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Coca em stock artigo de françois soudan em jeune afrique2013
 

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    Coca em stock artigo de françois soudan em jeune afrique2013 Coca em stock artigo de françois soudan em jeune afrique2013 Document Transcript

    • "Coca em Stock" - Jeune Afrique(Artigo de François SOUDAN–numéro double 2729/2730 du 28avril au 11 mai 2013)Logo que soube através dos medias, no inicio de abril, como os agentes americanos da Drug EnforcementAdministration (DEA) tinham montado uma cilada a dois dos mais altos responsáveis militares da Guiné-Bissau, umdeles se encontra atualmente em prisão e o segundo (António Indjai, actual CEMGFA da Guiné-Bissau) é procuradopela Interpol, o coração de Ali quase ia tendo um colapso. Ali, não é nem o seu apelido, nem o seu nome, mas estehomem de negócios ivoiriense-libanês conhecido em Abidjan e em Ouagadougou, e que foi um próximo de LaurentGbagbo, se reconhecerá sem duvidas nesse rocambolesco negócio de enredos múltiplos e sucessivos. Isto porque, se avasta operação clandestina lançada em meados de 2012 pela administradora da DEA, Michele Leonhart, que visavadecapitar algumas das principais redes da cocaína connection na África Ocidental tinham na mira os dois barões dadroga guineenses desse gigantesco tráfico, outros alvos eram igualmente visados, entre eles Ali, decididamentealguém muito inconsciente desde que está em jogo o dinheiro.UM EXCELENTE TRABALHO DA JEUNE AFRIQUEEis a história - e o contexto.Depois de pouco mais de uma dezena de anos, a África Ocidental tornou-se numa plataforma de trânsito,armazenamento e de distribuição da cocaína proveniente da América latina. Um quarto do consumo europeu passapor essa região, ou seja um mercado de 33 bilhões de dólares para 4 milhões de consumidores. Comprada a 4.000dólares o quilograma na Colômbia ou no Peru, o pó branco revende-se 12 vezes mais caro na Europa. A droga chegaaté aos portos africanos nos contentores dos cargueiros que seguem a rota da «Highway 10», uma espécie deautoestrada transatlântica que liga os dois continentes ao longo do paralelo 10°. Porém, igualmente, mas raramenteseguem a bordo de aviões, dado que o famoso episódio do «boeings da coca» ocorrido em 2009, não longe de Gao, noMali com 8 toneladas de cocaína no seu interior proveniente da Venezuela, é porventura uma excepção. Amercadoria é de seguida reexpedida em direcção ao norte por via marítima ou terreste através do severo deserto doSahara. Os narco-jihadistas do Movimento para Unicidade e a Jihad na África Ocidental (MUJAO) e os rebeldestuaregues, que asseguravam até há pouco tempo a protecção e o encaminhamento da mercadoria, foram obrigados adeslocalizar as suas actividades desde o inicio da operação Serval - daí que, o trânsito da mercadoria segue a partirdesse momento a partir do Níger e da Líbia. Somas em jogo e os ganhos realizados são de tal forma enormes quenada aparentemente conseguira erradicar esse negócio.
    • A ROTA - O EIXO DO MAL, COM LISBOA PELO MEIOMAFIOSONão é evidentemente por acaso que o golpe da DEA teve como alvo, e em primeiro lugar, a Guiné-Bissau. Esta antigacolónia portuguesa é a principal feitoria da cocaína e o único prestador de serviço do tráfico. Até ao fim de 2011, ocontra-almirante Bubo Na Tchuto, Chefe do Estado-maior da Armada, reinou no negócio até ter sido posto de ladopelo Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas, o general António Indjai. Entre junho 2012 e abril 2013, osdois passam a ser alvos de uma bem montada operação de intoxicação e de manipulação por parte dos agentes daDEA, que se apresentaram como dirigentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), movimentonarco-terrorista que luta contra o poder instalado em Bogotá, vai para meio século, e que os EUA classificam deorganização terrorista. No decurso de reuniões secretas sistematicamente filmadas e gravadas em audio e vídeopelos norte-americanos, Bubo Na Tchuto e António Indjai aceitam armazenar a cocaína transportada até Bissau e deservir idepois de ntermediários para a compra de armas para as FARC. A 3 de abril, o primeiro foi detido a bordo deum navio nas águas internacionais ao largo de Cabo-Verde e presentemente transferido para uma prisão do Estadode Nova-Iorque. O segundo não caiu na cilada, mas ele é, depois de 18 de abril oficialmente acusado pela justiçanorte-americana, cuja acção está consubstanciado num mandato de captura internacional. O que não se sabe é que,ao mesmo momento a DEA levava à cabo uma operação similar entre Abidjan e Accra, tendo como objetivo demontar cilada não aos notórios barões como os dois mafiosos de Bissau, mas sim homens de negócios pouco ciososquanto à natureza dos contratos que se lhes propõem. "Eles lançaram uma linha de pesca à agua e sem duvidas, eles
    • devem ter lançado uma dezena iguais a fim de ver quem ira morder o isco" sugere um especialista em funções afetona região. Foi assim que Ali mordeu o isco.737 VIP - Como e por quem foi contactado?Tal continua um mistério. Em meados de novembro o nosso ivoiriense-libanês marcou um encontro num restaurantede Abidjan com o representante de uma empresa de aluguer de aviões francês. Eu tenho um grande cliente para ti,melhor que um simples locador, terás um comprador, disse-lhe o seu interlocutor. Ele e os seus amigos esperam-nosno Ghana, eles estão com pressa. Em finais de novembro, Ali e o alugador, chamamos-lhe "Michael" voltaram aencontrar-se, desta vez num salão discreto do Hotel Golden Tulip de Accra, na presença de dois outros homens. Oprimeiro, cinquentão, disse chamar-se Diego e ser de nacionalidade colombiana. O segundo, Joseph, 35 anosaproximadamente, de origem libanesa, afirma ser o seu associado. É ele que, talvez tenha estabelecido o contactocom Ali porquanto apercebe-se um pouco mais à frente de que os dois têm amigos em comum no círculo de relaçõesdos libaneses do famoso "trìângulo de ouro" da noite parisiense.Com grande surpresa, "Michel" e Ali, que supostamente pensavam estar a contactar com homens de negóciosaventureiros como tantos que existem um pouco por Africa, os seus interlocutores põem as cartas na mesa. Ambosafirmam trabalhar por conta das FARC e que o objectivo deles é de abrir uma nova linha aérea de exportação dacocaína a partir de Accra com destino à Península Ibérica. Paralelamente, o avião que eles procuram adquirir paraefetuar essas entregas servirá para o encaminhamento das armas compradas na Africa do Sul para os guerrilheiroscolombianos, via Venezuela. Para assim ser, eles estão dispostos a pagar em "cash" o aparelho e os membros daequipa, pouco importando o preço a dispender. No fim da entrevista, Diego e Joseph entregam aos seus novosparceiros dois telemóveis BlackBerry de um género muito particular: eles servem para corresponder de maneirasegura unicamente por email. Ali e "Michel" estão espantados: que fazer? O negócio é extremamente atractivo, mastotalmente ilícito. O risco é também tão grande quanto o benefício. De volta a Abidjan, o primeiro hesita: negociarcom narcotraficantes pode valer dez anos de prisão e não será essa a questão, mas porque não jogarsorrateiramente com eles, isto é vender-lhes o avião pura e simplesmente e sumir com o dinheiro sem entrardirectamente no negócio? Claramente mais exposto pois será ele o comprador oficial do aparelho, "Michel" hesita,reflecte e depois confia as suas desconfianças a um amigo, antena local de um serviço de informações europeu. Ohonorável correspondente escuta-o com um ar aparentemente distraído antes de desabafar: "Esta operação é umacilada da DEA. No vosso lugar, eu deixaria cair esse negócio".Perturbado, dado que não devidamente convencido pelo interlocutor que lhe pareceu não ter tomado muito a sérioa sua história, mas sobretudo curioso e teimoso por natureza, "Michel" decide de continuar por mais algum tempocom a aventura, à espera para ver o que acontecerá com o tempo. Ali, ele é completamente mais entusiasta: elenão acredita minimamente na hipótese de uma cilada e quer ir até ao fim com o negócio. Rapidamente, viaBlackBerry, o negócio vai tomando forma. "Michel" detecta um Boeing 737 VIP de ocasião na Roménia que custa 3milhões de dólares e que aparentemente parece agradar aos seus parceiros. Estes fazem-lhe chegar o plano de vooinicial. O aparelho saíria de Bucareste para Lisboa, depois seguiria directamente para a Africa do Sul, onde oarmamento encomendado seria embarcado de forma legal graças a um certificado de utilização final fornecido peloexêrcito venezuelano. Escalara a seguir num pequeno aeroporto junto à fronteira venezuelano-colombiana, onde acarga seria desembarcada sob a protecção dos militares chavistas e as armas seriam posteriormente entregues àsFARC. O regresso para Accra far-se-ia com o avião vazio. Segue-se o carregamento da cocaína com carimbo das FARC,que chegou ao Ghana por barco e está já armazenado em contentores no porto de Tema. Depois a direção seriaPortugal ou Espanha ou um local de acolhimento "seguro" onde o Boeing e da sua mercadoria seria organizada."Michel" recebe, a 29 de novembro de 2012, um pedido de importação de armas por parte dos seus novos amigoscolombianos: 4.000 espingardas de assalto russas e americanas, 2.000 pistolas, 1000 granadas, 1.000 minasantipessoais, 1.000 espingardas com miras telescópicas, 100 lança misseis Stinger e SAM...Tudo isso pareceverdadeiro e concreto. Se for uma montagem, uma mentira, seria desagradável.
    • ARMAS DE TODOS OS TIPOS, PARA FORNECER AS FARC, NA COLÓMBIA...ESCOBARDurante todo o mês de dezembro, "Michel" reflecte. Ele que nunca tinha infringido a linha vermelha da legalidade,acabou por se convencer de que, nessa história, nada haverá de bom, senão acabar mal. Porém, os seusinterlocutores pressionam mais e mais, e Ali está por seu lado cada vez mais determinado a conclui-lo. Ele ("Michel")inventa um pretexto familiar para não estar presente num encontro fixado para Accra a 17 de janeiro. Ali vaisozinho e do encontro voltará ainda mais convencido e excitado pelo negócio: para além de Diego e Joseph, explicaele a "Michel, de que tinha encontrado um outro dirigente das FARC, assim como a própria filha de Pablo Escobar,mítico narcotraficante colombiano morto faz vinte anos na sequência de uma operação da DEA. Contudo, tudo issode momento, pouco interessava a "Michel", pois estava já convencido de que quem lhe tinha posto de sobreavisosobre a possibilidade de ser uma cilada de agentes americanos, tinha razão. Ele virou a página, desligou o pequenoaparelho BlakBerry fechou as ligações e retomou os seus negócios na maior discrição. Quanto a Ali, que aindacontinua em Abidjan, fez o mesmo, apesar de tê-lo feito mais tarde, quando ouviu, a 6 de abril, a forma como osagentes da DEA tinham feito cair na cilada as suas presas guineenses. Uma surpreendente indiscrição da agênciaantidroga que, sem dúvidas, deve estar em curso noutras operações na Africa Ocidental. Nesta saga da Coca onde ospolicias e bandidos rivalizam na engenhosidade e onde os segundos estão sempre um passo à frente relativamenteaos primeiros, tudo acaba, mas recomeça de novo.(Artigo de François SOUDAN em Jeune Afrique – numéro double 2729/2730 du 28 avril au 11 mai 2013)