William e. hordern teologia contemporânea

2,849 views
2,781 views

Published on

0 Comments
2 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total views
2,849
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
164
Comments
0
Likes
2
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

William e. hordern teologia contemporânea

  1. 1. TeologiaContemporâneaWilliam E. HordernAnteriormente publicado sob o título Teologia Protestanteao Alcance de TodosEditora HagnosDigitalizado por Eclesiano20/11/2011
  2. 2. ConteúdoReconhecimento....................................................................................................................................3Prefácio à Edição Revista........................................................................................................................4Introdução..............................................................................................................................................5O Crescimento da Ortodoxia..................................................................................................................9Ameaça Contra a Ortodoxia.................................................................................................................23Fundamentalismo ou Cristianismo Conservador: A Defesa da Ortodoxia............................................34 2Liberalismo: Reconstituição da Ortodoxia............................................................................................45Neo-Ortodoxia: A Redescoberta da Ortodoxia.....................................................................................66 Søren Kierkegaard............................................................................................................................67 Emil Brunner.....................................................................................................................................70Karl Barth..............................................................................................................................................76Neo-Ortodoxia Americana: Reinhold Niebuhr......................................................................................86A Fronteira Entre o Liberalismo e a Neo-Ortodoxia: Paul Tillich ..........................................................96Rudolf Bultmann: Conservador Radical..............................................................................................107Dietrich Bonhoeffer e o Cristianismo Secular.....................................................................................117Tendências Teológicas Atuais.............................................................................................................128Conclusão...........................................................................................................................................141
  3. 3. Reconhecimento Em um livro desta natureza, é impossível que se consiga expressar convenientereconhecimento a propósito de todas as fontes utilizadas. Pelo próprio fato de que meupropósito é só o de tentar uma interpretação da teologia visando aos crentes em geral, e não aosleitores preocupados com os aspectos técnicos da matéria, parece-me que um grande número denotas de rodapé seria desinteressante. A secção intitulada “Sugestões para LeiturasComplementares” não é, propriamente, uma bibliografia completa concernente às fontes que 2pude utilizar. E apenas uma compilação de obras que, em meu entender, podem interessar aocrente estudioso. Sinto-me devedor, entretanto, para com bom número de autores, cujos nomesdariam lista muito grande para constar aqui. Uma palavra de gratidão especial tenho de dirigir a William Hubben, editor de FriendsIntelligencer. Em princípios de 1953, ele me solicitou que escrevesse uma série de artigos a respeitodos teólogos modernos. O esforço que fiz para atender à solicitação veio a ser fator importante,que resultou em minha decisão de escrever um livro relacionado com o assunto, de modo quemuitas páginas deste livro apareceram nos vários artigos da série. Durante o outono de 1953, tive a oportunidade de proferir estudos nos quais fiz uso deboa porção do material em estudo, por ocasião de um “Fórum de Adultos” realizado em conexãocom reuniões promovidas pelos “Amigos de Swarthmore”. A maneira interessada e perspicazcomo os participantes ali se comportaram me proporcionou valiosa ajuda, principalmente porfazer-me atento àqueles pontos a respeito dos quais eu não alcançara ainda muita clareza ou nãotinha conseguido expor com a devida precisão. Sinto que é de meu dever estender minha gratidão ao “Board of Managers” daUniversidade de Swarthmore, pela licença que me concedera e que possibilitou a publicação destelivro. Por último, mas nem por isso de menor importância, tenho de externar minha gratidãoaos alunos. Por cinco anos que me têm sido dado que lecione na referida Universidade emSwarthmore, cheguei a compreender suficientemente como fazer exposição de problemasteológicos de modo a atender às expectativas de um público constituído de crentesprofundamente interessados, portadores de senso crítico. W. E. H.
  4. 4. Prefácio à Edição Revista Quando apareceu a primeira edição deste livro em 1955, eu estava sentindo que eragrande a necessidade de que surgisse uma obra que servisse de introdução, para que os crentesinteressados tomassem conhecimento das discussões teológicas contemporâneas. A receptividademanifestada para com o livro deixou claro que não eram poucos os crentes que participavamdaquele meu sentimento. Ficou evidente que os crentes em geral estão dispostos a se informarsobre os debates teológicos. 2 Muito contrariamente ao que se pensa entre os leigos, a teologia não é um assuntoestático de modo nenhum. Os teólogos se sentem forçados a fazer contínuos relacionamentos dafé cristã com o mundo em mudança no qual vivemos. Como resultado, tornou-se evidente,durante certo tempo, que aquela edição original de A Laymans Guide To Protestant Theology jáestava defasada. Ao procurar, entretanto, empreender a necessária revisão da obra, tive a realimpressão das dificuldades que tinha de enfrentar. Como é que alguém poderá fazer justiça atodos os vários desenvolvimentos verificados no campo da teologia desde o aparecimento destelivro? Ao lançar aquela primeira edição não me faltava a compreensão exata de que eu estavaexposto a muita crítica, pelo fato de não ter tomado em consideração alguns dos pensadoresentre os teólogos. A verdade, porém, é que num livro deste porte não é possível tratar de todas ascorrentes teológicas importantes. Mesmo que esta edição revista seja mais volumosa do que aoriginal, ela é, não obstante, criticável, pois multiplicaram-se as tendências teológicas em nossosdias. Em virtude disso, o leitor já é logo avisado que este livro não é, de modo nenhum, umaintrodução completa à teologia contemporânea. Caso a obra venha a atender a suas finalidades,no sentido de proporcionar incentivo aos crentes interessados neste gênero de literatura, entãoeles poderão prosseguir lendo em outras fontes, e, assim, preencherão as lacunas deixadas pelaleitura desta obra. W. E. H.
  5. 5. Introdução O presente livro surge para corresponder à convicção que tenho de que há umanecessidade real no sentido de que os crentes em geral, no seio do Protestantismo, sejam levadosa pensarem de modo mais criativo a propósito de assuntos ligados à teologia. Entretanto, cabe apergunta: Onde é que o crente deve começar nesse esforço de reflexão? Caso lhe ocorra pegarum livro qualquer de teologia, certamente ele se sentirá perdido em face dos termos cuja 2significação não lhe é familiar. A teologia se lhe torna, assim, tão inacessível quanto o é, porexemplo, algum dos tratados sobre a relatividade escritos por Einstein. Como outras ciências,também a teologia tem cunhado uma terminologia técnica, seu próprio jargão. O que o presentelivro visa a fazer é introduzir o crente estudioso nesse campo do pensamento humano, medianteo emprego de termos que lhe sejam familiares. Temos de fazer uso de alguns termos técnicos,sem dúvida, mas, ao fazê-lo, vamos tentar defini-los. Em primeiro lugar, será melhor dizer por que se deve admitir que a teologia é uma coisanecessária. Não é essa uma noção que pareça intuitiva, nem mesmo aos crentes mais curiosos. J.P. Williams referiu-se a certo ministro evangélico, que teria dito o seguinte: “Gosto muito deflores, mas odeio a botânica; da mesma forma, gosto muito de religião, mas odeio a teologia.”Trata-se de uma atitude bem generalizada que, não raro, tem suas bases em argumentosplausíveis. Porque, a verdade é que a teologia pode parecer algo insípido e, até mesmo, destituídode cristianismo. Não obstante, a resposta para o problema de uma teologia empobrecida deve ser,propriamente, teologia melhor, e não a rejeição da teologia. Podemos perceber o quanto isso éverdade se fizermos a fazer uma análise do que a teologia realmente é. “Teologia” é palavra que procede do grego: Theos, que significa, Deus, e logos, que significatratado ou pensamento lógico. Dai se depreende que Teologia é tratado ou desenvolvimento bemordenado do pensamento que se possa obter a respeito de Deus. A palavra Deus não pode serdefinida de forma exaustiva, mas é normalmente empregada para representar o que quer que secreia como sendo o fato Último, a Fonte da qual tudo o mais teria provindo, o Valor supremo oua origem de todos os valores da existência. Deus vem a ser o ente admitido como sendo digno deconstituir-se no alvo e no propósito da vida. A luz de tais considerações, torna-se evidente queninguém poderá passar sua existência sem a adoção de alguma forma de teologia. Com freqüência, alguém diz assim: “Por que preocupar-se com assuntos de teologia? Osteólogos passam o tempo inutilmente discutindo questões sem qualquer importância...” Passemosa um exame dessa maneira de pensar. Por que será que os problemas citados são consideradossem importância? É claro que quem faz semelhante objeção tem em mente algum conceito doque se deva admitir como sendo de mais alto valor, em comparação com o que ele se acha nacondição de asseverar que os argumentos dos teólogos lhe parecem destituídos de importância.Isso quer dizer que tal pessoa encontra-se em determinada posição teológica, tem uma opiniãocom referência à natureza de Deus, conceitos, portanto, que o levam a proclamar como semimportância os argumentos enunciados pelos teólogos. De modo que, mesmo um ataque assim,endereçado contra a teologia, não passa de uma investida de natureza teológica. Freqüentemente ouvimos pessoas dizendo que não é o que alguém crê e, sim, o que fazque tem importância. Trata-se de meia verdade, que, como acontece com as verdadesapresentadas pela metade, chega a ser perigosa. E meia verdade porque, do ponto de vista cristão,o pensamento teológico não é nenhum fim em si mesmo. O cristianismo é doutrina que sepropõe a ser vivida. Visa a resultar em ações. De forma que, se permanecer sempre comopensamento, torna-se algo até mesmo destituído de verdadeiro cristianismo e, portanto, fútil.
  6. 6. Entretanto, acentue-se que se trata de meia verdade, pois, o que quer que o homem faça, talcomportamento estará em íntima correlação com o que pensa e com o que crê ser o sendo valorúltimo da existência. Sempre que o chamado homem prático se encontra diante de situações quelhe forçam a decidir quanto à melhor maneira de proceder, sente ser portador de alguma idéiaimplícita quanto ao que constitui um alvo a ser alcançado em tal circunstância, ou que valores selhe impõem como devendo ser assegurados mediante o encontro das soluções cabíveis. Alémdisso, ele não poderá deixar de revelar algum conceito quanto aos meios mais recomendáveispelos quais os valores serão alcançados. Tudo isso não passa de teologia, implícita ouexplicitamente. O refrão, “Não é o que alguém pensa, mas, sim, o que faz que tem importância”, pareciarazoável quando a grande maioria dos indivíduos no âmbito de nossa cultura se encontrava sobuma escala de valores advinda do cristianismo. Atualmente, porém, vivemos num mundo no 2qual, precisamente, tal escala de valores se encontra, a cada momento, ameaçada e posta emdúvida. Os ideais de moralidade que pareciam evidentes aos antepassados tornaram-seproblemáticos nos últimos dias. Tanto o Comunismo como o Nazismo reconhecem que não éfácil distinguir entre o que o homem pensa e o que faz. Como conseqüência, adotam umatremenda propaganda, com o objetivo de mudar o conteúdo do pensamento dos indivíduos.Estão persuadidos de que, uma vez que consigam mudar os pensamentos relacionados com anatureza última das coisas e quanto aos valores, não haverá nenhuma dúvida de que terminarãopor mudar as ações dos homens. A Teologia Cristã não é nada mais nem menos do que umatentativa de mudar o pensamento dos homens de modo que passem a agir como cristãos deverdade. Pelo fato de que vivemos num tempo em que a significação última da existência ésubmetida a dúvidas, já não nos é possível ficar à margem das discussões. Há poucos anos atrás,os homens admitiam que podiam ignorar tais questões últimas, prosseguindo em seus afazeresanimados pela intenção de contribuir para a melhora desejada do mundo. A educação, a ciência ea tecnologia teriam condições de encontrar saída para todos os grandes problemas dahumanidade. Todavia, como Dr. N. M. Pusey, presidente da Universidade de Harvard, observouem seu famoso discurso proferido perante a Faculdade Teológica daquela Instituição, não épossível que alguém se alheie dos problemas relacionados com a natureza última das coisas,pretendendo que se trate de algo inexistente. Caso alguém insista em ignorar os problemas,verificará que aparecerão sob formas pervertidas e distorcidas, para exporem a sua insuficiênciade raciocínio. A ênfase dada pelo Dr. Pusey é muito bem ilustrada pelas várias formas detotalitarismo que surgem quando os homens não podem enxergar mais nenhuma outra realidadeúltima além do Estado ou da Classe Econômica a que pertencem. O esforço de pensar a respeito de Deus conduz-nos imediatamente ao trato de um grandenumero de problemas correlatos no âmbito do que se designa por “Teologia”. Primeiramente,verifica-se a existência do problemas relacionado com a posição do homem diante de Deus, que éa Fonte Última de tudo quanto existe, nisso incluindo-se uma idéia sensata do que o homemadmita como sendo o bem. Assim, vemo-nos forçados a estudar o conceito de Revelação, isto é,como será que o homem pode inteirar-se de como Deus é, propriamente? Será que Deus podeser descoberto pelos métodos adotados para as descobertas de ordem científica? Ou será melhoradmitir que Deus mesmo tenha de proporcionar-nos uma revelação de sua natureza? Caso seadmita a última hipótese, como seria e onde se daria essa revelação? Tais perguntas conduzem-nos à necessidade de formularmos um conceito do que sejapecado. O pecado ocorre quando o homem se encontra em desarmonia com a Fonte de seu ser equando trai seus valores supremos. E interessante observar que, mesmo quando se trata de umsistema ateu ostensivo, como se verifica no Comunismo, não se pode fugir ao problema dopecado. Por exemplo, sabe-se que aqueles que traem os valores tidos como supremos pelospartidários do Comunismo, na verdade, não são chamados “pecadores”, mas passam a ser
  7. 7. apelidados de “trotskistas”, “criaturas de Wall Street”, “belicistas”, “capitalistas imperialistas”, eassim por diante. As preocupações com o pecado nos levam a questões relacionadas com a salvação.Salvação é experiência que ocorre quando uma pessoa, de alguma forma, consegue vencer adistância em que se encontra da Fonte de seu ser e quando retoma a lealdade para com os valoressupremos. Como é que o homem pode alcançar a salvação? Como lhe será possível triunfar sobreo pecado? Por que será que o homem peca? Qual a razão por que o homem não consegue seconformar aos valores supremos? Será que ele cai naturalmente em situação pecaminosa? Pode ohomem vencer o pecado e permanecer coerentemente fiel aos padrões que ele aceita como maiselevados por esforço pessoal ou será que é indispensável algum socorro de fora? Até mesmoaquele que diz que não é o que se crê, mas, sim, o que se faz que é relevante não poderá deixar deencontrar uma resposta, implícita ou explícita, para as perguntas assim formuladas, antes que se 2lhe torne possível agir em qualquer situação da vida. Outras perguntas subjazem às que foram feitas. Por exemplo, como é que o homem podeorganizar-se mais convenientemente para a realização coletiva do bem? Isto é, que devemosentender por Igreja? Para onde será que as coisas nos estão conduzindo neste mundo? Qual seránosso destino final? Em que havemos de depositar nossa esperança? Será que a presente vida, ahistória do homem sobre o planeta, é a soma total das oportunidades que nos são concedidaspara o conhecimento do Ente Supremo, ou será o caso de admitir- se uma existência e um reinoalém dos limites do presente no qual se consumarão os valores atualmente idealizados? Tais sãoas perguntas concernentes ao que os teólogos denominam “Escatologia”. Assim considerando-se, verifica-se a impossibilidade de fugir dos problemas de naturezateológica. Simplesmente, não dispomos de uma alternativa entre teologia e inexistência deteologia. A alternativa diante da qual nos encontramos é a seguinte: ou temos uma teologia bemsistematizada, isto é, uma teologia que tenha passado pelo crivo de uma crítica rigorosa, ou,então, temos uma teologia que não passe de conglomerado de conceitos, idéias preconcebidas esentimentos tomados sem qualquer preocupação crítica. Uma das fraquezas do Protestantismonos dias atuais reside no fato de que é limitado o número de crentes informados sobre oconteúdo do que crê e das razões por que crê. Trata-se de erro que os comunistas, por exemplo,geralmente não cometem. O Partido Comunista se empenha tremendamente na formação dosque se tornam filiados. Nenhuma religião admitida parcialmente poderá subsistir diante dadisciplina agressiva do Comunismo. Entretanto, nunca devemos supor que a teologia sejanecessária só por causa da ameaça do Comunismo. A ameaça representada Comunismo tão-somente ilustra um fato básico a respeito da vida. Os acontecimentos peculiares ao século vinte contribuem para um renascimento dateologia protestante. Os homens encontram-se mais uma vez empenhados em encontrar soluçõesque satisfaçam aos problemas últimos da existência e estão fazendo tentativas de fixar o sentidodas soluções oferecidas pelo cristianismo. Espero que este ajude o leitor a se informar do que sepassa nos domínios da teologia. Este livro não oferece uma imagem completa de tudo quanto sediscute nas esferas teológicas; não passa de simples introdução. Ele poderá levar o leitor ainteressar-se em fazer mais prolongadas leituras e, quem sabe, incentivá-lo a refletir com maisexatidão. Pode ser que o leitor não aceite nenhum dos pontos de vista teológicos que serãodelineados; entretanto, o livro terá alcançado o fim a que se propõe caso ajude o leitor a formularseu próprio modo de encarar os problemas teológicos em face do panorama geral do pensamentomoderno. Há muitas maneiras de conduzir o crente ao estudo da teologia moderna. Uma dasmaneiras mais acessíveis consistiria na discussão de certos tópicos, como o pecado, Deus,salvação, dando-se um resumo das várias interpretações existentes. Creio, porém, que um métodoassim poderá confundir mais do que esclarecer. A teologia tem de contar com um ponto deconvergência das várias doutrinas. Ela tende à formulação de sistemas de pensamento nos quaisas respostas encontradas para qualquer pergunta lancem luz sobre uma pergunta a seguir. Preferi,
  8. 8. portanto, fazer apreciação da teologia moderna mediante o exame de várias escolas. Dessa forma,sinto-me em condições de ilustrar a maneira como cada um dos sistemas propostos se faz umtodo orgânico. Ao mesmo tempo em que, eu creio, é esse o método mais desejável, não se pode negarque ele tem certas deficiências, e devemos ressaltá-las. Em primeiro lugar, como já alguém disse:“todos os rótulos são pejorativos”. Há sempre alguma injustiça em considerar alguém comopartidário de uma escola de pensamento. Não raro, isso resulta em atribuir-lhe concepções que opróprio indivíduo, na verdade, rejeita. Usualmente, há alguma originalidade ou individualidadeinconfundível em cada pessoa que pensa, e tal é o que se perde de vista quando ele é encaixadoem uma determinada escola. Temos procurado destacar as diferenças individuais tanto quantonos tenha sido possível fazê-lo. Entretanto, o leitor concordará em que esse é um ponto fraco dométodo adotado que nós não podemos vencer de todo. Num livro que pretende ser tão-somente 2uma introdução, esse é preço que se tem de pagar inevitavelmente. Uma segunda dificuldade consiste no fato de sermos continuamente tentados a exageraras diferenças dos vários pontos de vista existentes, de modo que nem sempre pontos de contatopodem ser evidenciados. Procuramos fazer com que a posição defendida por certa escola fiquebem destacada de posição defendida por uma outra. Além disso, o relacionamento de todos ospontos comuns levaria a uma repetitividade bem desagradável. Insista-se, portanto, nisso, que oleitor não deve perder de vista essa limitação do método. Uma terceira dificuldade reside em que, caso nos limitemos a estudar a teologia emtermos das escolas contemporâneas, chegaremos à conclusão de que há certos pensadores derenome que são referidos muito de passagem e outros que até são ignorados. O problema desaber qual o teólogo que deve ser tomado como representante da escola a que esteja filiado é, naverdade, assunto que depende do julgamento de cada um. Não posso ter certeza de que todosconcordem com os critérios que adoto. Posto que nosso propósito é introduzir o leitor ao estudo dos desenvolvimentosmodernos da teologia, temos de começar pela história. Os problemas que se nos apresentamatualmente não surgiram de repente, no decorrer do século. Eles foram gerados no passado e nãopodem ser entendidos senão mediante os vestígios que deixaram em sua história. Não dispomosde espaço para o tratamento adequado da história do pensamento ocidental, mas dedicamos doiscapítulos a um esboço de alguns dos elementos mais insinuantes das bases históricas dos váriossistemas.
  9. 9. O Crescimento da Ortodoxia É quase impossível empregar o termo “ortodoxia” sem provocar emoções. Há pessoasque ficam horrorizadas só em pensar na probabilidade de não estar na exata linha ortodoxa. Paraestes, a ortodoxia, quer se trate de política, de religião ou de boas maneiras, constitui-se naprincipal necessidade da existência. Para outras pessoas, a ortodoxia é algo como o maisdeplorável estado a que o ser humano pode ver-se reduzido. Equivaleria a ser considerado trivial,destituído de originalidade, ou pessoa, propriamente, simplória. De modo geral, os Estados 2Unidos se orgulham de não seguir os cânones da ortodoxia, de modo que, pode dizer-se que osamericanos têm procurado agir como se estivessem produzindo a nova ortodoxia de não se serortodoxo. Espero ser capaz de deixar de lado todo conteúdo emocional que a palavra insinua emtudo quanto vou dizer. Por cristianismo ortodoxo eu quero significar alguma coisaexclusivamente descritiva. O cristianismo ortodoxo é aquele que alcançou obter a aprovação daimensa maioria dos cristãos e que é expresso pela maioria das proclamações oficiais ou porconfissões de fé formuladas por grupos de cristãos. Chegando-se a esse ponto, alguém poderia levantar a objeção de que seria melhor falar deortodoxias, em vez de continuar falando de ortodoxia. Não é fato que cada uma das múltiplasdivisões da cristandade defende sua própria ortodoxia? Cada uma das divisões, de fato, assim temfeito, mas tem subsistido certo núcleo de doutrinas cristãs que conseguiram a adesão coerente damaioria dos cristãos, a despeito das notórias diferenças. Estamos interessados, portanto, nesseacervo de crenças sobre as quais existe certa harmonia. Nos nossos esforços de chegar à ortodoxia devemos começar pelo exame do próprioNovo Testamento. Os primeiros crentes não contavam com a existência de nenhuma ortodoxiano sentido de uma razoável formulação sistemática do pensamento. A erudição crítica modernada Bíblia tem sugerido que haja muitas teologias dentro do Novo Testamento, mas não lhe temescapado também que, ao lado das muitas variações na teologia, o fato era que existia uma fécomum. As várias teologias não passam de tentativas feitas por homens sérios no sentido depensar e exprimir a outro a fé comum. Muito dessa fé é algo implícito mais do que explícito.Vinte séculos não foram suficientes ainda para conseguir-se a elaboração de todas as implicaçõescontidas na fé básica do Novo Testamento. A fé contida no Novo Testamento encontra-se fundamentalmente alicerçada na admissãode que, na vida, na morte e na ressurreição do homem Jesus, Deus entrou na vida humana demodo decisivo. Exatamente por isso chegaram até nós quatro relatos da vida de Jesus. Foi essa arazão pela qual os cristãos foram capazes de enfrentar as ameaças relacionadas com asmasmorras, o fogo e a espada, para difundirem por toda parte a Boa Nova que, como se sabe, é oque quer dizer a palavra “Evangelho”. E mera distorção da história supor que o cristianismotivesse começado por causa do entusiasmo que alguns poucos homens teriam experimentado aoouvirem a respeito da brilhante ética ensinada por Jesus. Pelo contrário, os primitivos cristãospuseram-se a proclamar ao mundo convicções relacionadas com alguém a quem Deus tinhadeclarado ser Senhor. E impossível exagerar a importância da ressurreição para os crentes primitivos. Paulo diz-nos: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé” (1 Co 15.17). Estudando essa passagem, o leitorverifica de imediato que o Apóstolo não estava se esforçando intelectualmente para persuadir oscondiscípulos de que Cristo teria ressuscitado de entre os mortos; em vez disso, o Apóstolo faziauma simples referência a um ponto de fé, a respeito do qual seria impensável a existência dequalquer diferença entre ele e os seus leitores, de modo que lhe era possível prosseguir em seuraciocínio visando ao estabelecimento de prova suficiente para o ensino de outro ponto de fé. A
  10. 10. ressurreição de Jesus constituía-se em convicção tal que não se podia admitir que alguém serecusasse a aceitá-la e continuasse a considerar-se como pessoa cristã. A ressurreição de Jesus eraa rocha da fé confessada por aqueles crentes. Nos dias atuais, não é raro que ressurreição signifique para os cristãos nada mais do quemera prova de existência depois da presente vida. Significava isso também para os primeiroscristãos, mas significava muito mais... Primariamente, a Ressurreição de Jesus era a prova máximade que Jesus era o Cristo ou Messias de Deus. Por séculos, os judeus tinham vivido nutridos pelapromessa de que Deus haveria de enviar-lhes o Messias, seu instrumento Eleito, que haveria desalvar seu povo e estabelecer uma sociedade marcada pela justiça. De modo muitocompreensível, uma vez que os judeus tinham vivido por séculos sob o domínio deconquistadores estrangeiros, ocorreu-lhes que o Messias deveria ser um poderoso chefe militar,capaz de arregimentar as legiões celestiais para obter a vitória sobre os cruéis opressores. 2Finalmente, quando Jesus apareceu, seus seguidores ousaram afirmar que ele era o longamenteesperado Messias. Entretanto, ele não procurou agir em correspondência com as expectativas demuitos. Ele não arregimentou nenhum exército; ele se recusou a ser feito rei. Por último, ele foiaprisionado, cuspido e escoltado, como se fosse um criminoso comum, para ser executado.Morreu esplendidamente, mas os discípulos acalentavam o desejo de algo diferente de qualquermorte esplêndida. Um Messias que morto, vencido e derrotado pela Roma Imperial dificilmenteseria alguém que se pudesse afirmar ser capaz de salvar o homem. Os discípulos puseram-se emfuga não, na verdade, porque não tivessem coragem, mas, sim, pelo fato de parecer-lhes insensatoarriscar a vida defendendo uma causa perdida. Admitiram terem-se enganado de modo trágico eo mais adequado era só persuadirem-se cada vez mais disso. Não obstante, nas profundezasmesmas do desespero a que estavam prostrados, viram-se subitamente diante de umdesenvolvimento inesperado. Jesus não estava morto. Ele estava vivo; Ele tinha ressuscitado. O que a ressurreição significava, portanto, era que Jesus se mostrava definitivamentecomo sendo o Messias ou o Instrumento do próprio Deus. Deus tinha estado operando atravésdele, como os discípulos tinham crido anteriormente. Roma imperial, com seu poder cruel, já nãodeveria ser tida como a força mais invencível neste mundo. Roma tinha desencadeado umasucessão de acontecimentos que terminariam por sobrepujá-la, o que ocorreu exatamente noinstante quando, através de seus soldados, tinha crucificado o humilde carpinteiro da Galiléia. Ospoderes do mal - e sabe-se que os cristãos primitivos criam que nelas se incluíam os demôniostanto quanto os homens maus - tinham alcançado o ponto extremo de sua manifestação. Mas,exatamente no momento de sua aparente vitória, eis que Deus se evidencia como muitíssimomais poderoso do que tais poderes. Jesus não tinha conseguido realizar o que os contemporâneosesperavam que ele realizasse. Entretanto, na medida em que os dias iam passando, seusseguidores entenderam que ele tinha conseguido realizar algo bem melhor. Jesus não lhes tinhadado independência com relação ao Império de Roma, mas lhes tinha possibilitado quebrar osgrilhões que os mantinham sujeitos ao pecado e à morte, grilhões pelos quais se sentiamacorrentados ao medo. Ele lhes tinha revelado com muita certeza que o poder do bem éadmiravelmente maior do que o poder responsável pela existência do mal. Mediante a ressurreição de Jesus, Deus tinha demonstrado a superioridade do espírito deJesus sobre o espírito do mal. Portanto, os cristãos passaram a esperar a volta ou a segunda vindade Cristo, quando o mal haveria de ser completamente desfeito. As forças do mal já tinham sidoderrotadas por ocasião da batalha crucial; nenhuma dúvida se poderia admitir quanto a quemseria o último vencedor. Acontecia, porém, que as forças do mal se encontravam ainda emcampo e continuavam capazes de acarretar muito desconforto. A batalha decisiva tinha obtido avitória, mas a vitória final ainda pertencia ao porvir. Os discípulos saíram pelo mundo pagão levando a mensagem de que Deus tinha falado,Deus tinha agido, Deus tinha revelado sua natureza ao homem. O homem não precisaria mais seesforçar para subir as encostas da traiçoeira montanha que promete o conhecimento de Deus;
  11. 11. Deus mesmo tinha descido das alturas, para permitir que os homens o contemplassem. “Deus”,assim asseveravam, “estava em Cristo, reconciliando o mundo consigo mesmo” (2 Co 5.19). Não obstante a simplicidade daquela fé, o fato era que se tratava de fé cheia deimplicações. Por exemplo, ela implicava em afirmar-se que Deus era como Jesus era; o espírito deJesus revelava qual era a natureza de Deus. Num mundo onde muitas vozes se erguiam, alegandoconhecerem tudo a respeito de Deus, os cristãos se atreveram a crer que Deus mesmo tinhaprocurado desfazer as nuvens que ocultavam a sua face aos homens. A única palavra encontradapara descrever a vida e o ensino de Jesus foi “amor”. Sendo Deus como Jesus, então “Deus éamor” (1 Jo 4.8). Com o passar do tempo, o primitivo termo “Messias” ou “Cristo”, conforme a traduçãogrega, não parecia mais adequado para exprimir todo o conteúdo da fé. Isso começou a acontecerparticularmente quando tiveram de percorrer outras regiões da Grécia e da Roma imperial, onde 2ninguém tinha ouvido nada a respeito do Messias esperado pelos judeus. Foi assim que osdiscípulos tiveram de passar a designar Jesus de “Senhor”, “Salvador” e “Filho unigênito”. Todosesses eram termos pelos quais os cristãos tentavam exprimir a fé que tinham no sentido de queDeus, em Jesus, tinha feito uma revelação de si mesmo aos homens de maneira absolutamenteúnica. Finalmente, eles chegaram a dizer como o duvidoso Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!”Jesus não tinha apenas sido enviado por Deus. Ele era o próprio Deus, isto é, Deus em operaçãona vida humana. Paulo, proeminente intérprete do cristianismo durante o período quando o NovoTestamento estava sendo escrito, foi quem deu orientação ao cristianismo em sua fase inicial decombates - nas lutas travadas contra o legalismo. Todas as religiões, também as cristãs, tendem atornar-se legalistas. Isto é, tendem a ensinar que o homem terá de obedecer a certas normas eregulamentações para que possa alcançar o favor divino. Tanto Jesus como Paulo lutaram contra o legalismo. Jesus afirmou que, quando alguémtivesse feito tudo quanto lhe fosse possível, ainda assim teria de considerar-se um servo inútil (Lc17.10). Isso queria dizer que tal pessoa não deveria pensar que tivesse feito jus a qualquerpagamento por parte de Deus. Semelhantemente, foi ainda Jesus quem ressaltou que Deus fazcom que a chuva caia sobre justos e injustos (Mt 5.45). Deus não abre nenhum guarda- chuvasobre as cabeças dos bons, de modo que possam contar com alguma proteção especial contraestilhaços ou setas provenientes de situações surpreendentes. A dificuldade que os cristãos têmmostrado de aceitar um princípio tão básico que marca os ensinos de Jesus é algo muito estranho.Parece coisa natural, ainda a um bom número de crentes, pensar que a manutenção de uma vidasuperiormente virtuosa terá de receber alguma recompensa excelente, se não aqui mesmo, comtoda certeza no além. Jesus, entretanto, na Parábola dos Trabalhadores da Vinha (Mt 20.1-16),condena totalmente essa maneira de pensar. O obreiro que começou sua fadiga desde oamanhecer e suportou todo o calor do meio-dia, nem por isso receberá maior retribuição no fimda jornada do que a retribuição a ser recebida pelos que à obra se dedicaram tão-somente duranteuma hora. Os primitivos cristãos, sob a orientação de Paulo, puderam entender que o legalismo, istoé, a preocupação em receber uma recompensa da parte de Deus em troca de certas observânciasé coisa basicamente errada. É errado por que comercializa a religiosidade. Passa-se a ser bom naexpectativa da retribuição. E errado, porque conduzir os indivíduos muito facilmente ao orgulhoe à hipocrisia, como se pode entender das atitudes próprias aos fariseus. Pelo fato de que osfariseus podiam cumprir a lei um pouco melhor que os demais, sentiam- se superiores. Além domais, o legalismo estimula os crentes no sentido da hipocrisia de pensarem que estão fazendomelhor do que na verdade estejam. Por outro lado, as pessoas que tinham experiência semelhanteà de Paulo percebiam-se muito bem como o legalismo levava ao desespero. Ao verificarem comoficavam abaixo dos padrões sublimes de bondade que lhes eram propostos, mostravam atendência de cair em desespero com relação a si mesmos, à salvação e à recompensa tão almejada.
  12. 12. Em lugar do legalismo, Jesus e Paulo preferiram realçar os méritos da salvação por graça,mediante a fé. A doutrina se encontra implícita em Jesus e explícita em Paulo. Suas raízes estão naafirmação de Jesus de que Deus é Pai. Todos os filhos que possam receber o amor paternal têmcondições de perceber o significado da salvação pela graça. O filho não precisa conquistar o favordos pais; sente-se amado, simplesmente por ter vindo ao mundo. Antes mesmo de um filhopoder compreender o que seja amor, o fato é que se sente envolvido por uma atmosfera dedemonstrações de amor. O verdadeiro pai não procura dar mais presentes aos bons filhos do queo faz aos menos reconhecidos. A autêntica vida doméstica não se alicerça em bases comerciais,dando mais amor em troca de mais virtudes; ela alicerça-se na graça, que é o amor imerecido. Ofilho deve sentir-se motivado não por desejos de receber maiores favores dos pais, mas, sim, pelagratidão pelos favores que já tenha recebido. Quando ocorre que um filho pertencente a uma casa paterna desse tipo se desvie, quando 2se verifica o desapontamento nas esperanças longamente acalentadas, ele não será merecedor dosfavores do lar. A parábola a propósito do Filho Pródigo é bela exposição da salvação pela graça.Depois de o filho ter concorrido para a infelicidade do lar e de ter manchado o próprio bomnome e o da família por viver dissolutamente com as meretrizes, viu-se finalmente ganhando seusustento de modo vergonhoso, no meio dos porcos. Enquanto se esforçava para conseguiralgumas “bolotas” ocorreu-lhe um plano pelo qual parecia possível obter novamente os favorespaternos. Chegou a articular consigo mesmo um pequeno discurso, mediante o qual seria possíveloferecer-se como servo ao pai. Entretanto, o pai não lhe deu tempo para que proferisse odiscurso. Estando o filho ainda bem distante, eis que o pai corre ao seu encontro e o aceita comofilho, não como servo. Devemos ter o cuidado de não interpretar a parábola de modo demasiado sentimental.Não se trata de relegar o passado ao passado. O verdadeiro pai não deixa de repreender o filhoque se trans via. Robert Louis Stevenson, em seu livro The Master of Ballantrae, narra a história decerto pai que simplesmente fechava os olhos aos erros cometidos pelo filho. O citado autor dizcomo aquele pai agia de tal maneira que o perdão - para empregar-se mal o nobre vocábulo -como que fluía dele como as lágrimas lhe fluíam por efeito da senilidade. Mas o autêntico perdãopaterno não tem nenhuma semelhança com as lágrimas fáceis da senilidade; assemelha-se muitomais à experiência da Cruz do Gólgota; o perdão fere; despedaça a alma. Não é coisa fácil abraçaro pescoço recentemente contaminado por falsas carícias de uma meretriz; não é coisa fácilesquecer as palavras indelicadas e até de zombaria proferidas por vizinhos; todavia, a despeito detodo o custo, o pai perdoa. E um tal relacionamento familiar que Jesus e Paulo procuram usar como ilustração dagraça de Deus. O amor de Deus não é algo que o homem tenha de comprar e mereça. “Quandoainda éramos pecadores” diz Paulo, “Cristo morreu por nós” (Rm 5.8). Quer dizer, antes que ohomem se tivesse feito suficientemente bom, Deus agiu para salvá-lo. Mediante a pessoa deJesus, Deus oferece ao homem a promessa de que, caso o homem tão-somente se volte para oPai Celestial, será recebido. Essa atitude de perdão não é uma experiência insignificante paraDeus. Mesmo que Paulo não tenha delineado nenhuma doutrina clara com respeito à significaçãoda Cruz, o Apóstolo não revela dúvidas de que ela representa exatamente o preço que Deus tevede pagar para que pudesse reconquistar o homem do domínio do pecado. Esse perdão de Deuspoderia, então, ser alcançado por qualquer ser humano, desde que o aceitasse pela fé. A fé não significa, no entender de Paulo, crer em algo, embora se saiba que o crer estáenvolvido na experiência da fé. Mas a fé é, primeiramente, o ato da auto-rendição. O filhopródigo, por exemplo, revelou ter fé no momento em que se levantou para voltar à casa paterna.A fé é, para Paulo, portanto, a entrega sem reservas pela qual o indivíduo é levado a agir de certaforma. A fé para com Deus, então, não significaria uma simples admissão da existência de Deusnem qualquer crença quanto à pessoa de Jesus. Significaria, sim, o entregar-se de todo coração,para comportar-se como filho de Deus, de modo a obter a exata maneira de pensar que houveem Cristo Jesus (Fp 2.5).
  13. 13. Estaria em erro, porém, quem supusesse que a graça seria tão-somente uma predisposiçãoDivina no sentido de perdoar àqueles que fossem a ele com fé. A graça incluía também onecessário poder espiritual que é dado ao indivíduo para que se torne capacitado a realizar o queantes lhe era impossível. Jesus assegurou aos discípulos que a fé é capaz de remover montanhas ePaulo afirma que, através da fé foi possível encontrar forças para a realização das virtudes queantes ele bem conhecia, mas não tinha condições de cumpri-las. Paulo nos ensina que podemos“viver em Cristo” uma vida diferente, caracterizada por novo ânimo e imenso poder. A graça de Deus liberta o homem do medo e do próprio sentimento de culpa. O homem,sob a influência da graça, entende que é aceito por Deus, mesmo como se encontra. Passa anutrir-se da convicção de que nem a vida nem a morte, nem principados nem potestades poderãosepará-lo do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.38-39). Além disso, liberta-o daservidão aos hábitos, à indolência e às fraquezas, que tanto lhe fazem presa do pecado. Através de 2toda a história do cristianismo, os convertidos têm afirmado que em Cristo eles receberam duasformas de liberdade: liberdade do medo e do poder do pecado. As linhas acima retratam o núcleo da fé cristã sobre que se baseia a ortodoxia. Aortodoxia se desenvolveu levando em conta a maneira de viver produzida pelas básicasconvicções da fé. A teologia cristã não é um sistema filosófico que tivesse provindo de longareflexão por determinados indivíduos privilegiados por condições de quietude e de estudos. Pelocontrário, a teologia surgiu no entrechoque de muitas lutas, através da atuação de homens quejamais desertaram a linha de fogo sustentada pela Igreja. Todas as peças que passaram a constituira plataforma da ortodoxia ali foram postas, tendo-se em vista alguma heresia que ameaçavatranstornar os conceitos sobre a natureza do cristianismo e destruir a fé que lhe era substancial.Enfrentando os argumentos da heresia, os cristãos cada vez mais se sentiam forçados a pensarmais demoradamente nas implicações dos enunciados da fé. Pelo fato de que as doutrinas docristianismo surgiram das experiências da vida e não de discussões mantidas em ambienteacadêmico, elas nem sempre poderão ser entendidas por homens que, falando- se figuradamente,ficam como traças nas bibliotecas lendo a respeito das doutrinas. As doutrinas podem serdevidamente entendidas, sim, por pessoas que de fato participam das exigências da vida cristã,que se predispõem a enfrentar, como o fizeram os formuladores da ortodoxia, os perigospróprios à linha de fogo onde a vida cristã exige coerência. Como acontece com o termo “ortodoxia”, também “heresia” é termo bastante carregadoemocionalmente. Quero dizer com isso a falsa interpretação que existe quanto à posiçãoortodoxa. A primeira heresia de vulto, o Gnosticismo, surgiu nos séculos segundo e terceiro. Foium movimento que se constituiu em séria ameaça dentro do cristianismo, na ocasião quando osimperadores romanos o estavam ameaçando externamente. Das duas ameaças, os gnósticos eramos inimigos mais perigosos. Roma imperial não podia matar o cristianismo de maneira nenhuma;mas o Gnosticismo, caso tivesse conseguido impor-se, o teria pervertido. Os gnósticos eram filósofos que insistiam em produzir uma mistura de todas as religiõesexistentes no mundo, aproveitando-se do que cada uma pudesse oferecer de melhor. Não passoumuito tempo até que um bom número deles conseguisse penetrar na comunidade dos crentes.Começaram por estabelecer conexões entre algumas de suas idéias e as do cristianismo, mas, aofazê-lo, tinham de introduzir mudanças no cristianismo, de modo que este se enquadrasse noesquema das idéias que traziam consigo. Uma das convicções básicas dos gnósticos consistia no que conhecemos pelo nome dedualismo. Isto é, eles criam que o mundo se divide, em última análise, entre dois poderes: o domal e o do bem. Concordando com a filosofia grega de modo geral, eles identificavam o mal coma matéria. Por causa disso, rejeitavam o Deus do Velho Testamento, pois ele tinha criado omundo material. O criador deste mundo tem de ser, necessariamente, mau, era o que insistiamem afirmar. Também, pelo fato de os gnósticos identificarem o mal com o mundo material,procuravam, em conseqüência, obter a salvação fugindo do mundo. Todas as coisas materiais
  14. 14. seriam más e, assim, um empecilho à salvação da alma. Criam que a alma só poderia se salvaratravés de renúncias de natureza ascética com relação a tudo que se prendesse à carne e, alémdisso, através do conhecimento. De fato, sabe-se que o termo “Gnóstico” vem do grego gnosis,que significa “conhecimento”. Eles se interessavam de modo muito particular pelas formasmísticas do conhecimento. O conhecimento seria algo a ser mantido sob segredo, devendotornar-se acessível apenas a um círculo limitado de pessoas iniciadas em mistérios, tornadascapazes e dignas de conhecer a verdade. Os gnósticos valorizavam um bom número de noções próprias ao cristianismo. Porexemplo, sentiam-se bem com a idéia de que Cristo foi enviado por Deus a este mundo.Ensinavam que o bom Deus tinha enviado um de seus subalternos, Cristo, a este mundo, com opropósito de libertar as almas dos homens da prisão da matéria, à qual teriam sido aprisionadospelo Deus mau do Velho Testamento. Cristo, entretanto, não aceitaria em que sua pureza fosse 2manchada pela matéria. A rigor, não seria possível que ele se tornasse homem. Não seriaadmissível que Cristo nascesse de mulher, uma vez que, mesmo a mulher sendo virgem, Cristonão poderia evitar a de contaminação. Igualmente inimaginável para eles era admitir que Cristotivesse comido e bebido, ficado exausto e sofrido até a morte. As várias correntes gnósticasfaziam uso de diferentes argumentos na tentativa de resolver o incômodo dilema. Um dos gruposinsistia em que o Cristo Divino tinha adotado o humano Jesus por algum tempo e, através deletinha agido e falado, mas saíra de Jesus antes da crucificação. Outro dos grupos preferia admitirque Jesus não tinha corpo real, absolutamente; tratava-se de alucinação capaz de passar comofato verdadeiro. Fosse qual fosse a escola a que o gnóstico pertencesse, concordaria, nãoobstante, em admitir que Jesus não seria, em hipótese alguma, ser humano real. Era uma heresia,portanto, que não negava que Jesus fosse divino; negava, sim, que Jesus fosse humano. Os gnósticos tornaram-se bem difíceis de ser combatidos, pelo fato de que, em suamaioria, eles tinham um comportamento muito puro. Uma vez que, então, o ascetismo contavacom grande número de admiradores, a renúncia aos desejos da carne, em que tanto eles insistiam,fazia com que tivessem considerável receptividade. Nos argumentos que empregavam comfreqüência, eles insistiam em apresentar-se como detentores de algumas informações sigilosascom as quais os seus adversários não contavam. Jesus tinha confiado tais verdades ao círculolimitadíssimo de gnósticos contemporâneos, escondendo-as dos judeus materialistas quefundaram a Igreja. Quando suas alegações não convenciam, os gnósticos passavam a falar de umarevelação especial que teriam recebido do céu e capaz de corroborar os pontos de vista queproclamavam. Não obstante, o cristianismo tinha de promover a expulsão das influênciasgnósticas de seu meio. Se o gnosticismo tivesse triunfado, a mensagem do cristianismo destinadaa todos os homens teria sido substituída por outra, destinada a um círculo de privilegiados. OCristo dos crentes teria deixado de ser uma figura humana e teria se tornado, como um dosmuitos deuses das religiões de mistérios - simples entidade vaga e lendária. Os cristãos teriamsido forçados a abandonar a preciosa herança de que eram portadores, vinda do judaísmo,passando a comportar-se como comunidade de ascetas fugindo do mundo. O cristianismo se uniu para o grande esforço de expulsar aquela heresia e, assim fazendo,teve a oportunidade de consolidar a posição ortodoxa que lhe convinha. O “Credo Apostólico”,que é, ainda, repetido em muitas igrejas, surgiu durante aquele tempo e pode ser melhorcompreendido como expressão da polêmica contra o gnosticismo. Em primeiro lugar, o Credofaz afirmação quanto a “Deus, Pai Todo-Poderoso, criador do céu e da terra”. Isto é, o Credorepudia a idéia de que o mundo criado seja mau ou tenha origem em qualquer deus mau. Omundo material é bom e digno de ser usado e usufruído pelo homem. O “Credo Apostólico”, em seguida, passa a afirmar o que se cria de “Jesus Cristo, seuFilho unigênito, nosso Senhor, que foi concebido mediante o Espírito Santo, nascido da VirgemMaria, sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado”. Muitos hoje em dia paramperplexos diante da frase: “nascido da Virgem Maria”. Não conseguem aceitar o nascimentovirginal. Entretanto, por ironia, aos primitivos gnósticos, o problema não se encontrava associado
  15. 15. a “virgem”; associava-se a “nascido”. O homem atual tem a impressão de estar diante de coisaestranha, ao ouvir: “nascido da Virgem Maria”. O gnóstico experimentava a mesma sensação, aoouvir; “nascido da Virgem Maria”. Efetivamente, a frase, juntamente com as outras relacionadascom sofrimento, morte e sepultamento, foi o método próprio pelo qual a Igreja conseguiu deixarpatente sua fé na completa humanidade de Jesus. Como quer que fosse que o cristianismoortodoxo preferisse dizer o que cria concernente à divindade de Jesus, o fato notório sempre foi amanutenção da convicção quanto à humanidade de Jesus. À luz da mesma consideração, deve ser compreendida a outra frase do “Credo”, quecausa dificuldade a muitos pensadores atuais, isto é, “a ressurreição do corpo”. Pergunta-se, vãoser: “Será que temos de admitir que os átomos do corpo vão ser reconstituídos e revivificadosoutra vez?” Na verdade, a quem quer que tenha lido o capítulo 15 da Primeira Epístola aosCoríntios jamais ocorrerá supor que esta é a maneira de crer conforme a doutrina. Sabe-se que a 2doutrina reflete o método pelo qual os judeus criam e afirmavam ser o homem um todo; ohomem não é dividido, como os gnósticos e certos filósofos gregos afirmavam, em alma boa ecorpo mau. A doutrina gnóstica da imortalidade da alma supunha a crença e implicava em que aalma seria necessariamente imortal e tão-somente precisava ficar livre da prisão do corpo. Adoutrina implicava ainda mais ao afirmar que o corpo seria, na melhor hipótese, um fardo para aalma e, na pior hipótese, seria um obstáculo à salvação da alma. O cristianismo negava tudo isso,insistindo no valor próprio do corpo, e, assim, ressaltando a importância da presente existência. Outro problema de maior relevância que atraiu muito a atenção dos cristãos dizia respeitoà Trindade - a relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Também as discussões em tornodesse assunto foram suscitadas pela existência de heresias. Os cristãos jamais ocuparam seutempo pensando sobre a Trindade, considerando-a matéria de debate filosófico. Agostinhorefletiu bem sobre o que aconteceu, declarando que os pronunciamentos feitos com relação aoassunto não visavam à necessidade de dizer algo, mas tão-somente atendia à necessidade deromper o silêncio. Na verdade, tinham surgido certas idéias que tornaram impossível amanutenção do silêncio em torno da matéria. Depois de refletir muito, cheguei à conclusão da impossibilidade de tornar clara adoutrina ao leitor, dentro do pouco espaço disponível. As mais poderosas mentes entre oscristãos discutiram o assunto através de séculos antes que se chegasse à mais satisfatóriaconclusão, sendo que os debates pressupunham pleno conhecimento das correntes filosóficasvigentes, de modo que a doutrina jamais poderia ser explanada concisamente. Tenho de limitar-me a fazer poucas observações que poderão ajudar-nos no propósito que nos anima. O problema da Trindade foi debatido no Concilio de Nicéia, realizado em 325, do qualnos veio o “Credo de Nicéia”, encontrável em hinários e livros de orações de algumasdenominações modernas. Muitas pessoas terão ouvido a zombaria que se faz a propósito doConcilio de Nicéia, no sentido de que ali se teria travado uma batalha que por pouco teriadividido a cristandade, mas que aquela batalha teria girado apenas em torno de um “iota”, amenor letra do alfabeto grego. Foi bem verdade que as duas facções em Nicéia mantiveram-seem luta a respeito de qual de duas palavras deveria constar na formulação do “Credo” e tambémé verdade que a única diferença quanto à enunciação e grafia das duas palavras consistia napresença ou ausência da referida letra grega. Enquanto uma das facções insistia na adoção dapalavra homoousios, para estabelecer que Cristo é da mesma substância de Deus, a outra facçãoempenhava-se com igual ardor pela adoção da palavra, homoiousios, para afirmar que Cristo seriade substância semelhante à de Deus. Entretanto, só a ignorância poderia concluir disso que oproblema não teria maior relevância. Lembro-me de certa história que apareceu numa revista há poucos anos. A históriaprocura explicar o porquê de o telégrafo e outros sistemas de comunicação através de cabossubmarinos escreverem os nomes pertinentes à pontuação, em vez de adotar os respectivossinais. Certa mulher, que fazia excursão pela Europa, passou um telegrama ao marido nosseguintes termos: “Encontrei maravilhosa pulseira. Preço trezentos e oitenta mil cruzeiros. Posso
  16. 16. comprá-la?” Com toda urgência, o esposo lhe respondeu: “Não, preço muito alto.” Ocorreu queo telegrafista, ao transmitir a mensagem, deixou colocar o sinal da vírgula. A senhora em questãorecebeu a mensagem e entendeu que o esposo estava lhe dizendo que o preço não era muito alto.Em conseqüência, comprou a pulseira. O esposo moveu processo contra a companhia e a justiçalhe deu ganho de causa. Desde então, os que se têm utilizado do código Morse escrevem aspalavras pertinentes à pontuação. A anedota serve para lembrar que a importância de qualquermensagem não poderia ser avaliada pelo tamanho da pontuação nem pelo número das letrasempregadas. Embora fosse só um “iota” que dividisse as facções em Nicéia, o fato era que oproblema em debate girava em torno de concepções da fé cristã tremendamente diferentes. O problema da Trindade surge da convicção cristã de que Deus esteve agindo em eatravés de Jesus Cristo. No decorrer do quarto século, Ário propagou a teoria de que Cristo eraum deus menor criado pelo único Deus. O tal deus menor teria vindo à terra na pessoa do 2homem Jesus, que, entretanto, não seria realmente homem, mas, sim, um ser divino imune àslimitações normais da humanidade. Caso o partido liderado por Ário tivesse obtido a vitória pelainserção do “iota” no “Credo”, então o ponto de vista que defendiam teria prevalecido comocristianismo ortodoxo. Significaria dizer que o cristianismo teria se degenerado, descendo àcondição de mero politeísmo. Ele passaria a admitir dois deuses e um Jesus que, no final decontas, não seria nem deus nem homem. Teria significado que Deus se mostraria comoabsolutamente transcendente, de modo a não poder ser alcançado pelo homem. O resultado teriasido tornar o cristianismo em mais uma religião de mistério tão familiar no paganismo. O “Credo de Nicéia” afirma que Deus e Cristo são da mesma substância. Essa era amaneira própria de expressar-se, em termos da filosofia contemporânea, a verdade de que há umsó Deus. Deus encontra-se em atividade na criação e sustentação do universo (como Pai); estavaem Cristo (como Filho) e atua nos corações crentes (como Espírito Santo). O Credo de Nicéiarejeitou todas as pressões tendentes à admissão de três deuses que fossem unidos de algumaforma. Houve cristãos que chegaram a pensar em termos de três deuses, mas, ao pensarem assim,sabiam muito bem o quanto se distanciavam das veredas da ortodoxia. As críticas levantadas pormaometanos, judeus e unitarianos no sentido de afirmarem que o cristianismo ortodoxo dispõede três deuses e, portanto, teria abandonado o monoteísmo do Velho Testamento é atitudeoriunda de uma maneira incorreta de entender. Um dos fatores de complexidade é que a doutrina trinitária se refere a “três pessoas”, masum só Deus. A palavra “pessoa” não tinha para os primitivos pensadores a mesma significaçãoque tem hoje. Para nós, “pessoa” sempre refere-se a Pedro, João ou Henrique. Entretanto, otermo latino, persona, significava originalmente uma máscara que era usada por qualquer ator emambiente teatral. De acordo com o pensamento trinitariano, tal máscara não seria utilizada pelaDivindade para esconder, mas, sim, para revelar aos homens seu verdadeiro caráter. Está claroque, ao pensar-se na Trindade, não se deve afirmar a existência de três pessoas no sentido em quea palavra nos é familiar. A interpretação de Agostinho foi a que se tornou ortodoxa, se nãouniversalmente aceita, para o Ocidente. Ele acreditava que, uma vez que o homem foi criado àimagem de Deus, foi criado à imagem da Trindade. Portanto, ele fazia uso de analogias derivadasda constituição mental do homem para dar explicações sobre Trindade. A Trindade seria como ainteligência, a memória e a vontade na mente humana. Em resumo, de acordo com ainterpretação de Agostinho, não temos de pensar na existência de três pessoas quandoconsideramos a Divindade; podemos pensar numa só pessoa. E claro que Agostinho procuroudeixar evidente que apenas fazia uso de uma analogia; ele foi um pensador profundo demais paraafirmar que entendia ser Deus semelhante a um homem glorificado, assentado lá no céu.Todavia, caso seja nosso desejo falar de Deus, temos de utilizar analogias, e uma analogia paraexplicação da Trindade não seria mesmo em termos de três homens, mas, sim, de um só homem. A doutrina da Trindade foi importante, não só por ter salvo o cristianismo de um possívelretorno ao paganismo, mas também por proporcionar aos crentes a necessária segurança de quefoi Deus mesmo quem esteve presente em Jesus Cristo, tendo sido responsável pelo que o
  17. 17. Salvador fez sobre a terra. A salvação do homem não fica na dependência de alguma fragilidadeconcernente a qualquer conquista humana, nem depende do que alguma entidade inferior a Deustivesse efetuado. O homem tem condições de triunfar sobre o medo e a dúvida pelo fato de queo próprio Deus foi quem agiu em seu favor, tendo-se revelado como Deus cheio de amor e demisericórdia. A controvérsia trinitariana foi seguida pela que se tornou conhecida pelo nome decontrovérsia cristológica. Essa controvérsia aconteceu por ocasião do Concilio de Calcedônia, em451, e resultou na elaboração do “Credo de Calcedônia”. Num sentido, pode-se dizer que acontrovérsia trinitariana se travou em torno da natureza de Deus no céu. Como é que Deus é,admitindo-se que Jesus é divino? A doutrina cristológica, por outro lado, procurou fixar-se ementender como Jesus seria, durante sua permanência na terra, uma vez que se afirme suadivindade. O Concilio de Nicéia tinha estabelecido a existência de um só Deus e que Jesus seria 2plenamente divino, ato do único Deus. Não demorou muito para que as pessoas começassem aficar perplexas sobre a questão de como Jesus podia ser divino e humano. Como seria possívelafirmar que o eterno, imutável e perfeito Deus podia assumir as limitações de um ser humano?Muitos entendiam que isso era simplesmente impossível. Certo grupo de pensadores, conhecidos como apolinarianos, admitia que Jesus, comefeito, tinha um corpo humano (não poderiam deixar de admiti-lo, a menos que caíssem no velhoerro gnóstico), mas negavam que ele tivesse uma verdadeira personalidade humana. A segundaPessoa da Trindade teria ocupado o lugar da personalidade humana no corpo de Jesus. Apesar daconcessão de que Jesus dispunha de corpo, isto não o fazia mais humano do que os gnósticosseriam capazes de admitir. Continuaria a impossibilidade de crer com a Bíblia que ele “foi tentadoem todas as coisas como nós somos tentados” (Hb 4.15). A oposição surgida contra osapolinarianos insistia em afirmar a existência de duas naturezas em Jesus, estando nele o próprioespírito humano, e o espírito de Deus. Os dois teriam acabado por fundir-se, pelo fato de que oJesus humano se deu a si mesmo de modo completo ao Jesus divino, resultando disso umaunidade moral. Esse último ponto de vista, conhecido como Nestorianismo, admitia a existênciade liberdade moral em Jesus de modo a tornar viável a possibilidade de ele ser tentado.Entretanto, parecia conceber Jesus como tendo personalidade dupla ou dividida. A decisão adotada em Calcedônia é demasiado complexa para que possa ser analisada noespaço disponível aqui e as autoridades ainda não estão de acordo quanto às implicações que elatem. Todavia, este fato pode ser levado em consideração: a fé ortodoxa ficou estabelecida comosendo aquela que afirma ser Jesus verdadeiramente divino, obra de Deus, e também que ele éverdadeira e completamente humano. O Concilio de Calcedônia repudiou qualquer teoria quenegasse quer a divindade, quer a humanidade de Jesus. Não pode haver dúvida de que esta era amesma fé acalentada pelos mais primitivos cristãos e, como tal, Calcedônia foi fiel para com apreciosa herança. Não obstante, também é claro que o problema de como se pode entender queJesus fosse tanto humano como divino continua sem nenhuma solução. Verificaremos que oproblema volta à controvérsia na teologia moderna. E muito fácil ficar criticando os debates acontecidos em Nicéia e em Calcedônia. Houveali muitos exemplos de ressentimentos mesquinhos, de choques de nacionalidades, de manobraspolíticas e de ambições de poder. Apesar de tudo, porém, quando se contempla osacontecimentos sob a perspectiva da História, não se pode deixar de admitir que algumaorientação divina se fazia evidente. A despeito das fraquezas humanas, tão evidentes então, o fatofoi que a Igreja demonstrou muita firmeza contra as forças que seriam capazes de destituir ocristianismo do monoteísmo e do Jesus histórico e que a rebaixariam à condição de qualquercrendice pagã. Será bom manter essa consideração em mente quando ficamos impacientes à vistade outras tantas fraquezas humanas, que são por demais evidentes nas discussões do atualConcilio Mundial de Igrejas, sempre que faz algum esforço para reformular algumas dasimplicações da fé em face das necessidades dos dias atuais. É fácil chamar a atenção para as
  18. 18. fraquezas citadas, mas os historiadores no futuro terão melhores condições de perceber a mão deDeus operando nas atividades do Concilio. O mais notável pensador com que a ortodoxia contou no Ocidente foi Agostinho. AIgreja Católica o canonizou, mas sabe- se que a Reforma Protestante se apoiou maiscoerentemente sobre Agostinho do que o fez com relação a qualquer outro pensador de antes daReforma. Já fizemos referências à contribuição feita por ele para a fixação da doutrina daTrindade. Agostinho tem de ser alinhado entre os mais raros gênios, que aparecem só uma vezno decorrer de cada milênio. O pensamento moderno lhe deve mais do que o revela oreconhecimento a ele dirigido. O Bispo de Hipona fez com que a reflexão humana se tornassecapaz de se voltar para dentro da própria mente, para que se auto-analisasse e, como foi dito porcerto escritor recente, quase que a única coisa que Agostinho teria de aprender da psicologiamoderna seria o jargão adotado. Infelizmente, podemos citar só um dos aspectos da contribuição 2admirável do excepcional pensador. Foi ele quem mais claramente despertou o pensamentoordotoxo para a concepção do pecado original. Antes de Agostinho, o pensamento cristão tinha dado expressão à sua fé, afirmando queJesus, considerado como a Revelação de Deus, era também a revelação do que o homem foidestinado a ser desde a criação. Sendo assim, algo parece estar errado. O homem, com suasmuitas expressões de visão curta, seu ânimo vingativo, seus incessantes crimes, tanto de comissãocomo de omissão, encontra-se muitíssimo aquém de revelar o mesmo espírito que houve emJesus. Em face disso, a ortodoxia tinha declarado que na verdade o homem decaíra. Adão, oprimeiro homem, tinha feito uso da liberdade que Deus lhe dera para fazer uma escolha contráriaà vontade expressa de Deus e, em conseqüência, comprometera todo o gênero humano. Cristofoi enviado ao mundo para restaurar o homem de modo que lhe seja possível retomar suaposição original. A doutrina de Agostinho, como se verifica em outros enunciados da ordodoxia, foielaborada tendo-se em vista uma heresia. A heresia que tinha de ser combatida era deresponsabilidade do monge inglês Pelágio. Pelágio insistia em afirmar que todo homem seencontra absolutamente livre para escolher o bem ou o mal em qualquer momento de sua vida.Insistia em que a queda de Adão não tinha afetado a mais ninguém além dele mesmo. Contra taisafirmações, Agostinho opunha a negação de que o homem seja livre no sentido de poder fazer obem ou o mal. Trabalhando com a intuição de princípios que nos fazem lembrar os enunciadosda moderna psicologia do subconsciente, Agostinho ressaltava que os impulsos que caracterizama raça humana em suas manifestações pecaminosas são mais fortes do que a doutrina Pelagianaadmite. Não se pode acreditar que o indivíduo, no início, seja como uma folha em branco; eletem consigo elementos que vêm do meio social e outros hereditários. Pelo fato de que a herançaé pecaminosa, verifica-se que o homem é pecador, isto é, o homem tem propensões para opecado; ele tem uma tendência tão forte para a pecaminosidade que, a não ser mediante osocorro da graça Divina, ele não pode se livrar do mal. Em vez de ser livre, o homem, de fato,encontra-se preso a uma conduta pecaminosa, e poderá tornar-se livre só na medida em queDeus lhe proporcione a graça suficiente para que rompa as correntes que o prendem. Agostinho situou a fonte do pecado original, isto é, a fraqueza ou incapacidade de fazer obem, no sentimento do orgulho humano. Em uma renovada alusão à narrativa Bíblicaconcernente a Adão, Agostinho ressaltou que Adão tinha sido livre. Ele tinha a sua disposiçãotudo quanto desejasse enquanto vivia no Jardim do Éden. Entretanto, Adão desejou algo mais:ele quis ficar independente de Deus. Ressentiu de estar em situação de dependência com relaçãoao Criador; ele desejou tomar o lugar de Deus. Assim, iludido pela serpente que lhe tinha passadoa idéia de que ele podia tornar-se como Deus, ele comeu do fruto da árvore. Isto é, a recusa dohomem de aceitar a posição de criatura que lhe foi determinada, de modo a acomodar-se ao fimpara que foi formado, leva-o à descabida presunção de querer ser igual ao Criador. Recusando-sea dar a Deus o lugar próprio em sua vida, o homem descobre que o resultado disso é oprevalecimento da concupiscência ou ambição desmedida com relação às coisas que há no
  19. 19. mundo. Em outras palavras, uma vez que Deus deixa de ser o próprio centro da vida, o homemdegrada-se a ponto de cometer todas as demais formas de pecado: torna-se avarento, lascivo,capaz de roubar o próximo, assassinar e comportar-se egoisticamente. A palavra“concupiscência”, entretanto, implica também a questão do sexo. A princípio, no caso particularde Agostinho, as deturpações do sexo se constituíam em apenas uma categoria entre os muitosdesejos mundanos que tanto arruínam o ser humano; todavia, houve sempre uma tendência,tanto em Agostinho como em seus seguidores, no sentido de darem muita ênfase ao pecadoproveniente do sexo, mais do que o faziam com relação a outras formas do pecado. O pecado de Adão foi transmitido aos descendentes. Sendo que a procriação aconteceatravés do sexo, entende-se que haja uma causa dupla para a propagação pecaminosa. A origemsexual de cada ser humano é pecaminosa e a tendência para o pecado é também transmitidacomo fraqueza congênita. 2 Caso desejemos entender os teólogos modernos que procuram reconsiderar a doutrina,temos de levar em conta que em Agostinho aparecem de fato dois elementos distintos. Primeiro,houve uma análise psicológica do homem. De acordo com essa análise, o orgulho, que vem a seruma das fraquezas básicas no homem, explica a existência do imenso abismo que separa o que ohomem foi destinado a ser e o que ele é. Disso se despreende que a fonte dos males que atingemo homem é de natureza espiritual. Entretanto, na explicação que oferece a propósito de como talsituação teria começado e de como se teria transmitido, depara-se com a doutrina de Agostinhoconcernente à pessoa de Adão e à herança associada aos traços que transmitiu aos descendentes.Quase pode-se ter a impressão de que a natureza espiritual do pecado é transformada em defeitobiológico. Não é fácil conciliar a análise espiritual do pecado com a noção de uma transmissãobiológica. Certamente, é possível, como consideraremos mais adiante, aceitar a análise espiritualfeita por Agostinho, rejeitando-se, não obstante, a teoria da herança defendida por ele. A teoria agostiniana o levou à doutrina da predestinação. Esta nunca se tornou umadoutrina aceita por todos os cristãos, mas vamos encontrá-la outra vez na ortodoxia Calvinista.Concluindo-se que o homem não pode salvar a si mesmo, que a graça de Deus é que tem desalvá-lo, então como devemos entender que Deus se decida quanto a quem ele terá de socorrer?Não deveríamos entender, pensava Agostinho, que Deus fique condicionado à previsão de quealguém venha a merecer a graça, pois esta é livre, isto é, imerecida. Quem lê as Confissões deAgostinho, autobiografia de sua vida espiritual, sempre percebe como o autor repete asexpressões de sua admiração pelo fato de ter sido salvo por Deus. Agostinho confessa-seabsolutamente persuadido de que nada fizera por merecer a salvação. Ele não pensava que vinhade si mesmo a virtude de não mais andar nos caminhos do erro e do pecado, nos quaisencontrava tanto prazer no passado. Deus tinha agido sobre o autor de maneira como jamaispoderia ter sido prevista. Deus o tinha escolhido e destinado para a salvação. Na época da Reforma, a maioria de seus líderes deixou de pôr em dúvida qualquer dasdoutrinas consideradas ortodoxas vistas até aqui. Lutero, por exemplo, retomou a doutrina desalvação pela graça, ressaltando-a de modo como não o fora desde os dias de Paulo. Sua atitude ocolocou em conflito aberto com a doutrina católica concernente à natureza da Igreja e daautoridade de sua hierarquia. Recusando-se a submeter-se às pretensões de supremacia do Papa,Lutero entendia que a autoridade última residia na Bíblia, interpretada pelo Espírito Santooperando dentro do coração crente. Em lugar da hierarquia católica, ele passou a ensinar adoutrina do sacerdócio de todos os que crêem. Isto é, nenhum crente precisaria de sacerdote paraservir-lhe de intermediário diante de Deus, com exceção de Cristo, que é o Mediador perfeito esacerdote perfeito que intercede em favor de todos. Calvino concordou com Lutero e produziu a primeira Teologia Sistemática protestante. Ocentro da teologia, para Calvino, é Deus, e o principal objetivo do estudo da teologia é aglorificação de Deus. Toda fé que admita qualquer capacidade natural no homem será, noentender de Calvino, algo semelhante a apoiar-se em algo sem firmeza. Onde quer, porém, que ohomem se revele incapaz, Deus se apresenta como tendo todo o poder. Pode-se confiar em
  20. 20. Deus, pois ele é capaz de fazer tudo que o homem não pode. Assim, percebe-se como Calvino sefez seguidor da doutrina da predestinação ensinada por Agostinho. A doutrina da predestinação é das mais difíceis de ser entendida pelo homem atual.Todavia, ironicamente, verifica- se que o homem atual se mostra propenso a aceitar teoriasdeterministas que negam a liberdade e a dignidade do ser humano. As doutrinas modernas dotipo determinista são menos plausíveis do que a enunciada por Calvino, pois elas nãoreconhecem a existência de um Deus misericordioso capaz de mudar o curso necessário edeterminado do universo. A predestinação se revelou importante para os calvinistas comodoutrina básica para a experiência da segurança espiritual. O católico romano, por exemplo, podiaencontrar tranqüilidade quanto à sua salvação por entender que se encontrava dentro daverdadeira Igreja. Os protestantes preferiram dar um passo decisivo na rejeição dessatranqüilidade, expondo-se a perder a salvação, a fim de que pudessem seguir as leis da própria 2consciência. A doutrina da predestinação, portanto, é a resposta calvinista à presunção católica. Asalvação da alma, dizia Calvino, não depende de ela ser filiada ou não a uma instituição. Salvaçãoé experiência que diz respeito ao homem e Deus. Temos de confiar que Deus vai salvar os queelegeu. As diferenças que dividem os homens nada significam diante de Deus. Há uma outra peça importante, na plataforma da ortodoxia, que deve ser referida. É adoutrina da expiação. Todas as religiões têm sentido necessidade de tratar de alguma idéia deexpiação. Uma vez que se admita que Deus faz exigências que os homens não podem satisfazer,torna-se inevitável o problema de saber-se como será possível obter reconciliação com aDivindade, da mesma forma que, se alguém percebe que ofendeu a um amigo ou outra pessoaqualquer, sabe que será conveniente a adoção de um meio de expiação a fim de que a comunhãodesfeita seja restabelecida. Contrastando com tudo que se conhece de outras religiões, o cristianismo tem sustentadoum só ponto de vista a esse respeito. Enquanto se verifica que a maioria das religiões crê que ohomem tem de fazer algo para aplacar a Deus, o cristianismo ensina que foi o próprio Deusquem efetuou a expiação. Outras religiões oferecem sacrifícios visando a que Deus desvie suaface irada e perdoe ao homem. O cristianismo, porém, ensina que Deus efetuou o sacrifício em emediante Jesus, de modo que sua iniciativa resultou no estabelecimento da comunhão entre aDivindade e o homem. Entretanto, surge o problema: Que foi mesmo que Deus fez? Paulo foiclaro em salientar que a morte de Jesus é um fato de importância central, mas não acrescentoumaiores explicações. A Igreja nunca fez convocação de um Concilio para definir a matéria comoo fez a propósito da Trindade e da natureza de Cristo. Não se tem adotado uma formulaçãodoutrinária neste sentido desde o começo da história do cristianismo e, em conseqüência, não sepode falar de posição ortodoxa a respeito. A chamada doutrina clássica da expiação foi ensinada por mais de mil anos. Segundo sedizia, Satanás tinha conquistado a alma do homem pelo fato do pecado em que este tinha caído.Mas Deus teria feito uma proposta de troca a Satanás: entregaria a Satanás a alma de Jesus,embora ela não lhe pertencesse, em troca de Satanás liberar as almas daqueles que aceitassem oSalvador. Satanás teria concordado, pensando que Jesus não passava de um homem bom. Aorecebê-lo, porém, viu que era impossível retê-lo, pois Jesus era Filho de Deus. Por isso Satanásnão teria ficado com as almas dos crentes nem com Cristo. A doutrina assim apresentada soamuito grosseira e implica em que Deus se mostre capaz de agir com astúcia face ao Diabo. Elacontém, não obstante, duas importantes verdades. Expressa, por exemplo, que, mediante a mortee ressurreição de Jesus, Deus sobrepujou as forças do mal. O bem, portanto, mostra-se maispoderoso do que o mal. Por outro lado, a doutrina assinala o fato de que o mal tende a exagerar-se e, finalmente, destruir-se a si mesmo. “Dê-se bastante corda a um homem e ele acaba seenforcando.” Isso é, de fato, uma realidade. Caso Hitler, por exemplo, se contentasse com umpouco menos de poder, certamente teria conseguido manter-se por mais tempo no governo daAlemanha. O mal não poderá jamais satisfazer-se e, apresentando crescentes expressões deganância, acabará se destruindo. Mas, apesar de tão notáveis intuições da verdade, a doutrina não
  21. 21. podia esconder toda a grosseria que continha e, no decorrer do século, surgiram outras onzedoutrinas da expiação. A primeira surgiu com Anselmo. Ele alegava que o homem devia irrestrita obediência aDeus, governador do universo, mas deixou de prestar-lhe obediência e caiu em situação dedevedor. O homem desonrara a Deus. A Justiça requeria ou que o homem pagasse a dívida ouque fosse punido. Qualquer uma das duas medidas resultaria na manutenção do prestígio Divinocomo governador moral do ser humano. Entretanto, não é do agrado de Deus punir eternamenteo homem, pois o propósito que teve ao criá-lo foi no sentido de manter-se em comunhão comsua criatura racional. O homem não poderia oferecer satisfação pelo débito contraído para com aDivindade, uma vez que nada poderia acrescentar à perfeita obediência que, naturalmente, lhe érequerida. Caso Deus consentisse em apenas remover o pecado humano de sua presença, dariaespaço para que se levantassem dúvidas quanto à natureza da honra e do prestígio de seu 2governo. Chega-se, então, ao tremendo dilema: O homem era devedor mas só Deus poderiasaldar a sua dívida. Foi assim que Deus teve de enviar Jesus, que tanto é Deus como é homem.Pelo fato de ser Deus, lhe foi possível pagar a dívida; pelo fato de ser também homem, foipossível pagá-la em favor do homem. Entretanto, nem mesmo Jesus poderia saldar um talcompromisso por viver em total virtude, uma vez que, por ser humano, já tinha a obrigação deviver assim. Todavia, sabe-se que Jesus não tinha de morrer, pois viveu sem pecado. Emconseqüência, ao oferecer-se para morrer, ele pagou a dívida do homem. Vindicou-se a honraultrajada, de modo que Deus poderia ministrar o perdão a todos os que se aproximassem delemediante Cristo Jesus. Essa teoria não chegava a expressar de maneira completa o que a Igreja cria a respeito daexpiação e jamais foi aceita oficialmente. Sua maneira de expor deixava a impressão de que Deusteria agido como senhor feudal que demonstrava receios de que os servos escapassem do seudomínio, caso fosse demasiado complacente com eles. Não obstante, a teoria assinalava aconvicção da Igreja de que o perdão não é coisa tão simples nem fácil. Perdoar é algo queacarreta sofrimento à Divindade. Abelardo foi responsável pela apresentação de outra das teorias surgidas. Ele insistia emdizer que não há absolutamente nada, da parte de Deus, capaz de impossibilitar a ministração doperdão. Entretanto, o perdão é experiência bilateral. Ninguém poderá perdoar a alguém que nãodeseje ser perdoado. O perdão significa restauração de relações rompidas; ora, ninguém poderáconseguir que a comunhão seja retomada, caso o outro se mantenha refratário a isso. Ai estava,entendia Abelardo, o problema Divino. Deus desejava perdoar ao homem, mas o homem, porsua vez, o que queria era continuar em sua conduta em busca de prazeres e não procuravaarrepender-se nem suplicar o perdão. Assim sendo, Deus se pôs a agir; ele enviou-nos o Filhopara que sofresse e morresse pelo homem na mais clara demonstração de seu amor. Ao perceberessa sublime realidade, o homem é levado a envergonhar-se de si mesmo e arrepende-se,finalmente, de modo que Deus se torna capaz de perdoá-lo. A doutrina de Abelardo também dizia algo que o cristianismo ortodoxo queria expressar.De fato, na morte de Cristo, contemplamos o amor de Deus de modo tal que somos conduzidosao arrependimento. Não obstante, a doutrina de Abelardo fez com que ele fosse acusado deheresia. O argumento ortodoxo contra ela se faz nos seguintes termos: Caso alguém se lance naágua e me salve de afogamento, seu gesto me revela, sem dúvida, muito amor. Mas, se, por outrolado, estivermos andando juntos às margens de um rio e ocorrer- lhe dizer inesperadamente:“Olha aqui quanto eu te amo!”, lançando-se em seguida à correnteza, então poderei ser levado aentender que meu amigo perdeu o bom senso. Em outras palavras, a morte de Cristo só poderáser vista como revelação do amor de Deus para com o homem se for entendida como sacrifícioabsolutamente necessário. A morte de Cristo fica sem sentido, caso se admita que o homempoderia salvar-se sem que ela tivesse ocorrido. O cristianismo ortodoxo, embora nunca ficasse plenamente satisfeito com a teoriaexposta por Anselmo, de modo geral tem adotado uma forma bem parecida coma sua. Cristo, é o
  22. 22. que se crê, tornou-se nosso substituto; ele morreu para satisfazer o débito que tínhamos paracom Deus ou ele sofreu a punição que devíamos sofrer em vista de nosso pecado. A ortodoxiaprotestante tem se inclinado para uma concepção da doutrina em termos de formalidadesjurídicas. O homem cometeu um crime pelo qual deveria ser punido, mas Jesus consentiu em“beber o cálice de amargor” em lugar do homem. Assim interpretada, a doutrina produz osmesmos efeitos buscados na teoria de Abelardo; há uma preocupação no sentido de conseguirque o homem se arrependa, mas isso acontece por causa da convicção de que o sacrifício eranecessário e não seria nenhum simples gesto de bravura. Este é o esboço geral da posição ortodoxa em teologia, sobre cujas doutrinas os cristãosdas mais diversas denominações podem concordar razoavelmente. Trata-se, portanto, desseacervo de pensamentos, com algumas implicações decorrentes deles, que teremos em mentesempre que nos referirmos ao cristianismo ortodoxo. 2
  23. 23. Ameaça Contra a Ortodoxia Ao longo do capítulo anterior tivemos a oportunidade de expor os fatos relacionadoscom o aparecimento da ortodoxia. Mesmo no decurso da exposição feita, ficou evidente que nemtodos os cristãos foram sempre ortodoxos, pois a ortodoxia vai se definindo em função dasheresias. Neste capítulo vamos nos concentrar no estudo dos não ortodoxos. Caso fosse nossopropósito fazer um relato completo da história dos movimentos não ortodoxos, teríamos decomeçar com os cristãos primitivos, como o fizemos no caso do capítulo anterior. Entretanto, 2nosso objetivo é outro; desejamos apenas oferecer uma interpretação do campo moderno dateologia e, por isso, vamos nos limitar ao tratamento do que parece proveitoso para esse objetivo.E, uma vez que nos preocupamos particularmente com o pensamento protestante, vamosrestringir-nos ao estudo de períodos posteriores à Reforma. Ao penetrar na fase moderna dos acontecimentos mundiais, o crente se encontra comuma dupla ameaça à ortodoxia. Uma das ameaças vinha de fora do ambiente da Igreja, agindoatravés das correntes da filosofia secular. A outra ameaça vinha de dentro mesmo da Igreja, ondese verificava insatisfação de grande número de cristãos com relação aos enunciados da ortodoxia.Há correlação entre as duas formas de ameaça, mas há também diferenças importantes. Vamostomar em consideração primeiro o pensamento secular e, em seguida, vamos passar àconsideração dos desenvolvimentos nas esferas próprio do cristianismo. Uma vez que osacontecimentos seculares são mais conhecidos do que os religiosos, vamos considerar de modomais completo apenas estes últimos. Na época em que se difundia a Reforma, outra poderosa corrente de idéias estava sepropagando, contando já duzentos anos de existência - a Renascença. A Renascença começoucontemplando o passado e descobrindo a cultura antiga da Grécia e de Roma, na qual severificara a atuação de um espírito de vida bem diferente do espírito dominante ao longo da fasemedieval na Europa. Alguns dos pensadores responsáveis pela Renascença eram indiferentes paracom a religião; outros até mostraram-se favoráveis para com ela e, finalmente, uns poucos, comoMelanchthon e Zuínglio, foram ativos no movimento da Reforma. Entretanto, havia certatendência em bom número de pensadores renascentistas no sentido de abandonarem a ortodoxia.Erasmo, por exemplo, esforçou-se para manter-se como filho leal da Igreja Católica Romana,mas suas obras foram condenadas pelas autoridades eclesiásticas. A Renascença se caracterizava pela fé na capacidade humana e por um grande interessepelo mundo. Em comparação com a preocupação medieval para com a vida depois da morte, érazoável dizer-se que, nesse sentido, a Renascença permaneceu pouco interessada. Uma vez queinsistia em crer na suficiência da razão, a Renascença não percebia nenhuma necessidade de umarevelação proveniente de Deus. Não considerava coisa importante nem a teologia nem osaspectos sacramentais da Igreja. A religião, no entender dos pensadores da Renascença, seria só ofundamento da ética. A Renascença tinha muito interesse na possibilidade de restauração do pensamento domundo antigo e deu início a uma verdadeira ciência, visando a restauração das palavras originaisdos manuscritos. Com o passar do tempo, esse interesse levou certas pessoas a umareconsideração do conteúdo dos manuscritos da Bíblia, e esse precisamente foi um dos motivospara que Erasmo atraísse a ira da Igreja Romana. Lutero, porém, ao traduzir a Bíblia, procuroufazer o melhor uso dos resultados alcançados pela erudição existente na Renascença. O século dezoito, século do racionalismo e do iluminismo, trouxe consigo o mais fortegolpe contra a ortodoxia. Os racionalistas eram pessoas que depositavam a mais vivida confiançanas possibilidades da razão. Levantaram-se, pois, contra todas as autoridades instituídas à
  24. 24. margem da razão e reivindicaram para a própria razão a necessária autonomia para que lhe fossepossível o exame de todos os problemas sem nenhuma interferência. Os racionalistas não eram,de forma alguma, irreligiosos. John Locke, por exemplo, afirmava que não se deveria ternenhuma tolerância para com ateus, uma vez que estes eram uma ameaça à estrutura dacivilização ocidental, sobre cujos princípios se alicerçavam a tolerância e outros ideais.Entretanto, não sendo um movimento de oposição à religião, o Racionalismo se insurgia, de fato,contra a ortodoxia. Desejava-se uma religião, como Kant ressaltou, dentro dos limites da razão. Entre os ataques desfechados pelo Racionalismo contra a ortodoxia encontra-se aargumentação de Hume a propósito da improbabilidade dos milagres. Hume não chegou a negara possibilidade da ocorrência de milagres; a própria filosofia que produziu evidenciaria acontradição de uma tal negação. Todavia, ele insistia em alegar que a admissão de ocorrência demilagre ficaria sempre em plano inferior à adoção de qualquer outra maneira de explicar a 2ocorrência do mesmo fenômeno. Apesar de que a argumentação de Hume tendesse atransformar-se num círculo vicioso, o fato é que ele foi muito apreciado como tendodemonstrado o absurdo da idéia de milagre. Tornou- se, em conseqüência, quase impossível àortodoxia apresentar qualquer prova definitiva quanto à verdade da fé mediante o expediente dechamar a atenção para as narrativas miraculosas da Bíblia. Emanuel Kant investiu contra as chamadas “provas da existência de Deus”. Elas nãoeram elementos de importância central para a ortodoxia, pois a Igreja não revelara maiorpreocupação em provar a existência de Deus até chegar ao século treze, quando Tomás deAquino expôs suas famosas cinco provas. Não obstante, abalou profundamente a ortodoxia aconstatação de que a razão não tinha condições de estabelecer, de maneira a superar todas asdúvidas, a existência de Deus. O próprio Kant alegou que, embora a razão pura não pudessecertificar-se da existência de Deus, as exigências práticas da conduta moral o exigiam. O Deus deKant, porém, dificilmente coincidiria com as concepções da ortodoxia. Para Kant, há apenas trêspostulados religiosos imprescindíveis para a manutenção da conduta moral: Deus, a liberdade dohomem e a imortalidade. Mesmo que Kant, em suas últimas obras, tivesse voltado a uma concepção concernenteao mal em sua forma radical, os racionalistas, em geral, mantiveram-se opostos a qualquerdoutrina relacionada com o pecado original. Revelaram-se absolutamente crentes na bondade darazão humana e na suficiência do homem para encontrar soluções para todos os problemas. Ao mesmo tempo em que o racionalismo estava investindo contra a religião ortodoxa, aciência natural estava surgindo. Muita coisa despropositada se tem escrito a respeito de conflitoentre a religião e a ciência. De modo geral, a ciência é apresentada como um cavaleiro vestindoarmadura refulgente, perseguindo coerentemente os lampejos da verdade, enquanto que a religiãoaparece como um dragão estúpido, que tudo faz para devorar a verdade. Essa maneira de retrataros fatos, devida em grande parte à monumental obra de Andrew Dickson White, intitulada AHistory of the Warfare of Science with Theology in Christendom (“História das Lutas entre a Ciência e aTeologia na Cristandade”), é verdadeira só em parte. Em todos os conflitos em favor da ciênciase têm encontrado muitos piedosos e ortodoxos. Por outro lado, sabe- se que sempre houvecientistas que se opuseram aos novos avanços científicos. Para que se faça o necessário equilíbrio,deve-se escrever um outro livro, cujo título poderia ser: História das Lutas Travadas entre Ciênciae Ciência. Na verdade, o que tem acontecido é que todo o complexo de sentimentos de uma certaépoca se levanta em protesto contra as novas concepções do mundo que pareçam minar arepresentação mental do universo aceita naquele momento. A religião, quando atua como forçaorganizada na sociedade, não raro, tem se tornado um centro em torno do qual giram osprotestos de natureza não científica. Como conseqüência, a religião, particularmente em suaforma ortodoxa, expõe-se ao descrédito. Assim, fica parecendo que a ciência sempre tenha estadocerta e que a religião sempre tenha estado errada. Surgiu, então, a estranha idéia de que a ciênciateria condições de encontrar solução para todos os problemas humanos, e que seriam tão-
  25. 25. somente a inércia e a ignorância, particularmente provenientes das igrejas, que estariamentravando a marcha vitoriosa da ciência, considerada como a real salvadora. Particularmente, duas doutrinas científicas pareciam perturbar muito a religião ortodoxa,isto é, as de Copérnico e de Darwin. O mundo medieval retratou mentalmente um universo noqual a terra ocuparia o centro, sendo o homem a forma de vida por excelência. Copérnicoconseguiu libertar a visão para a contemplação de um universo tão vasto que a terra passou a serconsiderada como um grão de areia perdido no espaço. Entendeu-se que era ridícula a afirmaçãoque a terra e o homem seriam em alguma coisa de importância diante de Deus, caso Deusexistisse. A teoria da evolução defendida por Darwin desfez as barreiras existentes entre o serhumano e o mundo animal. Apareceu o homem como sendo simplesmente um animal maisaltamente desenvolvido. Em lugar da afirmação de um amor inteligente do Criador, atribuindo acada animal sua forma e compleição peculiar, Darwin aventou a hipótese da vigência de uma luta 2encarniçada pela existência, estendendo-se a todas as formas de vida, com a vitória assegurada aomais bem equipado. Embora a princípio a doutrina evolucionista parecesse dar margem a pensar que ohomem estaria preso a uma interminável luta pela sobrevivência, com o passar do tempo ela veioa oferecer base para uma esperança mais elevada quanto ao progresso, como tinha sido o sonhodos movimentos racionalistas. Herbert Spencer foi um dos elementos particularmenteresponsáveis pela mudança. O ser humano, que se tinha desenvolvido desde a ameba até alcançaro presente estado de progresso, estaria destinado, por invariável lei natural, a continuarprogredindo, para chegar, afinal, à perfeição. A maneira ortodoxa de representar o homem comotendo caído no pecado passou a ser considerada uma concepção ridícula. O homem não tinhacaído coisa nenhuma. O que lhe aconteceu efetivamente foi que, tendo começado como simplesanimal irracional, ao longo de tempo muito curto, tendo-se em vista a idade do universo, elealcançou alturas inimaginadas. A frente do homem se estende um futuro infinito cheio depromessas. Essas idéias tornaram-se patrimônio comum de intelectuais e de pessoas comuns. Oavanço contínuo das invenções fez com que o homem de cultura média passasse a olharcomplacentemente para os mais velhos, mantendo-se na expectativa de coisas ainda maisextraordinárias que haviam de surgir. Como Harry Emerson Fosdick disse, as pessoas, de modogeral, não revelavam nenhum interesse em morrer e passar a usufruir o céu; elas tinham, sim, odesejo de viver uma centena de anos para que pudessem ver as novas maravilhas que o gênioinventivo do homem haveria de criar. Na medida em que os homens passaram a olhar para mais longe, cheios de esperança,cresceu, porém, a insatisfação com as imperfeições do sistema social vigente. Karl Marx se tornouum notável porta-voz das esperanças relativas a uma sociedade terrena melhor. Em sua maneirade entendê-la, a religião seria uma das barreiras levantadas contra a conquista de uma vida melhorna terra. A religião nutre o ser humano com esperanças a respeito do céu, de modo a impedi-lode revoltar-se contra os que o oprimem na presente existência. Mesmo entre os que não setornaram seguidores de Marx, passou a prevalecer um sentimento generalizado de que a religiãoortodoxa era uma inimiga das esperanças humanas concernentes à conquista de nível maiselevado e decente de existência. Quando surge a Psicologia moderna, vemos que Freud faz outras acusações contra areligião. Não só a religião seria algo anacrônico, considerando-se a imagem do universo que eladefende, tendo sido sempre inimiga da ciência e do progresso, mas, além disso, Freud alegava, areligião seria ilusão, pois resultava em uma recusa pueril em aceitar a realidade da existência. Pelosfins do século dezenove, tinha-se tornado crescentemente inviável intelectuais apoiarem qualquerforma religiosa e quase ficou impossível concordarem com o cristianismo ortodoxo. Nietzschefalou por muitos ao proclamar que “Deus morreu”. Não obstante, um pequeno númerocontinuou a sentindo-se mal com as implicações dessa posição. Porque, como, aliás, o próprioNietzsche o percebeu com clareza, caso Deus tivesse morrido, também o tinham as tradições

×