A  reforma do ensino medio manual prático para trair paulo freire
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A reforma do ensino medio manual prático para trair paulo freire Document Transcript

  • 1. A “REFORMA DO ENSINO MÉDIO”: MANUAL PRÀTICO PARA TRAIR PAULO FREIRE RAMÓN ALEJANDRO RUÍZ VELAZCORESUMOPerante as “inovações” impostas nos últimos dois anos ao Ensino Médio Público doRio Grande do Sul, se tornam necessárias uma série de apreciações e observaçõessobre o discurso proposto e sua contradição total com o discurso e a prática sobreeducação e gestão da educação de Paulo Freire, fundamentalmente para elaboraruma alternativa a dita reforma que desvende as principais causas dos problemassupostamente resolvidos pela proposta, bem como as falhas conceituais emetodológicas da proposta encabeçada pelo atual governo estadual.Palavras chave: reforma do ensino médio, politecnia, política.
  • 2. (...) Por exemplo, agora aqui vamos ver os gritos de ordem de vocês que continuam a ser importantes: educar pra liberdade, justiça e igualdade! E este outro: MST, agora é pra valer! Exato, MST agora é pra valer. Vamos pegar esse exemplo. MST agora é pra valer. O que significa isso? É uma pura coincidência de palavras? É uma rima?MST agora é pra valer, é um som puro? O que é isso? O que é que isso significa na história da gente? O que é que isso significa na briga da gente? O que é que significa agora é pra valer? Se eu digo agora é pra valer, é porque houve tempo que não era pra valer? E o que significa pra valer? O que é que significa esse discurso? Olha, meus amigos e minhas amigas, por isso a alfabetização é algo muito sério, não só sério, mas profundo, político, muito mais do que um puro exercício lingüístico do comando da linguagem. E precisamente porque é comando de linguagem é mais do que fonemas, é mais do que sons. É história mesmo. É vida. É desvelamento da ideologia que está contida na própria linguagem, no próprio discurso...” FREIRE, Paulo (1991) (1) Em maio de 1991 Paulo Freire lançou o Projeto de Alfabetização de Jovens eAdultos dos Assentamentos e Acampamentos do MST, no distante distrito de HulhaNegra, em Bagé, no emblemático Assentamento “Conquista da Fronteira” com sua“COOPTIL”, que foi modelo de cooperativa do MST durante bastante tempo. Erasua última atividade como Secretário de Educação da Cidade de São Paulo, e aopção por sair desse cargo era muito mais do que uma saída pessoal: “Não estoudeixando a luta, mas mudando, simplesmente, de frente. A briga continua a mesma.Onde quer que eu esteja, estarei me empenhando, como vocês, em favor da escolapública, popular e democrática”( FREIRE, Paulo, 1991). Trazia consigo a pesada experiência de ter tentado colocar em prática suasidéias, não mais como um assessor especial ou um convidado, e sim como gestorpúblico de educação na maior cidade do Brasil. Na sua saída ele define queentende que há duas “frentes” para lutar pelos seus ideais, a institucionalgovernamental e a outra, a qual ele retorna justo nesse dia, emblematicamente numAssentamento rural, distante, e muito, da cidade de São Paulo. Estava lá filmando um documentário para a Cooperativa que daria suporteInstitucional à Campanha de Alfabetização no Rio Grande do Sul. Tudo eradevelador: a distância do Assentamento a Bagé, que depois de uma semana dechuva transformava os quarenta quilômetros numa estrada intransitável, nos
  • 3. mostrando na prática o isolamento dos assentamentos; a heterogeneidade doAssentamento, com seus colonos de origem italiana, polonesa, alemã... mastambém portuguesa, espanhola, guarani e caingangue, nos ensinando que na lutapela terra havia algo mais do que “tradicionais filhos de pequenos produtores”; umamultiplicidade de professores, universitários e militantes de todas as bandeiras, nossinalizando de que ali esta iniciando algo mais do que “mais uma campanha dealfabetização”. Mas Paulo Freire ao falar (que ele não era homem de “discurso”) silenciou atodos quando questionou a própria palavra de ordem ali entoada pela grandemaioria dos participantes, desdobrando suas leituras possíveis tanto pelo dito comopelo não dito... Se agora é pra valer, antes não era? O que Paulo Freire queria nosdizer com isso? Ele mesmo afirmou que era vital entender que o mais importante eratransformar a alfabetização no “...desvelamento da ideologia que está contida naprópria linguagem, no próprio discurso...”. Ele sabia ( e a maioria de nós ainda não)que na política “à esquerda” a palavra também precisava ser desvendada, sob penade sermos engolidos por nossas próprias “palavras de ordem”. Eis a tarefa ideológica a realizar: desvelar o que realmente quer dizer cadaação do Governo, cada discurso, cada “ordem de serviço”. Se desvelar é “Tirar ovéu a; descobrir. Tornar visível o que tornou-se escondido”; e se como Paulo Freireafirmou essa ação faz parte intrinsecamente do processo de alfabetização, nestaépoca de tanto analfabetismo funcional é uma ação pedagógica e libertadora. Paradoxalmente, o atual Governo do Rio Grande do Sul, nas mãos daquelesque se consideram herdeiros do pensamento de Paulo Freire, por meio de umdiscurso reforçado pela propaganda e por uma “tradição de esquerda”, tem sededicado a destruir o Ensino Médio público, a maioria das vezes baseados empalavras de ordem, códigos e discursos que parecem ser libertadores... mas quenão são outra coisa de que seus próprios antônimos. Como um “sol enganador”, ascontradições do atual discurso merecem ser desvendadas. Uma das principais contradições é a não participação real da comunidadeescolar na construção e implantação do “Ensino Médio Politécnico”. Repetindoformalismos administrativos que já foram amplamente questionadas, inclusive pelospróprios correligionários do atual governador, as mudanças estão sendo
  • 4. “implantadas” e não construídas, num descompasso total entre os planejadores e arealidade diária dos professores e escolas. Para entender melhor este processo, proponho um exercício de“desvelamento” da “Ordem de Serviço n° 06/2012”, publicada no Diário Oficial de07/12 deste ano, na página 105, ordem esta que dispõem sobre a“operacionalização e registro da expressão dos resultados dos alunos do primeiroano do ensino médio”. Começamos pela própria metodologia de “comunicação” asescolas: primeiro a “ordem de serviço” é publicada no dia 7 de dezembro no DiárioOficial, e apenas no dia 11 de dezembro as Escolas são “chamadas” para receberas instruções de como aplicar o que foi estabelecido burocraticamente. A ação “regulamentada” por decreto (cadê o debate democrático?)estabelece o registro dos resultados dos alunos do primeiro ano...em dezembro docorrente ano. Isso, quando já se trabalhou um ano inteiro seguindo os parâmetrosde avaliação anteriores, e se poderá apenas “transformar” notas em conceitos,mecanicamente. Nada de pensar a ação curricular e a forma de avaliação de formaa mudar o dia a dia da Escola: por decreto, como tudo o realizado por esteGoverno, se muda a avaliação. Segundo consta, o “sistema” transformaráautomaticamente números em conceitos... Se as Escolas tinham estabelecido cadauma seu método de avaliação, num debate com sua comunidade escolar(respeitando as regramentações legais) é um problema da Escola. Agora na reuniãoé dito e reforçado que cabe apenas cumprir nos prazos propostos por que “já foipublicado no Diário Oficial”. Ou seja, primeiro publico para depois estabelecer que éinquestionável por ter sido publicado. Mas o texto é esclarecedor da ação governamental. No mesmo parágrafoexplica quem são os “destinados” a essa nova modalidade de ensino: o EnsinoMédio Politécnico, o Ensino Médio Normal e a Educação Profissional Técnicaintegrada ao Ensino Médio. Para quem não sabe(e tem muita escola que ainda nãosabe..) TODAS as escolas de Ensino Médio agora são Politécnicas; o Ensino MédioNormal são as escolas que formam “normalistas”, ou “magistério”, pessoas que comapenas esse curso de Ensino Médio estão aptas a dar aula até a 4ª série; e a“Educação Profissional Técnica integrada ao Ensino Médio” são as escolastécnicas... Para sustentar sua “Ordem de serviço”, se baseia numa resolução doConselho Nacional de Educação que estabelece diretrizes para a mudança do
  • 5. currículo do Ensino Médio; lendo e relendo o decreto, podemos dizer que afirmaque “...Os sistemas de ensino devem instituir sistemas de avaliação e utilizar ossistemas de avaliação operados pelo Ministério da Educação...”. Ou seja, apenasdiz que tem que usar os sistemas de avaliação operados pelo MEC... A equipe governista se baseia também no parecer N° 156, de 24/01/2012, doConselho Estadual de Educação. Nesse documento, o egrégio Conselho Estadualafirma que apenas reconhece “...ter tomado conhecimento da proposta daSecretaria de Educação de promover alterações em planos de estudo de cursos deensino médio comum e Cursos Normais e em Planos de Cursos de EducaçãoProfissional, para o ano de 2012, exclusivamente...” Ali mesmo está oculta a informação de que o Conselho Estadual deEducação, entidade máxima criada para gerir democraticamente os rumos daEducação no Estado, e que outrora foi defendida como tal pelos integrantes doatual governo, apenas foi comunicada do que aconteceria no Ensino Médio e semanifestou como tal, ou seja,apenas “tomou conhecimento”. Tomar conhecimento eaprovar são afirmações diferentes. Mas é mais constrangedor para o próprioConselho não ter participado com suas Câmaras e comissões de trabalho nesseprocesso, e ter apenas que opinar sobre um fato que já estava consumado. Sim,por que quando emitiu esse parecer, as escolas todas já tinham sido comunicadasda mudança entre setembro e outubro de 2011. Por outro lado, o Conselho afirmaque essas mudanças são exclusivas para o ano de 2012... ou seja, no decorrer doano deveriam ser debatidas as mesmas, as conseqüências da aplicação delas etodo o que cabe a esse Conselho fazer; mas na realidade, essas determinaçõesserão apenas “comunicadas” ao Conselho em janeiro de 2013. A próxima frase é, sem dúvida, o canto da sereia reformista; afirma que a“concepção curricular posta na proposta da reestruturação curricular do ensinomédio” é centralizada nas praticas sociais, com origem e foco na realidade,mediação de saberes e conflitos e que reconhece o aluno como sujeito de direitos,sempre capaz de construir aprendizagens... No entanto, desde ano passado teminsistido em outra concepção curricular, a que diz que a escola deve preparar parao “mundo do trabalho”. Mas é muito específico o conceito de trabalho que elespropõem: na cartilha oferecida aos professores no “curso de formação” dado antesde iniciar as aulas, em 2012, se afirma que (...)O ensino politécnico tem por objetivoiniciar os alunos nos princípios fundamentais que organizam o mundo do trabalho e
  • 6. o processo de produção moderna...” e “dotar os alunos com noções dos principaisinstrumentos de produção”. Ainda reforçam que “...a politecnia implica a união entreescola e trabalho e mais especificamente, instrução intelectual e trabalhoprodutivo...” Nada de “práticas sociais”.... e da imposição do mundo do trabalho quefalamos, sempre. Esse eixo fica mais do que claro quando no mesmo documentoafirmam quais são as relações que materializam a politecnia: “...os conteúdos dasdiferentes áreas do conhecimento contextualizados...”(entenda-se adaptados asnecessidades do mercado); “...a investigação nos ramos da atividade produtiva....” eos contatos com o mudo do trabalho(canteiros de obras, fábricas, centras eletricas,cooperativas, fazendas...” Nesse parecer ainda o CEE afirma que “...Aprova o Regimento padrão paraser seguido pelo Ensino Médio Politécnico a ser adotado por Escolas da redepública estadual que solicitarem credenciamento e autorização para ofuncionamento desse curso a partir do ano letivo de 2012...”. Num sutil jogo depalavras, o Governo faz parecer que esse modelo de Ensino poderá ser uma“opção” das escolas, quando que isso não é verdade: desde 2011 o processo todoé determinante, e estabelece que a mudança tem que ser feita impreterivelmente,sem titubeios. Ou seja, as escolas não “vão solicitar” para adotar esse curso: elassão obrigadas a fazê-lo. Aos Diretores das Escolas Estaduais, em fevereiro desteano, foi “comunicado” isso: não havia possibilidade de não adotar essa mudança. Dizer que as escolas poderão “solicitar” o funcionamento desse curso émascarar a ação de imposição do mesmo, inclusive à revelia da ConferênciaEstadual de Educação convocada pelo próprio Governo, que na sua maioria opinouem 2011 para que em 2012 deveria se estudar mais em cada escola e cada cidadeo projeto, antes de aplicá-lo massivamente. Ao estabelecer um “regimento padrão” para ser adotado, não apenas senormatiza uma questão, como se destrói na comunidade escolar o processo deautonomia, que foi uma conquista da sociedade toda, fundamentalmente alicerçadanas caminhadas pela democracia na Escola e que se transformou em lei nos anos90. (...)A própria LDB exige que cada estabelecimento de ensino – com a colaboração da comunidade escolar e, em especial, com a participação de seus professores, elabore um projeto pedagógico capaz de dar consistência ao trabalho realizado, com
  • 7. vistas ao atingimento das finalidades para as quais foi criado. Esse projeto pedagógico – para o qual não se há de estabelecer modelo nem fixar parâmetros – precisa ser conseqüência e resultante da reflexão conduzida no ambiente da comunidade escolar, fiel a suas circunstâncias e retrato de seus anseios, de suas necessidades e de suas demandas. O projeto pedagógico não poderá abrir mão de uma descrição e análise da realidade imediata e mediata da comunidade em que a escola se insere, de uma opção filosófica e pedagógica conseqüente, da fixação de metas concretas e da seleção de metodologias de trabalho capazes de conduzir à consecução dessas metas. Nesse contexto, o Regimento Escolar é o instrumento formal e legal que regula – como uma espécie de contrato social – as relações entre os atores do cenário escolar, desenha os caracteres das personagens e define papéis. O Regimento Escolar é, assim, a tradução legal de tudo aquilo que o projeto pedagógico descreveu, esclareceu, definiu e fixou...” RESOLUÇÃO No 236/98 Conselho Estadual de Educação O regimento-padrão chegou às escolas pronto, elaborado, fechado, e foi ditonesta terça feira que o correto era apenas copiá-lo... Mais ainda: que se algum itemnão estivesse de acordo com o modelo, não seria aprovado...Uma verdadeiraafronta a Resolução acima citada, que em 1998 estabeleceu a “regulamentação e aelaboração de Regimentos Escolares de estabelecimentos do Sistema Estadual deEnsino”. Mas o que se faz de mais destrutivo nesse processo é o silenciamento e aanulação do poder decisório das comunidades, num processo que Paulo Freiretanto denunciou, tirando da escola e suas comunidades o caráter de autonomiacapaz de gerar uma educação emancipatória. Será “libertador” aquilo que foiestabelecido pela equipe de burocratas e imposto via “ordem de serviço”: a escola esuas comunidades serão anuladas nesse processo, pois levam a deduzir que foigraças a essa autonomia que o ensino falhou. Nessa vitória dos tecnocratas, apolítica autonomista é uma afronta a seu saber acumulado em gabinetes, a despeitodo conhecimento de cada comunidade e do corpo docente. Mas a penúltima das “considerações” que sustentam o documento é nomínimo, risível.. Afirma que considerando “...o empenho da rede estadual de ensinodo processo de reestruturação curricular”, dando a entender que a implantação dareforma foi um “processo”, uma “construção” e não uma “implantação”extremadamente autoritária. A rede estadual de ensino se empenhou, isso sim, emdeter o processo para discuti-lo melhor: o Estado não quis isso.
  • 8. Em março de 2011 o Governo anunciou informalmente que iria desenvolverprojetos de escolas técnicas nas cidades, bem como os Partidários do GovernoEstadual nos Municípios incentivaram o debate sobre escolas técnicas. Vereadoresrealizaram visitas a escolas fazendo levantamento de dados estruturais.Ou seja,políticos, e não técnicos ou especialistas. Em outubro de 2011 o Governo “comunicou” que tinha encaminhando umaproposta de reforma do ensino médio para ser “discutida” nas Escolas. Mas já emnovembro envia para as Escolas o “projeto”, documento sem referenciais teóricos, eque traz a proposta das “reformas curriculares” a serem discutidas. Em dezembro Inicia o debate nas Escolas, que nem sequer chegaram a ter anoção das datas de implementação do mesmo. Algumas escolas fazem maisamplamente, outras escolhem comissões, noutras o debate fica restrito à Equipediretiva. O Governo chama em caráter consultivo a “reuniões por cidade” e porregiões da SEDUC, num simulacro da Conferencia Estadual de Educação. Nelas, a maioria maciça das escolas propõem postergar o início do “novoEnsino Médio”. A maioria rejeita o projeto, por falta de clareza. E na ConferênciaEstadual é mantida a proposta das Escolas de realizar um aprofundamento dodebate e se propõem realizar processos de formação sobre Politecnia. A maioria dacategoria está envolvida nas discussões salariais, inclusive com paralisações. Todos pensam que o Governo acatará esses pareceres, mas em fevereiro de2012 as CRE’s chamam os Diretores e comunicam intempestivamente que TODASas escolas deverão iniciar em 2012 o novo modelo de Ensino Médio. Professoresaguardam formação prévia ao inicio das aulas, que não aconteceu. Em 13 de fevereiro as Equipes Diretivas e Pedagógicas são convocadospara “curso de formação”. E no dia 28 de fevereiro Inicia o ano letivo com o EnsinoMédio reformado por imposição... Inúmeras reuniões acontecem, e em todas sempre a sensação de apenasestar discutindo como fazer, mas não o que e por que. Cada escola faz o que achaimportante, e muitas nem sequer aplicam a proposta... O andamento do processo de implantação acima descrito lembra muito bema afirmação no livro “Planejamento Sim e não” de Francisco Whitaker Ferreira, de1983 e prefaciado por Paulo Freire: (...)Nada mais útil para os governos, portanto, que usar o planejamento no que ele pode fazer as pessoas se sentirem mais seguras, porque com ele se é capaz de
  • 9. provar tudo, controlar tudo, modificar tudo segundo esquemas preestabelecidos. Afinal de contas, somos todos gente séria e competente. Mas, quefazer com o diabo do outro aspecto, que nos deixa mais inseguro face ao futuro? Evidentemente, em primeiro lugar, não falar muito nele. Em segundo, não andar por aí fazendo muita onda sobre correções e outras coisinhas que os planos venham a exigir, como se não fôssemos infalíveis. E em terceiro lugar pondo em funcionamento um mecanismo maroto: elaborar planos ao mesmo tempo em que se vão tomando decisões. O que não seria de se contestar, por que afinal se tem que estar tomando decisões continuamente. Mas a questão é malandragem que fica atrás disso. (...) WHITAKE FERREIRA, Francisco- 1983 Se Paulo Freire alertou para desvendar a ambigüidade do discurso dopoder.o lido nesta Ordem de serviço já é suficiente para entender de quedemocracia não é o forte deste governo... Na prática, qualquer possibilidade dedebate se deu por encerrado em 12 de fevereiro, quando chamaram os Diretores eEquipes Diretivas para comunicar que, sem mais discussões, o novo ensino médiocomeçaria em fevereiro mesmo, descumprindo as recomendações da ConferênciaEstadual e não promoveram mais nenhum instância de discusão. Mas também há o que não cita nem este nem os outros documentos é o quePaulo Freire considerava fundamental para realizar uma mudança curricular: (...)Se há algo que não precisamos fazer, você e eu, é tentar convencer, você a mim, eu a você, de que é urgente, entre em seus números de mudanças neste país, mudar a escola pública, melhorá-la, democratizá-la, superar seu autoritarismo, vencer seu elitismo. Este é no fundo, seu sonho, meu sonho, nosso sonho. A materialização dele envolve, de um lado o resgate de uma dívida histórica com o magistério, de que salários menos imorais são uma dimensão fundamental, de outro, a melhoria de condições de trabalho, indispensáveis à materialização do próprio sonho. Sutre estas condições, a possibilidade de trabalho coletivo para a efetivação da reorientação curricular e a formação permanente dos educadores e das educadoras, o que não se pode realizar a não ser mudando-se também o que se entende hoje por jornada de trabalho nas escolas FREIRE, Paulo. (1990) E então, ao reler esta Carta de Paulo Freire a Luiza Erundina, a Prefeita deSão Paulo, nos damos conta que este governo jamais poderia ter como ‘assessorespecial” a Paulo Freire, que com certeza estaria em “outra frente” em defesa daEducação. De um lado, e apesar dos engodos publicados com mais números e gráficosque afirmam que este atual governo “deu o maior aumento salarial do Magistério da
  • 10. história”, qualquer um sabe que não é real. No caso da 27ª, por exemplo, no iníciodas aulas o Sr Vice Governador anunciou para mais de 1000 professores de que“...este governo irá dobrar o salário dos educadores...” Essa dívida histórica dasociedade para com o magistério não será cumprida por um governador que teimaem reduzir o índice de cálculo do aumento do Piso, atitude esquizofrênica paraquem como Ministro o criou assim. E ainda conta com o apoio “pelego” da CUT e doCNTE, num processo que os próprios trabalhadores em educação jamais poderãoaceitar. Por outro lado, a falta de estrutura real para implantar a mudança é trágica.É impossível sequer ter salas temáticas hoje, quanto mais criar um modelo deensino que EXIJA novos espaços sem ter reformas estruturais e sem atender asvelhas demandas de manutenção...Descumprem com as anunciadas “reformas dasestruturas e equipamentos”: mais de 1300 escolas precisam de reparos urgentes, eo Estado “apenas” poderá, a partir de ano que vem, reformar pouco mais de 400 atéo final de mandato...O relatório do Fundo Nacional de Desenvolvimento daEducação apontou o Rio Grande do Sul como o estado que menos investiu na áreaem comparação com o que arrecada, entre os anos de 2005 e 2010. Mas na propaganda oficial tudo são maravilhas: no popular “Diário Gaúcho”de maio deste ano, na mesma matéria que diz que não poderá reformar todas asescolas, pois não tem verbas suficientes, publica o seguinte “quadro depromessas”: • Ar-condicionado nas salas de aula • - Paisagismo • - Água quente em algumas torneiras • - Sala de estudos para professores • - Espaços de lazer internos • - Espaços culturais • - Áreas esportivas • - Projetos de sustentabilidade, como aproveitamento de água da chuva e alternativas de captação de energia Diário Gaúcho, 04 de maio de 2012.
  • 11. Ora, para quem não consegue nem sequer reformar as escolas que temcarências de todo tipo, prometer que vai colocar “ar condicionado nas salas de aula”é quase que um deboche. Assim, o programa iniciado para mudar o ensino médio atropeladamentetoma um caráter de irreversibilidade, ao que deve se somar a nada sutil campanhada RBS “em defesa da Educação”... A campanha, criada para formar um consensode que a Educação “precisa de respostas” casualmente serve para sustentarideologicamente esse processo de mudanças. É necessário que a comunidade acadêmica, os professores e os própriosestudantes e suas famílias se somem num debate e articulação que venha areverter este processo, sob pena de ficarmos conhecidos na história como ageração que assistiu de braços cruzados como os gestores de nosso estadodestruíram a educação, valendo-se de um discurso ambíguo e que pelo menospodemos chamar de um roteiro de traições à memória da Paulo Freire, queafirmava: (...)Sou leal ao sonho. Minha ação tem sido coerente com ele. Exigente com a ética, considero que ler tem a ver com a coerência com que se vive no mundo, coerência entre o que se diz e o que se faz. FREIRE, Paulo, 1992
  • 12. REFERENCIAS:Assentamento Conquista da Fronteira, Bagé, Rio Grande do Sul, 25 de maio de1991, no lançamento do Projeto de Alfabetização de jovens e Adultos dosAssentamentos do MST. http://www.mcpbrasil.org.br/biblioteca/educacao-popular/doc_view/102-paulo-freire-um-educador-do-povo. Acesso em 08/12/2012“Ordem de Serviço n° 06/2012” Secretaria Estadual de Educação RSDiário Oficial do Estado; 07/12/2012 http://www.rs.diariooficialeletronico.org/Perguntas e respostas sobre a proposta de reestruturação do Ensino MédioSecretaria Estadual de Educação- novembro de 2011“Planejamento Sim e não” de Francisco Whitaker FerreiraEditora Paz e terra, Rio de Janeiro, 1983Piso Nacional dos professores pode ser rebaixado com o apoio da CUT e CNTE09-12-2012 11:05http://www.deverdeclasse.org/news/piso-nacional-pode-ser-rebaixado-com-o-apoio-da-cut-e-cnte-/#.UMojh6x-4uHÀ LUIZA ERUNDINA. DEFENDENDO O SALÁRIO DOS PROFESSORES, 1990http://www.projetomemoria.art.br/PauloFreire/biografia/08_biografia_correspondencias.htmlMANIFESTO À MANEIRA DE QUEM, SAINDO, FICAhttp://www.projetomemoria.art.br/PauloFreire/biografia/08_biografia_correspondencias.html