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A agonia de um laboratorio callon
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A agonia de um laboratorio callon

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  • 1. A agonia de um laboratório5____________A agonia de um laboratório por Michel Callon (traduzido por Ivan da Costa Marques)Reprodução livre, em Português Brasileiro, do texto original de Michel Callon para fins de estudo,sem vantagens pecuniárias envolvidas.Todos os direitos preservados.Free reproduction, in Brazilian Portuguese, of Michel Callon’s original for study purposes.No pecuniary advantages involved. Copyrights preserved.Que papel particular os laboratórios desempenham no desenvolvimento doconhecimento e mais particularmente na construção dos fatos científicos?Esta questão é inevitável quando se reconhece a importância da pesquisaorganizada, seja tomando a forma de pequenas equipes no seio das quaisindivíduos dispõem de importantes margens de manobra, ou seja na formainspirada em modelos industriais, com equipamentos importantes e umadivisão de trabalho estrita. Contudo, a despeito de seu papel estratégico, oslaboratórios têm sido pouco estudados. Muito se escreveu sobre a ciência e asua organização, ou mesmo sobre os cientistas trabalhando nos laboratórios,mas relativamente pouco sobre a contribuição própria dos laboratórios para aconstrução dos fatos científicos.Deste modo a filosofia da ciência e a epistemologia por muito tempodecidiram ignorar o trabalho material dos cientistas para privilegiar suaatividade intelectual e se concentrar somente sobre a construção das teorias. 11 Como exemplo, veja BACHELARD (1934), CANGUILHEM (1960), HESSE (1974), QUINE(1960),POPPER (1959,1963), mas também BARNES (1977), BLOOR (1976), FEYERABEND (1979). Parauma argumentação filosófica em favor dos estudos de laboratórios, ver HACKING (1987).1
  • 2. A ciência e suas redesIntroduzindo a oposição hoje clássica entre o contexto da descoberta e ocontexto da justificação, os epistemólogos transformaram seu desinteressepelos laboratórios num imperativo metodológico2. Eles estão prontos areconhecer que os pesquisadores são movidos pela necessidade de glória epela sede de prestígio, que eles são algumas vezes autoritários e arrebatadospelo poder e que seu maquiavelismo, na verdade sua duplicidade, os levafreqüentemente a estabelecer alianças ou compromissos com os poderesestabelecidos e em particular com os militares 3. Mas, para a filosofia daciência, a atividade dos pesquisadores transcende todas estas dimensões àsquais ela não é reduzível. Para dar conta do essencial - esta mistura rara derazão e de submissão à experiência -, é preciso saber ver além dascontingências do laboratório. Não somente este não diz nada sobre a ciência,como, mais ainda, nos dá uma imagem falsa. É pelo “contexto dajustificação”, onde são discutidos e avaliados os resultados e proposições, enão pelos laboratórios, que todos aqueles que se esforçam em dar conta darealidade da ciência considerada como uma atividade humana particulardevem se interessar.Durante muito tempo os sociólogos colaboraram com esta empreitada demistificação, se contentando em descrever a instituição científica, suasnormas, seus valores e suas formas gerais de organização (colégiosinvisíveis, especialidades). Livres de todas as ligações organizacionais, ospesquisadores, reagrupados em comunidades de especialistas, sãoanalisados no momento onde eles discutem seus resultados e não noprocesso de produção ou fabricação do conhecimento 4. Os laboratórios estãoainda estranhamente ausentes. Os raros estudos que lhes são consagradospermanecem muito formais, se prendem a identificar e a repertoriar as2 A expressão mais elaborada deste desinteresse voluntário se encontra evidentemente em POPPER(1959).3 As análises de P. Thuillier colocam constantemente em cena cientistas cheios de duplicidadeobservados ao sairem de seus laboratórios no momento onde eles estabelecem alianças “imorais”para consolidar seu poder ou acalmar sua sede de glória. THUILLIER (1981).4 Este é o ponto de vista da análise mertoniana da instituição científica. Para os textos fundadores,veja MERTON (1973).2
  • 3. A agonia de um laboratórioestruturas organizacionais e seus determinantes assim como seu impactosobre o desempenho ou a eficácia do trabalho dos pesquisadores.5Rejeitando este acordo implícito da filosofia e da sociologia, uma novadisciplina, a antropologia das ciências, se constituiu progressivamente,colocando o laboratório no coração de sua perspectiva de pesquisa. Em lugarde colocar entre parênteses a produção de conhecimentos, este famosocontexto da descoberta tão desprezado pelos filósofos, a antropologia dasciências considerou como prioritário o estudo da ciência em se fazendo. Comaplicação, ela estudou os pesquisadores no trabalho, montando experiências,interpretando e discutindo entre eles os primeiros resultados, preparandoartigos6. A fecundidade de tal virada não se fez por esperar: em um piscar deolhos se evaporou a pretensa separação entre contexto da descoberta econtexto da justificação. É no laboratório, no decorrer do processo deconstrução dos argumentos, de fabricação dos resultados, de conformaçãodas teorias que se testa e se constitui sua força e que se escolhem, seimaginam e se testam as audiências que eles são destinados a convencer. Aantropologia das ciências tem mostrado que é falso distinguir etapas e traçarfronteiras: o processo é contínuo. A elaboração de idéias, sua explicação, suasubmissão à comprovação se entrelaçam incessantemente segundo oscaprichos das múltiplas interações que enlaçam os pesquisadores, seusfinanciadores e seus públicos potenciais. Nesta perspectiva, o laboratórioocupa uma posição crucial. Não somente é no seu seio que se observa aconstrução de interpretações ou de enunciados, mas é igualmente lá que seprepara e se gere a transformação de conhecimentos inicialmente locais emconhecimentos negociados e trocados em mercados mais largos que elecontribui para criar, para transformar ou para desfazer. O laboratório asseguraa ligação entre o contexto da descoberta e o contexto da justificação, entre afabricação de enunciados ou de teorias e a sua difusão em meios sociais5 Veja notadamente: PELZ e ANDREWS (1960), KORNHAUSER (1960), SHINN (1988),WHITLEY(1978).6 LATOUR (1988), KNORR-CETINA (1981), LYNCH(1985).3
  • 4. A ciência e suas redesparticulares. O laboratório é o agente desta universalização deconhecimentos em que se consiste precisamente a construção dos fatoscientíficos.Para bem compreender este papel particular do laboratório, uma boaestratégia é seguir, acompanhando-o até a sua desintegração, a evolução deum deles. Da mesma maneira que a pré-história de um laboratório nospermitiu compreender a importância das redes, 7 a lenta agonia de umlaboratório nos mostrará o papel que ele desempenha na permanentetransformação e adaptação dos produtos e de seus mercados. É ele que gerea heterogeneidade e a complexidade dos elementos que concorrem para afabricação e para a universalização dos conhecimentos. Quando mudamsimultaneamente a definição de problemas, as relações de dependênciasinternas, as demandas industriais, as comunidades científicas de referência,os modos de experimentação, os conceitos utilizados, o laboratório é o lugare o motor destas adaptações. Jamais se vê o laboratório tão claramentequanto quando os movimentos se tornam tão bruscos e os rearranjos tãoprofundos que o laboratório não pode senão se desmembrar para serecompor depois sob formas diferentes. Para dar conta do papeldesempenhado pelo laboratório nesta gestão complexa dos conteúdos, dosrecursos necessários para sua fabricação e dos contextos de sua utilização-difusão, nós introduzimos a noção de atores-redes cuja construção coincidecom a construção dos fatos científicos eles-mesmos.O laboratório de Beauregard e as pesquisas sobre as células decombustívelNo inicio dos anos sessenta uma ação concertada (AC) visando coordenar osesforços de diferentes laboratórios de pesquisas, universitários e industriais,7 Veja capítulo 2.4
  • 5. A agonia de um laboratóriofoi lançada pelo DGRST sobre o tema geral de conversão de energia 8. O de-senvolvimento de células combustíveis - dispositivos técnicos permitindo atransformação de energia química fornecida por um eletrólito renovável emenergia elétrica - constitui uma das prioridades estabelecidas pelo Comitêencarregado da ação concertada9. As razões desta escolha são múltiplas.Antes de tudo, os programas espaciais acabavam de colocar evidência odesempenho das células de combustível e deixavam entrever possíveisaplicações industriais. Aliás é esta a argumentação que desenvolve Baccala,membro do comitê e diretor do laboratório de Beauregard, importante centrode pesquisa do CNRS especializado no estudo da eletrocatálise. Além domais este tema, fora sua importância econômica potencial, coincide com asprioridades políticas do momento, pois ele tem por virtude essencial promoveruma cooperação entre industriais e universitários e, de um modo mais geral,entre pesquisa tecnológica e pesquisa de base. Por fim, uma das principaisvantagens da escolha é a de delimitar um terreno fácil para o DGRST investir,pois não havia nenhuma concorrência a temer: o CNRS ou a Universidadesão pouco dispostos a embarcar em colaborações incertas com as empresase hesitam em apostar em disciplinas que, como a eletroquímica, ainda sódesfrutam de um prestígio medíocre. Aproveitando estas circunstânciasfavoráveis, Baccala impõe sem dificuldades o tema das células decombustível, de uma só vez em seus aspectos tecnológicos e fundamentais;e no mesmo ato coloca seu laboratório no primeiro plano da cena.Beauregard se torna um ponto de passagem obrigatório. Dominando tanto astécnicas como os conhecimentos teóricos necessários à elucidação dofuncionamento das células de combustível, este laboratório se encontracolocado, desde o início da ação concertada, em uma posição de articulação.8 No curso deste estudo financiado pelo CORDES, nós pudemos consultar todos os arquivos doDGRST (atas de reuniões dos comitês, projetos de pesquisas, ...), organismo criado em 1958 eencarregado de botar em operação os programas de incentivo à pesquisa. Nós consultamosigualmente os diferentes relatórios e documentos de trabalho feitos pelos pesquisadores deBeauregard, com os quais umas trinta entrevistas foram realizadas. O diretor do Beauregard nos deuacesso a todos os documentos administrativos e financeiros. Para um estudo mais detalhado dapolítica do DGRST, ver especialmente CALLON [1980a, 1980b].9 As outras direções de pesquisa apoiadas pelo comitê de ação concertada eram as seguintes:termoelementos, termofotovoltaíco, termoiônico, fotocélulas, plasmas, lasers, ótica, energia solar,magnetohidrodinâmica e supercondutividade.5
  • 6. A ciência e suas redesLigando pesquisas fundamentais e aplicadas a um programa nacional, eleserá levado a gerir esta tensão permanente que se instala entre a dinâmicada pesquisa e aquela da ação política. Seguindo Beauregard no seu difíciltrabalho de intermediário, analisando a evolução dos problemas e dos objetosde pesquisa, nós mostraremos que a construção de fatos científicos dentrodos laboratórios é indissociável da estratégia do laboratório no seio das redesque ele gere.Primeiras traduções: o eletrodo monotubular como objeto de pesquisaAo escolher dar apoio financeiro a esta ação concertada particular, o DGRSTestabeleceu uma primeira equivalência entre um campo de pesquisa e umobjetivo político. Ele postula que para dar vigor à indústria nacional, parareforçar a independência energética da França, a conversão de energia é umdos temas prioritários: ele permite organizar transferências tecnológicas dapesquisa de base em direção à pesquisa aplicada e coloca as empresas emcaminhos julgados promissores. Nós chamamos de tradução estaequivalência postulada por um ator particular (aqui, o DGRST) entre objetivosheterogêneos, equivalência não imposta a priori por ninguém e que é porconseqüência conjectural.10Baccala, seguido sem discussão pelo comitê, acrescenta duas novastraduções que prolongam a precedente: a) para promover novas formas deenergia, uma das escolhas prioritárias é o desenvolvimento de células decombustível; b) para alcançar este objetivo, a prioridade das prioridades éotimizar cada um dos elementos constitutivos da célula, e em particularaperfeiçoar o desempenho dos eletrodos. Estas três operações de traduçãoalinhadas criam um curto-circuito impressionante entre, de um lado, o futuroindustrial e a independência política da França e, de outro lado, as pesquisasconduzidas por um punhado de pesquisadores e de técnicos sobre o10 Sobre a noção de tradução, ver CALLON (1980b, 1986a, 1986b) e LATOUR (1984, 1987).6
  • 7. A agonia de um laboratóriofuncionamento dos eletrodos. A noção de tradução dá conta perfeitamentedeste estabelecimento de um tipo particular de relação que consiste emformular uma equivalência entre séries de preocupações, tipos de atividades,categorias de enunciados e discursos radicalmente diferentes.Uma tradução, qualquer que ela seja, raramente se dá sem problemas. Elaestá freqüentemente sujeita à controvérsias. Aquelas propostas por Baccalanão escapam a esta regra e suscitam rapidamente vivas oposições. Muitoscientistas, não representados no seio do comitê, estimam que seja prematuroestudar a estrutura dos eletrodos e que, antes de se lançar aodesenvolvimento das células, a prioridade deva ser dada a um problema maisfundamental: a elucidação dos mecanismos de eletrocatálise propriamenteditos e, mais particularmente, a utilização da mecânica quântica paradescrever e compreender o papel exato dos catalizadores. Muito rapidamentesua argumentação é descartada. Baccala consegue agregar suficientesinteresses em torno de sua tradução para impô-la sem a menor dificuldade. 11Durante um longo período, esta equivalência não será contestada nos meiosda política científica que vão mobilizar importantes financiamentos paraapoiá-la e consolidá-la. A linha de pesquisa indiscutível é o estudo dotransporte dos reagentes, a colocação em contato do eletrodo e do eletrólitoassim como a cinética das reações e não a eletrocatálise enquanto tal, que,supõe-se, se produz de modo não problemático na interface.12Quando, uma vez tomadas estas decisões, Baccala volta para Beauregard,não é só um homem que reencontra seu laboratório. Ele se tornou umpoderoso macro-ator que fala em nome do comitê da ação concertada doministério da Pesquisa como também da política francesa de independêncianacional. Graças às traduções impostas, ele se encontra investido de umamissão nacional e dispõe de recursos financeiros importantes para estudar e11 Para a análise desta agregação de interesses, ver CALLON (1980).12 Este é o resultado de um colóquio organizado por Baccala e que se traduziu por uma derrotacompleta dos cientistas que pleiteavam um desvio pela física do estado sólido.7
  • 8. A ciência e suas redesmelhorar o funcionamento dos eletrodos porosos que são aqueles maiscorrentemente usados nas células de combustível.Afim de evitar qualquer discussão, na verdade qualquer contestação, no seiode seu laboratório, e para colocar em funcionamento a linha que foi fixada,Baccala recruta rapidamente pesquisadores e técnicos de sua confiança eque ele pensa que não colocariam em questão as traduções já estabelecidas.Ele contrata primeiramente Blondelet, que foi seu aluno no CNAM, onde eleensina, e que ele conhecia havia muito tempo. Após completar seus estudos,Blondelet trabalhou muitos anos no ministério da Aeronáutica num laboratóriode controle especializado em análises metalográficas ( exame de peçasmetálicas de aviões acidentados). Blondelet, no momento em que Baccala ochama, domina e utiliza os conhecimentos e as técnicas da metalografia.Para ele um metal se caracteriza pela sua “estrutura”, que pode serobservada graças à micrografia ou à radiocristalografia. As variáveisexplicativas às quais ele recorre mais freqüentemente são : “l’écrouissage”(ação de martelar o metal à frio), o estado de grão, a ação de dar têmpera aoferro e ao aço, as interfases. Acompanha-o um técnico, Pelletier,especializado no trabalho e na análise dos metais. Ambos vão constituir pormuitos anos o núcleo central da equipe célula de combustível do laboratóriode Beauregard.A solicitação endereçada a Blondelet por Baccala é clara: trata-se de estudaro funcionamento do eletrodo poroso na célula hidrogênio/oxigênio. 13 Blondeletse põe a trabalhar. Ajudado por Pelletier ele constrói nos meses que seseguem uma célula experimental. Rapidamente os resultados foram julgadosdeploráveis pelos próprios pesquisadores, como prova esta frase tirada deum relatório de 1961: “Apesar dos eletrodos porosos de 150 mm de diâmetro,os rendimentos obtidos são fracos.”113 A célula hidrogênio/oxigênio é aquela cujo funcionamento está neste caso mais dominado. Oobjetivo é otimizar o rendimento dos eletrodos porosos que asseguram o contato entre o combustível(o oxigênio), o catalisador (que favorece a reação) e o eletrólito (o potássio).8
  • 9. A agonia de um laboratórioComo Blondelet e Pelletier, acuados no seu laboratório, vão explicar o seufracasso e relançar as suas pesquisas? Pelas orientações que elesescolheram, tudo se passa como se eles não estivessem nem prontos paraabandonar nem decididos a se opor ao macro-ator que Baccala se tornou.Confrontados com uma tarefa que eles nem contestaram nem negociaram,encontrando-se na incapacidade de produzir os resultados esperados, elessuspeitam daquilo que eles têm força para suspeitar: definindo suaespecialidade técnica como o único recurso mobilizável - especialidade quelimitava as possíveis investigações aos aspectos estruturais do eletrodo - ébastante naturalmente que eles decompõem o eletrodo poroso em seusporos, levando-o ao que eles chamam de sua estrutura, que, segundo eles,torna problemático o seu funcionamento.14 Acostumados a associar texturas edesempenhos, eles se perguntam o seguinte: em que a repartição dos porosno seio da massa metálica constituída pelo eletrodo condiciona osdesempenhos deste último? Questão que sublinha a importância do poro nofuncionamento do eletrodo e que, colocada em relação com umainterpretação elementar da cinética das reações, desemboca para nossospesquisadores nestas interrogações: como organizar a disponibilidade decombustíveis e a retirada dos produtos da reação? onde se estabelecem noporo as zonas de reação? Estas questões continuam a relegar para segundoplano o estudo dos fenômenos catalíticos enquanto tais. Trata-sesimplesmente de assegurar-se em cada poro um triplo contato satisfatórioentre o oxigênio (o combustível ), o potássio (o eletrólito) e o suportecatalítico, sem o qual a reação eletroquímica não se fará. O que está emquestão é a estrutura do eletrodo e a sua aptidão para favorecer o triplocontato, e não o que alguns chamam na mesma época de mecanismosíntimos da catálise.114 Sobre os conhecimentos tácitos e seu papel na formulação dos problemas, ver COLLINS (1975) eCAMBRÓSIO (1988). Sobre a desconfiança como relação de forças, consulte AUGÉ (1975),FAVRET-SAADA (1977), e sobre o paralelo entre programa de pesquisa e o processo de acusação,ver LATOUR (1987).9
  • 10. A ciência e suas redesPara Blondelet e Pelletier, o “poro” torna-se assim, a unidade pertinente, omódulo elementar da estrutura-eletrodo. Para estudar os eletrodos porosos, é necessário estudar-se primeiramente um só poro. Isto pode ser feito graças a um tubo de vidro (diâmetro de 50 a 100 microns) metalizado no interior; este dispositivo permite o estudo do menisco 02 / potássio e suas variações15. Ver Figura 1 (Pág. 183 no original)Para estudar essa interface, a técnica escolhida é aquela que os metalúrgicosconhecem bem e utilizam para detectar defeitos estruturais: os raios X. Tinha-se o hábito de utilizar os raios X e de se virar com poucas coisas; graças a esta técnica observou-se de modo sistemático a interface eletrólito-gás num poro.16O estudo do eletrodo real da célula de combustível é substituído pelo estudode um “eletrodo modelo monotubular”, para retomar-se a expressão utilizadapelos próprios pesquisadores. Esta operação de redução inscreve igualmentesua lógica na escolha dos constituintes do eletrodo monotubular. Nãosomente os reagentes (02, KOH) são os mesmos que os freqüentementeutilizados nas células de combustível, mas o catalisador escolhido é idêntico:a prata. Nós escolhemos a prata como constituinte das paredes, por um lado porque muitos catodos para células de gás são construídos com este metal e, por outro, porque o método de metalização é aparentemente bastante simples. 17A realidade desta operação de redução é afirmada explicitamente porBlondelet num texto de 1962:115 BLONDELET e PELLETIER (1961).116 Entrevista com Blondelet e Pelletier.117 BLONDELET e PELLETIER (1962).10