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Dinis e Célia são mais guineenses que portugueses. Susana e David não têm, pela primeiravez na vida, de “contar os tostões...
Quando fala das suas dezenas de projectos, quando diz que as coisas vão melhorar – e di-lomuitas vezes como se a sua vida ...
externos quase não existem. És tu quem decide o que queres fazer. A vida é muito maissimples e também bastante dedicada ao...
debaixo de bombas. “Só houve tempo de apanhar o ouro e o passaporte que estavam dentrodo cofre”, recorda.Ficou a viver em ...
Come e dorme no Jordani e os seus luxos não vão além de uns camarões com os amigosquando há jogos de futebol, de umas mini...
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Guiné entre o paraíso e as saudades de portugal

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  1. 1. Guiné: entre o paraíso e as saudades de PortugalSOFIA DA PALMA RODRIGUES13/04/2013 - 08:02Alguns chegaram à Guiné-Bissau ainda antes da independência, outros à procura de uma oportunidade. São cerca dequatro mil os portugueses que escolheram viver num dos países mais pobres do mundo.Na escola de João há alunos que levam dois anos a pagar a carta de condução
  2. 2. Dinis e Célia são mais guineenses que portugueses. Susana e David não têm, pela primeiravez na vida, de “contar os tostões”. Lurdes só pede que a enterrem em Portugal e Carlosencontrou o “paraíso”. O PÚBLICO foi conhecer alguns dos portugueses que vivem naGuiné-Bissau.João e Célia Dinis“Portugal era um atraso de vida em comparação com a Guiné”Na casa de João e de Célia nunca faltava fruta enlatada, vinho Casal Garcia e pelo menos dezgarrafas de whisky “do bom” para receber as visitas. Durante anos, puderam ter na Guiné-Bissau uma série de luxos que na chamada "metrópole" eram ainda uma miragem. Essesforam outros tempos. Hoje todos os gastos são controlados. Bebem vinho do mais barato esó comem bacalhau ou queijo quando algum amigo os visita. A vida obrigou-os a umacambalhota do 80 para o oito, mas nem por isso deixam de falar com alegria, com um brilhonos olhos e esperança no futuro. A bola é para chutar para a frente e apesar de Célia ter 58anos e João 71, não duvidam que ainda vão conseguir marcar golo.João e Célia Dinis são dos portugueses que há mais tempo vivem na Guiné, chegaram numaaltura em que “tudo era bonito, não havia falta de trabalho e tinham uma vida mais queboa”. João foi o primeiro. Chegou em 1963 como militar. Gostou tanto que ficou e já comofuncionário da administração do porto de Bissau acenou aos colegas da Companhia 496,Batalhão 513, que viu partir num navio. “Não troque os números, são muito importantespara se algum amigo dessa altura me quiser telefonar”, pede ao PÚBLICO.Só voltaria a Portugal em Setembro de 1971. “Estava há nove anos sozinho e ia com oobjectivo de casar, mas não podia ficar muito tempo. Tinha de resolver o problemarapidamente e graças a Deus consegui”. Conheceu Célia num baile e meteu logo conversa.“Ó menina, não se importa que a gente vá bailar um bocadinho? Mas olhe que eu vivo emÁfrica há muitos anos, já não sei bem dançar as músicas de cá...”, perguntou-lhe. A respostafoi afirmativa. Casaram no dia 9 de Janeiro e dia 20 vieram juntos para a Guiné. Célia tinha18 anos e Dinis 31.Nessa altura, tudo lhes corria bem. Dinis era dono de duas escolas de condução e, algunsanos mais tarde, Célia decidiu abrir o restaurante Ponto de Encontro, que mantém até hojeem Bafatá (no centro-norte do país). “Era uma cidade espectacular, estava tudo pintadinho,arranjadinho. Se vissem esta avenida e aquela ali em baixo. Lindas, lindas. As pessoasjuntavam-se para fazer piqueniques, remo, ir ao cinema. E as lojas? Tinhas de entrar só paraver, mesmo que não comprasses. Era uma coisa que atraía. Portugal era um atraso de vidaem comparação com a Guiné”, descreve Célia.O Ponto de Encontro servia mais de 70 almoços por dia e Célia chegou a ter de pedir aostropas para tomarem conta da filha enquanto despachava o mais depressa possível osalmoços. Não tinha mãos a medir. Agora há dias em que não faz cinco mil francos CFA (7,50euros). De 17 empregados passou para dois e mesmo assim queixa-se que a receita não cobreas despesas. Podiam-se ter ido embora depois do 25 de Abril de 1974. Chegaram a vendertudo, mas os guineenses não os deixaram partir: "Não, não se vão embora porque ninguémvos vai fazer mal. Vocês também não fizeram mal a ninguém.”“Se eu tenho ido depois da independência, era um senhor em Portugal. O meu cunhadoainda me disse para montarmos uma escola de condução, se eu o tenho ouvido... Teriamuito mais dinheiro, mas não tinha esta terra”, projecta Dinis. É um apaixonado pela Guiné.Quando ia a Portugal de férias, não queria ficar mais de 15 dias, “chegava para ver a família”.“Só desejava voltar àquelas pessoas que me conheciam e, do mais pequeno ao maior, mechamavam pelo nome. Nem sequer consigo dizer o que menos gosto neste país porque gostode tudo. Até das faltas, fomo-nos habituando a elas”.Foi depois de 1974 que tudo piorou. Durante dez anos ainda viveram bem mas, pouco apouco, as coisas começaram a escassear. Primeiro faltaram o queijo, as batatas e oschocolates. Até que acabou tudo. “Foi um processo: apetecia-me beber uma garrafa de vinhoCasal Garcia e não havia, mas ainda se podia comprar Dão. Quando o Dão acabou, tínhamoso Pias...”, recorda Dinis.Às vezes perguntam-lhe como consegue viver assim. Ri-se e responde: “Tu também cáestarias se tivesses vivido o que eu vivi. Tínhamos uma vida mesmo bonita. Luz 24 horas pordia, boas estradas, tudo limpo. Onde é que os portugueses comiam pêra enlatada? A nossabebida era whisky com água das pedras, a cerveja era só para acompanhar as ostras e oscamarões”.A Guerra Civil, em 1998, foi o golpe fatal para a Guiné: “Foi desde aí que deixámos de vivercomo portugueses na Guiné e passámos a ter condições de vida semelhantes à de umguineense: a ter de carregar água, andar a pé...”, conta Célia.Apesar do Ponto de Encontro estar quase sempre vazio e dos poucos alunos da escola decondução demorarem mais de dois anos a pagar (a carta custa menos de 150 euros), apesarde dizer que agora já estava na altura de voltar a Portugal, não é isso que Dinis sente.
  3. 3. Quando fala das suas dezenas de projectos, quando diz que as coisas vão melhorar – e di-lomuitas vezes como se a sua vida pudesse durar o dobro da do comum dos mortais –, a Guinéé sempre o palco principal da sua felicidade.As saudades das duas filhas são mesmo o que mais pesa a Célia e Dinis. Há oito anos quenão as vêem e há netos que ainda nem conhecem. Mas já lá vai o tempo em que uma viagema Portugal custava cinco mil francos CFA e a família se juntava toda para passar as fériasgrandes.Custas-lhes terem trabalhado a vida toda e não terem nada. “Nem cá nem lá”. Entregaram-se à Guiné e é a ela que pertencem. Por isso, sempre que pensam regressar perguntam “parafazer o quê". “Tenho direito à reforma porque fui militar e funcionário público de Bissau,mas na altura que a porta estava aberta não pude ir a Lisboa e agora está fechada a cadeado.Lá as pessoas vivem lado a lado, mas não se conhecem. Aqui sou o professor, dou cartas decondução desde 1968, ensinei pessoas que já morreram”, gaba-se Dinis.Célia também tem medo do regresso mas confessa já estar cansada de levar a casa e orestaurante às costas. “Dizem que Portugal está mau mas para nós é um mundo de rosas.Não há dinheiro, é verdade, mas aqui também não há. Lá não se compra mais, compra-semenos, mas não sentes saudades de comer. Abres a torneira e tomas banho de chuveiro. Eaquelas auto-estradas todas direitinhas? É uma alegria”, diz num português que já misturacom sotaque crioulo.Por agora, só têm uma solução: aguentar. “Ando há muitos anos com a palavra esperança naponta da língua mas ainda não a encontrei. Penso vir a ter uma vida boa na Guiné. Hoje nãotemos, não saímos de Bafatá há anos. Mas se calhar ainda vamos conseguir ter um carrinhomelhor para ir a Bissau dar o nosso passeio. Dançamos, ao toque da música. Se a músicasaltar, também saltamos. E bem alto”, deseja Dinis.Susana Gomes e David Afonso“A Guiné teria tudo para ser um país deprimido mas as pessoas não se deixamdominar por isso”O almoço com Susana Gomes e David Afonso estava marcado para as 13h00 na esplanadade uma barraca improvisada no centro de Bissau. Chegaram com mais de meia-hora deatraso. Pouco para a Guiné. David, 35 anos, levou mais de duas horas na visita ao barbeiro."Ou te habituas ou não duras cá muito tempo. Por um lado irrita-me o ritmo lento, por outroacho piada: meti conversa com as outras pessoas, fiquei à porta a ver a vida de bairro...Quem está mal sou eu, porque é que hei-de ter pressa? Hoje é domingo, não há mesmonada para fazer”, justifica-se.“Ó filho, mas o que é que vais fazer para a Guiné? Porque é que não vais antes paraFrança?”, perguntou-lhe em lágrimas a mãe já quando se despedia, depois de David lhe teranunciado que iria trabalhar para a Guiné-Bissau. Ao contrário da emigração portuguesa dadécada de 1960, França, Alemanha ou Suiça eram países que pouco diziam a David Afonso ea Susana Gomes, 30 anos. “Nem sequer cidades como Londres, Barcelona ou São Paulo”,destinos tão na moda para a nova vaga de jovens emigrantes. Com um trabalho estável euma vida cómoda, os motivos que os levaram a sair são diferentes dos da maioria. Cansadosda vida monótona, de estar há quatro anos a viver no centro de Lisboa a fazer a mesmacoisa, da falta de oportunidades e do discurso da crise, quiseram mudar completamente.Foram as férias que passaram juntos em Moçambique, em 2010, que talharam essa vontadee os fizeram pensar a sério no assunto. “Quando percebi que realmente era capaz de viverali, que quando saía de casa não tinha de puxar da faca para andar à luta com um crocodiloou uma cobra, nem caçar para comer, todos os terrores desapareceram”, revela Susana aomesmo tempo que tenta ilustrar com gestos as aventuras de que fala.A decisão foi tomada em 2011. Ficar a assistir a um país a “definhar”, a “andar para trás”,não era para eles. Quando Susana, que é arquitecta paisagista, soube de uma vaga paratrabalhar na reserva da biosfera do Arquipélago das Bijagós não pensou duas vezes. Não foiescolhida, mas a partir daí “mudaram ochip” e a Guiné-Bissau tornou-se no destino alvo.Acabaria por ser David o primeiro a conseguir. Em Outubro passou a ser o responsável daorganização não governamental (ONG) portuguesa TESE, onde já trabalhava: “Na práticavim para o meu contexto de todos os dias, que antes se reduzia a um ecrã de computador”.Do centro de Lisboa para Bafatá, uma pequena cidade no norte da Guiné, a segunda maisimportante durante o colonialismo mas que hoje parece fantasma e se reduz a meia dúzia delojas, uma discoteca, um hotel, um mercado e casas descascadas, quase sem tinta. Mudançamais brusca seria quase impossível. Ao início, Susana encarregava-se das lides domésticas:“Ia ao mercado, falava com as pessoas, tratava da casa, fazia o almoço... Acabou por ser umainversão de papéis porque geralmente é o David quem cozinha”, conta.Aprenderam a ser menos exigentes, a depender menos do consumo e da oferta cultural.Passaram a conhecer todos os vizinhos e a ter tempo para pensar pela própria cabeça. “Ésobrigado a estar mais contigo, não dependente do que te sugerem porque os estímulos
  4. 4. externos quase não existem. És tu quem decide o que queres fazer. A vida é muito maissimples e também bastante dedicada ao trabalho, que te ocupa a maior parte do tempo”,explica David.Não ter luz e água canalizada em casa foi um assunto que os incomodou mais em Portugal,quando se punham a pensar como seria do que agora, que têm de tomar banho com umcântaro e, muitas vezes, substituir a luz das lâmpadas por velas. “São coisas que no teu dia-a-dia acabam por não ter peso nenhum. Chegas e é quase por osmose. Vives assim. Este tipode constrangimentos podem ser mais cansativos a longo prazo do que no início”, avaliaSusana que quatro meses depois de ter chegado começou a coordenar um projecto detransformação de caju pelo qual está “perdidamente apaixonada”.Aquilo de que mais gostam na Guiné? “As pessoas”. A resposta sai sem pensar no mesmosegundo em que a pergunta é colocada. Susana explica: “Há um interesse genuíno em ti,ninguém te mede pelo que fazes, ninguém te pergunta para quem trabalhas, se estásdesempregada ou quem são os teus pais. Toda a gente quer saber o teu nome, quanto tempovais ficar, te diz que és bem-vindo e que estão muito contentes por cá estares. E não é daboca para fora porque se for preciso encontram-te na semana seguinte e fazem-te a mesmafesta. É uma coisa sentida. E recíproca, eu também me sinto realmente contente porque aspessoas me tratam bem”.“E não digam que é uma coisa africana porque não é, chegas ao Senegal e tudo muda. Estasimpatia, esta facilidade de comunicar, de conversar sobre os temas mais triviais é umacaracterística dos guineenses. Os guineenses são curiosos relativamente ao outro, entrasnum táxi e tens tema para a viagem toda”, acrescenta David que antes já tinha vivido emMoçambique e passado várias férias no continente.Apesar da Guiné-Bissau estar entre os 15 países mais pobres do mundo, de acordo comRelatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para oDesenvolvimento, o casal diz não ter perdido qualidade de vida. Quase todos os fins-de-semana viajam para algum lado e, pela primeira vez, sentem que não têm de “contar ostostões”. Depois, o facto de não estarem rodeados por pessoas queixosas fá-losautomaticamente mais felizes. “A Guiné teria tudo para ser um país deprimido, visto queestá em crise política quase desde a independência, e as pessoas não se deixam dominar porisso, continuam as suas vidas”, descreve David.Não se imaginam a viver mais cinco anos entre Bafatá e Bissau mas também não queremvoltar à Europa. Têm saudades, claro. De Portugal, das pessoas que deixaram, da ofertacultural. E medo. De perder as referências, que as coisas mudem mais depressa do queaquilo que conseguem acompanhar. “Quando moras em Lisboa, no meio dos teus amigos,há um conjunto de assuntos comuns. O vídeo no Youtube, a última banda do momento, o[ex-ministro Miguel] Relvas. Assuntos sobre os quais já não estás a par. Quer dizer, aoRelvas tens sempre acesso...”, brinca Susana.Querem ficar na Guiné até se sentirem bem. Não existem datas marcadas, apenas desejos:“Gostava de terminar o projecto de energia em Bambadinca [a vila onde está a serimplementado um sistema de energia acessível à população], gostava de ter esta vontade eentusiasmo até ao fim, em 2015”, antecipa David. Susana não faz planos. Para ela, a Guiné éo que é porque veio com David, alguém que realmente a conhece e com que pode falar detudo. É também com ele que pretende, num dia que não sabe qual, voltar.Lurdes Loureiro“A Guiné podia ser uma Suíça em termos de dinheiro e um Brasil em turismo”Chegou à Guiné com a cerveja Cristal. Lurdes Loureiro, 60 anos, é dona da Adega doLoureiro, um restaurante no centro de Bissau. “Trouxe quatro contentores quedesapareceram em dois meses. Antes disso, só vendiam Super Bock e Carlesberg”, conta.Tanto Lurdes como a Cristal pisaram pela primeira vez solo guineense a 5 de Julho de 1993 eambas fazem sucesso até hoje, ainda que por motivos diferentes – a Cristal é uma dascervejas mais vendidas no país e o restaurante de Lurdes uma referência para os que não seimportam de pagar mais caro para comer comida típica portuguesa.Há um ditado que diz que a magia da Guiné está na água do Pidjiguiti (porto de Bissau ondeatracam os barcos de pesca): todos os portugueses que vêm e bebem dessa água, não voltampara Portugal. “Eu devo ter bebido um garrafão, não foi uma garrafa nem um copo, foi umgarrafão!”, brinca.Lurdes diz que o chão da Guiné tem algo que a cativa mas rejeita a visão romântica deÁfrica. “Por vezes desesperamos e ficamos muito tristes: ou não há água, ou não há luz...Não são os buracos na estrada que nos chateiam, é a falta de serviços mínimos. Só com umgerador é que consigo garantir o funcionamento do restaurante e o combustível é muitocaro. Sem luz 24 horas por dia não se pode falar em desenvolvimento.”Foi em 1996 que percebeu que a sua estadia poderia estar para durar. Trouxe os dois filhos eabriu o Adega do Loureiro. Dois anos depois, quando eclodiu a guerra civil, deixou a Guiné
  5. 5. debaixo de bombas. “Só houve tempo de apanhar o ouro e o passaporte que estavam dentrodo cofre”, recorda.Ficou a viver em Portugal durante dois anos, mas decidiu voltar, reconstruir o restaurante“que estava irreconhecível” e montar uma empresa de limpezas.Apesar das dificuldades, Lurdes Loureiro não se arrepende da decisão. “O que revolta é queisto podia ser uma Suíça em termos de dinheiro e um Brasil em turismo. Temos as ilhas,temos gente capaz... Sim, não pensem que aqui só hásoclata [em crioulo "porcaria"], comoeles dizem, há pessoas muito inteligentes, guineenses que foram estudar para a Europa evoltaram por amor ao país”.Lurdes gere, com a ajuda dos filhos, os dois negócios, que não dão para enriquecer mas lhepermitem ter uma vida confortável. “Aqui na Adega, tentamos fazer tudo o mais caseiropossível e os clientes habituam-se. Vêm cá muitos guineenses e pessoas que trabalham emorganismos internacionais”, descreve.Mesmo quando a maioria dos restaurantes de Bissau está às moscas, no Adega do Loureiro éraro sobrarem mesas. Ali, ouve-se fado, vê-se o Benfica e come-se bacalhau. Quando vai aPortugal, é com o “seu menino” que mais se preocupa: traz queijos, chouriços, grelos,salsichas frescas e até caracóis para poder inovar na ementa. Tudo produtos que não seencontram nos supermercados guineenses.E é esta escassez que a deixa cansada: “Os clientes habituam-se a uma certa comida e àsvezes falha porque queremos frango, não há frango. Faço as compras para o restaurantecomo se fosse para a minha casa, não dá para encomendar nada a fornecedores porqueestraga-se tudo”, queixa-se.Lurdes gosta muito da Guiné, mas diz que quem lhe tira o seu Portugal, lhe tira tudo. Porisso, é com mágoa que vê a língua portuguesa ser esquecida, ultrapassada pelo francês, numpaís lusófono. ”Maltratamos o que é nosso, não cuidamos. Ninguém olha pelos portuguesesque aqui estão. Só houve um ministro que se importou com a Guiné, foi o Luís Amado[ministro dos Negócios Estrangeiros entre 2006 e 2009], de resto fomos completamenteesquecidos. O Paulo Portas quando era ministro das Forças Armadas veio às águas daGuiné-Bissau mas nem pôs cá os pés. Agora que é ministro dos Negócios Estrangeiros já foia Angola, a Moçambique, mas aqui... E olhe que estou a dizer mal do meu partido. Sou doCDS”, critica.Aquilo que mais quer é voltar. “Quando for mais velha...”, antecipa. “Todos os que emigramsonham um dia o quê? Todo o emigrante sonha voltar à sua terra. Se um dia morrer naGuiné, só peço aos meus filhos que que me enterrem em Portugal. Há uma quadra de umfado que diz o que sinto: Talvez que eu morra no leito onde a morte é natural com as mãosem cruz sobre o peito, das mãos de Deus tudo aceito, mas que eu morra em Portugal”.Carlos Alves“Para a Guiné ser o paraíso só tinha de ter aqui os meus filhos e netos”Quando se passa à porta do Jordani, é raro não encontrar Carlos Alves e o seu sorrisogrande. Está sempre ali: sentado numa das mesas de madeira do restaurante, encostado aobalcão, ou na rua – entre uma loja e outra a comprar o que falta para poder servir osalmoços. Trata toda a gente por tu e passa grande parte do dia a estender a mão (forma decumprimento na Guiné) a amigos e conhecidos. “Não encontra outros portugueses? Tenhomesmo de ser eu?”, pergunta. Foi fácil convencê-lo. “Bom, então passe cá amanhã ao meio-dia”.O amanhã foi uma quarta-feira. Mesmo de costas, é inconfundível: cabelo comprido e poucofarto apanhado num rabo de cavalo, cotovelo assente em cima da mesa, corpo relaxado aassistir à RTP África. Carlos Alves chegou à Guiné-Bissau há dois anos e nunca mais saiu.Não tem “saudadinhas” nenhumas de Portugal, “aqui é tudo mais fácil, alegre, natural...”.Não esclarece o motivo que o trouxe, mas fala de um grande desgosto de amor, daqueles quefazem doer e nos deixam sem norte: “Marquei a minha mulher quando ela tinha 12 anos e eu16. Soube nesse momento que seria a mãe dos meus filhos. Nunca lhe perdi o rasto, conhecitodos os seus namorados, ela conheceu todos os meus casos. Quando achei que era altura deatacar, deixei-me daquela vida. Aos 28 anos começámos a namorar, passado um anocasámos. Criámos dois filhos, estivemos juntos durante mais de duas décadas. Tivemos umproblema, divorciámo-nos e ficámos dois anos separados. Recomeçámos tudo de novo,perdidamente apaixonados, com o grande amor que sempre nos uniu. Passado um ano elamorreu. A Nita será sempre o amor da minha vida, a dona da grande paixão que sei nuncamais voltar a sentir. Já voltei a gostar de outras pessoas, mas nunca a amar.”De repente, aos 55 anos, a vida deixou de lhe fazer sentido. Os filhos estavam formados e aslembranças tinham excesso de peso. Porque não aceitar o desafio de um amigo que oconvidou para gerir um hotel e restaurante em Bissau? O que ganha não dá para juntardinheiro mas permite-lhe viver.
  6. 6. Come e dorme no Jordani e os seus luxos não vão além de uns camarões com os amigosquando há jogos de futebol, de umas minis “aqui ou ali” e de umas idas à discoteca “paraabanar o capacete”. “Como dizem os guineenses na passa [vive-se]. Para mim, o dinheirosempre teve um sentido muito prático: é para gastar”, conta.Carlos adverte que o melhor a fazer quando se chega é esquecer as “tretas que nos põem nacabeça”, contadas por quem não conhece verdadeiramente a Guiné. E destrói todas as ideiasfeitas do país: “Criminalidade? Sinto que ando mais à vontade em Bissau à noite do que emLisboa”. Gosta das ilhas do Arquipélago das Bijagós e das suas águas quentes, do calor e daspessoas, “sempre bem-dispostas, simpáticas e pacíficas”.Não esconde que também existem coisas más como a pobreza da população, a prostituição –“sobretudo feminina, miúdas que se oferecem a troco de quase nada porque precisam dodinheiro” – e até racismo “para com o branco que está mais ou menos bem”. Há certos sítiosa que evita ir para não ouvir frases como “isto um dia há-de mudar e os brancos vão sairtodos daqui”.A deficiência dos serviços de saúde, uma das lacunas que mais assusta os ex-patriados, nãotira o sono a Carlos que até agora só teve malária, “uma doença banal”. E depois, diz, “quemvai para o mar avia-se em terra. Faço prevenção, tento não comer gorduras, ter um estilo devida saudável. Se tiver uma coisa mais séria, há sempre um médico amigo que vem aqui aorestaurante”.Também não o chateia a monotomia que se vai apoderando dos dias numa capital compoucas iniciativas lúdicas e culturais. Até gosta que a sua vida gire sempre da mesmamaneira, como os ponteiros afinados de um relógio: “Levanto-me às oito da manhã e deito-me por volta da meia-noite. Só nos dias em que vou à discoteca é que me estico”, descreve. OJordani está aberto toda a semana e há que dar sempre uma resposta afirmativa à perguntaque quase todos os seus clientes fazem: “Há sopa de legumes, Carlos?”E depois os sonhos, que como diz o poema comandam a vida e a de Carlos não foge à regra:“Ainda hei-de pôr a funcionar um Jordani em Bolama”, a ilha dos Bijagós mais próxima deBissau e a antiga capital da Guiné até 1941, uma cidade em decadência, que muitosconsideram de uma beleza natural inigualável. “Adoro aquilo, acho lindo, lindo, e dá-mepena ver tudo abandonado. Gostava de abrir lá um hotel e restaurante porque não hánenhum sítio onde as pessoas possam ficar. Já começámos as obras mas temos medo quenão seja um negócio rentável”, confessa.A Guiné-Bissau é o sítio onde Carlos se imagina a viver para sempre. Um quase-paraíso quepara ser perfeito só lhe faltam duas coisas: os filhos e os netos. “Só tenho saudades deabraçar os meus filhos. Estou a tentar que eles cá venham... De resto, tenho aqui tudo.”

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