Richard house - Política Externa

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  • 1. A renovação da imagem daGrã-Bretanha: uma nova políticaexterna britânica para um mundoconectado em redeRichard HouseFor the first time since World War II, Great Britain is under a coalition government, this time composed by the Con- servative and Liberal Democrat parties. Among its challenges, it has to determine a new foreign policy for the country, after a full decade during which, the role of former prime-minister Tony Blair in the world has been decisive. What is coming out is what has been called as “a distinctly British foreign policy”, more realist and perhaps humbler than the one conducted by Blair. The new government promises a “virtuous circle between foreign policy and prosperity”, in a world where resources are limited and interdependence is determinant. O governo de coalizão britânico foi rá- Esses questionamentos periódicos podempido em deixar para trás uma década du- ser tarefas dolorosamente introspectivas,rante a qual a reputação da Grã-Bretanha carregadas de dúvidas quanto ao declíniofoi parcialmente determinada pelo papel da influência britânica ou se o país aindadesempenhado pelo ex-primeiro ministro seria capaz de manter sua posição de lide-Tony Blair no cenário mundial. rança, apesar de um orçamento militar Para apagar essas lembranças do passa- que ainda está entre os maiores do mun-do, o governo conservador-liberal demo- do. Apesar de toda essa angústia, a maio-crata, sob a liderança de David Cameron, ria das previsões mostra que o Reino Uni-vem formulando uma “política externa do permanecerá entre as dez maioresdistintamente britânica”, dotada de priori- potências econômicas e militares nas pró-dades bem diferentes, e que reconhece ximas duas décadas.uma Grã-Bretanha mais realista e talvez Mesmo assim, o debate britânico sobremais humilde, que precisa ganhar a vida “poder duro versus poder brando” vemem um mundo marcado por novas alian- ocorrendo em meio a um cenário de difi-ças e novas potências. culdades econômicas, que fazem as esco- O canto-coral, em lugar de árias sola- lhas do governo Cameron parecerem maisdas e excessivamente ambiciosas, definirá, limitadas do que nunca. Privado dos re-daqui por diante, a contribuição do ReinoUnido. A cada década, aproximadamente, Richard House é jornalista, diretor da Celebrand e dao equilíbrio político se altera e um novo Nextar Communications; foi correspondente do jornalgoverno britânico se propõe a definir um Washington Post no Brasil e trabalhou para a BBC, Thenovo papel internacional para si próprio. Economist e Financial Times, entre outros veículos. 161 VOL 19 N o 2 SET/OUT/NOV 2010
  • 2. ARTIGOScursos necessários para preservar o tradi- terna, a posição e a reputação da Grã-cional papel de grande potência que sem- -Bretanha, sem dúvida alguma, forampre caracterizou o Reino Unido, o novo prejudicadas por seu apoio incondicionalgoverno promete “um círculo virtuoso en- e por vezes servil às decisões do ex-presi-tre a política externa e a prosperidade”, dente Bush em 2003, que acabaram levan-calcado numa postura de política externa do à Guerra do Iraque e a todos os aconte-comercialista. A política externa de Came- cimentos que se seguiram. Os serviços deron vem envolta numa bandeira chamada inteligência do país ainda lutam para se“comércio”. livrar de persistentes acusações de má A Grã-Bretanha, então, deve fazer o conduta em situação de guerra, ao mesmopossível para projetar esse “poder bran- tempo em que a Grã-Bretanha tem de re-do” usando o comércio, suas credenciais e conquistar a plena confiança das potên-valores democráticos e o inegável peso cias emergentes que se mantiveram a umacultural da “marca” Grã-Bretanha. Acima distância crítica da guerra de Bush.de tudo, o Reino Unido vem invertendo Além disso, o fato de a Grã-Bretanhaa ideia que vigorou durante os 13 anos de ter feito uma ardorosa propaganda dogovernos trabalhistas: a de que a diplo- laissez-faire dos serviços financeiros anglo-macia deve se preocupar, antes de mais -saxões em nada contribuiu para melhorarnada, em adotar uma política externa essa imagem após a crise bancária globalética de “fazer o que é certo” e, apenas de 2008. Embora o Reino Unido há déca-secundariamente, com o “interesse nacio- das venha alardeando as virtudes da glo-nal esclarecido”. balização, do livre mercado e da desre- Esse interesse nacional significa recali- gulamentação, o controle desse processobrar cuidadosamente a “relação especial” passou para as mãos de potências emer-com os Estados Unidos. Escrevendo num gentes, que não têm mais nada a aprenderjornal americano, o Wall Street Journal, com Londres e estão firmemente empe-antes de sua primeira visita oficial como nhadas na construção de um setor estatalprimeiro-ministro a Washington, ocorrida forte. Em 2009, o presidente Lula, do Bra-em julho de 2010, Cameron afirmou: “Sou sil, em visita a Londres, criticou polida-pragmático e realista quanto às relações mente seus anfitriões ao contrastar o efeitoEstados Unidos–Reino Unido. Entendo recessivo do socorro financeiro prestadoque somos o sócio minoritário”. Descre- pelo Estado ao setor bancário britânicovendo a si próprio como “abertamente com o grande surto de crescimento econô-pró-americano”, Cameron descreve os mico desencadeado pelos novos consumi-pontos comuns entre sua agenda e a do dores brasileiros beneficiados pelo progra-presidente dos Estados Unidos, Barack ma Bolsa Família.Obama: Afeganistão, crescimento econô- Em vez de continuar se aferrando amico, estabilidades interna e externa e lu- uma potência mundial que já deixou parata contra o protecionismo. Cameron men- trás seu apogeu, a Grã-Bretanha vem aoscionou também “diferenças de ênfase” poucos se afastando de uma política que,nas questões comerciais. desde os dias de Winston Churchill, seu Para dissipar o legado de Blair, foi ne- líder nos tempos da guerra, vinha se em-cessária uma faxina geral numa estrutura basando numa situação de dependênciapolítica que ainda exalava um cheiro leve, em relação aos Estados Unidos. Após doismas desagradável. Apesar das altissonan- anos com os olhos fixos em Washington,tes declarações de ética na política ex- na esperança, em grande parte frustrada, 162 POLÍTICA EXTERNA
  • 3. UMA NOVA POLÍTICA EXTERNA BRITÂNICA PARA UM MUNDO CONECTADO EM REDEde que a “relação especial” ainda tenha cada vez menor. O G-20, inexoravelmente,algum significado para o presidente Ba- toma o lugar do G-8, a OTAN se amplia, Orack Obama, os diplomatas britânicos FMI e o Banco Mundial alteram sua estru-vêm aprendendo a procurar novos amigos tura de votação, os novos membros dono Sul e no Leste. Conselho de Segurança das Nações Uni- Portanto, embora a Aliança Atlântica das reivindicam status permanente, e écontinue sendo sua relação mais forte, perfeitamente possível que chegue o diaexiste hoje no Reino Unido uma tendência em que a Grã-Bretanha não tenha mais uma se voltar para um “mundo conectado assento cativo naquela cobiçada mesa.em rede”, que é multipolar por natureza.Da mesma forma, vem mudando tambéma relação por vezes esquizofrênica do Rei- O homem da McKinseyno Unido com seus vizinhos europeus.Na pista de dança de Bruxelas, a Grã- É possível dizer que o governo de coa--Bretanha de hoje trocou suas constantes lizão do Reino Unido tem dois líderes,tentativas de se intrometer na valsa fran- dois partidos e um pot-pourri de políticasco-germânica por planos de passar mais nem sempre compatíveis. Mas quando setempo com as nações europeias mais no- trata de diplomacia, a nova imagem britâ-vas, principalmente as que antes faziam nica é obra de um só homem.parte do bloco soviético e a Turquia, país Dois meses após assumir o cargo, emem rápida ascensão. maio de 2010, o secretário das Relações A realidade é que as potências emer- Exteriores William Hague frustrou todasgentes que fazem parte do BRICs – princi- as expectativas de que um governo depalmente o Brasil – logo irão sobrepujar o coalizão (no Reino Unido, o primeiro empoderio econômico britânico. Cada vez cinquenta anos, e formado por partidosmais, a Grã-Bretanha precisa desses par- que, antes da eleição, tinham posições im-ceiros globais para conseguir se reinventar placavelmente antagônicas em questõescomo uma nação comercial, após sua eco- de política externa) voltaria atrás e acaba-nomia ter sofrido um forte golpe causado ria por adotar soluções de compromissopor sua excessiva dependência no setor de assim que assumisse o poder.serviços financeiros. Assim, as embaixa- Muito pelo contrário, Hague, o prin-das britânicas passarão a promover o co- cipal estadista conservador do governomércio britânico, tanto quanto os valores Cameron, apresentou, numa sequência debritânicos. Sem dúvida que há muito tra- quatro discursos, o projeto de uma visãobalho pela frente. A Grã-Bretanha ainda radicalmente nova da diplomacia bri-exporta mais para a Irlanda, sua vizinha, tânica, rasgando em pedaços o manualque para a Índia, a China e a Rússia toma- que, tradicionalmente, sempre ditou asdas em conjunto. regras de política externa. Para substituir A nova diplomacia britânica foi plane- as antigas regras foi proposta uma estru-jada, particularmente, para fazer face a tura que reflete nitidamente a históriaessas angústias ainda não expressas sobre pessoal e os talentos do secretário de Re-o futuro, caso venha a acontecer de o Rei- lações Exteriores.no Unido ver seu status se reduzir ainda Para um político de tendência pronun-mais nos fóruns multilaterais e na arena ciadamente atlanticista, que entre 1997 eeconômica. À medida que o mundo cresce, 2001 comandou o Partido Conservador dea Grã-Bretanha parece ocupar um lugar oposição ao longo de uma fase fortemente 163 VOL 19 N o 2 SET/OUT/NOV 2010
  • 4. ARTIGOSeurocética, Hague, ao definir essa versão empresarial, calcado em pensamento rigo-não tradicional e voltada para o futuro, fez rosamente empírico. A visão cedeu lugarmais do que se poderia esperar para con- ao pragmatismo, que se sente mais à von-tentar seus parceiros liberal-democratas. tade numa reunião de negócios que numa Ficou para trás a teoria, predominante chancelaria. Metas, objetivos e indicado-após o fim da Guerra Fria, dos blocos do- res de desempenho terão seu papel em umminantes – os Estados Unidos, a União Ministério das Relações Exteriores que,Europeia e o Oriente Médio. Terminaram segundo Hague, “não foi incentivado a sertambém os últimos vestígios do prazer ambicioso o suficiente na articulação e nalevemente sádico com que os britânicos liderança da condução da política externaencaravam as dificuldades econômicas britânica”.enfrentadas pelo bloco europeu. E tam- Hague (que também é formado nabém ficou para trás o sentimento de que o INSEAD, a famosa escola internacional dedestino pós-imperial da Grã-Bretanha se- estudos avançados de Administração),ria o de policiar os pontos de conflito em sem dúvida alguma, espera um desempe-todo o mundo. nho melhor. “O mundo mudou e, se não A atitude rotineira com relação aos fó- mudarmos também, o papel da Grã-Breta-runs tradicionais de negociação interna- nha estará fadado ao declínio, com todascional também é coisa do passado. Daqui as consequências previsíveis para nossapor diante, espera-se que os embaixa- influência nas questões mundiais, nossadores espalhados pelo “mundo conectado segurança nacional e nossa economia”,em rede” usem o Twitter e outros canais advertiu ele.da internet para levar seus pontos de Em termos mais simples, a visão devista até à opinião pública. As embai- uma boa diplomacia proposta por Haguexadas foram instruídas a dar prioridade não difere muito do espetáculo das corri-aos negócios, e não mais a análises políti- das automobilísticas de Fórmula 1. Os pi-cas abstratas. lotos, que são celebridades internacionais, O lugar das velhas ideias é ocupado exibem seus troféus e colhem os louros deagora por uma visão equilibrada e sur- seus grandes prêmios, mas nada disso se-preendentemente liberal. É certo que Ha- ria possível se, nos bastidores, não existis-gue iniciou sua carreira em 1977, aos 16 se a discreta competência dos engenhei-anos de idade, falando para a convenção ros, projetistas, marqueteiros e gerentesdo Partido Conservador de Margaret britânicos, que formulam as regras, admi-Thatcher. A política formulada por ele, en- nistram os negócios e angariam os recur-tretanto, é genuinamente bipartidária. Os sos financeiros, embora não a glória.simpatizantes do Partido Conservador Uma outra comparação válida seria oque esperavam uma visão nostálgica das estilo britânico dos preparativos para asglórias passadas sofreram uma amarga Olimpíadas de Londres de 2012. Espremi-decepção. da entre a grandiosa encenação produzida Antes de entrar na política, Hague tra- em Pequim pelos chineses, em 2008, e osbalhou como consultor em administração planos brasileiros, apenas ligeiramentena McKinsey & Company, uma empresa mais modestos, para as Olimpíadas dode consultoria internacional que presta Rio, em 2016, a Grã-Bretanha vem plane-assessoria a grandes empresas e organiza- jando um evento “menos é mais”, onde oções, e a nova estrutura política proposta estilo, a espirituosidade e o savoir-fairepor ele traz todas as marcas de um plano britânicos terão de compensar os gastos 164 POLÍTICA EXTERNA
  • 5. UMA NOVA POLÍTICA EXTERNA BRITÂNICA PARA UM MUNDO CONECTADO EM REDEmenores com espetaculosidade cênica e ção do prisioneiro e as atividades lobistasarquitetônica. da British Petroleum, que àquela época Hague talvez esteja sinalizando um su- pleiteava direitos de escavação em territó-til distanciamento com relação aos Esta- rio líbio. Essa obrigação de aplainar osdos Unidos, mas continua um atlanticista mal-entendidos que tiveram origem noconvicto, sendo, em muitos sentidos, a governo anterior do ex-dirigente traba-contraparte ideal para a secretária de Esta- lhista Gordon Brown sem dúvida pôs àdo Hillary Clinton, com quem se encon- prova a paciência de Hague, conhecidotrou em Washington menos de 48 horas pela fala direta de seu Yorkshire natal.após ter assumido seu cargo no gabinete. O pragmatismo mais liberal de Hague Tal como ela, Hague é um político do se estende às relações com a Europa. Em-primeiro escalão do governo. Da mesma bora Hague, quando líder do partido, háforma que ela, ele jamais conseguiu che- uma década, citasse constantemente osgar ao cargo máximo (a eleição de Blair, efeitos da filiação à União Europeia para aem 1997, pôs fim às esperanças de Hague, soberania da Grã-Bretanha, o Hague deassim como a escolha do presidente Oba- agora promete dar um peso muito maiorma na convenção democrata eclipsou as que o governo trabalhista anterior à im-chances da sra. Clinton). Ambos, então, portância da participação britânica navoltaram-se para a alta diplomacia. Hague União Europeia. Embora o Reino Unidoacredita na “inquebrantável aliança com tenha 12% da população da União Euro-os Estados Unidos, que são e continuarão peia, apenas 1,8% do pessoal da Comissãosendo nosso principal relacionamento”. Europeia é de nacionalidade britânica, e o No entanto, as autoridades britânicas número de funcionários britânicos de pri-sentiram-se profundamente ofendidas com meiro escalão na Comissão diminuiu emas severas críticas feitas pelo governo dos cerca de um terço nos últimos quatro anos.Estados Unidos à British Petroleum, logo Afinal, a União Europeia continua sendo oapós o vazamento ocorrido na Louisiana, maior mercado da Grã-Bretanha.em abril de 2010. Ao contrário de acalmaras águas turbulentas das relações diplomá-ticas Estados Unidos–Reino Unido, o pe- Ética versus Realpolitiktróleo só fez piorar as coisas. A British Petroleum também está liga- A chegada de Hague a Whitehall com-da a um outro agravante que perturbou a pleta um ciclo que teve início em 1997,relação entre os dois países. A decisão, na Grã-Bretanha. Naquele ano, o primeirodatada de agosto de 2009, de libertar da secretário de Relações Exteriores de Tonycustódia britânica o terrorista líbio Abdel Blair, Robin Cook, lançou sua controver-Basset ali Mohmed al-Megrahi (condena- tida “política externa ética”, cujos objeti-do por ter abatido um avião que voava vos, pode-se afirmar, eram mais elevadossobre Lockerbie, na Escócia, causando 270 que sua capacidade de realização. Suamortes) indignou os juristas americanos. transferência da pasta das Relações Exte-Embora a soltura de al-Megrahi tenha riores, sua renúncia com base em questõesocorrido muito antes da posse de Came- de princípios com relação à guerra do Ira-ron, tendo também sido sancionada pelo que, em 2003, e sua morte prematura, emgoverno regional escocês, foi Cameron 2005, deixaram um vazio que o governoquem teve de explicar que não existia trabalhista jamais conseguiu preencher. Équalquer relação entre a generosa liberta- possível afirmar que as tensões internas 165 VOL 19 N o 2 SET/OUT/NOV 2010
  • 6. ARTIGOSentre a política externa ética de Cook e a Obstáculos e ciladasexperiência da Guerra do Iraque que seseguiu lançaram as sementes que acaba- Todos os governos recém-empossadosram por provocar o fim do mandato de estabelecem uma estrutura de política ex-Tony Blair e a posterior derrocada do Par- terna para orientar seus diplomatas a agi-tido Trabalhista. rem da forma certa quando chega a hora. Diferentemente dos governos traba- Mas é o modo como os políticos lidamlhistas dos 13 anos anteriores, o governo com o fluxo dos acontecimentos no aqui econservador liberal-democrata talvez não agora que virá a determinar seu sucesso.esteja tão empenhado em professar suas Estudos indicam que, logo abaixo da su-credenciais éticas, ou mesmo de sustenta- perfície, espreitam profundas divisões. Abilidade. O que não significa que o gover- Grã-Bretanha enfrenta um conjunto deno Cameron defenda uma realpolitik desti- desafios, antigos e novos, que severamen-tuída de princípios. te porá à prova a determinação da coali- Hague defende uma política externa zão governante.que “seja inspirada em nossos valores de As dificuldades econômicas significamliberdade política e de liberalismo econô- que as próprias embaixadas incumbidasmico, e tente inspirar esses valores em de reanimar o comércio internacional bri-outros países, que seja resoluta em seu tânico estarão sujeitas a grandes cortes or-apoio a todos os que, em todo o mundo, çamentários, com o objetivo de reduzirtentem se livrar da pobreza e dos grilhões pela metade o déficit orçamentário do país,políticos, por esforço próprio “. de 10% para 5% do PIB, implicando cortes O caráter nacional britânico não permi- de 80 bilhões de libras esterlinas no atualtiria que o país seguisse uma política ex- nível de gastos. Embora dois dos quatroterna sem consciência, ou repudiasse suas ministérios (ajuda externa e defesa) este-obrigações para com os menos afortuna- jam protegidos desses cortes, que podemdos, prometeu Hague – um historiador chegar a 25%, e possuam alavancas dereconhecido que escreveu uma competen- política externa, os diplomatas terão dete biografia de William Wilberforce, um realizar mais com menos recursos.militante britânico que lutou pela abolição O orçamento britânico para o desen-da escravatura. volvimento exterior (de cerca de 5,8 bi- Talvez a melhor indicação dessa alian- lhões de libras) fornece ajuda aos paísesça entre o novo atlanticismo e o rigor in- mais pobres. Atendendo a um dos princi-telectual de estilo McKinsey, situada no pais pontos da agenda preventiva da Coa-cerne da nova coalizão que assumiu o lizão de Cameron, cujo objetivo é dar sus-governo britânico, tenha sido a criação de tentação a Estados potencialmente falidos,um Conselho de Segurança Nacional em o ministro do Desenvolvimento Exterior,moldes norte-americanos. Seu papel será Andrew Mitchell, vem concentrando essao de centralizar as decisões estratégicas ajuda no Paquistão, Afeganistão, Haiti esobre questões externas, segurança, defesa em outros Estados frágeis, que podem vire desenvolvimento exterior. Paralelamen- a servir ou já servem de abrigo a piratas,te ao Conselho, funcionará a SDSR (Stra- terroristas, traficantes de drogas e outrostegic Defence and Security Review), uma desordeiros. Ao mesmo tempo, a ajudacomissão de acompanhamento liderada a países mais ricos e com capacidade nu-pelo dr. Liam Fox, ministro da Defesa do clear, como a China e a Índia, vem sendoReino Unido. progressivamente retirada. 166 POLÍTICA EXTERNA
  • 7. UMA NOVA POLÍTICA EXTERNA BRITÂNICA PARA UM MUNDO CONECTADO EM REDE Essa pregação de um “novo comercia- Unidos, e de se retirar da guerra antes delismo” é essencial para as perspectivas seu fim, uma vez que a opinião públicacomerciais britânicas. Alguns parceiros, esmorece diante das sucessivas baixas.entretanto, não esqueceram o tempo em A futura retirada do Afeganistão enfa-que os economistas britânicos evangeliza- tiza as tensões que atingem o cerne davam sobre a necessidade de privatização, tentativa britânica de forjar uma nova edesregulamentação e laissez-faire com rela- mais harmoniosa imagem para o país. Umção ao sistema bancário. Segundo Robin levantamento realizado pela empresa deNiblett, diretor do prestigiado Royal Insti- pesquisa de opinião YouGov, encomenda-tute of International Affairs (Clatham do pela Chatham House, mostra uma am-House), a promoção da abertura de mer- pla divergência entre os partidários doscados, hoje em dia, talvez venha a levan- dois parceiros da coalizão. Verifica-se tam-tar perguntas céticas devido às “falhas bém um vasto hiato entre as opiniões dospercebidas no modelo econômico anglo- 2.500 cidadãos comuns entrevistados e assaxão após a crise financeira global”. Mes- dos 900 formadores de opinião de elite. Osmo assim, a promoção dos mercados próprios britânicos não conseguem se de-abertos deve continuar como um elemen- cidir quanto ao futuro de seu país.to-chave da visão de futuro britânica, Enquanto 62% dos “cidadãos britâni-principalmente porque o Reino Unido é o cos comuns” são a favor de o Reino Unidopaís que mais tem a ganhar com uma eco- manter uma postura de “grande potên-nomia global aberta. cia”, empregando um contingente de for- O primeiro e pior desses grandes de- ças significativo, 41% dos formadores desafios é o Afeganistão. Cameron compro- opinião pensam que o país tem de aceitarmeteu-se a retirar as tropas britânicas até que não é mais uma grande potência e2015, no mais tardar. Um acordo aliado reduzir suas Forças Armadas. A divergên-sobre o processo de Cabul, firmado em cia entre os parceiros de coalizão é aindajulho de 2010, cujo objetivo é o de acelerar mais nítida: enquanto 73% dos entrevista-a capacidade afegã de autogoverno, avan- dos que votam no Partido Conservadorçou significativamente essa agenda. Em responderam a favor da postura de gran-2014, as forças de segurança afegãs de- de potência, 34% dos entrevistados libe-verão assumir o comando da segurança ral-democratas acreditam que o Reinoem todo o país. Um conselho da OTAN Unido deva desistir de todas as aspira-sobre o Afeganistão definirá quando cada ções ao “poder duro”.província estará pronta a iniciar o proces- Uma outra sombra pairando sobre aso de transição. O Reino Unido e outros futuro status do Reino Unido é a leve, masdoadores darão apoio financeiro ao Pro- ameaçadora possibilidade de o país nãocesso de Cabul. vir a ter capacidade ou disposição de Desse modo, seja por habilidade di- despender uma quantia superior a 20 bi-plomática ou por um timing propício, o lhões de libras na reposição de seu meca-governo Cameron, já nos primeiros meses nismo de dissuasão nuclear com base emde seu mandato, parece ter assegurado “o submarinos, empregado no contexto dacomeço do fim” do mais doloroso dos OTAN, quando este se tornar obsoleto,compromissos britânicos. Da mesma for- por volta de 2020. O levantamento da Yo-ma como ocorreu no Iraque, o Reino Uni- -Gov mostra divergências similares quan-do ainda necessita urgentemente de uma to à questão das armas nucleares. Entre os“paz honrosa” avalizada pelos Estados britânicos “comuns”, 29% são a favor da 167 VOL 19 N o 2 SET/OUT/NOV 2010
  • 8. ARTIGOSsubstituição da atual frota de submarinos Internacional”. Não é impossível que oTrident, ao passo que a mesma proporção Brasil, que vem pleiteando um assento– 29% dos formadores de opinião querem permanente no Conselho de Segurança,que o Reino Unido elimine por completo venha um dia a ocupar a cadeira que an-as armas nucleares. As divisões políticas tes era da Grã-Bretanha.também estão traçadas com clareza: en- Paralelamente, os especialistas em as-quanto 40% dos conservadores entrevista- suntos de defesa devem se concentrar nasdos querem novas armas nucleares, 35% “ameaças assimétricas” provenientes dedos liberal-democratas pesquisados res- organizações terroristas não estatais. Atéponderam que desejam ver as armas nu- que a Análise da Defesa seja concluída,cleares banidas para sempre. Assim, longe não se terá clareza quanto a como o Reinode estar no centro do processo decisório Unido poderá manter uma capacidade bé-sobre a segurança global, futuramente, a lica tradicional, de nação contra nação e,Grã-Bretanha pode se ver na situação de simultaneamente, enfrentar também essester que disputar espaço num mundo novo, novos desafios. No entanto, a verdade éonde suas antigas colônias hoje são potên- que a maioria dos militantes islâmicoscias nucleares, enquanto ela não o é. responsáveis pelos incidentes de terroris- No contexto dos pontos de conflito do mo interno são de nacionalidade britâni-Oriente Médio, o Reino Unido vem con- ca, embora de ascendência paquistanesa.fiando firmemente nas soluções multilate- A política britânica declarada de corte-rais e na principal lição aprendida com a jar os países BRIC e outras potências nãoGuerra Fria: com o tempo, os sistemas europeias em ascensão talvez venha a senormatizadores multilaterais sempre aca- chocar com a política interna. Enquanto osbarão por se sair vitoriosos. Quer se trate formuladores da política externa projetamdas ambições nucleares do Irã, do reforço um país voltado para fora, há sinais de quedo Tratado de Não Proliferação Nuclear a Grã-Bretanha esteja atingindo os limitesou da solução do conflito israelo-palesti- extremos da tolerância multiculturalista.no, o governo de coalizão resistirá às ve- Pela primeira vez em uma geração, a secre-lhas tentações de tentar ocupar um lugar tária do Interior impôs limites à imigração.de destaque em Camp David, como ocor- E apesar de todo o discurso sobre o Reinoreu na era Blair. Unido precisar abrir caminho em um mun- Por mais importante que seja, a parti- do onde o BRIC assume liderança cada vezcipação na União Europeia, no Conselho maior, a pesquisa do YouGov mostrou quede Segurança das Nações Unidas, OTAN os entrevistados têm atitudes negativas ouno Fundo Monetário Internacional, no G-8, pouco interesse por vários desses países.no G-20 e na Commonwealth, por si só, Embora o Brasil e o Japão sejam vistos denão é suficiente. O poder está escoando forma positiva, tal como as nações angló-para as instituições “Sul-Sul”, tais como a fonas e europeias, os entrevistados expres-Organização de Cooperação de Xangai, saram opiniões fortemente negativas comou BASIC (o BRIC mais a África do Sul), e relação à China, Rússia e Turquia – paísestambém para as organizações regionais. escolhidos para tratamento especial peloE, como Niblett, da Clatham House ad- secretário do Exterior Hague. Em outrasverte: “É possível afirmar que a criação do palavras, o governo de coalizão está apos-G-20 (...) coloca em xeque a posição privi- tando numa expansão do comércio inter-legiada do Reino Unido no Conselho de nacional, enquanto os britânicos parecemSegurança da ONU e no Fundo Monetário se tornar cada vez mais insulares. 168 POLÍTICA EXTERNA
  • 9. UMA NOVA POLÍTICA EXTERNA BRITÂNICA PARA UM MUNDO CONECTADO EM REDE Com tanta ansiedade latente sobre as das políticas britânicas terão conquistadoquestões de segurança, não é de admirar uma audiência mais ampla.que o Reino Unido esteja se concentrando No entanto, de que forma o Reino Uni-nas arenas mais propícias do “poder bran- do, um país médio em um mundo dedo”, em que a história, a cultura e a tradi- gigantes emergentes, tornará a sua vozção podem contribuir para adoçar a pro- ouvida em um mundo conectado em re-moção dos interesses comerciais britânicos. de? A Grã-Bretanha espera conquistar um Diferentemente do plano semioficial novo lugar apoiando as organizações mul-de 1997 do então governo trabalhista, de tilaterais normatizadoras, tanto novasreformular a imagem do país como a Cool quanto tradicionais, voltadas à governan-Britannia e capital da cultura jovem, o go- ça global, promovendo sistemas econômi-verno de coalizão vem adotando uma ati- cos abertos e concentrando seu próprio etude mais sóbria. Os diplomatas preferem limitado “poder brando” onde ele possaagora exibir o setor de educação superior surtir maior efeito. Acima de tudo, ume as universidades, que atendem anual- enfoque empresarial na promoção dosmente a 400 mil estudantes estrangeiros. A grandes interesses nacionais dá o tom pa-língua inglesa, a BBC, as principais ONGs ra os próximos anos.e organizações voluntárias, a tecnologia e No final das contas, o Reino Unido estáos setores criativos, bem como os Jogos confiando numa ideia abstrata e muitoOlímpicos de 2012 vêm sendo usados co- cara aos acadêmicos e consultores, masmo elementos decorativos para as políti- difícil de categorizar no mundo duro ecas da Coalizão. mensurável do comércio global: promover seu “poder brando”, suas ondas cerebrais e não seus músculos, como a contribuiçãoConclusão britânica às questões mundiais nos próxi- mos anos. Agindo como todos os governos de- Essa ideia abstrata é a “liderança devem agir, o governo de coalizão atrelou o pensamento”: a noção de que a Grã-Breta-vagão de sua política externa à locomotiva nha terá o papel de um poderoso canal deeconômica. Sem uma retomada do cresci- ideias e um facilitador de soluções positi-mento econômico, o Reino Unido perderia vas para os problemas do mundo. Ideiascredibilidade num mundo em evolução originais irão compensar a falta de poderacelerada. Um desempenho econômico de fogo financeiro e militar, e manter en-fraco traria o risco de um vertiginoso declí- gajada a atenção do mundo.nio no status e na influência global do país. O governo britânico anterior, sem dúvi- Assim, a prioridade do governo Came- da, deu partida a esse processo ao defen-ron é provar a correção de sua política de der a cooperação global para a redução dasrejeição ideológica ao “consenso pós- mudanças climáticas e o alívio da dívida-keynesiano” de Gordon Brown, forjado dos países mais pobres. Não é certo que onas Cúpulas do G-8 e do G-20 de 2008 e governo Cameron venha a ser capaz de2009, que pretendia aumentar o déficit continuar criando novas ideias a serempúblico. Quando – e se – a dor de engolir assumidas pelo mundo como um todo.o forte remédio fiscal destinado a reduzir Ironicamente, o declínio das circuns-o déficit orçamentário britânico for substi- tâncias econômicas da Grã-Bretanha talveztuída por um crescimento econômico sus- seja sua maior esperança de preservar seutentável, em fins de 2011, os formuladores status internacional. A inovação e a criati- 169 VOL 19 N o 2 SET/OUT/NOV 2010
  • 10. ARTIGOSvidade florescem em períodos de austeri- ciedades emergentes buscam uma maiordade, e foram muitos os “saltos adiante” participação de seus cidadãos, essas ideiasque, no Reino Unido, nasceram de crises são a moeda do “poder brando”.bem piores do que a que vem atualmente Por fim, a renovação da imagem dacastigando a economia britânica. política externa britânica, em si, diz mais A agenda doméstica de Cameron, de sobre a autoimagem do país do que qual-uma “Grande Sociedade” – onde voluntá- quer prova empírica do encolhimento derios da comunidade são incentivados a seu status mundial. Ao longo de todo oagir proativamente para, pouco a pouco, ano de 2010, os formuladores dessa políti-recuperar o controle sobre áreas de polí- ca externa viram-se desconcertados pelatica social antes dominadas pelo Estado – novidade do governo de coalizão, pelatalvez venha a se mostrar altamente ex- nova era de austeridade econômica, peloportável para um mundo cansado das esfriamento da “relação especial” com osprivatizações que visam apenas ao lucro, Estados Unidos e pela conclusão nadamas ávidos por uma maior participação bem-vinda de que, no Afeganistão, aspopular como mecanismo de coesão chances de sucesso militar eram tão baixassocial. Cameron talvez esteja clonando o quanto no Iraque. A atmosfera estava“governo do povo, pelo povo e para o carregada de nervosismo, mas o Reinopovo” de Abraham Lincoln como uma Unido, na verdade, não estava encolhen-alternativa de baixo custo para fazer com do, mas apenas pensando.que cidadãos voluntários cubram os rom- E a história mostra que o buldogue bri-bos e as carências causados pelos cortes tânico nunca é tão adaptável e inovadororçamentários nos serviços públicos. No como quando ele se vê contra a parede.entanto, numa época em que todas as so- Tradução Patricia ZimbresBibliografiaWilliam Hague (secretário das Relações Exteriores do Dr. Robin Niblett. Playing to its Strengths: RethinkingReino Unido): “Britain’s Foreign Policy in a Networked the Uk’s Role in a Changing World.World” (1º jul. 2010). Alex Evans e David Steven. Organising for Influence: UkWilliam Hague “Britain’s Prosperity in a Networked Foreign Policy in an Age of Uncertainty.World“ (15 jul. 2010). Pesquisa de opinião da YouGov. British Attitudes To-Dr. Liam Fox (secretário de Estado para a Defesa do wards the Uk’s International Priorities.Reino Unido): “Deterrence in the 21st Century” (13 jul. Jim Rollo e Vanessa Rossi: Aiming for new Vigour: the2010). UK in the Global economy.Royal Institute of International Affairs (Chatham Economist: “Bagehot”, 10 jul. 2010.House): UK Foreign Policy Conference July 13-14th,2010. Documentos. 170 POLÍTICA EXTERNA