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O Sonho O Sonho Document Transcript

  • Gonçalo Leandro 5/05/2011 1
  • Esta é a história de dois gatos. Mas não pensem quesão dois gatos quaisquer. Não. Eles são os meus gatos echamam-se Cusco e Manhoso. E o meu nome… bem o meunome é Gonçalo. Gonçalo Leandro para ser mais preciso. Tudo começou numa altura em que eu, não sei bemporquê, queria ter um animal de estimação. Parece quenaquela idade tinha um fascínio por animais, especialmentepor cães. Estava decidido. Nunca iria ter um gato. Sei que aminha mãe e o meu pai já tinham tido alguns e que todoseles tiveram um final infeliz. Lembro-me de uma gata cujamorte foi chorada pela minha mãe durante meses. Vi oquão triste a deixara a morte da sua gata, não queria passarpelo mesmo. Nessa altura eu acreditava que ter um animal que mepudesse entender e que quisesse brincar comigo toda a horaera o meu maior desejo. Simplesmente achava que setivesse um animal de estimação, um amigo que estivessesempre disposto a dar-me ouvidos, iria tornar-me numrapaz mais responsável e popular. 2
  • Todos os dias pedia aos meus pais para mecomprarem um cão mas eles diziam-me sempre tentandofugir à conversa: -Logo se vê. Eu não queria que logo se visse, tinha que ser nomomento. Mas bem. Tive que me aguentar e puxar pelapaciência, uma parte muito diminuta da minhapersonalidade. Um dia, quando essa ideia ainda estava bem viva naminha mente, tive um forte pressentimento de que o que euhá tanto tempo desejava, iria finalmente concretizar-se. Odia em que chegaria a casa e iria encontrar um grande cãosentado à porta de entrada que, ao ver-me, viria logo acorrer para junto de mim. Estava com muita esperança porque sempre que tinhaum pressentimento, era hábito este realizar-se. Saí da escola a correr e quando finalmente cheguei acasa não vi cão nenhum. A única coisa que vi à entrada de casa foi umapequena caixa de cartão já velha e estragada colocada sobrea neve. 3
  • Tive um grande desgosto mas sempre mantive aesperança de que o tal dia ainda estaria para chegar. Decidi ignorar a caixa. Sabia que o meu pai logo aretiraria do quintal quando passasse por ali. Mas noinstante em que a contornei, ouvi um miado. Um miadobaixinho e aflito que mais parecia o choro de um bebé.Aproximei-me da pequena caixa de cartão que estavacoberta por flocos de neve e abri-a. Olhei para o seu interiore vi um pequeno gatinho de pêlo comprido e facesarredondadas, os seus olhos azuis reluziam como pequenosdiamantes imaculados. Corri para dentro para avisar os meus pais. Elesvestiram os seus roupões e foram logo a correr para juntodo pequeno gatinho. Olharam para o interior da caixa masnão viram gato nenhum. Ambos ficaram a olhar-me de ladoe pelas suas caras, comecei a imaginar de imediato o queestariam a pensar: -Fizeste-nos vir para a rua neste frio!? Estamos empleno Inverno e ainda por cima estamos de pijama! -Juro que vi aqui um gato. Era pequeno e tinha o pêlomuito comprido. – Disse-lhes eu sabendo que estava lúcidoe que não tinha imaginado gato nenhum. 4
  • Já sabia o que esperar. Por causa daquele maldito gato,eu ia agora ser repreendido. Semicerrei os olhos e encolhios ombros. Olhei de relance para os meus pais e vi-osvirarem-se na minha direcção. Fechei os olhos e pensei: -É agora. Esta vai doer. Já se tinham passado uns quantos segundos. O que seestava a passar? Porque é que ainda não estava a sentir assuas palmadas na minha pele congelada pelo frio? Tinha receio de abrir os olhos mas mesmo assim fi-lo.Olhei em frente e os meus pais já lá não estavam. -Devem estar com frio. – Murmurei. – Devem terdesistido da ideia de me repreenderem e decidiram ir paracasa. Virei-me para trás e vi que não estava enganado. Iamambos a correr em direcção a casa. Mas depois pararam, sentaram-se no pequeno degrauda entrada e disseram: -Parece que ele já fez questão de se hospedar. – Riamenquanto faziam festas num pequeno gatinho de pelocomprido e olhos azuis que se encontrava entre si. 5
  • Nesse dia soube logo que o meu sonho de vir a ter umcão tinha ido por água abaixo. E foi assim que tudo começou. Passaram-se uns quantos meses e eu comecei ahabituar-me à ideia de ter um gato como animal deestimação. Cusco sempre foi um gato muito brincalhão, amistosoe como o seu próprio nome o diz, muitíssimo curioso.Queria estar sempre a par das últimas novidades. Punha-sea cheirar todos os locais por onde passava para tentardescobrir um novo odor que lhe despertasse a atenção. Masnada. Todos os odores que descobria eram-lhe familiares.Apesar de nunca encontrar nada de novo para o seufocinho poder apreciar, isso não o impedia de voltar atentar. Todos os dias procurava, todos os dias cheirava, masnunca encontrava nada. Era também um gato muito teimoso. Eu insistiadizendo-lhe para parar de procurar porque não valia apena, nunca iria encontrar nada. Que poderia eu fazer, ele nunca me dava ouvidos.Estava sempre a ralhar com ele por ser tão teimoso e 6
  • curioso, mas que haveria eu de fazer. Já nascera assim. Nãose pode alterar o que a Natureza criou. Sempre que recebia visitas ou fazia festas em minhacasa, o Cusco metia-se detrás da porta à espera que osconvidados entrassem. Os convidados entravam, olhavam para ele e depoisdiziam sempre a mesma lengalenga – “Que gatinho tãolindo, é um doce de animal”. Se o conhecessem tão bem quanto eu, logo saberiam oporquê de eu estar sempre a franzir a testa quando diziamque ele era um doce de animal. Lá lindo era, mas um docede animal… não me parece. Logo saberiam o porquê de eulhes dizer para terem cuidado com o que diziam. Eraescusado. Cusco com o seu pêlo comprido, a sua caraarredondada, a sua cauda felpuda, e os seus olhinhos azuis,consiga fazer qualquer um apaixonar-se por si à primeiravista. Lembro-me muito bem de um dia em que os meuspais tinham decidido celebrar o meu décimo segundoaniversário em casa. Eu odiava quando faziam isso, dizia-lhes sempre: 7
  • -Porque não posso antes ir ao cinema com os meusamigos!? Porque tenho eu de aturar os beijos molhados e osapertos de mão estranguladores dos tios e dos avôs? Porquenão me deixam celebrar o meu aniversário à minhamaneira?! Porque tem que ser sempre tudo como vocêsquerem? Era desnecessário, não valia a pena usar a minhacultura em argumentos inúteis. Sei que sim. Sei que tinhaque ser sempre tudo à maneira dos meus pais, nunca àminha. Achavam que era irresponsável da sua parte se medeixassem ir passear sem a sua super vigilância. Eu pedia-lhes sempre uma oportunidade para poder provar queaquilo que diziam era mentira; que eu já era crescido e quesó precisava que me dessem uma oportunidade para poderdemonstrar o que dizia. E eles lá me diziam fitando-se um ao outro como sefalassem por código: -Nós acreditamos em ti. Sabemos que és responsável eque já não és nenhuma criancinha. Nós só não queremosdeixar-te ir porque ambos sabemos que te podes perder eque existem por aí muitos rufias capazes de te magoar. 8
  • Sabia que tinham ganho a discussão. Se argumentassemais alguma desculpa para tentar festejar o meuaniversário à minha maneira, sem que eles estivessemsempre a vigiar-me como se fossem duas aves de rapina,teria levado uma bela palmada. Ou pior ainda, ficar semjogar “Playstation” durante uma semana – era o castigomais provável e habitual - isso sim, isso seria um castigobem pior do que levar umas boas palmadas. Que mais poderia eu fazer a não ser refugiar-me nomeu quarto. Ao menos sabia que estaria lá o Cusco à minhaespera. Sabia também que ele se sentia triste quando me viatriste e isso deixava-me ainda mais triste. Pelo que, antes deabrir a porta do quarto, limpava sempre as lágrimas paraque ele não me visse a chorar. Odiava vê-lo triste por minhacausa. Nessa mesma noite, nesse mesmo aniversário saí doquarto seguido por Cusco e desci as escadas para receber osconvidados. Lembro-me muito bem do momento em quepisei o primeiro degrau e qual foi a minha surpresa quandovi que os meus primos também tinham vindo. Tínhamos osmesmos gostos e dávamo-nos sempre muito bem. Desci asescadas a correr e por pouco não me estatelei nos últimosdegraus. 9
  • Se não me falha a memória, todos eles vestiam longoscasacos e usavam cachecóis. Devia estar mesmo muito frio.Afinal, estávamos já no Inverno e o canal de meteorologiaprevira grandes nevões para aquela semana. Cumprimentei os meus primos – tantas saudades queeu tinha deles – e depois o resto da família. Como é óbvio, Cusco seguiu-me e foi fazer o seu ritualdo costume, cheirar os recém-chegados - digamos que essaera a sua maneira de receber as visitas. Também sabia que ele não iria ficar por ali. Sabia queele tinha alguma na manga… e não é que tinha mesmo. Quando a minha tia se agachou para lhe dar umafestinha, adivinhem o que ela disse. Como já era de esperar,contribuiu para a divulgação da lengalenga já tão bemconhecida: -Que gatinho tão lindo, é um doce de animal. E lá pensei eu para mim: -Será que todas as pessoas que viam o pobre animal -que de pobre não tinha nada pois no Natal até recebia maispresentes do que eu - tinham que dizer sempre a mesmacoisa? 10
  • Será que nunca ouviram aquele provérbio que diz:“Nunca julguem um livro pela capa”? Sabia que ela não me iria prestar atenção. Mesmoassim achei melhor avisá-la. Eu, por outro lado, quando vira aquele gato pelaprimeira vez há já uns quantos meses atrás, soube logo queele era matreiro. Ele a mim não me enganava com aquele arfofo e com os seus grandes olhos azuis. E não é que acertei? Todos os que o viam diziam-meque era um sortudo por ter um gato como aquele. Eu bemlhes dizia que aquela história estava muito mal contada. Elenão era nada do que pensavam. A minha tia foi uma das que não quis acreditar emmim. No momento em que ela lhe fora fazer a tal festinha,ele atirou-se para cima da sua cabeça com as garras bemafiadas e sobressaídas. A coitada nem teve tempo de reagir.Ele era um daqueles gatos que adoravam todo o tipo debrinquedos, quer seja um rato de brincar, um novelo de lãou até mesmo a peruca da minha tia. Eu ri-me. Tinha-a avisado acerca das consequênciasmas ela não quis saber. 11
  • Os meus pais repararam e começaram a ralhar comigo.Era impossível não rir numa situação daquelas, mesmoimpossível. Ela tinha ficado careca de um momento para ooutro. Recordo-me muito bem de ter ficado de castigodurante o resto do dia. Tive que ir para o meu quarto queficava no segundo andar e nem pude provar o deliciosojantar que a minha mãe preparara. Como sempre, Cuscoacompanhou-me. Conseguia ver lacunas de satisfação nosseus bigodes e no seu focinho empinado. -Isto é tudo culpa tua! – Disse-lhe enquanto subíamosos degraus de madeira que chiavam a cada passo quedávamos. – Agora, vou ter que passar o resto do meuaniversário fechado no quarto, não vou poder estar lá embaixo a conversar com os meus primos e nem vou poderfestejar o meu próprio aniversário. Não me ligou nenhuma. Como sempre, fez de contaque não era nada com ele e virou-me as costas. -Nem sabes a sorte que tens! – Pensei eu cá para mim.Entrei no meu quarto e fechei-lhe a porta mesmo diante dofocinho. 12
  • Como é que aquele gato poderia ter o descaramento dequerer entrar no meu quarto depois do que me fizerapassar. Nem pensar. Recostei-me sobre a minha cama. Passado um pouco, comecei a ouvir grandesgargalhadas vindas do andar de baixo. Estavam todosmuito alegres, já se deviam ter esquecido do aniversarianteabandonado – Eu. Apesar de estar muito frustrado, decidi não pensarmais no assunto. Logo iria ver se os meus pais teriam a latade me vir pedir desculpa. Não tinha sido o único a rir-me,os meus primos também se riram e a eles não fizeram nada. Fixei os olhos no tecto e comecei a imaginar como seriater uma vida longe daquela família, longe daquela injustiça,longe daquele gato descarado. Tentei imaginar-me emdiferentes situações mas em todas elas aparecia o meumaior amor-ódio, o Cusco. Deixei esses pensamentos departe e comecei a pensar como seria se em todo o Universo,só existíssemos eu e ele? Como seria a vida se sóexistíssemos nós os dois? Ele não teria ninguém paraenganar e eu não teria ninguém para me meter de castigo. 13
  • Penso que poderíamos viver em paz, mas só por unstempos. Esses pensamentos desvaneceram-se logo na minhacabeça assim que ouvi um som muito semelhante a umramalhar vindo de um dos cantos inferiores da porta. Fuiver o que seria. Abri a porta muito devagar na esperança de quefossem os meus primos. Olhei em redor mas não avisteininguém. Depois olhei um pouco mais para baixo e láestava Cusco. Tocava-me levemente com a pata miandobaixinho. Olhei-o de lado durante instantes e pensei: -O que fazes tu aqui, vens pedir desculpa? Não sei sete perdoo. – Começou a olhar-me com aqueles olhinhos quecostumava fazer quando estava muito triste ouarrependido. – Vá, entra. Eu desculpo-te. Comecei a ouvir, vindos do andar de baixo, pequenossussurros que pareciam dizer como a comida estavaagradável e como tinham adorado o tempo ali passado.Imagino que sim. De mim ninguém se lembrou. Ouvi aporta de entrada fechar-se e, momentos depois, fez-sesilêncio. 14
  • Regressei ao meu quarto e tranquei a porta. Coloquei-o no meu colo e sentei-me na extremidade dacama. Ele parecia perceber o quanto eu estava a sofrer por terque passar ali o meu aniversário. Era um dia muitoespecial, era um dia em que se celebrava o meu nascimento,um dia que só é comemorado uma vez por ano. O pior detudo é que aquele era o aniversário mais importante detodos! Era o aniversário em que se comemorava os meusdoze anos. Sentado sobre as minhas pernas dormia Cuscoronronando. Comecei a chorar. Mas por que é que euhaveria de passar o meu aniversário com um gato? Umalágrima caiu-lhe sobre o pêlo. Ele acordou e fitou-me derelance. Fez de novo aqueles olhinhos que só ele sabia fazer. Fixei nele o meu olhar: -Não faças isso agora. Assim deixas-me ainda maistriste! Ele soltou um pequeno miado e pouco depois,começou a lamber-me as mãos. 15
  • -Não sei como é que consegues ser tão temperamental.Numas vezes viras-me as costas, noutras lambes-me! És umgato muito estranho, sabias? – Murmurei pensando quetalvez ele me fosse entender. E não é que entendeu mesmo! E até pareceu ter levadoa mal. Pôs-se em posição de ataque e depois atirou-se paracima de mim. Como se atrevia ele a atacar-me depois dasituação em que me tinha posto? Dei-lhe uma pequena bofetada mas imediatamente mearrependi. Nunca gostei de lhe bater, apesar de às vezessaber que ele bem merecia umas belas palmadas. Lembro-me muito bem de ter lido um livro da biblioteca da minhaescola que era sobre animais de estimação mas só falava degatos. Dei-lhe uma rápida vista de olhos e em quase todasas páginas li que os gatos não aprendem nada se lhesbatermos, apenas ficam muito amuados e tristes connosco. Pela maneira como ele me fitou, vi que não tinhaficado nada satisfeito e que se sentira da mesma maneiraque como o livro dizia. Não gostei nada de lhe ter batido e aposto que nem elegostou. -Desculpa. – Disse eu fazendo-lhe festas. 16
  • Deitei-o sobre a cama e comecei a esfregar-lhe abarriga freneticamente. Sabia que era aí onde ele sentiamuitas cócegas. Ambos riamos, eu ria à minha maneira eele à sua. Estávamos já muito cansados de tanto brincar.Olhamo-nos nos olhos durante instantes. Depois fechámo-los e deixámo-nos dormir. Comecei a sonhar. E penso queCusco também. Normalmente, quando me deitava juntodele, tinha sempre sonhos em que ambos aparecíamos. Oestranho é que isso nunca acontecia quando ele não estavapor perto. Acordávamos quase sempre à mesma hora equase sempre ele ficava a olhar para mim estupefacto comose estivesse a sorrir. Sei que quando o sonho não era lámuito bom, ele acordava, virava-me as costas e saia doquarto abanando o rabo. Penso que o que nos permitiaconviver juntos no mesmo sonho era o forte laço deamizade que nos unia. Porque sim. Porque apesar de nem sempre nos darmosbem e por quase sempre achar que ele era um gato matreiroe aldrabão, sabia que ambos sentíamos um grande amor euma grande amizade um pelo outro. E estes sentimentoseram sentimentos que não se demonstravam muito nonosso dia-a-dia mas sim, nos nossos sonhos. Desde que me 17
  • apercebi que ambos partilhávamos este dom, decidiaproveitá-lo ao máximo. Durante as noites que sesucederam, começámos a dormir juntos, começámos apoder voar em conjunto, começámos também a poder darlongos passeios pelos parques (coisa impossível na vidareal devido aos cães que por lá andavam) e a puder rebolarpor grandes colinas verdejantes e floridas. Mas um sonho que nunca esquecerei, foi o sonho destedia, o dia do meu décimo segundo aniversário. Foi o sonhoem que conhecemos mais alguém. Coisa rara, pensávamosque só nós tínhamos esta habilidade mas parece queestávamos enganados. Nesse mesmo sonho apareceu também um gato. Masum gato muito diferente de Cusco. Deveriam teraproximadamente a mesma idade. À primeira vista,pareceu-me um gato vadio. Tinha o pêlo curto e negro, umacauda comprida e os seus olhos eram amarelo-torrados. Também ele pareceu muito admirado por nos ver ali. Ajoelhei-me e comecei a chamá-lo. Fiz pequenosgestos com as mãos para o tentar atrair. Notei que ele tinhaar de ser um gato abandonado, um gato triste e solitário. 18
  • Olhava-nos de lado pensando se seriamos amigos ouapenas intrusos no seu sonho. Não sei lá muito bem porquê, mas quando eu e Cuscosonhávamos, imaginávamos sempre sítios bonitos, sítios aoar livre, sítios em que na vida real nunca poderíamos estarou até mesmo conviver. Quase sempre sonhávamos comgrandes parques verdes nos quais podíamos fazer todo otipo de brincadeiras. O que eu estou a querer dizer é que todos os sonhosque tínhamos provinham da nossa imaginação e acho quenenhum de nós poderia ter imaginado um sonho comoaquele. Encontrávamo-nos numa pequena rua com umaspecto abandonado. As casas não tinham portas, os vidrosdas janelas estavam partidos, as paredes rachadas assimcomo a estrada. Os caixotes de lixo transbordavam. No geral, acho que posso dizer que aquele era um sítiotriste, um sítio sem vida, um sítio cheio de mágoa e solidão.O ar estava impregnado por um suave odor a ovos podres,um odor a enxofre. Olhei Cusco nos olhos e apercebi-me que ambospartilhámos a mesma ideia: Aquele não era o nosso sonho. 19
  • Tínhamos ido parar ao sonho daquele gato preto. -Mascomo? – Era a pergunta que se fazia soar nas nossas mentes. Decidi não ir ter com ele. Penso que seria mal-educadoda minha parte visto que não sabíamos nada acerca daquelegato e nem acerca dos seus sonhos. Decidi examinar por instantes a pequena ruela ondenos encontrávamos. Quando olhei novamente para Cusco,este fixava o olhar no outro gato. -Que foi? – Perguntei-lhe sem obter resposta. Ambos os gatos se entreolhavam. Pareciam conhecer-se há já muito tempo. Como já era costume, Cusco empinou o focinhotentando cheirar algo de novo. Finalmente descobrira o tal cheiro que há tantoansiava encontrar. O seu pêlo eriçou-se e ele começou asaltitar. Correu em direcção ao outro gato e quando láchegou começou a cheirá-lo. Levei as mãos à cabeça e pensei: -Porque será que este gato tem sempre estas manias?Será que não consegue tentar ser um gato normal como 20
  • todos os outros gatos pelo menos uma vez na vida. Mas queposso eu fazer? Ele nunca bateu lá muito bem dos carretos. Ordenei a Cusco que parasse mas ele não me deuouvidos. O outro gato pareceu não se importar muito ecomeçou também a cheirá-lo. -Afinal já não és o único, meu amigo, parece queconseguiste encontrar a tua alma gémea. – Sei que Cuscoconseguiu entender-me quando disse isto pois fitou-me desoslaio e eu consegui notar felicidade no seu olhar. Sei que o outro gato também o sentiu. Sei que sentiu amesma ligação que Cusco sentira, pois o sonho começou atornar-se, de uma certa maneira, mais alegre e harmonioso. Desviei o meu olhar dos dois gatos e observei emredor. A pequena rua ia, aos poucos, transformando-senum local sem lixo, sem vidros partidos, sem rachas nasparedes. Debaixo dos meus pés, por entre o alcatrão,começaram a brotar pequenos rebentos de todo o tipo deplantas. Todos os edifícios começaram a ficar cobertos porgrandes e vistosas trepadeiras. Os passeios transformaram-se em pequenos e cristalinos ribeiros. Árvores enormes 21
  • irromperam de todos os cantos e as suas copas atingiram asnuvens. Aquele local ficou soberbo, magnífico. Quem diria queuma tão pequena e suja rua pudesse dar origem a uma tãoimponente e magnífica floresta. Fixei novamente o meu olhar em ambos os gatos masquando o fiz, eles já lá não estavam. O local onde sesituavam estava cercado por grandes arbustos que meimpediam de ver fosse o que fosse. Eu estava no meio de um labirinto. Um labirinto doqual não conseguia ver escapatória possível. De repente surgiu uma pequena sombra mesmo àminha frente. A sombra aproximou-se e vi que era o gatopreto. Deveria querer brincadeira. Desatei a correr atrás dele e quando o estava quase aalcançar… desapareceu. -Ele ainda agora aqui estava. Onde se terá metido? –Pensei. Olhei em redor mas já não o consegui ver em ladonenhum. Detrás de mim, soou um pequeno “Miau”. 22
  • Fui ver o que seria e foi então que vi ambos os gatos aobservarem-me. Mas como era possível. Ainda agoraacabara de desaparecer diante de mim. O gato pretopareceu esboçar um pequeno sorriso de satisfação. -És um gato muito matreiro. – Disse-lhe – Voucomeçar a chamar-te Manhoso. Espero que não te importes. E assim foi. Passámos todo o dia – ou sonho – a brincarpor entre aquela gigantesca floresta. Brincámos às escondidas, à apanhada e à brincadeirapreferida de Cusco, às cócegas. O sol já se punha. Estávamos estafados de tanto brincar e decidimosrelaxar um pouco sobre aquela relva fresca acabada denascer. Eu e Cusco começámos a desenvolver uma enormeamizade para com aquele gato. Naquele momento único,naquele pôr-do-sol, sentimo-nos como se já nosconhecêssemos há muito tempo. Os laços de amizade que criei para com aqueles doisgatos foram laços que nunca criei com mais ninguém, nemmesmo com colegas ou até com os meus primos. 23
  • -O que achaste deste sonho, Cusco? - Perguntei ao meujá tão conhecido companheiro. – Não achas que foi omelhor de todos? Cusco grunhiu notando-se em si um tom alegre, umtom de alguém que acabara de fazer um amigo para toda avida. -Eu penso o mesmo. – Afirmei. – Espero que isto durepara sempre. Quando acabei de proferir estas palavras, apercebi-mede que aquele nosso desejo era impossível de se concretizar.Estávamos num sonho. Como seria possível fazer com queaquela amizade pudesse durar para sempre. Era impossívele nenhum de nós podia fazer nada para o alterar ou evitar. Comecei a sentir-me muito triste e apeteceu-mechorar. Não consegui. O meu corpo perdera todas as suasforças. Comecei por me sentir pesado, depois senti preguiçae por fim sono. Fechei os olhos e adormeci. Comecei a sentir algo a saltar sobre mim. Acordeimuito preguiçosamente e bocejei. Depois vi que era Cuscoquem me acordara: 24
  • -Sai daqui. Sai, não me chateies! – Disse-lheescondendo-me debaixo dos lençóis. Tentei adormecer de novo mas não consegui. Nãosabia bem porquê mas depois lembrei-me. Dei um sobressalto e olhei em redor tentandovislumbrar a maravilhosa floresta onde eu, Cusco e o outrogato brincávamos antes de termos adormecido. Apercebi-me que tudo aquilo tinha sido apenas umailusão, mais um simples e inútil sonho. Os sonhos sempreforam e sempre serão apenas mundos imaginários. Olhei para Cusco e as lágrimas começaram aescorrerem-me pelas faces. Comecei a notar em si tristeza. Deitei-me ao seu lado e disse-lhe: -Não fiques assim. Tu sabes que os nossos sonhos,apesar de muito reais, nunca poderiam tornar-se realidade. Cusco olhou para mim e miou. Depois desviou o olharna direcção da porta e eu fui abri-la. Ambos saímos para o corredor e o Cusco sentou-se ameu lado olhando para a porta de entrada. Pouco depois a maçaneta rodou e a porta abriu-se. 25
  • Vi pequenos flocos de neve a entrar para o interior earrepiei-me quando senti uma brisa gélida subir as escadas. Olhei novamente na direcção da porta de entrada e omeu olhar deparou-se com um vulto envolto por umcomprido sobretudo. Depois o vulto virou-se na minha direcção, tirou ocapuz da cabeça e disse-me: -Olha o que tenho aqui. – Vi que era a minha mãe.Devia estar arrependida depois do que me fizera na noiteanterior e decidiu compensar-me pela manhã. Cusco olhou para mim e senti o que ele queria dizer.Queria dizer-me apenas que continuava triste e que não erauma simples prenda de aniversário que me iria alegrar.Não que ele quisesse que eu me sentisse mal comigomesmo. Apenas queria que eu não esquecesse aquelesmágicos momentos que tínhamos passado com Manhoso.Sabíamos que haviam sido muito poucos mas tambémsabíamos que tinham sido aproveitados ao máximo,tinham-se tornado especiais, únicos. Depois o Cusco fixou novamente o seu olhar na minhamãe. Mas desta vez estava contente. O seu pêlo eriçou-se e 26
  • o seu focinho parecia querer saltar de alegria. Sentia-secomo se sentira quando conhecera Manhoso. Olhei também para a minha mãe. Vi-a a abrir o fechodo longo sobretudo e olhando para o seu interior disse: -Espero que gostes. É um pouco pequena mas aquiestás muito melhor do que na rua. De dentro do casaco saltou um gato preto. Um gatoque à primeira vista me pareceu muito familiar. Eu e Cuscoentreolhámo-nos e esboçámos um largo sorriso. Ambos tivemos a mesma ideia. Queríamos ir receber onosso já tão conhecido amigo. O Manhoso. Descemos as escadas a correr e quando chegámosperto de Manhoso, atirámo-nos contra ele de braçosabertos. -Ui. Ainda agora ele chegou a casa e vocês já o estão aassustar. Eu e Cusco olhámo-nos e rimo-nos. Como sempre, euri-me à minha maneira e ele à sua. Eu sei e Cusco também o sabia. Nós não o estávamos aassustar. Já o conhecíamos e ele já se tinha tornado ummembro oficial desta família. 27
  • Depois apercebi-me do enorme erro que cometera. Dasterríveis coisas que dissera a Cusco: “-Não fiques assim. Tu sabes que os nossos sonhos,apesar de muito reais, nunca poderiam tornar-serealidade.” Como fui eu capaz de lhe dizer aquilo? Como fuicapaz de lhe dizer que os sonhos não se podem tornarrealidade. Como pude ter sido uma tão má pessoa e um tãomau amigo? Naquele momento o Cusco sabia e sempre soube quetodos os nossos sonhos, apesar de ilusões vindas da nossaimaginação, têm o poder de se concretizar. Só precisamosde batalhar e de continuar a acreditar. Acreditar em nós.Acreditar que tudo é possível. Não existem barreirassuficientemente fortes para nos impedir de continuar alutar pelo que queremos, pelo que desejamos, pelos nossosobjectivos. Esta é uma das razões pela qual eu adoro e sempreadorei Cusco. Ele nunca deixou de acreditar. Nunca deixoude cheirar. Todos os dias acordava e ia vaguear por toda acasa à procura de um novo odor. Podia ser um gatomatreiro e muitíssimo curioso mas era também um gato 28
  • muito amoroso e além de tudo um guerreiro, um lutador.Conseguira sobreviver a um Inverno gelado, um dos maisfrios de sempre, quando ainda era um pequeno gatinho, umgatinho que procurava encontrar o seu lugar e o seuconforto junto de uma família que o acarinhasse e que lhedesse todo o amor do Mundo. Era assim que eu via Cusco. Como um amigo queestaria sempre a meu lado nos momentos mais difíceis eque estaria sempre lá para me acordar ou até mesmo paraconversar comigo quando mais ninguém o quisesse fazer. O dia em que Manhoso entrou em nossa casa foi o diaem que tomou o seu lugar na família. Todos os dias depois da escola, quando chegava acasa, ia brincar com o Cusco e com o Manhoso.Aproveitávamos sempre ao máximo o tempo quepassávamos juntos. Para nós, a altura mais valiosa do diaera quando a noite se instalava. Quando chegava a hora denos irmos deitar. Todas as noites dormíamos juntos e todas as noitessonhávamos com novos mundos mágicos nos quaisfazíamos todo o tipo de brincadeiras e travessuras. Lembro-me de que em alguns desses sonhos, Cusco e Manhoso 29
  • uniam forças e faziam a minha parte do sonho tornar-senum completo pesadelo. As suas travessuras manifestavam-se das maisdiversas maneiras. Podiam ir desde a cair-me umamontanha de peixes em cima até a vir um enorme grupo deratos atrás de mim. Mas enfim, fizessem o que fizessem, eu nunca os iriacastigar por isso. Afinal, estávamos a sonhar. Quandoacordasse não iria estar coberto de ratos e nem cheiraria apeixe podre. Por isso não me importava. Se isso os faziasentirem-se felizes então também eu me sentia feliz.Aqueles dois gatos eram tudo para mim. Os anos foram passando. As nossas brincadeirastornaram-se cada vez menos habituais assim como osnossos sonhos. Eu cresci, tornei-me num adolescente e como todos osadolescentes, comecei a sair. Deixei de ser aquela criançaque adorava sonhar, que adorava imaginar e até mesmovoar. Comecei a sentir-me cada vez mais distante dos meusdois amigos. Comecei a sentir a nossa amizade perder o seuvalor. 30
  • Cada vez mais comecei a ignorar os pedidos de Cuscoe de Manhoso para participar nas suas brincadeiras. Deixeide brincar às escondidas e até mesmo à brincadeirapreferida de Cusco, às cócegas. Quando entrei para a Universidade tive que deixar osmeus fiéis companheiros com os meus pais. O apartamentoque alugara não permitia a entrada ou a residência deanimais de estimação. Apesar de tudo, todos os fins-de-semana ia visitar osmeus pais e os meus dois amigos. Passado algum tempo, também as visitas se foramtornando cada vez menos habituais. Certo dia, estava eu dentro da sala de aula quando omeu telemóvel começou a tocar. Coisa rara de acontecer. Pedi autorização para sair da aula e poder atender.Quando cheguei ao corredor, olhei para o ecrã e vi onúmero de telefone da casa dos meus pais. -O que terá acontecido? Nunca costumam telefonar-me em tempo de aulas. – Pensei. Atendi e fiquei em choque quando ouvi a minha mãe,muito histericamente, dizer-me: 31
  • -Vem depressa, o Manhoso está muito mal. Tens quelevá-lo ao veterinário. Nem consegui regressar para a sala de aula. Aslágrimas escorriam-me pela cara. Quando cheguei a casa, deparei-me com a minha mãeà porta de entrada com o Manhoso nos braços. Ela estavapálida. Não reagiu à minha chegada. Corri na sua direcçãoe tomei Manhoso nos braços. Ele olhou para mim, mioubaixinho e depois soltou o seu último suspiro. Perdi as forças, o meu corpo ficou inerte. Ajoelhei-mee apertei o Manhoso contra o peito. Cusco correu na nossa direcção miando alto. Nemconsegui olhar para ele. Como é que iria explicar-lhe que oseu amigo já não poderia mais brincar connosco, como éque iria explicar-lhe o facto de os nossos sonhos nunca maispoderem ser partilhados com Manhoso? Quando o Cusco chegou perto de nós coloquei o corpode Manhoso, já sem vida, no chão. Cusco olhou na suadirecção e depois olhou para mim. Quando se apercebeu dosucedido olhou novamente para Manhoso. 32
  • Fui incapaz de lhe dizer fosse o que fosse. Não tivequalquer reacção quando vi Cusco aproximar-se dele. Sóquando ele começou a amassar o corpo de Manhoso e amiar baixinho aos seus ouvidos é que me desfiz emlágrimas. Cusco rugia como um leão. Como poderia o seu amigoestar morto. Como é que isso fora possível. Ainda tinhammuitos sonhos para partilhar e muitas brincadeiras paraconcretizar. O dia tornou-se triste e cheio de mágoa. Fez-merecordar o sonho em que conhecemos Manhoso. Manhoso foi enterrado no nosso quintal junto de umamacieira que ele adorava trepar. A morte de Manhoso fora um grande choque paratoda a família e eu decidi mudar-me para casa dos meuspais durante uns tempos. Cusco e eu sempre adorámos sonhar juntos masambos tínhamos decidido nunca mais sonhar. Apesar deem sonhos podermos fazer tudo aquilo que nos apetecesse,as coisas tinham mudado. A morte de Manhoso não sódeixou um enorme vazio nos corações de todos nós comotambém deixou para trás um vazio nos nossos sonhos. 33
  • Eu e Cusco bem tentámos partilhar sonhos umasquantas vezes mas sempre que o fazíamos o sonhodesvanecia-se e acordávamos. Ambos sabíamos a razão dosucedido, estava bem clara nas nossas mentes. O Manhosoera indispensável para podermos sonhar. Aquele gato pretode olhos amarelo-torrados dava alegria aos nossos sonhos.Desde o dia em que o conhecemos tudo tinha mudado. Eletrouxera, para esta família, alegria e felicidade. A dupla queeu e Cusco formávamos tinha ganho um novo elemento.Um elemento que instalou o seu amor nos nossos coraçõesde maneira a que nunca pudesse ser apagado ousubstituído. Estávamos na Primavera, já se tinham passado unsquantos meses depois da morte de Manhoso. Cusco já não era aquele gato jovem cheio de energia eadrenalina. Estava a ficar velho. Os anos que passaramatingiram-no de tal forma que ele mal se conseguia mexerdurante os meses mais frios. A idade impedia-o de trepar àsárvores e os seus ossos também já não eram os mesmos. Jánão tinha aquele andar vaidoso e glorificante. Tinha umandar desengonçado, cambaleante, um andar muitosemelhante àquele de quando ainda era um pequenogatinho, de quando ainda era bebé. Também perdera 34
  • aquele espírito jovem, extrovertido e brincalhão, tinhaagora um espírito mais descontraído e calmo, um espíritosábio e sereno. Nunca me esquecerei daquela Primavera, foi a estaçãoem que Cusco partiu. A época em que faleceu. Tudo aconteceu um dia, quando entrei em casa ediante de mim, no chão, encontrei Cusco a contorcer-se.Tinha perdido o controlo da bexiga. Debatia-se e lutavapela vida que não queria abandonar. Agachei-me e acariciei-o. Ele retribui-me com umolhar. Um olhar suplicante que implorava por respostas.Um olhar que parecia querer dizer: -Por que me está acontecer isto? Não percebo. Porfavor, ajuda-me. Eu não sabia como ajudá-lo. Não sabia o que fazer. Agarrei na sua manta preferida e embrulhei-o com ela.Encostei-o ao peito e fui directo para a clínica veterinária. Quando lá cheguei, ultrapassei todos os pacientes eexigi atendimento imediato a uma das funcionárias. Elaapercebeu-se do meu estado e não perdeu tempo aencaminhar-me ao consultório. 35
  • O veterinário examinou-o, suspirou e depois deu-me amá notícia: -Ele está a sofrer muito. Não há nada a fazer. Possotentar fazer com que ele sobreviva durante mais alguns diasmas ele irá estar com muitas dores. Olhei Cusco nos olhos durante algum tempo e encosteia boca ao seu ouvido: -Os sonhos são algo poderoso, estão repletos de coisasboas. Foste tu quem me ensinou isso. Esta nossa jornada foi,e sempre será, um sonho tornado realidade. Irei sentirmuitas saudades tuas companheiro. Nunca te esqueças quesempre terás um lugar dentro do meu coração. Manhosoestá à tua espera para poderem brincar, correr e saltar. Estáansioso para que possam fazer todo o tipo de brincadeiras etravessuras. Sinto muito por vos ter abandonado nos vossosmomentos finais, por vos ter ignorado quando maisprecisaram de mim. Espero que me perdoes amigo. Desviei o meu olhar de Cusco e limpei as lágrimas.Virei-me para o veterinário e disse-lhe: -Não quero que ele tenha dores. Não quero que soframais. 36
  • Apertei o Cusco nos braços e acariciei-o. O veterinário preparou a injecção e Cusco começou aarranhar-me tentando soltar-se. Assim que sentiu apicadela, Cusco rugiu aterrorizadamente e olhou para mimcom o olhar suplicante como se estivesse a dizer: -Porque fizeste isto? Já não me amas? Depois fechou os olhos e partiu. Nunca esquecerei aquele rugido. Irei recordá-lo parasempre. Sei que fiz o mais acertado mas também sei queCusco era um guerreiro, um batalhador. Ele não queriadesistir assim. Queria provar-me que ainda não estavaacabado, que ainda conseguia correr e trepar às árvorescomo dantes, que ainda tinha muito para demonstrar. Enterrei-o ao lado de Manhoso, debaixo da mesmamacieira. Poucos dias depois, quando ainda me sentia muitoafectado pela morte de Cusco, fui ao local de trabalho domeu pai, uma pequena e modesta livraria cuja clientela eramuito reduzida. 37
  • Assim que lá entrei, puxei um pequeno banco demadeira e sentei-me debruçando-me sobre uma antigaescrivaninha. Comecei a pensar nas brincadeiras que nós os trêsfazíamos e isso deixou-me alegre. Mas quando essespensamentos se desvaneceram comecei a chorar. De repente as portas e as janelas abriram-sebruscamente e um forte vento fez-se sentir por toda alivraria. Do topo de uma estante de livros caiu umapequena folha de papel com algo escrito. Agarrei-a e li-a: “Nós, Cusco e Manhoso, oferecemos-te este pequenotexto em nome da nossa eterna amizade, em nome de tudoaquilo pelo que passámos: As nossas vidas junto de ti foram felizes e risonhas.Queremos dizer-te que o mais importante para nós foipoder conquistar a tua confiança e o teu amor. Podermosoferecer-te a nossa lealdade foi tudo o que semprequisemos. Não damos valor a posses materiais. A única 38
  • coisa que ambos possuímos e à qual damos mais valor quetudo o resto, é ao teu amor, o amor que nos ofereceste, umamor que irá prevalecer nos nossos corações para todo osempre, o amor de um dono que não nos poderia ter amadomais. Não te sintas triste, pois agora estamos felizes, nãosentimos dor nem desconforto. Sentimo-nos jovens como hámuito não nos sentíamos. Agora podemos brincar semparar. Agora somos livres para podermos correr e saltarcom o vento a bater-nos nos bigodes e a relva a fazer-noscócegas nas patas. Aqui, neste paraíso, ansiamos a tuachegada. Ansiamos poder partilhar de novo, em conjunto,os nossos sonhos. Sabemos que, porque partilhámos tantascoisas juntos, não quererás viver o resto da tua vida com acompanhia de outro animal. Quando tomares essa medidalembra-te. Lembra-te de não te privares do amor e daamizade que outro companheiro te poderá trazer. Nãopenses que assim poderias estar a substituir-nos porqueisso é impossível. Aquilo que nós partilhámos foi e sempreserá algo insubstituível, algo que nunca será esquecido pornenhum de nós. Nunca digas que nos abandonaste nosmomentos mais difíceis porque tu não o fizeste. Tu fizesteamigos, tu descobriste o poder do verdadeiro amor, tuconheceste tudo aquilo que as pessoas têm de bom para 39
  • oferecer. Não nos poderias ter deixado mais orgulhosos!Sempre estiveste connosco nos momentos mais difíceis esempre quiseste ouvir as nossas conversas. Acima de tudo lembra-te, querido amigo, queestaremos sempre contigo, estaremos sempre no teucoração, na tua mente e nas tuas memórias. Dizemos istopois aquilo que partilhámos foi algo especial, é-o hoje, sê-lo-á amanhã e para todo o sempre. Se alguma vez sentiresuma pata tocar-te de madrugada ou ouvires um ronromdurante a noite, acredita, no fundo do coração, que somosnós a dizer-te olá.” Com todo o amor: Cusco e Manhoso 40