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Quintana 08 03_2013_rapallo
 

Quintana 08 03_2013_rapallo

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    Quintana 08 03_2013_rapallo Quintana 08 03_2013_rapallo Presentation Transcript

    • QUEM AMA INVENTA CHI AMA INVENTA  la poesia di Mario Quintana incontro con il traduttore Pierino Bonifazio che ha pubblicato il libro“Quem ama inventa” Liberodiscrivere® edizioni edizione bilingue Portoghese e Italiano letture a cura degli allievi del Laboratorio teatrale dellAccademia Culturale di Rapallo diretto da Patrizia Ercole
    • N o S i l ê n c i o T e r r í v e l / Nel Silenzio TerribileNo silêncio terrível do CosmosHá de ficar uma última lâmpada acesa.Mas tão baçaTão pobreQue eu procurarei, às cegas, por entre os papéis revoltos,Pelo fundo dos armários,Pelo assoalho, onde estarão fugindo imundas ratazanas,O pequeno crucifixo de prata– O pequenino, o milagroso crucifixo de prata que tu [ me deste um diaPreso a uma fita preta.E por ele os meus lábios convulsos chorarãoViciosos do divino contato da prata fria…Da prata clara, silenciosa, divinamente fria – morta!E então a derradeira luz se apagará de todo…
    • V i r a ç ã o / SvoltaVoa um par de andorinhas, fazendo verão. E vem umavontade de rasgar velhas cartas, velhos poemas, velhascontas recebidas. Vontade de mudar de camisa, por fora e pordentro… Vontade... para que esse pudor de certaspalavras?… vontade de amar,simplesmente.
    • E n v e l h e c e r / InvecchiareAntes, todos os caminhos iam.Agora, todos os caminhos vêm.A casa é acolhedora, os livros poucos.E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
    • D o T e m p o / Il TempoNunca se deve consultar o relógio perto de um defunto. É umafalta de tato, meu caro senhor… uma crueldade… umaimperdoável indelicadeza…
    • O A n j o d a E s c a d a / L’Angelo della ScalaNa volta da escada,Na volta escura da escada.O Anjo disse o meu nome.E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.E vinha um rumor distante de vozes clamando clamando…Deixa–me!Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?Deixa–me sozinho com os meus pássaros…com os meus caminhos…com as minhas nuvens…
    • A B o r b o l e t a / La FarfallaCada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama: “Olha umaborboleta!”.O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida,murmura:– Ah! sim, um lepidóptero...
    • D o A m o r o s o E s q u e c i m e n t o / Sul Dimenticare un AmoreEu, agora – que desfecho! –,Já nem penso mais em ti...Mas será que nunca deixoDe lembrar que te esqueci?
    • D a I n d i f e r e n ç a / L’indifferenzaA indiferença é a mais refinada forma da polidez.
    • N a d a S o b r o u / Non resta nienteAs pessoas sem imaginação podem ter tido as maisimprevistas aventuras, podem ter visitado as terras maisestranhas… Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida nãobasta apenas servivida: também precisa ser sonhada.
    • O V e l h o d o E s p e l h o / Il Vecchio nello SpecchioPor acaso, surpreendo–me no espelho: quem é esseQue me olha e é tão mais velho do que eu?Porém, seu rosto… é cada vez menos estranho…Meu Deus, meu Deus… PareceMeu velho pai – que já morreu!Como pude ficarmos assim?Nosso olhar – duro – interroga:“O que fizeste de mim?!”Eu, Pai ?! Tu é que me invadiste,Lentamente, ruga a ruga…Que importa?! Eu sou, ainda,Aquele mesmo menino teimoso de sempreE os teus planos enfim lá se foram por terra.Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra ! –Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste…
    • O A d o l e s c e n t e / L’ AdolescenteA vida é tão bela que chega a dar medo.Não o medo que paralisa e gela,estátua súbita,masesse medo fascinante e fremente de curiosidade que fazo jovem felino seguir para a frente farejando o ventoao sair, a primeira vez, da gruta.Medo que ofusca: luz!Cumplicemente,as folhas contam–te um segredovelho como o mundo:Adolescente, olha! A vida é nova... A vida é nova e anda nua– vestida apenas com o teu desejo!
    • O A u t o – R e t r a t o / L’AutoritrattoNo retrato que me faço– traço a traço –às vezes me pinto nuvem,às vezes me pinto árvore...às vezes me pinto coisasde que nem há mais lembrança...ou coisas que não existemmas que um dia existirão...e, desta lida, em que busco– pouco a pouco –minha eterna semelhança,no final, que restará?Um desenho de criança...Corrigido por um louco!
    • T r e c h o d e D i á r i o / Frammento di diarioHoje me acordei pensando em uma pedra numa rua de Calcutá.Numa determinada pedra em certa rua de Calcutá.Solta. Sozinha. Quem repara nela?Só eu, que nunca fui lá,Só eu, deste lado do mundo, te mando agora esse pensamento…Minha pedra de Calcutá!
    • P o e m a s p a r a J u l i a n o o A p ó s t a t a / Poesia per Giuliano l’ApostataNo tempo dos deuses tudoera simples como elese natural e humanoe eles reinavam no mundo.Mas veio um deus usurpador e único etornou o mundo incompreensível porqueo seu reino não era deste mundo.E até hoje ninguém soube porque então ele expulsou os outros deusese ficou reinando sozinhoe fez todos os homens pecarem– coisa que eles jamais haviam feito antes –porque pecar com inocência não é pecar…E os homens conheceram o terror maravilhoso do pecado– e assim o novo deus lhes trouxe uma volúpia nova.
    • P o e m a d a G a r e d e A s t a p o v o / Poesia della Stazione di AstapovoO velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anosE foi morrer na gare de Astapovo!Com certeza sentou–se a um velho banco,Um desses velhos bancos lustrosos pelo usoQue existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,Contra uma parede nua...Sentou–se... e sorriu amargamentePensando queEm toda a sua vidaApenas restava de seu a Glória,Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhasColoridasNas mãos esclerosadas de um caduco!E então a Morte,Ao vê–lo tão sozinho àquela horaNa estação deserta,Julgou que ele estivesse ali à sua espera,Quando apenas sentara para descansar um pouco!A Morte chegou na sua antiga locomotiva(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...Ele fugiu de casa...Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!
    • B i l h e t e / BigliettoSe tu me amas, ama–me baixinhoNão o grites de cima dos telhadosDeixa em paz os passarinhosDeixa em paz a mim!Se me queres,enfim,tem de ser bem devagarinho, Amada,que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…
    • R e f l e x o s , R e f l e x õ e s… / Riflessi, Reflessioni…IQuando a idade dos reflexos, rápidos, inconscientes, cede lugar à idade dasreflexões – terá sido a sabedoria que chegou? Não! Foi apenas a velhice.IIVelhice é quando um dia as moças começam a nos tratar com respeito e os rapazessem respeito nenhum.IIIOra, ora! não se preocupe com os anos que já faturou: a idade é o menor sintomade velhice.
    • O s P o e m a s / Le PoesieOs poemas são pássaros que chegamnão se sabe de onde e pousamno livro que lês.Quando fechas o livro, eles alçam vôocomo de um alçapão.Eles não têm pouso nem portoalimentam–se um instante em cada par de mãose partem.E olhas, então, essas tuas mãos vazias,no maravilhado espanto de saberesque o alimento deles já estava em ti...
    • A s C i d a d e s P e q u e n a s / Le Città PiccoleAs moças das cidades pequenascom o seu sorriso e o estampado claro de seus vestidossão a própria vida. Elasé que alvorotam a praça. Por elasé que os sinos festivamente batem, aos domingos.Por elas, e não para a missa!… Mas Deus não se importa...Afinal,só nessas cidadezinhas humildesé que ainda o chamam de Deus Nosso Senhor…
    • D e i x a – m e S e g u i r p a r a o M a r / Lasciami Continuare verso il MareTenta esquecer–me... Ser lembrado é comoevocar–se um fantasma... Deixa–me sero que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...Em vão, em minhas margens cantarão as horas,me recamarei de estrelas como um manto real,me bordarei de nuvens e de asas,às vezes virão em mim as crianças banhar–se...Um espelho não guarda as coisas refletidas!E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,as imagens perdendo no caminho...Deixa–me fluir, passar, cantar...toda a tristeza dos riosé não poderem parar!
    • E u E s c r e v i u m P o e m a T r i s t e / Ho Scritto una Poesia TristeEu escrevi um poema tristeE belo apenas da sua tristeza.Não vem de ti essa tristezaMas das mudanças do tempo,Que ora nos traz esperançasOra nos dá incerteza…Nem importa, ao velho tempo,Que sejas fiel ou infiel…Eu fico, junto à correnteza,Olhando as horas tão breves…E das cartas que me escrevesFaço barcos de papel!
    • O s D e g r a u s / I GradiniNão desças os degraus do sonhoPara não despertar os monstros.Não subas aos sótãos – ondeOs deuses, por trás das suas máscaras,Ocultam o próprio enigma.Não desças, não subas, fica.O mistério está é na tua vida!E é um sonho louco este nosso mundo...
    • A L e t r a e a M ú s i c a / Parole e MusicaQuando nos encontramosDizemo–nos sempre as mesmas palavras que todos os amantes dizem…Mas que nos importa que as nossas palavras sejam as mesmas de sempre?A música é outra!
    • THE ESSENTIAL JOYCE - 1970-1996JoycePoeminha do ContraTodos esses que aí estãoatravancando meu caminho,eles passarão...eu passarinho!
    • (Foto: Liane Neves)
    • " Antes ser poeta era uma agravante, depois passou a ser uma atenuante, mas diante disto, vejo que ser poeta é agora uma credencial. " (Em 1967,quando recebeu o título de "Cidadão Honorário de Porto Alegre")(Foto: Liane Neves)
    • Viagem / ViaggioO sono é uma viagem noturna:o corpo – horizontal – no escuroe no silêncio do trem, avança,imperceptivelmente avança... Apenaso relógio picota a passagem do tempo.Sonha a alma deitada no seu ataúde:lá longelá forano fundo do túnel,há uma estação de chegada(anunciam-na os galos agora)há uma estação de chegada com a sua tabuleta aindatoda orvalhada...Há uma estação chamada...AURORA!
    • Alma errada / Anima SbagliataHá coisas que a minha alma, já mortificada não admite:assistir novelas de TVouvir música Popum filme apenas de corridas de automóveluma corrida de automóvel num filmeum livro de páginas ligadasporque, sendo bom, a gente abre sofregamente a dedo:espátulas não há… e quem é que hoje faz questão de virgindades…E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefonesfugir desesperadame deixará aqui,ouvindo o que todos ouvem, bebendo o que todos bebem,comendo o que todos comem.A estes, a falta de alma não incomoda. (Desconfio atéque minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo).E ligarei o rádio a todo o volume,gritarei como um possesso nas partidas de futebol,seguirei, irresistivelmente, o desfilar das grandes paradas do Exército.E apenas sentirei, uma vez que outra,a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido…
    • A árvore dos poemas / L’albero delle poesieQuando a árvore dos poemas não dá poemas,Seus galhos se contorcem todos como mãos de enterrados vivos,Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de Deus!E, depois, meu Deus, essa lenta procissão de almas retirantes…De vez em quando uma tomba, exausta à beira do caminho,Porque ninguém lhe chega ao lábio o frescor de cântaro,a doçura de fruto que poderia haver num poema.Maldita a geração sem poetas que deixa as almas seguiremseguirem como animais em estupida migração!Quando a árvore dos poemas não dá poemas,Qual será o destino das almas?
    • Louca / PazzaSúbitoEm meio àquele escuro quarteirão fabrilDas minhas mãos se escapou um pássaro maravilhosoE eu te amei como quem solta um grito,Ó Lua enormeIncompreensível…Por que sempre me espantas e me assustas, Louca,Como se eu te visse sempre pela primeira vez?!
    • A Voz Subterrânea / La voce sotterraneaÀs vezes ouvia-se um canto surdo,que parecia vir debaixo da terra.Até que os homens da superfície,para desvendar o mistério,puseram-se a fazer escavações.Sim! eram os homens das minasque um desabamento ali havia aprisionado.E ninguém suspeitava da sua existência,porque já haviam passado três ou quatro gerações!Mas a luz forte das lanternas não os ofuscou:eles estavam cegos– todos, homens, mulheres, crianças. Eles estavam cegos… e cantavam!
    • INCORRIGÍVELO fantasma é um exibicionista póstumo.INCORREGGIBILEIl fantasma è un esibizionista postumo.CARTAZ PARA UMA FEIRA DO LIVROOs verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.MANIFESTO PER UNA FIERA DEL LIBROI veri analfabeti sono coloro che hanno imparato a leggere e non leggono.A DIFERENÇAO que eles chamam de nossos defeitos é o que nós temos dediferente deles. Cultivemo-los, pois, com o maior carinho - esses nossosdefeitos.LA DIFFERENZAQuel che loro chiamano i nostri difetti è quello che noi abbiamo di diverso daloro. Coltiviamoli, allora, col maggior affetto – questi nostri difetti.
    • Espantos / SorpreseNeste mundo de tantos espantos,cheio das mágicas de Deus,o que existe de mais sobrenatural São os ateus… 
    • MomentoO homem parou, cheio de dedos, para procurar os fósforos nos bolsos. Ainsidiosa frescura do mar lhe mandou um pensamento suicida. E veio umriso límpido, e irresistível – em i, em a, em o – do fundo de um pátio dainfância. Um riso... Senão quando o homem achou os fósforos e a vidarecomeçou. Apressada, implacável, urgente. A vida é cheia de pacotes...
    • EVOLUÇÃO / EVOLUZIONEO que me impressiona, à vista de um macaco, não é que ele tenhasido nosso passado: é este pressentimento de que ele venha a ser onosso futuro.O IMORTAL AMOR / L’AMORE IMMORTALEDante exagerou: Paolo e Francesca não poderiam sofrer tanto assim,pois mesmo no Inferno continuavam juntos. Ou quem sabe se nãoseria exatamente este o castigo? Eternamente juntos!
    • Fosse o mundo um paraíso...- paraíso de verdade! -morrerias sem sabero que é felicidade...
    • O pintor Waldeny Elias atende à campainha de seu ateliê na Rua General Vitorinoe lá está Mario Quintana.Viera agradecer pelo presente, “uma pintura de bolso”, de 6cm x 4cm. Levava-a,contou com um sorriso português, “na algibeira do fato domingueiro”. Retribuiupresenteando o velho amigo, a quem chamava de Pinta-Mundos, com o recém-lançado livro Do Caderno H.Na dedicatória, justificou por que não havia aceito um quadro grande que o pintorlhe oferecera.- Elias, me desculpe e acredite. Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes.
    • Confessional - A Vaca e o Hipogrifo ...Eu fui um menino por tráz de uma vidraça - um menino de aquário.Via o mundo passar como numa tela cinematográfica, mas que repetia sempre as mesmas cenas, as mesmas personagens.Tudo tão chato que o desenrolar da rua acabava me parecendo apenas em preto-e-branco, como nos filmes daquele tempo. O colorido todo se refugiava, então, nas ilustrações dos meus livros de histórias, com seus reis hieráticos e belos como os das cartas de jogar. E suas filhas nas torres altas — inacessíveis princesas. Com seus cavalos — uns verdadeiros príncipes na elegância e na riqueza dos jaezes. Seus bravos pajens (eu queria ser um deles...) Porém, sobrevivi... E aqui, do lado de fora, neste mundo em que vivo, como tudo é diferente! Tudo, ó menino do aquário, é muito diferente do teu sonho... (Só os cavalos conservam a natural nobreza).
    • A Poesia é necessária. A Vaca e o HipogrifoTítulo de uma antiga seção do velho Braga na Manchete. Pois eu vou mais longe aindado que ele. Eu acho que todos deveriam fazer versos. Ainda que saiam maus. Épreferível, para a alma humana, fazer maus versos a não fazer nenhum. O exercício daarte poética é sempre um esforço de auto-superação e, assim, o refinamento do estiloacaba trazendo a melhoria da alma.E, mesmo para os simples leitores de poemas, que são todos eles uns poetas inéditos, apoesia é a única novidade possível. Pois tudo já está nas enciclopédias, que só repetemestupidamente, como robôs, o que lhes foi incutido. Ou embutido.Ah, mas um poema, um poema é outra coisa…
    • ViraçãoVoa um par de andorinhas, fazendo verão. E vem uma vontade de rasgarvelhas cartas, velhos poemas, velhas contas recebidas. Vontade de mudarde camisa, por fora e por dentro… Vontade . . . para que esse pudor decertas palavras?… vontade de amar, simplesmente.
    • O PoemaUm poema como um gole dágua bebido no escuro.Como um pobre animal palpitando ferido.Como pequenina moeda de prata perdida para sempre [ na floresta noturna.Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa [ condição de poema.Triste.Solitário.Único.Ferido de mortal beleza.
    • XII Das UtopiasSe as coisas são inatingíveis... ora!Não é motivo para não querê-las...Que tristes os caminhos, se não fora A mágica presença das estrelas !
    • Eu Queria Trazer-te uns Versos Muito LindosEu queria trazer-te uns versos muito lindoscolhidos no mais íntimo de mim…Suas palavrasseriam as mais simples do mundo,porém não sei que luz as iluminariaque teria que fechar teus olhos para as ouvir…Sim ! uma luz que viria de dentro delas,como essa que acende inesperadas coresnas lanternas chinesas de papel.Trago-te palavras, apenas… e que estão escritasdo lado de fora do papel… Não sei, eu nunca soubeo que dizer-tee este poema vai morrendo, ardente e puro, ao ventoda Poesia…comouma pobre lanterna que incendiou!
    • Bilhete com EndereçoMas onde já se ouviu falarNum amor à distância,Num tele-amor?!Num amor de longe…Eu sonho é um amor pertinhoUm amor juntinho…E, depois,Esse calor humano é uma coisaQue todos – até os executivos – têm.É algo que acaba se perdendo no ar,No ventoNo frio que agora faz…Escuta!O que eu quero,O que eu amo,O que desejo em tiÈ teu calor animal!…
    • ElegiaHá coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas…Uma velhinha sozinha numa gare.Um sapato preto perdido do seu par: símboloDa mais absoluta viuvez.As recordações das solteironas.Essas gravatasDe um mau gosto tocanteQue nos dão as velhas tias.As velhas tias.Um novo parente que se descobre.A palavra “quincúncio”.Esses pensamentos que nos chegam de súbito nas ocasiões [ mais impróprias.Um cachorro anônimo que resolve ir seguindo a gente [ pela madrugada na cidade deserta.Este poema, este pobre poemaSem fim…
    • ViverQuem nunca quis morrerNão sabe o que é viverNão sabe que viver é abrir uma janelaE pássaros pássaros sairão por elaE hipocampos fosforescentesMedusas translúcidasRadiadasEstrelas-do-mar... Ah,Viver é sair de repenteDo fundo do marE voar... e voar... cada vez para mais altoComo depois de se morrer!
    • Quem Ama InventaQuem ama inventa as coisas a que ama...Talvez chegaste quando eu te sonhava.Então de súbito acendeu-se a chama!Era a brasa dormida que acordava...E era um revôo sobre a ruinaria,No ar atônito bimbalhavam sinos,Tangidos por uns anjos peregrinosCujo dom é fazer ressureições...Um ritmo divino? Oh! simplesmenteO palpitar de nossos coraçõesBatendo juntos e festivamente,Ou sozinhos, num ritmo tristonho...Ó! Meu pobre, meu grande amor distante,Nem sabes tu o bem que faz à genteHaver sonhado... e ter vivido o sonho!
    • O Estranho Casode Mister WONGAlém do controlado Dr. Jekyll e do desrecalcado Mister Hyde, há também um chinêsdentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo,neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll, muitocompenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no decote dasenhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas naplatéia… Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Nãoperca tempo. Cultive o seu Mister Wong!
    • XIX Dos MilagresO milagre não é dar vida ao corpo extinto,Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo... Nem mudar água pura em vinho tinto... Milagre é acreditarem nisso tudo!
    • A Grande Surpresa Caderno HMas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo...
    • Invitation au VoyageSe cada um de vós, ó vós outros da televisão– vós que viajais inertescomo defuntos num caixão –Se cada um de vós abrisse um livro de poemas…Faria uma verdadeira viagem…Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!– inclusive o amor e outras novidades.
    • Cocktail Party Para Elena QuintanaNão tenho vergonha de dizer que estou triste,Não dessa tristeza criminosa dos que, em vez de se matarem, [ fazem poemas:Estou triste porque vocês são burros e feiosE não morrem nunca…Minha alma assenta-se no cordão da calçadaE chora,Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.E trocamos brindes,Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.Somos democratas e escravocratas.Nossas almas? Sei lá!Mas como são belos os filmes coloridos!(Ainda mais os de assuntos bíblicos…)Desce o crepúscoloE, quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as [ poças d’água,Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!
    • Amizade Quando o silêncio a dois não se torna incômodo. Amor Quando o silêncio a dois se torna cômodo. Imagem Haverá ainda, no mundo, coisas tão simples e tão puras como a água bebida na concha das mãos? Que Será de Mim?Com essa leitura dinâmica, decerto nem chegarão a me enxergar... Que sobrará de mim – eu que só escrevo para os que gostam de ler nas entrelinhas? Que escrevo, como bem sabem os meus fregueses, apenas para os gulosos, e jamais para os glutões.
    • Porto Alegre
    • O MapaOlho o mapa da cidadeComo quem examinasseA anatomia de um corpo...(É nem que fosse o meu corpo!)Sinto uma dor infinitaDas ruas de Porto AlegreOnde jamais passarei...Há tanta esquina esquisita,Tanta nuança de paredes,Há tanta moça bonitaNas ruas que não andei(E há uma rua encantadaQue nem em sonhos sonhei...)Quando eu for, um dia desses,Poeira ou folha levadaNo vento da madrugada,Serei um pouco do nadaInvisível, deliciosoQue faz com que o teu arPareça mais um olhar,Suave mistério amoroso,Cidade de meu andar(Deste já tão longo andar!)E talvez de meu repouso...
    • O Que o Vento Não LevouNo fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicasque o vento não conseguiu levar:um estribilho antigoum carinho no momento precisoo folhear de um livro de poemaso cheiro que tinha um dia o próprio vento...
    • Con una frase Quintana riesce a riassumere il male di vivere dell’uomo contemporaneo: tutta la tristezza dei fiumi sta nel non potersi fermare. La poesia di Quintana è invece fatta di immagini in volo e pensieri illuminanti, chespingono a fermarsi per riflettere, per contemplare i microcosmi della natura, per prendereil tempo di ascoltare e rivolgersi all’Altro: Volevo portarti dei versi molto belli… Ti porto invece queste mani vuote che stan prendendo la forma del tuo seno. Claudio Pozzani
    • QUEM AMA INVENTA CHI AMA INVENTA la poesia di Mario Quintana
    • QUEM AMA INVENTA CHI AMA INVENTA la poesia di Mario Quintana
    • Nada SobrouAs pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistasaventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas… Nada lhesficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida:também precisa ser sonhada.
    • Este Quarto / Questa stanzaEste quarto de enfermo, tão desertode tudo, pois nem livros eu já leioe a própria vida eu a deixei no meiocomo um romance que ficasse aberto...que me importa esse quarto, em quedespertocomo se despertasse em quarto alheio?Eu olho é o céu! imensamente perto,o céu que me descansa como um seio.Pois o céu é que está perto, sim,tão perto e tão amigo que pareceum grande olhar azul pousado em mim.A morte deveria ser assim:um céu que pouco a pouco anoitecessee a gente nem soubesse que era o fim...