Monografia conflitos na escola e a mediação

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Monografia conflitos na escola e a mediação

  1. 1. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação Álvaro ChrispinoResumo The enclosed article starts by presenting O presente trabalho se inicia apresentan- a recent study carried out by a researchdo um recente estudo realizado por um institu- institute and it demonstrates theto de pesquisa onde fica patente a importân- importance that the student gives tocia que o jovem atribui à educação, à escola education, to school, to the teacher ande ao professor, ao mesmo tempo em que apre- at the same time it shows his concernsenta sua preocupação com a violência. Com with violence. With such motivation, iteste motivador, discute os conceitos de conflito discusses the concepts of conflicts ande de conflito escolar, apresenta inúmeras ma- school conflicts in order to contribute toneiras de classificar os conflitos e os conflitos the clarification of the problem, itescolares a fim de contri- indicates the mediationbuir com o entendimento Álvaro Chrispino of the conflict as ado problema, indica a Doutor em Educação, UFRJ powerful and potentmediação de conflito Professor do Programa de Mestrado alternative to reducecomo alternativa potente do CEFET/RJ school violence.e viável para a diminui- chrispino@infolink.com.br Finally, it lists questionsção da violência escolar that should be takene, ao final, enumera into account when thequestões que devem ser consideradas quando school has in mind the implementation ofa escola se propõe a implantar um programa its program of mediation conflict.de mediação escolar do conflito. Keywords: Educational policies. SchoolPalavras-chave: Políticas educacionais. violence. School conflict. Mediation ofViolência escolar. Conflito escolar. Media- school conflict.ção do conflito escolar. ResumenAbstract Gestión del conflictoSchool-Based Conflict escolar: de la clasificaciónManagement: from the de los conflictos a losclassification of conflicts medelos de mediaciónto models of mediation El artículo presenta un reciente estudioEnsaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  2. 2. 12 Álvaro Chrispinorealizado por un instituto de pesquisa nha, Argentina e Chile, dentre outros, ondeque muestra la importancia que el joven já se percebe um conjunto de políticas pú-atribuye a la educación, a la escuela y blicas mais ou menos eficientes dirigidas aosal profesor y, también, su preocupación diversos atores que compõem este comple-con la violencia. El texto aborda los xo sistema que é o fenômeno violência es-conceptos de conflicto y de conflicto colar. Estes países possuem já alguma tradi-escolar, presenta innumeras maneras de ção em programa de redução da violênciaclasificar los conflictos y los conflictos escolar como apontam Debarbieux e Blayaescolares a fin de contribuir para el (2002) e, no Brasil, é possível enumerar al-entendimiento del problema e indica la guns estudos pontuais até aproximadamen-mediación del conflicto como alternativa te 2000, quando passamos a contar compotente y viable para la disminución de um número maior de estudos e pesquisasla violencia escolar. Al final enumera sobre os diversos ângulos da violência es-cuestiones que deben ser consideradas colar como, por exemplo, Abramovay e Ruacuando la escuela se propone a (2002), Ortega e Del Rey (2002), Chrispinoimplantar un programa de mediación e Chrispino (2002), dentre outros.escolar del conflicto.Palavras clave: Políticas educacionales. Os diversos estudos publicados em lín-Violencia escolar. Conflicto escolar. gua portuguesa disseminaram idéias, acla-Mediación del conflicto escolar. raram os problemas e listaram alternativas já testadas em sociedades distintas, permi-Introdução tindo que a comunidade educacional bra- A seqüência de episódios violentos en- sileira reunisse informações para enfrentarvolvendo o espaço escolar não deixa dúvi- um problema importante, no esforço de ti-da quanto à necessidade de se trazer este rar a “diferença” causada por alguns anostema à grande arena de debates da educa- de atraso na percepção do problema e nação brasileira. Os acontecimentos que se re- busca de soluções próprias. No rastro des-petem nos diversos pontos do país, e que sas iniciativas, a produção acadêmica bra-nos privaremos de citar por ser absoluta- sileira já começa a demonstrar bons resul-mente desnecessário para a análise, expõem tados no tema, apesar de serem encontra-uma dificuldade brasileira pela qual já pas- dos apenas 7 grupos de pesquisa no Dire-saram outros países, o que seria, por si só, tório LATTES, quando consultado utilizandoum convite para a reflexão de educadores e as palavras chave “violência escolar” e “vi-de gestores políticos, visto que o movimento olência na escola”, o que indica que a pro-mundial em educação indica semelhança dução deve estar vinculada a grupos comde acontecimentos mesmo que em momen- linhas de pesquisa e temas de pesquisa ou-tos diferentes da linha de tempo. tros que absorvem os assuntos correlacio- nados com o universo da violência escolar. Já dissemos alhures (CHRISPINO;CHRISPINO, 2002) que os problemas no- Experiências importantes vêm sendo re-vos da violência escolar no Brasil são um alizadas como a do programa de Mestra-problema antigo em outros países como Es- do da Universidade Católica de Brasília/tados Unidos, França, Reino Unido, Espa- Observatório da Violência que já produzEnsaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  3. 3. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 13uma série de pesquisas focada na violên- No que pese tudo isto, recentemen-cia escolar, mas correlacionando-a com a te o Sindicato dos Estabelecimentos devisão docente (OLIVEIRA, M. G. P 2003; ., Ensino do Rio de Janeiro – Sinepe RioOLIVEIRA, R. B. L., 2004), com a comuni- –, solicitou ao IBOPE uma pesquisa in-dade (SILVA, 2004), com o rendimento es- titulada “O jovem, a sociedade e a éti-colar (VALE, 2004), com a gestão esco- ca” (RIO DE JANEIRO, 2006), que re-lar (CARREIRA, 2005), com a visão dis- colheu opiniões de jovens entre 14 e 18cente (RIBEIRO, 2004; FERNANDES, anos. O resultado mostra o quanto a2006), dentre outras. escola e a educação povoam o imagi- nário dos jovens, o quanto estes ainda Tudo leva a crer que o tema tenha ocu- vêem na escola e na educação instru-pado um lugar de destaque na sociedade mentos importantes para suas vidas e oe academia brasileiras, o que pode resultar quanto a violência na escola os afastana transferência da escola da editoria poli- de seus sonhos ou os amedronta. Veja-cial para a editoria de direitos sociais nos mos alguns resultados:grandes veículos de mídia nacional. Pergunta: Dentre estes, quais são os doisEducação, juventude e mais graves problemas do Brasil?violência A formação de opinião sobre a esco-la e a juventude exclusivamente pelasmanchetes de jornais e televisão, resultanuma visão por ângulos restritos da rea-lidade educacional. A educação – apesar da existência deprogramas importantes como o Fundo deManutenção e Desenvolvimento do Ensi-no Fundamental e de Valorização do Ma- Pergunta: Quem você considera maisgistério – FUNDEF–, vem sofrendo com responsável pela garantia de um bom futu-a falta de políticas públicas de longo pra- ro para pessoas como você?zo e efetivas que atendam às necessida-des da comunidade, vem sendo esvazia-da pelo afastamento de bons docentespor conta do desprestígio e da perda sig-nificativa de salários, vem sendo “suca-teada” pela ineficácia dos sistemas degestão e por recursos cada vez mais re-duzidos, vem se tornando cada vez mais“profanada” quando a história nos ensi-nou sobre uma escola cercada de respei-to, pertencimento e “sacralidade”.Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  4. 4. 14 Álvaro Chrispino Pergunta: Gostaria que você dissesse, para cada uma das pessoas e instituições quevou falar, se você confia ou não confia INSTITUIÇÕES CONFIA NÃO CONFIA NÃO TEM OPINIÃO Professores 84% 13% 3% Escola Particular 77% 18% 5% Escola Pública 76% 19% 5% Médicos 75% 21% 4% Religião 71% 23% 6% Igreja Católica 66% 26% 8% Igreja Evangélica 61% 30% 8% Televisão 60% 36% 4% Rádios 62% 35% 4% Jornais 59% 37% 4% Pergunta: Para cada frase citada, gostaria de saber se você concorda ou discorda PONTOS CONCORDA DISCORDA A educação dos jovens deve ter limites bem definidos 82% 14% No Brasil, é possível melhorar a 73% 21% condição social através do voto No Estado, um cidadão não tem só direitos, 70% 24% tem deveres para com a sociedade O voto pode mudar a situação do país 64% 30% O importante para os jovens é viver o momento, 57% 40% sem se preocupar com o futuro Os jovens são desmotivados e nada lhes interessa 50% 46% A experiência profissional é mais 49% 46% importante que a educação Os direitos humanos no Brasil só protegem os que 49% 44% não respeitam os direitos dos outrosEnsaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  5. 5. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 15 Pergunta: Dentre estes, para qual pon- na escola como instrumento de mobilidadeto você julga que uma boa escola deveria social e de diferenciação para o futuro.estar voltada? (1º e 2º lugares) Motivado por isso, podemos buscar entender melhor o que pode estar causan- do a violência na escola, sempre lembran- do que a nossa é uma leitura, uma pro- posta, uma alternativa. Certamente haverá outras, desenvolvidas e amparadas a par- tir de outras percepções e experiências. O conflito e o Podemos depreender da pesquisa (1) queo jovem identifica na violência o maior pro- conflito na escolablema da sociedade atual, superando, in- Conflito é toda opinião divergente ou ma-clusive, o desemprego; (2) que a escola ocu- neira diferente de ver ou interpretar algum acon-pa o segundo lugar entre as instituições im- tecimento. A partir disso, todos os que vivemosportantes para o desenho de seu futuro, per- em sociedade temos a experiência do conflito.dendo apenas para a família; (3) professo- Desde os conflitos próprios da infância, passa-res e escolas são as duas “instituições” que mos pelos conflitos pessoais da adolescência e,encabeçam a lista de confiança com altos hoje, visitados pela maturidade, continuamosíndices percentuais; (4) os jovens, diferente- a conviver com o conflito intrapessoal (ir/não ir,mente do que diz o senso comum, solicitam fazer/não fazer, falar/não falar, comprar/nãoos limites próprios à juventude e (5) confir- comprar, vender/não vender, casar/não casarmando o item 4, o jovem julga que a disci- etc.) ou interpessoal, sobre o qual nos detere-plina rígida, juntamente com criatividade e mos. São exemplos de conflito interpessoaldiálogo, fazem parte da boa escola, para a briga de vizinhos, a separação familiar, adesespero de gestores e docentes que de- guerra e o desentendimento entre alunos.fendem o “vai-levando” ou o laissez-faire, (CHRISPINO; CHRISPINO, 2002).certamente pela lei de menor esforço, já queo salário é o mesmo no final do mês. Poderemos buscar, numa adaptação de Redorta (2004, p. 33), grandes exemplos Apesar de todas as dificuldades, o jovem de conflito nos conhecidos movimentos deainda crê na educação como alternativa e rompimento de paradigmas: AUTOR TIPO DE CONFLITO PROCESSO RESULTANTE SÍNTESE Freud Conflito entre o desejo e a proibição Repressão e defesa Luta pelo dever Darwin Conflito entre o sujeito e o meio Diferenciação e adaptação Luta por existir Marx Conflito entre classes sociais Estratificação social hierarquia Luta pela igualdade Piaget Conflito nas decisões e experiências Aprendizagem Resolução de problemas Luta por serEnsaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  6. 6. 16 Álvaro Chrispino O conflito, pois, é parte integrante dificuldade de comunicação, de asser-da vida e da atividade social, quer con- tividade das pessoas, de condições paratemporânea, quer antiga. Ainda no es- estabelecer o diálogo.forço de entendimento do conceito, po-demos dizer que o conflito se origina da Temos defendido que a massificaçãodiferença de interesses, de desejos e de da educação se, por um lado, garantiu oaspirações. Percebe-se que não existe acesso dos alunos à escola, por outro,aqui a noção estrita de erro e de acerto, expôs a escola a um contingente de alu-mas de posições que são defendidas fren- nos cujo perfil ela – a escola – não esta-te a outras, diferentes. va preparada para absorver. Um exemplo claro da dificuldade que Antes, em passado remoto, a escolatemos para lidar com o conflito é a nossa era procurada por um tipo padrão deincapacidade de identificar as circunstân- aluno, com expectativas padrões, comcias que derivam do conflito ou redun- passados semelhantes, com sonhos e li-dam nele. Em geral, nas escolas e na vida, mites aproximados. Os grupos eram for-só percebemos o conflito quando este pro- mados por estudantes de perfis muitoduz suas manifestações violentas. Daí po- próximos. Com a massificação, trouxe-demos tirar, pelo menos, duas conclu- mos para o mesmo espaço alunos comsões: a primeira é que se ele se manifes- diferentes vivências, com diferentes ex-tou de forma violenta é porque já existia pectativas, com diferentes sonhos, comantes na forma de divergência ou anta- diferentes valores, com diferentes cultu-gonismo, e nós não soubemos ou não ras e com diferentes hábitos [...], mas afomos preparados para identificá-lo; a escola permaneceu a mesma! Parecesegunda é que toda a vez que o conflito óbvio que este conjunto de diferenças ése manifesta, nós agimos para resolvê- causador de conflitos que, quando nãolo, coibindo a manifestação violenta. E trabalhados, provocam uma manifesta-neste caso, esquecemos que problemas ção violenta. Eis, na nossa avaliação, amal resolvidos se repetem! (CHRISPINO; causa primordial da violência escolar.CHRISPINO, 2002) A fim de exemplificar a tese que defen- Ao definirmos conflito como o resul- demos, podemos lançar mão da pesquisatado da diferença de opinião ou inte- de Fernandes (2006, p. 103) realizada comresse de pelos menos duas pessoas ou alunos e professores de diferentes escolasconjunto de pessoas, devemos esperar do Distrito Federal. Ao solicitar que pro-que, no universo da escola, a divergên- fessores e alunos identifiquem níveis de gra-cia de opinião entre alunos e professo- vidade de violência a partir de ocorrênciasres, entre alunos e entre os professores cotidianas, percebe-se a divergência deseja uma causa objetiva de conflitos. opinião: isto dá origem a conflitos. Veja-Uma segunda causa de conflitos é a mos alguns exemplos:Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  7. 7. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 17 ATITUDES ESCOLA 1–PÚBLICA ESCOLA 2–PRIVADA OPINIÃO DISCENTE DOCENTE DISCENTE DOCENTE Aluno bate em colega menor 47,4 (média) 64,6 (alta) 51,6 (alta) 61,2 (alta) Briga entre alunos 38,1 (média) 60,5 (alta) 52,9 (alta) 55,8 (alta) Toque de mão no colega com sentido sexual 32,0 (média) 60,5 (alta) 27,2 (baixa) 54,9 (alta) Insulto de aluno a aluno 32,0 (média) 56,5 (alta) 31,8 (média) 54,9 (alta)Consideram-se altas as taxas entre 68 a 48, médias as taxas entre 47 a 31 e baixas as taxas menores que 30. Podemos esperar que, pela diferença entre • ajuda a definir as identidades dasas opiniões, haja conflito no espaço escolar. partes que defendem suas posições;Um conflito criado pela diferença de conceito • permite perceber que o outro possuiou pelo valor diferente que se dá ao mesmo uma percepção diferente;ato. Professores e alunos dão valores diferentes • racionaliza as estratégias de compe-à mesma ação e reagem diferentemente ao mes- tência e de cooperação;mo ato: isso é conflito. Como a escola está acos- • ensina que a controvérsia é uma opor-tumada historicamente a lidar com um tipo tunidade de crescimento e de ama-padrão de aluno, ela apresenta a regra e re- durecimento social.quer dos alunos enquadramento automático.Quanto mais diversificado for o perfil dos alu- Outro mito importante construído em tornonos (e dos professores), maior será a possibili- do conflito, e que está também sendo supera-dade de conflito ou de diferença de opinião. E do, é aquele que diz que o mesmo atenta con-isso numa comunidade que está treinada para tra a ordem. Na verdade, o conflito é a mani-inibir o conflito, pois este é visto como algo ruim, festação da ordem em que ele próprio se pro-uma anomalia do controle social. duz e da qual se derivam suas conseqüências principais. O conflito é a manifestação da or- Porém, o mito de que o conflito é ruim está dem democrática, que o garante e o sustenta.ruindo. O conflito começa a ser visto comouma manifestação mais natural e, por conse- A ordem e o conflito são resultado da inte-guinte, necessária às relações entre pessoas, ração entre os seres humanos. A ordem, emgrupos sociais, organismos políticos e Esta- toda sociedade humana, não é outra coisados. O conflito é inevitável e não se devem senão uma normatização do conflito. Tome-suprimir seus motivos, até porque ele possui mos como exemplo o conflito político: apesarinúmeras vantagens dificilmente percebidas por de parecer ruptura da ordem anterior, há con-aqueles que vêem nele algo a ser evitado: tinuidade e regularidade em alguns aspectos • Ajuda a regular as relações sociais; tidos como indispensável pela sociedade, que • ensina a ver o mundo pela perspecti- exige a ordem e de onde emanam os conflitos. va do outro; • permite o reconhecimento das dife- Somente estudo e compreensão das rela- renças, que não são ameaça, mas re- ções que existem dentro da ordem podem per- sultado natural de uma situação em mitir o entendimento completo dos conflitos que que há recursos escassos; nela se originam e que, por fim, são a razãoEnsaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  8. 8. 18 Álvaro Chrispinode sua existência. Por exemplo, os sócios que brigam pela posse da casa onde moravam, mes-brigam. É necessário ver as condições em que mo possuindo outras imóveis de igual valor. Nase fez a sociedade e as expectativas dos sóci- verdade, a posição de posse da casa escondeos. Possivelmente, cada um deles terá entendi- um interesse implícito: quem ficar com a casa domento pessoal das regras que iniciaram a so- casal tem a sensação de vitória sobre o outro.ciedade e possuíam, por derivação, expectati-vas diferentes. Instala-se o conflito! Classificações dos conflitos A fim de melhor entender suas possibi- O conflito está regulado de tal modo que nem lidades, buscaremos alguns exemplos desempre nos damos conta sequer de sua existên- classificação de conflito, pois, segundo Re-cia. Como exemplo disso, temos o futebol ou o dorta (2004, p. 95),desfile das escolas de samba: eles excluem a vio- classificar é uma forma de dar sentido.lência como a entendemos comumente e prevê- A classificação costuma ser hierárquicaem um modelo de comportamento cooperativo, e permite estabelecer relações de per-mas os interesses são frontalmente conflitantes! tencimento. Ao classificar definimos, e Acontece, muitas vezes, que o conflito é de- ao defini-lo, tomamos uma decisão aflagrado e não sabemos exatamente o que o respeito da essência de algo.provoca, pois a posição conflitante é diferente do Vamos buscar algumas classificaçõesinteresse real das partes. O interesse é a motiva- gerais de conflito segundo Moore (1998),ção objetiva/subjetiva de uma conduta, a partir Deutsch (apud MARTINEZ ZAMPA, 2004)da qual esta se estrutura e se distingue da posi- e Redorta (2004) e classificações de confli-ção, que é a forma exterior do conflito, que pode tos escolares a partir de Martinez Zampaesconder o real interesse envolvido. Os comerci- (2004) e Nebot (2000).antes têm interesses conflitantes: o vendedor quervender mais caro, enquanto o comprador quer Para Moore (1998, p. 62), os conflitospagar menos [...], mas os interesses são claros e podem ser classificados em estruturais, dedefinidos. Diferentemente com o que ocorre no valor, de relacionamento de interesse econflito causado pela separação de casais que quanto aos dados: TIPOS DE CONFLITO CAUSAS DOS CONFLITOS Estruturais Padrões destrutivos de comportamento ou interação; controle, posse ou distribuição desigual de recursos; poder e autoridade desiguais; fatores geográficos, físicos ou ambientais que impeçam a cooperação; pressões de tempo. De valor Critérios diferentes para avaliar idéias ou comportamentos; objetivos exclusivos intrinsecamente valiosos; modos de vida, ideologia ou religião diferente. De relacionamento Emoções fortes; percepções equivocadas ou estereótipos; comunicação inadequada ou deficiente; comportamento negativo – repetitivo. De interesse Competição percebida ou real sobre interesses fundamentais (conteúdo); interesses quanto a procedimentos; interesses psicológicos. Quanto aos dados Falta de informação; informação errada; pontos de vista diferentes sobre o que é importante; interpretações diferentes dos dados; procedimentos de avaliação diferentes.Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  9. 9. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 19 Para Deutsch (apud MARTINEZ ZAMPA, contatos entre si), latentes (conflitos cuja2004, p. 27), os conflitos podem ser clas- origem não se exteriorizam) e falsos (sesificados em 6 tipos: Verídicos (conflitos baseiam em má interpretação ou percep-que existem objetivamente), contingen- ção equivocada).tes (situações que dependem de circuns-tâncias que mudam facilmente), descen- Para Redorta (2004), a tipologia de con-tralizados (conflitos que ocorrem fora do flito é de tal importância que ele dedica todaconflito central), mal atribuídos (se apre- uma obra a essa tarefa. Podemos sintetizarsentam entre partes que não mantêm a sua tipologia, no quadro a seguir: TIPOS DE CONFLITOS... O CONFLITO OCORRE QUANDO De recursos escassos Disputamos por algo que não existe suficientemente para todos. De poder Disputamos porque algum de nós quer mandar, dirigir ou controlar o outro. De auto-estima Disputamos porque meu orgulho pessoal se sente ferido. De valores Disputamos porque meus valores ou crenças fundamentais estão em jogo. De estrutura Disputamos por um problema cuja solução requer longo prazo, esforços importantes de muitos, e meios estão além de minha possibilidade pessoal. De identidade Disputamos porque o problema afeta minha maneira intima de ser o que sou. De norma Disputamos porque meus valores ou crenças fundamentais estão em jogo. De expectativas Disputamos porque não se cumpriu ou se fraudou o que um esperava do outro. De inadaptação Disputamos porque modificar as coisas produz uma tensão que não desejo. De informação Disputamos por algo que se disse ou não se disse ou que se entendeu de forma errada. De interesses Disputamos porque meus interesses ou desejos são contrários aos do outro. De atribuição Disputamos porque o outro não assume a sua culpa ou responsabilidade em determinada situação. De relações pessoais Disputamos porque habitualmente não nos entendemos como pessoas. De inibição Disputamos porque claramente a solução do problema depende do outro. De legitimação Disputamos porque o outro não está de alguma maneira autorizado a atuar como o faz, ou tem feito ou pretende fazer. É possível, ainda, identificar conflitos sores, técnicos e comunidade) e com ro-escolares ou mesmo educacionais a par- tinas estabelecidas (temática, horários,tir de Martinez Zampa (2005) e de Nebot espaços físicos etc). A maneira de lidar(2000). Certamente, a característica da com o conflito escolar ou educacional éescola ou do sistema educacional favo- que irá variar de uma escola que veja orecem este tipo de categorização, por se conflito como instrumento de crescimen-restringirem a um universo conhecido, to ou que o interpreta como um gravecom atores permanentes (alunos, profes- problema que deva ser abafado.Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  10. 10. 20 Álvaro Chrispino Na comunidade escolar existem pon- Como conflitos educacionais ou entretos que contribuem para o surgimento dos membros da comunidade educacional,conflitos e que, no mais das vezes, não Martinez Zampa (2005, p. 30-31) enume-são explícitos ou mesmo percebidos. A pri- ra 4 tipos diferentes:oridade que se dá para os diferentes con- • Conflito em torno da pluralidade deflitos escolares é um primeiro ponto. Mar- pertencimento: surge quando o docen-tinez Zampa (2005, p. 29) diz que os pro- te faz parte de diferentes estabelecimen-fessores consideram que os conflitos mais tos de ensino ou mesmo de níveis dife-freqüentes e importantes se dão entre seus rentes de ensino.colegas e diretores, colocando em segun- • Conflitos para definir o projeto insti-do lugar de importância os conflitos en- tucional: surge porque a construção dotre alunos. Essa posição não é ratificada projeto educacional favorece a mani-por Oliveira e Gomes (2004, p. 52-53), festação de diferentes posições quantoque descrevem como os docentes vêem a objetivos, procedimentos e exigênci-os valores e violência escolares. Ao se as no estabelecimento escolar.referirem às escolas que foram pesquisa- • Conflito para operacionalizar o pro-das, escrevem: jeto educativo: surge porque, no mo- O clima entre direção, professores e mento de executar o projeto institucio- alunos parecia bastante amistoso. No nal, surgem divergências nos âmbitos entanto, a Associação de Pais e Mestres de planejamento, execução e avaliação, e o Conselho Escolar funcionavam pre- levando a direção a lançar mão de pro- cariamente devido à falta de participa- cessos de coalizão, adesões, etc. ção e envolvimento da comunidade es- • Conflito entre as autoridades formal colar. e funcional: surge quando não há coin- O relacionamento entre os professo- cidência entre a figura da autoridade res parecia muito bom, manifestado, formal (diretor) e da autoridade funcio- inclusive, pelos intervalos muito anima- nal (líder situacional) dos. Segundo informações colhidas, a amizade entre os docentes continuava Os conflitos educacionais, para efeito fora dos muros da escola, nas festas de de estudo, são aqueles provenientes de confraternizações, aniversários, chur- ações próprias dos sistemas escolares ou rascos e outras. oriundos das relações que envolvem os ato- res da comunidade educacional mais am- A leitura externa da comunidade (ci- pla. Certamente poderíamos ainda apon-dadãos e pais) pode achar que profes- tar os que derivam dos exercícios de poder,sores e diretores – profissionais e adul- dos que se originam das diferenças pesso-tos que são –, devam lidar profissio- ais, dos que resultam de intolerâncias denalmente com as possíveis dificulda- toda ordem, os que possuem fundo políti-des que surjam no exercício da ativi- co ou ideológico, o que fugiria do foco prin-dade docente e que os conflitos entre cipal deste trabalho, voltado pela a escolaalunos, e destes com seus professores, e seu entorno. Saindo do universo geral dosé que efetivamente merecem ser vistos conflitos educacionais – enumerados res-como prioridade. tritamente – podemos relacionar os queEnsaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  11. 11. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 21chamaremos de conflitos escolares, por • eleições (de variadas espécies);acontecerem no espaço próprio da escola • viagens e festas./ou com seus atores diretos. • Entre pais, docentes e gestores, por: • agressões ocorridas entre alunos Dentre as classificações possíveis, es- e entre os professores;colhemos adaptar a de Martinez Zampa • perda de material de trabalho;(2005, p. 31-32) para ilustrar o texto. Os • associação de pais e amigos;conflitos que ocorrem com maior freqüên- • cantina escolar ou similar;cia se dão: • falta ao serviço pelos professores; • Entre docentes, por: • falta de assistência pedagógica • falta de comunicação; pelos professores; • interesses pessoais; • critérios de avaliação, • questões de poder; aprovação e reprovação; • conflitos anteriores; • uso de uniforme escolar; • valores diferentes; • não-atendimento a requisitos • busca de “pontuação” “burocráticos” e administrativos da (posição de destaque); gestão. • conceito anual entre docentes; • não-indicação para cargos de Segundo Nebot (2000, p. 81-82), os ascensão hierárquica; conflitos escolares podem ser categoriza- • divergência em posições dos em organizacionais, culturais, peda- políticas ou ideológicas. gógicos e de atores. A seguir, detalhamos • Entre alunos e docentes, por: cada um dos tipos: • não entender o que explicam; • Organizacionais • notas arbitrárias; 1. setoriais: são aqueles se produ- • divergência sobre critério de avaliação; zem a partir da divisão de trabalho • avaliação inadequada e do desenho hierárquico da insti- (na visão do aluno); tuição, que gera a rotina de tare- • descriminação; fas e de funções (direção, técnico- • falta de material didático; administrativos, professores, alu- • não serem ouvidos nos, etc); (tanto alunos quanto docentes); 2. o salário e as formas como o di- • desinteresse pela matéria de estudo. nheiro se distribui no coletivo, afe- • Entre alunos, por: tando a qualidade de vida dos fun- • mal entendidos; cionários e docentes, etc • brigas; 3. se são públicas ou privadas. • rivalidade entre grupos; • descriminação; • Culturais • bullying; 1. comunitários: são aqueles que • uso de espaços e bens; emanam de redes sociais de dife- • namoro; rentes atores onde está situada a • assédio sexual; escola. Rompem-se as concepções • perda ou dano de bens escolares; rígidas dos muros da escola, am-Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  12. 12. 22 Álvaro Chrispino pliando-se as fronteiras (por exem- 3. individuais, que são aqueles onde plo, os bairros e suas característi- a “patologia” toma um membro da cas, as organizações sociais do organização escolar. Neste caso, bairro, as condições econômicas há sempre o risco da estigmatiza- de seus habitantes, etc) ção do membro da comunidade 2. raciais e identidades: são aqueles que é o causador do conflito. grupos sociais que possuem um pertencimento e afiliação que faz a No momento em que realçamos o con- sua condição de existência no mun- flito na escola, gostaríamos de chamar à do. Estes, com suas características atenção a capacidade da escola em per- culturais, folclóricas, ritualísticas, ceber a existência do conflito e a sua capa- patrocinam uma série de práticas e cidade de reagir positivamente a ele, trans- habitus que retroalimentam o esta- formando-o em ferramenta do que chama- belecimento de ensino (por exem- mos de tecnologia social, uma vez que o plo, a presença de fortes compo- aprendizado de convivência e gestão do nentes migratórios na região, etc) conflito são para sempre. • Pedagógicos Por que a mediação do São aqueles que derivam do dese- nho estratégico da formação e dos conflito na escola dispositivos de controle de qualida- Façamos um retrospecto do que foi de e das formas de ensinar, seus ajus- apresentado até aqui a fim de melhor en- tes ao currículo acadêmico e suas caminhar os pontos seguintes. formas de produção (por exemplo, não é a mesma coisa ensinar mate- Até aqui apresentamos as expectativas mática que literatura, e ambas pos- dos estudantes com a ascensão social por suem procedimentos similares, mas meio da educação, sua confiança nos pro- diferentes; a organização dos horá- fessores e na escola, suas dificuldades por rios de das turmas e dos professo- conta da violência que lança seus tentácu- res; as avaliações, etc) los nas escolas e discutimos o conflito em geral e na escola, em particular. Apresen- • Atores tamos a tese onde o conflito surge da dife- São aqueles que denominamos “pes- rença de opiniões e divergência de inter- soas” e que devem ser distinguidos: pretações. Logo, se a escola é o universo 1. em grupos e subgrupos, que ocor- que reúne alunos diferentes, ela é o palco rem em qualquer âmbito (turma, onde certamente o conflito se instalará. E, corpo docente, direção etc) se o conflito é inevitável, devemos apren- 2. familiares, donde derivam as ações der o ofício da mediação de conflito para que caracterizam a dinâmica famili- que esta técnica se aprimore facultando a ar que afeta diretamente a pessoa, cultura da mediação de conflito. podendo produzir o fenômeno de afastamento familiar que acarreta o Chamaremos de mediação de conflito “depósito” do aluno na escola. o procedimento no qual os participantes,Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  13. 13. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 23com a assistência de uma pessoa imparci- as, das ideologias, do poder, da posse, dasal – o mediador –, colocam as questões diferenças de toda ordem; onde as regras eem disputa com o objetivo de desenvolver aquilo que é exigido do aluno nunca estãoopções, considerar alternativas e chegar a no campo do subjetivo ou do entendimen-um acordo que seja mutuamente aceitável. to tácito: estão explícitos, falados e discuti- dos. Em síntese, devemos ser explícitos na- A mediação pode induzir a uma reori- quilo que esperamos dos estudantes e na-entação das relações sociais, a novas for- quilo que nos propomos a fazer.mas de cooperação, de confiança e de so-lidariedade; formas mais maduras, espon- Sobre a gestão destes itens, escrevetâneas e livres de resolver as diferenças Heredia, citando Ray Scanhaltz (apudpessoais ou grupais. HEREDIA, 1998), diretor de programas educacionais de San Francisco: A mediação induz atitudes de tolerân- Pedir aos estudantes disciplina, sem pro-cia, responsabilidade e iniciativa individu- vê-los das habilidades requeridas, éal que podem contribuir para uma nova como pedir a um transeunte que encon-ordem social. tre Topeka, Kansas, sem fazer uso de uma bússola [...]. Não podemos espe- O primeiro ponto para a introdução da rar que os estudantes se comportem demediação de conflito no universo escolar é um modo disciplinado se não possuemassumir que existem conflitos e que estes as habilidades para fazê-lo.devem ser superados a fim de que a escolacumpra melhor as suas reais finalidades. É possível, também pensar na introdu-Há, portanto, dois tipos de escola: aquela ção do tema mediação de conflito no cur-que assume a existência de conflito e o rículo escolar, o que seria uma oportuni-transforma em oportunidade e aquela que dade para verbalizar a questão e tornar cla-nega a existência do conflito e, com toda a ro o que se espera dele – o jovem – nocerteza, terá que lidar com a manifestação conjunto de comportamentos sociais. Deviolenta do conflito, que é a tão conhecida outra forma, é dizer ao jovem e à criançaviolência escolar. que suas diferenças podem transformar-se em antagonismos e que, se estes não fo- As escolas que valorizam o conflito e rem entendidos, evoluem para o conflito,aprendem a trabalhar com essa realidade, que deságua na violência. Cabe ressaltarsão aquelas onde o diálogo é permanente, que esse aprendizado e essa percepçãoobjetivando ouvir as diferenças para me- social, quando ocorrem com o estudante,lhor decidirem; são aquelas onde o exercí- são para sempre.cio da explicitação do pensamento é in-centivado, objetivando o aprendizado da Eis algumas vantagens identificadasexposição madura das idéias por meio da para a mediação do conflito escolarassertividade e da comunicação eficaz; onde (CHRISPINO, 2004):o currículo considera as oportunidades para • O conflito faz parte de nossa vida pes-discutir soluções alternativas para os diver- soal e está presente nas instituições.sos exemplos de conflito no campo das idéi- ‘É melhor enfrentá-lo com habilidadeEnsaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  14. 14. 24 Álvaro Chrispino pessoal do que evitá-lo’ (HEREDIA, • Desenvolve o autoconhecimento e o pensa- 1998 apud CHRISPINO, 2004). mento crítico, uma vez que o aluno é cha- • Apresenta uma visão positiva do conflito, mado a fazer parte da solução do conflito. rompendo com a imagem histórica de • Consolida a boa convivência entre dife- que ele é sempre negativo. rentes e divergentes, permitindo o surgi- • Constrói um sentimento mais forte de mento e o exercício da tolerância. cooperação e fraternidade na escola. • Permite que a vivência da tolerância seja um • Cria sistemas mais organizados para en- patrimônio individual que se manifestará frentar o problema divergência ➔ anta- em outros momentos da vida social. gonismo ➔ conflito ➔ violência. • O uso de técnicas de mediação de confli- Cremos que as vantagens dos programas tos pode melhorar a qualidade das rela- de mediação escolar são bastante numero- ções entre os atores escolares e melho- sas. Apesar disso, poucas são as avaliações rar o “clima escolar”. quantitativas sobre o impacto dos programas • O uso da mediação de conflitos terá con- de mediação de conflito. Kmitta (1999, p. 293) seqüências nos índices de violência con- ensaia um estudo de resultados quantitativos tra pessoas, vandalismo, violência con- a partir de dez programas de mediação esco- tra o patrimônio, incivilidades, etc. lar nos Estados Unidos, que podem indicar • Melhora as relações entre alunos, facul- alguns resultados promissores nesse tipo de tando melhores condições para o bom técnica e nesse esforço de implantação da desenvolvimento da aula. cultura de mediação de conflito. Aponta ele: Resumo de estudos que documentam mediações e porcentagens de êxito NOME ANO DO ESTADO Nº DE ÊXITO ESTUDO MEDIAÇÕES (%) The Ohio Commission on 1990/93 Ohio 256 100 % Dispute Resolution Model School 1993/94 Georgia 126 96,8 % Jones e Carlin 1992/94 Pennsylvania 367 90,0% Judge 1989/90 Ohio 125 100% Hamlin 1993/94 Illinois 47 94,0% Hart 1993/94 Indiana 350 97,0% Carpenter e Parco 1992/94 Nevada 347 86,5% Carruthers 1993/94 Carolina do Norte 841 92,7% Crary 1989 California 96 97,0% Kmitta e Berlowitz 1993/95 Ohio 248 82,2% Totais 2.803 88,5%Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  15. 15. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 25Algumas questões cação e reflexão, em grande parte adapta- dos daqueles apresentados por Schvarsteinnorteadoras para o (1998) e Chrispino e Chrispino (2002):modelo de programa 1. Caráter da Mediação de Conflito: obrigatório ou voluntário?de mediação escolar 2. Alcance da Mediação de Conflito: Todo programa que se proponha a en- Todos os conflitos ou apenas algunsvolver grande número de variáveis, como é conflitos?o caso das escolas, deve ter o cuidado de 3. Ênfase da Mediação de Conflito: Notrabalhar a partir de generalizações. O Pro- produto ou no processo?grama deve comportar-se tal qual um gran- 4. Atores da Mediação de Conflito: todosde e delicado tecido jogado sobre um con- os membros do universo escolar oujunto de peças com contornos distintos. O alguns membros do universo escolar?tecido é o mesmo, mas ao alcançar a peça, 5. Limites da Mediação de Conflito natoma a forma desta! Ele se amolda a cada Escola: sem limites de série, idade,realidade. Com um programa de mediação turno, etc, ou com limites?de conflito escolar não será diferente. 6. Relação da Mediação de Conflito com as Regras Disciplinares: sem relação Nossa pretensão, ao apresentar um ou com relação?conjunto de distintas classificações de con- 7. Relação da Mediação de Conflito comflito foi permitir alternativas para identifica- a Avaliação: sem relação ou com re-ção particularizada de cada contexto esco- lação?lar. Não há receita na mediação de confli- 8. Identificação dos Mediadores deto que possa ser aplicada indistintamente a Conflito: mediação por pares ou ou-escolas diferentes. Cada escola é uma rede tros mediadores?complexa de relações e de valores e, por 9. Escolha dos Mediadores de Conflito: açãotal, merecerá um diagnóstico específico de institucional ou escolha das partes?conflitos e um modelo próprio. 10. Critérios para a Seleção dos Medi- adores de Conflito: desempenho Temos algumas questões que represen- acadêmico ou “respeitabilidade” en-tam eixos padrões de decisão que devem tre os pares?ser atendidos, ou não, no momento em quea escola debate a instalação de um pro- À guisa de conclusãograma de mediação. Enquanto refletimos sobre a validade ou não de um programa de mediação de con- Identificado o tipo de conflito que existe flito, somos visitados por alguns pensamen-em cada escola, a partir das inúmeras clas- tos que estão no imaginário educacional,sificações apresentadas anteriormente, a tais como: não foi para isso que estudei eequipe disposta a implantar o programa de me formei! Não foi para cuidar de proble-mediação de conflito escolar deverá respon- mas de aluno que fiz concurso público! Nãoder a uma série de itens que definirão o tipo sou pago para este tipo de trabalho! Isso éde programa que irão implantar. Escolhe- trabalho de orientador educacional! Estoumos dez itens para este exercício de provo- perto de me aposentar!Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  16. 16. 26 Álvaro Chrispino Não é nossa a proposta de contrapor- que contemplam o “outro lado” e deixarmo-nos a partir de cada uma dessas ex- que cada um reflita e decida. Afinal, pode-pressões. No exercício de controvérsia que mos pensar diferentemente e isso faz partepregamos ao longo deste trabalho, vamos, das relações humanas. Vejamos o que nosmais uma vez, apresentar grandes idéias diz Porro (2004):7 GRANDES MOTIVOS PARA REALIZAR O PROGRAMA DE MEDIAÇÃO:1. a capacitação em resolver conflitos valoriza o tempo;2. a capacitação em resolver conflitos ensina várias estratégias úteis;3. a capacitação em resolver conflitos ensina aos alunos consideração e respeito para com os demais;4. a capacitação em resolver conflitos reduz o estresse;5. possibilidade de aplicar as novas técnicas em casa, com familiares e amigos;6. a capacitação em resolver conflitos que podem contribuir para a prevenção do uso do álcool e de drogas;7. possibilidade de sentir a satisfação de estar contribuindo com a paz do mundo.ReferênciasABRAMOVAY, M.; RUA, M. G. Violências nas escolas. Brasília, DF: UNESCO, 2002.CARREIRA, D. B. X. Violência nas escolas: qual o papel da gestão?. 2005. Dissertação(Mestrado em Educação)-Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF, 2005.CHRISPINO, A. Mediação de conflitos: cabe à escola tornar-se competente parapromover transformações. Revista do Professor, Porto Alegre, ano 20, n. 79, p. 45-48,jul./set. 2004.CHRISPINO, A.; CHRISPINO, R. S. P Políticas educacionais de redução da violência: .mediação do conflito escolar. São Paulo: Editora Biruta, 2002.DEBARBIEUX, E.; BLAYA, C. (Org.). Violência nas escolas: dez abordagens européias.Brasília, DF: UNESCO, 2002.FERNANDES, K. T. O conceito de violência escolar na perspectiva dos discentes. 2006.Dissertação (Mestrado em Educação)-Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF 2006. ,HEREDIA, R. A. S. Resolución de conflictos en la escuela. Ensayos y Experiencias,Buenos Aires, ano 4, n. 24, p. 44-65, jul./ago. 1998.JOHNSON, D. W.; JOHNSON, R. T. Como reducir la violencia en las escuelas. BuenosAires: Paidós, 2004.Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  17. 17. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos de mediação 27KMITTA, D. Pasado y futuro de la evaluación e los programas de resolución de conflitosescolares. In: BRADONI, F. (Comp.). Mediación escolar. Buenos Aires: Paidos, 1999.MARTINEZ ZAMPA, D. Mediación educativa y resolucion de conflictos: modelos deimplementacion. Buenos Aires: Edicones Novedades Educativas, 2005.MOORE, C. W. O processo de mediação: estratégias práticas para a resolução deconflitos. Porto Alegre: ARTMED, 1998.NEBOT, J. R. Violencia y conflicto en los ámbitos educativos. Ensayos y Experiencias,Buenos Aires, ano7, n. 35, p.77-85, sept./oct. 2000.OLIVEIRA, M. G. P Percepção de valores nas escolas pelos docentes de ensino médio. .2003. Dissertação (Mestrado em Educação)-Universidade Católica de Brasília, Brasília,DF, 2003.OLIVEIRA, M. G. P GOMES, C. A. Como os docentes vêem valores e violências .;escolares no ensino médio. RBPAE, Rio de Janeiro, v. 20, n. 1, p. 45-70, jan./jun. 2004.OLIVEIRA, R. B. L. Significações de violências na perspectiva de professores quetrabalham em escolas “violentas”. 2004. Dissertação (Mestrado em Educação)-Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF, 2004.ORTEGA, R.; DEL REY, R. Estratégias educativas para a prevenção da violência.Brasília, DF: UNESCO: UCB, 2002.PORRO, B. La resolución de conflictos en el aula. Buenos Aires: Paidós, 2004.REDORTA, J. Cómo analizar los conflictos: la tipologia de conflictos como herramientade mediación. Barcelona: Edicones Paidós Ibérica, 2004.RIBEIRO, R. M. C. Significações da violência escolar na perspectiva dos alunos. 2004.Dissertação (Mestrado em Educação)-Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF 2004. ,RIO DE JANEIRO (RJ). O jovem, a sociedade e a ética. Rio de Janeiro: IBOPE., 2006.Disponível em: < http://oglobo.globo.com/rio/jovens.ppt >. Acesso em: 9 abr. 2007.SCHVARSTEIN, L. Diseño de un programa de mediación escolar. Ensayos yExperiencias, Buenos Aires, ano 4, n. 24, p. 20-35, jul./ago. 1998.Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007
  18. 18. 28 Álvaro ChrispinoSILVA, M. N. Escola e comunidade juntas contra a violência escolar: diagnóstico eesboço de plano de intervenção. 2004. Dissertação (Mestrado em Educação)-Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF, 2004.VALE, C. M. R. Violência simbólica e rendimento escolar. 2004. Dissertação (Mestradoem Educação)-Universidade Católica de Brasília, Brasília, DF, 2004.Recebido em: 31/10/2006Aceito para publicação em: 5/02/2007Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.15, n.54, p. 11-28, jan./mar. 2007

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