Corpo Delirante, Discurso Atuante (por lílith marques)
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Artigo apresentado ao Programa BNB (Banco do Nordeste) de Cultura e ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento), resultante do projeto Panacéia Viajante, Circulação do Espetáculo Dorotéia. ...

Artigo apresentado ao Programa BNB (Banco do Nordeste) de Cultura e ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento), resultante do projeto Panacéia Viajante, Circulação do Espetáculo Dorotéia. Autoria: Lílith Marques.

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Corpo Delirante, Discurso Atuante (por lílith marques) Corpo Delirante, Discurso Atuante (por lílith marques) Document Transcript

  • PROGRAMA BNB DE CULTURA – EDIÇÃO 2011 – PARCERIA BNDESPROJETO: PANACÉIA VIAJANTE, CIRCULAÇÃO DO ESPETÁCULO DOROTÉIA. LÍLITH MARQUES CORPO DELIRANTE, DISCURSO ATUANTE: a oficina para mulheres e suas reverberações Artigo apresentado ao Programa BNB (Banco do Nordeste) de Cultura e ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento), resultante do projeto Panacéia Viajante, Circulação do Espetáculo Dorotéia. Salvador 2011 1
  • Corpo delirante, discurso atuante: a oficina para mulheres e suas reverberações Lílith Marques Revisão: Hebe Alves RESUMOEsse artigo pretende deflagrar uma reflexão acerca do trabalho realizado nas duas edições daoficina Corpo delirante, discurso atuante - oficina de jogos teatrais, gratuita, oferecida paramulheres e ministrada pelas atrizes do grupo Panacéia Delirante, com carga horária de 03hcada. A oficina integrou o projeto Panacéia Viajante- circulação do espetáculo Dorotéia,patrocinado pelo Banco do Nordeste e BNDES. As duas edições da oficina ocorreram em2011 nas cidades de Valença-BA e Santo Amaro da Purificação-BA e contaram com aparticipação de vinte e seis mulheres entre 7 e 45 anos. Abordaremos um trajetocompreendido desde a elaboração do projeto de oficina pelas atrizes do Panacéia Delirante,até a realização da mesma nas duas cidades já citadas. Serão feitas reflexões sobre asmodificações sofridas no roteiro de oficina em decorrência das necessidades práticas do grupode participantes e de imprevistos na execução do projeto. Além disso, serão discutidos osimpactos da oficina sobre as participantes, como e por que vias a oficina toca a vida dessaspessoas.Palavras-chave: Oficina de jogos teatrais. Mulheres. Roteiro de oficina. Impactos, BNB deCultura. 2
  • Introdução: O projeto de oficina As oficinas no início eram um desejo. Um desejo que aos poucos pareceu ser exeqüível... e que surpreendeu. (Lílith Marques- oficineira, diário pessoal)O desejo de realizar uma oficina de jogos teatrais para mulheres surgiu dentro do grupoPanacéia Delirante quando, ao viajar para o Peru, na ocasião de um curso de teatro com ogrupo Yuyachkani1, as atrizes do Panacéia tiveram conhecimento do trabalho realizado pelasatrizes do grupo Yuyachkani junto a mulheres da comunidade.Os Talleres de Autoestima ministrados pelas atrizes do grupo Yuyachkani vêm sendorealizados desde os anos 80, quando, por iniciativa própria, as Yuyachs2 decidiramcompartilhar com outras mulheres o que vinham experimentando dentro do grupo, suasrelações com corpo, jogo e criação. Em 2003, o trabalho foi publicado no formato de ummanual intitulado “En el escenario del mundo interior, Talleres de Autoestima: un manual”cuja autoria é da atriz Tereza Ralli. Na ocasião da estadia no Peru as atrizes do PanacéiaDelirante adquiriram um exemplar do manual.Retornando ao Brasil, a inquietação por conhecer mais sobre esse trabalho e colocá-lo emprática aqui, em nossa realidade, era grande. Entretanto, o projeto de trabalhar autoestimacom mulheres que não são necessariamente ligadas ao meio profissional de teatro abarcavalimites que iam além de nossa competência, visto que nenhuma de nós atrizes tínhamos umacapacitação profissional em psicologia ou outra área afim para lidar com as possíveis questõesque poderiam surgir.Partimos para uma investigação interna, levando para nosso âmbito de trabalho as proposiçõesapontadas pelas Yuyachs no manual escrito por Tereza. Fizemos, pois, um Taller com nósmesmas. A experiência foi intensa e a partir dela burilamos uma primeira proposta de oficinadirecionada para mulheres cujo foco seria jogos teatrais, propriocepção e relaxamento.Esta primeira proposta de oficina pôde ser executada em 2011, em duas cidades do interior daBahia (Valença e Santo Amaro), em virtude do patrocínio concedido pelo Banco do Nordestedo Brasil (BNB), em parceria com o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento), aoprojeto de circulação do espetáculo Dorotéia, repertório do grupo Panacéia Delirante. Destaforma, a oficina batizada com o nome Corpo delirante, discurso atuante, passou a integrar oprojeto Panacéia Viajante - circulação do espetáculo Dorotéia.1 O grupo yayachkani é proveniente de Lima-Peru, o nome do grupo remete a uma palavra no idioma nativoquechua e significa “estou pensando, estou recordando”. Mais informações em www.yuyachkani.org2 Yuyachs é um apelido dado aos membros do grupo Yuyachkani por amigos, admiradores e demais pessoas queacompanham as realizações do grupo. 3
  • O grupo Panacéia Delirante, que é formado por cinco atrizes, investiga há três anos temasrelacionados ao universo feminino. O espetáculo Dorotéia é um dos produtos artísticos queresultaram dessa pesquisa. Aliar o projeto da oficina a circulação do espetáculo foi de grandevalia, pois muitas das imagens deflagradas no espetáculo reverberaram na oficina, assimcomo muito do que surgiu na oficina deflagrou novas imagens no espetáculo.Na equipe de Dorotéia, o Panacéia Delirante conta com a presença de duas grandesprofissionais: a atriz e encenadora Hebe Alves, que assina a direção do espetáculo e aeducadora sexual Maria Paquelet Barbosa que nos orientou durante o processo de montagemdo espetáculo, o qual trata, entre outros temas, da relação da mulher com sua sexualidade emoral. Assim, ao decidirmos levar o projeto de oficina para o campo da execução real,convidamos essas duas profissionais para estabelecer um olhar orientador sobre o trabalhoque estávamos prestes a pôr em prática.O roteiro de oficina foi proposto em conjunto pelas atrizes e posteriormente revisado pelasorientadoras. Nele estavam contidas as premissas básicas da proposta de oficina. A primeiraconsistia em realizar uma oficina curta de 3h de duração, condensadas em uma manhã. Emseguida o estabelecimento do ambiente de trabalho, uma sala vazia, na qual o grupo pudessetrabalhar com intimidade, sem interrupções externas. As participantes deveriam atender àexigencia de delimitação de um grupo de no máximo L e seis mulheres com idade a partir dequatorze anos, sem requisição previa de experiência com teatro. A condução estaria a cargode duas das atrizes do Panacéia Delirante, que juntas compõe um coletivo de 5 mulheres; asdemais componentes se dividiriam nas funções de redatora do processo, catalisadora (aquelaque faz a oficina junto com as demais participantes) e assistência de produção. Esta últimanão estaria presente dentro da sala de oficina, ficando a seu encargo cuidar dos possíveisimprevistos, das inscrições e certificados além de garantir que a sala de oficina não fosseperturbada por agentes externos.Sobre os exercícios propostos, o roteiro previa a seguinte ordem:1. Apresentação: usando-se um novelo de lã, as participantes deslocam-se de seu lugar no círculo à medida que dizem quem são, do que gostam etc. Ao passo que cada uma se apresenta, cria-se uma teia que interligará todas as presentes entre si. Ao final do exercício, a teia é desfeita ao passo que as participantes apresentam não a si, mas as companheiras que lhe passaram o fio de lã.2. Exercícios de reconhecimento corporal, descontração e estabelecimento do grupo: Caminhada ativa com stop e cumprimento, musica e dança, siga o mestre/ espelho.3. Exercícios de criação do espaço de trabalho: composição de atmosferas sonoras e roda de recordações. 4
  • 4. Experimentando o corpo: criação de “Quadros vivos” a partir de pinturas de Toulouse Lautrec e Edgard Degàs3 fornecidas pelas condutoras da oficina.5. Experimentando a autoestima: desfile com stops, nos quais a “modelo” poderá deixar que seu corpo expresse um desejo de movimento, que sua fala expresse seu estado de espírito, além de poder trazer o “quadro vivo” que construiu no exercício anterior e receber os aplausos e palavras de incentivo das demais colegas de oficina. Nesse exercício, todas são convidadas a desfilar, inclusive as condutoras e a redatora.6. Fechamento: nessa etapa, as participantes recebem uma flor cada uma e todas desfilam juntas. Depois, junto com as atrizes do Panacéia, pousam para uma fotografia em grupo. Ao final, faz-se uma roda de impressões, na qual, além de falarem, as participantes são estimuladas a escrever uma carta ao grupo Panacéia contando um pouco da experiência vivenciada durante a oficina.Colocando em prática a abertura para o inesperadoComo já foi dito anteriormente, a oficina de jogos teatrais para mulheres ocorreu dentro doprojeto Panacéia Viajante- circulação do espetáculo Dorotéia, patrocinado pelo Banco doNordeste do Brasil e BNDES. Foram duas edições da oficina que aconteceram no segundosemestre de 2011 nas cidades em que o projeto circulou: Valença-BA e Santo Amaro daPurificação-BA.Em ambas as edições da oficina, o planejamento sofreu alterações de acordo com asnecessidades e proposições trazidas pelo grupo de participantes. Muitas dessas alterações nosajudaram a perceber como os conteúdos da oficina possibilitava a abertura de outroshorizontes de expectativa, além daqueles imaginados. Pessoalmente, como catalisadora daoficina de Valença e condutora da oficina de Santo Amaro, percebi que muitos dos exercíciosguardam um potencial que independe da delimitação do grupo de participantes, outrosnecessitam de atenção especial ao serem realizados com crianças e jovens. O roteiro funciona,nessa perspectiva, como um ponto de partida o qual, ao ser posto em prática, necessitaapresentar abertura e flexibilidade para o que está porvir. Observemos agora alguns exemplosde imprevistos que desafiaram as condutoras ao instaurar esse caráter de abertura eflexibilidade no roteiro a ser executado. No total, as duas oficinas juntas abarcaram 26 participantes. A faixa etária variou entre 7 e 45anos. Podemos começar com este dado a refletir como a prática age sobre a oficina, propondoalgumas mudanças, e como a condução lida com estas mudanças. Vejamos: no roteiro deoficina estava previsto um público de mulheres com faixa etária a partir de 14 anos,entretanto, durante a etapa de produção local do projeto (função terceirizada), esse dadopassou despercebido e recebemos participantes de 12, 11 e até 7 anos de idade.3 As pinturas desses dois pintores franceses, principalmente as séries do Moulin Rouge (Toulouse) e dasBailarinas e Banhistas (Degàs) foram utilizadas pelas atrizes do Panacéia Delirante no processo de investigação ecomposição de personagens da peça Dorotéia. 5
  • A priori, este não foi um acontecimento que impossibilitou a realização da oficina, mas, semdúvidas, foi um desafio para as condutoras da oficina de Valença, onde recebemos maisparticipantes abaixo da faixa etária prevista. Existia o risco de exposição das crianças a temasavançados para seu universo de compreensão e, ao mesmo tempo, o risco de infantilizar emdemasia os exercícios e o espaço de criação, tornando a oficina insípida para as participantescom maturidade. O exercício da roda de recordações foi o que mais esteve nesse entre-lugarde risco. No entanto, a condução das atrizes Camila Guilera e Lara Couto soube ser paciente ecuidadosa, levando o grupo a compartilhar lembranças de infância, momentos felizes ouengraçados. Em um momento ou outro, surgiram assuntos mais sérios como álcool ourelacionamento com os pais. Esses foram tratados de maneira muito serena, de forma que nãoprovocassem impactos bruscos nas participantes mais novas.Os desafios com o tempo também tiveram seu espaço nas duas edições da oficina. Ainda emValença, tivemos a questão referente ao atraso das participantes, levando as condutoras aeliminar o exercício da criação de “Quadros vivos” da programação. De fato, foi uma perda,mas a estrutura geral da oficina não foi abalada com esta ausência. Em Santo Amaro, aondeconduzi a oficina ao lado de Milena Flick, tivemos uma questão semelhante. Iniciamos aoficina 1h depois do tempo previsto devido ao atraso da chegada das participantes. Decidimosentão condensar os exercícios de música e dança num tempo mais reduzido e manter oexercício dos “Quadros vivos”. Hoje, penso que foi uma boa solução, pois as participantes,em sua maioria, já se conheciam, não carecendo de muito tempo para estabelecer oentrosamento do grupo. Além disso, a realização do exercício dos “Quadros vivos”acrescentou outras perspectivas à oficina, possibilitando às participantes o contato com outrasformas de representação feminina e o estabelecimento com outra ordem de expressividadecorporal, mais ligada ao estético, ao teatral e ao lúdico. Poderia ousar supor que até mesmoum outro nível de consciência do corpo: um nível no qual há o saber de que seu corposignifica como signo. Tudo isso interfere de forma positiva no nível de impacto que a oficinaobteve sobre as participantes. Falaremos mais profundamente sobre isso no subitem seguinte.Para finalizar essa etapa de imprevistos, trago um ultimo exemplo que se relaciona com o fatode que na oficina lidamos com pessoas que nem sempre têm uma formação em teatro. Essa foiuma escolha importante feita ao se pensar o projeto de oficina e que trouxe uma outradimensão ao trabalho a ser realizado. Uma dimensão positiva. Entretanto, sempre surgempequenas questões de ordem prática ao se lidar com um público com essa característica.Podemos enumerar algumas delas: 1- O uso de roupas muitas vezes inapropriadas (como calças jeans, bijuterias, etc.): Nesse aspecto, não há muito que se fazer, senão lidar com a realidade que se tem. Em relação às bijuterias, foi pedido para que as participantes retirassem antes de iniciarmos os trabalhos para que machucados e acidentes fossem evitados. 2- A recorrência de falas e comentários das participantes durante o trabalho: por não tratarmos de um público composto por atores ou pessoas que já desenvolvem uma 6
  • atividade dentro do meio de teatro, muitas vezes nos deparamos com o vicio da fala e do comentário. Houve oficinas em que amigas de escola participavam juntas. Inevitavelmente, elas conversavam entre si, faziam comentários umas das outras e interferiam diretamente no trabalho proposto ao grupo. Nesses casos, uma das medidas tomadas foi a de tentar estabelecer nelas um nível de envolvimento maior com a atmosfera dos jogos propostos, além de tentarmos mantê-las distribuídas entre as demais participantes. 3- Celulares e saídas durante o momento de trabalho: cada vez mais vejo que esta é uma questão que invade quase todos os ambientes de trabalho, em qualquer área. Com relação aos celulares, foi pedido que as participantes desligassem-no antes de iniciarmos a oficina. Felizmente não tivemos grandes problemas com saídas e retornos de participantes do local de trabalho. Houve apenas um caso na oficina de Valença em que uma participante necessitou se ausentar e retornou ao final dos trabalhos. Em Santo Amaro, tivemos três participantes que necessitaram ir embora no meio da oficina devido a outro compromisso com aulas de canto. No mesmo instante em que essas três participantes saíram, chegaram outras quatro, que aguardavam do lado de fora o melhor momento para entrar e integrar o trabalho. Em todos esses casos, a figura da Panacéia que assumiu a função de assistente de produção foi indispensável para que essas interferências não ferissem bruscamente o ambiente de trabalho e atmosfera instaurados.No projeto de oficina, como foi concebido por nós do Panacéia Delirante, havia uma clarapercepção do elemento recordação e da atmosfera de intimidade, carinho e cuidado além daautoestima e bem estar como componentes condutores da oficina. Entretanto, ao levarmos aoficina para a prática, um novo elemento revelou como ponto de amalgama entre todos osoutros componentes já citados. Este elemento é a ludicidade. O estado de brincadeira e dejogo proporcionou uma ressignificação dos demais elementos frente os imprevistos e ascaracterísticas apontadas pelo grupo de participantes. Por meio da ludicidade, a oficinaencontrou um espaço de diálogo e de ação com a malha sensível das participantes.In pacto: ligações e significâncias estabelecidas com as participantesA oficina é iniciada com a construção de uma teia de fios de lã que liga as participantes econdutoras entre si, este é o momento da apresentação e, simbolicamente, o momento em queanunciamos o pacto de estarmos todas ali, interligadas, compartilhando algo de nós. Nodecorrer da oficina, intercalamos exercícios de reconhecimento individual de si mesma e decompartilhamento coletivo de questões individuais ou de estados de brincadeira.Por todos esses exercícios perpassa um reconhecimento corporal, de possibilidades corporais.O uso do jogo como ferramenta de acesso aos estados do corpo e da mente permite àsparticipantes se arriscarem mais nas proposições feitas e se despirem de preceitos 7
  • moralizantes ou convenções socialmente construídas. Mas para que tudo isso aconteça, é indispensável o pacto. Este pacto é iniciado, como já foi dito, no momento de apresentação, com o jogo da teia de lã. No entanto, no decorrer da oficina, ele é fortalecido e retomado, relembrado. Nesse sentido, podemos destacar dois momentos: o exercício da construção de atmosferas sonoras que requer que o grupo se escute e construa junto uma malha de criação sonora, imaginativa e coletiva, o segundo momento é o exercício da roda de recordações, no qual a figura do circulo é retomada e no qual cada uma exercita a confiança, nas colegas e nas condutoras. Ao final, no momento do desfile, o pacto é selado com um gesto de carinho e respeito quando as participantes se aplaudem e elogiam umas as outras. Esse pequeno gesto estabelece um espaço de cuidado e de confiança. Outro aspecto de destaque da oficina é a simplicidade. Não há grandes complexidades físicas nos jogos propostos, tão pouco complexidades de ordem intelectual. Tudo é muito simples, baseando-se no pouco, no mover o corpo de acordo com as necessidades corporais de cada uma, no colocar o corpo em brincadeira, no permitir que esse estado trouxesse as lembranças e a imaginação. Também esse aspecto é colaborativo para o estabelecimento do pacto, pois coloca as participantes num mesmo patamar de observação. Sem diferenças, nos entregamos mais facilmente aos estados de confiança, de carinho e de respeito, necessários para que alcancemos a autoestima, o bem estar e a satisfação – nesse caso, não de maneira terapêutica, mas a partir do que temos em mãos: o jogo teatral. Escrever a carta para nós do Panacéia Delirante, comentando sua experiência na oficina é a ultima atividade requisitada às participantes. Nesse gesto comum de escrever para alguém, condensa-se o cerne do projeto de oficina: há o ato de recordar-se, refletir-se a partir de uma experiência vivida, corporalmente vivida; há a explicitação do elo; há o gesto de carinho, de compartilhamento com o outro; e, por último, há o voltar-se para si.ConclusãoEsta é uma oficina que poderia gerar ainda mais frutos se feita em mais tempo, com mais deum dia de encontro. Todavia, em 3h de duração, ela toca em pontos da vida cotidiana dasparticipantes e das condutoras que pouco são estimulados e que guardam o grão para a alegria,o bem estar, o autoconhecimento.A cada dia sinto que iniciativas como estas são válidas e gratificantes. Ainda temos muitotrabalho pela frente, novas reflexões a propor, novas problematizações possíveis, mais ediçõesda oficina para executar. Com certeza esse não é um trabalho que se conclui na produção denum artigo. Ele reverbera vozes. O melhor é deixar que elas falem por si mesmas.Trechos das cartas das participantes das oficinas:“Adorei compartilhar minha alegria com todos” (A. – Santo Amaro) 8
  • “Teatro: se resume em felicidade, pois quando estamos em contato com as outras pessoasparece que nos conhecemos faz tempo, fazendo assim que possamos compartilhar coisaspessoais, ficamos mais a vontade ainda porque sabemos que estamos todas unidas e querendoalcançar uma única meta. [...] acho que teatro não se resume a uma tenda onde tenha platéia epalco... mas sim na troca de harmonia e aprendizagem.” (G. – Santo Amaro)“Vocês fizeram eu me sentir única, mas ao mesmo tempo igual a todos. Muito obrigadamesmo! Adorei a oficina, levarei na memória, eternamente.” (B. – Santo Amaro)“Obrigado meninas pelo carinho e segurança transmitidos por vocês.” (M. Santo Amaro)“Teatro é vinculo para um novo horizonte” (L. – Santo Amaro)“As minhas melhores lembranças estão baseadas no pouco. As melhores emoções vem quandoestamos no pouco, fazendo o que nos move.” (W.– Santo Amaro)“Outras pessoas precisam desse momento que vocês nos passaram” (L.U. – Valença)“Nunca foi alegre como hoje” (J. - Valença)“Os depoimentos ou causos que ocorreram na oficina foi importante para nós mulherespercebermos o que temos em comum [...]” (D. C. - Valença)“Eu queria ter a visita de todas vocês outras vezes” (D. - Valença)“[...] eu gostei do que aprendi. Como fazer esquisitices com o corpo e com a mente.” (T. –, 7anos, Valença)“Se um pingo d’água for felicidade, eu desejo a todas vocês uma tempestade” (J. –Valença)“O teatro é uma das várias linguagens que quebram com a rigidez do corpo e da alma” (Z., 45anos, Valença) REFERÊNCIARALLI, Tereza. Em El escenario Del mundo interior, talleres de autoestima: um manual.Lima: Equilíbrios, 2003. 9