Formação profissional no século vinte e um
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    Formação profissional no século vinte e um Formação profissional no século vinte e um Document Transcript

    • A formação profissional no século XXI: desafios e dilemasEdna Lúcia da SilvaDoutora em Ciência da Informação – UFRJ-Eco/CNPQ-Ibict INTRODUÇÃOProfessora do Departamento de Ciência da Informação. Centro deCiências da Educação. Universidade Federal de Santa Catarina. A chegada do século XXI vem marcada com algumas ca-E-mail: els@newsite.com.br racterísticas: o mundo globalizado e a emergência de uma nova sociedade que se convencionou chamar de socie-Miriam Vieira da CunhaDoutora em Ciência da Informação – CNAM, Paris. Professora do dade do conhecimento. Tal cenário traz inúmeras trans-Departamento de Ciência da Informação. Centro de Ciências da formações em todos os setores da vida humana. O pro-Educação. Universidade Federal de Santa Catarina. gresso tecnológico é evidente, e a importância dada àE-mail: mcunha@unetsul.com.br informação é incontestável. O progresso tecnológico atua, principalmente, como facilitador no processoResumo comunicacional. Agora é possível processar, armazenar,Reflexão sobre a educação no século XXI com enfoque especial recuperar e comunicar informação em qualquer forma-à educação dos bibliotecários. Destaca os quatros pilares to, sem interferência de fatores como distância, tempobásicos e essenciais, preconizados pela Unesco, a um novo ou volume. Para González de Gómez1, “trata-se de umaconceito de educação: aprender a conhecer, aprender a viverjuntos, aprender a fazer e aprender a ser. Apresenta as revolução que agrega novas capacidades à inteligênciaponderações elaboradas por Morin , a pedido da Unesco, que humana e muda o modo de trabalharmos juntos e viver-poderão melhorar a educação do futuro. Com base em tais mos juntos”.fundamentos, discute o papel e a formação do bibliotecário noséculo XXI. Declara que os dilemas dos educadores, nessesnovos tempos, estão centrados em três questionamentos: O que O mundo globalizado da sociedade do conhecimentoensinar? Como ensinar? Para que ensinar? Pondera que a trouxe mudanças significativas ao mundo do trabalho.formação do bibliotecário deverá enfatizar sua função educativae que a base deve ser polivalente alicerçada em um conjunto de O conceito de emprego está sendo substituído pelo devalores que possibilite alterar percepções, maneiras de pensar e trabalho. A atividade produtiva passa a depender de co-instaure a cooperação e a sabedoria em detrimento do nhecimentos, e o trabalhador deverá ser um sujeito cria-tecnicismo hoje privilegiado. Conclui que o papel maisimportante do bibliotecário no século XXI parece ainda ser o de tivo, crítico e pensante, preparado para agir e se adaptargerenciador da informação. rapidamente às mudanças dessa nova sociedade.Palavras-chave O diploma passa a não significar necessariamente umaEducação dos bibliotecários; Profissional da informação. garantia de emprego. A empregabilidade está relaciona-The professional education in the XXI century: da à qualificação pessoal; as competências técnicas de-challengs and dilemmas verão estar associadas à capacidade de decisão, de adap- tação a novas situações, de comunicação oral e escrita,Abstract de trabalho em equipe. O profissional será valorizadoReflection on education in the 21th century with special na medida da sua habilidade para estabelecer relações eattention on librarians’ education. It emphasizes the four basic de assumir liderança. Para Drucker2, “os principais gru-points, praised by Unesco, to a new concept of education: tolearn to know, to learn to live together, to learn to do and to pos sociais da sociedade do conhecimento serão os ‘tra-learn to be. It presents the points developed by Morin, for balhadores do conhecimento”’, pessoas capazes de alocarUNESCO, that will be able to improve the education of thefuture. On the bases of such points examine the role of conhecimentos para incrementar a produtividade e ge-librarians education in 21th century. The educators’ dilemas in rar inovação.these times are centered in three questions: What to teach?How to teach? and Why to teach? It suggests that theLibrarianship curricula must privilegie librarians’ educative role Na perspectiva do trabalho na sociedade do conheci-and that this role must be founded in a set of values in order to mento, a criatividade e a disposição para capacitaçãomodify perceptions, and emphasize cooperation in detriment oftechnology. The paper concludes that the most important permanente serão requeridas e valorizadas. Asfunction of librarians in 21th century will be the one of tecnologias de informação e comunicação estão modifi-information managers. cando as situações de trabalho, e as máquinas passaram aKeywords executar tarefas rotineiras em substituição aos seres hu-Librarians’ education; Information professionals. manos. Neste ambiente de mudanças, “a construção do Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 77-82, set./dez. 2002 77
    • Edna Lúcia da Silva / Miriam Vieira da Cunhaconhecimento já não é mais produto unilateral de seres ampliado ou aperfeiçoado por uma pessoa, é aplicado,humanos isolados, mas de uma vasta colaboração ensinado e transmitido por uma pessoa e é usado, bem oucognitiva distribuída, da qual participam aprendentes mal, por uma pessoa. Para ele, a sociedade do conheci-humanos e sistemas cognitivos artificiais”3. Constata- mento coloca a pessoa no centro, e isso levanta desafiosse, também, que esse é um processo sem possibilidade de e questões a respeito de como preparar a pessoa parareversão. O que fazer? Os seres humanos terão de alterar atuar neste novo contexto.suas expectativas de emprego e modificar as suas rela-ções com o trabalho. Para Delors6, “face aos múltiplos desafios do futuro, a educação surge como um trunfo indispensável à huma-Nesta conjuntura, em que a mudança tecnológica é a nidade na construção dos ideais da paz, da liberdade e daregra, buscar condições para ancorar a preparação do pro- justiça social. Para ele, só a educação conduzirá “a umfissional do futuro requer uma estratégia diferenciada. desenvolvimento humano mais harmonioso, mais au-Este profissional deverá interagir com máquinas sofisti- têntico, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão so-cadas e inteligentes, será um agente no processo de to- cial, as incompreensões, as opressões, as guerras...”mada de decisão. Além disso, o seu valor no mercadoserá estimado com base em seu dinamismo, em sua Com base nesta visão, a Unesco, por meio de sua Comis-criatividade e em seu empreendedorismo. Todas esses são Internacional sobre a Educação para o século XXI,fatores evidenciam que só a educação será capaz de pre- presidida por Jacques Delors6, estabelece os quatro pila-parar as pessoas para enfrentar os desafios dessa nova res de um novo tipo de educação com enfoque em apren-sociedade. der a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto e aprender a ser.Além disso, segundo De Masi4, existem alguns valoresemergentes, nesta nova sociedade, que merecem ser le- Aprender a viver junto é considerado uns dos pilares maisvados em consideração quando tratamos de formação e importantes do processo educativo desses novos tem-educação profissional. Um deles é a intelectualidade (va- pos. Ressalta a interdependência do mundo moderno e alorização das atividades cerebrais em detrimento às ati- importância das relações. Tudo está interligado e tudovidades braçais); outro é a criatividade (tarefas repetitivas que acontece afetará a todos de uma forma ou de outra. Oe chatas serão feitas pelas máquinas); outro é a estética que o mundo precisa mais é de compreensão mútua, in-(o que distingue hoje não é mais a técnica, e sim a estéti- tercâmbios pacíficos e harmonia. “Trata-se de aprenderca, o design). Para este autor, ainda, a subjetividade, a a viver conjuntamente, desenvolvendo o conhecimentoemotividade, a desestruturação e a descontinuidade tam- dos outros, de sua história, de suas tradições e de suabém são valores importantes e, por isso, deverão, tam- espiritualidade. E, a partir disso, criar um espírito novobém, estar na mira dos processos educativos do futuro. que, graças precisamente a essa percepção de nossas interdependências crescentes e a uma análise partilhadaEsta realidade parece apontar para uma educação básica dos riscos e desafios do futuro, promova a realização dee polivalente que valorize a cultura geral, a postura pro- projetos comuns, ou melhor, uma gestão inteligente efissional, a ética e a responsabilidade social. apaziguadora dos inevitáveis conflitos...”.Refletir sobre a formação do bibliotecário para atuar no Aprender a conhecer é um pilar que tem como pano decenário do século XXI é o objetivo deste trabalho. Nesta fundo o prazer de compreender, de conhecer e de desco-reflexão, merecerão destaque: a educação e o século XXI brir. Aprender para conhecer supõe aprender para apren-e a educação dos bibliotecários. der, exercitando a atenção, a memória e o pensamento. Uma das tarefas mais importantes no processo educa-A EDUCAÇÃO E O SÉCULO XXI cional, hoje, é ensinar como chegar à informação. Parte da consciência de que é impossível estudar tudo, de que oNa sociedade do conhecimento, os indivíduos são fun- conhecimento não cessa de progredir e se acumular. En-damentais. Druker5 alerta que o conhecimento moeda tão o mais importante é saber conhecer os meios para sedesta nova era não é impessoal como o dinheiro. “Co- chegar até ele.nhecimento não reside em um livro, em um banco dedados, em um programa de software: estes contêm infor- Aprender a fazer significa que a educação não pode aceitarmações. O conhecimento está sempre incorporado por a imposição de opção entre a teoria e a técnica, o saber euma pessoa, é transportado por uma pessoa, é criado, o fazer. A educação para o novo século tem a obrigação78 Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 77-82, set./dez. 2002
    • A formação profissional no século XXI: desafios e dilemasde associar a técnica com a aplicação de conhecimentos A terceira reflexão defende que a educação do futuroteóricos. deverá ser centrada na condição humana. Ensinar a con- dição humana significa situar/questionar nossa posiçãoAprender a ser é um pilar que foi preconizado pelo Rela- no mundo no plano físico, biológico, psíquico, cultural,tório Edgard Faure, preparado para a Unesco, na década social e histórico. “Para a educação do futuro, é necessá-de 70. O mundo atual exige de cada pessoa uma grande rio promover grande remembramento dos conhecimen-capacidade de autonomia e uma postura ética. Conside- tos oriundos das ciências naturais, a fim de situar a con-ra-se que os atos e as responsabilidades pessoais interfe- dição humana no mundo, dos conhecimentos derivadosrem no destino coletivo. Refere-se ao desenvolvimento das ciências humanas para colocar em evidência ados talentos do ser humano: memória, raciocínio, ima- muldimensionalidade e a complexidade humanas, bemginação, capacidades físicas, sentido estético, facilidade como integrar (na educação do futuro) a contribuiçãode comunicação com os outros, carisma natural etc. Con- inestimável das humanidades, não somente a filosofia efirma a necessidade de “cada um se conhecer e se com- a história, mas também a literatura , a poesia, as artes...”.preender melhor”. Na quarta reflexão, Morin enfatiza que a educação doA educação no século XXI deverá ser uma educação ao futuro também deverá estar comprometida em ensinar alongo da vida. Este conceito permite “ordenar as dife- “identidade da terra”. É preciso aprender a “estar aqui”,rentes seqüências de aprendizagem (educação básica, se- o que significa aprender a viver, a dividir, a comunicar, acundária e superior), gerir as transições, diversificar os comungar nas culturas singulares e, também, aprender apercursos, valorizando-os”. A educação deverá se preo- ser, viver, dividir e comunicar-se como ser humano docupar com a formação do cidadão, da pessoa em seu sen- planeta terra. O mundo global necessita de seres humanostido amplo, e não somente com a formação profissional. que tenham “consciência antropológica”, “consciência ecológica”, “consciência cívica terrena” e “consciênciaIgualmente importante para o entendimento dos cami- espiritual da condição humana”.nhos da educação do futuro é o documento elaboradopor Morin7, a pedido da Unesco. Este autor, neste docu- Na quinta, Morin enfoca que a educação deve mostrarmento, apresenta reflexões a respeito de questões funda- que na atualidade a lógica determinística deve ser subs-mentais para melhorar a educação no próximo século. tituída pela lógica da incerteza. Por isso, a educação deve ensinar “princípios de estratégia que permitam enfren-A primeira ressalta que o conhecimento comporta erros tar os imprevistos, o inesperado e a incerteza e modificare ilusões. A mente humana é sujeita a falhas de memó- seu desenvolvimento, em virtude das informações ad-ria, enganos e, por isso, a escola deve preparar a mente quiridas ao longo do tempo”. Para Morin, “é precisohumana para conhecer o que é conhecer como forma de aprender a navegar em um oceano de incertezas em meioestar apta para o combate e identificação permanente a arquipélagos de certeza”.de erros. Portanto, “é necessário introduzir e desenvol-ver na educação o estudo das características cerebrais, Na sexta, Morin afirma que a educação deve “ensinar amentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus compreensão”. A educação para a compreensão é funda-processos e modalidades, das disposições tanto psíquicas mental em todos os níveis educativos e em todas as ida-quanto culturais” com forma de identificar o que leva ao des. Considera a compreensão mútua fundamental paraerro ou à ilusão. a educação do futuro. Por isso, estudar a incompreensão a partir de suas raízes, suas modalidades e efeitos possibi-A segunda refere-se ao que Morin chama de “conheci- litaria a identificação das causas do racismo, da xenofo-mento pertinente”. Trata da necessidade de promover o bia, do desprezo e traria uma base mais consistente àconhecimento capaz de apreender problemas globais e “educação para a paz”.fundamentais para neles inserir os conhecimentos par-ciais e locais”. O conhecimento deve estar voltado para Finalmente, Morin levanta a questão da “ética do gêne-apreender os objetos em seu contexto, sua complexida- ro humano”. A educação do futuro deve conduzir àde, seu conjunto. Para Morin, é preciso “ensinar os mé- “antropoética”. A ética, neste sentido, para Morin, temtodos que permitam estabelecer as relações mútuas e as três dimensões: uma do indivíduo, uma social e outra dainfluências recíprocas entre as partes e o todo em um espécie. Estas três dimensões estão inter-relacionadas emundo complexo”. deveriam ser vistas de maneira integrada. A antropoética supõe a decisão consciente de “assumir a condição hu- Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 77-82, set./dez. 2002 79
    • Edna Lúcia da Silva / Miriam Vieira da Cunhamana indivíduo/sociedade/espécie na complexidade do Ora, como vimos anteriormente, para ser um ator efeti-nosso ser; alcançar a humanidade em nós mesmos em vo na sociedade do conhecimento, cada indivíduo devenossa consciência pessoal e assumir o destino humano aprender a manejar sua riqueza de conhecimento, comoem suas antinomias e plenitude”. A antropoética pres- gerar novos conhecimentos e como traduzir o conheci-supõe “trabalhar para a humanização da humanidade; mento em informação útil para o desenvolvimento daefetuar a dupla pilotagem do planeta: obedecer à vida, sociedade de forma a agir e se adaptar a esta realidade.guiar a vida; alcançar a unidade planetária na diversida- A era do conhecimento demanda mentes questionadorasde; respeitar no outro, ao mesmo tempo, a diferença e a e imaginativas que devem ser cultivadas através de umaidentidade quanto a si mesmo; desenvolver a ética da educação adequada e com conteúdos pertinentes e con-solidariedade; desenvolver a ética da compreensão; en- seqüentes.sinar a ética do gênero humano”. O conceito de sociedade do conhecimento se baseia noEm resumo, a educação no século XXI estará atrelada ao crescente reconhecimento do papel que ocupam a aqui-desenvolvimento da capacidade intelectual dos estudan- sição, a criação, a assimilação e a disseminação do co-tes e a princípios éticos, de compreensão e de solidarie- nhecimento em todas as áreas da sociedade. “A verdadedade humana. A educação visará a prepará-los para li- não é dada pronta [...], mas está constantemente em jogo,dar com mudanças e diversidades tecnológicas, econô- através de processos abertos e coletivos de pesquisa, demicas e culturais, equipando-os com qualidades como construção e de crítica9.iniciativa, atitude e adaptabilidade. A universidade, nestecontexto, tem seu papel ampliado. A globalização, se- Ora, para construir e criticar, é necessário buscar infor-gundo a Unesco8, mostra que o “moderno desenvolvi- mação, disponibilizar informação, criar e transformarmento de recursos humanos implica não somente uma informação. Estas práticas são intimamente ligadas aonecessidade de perícia em profissionalismo avançado, fazer dos profissionais da informação e especificamentemas também de consciência nos assuntos culturais, de dos bibliotecários.meio ambiente e social envolvidos”. Para isso, a univer-sidade deverá reforçar seus papéis no aumento dos valo- A realidade em que vivemos, dentro de um contextores éticos e morais da sociedade e no desenvolvimento globalizado, exige dos profissionais de todas as áreas me-do espírito cívico ativo e participativo de seus futuros lhor desempenho e mais eficiência. Dentro deste con-graduados. A universidade precisa dar “maior ênfase para texto, os bibliotecários devem estar preparados de formao desenvolvimento pessoal dos estudantes, juntamente a responder às novas exigências da sociedade do conhe-com a preparação de sua vida profissional”. cimento.A EDUCAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO: ALGUMAS Nesta sociedade onde a utilização eficaz da informação eREFLEXÕES do conhecimento tornou-se fundamental, a competên- cia destes profissionais tem sido submetida à pressão deJamais a evolução da ciência e da técnica foi tão rápida e novas formas de demanda, conseqüência da necessidadecom tantas conseqüências diretas sobre a vida cotidiana, de as pessoas e as instituições operarem de forma maiso trabalho, as formas de comunicação e a relação com o eficaz em termos de tomada de decisão, de inovação e decorpo e com o espaço. É no universo do saber e do saber aquisição de conhecimento.fazer (o universo das técnicas) que estas mudanças sãomais fortes. Por esta razão, o saber condiciona todas as De que forma se transmitem estas competências? Comooutras dimensões da vida em sociedade. preparar profissionais para lidar com esta nova realida- de, para serem atores efetivos nesta nova realidade, paraA quantidade de mensagens em circulação nunca foi tão interagir nesta nova sociedade?grande. Entretanto, dispomos de poucos instrumentospara filtrar a informação pertinente, para estabelecer O valor e a organização do conhecimento dependem dacomparações, enfim, para nos encontrarmos nos espaços motivação e dos objetivos de cada indivíduo em um de-dos fluxos informacionais. A distância entre a quantida- terminado momento. Somente o exercício em situaçõesde dos fluxos, das mensagens e as formas tradicionais de reais dá sentido e valor ao conhecimento.decisão e de orientação é cada vez maior.80 Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 77-82, set./dez. 2002
    • A formação profissional no século XXI: desafios e dilemasSegundo Levy10, “o conhecimento que vive de invenção Vivemos em um movimento de fragmentação e de dis-coletiva, de transformação, de interpretação e de troca é persão que se instala no mundo do trabalho. As mudan-um dos lugares onde a solidariedade do homem pode ter ças neste universo em direção a um trabalho mais quali-mais sentido, transformando-se em um dos laços mais ficado enfatizam a necessidade de novos modelos de qua-fortes entre os indivíduos”. lificação profissional.Parece-nos importante incutir na educação dos biblio- Que modelos são esses?tecários o princípio de “conhecimento pertinente”, pre-conizado por Morin, levando-os a estabelecer relações No nosso entender, esses modelos devem estar baseadosrecíprocas entre as partes e o todo. nos princípios enfatizados por Morin sobre a educação do futuro. Neste sentido, a educação dos bibliotecáriosOra, os bibliotecários são levados cada vez mais a parti- deverá, no século XXI, priorizar a condição humana,cipar ativamente do fluxo internacional de informações enfatizando princípios como o “conhecimento pertinen-por meio da prestação de serviços a usuários virtuais que te”, o aprender a ser, a comunicar-se e a compreenderpodem estar localizados em qualquer local do planeta. outros indivíduos. É fundamental enfatizar a necessida-Em contrapartida, estes mesmos profissionais se benefi- de de articulação do acervo cognitivo com o mundo dociam e utilizam serviços provenientes deste fluxo inter- trabalho em paralelo ao investimento individual em trei-nacional. É essencial que estes profissionais sejam for- namento e capacitação.mados no sentido de compartilhar serviços colaboran-do, desta forma, em um sistema global de informações. Os novos perfis profissionais privilegiam a criatividade,Seu fazer é, portanto, essencialmente um fazer de trocar, a interatividade, a flexibilidade e o aprendizado contí-de pôr à disposição informações a partir de um contexto nuo. Além disso, os novos profissionais devem ser capa-local – o da instituição e da unidade de informação – zes de operacionalizar seu conhecimento de modo inte-para um contexto planetário e deste contexto planetá- grado às suas aptidões e vivências culturais.rio para o individual. É necessário enfatizar que o bibliotecário é em sua essên-Além disso, parece fundamental que a formação destes cia um mediador, um comunicador, alguém que põe emprofissionais que lidam basicamente com informação e contato informações com pessoas, pessoas com informa-conhecimento os leve a adquirir uma consciência de sua ções.importância. Uma das questões centrais da sociedade da informação éA diversidade e o fluxo dos conhecimentos disponíveis que o objeto de trabalho do homem passa a ser a interaçãoatualmente são tais que nenhum indivíduo pode possuir com outros homens. O saber e a comunicação passam aa totalidade do conhecimento. A inteligência e o pensa- ocupar a maioria das atividades humanas. Além disso, émento estão condenados ao trabalho em comum, à aber- necessário lembrar que “a informação é um fator intrín-tura, à transparência, à troca. Como afirma Levy10, “nas seco a qualquer atividade, fator este que deve ser conhe-nossas interações com as coisas, desenvolvemos compe- cido, processado, compreendido e utilizado contribuin-tências. Nas nossas relações com os signos e com a infor- do para ampliar de forma segura as atividades humanas”11.mação, adquirimos conhecimento. Na relação com osoutros, através da iniciação e da transmissão, fazemos Os bibliotecários, profissionais que privilegiam a infor-viver o saber. Competência, conhecimento e saber (que mação no seu fazer cotidiano, têm um papel importantepodem estar relacionados com os mesmos objetos) são a cumprir na sociedade do conhecimento. Incutir a cons-três formas complementares da transação cognitiva que ciência da importância deste papel juntamente com prin-se confundem todo o tempo. Cada atividade, cada ato de cípios como ética, solidariedade humana, capacidadecomunicação, cada relação humana implica um aprendi- crítica e de questionamento pode fazer o diferencial ne-zado.” cessário na construção de uma sociedade mais justa e equilibrada.Ora, trabalho em comum, cooperação, transparência,troca são, no nosso entender, princípios fundamentais Esperamos que, com uma educação baseada em princí-do fazer bibliotecário. pios éticos e solidários, os bibliotecários sejam atores fun- damentais neste processo. Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 77-82, set./dez. 2002 81
    • Edna Lúcia da Silva / Miriam Vieira da CunhaCONCLUSÃO REFERÊNCIAS 1. GONZÁLEZ DE GOMEZ, Maria Nélida. A globalização e osOs dilemas dos educadores do século XXI parecem estar novos espaços. Informare, Rio de Janeiro, v. 3, n. 2-3, jan. 1997.resumidos em três questionamentos: O que ensinar? 2. DRUCKER, Peter. Sociedade pós-capitalista. 6. ed. São Paulo :Como ensinar? Para que ensinar? Pioneira, 1997. 3. ASSMANN, Hugo. A metamorfose do aprender na sociedade daDertouzos12 alerta que a educação é muito mais que a informação. Ciência da Informação, Brasília, v. 20, n. 2, p. 7-15,transferência de conhecimentos de professores para alu- maio/ago. 2000.nos. Acender a “chama da vontade de aprender no cora- 4. DE MASI, Domenico. Competência criativa: o desafio da educa-ção dos estudantes, dar o exemplo e criar vínculos entre ção no novo milênio. Disponível em: <http://www.al.rs. gov. .br /professores e alunos” são fatores essenciais para o suces- comiss%C3%B5es50/Eventos/ 1999/ Palestras/ 991026_Domenico_De_Masi.htm>. Acesso em: 12 maio 2001.so do aprendizado. E este é um papel que a tecnologianão poderá cumprir. 5. DRUCKER, Peter. Sociedade de pós-capitalista. 6. ed. São Paulo : Pioneira, 1997. p. xvi.Em A cabeça bem-feita, Morin13 defende que o ensino 6. DELORS, Jacques. (0rg.). Educação: um tesouro a descobrir:educativo deve buscar não a mera transmissão do saber relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educa- ção para o século XXI. 4. ed. São Paulo : Cortez, 2000. p. 11, p.19-acumulado, mas uma cultura que possibilite a compre- 32.ensão da condição humana e nos ajude a viver, e que 7. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2.favoreça um modo de pensar aberto e livre. A educação, ed. São Paulo : Cortez, 2000.para o autor, deve propiciar a compreensão do contexto, 8. UNESCO. Política de mudança e desenvolvimento no ensino superior.o todo em relação às partes , as partes em relação ao todo. Rio de Janeiro : Garamond, 1999.Para ele, o excesso de especialização do saber leva ao en- 9. LEVY, Pierre. A revolução contemporânea em matéria de comu-fraquecimento da responsabilidade e da solidariedade. nicação. Revista Famecos, Porto Alegre, n. 9, dez.1998. Dispo-Cada um faz a sua parte, e não há consciência da co- nível em: < http://www.pucrs.br/famecos/levyfinal.html.>. Acesso em: 12 maio 2002.responsabilidade pelo todo. Ensinar não é distribuir cer-tezas, mas instigar dúvidas; não é inculcar a aceitação 10. _______. L’inteligence collective: pour une anthropologie du cyberspace. Paris: La Découverte, 1997.passiva do estabelecido, mas instrumentalizar para a con-testação; não é formar iguais, mas diferentes, unidos pelo 11. CARVALHO, Isabel Cristina Louzada; KANISKI, Ana Lúcia. A sociedade do conhecimento e o acesso á informação: para que erespeito e aceitação das próprias diversidades. A educa- para quem? Ciência da Informação, Brasília, v. 29, n. 3, p. 33-39,ção “pode ajudar a nos tornarmos melhores, se não mais set./dez.2000.felizes, e nos ensinar a assumir a parte prosaica e viver a 12. DERTOUZOS, Michael. O que será: como a informação transfor-parte poética de nossas vidas”. mará nossas vidas. São Paulo : Companhia das Letras, 2000. 13. MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: reformar a reforma , reforçarO papel mais importante do bibliotecário no século XXI o pensamento. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil, 2000.parece ainda ser o de gerenciador da informação. A im-portância dessa tarefa pode ser assim colocada: o gran-de problema desse século é a superabundância de infor-mação. Então, se não possuirmos sistemas e estratégiasadequadas de acesso à informação ou estivermosdespreparados para acessá-las, de que servirá tanta infor-mação? Do que servirá a tecnologia, se a maioria daspessoas não saberá utilizá-la ou não terá acesso a elas? Oscomputadores e os sistemas inteligentes deprocessamento de dados podem até assumir parte dessatarefa. No entanto, a organização e a manipulação detoda essa informação requer instruções, e aqui é que obibliotecário poderá contribuir. Tal tarefa influenciarádiretamente a vida de todas as pessoas e irá requerer com-petências de cunho educativo, intelectual, social etecnológico.82 Ci. Inf., Brasília, v. 31, n. 3, p. 77-82, set./dez. 2002