a Real Comissão sobre o Ensino Técnico rela-fornalhas e ferramentas que acabaram por levar a uma revolução industrial. A nação se tou:171 Cremos que muitos trabalhadores inclinam-se a conferir pouco valor àorgulhava desses homens - basta escutarmos Lowthian Bell ao citar, em resposta às importância de adquirir conhecimento sobre os princípios da ciência, pois não vêemcríticas às deficiências técnicas britânicas, os nomes de Darby e Cort.166 sua aplicação." Não surpreende. Também não surpreende que os mais talentosos, Em muitos ramos, desenvolveu-se uma mística da experiência prática. dentre os poucos jovens que dispunham de meios para continuar sua formação alémConsideremos as implicações da seguinte pergunta, formulada no Inquérito do nível intermediário, seguissem o currículo liberal tradicional que levava aParlamentar de 1885: carreiras no serviço público, à busca da vida rural aristocrática, ou ao tipo de posto na indústria ou no comércio - e havia muitos - que requeria um cavalheiro, e não um Os senhores sabem perfeitamente bem que há, em toda fiação, um homem capaz de fiar técnico. muito melhor do que qualquer outro, e quando se quer um fio mais fino, esse é o homem colocado no trabalho. Sem escolas técnicas, sempre se tem um homem desse tipo; os senhores acham que É difícil exagerar o contraste com as atitudes alemãs. Para uma alguma escola técnica produziria uma quantidade desses homens nas fiações?167 nação ambiciosa, impaciente por alçar sua economia ao nível da inglesa, e contrariada, senão humilhada, por sua dependência de especialistas estrangeiros, um sistema eficaz E um fabricante do ramo de folhas-de-flandres, negando a importância dos de formação científica e técnica era a base e a promessa de riqueza e de engenheiros formados, observou que o que se fazia necessário eram engrandecimento. Desenvolveu-se um verdadeiro culto da Wissenschaft e da Technik. Os reis e príncipes da Europa central rivalizavam entre si na fundação de escolas e institutos de pesquisa, e colecionavam sábios (até estudiosos humanistas, como os historiadores!) tal como seus 354 355
    • predecessores do século XVIII haviam colecionado músicos e compositores, ou como as Na Inglaterra, onde a transformação tecnológica chegou precocemente, uma novacortes da Itália do cinquecento haviam colecionado artistas e escultores. As pessoas sociedade industrial já se havia configurado na época em que as escolas forampassaram a ficar boquiabertas diante das Hochschulen e das universidades, com o assombro construídas, de modo que estas incorporaram não só os preconceitos e divisões dageralmente reservado aos monumentos históricos. E, o que é mais importante, os ordem estabelecida, como também as desigualdades materiais. Para os membros dasempresários valorizavam os formandos dessas instituições, oferecendo-lhes muitas classes mais pobres, não apenas era pretensioso cobiçar uma educação mais do quevezes cargos respeitados, amiúde poderosos - não apenas as gigantescas sociedades mínima, como também era pecuniariamente impossível - não tanto por causa dosanônimas, com suas equipes laboratoriais de até duzentas pessoas ou mais, como desembolsos diretos necessários (embora, muitas vezes, eles fossem um gravetambém as pequenas empresas, que viam nas qualificações especiais dos técnicos obstáculo), mas por causa da renda de que era preciso abrir mão. Foi o custo deformados a melhor defesa contra a concorrência por parte da produção em larga escala. oportunidade da instrução que fez dela uma prerrogativa quase exclusiva dos abas- Há uma aguda ironia em tudo isso. Assinalamos como um observador inglês de tados. Em outras palavras, o sistema escolar, que poderia ter sido a grande força meados do século XIX ficou impressionado com a "democracia social" da sala de aula de mobilidade e avanço social através do talento, tornou-se um poderoso cristalizador, alemã; no entanto, era justamente isso que havia impressionado os viajantes continentais defendendo as posições de um establishment novamente entrincheirado, ao lhe dar um do século XVIII como uma das virtudes peculiares da sociedade britânica daquela quase-monopólio do saber e das maneiras (incluindo o padrão lingüístico) que a época. Sem dúvida, a instrução superior, nesse período, restringia-se a uma sociedade valorizava. pequeníssima parcela da população; mesmo os filhos das famílias abastadas recebiam, Parte disso também se aplicava ao ensino alemão, mas em grau muito muitas vezes, pouca instrução formal, de modo que a igualdade que prevalecia era tanto menor - e as diferenças, na história, são quase sempre questão de grau. Os alemães ou mais de ignorância quanto de conhecimento. Mas esta é a questão: não fazia desenvolveram suas escolas antecipando-se à industrialização e como preparação para tanta diferença, no século XVIII, quanta instrução um homem havia recebido. O ela. O sistema visava a fortalecer a política e a economia, não só através da instrução, recrutamento do talento era feito em bases diferentes; amplas vias de mobilidade mas também descobrindo e treinando talentos. Embora ficasse nessariamente estavam ao alcance dos escolarizados e dos não escolarizados, e muitos foram os aquém de seus objetivos, os elementos da intenção e do direcionamento foram autodidatas ou os homens que aprenderam com a experiência os conhecimentos e cruciais. Daí um dos mais estranhos paradoxos da história moderna: o de que, de um habilidades necessários a seu trabalho. lado, uma sociedade liberal, que se havia destacado de todas as demais no século XVIII Entretanto, com a industrialização e a proliferação da burocracia nos negócios e no pela igualdade e pela mobilidade do status, tivesse perdido parte destas durante o governo, a educação formal assumiu uma importância sistematicamente crescente como próprio período de sua progressiva democratização política, enquanto, de outro lado, a chave da promoção ocupacional, e portanto, social. Isso não quer dizer que o uma sociedade muito mais autoritária, caracterizada em seu período pré-industrial sistema ou o teor da instrução se adequassem perfeitamente aos requisitos da economia e por uma hierarquia de classes claramente definida e bastante rígida, tivesse da política, mas apenas que a escolarização passou a reger mais e mais o recrutamento das desenvolvido uma estrutura mais aberta, sem uma mudança política aptidões. correspondente.172 Essa é uma tarefa que o sistema escolar, em tese, está idealmente preparado Desnecessário dizer que esse contraste entre duas formas de organização social para desempenhar. Ele é objetivo por sua própria essência, graduando e promovendo não pretende implicar um juízo moral hostil. A educação e a mobilidade não são fins os estudantes com base na capacidade e no trabalho - salvo quando a competição é virtuosos em si, mas meios para atingir fins. Suas consequencias, almejadas ou deliberadamente excluída da sala de aulas. Mas, na verdade, a eficiência seletiva do não, tanto podem ser más quanto boas. Seria fácil argumentar que a elite sistema depende diretamente de suas próprias circunstâncias e princípios de produzida pelo sistema britânico às vezes detestavelmente segura de seu lugar e suas recrutamento, e estes, por sua vez, refletem os valores e as atitudes de seus criadores prerrogativas, mas dotada de um agudo senso da moral tradicional e do noblesse oblige - e sua clientela. deveria ser preferida, em todos os aspectos, aos espécimens duros, oportunistas e Mais uma vez, o momento e a intenção têm uma importância crucial. adeptos da filosofia de que os meios justificam os fins, promovidos pelo cursus 356 357
    • honorum alemão. Mas tal comparação nos levaria muito além dos limites de nosso tema. A estrutura nitidamente contrastante do crédito e finanças alemães, mais uma vez, só é compreensível em termos da economia da precedência e do atraso. A relativa falta de qualificações e conhecimentos da Inglaterra (quem teria Já observamos que, enquanto a indústria inglesa pôde construir seus recursos a partir daimaginado essa eventualidade na primeira metade do século XIX?) foi acompanhada e base, os alemães tiveram necessidade, desde o início, de criar instituições para mobilizarcontribuiu para uma insuficiência igualmente surpreendente de capital de risco. É bem um capital escasso e canalizá-lo para um sistema produtivo que partisse de um nívelpossível que essa afirmação se afigure ao leitor como sendo incoerente com nossa avançado de técnica e organização. Tratou-se dos bancos de investimento por ações, e suadiscussão anterior da pletora de riquezas da Inglaterra. Mas poupança não é colaboração cada vez mais estreita com as indústrias manufatureiras viria a ternecessariamente investimento, e além disso existe toda sorte de investimentos - conseqüências fundamentais para o ritmo e o caráter do desenvolvimento alemão.estrangeiros e internos, especulativos e seguros, racionais e irracionais. Os ingleses Por um lado, isso significou uma promoção e desenvolvimento planejados detinham o capital. Mas aqueles que o canalizavam e distribuíam não estavam atentos às cada firma. Os bancos tiveram que aprender a avaliar as possibilidades de lucro numaoportunidades oferecidas pela tecnologia moderna, e os que poderiam tê-lo usado dada situação empresarial antes de se encarregarem da emissão de títulos. Para essanão queriam ou não sabiam o bastante para ir em busca dele. finalidade, não apenas consultavam técnicos externos, como também desenvolveram Primeiro, o lado da oferta: o sistema bancário britânico havia crescido mais ou seus próprios especialistas, para examinar e dar orientação nos assuntos industriais. menos como a indústria - passo a passo, de baixo para cima, junto com sua clientela. Sua Havia alguns bancos, é claro, menos cuidadosos do que outros, ou menos escrupulosos. maior virtude era sua extraordinária capacidade de transferir recursos dos que A Alemanha teve seu Gründerzeit, e sempre houve financistas que acham que a única ofereciam para os que procuravam capital, através de instrumentos tradicionais como a questão importante em qualquer promoção são suas potencialidades especulativas. letra de câmbio, o crédito ilimitado e o saque a descoberto. Sua maior fraqueza, que só Mesmo assim, a maioria dos bancos não emitia e descarregava títulos; eles ficavam se evidenciou depois de meados do século XIX, era sua incapacidade de introduzir ou com suas criações, conservavam parte de suas ações, ficavam de olho em seu incentivar o tipo de iniciativa industrial que exigisse grandes volumes de capital externo. desempenho e estimulavam seu crescimento como clientes lucrativos. Ele era mais passivo do que ativo, mais receptivo do que criativo. Por outro lado, o financiamento bancário implicava uma expansão contínua do Ademais, na medida em que o mercado de capitais realmente direcionou o fluxo setor industrial como um todo. Se a lucratividade de qualquer transação promocional dos recursos, o hábito e a predileção combinaram-se no sentido de dar preferência aos dependia de uma avaliação criteriosa dos elementos implicados e da influência sobre os governos estrangeiros e às empresas de utilidade pública, estrangeiras e nacionais. Esse acontecimentos posteriores, o retorno total desse ramo importantíssimo das operações era o material de trabalho de Londres, e Londres controlava o grosso do capital bancárias dependia de encontrar ou inventar promoções. Assim, os especialistas em líquido do país.173 A indústria ficava entregue aos mercados locais: Manchester tinha finanças industriais interessavam-se tanto pela descoberta de possibilidades de crescimento suas empresas de algodão; Birmingham, armas e equipamentos; Newcastle, carvão ou reorganização quanto por ajudar a efetivá-las. Isso ocorreu especialmente a partir de mineral e metalurgia. Nesses campos, a própria Londres não passava de um centro 1880, depois que o declínio na construção e nacionalização de ferrovias privou o regional, negociando as ações dos estaleiros do Tâmisa, de uma empresa de construção mercado de seu produto mais popular. Nos anos seguintes, os bancos desempenharam um mecânica em Ipswich, de cervejarias locais e das grandes lojas de departamentos e hotéis papel importante na estimulação e apoio ao crescimento da indústria pesada alemã e em da capital. Como resultado, as sociedades anônimas inglesas eram, muitas vezes, apenas sua integração em moldes verticais e horizontais. Ao longo de todo o processo, sua sociedades limitadas em escala maior - provincianas em termos de recursos, direção, influência foi no sentido de uma utilização mais plena dos recursos e de uma combinação controle e âmbito. Eram maiores do que suas predecessoras da primeira metade do mais eficaz dos fatores de produção.175 século, mas não eram páreo para os Konzerne e as Interessengemeinschaften que Mas é fácil exagerar a importância dessas diferenças na estrutura e no proliferavam por todo o Mar do Norte.174 comportamento dos mercados de capital dos dois países. Os estudiosos da 359 358
    • história econômica inglesa, em particular, têm oferecido, ocasionalmente, uma cambiais confiscatórios e similares -, a empresa doméstica tem prioridade na captaçãoresposta mais simples: eles presumem uma clara relação inversa entre o investimento dos recursos de uma economia. Ela tem todas as vantagens daquilo que é conhecido,interno e externo quando um aumentava, o outro minguava.176 Um exame mais enquanto os empreendimentos estrangeiros são difíceis de avaliar, relativamentecriterioso dos dados forçou ao abandono desse modelo simplista, em favor de uma imunes à verificação e ao controle, além de intrinsecamente mais especulativos. Naanálise mais exata, porém menos confortável.177 Mesmo assim, muitos estudiosos verdade, as diferenças entre os dois são suficientes para gerar uma defasagemcontinuaram a presumir que, grosso modo, a escala dos investimentos ingleses no exterior substancial nas expectativas de retorno necessárias para atrair investimentos emera tamanha que privava de recursos a indústria doméstica. cada um desses dois setores - uma defasagem análoga ao custo de deslocar a Não estou convencido dessa tese. Ela repousa, primeiramente, num erro de mão-de-obra de uma tarefa para outra. Em suma, se a Inglaterra mandou tantoapreensão. Sem chegar a ir tão longe quanto o professor Rostow, que encarou o dinheiro para o exterior, isso se deveu, em parte, à falta de iniciativa dos fornecedoresperíodo de 1873-98 como sendo de um deslocamento geral dos investimentos de empréstimos, porém mais ainda ao fato de que os tomadores internos não osexternos para "um investimento interno intensivo", pode-se notar que houve épocas, quiseram.durante esses anos, em que a Inglaterra empatou grandes somas na indústria Isso nos traz para o lado da demanda, também presente nessa equação.doméstica. Em 1885,Goschen foi bastante arrebatado pelo tema: Considerando-se a igualdade aproximada das duas economias em termos de recursos materiais, esta foi essencialmente uma função do espírito empresarial, ou seja, dos Nunca houve um desejo tão intenso, por parte de toda a comunidade, de investir de modo elementos humanos -imaginação, energia, aspiração - que moldaram as decisões de remunerativo cada xelim de reserva que ela possa ter. Há uma competição entre os homens que investimento nos dois sistemas. Aqui, mais uma vez, o contraste é tão nítido que dispõem de algumas dezenas de libras e de algumas centenas de libras para colocá-las nas empresas, e nas empresas elas são colocadas. As sociedades anônimas arrebanharam todos esses recursos transcende as limitações intrínsecas dos indícios qualitativos. O produtor inglês, disponíveis. Como gigantescos sistemas de irrigação, primeiro elas os coletam e depois os vigoroso em sua admiração pela experiência e em sua preferência pela despejam, através de inúmeros condutos, diretamente sobre a face da nação, tornando o experimentação empírica, em contraste com os experimentos livrescos, capital acessível sob todas as formas e em todos os locais.178 inclinava-se a desconfiar das novidades. Riley, ao descrever seus esforços enfim exitosos de expor ao Instituto do Ferro e do Aço a aplicação do gusa a quente nas usinas escocesas de fornos Siemens-Martin, em 1900, declarou que No entanto, do ponto de vista macroeconômico, os resultados foram umadecepção. Obviamente, não é o dinheiro que importa, mas o que se faz com ele.179 Em segundo lugar, há bons motivos para crer que o capital flui em direção à a falta de confiança no sucesso e a resistência passiva comumente encontrada nesses casos eram, talvez, mais desanimadoras do que quaisquer possíveis dificuldades que viessem a surgir no trabalho efetivo, ouoportunidade; havendo tornadores que saibam o que fazer com ele e que o procurem, na elaboração de métodos práticos.haverá fornecedores de empréstimos para atender a suas necessidades.Reconhecidamente, essa generalização é uma ofensa à verdade de muitos casosindividuais e até, talvez, à experiência de algumas nações. E, como vimos, ela O conservadorismo do ramo de folhas-de-flandres era famoso: "Falando emmenospreza a contribuição que um sistema bancário imaginativo e ativo pode dar ao termos gerais", disse um produtor nos anos que antecederam a guerra, "quando umadesenvolvimento industrial. Contudo, no cômputo geral, ela parece válida em relação coisa nova é introduzida em qualquer trabalho, não sendo um sucesso imediato, ela éaos principais setores, qua setores, das economias industrializadas avançadas.180 eliminada." A resposta para uma coisa nova era indagar "se algum outro idiota já a Essa consideração, além disso, é aqui reforçada pelo fato de que, excetuados os experimentou".181 Seria possível citar exemplos semelhantes, vindos de outros ramos empecilhos não econômicos - falta de segurança, controles da indústria. Enquanto isso, o sistema alemão havia institucionalizado a inovação: a mudança estava incorporada nele. Não havia garantia de grandes descobertas - vale notar, por exemplo, que os grandes avanços na metalurgia na 360 361
    • segunda metade do século foram ingleses (Bessemer, Siemens, ThomasGilchrist), para condenar como inútil uma grande fábrica que até então prestou bons serviços."187franceses (Martin, Carves) ou belgas (Coppée). Mas havia uma certa garantia de que as Esta declaração, é claro, talvez não fosse nada além de uma afirmação da necessidade deinvenções de qualquer origem seriam testadas e exploradas; e existia, dentro da exatidão ao se comparar a lucratividade da maquinaria antiga e nova - embora sejaprópria indústria, um fluxo contínuo de pequenos aprimoramentos que perturbadora a referência aos lucros passados, em vez dos futuros. Mesmo quando oconstituíram, cumulativamente, uma revolução tecnológica.182 As seis maiores firmas empresário inglês era racional, entretanto, seus cálculos eram distorcidos pelaalemãs de produtos de alcatrão de hulha tiraram 9 4 8 patentes entre 1886 e 1900, brevidade de seu horizonte temporal, e suas estimativas pendiam para o ladocomparadas a 86 das firmas inglesas correspondentes.183 E, como disse Schumpeter em conservador.sua descrição da indústria elétrica alemã, a variedade e a freqüência da inovação, sob o Pode-se apreciar melhor a importância dessa abordagem pecuniária ao contrastá-laimpulso dos departamentos técnicos dos grandes conglomerados, deu origem a uma com a racionalidade tecnológica dos alemães. Esse era um tipo diferente de aritmética,corrida que, "embora nunca exiba as propriedades formais da competição perfeita, que maximizava, não os lucros, mas a eficiência técnica. Para o engenheiro alemão eproduz todos os resultados usualmente atribuídos à competição perfeita".184 para o industrial e o banqueiro que estavam por trás dele, o novo era desejável, Além disso - e.mais uma vez esbarramos na complexidade e inextricabilidade dos não tanto por ser compensador, mas por funcionar melhor. Havia maneiras certas efatores múltiplos na explicação histórica , esses contrastes na receptividade à inovação erradas de fazer as coisas, e a maneira certa era a científica, mecanizada e com altoeram fortalecidos por diferenças na racionalidade empresarial. O industrial inglês coeficiente de capital. O meio tinha-se transformado num fim. O economista,continuava fiel ao cálculo clássico: tentava maximizar o retorno, fazendo os certamente, examinando a situação ex post, simplesmente faz uma distinção entre doisinvestimentos que, considerados os custos previstos, os riscos e as vendas, gerassem a- cálculos pecuniários: o empresário alemão tinha meramente um horizonte temporalmaior margem sobre o que o equipamento existente podia fornecer. Ele era prejudicado, mais longo e incluía em suas estimativas algumas variáveis exógenas da transformaçãocomo vimos, pelo ônus dos custos correlatos, que amiúde tornavam não lucrativos tecnológica que seu concorrente inglês mantinha constantes. Mas isso perde de vista aalguns desembolsos que de outro modo seriam interessantes. Muitas vezes, cometia o diferença crucial da motivação ex ante que levava o alemão a se portar como seerro de atar o investimento às operações e retornos correntes, e não às expectativas do portava.que seria razoável que o futuro trouxesse. Ou sua presunção tácita era que o amanhã Dada essa motivação não racional, não havia, é claro, nenhuma razão a priori pelaseria idêntico ao hoje, ou, como sugere Kindleberger,185 ele tentava inconscientemente qual o padrão alemão devesse ser mais compensador. É óbvio que pode existir algo comominimizar a necessidade de tomar decisões - como sempre, o dever mais exigente e uma supermodernização - uma substituição excessiva do trabalho pelo capital -, assimdesagradável do empresário. Por fim, às vezes ele era tão insensato que negligenciava como pode haver uma ênfase exagerada em um ou dois ramos da atividade econômica, emum dos preceitos cardinais da economia - o de que os custos empatados já estão detrimento dos demais. Nesse aspecto, entretanto, a Alemanha teve sorte, no sentido deempatados - e se agarrava a equipamentos antiquados porque eles funcionavam. Os que a longa onda de transformação tecnológica favoreceu os métodos e indústrias comteóricos relutam em admitir que as pessoas freqüentemente se portam dessa alto coeficiente de ciência e capital, enquanto a natureza de seus recursos humanos emaneira, porque a irracionalidade não se presta à análise lógica; mas elas o fazem. O materiais foi de tal ordem que lhe facultou tirar proveito das oportunidades oferecidas.peso do avanço e do crescimento anteriores oprimia muitos produtores ingleses. Como Em suma, ela escolheu o caminho certo, embora, em parte, pelas razões erradas ou,disse Lowthian Bell, numa comparação entre as práticas britânica e norte-americana, "o mais exatamente, irrelevantes.siderurgista inglês achava-se numa situação um pouco diferente, na medida Cabem aqui algumas palavras de advertência. Fundamentei boa parte destaem que, se gastasse £25.000 para fazer [uma] economia, teria que sacrificar as £25.000 discussão da concorrência econômica anglo-germânica no que os sociólogosque já havia desembolsado".186 E um outro comentou: "Tem-se que estar inteiramente denominam de análise de tipos ideais - no caso, dois tipos contrastantes de empresários.convencido da superioridade de um novo método Essa, inevitavelmente, é uma técnica perigosa de comparação histórica, pois se baseia, numa determinação da média do incomensurável, e, portanto, do que não é passível de um cálculo da média, desrespeitando a complexidade e a variabilidade do comportamento huma- 362 363
    • no. Os economistas seriam os primeiros a assinalar que não importa, a longo das e do capital investido (por exemplo, o obstáculo criado para a eletrificaçãoprazo, quão atrasadas são as técnicas ou quão ineficiente é o desempenho da grande por uma rede de gás largamente difundida) e, acima de tudo, na taxa de expansãomaioria dos empresários, desde que alguns sejam suficientemente dinâmicos para lenta. Esta última, em sua opinião, explica não apenas a falta de oportunidade paraintroduzir a mudança e forçar os outros a segui-los. E isso é realmente verdade - a construir fábricas atualizadas, mas também as deficiências empresariais que delongo prazo. A observação de Keynes tem sido repetida com tanta freqüência que fato possam ter existido (também nesse aspecto, Habakkuk considera exageradaperdeu grande parte de sua agudeza; mas sua correção persiste: a longo prazo, todos a acusação habitual): "Não se fazem grandes generais em tempo de paz; não seestaremos mortos. A longo prazo, sob a pressão da concorrência norte-americana fazem grandes empresários em indústrias que não se estejam expandindo." Até ae alemã, a indústria britânica realmente modificou muitos de seus hábitos. Mas, fraqueza da formação científica e do desempenho técnico britânicos (mais umanesse meio-tempo, perdeu terreno; houve a intervenção de uma guerra, e vez, Habakkuk alega que ela foi exagerada) pode ser explicada, em grande parte,depois, outra; novos rivais econômicos apareceram; e muito talento e capital em termos análogos:fluíram por outros canais. O mundo não espera sentado por ninguém, e afraqueza a curto prazo contribui, sob formas que ainda não somos capazes de A indústria inglesa não conseguiu atrair ou conservar a capacidade cientificadefinir e mensurar, para a defasagem a longo prazo. existente, e faltou-lhe o desejo de formar seus próprios cientistas, pois suas Uma última observação. Mesmo admitindo a importância desse fator perspectivas se deterioraram, por motivos independentes da oferta dehumano - o sucesso da criatividade empresarial e tecnológica, de um lado, e o qualificações científicas (...). As defasagens havidas na adoção de novos métodosfracasso, de outro -, talvez ele não tenha sido, em si, mais do que um reflexo de na indústria da Grã-Bretanha podem ser satisfatoriamente explicadas peladeterminantes econômicos. Há, por exemplo, o que podemos chamar situação econômica, pela complexidade de sua estrutura industrial e pelo lento"abordagem da retroalimentação", que encara o crescimento de uma economia crescimento de sua produção, bem como, em última instância, por seu começoou até de uma indústria, em qualquer período, como uma função de seu precoce e longamente sustentado na condição de potência industrial.190crescimento no período anterior: a própria taxa de expansão provoca asrespostas materiais e humanas necessárias para sustentáIa. Uma afirmação sucintadessa postura é encontrada em Svennilson: 88 Discordo. Não é que o argumento esteja errado; ele é simplesmente incompleto e não faz justiça ao comportamento de nenhum dos dois ad- Pode-se presumir que a nova capacidade acrescentada a uma indústria em versários. 191 Com respeito à Inglaterra, há indícios de que até os novos expansão será construída de acordo com os mais avançados conhecimentos investimentos das indústrias mais antigas caracterizaram-se por uma cautela técnicos, enquanto o restante da indústria, representando a capacidade excessiva e por horizontes estreitos; e também é necessário explicar o de- anterior, ficará para trás em termos de modernização. Assim, a proporção de sempenho geralmente fraco dos novos ramos da indústria baseados na ciência. equipamentos modernos numa indústria aumenta proporcionalmente à rapidez Além disso, seria errôneo descartar, como incorreta ou irrelevante, uma grande do seu crescimento. Isso leva à conclusão de que, ceteris paribus, a eficiência de massa de indícios contemporâneos que não apenas confirmam as deficiências uma indústria aumenta de acordo com a rapidez de sua expansão. empresariais e tecnológicas, mas também as atribuem a valores e forças sociais independentes do sistema econômico. A explicação é igualmente incompleta no que tange ao lado alemão da Essa linha de explicação foi aplicada à rivalidade anglo-germânica pelo rivalidade. Também nesse caso, há muito de verdade na análise: as realizaçõesprofessor Habakkuk, em seu estudo sobre a Tecnologia norte-americana e inglesa.189 Para econômicas da Zollverein e, depois, do Reich, juntamente com os triunfoscomeçar, ele tende a depreciar a defasagem entre o desempenho britânico e o militares da Prússia, promoveram um clima de confiança eufórica, reforçando osalemão: enfatiza, por exemplo, os sucessos do aço estímulos materiais ao investimento e ao crescimento. Mas isso não é tudo queSiemens-Martin e da construção naval, um relacionado com o outro. E, embora admita se tem que explicar. Existe, em particular, a questão de por que o padrão deo atraso dos outros ramos, antigos e novos, deposita grande ênfase nos custos investimento alemão desviou-se daquilo que os custos fatoriais relativoscorrelatos da transformação, no ônus das fábricas instala- levariam a esperar. Até o último quartel do século XIX, isso não acontecia: as novas fábricas alemãs eram menos intensivas em ca- 364 365
    • pital do que as britânicas; o equipamento era menor e, muitas vezes, menos avançado - e Esse elemento da conveniência não deve ser subestimado. O desenvol-isso, a despeito de uma taxa de crescimento muito mais alta do que na Inglaterra, vimento econômico é um grande drama. É a puberdade das nações, a transição quecertamente a partir de 1850 e talvez desde 1834. Há também a prova objetiva da separa adultos e crianças. Por conseguinte, ele traz em si, num mundo que admira ofecundidade tecnológica decorrente de uma formação científica boa e difundida; em poder e cobiça a prosperidade material, conotações de sucesso e virilidade. Ora, algumasparte alguma isso se evidencia mais do que na indústria de produtos químicos orgânicos, sociedades efetuaram essa passagem mais cedo que outras e, conseqüentemente,onde as oportunidades de pesquisa independem, em grande parte, do caráter ou do adquiriram maior riqueza; algumas, apesar de um começo tardio, crescem maisvolume da produção corrente. Por fim, há ainda uma profusão de testemunhos con- depressa do que parte de seus predecessores e prometem (ou ameaçam, dependendotemporâneos coincidentes sobre a influência das atitudes empresariais e dos padrões do ponto de vista) ultrapassá-los; outras ainda não puderam enveredar pelo caminho dotécnicos no desempenho empresarial, os quais seria desaconselhável descartar, a não desenvolvimento. Em virtude das profundas implicações desse drama para oser com base em argumentos muito sólidos. status dos participantes, as explicações dadas pelo sucesso ou fracasso são, elas Em outras palavras, a abordagem da retroalimentação fornece uma explicação para mesmas, cruciais para a auto-estima dessas sociedades e seus membros. Nessasuma vertente do comportamento econômico, a do estímulo à atividade econômica que circunstâncias, a identificação do estudioso com o problema por ele estudado é, muitasprovém pelo lado da demanda. Mas ela desconsidera o lado da oferta e, com isso, trunca vezes, um determinante tão importante de sua abordagem quanto os dados objetivos.a realidade histórica. Nada tem tanto êxito quanto o sucesso... mas, por que algunstêm sucesso e outros fracassam? Por que alguns corredores da linha de frentearrefecem, enquanto os retardatários recuperam a velocidade? Tais perguntas nos levam ao problema mais difícil da história econômica: o deexplicar por que ocorre a mudança - e não apenas como e qual. Este não é o lugarpara empreender uma discussão sobre a causação do desenvolvimento e docrescimento, tema que já provocou uma biblioteca de debates, muitos delesexplicitamente interessados na questão levantada pela rivalidade anglo-germânica, ou seja, a importância relativa dos determinantes humanos e nãohumanos. Mas há uma breve observação wissenchaftsoziologische [científico-sociológica]que vale a pena fazer: no frigir dos ovos, nem a evidência empírica nem o raciocínioteórico têm probabilidade de resolver a questão. Sempre restarão agudas diferençasde opinião. Por um lado, a matéria da história é tão complexa e tão avessa à análiselaboratorial replicadora, que a imputação exata de pesos a cada um dos muitosdeterminantes do desenvolvimento econômico - mesmo nas situações limitadas, afortiori nas gerais - é impossível, e tende e permanecer assim. Por outro, essa própriacomplexidade e imprecisão impedem a comprovação de que qualquer explicação dosacontecimentos, por mais plausível que seja, constitui a única explicação possível. E, umavez que os estudiosos são humanos, com muitas, senão todas as predileções etendenciosidades dos outros seres humanos, eles tendem a escolher, e sem dúvidacontinuarão escolhendo, as interpretações que consideram não apenas plausíveis, masconvenientes. 366 367 612 613
    • NOTAS velopment and Cultural Change, IX, 1961, p. 316-30; e R.W. Goldsmith, "The Economic Growth of Tsarist Russia, 1860-1913", ibid., p. 4 4 1 -75. 6. Uma bibliografia abrangente tomaria demasiado espaço. 0 leitor interessado CAPÍTULO 5 poderá consultar R.M. Hartwell, "Interpretations of the Industrial Revolution in England: a Methodological Inquiry", J. Econ. Hist., XIX, 1959 p. 2 2 9-49. 7.Ellison, Cotton Trade, p. 59. Quanto desse aumento da demanda deveu-se ao efeito de substituição (isto é, à compra preferencial de algodão em relação a outros produtos, em virtude de sua queda relativamente maior de preço), e quanto se deveu ao aumento da renda real decorrente dessa queda nos preços, já é uma outra história, diretamente relacionada com a controvérsia que cerca o padrão de vida nesses anos. Mas isso não tem uma relevância imediata para nosso interesse pela evolução do mercado de produtos manufaturados, exceto na medida em que o aumento do consumo 1. F. Simiand, Le Salaire, lévolution sociale et Ia monnaie, 3 v., Paris, 1932. de algodão foi compensado por uma queda no de outros produtos têxteis. Isso não 2. Seu artigo clássico, "Die langen Wellen der Konjunktur", saiu no Archiv,fúr parece ter acontecido na Inglaterra, nem mesmo no caso do linho, que era oSozialwissenschaft and Sozialpolitik, LVI, 1926, p. 573-609. Foi traduzido, sob forma concorrente mais direto do algodão. Cf. Deane e Cole, British Economic Growth,abreviada, como "The Long Waves in Economic Life", Rev. Economics and Statistics, p. 204.XVII, 1 935 , p . 10 5 -1 5; a versão inglesa foi reproduzida em Readings in Business 8. H.S. Ferns, Britain and Argentina in the Nineteenth Century, Oxford, 1 9 60 ,Cycle Theory, Filadélfia, 1944, p. 2o-42. capítulo I. 3. A trajetória dos preços variou um pouco de um país para outro, pois cada qual 9. Ellison, Cotton Trade, p. 59 e 63; S.B. Saul, Studies in British Overseassentiu o impacto da explosão de crescimento e da derrocada de maneira diferente, Trade, 1870-1914, Liverpool, 1960, p. 14.conforme as circunstâncias políticas e econômicas. Em todas as principais economias 10. W. Schlote, British Overseas Tradefrom 1700 to the 1930s, Oxford,da Europa ocidental, entretanto - Grã-Bretanha, Alemanha, França e Bélgica - , a Blackwell, 1 9 52 , p . 7 5 -7 e 154 -5. 0 índice de exportações inclui produtosdepressão de 1 873 - 96 foi uma extensão do caminho traçado em 1820 -so. Ver o acabados, metais, hulha e alimentos industrializados. A fonte do índice de produção nãoGráfico nº 1 in Gaston Imbert, Des mouvements de longue durée Kondratieff, Aix-en- é indicada, mas Schlote aparentemente usou o índice posteriormente publicado porProvence, 1959, ed. bolso. W. Hoffmann em seu Wachstum und Wachstumsformen der englischen 4. Cf. o debate entre E.H. Phelps-Brown e S.J. Handfield-Jones, "The Climacteric Industriewirtschaft von 1700 bis zur Gegenwart, Kiel, Institut für Weltwirtschaft,of the 189os: a Study in the Expanding Economy", Oxford Econ. Papers, IV, 1952, p. "Probleme der Weltwirtschaft", v. 63, Kiel, 1939 - ver a referência de Schlote na p.266- 307; e D.J. Coppock, "The Climacteric of the 189os: a Critical Note", The 5o. As proporções de Schlote são úteis apenas como indicadores de tendências.Manchester School, XXIV, 1 956 , p . 1 -3 1 . 11. Ver J. Gallagher c R. Robinson, "The Imperialism of Free Trade", Econ. Hist. Quanto ao problema geral da chamada Grande Depressão, ver o valioso artigo de Rev., 2 série, VI, 1953, p. 1 -15; John S. Galbraith, "Myths of the Little EnglandA.E. Musson, "The Great Depression in Britain, 1 87 3 -18 96 : a Reappraisal", J. Econ. Era", Amer. Hist. Rev., LXVII, 1961, p. 34 -48.Hist., XIX, 1959 p. 199-228. Ver também Coppock, "The Causes of the Great 12. A partir do fim da década de 188o, as exportações britânicas de tecidos deDepression, 1873 -96", The Manchester School, XXIX, 1961, com uma crítica de J. algodão para a Índia se equilibraram, enquanto as vendas de fio caíram. Nesse meio-Saville e uma resposta, i b id., X XXI , 1963; e H. Rosenberg, "Political and Social tempo, a proporção da produção indiana de fios que era exportada elevou-se de 15%Consequences of the Depression of 1 8 73 - 189 6 in Central Europe", Econ. Hist. Rev., na década de 1870 para mais de 75% em 1913. Saul, Studies in British OverseasXIII, 1943, p. 58-73. Trade, p. 189. 0 primeiro cotonifício mecanizado da índia foi fundado na região de 5. Essa afirmação desconsidera algumas questões referentes ás vantagens e des- Bombaim em 1851. Uma década depois, ela contava com 3 3 8. o oo fusos, que sevantagens do começo precoce, que mais vale deixar em suspenso por enquanto. Para transformaram em quase 5 milhões na virada do século; em 1913, esse número haviauma apreciação estatística do crescimento industrial, ver S.J. Patel, "Rates of Industrial subido para 6.917.000. Nesse ano, seu consumo de 2.177.000 fardos de algodão cruGrowth in the Last Century, 1 86o - 19 58" , Economic De- colocou-a em quarto lugar no mundo, depois do Reino Unido, Estados Unidos e Rússia. A. Rai, Die indische Baumwoll-Industrie, Deli, s/d, p. 46-7; Comissão de Indústria e Comércio, Survey of Textile Industries, p. 154- (G.E. Hubard, Eastern Industrialization and and 612 613
    • Its Effect on the West, Oxford, 1938, p. 246, indica os fusos em funcionamento em commercialisation de Ia viefrançaise du Premier Empire á nos jours, Paris, 1929; 1 91 3 -4 como sendo 5.848.000.) G. dAvenel, Le mécanisme de Ia vie moderne, 1 a série, 7a ed., Paris, 1922, p. 1- 13. Comissão de Indústria e Comércio, Survey of Textile Industries, p. 156; J.E. 79.Or~ chard,Japans Economic Position, Nova York, 1930, p. 93-4. 0 crescimento da 17. Sobre os cartéis do vidro, ver Barker, Pilkington Brothers, capítulos VIII,indústria japonesa de algodão pode ser aquilatado pelos seguintes dados: IX e XIII. Número Produção Exportação Exportaçãode 18 Wealth of Nations, livro I, capítulo X. de fusos de fios de fios tecidos(milhares 19. Cf. R.J. Forbes, "The History of Science and Technology", in XIe Congrès (milhares) (milhares de (milhões de de jardas International des Sciences Historiques, Rapports, I, p. 72. 1880 13 libras,) - libras) - quadradas) - 20. Guy Thuillier, Georges Dufaud et les débuts du grand capitalisme dans 1890 358 42 - - Ia métallurgie, en Nivernais, au XIX` siecle, Paris, 1959, p. 230 1900 1.361 268 83 572 21 . Na categoria do aço, existem aços doces e duros, também distinguidos entre si pelo teor de carbono. Os primeiros (com menos de o , 2 5 % de carbono) 1913 2.287 672 187 4.302 assemelham-se muito ao ferro forjado: não aceitam têmpera, mas são muito Fontes: Dados sobre os fusos extraídos de Manji lijima, Nihon Bosekishi [História da indústria resistentes e dúcteis, sendo especialmente adequados para usos estruturais, trilhos ejaponesa de fiação], Tóquio, 1949, p. 489-91; dados sobre a produção de fios extraídos de trabalhos de forja como a rebitagem. Os últimos são os aços com alto teor de carbono,Japão, Naikaku Tokeikyoku [Gabinete de Estatística], Nihon Teikoku tokei nenkan usados em ferramentas de corte e outras, peças móveis de máquinas e peças[Anuário Estatístico Imperial Japonês], v. XII, XXIV-XXV e XL; dados sobre as exportações de estruturais de força incomum.fios e tecidos extraídos de Nihon seni Kyogikai [Conselho da indústria têxtil do Japão], Nihon seni 22. [W.F. Jackson], JamesJackson et sesfils, Paris, edição particular, 1893, p.sangyoshi [História da indústria têxtil japonesa], 2 v., Tóquio, 190, p. 944-5. 17, fornece uma cifra menor: £120 por tonelada em 1818. 14. Os salários reais elevaram-se substancialmente, mesmo descontando o de- 23. Sidney Pollard, History of Labour in Shfeld, p. 160.semprego cíclico. Até um autor tão anticapitalista quanto]. Kuczynski mostra 24. Ver o relatório de M. Goldenberg in Michel Chevalier (org.), Expositionaumentos da ordem de 2/3, na Inglaterra, entre 185o e 1900, e de 1/3, na Universelle de 1867 à Paris, Rapports du jury international, 14 v., Paris, 1868, V,p.Alemanha, entre 1870 e 1900. Die Geschichte der Lage der Arbeiter in England 393s.von 1640 bis m die Gegenwart, v. IV, 3, parte: Seit 1832, Berlim, 1955, p. 13 23; 25. França, Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Diretoria deDie Geschichte der Lage der Arbeiter in Deutschland, v. 1, 2, parte: 1871 bis Minas, Statistique de 1industrie minérale; Résumé des travaux statistiques de1932, Berlim, 19 5 4 p . 9 6 -7. 1Administration des Mines en 1853, 1854, 1855, 1856. 1857, 1858 et 1859, Se houve alguma elevação da participação relativa dos trabalhadores na renda Paris, 1861, p. 484-99; G. Viebahn, Statistik des zollvereinten Deutschlands, p. 43 ss .nacional é outra questão. As estatísticas de que dispomos apontam para um aumento 26. Convém dar o devido crédito à invenção anterior (c. 1851) dessa técnicasignificativo da fração da renda destinada ao conjunto dos empregados assalariados e a (com pequenas diferenças) por William Kelly, nos Estados Unidos. Kelly mantevesoldo na França e na Alemanha; na Inglaterra, no período considerado, a mudança foi suas operações em segredo até 1856, quando sua solicitação de registro da patentedesprezível. Mas não há como separar as camadas de salários superiores e inferiores. Ver esbarrou numa concessão anterior feita a Bessemer. Ele finalmente conseguiu fazerS. Kuznets, "Quantitative Aspects of the Economic Growth of Nations, IV. Distribution com que sua prioridade fosse reconhecida em 1857 - tarde demais, porém, para seof National Income by Factor Shares", Economic Development and Cultural Change, salvar da falência. De qualquer modo, é duvidoso que seu processo se adequasse àVII, n 3, parte 11, abril de 1959, e as fontes ali citadas. produção em massa. Ver W. Paul Strassmann, Risk and Technological Innovation: Quanto à distribuição da renda, nossos dados são incompletos, sumamente American Manufacturing Methods during the Nineteenth Century, Ithaca, NY,aproximativos e difíceis de comparar; o quadro é obscuro. Cf. Colin Clark, The 1959, p. 30. Tampouco se deve desconsiderar a contribuição vital de Robert F.Conditions f Economic Progress, 2a ed., Londres, 1951, p. 530-41; ver também a Mushet, que corrigiu a tendência do conversor a produzir um ferro "queimado"discussão em W. Ashworth, An Economic History of England, 1870 -1939, Londres, i (superoxidado), acrescentando Spiegeleisen, ou seja, um ferro que continha960, p. 247s. manganês, ao metal fundido. Esse processo revelou-se especialmente valioso no 15. Cf. A.G. Manry, "En Limagne, entre 1865 et 1905", Annales: Economies, refino do gusaSociétés, Civilisations, V, 1950, p.114 --9 . 16. Um dos melhores indicadores indiretos dessa transformação comercial foi oaumento espetacular da produção de vidro laminado, largamente utilizado nas vitrinesde lojas e nos espelhos. De 1870 a 1901, as importações inglesas de laminadossaltaram de cerca de 36.000 para 464.000 quintais métricos, enquanto a produção domaior fabricante da Inglaterra, que ingressou nesse ramo em 1876, subiu de1.078.000 pés quadrados em 1877 para mais de 5 milhões em 1 9 03 - 4 e mais de 1 4milhões em 1912-13. Barker, Pilkington Brothers, p. 161 e 189. Os números daempresa Pilkington referem-se apenas à fábrica de Cowley Hill. Quanto à importância das novas técnicas de comércio varejista, ver J.B. Jefferys,Retail Trading in Britain, 1850-1950, Cambridge,1954 ; P. Bonnet, La 616
    • inglês. Por um lamentável conjunto de circunstâncias, a patente de Mushet expirou sar por cima de seus pontos fortes. Por outro, e mais importante, a compa-antes que ele pudesse colher os frutos de sua criatividade. Cf. R.F. Mushet, The ração é menos entre setores da indústria siderúrgica britânica do que entre aBessemer-Mushet Process, or Manufacture of Cheap Steel, Cheltenham, 1883. fabricação inglesa e a estrangeira. Seria igualmente insensato medir o cresci- 27. Além disso, não havia nenhum limite intrínseco para o tamanho do conversor. mento do aço alemão apenas pelo setor de Thomas.Na pudlagem, a capacidade do forno não podia ultrapassar a quantidade de ferro Além disso, Sinclair leva sua história apenas até a década de 1890, mas afundido que um homem forte fosse capaz de agitar manualmente. A carga usual era de discrepância entre as taxas de crescimento alemã e inglesa é ainda mais mar-cerca de 2ookg. No processo de Bessemer, em contraste, o único limite era a capacidade cante depois dessa data do que antes. Mesmo se compararmos a produçãodas máquinas de inclinar o recipiente e verter seu conteúdo. Os primeiros conversores inglesa pelo processo Siemens-Martin com a produção total de aço alemã,tinham 2 a 5 toneladas; no fim do século, eram comuns os recipientes de 2o-25 veremos, tomando 1890 como 1oo, um aumento da primeira para 387 emtoneladas. 191 3, e da segunda para 825 no mesmo ano. Iron and Coa] Trades Rev., 28. H.R. Schubert, "The Steel Industry", in Singer et al. (orgs.), History of Tech- edição do jubileu de Diamante, 1867-1927, 1927, p. 130 e 134.nology, V, p. 58. 37. Burnham e Hoskins, Iron and Steel, p. 14S e 181; S.J. Chapman, Work 29. A partir da década de 1890, o Ruhr passou a depender cada vez mais do mi- and Wages, parte I: Foreign Competition, Londres, 1904, p. 89.nério sueco, que tinha um teor médio de ferro de aproximadamente 6o%. 38. Os caminhões ingleses eram muito menores e os vagões de carvãoExcessivamente fosfórico para o aço ácido, teria desempenhado um papel muito menor, tinham, tipicamente, uma capacidade de 10 toneladas. Cf. K.G. Fenelon,caso a tecnologia houvesse permanecido idêntica à da década de 1870. Railway Economics, Londres, 1932, p. 168-73; S. E. Parkhouse, "Railway 30. Esse caráter duplo da inovação freqüentemente passa despercebido. Ver a Freight Rolling Stock", J. Institute of Transport, XXIV, 1951, p. 213-5discussão em Schubert, "The Steel Industry", p. 6o; similarmente, J. Jewkes, 1). 39. "On Charging Open-hearth Furnaces by Machinery", J. Iron and SteelSawers e R. Sillerman, The Sources of Invention, Londres, 1960, p. 5 1 . Institute, LI, 1897, p. 90-1. Na verdade, 48 toneladas de matéria-prima eram 31. Na falta de estatísticas que separem a produção em conversores da carregadas por fornada num forno dessas dimensões, "e isso diante de umprodução pelo processo Siemens-Martin na França, 1872 parece ter sido o ano forno que emitia uma quantidade considerável de calor". Usavam-se quatroem que a produção bessemerizada na Europa ocidental e central superou a marca das homens, cada qual carregando cerca de 3 a 4 toneladas por hora. É fácil imaginar6oo.ooo toneladas. Cf. Beck, Geschichte des Eisens, V, p. 967, 1.057, 1 .110, 1.134 e a "grande força física" exigida.1.177. 40. Von Kammerer, "Entwicklungslinien der Technik", Technik und 32. Essa é a proporção francesa, mas a tendência foi basicamente paralela nos outros Wirtschaft, III, 1910, p. 16.países produtores. Jean Fourastié (org.), Documents pour lhistoire et Ia théorie des 41. Ver Pollard, A History of Labour in Shfeld, p. 168-9. Ao morrer, aprix, Centre dÉtudes Economiques, "Etudes et Mémoires: Recherchcs sur 1évolution média etária dos laminadores e forjadores de Sheffield falecidos nodes prix en période de progrés technique", Paris, s / d (1 95 9 ), p. 122-3. período de 1864-71 (85 casos) era de 37 anos; o único grupo que perecia 33. Encyclopaedia Britannica, i 1 ed., "Ship". Esses números diferem um pouco ainda mais depressa era o dos pudladores, cuja breve média etária era de 31dos da Associação Britânica de Comércio de Ferro. Ver W.A. Sinclair, "The anos.Growth of the British Steel Industry in the Late Nineteenth Century", Scottish J. 42. Burn, Economic History, p. 56, citando a Iron and Coal Trades Review,Political Economy, VI, 1959, p. 35 e 41s. 1874, p. 760. 34. Ver a discussão ibid.; ver também I.F. Gibson, "The Establishment of the 43. Ver a análise de uma pintura realista da fundição de Kõnigshütte Scottish Steel Industry", Scottish J. Political Economy, V, 1958, p. 22-39. (Silésia) na década de 1870: K. Kaiser, Adolph Menzels Eisenwalzwerk, Berlim, 35. Iron and Coal Trades Rev., edição do Jubileu de Diamante, 1867-1927, 1927, Heuschelverlag, 1953. Compare-se a ilustração da capa de Labour inp. 134, Burnham e Hoskins, Iron and Steel in Britain, p. 179-8o. Shfeld, de Pollard, que mostra a laminação de chapas na Atlas Steel Works 36. Os dados acima baseiam-se fundamentalmente na discussão encontrada em [Aciaria Atlas] em 1861.Burn, Economic History, capítulo X. 0 recente artigo de Sinclair afirma que Burn 44. Quanto às "providências [alemãs] para aliviar o trabalho de suasdesprezou o setor dos fornos de revérbero, com uma conseqüente depreciação das características mais exaustivas", ver British Iron Trade Association, The Ironrealizações da metalurgia inglesa em comparação com a alemã. Essa censura, ao que me and Steel Industries of Belgium and Germany, Londres, 1896, p. 13 eparece, é um exagero. Por um lado, Burn destaca vários aspectos das deficiências do aço passim.Siemens-Martin, embora tenda a pas- 45. Burn, Economic History, p. 199. É impossível dizer qual foi o efeito dessa lista na prática industrial. Mas o próprio fato de ela ter sido preparada é significativo (Burn observa a preocupação dos engenheiros alemães com as vantagens dos cortes diferentes na década de 1870), e as características das curvas de custos, para não falarmos do compromisso ideológico com a racionalidade, sem dúvida influenciaram a iniciativa alemã nessa direção. Cf. W.H. Hen- 616
    • man, numa discussão de W.H.A. Robertson, "Notes on the Mechanical Designof Rolling Mills", J. Birmingham Metallurgical Soc., VII, 1919, p. 40. 56. Os azocorantes são assim chamados por causa da presença do nitrogênio 46. Ver British Iron Trade Association, The Iron and Steel Industries of Belgium (o azote francês) na molécula. Haber observa que eles foram os primeiros a serand Germany, p. 36, 42, 45 e 47. A superioridade alemã nesse campo continuou produzidos diretamente em tecidos e se tornaram a fonte mais fecunda de corantesaté a guerra e depois dela. Cf. Robertson, "Notes". artificiais - 385 das 681 tinturas comerciais em 1902, 461 das 1.001 em 1922. 47. A melhor história da tecnologia do coque é F.M. Ress, Geschichte der Ko- Chemical Industry, p. 83.kereitechnik, Essen, 1957. 57. Ver o relato em Bouvier, Le Crédit Lyonnais, p. 374-SI, e as fontes ali citadas. 48. Burn, Economic History, p. 439 e n. 4. 58. Como tantas vezes acontece com os aperfeiçoamentos mecânicos, esse sucesso 49. Ibid., p. 417. Os números são ambíguos e a comparação é correspondente- deveu muito ao emprego de materiais superiores - nesse caso, chapas de aço de altamente arriscada. Assim é que temos anomalias estatísticas, como uma produção por qualidade, feitas em fornos de revérbero, capazes de suportar maiores pressõeshomem-ano, na Alemanha de 1913, de 345 toneladas na fundição de aço e 104 nas caldeiras.toneladas na laminação, mas apenas 77 na fundição e laminação em conjunto. 59. Ver, entre outros, R. H. Parsons, The Development of the Parsons Steam A produtividade na fundição cria problemas ainda mais sérios. Chapman, Work Turbine, Londres, 1936, e J.W. French, Modern Power Generators, Londres, 1908.and Wages, p. 76, simplesmente afirma que "nenhuma cifra fidedigna é 6o. D.C. Field, "Internal Combustion Engines", in Singer et al., A History o fobtenível". As estatísticas fornecidas por Burnham e Hoskins, Iron and Steel, p. T e c h no lo g y , V , p. 159.315-17, e por Burn, Economic History, p. 417, mostram algumas variações brutais 61. Ver os números em William Robinson, Gas and P e t r o l eum Engines, 2na produtividade de ano para ano, mas coincidem em mostrar a Inglaterra na dianteira ed., 2 V ., Nova York, 1902, I, p. 4, 136, 198 e passim. _________________uma dianteira de até 40% - antes da guerra. Tudo que sabemos 62. Por volta de 1900, um alto-forno expelia i58.ooo pés cúbicos de gás porsobre o tamanho, a capacidade e a mecanização comparativos dos altos-fornos, tonelada de ferro fundida. Tratava-se de um gás sujo, que muitas vezes tinha que serentretanto, e sobre a relação entre eles e a produtividade, lança dúvidas sobre esses purificado para uso adicional, e também de um gás pobre, que gerava 70 a 1 2O BTUdados. 0 problema parece estar na contagem dos trabalhadores ligados à fundição. por pé cúbico (em contraste com talvez 480 BTU do gás de iluminação).(Há também a questão do número efetivo de horas trabalhadas, mas isso é 63. Ainda que a engenhosidade humana tenha superado essa dificuldade em épocasprovavelmente muito menos importante como fonte de tendenciosidade.) de crise, quando não há outro combustível disponível. Os franceses dos primeiros 50. Haber, Chemical Industry, p. 59 e S5 . anos do após-guerra não hão de se esquecer dos automóveis circulando com tanques 51. Ver T.I. Williams, "Heavy Chemicals", in Singer et al. (orgs.), A History of de gás sobre o teto. Mas convém assinalar que, mesmo nessa época, tais veículosTechnology, V, p. 235 --56. eram mais comuns no sul, perto do centro de produção de gás natural da região de 52. Cf. D.W.F. Hardie, A History of the Chemical Industry in Widnes, s/e, Imp. Toulouse, e que desapareceram rapidamente quando a gasolina reapareceu no mercado.Chemical Industries, 19So, p. 118-9. Tenho notícia de que os ingleses recorreram ao mesmo expediente. 53. Sobre a concorrência entre os dois processos, ver, além de Haber, G. Lunge, 64. Na maioria dos casos, era possível liberar inteiramente o espaço ocupadoThe Manufacture of Sulphuric Acid and Alkali, 3 ed., 4 v., Londres, 1911, III, p. pelos depósitos de gás e armazenar o óleo nos espaços do fundo duplo antes usados737 -44; R. Hasenclever, "Uber die gegenwãrtige Lage der Leblancschen Soda- apenas para o lastro de água.fabriken in Concurrenzkampf mit der Ammoniak-Soda", Die Chemische Industrie, 65. J. Fortescue-Flannery, no verbete "Fuel" [combustível] da Encyclopaedia Bri-X, 1887, p. 290-1; idem, "Die Lage der deutschen Sodafabrikation im ]abre 1901", tannica, i 11 a ed. Trata-se de um levantamento magistral.ibid., XXV, 1902, p. 73 -5• 66. Ainda assim, em Coventry, os empresários montaram, na década de 185 0, 54. Clapham, Economic History, III, p. 173. várias das chamadas "fábricas domiciliares" fileiras ou conjuntos de casas de 55.Esse números derivam de W. Woytinsky, Die Welt in Zahlen, IV, p. 316; do tecelões que retiravam energia de uma máquina central, a uma distância de váriasStatistisches]ahrbuch des deutschen Reichs; de Haber, Chemical Industry, p. 104 e 1 centenas de pés. John Prest, The Industrial Revolution in Coventry, Oxford, 196o,2 2; e da Liga das Nações, Seção de Economia e Finanças, Conferência Econômica capítulo VI.Internacional, Genebra, maio de 1927, Documentação: The Chemical Industry, 67. Uma breve lista das principais invenções e marcos pode ser útil: o telégrafoGenebra, 1927, p. 23 e 127. Fez-se um esforço de converter- todas as cifras para eletromagnético de Cooke e Wheatstone, na Inglaterra, c. 1837; nos Estados Unidos, oum ácido com concentração de 1oo% (monoidratado); a indiferença em relação a de Morse e Vai], c. 1838; o cabo submarino que cruzou a Mancha, em 1851;esse detalhe elementar, até mesmo por parte dos autores mais especializados, não atravessando o Atlântico, o de C.W. Field, em 1866. 0 telefone, criado por A. G.facilita a tarefa. Bell em 1876. E o radiotelégrafo de Marconi, em 1895. 618 619
    • 68. A eletroquímica industrial leve remonta à década de 1830. Encontrou suas 78. Os únicos números globais de que dispomos são os que foram coletados pelosprincipais aplicações na galvanoplastia, ou seja, na fabricação de moldes exatos para dois países nos censos industriais de 1907. Os formulários ingleses fornecem aesculturas, gravuras e similares, para fins de reprodução (invenção em 1838 por capacidade das máquinas e motores; os alemães, a energia produzida na operaçãoSpencer, na Inglaterra, e Jacobi, na Rússia), e na eletrogalvanização (John Wright, regular (a instrução afirma explicitamente que isso não equivale à capacidadede Birmingham, em 1840, seguido por uma multidão de outros). Esses processos, [Hõchstleistungsfdhigkeit]). A estatística britânica aponta a capacidade total dasoriginalmente executados com baterias, foram imensamente estimulados pela máquinas motrizes (inclusive as que produziam energia para geradores elétricos) comodisponibilidade de corrente barata e abundante proveniente das estações centrais. sendo de 10.749.000HP, e uma capacidade dos geradores de 2.341.900HP. As cifrasAbriu-se uma nova gama de aplicações industriais, especialmente no revestimento alemãs da produção de energia são, respectivamente, 8.008.405HP e 1.830.oooHP.com metais inferiores (ferro galvanizado). Estas não incluem as empresas industriais do setor público, muito mais importantes na 69. Esses dados baseiam-se amplamente em C.M. Jarvis, "The Generation of Alemanha do que na Inglaterra; a produção de energia, nesse caso, totalizavaElectricity" e "The Distribution and Utilization of Electricity", in Singer et al. (orgs.), 733.520HP, sendo 151.800HP por geradores elétricos.History of Technology, V, p. 177-234. Outras abordagens às vezes fornecem Sobre a Grã-Bretanha, Par]. Papers, 1912-3, CIX (Cd. 6230): Relatóriooutras datas e até outros nomes. A história da tecnologia ainda está por ser dotada de Final, Primeiro Recenseamento da Produção; sobre a Alemanha, Statistik desuma cronologia aceita por todos. deutschen Reichs, NF, v. CCXIV, tabelas 8, 1 1 e 1 5. 70. G.F. Westcott e H.P. Spratt, Synopsis of Historical Events: Mechanical Além disso, temos razão para crer que a diferença na base do levantamentoand Electrical Engineering, Londres, HMSO, 1960, p. 18, indica o ano de 1882 desviou os resultados em favor da produção energética britânica ainda mais do quecomo a data da primeira estação central na Inglaterra (Holborn) e observa que ela parece a um primeiro exame. Não temos as cifras pertinentes a 1907, mas os dadosfoi projetada por Edison. do pós-guerra (1929 quanto à Alemanha e 1928 quanto à Inglaterra) mostram que as 71. Tanto a corrente alternada quanto a direta têm suas vantagens. A segunda é usinas geradoras de eletricidade alemãs tinham um fator de capacidade 67%de geração mais barata, entre outras coisas, porque é possível armazenar em baterias superior às inglesas, ou seja, cada unidade da capacidade geradora alemã produzia 2a corrente excedente dos períodos de baixa demanda e liberá-la conforme a / 3 de corrente a mais ao longo do ano. Wilhem Leisse, "Die Energiewirtschaft dernecessidade; obtêm-se assim fatores mais favoráveis de carga e capacidade. Por outro Welt in Zahlen", in Vierteljahrshftzur Konjunkturforschung, Sonderheft 19,lado, a corrente alternada é mais fácil de transmitir a longas distâncias. A razão é que Berlim, 1930, p. 34. Esse é o tipo de proporção que reflete o padrão de distribuiçãoessa transmissão requer voltagens elevadas e baixa amperagem (as perdas de energia de energia e a estrutura da indústria elétrica, e e presumivel que ela não se houvesseaumentam em proporção à amperagem), e a corrente alternada presta-se muito mais modificado muito no decorrer dessas duas décadas.prontamente do que a direta a substituições da amperagem pela voltagem e vice- 79. Segundo as estimativas da British Electrical and Allied Manufacturers Asso-versa, o que ela realiza por meio de transformadores. Os dois sistemas competiram ciation [Associação Britânica dos Fabricantes Elétricos e Correlatos], a fabricaçãoferozmente na Inglaterra por muitos anos. A longo prazo, entretanto, a vitória ficou alemã de produtos e equipamentos elétricos em 1913 equivaleu a cerca de £65com os geradores centralizados e a transmissão a longa distância. milhões, a da Inglaterra, a £30 milhões, e a da França, a £7.700.000. O 72. G. Olphe-Galliard, La Force motrice au point de vue ecnomique et Recenseamento dos Produtos Manufaturados dos Estados Unidos situou asociale, Paris, 1915, p. 104; A. Menge, "Distribution of Electrical Energy in produção norte-americana em 1914 em US$359 milhões. Grã-Bretanha, ComissãoGermany", in Trans. First World Power Conference, London 1924, Londres, sobre a Indústria e o Comércio, Survey of Metal Industries... Being Part IV ofs/d, III, p. 528. Menge fornece a cifra de 135 kW. a Survey of Industries, Londres, 1928, p. 282 e 331. Note-se que a indústria inglesa 73. Hans Spethmann, Die Grosswirtschaf an der Ruhr, Breslau, 1925, p. 86-91. havia obtido melhoras substanciais na década anterior a guerra: o Recenseamento da 74. G. Olphe-Galliard, La Force motrice au point de vue economique et Produção de 1907 apontou apenas £ 14,4 milhões de produtos manufaturadossociale, Paris, 191 S, p. 104; A. Menge, "Distribution of Electrical Energy in elétricos.Germany", in Trans. First World Power Conference, London 1924, Londres, s/d, 8o. Ibid., p. 338-9. Por haver dificuldades estatísticas na feitura dessa compara-III, p. 528. Menge indica a cifra de 135kW. ção, as proporções aproximadas são preferíveis a uma precisão enganosa. 75. Por volta de 1910, o consumo era de 9kWh por libra de metal produzida. 81. Cf. A. P. Usher, "The Resource Requirements of an Industrial Economy", J. 76. C.H. Merz, "The Transmission and Distribution of Electrical Energy", in Econ. Hist., VII, suplemento, 1947, p. 4o e 46.Trans. First World Power Conference, III, p. 809. 82. Organização das Nações Unidas, Departamento de Assuntos Econômicos e 77. Clapham, Economic History of Modern Britain, III, p. 193, citando A. W. Sociais, A c t s of the International Conference on the Utilization of Atomic EnergyKennedy, Trans. Institute of Mechanical Engineers, 1894, p. 181 . for Peaceful Ends, v. I, tabela XXIII-B, p. 28. 83. Woytinsky, Welt in Zahlen, IV, p. 66-7.
    • 84. A.G. Frank, "Industrial Capital Stocks and Energy Consumption", Econ. J.,LXIX, 1959, p. 170-4. Scott, Siemens Brothers 1858-1958: an Essay in the History of Industry, Londres, 85. Joan Thomas, A History of the Leeds Clothing Industry, Yorkshire Bulletin of 1958, verso da p. 268.Economic and Social Research, Occasional Paper á i, Leeds, 1955 p. 37. 99. Wall Street Journal, edição da Costa do Pacífico, 2o de maio de 196 o, p. 86. Ministério do Trabalho dos EUA, Thirteenth Annual Report of the 22.Commissioner of Labor, 1898: Hand and Machine Labor, 5S° Congresso, 3 a 100. Matschoss, Ein Jahrhundert deutscher Maschinenbau, p. 137.sessão, Documento Interno nº 301, 2 v., Washington, DC: GPO, 1899, 1, p. 28-9. 101. Tratava-se da Sociedade Anônima de Construções Metálicas de Baccarat. 87. Ver a discussão em Alan Fox, A History of the National Union of Boot and Organização Internacional do Trabalho, The Social Aspects of Rationalisation, StudiesShoe O p e r at i v e s 1874-1957 Oxford, 19 S8, capítulo XXIV. and Reports, série B (Economic Conditions), no 18, Genebra, 1931, p. 1 14, citando 88. Ministério do Trabalho dos EUA, Eleventh Special Report of the um relatório publicado no Bulletin du Ministère du Travail de 1924 a 1927.Commissioner of Labor: Regulation and Restriction of Output, Washington, DC, 102. Para ilustrações das disposições das fábricas e equipamentos características1904, p. 841, citado por S.B. Saul, "The American Impact on British Industry, dos dois sistemas, ver Viena, Kammer für Arbeiten and Angestellte in Wien,i89S1914", Business History, III, 1960, p. 20. Trata-se de um artigo importante. Rationalisierung, Arbeitswissenschaft and Arbeitersehutz, 2 ed., Viena, 1928, p. 189- 89. Parliamentary Papers, 191 2-3, CIX, p. 420-1 (Final Report, First Census 95.of Production). 103. R.S. Woodbury, "The Legend of Eli Whitney and Interchangeable Parts", 9o. Thuillier, Georges Dufaud et les débuts du grand capitalisme dans la Technology and Culture, I, 1960, p. 235-53. John E. Sawyer, presidente domètallurgie, p. 227 C 230 Williams College, vem atualmente preparando um estudo sobre o "sistema norte- 91. Segunda edição, 2 v., Londres, 1865, II, p. 77 americano de fabricação" e seus antecedentes franceses. 92. 0 inventor foi A. C. Pain, um projetista da equipe da Beliss & Morcon, em 104. J. E. Sawyer, "The Social Basis of the American System of Manufacturing", J.Birmingham, que foi pioneira na inovação. A. Stowers, "The Stationary Steam-engine, Econ. Hist., XIX, 1954, p. 361-79; D.L. Burn, "The Genesis of American1830-1900", in C. Singer et al. (orgs.), A History of Technology, V, p. 136. Engineering Competition", Econ. Hist. (suplemento do Econ. J.), II, 1931, p. 292- 93- Pelas informações sobre a introdução dos rolamentos de esferas na indústria 311; Merle Curti, "America at the World Fairs, 1851-1893", Amer. Hist. Rev., LV,moderna, agradeço à sra. Smith, da Universidade de Birmingham. A partir dos dados 1950, p. 833-56.colhidos por ela, fica claro que as discussões nas fontes publicadas existentes são 105. S. B. Saul, "The Market and the Development of the Mechanical Engineeringincompletas e inexatas. Ainda assim, o leitor poderá consultar com proveito Hugh P. Industries in Britain, 186o--1914", Econ. Hist. Rev., 2 série, XX, 1967, p. 123.e Margaret Vowles, The Quest for Power from Prehistoric Times to the Present Day, 106. Esse foi um exemplo de um princípio geral que encontrou numerosas aplica-Londres, 193 1, p. 206-10; J.G. Crowther, Discoveries and Inventions of the 20th ções na história da tecnologia. Algumas delas já nos são familiares: a substituição doCentury, 4 ed., Nova York, I95S, p. 1 18-9; e C.F. Caunter, The History and martelo pelo laminador nas forjas; a dos cilindros reversíveis pelo trem de laminaçãoDevelopment of Cycles, parte I: Historical Survey, Londres, HMSO, para o Museu contínua nos laminadores; a substituição da máquina a vapor de movimento alternadoda Ciência, 1955, p. 15. pelas turbinas. Outros usos também nos vêm á mente: a serra circular, a impressora 94. Statistik des deutschen Reichs, NF., CCXIV, tabela I I. rotativa, a estampagem a rolo nos produtos têxteis. Na própria indústria de máquinas, 95. Sombart, Der moderne Kapitalismus, III, p. 889. 96. podemos observar o uso crescente, no fim do século XIX, de furadeiras de alta 96. Burn, Economic History, p. 220. velocidade, que usavam brocas com arestas de corte em espiral, em vez dos lados 97. Não podemos acompanhar tão hem esse processo na Inglaterra, por falta de lisos tradicionais, em lugar de ferramentas como a máquina de abrir ranhuras. Cf. arecenseamentos comparáveis aos da Alemanha em 1861 , 1875, 1882, 1895 e 19 o7. A discussão desse "Rotationsprinzip" em Sombart, Der moderne Kapitalismus, III, p.tendência é obvia, entretanto (cf., entre outros, Pollard, History of Labour, p. 159-63 109-1 o. Quanto à inovação da broca helicoidal, ver G.A. Fairfield, "Report one 224- 6), embora se deva distinguir, para nossos fins, o verdadeiro crescimento e a Sewing Machines", in R.H. Thurston (org.), Reports of the Commissioners of theconsolidação. Quanto à comparação da escala das empresas entre a França e a United States to the International Exhibition held at Vienna, 1873, v. III:Inglaterra, ver D.S. Landes, "Social Attitudes, Entrepreneurship, and Economic Engineering, Washington, DC, 1876, p. 30Development: A Comment", Explorations in Entrepreneurial History, VI, 1954 p. 107. A melhor fonte de consulta é R.S. Woodbury, History of the Milling2 - 45 72. Machine (Technology Monographs, Historical Series, n° 3), Cambridge, Mass., 1960. 98. É o caso do mapa histórico da fábrica da Siemens em Woolwich, in J.D. Woodbury fornece uma bibliografia sucinta mas útil. 108. Saul, "The Market and the Development of the Mechanical Engineering In- dustries", p. 124-5.
    • 109. A extensão do desgaste das ferramentas de corte, mesmo com os aços de eficiência máxima, não há dúvida de que muitas de nossas fábricas mais antigas estãoalta velocidade, muitas vezes era de tal ordem que obrigava os fabricantes de má- produzindo a um custo que poderia ser grandemente reduzido, se sua montagemquinas a sacrificar a velocidade de operação à velocidade e facilidade de manutenção, como um todo fosse feita em maior escala, bem planejada e bem provida debem como a usar cabeçotes de fresa com um só dente. A invenção citada foi do século instalações e, por conseguinte, passível de ser processada da maneira mais eficienteXX. Cf. Ludwig Loewe and Co., Actiengesellschaft Berlin, 1869-1929, Berlim, 1930, e econômica." Commission on Industry and Trade, Survey of Metal Industriesp. 87 -8. (Being Part lV of a Survey of Industries], Londres, 1928, P. 149 110. Mais uma vez, a melhor fonte é R.S. Woodbury, History of the Grinding 123. Comissão de Indústria e Comércio, Factors in Industrial andMachine: A Historical Study in Tools and Precision Production, Cambridge, Mass., Commercial Efficiency, p. 295.1959. Ver também Mildred M. Tymeson, The Norton Story, Worcester, Mass., 124. Ludwig Loewe and Co., p. 94-9.1 953. 125. C. Matschloss, Die Maschinenfabrik R. Wolf, Magdeburg-Buckau, 111. Cf. P.W. Kingsford, "The Lanchester Engine Company Ltd., 1899-1904", 1862-1912, Magdeburg, s/d, p. 103s. Business History, III, 1961, p. 1 10; John B. Rae, American Automobile Ma- 1 26. Defoe, A Plan of the English Commerce, Oxford, 1928, p. 28.nufacturers: the First Forty Years, Filadélfia e Nova York, 1959, p. 1 20, n. 7. 127. "Customs, Wages, and Work-load in Nineteenth-Century Industry", in Asa 1 1 2. Ver a deliciosa fotografia de uma dessas filas em O.M. Becker, High- Briggs e John Saville (orgs.), Essays in Labour History, Londres, 1960, p. 11339.speed Steel, Nova York e Londres, 1910, p. 153. Esse foi um esforço pioneiro de sintetizar historicamente parte desse material. 113. Proc. Inst. Mech. Engineers, 1909, p.254-5 1 28. Cf. Pollard, History of Labour in Sheffield, p. 13o, no tocante a esse 114. Arthur Pound, The Turning Wheel: the Story of General Motors through fenômeno nos ramos da metalurgia leve, ao se aproximar o fim do século XIX.Twentyfive Years, Garden City, NY, 1934 p. 107. 129. É impossível obter uma medida histórica direta do custo da ineficiência e da 1 1 5. Cf. P.W.S. Andrews e E. Brunner, The Life of Lord Nuffield: a Study in má organização da mão-de-obra, mas não parece despropositado nos basearmos,Enterprise and Benevolence, Oxford, 1955, p. 59_ 7 1 e 87-94. como faz Hobsbawm, na analogia com a indústria têxtil do algodão na América 1 1 6. Quanto à importância das atitudes empresariais - a recusa dos produtores a Latina em meados do século XX. Esta foi pormenorizadamente estudada, numafornecerem formatos especiais a seus clientes, exceto mediante o pagamento tentativa pioneira de aquilatar a importância relativa dos determinantes da de um preço punitivamente elevado -, ver J. Stephen Jeans, American Industrial produtividade numa indústria inteira. A conclusão, contrariando as expectativas, foiConditions and Competition: Reports of the Commissioners Appointed by the British que a maior parte do excesso de mão-de-obra empregado devia-se mais a deficiênciasIron Trade Association to Enquire into the Iron, Steel, and Allied Industries of the administrativas e organizacionais do que tecnológicas- e isso numa indústria em que,United States, Londres, 19o2, p. 256. muito mais do que na maioria, as máquinas dão o ritmo do trabalho, e não o inverso. 1 1 7. Burn, Economic History, p. 199, citado. Organização das Nações Unidas, Labour Productivity of the Cotton Textile Industry 1 18. Cf. Report of the Tariff Commission [instituição privada], v. I: The Iron and in Five Latin-American Countries, Nova York, ONU, Dep. de Assuntos Econômicos,Steel Trades, Londres, 1904, ri 631. 1951, p. Io. 119. Comissão de Indústria e Comércio, Factors in Industrial and Commercial Effi- 130. Comentários de W.G. Bunn na Conferência sobre Remuneração Industrialciency (Being Part 1 of a Survey of Industries(, Londres, 1927, p. 294. de 1885. Ver Industrial Remuneration Conference, The Report of the Proceedings 1 20. Donaldson, "Interchangeability", Proc. Inst. Mech. Engineers, 1909, p. and Papers, Londres, 1885, p. 169. Há uma grande quantidade de informações255s. dispersas sobre essa tendência. 1 21. Essa questão esteve no cerne de pequenas c grandes greves na indústria, a 131. Ministério do Trabalho dos EUA, Twelfth Special Report of the Commissio- partir de 1897-8. Cf. A. Shadwell, The Engineering Industry and the Crisis of ner of Labor: Regulation and Restriction of Output, Washington, DC, 1904, p.1922, Londres, 1922; Pollard, History of Labour in Sheffield, p. 23Sss.; J. B. 752-7.Jefferys, The Story of the Engineers, parte III. A própria existência desse con 132. Ver Hugh G.J. Aitken, Taylorism at Watertown Arsenal: Scientific flito, é claro, é prova de que estava ocorrendo uma certa dose de racionalização. Management in Action, 1908-1915, Cambridge, Mass., 1960, capítulo I; também 122. Cf. o Relatório da Comissão dos Setores de Engenharia da junta Comercial M.J. Nadworny, Scientific Management and the Unions, 1900-1932: a Historicalde 1916-7: "Velhas fábricas receberam acréscimos e novas máquinas foram Analysis, Cambridge, Mass., 1955 e Frank B. Copley, Frederick W. Taylor, Father ofintroduzidas, de tempos em tempos, para contrabalançar a maquinaria antiga. Houve, Scientific Management, 2 v., Nova York, 1923.de modo geral, uma ausência de fábricas totalmente novas, com um traçado 133. L.H. Jenks, "Early Phases of the Management Movement", Administrativeeconômico. Conquanto o país possa apontar muitas indústrias da mais altacategoria, com os mais modernos equipamentos operados em sua 624 625
    • Science Quart., V, 1960, p. 428. Esse é o melhor levantamento sucinto do 142. Quanto à produção de Sachgüter, ver R. Wagenführ, "Dieassunto e oferece urna bibliografia extremamente útil sobre os avanços nos Industriewirtschaft: Entwicklungstendenzen der deutschen undEstados Unidos e na Inglaterra. Quanto a esta última, ver também L. Urwick internationalen Industrieproduktion 186o bis 1932", Vierteljahrsh fte zure E.F.L. Brech, The Making of Scient f c Management, 3 v., Londres, 1949, v. 1 e Konjunkturforschung, org. Institut für Konjunkturforschung, Sonderheft 31,II. Há algum material histórico sobre esse movimento, na França, em G. Berlim, 1933,P. 58 e 69.Bricard, LOrganisation Scient fique du travail, Paris, 1927. Esses textos, no en- 143. As vésperas da Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra ganhava quasetanto, são um substituto precário de um estudo aprofundado, e a melhor fonte £200 milhões anuais por serviços comerciais prestados ao resto do mundo –de consulta continuam a ser os periódicos contemporâneos de engenharia. mais ou menos a mesma coisa que extraía de seus imensos investimentos externos. 134. A datação exata desse casamento progressivo da ciência com a Juntos, os dois representavam mais de 1/ 6 da renda nacional. A. H. Imlah,tecnologia é tema de uma certa controvérsia entre os estudiosos do assunto. Economic Elements in the Pax Britannica: Studies in British Foreign Trade in theHá os que preferem restringi-lo ao século XX e até mesmo à última Nineteenth Century, Cambridge, Mass., 1958, tabela 4, p. 70 - 5geração, enquanto outros o fazem recuar ao século XIX e, em algumas áreas, 144. Das 10.873.701 pessoas engajadas na mineração e na produçãoa épocas ainda anteriores. Para o observador externo, parece que grande manufatureira em 1907, quase 30% (3.166.734) eram autônomas ouparte dessa discordância é inerente à imprecisão das generalizações trabalhavam em empresas de cinco pessoas ou menos. A produção domiciliarcomumente oferecidas. Se é que convém tentar estabelecer uma cronologia, dispersa era comum nos setores do vestuário e de produtos têxteis, couro efica claro que os indícios de colaboração de épocas anteriores a meados do artigos de madeira, fabricação de brinquedos, beneficiamento de alimentosséculo XIX são excepcionais e, muitas vezes, fortuitos essencialmente e uma multiplicidade de pequenos trabalhos de metalurgia. Nessas áreas, aprodrômicos. Ver a discussão em John Jewkes et al., The Sources of Invention, Alemanha guilherminiana estava apenas começando a passar pelo processoLondres, 1960, capítulos 11 e III. de modernização que a Inglaterra havia basicamente atravessado até 1870, 135. Inversamente, é comum haver uma enorme defasagem entre a ciência como testemunha a profusão de estudos contemporâneos sobre o problema doe a engenharia aplicadas, de um lado, e a prática, de outro. A máquina a Hausarbeiter [trabalhador domiciliar].vapor de Thomas Savery de 1698 era um conceito perfeitamente viável, mas A melhor introdução sucinta ao assunto é W. Sombart, "Verlags-os metalurgistas da época foram simplesmente incapazes de construí-la. R. systern (Hausindustrie)", in J. Conrad et al. (orgs.), Handwõrterbuch derJenkins, "Savery, Newcomen, and the Early History of the Steam Engine", Staatswissenschaften, 3 ed., Jena, 191 1, v. VIII. Há um guia conveniente daT r a n s . Newcomen Soc., III, 1922-3, p. 96-118; IV, 1923-4, p. 113-30. Já bibliografia in Bélgica, Ministério do Trabalho, Bibliographie générale desassinalamos as dificuldades de Watt a esse respeito. industries á domicile [Supplement à la publication: Les industries á domicile en 136. Cf. J.K. Finch, "Engineering and Science: a Historical Review Belgique], Bruxelas, 1908. Sombart fornece uma lista das matériasand Appraisal", Technology and Culture, II, 1961, p. 329-30; J.K. Feibleman, publicadas nos anos imediatamente subseqüentes."Pure Science, Applied Science, Technology, Engineering: an Attempt at 145. Pode-se inferir quão grande era a discrepância insumo-produto naDefinitions", ibid., p. 313s.; M. Kerker, "Science and the Steam Engine", agricultura, não somente na Alemanha, mas em toda a Europa, pela seguinteibid., p. 388; e Cyril S. Smith, "The Interaction of Science and Practice in tabela:the History of Metallurgy", ibid., p. 363 - 4. LUGAR DA AGRICULTURA EM ECONOMIAS SELECIONADAS, C. 1881- 137. M. Messance, Nouvelles recherches sur la population de la France, Lyon, g6 (em percentagens)1788, p. 128. Parcela Parcela Parcela 138. Beck, Geschichte des Eisens, IV, p. 696; Benaerts, Origines, p. 460-1. da da da renda 139. Alemanha, StatistischesJahrbuch, 19o8, p. 1 25; Schlote, British população riqueza nacionalOverseas Trade, p . 1 2 S. A cifra relativa a 187 2 é da França, Annu. statistique, dependent nacionaXLVIII, 193 2, res. retrosp., p. 408, que indica a percentagem alemã em 1900 Rússia e 70 l 43 32como sendo 65%. Austria 62 39 27 140. Great Britain and the German Trade Rivalry, 1875-1914, Filadélfia, 1933. Itália S2 45 28 141. Com respeito a tudo isso, ver D.S. Landes, "Entrepreneurship in França 42 32 21Advanced Industrial Countries: the Anglo-German Rivalry", inEntrepreneurship and Economic Growth (trabalhos apresentados numa Alemanha 39 31 20conferência conjuntamente patrocinada pelo Comitê de Crescimento Econômico EUA 35 25 16do Conselho de Pesquisas em Ciências Sociais e pelo Centro de Pesquisas em Bélgica 25 36 14História Empresarial da Universidade de Harvard, Cambridge, Mass., 12 e 13 de Holanda 22 33 18novembro de 1954) Grã-Bretanha 10 15 8 146. Nesse sentido, a economia alemã anterior à Primeira Guerra Mundial era comparável à japonesa. Ver Henry Rosovsky, Capital Formation in Japan, 626 A)~
    • 1868-1940, Glencoe, Ill., í96o, capítulo IV, que afirma, no entanto, que 155 S. B. Saul, "The American Impact on British Industry 1895-I914",a persistência de um setor tradicional de mão-de-obra intensiva liberou re- Business History, III, 1960, p. 28.cursos para as instalações dispendiosas do setor moderno e, com isso, promo- 156. Cf. os estudos de Charles Wilson, "The Economic Decline ofveu o crescimento japonês. A tese é instigante. Não parece aplicável ao the Netherlands", Econ. Hist. Rev., IX, 1939, p. 111-27, e Anglo-Dutch Commercecaso alemão. and Finance in the Eighteenth Century, Cambridge, 1941. Deve-se, aliás, estabelecer uma distinção cuidadosa entre esse dualismo 157. Ver Parliamentary Papers, 1861, XXI, Cd. 2794.do crescimento, inerente à desigualdade inevitável do desenvolvimento, e o 158. Frank Smith, A History of English Elementary Education, 1760-1902,dualismo da economia colonial, onde as modernas instalações da administra- Londres, 1931, p. 28o-I.ção e da iniciativa estrangeiras contrastam nitidamente com o caráter primi- 159. Em seu Experiment in Autobiography, citado por G.A.N. Lowndes, Thetivo da vida nativa; ou o dualismo de uma economia semi-estagnada, como Silent Social Revolution: an Account of the Expansion of Public Education ina da Espanha ou da Itália meridional (pelo menos até muito recentemente), England andonde algumas cidades resplandescentes, ou meramente distritos urbanos e Wales, 1895-1935, Londres, 1937, P. 5.outras expressões isoladas da tecnologia moderna, espalham-se por um inte- i6o.Ibid., p. 19.rior que pouco difere do que era dois milênios atrás. 161. Tinha sido de 43% em 1816 e de 68% em 1846. Prussia, Mittheilungen 147. Marshall, Industry and Trade, p. 195. Quanto à posição vantajosa da des Statistischen Bureaus in Berlin (org. de Dieterici), 1847, p. 47.indústria química britânica em termos de recursos, tanto para os processos 162. 0 excesso se explica pelas crianças abaixo de seis anos ou acimaorgânicos quanto inorgânicos, e à dependência alemã de importações de de quatorze, e por estudantes estrangeiros. França, Min. da Agricultura,uma parcela significativa do consumo germânico de coisas como breu, Comércio e Obras Públicas, Enquête sur 1enseignement professionnel, 2 v., Paris,alcatrão e antraceno, cf. Parliamentary Papers, 19o1, LXXX, n 2, "Report on 1865, II, p. 7S.Chemical Instruction in Germany and the Growth and Present Condition 163. J. Kay, The Social Condition and Education of the People in Englandof the German Chemical Industries", p. 42 e 68. and Europe, 2 v., Londres, 185 o, II, p. 2 27. Kay volta repetidamente a esse 148. Cf. W.O. Henderson, "British Economic Activity in the tema: "... Eu encontrava constantemente crianças das classes mais altas eGerman Colonies, 1884-1914", Econ. Hist. Rev., XV, 1 945, P. 55 -66 . mais baixas sentadas à mesma carteira...." Ibid., p. 209; também p. 74-5 e 8o. 149. A melhor fonte de consulta ainda é L. H. Jenks, The Migration of Compare-se isso com a introdução do ensino universal no Japão, naBritish Capital to 1875, Nova York, 1928. Ver também Landes, Bankers and década de 1870, que foi acelerado e facilitado por valores sociaisPashas, capítulos I e II; A.K. Cairncross, Home and Foreign Investment 1870- similarmente arraigados. Segundo Ronald Dore, a aceitação do princípio1913, Cambridge, 1953; e Imlah, Economic Elements in the Pax Britannica. confuciano de que a virtude consiste no conhecimento da própria posição e 15o. Mesmo assim, a hostilidade tradicional aos empréstimos externos no respeito aos superiores implicava a necessidade da educação para todos,continuou intensa, e os ministérios das Finanças e Assuntos Exteriores mas especialmente para as classes inferiores, que tinham muito maismuitas vezes divergiram quanto a essa questão. Ver Herbert Feis, Europe the virtudes a adquirir. (Ver seu Education in TokugawaJapan, Berkeley e LosWorlds Banker, 1870-1914, New Haven, 1930, capítulo VI. Angeles, 1963, capítulo X: "The Legacy".) 0 sistema visava 151. Quanto às vantagens e desvantagens comparativas da prioridade, ostensivamente, portanto, ao menos antes do período Meiji, a reduzir aver F.R.J. Jervis, "The Handicap of Britains Early Start", The Manchester ambição e a mobilidade. Todavia, muitas vezes as funções latentes são maisSchool, XVI, 1947; M. Frankel, "Obsolescence and Technological Change", importantes do que as manifestas, e a história está repleta de conseqüênciasAmer. Econ. Rev., XLV, 1 955, p. 296-319; e urn debate entre D.F. Gordon e imprevistas.Marvin Frankel sobre o mesmo tema, ibid., XLVI, 1956, p. 646-56. Ver ainda 164. Cf. R. H. Samuel e R. H. Thomas, Education and Society inW.E.G. Salter, Productivity and Technical Change, Cambridge, 1960; e C.P. Modern Germany, Londres, 1949, p. 6-7.Kindleherger, "Obsolescence and Technical Change", Bull. Oxford 165. Em 1884, Huxley estigmatizou esse "tipo miserável de sentimentoUniversity Institute of Statistics, XXIII, 1961 , p. 281 97. de ciúme a respeito da elevação de seus trabalhadores". Citado in S.F. 152. No J. Iron and Steel Institute, LI, 1 897, p. 1 o6. Cotgrove, Technical Education and Social Change, Londres, 1958, p. 24. 153. Cf. Charlotte Erickson, British Industrialists: Steel and Hosiery, 166. J. Iron and Steel Institute, 18 78, p. 3 15.1850-1950, Cambridge, 1959, capitulo VIII, especialmente p. 194. 167. Parliamentary Papers, 1 886, XXI: "Commission... on Depression of 154. Ver o interessante artigo de Carlo Cipolla, "The Decline of the Trade and Industry", Q. 5.1 73.Italian Cloth Manufacture: the Case of a Fully Matured Economy", Econ. 168. W. E. Minchinton, "The Tinplate Maker and Technical Change",Hist. Rev., 2a série, V, 1952, p. 178--87. Explorations in Entrepreneurial History, VII, 1954 -- 5, P. 7. 169. Cf. J. E. Stead, J. Iron and Steel Institute, XLIX, 1896, p. 119; Burn, Economic 628
    • History, p. 178; Final Report of the Committee on Industry and Trade, Cd. 3282, 186. Iron and Steel Institute, LIX, 1901 , n° 1, p. 12 3.Londres, HMSO, 1929, p. 214s. 187. Alfred Baldwin, em seu discurso presidencial perante a British Iron 170. Parliamentary Papers, 1867-8, Comm. on Scientific Instruction, Trade Association, relatado em Engineering, 6 de maio de 1898, p. 569;parágrafos 301-28, citado por Cotgrove, Technical Education, p. 51, n. 1. citado in Burn, Economic History, p. 186. Cf. Kindleberger, "Obsolescence", 171. Parliamentary Papers, 1884, XXIX: Royal Commission on Technical p. 295.Instruction, Second Report, I, p. 523; citado ibid., p. 4o. 188. Svennilson, Growth and Stagnation, p. 10. 172. Cf. Kay, Social Condition, II, p. 74-5; também G.M. Trevelyan, 189. H.J. Habakkuk, American and British Technology in the NineteenthBritish History in the Nineteenth Century, i ed., Londres, 1922, p. 353 Century: The Search for Labour-saving Inventions, Cambridge, 1962. 1 73. Cf. John Saville, "A Comment on Professor Rowtows British 190. As citações encontram-se em ibid., p. 212, 216 e 220. Economy of the 19th Century", Past and Present, ri 6, novembro de 1 954, p. 191. Nosso interesse, aqui, refere-se especificamente à parte de 77 - 8. retroalimentação da análise, isto é, à afirmação de que a taxa de 174. Cf. C.W. von Wieser, Der finanzielle Aufbau der englischen Industrie, crescimento mais lenta da Inglaterra responde "satisfatoriamente" (talvezJena, 1 919, p. 1 34- 5; Lord Aberconway, The Basic Industries of Great Britain, "substancialmente" fosse mais exato) pelos aspectos de seu desempenhoLondres, 1927, p. 346. econômico que não são explicáveis por limitações diretas às decisões 175. Um dos melhores estudos sobre essa relação é O. Jeidels, Das empresariais, como os custos correlatos. Estes, já examinados anteriormenteVerhãltnis der deutschen Grossbanken zur Industrie, Leipzig, 19o5. (ver p. 343), são do consenso geral. 176. Esse ponto de vista está implícito na British Economy of the NineteenthCentury de W.W. Rostow (Oxford, 1948), embora em parte alguma ele oformule tão claramente quanto A.K. Cairncross, que afirma "que, a longoprazo, o investimento estrangeiro se dava essencialmente à custa doinvestimento interno, ou vice-versa". Home and Foreign Investment, Cambridge,1953, p. 187. 177. Cf. S.B. Saul, Studies in British Overseas Trade, p. 9os. 178. Addresses on Economic Questions, Londres, 19o5, citado in Rostow,British Economy, p. 70. 1 79. Nesse contexto, é interessante notar que uma recente comparaçãodas funções de produção em diferentes países mostrou diferenças tanto naeficiência do capital quanto na eficiência mais conhecida da mão-de-obra.Na verdade, as duas parecem estar relacionadas. 18o. Cf. Alec K. Cairncross, "The Place of Capital in EconomicProgress", in Leon H. Dupriez (org.), Economic Progress, Louvain, 1 955, p.2 35 - 48 18 1. Minchinton, "The Tinplate Maker", Explorations, VII, 1 954 - 5, p. 6. 182. Cf. a discussão de W. N. Parker, "Entrepreneurial Opportunitiesand Response in the German Economy", Explorations, VII, 1954 -- 5 , p . 27: "Aoportunidade econômica na Alemanha foi uma oportunidade para ostecnólogos de alcance criativo ou limitado e para os engenheiros deprodução. Não almejou conceber tipos novos e impressionantes demáquinas..." Na p. 29, ele fala das "possibilidades alemãs e sua introdução,em doses pequenas e incessantes, na tecnologia existente..." 183. Cotgrove, Technical Education, p. 2os. 184. J.A. Schumpeter, Business Cycles: a Theoretical, Historical and StatisticalAnalysis of the Capitalist Process, 2 v., Nova York, 1939 1, p. 440. 185. Kindleberger, "Obsolescence and Technical Change", Bull. Oxford Univ. Inst.of Statistics, XXIII, 1961, p. 296 C 298. 628