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Carijó e as Esmeraldas
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Carijó e as Esmeraldas

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Autor: Nevas Amaral

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  • 1. Carijó e as Esmeraldas: PREFACIO 12-05-11:Sentimentos do Autor quarta 25-05-11É incrível como ao escrevermos uma historia o autor se envolve com ospersonagens, seus dramas, suas aflições, suas alegrias e principalmente a eternabusca pela felicidade. São como filhos, que concebermos e conhecemos tão bem,cada um deles com sua personalidade própria, suas qualidades e seus defeitos,suas verdades e inverdades, suas lutas íntimas e a maneira peculiar que cada umpossui de encarar a vida e lidar com os desafios que lhes é permitido.Foi assim que vim a conhecer e admirar estes personagens tão especiais, unsconcedidos por mim (ficção), outros que faz ou fizeram parte da nossa realidade(extraídos de fatos reais). Sendo que todos eles descrevam nomes fictícios. Masque alguns destes personagens são reais ou foi. 1
  • 2. Bem: Após pesquisas feitas por mim resolvi passar para o papel a saga de umajovem extremamente sofrida e massacrada pela desigualdade e injustiça da nossacruel sociedade. Porem, uma guerreira persistente e autentica, cujo seu nomefictício eu a concedi como Elisa.E ao decorrer das escritas desta história permaneci perplexo pela sua bondadeinvés de insurrecionada por tudo o que ela passou. E também fiquei atônito coma resignação de dona Dolores e Ramon.Um tanto admirado com a inteligência, dedicação e perseverança do menino“Carijó”(é espantoso como gênios são desperdiçados em nossa gananciosasociedade).Gostaria de lembrar também do Carlão, o grande ex-garimpeiro com coração deouro. E mais a meretriz que tem uma participação muito pequena na história,porem importante na nossa narrativa, ao mostrar-nos que às vezes somossujeitados a determinados atos considerados ilegítimos ou que nós mesmos ou asociedade de um modo geral, não os aceitam até que não necessitamos praticá-los e que por conseqüência temos que atuarmos, mesmo contra vontade, em prolda sobrevivência. Você, caro leitor, também irá conviver com estes personagense conhecê-los melhor, um a um. 2
  • 3. É um conto emocionante com varias tramas, que tem por objetivo mostrar osdissabores ou desígnios de todos os personagens. Os ledores mais sensíveis seemocionam, ou sentirão contrariantes com as injustiças que impõe a nossa atrozsocial.Espero que seja tão envolvente para você quanto o foi para mim e que momentosde distração e cultura venham a somar e se perpetrar presentes a cada instante desua leitura. UM forte abraço o autor: 3
  • 4. Agradecimento:Agradeço com profunda admiração a uma guerreira que carinhosamente nós desua família a chamamos de Reina, pois sem a mesma não seria possível à escritadeste texto. Que foi elaborado com total dedicação, abdicando de suas horas dedescanso, para digitar todas estas paginas. que foram escritas a mão por mim o“autor”. Pois quando ela voltava de seu trabalho além da mãe dedicada, a jovemRenata Amaral ainda achou tempo para dedicar-se ao meu projeto.Por isso minha querida sobrinha, só meu carinho pode demonstrar meuagradecimento e quero que saiba o quanto você é importante nesta empreitada,ou melhor, na conclusão deste livro. 4
  • 5. Solidariedade Há momentos na vida em que precisamos de uma mão amiga para realizar os nossos-objetivos.O que seria de nós simples mortais se não fosse a mão amiga. Eu na minha ansiedade dever esta obra concluída, procurei, procurei, procurei,; vários e vários amigos e fui medeparar com Rosana Ferreira.Uma pessoa extremamente inteligente e sensível... Tudo que procurei em várias pessoas.E justamente nessa minha amiga não esperava encontrar Por quê? Porque ela camufla umtesouro de conhecimento e intelectualidade na sua humildade. Mas com suas geniaisaspirações, ajudou-me a burilar meus textos e acrescendo coisas interessantes sem nadapedir em troca.Naturalmente tornou-se minha parceira de escritas nessa tarefa de apresentar esta lindahistória baseada em fatos reais, na nossa cruel sociedade tanto em nosso país e tambémem relatos e de outros lugares.NEVAS AMARAL:Quando encontrares a luz, não as negue aos que ficaram nas trevas: autor desconhecido. 5
  • 6. PARTE I CAPITOLO IEra maio. O zéfiro do cair da tarde ocasionava o perfume das flores quedançavam com beleza e graça como que numa coreografia saldando o belíssimopor -do - sol que maquiava o céu quase sem nuvens com suas cores de rarastonalidades, que nem mesmo o artífice por mais que talentoso que fosse, cujosuas obras valem fortunas conseguiria reproduzir em seu esplendor e esmero.Uma certa quantia de estrelas um tanto tímidas começavam a aparecer no céu eas aves com seus moldes brincalhões já estavam por mais um dia a roçar asnuvens com seus aspectos quase angelicais, como os primeiros convidados deuma festa que às vezes sentem-se um tanto quanto envergonhados por teremchegado cedo demais, mas cujo brilho que lhes é peculiar, não tarda a enfeitar ofirmamento, como pequenos brilhantes de valor inestimável.Seriam necessários olhos observadores e sensíveis que atentamente notassem taiscaprichos da natureza com seus requintes de sabedoria onde tudo se harmonizana obra prima do inventivo e, graças ao Criador, parece cumprir e realmentecumpre o seu destino que é a própria vida com toda sua força, onde todos tem asua função, e a razão de ser, tudo se completa gerando mais e mais vidas. Só 6
  • 7. mesmo uma Força Superior decorrida de um ser extremante sábio poderia gerarvarias e varias dádivas com tanta generosidade e amor total pela criação, paracolocá-las a disposição do homem que é uma partícula dele mesmo. E que, porconseguinte também é parte de Sua Magnífica Obra.Infelizmente nem todos estão preparados para dar o carecido valor às suaspróprias vidas e à de seus semelhantes. Envolvidos que estão em suas própriaslimitações, ganância ou devaneios, então não conseguem erguer-se para enxergaralém do horizonte. Mas a vida ensina e todos, alguns mais cedo, outros maistarde, completam seus ciclos e acabam por aprenderem, mais este eventoacontecera quando é chegado o momento de cada um assimilar as lições e seguiradiante, elevando-se mais e mais rumo às verdades indestrutíveis que nosaguarda em algum ponto de nossa caminhada física ou metafísica, sempre acaminho da perfeição.Portanto...Em um lugarejo muito distante das grandes cidades...Joaquim que tal agente tomar uma dose La no boteco?Só se você pagar Zé.Vamos lá homem, eu vendi duas galinhas e uns porcos. Por tanto eu tenho dinheiro pranós dois tomár um porre!E lá se foram os dois pela estrada de terra batida rumo ao boteco mais próximo, ansiandopelos prazeres entre aspas, proporcionados pela bebida que também era uma forma de 7
  • 8. fazê-los esquecer os dissabores e amarguras de uma vida que consideravam duras pordemais.Chegando ao boteco, Zé já se apressa em fazer o pedido colocando o dinheiro sobre amesa. Dá uma aí, seu Mané. Tá aqui o dinheiro. Uma prá mim e outra pro meu amigo aqui. Erápido, por favor, que noz dois está com a goela seca e temos muito dinheiro prá gastar.Mas rapaz, você tem muito mais do que o dinheiro de duas galinhas. Que dinheirama,hein! Dá até prá fazer uma festança e tanto, com arrasta-pé e tudo mais. Vamos beber atécair. ETA coisa boa é a tal da cachaça!É Joaquim, eu arrumei um bom dinheiro, desta vez.De que jeito, homem?Alem das galinhas eu vendi meus seis porco e minha égua.Uai, então vamos comemorar.Mas só que eu não posso gastar todo o meu dinheiro de uma só vez, agora,convenhamos... Que o danado do dinheiro é bom de gastar, ah, isso é... Escuta aquiJoaquim: Eu tenho uma proposta pra te fazer.E que proposta é essa? Posso saber?Vamos então beber depois eu lhe explico direitinho.Tá bom! Então o negocio é encher a cara e é isso o que importa!Ô,o,o,o, seu Mané, dá logo uma garrafa dessa danada pra noz dois.Diga-me uma coisa Joaquim: Faz muito tempo que você está sem a sua mulher?É rapaz, já faz onze anos. Prá ser mais preciso, desde que Elisa nasceu. 8
  • 9. E afinal de contas, porque ela foi embora? Dolores era tão jovem e bonita! Umaformosura mesmo, eu me lembro muito bem dela... Tinha uns treze anos, quando ela sefoi. É mesmo Joaquim?Responde Joaquim: É verdade. Vou te contar o que na verdade aconteceu:Quando Elisa nasceu fui eu mesmo quem fez o parto, mas pra isto eu tive que ingeriremumas e outras. E quando eu a tirei da barriga de Dolores e foi exatamente ai quando eupercebi que ela não se mexia e não chorava, eu acho que de tão fraca que estava. Tambémnão tinha o que comer em casa. Então eu e minha mulher pensamos que a menina estavamorta. Aí, eu saí pra enterrar a coitadinha na beira do Rio Grande, a uns três quilômetrospra lá da nossa palhoça.E aí, homem?E aí?! Ah deixa pra lá, pois essa história é muito triste e me da um aperto no coração.Conta rapaz vai lhe fazer bem é bom pra desabafar. Bota pra fora que eu estou deverasmuito curioso.Bem, já que você está pagando todas, merece escutar a minha história. Afinal não é tododia que a gente arruma um par de ouvidos disposto a uma boa prosa. Ainda mais pagandoumas. E por falar nisso, esta cachaça é da boa mesmo, e disso eu sou bom entendedor.Após uma breve pausa para saborear a cachaça, e também como que para criar coragem,Joaquim continuou o seu relato.Quando cheguei próximo ao riacho eu vi que Elisa não estava morta coisa nenhuma, poisela se mexia tão devagar que quase não se percebia e logo começou a chorar um chorinhofraquinho, pois, a coitada, de tão fraca, não tinha força nem prá chorar. 9
  • 10. Então resolvi voltar; Na volta, pedi ajuda prá uma senhora bem velha que morava numacasinha de barro sozinho lá por perto do tal riacho. Tem que ver que miséria. Muito piorque nós. A pobre vive lá na maior penúria. Não sei nem como consegue, mas enfim... Elacomeçou a tratar da menina e após alimentá-la a senhora começou a rezar uma rezaesquisita, parecia até uma velha dessas tal macumbeira, daquelas que cura tudo quanto édoença só com o poder da reza.Eu comecei a ficar meio assustado, pois, não gosto muito dessas coisas, Aí, eu memandei, aproveitando a distração da velha que parecia nem estar me vendo e acho que nãoestava mesmo, pois seus olhos pareciam estar assim meio que vidrados como se tivessevendo algo que não estava ali. Eu, hein... Dei no pé e ao invés de ficar esperando, fui paraum boteco não muito longe dali e comecei a beber umas e outras e aí já viu NE? Esquecida vida e da menina também. Nem vi o tempo passar... Só sei que fiquei um tempão ali,até escurecer.Após alguns minutos de silêncio e mais alguns goles...Continua homem!Comenta José: Agora que está ficando interessante. Estou vendo que aprosa vai longe. Mas não faz mal. Tempo é o que noz temos de sobra aqui neste fim demundo, não é mesmo?Bom, então vê se presta atenção que eu não gosto de ter que ficar repetindo, pois não soupapagaio. Só voltei lá depois de dois dias pra pegar a menina. Quando eu cheguei a minhacasa após os dois dias, depois da bebedeira, minha mulher não sabendo que a meninaestava viva chorou muito a perda da criança, afinal Elisa era a sua primeira filha. Chorou 10
  • 11. muito, mais ao mesmo tempo se conformara, pois na cabeça dela, Deus apeteceu assim,então o único jeito era se conformar.Pobre não tem muita escolha, não é mesmo? Ela só sabia como é de costume que tudo oque eu ia fazer primeiro eu tinha que passar no boteco prá encher a cara, como sempre eufiz... Agora me fala homem. Eu tinha que passar no botequim, pra afogar as mágoas? Poisé. Sei lá... Parece que o diabo atenta. É, moço, pinga é coisa do cão. Não precisa nem dedinheiro, pois a gente sempre acha alguém disposto a nos oferecer à danada. E aí a gentebebe porque está contente, ou então por tristeza! Sempre se arruma uma desculpa, poismotivo é o que não falta, não é mesmo? Estão-se felizes temos que beber pra comemorare ficar mais alegre ainda. Mas se infelizes, aí é que a malvada tem ainda mais serventia,que é pra afogar as mágoas no peito e esquentar o coração...E aí, homem. Vê se acaba de contar que eu já estou me consumindo todo de tantacuriosidade e você fica aí dando volta e mais volta. Vê se você desembucha logo, semtanto rodeio. Você esta até parecendo fumo de corda de tão enrolado. Pode beber o tantoque você quiser desde que me conte essa história direitinha. Toma mais um trago, estaaqui é direta do alambique. É da boa.Joaquim já sob o efeito da bebida, pois para ele bastavam alguns goles, começou a soltar alíngua aproveitando a ocasião, pois não era sempre que se encontrava alguém disposto aouvir suas histórias. Hoje era seu dia de sorte pensou consigo mesmo.Continuou a narrativa... 11
  • 12. Zé, como você sabe, minha mulher era muito nova. Tinha apenas treze anos quando Elizanasceu e era muito bonita mesmo, uma belezoca tinha um corpo perfeito e já formado, apele boa, uns dentes que parecia que era fabricado por um doutor. Pra encurtar a história,quando eu cheguei a minha casa com a menina, cadê a danada da mulher? Ela tinha idoembora. Dá pra acreditar, homem? Eu procurei a infeliz por toda parte. Só depois é queme dei conta que ela tinha dado no pé, pois, seus pertence, ou melhor, suas roupas nãoestavam mais lá em casa e o armário estava vazio. Eu devia era ter contado logo pra elaque a menina ainda estava viva, mas também como é que eu ia adivinhar que ela meabandonaria? E depois, se a menina não estivesse resistida? Ai meu amigo iria ser pior.Mas Dolores foi embora achando que sua filha estava morta? E eu só fiquei sabendo queela deu no pé por dona Norminha, aquela que conhece a vida de todo mundo de Riachogrande, sabe até dos pulos que a primeira dama da com aquele mulato o tal de Felisberto. E como você já sabe meu amigo, eu comprei a virgindade dela, dei um bom dinheiropara o seu pai. E eu a queria só por uns momentos, mas acabei me apaixonando por elaentão eu trouxe Dolores para a minha tapera na condição de esposa, que para o velho paidela fora um grande alivio.É... Eu senti muito quando Dolores foi embora. É isso que da morar no meio do matonesse fim de mundo onde não tem nenhum medico. Pra você ver eu mesmo que tive quefazer o parto. E Dolores quando percebeu que a menina não chorou e nem respirou, entãonós achamos que a pobrezinha estava morta mesmo, mas também pudera a mulher nãocomia quase nada, por isso que a menina nasceu tão fraquinha daquele jeito. Não sei nemcomo sobreviveu. Foi um milagre. 12
  • 13. Continua Joaquim.Dolores só deixou um recado com a dona Norminha: prá eu não procurá-la mais, pois euera o culpado. E se não fosse esse maldito vicio que eu tenho “a cachaça”, talvez nóstivéssemos salvado a nossa filha. Mas sabe de uma coisa? Eu acho até que aquela meninanem é minha filha. Pois ela é muito branquinha, que nem leite e assim que minha mulherfoi embora o filho do seu Ricardo foi-se embora também. Não é mesmo muitacoincidência?! Quero dizer, coincidência coisa nenhuma, NE? Tá na cara que eles doisfugiram junto sei la pra onde. Sabe de uma coisa, a menina tem os traços daquela famíliase você observar bem. Só cego não vê._ É mesmo, Joaquim: Mas você também é bem claro agente percebe pela cor dos seusolhos e você esta é bronzeado de tomar tanto sol homem de Deus._ Sei não! Bem mas se isso aconteceu até que foi bom. Ela implicava muito com aspoucas cachaças que eu tomo, e você vê que eu quase não bebo não é mesmo meu amigo?E amigo, além do mais onde já se viu mulher querer mandar em homem. Não tem nemcabimento. O homem é que manda na mulher e a mulher só presta mesmo é pra servir oseu homem, não é mesmo? Uma coisa eu te digo: Não se pode confiar em mulher, não.Mulher é bicho ingrato e traiçoeiro. Eu que o diga..._É... Mas, a sua filha está uma moça bem bonita, uma mulher e tanto!_ É mesmo, homem, ela já está quase no ponto de casar e me deixar sossegado. Eu jáestou ficando velho. Quero mais é sombra e água fresca. Tá na hora de ter um pouco desossego na vida. 13
  • 14. _ Quantos anos ela tem? Pergunta Zé com certa malicia._ Onze anos, rapaz._ É... Já está no ponto de ser desfrutada como uma uva._ O que você falou? Pergunta Joaquim com a voz exaltada pela bebida e pelo susto quequase fez engasgar com o gole que havia acabado de tomar e que desta vez desceu comoque queimando a garganta, fazendo com que ele ficasse vermelho também de indignaçãocom a ousadia do amigo._ Nada, não. Responde Zé meio sem jeito, pois ele havia pensado alto, já sonhando com amenina, pois há muito tempo havia reparado na sua formosura e meiguice. Mas o que oatraia mesmo e dava asas à sua imaginação fértil era a inocência e pureza da menina queera quase uma criança, embora o seu corpo já houvesse tomado formas de menina - moça,coisa que ela nem se dava conta._ Pensei que você tinha dito algo da minha filha. Acho que a danada da cachaça já estáme fazendo ouvir coisas._ Não,,não falei nada não, homem. Olha quer saber de uma coisa? Acho que esta garrafaestá é furada. Vamos pedir mais uma que esta aqui não deu nem pro cheiro. E não sepreocupe, pois eu pago toda a despesa. Hoje é tudo por minha conta e você é meuconvidado de honra. Vamos pedir também um tira gosto, senão... Se nós continuar sóbebendo sem comer nada vamos sair daqui carregado que nem dois sacos de batata. 14
  • 15. ETA coisa boa! Vamos aproveitar a vida enquanto a gente pode. Amanhã não se sabe nemse nós estaremos vivos. ... Traz aí mais uma garrafa de cachaça da boa e alguma coisa pranós comermos. Hoje eu quero é comemorar com meu amigo. Só está faltando mesmo éumas mulheres aqui bonitas e meia gordas. Bem bonitas pra fazer um chamego em nós,não é mesmo, Joaquim?!_ E a tal da proposta que você queria me fazer, Zé? Quero saber se vai me render algumdinheiro, meu amigão._ Ah, deixa pra lá. Depois nós falamos sobre isso. Responde Zé percebendo que após detoda aquela bebedeira, aquele não seria o momento mais propício para fazer a suaproposta. Esperaria por um momento mais adequado. Ele saberia esperar. Ah! E comosaberia... Afinal de contas, tinha a certeza de que valeria a pena.Parte 1 capítulo 2 15
  • 16. No caminho de volta para casa, Zé e Joaquim mal conseguiam parar em pé, de tãoembriagados que estavam.Já completamente entorpecidos pelos efeitos do álcool iam a passos trôpegos,cambaleando aqui e acolá, sendo que um se apoiava no outro da maneira que podiam.Como marinheiros à deriva num mar revolto em dia de tempestade, parando de vez emquando e rindo muito, achando a maior graça em tudo, os dois amigos riam até aslagrimas e sentiam-se bastante relaxados e descontraídos.Já na casa de Joaquim, bêbados e ainda com fome, pois o que degustaram no bar não foi osuficiente para saciar o apetite dos dois que agora se sentiam realmente famintos. Joaquimmanda a filha preparar algo para comerem, nem se dando conta de que não havia coisaalguma na despensa, aliás, o que era muito freqüente, pois o pouco dinheiro que eleganhava mal dava para o sustento dos dois e isso sem falar no que ele acabava gastandocom o seu vício nos botecos da redondeza._ Elisa, vê se faz alguma coisa pra mim e pro Zé comer, nós estamos com uma fome decão. E seja rápida menina! Vê se não fica lerdeando como de costume. Minha barriga estároncando prá valer. Dá até prá ouvir o barulho.A menina, cabisbaixa, responde num tom de revolta e medo. Medo da reação de seu paique andava muito nervoso ultimamente, descontando nela as suas amarguras einsatisfação com a vida._Não tem nada pra por no fogo, pai. Eu também estou com fome, mas não temos o quecomer, não. 16
  • 17. _ Dá um jeito, menina._ Mas que jeito? Responde a menina já aflita e quase chorando.- Vai pegar umas verduras na horta, procura uns ovos nestes ninhos de galinha por ai e vêse arruma um pouco de farinha de mandioca emprestada com dona Maria ou com donaNorminha. Vai logo e não fica olhando pra minha cara, sua inútil. Ou você pensa que é sóobrigação minha trazer comida prá esta casa, enquanto você fica aí de papo pro ar o diainteiro, completa Joaquim já enfurecido._Só verdura, pai? Nós vamos comer só verdura? Responde a menina já com lágrimas nosolhos, pois sua barriguinha também estava roncando de fome. Uma fome que às vezeschegava a doer._ Deixa que eu dê um jeito. Responde Zé passando a mão no corpo da menina com certamalícia, aproveitando-se da distração de Joaquim.Logo em seguida ele sai e vai até o armazém mais próximo e trazendo ovos, carne, arroz,feijão, farinha, sal até alguns doces para agradar a menina. Ela, por sua vez, vai até a hortae colhe um pouco de verdura para o jantar._ Mas rapaz sua filha está mesmo uma moça vistosa, muito bonita mesmo. Parece até umagazela! Uma flor do campo que acabou de ser colhida.Após o jantar que, naquele dia fora um verdadeiro banquete os dois, após saciarem a fomedormiram ali mesmo, roncando profundamente como dois porcos e Elisa quase não 17
  • 18. conseguia dormir e ao deitar-se ficou pensando na sua vida, em como ela gostaria que suamãe estivesse ali e que eles fossem de fato uma família feliz.Pensando ela chorou bastante e depois vencida pelo cansaço adormece. No seu sono elasonhou que estava em um lugar muito bonito e florido com um lago de águas cristalinas eborboletas coloridas por toda parte. Logo apareceu um rapaz de túnica branca, de umabeleza angelical e ela achou que ele fosse mesmo um anjo. Eles começaram a conversar eElisa que no início sentia-se triste e sem esperança logo começou a sentir-se bem melhor.Feliz até. Ele falou-lhe da importância da paciência e resignação e garantiu-lhe que umdia tudo ia melhorar e ela iria vencer e ser muito feliz. Pediu para que ela confiasse nofuturo e que jamais perdesse a sua fé. Era seu mentor espiritual, ou anjo da guarda que lhedava forças enquanto seu corpo refazia-se.Na manhã seguinte no âmago do amanhecer, Elisa lembrou-se vagamente de seu sonho,mas mesmo tendo uma vaga lembrança sentiu um bem estar enorme, uma sensação muitoboa de paz e felicidade que ela não sabia explicar, mas que era maravilhoso, tão bom, mastão bom que fazia com que ela se sentisse leve como uma pluma flutuando no ar eanalisando o pouco do ela lembrava do seu sonho ela determinou a si mesma que a suafelicidade seria só uma questão de tempo.Joaquim e seu amigo Zé finalmente acordaram. Um pouco zonzos ainda da bebedeira dodia anterior e com a cabeça pesada, mas nada que um bom café forte não curasse, e porsinal Elisa já estava coando um café bem forte e amargo para os dois na cozinha, de ondevinha um aroma agradável. 18
  • 19. Após tomarem o café silenciosamente eles continuaram a prosa do dia anterior._ O que você vai fazer hoje, Joaquim?_ Sei não, Zé._ Vamos tomar uma, homem? Precisamos conversar. Contrapõe Zé, já disposto a levar oamigo para o botequim mais próximo onde finalmente faria a sua proposta._ E a conversa será sobre o que Zé? Pergunta Joaquim meio desconfiado._ Lembra da proposta que eu queria lhe fazer? Pois bem, ainda está de pé._ Fale então homem! Do que se trata? Não carece de tanto rodeio. Desembucha logo.Afinal de contas, nós somos amigos ou não?! Tá me deixando já com a pulga atrás daorelha, de tanto mistério._Vamos lá pro bar que eu lhe falo. Já estou até com a garganta seca, precisando de unsgoles pra criar coragem.Os dois chegaram ao boteco e logo após alguns goles de cachaça continuam a prosa.Ainda é cedo e o sol mal acabava de apontar no horizonte para mais um dia de jornada,mas para eles não havia mesmo hora para começar a beber, pois todo dia era dia e todahora era hora. Pouco importava... Zé pigarreando e com um tom um tanto solene disse aoamigo com a voz entrecortada._ Joaquim meu grande amigão, como você sabe, eu sou muito só. Neste mundão já há umbom tempo, eu estou me sentindo muito desamparado necessitando de uma mulher domeu lado. Acho até que preciso- me casar para começar uma nova vida e constituir minha 19
  • 20. própria família, quem sabe... Você sabe um homem sozinho não progride, não tem futuroe eu... Bem eu não quero envelhecer só, pois é muito triste. Ah, deixa pra lá..._ Fala homem, não fica aí enrolando mais do que sucuri quando se enrosca com a presa._ Pois bem você está precisando de dinheiro e eu tenho o dinheiro que você precisa. Táme entendendo?_ Pois é Zé eu estava até pensando em te pedir um pouco emprestado. Só não sei quandoposso te pagar, pois você sabe muito bem a minha situação é muito difícil e a minhasaúde não anda lá essas coisa e ainda por cima essa minha perna inchada que não ajudamuito por isso é que eu nem consigo trabalhar.Zé esperou pacientemente que o amigo acabasse com a sua costumeira lamúria e arriscou._ Pois é Joaquim: Eu posso fazer melhor. Posso te dar de presente esse dinheiro que vocêtanto precisa._ Como assim?! Surpreende-se Joaquim com tanta generosidade do amigo para com suapessoa, mas na verdade ele ja sabia de antemão qual era a proposta de seu amigo Zé. Aítem coisa, pensou ele agora ainda mais desconfiado._ Pois é... Se você conseguir convencer a sua filha Elisa de se casar comigo, essadinheirama toda será sua. Eu prometo._ Você está falando que eu devo vender minha filha pra você, homem de Deus? E ter omesmo destino da mãe dela. 20
  • 21. _ Veja bem, Joaquim; Não é vender não! Não é bem assim... E além do mais você mesmodisse que a menina nem é parecida com você e talvez nem seja sua filha de fato. Entãoqual é o problema?_ Mais se não é vender, é o que então? Você esta me chamando de burro? Eu posso nãoter estudo, mas burro eu não sou não. E além do mais, minha filha é moça virgem ainda,ninguém tocou nela ainda. Por isso eu boto minha mão no fogo.Zé sente-se ainda mais digamos, entusiasmado com a revelação, mas procura disfarçar.Seus olhos brilham de desejo, pois já percebeu que o amigo apesar de fazer-se deofendido vai acabar não resistindo á sua proposta. Então responde, mal podendo conter-se:_ Entenda do jeito que você quiser Joaquim, eu só sei que eu estou doido por aquelaformosura que é a sua filha Elisa. Penso nela dia e noite; e quando durmo até sonho comela. Acho que estou endoidando de paixão. Além do mais, ela já está na hora de se casar,de ser feliz e ter um bom marido feito eu, você não acha, não? Coisa melhor do que eu elanão vai arrumar, por estas bandas, pode crer.Joaquim entre um gole e outro parece refletir começando a achar que o amigo tem razão.Zé continua, percebendo que o Joaquim está quase cedendo._ Veja bem homem, daqui a pouco ela acaba se engraçando com algum frangote aqui daredondeza que vai desvirginá-la e aí então é que ela não irá valer muita coisa. Isso semfalar que ela pode até acabar engravidando e aí é que eu quero ver. Você é que vai ter quecriar a criança. Já pensou, mais uma boca prá você sustentar? Eu já sou homem feito, játenho trinta e oito anos. Vou poder sustentar a sua filha e a prole toda que vier e te garanto 21
  • 22. que vai ser grande, pois eu sei que sou um bom reprodutor, praticamente um garanhão.Sem querer me “gabá”._ Sei não... Responde Joaquim quase convencido.Zé dá sua cartada final, blefando é claro, mas arrisca:_Quer saber de uma coisa Joaquim? Se você não me quiser como genro eu entendo,afinaldas contas Elisa é a sua única filha, mas fique sabendo que está cheio de pai por estasredondezas doidinho prá vender as filhas donzela e virgem como vieram ao mundo eaceitam até muito menos do que eu estou te oferecendo. Então se você não quiser, eu nãopretendo mais perder meu tempo. Vou é sair por aí em busca de uma noiva quem sabe atémais formosa que a sua filha, Ela não é a única moça destas redondezas.Zé já ia levantando, se fazendo de ofendido quando Joaquim olhando em seus olhos comum olhar de cumplicidade e cobiça coloca a mão em seu ombro e pergunta baixinho comoque selando o pacto entre os dois:_ Quanto é que você tem prá me oferecer pela virgindade da minha filha, por ser oprimeiro homem com quem ela ira se deitar._ Tenho uns duzentos reais._ Mas só?! Responde Joaquim querendo mais, apesar de Zé ter oferecido mais do que eleesperava._ 22
  • 23. Essa quantia é só um agrado, depois eu arrumo muito mais prá nós. Eu te dou a minhapalavra, homem! Pode confiar. Ou você não confia mais nesse seu amigo aqui? RespondeZé já vitorioso._ Vamos ver... Eu vou conversar com Elisa. Tentar convencê-la de que você é um bompartido, o marido ideal prá ela. Sei não... Mas vê se você toma ao menos um bom banhoprá tirar essa catinga de bode velho, viu? Responde Joaquim já matutando como iriaconvencer a filha a aceitar o Zé como marido, pois ele sabia previamente que ela nãogostava dele, principalmente por causa do seu bafo de cachaça. Não seria fácil mais eleiria tentar. E se não fosse por bem então seria por mal.Joaquim despediu-se de seu futuro genro e foi para casa pensando naquela conversa toda eresolveu que sua filha teria que lhe obedecer, afinal de contas ele era seu pai. Teria que secasar com o Zé de qualquer jeito, quer ela queira, quer não. Seria um bom negócio,pensava Joaquim, e ele finalmente ficaria livre da responsabilidade, pois uma vez casada,ela não seria mais problema seu, e sim de seu futuro marido, o Zé.Afinal, arrazoava ele, já pensou se ela acaba se deitando aí pelos matos com algumaproveitador e além de ficar desonrada ao perder seu bem mais precioso, a virgindade, elapoderia acabar até caindo na vida e virando mulher da vida tendo que se deitar com tudoque é homem.Ou se pior, ela engravidasse, ele é que teria que arcar com as responsabilidades e além deter que sustentá-la, teria que sustentar a criança também. Definitivamente o Zé estavacerto. Joaquim chegou a esta conclusão visando é claro, apenas os seus próprios interesses 23
  • 24. e querendo livrar-se de uma vez por todas do estorvo que Elisa representa em sua vida,pois cada vez que olhava para a menina, ele achava que ela não podia ser sua filha.A dúvida o atormentava dia e noite e a simples presença da menina o incomodava, poisele jamais aceitaria a possibilidade de um dia ter sido traído. Já até pensara em ele própriodesvirginar a menina e viver com ela não como pai, mas como amante. Iria fazer isso emnome de sua honra e antes que outro qualquer o fizesse. Mas sempre lhe faltava coragem,pois havia a dúvida e afinal, se ela fosse mesmo sua filha? Esse remorso ele nãosuportaria carregar até o fim dos seus dias. Mesmo sendo uma pessoa sem escrúpulos,Joaquim não desejava correr esse risco e do outro lado havia uma boa quantia nas mãos deZé que poderia ser seu bastava ele dizer sim.Com a cabeça fervendo de tanto pensar, Joaquim está quase chegando a sua humilde casaquando avista Elisa correndo e brincando com Pingo, seu cachorro de estimação. Elacorria de um lado para o outro, risonha e alegre tendo um raro momento de diversão comseu melhor amigo e como a criança que ainda ela era de fato. Ao ver a cena Joaquimchegou a se emocionar. Coisa rara de acontecer, pois em seu coração endurecido eamargurado pelo o abandono de Dolores, raramente havia espaço para as emoçõessinceras. Seu conflito íntimo era visível naquele momento, que pena! Ele não saber queElisa realmente era sua filha e que era sangue do seu sangue. 24
  • 25. Parte 1 Capítulo IIIElisa ao avistar o pai acenou-lhe sem nem ao menos imaginar o que o destino lhereservava. Destino este já traçado sem que ela tivesse qualquer chance de optar e decidirpor si própria. Seu pai já havia decidido seu futuro.Chegando a casa, Joaquim chamou a filha para conversar dizendo num tom meio melosoo que não era seu costume, pois quase sempre a tratava de uma maneira um tanto rude._ Elisa, venha cá, minha filha. Eu quero falar com você: Já está na hora de noz dois teruma conversa de pai pra filha. É, está sim! É um assunto de muita importância e é sobre oseu futuro. 25
  • 26. A pobre menina estranhou o tom de voz do pai e ficou muito curiosa a respeito, mas o queela nunca podia imaginar era o que viria a seguir, pois Elisa era ainda praticamente umacriança tal era a sua ingenuidade._ Elisa, minha filha, já está na hora de você pensar em se casar e ser feliz, com um bommarido que possa te dar uma vida melhor que essa que você leva aqui com seu velho pai.Diz Joaquim como que querendo açucarar as palavras para torná-las doces aos ouvidos damenina.Elisa assustou-se e com os olhos arregalados fitava o pai com incredulidade. Por algunsinstantes não sabia o que dizer, sendo que ela mesmo nem sabia a dimensão da palavracasamento. Não sabia o seu significado em toda sua amplitude. Depois respondeu umpouco assustada:_ Não pai, eu sou muito nova prá pensar nisso. Eu ainda nem penso nessas coisas. Deusme livre e guarde.Mal ela sabia que o pai queria mesmo era livra-se dela de uma vez por todas e ganhar oque seria para ele um bom dinheiro._ Mas minha filha, você já está prometida. Revela Joaquim finalmente._ Como assim? Não entendi, pai._ Você nunca saiu desse lugar. Já está na hora de ter sua própria vida, sua própria casa. Eujá até arrumei um noivo prá você. Eu tive conversando com o Zé e ele quer que você secase com ele. Ele é um sujeito bonzinho. Zé vai ser muito bom prá você menina. Podeacreditar em seu pai. Eu só quero o melhor prá você minha filha, Elisa... Não duvide deseu pai. 26
  • 27. Eu te criei até agora e está mais do que na hora de você pensar no seu futuro. Pronto estáresolvido! Afinal eu sou seu benfeitor e quem da às ordens aqui sou eu!_ Bonzinho, o Zé? Admira-se Elisa. O senhor acha isso porque ele vive pagando pingapro senhor lá no bar. Responde Elisa, perplexa com as idéias de seu pai, mal podendoacreditar no que acabara de ouvir._ Escuta minha filha, ele gosta muito de nós. Você viu ontem a compra boa que ele fez?Tinha de tudo que carecia pra nós comer até uns doces ele comprou para você, deixa deser ingrata. Se não fosse o Zé não sei o que seria de nós. Além do mais ele é meu amigo eé de confiança. Ele prometeu que ira nos ajudar. Isto é... Se você se casar com ele._ Pai! Retruca Elisa indignada... Por favor, pensa um pouco. Ele não é nosso amigo e eunão gosto dele. O senhor bem sabe disto._ Você já está de olho em alguém, é? Será algum moleque da maldita fazenda do seuRicardo, ou então algum vagabundo? Veja bem, porque se for eu não respondo por mim.Vê lá, hein, menina desavergonhada. Responde Joaquim em tom ameaçador e pegandoElisa pelo braço, sacudindo-a, já cego de raiva continua:_ Fala, menina. Confessa! Será que você está com cachorrada comigo, é? Você não podeme dar esse prejuízo, não. É o Zé que vai tirar a sua virgindade. Eu até já prometi prá eleque ele vai ser o primeiro e agora não posso dar prá trais. Filha ingrata que você é! Eu tecriei sem mãe, dediquei toda minha vida por você! Por tanto eu sou seu pai e sua mãe esei muito bem o que estou fazendo e o que é melhor pra você.Joaquim não se conformava. 27
  • 28. Elisa já chorando e sem entender do que o pai estava falando, muito assustada com o seuacesso de raiva pergunta:_ O que o senhor falou pai?_ Nada, nada. Não interessa. Na hora você vai saber. Você terá que se casar com o Zé epronto. Não se fala mais nisso. Ele é um homem bom e já está decidido. Vê se temcabimento... Eu sou seu pai e sou eu é que mando e você tem que me obedecer. Ora essa..._ Pai, pelo amor de Deus, não faz isso comigo. Implora Elisa já chorando. Eu sou muitonova e aquele seu amigo fede e eu não quero me casar agora. Elisa aos prantos tentando entender porque teria que receber tamanho castigo, pois eraexatamente o que aquela união com Zé representava para ela, destruindo todos os seussonhos de adolescente._ Já está feito, e o que tá feito não tem contorno. Não tente me desobedecer e fazer igual àvagabunda da sua mãe, aquela cadela vadia que foi embora com outro só porque pensouque você tinha morrido... Aquela ingrata! Responde Joaquim cheio de mágoa. Mágoa quecorroia o seu coração desde que ele fora abandonado e que só a cachaça parecia amenizar._ Pai, que mal eu fiz pro senhor? Que fiz eu prá receber tamanha punição? Pergunta amenina já em prantos como uma última tentativa de revogar a atitude de seu pai e fazercom que seu pai mudasse de idéia._ Você é igual sua mãe... O comportamento, a mesma cara. E nós estamos é passandofome. Será que você não vê isso? Pensa bem, o Zé ira te dar as coisas prá você, do bom edo melhor e eu... Eu pego o dinhei... Joaquim quase ia revelando o seu plano, sem querer,mas interrompeu-se a tempo. 28
  • 29. _ O que, pai? Indaga Elisa, sem compreender _ Nada, menina. Prepara-se, pois você vaise casar com ele amanhã a noite. E chega de conversa. Eu sou seu pai e decido o que émelhor prá você.Elisa abaixa a cabeça e sente as lágrimas rolarem em seu rosto em brasas, mas sabe que sólhe resta obedecer e se conformar, pois o que mais ela poderia fazer? ... Inexperiente eindefesa não podia contar com a ajuda de ninguém. Não havia saída para ela. Por maisque não quisesse teria que submeter-se às ordens de seu pai.Como a vida lhe era cruel, pensava Elisa com o olhar perdido no horizonte. Neste instanteuma brisa suave tocou seu rosto e seus cabelos macios como que a acariciando com umcarinho imenso e ela lembrou-se do sonho que tivera com o rapaz de branco que maisparecia um anjo e que lhe pedira para que ela fosse forte e tivesse fé, pois um dia tudo iriamelhorar.Naquele momento era como se o rapaz em sua beleza angelical estivesse ali ao seu ladodando-lhe apoio e sustentação. Ela chegou até mesmo a sentir um agradável e suaveperfume que era diferente de quaisquer outro que já sentira antes. Um perfumeinigualável. Fechou seus olhos e aproveitou aquela deliciosa sensação de frescor econfiança que experimentava sentindo-se leve e de certa maneira até mesmo resignadacom o que o destino lhe reservara.Aquela sensação de bem estar fez com que todo o seu ser se sentisse revigorado e elaficou a observar o lindo pôr - do - sol que contornava o céu alaranjado e transmitia-lheuma grande paz interior fazendo com que ela esquecesse por algum tempo do seu drama 29
  • 30. íntimo. Pingo, seu melhor amigo a olhava com um olhar triste e com muito carinho foi aoseu encontro e colocou a cabeça em seu colo suspirando, como que desejando consolá-lapelo seu infortúnio. Se ele pudesse falar diria: Coragem, minha amiga, coragem! Era oque seu olhar canino expressava com todo seu amor por aquela fiel companheira.Parte 1 Capítulo IVNaquela noite Elisa não conseguia dormir e sentindo-se acuada como uma presa fácildiante de um terrível predador, tenta preparar-se para uma fuga, mas pela suainexperiência, não sabia como fugir. Não sabia nem para onde ir, se sentia em umlabirinto e não tinha tempo para pensar em algum plano que desse resultado. Queria sumirse pudesse, mas para onde e como?Sem dinheiro e naquele fim de mundo a menina nem tinha idéia de como sair daquelelugar onde passara toda sua vida sem dar um único passo adiante e como não tinha aquem recorrer sentiu que o jeito era resignar-se com a situação, pois não havia o que elapudesse fazer. Se ao menos sua mãe estivesse ali para defendê-la e protegê-la ou atémesmo ajudá-la fugir daquele destino cruel...Mas ela nem se quer a conhecera. Ficava tentando imaginar como ela seria. Seu rosto osom da sua voz, e até o gosto que teria a sua comida ela tentava adivinhar. Em vão... Àsvezes sentia tanta falta de um carinho de mãe que muitas e muitas vezes, chorava 30
  • 31. escondida num canto qualquer, mas sempre escondida de seu pai que não suportavaaquelas lamuria, como ele próprio dizia.E agora o destino mais uma vez estava sendo duro com ela. Por quê?Ela não conseguia encontrar uma explicação por mais que tentasse. Nada fazia sentido...Sua mãe a abandonara quando ela nasceu, pois pensava que ela havia morrido. Mas comoisso aconteceu? Elisa não compreendia... O fato de saber que sua mãe fora embora sóporque pensava que ela estivesse morta até que lhe servia de consolo às vezes. Ela atéconseguia entender o porquê de sua mãe, que ela nem conhecera, não querer maiscontinuar vivendo com seu pai. Homem rude que era deve tê-la feito sofrer muito e elacom certeza foi tentar ser feliz e levar uma vida mais digna com outro, o filho do senhorRicardo um fazendeiro próximo daquelas redondezas. Será que sua mãe era feliz com seuatual marido? Assim pensando em sua genitora Elisa acabou adormecendo, pois se sentiaexausta, emocionalmente falando. No dia seguinte Zé sentiu - se radiante. Tomou até um banho caprichado, barbeou - se evestiu a sua melhor roupa para a grande ocasião. Mal podia esperar para ter a menina nosseus braços e transformá-la em mulher. Não que a amasse, mas desejava-a ardentemente.Desejava possuí-la de qualquer maneira e só de imaginar o frescor e a maciez da sua pele,a doçura de seus lábios que nunca haviam sido beijados ele já ficava quase louco depaixão. Sempre quisera desfrutar de uma virgem, ter a sensação de ser o primeiro homema deitar-se com ela e fazê-la mulher. E na sua fantasia, ela se apaixonaria por ele noprimeiro contato e estaria sempre pronta a servi-lo a qualquer hora do dia ou da noite, pois 31
  • 32. essa era a obrigação da mulher no seu modo de pensar. A doce e meiga Elisa, que logoseria sua...Ele iria possuí-la e dominá-la totalmente. Ela seria finalmente toda sua. Além disso, Elisairia cozinhar lavar e cuidar das suas coisas. E é claro eles iriam ter muitos filhos, umafamília bem grande. Ela era jovem e saudável e com certeza seria uma boa parideira.Afinal de contas, pensava Zé, mulher foi feita para isso mesmo. Ele já até sentia-seorgulhoso da fama que teria na região futuramente, pelo número de filhos. Teria um filhopor ano e aqueles que vingassem, assim que estivesse crescidinhos, ele iria por paratrabalhar na roça para ajudá-lo. Não iria ficar sustentando vagabundos, não. Se quisessemcomer teriam que trabalhar. Pois assim ele fora criado.Seu pai também colocava os filhos, que eram muitos, para trabalhar desde a mais tenraidade. E era trabalho duro, de sol a sol, mas se quisessem comer seria assim. Sua mãemorreu cedo, acho que de tanto parir, pensava Zé... Mas afinal, mulher era feita prá issomesmo e com Elisa não seria diferente.Todo orgulhoso e muito ansioso seguia Zé seu caminho para a casa de sua noiva e futuraesposa. Ia cantarolando todo feliz da vida.Logo ele, pensava todo contente, que até agora só se deitara com meretrizes que só lhedavam amor, ou melhor, prazer, em troca de algumas moedas. O que era bom, ele nãopodia negar, mas com Elisa seria o Maximo, pois as mulheres de programa apesar deserem lindas elas se deitavam com todo mundo, qualquer um mesmo, desde que pagassemé claro. 32
  • 33. Elisa não! Ela seria só sua: Jamais conheceria outro homem, afinal ele jamais admitiria ecaso isso acontecesse e ele descobrisse a mataria, assim como tabém o cabra safado queousasse seduzi-la, lavaria sua honra com o sangue dos dois, isso sim, pois ele era o Zé enunca admitiria ser passado para trás.Foi com a cabeça fervilhando de idéias e já com muito ciúme que ele chegou à casa de suanoiva.Conforme combinado antecipadamente, Joaquim havia saído sem Elisa perceber,deixando-a sós.Ao vê-lo se aproximando Elisa teve vontade de sair correndo e fugir para bem longe, maspara onde? Ele com toda certeza a alcançaria rapidamente e talvez fosse até pior pensavaElisa. Nem adiantaria tentar...Zé cumprimenta-a todo solene dando-lhe um pequeno buquê de flores do campo que elemesmo colhera e amarrara com uma fita de cetim branca, pois queria agradar sua noivapura como uma rosa em botão que era, e que ele faria desabrochar com muito orgulho._ Boa noite, minha noiva! Diz Zé com uma voz melosa, querendo agradar._ Eu não sou sua noiva, vá embora ou eu vou chamar meu pai! Responde Elisa rudementee nem sequer pegou as flores que Joaquim lhe ofertara.Ele nem se abalou. Sorriu ironicamente e disse com um tom de deboche:_ Bobinha! Você não sabe que teu pai me vendeu por duzentos reais?! Eu até bebi umashoje prá comemorar o nosso consórcio. Veja: Eu até tomei um banho completo! Sente só!Estou até perfumado só pra você, minha noiva. Vem cá, dá um abraço e um beijo no teu 33
  • 34. homem... Diz ele já agarrando a menina e tentando beijá-la, mas seu hálito de bebida erainsuportável para ela.Elisa tinha que prender a respiração para poder agüentar ao mesmo tempo em que tentavadesvencilhar-se dele. Em vão, pois ele era muito mais forte e quase já a dominava porcompleto. Estava muito perto de realizar seu sonho...Ainda como ultima tentativa e bastante assustada Elisa disse já aos prantos:_ Seu Zé, por favor, não faça isso. Deixe-me em paz! Eu não quero... Vê se arruma outranoiva.Zé já ofegante pelo esforço em dominar a menina que não parava de espernear aindadisse:_ Elisa, minha cabritinha, desde que você era pequena eu já pensava em ser seu homem,seu marido e pai dos seus filhos. Vem cá, não tenta fugir não, que vai ser pior prá você.Eu vou te fazer feliz, pode ter certeza de que você vai gostar...Então ele pega a menina no colo e joga-a na cama, e ela pela sua pouca idade, aindaindefesa que era acaba cedendo e entregando-se àquele ato forçado.Pronto! Estava consumado. Zé afoito que estava não tomou os devidos cuidados com amenina no sentido de ser mais carinhoso e cuidadoso. Praticamente a violentou, não seimportou com suas dores físicas e muito menos morais. 34
  • 35. Agora ela era sua, toda sua, sua propriedade pensava ele satisfeito. A primeira vez eraassim mesmo, depois ela acabaria se acostumando e gostando. Dali a pouco seria elaquem iria pedir, pensava Zé todo orgulhoso.Orgulhoso e egoísta do jeito que era pensando em si próprio, somente em si ele nem sedava conta de que as mulheres da vida com quem estava acostumado a deitar-se nem delonge sentiam o prazer que ele imaginava.Apenas fingiam para agradar o cliente. Não que também ele se preocupasse com isso, poispara ele pouco importava desde que ele satisfizesse os seus mais primitivos instintos. Àsvezes até mesmo humilhando-as quando não o agradavam.Sendo que o exagero com a bebida é que muitas vezes impedia que conseguisse consumaro ato intimo e sagrado que nos traz prazer e colabora com a continuação da humanidade,quando praticado sem a aberração.Mas ele ignorante e agressivo que o era colocava a culpa nas próprias criaturas quetinham a infelicidade de atendê-lo prestando um serviço sexual para o seu bel prazer e quesó o faziam por ser a única maneira que conheciam de sobrevivência para se sustentarementre outros clientes afoitos e que dependiam do fruto de seu trabalho tropeço ou não.Mas poucos homens compreendem isso e as julgam muito mal.Apesar de usufruírem e serem coniventes usa e abusa constantemente de seus serviços, astratam cruelmente como se fossem animais ou pior até... Para eles não existe o respeitonem a dignidade que devem ser atribuídos a qualquer ser humano, independentemente de 35
  • 36. raça, sexo, cor ou credo. A ignorância de Zé aquele homem matuto não percebia o quantoaquelas damas da noite sofria em busca de seu sustento e ao mesmo tempo colaborandode forma marginalizada com a sociedade no sentido de atender aqueles clientes incapazesde conquistar uma boa companheira para seu convívio conjugal e intimo, muitosfreqüentava aquela casa de prostituição em busca de saciar suas fantasia a maioria delespraticavam aberrações em seus atos sexuais e cruéis.Quanto a Elisa só resta conformar-se com sua nova condição que lhe fora imposta contrasua vontade. Sendo assim ela, que agora era uma mulher e não mais uma inocente menina,pois já havia sido deflorada e destituída de sua pureza só lhe restava conviver com suanova vida.Ela tinha esperança de mesmo sem gostar do Zé, agora seu marido, conseguir viver comele maritalmente. Apesar da repugnância que ele lhe causava, não tinha outro jeitomesmo.Haveria de se conformar, pois revoltar-se seria muito pior. Zé já lhe mostrara suas garrase do que ele era capaz e Elisa não queria de modo algum contrariá-lo para não sofrer asconseqüências.A menina sentia que agora pertencia a ele, e ele poderia fazer dela o que bem entendesse,portanto seria muito melhor para ela que não o aborrecesse e nem o contrariasse.Mesmo com a sua pouca maturidade ela conseguia perceber o que era melhor para si,quase que como um instinto de sobrevivência. Seu pai fora capaz de vendê-la, sua mãe aabandonara. Agora seu destino estava nas mãos daquele estranho que agora era seumarido. Até quando? Só o tempo diria. 36
  • 37. Capítulo1 parte VAssim os anos foram passando. Lentamente, sem pressa alguma naquele lugarejo onde aspessoas não tinham grande afã de tocar a vida, pois nada era urgente, nada era tãoimportante que não pudesse ser adiado por dias, meses ou até anos. Sim, pois o tempo émuito relativo, para as pessoas que vivem nas grandes cidades, nas metrópoles e sãomuito ocupadas com muitos afazeres, as vinte e quatro horas do dia parecem pouco oupelo ao menos é essa a sensação que elas têm; mas para quem vivem no campo sem aagitação e correria típicas das cidades, os dias parecem passar muito lentamente; entre onascer e o pôr - do -sol há tempo mais que suficiente para que as pessoas cumpram comsuas poucas obrigações cotidianas.É assim que vamos encontrar Elisa. A viver um dia de cada vez. E já bem adaptada a suanova vida ela agora finalmente esperava seu primeiro filho. Zé realmente a assistia nãodeixando lhes faltar o necessário, somente o necessario. Nem pra ela nem para seu pai,conforme o prometido. Não passavam mais fome e isso já era uma grande coisa. Não queele fosse um sujeito agradável, muito pelo contrário, mas a menina acostumara-se comseus modos rudes e grosseiros. Ela demorara a engravidar, pois quando se casou, ou 37
  • 38. melhor, quando se juntou ao Zé seu corpo de menina - moça ainda em formação nãoestava preparado para ser a progenitora com maturidade. Sua vida sexual começara muitocedo, mas seus órgãos ainda não estavam suficientemente maduros para a procriação.Zé não se conformava com o fato de ela não engravidar logo, pois tinha pressa em iniciarsua prole. Na sua ignorância não compreendia que a natureza feminina precisa estar noponto para gerar bebês sadios. Ele começava até duvidar se fora um bom negócio investirnaquela união, quando finalmente e inconsciente o semblante de Elisa denúncia seuestado de gestação com enjôos e a transformação de seu corpo agora de mulher; Enjôosprincipalmente pela manhã o que não deixava dúvidas quanto a uma gravidez. Ela agoramais saudável, pois se alimentava bem estava apta a ter uma boa gravidez, apesar dapouca idade.Zé estava orgulhoso, mal cabia em si. E que fosse homem o seu primeiro rebento, pensavaele sem nem sequer cogitar a possibilidade de nascer uma menina. Ao menos o primeirotinha que ser homem. Depois não importava, pois a prole seria grande..Por Elisa demorarpara engravidar, Zé quase o matara de impaciência., Zé tinha vontade de gritar e, sumir.Não conseguia compreender sendo que chegava até a pensar que ela não engravidava depropósito, como que para castigá-lo por saber que ele queria tanto, para ele era questão dehonra.Sua virilidade estava em jogo. O que diriam seus amigos, companheiros de farra e debebedeira? Ele que se dizia um verdadeiro garanhão não podia dar esse vexame. Isso erademais... 38
  • 39. No dia em que soube que Elisa estava grávida, Zé tomou o maior porre de sua vida. Pagoubebida para todos lá no botequim e bebeu tanto que teve de ser carregado até sua casaquase matando Elisa de susto quando o viu chegar naquele estado deplorável.Um belo dia, Zé resolveu vender sua chácara. Abandonou seu sogro já doente a própriasorte e foi viver com sua adolescente esposa, em um lugar ainda bem mais isolado queaquele lugarejo, ele trocou o seu pequeno sitio e adquiriu na barganha uma extensão deterra infinitamente maior, mas sem valor nenhum onde havia um grande rio que passavadentro daquela propriedade. Porem, nesta troca lhe sobraria algum dinheiro, pois aquelasterras que agora comprara era bem mais barata por ser totalmente afastada da cidade.Elisa não se conformava, mas o que ela poderia fazer a não ser acompanhá-lo? O terrenoera maior, mas a casa estava em condições precárias, feita de barro, sem portas, sendo quea passagem era um buraco onde tinham que abaixar para entrar. Ele comprara umapropriedade de menor valor e sem vizinhos por perto, pois assim sobraria dinheiro parasuas orgias, ainda mais agora que Elisa estava grávida e com o corpo alterado em suaformosura pela gravidez precoce ele não tinha mais vontade de deitar-se com ela, poisagora para ele não havia mais graça, ao menos enquanto ela estivesse naquele estado.Segundo Zé Ele aproveitara o melhor de seu corpo e de sua inocência e agora já um poucocansado daquela rotina conjugal voltava à sua antiga vida de noitadas, bebedeiras emulheres para saciar os seus mais desvairados desejos que aumentavam cada vez mais,como um vício, tal qual a cachaça, a qual ele já não podia viver sem. 39
  • 40. Ele pensava consigo mesmo: _Não suporto mais essa situação, mas tenho que pensarnessa criança que está prá chegar afinal de contas é meu filho. Mas ao mesmo tempo sedeixava levar pelos vícios e pelo ciúme que demonstrava ter por Elisa e que aumentavacada vez mais, pois a julgava sua propriedade e não queria nem que ela tivesse amizadecom outras mulheres do povoado e por isso usou como argumento que mudara-se para tãoisolado lugar.Assim nenhum homem poria os olhos na menina e ele sabia que seu corpo após a gravideztomaria formas de mulher e com isto atrairia a cobiça masculina e poderiam até quererroubá-la dele. Ah, isso ele não iria permitir. Era melhor mesmo precaver-se, na suamaneira romanesca de pensar.Finalmente a criança nasceu. Um lindo menino que apesar das condições precáriasnascera forte e saudável e quando sentia fome chorava com força até que sua mãe saciassesua fome com os seios fartos de leite. No início Elisa teve muita dificuldade em aprendera lidar com o bebê.Inexperiente e isolada do jeito que estava não podia contar com a ajuda de ninguém.Somente a parteira que Zé arrumou no povoado quando ela começou as sentir a dores lhedeu algumas orientações sobre como cuidar do seu bebê, o restante Elisa foi aprendendopor si própria com seu instinto maternal.E assim o tempo foi passando e o menino crescendo forte como um touro e tambémcrescendo cada vez mais o ciúme que Zé tinha do próprio filho, achando que eledesfrutava mais da intimidade de Elisa do que ele próprio, que era o marido. Todas as 40
  • 41. atenções e todo carinho dela eram somente para o menino, não sobrando nada para ele quese sentia preferido.À vezes ele fica observando-a amamentar de longe e quase não agüentando de ciúmes saíapara o povoado buscando o consolo nos braços das prostitutas que lhe consolavam comopodiam. Ele nunca imaginou que seu próprio filho, motivo de muito orgulho e alegriatambém seria causador daquele ciúme que o torturava dia e noite. Um ciúme doentio quelhe tirava o sossego.Zé tinha sentimentos contraditórios e somente duas coisas o aliviavam: mulherada ecachaça. Já nem tinha vontade de trabalhar mais como antes. Suas terras já não produzemcomo outrora. E o que ele conseguia ganhar gastava a maior parte para alimentar seupernicioso vício aos quais estava cada vez mais entregue.Certo dia, ele chegou a sua casa meio bêbada e ordenou como era de costume:_ Elisa, faz alguma coisa aí pra eu comer, mulher, que eu estou com uma fome de cão !_ Não tem nada, Zé. Responde ela temerosa por sua reação, pois ele não gostava nem umpouco de ser contrariado._ E o menino está comendo o que? Indaga-o, já com raiva._ Hoje ele comeu fubá com água, temperado com coentro. É só o que tem Zé._ E onde é que você arrumou fubá, sua vadia? Será que você andou vadiando por aí, práconseguir? Pergunta Zé já cheio de desconfiança e imaginando um monte de besteiras emsua mente doentia. 41
  • 42. _ Zé, aqui nós vivemos isolados, não tem nem vizinho, homem! Ela responde malacreditando nas insinuações do marido. Mesmo conhecendo bem o homem que tinha nãopensava que ele pudesse ir tão longe, mas suas suspeitas já eram praticamente delírios deuma mente perturbada.Ele retruca não se dando por vencido:_ Quer dizer que se tivesse homem aqui por perto...? Diz Zé já colérico, só em pensar napossibilidade de ser traído.Era um sentimento que o dominava completamente. Bem lá no seu subconsciente, elesabia que não havia motivos para tal desconfiança, mas não conseguia se controlar,principalmente quando estava embriagado como naquele momento.Talvez porque ele sabia que ela não se unira a ele por amor, mas sim porque fora forçadapelo seu pai, e isso o atormentava dia e noite e às vezes até mesmo roubava-lhe o sonoquando sua consciência falava mais alto.E Elisa reagia da maneira que podia:_ Para com isso, Zé! Que prosa é essa agora, homem de Deus? Você está ficando louco.Acho que é a cachaça que está te deixando assim, só pode ser._ Mais você não gosta de mim nem nunca gostou. Ou pensa que eu não sei? Responde Zémagoado._ Eu nunca lhe neguei isso. Realmente eu não gosto de você, e você sempre soube, eununca escondi! O que é que eu posso fazer? Não tive outra escolha na vida. O meu destinojá estava traçado... Se eu pudesse escolher, nunca que eu ia escolher você. Pronto ta 42
  • 43. falado. É isso que você queria ouvir?Mas pensa bem o que você fala por que eu não souvulgar, se você e meu marido é com você que tenho que viver._ Ah! Eu vou te matar, sua ingrata! Esbraveja Zé, completamente fora de si depois do queouvira.Respirando fundo prá não cometer uma loucura ele completa enfurecido:_ Se você quer saber, Elisa, eu até acho que esse filho não é meu.Elisa, perplexa, responde:_ Por que essa conversa mole agora, Zé? Você é que sai toda noite, vai prá suas orgias eagora desconfia de mim, é? Eu é que tenho motivo de sobra prá estar com bronca de você, ou você pensa que eu nãosei prá onde você vai quando dá suas sumidas por aí. Mas se você quer mesmo saber, euestou pouco me importando, prá falar a verdade você bem que podia ir aí prá suasnoitadas e nunca mais voltar, que eu iria achar era bom.Elisa não sabia onde encontrava tanta coragem para enfrentar Zé daquela maneira, mascontinuou falando o que lhe seria em sua alma, sem se importar com as conseqüências,mas seus protetores estavam ali lhes encorajando, pois era necessário que ela sedefendesse das calunias_ Se você não voltasse mais, homem seria muito bom, pois eu não precisaria te agüentar enem ouvir tanto desaforo Zé.Àquela altura Elisa já chorava copiosamente. Sensível como era ela não aceitava asimparciais acusações de Zé sobre a sua conduta. 43
  • 44. Os ânimos estavam se exaltando cada vez mais. Elisa já não suportava mais aquelas crisesde ciúmes de Zé, acusando-a injustamente de um adultério que ela jamais cometera.Ainda mais que ele não tinha decência nem moral para sequer pensar tais coisas a seurespeito.Logo ele que chegava a sua casa tarde da noite, bêbado e cheirando a perfume e pensavaque Elisa não percebia.De repente Zé disse algo que a deixou mais perplexa ainda._ Sei não... Já tive varias mulheres nessa vida e nunca consegui ser pai. Por isso eu tepergunto Elisa, será que esse filho é mesmo meu?_ Claro que é Zé! Eu bem que gostaria que não fosse, pois acho que meu filho merecia terum pai melhor. Responde Elisa não conseguindo mais esconder sua revolta._ Sei não, logo que casei com você sempre tinha homem perto de casa._ Zé, ali onde nós morávamos era passagem de um povoado pro outro, é por isso quesempre tinha gente por lá. Tanto homem como mulheres e criança também. Deixe de sermaldoso. Você vê maldade em tudo, mas a malícia está é na sua cabeça e nessa malditamania que você tem de falar do que não sabe. Tenha dó e vê se não me enche mais comessa prosa. Vê se não me amola!_ Eu bem que notei umas duas vezes você conversando com uns estranhos, ou você pensaque eu sou cego. Eu vi bem com esses olhos que a terra há de comer. Zé continua com asacusações sem fundamento, é claro, mas que para ele, representavam a mais purarealidade. 44
  • 45. _ Zé, era só algumas pessoas que paravam ali prá pedir água prá eles e pros cavalos. Eágua a gente não deve negar prá ninguém,_ Não sei não, essa história tá mal contada, mulher. Não adiantava, pois nada que Elisadizia Zé acreditava. O ciúme e a desconfiança já havia tomado totalmente a sua razão. Oque ele não via e nem poderia ver eram os vultos escuros que o abraçavam envolvendo-oe incutindo em sua mente perturbada cada vez mais idéias absurdas, aproveitando-se deseu ciúme, desconfiança e principalmente da sua má conduta moral, esses espíritosinferiores, de energia pesada e com idéias nefastas faziam com que Zé até mesmovisualizasse em sua mente doentia cenas de sexo entre Elisa e outros homens. Eles emitiam essas imagens e Zé em sua ignorância e baixa vibração as captavam comose fossem reais. Isso só acontecia porque Zé se encontrava em plena sintonia com essesirmãos inferiores, espíritos vampiricos que sugava suas energias devido a sua freqüênciavibratória que eram semelhantes.E como neste mundo os que são afins se atraem... É a lei da causa e efeito. Zé os atraiapara si, mesmo inconscientemente e eles o acompanhavam sempre e com enorme prazerparticipavam de seu desespero e do sofrimento que aquelas desconfianças lhe causavam.Eram na realidade, inimigos de outras vidas que havia jurado vingança e que agoraexecutavam seu plano sendo que Zé através de sua má conduta e vícios abriam a guarda,um enorme espaço para que essa vingança se tornasse plenamente possível.Se a conduta moral de Zé fosse outra ele não estaria na mesma faixa vibratória daquelesseres sedentos de vingança que desejavam acertar contas do passado e, portanto ele nãoentraria em sintonia com aqueles espíritos, mas Zé não tinha Deus em seu coração, aliás, 45
  • 46. ele nem se lembrava do Criador e jamais se lembrava de rezar; nem para pedir proteção emuito menos para agradecer. Do outro lado Eliza precisaria passar por aquele sofrimento para ajustar erros de vidaspassadas, onde ela mesma condicionou o seu histórico de vida ainda quando habitava noplano espiritual, mas pela sua boa conduta, ela mesma sem saber atraia os seus protetoresque estavam sempre atentos e assim sendo ela estava em um bom estagio a caminho daperfeição.E ao contrario Zé levando uma vida totalmente desregrada estaria em, mas lençóis, poisele apenas pensava nos prazeres materiais com total egoísmo e mais nada.No auge da discussão, Elisa defendia-se como podia._ Zé, para com isto: Só essa me faltava! Você desconfiar de mim... Mas isso acontececom todo homem que é mulherengo e safado. Não confia no que tem em casa e acha que agente faz as mesmas cachorradas que eles.Mas bem: eu deveria ter fugido com um daqueles hómens. Como é que eu não penseinisso antes... ? Você bem que merecia que eu te largasse e levasse o nosso filho junto. Aíquem sabe você iria dar o devido valor._ Esse menino não é meu mesmo! Toda vez que eu vou pegar ele no colo ele começa achorar e berrar. Conta-me essa história direito Elisa, sua ordinária, vagabunda! Ou eu lheencho de pancada e faço você confessar de uma vez por todas, sua cadela vadia. E aquivocê pode gritar a vontade que ninguém vai ouvir, ninguém vai te acudir. Aliais, porque éque você acha que eu te trouxe prá esse fim de mundo? 46
  • 47. Parece que Zé queria que Elisa confessasse para que ele tivesse então um bom motivopara espancá-la até a morte e assim ele se livraria de uma vez por todas daquele pesadeloque o atormentava._ Então muito bem! Disse Elisa._ Eu vou lhe dizer uma coisa,..Você, Zé, tem um cheironojento, uma catinga de bode. Além disso, você fede a cachaça. A criança, ou melhor, oCarlinhos tem nojo do teu cheiro, do teu bafo de pinga velha. Ele também vive com fome,pois você gasta o que ganha com bebedeira e com suas noitadas com as mulheres da vidae deixa seu filho e sua mulher, que sou eu, passar fome. Se o pobrezinho fica quieto nacama, tudo bem, mas se você pega ele no colo, a barriga dele dói de fome e aí, é claro queele vai começar a chorar. Entendeu agora? Vê se entende de uma vez por todas, pelo amorde Deus._ Que conversa fiada é essa agora, mulher? Isso é conversa prá boi dormir. Você está éarrumando tudo quanto é desculpa prá se safar, sua vagabundinha! Mas você não perdepor esperar, pois eu vou dar um jeito nessa situação. É só esperar prá ver.Elisa já estava exausta daquela conversa. Não podia mais suportar aquela situação, masconformava-se e resignava-se com seu destino. Pensava somente no seu filho quedependia totalmente ou unicamente dela, a criança era tão inocente e indefeso, tão alheio atoda aquela sujeira e miséria. Carlinhos era um anjo em sua vida de amarguras onde aalegria e a paz não existiam, Muito pior que a miséria em que viviam as necessidadesmatérias, a fome que passavam; em fim: A falta de amor de compreensão e respeito. Masela enxergava naquela criança o seu porto seguro, seu único alento. 47
  • 48. Zé não acreditava mesmo em Elisa, e ela decidiu que não perderia mais tempo tentandoconvencê-lo com seus argumentos que era a mais pura verdade, pois ele era mais teimosoque uma mula quando empaca. Enfim, era essa a sua cruz e ela iria agüentar firme atéquando pudesse. Ela sabia que lá no céu alguém olhava por ela, com certeza. O mesmoSer que criou a natureza e tudo o que há nela.Elisa tinha a intuição de olhar e ver observando nos mínimos detalhes a beleza que seapresentava todas as manhãs quando o sol despontava no horizonte até ao cair da noitequando o espetáculo continuava com o céu repleto de estrelas e a lua majestosa que maisparecia uma mãe amorosa a velar pelo sono de seus filhos.Ela analisava com admiração a obra do criador em seu todo: O sol, as estrela, chuva,vegetações e tudo mais em sua volta, então ela mesmo sem um único dia de escolaridadeconseguia enxergar com profundidade todo aquele complexo agradecendo a Deus pormais um dia de vida, onde muitos com um bom nível de escolaridade não conseguiamenxergar na mesma profundidade com que Elisa a via e então ela dizia com sigo mesma,Deus existe sim: Sem duvida ele existe, pois uma obra tão perfeita só mesmo sendo criadapelo pai que esta no céu.E com este modo de pensar ela cada vez mais adquiria forças para continuar.O que Elisa não sabia, é que por sua bondade, resignação e pureza de sentimentos elaestava sempre em sintonia com os bons espíritos designados pelo o criador que aamparavam nos momentos mais difíceis. Ela não os podia ver, mas se pudesse, veriaquanta luz eles emitiam iluminando o seu árduo caminho. 48
  • 49. Muito ainda estava por vir, mas ela seria forte e com seu espírito elevado. O tempo, só otempo poderia dizer o quanto ela era especial.Parte II Capítulo IEm Belo Horizonte, a bela capital mineira onde vivem Dolores e Ricardo, um simpáticocasal que, como tantos acalentam o sonho de ter filhos sem no entanto conseguir realizarseu intento, porém não perdem a esperança, pois sabem que para Deus nada é impossível.E com os avanços da medicina nesta área, muitos desses sonhos acabam tornando-serealidade. Avanços esses que são alcançados graças à bondade do Pai, pois tais conceitosda ciência são permitidos pela Espiritualidade Maior para o benefício das pessoas de umamaneira geral, para que elas tornem-se mais felizes, mais realizadas. É uma pena que muitas vezes a maioria dos empresários desta área manipule estesprogressos de acordo com os seus interesses que muitas vezes atendem não à humanidadecomo um todo, mas apenas a alguns da elite, que por terem bem mais recursos financeirosconseguem ter acesso as mais novas descobertas da medicina. Tais conquistas deveriamestar ao alcance de todos, sem distinção. Ah, que bom seria...Obviamente é importante que para alcançar seus objetivos essas pessoas necessitem demuita paciência e uma boa dose de perseverança. De consultório em consultório estescasais tentam novos tratamentos e sempre os médicos lhes dão muitas esperanças 49
  • 50. fortalecendo seus ânimos; mas não são esperanças vazias, carentes de fundamento, pois ébem verdade que as pesquisas, especialmente nesta área de reprodução humana, estãoevoluindo a cada dia e ajudando muitos casais a concretizar um sonho.Porém, não é tão simples como parece. Às vezes leva-se um bom tempo para acertar otratamento mais adequado, dependendo, é claro, não só da disponibilidade financeira,visto que esses tratamentos dependem muito do estado psicológico da futura mamãe alemde serem caros, infelizmente.Quando ha uma possibilidade em clinicas gratuito às filas é longo assim como as listas deespera e então o processo todo é muito demorado e exaustivo. Às vezes acaba atédesgastando o bom relacionamento do casal, por mais que o mesmo seja bem estruturado,com bases no amor, paciência e tolerância mutuas.Mas enfim, Dolores e Ricardo conversavam mais uma vez sobre o assunto como tantasoutras vezes, só que desta vez já desanimados, pois haviam varias vezes tentadas semresultado; e o sonho de ter um filho tinha que ser mais uma vez adiado, eles sabiam quenão deviam se deixar abater pelo desânimo, mas estava cada vez mais difícil.Ricardo não tinha como prioridade um filho e sim a sua esposa que lhe completavaplenamente, mas Dolores pelo contrario um filho iria lhe preencher o vazio que a sua filhaa deixou ao vir ao mundo já morta alegava Dolores.Em alguns casos isso se torna uma obsessão, uma idéia fixa chegando a interferir norelacionamento do casal e levando até mesmo, às vezes, à separação, pois um sente-se em 50
  • 51. dívida com o outro não podendo conviver com esse sentimento de culpa, que por sua vezgera conflitos desnecessários e muito sofrimento para ambas as partes.O que as pessoas em geral não compreendem na maioria dos casos, é que não cai umafolha de uma árvore sem o consentimento de nosso Pai Celestial e que muitas vezesprecisamos passar por certas provações, não como um castigo, mas sim provações que nosmesmos indicamos para as nossas vidas carnais antes de reencarnarmos, para o nossoaprimoramento espiritual, agora, a maneira como vamos passar por isso é escolha nossa éo nosso livre arbítrio que determinara e que dependera exclusivamente de nós.- Dolores, querida, diz Ricardo a sua esposa: Você já fez vários tratamentos e nada deengravidar...- É, Ricardo, o maior sonho da minha vida, como você sabe é acalentar o nosso bebê,trocar suas roupinhas, alimentá-lo, educá-lo e amá-lo.- Você Dolores vivia com o Joaquim, aquele infeliz, numa situação paupérrima e acabouperdendo a sua filha no parto, acho que isso a traumatizou, querida. Considerou Ricardo.Pensativo ele se lembra de quando conheceu Dolores. Há uns doze anos atrás e quanto aalmejou assim que avistou pela primeira vez, seu desejo de estar junto a ela e sabendo desua situação planejou rapidamente como livrar aquela mulher tão bonita e tão jovem aindauma menina que lhe pareceu tão especial, apesar de estar mal tratada, daquela miséria emque vivia com um bêbado que maltratando-a deixou a deriva.Foi assim que o respeito e gratidão em formato de amor nasceram no coração de Dolores;Será que foi amor a primeira vista e que foi aumentando cada vez mais e quando Dolores 51
  • 52. estava no auge de seu desespero, ao pensar que sua filhinha havia morrido logo após onascimento foi ai que Ricardo apareceu na porta de sua casa e a convidou para se casar emorar com ele em Belo Horizonte, alegando que a amava muito e que Joaquim era umirresponsável, deixando-a só naquela situação, ela relutou a principio, mas acabouaceitando, pois já estava cansada daquela vida de amarguras e privações. Ricardo pareciaum bom homem, de uma boa família e parecia sincero e respeitador. Dolores vislumbravaa oportunidade, a chance de uma nova vida ao lado de quem realmente a amasse ecuidasse dela, já que com Joaquim ela não podia contar.Então ela e Ricardo decidiram irem juntos para a capital mineira para começar uma vidanova, pois para Dolores não havia mais sentido em continuar levando aquela vidamiserável, com tantas privações e principalmente sem dignidade.A pobreza, a miséria em si já é difícil, e quando não há amor, respeito, compreensão eprincipalmente dignidade tudo se torna muito mais difícil de suportar. Joaquim nunca arespeitara nem como mulher, nem como ser humano, pois a união de ambos foiconseqüência de uma pequena negociação financeira entre Joaquim e o pai de Dolores.Joaquim tratava-a como um objeto de sua propriedade e ainda a culpava da situaçãoprecária em que viviam, sendo que não enxergava que, ele sim com o vício da bebidadeixava de cumprir suas responsabilidades de chefe de família, deixando de proporcionaruma vida melhor para sua esposa e si própria, pois gastava quase tudo o que ganhava noboteco mais próximo. 52
  • 53. Dolores padeceu de uma desnutrição quase profunda durante a gravidez, quando agestante tem que alimentar-se bem e de maneira balanceada, incluindo em suas refeiçõesdiárias todos os grupos de alimentos, para que assim o feto possa desenvolver-se de umamaneira saudável. Porém isto não ocorreu então esta desnutrição de Dolores fez com quesua filha nascesse muito fraquinha, embora saudável, porém não tendo forças para chorar,mal podendo respirar e por isso fora dado como morta pelo seu pai na hora do parto, poisparecia mesmo estar sem vida.Dolores por alguns instantes recordou-se daqueles momentos difíceis de sua vida,momentos que ela nem gostava de lembrar-se, mas as tristes lembranças vinham, quasetodos os dias lhe torturar, mesmo contra a sua vontade e ela não conseguia evitá-las.Então, com lágrimas nos olhos disse olhando para Ricardo.- Eu não gostaria de falar nesse assunto, se você não se importa. Hoje sou uma mulherfeliz em sua companhia, Ricardo e espero nunca me decepcinar. Eu até rejuvenesci, poisvocê me trata como uma rainha e me faz feliz e realizada pode acreditar. Eu aprendi até afalar direito e a me comportar em sociedade. Tudo graças a Deus e a você. Eu devo-lhetudo que sou hoje, Ricardo. Você me salvou e devolveu-me a dignidade, por isso eu queroretribuir-lhe, dando-lhe um filho, com o qual você tanto sonha, não é mesmo?- Eu também sou feliz, minha querida, porque tenho você, mas posso afirmar quepodemos ser mais felizes ainda, por você com um filho me fará mais feliz ainda. 53
  • 54. - Já sei que para a nossa felicidade seja completa falta uma criança aqui em casa, rindo,correndo, brincando, enchendo nossos corações de alegria. É verdade, às vezes eu ficomuito deprimida...- Dolores, ouça bem, nós não somos ricos, mas temos uma situação financeira bemequilibrada; temos algumas economias guardadas, não é mesmo? Pois eu quero lhe fazeruma proposta.- Qual é Ricardo? Surpreende-se Dolores já bastante curiosa.- Lógico, meu amor, que você hoje e uma mulher bem informada, pois conseguiufreqüentar uma boa escola, estes anos todos, por tanto você já ouviu falar em inseminaçãoartificial. Não é mesmo?- É claro que sim, é um procedimento para casais com dificuldades em conceber. Fala-semuito a respeito, mas esta realidade só será possível daqui a uns dez anos, digo: Ainseminação será possível aqui no nosso país. E eu não sei se conseguiria esperar portanto tempo assim...- Mas podemos ir aos Estados Unidos e tentar esse procedimento, lá onde a medicina jáestá muito mais avançada nessa área. O que você acha?- Ricardo eu não gostaria de servir de cobaia, pois mesmo lá, os médicos ainda estão emfase de experiência com essa tal inseminação artificial, mais conhecida como “bebê deproveta”. 54
  • 55. Acho que não seria prudente, afinal de contas trata-se da vida de uma criança, ou melhor,dizendo, o nosso filho! Sinceramente acho melhor esperar mais um pouco e tenho certezaque encontraremos uma solução. Não vamos nos precipitar, querido. Eu sei que é tudo oque você mais deseja na vida, mas temos que ter paciência. Acredite em mim, quandomenos esperarmos essa criança estará a caminho para completar a nossa felicidade etransformar as nossas vidas.Ricardo refletiu melhor e acabou concordando com sua esposa. Como sempre ela estavacerta. Era incrível como Dolores era uma pessoa ponderada e sensata e, além disso, tinhao dom de acalmá-lo e fazer com que ele se sentisse mais confiante e otimista. Talvez portodo sofrimento que ela havia passado afinal o sofrimento nos proporciona um bomaprendizado e por isso ela tornara-se uma pessoa tão especial. Como esposa então, ela eraincrível. Administrava tudo com eficiência e capricho. E como mulher uma amanteexcepcional e carinhosa, sempre disposta a lhe dar amor e satisfazer seus desejos dehomem.Ao contrário de seus amigos, ele não precisava ter encontros amorosos fora do casamentopara sentir-se satisfeito. Pelo contrario, Dolores o completava plenamente e ele não searrependia de ter escolhido-a para partilhar sua vida. Ele costumava dizer que ela osalvara, dando um sentido para a vida monótona e sem graça que ele levava, só vivendopara os estudos na época em que eles se conheceram.Mas agora, como era bom! Pensava ele, voltar para casa após um exaustivo dia detrabalho e ter aquela mulher bonita e cheirosa, sempre muito bem arrumada esperando-o 55
  • 56. com um jantar especial e sempre disposta a agradá-lo na intimidade, suas “armadilhas” desedução. Ah, ela nem de leve lembrava aquela jovem mal-tratada que morava comJoaquim e era tão espezinhada e humilhada por ele. Ricardo conseguiu perceber em Dolores na época que ela vivia com Joaquim que era umamulher atraente e sensual. Apenas precisava de uma vida melhor e alivies cuidados. Umbom tratamento a fez desabrochar como mulher, esbanjando beleza e feminilidade poronde quer que passe, seus amigos o invejavam e ele orgulhava-se disso. Só faltava mesmoo tão sonhado filho para completar a felicidade de sua esposa, mas era só uma questão detempo.Aí sim ele iria sentir-se totalmente realizado presenteando a sua bela esposa com umfilho.Ricardo era um homem acostumando a conseguir tudo o que queria e não poupavaesforços para alcançar seus objetivos, sentia-se extremamente frustrado quando algumacoisa não saia como ele planejava, porém era persistente e não desistia facilmente de seusintentos. Foi assim com Dolores, pois não foi tão fácil conseguir conquistá-la, mas quantomais difícil, mais prazer lhe dava, pois ele adorava desafios. Aprendera com seu pai que oque era muito fácil não tinha valor, não proporcionava o sabor da vitória.Dolores, apesar das dificuldades que enfrentava e da vida dura que levava ao lado deJoaquim, era uma mulher honesta e não cedeu facilmente aos apelos de Ricardo. Sómesmo quando perdeu sua filha ela desiludiu-se totalmente da vida e resolveu largar tudopara traz e partir para uma vida nova, quem sabe bem melhor, mesmo sem ter muita noção 56
  • 57. do que provocava em Ricardo, pois ela não o fazia de propósito, mas foi justamente essaingenuidade e falta até de malícia que ascendeu de vez os desejos do jovem Ricardo. Elequeria essa mulher, ah, como queria... E nada iria impedi-lo de conseguir seu intento. Erasó uma questão de paciência e perseverança. E agora mais uma vez essas duas virtudes sefaziam necessárias em sua vida.Parte 2 Capítulo IIMais um belo dia nascera no lugarejo abandonado onde vivem Elisa e seu filho. Anatureza exuberante com seus encantos em sua explosão de cores e diversificações deespécies parece alheia aos dramas de cada ser humano; pois para ela basta ser o que é eseguir o seu curso que é sempre harmonioso desde que é claro, não seja agredida pela mãoinsensata do homem.Assim como na natureza, os seres humanos, cada qual possui as suas característicaspróprias, sua individualidade, sua maneira de ser e todos precisam respeitar-semutuamente para que se viva em harmonia e equilíbrio; cada um na sua função,cumprindo o papel que lhe cabe na sociedade para que todos possam ter felicidade e paz.Não é bem num ambiente de paz, infelizmente que vamos encontrar Elisa. Perdida emseus adágios, ela recorda-se de seu pai e de como era a sua vida antes de juntar-se ao Zé.Pensava consigo mesma em voz alta, pois a solidão e o isolamento eram imensos einúmeras vezes ela falava sozinha, como se estivesse conversando com alguém, só parasentir-se menos só. 57
  • 58. _ É meu pai morreu de tanto beber e eu agora estou sozinha nesse mundo. O que vai serde mim e do meu filho? Com todos os defeitos de meu pai ele tinha seu lado bom poremruim com ele mesmo, bem: Ruim com o meu pai, pior agora sem ele. Eu, praticamentesosinha com esta criança no mundo para criar, não posso contar com o Zé, que é só orgiae cachaça. Se pelo ao menos ele se preocupasse um pouco com o menino... Mas elecismou que o filho não é dele e ninguém tira isso da sua cabeça que só vê maldade emtudo, ninguém presta pra ele, como pode!.Elisa tenta encontrar uma solução para seus problemas, mas como? Com uma criançapequena nos braços tudo se torna ainda mais difícil, pois não pode arriscar a vida de seufilhinho adorado. Perdida num turbilhão de pensamentos ela nem percebe quando Zéchega e já vai logo dizendo ironicamente, aliás, como de costume._ Elisa,, vê se melhora essa cara, pois eu arrumei um emprego pra você, e posso lheafirmar que é do jeito que você gosta...Elisa, tentando se remanejar do susto, pois ela não havia visto Zé entrar, pergunta comhumildade:_ Aonde, Zé? Se dé pra levar o Carlinhos comigo eu vou sim, homem de Deus. Tenhomuita disposição e vontade de trabalhar pra vêr se melhora a nossa situação. Pelo aomenos pra gente ter o que comer..._ Você deixa o menino comigo, que lá não pode levar criança não. Aonde já se viu? Vocênão desgruda desse menino o dia inteiro e isso não está certo não! Parece até carrapato. Táaqui o endereço, é só você procurar a dona Dondoca e diga a ele que fui eu que mandei 58
  • 59. você, entendeu? Se não entendeu é porque e burra mesmo e nesse caso não tem jeito, euvou ter que explicar tudo de novo, mas vê se desta vez presta bem atenção, mulher, porque eu não sou papagaio pra ficar repetindo. Ou quem sabe se eu te der uma sova vocênão entende rapidinho. Aliais faz tempo que eu tenho vontade de di dar uma surra bemdada, Eu acho até que você deve estar sentindo falta disso. Quando eu te bater e depois denós irmos pra cama fazer safadeza ficara até mais gostoso, você não acha? Ah deixa issopra lá, vamos direto ao que interessa.Elisa ouviu as observações de Zé, indignada. Sim, foram muitas ameaças que ele fazia esem motivo. Sempre que algo dava errado para Zé ele ia pra casa e descontava em Elisa asua raiva, a sua ira. Depois ainda por cima tomava-a a força como um animal.Geralmente nesses momentos ele estava sempre embriagado e em péssimas companhiasespirituais, verdadeiros vultos negros que o envolviam e abraçados e ele desfrutavatambém dos prazeres sexuais que no seu caso eram baseados em puro sadismo. Essesespíritos de vibração inferior estavam sempre com ele vibrando para que tudo desseerrado com aquela família.Era desta forma que supostamente Zé se vingava de Elisa com seus vícios: o álcool e aperversidade sexual. E seus oponentes espirituais queriam cada vez mais e com maisintensidade, portanto instigavam-no a ser violento, principalmente com as mulheres.Assim era também com as prostitutas que eram obrigadas a deitar-se com ele, pois eramraras às vezes em que elas não eram humilhadas antes de servi-lo. Quando ele chegava,todas tinham vontade de se esconder para escapar de tamanha ignorância e mau cheiro e 59
  • 60. ele cada vez mais parecia só chegar a uma plena satisfação sexual após cometer taisbarbarias. Algumas diziam que ele parecia ficar possuído quando começava o coito.Ouve uma vez em que ele por não conseguir atingir o ápice de prazer tentou espancaruma das moças que ele contratou para a sua orgia, só não chegou a batê-la por que ela eraforte, mas mesmo assim, só depois de uns dois meses é que ela se recuperou do susto.Janete esse era o seu nome, deixou de atendê-lo como cliente assim que pode por medo deter que servir o “Demônio” novamente.Este era o apelido de Zé no bordel e ele fazia jus ao mesmo. De tão mal educado que era.E assim Zé ia levando a sua vida e nada parecia detê-lo. Seus “comparsas” espirituaisestavam sempre com ele, pois havia tamanha sintonia entre eles que era como se fossemduas pessoas no mesmo corpo. Zé tomava como seus, os pensamentos daquela legião deespíritos perdidos em seus devaneios, facilmente registrava tais pensamentos como sefossem seus próprios.Ele era também uma vitima e a única maneira de livrar-se de tal obsessão seria mudar asua conduta moral, abandonando os vícios perniciosos e voltando-se a Deus. Mas isso nãoseria nada fácil e exigiria muito esforço e força de vontade o que não era bem umacaracterística da sua personalidade ou índole do seu espírito que trazia em seusubconsciente ou egocentrismo o objetivo de vingança de uma vida passada.Pelo contrário, ele só pensava nos prazeres imediatos o que contribuía e alimentava emsuas obsessões vampirescas e sedentos de vingança de algo que nem ele mesmo sabiadecifrar e ávidos de prazer de toda espécie. Caso Zé resolvesse mudar de vida e se 60
  • 61. empenhasse muito para isso, tais obsessões estariam sempre na espreita para que aomenor vacile de sua parte eles pudessem arrastá-lo novamente para aquele redemoinho deperdição.Portanto ele teria que cometer um esforço enorme para não cair em tentação novamente,pois qualquer vacilo seu seria fatal. Por isso que muitos, ou melhor, a maioria nãoconsegue se livrar tão facilmente. Só mesmo com muita fé e força de vontade. O melhormesmo é não envolver-se em tais processos destrutivo, pois uma vez dentro, torna-sedifícil a recuperação, porem se tivermos fé acima de tudo, pois para Deus nada éimpossível e cada caso é um caso a ser considerado. No que se refere ao Zé, ele estavacada vez mais comprometido com o astral inferior, infelizmente.Elisa, já amedrontada, pois é claro, não queria apanhar, porque se assim fosse perderiatoda sua dignidade, mas também não tinha como defender-se então ela responde com avoz tremula: _ Eu entendi, sim, Zé, não carece de repetir e te agradeço muito por terarrumado um emprego pra mim. Mas..._ Mas o que, Elisa? Não me venha com desculpa, pois está tudo arranjado. Você não vaime fazer essa desfeita, sua cadela vadia! Está tudo combinado com sua futura patroa!_ É que eu não queria deixar o nosso filho aqui. Ele ainda é muito pequeno e precisa demim. Responde Elisa com o coração apertado de dor.Pode deixar você ira se dar bem. Vai por mim. Agora vem cá, vamos deitar que eu quero-te ensinar umas coisinhas novas. E vai ser de muita utilidade no seu trabalho novo. 61
  • 62. Você tem que aprender de uma vez por todas a agradar um homem na cama. Está mais doque na hora. Vem cá que eu vou-te ensinar tudo que uma mulher deve saber. E riu comosatisfação.Elisa ficou contente com a notícia, mas ao mesmo tempo receosa por causa de seu filho;mas se era para ter uma vida melhor, pensou, valia a pena o sacrifício.Embora muito preocupada por causa da criança, ela não podia perder essa chance dearrumar um trabalho, pois afinal de contas não era sempre que aparecia uma oportunidadede emprego, ainda mais naquele fim de mundo onde tudo era tão difícil.No dia seguinte, logo cedo, ela arrumou-se da melhor maneira que pode e foi até oendereço que Zé lhe dera. Um tanto quanto insegura, mas esperançosa ela ao chegar aodestino procura pela pessoa que Zé indicara._ Por favor, eu quero falar com a dona Dondoca. Pede ela humildemente a mulher deaparência estranha que atende a porta e a mede da cabeça aos pés com um ar de desdém._ Mais uma prá concorrer conosco. Aqui já tem mulher demais, meu bem! Responde amoça com uma voz nada amistosa._ Você é a mulher do Zé? Pergunta outra moça com o rosto tão pintado que mais pareciauma boneca._ Sim, sou eu. Meu nome é Elisa. O Zé me mandou aqui pra eu arrumar um emprego.Sabe moça eu estou precisando muito de um trabalho pra vê se melhora a nossa situação 62
  • 63. que vai de mal a pior. Tem dia que nós não temos o que comer; E, além disso, eu tenhoum filho pequeno pra criar._ Vai embora, menina. Você é quase uma criança ainda. E aqui é uma casa deprostituição, casa de mulher dama, ou mulher da vida, um prostíbulo, se é que você estáme entendendo..._ O que é um prostíbulo? Eu acho que não entendi muito bem. Desculpe-me dona, mas éque eu estou um pouco confusa. Elisa dentro da sua ingenuidade de menina-moça aindanão consegue entender do que se tratava.Uma das moças após dar uma sonora gargalhada responde séria:_ Aqui nós vendemos o corpo prá sobreviver, prá não morrer de fome. Temos que sesujeitar a estas humilhações noz que aqui vivemos somos prostitutas, Mas o nome nãoimporta. O que realmente importa é que a gente é obrigada a ir prá cama com todo tipo dehomem que aparece, não temos o direito de escolher é questão de sobrevivência menina,vai embora, pois aqui não serve pra você. E se você quer saber: Até mesmo com odesgraçado do seu marido agente tem que se deitar. Aliás, mocinha, sabe qual é o apelidodele aqui? Pois bem: Eu vou lhe dizer...Demonio!De repente dona Dondoca aparece e ao escutar a outra falando com Elisa daquelamaneira, ela fica furiosa. Bate duas vezes na cara daquela que falou demais e retruca:- Não se meta nos meus negócios ou eu lhe corto a língua da próxima vez! Quantas vezeseu preciso repetir que quem manda aqui sou eu, sua linguaruda? Agora vê se some daqui evai procurar alguma coisa pra fazer. Serviço é o que não falta por aqui. Olha esse chãocomo está sujo! Quer que eu esfregue a tua cara nele? ... 63
  • 64. Virando-se para Elisa que assustada com a cena, estava boquiaberta, diz com uma voztoda amável, pois percebe que a menina estava muito impressionada com tudo quepresenciara. Tentou tirar essa má impressão da menina e como era muito experiente elaconvida a menina para entrar..._ Entra, minha filha, fique a vontade, sinta-se como se estivesse em sua casa. Você vai sesair muito bem aqui, ainda mais sendo assim tão novinha. Você é muito bonita, sabia?Bem que o Zé falou...Essa vagabunda está é com uma baita inveja da sua formosura e juventude. De umavoltinha, filha. Deixa ver como você está bem servida de carnes. Sabe como é homemgosta é disso, principalmente no traseiro... É, acho que tá tudo certo. Pele boa, dentesbons, seios razoavelmente que da par encher uma taça, mas cabem numa mão, ancaslargas e... O principal é essa carinha de menina inocente. Sabe menina, os homens adoramuma carinha de anjo num corpo de mulher, eles pagam até mais, sabia? Você poderáganhar muito dinheiro aqui e estou pronta para lhe ajudar.Dizem que dá mais prazer. Se ainda for virgem então... Bem, não é o seu caso, mas nãofaz mal. Você vai me render um bom dinheiro. E se algum homem endinheirado gostar devocê até pode estar disposto a pagar pela exclusividade, ou seja, tu só irás pra cama comele e na hora que ele quiser e é claro tem que fazer tudo que ele exigir. Acho que eu vouter que te ensinar muita coisa a você... Mas quando chegar na hora “H” você se faz deingênua com os homens, isso deixa eles doido. Sabe, certa vez apareceu aqui um coronelque gostou tanto de uma menina que tinha o rosto todo pintadinho. Uma cara de sapeca 64
  • 65. que só ela... Chamava-se Laudenice, mas o apelido era Lalá. Pois bem esse tal coronel queera pra lá de rico quis levá-la com ele e pagou um bom preço pela danadinha. Ele diziaque ela era uma diabinha na cama, um verdadeiro furacão e deixava o coronel doido comaquela carinha de anjo, aqueles cabelos cor de fogo e aquelas pintinha na cara.O homem “ficou de quatro” por ela. Ele era casado e muito bem casado por sinal.Respeitadíssimo aqui na região, dono de um monte de fazenda e metido com política. Mascismou com a Lalá. Apaixonou-se mesmo. Sorte dela... _ “Bota um preço que eu pago,dona Dondoca!” Foi assim que ele falou. É claro que eu botei um valor lá nas alturas. Foicom essa grana que eu reformei esse casarão que estava caindo aos pedaços e contrateimais meninas pra trabalhar. No dia em que Lalá foi emboraFoi uma choradeira só, tem que vê... Ela era muito querida por aqui. Era uma verdadeiramoleca, vivia fazendo arte, mas na hora de trabalhar a danada fazia tudo certinho dava atégosto de ver, bem. Sabia agradar os homens na cama. Deixava-os doido... Quem sabevocê não dá a mesma sorte, Elisa, e se livra daquele traste que é o seu marido. Sim porqueviver com ele deve ser um inferno. Deus me livre. Cruz credo! Ninguém merece umcastigo tamanho, ainda mais você que a gente vê de longe que é uma criatura boa e semmaldade... Completou dona Dondoca benzendo-se três vezes seguidas ao lembrar-se deZé. A mulher falava sem parar nem reparando no olhar de decepção de Elisa que com osolhos cheios d‟ água respondeu: 65
  • 66. _ Não, minha senhora. Eu lhe agradeço, mas prefiro passar fome a ter que vender meucorpo. Elisa estava tão desapontada que tinha vontade de sumir dali o mais rápidopossível._ Acontece que eu tenho ordens de não deixar você sair daqui. Ah, não vai sair não, suamoleca! Você não vai me desafiar, vai? Pois saiba que ninguém faz pouco de donaDondoca das Candonga. Essa é a primeira lição que você tem que aprender. Você estádiante da maior cafetina da região, com muito orgulho. Recebemos clientes de variascidades e são pessoas importantes.Dona Dondoca então agarra Elisa. Elas lutam e é claro que a menina acaba levando a pior,pois é muito mais frágil que a esperta mulher acostumada as mais adversas situações. Derepente, Marinete, a prostituta que Dona Dondoca havia esbofeteado por desacatá-la correpara acudir Elisa, pois estava escondida atrás da porta o tempo todo ouvindo a conversadas duas e ao facilitar a sua fuga diz a Elisa num tom muito sério:_ Menina, vá embora. Isso aqui não é vida pra você. Eu não sei por que eu estou lheajudando, pois não sou de ajudar ninguém. Só sei que estou fazendo o que meu coraçãoestá pedindo. Agora vê se foge daqui. Adeus! Se você tiver juízo nunca mais me apareçaaqui, pois da próxima vez você pode não ter tanta sorte. Que Deus lhe acompanhe!Elisa agradece beijando as mãos de sua salvadora e sai correndo daquele lugar. Nem olhapara trás com medo de estar sendo seguida por algum dos capangas de dona Dondoca,mas nenhum deles percebe nada. E nessas alturas do acontecimento a cafetina estavadesacordada pela pancada que levou na parte de traz da sua cabeça que fora golpeada porMarinete sem pensar nas conseqüências e então a tal de Dindoca leva algum tempo paravoltar a si. 66
  • 67. Elisa para por um momento para tomar fôlego e assim que ganha uma boa distância doprostíbulo ela correu mesmo, o quanto suas pernas agüentaram só parando quando nãopodia mais. Estava completamente exausta e atordoada com tudo que ouvira e vira. Eprincipalmente inconformada com o que Zé lhe impetrara.Como pôde? Pensava ela com o coração apertadinho de tanta dor. Se pudesse ela sumiria,mas havia seu filho e ela continha em voltar para casa e enfrentar o Zé que com todacerteza ficaria enfurecido quando soubesse o que aconteceu lá no bordel de donaDondoca. Mas o que fazer?Ela teria que enfrentar a situação. Sentia que uma força maior a protegia apesar de tudoque passava e mesmo nos momentos de desespero procurava uma luz em suas oraçõessentia que uma força a invadia e ela tirava dessa luz coragem para suporta seus desígnios.De repente teve uma idéia que considerou uma verdadeira inspiração de Deus. Diria a Zéque dona Dondoca não gostou dela, pois achou que não servia para trabalhar lá por quenão levava o menor jeito para o tipo de trabalho.Dessa maneira ela ganharia algum tempo, pelo ao menos até Zé descobrir toda a verdade.Se sentido um pouco mais confiante tomou o rumo de casa, não vendo a hora de pegar seufilhinho no colo e sentir o calor daquele corpinho e dar-lhe muitos e muitos beijos naqueleque era a razão de sua vida, a sua força. A única alegria que possuía e resistência paracontinuar lutando nesta guerra explicida. Sim, pelo seu filho valia à pena enfrentarqualquer coisa e pensando assim ela sentia-se a pessoa mais forte deste mundo. 67
  • 68. Quando dona Dondoca volta a si, aos poucos se lembra do ocorrido e com muita iramanda então dois de seus melhores capangas levarem Marinete lá para dentro para lheaplicarem um corretivo. Mas não sem antes ela mesma lhe dar uns pescoções e dizer_ Ponha-se no seu lugar, sua ordinária. Da próxima vez pense mil vezes antes deatravessar o meu caminho. Isso é prá você aprender a não se meter nos meus negócios ehoje você vai ter que deitar com aquele bêbado do Zé. Mas escuta bem, da próxima vezque aprontar uma dessa, eu mando acabar com a sua raça, tá me entendendo, suavagabunda? Quer dizer que você morde a mão de quem a alimenta, cadela ingrata?_ Minha Nossa Senhora, me tira dessa situação! Tudo menos aquele demônio do Zé queainda por cima ele baba na gente antes e depois e fede mais que um bode velho, isso semfalar naquele seu bafo de cachaça insuportável. Eu não quero isso prá mim, implora aprostituta Marinete de joelhos..._ Não pensa que me comove com essa ladainha. Devia ter pensado antes. Diz donaDondoca já decidida quanto ao castigo. Sabia que Zé ficaria furioso com Marinete aosaber que ela estragara seu plano de por a própria mulher Elisa, para trabalhar noprostíbulo. Este era o combinado. Metade do lucro seria para o Zé e a outra metade dedona Dondoca. Ele decidira fazer de Elisa a sua melhor fonte de renda e dona Dondoca,experta que era tinha mesmo a intenção de vender Elisa para algum coronel rico da região,assim como fizera com Lalá. Ensinara tudo à sua pupila. Todos os truques que deixaram ocoronel Epaminondas enfeitiçado pela ruivinha espevitada. 68
  • 69. Daria trabalho é claro, pois no caso de Lalá, isso era um dom natural seu. Mas Elisa ia terque aprender. Até a tinta para pintar os cabelos de Elisa de ruiva Dona Dondoca já haviaprovidenciado. Bem, agora nada mais adiantava. Tarde demais... Marinete que seentendesse com o Zé mais tarde. Ela iria tomar a maior surra de toda a sua vida. Pensandobem, dona Dondoca ordenou aos seus capangas que apenas trancassem a infeliz no quartoe ela que ficasse lá esperando pelo Zé.Dona Dondoca, implacável que era com quem lhe desacatasse não queria tirar de Zé oenorme prazer de surrar aquela que estragara seus planos, colocando tudo por águaabaixo.Dissera assim mesmo dona Dondoca ao Zé no pacto que fizera anteriormente: _ Meu amigo e agora que somos sócios, de hoje em diante você tem que cuidar muitobem de sua mulherzinha, pois ela será a sua “galinha dos ovos de ouro”, se é que você meentende... Dizendo isso os dois caíram na gargalhada e quase que ele engasgou-se com ovinho barato que estava tomando para comemorar o pacto sinistro.É incrível como algumas pessoas pensam que podem dispor assim da vida de outros sereshumanos sem saírem impunes. Muitos escapam de serem penitenciados pela lei doshomens, e simplesmente ignoram as leis do universo (Deus). Mas, mais cedo ou maistarde terão que arcar com as conseqüências de seus atos nem que isso leve algumasencarnações, ou seja, nem que essas pessoas precisem viver varias vidas no planeta Terraou então quem sabe em outros inferiores até que todo o mal que tenham praticado fique 69
  • 70. sanado e assim suas dívidas sejam normalizadas. Afinal cada um tem aquilo que merece(causa e efeito) com isto podemos apreciar a retidão do estatuto do criador. Ha casos depessoas poderosíssimas porem epicenos que ao se reencarnarem se tornam subordinados etotalmente humilhados pelo os seus algozes, lembrando que cada caso é um caso, ou seja;Cada um compõe a sua própria história de vida.E Deus, nosso Criador na Sua misericórdia muitas vezes parcela nossas dívidas para quetenhamos condições de pagá-las, pois, caso contrário, se tivéssemos que quitá-las de umasó vez, jamais conseguiríamos. “diz o ditado; Deus da o frio conforme o cobertor”Sendo que é muito importante mesmo que não venhamos a contrair mais e mais dívidas.Devemos sim aproveitar o máximo a cada nova oportunidade que nos é dada.Quanto mais procurarmos ser corretos, mais envolvidos estaremos com boas energias,porque com boas atitudes atraímos os bons espíritos designados por Deus..Muitas vezes vemos pessoas sofrendo e achamos que aquele sofrimento é injusto como seo criador fosse perverso ou sádico ou então quando a própria pessoa se lamenta, clamandoa Deus dizendo: Meu Deus eu sou uma boa pessoa não fiz nada de errado para merecereste castigo estou sendo injustiçada. Neste caso há duas teses importantes. Pode serresgate de vidas passadas ou como também pode ser seus algozes, ou melhor, espíritosque conviveram com a tal pessoa em vidas passadas e que sofreram varias injustiçasdaquela pessoa e agora estão acertando suas dividas em forma de vingança, mas se haver 70
  • 71. resignação e muita oração ao pai maior (Deus) da tal pessoa com certeza este sofrimentopassara em forma de remissão dos tais algozes ou até mesmo quando os seus verdugosestão em condições paupérrimas no plano espiritual eles podem se afastarem pela força doperdão e do amor. Há pessoas com sérios problemas de saúde e outros até mesmo comdeficiências físicas ou mentais que podem ter sido em vidas passadas pessoas bemsucedidas que não souberam direcionar com honestidade ou com solidariedade suas vidase então voltaram em condições precárias por conseqüência de seus atos anteriores (vidaspassadas) exatamente para ajustar seus erros. 71
  • 72. Elisa chora muito durante todo o percurso para casa e lá chegando encontra Zé bêbadocomo de costume. Ele estava falando com a criança e como estava embriagado falavatotalmente enrolado, mas ela consegue entender perfeitamente quando ele diz: Você não émeu filho, por isso eu vou dar um jeito em você, moleque. Você sabia que eu comprei suamãe por uma dinheirama? Não vou ficar com esse prejuízo. Ah, não vou mesmo. De jeitonenhumNesse momento Elisa não agüenta e interfere: Zé, homem de Deus, ele é seu filho sim, eujuro. Até hoje eu só me deitei com você. Você é que fica enfiando minhoca nessa cabeça.Pelo amor de Deus, não faça nenhuma bobagem, eu te imploro. Vê se põe as idéia nolugar para de pensar besteira de uma vez por todas. Vamos tentar viver em paz, pelo bemdo nosso filho. _Que nosso filho que nada, porque você não assume a sua cachorrada. 72
  • 73. PARTE O2 CAPITULO O3:Em Belo Horizontes Dolores e Ricardo tentam buscar uma solução para conseguiremrealizar o sonho de ter um filho, sonho esse há muito tempo acalentado que, no entantoparece cada vez mais distante._ O que vamos fazer Dodô? Era como ele a chamava carinhosamente. Tento entender enão consigo. Por mais que pense não consigo chegar a uma conclusão. Já fizemos váriosexames e tenho condições de ser pai, e você de ser mãe. Precisamos ter certeza qual é overdadeiro problema que nos impede. Devemos pesquisar melhor, pois não há problemaalgum conosco, pelo menos no ponto de vista dos médicos, que nos impeça de termosnosso herdeiro... Ricardo passava a mão nos fartos cabelos num gesto muito peculiar seuque demonstrava o nervosismo, a aflição que lhe ia à alma. Normalmente ele conseguiamanter o controle da situação por mais difícil que fosse, mas nesse momento ele tinhavontade de sumir, inconformado que estava com aquela situação que lhe era muitoestressante, pois um bebe iria satisfazer a sua tão desejada mulher.Acostumado que era a lidar com o estressante mundo dos negócios, quando se tratava desua vida pessoal ele não conseguia manter o mesmo sangue-frio, e isso o deixava aindamais nervoso e ansioso. Geralmente ele procurava manter seu autocontrole,principalmente por causa de sua esposa, pois não desejava deixá-la ainda mais frustrada.Ele sabia o quanto era penoso para ela também, embora ela demonstrasse calma eresignação. 73
  • 74. _ Temos que ter paciência, meu amor. O psiquiatra afirma com certeza que eu tive umbloqueio causado pelo trauma que passei pela filha que perdi. É como se eu tivesse medo,pavor mesmo que isso aconteça novamente e por isso eu, inconscientemente posso estarbloqueando, ou seja, impedindo que a concepção ocorra. É claro que eu só perdi minhafilha na ocasião devido às condições precárias, desnutrição, enfim, a criança de tãofraquinha mal teve forças para nascer e morreu logo em seguida devido ao enorme esforçoque fez a pobrezinha. Hoje, graças a Deus e a você, minha vida é outra. Tenho todo oconforto, alimentação adequada, condições de higiene e principalmente tranqüilidade parater uma gravidez saudável e gerar uma criança forte, cheia de saúde que possa lutar pelavida e vencer. Ricardo ouça bem, eu sei que vou vencer esse trauma, esse bloqueiopsicológico, é só uma questão de tempo e quando menos esperarmos... ConsiderouDolores bastante animada e otimista._ Mas, o psiquiatra disse que você tem chances ou não?_ Ele me orientou da seguinte maneira: “Adote uma criança e você vera que vai começarpor aí, então eu tenho quase certeza que você ira engravidar!”_ Interessante. Ponderou Ricardo bastante intrigado. Mas porque será que temos queadotar uma criança para somente então conseguirmos ter nosso próprio filho ou filha, poisvocê bem sabe que para mim o sexo não importa. Menino ou menina o que vier serámuito bem vindo. É claro que eu adoraria ter um menino para dar continuidade ao meunome, mas uma menina também me traria uma imensa alegria e eu iria tratá-la como umaverdadeira princesa; a começar pelo nome que eu até já escolhi, se você concordar, éclaro. Que tal Stephanie? O que você acha meu amor? 74
  • 75. _ É lindo. Eu adoro e confio no seu bom gosto. Veja bem, o médico explicou que namaioria dos casos essa ansiedade em querer engravidar só atrapalha e até mesmodesequilibra o organismo da mulher em suas funções hormonais, o que dificulta bastante aconcepção. A partir do momento que os casais optam pela adoção, eles conseguem relaxarmais, principalmente a mulher na sua nova função de mãe começa a se “soltar” e estandomais descuidada neste sentido, mais descontraída ela consegue um equilíbrio hormonalque irá facilitar uma possível gravidez, entende? Eu acho que faz sentido e você? O quevocê acha Ricardo?_ É faz sentido sim. Até que esse raciocínio é bem lógico e com toda certeza é baseadoem pesquisas cientificas, pois o doutor Rômulo é um dos psiquiatras mais conceituados dopaís. Agora eu compreendo perfeitamente. Está claro para mim. Responde Ricardo, queno seu intimo sempre tivera vontade de fazer uma adoção para resolver de uma vez oproblema de sua mulher, mas temia que Dolores não aceitasse e pior, até se ofendesse.Seu coração encheu-se de esperança e alegria e seus olhos brilhavam diante dapossibilidade de que seu sonho se tornasse realidade. Seu coração parecia até estardescompassado de tanta emoção. Uma sensação maravilhosa que ele nunca haviaexperimentado antes o invadiu e então ele disse:_ É isso mesmo, querida, vamos adotar uma criança! Eu sempre tive vontade de lhepropor isso, mas tinha medo de que você se ofendesse e se sentisse ainda pior achandoque eu a estava pressionando e então não tinha coragem nem mesmo de tocar no assunto. 75
  • 76. _ Ricardo, olha só que coincidência. Eu também queria lhe propor o mesmo, mas tambémnão tinha coragem, com receio de que você não aprovasse a idéia e até ficarprofundamente magoado comigo._ Bem, já que estamos de pleno acordo, acho que podemos começar a tomar as devidasprovidencias para a adoção vou falar com o meu advogado ainda hoje. Creio que osnossos problemas se acabarão com esta maravilhosa decisão que acabamos de tomar tudohá de dar certo, tenho certeza!_ Obrigada, Ricardo. Você é um marido que qualquer mulher gostaria de ter. Você é bom,gentil e compreensivo. Não sei se mereço tanto... E é por esses e outros motivos que eugosto de você._ Eu também gosto de você Dodo e te desejo muito. E tenha certeza de uma coisa: Aúnica mulher que me interessa no mundo é você._ Querido, nosso médico ira dar pulos de alegria com a novidade. Não vejo à hora decontar à ele. Bem, vamos ver como conseguiremos efetuar a adoção._ Você sabe que adoção não é tão simples como parece. Aqui no Brasil a burocracia émuito grande nesse sentido. É incrível como em um país como o nosso e com tantosproblemas sociais, muita miséria, as coisas sejam tão difíceis em se tratando de adoção.Com tantas crianças abandonadas precisando de um lar no verdadeiro sentido da palavra...Não apenas de suporte material, mas principalmente de muito dedicação. E há muitoscasais assim como nós dispostos a acolher ao menos uma dessas crianças, amando-a eeducando-a como se fosse seu próprio filho. Diga-me querida você tem algumapreferência? 76
  • 77. _ Como assim? Preferência?_ Por cor, sexo, características físicas, etc._ Não, lógico que não. Aliás, eu acho um absurdo essa idéia. Eu sei que a maioria doscasais é muito exigente quanto à aparência. Parece até que estão escolhendo umamercadoria numa loja. Geralmente preferem crianças loiras e de olhos azuis e que sejamainda bebês. E o que será então das outras crianças que não tiveram a sorte, digamosassim, de se encaixarem nesses moldes. Serão fatalmente rejeitadas e desprezadas pelasociedade sem nem ao menos terem tido uma chance. É de uma hipocrisia sem tamanhoessa escolha que tem como base a descriminação. A única coisa que eu desejo é que sejauma criança bem pobre, realmente carente. Já que não podemos resolver o problema detodas as crianças necessitadas, resolveríamos pelo ao menos o de uma delas, o que vocêacha Ricardo?_ Perfeito. Eu concordo plenamente. E você tem idéia de onde achar esta tal criança?_ Sim, tenho: Eu até já pensei nisto. Na cidade onde nascemos. Lá existem mães queinfelizmente não tem as mínimas condições de criar seus filhos. Quem sabe a gente podeadotar por lá mesmo._ Boa idéia, querida, quer dar um pulo lá?_ Quero assim. que possível._ Está bem, tomarei todas as providencias.E Ricardo completa: 77
  • 78. _ Podemos até mesmo adotar a mãe da criança também se ela não tiver marido, pois assimpodemos ajudá-la. Mesmo que a distancia, podemos mandar-lhe recursos para uma vidadigna. Não seria bom?_ Ótima idéia, querido. Temos recursos para isso e não nos custaria nada, não é mesmo?Sabe!, Eu já andei conversando com Matilde, nossa empregada sobre esse assunto e elatem o endereço de uma mulher que poderá nos ajudar na adoção. Parece que ela abrangebastante experiência no assunto, se não me engano ela tem uma creche. Que tal irmos atélá?_ Vamos sim, Dolores. Mas diga-me como é que ela faz isso?_ Eu acho que ela nos acompanha. O negócio é organizado. A tal mulher viajaria conoscoaté onde está a criança disponível para adoção. No nosso caso, até a nossa cidade natal.Ela iria antes para averiguar é lógico e ir tomando as devidas providencia. Assim, quandochegarmos lá, tudo devera estar devidamente encaminhado de acordo com o queplanejamos._ E você tem certeza de que quer mesmo ir até lá? Pergunta Ricardo um poucopreocupado, pois sabe ele que sua amada esposa não tem boas lembranças do lugar ondenasceu. Mormente em relação aos acontecimentos da vida retrograda de Dolores._ Veja bem Ricardo, na a verdade eu não gostaria de voltar àquele lugar, pois asrecordações não são nada agradáveis e ainda me deprimem muito, portanto, se ela for,poderíamos acompanhá-la até Cachoeira, a cidade vizinha. O que você acha?_ Boa idéia! Então vamos. Pode deixar que eu cuido de tudo. Não quero que vocêpreocupe essa linda cabecinha com nada. Apenas dê-me o endereço da tal mulher e eu 78
  • 79. mandarei que o meu advogado vá procurá-la e inicie já as investigações. Não podemosmais perder tempo. Acho que já arrastamos tempo demais, você não acha querida?Dolores apenas sorriu vendo o acendimento de seu marido cujos olhos brilhavam de umamaneira muito especial, tornando-o ainda mais bonito e atraente. Ah, como ela gostava econsiderava aquele homem e queria fazê-lo feliz! Tomara que em qualquer situação,Ricardo seja sempre este homem maravilhoso que é. Pensava Dolores.Esse era o verdadeiro sentido de gratidão. Sentir-se feliz com a felicidade do seucompanheiro. Sem o egoísmo, a pessoa sente-se feliz fazendo o outro ser feliz também,com isto ele próprio procura dar muito mais si mesma do que receber. O amor puro everdadeiro na sua mais ampla concepção não é tão facilmente encontrado, pois muitosdizem que amam, mas fazem mil exigências e cobranças, quer mudar a outra a qualquercusto e simplesmente não aceita a pessoa como ela é.Idealizam-na e como quase nunca a realidade corresponde às expectativas aí entãocomeçam as frustrações, os desentendimentos e a infelicidade. Muito sofrimento poderiaser evitado se as pessoas se amassem no verdadeiro sentido da palavra e não somentequando o outro lhe proporciona prazer. 79
  • 80. A VIAGEM:.E assim Ricardo e Dolores começaram os preparativos para a viagem com o objetivo daadoção.O entusiasmo e a esperança reinaram absolutos. O casal não queriam perder nem mais umminuto, pois estavam muito ansiosos e mal podiam esperar pelo desenrolar dosacontecimentos. A viagem corria tranqüilamente, sem maiores problemas. O dia estavalindo, o céu de um azul intenso o que tornava a paisagem ainda mais encantadora,simplesmente perfeita.Os pastos e as lavouras ao longe tão verdinhos com o gado pastando mansamenteparecendo não se importar com nada, apenas com o momento em si, apreciando o“banquete verde” com suas folhas tenras e saborosas. Algumas casas distantes da estrada,isoladas, com suas chaminés davam a impressão de que ali vivia pessoas felizes, gentehumilde que trabalhava a terra com amor e carinho para que ela retribuísse empercentagem de mil com colheitas fartas e abundantes.A mãe Terra sendo bem tratada é de uma generosidade ímpar, alimentando seus filhoscom o que há de melhor, sendo que as plantas tiram do solo bem cuidado aquilo de quenecessitamos para o nosso sustento podendo assim nutrir o homem no ciclo da vida que ésempre rico e maravilhoso. Basta olhar com atenção o colorido das frutas e legumes;sentir o sabor delicioso de cada um e usufruir seus benefícios para a saúde. Há osuficiente para todos, porém, infelizmente nem todos tem acesso a essa riqueza, mas issojá é outra questão... 80
  • 81. Cada qual permanecia absorto em seus pensamentos quando por alguns instantes Dolorespor intuição suspeitou que Ricardo estava um pouco tenso e enigmático, quebrando osilêncio, Ricardo dirige a palavra a Simone que ali estava para intermediar a adoção e queviajava com seu secretário, pessoa de sua total confiança e que era também seu amante._ Bem, dona Simone, estamos quase chegando à cidade de Cachoeira, estamos no limitedo município, ficaremos hospedados aqui neste hotel e vocês seguirão viagem até apróxima cidadezinha, certo? Aqui esta o cartão do nosso hotel e, por favor, qualquercoisa, nos comunique. Mantenha-nos informado de cada detalhe do processo, está bem?Estaremos a postos e se precisarem de alguma coisa, ligue-nos imediatamente._ Está bem, doutor Ricardo. Então fica combinado: A adoção tem que ser muito discreta.Os pais não podem saber para onde irá à criança e quem serão seus futuros pais, se vocêsnão quiserem ter problemas futuramente. Responde ela que já possui bastante práticanesse tipo de negociação e proibindo literalmente a adoção da mãe da criança, como erada intenção do casal._ Mas porque tem que ser assim, dona Simone? Pergunta Dolores um tanto contrariada. _Desculpe, mas a senhora não está exagerando um pouco? Todos esses cuidados sãorealmente necessários? A adoção não será de acordo com a lei?_ Bem, eu vou explicar. Imaginem: Vocês adotam uma criança, doa amor, carinho,educação cria como seu próprio filho, e aí, amanhã ou depois os pais biológicos podempor tudo a perder; pois sabem como é essa gente... Fazem tudo por dinheiro, vendem a 81
  • 82. própria alma se preciso for. Podem aparecer choramingando se dizendo arrependidoscometendo chantagem emocional, até mesmo querendo a criança de volta depois decriada, mesmo tudo sendo feito dentro da lei, é claro! Podem até querer chantageá-los eassim levar uma boa quantia em dinheiro. É isso o que a senhora quer?Eu acredito que não. É por essas e outras que eu digo, é melhor que a criança seja aindaum bebê e nem venha, a saber, que foi adotada. Que não venha a ter nenhum contato comseus pais biológicos após a adoção. Afinal de contas, pais são os que criam, não é mesmo?Quanto aos documentos ou certidão de nascimento deixe por nossa conta e fique tranqüilasenhora afirma Simone.Pessoa fria e calculista que era eela ainda acrescentou:_ Essa gente é pior que bicho. Tem um filho atrás do outro, mas não tem a menorcondição de criá-los com o mínimo de dignidade. Reclama da miséria o tempo todo, masnão fazem nada para progredir e também não param de aumentar a prole. São um bandode irresponsáveis e preguiçosos que ficam esperando que tudo venha do céu, mas como eucostumo dizer, do céu só cai mesmo é chuva e olhe lá! Dolores estava indignada com o discurso de Simone. Não concordava com o seu pontode vista, queriam discutir o assunto, mas Ricardo um pouco tenso aconselhou a Dolorester calma que tudo seria resolvido da melhor forma possível e disse mais. Pra isto temosum bom advogado exatamente para nos assessorar minha querida, pois aquele momentonão era o mais apropriado. Não poderemos parecer grosseiros com quem que ira nosajudar a realizar um sonho que finalmente esta a ponto de se concretizar, afirma Ricardo.Então o casal apenas trocaram um olhar bastante significativo e calaram-se. 82
  • 83. Quando desceram do carro na porta do hotel, Ricardo finalmente quebrou o silencio quejá era um tanto tenso dizendo:_ Bem, sendo assim... Ponderou-o, pensando nas complicações futuras que poderiamperfeitamente ser evitadas, porém percebendo a contrariedade da esposa que ele tão bem aconhecia então só com um olhar e um gesto, disse-lhe: Calma querida_Disse Dolores baixinho a Ricardo: Eu sinto que não deve ser assim. Parece-me que estátudo tão errado dessa maneira Ricardo..._ É querida: Pensando bem, creio que agora tem que ser assim, pois não há outra maneira.E depois, pensando bem... Dona Simone tem La sua razão. Veja bem; Ela tem uma vastaexperiência nessa área. Não desejamos problemas futuros, não é mesmo? Portantodevemos evitá-los desde já, para o nosso bem e principalmente o da criança._ Está bem, Ricardo. Se tiver que ser assim, que seja.Dolores finalmente concordou um tanto contrariada é bem verdade, mas ansiosa comoestava e sentindo sua impotência diante da situação não queria complicar ainda mais.Dolores e Ricardo se hospedaram no melhor hotel de Cachoeira, que embora simples, erabastante confortável. Ficaram aguardando ansiosamente enquanto dona Simone e seu fielsecretário, Silvio, seguiram para a cidade vizinha para tomarem as devidas providênciasque eram as de conseguirem uma criança para seus clientes.À propósito Silvio, embora seja casado e pai de quatro filhos tem adoração por Simone emantém um caso com ela há dois anos sem que sua esposa sequer desconfie. Quando eleviaja com sua amante a esposa pensava que era a negócios, pois ele é advogado de uma 83
  • 84. empresa e, por conseguinte, Simone, uma mulher dominadora que sabe como mantê-lointeressado o tempo todo. Um dia Trata-o como a um rei, mimando-o e cobrindo-o deprazeres indescritíveis, deixando-o literalmente louco por ela. Já no outro dia trata-ofriamente com certo desprezo, deixando até mesmo entender que a qualquer instante irátrocá-lo por um amante mais jovem e vigoroso.Ela faz isso a propósito, esperta que é, sabe muito bem que ele entra no seu jogo sórdido esentindo-se inseguro o tempo todo faz com que ela fique no controle da situação,dominando-o totalmente.Ele contra partida teme em perdê-la, pois perderia também as vantagens financeiras queusufrui com Simone e também não quer abrir mão da amante ardente que realiza todas assuas fantasias. Fica louco só de imaginar que ela possa trocá-lo por outro. Às vezes senteque ela ameaça-o só para poder dominá-lo, mas como não tem certeza... Essa insegurançajá fez com que ele perdesse muitas noites de sono. Sente que não poderia viver sem ela.Eles moram em Belo Horizonte também, sendo que Simone reside em um bairro nobrecom uma casa luxuosa “classe media alta”.Simone é funcionária pública, porém, não exerce a função no Estado por que a muito elaesta afastada alegando inapta para o trabalho publico, porem recebe mensalmente um belosalário do estado. E usa o bom conhecimento que tem para cometer o trabalho sujo e comhipocrisia impondo certo respeito em relação aos seus clientes, deixando se passar comouma missionária do bem! freqüenta uma casa de oração onde ela faz suas pregações nacondição de lider e ainda tenta converter as pessoas que lhe interesse financeiramente paracamuflar suas verdadeiras intenções: Comércio ilegal de crianças, ganhando uma pequena 84
  • 85. fortuna com isso. Não se importando, no entanto, para que finalidade os clientes adquireas crianças, sendo que muitos as levam para o exterior para revendê-las por lá. Tambémutiliza o tráfico e os meios ilícitos para a legalização de documentos falsos referentes àadoção. Tudo muito bem feito, sem levantar suspeitas até para o próprio cliente, sendoque só os mais espertos percebem que há algo errado em suas transações.Por sua vez, Dolores não sabia exatamente do trabalho sujo e extrajurídico que Simoneexercia e doutor Ricardo, seu esposo, ofereceu a ela uma gratificação extra para conseguirpara eles uma criança que viesse a alegrar a vida de sua esposa, não importando de queforma fosse feita a transação. Na sua maneira de pensar, o fim justifica os meios e ele nãose importa em gastar uma quantia exorbitante para ver sua esposa feliz e realizada.Já no em Riacho Grande Simone está diante de um casebre de aspecto bem miserável porindicação de um desocupado que ela lhe pediu a seguinte informação: Você por acasosabe se por aqui tem alguma família que necessita de algumas roupinhas para recémnascido ou até um pouquinho maior?.Como o lugar era pequeno todos os moradores daquele lugarejo sabiam o que se passavana vida dos demais moradores, então o desocupado lhe responde de imediato; Sei sim amulher do seu Zé tem uma criança que as vezes passa até fome, coitada daquela mulhertão nova! O seu Zé bebe muito sabe dona e maltrata a coitadinha e também o menino.Ele fala pra todo mundo que o filho não é dele, mais é sim: Pois o menino é a cara dele,como pode! Simone e onde eles moram? É logo ali naquele casebre dona. Simone abre abolsa e gratifica o informante e logo em seguida batendo palmas vigorosamente esperandoque alguém venha atender. Ela sabe bem o quanto aquela gente do interior é desconfiada e 85
  • 86. às vezes demoram em atender a porta, pois às vezes simplesmente ficam escondidas atéque a pessoa desista e vá embora, principalmente quando percebe que se trata de gente dacidade grande. Ela detesta ter que lidar com aquele tipo de gente que para ela não passa de“bichos-do-mato‟‟, mas são os ossos do ofício, pensa consigo mesma.Zé esta lá dentro tomando um café amargo para curar a ressaca e Carlão um amigo dafamília também esta La para dar alguns conselhos para o amigo._ Zé, tem gente estranha aí. E olha que é gente endinheirada, homem. Só de olhar da paraperceber afirma Carlão._O que será que eles querem Carlão?_ Sei lá, Zé. Como é que eu vou saber? Só mesmo perguntando prá eles, NE?_ Sei não... Quando bacana vem por aqui nesse fim de mundo, coisa boa é que não é.Deixa-me pensar um pouco._ É, mas daqui a pouco eles desistem e vai embora, achando que não tem ninguém._ É mesmo. Você tem razão. E... Mais pode ser que eles estão querendo comprar algumacoisa, não é mesmo? Este povo às vezes compra até tronco de arvores para enfeitar a casa._E se eu bem te conheço, você vai tentar levar alguma vantagem! Eu sei que você é capazaté de vender a alma pro Diabo, se for prá ganhar um bom dinheiro._ Mas é claro, Eu não sou besta de perder uma oportunidade dessas. Não é todo dia que asorte bate na porta da gente. Vai lá, Carlão. Descobre o que eles querem aqui e se euganhar algum dinheiro, eu dou um pouco pra você. Mas vê se vai logo, antes que elesdesistem e dão no pé. Anda logo, homem! Você é lerdo demais. 86
  • 87. _ Tá bom, Zé, eu vou, mais vê se não vai se esquecer de mim, hein?!-Olha bem prá mim, eu sou homem de palavra Carlão, pode ir sossegado homem deDeus. Só nunca pensei que iam bater justamente aqui na porta desse barraco caindo aospedaços!_ No que é que você está pensando, Zé? Responde Carlão, já bem assuntado, pois conheceo amigo que tem. Sabe Carlão, promessa é divida, Ou será que você não acredita mais napalavra do seu velho amigo aqui?! Assim você está me ofende. Vai logo que eu estou quenem me agüento mais de tanta curiosidade.Alguns minutos mais tarde que para Zé pareciam uma eternidade..._ E então, Carlão, descobriu o que os bacanas queriam?_ O que você acha Zé?_ Não sei. Como é que eu vou saber?_ Mais eu sei!_ Então fala logo, desembucha, O que é?_ Você não vai acreditar! Eles estão procurando uma criança, um bebê._ E pra quê? Posso saber?_ Eles querem adotar uma criança pobre, o casal me disse que não podem ter filhosporque a mulher tem problemas de saúde, eu acho que ela é seca, pois não pode nemembuchár. Ah sei lá! Foi isso que eu entendi._ Sei. É daqueles que compra criança... Já ouvi falar dessa gente que compra criança epaga um bom dinheiro por elas. É gente que vem lá da capital. Acho que hoje é nosso dia 87
  • 88. de sorte. Eu sabia que esse dia ia chegar e a sorte bateu na minha porta, afirma Zé capazde tudo por dinheiro._ Você vai voltar lá fora e diga prá eles que você sabe de uma criança de oito mesese quer que alguém que o adote. Fala que essa criança só tem pai, pois a mãe morreu logodepois que pariu e o pai não tem condição de criar._ Mas Zé, no que você está pensando agora, meu amigo? Eu não estou entendendo essatua prosa... Do que é que você está falando?_ É isso mesmo que você está pensando. O menino nem é meu filho, por mais que Elizajure que só se deitou comigo até hoje eu não acredito. Agora ela diz que está doente, quenão tem ânimo prá nada. Esta na cara que ela está é mentindo. Eu bem que tentei botar elaprá trabalhar lá no bordel de dona Dondoca, mais não deu certo. Com certeza ela estafingindo doença prá não ir se prostituir lá no bordel e me dá o dinheiro, ela vai me pagarcaro!_ Zé eu não acredito que você foi capaz de um negócio desses. Você não presta homem!_ Olha como fala comigo! Dobre a língua. Ou você quer ficar sem ela! Guarde suaopinião a meu respeito prá você, se quiser continuar a nossa amizade._ Tá bem Zé. Eu não sabia que dona Elisa estava doente. Tão nova e tão formosa. É umapena. Você devia era cuidar melhor dela._ Ah, sei lá. Também não me interessa. Ela já deu no que tinha que dar e se morrer nãovai fazer falta nenhuma. Além do mais, pensa bem, o menino está passando fome, eu não 88
  • 89. tenho condição de sustentá-lo. Mal estou podendo sustentar meus vícios, quanto maiscriar o filho que nem é meu._ É seu filho sim, Zé. Dona Elisa é uma mulher honesta. Não faz uma coisa dessas,homem, eu a vi ela nascer e ela é uma mulher séria que sabe se dar o respeito apesar deser praticamente uma menina ainda._ Você não quer o dinheiro também? A sua parte, lembra?_ Não, não quero dinheiro sujo. Trair dona Elisa? Nunca! Deus que me livre! Nem pensarZé com isto Carlão alega que tem mais o que fazer e precisa ir embora.PARTE 02 CAPITULO 04:Zé e Carlão se despediram e ficaram de se encontrar mais tarde no boteco, como decostume. Zé voltou onde esta Simone e seu comparsa esperando uma resposta então elediz ao casal amanhã eu procuro vocês pois por agora eu não posso lhes dizer nada atéamanhã, pode deixar que eu acho vocês, afinal onde é que vocês passarão a noite?Isto não importa amanhã agente te procura por ai nestes botequins.Zé agora pensava numa maneira de convencer o amigo Carlão a participar do seu plano,mas sabia que não seria fácil, pois Carlão não iria ceder facilmente. Era melhor deixar 89
  • 90. para mais tarde. A conversa seria difícil, mas tomando umas e outras tudo dariam certo,pensava ele já antegozando os prazeres que o dinheiro fácil iria lhe proporcionar.Quando Elisa chegou a casa, pois havia ido pedir alguma ajuda no vilarejo para ter o quecomer e o que dar a seu filho, ela encontrara Zé visivelmente transformado, de cabeçaquente andando de um lado para o outro, esmurrando a parede de vez em quando edizendo blasfêmias, como se estivesse falando com alguém. Na realidade estava mesmo.Seus maléficos companheiros espirituais OU ALGOZES que não os deixavam nunca elhes incutiam idéias e ele as pronunciava em voz alta e assim as registrava como a lhessentir a presença, assim suas idéias se misturavam com as de seus maus companheiros.Entidades essas que viviam o mal e que se afinava com ele pela sua péssima condutamoral.Quando ele se acalmou um pouco Elisa disse-lhe:_ Zé, vê se arruma alguma coisa pra esse menino comer. Ele só come fubá, couve e água._ Eu vou é levar ele pro boteco prá ver se ele aprende a ser homem desde já.Ele tem é queaprender a tomar é cachaça._ Mas ele não tem nem um ano de idade. Você endoidou de vez? Acho que a pinga estáfazendo você perder o juízo. Acha que eu iria deixar você carregar o meu filho probotiquim?_ Ele não é meu filho, você disse bem é somente seu! Esbraveja Zé esmurrando a mesavarias vezes seguidas, quase quebrando a própria mão com a força dos murros._ Lógico que é! Eu já estou cansada de ouvir essa história. Você acredite se quiser. 90
  • 91. O Carlinhos é seu filho, quantas vezes eu vou ter que repetir isso. Meu Deus?! Quantacalunia será que este sofrimento não tem fim? Carlinhos chorando. Elisa respondetentando acalmá-lo já vou meu amor que assustado chorava muito por causa dos gritos ecom os murros na mesa daquele que era de fato seu pai biológico, mas que não sereconhecia como tal.Zé, sempre desconfiado, pois a cada dia ele convencia-se mais e mais de que o meninonão era mesmo seu filho e portando ele não tinha a menor obrigação de criá-lo, sendo queele era resultado de uma traição, na sua distorcida maneira de pensar. No fundo ele queriamesmo era uma boa desculpa para fugir às responsabilidades de pai, de chefe de família.Agora então, essa desconfiança que já se tornara uma obsessão era providencial, pois fariacom que ele cometesse um crime hediondo sem o menor escrúpulo e sem sequer sentir omenor remorso.Já que mesmo tendo plena consciência de seus atos ele não se importava nem um pouco.Ao contrário, comprazia-se com o sofrimento alheio. Sabia o quanto Elisa iria sofrer aoseparar-se do filho tão amado, mas não se importava. Achava até mesmo que ela mereciatal sofrimento por tê-lo traído e que iria servi-lhe de lição. E quanto ao menino, pensavaele, estaria muito melhor com aquela gente rica, cheia de luxo e posses. Como se dinheiroe poder fossem as únicas coisas que realmente importassem na vida dos seres humanos.Ah, se Zé soubesse o quanto estava enganado. E o quanto esses enganos iriam lhe custarcaro num futuro não muito distante... Se ele soubesse que assim que desencarnasse essesseus companheiros, as entidades inferiores o levariam para um lugar de provas eexpiações, e o fariam trabalhar na condição de escravo sem descanso para eles por 91
  • 92. séculos e séculos continuando a vampirizá-lo sem trégua, sugando todas as suas forças eenergia e que a libertação só viria no dia em que ele se arrependesse sinceramente, dofundo de sua alma para que pudesse então ser socorrido por entidades de luz que sempresocorrem aqueles que o fazem por merecer.Quando atinge o ápice da misericórdia do Pai. Porque o criador nunca nos desampara,mas para isso o arrependimento tem que ser sincero, então neste contesto para que osirmãos “socorristas” possam ter forças para tirá-los do expatrio e levá-los para um lugarde aprendizado e estagio, para que eles possam se restituir e encontra a paz e assimcomeçar uma nova etapa de redenção e elevação espiritual que deverá ser conquistada porseus próprios méritos.Mais tarde no boteco Zé e Carlão conversam, e Zé a todo custo tenta fazer com que oamigo participe de seu plano criminoso, mas Carlão não adere aquele plano sórdido demodo algum, pois possui boa índole e tinha muita consideração e pena de Elisa, pois sabiaque ela era uma pessoa íntegra e sofria muito com o marido que tinha, por isso não era odinheiro que iria comprar a sua consciência.Maguinaldo, freqüentador assíduo daquele boteco fica a espreita escutando toda aconversa de ZÉ com o Carlão. Então ele segue correndo em direção ao casal que já estavadesistindo da procura de uma criança para a adoção.Quando Maguinaldo se aproxima e pergunta para o casal, Por acaso é uma criança paraadotar que os senhores estão procurando? Responde Simone: sim: E o senhor sabe quemesta vendendo uma, ou melhor, quem quer doar para adoção? Os senhores me 92
  • 93. perguntaram se eu sei quem tem um bebe pra vender? Então me aguarde, volto já, já como pai da criança e posso lhes adiantar que a criança é muito bonitinha é um molequinhomaravilhoso só um pouco desnutrido,Mal intencionado que era, pensava aquele ganancioso mal caráter: Eu quero é levaralguma vantagem também. Então ele volta ao vilarejo e começa a tramar com Zé a talnegociação. Logo Zé trava conhecimento com dona Simone, em Riacho Grandeconvidando-a para ir até sua casa.Elisa recebe-a um tanto desconfiada como que prevendo que algo de muito ruim estavapara ocorrer. Pensa consigo mesma: O que estaria uma senhora como aquela, cheia deluxo naquele lugar miserável com Zé, seu marido? E ela que sabia muito bem que seumarido não era flor que se cheira._ Bom dia, quem é a senhora? Pergunta Elisa humildemente com os olhos no chão.Simone nada responde._ Por que ela não olha para mim e só fica de cabeça baixa? Pergunta Simone a Silvio jáum tanto irritado._ É pura vergonha, o povo do mato é pior que bicho. Nem ligue para isso Simone. Nãovale a pena._ Mas o que essa mulher está fazendo aqui em minha casa, Zé? Pergunta Elisa em vozbaixa, quase sussurrando ao seu ouvido._ Não está vendo, mulher? Ela só está olhando a casa. Quer comprar o nosso sítio e se elacomprar mesmo, eu lhe dou um bom dinheiro prá você. Mente Zé descaradamente já com 93
  • 94. bronca de Elisa que como toda mãe tem seus instintos maternais aguçados, prontos paradefender sua cria de qualquer ameaça.Então ela diz, agora olhando bem para dona Simone como se quisesse gravar muito bemsua fisionomia e não mostrar a sua face:_ Eu não quero que essa mulher veja a nossa casa e muito menos meu rosto:Alguma coisa me diz que ela não deve olhar para minha cara, mais eu sim, tenho quemarcar bem a fisionomia dessa dona, que é para nunca eu me esquecer do rosto dela enem do seu nome, se o meu coração disparou quando eu a vi é por que estou recebendoalgum aviso.Carlinhos o filho de Elisa que estava dormindo em seu colo, começa a chorar, como quepressentindo o perigo que o cerca e dona Simone aproxima-se dele com o interesse deexaminá-lo de perto para ver se valem a pena o investimento. Experiente que é ela logo vêque se trata de uma criança saudável embora visivelmente desnutrida. Nada que uma boaalimentação não resolvesse. Era só uma questão de tempo para que ele ganhasse peso e setransformasse em um garoto corado e bonito como qualquer criança criada em umafamília abastada.Bem no seu íntimo ela achava que além de um negócio lucrativo ela estava fazendo umbem para aquela pobre criança tirando-a daquela miséria; mas o que mais lhe interessavamesmo era o dinheiro fácil que iria ganhar e que não era pouco; pelo contrário era umaquantia bastante considerável. Oferecido por Ricardo sem que Dolores soubesse que nãoera bem uma adoção, mas sim uma transação comercial entre ele e Simone. E aquela 94
  • 95. mercenária que Ainda por cima acreditava estar praticando um ato nobre tirando de Elisaseu bem maior.Elisa de tão cismada que estava, andava de um lado para o outro falando sozinha, oumelhor, pensando alto depois que todos saíram inclusive o Zé que fora acompanhar ocasal de volta ao vilarejo e acertar os detalhes finais da transação._ Mais que mulher esquisita... Será que é uma daquelas que o Zé vai visitar naquelebordel? Não, acho que não. E além do mais, ela estava acompanhada. Acho que éo marido dela, pelo jeito dos dois. Ela tem jeito de gente rica da cidade grande,mas o que está fazendo aqui nesse fim de mundo? Bem, de qualquer modo eu gravei bema cara dela e tenho certeza que ela não veio aqui prá comprar sítio nenhum. Não sei bem oque é, mas o Zé está tramando alguma coisa e vindo dele coisa boa não é. Eu tenho quedescobrir qual é a trama: mais como farei isso? ...Deixe-me pensar.E assim Elisa nem conseguiu dormir aquela noite, passando no lusco-fusco em claro detão preocupada que estava.Instintivamente ela sabia que o Zé estava tramando uma das suas e não havia de ser coisaboa. O que ela não podia imaginar é que ele estava preste a vender o seu próprio filhocomo se fosse uma mercadoria qualquer. Tal ato era tão monstruoso que não lhe passavapela cabeça esta atrocidade. Acabou adormecendo no âmago da madrugada de tãocansada que estava com o dia já quase renascendo.Não gostou nem um pouco da maneira que dona Simone olhou para Carlinhos; seu olharfoi perspicaz em relação ao menino, um olhar de cobiça. Podia até botar „‟quebranto‟‟ no 95
  • 96. menino e com certeza ela teria que levá-lo para que dona Maria o benzesse caso ele viessea apresentar algum mau sintoma. Mas coitada, talvez ela não tivesse filhos e fosse infelizpor isso, apesar de toda sua riqueza. Pensando assim Elisa dormiu profundamenteabraçada ao seu filho querido, seu anjo querubim, sua dádiva do céu, sem dúvidaseu maior tesouro.Dormindo sonhou. Um sonho confuso, perturbado onde havia uma separação e muita dore seu anjo da guarda, seu mentor espiritual mais uma vez se fez presente, pedia-lhe quefosse forte em inclusão aos seus desígnios, pois iria passar por um desgosto muito difícil,o mais difícil de sua vida, mas que teria que ser assim, pois era determinado pela lei douniverso e imposto por ela mesma em sua vida retrograda, mas este desgosto ou provaçãonada mais era do que um ajuste de suas dividas de vidas passadas e um excelenteaprendizado. Porém com toda certeza se ela fosse forte venceria, pois ele estaria com elapara lhe dar sustento disse o anjo em seu sonho. Ela iria vencer e ele estaria apoiando-lhee dando-lhe força neste momento e em muitos outros, iluminando sempre o seu caminho.Quando Elisa acordou não se lembrava do sonho que ficara memorizado em seusubconsciente ou “perespirito”, mas sentia-se mais calma. Com uma doce paz que nãosabia elucidar.Então Elisa levantou-se de sua humilde cama bem disposta dizendo para si mesma queestaria pronto para o que der e vier e foi cuidar de seus afazeres, já bem mais serena econfiante.Quando Zé chegou, pois passara a noite no bordel de dona Dondoca, como era de seucostume não encontrou Elisa, que estava na horta tentando colher um pouco de verduras 96
  • 97. que ela mesma cultivava para o almoço. Um pouco de mandioca, couve e alguns tomatesque generosamente a natureza havia lhe oferecido. Havia também bananas e ovos deninhos espalhados pela redondeza. Ha abundancia de alimentos começava a surgirnaquela estação do ano, ainda bem!Zé percebe a ausência da mulher muito oportuna, pois raramente deixava o meninosozinho e aproveitou para apanhar o bebê sem que ela percebesse. Carlinhos estavadormindo profundamente e nem percebeu, caso contrário teria chorado com certeza, poismesmo sendo tão pequeno ainda não podia suportar o contato direto com o pai devido assuas vibrações negativas e o mau cheiro da bebida misturado com o perfume barato dasdamas da noite daquele bordel em que freqüentava.O plano tenebroso de Zé iria ainda mais longe. Com um galão de gasolina que compraraele espalhou pelo o casebre para atear fogo mais facilmente e assim livrar-se de Elisa parasempre. Pensava consigo mesmo: “Vou pôr fogo assim que Eliza adentrar nesta taperavelha ela ira morrer queimada. E eu fico livre dela e sem nenhuma culpa.Todos pensarão que foi uma fatalidade. Posso vender esse moleque, pegar o meu dinheiro.Depois finjo que foi um acidente, uma desgraceira que levou minha esposa e meu filho.Ninguém terá como desconfiar do meu plano...Eu sou mesmo muito danado de esperto!”Ele fica atrás da casa com Carlinhos e esperando Elisa entrar. Assim que ela entra, atraídapelo choro do menino que agora chorava finalmente, percebe o cheiro forte de gasolina ede repente o casebre está em chamas. Elisa grita desesperadamente sem saber o que fazer.Carlão que desconfiado que Zé haveria de cometer algo muito ruim em relação a Elisa e 97
  • 98. aquela criança resolveu seguir os passos do seu ex amigo a distancia de imediato pega umatalho acompanhando Zé a distancia e chega bem na hora H. Ele andava seguindo Zéultimamente, temendo pelo pior.Zé saiu correndo com a criança pela estrada e não percebe que Carlão se aproxima. Há eele queria ver de perto o que Zé iria fazer para concretizar o seu plano. Cuja intenção deCarlão seria interferir. Nunca pensou que Zé iria tão longe... Aproximando-se da casa emchamas, desesperando ele gritava, chamando por Elisa:_ Dona Elisa, dona Elisa!Com muita dificuldade devido ao fogo e a fumaça, mal conseguindo respirar eenxergando muito pouco ele consegue entrar na casa e tira Elisa de lá.Desacordada, mas com vida, como que por um milagre. Foi Deus que o mandara lá,pensava Carlão, senão aquela pobre coitada já estaria falecida e teria uma morte horrível,ainda mais dona Elisa que não faz mal a ninguém. O que ele jamais poderia imaginar eraque Zé fosse tão perverso, cometendo um crime daquele tipo contra a própria mulher. Elecansou de dar conselhos ao amigo, principalmente com relação às desconfiançasinfundadas dele quanto à paternidade de Carlinhos, mas não adiantava, pois Zé estavacada vez mais irredutível e nada o fazia abandonar aquela idéia fixa, mas chegar àqueleponto...Era demais e Carlão não se conformava. Graças a Deus ele chegara a tempo de salvarElisa, mas foi por pouco, muito pouco...Enquanto ela recuperava os sentidos com muito esforço, Zé já estava muito, muito longecom a inocente criança. 98
  • 99. PARTE 03 CAPITULO 01:Na pequena e pacata cidade de Riacho Grande mais um dia se transcorria. As pessoas iame vinham sem pressa, pois ali ninguém tinha açodamento mesmo. Cada qual cuidando deseus afazeres sem maiores ansiedades, com exceção de Zé que estava bastante agitadoquerendo resolver logo sua situação o mais rápido possível, ou seja, entregar a criança epegar o dinheiro, Depois então ele resolveria o que iria fazer da sua vida.Em posse do dinheiro tudo seria mais fácil, assim ele pensava indo ao encontro de donaSimone e seu secretário. Ao encontrá-la no lugar marcado, para sua surpresa ela estavasozinha e Zé foi logo dizendo:_ Bem, é como eu falei prá senhora, dona Simone, minha mulher está muito doentedesenganada e eu nem falei prá ela que eu estou dando a criança prá senhora, mas asenhora, vê se não se esquece da minha gratificação!_ Zé, pode abrir o jogo. Nós vamos é ter de roubar esta criança da mãe e ela não estádoente coisíssima nenhuma, pois eu a vi, ou você já se esqueceu? Ela está até muitodisposta apesar de estar mal alimentada e mal tratada. Eu só não consegui ver a cara delaporque só anda de cabeça baixa e inclusive posso até imaginar o que você vai fazer comela, e isto, para mim realmente não interessa. A mulher é sua e eu estou pouco meimportando. Tudo o que eu quero é a criança para o meu cliente; e o mais rápido possível,pois não posso deixá-lo esperando. Eu vou tomar um café e já volto. Espere-me lá naquelebar, está bem?Enquanto isso, Zé chama Maguinaldo e pergunta: 99
  • 100. _Maguinaldo, venha cá, venha rápido homem: Rápido. Está vendo aquela dona ali, todabacana cheia dos luxos?_ Estou, estou vendo, é claro! É a dona Simone. Que mulherão, hein? É de dar água naboca... Mas por que, você pergunta se estou vendo a tal mulher?_ Cala essa boca e presta atenção! Pois é, a bolsa dela estava aberta e cheia de dinheiro.Depois que ela pegar o menino, ela vai ter que levar ele no colo, aí nós acompanhamos elaaté certo ponto onde ela ira pegar o carro que os trouxeram, aí então eu vou distrairaquele secretário bobão que ela trouxe com ela, e você dá um jeito de pegar o que temdentro da bolsa dela._ Mais isso é perigoso... E se ele tiver uma arma?_ Faz o que eu estou mandando, homem, e lembre-se que você está enrolado comigo até opescoço!Maguinaldo, mesmo com medo obedece às ordens de Zé pelo o impulso da ganância etambém por temer as represálias do Zé, Porém, o plano não deu certo e ele volta maisapavorado do que fora, e medroso como era não sabia como iria contar ao Zé, o seufracasso como comparsa no crime, pois sabia que ele ficaria furioso. Finalmente crioucoragem e disse:_ Zé, não deu certo. Parece que ela estava adivinhando o que nós dois tramou. Quando euia meter a mão na bolsa, foi bem na hora que ela mandou o secretário segurar a criança, eenquanto a almofadinha segurava o bebê ela tirou um pacote grande da bolsa e colocoudentro do casaco. Só que na hora ela deixou caí esse pequeno papel, e deve de ser algumacoisa importante; pode ser até o telefone dela pena que eu não sei ler. Veja bem, Zé, tem 10 0
  • 101. uns números aqui, está parecendo até numero de telefone. Eu achei que você iria gostar deter isso aí. Pode até ser de muita serventia no futuro prá você, não é mesmo?Zé nem responde. Irado com a incompetência de seu comparsa, tem vontade mesmo é dedar-lhe uns sopapos, porém, não deseja perder tempo com aquele ser desprezível, que nãoprestava nem para roubar a bolsa de uma mulher.Zé, que já havia recebido uma boa parte do dinheiro, queria muito mais. Sua cobiça eraimpressionante. Boa parte dos cinqüenta por cento que ele recebeu por antecipação jáhavia gastado no bordel de dona Dondoca esbanjando em bebidas onerosas para semostrar, pois queria impressionar a todos os freqüentadores do tal bordel e sabia quedesse modo, de agora em diante iriam tratá-lo como um daqueles coronéis que quandoapareciam por lá punham a mulherada em polvorosa.Elas chegavam até a brigar pela disputa de quem seria a escolhida para servir o “todopoderoso‟‟. Zé queria que fosse a mesma coisa com ele. Queria ser disputado por todaselas e ser tratado e paparicado como um rei, com todas elas aos seus pés, como ele sempresonhou. Mas para isso precisaria de muito mais dinheiro. E precisava arrumar um jeito deabiscoitar o mais rápido possível. Ele só não imaginava é que Elisa escapara com vida doincêndio provocado por ele.Para ele, ela já era uma carta fora do baralho e nunca mais iria voltar a vê-la, pois viroucinzas. E todos iriam pensar que naquele acidente Elisa e Carlinhos haveria perecido sórestando as cinzas. 10 1
  • 102. Parte 3 Capítulo 02Mas Elisa não perecera no incêndio, pois com a ajuda de Carlão recuperara-se totalmente.Carlão, pessoa boa que era, possuía um coração de ouro, um bonachão de altura mediana,porem com os seus cento e vinte quilos ele sempre estava disposto a auxiliar no que fossepreciso a qualquer um que lhe pedisse ajuda.E em especial a Elisa por conhecê-la desde o seu nascimento, só pensava em seu bemestar e no quanto ela estava sofrendo por tudo o que lhe aconteceu e principalmente pelaseparação de seu filho querido, ele alem de cuidar dela, também faz com que Elisa fiqueescondida sem que ninguém saiba de sua existência, para que ela não corra o risco denova tentativa do Zé, pois se ele soubesse que ela escapou com vida do incêndiocertamente ele iria tentar lhe tirar a vida.Ela chorava muito e seu sono muito agitado. Não queria alimentar-se, mas Carlão, semprededicado a forçava para seu próprio bem, dizendo:_ Dona Elisa, a senhora precisa se alimentar, senão vai acabar ficando doente e não terasaúde e nem forças para quando encontrar seu filhinho e eu e a senhora temos que ter fé.Sinto muito, com o que aconteceu, muito mesmo. Às vezes me sinto culpado por não terevitado essa tragédia. Não podia imaginar que aquele desmiolado do Zé pudesse ir tãolonge, achei que o que ele falava era da boca pra fora. Quer dizer, desmiolado não; eletem é muita maldade naquele coração de pedra. Aonde já se viu fazer o que ele fez... Eunão me conformo. Gostaria de dar uma lição naquele safado. Elisa respondeu angustiada: 10 2
  • 103. _ Carlão, você tem sido bom demais prá mim. Eu nem sei como te agradecer. Nunca voupoder pagar o que você está fazendo. Você sabe que eu não tenho mais ninguém nomundo e se não fosse você... Primeiro me salvou a vida e agora está cuidando tão bem demim com o pouco que você tem. Eu nunca fui tão bem tratada assim. Eu sabia que o Zéestava tramando alguma coisa ruim. Andava desconfiada, principalmente depois que elelevou aquela tal dona Simone lá em casa. Bem que eu senti algo ruim fervilhar na minhacabeça assim que botei os olhos naquela mulher cheia dos luxos e toda perfumada, maisela não tem cara de gente que presta, ah, não tinha não!Elisa continua:_ O Zé tentou me matar e quase conseguiu. Se não fosse você, meu amigo... Ainda porcima roubou meu filho. Eu tenho que achar meu filhinho, Carlão, custe o que custar euainda hei de colocar aquele peste do Zé na cadeia. Ele tem que pagar pelo que fez comigoe com o Carlinhos...-Mais aqui neste fim de mundo nem cadeia tem dona Elisa, só se matar a peste dessehomem criminoso!Alguns dias mais se passaram. Os dias transcursavam lentamente para Elisa que nãosuportava mais de saudade de seu filhinho amado. Daria tudo para pegá-lo em seus braçosnovamente, cobri-lo de beijos e sentir seu corpinho macio.Um dia, não suportando mais sua própria angustia, resolveu ir a busca de Carlinhos. Elasai sem destino à procura de seu filho, sem importar-se com o que lhe advir, tendo comoúnico objetivo achar seu „‟tesouro‟‟ pois já não pode mais viver sem ele. Isso a faz fortecomo ela nunca imaginou que fosse. O seu amor de mãe a impulsionava e lhe fortalecia 10 3
  • 104. com uma força sobrenatural. Mau ela imaginava que Sua ligação intensa com o filhoamado decorria de vidas passadas, e ela estava determinada a ir até o fim do mundo sepreciso fosse para encontrá-lo.Andando de dia, come raízes e nutritivas frutas nativas do mato, bebe água dos riachos, oude nascentes para saciar sua sede e vai pedindo forças aos céus com muita fé e esperança.Segue seu destino, seu extinto de mãe parece lhe conduzir na direção certa.Sua saga.Primeiro sua mãe fora vendida para que Joaquim a desposasse, depois Eliza tambémpassou pelo mesmo processo fora vendida e agora seu filhinho também passa peloanálogo dissabor, o que a deixou totalmente desorientada. Só com a roupa do corpopraticamente.Ela que é um tanto orgulhosa ou acanhada demais a ponto de não pedir ou esmolar, poisagora na ausência de seu filho, achava não ser mais necessário. Aprende a caçar pequenosanimais enquanto apenas para garantir sua sobrevivência. Viajava a pé Andava a beira dasestradas cercadas de matas com o pensamento somente em seu filho. Carlão teria ido comela com toda certeza, mas Elisa sentia que essa missão era só sua e por isso fugiu,aproveitando-se da ausência do amigo querido, que fora até o vilarejo. Carlão havia lhecontado com detalhes a trama de seu marido Zé.E disse-lhe que seu filho havia sido vendido para aquela mulher que apareceu em sua casaha dois dias atrás e levado para Belo Horizonte e que era bem longe dali, seria vários diasou meses de viagem a pé e que seria praticamente impossível chegar naquela condiçãoafirma Carlão. 10 4
  • 105. Elisa saiu do interior com destino a capital e mesmo sem perceber estava indo na direçãocerta, talvez por intuição ou a ajuda de seus mentores e guias de luz; mas com certeza suaestrela guia ou seu anjo há orientava o tempo todo no firmamento iluminado a sua longajornada, por que assim teria que ser, cometia parte de seu destino.Parte 3 Capítulo 03Zé e Maguinaldo já haviam viajado para a cidade vizinha para receber o restante dopagamento conforme havia combinando com dona Simone.E Maguinaldo intrigado com a situação toda, começa a indagar seu companheiro paramelhor entender como seria daquele dia em diante. Curioso, pergunta:_ Zé, como é que você vai legalizar a situação? O filho é da dona Elisa também._ Ela morreu seu imbecil. Responde Zé rispidamente já irritado com o seu interrogatório:_ Como assim, morreu? O que foi que você fez homem de Deus? Você matou a pobre?_ Botei fogo na casa com ela dentro. Mas você não se preocupe que vai parecer que foium acidente. Ninguém desconfiara de nada se você ficar quietinho, ou então eu possoacabar com você também._ Quer dizer que eu participei de um crime, mesmo sem saber? Ah, essa não! Diacho!_ É Magunaldo, agora você é meu comparsa. O que está feito, está feito, meu caro. 10 5
  • 106. _ Ih... Rapaz, agora eu estou mais sujo do que pau de galinheiro. E se a polícia descobretudo? Eu acho melhor nós fugir prá bem longe e o quanto antes, vamos dar no péenquanto é tempo..._Fica quieto seu otário em Riacho grande realmente há uma delegacia, mas esta fechadaporque não tem nenhum funcionário do governo naquela cidade a lei ali e do mais espertoseu bobão, e o Prefeito não esta nem ai ele esta preocupado e com as fazendas dele e oque ele rouba daquele povinho retardado._Então me responde uma coisa: Como é que você vai legalizar os documentos domenino?_ Essa criança não tem e nunca teve documento nenhum Maguinaldo. É a mesma coisaque vender um animalzinho, um bicho qualquer. Olha só... É o mesmo que vender umbezerro! Agora vê se não me amola mais com tanta pergunta! Além do mais, essa coisa depapelada aí é com a tal da dona Simone. Ela que se vire prá arranjar a tal documentação,ela poderá até dizer que foi ela mesma que pariu aquele moleque. Isso não é problemanosso. Eu só quero mesmo é passar a mão no restante da grana que ela está me devendo!_ E eu quero a minha parte! Não se esqueça! Diz Maguinaldo exaltado, achando que dealguma maneira Zé vai lhe passar a perna ficando com todo dinheiro para si._ Fala baixo, seu bobão! Você acha que vou lhe passar a perna sendo que você sabe detodo o meu plano? Quer chamar atenção de todo mundo, é? Agora deu prá duvidar daminha palavra? Só me faltava essa! Vê se cala boca que eles vêm aí. Olha só como a donaSimone está bonita! É de dar água boca que mulherão. Se não fosse aquele tal de doutorSilvio que não desgruda dela nem um minuto... Não gosto desse doutor almofadinha. Ela 10 6
  • 107. precisava era se deitar com um garanhão macho assim feito eu. Tenho certeza que ela nãoiria querer saber de outro macho... Nunca mais na vida... Ah, se eu tivesse a chance depegar essa dona de jeito... Coitada! Garanto que ela nunca se deitou com um macho deverdade igual a mim.Parte 3 Capítulo 04Após dois meses em uma cidade vizinha a Belo Horizonte Elisa pensava: „‟Eu tenho queachar meu filho. Pelo o que Carlão me disse aquela tal de Simone foi para Belo Horizonte.Eu sabia que aquela mulher estava tramando com o Zé... Se não fosse o Carlão, eu nãosaberia de nada a respeito desta situação. Não iria ter a menor idéia do paradeiro domenino. Aliais se não fosse o Carlão eu nem viva estava... ‟‟Algumas lágrimas rolaram de seus olhos. Lágrimas de gratidão e saudade de seu amigo ede revolta pelo o que o Zé fez com ela, o Carlão que salvara sua vida e ainda lhe dera oparadeiro de Carlinhos. Eu sei que fui uma ingrata com meu amigo e protetor, indoembora sem nem despedir dele e agradecer tudo que ele fez por mim. Sumi feito um bichofujão. Mais fazer o que? Se eu dissesse prá ele que eu viria prá Belo Horizonte a pé atraisdo meu filho ele não iria permitir, ou pior iria querer vir comigo e eu não pretendia lhe darmais trabalho. Com certeza Ele largaria tudo prá me acompanhar. Eu não podia atrapalharsua vida mais ainda. 10 7
  • 108. Pensando bem, foi melhor assim. Um dia se Deus me permitir ainda haveremos de nosencontrar, aí por esse mundo afora então eu vou poder agradecê-lo tudo que fez pormim... Deus abençoe o Carlão,..De repente Elisa lembrou-se de que Carlão havia lhe falado de um lugar chamado VilaPeri em Belo Horizonte, que ele escutara aquela mulher falar com seu secretário.Bem, ela teria primeiramente que arrumar algum trabalho para com calma chegar a BeloHorizonte e depois então procurar a tal vila. Não seria fácil, mas com sua fé eperseverança Elisa sabia que iria conseguir. Afinal ela chegara até ali magra e faminta.Mas isso lhe serviu para aumentar ainda mais a sua fé no Criador e sua força de vontadepara alcançar seu objetivo que era um só. Claro que não foi fácil chegar até ali. Foramvários dias de peregrinação, muito sofrimento, mas um grande aprendizado.Houve momentos em que ela sentia chegar aos limites de suas forças, mas em nenhuminstante pensara em desistir. Pelo contrário, o sofrimento dava-lhe forças, transformandoaquela menina frágil e insegura, que já não mais existia, numa mulher corajosa e capaz,pronta para os desafios que a vida lhe apresentasse. Pois a vida não joga para perder.Sempre que nos temos um desafio é porque temos condições de superá-lo. Só depende denós.Elisa não imaginava que a capital mineira fosse tão grande assim, tratou de procurar algopara fazer com certa facilidade conseguiu um serviço de faxina ganhando menos de ametade de uma faxineira acostumada com o serviço e como diarista suas patroas lhesofereciam um café da manhã e almoço, o jantar era por sua conta, por isso paraeconomizar ela não jantava para então poder pagar uma pensão somente para onde dormir 10 8
  • 109. e se banhar diariamente. Os meses se passaram Eliza aprende rápido, pois tinha pressa e jáestava bem pratica nas faxinas até que um dia de tanto perguntar ela descobre onde fica aVila Peri, bastava ela tomar duas conduções em ônibus coletivo para a vila Peri que sesituava próximo ao centro da capital de Belo Horizonte, ela não pensou duas vezes pegousua pequena economia e disse: É para La que eu vou, após um bom tempo, em fimcheguei à tal vila Peri agora seja como for eu hei de encontrar esta tal de dona Simone.A vila Peri por ser um bairro pequeno, logo pela tarde Elisa começa a procurar por donaSimone pergunta para um, pergunta para outro até chegar próximo ao portão daconfortável casa de Simone Elisa com paciência aguarda que Simone entre ou saia de casapara provocar um encontro casual e assim que ela avista e passa a ter certeza que eraSimone Elisa segue seus passos por dois dias, igual a uma leoa seguindo sua presa. Comsua mente agora aguçada e com calma ela bola um plano para aproximar-se de suaantagonista sem levantar suspeitas.Elisa estava bem diferente do que era em sua humilde casa em Riacho Grande, Elacomprou algumas roupas modestas porem bem moderninhas que sua atual colega detrabalho lhe indicou, aprendeu a se maquiar arrumar melhor seu cabelo em fimdificilmente alguém poderia dizer que Elisa era aquela menina do interior a mesma mãede Carlinhos.Elisa abordando a Simone na rua próximo a sua casa lhe diz com naturalidade fingindocerta alegria:_ Olá, dona Simone. Como vai a senhora?_ Quem é você? Pergunta ela desconfiada. 10 9
  • 110. _ Nossa! A senhora não se lembra mais de mim? Responde Elisa blefando. Eu já fizfaxina na sua casa há algum tempo atrás._ É mesmo? Não me recordo, mas também já passou tantas faxineiras pela minha casa evocê é tão nova! Sua fisionomia não me é estranha._ É, mas eu tenho que trabalhar prá poder cuidar da minha mãe que é muito doente. Asenhora está precisando de uma faxineira? Eu trabalho por dia, cobro barato, trabalho pormetade do que as outras faxineiras cobram, e faço tudo muito bem feito aprendi trabalharcom a minha mãe e prá mim o que eu cobro está bom. A senhora só paga a mais se quiser,ou melhor, se gostar da faxina..._ É barato mesmo, mas você faz faxina direito mesmo? Não sei, não..._ Faço sim! A senhora ira gostar. Eu deixo tudo brilhando!_ Bem, foi bom eu encontrar você, porque eu estou pensando em dispensar a que esta emcasa ela é muito careira e já esta relaxando o serviço, mas é tão barato, será que você fazfaxina direito mesmo? Acho que vou precisar de você duas vezes por semana. Quero verse você é boa mesmo na faxina. Olha que eu sou exigente, hein? Não suporto serviço malfeito. No começo todas capricham, mas depois..._ A senhora não se lembra mesmo de mim? Elisa pergunta mais uma vez para ter certeza.Sua vontade era de gritar que queria seu filho de volta, mas sabia que desse jeito nãoconseguiria nada, pois não tinha como provar coisa alguma e estava cozinha no mundo.Teria de ter paciência e aguardar o momento certo de agir.É lógico que precisava dar um jeito e descobrir o paradeiro de Carlinhos. Mas como? Seráque ele ainda estaria em Belo Horizonte? E se nem estivesse mais no país? Estaria bem? 11 0
  • 111. Eram tantas as suas dúvidas que sua cabeça até rodava. Elisa nem ouviu direito quandodona Simone respondeu:_ Eu realmente não me lembro de você. A Neide, cozinheira lá de casa vive trazendogente nova para fazer faxina. Mas como sou exigente e não suporto serviço mal feito, logoela tem que arrumar outra. Engraçado... De qualquer modo, seu rosto me parece familiar.Você disse que já trabalhou em minha casa? Ah sei lá. Eu costumo lidar com tanta gentedurante o dia que a minha cabeça fica até confusa._ A senhora mora no mesmo lugar, não é?_ Não, eu mudei. Estou no mesmo bairro, mas numa casa bem maior. Tem até piscina,quadra e salão de jogos. Dá muito trabalho cuidar de tudo. Ainda mais que ninguém quertrabalhar direito. Aqui está o meu endereço, você pode ir amanhã e depois de amanhã. Sóquero ver, hein? Não vá me decepcionar! Inspecionarei pessoalmente o seu serviço._ Claro que não vou decepcionar! A senhora não vai se arrepender.Pronto, o primeiro passo fora dado. Elisa mal acreditava. Teve muito medo de que aquelamulher viesse a lembrar-se de onde a conhecera. Aí sim tudo estaria perdido, mas graças aDeus ela não se lembrara de nada. A sorte estava ao seu lado mais uma vez. Agora era sóter paciência e muita cautela para descobrir as informações que precisava sobre oparadeiro de seu filho, mas uma vez dentro da casa tudo seria mais fácil, era só umaquestão de tempo. Ela iria procurar fazer a melhor faxina que aquela dona já viu em todasua vida, pois assim iria garantir a estada por lá. Deixaria tudo brilhando e todo o seuesforço valeria a pena, pois iria levá-la ao encontro de seu filho adorado e a alegria, a 11 1
  • 112. imensa felicidade de revê-lo valia qualquer sacrifício. Valia mais do que o mais valiosodos tesouros deste mundo e essa era a única certeza que Elisa tinha no momento.Parte 4 Capítulo IMal o dia amanhecera e Elisa apresentava-se na casa de dona Simone para um árduo diade trabalho com toda a disposição necessária para o serviço pesado. Ela mal podia esperarpara começar as suas investigações e assim com a ajuda de Deus, descobrir o paradeiro deseu filhinho amado.Por coincidência, dona Simone estava saindo naquele instante e ficou surpresa, porém,satisfeita ao vê-la ali tão cedo. Em sua opinião quem queria trabalhar tinha mesmo quemadrugar. Ela própria costumava ir cedo para o trabalho e naquele dia especialmente teveque sair mais cedo ainda, pois havia muitas questões pendentes para serem resolvidasainda na parte da manhã. Na pressa quase esbarra em Elisa que a cumprimenta todasorridente fingindo uma alegria que estava longe de sentir e que só voltaria a senti-laquando recuperasse o seu bem maior.Mal podia esperar por esse dia..._Bom dia dona Simone! Está um lindo dia, a senhora não acha? Eu vim fazer a faxinaconforme o combinado e não vejo a hora de começar. Diz Elisa tentando ganhar asimpatia daquela mulher. Dona Simone que nem havia reparado se o dia estava bonito ou 11 2
  • 113. não, responde com o mau-humor que lhe era peculiar, ainda mais àquela hora da manhã,pois, sempre acordava mal-humorada e de mal com a vida._ Salete que já trabalha comigo há muitos anos vai lhe indicar todo o serviço, menina. Emcaso de dúvida e só falar com ela e lembre-se: se não trabalhar direito vai direto para oolho da rua e não terá outra chance. Nunca mais, pois eu não costumo ser condescendente,estamos entendidas? Elisa lhe intrigava pois Simone sabia que a conhecia, mas não comofaxineira era de outro lugar, mas de onde?_ Está bem, sim senhora, eu prometo que farei o melhor que puder a senhora vera e nãose arrependera.. Como eu disse, eu tenho mãe doente prá cuidar e careço muito desteemprego. Pode acreditar!Simone simplesmente virou as costas e saiu. Imagina se ia ficar de prosa com aquelapobre coitada, morta de fome. Não costumava dar trela para aquele tipo de gente sem eirae nem beira que só servia mesmo para fazer faxina e ser explorada em todos os sentidos,na sua maneira de pensar. Costumava tratar os serviçais com aversão.Salete, sempre muito atenta, levou Elisa para tomar o café da manhã e indicou-lhe todo oserviço a ser feito, que não era pouco, diga-se de passagem.E também lhe mostrou onde era guardado todo o material de limpeza de que elanecessitaria para executar suas tarefas. A casa era enorme e havia muito que fazer. Elisatrabalhou arduamente aquela manhã, dando o melhor de si para que não viesse a terproblemas com aquela mulher que ela sabia muito bem do que era capaz. Ah, comosabia... Só ela sabia o que estava sofrendo desde que ela lhe roubara seu filho, Carlinhos.Nunca mais tivera paz. O único acontecimento que ainda fazia sentido e lhe dava força e 11 3
  • 114. vontade de viver era a esperança de um dia reencontrá-lo. Era o alento de seus dias, o querealmente cultivava seu coração batendo forte na cadência da saudade e da esperança pordias melhores.Certa vez Elisa tivera uma aspiração muito estranho, porém, tão nítido que parecia ser reale agora ela recordava-se:Em seu devaneio ou revelação ela Sonhou que estava em um castelo dos temposmedievais. Ela era a dona e senhora absoluta daquele castelo casada com o senhordaquelas terras cuja extensão as vistas não podiam alcançar. Eram pessoas justas e eramrespeitados por toda aquela gente.Ela era uma mulher muito gentil, extrema em sua beleza de fato. Com sua pele clara,lindos olhos azuis e fartos cabelos loiros ondulados e sedosos que caiam nos ombroscomo uma cascata de luz. Havia uma beleza madura, contudo sua alma era adolescente àsvezes. Seu coração embora não encontrara o verdadeiro amor.Casara-se por conveniência das famílias, como era costume na época... Consórciosarranjados com o único escopo de expandir os predicados dos senhores feudais.Seu marido era uma pessoa educada e compreensiva, mas, possessivo e continha muitociúme de sua bela esposa. Não tiveram filhos, pois não conseguiam conceber. Tentaraminsistentemente a princípio, até que acabaram perdendo as esperanças. Seu esposo, JosephPhilip, apesar da frustração de não poder dar continuidade ao seu nome sentia-se atémuito conformado, pois no seu íntimo não desejava dividir a atenção e cuidados da lindaesposa que se chamava Annie Elizabeth e era comparada por ele a mais bela rosadaqueles imensos e bem cuidados jardins. 11 4
  • 115. Certa vez na primavera vieram visitá-los um casal de amigos: Paul Davis e Alice Smithcom seu único filho Matthew que completaria 21 anos em breve.Eles pretendiam permanecer por alguns dias, mas por insistência dos anfitriões com istoidearam a ficarem mais tempo que o planejado. Aproveitaram a estada para tratar denegócios e também para descansar. O ambiente sempre festivo. Joseph e Annie Elizabethadoravam ter hóspedes e os tratavam como se fossem verdadeiros reis. Ofereciam-lhes dobom e do melhor. Ainda mais que Joseph possuía vários negócios com Paul e devia-lhemuitos favores.Matthew demonstrava ser um rapaz inteligente e capaz e que muito orgulhava os pais porsua dedicação aos estudos sempre extraia as melhores notas, mas era excessivamentetímido especialmente com as mulheres. Interessava-se mais pelos livros, pois achava asgarotas de sua idade fúteis o que só contribuía para que ele se afastasse delas cada vezmais. Algumas quase se atiravam aos seus pés, pois ele era um dos melhores partidos daregião, mas era difícil conquistar-lhe o seu exigente coração. O rapaz não se deixava levarpelas aparências. Ele ignorava a todas. Inclusive Mary Eliz que era sua prometida desde ainfância por quem seus pais tinham muito gosto que se casassem, assim que ele concluísseos estudos, ela era uma jovem muito bonita, porém igual a todas as outras. Ele nãoexperimentava nada por ela além de amizade e procurava evitar sua companhia semprecom a mesma desculpa de que tinha que dedicar-se aos estudos. 11 5
  • 116. Ao chegar ao castelo dos Monfort, Matthew sentira uma emoção forte ao reencontrarAnnie Elizabeth. Quando a vira pela ultima vez ele ainda era um menino com cerca dequatorze anos de idade. Ela era deslumbrante e lhe trazia um saudosismo inesplicavel.Além disso, era inteligente, espirituosa e com um senso de humor maravilhoso. Ele estavaencantado com o carisma daquela bela senhora, muito mais do que isso se apaixonara emorria de medo de que ela ou alguém suspeitasse. Porém não lhe passava despercebido olampejo de emoção no olhar daquela esplêndida dama quando seus olhos se cruzavam, àsvezes por uma fração de segundos tornando-os de um azul incrivelmente brilhante. Ela erainfinitamente interessante do que todas as garotas que ele conhecia e seu coração desferiano peito ao vê-la. A diferença de idade entre eles era grande, cerca de vinte anos, mas paraele isso pouco importava. Ela tinha idade para ser sua mãe, mas ele não a via assim. Eledesejava-a como mulher... Chegou a pensar que estava ficando louco, pois como aquilofora advir com ele, justo com ele que era um rapaz tão ajuizado? Ela era esposa do melhoramigo e sócio de seu pai, mas ele não podia evitar os seus sentimentos, pois eram maisfortes do que ele.Matthew lutava contra tais sentimentos, mas não conseguia e a convivênciainevitável só fazia aumentar o que sentia por aquela linda mulher. Ah, se pudesse, elese arremessava aos seus pés, revelando tudo que lhe ia ao coração.Por sua vez Annie Elizabeth assim que viu aquele rapaz alto e esbelto um pouco sisudoaté, com uma aparência desprotegida e um encantador sorriso tímido que a atraia muito.Era calado demais para um rapaz de sua idade; sentiu um arrepio percorrer-lhe todo ocorpo. Como se uma descarga elétrica a invadisse até mesmo fazendo com que ela, 11 6
  • 117. sempre tão extrovertida perdesse a fala por alguns instantes. Não conseguiu entender oque lhe aconteceu, só sabia que sentira uma emoção muito forte, que nunca havia sentidoantes, quando seu olhar cruzou com aqueles olhos escuros da cor do ébano, quedemonstravam, apesar da timidez, um forte caráter e uma personalidade marcante.Aquele olhar a atravessara numa fração de segundos e era como se ela tivesse esperado asua vida toda para contemplar a beleza, a força e ao mesmo tempo a pureza daquela almaque se refletia claramente nos olhos daquele jovem; quase um menino, que tinha idade deser seu filho, mas não era. Era um homem, o homem da sua vida. Que por essas razõesque a própria razão desconhece materializava-se ali bem na sua frente quando ela menospodia esperar. Assim, sem avisar, sem que ela tivesse tempo de preparar-seemocionalmente. Pegara-a totalmente desprevenida... Ela só sabia que queria estar pertodele o tempo todo e ela se censurava por assim dizer. Mas sentir a sua presença já erauma alegria, um júbilo; fazia seu coração flutuar como uma pluma. E a convivência diáriasó cometia que aquele louco amor aumentasse mais e mais. Era deliciosamente perigoso,mas desonesto, porem inevitável...Num passeio certa vez, suas mãos se tocaram sem querer e o calor que sentiram pareceuaquecer a alma de ambos e olhos nos olhos tiveram então certeza de que aquelesentimento não era uma simples atração, havia sim uma cumplicidade, e também algoinfinitamente maior que lhes despontava da alma e mesmo evitando aquele pacto proibidoalgo que não se explica já os dominava por completo. O verdadeiro amor e o reencontrode almas e que a sociedade ou o ser humano ainda não o compreende o que vem da almaque traz o histórico de vidas passadas para o subconsciente do individuo. 11 7
  • 118. Estava cada vez mais difícil disfarçar de ambas as partes. As conversas passaram a serfreqüentes e empolgantes, fazendo com que desejassem ardentemente aqueles momentosa sós; longe de olhares curiosos e então eles podiam intercambiar em opiniões e conceitos,rir espontaneamente sem se preocupar se alguém iria perceber a afinidade, o carinho e aatração que sentiam um pelo outro.Matthew parecia beber cada palavra sua, pois, além de Anie Elizabhet ensinar-lhe muitascoisas sobre a vida também havia um clima de júbilo, e o som do seu riso parecia-lhe umamúsica suave que lhes alegravam naqueles momentos as duas almas enternecidas efalavam as vezes de algo que ambos não sabiam explicar, provavelmente a nostalgia seriaprocedente de vidas passada. Quanto a Annie Elizabeth, a ingenuidade e a pureza do rapaza encantava. Como ele era bucólico! Porem autentica, em seus poucos comentários oufalas e pela lógica também seria em seus sentimentos! Será?Era quase um lindo anjo! Cujo sorriso deixava-a, embevecida, e ela enrubescia cada vezque ele deixava de sorrir e olhava-a enigmático, o que fazia com que ela desejasse sentir ocalor daquele corpo sobre o seu. Podia imaginar o gosto de seus beijos e a maciez de seuslábios. Mas o que mais a encantava era a delicadeza de seus sentimentos que mesmo queMatthew não demonstrasse lhe era aparente só lhe faltando a confissão de seussentimentos. Ele era tão transparente que ela quase conseguia adivinhar-lhe os seuspensamentos.Sempre tão educado e inteligente com uma sensualidade e sensibilidade surpreendentepara um rapaz tão jovem, e ao mesmo tempo era másculo sem ser arrogante. Ela estava no 11 8
  • 119. auge da felicidade ao sentir que era correspondida. Mas aproximava-se o dia em queMatthew e sua família teriam de partir para o expatrio dos apaixonados.Foi quando o jovem sofreu um providencial, quase abençoado, acidente num passeio acavalo no bosque que circundava o castelo. Seu pé esquerdo prendera-se no estriboquando ele apeava e houve então uma fratura impedindo que fosse embora com seus pais,que não podiam mais adiar a viagem de retorno por causa dos negócios pendentes. Paulnão se preocupava em deixar o filho, pois, sabia que ele estaria em muito boas mãos eseria otimamente cuidado. Já Alice, mãe zelosa e extremamente possessiva e dominadoranão se conformava em ter que deixar seu único filho para trás. Só não ficou para cuidardele porque não podia deixar seu esposo voltar sozinho para casa.Depois do acidente naquela fria e chuvosa manhã de outono, Annie Elizabeth redobrava-se em cuidados e mimos. Aproveitando-se para ficar mais assiduamente em companhia deMatthew que necessitava de cuidados especiais, mas mais ainda da presença da mulheramada que era para ele uma deusa, seu anjo bom; A mais encantadora que lhe inspirava adescrever em seus devaneios transformando-os em lindos poemas as vezes longos outrasvezes bucólicos que ele lhe entregava e ela os lia quase em estase e depois os escondianum refúgio secreto que só ela tinha acesso.O tempo foi passando. A convivência entre os dois, só fez aumentar aquele amor. Um jánão podia viver sem o outro... Mesmo sem terem nenhum contato físico; não por falta deoportunidade, mas pelo enorme respeito que tinham um pelo outro. Annie Elizabeth,como mulher experiente que era, sabia que se houvesse uma intimidade de fato entre eles, 11 9
  • 120. se viessem a tornarem-se amantes então tudo seria mais difícil, pois, sabiam ser este umamor impossível e irrelevante por ser ela comprometida em seu consorte. Mas aqueleamor que brotara no coração de ambos? E que nunca, jamais poderia realizar-se. Eraincrivelmente impressionante como o destino pode às vezes ser atroz, pensava ela.Era como desejar ardentemente algo que nunca se poderá ter. Annie Elizabeth amava-otanto que com um esforço quase sobre-humano continha-se para não cair em seus braços eentregar-se com paixão àquele louco amor. Com enorme sacrifício ela continuavaentregando-se a seu marido, por pura obrigação de esposa. Este, nem de longedesconfiava o que se passava em seu coração, pois ela tomava todos os cuidados possíveispara que ele jamais suspeitasse; Caso isso acontecesse ele nunca a perdoaria e mandariatrucidar a ambos.Joseph atribuía as atenções e cuidados de sua mulher com o jovem Matthew ao fato de elanão ter tido um filho a quem pudesse dedicar toda a sua afeição e devoção. Julgava serapenas um amor quase que maternal, que ela usava para extravasar a sua frustração de nãoter tido filhos até o momento. Sim, até então; pois quando menos podia esperar ouimaginar Annie Elizabeth engravidou de seu marido e a principio atribuiu a falta de suasregras à situação extremamente estressante em que vivia, tendo que dissimular o tempotodo o seu sentimento, quando a sua única e verdadeira vontade era de gritar aos quatroventos o quanto amava Matthew. 12 0
  • 121. Tudo o que gostaria era de desvencilhar-se daquele infeliz casamento onde ela apenasfingia uma felicidade que estava longe de sentir. Agora que encontrara o grande amorcom que sempre sonhou não podia vivê-lo na sua integra e ainda por cima aquele filhooutrora tão desejado agora mais parecia uma maldição, um castigo, prendendo-a mais doque nunca àquele casamento infeliz, àquele homem que era seu esposo a quem ela semprerespeitara, mas que nunca amara com toda a força do seu coração como amava o seumeigo e concupiscente Matthew, com seus olhos penetrantes, seus cabelos castanhos aemoldurar-lhe a face e seu sorriso perfeito, enigmático que ela mais do que ninguém nessemundo sabia provocar e tirá-lo da seriedade que o acompanhava sempre, e que também otornava especialmente irresistível. Na realidade o que ocorrera com Elisa é que ela pormeio deste sonho saudoso recordava-se de sua vida retrograda, por issoTudo lhe parecia tão real. Mais tarde, tais recordações fariam sentido em sua atualexistência 12 1
  • 122. PARTE 04 CAPITULO 02.Voltando a Elisa: Ela passara aquela manhã trabalhando sem parar e lembrando-sedaquele sonho excêntrico que não fazia o menor sentido ao seu entendimento e ao mesmotempo lhe era tão real. Aquelas paisagens, aquelas pessoas lhe parecia tão familiares queela não sabia explicar o porquê de tudo aquilo. Só sabia que se perfilhava perfeitamentecomo sendo Annie Elizabeth; Tinha a fé que ela e aquela linda mulher eram a mesmapessoa, mas como? Não podia ser? Eu sou uma ignorante com pouquíssimo estudo e nãotenho nenhum provento, isto é coisa de minha cabeça. Mas Elisa Sentia o sofrimentodaquela belíssima dama como sendo seu próprio.E sentia também que Matthew, aquele belo jovem era ao mesmo tempo alguém que elaainda viria a conhecer. Alguém que cruzaria o seu caminho e mudaria o seu destino, quemsabe o seu príncipe encantado: Será?! Como eu sou boba acho que estou é ficando louca.Reconhecia ou associava Joseph como sendo seu marido Zé, que agora era o maiorresponsável por todo o seu sofrimento. Mas por quê?_mas porque quando eu me lembrodaquele homem que estava no meu sonho eu logo me lembro do Zé.Afinal qual seria o sentido de tudo aquilo? ... Tinha ela a nítida sensação de que voltaria asonhar com aquelas pessoas e então saberia o desfecho de tudo e compreenderia a suaatual situação, desvendando o enigma de sua vida; enfim, por que estava passando portudo o que já havia passado e ainda haveria de passar. Às vezes na hora de dormir, elafechava os olhos e esforçava-se para ter aquele sonho novamente, mas na manhã seguinte, 12 2
  • 123. lhe vinha a frustração, pois não se lembrava de absolutamente nada e sabia que não haviasonhado nada daquilo. Sentia em seu íntimo que quando menos esperasse, isso iria ocorrere então ela desvendaria aquele mistério e quem sabe, tudo então lhe faria sentido... Asocorrências ficariam mais claras, e tornariam de fato e ela com certeza passaria a entendermelhor.O que Elisa não sabia era que na realidade, o que a chamava de sonho, nada mais era doque uma projeção astral. Enquanto dormia, fora levada, ou melhor, o seu espírito foraabduzido por seu mentor espiritual até uma sala de projeção, que se assemelhava a umcinema só que muito mais aperfeiçoado, com uma tela do mais puro cristal onde elaobservava partes importantes de sua vida passada, com outro corpo, outro nome, ou seja;como Anie Elisabhet num lugar distante, na Inglaterra do século passado, mas na suaessência era ela, Elisa, a pobre jovem que nesta vida atual procurava desesperadamentepor seu filho desaparecido.Como as emoções a que ela estava submetendo-se durante esta projeção astral eram muitofortes, seu mentor achou melhor continuarem numa próxima sessão para que ela nãopermanecesse por demais, abalada e assim pudesse tirar o melhor proveito de todo aqueleaprendizado para que lhe servisse de alento e conforto nos momentos mais difíceis.Claro que ela não se lembraria de tudo nos mínimos detalhes, o que seria impossível porqualquer ser humano normal, pois o pouco que nós simples mortais sabemos daespiritualidade com nossos ceticismos; Mas as sensações e emoções principais ficariamimpressas no seu subconsciente, o que era de grande valia no caso e então com apermissão de nosso Pai Maior ela iria recordar aos poucos os acontecimentos que tiveram 12 3
  • 124. graves conseqüências na sua vida atual. Afinal tudo que estava passando também serviriapara que seu espírito estivesse a caminho da perfeição. Iria começar a entender e aceitarcertos fatos, sempre querendo mudar para melhor a cada dia, para num futuro não muitodistante alcançar a verdadeira felicidade com bases sólidas para que nunca mais ela sedesmoronasse como castelos de areia, que ao menor sopro desmancham-se e ficamreduzidos a milhares de grãos que até o mais fraco vento poderá carregar, deixando umvazio imenso que só o tempo poderá preencher...Parte 5 Capítulo INa hora do almoço Elisa tentou puxar assunto com Salete, governanta de dona Simone.Mas ela era de pouca conversa. Mal respondia as suas perguntas e em um determinadomomento disse asperamente:_ Olha aqui, menina, eu mal lhe conheço, mas vejo que você trabalha muito bem. Seuserviço é caprichado e é isso que me interessa, pois, hoje em dia está cada vez mais difícilencontrar pessoas que trabalhem bem. Mas vou lhe dar um conselho de amiga, se quisercontinuar aqui. Ouça bem, preste muita atenção no que vou lhe dizer: Não fiquebisbilhotando a vida da patroa, fazendo perguntas sobre coisas que não lhe dizem respeitoe que não são da sua conta, estamos entendidas? Não queira bancar a enxerida porque, senão você pode se der mal, muito mal... Seja surda, cega e muda se quiser realmente o 12 4
  • 125. emprego. E olha que não está fácil de arrumar. Você até teve muita sorte e não vai quererdesperdiçar esta chance, não é mesmo?Elisa concordou e não perguntou mais nada, pois, viu que não teria Salete como aliadamesmo e porque poderia ser demitida caso insistisse.Porém ela pode perceber, pois não era mais a menina totalmente ingênua do interior jáhavia ganhado alguma experiência durante suas aventuras. Salete sabia de muita coisa,mas jamais diria algo que pudesse comprometer dona Simone.Aliás, toda empregada doméstica sabe muito mais sobre a vida dos patrões do que elespodem supor e Salete não seria uma exceção, mas era mais fiel que um cão de guarda epor este motivo trabalhava lá há tantos anos, sendo de total confiança e com certeza,ganhando muitíssimo bem para ficar de bico fechado, não deixando vazar nenhumainformação que pudesse comprometer sua patroa.Elisa então sentiu que seria muito mais difícil do que ela imaginara, mas não lhe faltavamesperanças e ela tentaria descobrir alguma coisa, de qualquer jeito... Quem sabe,escutando uma conversa aqui outra ali... Se ao menos ela soubesse ler bem, pensava,facilitaria bastante. Porém, ela era quase analfabeta estudou apenas dois anos em umaescolinha paupérrima e, portanto, não tinha acesso à linguagem escrita corretamente e sóagora se dava conta da importância que isso tinha.Ela se conscientizou que o estudo abriria portas e janelas para o mundo, mas fazer o que?Lá na roça jamais tivera oportunidade de sequer chegar perto de uma boa escola, sempre 12 5
  • 126. tão distante, além do mais seu pai não a incentivou a estudar, nunca ele pensara emcolocá-la em uma escola decente. Mas pensava com seus botões:_ “Um dia eu vou estudar e serei alguém na vida. Vou sair desta ignorância como quemsai da escuridão para a luz... E aí sim, não vou precisar mais abaixar a cabeça prá ninguéme meu filho vai se orgulhar de mim...”Elisa esperava ser respeitada e tratada com dignidade como todo ser humano deve ser,sem distinção, pois, este é um direito de todos.Parte 5 Capítulo IIDepois de algum tempo Elisa percebeu que não conseguiria informação alguma naquelacasa que pudesse levá-la ao encontro de seu filho. Aos poucos foi perdendo as esperançasde conseguir descobrir o paradeiro de Carlinhos, que era o que ela mais desejava. Foientão que depois de muito pensar, decidiu tomar uma atitude:Resolveu dar parte de dona Simone na polícia; afinal de contas ela sabia pelo o intermédiode Carlão que Simone e o Zé seu ex-marido haviam roubado o seu filho e teriam de pagarpelo crime cometido e era pra estas horas que a justiça servia, eles iriam investigar e praeles não seria tão difícil... Elisa já não agüentava mais. Sentia no seu íntimo que não devia esperar. Era tudo ounada. Claro que seria a sua palavra contra a daquela dona, mas ela tinha que tentar. O quenão podia era continuar sem fazer nada, esperando que as coisas se resolvessem por sipróprias. Ela tinha que ter coragem para enfrentar a situação por mais difícil que fosse. 12 6
  • 127. Com fé e confiança ela dirigiu-se a delegacia mais próxima. Lá chegando um tantoassustada, porém decidida, anunciou:_ Bom dia, eu preciso falar com uma autoridade._ Pois não, eu sou o delegado. O que você quer menina?_ Bem, eu não sou daqui. Sou de Riacho Grande._ E daí? O que é que eu tenho com isso?_ Eu morava lá e meu ex-marido e mais uma senhora roubaram meu filho, e eu sei ondeela mora._ Isso é mesmo verdade? Surpreendeu-se ele. _ Você parece tão nova para ser mãe. E olha que esta é uma acusação muito séria,menina. Você tem certeza do que está afirmando? Eu não estou para brincadeiras, hein!_ Como é que eu ia inventar uma coisa dessas? Eu sei onde ela mora._ Então vamos lá, vamos tirar isso a limpo. Mas primeiro você terá que me contar essahistória nos mínimos detalhes, desde o principio, não poderá esquecer-se de nada hein?Pode começar falar, menina. Não esconda nada. Olha lá, hein?Elisa deu seu depoimento enquanto o escrivão anota a tudo. Pronto, a denúncia estavaformalizada. Nem ela mesma acreditava que tivera tanta coragem, por fim Elisa forneceuao delegado o endereço de dona Simone, e ficou aguardando na delegacia. Aquela esperalhe pareceu uma eternidade ela estava tremula...Após algum tempo:_ Investigador Vanderlei? O que você faz aqui, algum problema? Pergunta dona Simoneassustada com a visita inesperada. 12 7
  • 128. _ La na delegacia tem uma menina chamada Elisa dando queixa de você, te acusando derapto de criança. Eu vou ter que levá-la para depor. Sinto muito, mas é a minhaobrigação..._ Rapto de criança, eu? Responde ela tentando dissimular a raiva que estava sentindo efingindo total perplexidade._ Elisa? Ah, já sei. É a tal faxineira que trabalhou para mim e que depois do pagamentosumiu sem nem se quer dar satisfação, mas essa gente é assim mesmo, morde a mão queos alimenta. Filha da mãe, maldita! Está vendo, a gente põe quem não conhece dentro decasa, dá emprego, dá comida, um teto para morar e depois eles nos retribuem comacusações falsas, injúria e difamação. Bem que eu senti falta de um dinheiro e de algumasjóias, só não dei parte antes, pois, não queria acusá-la sem ter certeza e sem provas, énisso que dá a gente ser boa... Mente Simone tentando se safar da posição de vilã para ade vítima indefesa e inocente._ Sinto muito, mas a senhora terá que me acompanhar até a delegacia, para que possamosesclarecer tudo isso._ Pois não. Eu irei com o maior prazer, mesmo porque quero denunciar essa ladrazinhavira-lata, a qual eu acolhi querendo ajudá-la e da qual só recebi ingratidão... Além de terme roubado, ela agora está me acusando de crimes que eu jamais cometi. Como é quepode um negócio desses? Eu estou indignada com tudo isso eu não sei nem o que pensar...Para falar a verdade, estou chocada por demais. Por favor, dê-me alguns minutos, é só otempo de eu pegar minha bolsa. 12 8
  • 129. Já na delegacia, Elisa e dona Simone defrontou-se e começaram as acusações mútuas._ É essa mulher aí, doutor delegado. Foi ela, que roubou o meu filho lá em RiachoGrande, e eu vinha procurando essa bandida já tem dois anos e meio. Doutor, pelo amorde Deus, o senhor tem que acreditar em mim. Eu juro que estou falando a verdade.Dona Simone enfurecida retruca._ Pelo contrário, eu é que estou aqui atrás de você, sua menina ordinária. Eu quero devolta o que você pegou da minha casa, sua ladrazinha._ Eu nunca que peguei o que é dos outros; só quero o meu filho de volta, isso sim!_ Você está vendo, Vanderlei? A gente tenta ajudar as pessoas e o que acontece? Eu é quesou a vitima aqui, mas esta vagabunda..._ Vem cá comigo, Simone. Fica aqui, menina que eu já volto.Vanderlei ao sair da sala com Simone vai direto ao assunto:_ Vou lhe falar uma coisa: Nesta minha profissão de investigador agente pega certatarimba que agente acaba sabendo quem esta falando a verdade ou mentindo donaSimone. E por outro lado eu sei muito bem quem é a senhora e a menina eu nunca a vi.Sei de sua vida e do que você vive._ Eu sou funcionária pública, afirma Simone. _ Eu sei, mas você tem outro trabalho, uma atividade paralela, digamos..._ É verdade, eu tenho uma creche._ Cujo esta creche já lhe rendeu alguns processos. Ora essa Simone! A creche é sófachada e nós dois sabemos muito bem disso, minha cara! O que existe é um comércio de 12 9
  • 130. crianças, só que isto não é da minha conta. Você entende porque não veio nenhumadenuncia séria aqui na delegacia e eu posso não considerar o que esta menina esta falando._ Não entendi. Explique-se melhor, por favor._ Pois bem, eu posso abrir um inquérito contra você ou, sem que ninguém saiba, dar umjeito de deixar essa menina mofando atrás das grades por um tempo... Tudo vai dependerde você, minha cara._ E do que você precisa para a fazerela mofar?_ Bem ela é menor de idade, mas nós daremos um jeito. Hoje é o ultimo dia destedelegado aqui nesta delegacia ele foi transferido e pra bem longe daqui, então com istotudo fica mais fácil. Não é preciso ninguém saber. Você me empresta a sua corrente deouro, este anel e esta pulseira. Aí ela foge e eu dou-lhe um flagrante. E quanto à ficha dainfeliz, não se preocupe, ela terá dezoito anos então ela ficara presa nos conformes da lei.Vai passar um tempo atrás das grades depois eu a solto e dou-lhe um susto. _ Mas ela tem cara de menina. E aí?_ Acontece que ninguém vai olhar pra sua cara. Vão olhar sim, Só a sua ficha. Deixecomigo que eu sei fazer a coisa._ É... Você é esperto mesmo, Vanderlei. Mas diga-me. Quanto é que vai me custar tudoisso? Faça seu preço, mas não exagere, hein?_ Isso nós acertaremos depois. Não fica muito caro. Ou melhor, caro é, mas tenho certezade que você pode pagar... Afinal, quanto vale o seu sossego e tranqüilidade para continuaragindo ilegalmente? 13 0
  • 131. Elisa pressente que está sendo traída e por não saber se defender. Desesperada, levanta esai correndo da delegacia a vista de várias testemunhas. Mas é logo impedida e dominadapor Vanderlei. Ela acaba sendo presa como uma ladra que havia se disfarçado de faxineirapara roubar jóias e dinheiro da patroa. Nunca antes em sua vida havia passado tamanhovexame, sentindo-se mais uma vez profundamente injustiçada.Já atrás das grades ela ouve uma voz que dizia em tom de zombaria:_ Olha, pessoal! Temos uma nova hospede. E que bonitinha ela é, parece uma criança. Oque foi meu bem, você foi pego se prostituindo? Ou quem sabe brincando com bonecas?_ Eu não devo nada. Quem deve é aquela mulher! Elisa começa a chorar extravasandotoda a raiva reprimida._ Aqui nós não julgamos ninguém, neném. O que você fez ou deixou de fazer não éproblema nosso, sacou? Agora vê se deixa de manha que aqui ninguém tem saco. Saca só.Meu nome é ”Cabecinha”. Olha só o que a natureza fez comigo, me deixou defeituosa,quase dá pra passar minha cabeça pelas grades por ser pontiaguda e fina..._ Por isso ela é muito revoltada, complexada mesmo. Acrescenta outra presidiária comvoz e gestos bastante masculinizados. _ Quando entra uma nova presa ela gosta de fazer um teste com sua pequena, mas,possante cabecinha, se é que você me entende... Aliás, você é mesmo uma gracinha, hein?Qual é mesmo o seu nome? 13 1
  • 132. Parte 5 Capítulo IIIOs dias passam e Elisa atrás das grades, sem nada dever pensava consigo mesma emurmurava baixinho:_ Meu Deus, eu não fiz nada de ruim para passar por tudo isso..._ Pare com essa lamúria! Você está me enchendo o saco. Reclama Cabecinha, já perdendoa paciência._ Mostra como sua cabeça é forte, argumenta outra presidiária. Derruba a boneca aí comsua cabeça, assim ela nos deixa quietas._ Levanta, boneca! Você ira me conhecer melhor, Sou deformada, mas, tenho força osuficiente para te colocar em nocaute._ Não faça isso. Eu nem estou mexendo com você. Deixa-me em paz, por favor._ Ela está de frente pra você. Encostada nas grades, este é o momento, Cabecinha. Vá emfrente!Cabecinha enfurecida ataca Elisa golpeando-a com a cabeça, mas Elisa tinha um bomreflexo e quando ela tira o corpo para se defender Cabecinha atravessa a cabeça por entreas grades, deformando assim todo o seu rosto, acidentalmente. Elisa então cai sobre ocorpo de Cabecinha, virando-a em quarenta e cinco graus. Com o impacto, a presa quebrao pescoço e morre ali mesmo.As demais presas, tendo uma visão distorcida do ocorrido, elegem Elisa como a nova líderda cela, pensando ter sido proposital por parte de ela matar Cabecinha. Ali prevalecia à lei 13 2
  • 133. do mais forte. Quem podia mais, chorava menos. Quando o carcereiro chegou ao local,espantou-se e aos berros questionava:_ O que foi isso? Que coisa horrível! Como ela morreu? Como foi? Quem é a culpada?Por que vocês estão quietas? Quem fez isso?_ Foi suicídio, policial. Você sabe? Ela era muito revoltada e complexada._É verdade: A Cabecinha era a de tenta mais problemática e revoltada._ Se ela está falando, é porque é verdade. Quando a gente menos esperava, ela enfiou acabeça na grade completa outra.As presas respondiam ao policial com ironia e também com muita revolta. Aliás, a revoltaé o sentimento que impera nesses lugares onde a vibração é inferior, gerando ondas deenergias negativas proporcionando às mais diversas entidades tenebrosas um campo fértilpara que atuem sobre os encarnados incutindo-lhes por meio de uma sintonia existente osmais terríveis pensamentos e sentimentos, influenciando assim a todos, contaminandotodo o ambiente e tornando, o lugar propício a revoltas e aos mais diversos crimes.A maioria dos delitos cometidos ali era encobertos e ninguém ficava sabendo, pois, essaera a lei, a lei do silêncio em qualquer situação era o código de honra dos detentos.Algum tempo depois Elisa indignada, mas de certa forma aliviada pergunta às demaispresas:_ Por que vocês me defenderam? Não entendi?_ Porque não somos dedo-duro. Aqui cada um é cada um.Elisa percebeu que deveria entrar no jogo das demais de tentas então ela argumenta; Euestou aqui porque cometi alguns homicídios, sabe por quê? Porque eu não levo desaforo 13 3
  • 134. eu deixei a cabecinha pensar que eu era otária e então ela se deu mal comigo. Na verdadeElisa não tinha a menor intenção de matar Cabecinha. Tudo não passou de um acidente.Elisa estava muito chocada com tudo aquilo e agradecia a Deus por sua situação na prisãonão ter se agravado ainda mais. Mas confirmava para as demais presas que foi propositalcom isto ela passou a ser respeitada pelas demais. Sentia que apesar de tudo, Deus estavado seu lado, e isto era um bom sinal. Nem tudo estava perdido. Ela ainda podia teresperanças e literalmente ganhara o respeito de suas companheiras de infortúnio._A partirde agora a líder sou eu porque foi eu que acabei com a ex- líder de vocês disse Elisa. Comisso as demais daquela cela concordaram plenamente afinal para o bem de todas elasprecisavam de uma líder.UM MÊS DEPOIS...Num bar próximo a delegacia, Simone e Vanderlei conversavam tranqüilamente e entreum gole e outro dizia em tom de confidência:_ Simone, o que eu lhe cobrei foi uma quantia bem pequena, não acha?_ E você quer mais dinheiro é isso? Já não foi o bastante, meu caro?_ Não, não quero dinheiro. Vou lhe dizer o que quero: Quero você. Há muito tempo queeu espero por este dia. Já bebemos algumas, agora bem que nos dois poderíamoscomemorar em um lugar mais tranqüilo: Pra ser mais direto que tal na cama de umexcelente motel bem luxuoso como você merece, você não ira negar este prazer para estepolicial que esta sempre disposto a lhe ajudar, vai?. Só eu e você... Que tal uma noite depuro prazer? Noz já obteve o prazer etílico que tal agora o prazer da carne? 13 4
  • 135. _ E se meu homem souber, como é que fica?_ Ele não precisa saber de nada, não é mesmo? E eu sou bastante discreto, e pensandobem eu também não quero problemas com a minha concubina._ Eu sempre te achei um homem bem interessante, Vanderlei. Pra falar a verdade eutambém estou afim de você.Gosto de homens assim, fortes, decididos e com cara e jeito de cafajeste, assim comovocê. Vamos logo, pois, esta vai ser uma noite de loucuras. Vou lhe dar tanto prazer,como você jamais teve na sua vida... Quero ver se pode me retribuir e ira dar conta deapagar o meu fogo!_ Bem, estamos indo para o motel mais próximo. Eu mal posso esperar minha “me salina”preferida. Vou te fazer delirar em meus braços. Você nunca mais ira querer outro homemem sua cama. Mas antes, meu bem, eu vou liberar aquela miserável. Já faz trinta dias queela esta enjaulada e não queremos complicações, não é mesmo? Não posso manchar aminha reputação. Afinal. Eu tenho um nome a zelar, sou um homem da lei..._ Deixe aquela infeliz lá, mofando. Quero mais é que ela morra._ Não posso, ela é menor de idade, esqueceu? Isso pode me complicar e eu já abuseidemais da sorte e vai que alguém descobre a idade dela o que não é nada difícil, bastaolhar para a cara da vadiazinha pra saber que não tem idade pra estar encarcerada ali e simnuma instituição para menores e como você já sabe tive que comprar o silencio doscarcereiros durante todo este mês que a menina ficou presa. 13 5
  • 136. Prometo-lhe que será rápido afinal ela esta de tenta sem nenhum boletim de ocorrênciadei uma graninha para o escrivão rasgar o que aquele delegado que foi transferido mandouque ele fizesse por tanto ela esta La por minha conta, não tem nada que prove que La estapresa uma menor, mas eu tenho que tira-la senão chega um delegado daqueles certinhos eai quem se ferra sou eu, me aguarde, volto logo.O policial Vanderlei com muita tática consegue liberar Elisa e lhe diz:_ Some daqui, sua vadia, senão eu lhe prendo de novo. Não quero ver a sua cara tãocedo... Agora some antes que eu me arrependa. E não se atreva a abrir esse bico a quemquer que seja!Ele segue então para o motel mais próximo com Simone, onde os dois passam horas deaventura a seu bel prazer até não agüentarem mais, saciando toda aquela sede do maispuro desejo carnal, descobrindo uma afinidade em suas aberrações sexual muito grandeentre ambos ingerirem vários energéticos e drogas._Vanderlei, meu garanhão, você é demais, mas, são três horas da madrugada; esquecemosdas horas. Vamos embora já. Foi muito bom, mas temos que ir para nossas casas._ afirmaSimone querendo desvencilhar-se do novo amante, pelo ao menos por aquela noite.É claro que haveria outras noites como aquela, mas por ora ela estava satisfeita e agoraestava faminta, isso sim. Não via a hora de chegar a sua casa o mais rápido possível.Na saída do motel eles são abordados por dois sujeitos mal encarados._ Olá, que coincidência! Há quanto tempo, não é mesmo? Mas que bela fêmea você temaí! Está se dando bem, hein? 13 6
  • 137. _O que vocês querem?_Você não se lembra do que se passou conosco? Tomou nosso dinheiro, estuprou nossaparceira e ainda nos colocou em cana seu filho de uma p.... Como pode ver, nósconseguimos escapar daquela maldita cadeia e agora viemos acertar nossas contas comvocê.Vanderlei estava pálido e tentou argumentar:_Eu sou um policial e vocês podem se der mal, eu acho melhor agente conversar!..._ Nós já nos demos muito mal, portanto meu caro, o que vier é lucro. Agora você vai noslevar para passear. Vamos nos divertir um bocado. Não toque na arma, Vanderlei. Deixe-aaqui conosco. Pega a algema desse pilantra aí Tião e coloca nele, que eu vou dirigindo.E quanto a você, mulher vai ter um resto de noite digamos “agradável”. Tem dois machosaqui e mais dois nos esperando que irão desfrutar de uma noite aterrorisante. Não é dissoque a senhora gosta? Ah, se gosta!Vanderlei percebeu que eles não estavam brincando._ Não façam isso, pois, vocês podem se arrepender. Se for dinheiro que querem, nóstemos, mas, nos deixem em paz. Vamos negociar com calma. Àquelas alturas Simoneestava apavorada demais..._ Se eu lhes deixar em paz, você ira nos perseguir até o fim do mundo para nos matar, euconheço sua má índole, você é mais bandido do que noz. Não Vanderlei: Não é dinheiroque queremos, um policial da sua espécie não tem o menor escrúpulo. Você é tão podreque prendeu uma menina de menor e inocente pra salvar esta vagabunda dos crimescometidos por esta tal de Simone, pois ela compra criança, seqüestra faz qualquer coisa 13 7
  • 138. para depois vender para quem lhe der mais até para tirar órgãos para vender por umafortuna e tanto você como esta vagabunda sabe do final infeliz das crianças roubadas seuspilantras vocês são piores do que noz quatro.Vanderlei, além, de você ser corrupto ainda é sem palavra. Nem pra ser bandido vocêserve meu caro. Agora chegou sua hora. Pode começar a rezar se é que você sabe rezar._ Bem: Chegamos, agora você pode se despedir deste mundão, estão vendo aquele matologo ali? Pois bem La é o nosso reduto. Tirem as calças dele. O Luizão é bem dotado egosta muito de se relacionar com macho igual a você, que estupra até menina de dêsanos.Deixem a dona comigo. Eu vou me servir dela primeiro, pois sou o chefe, depois vocêsaproveitem o que sobrar, apesar de que eu acho que não vai sobrar muita coisa... E riu.Logo após, Paulão, que há muito planejava matar Vanderlei pergunta a seus comparsas:_ Conferiram pra ver se os dois estão realmente mortos?_ “Mortinhos da Silva, chefe._ Então vamos embora. Eles tinham uma boa grana e mais as jóias da madame dá pragente cair fora, vamos prá outro estado até a poeira baixar.Logo após andarem com o carro do finado Vanderlei por algum tempo. Olha só quemvem vindo do outro lado da pista, fica frio, já rodamos dez quilômetros e olhe ali vemvindo um carro da polícia, pega o revolver do finado Vanderlei. Deixa o berro no jeito._Que merda, não tem balas. O desgraçado tirou todas. Até depois de morto ele continuaferrando a gente. 13 8
  • 139. _ E as nossas armas?_ Também não tem munição, gastamos todas naqueles pilantras. E agora? Maldição!Estamos perdidos!Enquanto isso os policiais observavam bem e um deles averigua. _ Aquele carro parece com o do Vanderlei. Eu acho que tem alguma coisa errada comaqueles quatro elementos que passaram por nós._ Não custa nada voltarmos e averiguar.Quando os policiais voltam os bandidos aumentam a velocidade e começa então aperseguição até que os policiais pedem reforços e fecham o cerco, conseguindo enfim,prender os bandidos que na cadeia acabam confessando os delitos praticados por elesnaquela noite.Vanderlei pela sua conduta duvidosa possuía muitos inimigos e mais cedo ou mais tardealguns de seus inimigos iriam acabar vingando-se dele.Simone que estava com ele também encontrou o seu destino letífero. Ela também haviaespalhado muito sofrimento e era odiada por todos aqueles a quem ela havia prejudicado ede certa forma Simone colheu o que plantou, pois a vida é assim, colhemos amanhã o queplantamos hoje. Essa é a Lei Universal conhecida como causa e efeito e ninguém escapadela. Se hoje plantarmos bons frutos, amanhã iremos colher as bênçãos desses frutos.Agora, se plantarmos erva - daninha... Só conseguiremos colheremos ervas daninha. O Paié justo e Sua sabedoria é suprema e soberana. Ele nos doa a vida física e espiritual ejuntamente com nossas vidas o livre arbítrio, por tanto Deus não é o responsável do mal 13 9
  • 140. que nos atinge, somos nos mesmos os responsáveis, ele sempre nos dá o que de maisprecioso e que realmente necessitamos para a nossa evolução, que é a consciência do queé certo ou errado, mas somos nós que escolhemos por qual caminho que iremos seguir. Aescolha é sempre nossa. Sempre: Por mais que tentemos nos enganar ou mentir para nosmesmos.Deus imprimiu as leis no universo e se acatarmos com sabedoria, nos aproará no paieterno e seus auxiliares um porto seguro. Afinal o criador não castiga ninguém, somos nósque buscamos o sofrimento ou a felicidade com os nossos atos. E pela a sua generosidadeele nos permite a reencarnação para que possamos nos redimir e evoluir.Elisa após se livrar do cárcere:Enquanto isso Elisa continua sua peregrinação. Vai para uma cidade próxima à BeloHorizonte, considerada a cidade dormitório porque todo viajante com destino a BeloHorizonte que vinha da zona da mata ou da parte leste sempre se hospedavam naquelapequena cidade onde as maiorias das pessoas se tornavam conhecidos, é La que Elisacomeça a trabalhar como faxineira, ainda traumatizada pelos últimos acontecimentos,mas, com o objetivo de encontrar seu filho, ela mantém-se firme e forte. E logo que elachega à pequena cidade fica sabendo da morte de Simone e Vanderlei por um noticiáriotelevisado.E após uns dois anos, por capricho do destino Elisa fica sabendo que Zé, seu ex-marido,está morando em uma pequena pensão próxima daquela cidade dormitório onde elatrabalha e reside e também bem perto da capital mineira, onde ela propositalmentetambém arruma um “bico” como faxineira. 14 0
  • 141. Quando lhe surge a certeza de que Zé está mesmo naquela pensão, Elisa chama a polícia efaz uma acusação contra ele, mas como eles não eram casados legalmente e não haviatestemunhas, o delegado não registrou a queixa e ela teve de abandonar o caso.Zé vai à Belo Horizonte procurar o casal que comprou o seu filho na intenção de achacá-los. De posse do endereço que estava em um cartão de visita cujo Simone o tinha na bolsae caiu ao chão e Maguinaldo pegou e entregou ao Zé na ocasião em que ouve a transaçãoda adoção em Cachoeira.Mas como não os encontra, volta para a pensão. Ele queria mais dinheiro e pretendiachantageá-los, sempre querendo ganhar um dinheiro fácil já que trabalhar ele não querianem saber. Todo o dinheiro que conseguia ganhar em seus rolos, acabava gastando commulherada e cachaça e nunca era o bastante...1. Parte 6 Capítulo IEm Belo Horizonte onde está situado o casal Ricardo e Dolores muito preocupados. Atéentão, eles viviam tranqüilamente e muito felizes com seu filhinho adotivo, Ramon(Carlinhos) que era um menino saudável e alegre e fazia a felicidade daquele lar e muitoorgulhava seus pais com sua vivacidade e até com suas estripulias. Sempre coradocorrendo para lá e para cá, nem de longe lembrava aquele bebê desnutrido da época de suaadoção. Agora ele esbanjava saúde. Doutor Ricardo com um semblante preocupadopergunta à sua esposa Dolores: 14 1
  • 142. _ Dodô, eu soube que aquele sujeito que arrumou a criança para nós adotarmos está nosprocurando. Provavelmente para nos chantagear eu acho que ele é o pai sanguíneo deRamon, mas, eu te prometo que ele não irá nos encontrar. Com certeza quer nos tirardinheiro e a nossa tranqüilidade._ Ele não nos deixara em paz!... _ Responde Dolores já nervosa ao sentir sua felicidadeameaçada. _ Pelo amor de Deus, Ricardo, não permita que nada atrapalhe a nossafelicidade... Logo agora que estamos tão felizes! Este sujeito tocou a campainha ontempela manhã querendo falar comum de nos dois, por sorte eu o avistei pela a janela epercebi pelo sotaque que se tratava de alguém de Riacho Grande então eu associei quepoderia ser o pai sanguíneo de Ramon, aquele mesmo homem que avistamos de longe emCachoeira entregando o bebe para Simone. Por isso mandei que a nossa empregadadissesse ao tal homem que realmente a muito tempo atrás, aqui morava um casal pornome de Ricardo e Dolores, mas que os mesmos havia mudado para o exterior._ Acalma-se! Retruca Ricardo: _ Você se lembra que eu recebi um convite para montaruma clínica em São Paulo, com o doutor Mário?_ Me lembro, é claro, por quê? Onde você está querendo chegar? Estou tão nervosa quenem consigo raciocinar direito._ Pois é: Dolores, que tal se a gente fosse tentar viver em São Paulo. Seria ótimo para oRamon. Lá tem excelentes escolas e ele poderia ter uma educação de primeira categoria ecomo é um menino muito inteligente não teria problema algum de adaptação. Pelocontrário, ele iria desenvolver-se ainda mais. 14 2
  • 143. _ É uma excelente idéia, e acima de tudo esse sujeito iria nos deixar em paz. Creio que elenão teria como nos encontrar numa cidade como São Paulo._ Mas também, não há como ele nos incomodar, afinal ele nem chegou a ver nossosrostos. Só nós o vimos quando ele entregou a criança para Simone. Eu guardei bem afisionomia dele. E o nosso “contato” foi o tal Maguinaldo e ele nem tem uma pista nossa,creio eu._ Mesmo assim, acho uma boa idéia irmos para São Paulo, pois, com esse tipo de gentenunca se sabe... _ finalizou Ricardo tentando afastar as preocupações para não deixar suaesposa ainda mais aflita.Começaram então a planejarem a mudança que seria o mais breve possível. Fariam tudopara preservar a paz e a harmonia em seu lar e principalmente para preservar a felicidadede Ramon.Na pensão, bêbado como sempre Zé não se conformava com o fato de não encontrar ocasal em Belo Horizonte por eles terem se mudado para o exterior e também de Elisaainda estar viva.Trancado em um pequeno quarto da pensão começa a falar sozinho... Entre um gole eoutro e também fumava sem parar._ “Essa mulher parece coisa do outro mundo. Cruz credo! Elisa deve de ter parte com otinhoso!... Escapou daquele incêndio sem um arranhão e olha que eu botei bastantegasolina, encharquei o casebre e risquei o fósforo pelo buraco da parede e não é que a 14 3
  • 144. maldita saiu ilesa? Nem uma queimadura pelo corpo ela tem... Alguém deve ter aparecidoe ter tirado a infeliz de lá, senão ela teria virado churrasco.A,a,a,h,h,h! Já sei... Foi o filho duma égua do Carlão. Só pode ser! Só ele sabia do meuplano, quer dizer, saber ele não sabia, mas, deve ter me visto comprar a gasolina e aí entãoele suspeitou de alguma coisa e me seguiu até aquele maldito casebre e eu nem me deiconta... Devia ter tomado mais cuidado! Ah, mas eu pego aquele imbecil que estragoumeus planos, acabo com a raça dele. Ele que não se atreva a cruzar o meu caminho! _esbravejava Zé, entornando mais um gole, inconformado com a aparição de Elisa.Inclusive, quando ele a viu pela primeira vez levou um enorme susto, pois julgou estarvendo um fantasma e achou até que ela havia voltado do mundo dos mortos para buscá-lo,sedenta de vingança. Zé por muito pouco não morreu de susto... 14 4
  • 145. Parte 6 Capitulo II.Zé não sabia e nem poderia imaginar que as paredes têm ouvidos, literalmente. No quartoao lado, com a utilização de um copo para melhorar a acústica, um rapazinho de olhos ecabelos escuros e um sorriso encantador que a todos cativava com sua esperteza evivacidade ouvia absolutamente tudo, pois a divisória era de compensado muito fino comum Pequeno buraco quase invisível o menino sem perder nem um detalhe escuta aslamurias do Zé.Era Carijó. Um menino órfão que passou a maior parte de sua infância em um orfanato eaos onze anos de idade fora adotado pela senhora Nena a dona da pensão, que ficouencantada quando ele sorriu para ela mostrando suas covinhas.Carijó, é totalmente obcecado por investigação. Tem por objetivo tornar-se um grandepolicial e já se sente capacitado para tal função.Ele escuta Zé falando com as paredes e praticamente confessando um crime, então nãoperde mais tempo; vai correndo a delegacia daquela cidade.O delegado ao vê-lo já vai lhe perguntando, pois não tinha tempo a perder, havia muitotrabalho a fazer.Até que gostava muito de conversar com o rapazinho. Sua inteligência e simpatiacativavam-no de tal modo que o delegado não resistia a uma prosa com o jovem. Eraimpressionante sua mente aguçada e uma rapidez de raciocínio que a todos o fascinavam e 14 5
  • 146. além de tudo era muito prestativo e amável para com todos, crianças e idososprincipalmente._Carijó, o que você quer? Vou logo avisando, hoje eu não posso ficar de papo com você,pois há muito serviço a fazer. Tome umas balas e vá embora. Desculpe-me, mas hoje nãodá. Volte outro dia, está bem? Quem sabe amanhã mesmo eu já estarei mais folgado? Issomesmo volte amanhã neste mesmo horário, combinado?Carijó não arreda o pé. Continua ali encarando o delegado com aquele seu olharenigmático, como os olhos de uma águia; Vivos, profundos e que transmitiam umasegurança e toda a força de caráter daquele jovem rapaz. Assim parado parecia umaesfinge. Não movia um músculo e nem sequer piscava.Pronto... O delegado sabia que não adiantaria implorar para deixá-lo trabalhar. Ele nãoiria embora enquanto não dissesse a que veio. Decidiu então encarar aquele olhar e tentardecifrá-lo. Seu olhar parecia que o hipnotizava._ Já sei, você quer ser policial, não é? Então vou lhe dar um conselho meu rapaz: Estudebastante para você se tornar um bom policial. O melhor de todos de preferência... Hoje emdia, o que falta são bons policiais. Com bom faro e honestos._ Mas eu sou um policial. _ frisou bem Carijó sem pestanejar._ Ta bom, então agora vá embora e deixe-me trabalhar, pelo amor de Deus!_ Mas eu estou trabalhando, também. _ responde Carijó sem se abalar.Com a visível irritação do delegado._ Você está brincando, rapaz. Já chega de brincadeiras. Hoje eu não tenho tempo a perder. 14 6
  • 147. _ Estou trabalhando, a serviço da justiça. Assim como o senhor, retruca Carijó comsegurança em suas palavras._ Como assim Carijó? Explique-se, por favor._ Sabe aquela moça que veio aqui fazer uma queixa? Aquela que se chama Elisa e é muitobonita._ Sim, lembro. Ela fez a queixa, mas, não tinha provas nem testemunhas. Não pude fazernada. Ela acusava o seu próprio marido, mas não tinha prova._ Pois é doutor... Eu escutei aquele tal do Zé, que também esta morando na pensão, dizerque colocou fogo na casa dele com a esposa dentro, ele pretendia matá-la, mas não deucerto. O tal do Zé falava sozinho, talvez porque estava bêbado._ E como é que eu vou provar aquilo que você o ouviuele falar para si próprio? Se vocêquer saber, eu acho que aquele Zé deve alguma coisa mesmo; não vou com a cara dele;mas como começar as investigações? Você pensa que é fácil, Carijó? Tenho que pensarem outras coisas, pois não tenho só este caso para resolver, menino. Agora vá para casa.Deixe-me trabalhar._ Mas eu sei, doutor. “Eu” sei como começar._ responde Carijó com os olhos brilhantesde alegria por poder mostrar sua competência e assim ajudar no caso._ Você sabe? Sabe nada, pára com graça. Vá embora. Vá embora. Vá, vá!..._ Sei, sim e do começo. Ele falou de um, tal de Maguinaldo que o ajudou, e de um tal deCarlão, que ele desconfia ter ajudado sua mulher a escapar do incêndio que ele provocou. 14 7
  • 148. _ E então, doutor, nós podemos ir lá até a cidade dele e procuramos o tal Maguinaldo e otal Carlão o senhor quer prova melhor do que o depoimento deles?. E La pelo o que Elisame falou não tem autoridade nenhuma para cuidar destes casos. Por isso é a sua delegaciaa mais próxima de Riacho Grande o senhor tem autoridade para ir até la e colocar estecriminoso e seu comparsa na cadeia, o senhor deve cumprir a lei._ Bem pensado, Carijó, vou te pagar um montão de doces, mas e o nome da cidade queele veio? Qual é mesmo?_ Ah, doutor, isso já é demais, o senhor quer tudo “mastigado”, tem que me contratarcomo policial, com um ótimo salário e tudo mais._ Ok! Você venceu mais uma vez, Carijó. _ disse o delegado rindo. _ Vá logo e descubrapara mim mais alguma coisa. Eu vou até a tal cidade._ Está bem, vai ser fácil. Deixa comigo._ responde Carijó já correndo em direção à saída,louco para continuar as suas investigações. Todo orgulhoso de si mesmo voltou correndopara a pensão. Quando queria, era mais rápido que o vento... Parecia ter asas nos pés.Parte 6 Capitulo IIIO delegado Feijó percebera um brilho de emoção nos olhos de Carijó ao mencionar onome de Elisa. Divertiu-se pensando que o rapazinho poderia estar apaixonado. Comcerteza seria o seu primeiro amor e isso era muito marcante na vida de um homem,mesmo sendo ele pouco mais que um menino. Por isso Carijó estaria tão empenhado em 14 8
  • 149. resolver aquele caso? Mas, bobo dele apaixonar-se justamente pela tal Elisa, que apesarde muito bonita, parecia muito perturbada e já até tem um filho, mesmo sendo tão jovem.É uma pobre coitada... Naquele instante, Carijó entra na delegacia trazendo asinformações._ Está bem, Carijó, e obrigada. Agora vá para casa não fale nada a ninguém e esperenossa volta. Iremos até Riacho Grande investigar melhor. _ Feijó chama em seguida seuassistente e dá as ordens:_ Ei, Mantiqueira, venha cá._ Pois não, doutor?_ Bota dois guardas de olho naquele cidadão, o tal Zé que está hospedado na pensão dadona Nena e que eles não o deixem sair da cidade, de jeito nenhum._ Está bem, sim senhor. Mais alguma ordem, doutor?_ Você irá comigo até Riacho Grande numa diligencia. Prepare-se. Partiremos em umahora e sem previsão de volta._ Sim, senhor.Lá chegando:_ Bem, chegamos à cidade. Agora vamos perguntar onde encontrar esse tal de Carlão queé o nosso pivô nas investigações e muita coisa poderá nos esclarecer, mas primeiro vamostomar um café em um desses botecos.Carijó sai por de baixo das lonas na parte traseira do jipe e sorrateiro vai procurar Carlãosem que o delegado percebesse. Aliás, Feijó nem sonhava com o atrevimento de seupupilo. Jamais poderia imaginar que ele os havia acompanhado na viagem. 14 9
  • 150. _ Alguém aqui conhece o Carlão? É que, bem... Eu sou um amigo. Preciso falar com ele e trago boas notícias._ É aquele, ali. _ Disse alguém apontando em direção à praça. Carijó num salto está aoseu lado._ Boa tarde, seu Carlão. O senhor não me conhece, eu sei, mas eu preciso que o senhorme acompanha, por gentileza. É assunto importante._ Quem é você e por que eu tenho que lhe acompanhar, moleque? Eu nem te conheço!_ Nada vai lhe acontecer. Confie em mim! _ responde Carijó, olhos nos olhos. _ Uai! Que moleque mais atrevido!_ Sabe que o senhor foi um herói, salvando uma mulher de morrer queimada?!Carlão solta a enxada, limpa as mãos na roupa e acompanha o garoto com um sorriso noslábios. Há muito tempo ele ansiava por ter notícias de Elisa, de quem, nunca maias ouvirafalar. Será que ela estaria bem? Será que encontrara seu filho?... E agora, assim derepente, aquele rapazinho aparece do nada lhe dando notícias de sua querida amiga. É... Avida é mesmo cheia de surpresas. Então já aflito Carlão pergunta ao menino Carijó: _ Cadê a dona Elisa? Ela está bem?_ Ela está bem, sim. Não se preocupe.Carijó leva Carlão ao encontro de doutor Feijó e seu assistente, Mantiqueira. O delegadoFeijó boquiaberto mal consegue crer no quê seus olhos vêem. A última pessoa no mundoque ele esperava ver ali era Carijó. 15 0
  • 151. _ O que é aquilo que estou vendo, Mantiqueira? Se é que eu estou enxergando bem.Belisca-me porque não pode ser verdade... Mas... Aquele ali é o Carijó!!! Não pode ser.Como é que o pestinha veio parar aqui?! Há,á,á,á...Esse, moleque! Vai ter que explicar-se.Há, se vai...Não teve jeito. Mais uma vez o delegado teve que render-se a esperteza do rapazinho, queera um detetive nato, e dos melhores. Seria um excelente investigador. Carijó era o filhoque Feijó gostaria de ter tido. Ele não tinha filhos, mas se tivesse um gostaria que fosseassim como o rapaz que tanta admiração lhe causava...Carlão conta tudo que sabia o plano sórdido de Zé e Maguinaldo e se dispõe a deporcontra Zé que acaba sendo preso e condenado juntamente com seu comparsa. Mais umcaso que Carijó ajudou a resolver. Ele era mesmo iluminado, pensava Feijó, todoorgulhoso de seu discípulo.Já na pensão, dona Nena aflita perguntava:_ Cadê o Carijó? Esse moleque!... Só me dá trabalho e preocupação. Vou devolver elepara o orfanato, isso sim!Filho dos outros só dá dor de cabeça! Não vejo este moleque desde ontem. Onde será queele anda? Ah se pego esse danado...Carijó logo aparece feliz e saltitante, como se nada tivesse acontecido e cobrindo donaNena de beijos até ela começar a rir e esquecer totalmente a bronca que estava preparadapara ele. Muito esperto que era Carijó sempre usava essa estratégia quando percebia que acoisa estava feia para o seu lado. 15 1
  • 152. _ O que foi moleque? Viu passarinho verde ou tá com lombriga?_ Não é nada, não._ Vá tomar um banho que você tá fedendo!_ Já vou! Já vou, A gente não pode nem ficar alegre... Vou embora desta casa, minhamãe... Ah! Como eu gostaria de ter uma de verdade! _ Brincava Carijó, fazendo-se devítima._Elisa pensando alto dizia: É... Eu tenho que continuar minha caminhada. Os dois únicosamigos que eu consegui de verdade é o Carlão e o Carijó. E o Carijó coitadinho, não temmãe, e eu pensava que só eu sofria nesse mundo de meu Deus; Eu sem meu filho e Carijósem sua mãe. Que coisa, ele Já morou na rua. É... Temos que lutar para ver se as coisasmelhoram. Pensava Elisa com seus botões. Sem querer, ela ouviu toda a conversa queCarijó tivera com dona Nena. Não pode evitar.Nesse instante ela entra na cozinha para pegar um copo com água e quando Carijó olha-ano fundo nos olhos, ela sente uma emoção muito grande, como se já conhecesse aqueleolhar penetrante, mas como?! Ele era apenas um moleque. Tentava desviar-se daquelepensamento quando ele disse:_ A senhora viu, dona Elisa? Aqueles vagabundos estão na cadeia!_ Eu fiquei sabendo que você ajudou nas investigações que praticamente foi você quedescobriu tudo, Carijó. Você é meu herói! Posso te pedir uma coisa?_ Peça dona Elisa. _ O rapazinho não cabia em si de tanta felicidade. 15 2
  • 153. _ Eu quero que nós sejamos amigos de agora em diante, por isso não quero que você mechame mais de dona, pode me chamar de Elisa._ Está bem, Elisa._ Que bom! Agora eu tenho um amigo de verdade._ Com isso você pode contar, mas nós não podemos nos separar. Amigos devem estarsempre juntos, não é mesmo?! _ responde Carijó sorrindo aquele seu sorriso enigmático emostrando as suas covinhas que eram o seu charme.Parte 7 Capítulo IMeses depois..._Carijó, vem cá._ Pois não, Elisa?_ Veja bem Carijó: Você bem sabe: que o que mais quero nessa vida é encontrar o meufilhinho, pois eu não desisti da idéia de encontrá-lo. E eu fiz uma pequena economia etenho que ir a busca dele, por isso, resolvi que devo ir embora para continuar a procurá-lo.Eu sei que você ficara bem. Aqui você tem uma casa boa pra morar, tem amigos e donaNena, que te ama como se você fosse filho dela de verdade._ Vou ficar realmente “mau”... _ Pensava Carijó, já inconformado com a separação.Tentou argumentar: 15 3
  • 154. _ Mas eu sou um grande investigador e você ira precisar de mim, Elisa deixe-me ir comvocê.Eu acho e desvendo qualquer mistério; e eu sou conhecido por Carijó, porque sou igual aum galo de briga, topo qualquer parada em nome da justiça._ Não, Carijó. Fique quieto no seu canto, eu lhe peço. Você não esta acostumado a passarfome. Eu gosto demais de você prá querer que sofra comigo por aí, por esse mundão demeu Deus. Eu já estou acostumada, a dormir no mato, passar fome e tudo mais. Nãocheguei até aqui, meu amigo?! Deus não há de me faltar nessa hora de tanta aflição queestou sentindo. Eu tenho fé que ele há de guiar meus passos e com minha fé eu hei desuperar todos os obstáculos, pois só terei paz o dia, que eu encontrar meu filho, e euhaverei de encontrá-lo.Os dois se abraçaram fortemente._ Está bem Elisa, pode ir em paz. Mas tenha certeza que nós no veremos em breve, atéum dia, minha amiga e boa sorte! Volte logo!Elisa parte chorando, já sentindo saudades das pessoas que lhe deram guarida, em especialde Carijó; mas sente a necessidade de deixar o amigo para continuar a sua peregrinação.Quem conhecia bem Carijó, percebeu a mudança do rapaz, que se tornara triste ecabisbaixo desde a partida de Elisa. Mas algo enigmático dava para perceber nocomportamento do menino Carijó. Pois ele não se conformava em ter que se separar deElisa. 15 4
  • 155. Carijó sabia o ônibus e o horário que Elisa iria pegá-lo para Belo Horizonte. Sendo assim,para surpresa de Elisa. Quando ela chega à capital mineira em Belo Horizonte, logo eladesembarca em seguida desce um menino do mesmo ônibus e com espanto ela diz:_ Carijó, o que você estava fazendo aqui, moleque?E então ele explica que tinha umas economias das moedas que ganhava do doutor Feijó edos hospedes da pensão e que ele deixou um bilhete para dona Nena.A emoção foi muito forte quando eles reencontraram-se. Carijó pegou-a pela mão e elesficaram girando até sentirem tontos e caírem um por cima do outro, rindo muito de alegriae satisfação.Mais tarde numa conversa, Carijó falava de sua cidade natal e Elisa ouvia-o comadmiração._ Ele falava também da creche onde vivera por um bom tempo até ser adotado por donaNena, e comentava sobre a escola rígida que freqüentara na creche._ Elisa, lá você aprende de tudo um pouco, tem muitas coisas boas e também La, a escolaé bem mais rígida, por isso é melhor que as daqui de fora. _ Mas por que essa diferença?_ É porque lá a lei é mais severa e os alunos são internos por isso se estuda mais horas pordia._ Eu tenho muita vontade de estudar, ser uma pessoa importante igual a essas professorasque tem por aí, ou então igual a esse povo de televisão. 15 5
  • 156. _ Mas você é muito importante._ Ah, Carijó! Para com isso, pois eu sou só uma burra chucra que não serve para nada. Ecomeça a chorar._ Se você tivesse um pouco de estudo, não estaria chorando. _ diz Carijó, tentandoconsolar Elisa._ Como assim, se eu tivesse estudo? _ espanta-se ela tentando enxugar as lágrimas queteimavam em cair._ É que você iria ver as coisas de uma maneira diferente, assim como eu. Você não vê?Não tenho família, mas sou feliz._ Por que feliz?_ Porque eu tenho certeza que com estudo eu vencerei e terei uma grande família. Vai sechamar família Galo, ou melhor, família Carijó._ É, enquanto nós conversamos, esquecemos da vida. Mas vou te avisar, amigo eu nãotenho dinheiro só esta mecharia, por isso se prepara pra dormir na rua e passar fome, eu teavisei._ É aí que você se engana. Quanto a dormir na rua eu estou acostumado, mas passar fomenem pensar. Com Carijó, menina acabou-se seus problemas._ E o que você vai fazer?_ Fica sossegada, deixa acabar o dinheirinho que você verá._ Não fica pensando que nós iremos roubar que eu não vou não. 15 6
  • 157. _ Nem eu. Nunca roubei para sobreviver, eu apenas uso isto._ Isto o que? _ indaga Elisa curiosa._ A cabeça, minha amiga..., A cabeça!E os dois saem andando sem destino, pois Carijó acredita que não só o chão que ele pisa,mas sim o mundo todo é dele...Voltando à casa do casal Ricardo e Dolores em Belo Horizonte..._É, Ricardo, o nosso Ramon está crescendo e nós ficamos de ir para São Paulo, mas atéagora não deu certo. E alguma coisa me diz que deveríamos ir para lá o mais rápidopossível, para criarmos o nosso menino em paz. Devemos ir enquanto a tempo... Depoispode ser tarde demais._ Para sua surpresa, tornei a receber uma ligação daquele meu amigo, doutor Mário, meconvidando novamente para montarmos a clínica lá em São Paulo. Ele chega amanhã aquiem belo Horizonte. Então eu e ele iremos almoçar juntos e depois é só vender esta casa etudo estara resolvido._ E o que estamos esperando?! Vamos embora daqui o mais rápido possível, meu amor!Eu amo Belo Horizonte, mas sinto que temos que ir embora daqui para bem longe._ Está bem. Vamos começar a providenciar a nossa ida para São Paulo._ Teremos de colocar a nossa casa a venda, em primeiro lugar. Mas sem que ninguémsaiba, apenas o pessoal da imobiliária. Que tal? 15 7
  • 158. _ Está bem. Você tem toda razão, aliás, como sempre. É melhor mesmo não fazermosalarde sobre a nossa mudança para São Paulo. Quanto menos gente souber, melhor.Assim, evitaremos surpresas desagradáveis até efetivarmos a mudança. Só temodemorarmos a encontrar o comprador, pois o mercado imobiliário está passando uma fasemeio complicada nos últimos tempos. Essa maldita recessão econômica que parece nãoter fim. Já viu como é..._ Mesmo que tenhamos que vender a nossa casa a um preço inferior ao que ela realmentevale, acho que ainda assim valerá a pena, no nosso caso. O que, não podemos é correr orisco de termos o nosso sossego, a nossa felicidade ameaçada por esses oportunistas, vocênão acha?_ É, Dodô, você tem razão. Às vezes é necessário levarmos algum prejuízo material parapreservarmos a nossa paz, o nosso sossego e principalmente a felicidade de nosso filho.Faço qualquer coisa mesmo para preservar a nossa privacidade. Amanhã mesmo voutomar as devidas providênciasParte 7 Capítulo IICarijó e Elisa encontram-se em Belo Horizonte já há alguns dias. Vivendo de bico,fazendo um ou outro serviço para garantirem ao menos o pão de cada dia. Vão se virandoconforme pode. 15 8
  • 159. Há dias em que passam melhor, já outros, a fome aperta e muitas vezes Carijó deixa dealimentar-se para deixar para Elisa. Mente para ela, dizendo que já comeu, quando naverdade sua barriga esta roncando de fome._ É, Carijó... Faz um bocado de tempo que nós estamos aqui em Belo Horizonte e nada.Onde estará meu filho? Esta cidade é tão grande... E agora que você descobriu que a tal daSimone morreu mesmo, tudo ficara mais difícil._ Não desanime, minha amiga! Vou achar seu filho, pode ter certeza disso. Palavra deCarijó! _ responde ele, pois queria animar Elisa e arrancar-lhe um sorriso, principalmentequando percebia que ela estava deprimida e desanimada._ Pare de sonhar, menino, vá dormir que nós precisamos descansar. Amanhã é outro diade luta! Sorte a sua eu ter arrumado essa grana hoje._ Você não esqueça de que eu te ajudei, eu sou seu “mestre”, digamos assim. Sem mimvocê estaria seca, igual quando chegou naquela pensão, só pele e osso._ É verdade, isso eu não posso negar, mas cheguei, com a graça de Deus._ Elisa, preste a atenção no que eu vou lhe dizer: Não há nada que eu não consiga, é sóquestão de tempo. Você tem que ter fé, mulher, eu sou Carijó o maior policial que existe!_ Mas você é convencido mesmo, hein, seu moleque?! Só porque você ajudou o doutordelegado a por a mão no cachaceiro do Zé e do seu comparça você acha o quê, hein?! Massaiba que eu admiro o seu otimismo e principalmente a sua coragem. Bem que eu queriaser assim, igual a você, mas, não sei não... 15 9
  • 160. _ Não é isso, não. Eu juro que aprendi, a vida me ensinou que quando agente quer umacoisa, você tem que acreditar que vai conseguir. Tem que botar fé em Deus e em simesmo!... E bola para frente, que atrás vem gente!_ Tem momentos que eu não tenho fé em nada, meu amigo..._ Mas você não pode perder a fé em Jesus, e quando você quer realmente uma coisa, vocêdeve procurar todos os meios legais para conseguir. É igual ao que nós fazemos; nóspedimos para sobreviver, não pedimos?_ É, pedimos. É humilhante, mas não tem outro jeito. Quando não conseguimos trabalhotemos de pedir. É melhor do que roubar... Eu bem que poderia arrumar um emprego defaxineira, mas com o emprego eu não teria tempo para procurar meu filho, meu bomamigo._ E você tem passado fome?_ Não, graças a Deus, não._ Então se você acreditar que vai encontrar o seu filho, você ira achá-lo, custe o quecustar!_ Tá bom, agora vamos dormir. Obrigada Carijó, eu estou me sentindo bem melhor agora,depois dessa prosa. Boa noite! Sonhe com os anjos, mesmo porque você é um anjo.O meu melhor amigo e anjo da minha guarda e eu amo você do fundo do meu coração!Carijó quase explodira de tanta felicidade ao ouvir aquelas palavras de Elisa, que ficaramrepetindo-se em sua cabeça muitas e muitas vezes até ele adormecer... E sonhar com ela,claro, que no seu sonho aparecia como uma linda fada. 16 0
  • 161. De repente, no meio da noite... Carijó acorda sobressaltado e desesperado tenta acordarsua companheira._ Elisa, Elisa, acorda, acorda!!!_ O que é Carijó?! Me deixa dormir pelo amor de Deus!_ Você sabe o nome de sua mãe?_ Me deixa dormir e não me perturbe! Parece maluco!_ Eu preciso saber o nome de sua mãe! Não sei por quê? Mas eu preciso saber. É muitoimportante!_ Para de graça e vê se dorme! O que foi que te deu, moleque?!_ Ta bom, eu não consigo mais dormir, não sei por que perdi o sono. Acordei de repentecom isso na cabeça... Eu quero, eu preciso saber o nome da sua mãe, Elisa. Espera aí,acorda Elisa._ O que é que você quer? Não dorme e nem deixa os outros dormir, seu moleque! Ai meuDeus o que foi que eu fiz pra merecer isto?_ Eu juro que deixo você dormir se você me disser o nome da sua mãe!..._ Eu não sei, não sei mesmo. Agora vai dormir Carijó e me deixa em paz, ta bem? Euestou que não me agüento de dor estou com cólica e com muito sono! Vê se dormetambém._ Ta bom, eu prometo que não amolo mais. Durma bem... (minha fada) _ diz ele baixinho.Carijó começa a mexer na mochila. Dentro dela encontrava-se de tudo, pois ele acreditavaque até um prego enferrujado servia como prova em seus inquéritos e por isso iaguardando “bugigangas” que poderiam lhe ser úteis um dia em suas averiguações. 16 1
  • 162. Ao nascer do sol o dia estava lindo..._Essas porcarias dentro da minha velha mochila não me servem mais para nada. Vou jogartudo fora, pois não me valem mais como prova de nada e só fazem peso._ Carijó, hoje é seu dia de arranjar nosso café da manhã. Pode tratar de levantar e pediruns trocados por ai._ Tá bom, tá bom, mas eu acho que você está naqueles dias, pois está muito malhumorada._ Me respeite, seu moleque atrevido!Assim que Carijó saiu chutando com desdenho as bugigangas que tirou da sua velhamochila, ele chuta um pedaço de papel que mais parecia um cartão de visita que estava navelha mochila, e lembra que aquele era o mesmo que Zé havia deixado cair do seu bolso,dentro da pensão e que Carijó guardara sem saber direito porque, mas como para ele tudopoderia servir para suas inquirições ou como prova...No mesmo momento, ele abre o papel e lê um numero bem discreto e um nome: “Dodô”.Instantaneamente começa a matutar:_ O que será esse número? Dodô deve ser um código que equivale a um número, mas oque devem ser os outros números? Uma combinação para jogar no bicho ou na loteria?Talvez “Dodô” seja o apelido de alguém, mas quem?_ Você ainda está aí Carijó? Estou com fome! Minha barriga já está roncando... Vamos àluta meu amigo! 16 2
  • 163. Carijó, reponde em tom de brincadeira:_ Já vou, meu amor, já vou!_ Isso vai te custar caro, seu moleque atrevido, ah se vai... Amanhã você vai me pagar.Aguarde-me!Alguns dias se passaram e Carijó ainda não havia conseguido descobrir que númerosseriam aqueles e pensava consigo mesmo:_ Há vários dias estou “quebrando a cabeça” para saber o que significam esses números.Tenho que descobrir... Acho que estou ficando velho demais para isso, não sou maisaquele policial que fui um dia. Mas é claro! Como não percebi antes? Esse é um numerode telefone! E eu aqui queimando os miolos! Ai, ai, ai!!!_ Por que você demorou tanto Carijó? Você anda muito lerdo ultimamente, hein?! _brinca Elisa, pois Carijó andava muito disperso. Parecia que estava vivendo no “mundo dalua”._ Eu estava a serviço da justiça. Como sempre, aliás!_ Para de graça, rapaz! Tome juízo!_ Obrigado pelo “rapaz”!_ É... Rapaz mesmo. Você está até começando a engrossar a voz._ Estou mesmo? _ pergunta Carijó já todo orgulhoso, cheio de si... Até estufara o peito detanto orgulho, parecendo-se mesmo com um “galo galizé”._ A tua voz está tão esquisita. Não sei não, mas acho que você está virando homem.Quem diria?..._ Quem sabe agora você se casa comigo, né Elisa?! _ retrucou ele, sempre brincalhão. _Elisa, agora mudando de assunto: O nome “Dodô” te lembra alguma coisa? 16 3
  • 164. _ Não, por quê?_ E Doroti?_ Não._ Dorotéia?_ Não._ Doraline?_ Não._ Dorivalda?_ Não._ Dondoca?_ Sim. Dondoca é uma mulher da vida que dirige ou dirigia uma casa de prostituição lá naminha cidade. Entendeu? É uma “mulher-dama”._ Vamos ver mais. Hummm. Doracy?_ Dolores?_ Não, não e não. Que coisa! Para com isso. O que você quer? Quer me enlouquecer, é?_ Tá bem, vamos conseguir algo para comer, que saco vazio não para em pé, não émesmo?... Vê como eu cuido de você? O que seria de você sem o seu fiel cavalheiro,hein?Carijó pensava:Vou ligar para essa tal “Dodô” e descobrir alguma coisa. Vou imitar uma voz de mulherao telefone. E olha que eu sou bom em imitação vivia passando trote no pessoal e elessempre caíam como uns patinhos. 16 4
  • 165. Parte 8 Capítulo IFinalmente, após planejar bem o que iria dizer Carijó liga para o número que tinha emmãos e que talvez fosse uma importante pista em suas investigações. Sem perder maistempo ele disca o número e pensa: Se o tal do Zé estava com este numero de telefone e onumero é o que corresponde a esta cidade, com certeza ai tem coisa! Quem sabe esta talDodô não seja cúmplice da Simone que roubou o filho de Elisa. Pois pelo o que eu fiqueisabendo, nos interrogatório La em riacho grande, quando o delegado Feijó interrogou oMaguinaldo comparsa do Zé é que ele havia entregado um papel ou cartão para o Zé quecaiu do bolso da tal da Simone e o delegado não conseguiu reaver o tal papel porque o Zénegou solenemente que não havia papel nenhum com ele. Carijó estava próximo a um telefone público em uma rua calma e silenciosa. Suaansiedade era imensa, mas ele conseguiu controlar-se. O que mais desejava era ajudar suaamiga Elisa por quem sentia uma afeição sincera que ia muito além de uma simplesamizade. Sim, era amor o que sentia e parecia conhecê-la há séculos... 16 5
  • 166. Certa vez Carijó ouvira falar na existência de outras vidas. Reencarnação e pluralidadedas existências.Achara muita graça em tudo aquilo. Lembrava-se de ter gracejado muito pensando seruma idéia absurda de algum maluco que não tinha o que fazer. Mas ao mesmo tempofascinado com a hipótese de haver vida pós morte; Como explicar os seus sentimentos emrelação à Elisa? Tais sentimentos pareciam ser exacerbados e saudoso de há muito tempo,quem sabe uma ou outra existência onde eles possuíam outros corpos e outras identidades,mas na essência ou em espirito seriam os mesmos?!Ele não se lembrava de nada, mas tinha aquela sensação que não sabia explicar e que nãocompreendia, mas que era tão forte que o intrigava e às vezes ele permanecia horas ehoras a pensar sobre tudo aquilo, sem chegar à conclusão alguma. Ele nada comentavacom Elisa afinal tinha medo de que ela não o compreendesse, e pior que isso, ela poderiarir dele. Só de imaginar o ridículo a que se submeteria, e além do mais teria que declarar oseu amor, o que estava totalmente fora de cogitação pela diferença de idade.Às vezes ele as dava indiretas, mas como Carijó sempre levava na gozação, pois ele erabrincalhão, acabava ficando por isso mesmo. Quem sabe, se fosse mais velho Elisa olevaria a sério. Ah, como ele desejava ardentemente que ela enxergasse a verdade dosseus sentimentos nas entre linhas das brincadeiras que fazia, mas ela tinha-o como um“moleque”, como ela sempre o chamava. 16 6
  • 167. E Carijó tinha que contentar-se apenas com a sua amizade e companhia. Quem sabe umdia... Enquanto isso sofria calado. Mas não deixava que ninguém percebesse o seusofrimento. Ao contrário, estava sempre alegre e bem humorado.Sim ainda era um moleque, pensava Carijó... Mas por acaso o amor tinha idade paraacontecer?! O amor sim era um “moleque travesso” que nos pega de surpresa, quandomenos esperamos e faz à maior “bagunça” no nosso coração; mas ao mesmo tempo nosfaz um bem enorme, nos dá a alegria de viver. Deixa-nos assim meio abobados e nossentimos como que flutuando, leves como plumas levadas por uma brisa fresca e suave...Parte 8 Capítulo IIDe repente uma voz feminina atende ao telefone num tom de pergunta, um tom quedenota um misto de desconfiança e receio._ A,a,a,a, alô?_ Quem está falando? _pergunta Carijó disfarçando a voz._ Com quem gostaria de falar? _ devolve a pergunta, a esperta dona daquela voz.Carijó percebe que não seria nada fácil..._ Com a senhora Dodô, meu bem._ É ela mesma. Quem está falando? 16 7
  • 168. _ Não fique preocupada, querida. Seu grande amor pediu-me para lhe fazer uma surpresa.Aqui é da maior de todas as lojas de presentes finos de Belo Horizonte. Ele me deixou oendereço num cartão, só que eu o perdi, sendo assim não tenho como mandar aencomenda, então eu estou ligando para que a senhora, por gentileza, passe-menovamente o endereço de sua residência._ Não costumamos dar nosso endereço para estranhos e muito menos por telefone. Sintomuito. _ E então Dolores bate o telefone achando aquela ligação muito estranha. Maistarde confirmaria com seu marido que era um trote. Talvez fosse apenas algum trote...Dolores só não ligaria para seu marido de imediato, pois detestava interromper seutrabalho. Sabia que ele era um homem ocupado, então só em caso de extrema necessidadeela telefonaria para RicardoDolores volta à sua leitura quando o telefone toca novamente. ”Mas, onde estará Clotilde,que não atende ao telefone que tocava com insistência?” Dolores perguntava-se um poucoaborrecida.Clotilde entra na cozinha toda esbaforida, ofegante da corrida que dera ao ouvir o telefonetocando. Coloca as sacolas de compras em cima da mesa ao mesmo tempo em que atendeao telefone, Dolores pergunta sem perceber, que ela já havia atendido a ligação:_ Onde é que você esteve até agora, Clotilde? Que demora, hein?Clotilde pede um minuto ao seu interlocutor e responde:_ Na feira, dona Dolores, a senhora se esqueceu que hoje é quarta-feira? É dia da melhorfeira-livre do bairro. Tudo tão fresquinho... Olha só que... 16 8
  • 169. _ Alô! Alô! – repetia Clotilde, mas a ligação havia caído.Era Carijó que desligara e ligara novamente e desta vez tivera mais sorte, pensava ele todocontente. Agora já sabia que “Dodô” era “Dolores” e Clotilde era o nome da empregadaque com certeza lhe daria mais informações valiosas. Tentaria novamente no dia seguinte.Precisava de esta vez descobrir o nome do bairro em que a tal “Dodô” residia. Resolvedeixar suas investigações para o dia seguinte, com intuito de não levantar suspeitas,Dolores não havia sido nada amistosa, mas Clotilde com certeza seria afinal ela era acolaboradora daquela família por isso seria mais prestimosa com ele. Carijó prestarabastante atenção no seu jeito de falar e ela parecia uma pessoa extrovertida espontânea ebem mais simples do que a sua empregadora; Dessas que adora um bom papo e vaifalando as coisas assim, sem perceber. Não seria difícil puxar conversa com ela.Carijó mais uma vez estava certo nas suas conclusões. Clotilde era muito simpática etagarela e por isso demorara-se na feira. Aliás, quando saia para fazer compras esquecia-se da vida, conversando com um e outro. Mas era de confiança e muito competente no seutrabalho. Estava com aquela família há muito tempo e adorava trabalhar lá, pois era bemremunerada e acima de tudo havia Ramon, que trouxera alegria para aquele lar.Clotilde adorava o menino e fazia de tudo para agradá-lo e divertia-se muito com suasestripulias. O menino também adorava Clotilde que era uma espécie de babá também,pois naquela casa ele era prioridade. O serviço era muito, mas Clotilde não reclamava ealém do mais, havia uma faxineira que vinha duas vezes por semana e completava o 16 9
  • 170. serviço fazendo o mais pesado, aliviando bastante para Clotilde. Dona Dolores e doutorRicardo eram ótimos patrões. Clotilde sempre agradecia a Deus em suas orações por tertanta sorte em tê-los como empregadores. Como ela era sozinha, eles eram praticamente asua família. Parte 8 Capítulo IIIAquele número de telefone que Carijó possuía foi Dolores que deu à Simone e esta odeixou cair sem querer em Cachoeira, cidade vizinha a Riacho Grande, sendo queMaguinaldo, que estava seguindo-a achou-o e entregou à Zé na ocasião. Zé por sua vez,relaxado que só ele e sempre de pileque deixou-o cair no quarto da pensão e nempercebeu, e então Carijó fazendo limpeza encontrou-o e resolveu guardá-lo, pois tinhaessa mania de achar que tudo poderia mais cedo ou mais tarde servir-lhe como material deinvestigações e como prova na suas ocupações de “aprendiz de investigador”. Ele estavaabsolutamente correto... O tempo diria que ele estava no caminho certo... Só o tempo.Nada como um dia após o outro.No dia seguinte pela manhã... 17 0
  • 171. _ Alô! Às suas ordens! _ Clotilde tinha um jeito peculiar de atender ao telefone, sempremuito bem humorada._ Como vai Clotilde?_ Como sabe que sou eu? Quem fala?_ Jamais me esqueceria de uma voz tão linda e doce como a sua, Clô._ Uai! Sabe até meu apelido?!_ Mas você não se lembra de mim? _ pergunta Carijó disfarçando a voz._ Não, quem é que está falando, hein?! _ pergunta ela gostando muito dos elogios à suavoz._ Pois eu nunca esqueci de você uma ouvinte tão especial...Clotilde sente um calor a subir-lhe pelo corpo, e com o rosto em brasas, penso tratar-se deum antigo namorado que fora sua paixão._ Como você se chama? Por acaso é o Luizão?... _ pergunta com o coração quase saindopela boca._ Não eu sou aquele que você acompanha pelo rádio todas as manhãs. O seu locutorfavorito. _ arrisca Carijó modificando a sua voz, e o danado era muito bom nisso. Sabiaque toda empregada doméstica vivia grudada no seu rádio de pilha, então decidiu arriscar._ ...Ah, o locutor da rádio Morada do Sol? Puxa, sabe que meu rádio quebrou e está noconserto já faz um bom tempo?! Estou até pensando em comprar outro._ Mas como é que você conseguiu o meu telefone?! Ai, que emoção! _ diz Clotildesuspirando. 17 1
  • 172. _ Você já ligou Algumas vezes para o meu programa, lembra-se? Então, nós temos o seucadastro, querida, ouvinte, com o seu número de telefone... É uma honra estar falandocom você!_ Você adora fazer pedidos musicais e é um enorme prazer poder atendê-la. Falandonisso, que música você gostaria de pedir hoje? Que tal uma bem romântica? Pois sabe doque mais, querida, amanhã mesmo nós vamos mandar um rádio novinho em folha paravocê! Você foi sorteada em nossa promoção do meu programa para as dez ouvintes quemais ligaram para a nossa rádio nos últimos doze meses. Não é sensacional? E porcoincidência você está mesmo precisando de um rádio novo, não é mesmo, meu bem?!Clotilde não cabia em si de tanta alegria e pergunta inocentemente:_ Você disse que amanhã mesmo eu vou ter meu rádio? E novinho em folha?!_ Com certeza! Você ainda reside naquele lugar tão agradável?_ Não, agora eu moro aqui no bairro da Pampulha, com meus patrões. Eles sãomaravilhosos._ E você emagreceu ou engordou? Cuidado com a aparência, hein? Mulher tem que secuidar para manter o homem de sua vida aos seus pés, não é mesmo?!_ Continuo com meus 58 quilos._ Tem tingido os cabelos para ressaltar a sua beleza?_ Eu sou uma mulher negra, por isso não gosto de tingir os meus cabelos. Prefiro a cornatural. Apenas faço alisamento a cada dois meses. Mas afinal, porque você quer tantosaber?! 17 2
  • 173. _ Clotilde finalmente começa a desconfiar._ Eu sou seu amigo e você está prestando um serviço para a sociedade. _ e com issoCarijó desliga o telefone, sem mais nem menos, pois já obterá as informações que queria.Clotilde ficou com cara de espanto, sem entender coisa alguma.Pensou, pensou, ficou matutando o dia todo e conclui que se tratava de um trote estúpido.Havia muita gente desocupada nesse mundo e como não tinham o que fazer passava otempo aborrecendo os outros com trotes e divertindo-se as custas dos outros e ela caíracomo uma “patinha”... Da próxima vez seria mais esperta, pensava.Algum tempo depois..._ Elisa, nós temos que ir para outro lugar. Mais precisamente para um bairro chamadoPampulha. Eu já me informei, é bairro de bacana. Só tem mansão por lá. É lá que está odinheiro, sacou?_ Por que isso agora, Carijó?_ Aqui já deu no que tinha que dar. E já estamos ficando manjados no pedaço._ Mas e o meu filho?_ Não é ficando aqui que nós vamos conseguir achar o seu filho._ Então vamos. Mais prá onde Carijó? Vamos sair sem destino até achar o tal bairro?_ Que nada Elisa... Deixa com o Carijó aqui! Confie em mim! Vamos para esse tal bairroda Pampulha que haveremos de nos dar bem, boneca. Eu te garanto. 17 3
  • 174. _Você fala como autoridade, igual a um adulto. Doutor Carijó, o mais famosoinvestigador do país! E o melhor amigo do mundo! Eu te adro sabia?_ É, Elisa, quando a gente leva essa vida sem pai e sem mãe, temos que virar adultorapidinho, não é mesmo?! Você ainda ouvira falar muito de mim. Ainda um dia hei de sermuito importante e famoso! Ah, se vou! Escreve aí que eu assino embaixo._ Deus te ouça! Eu estou realmente impressionada com você, seu moleque! Você quandopõe uma coisa na cabeça..._ É, eu sou mesmo muito determinado e sei o que quero da vida. A vida só é dura paraquem é mole e esse não é bem o meu caso. Ao contrário eu adoro os desafios que a vidame apresenta. Senão, que graça teria, não é mesmo? 17 4
  • 175. Parte 9 Capítulo INo dia seguinte bem cedinho, Carijó e Elisa saem à procura do ônibus que com destino aobairro da Pampulha. O ônibus dá muitas voltas até chegar a seu destino. Carijó e suacompanheira seguem calados, cada qual com seus pensamentos e olha que Carijóraramente se mantinha calado, pois estava sempre tagarelando, investigando histórias ouaté mesmo cantando suas canções preferidas. Gostava de expor suas idéias e tinha umdom muito especial que a todos cativava.Era o que se pode chamar de “bom de papo”. Gostava muito de literatura por isso lia tudoque havia em sua frente: livros, revistas jornais e até placar etc. Gostava de estar semprebem informado e adorava romances policiais e também a sessão policial dos jornais.Mesmo sendo ainda muito jovem, era capaz de discutir qualquer assunto com quem querque fosse, tinha convicção em seus argumentos.Era impressionante a inteligência do rapazinho. Se tivesse recursos e meios para estudar,freqüentar uma boa escola e mais tarde um curso superior, ele seria um aluno brilhante,daqueles que se destacavam e impressionam seus colegas e mestres. Possui um dom natopara discorrer sobre qualquer tema, principalmente é claro, os que mais lhe agradavam.Porém estava calado, não, por falta de assunto, mas é que pensava nos próximos passosque daria nas suas investigações. Como faria para encontrar a tal Dolores ou “Dodô”?Não seria fácil, mas também não seria impossível.Aliás, para ele, nada era realmente impossível, desde que a pessoa se empenhasse paraalcançar seus objetivos. Sempre otimista e confiante, ele não se dava por vencido 17 5
  • 176. facilmente e o seu otimismo era contagiante, por isso as pessoas simpatizavam-se tantocom ele, e não era para menos.Finalmente o ônibus chega ao seu destino. Pampulha era um bairro elegante e bemarborizado. Chegando lá, eles se estabeleceram em um canto qualquer e esperavam contarcom a generosidade de seus moradores. Quem sabe, um prato de comida ou um trocado,até mesmo um ou outro servicinho que lhes permitissem ganhar algum dinheiro rápidopara garantir o sustento.Carijó não comentou nada com Elisa sobre o telefonema que dera; afinal de contas ele nãosabia ainda o significado de tudo aquilo e não queria que ela criasse expectativas quepoderiam não dar em nada e talvez não tivessem relação alguma com o seu filhinhodesaparecido. Carijó amava-a demais e não queria de forma alguma que ela sofresse aindamais.Elisa por sua vez viera o trajeto todo se recordando dos principais fatos de sua vida: desdequando fora vendida para seu marido Zé por seu próprio pai, e do quanto sofrera nas mãosdaquele infeliz. O nascimento de seu filho Carlinhos e a alegria que ele trouxe para suavida. A desconfiança obsessiva de Zé quanto à paternidade do menino e depois o incêndioonde ele tentara matá-la e ainda, o pior de tudo: o desaparecimento de Carlinhos. a. 17 6
  • 177. Recordava-se também do que havia passado para chegar até ali. A sua peregrinação natentativa desesperada para encontrar seu filho e a imensa saudade que sentia dele. Eracomo se a sua ausência tivesse deixado um enorme vazio no seu peito, um grande buracoem seu coração. Um vazio que era difícil de preencher... Por mais que ela tentasse.Mas havia Carijó. Ele era como um bálsamo para as suas dores. Deus o havia colocadoem sua vida no momento em que ela mais precisava e agora ela não estava mais sozinha.Sua caminhada ainda era árdua e havia muito a ser percorrido, mas Carijó trouxera umnovo alento. De onde ela conhecia aqueles olhos e a força daquele olhar? Às vezes tinha asensação de que não era a primeira vez que eles se encontravam. Mas como poderia ser?!Só sabia que o rapazinho provocava-lhe sentimentos que ela não sabia ao certo definir.Era amor, amizade, gratidão ou o que? Afinal de contas, ele deixara tudo paraacompanhá-la, mas por quê? Era como se um não pudesse mais ficar sem o outro... Seráque ele sentia o mesmo? _ indagava-se ela. Mas ele ainda era tão menino...Elisa pensava: “O que seria de mim hoje se não fosse Carijó?...” Quem sabe um dia teria aresposta para suas dúvidas. Acreditava que no momento certo isso iria ocorrer, masquando?...Decidiu que iria viver um dia de cada vez e aproveitar ao máximo a companhia de Carijó,sempre tão meigo, mas ao mesmo tempo firme, com uma firmeza que a amparava nosmomentos críticos em que ela sentia-se fraquejar. Também iria procurara ser uma boacompanhia para Carijó, mostrando-se mais confiante e otimista. Com certeza ele iriagostar muito de ver que ela estava esforçando-se para vencer suas fraquezas einseguranças. 17 7
  • 178. Agora mais uma etapa iniciava-se e eles teriam que ser fortes para enfrentar o desfecho doque quer que esteja reservado para eles.Mas não estavam sós. Aliás, ninguém neste mundo ou em outros está realmente só, pormais que pareça o contrário.Os jovens, Carijó e Elisa estavam sempre protegidos pela presença invisível de seusmentores espirituais que sempre os agasalhavam e também lhes aplicavam passesmagnéticos vivificantes com a imposição de suas mãos meta físicas e abençoadas em suascabeças, de cujas extremidades desprendiam-se luzes brilhantes e um aroma muitoagradável de flores.Carijó e Elisa não podiam ver, mas um perfume suave de flores às vezes era sentido poreles, que julgavam ser de algum jardim próximo. A verdade era que sentiam suas forçascomo que renovadas sem saber o motivo.Era uma sensação de bem estar físico e espiritual que lhes renovavam as forças materiaise psíquicas e dava-lhes coragem e sustentação para continuar a sua árdua caminhada.Às vezes, conforme a necessidade do momento, seus mentores os levavam enquantodormiam a fim de dar-lhes preciosas orientações e maiores esclarecimentos.Isso era possível graças ao desprendimento de seus espíritos durante o sono. Ou seja,enquanto seus corpos materiais repousavam num sono profundo, eles eram levados emperispírito para outro plano onde recebiam orientações, e com muito amor seus mentoresespirituais ou anjos da guarda, como alguns preferem assim chamar esclareciam fatos e osrecordavam de suas missões. 17 8
  • 179. A missão que eles próprios haviam escolhido antes de se reencarnarem, para quepudessem reparar os erros do passado. O Pai Todo Poderoso em Sua infinita bondadeconcedera-lhes mais esta oportunidade, e quantas mais eles precisassem para a suaelevação espiritual a caminho da perfeição e de acordo com o merecimento de cada um; esomos todos merecedores, pois todos somos filhos do mesmo Pai que atende a todos como mesmo Amor. Cada qual no seu tempo, e de acordo com suas necessidades seráauxiliado com certeza.Parte 9 Capítulo IIO sol brilhava muito naquela manhã. Carijó depois de um bom sono acordara muito bemdisposto e mais confiante do que nunca. Planejava sair pelo bairro na esperança deencontrar uma mulher de cor negra, cabelos alisados e com a característica de uns 60quilos. A cada mulher que por ali passava, e que tivesse essas atípicas, Carijó pedia umtrocado chamando pelo nome, ou melhor, arriscando..._ Dona Clotilde? _ “Eu ainda hei de achar essa mulher ou então não me chamo Carijó.Não é um nome muito comum, portanto não deve haver tantas mulheres aqui com essenome e com essas características. Só tenho que ter paciência ou então posso por tudo aperder”. _ pensava ele tentando controlar-se.No seu íntimo, sabia que estava na pista certa. 17 9
  • 180. Acabou por concluir: “Se aquele mau caráter do Zé tinha esse número, alguma ligaçãotem, e eu estou procurando essa tal Clotilde, ou” Clô.“Para ela me levar até essa tal donaDolores, que devera ser a mesma dona “Dodô”.No meio de uma feira Carijó começa a investigar. Não podia mais perder tempo, poiscada minuto era precioso._ Moço, posso lhe fazer uma pergunta?_ Pode sim, menino. O que é? _ responde o simpático feirante._ Quantas feiras têm aqui no bairro da Pampulha?_ Tem essa aqui e mais duas. Na terça-feira é ali na rua de baixo, e no sábado é na rua“Dois Irmãos”, para aqueles lados. _ responde o homem apontando na direção oposta...Mas por que pergunta?_ É que eu quero fazer carreto. Sou bom nisso e quero trabalhar, não sou ladrão, não. Sóquero uma chance, uma oportunidade..._ Parabéns! Tão jovem e tão interessado em trabalhar. Saiba que eu comecei assim. Eagora, olha só, possuo a melhor banca de frutas de toda a feira!_ Tchau, moço. A gente se encontra por aí. A sua banca é mesmo uma beleza!_ Menino venha cá. Você é muito educado. Toma essas frutas para você. Espero quetenha sorte, como eu tive!_ Há,a,a. Sou muito grato, posso saber o seu nome?_ Me chamo Antonio, mas pode me chamar de Toni; é meu apelido. Todos me conhecempelo o apelido e eu gosto. 18 0
  • 181. _ Valeu, Toni! A gente se vê!Carijó sai em disparada com suas frutas. Toni era muito generoso e parecia ser um homemmuito bom._ Elisa, Elisa. Já consegui o almoço e também o café da manhã, vamos viver iguais abacana hoje, comeremos muitas frutas no café da manhã e no almoço também, que é pranão engordar. Quero estar sempre elegante, pois sou muito vaidoso!Elisa ri com gosto e diz:_ Até parece que estamos gordos! Noz está até magro demais! Bem que eu gostaria deengordar um pouquinho. Queria ficar mais cheinha. Acho que me faltam umas carnes aquie ali. O que você acha, Carijó?_ Que nada, você está ótima! _ diz o rapazinho admirando suas curvas bem feitas que seescondia debaixo da roupa..._ Veja La, seu moleque! Não fica me olhando assim, hein? Respeito é bom e eu gosto. _brinca Elisa, fingindo-se zangada. Carijó disfarçando seu olhar atrevido comenta:_ Mas é mesmo Elisa, essa gente rica vive fazendo dieta para emagrecer, mesmo quandosão magros. Acho mesmo é que eles comem pouco para não ter que gastar dinheiro comcomida, assim sobra mais para gastar com outras coisas. Agora gente pobre, quando temum dinheirinho sobrando já sai correndo para comprar comida. Acho que é por medo depassar fome... A fome é dura demais e só quem já passou é que sabe... Quem nuncapassou não consegue avaliar. 18 1
  • 182. Em outra feira._ A senhora quer um carreto, dona Clotilde? _ Carijó aborda uma senhora com ascaracterísticas físicas de Clotilde, procurando ser o mais simpático possível e lançandomão de seu sorriso encantador._ Eu não me chamo Clotilde e não quero carreto, obrigada! Pensando melhor acho que euvou querer sim. Você me cativou com esse seu sorriso, moleque!Em outra feira, a mesma tentativa e nada, mas ele não desanima. A tal Clotilde tinha queaparecer qualquer hora.E assim vai abordando todas as mulheres que possuam as características daquela que é oalvo das suas investigações. O moleque tem como lema a persistência.De volta a primeira feira, Carijó procura Toni que é realmente proprietário da maior emelhor barraca de frutas daquela que é com certeza a melhor feira-livre do bairro, daPampulha, onde pode-se encontrar uma grande variedade de frutas e legumes. Tudo damelhor qualidade, para uma clientela classe “A”.Era incrível mesmo o contraste social desse nosso país, pensava Carijó...Uma minoria de favorecidos parece merecer do bom e do melhor, já a grande maioria ficamesmo é com as sobras e olha lá. No final das feiras é que os miseráveis fazem a festacatando as sobras do chão e aproveitando tudo o que dá para ser aproveitado. Se a rendafosse mais bem distribuída e as injustiças sociais não fossem tantas e tão graves comtantos usurpadores no poder, muitos não passariam por situações de fome e penúria. Umpaís tão grande e produtivo como o nosso, porém tão mal administrado. b. 18 2
  • 183. Realmente um país de contrastes... Sem falar na corrupção que é uma verdadeira chagaque contamina as autoridades, executiva e legislatória em nossa sociedade. Aqueles quepraticam a corrupção deveriam envergonhar-se de um gesto degradante e desprezível queprejudica milhares de pessoas indefesas a que poderiam levar uma vida digna com seusdireitos e não só com o dever. Mas quem “planta colhe de acordo com o que semearam.”Nisto não há a menor duvida, passe o tempo que passar.Parte 9 Capítulo IIIElisa que vinha observando Carijó começou a achar seu comportamento estranhoultimamente e resolveu perguntar, pois não agüentava mais de tanta curiosidade:_ O que é que está acontecendo, Carijó? Eu não estou entendendo nada do que você estátramando... Você mudou seu comportamento comigo, esta, esquisito e cheio de mistério.Não estou gostando moleque._ Você não precisa entender nada._ Olha só, que moleque mal criado!_ Não é nada disso, Elisa! É que é complicado para lhe explicar. Eu não quero preocuparessa sua cabecinha linda! _ ele não queria realmente que Elisa se preocupasse. Se pudessedaria a ela toda a alegria do mundo e enfeitaria sua cabeça com guirlandas de flores todosos dias. As mais lindas e perfumadas.De volta a primeira feira, Carijó procura Toni, pois gostara muito dele e já o consideravacomo um amigo._ Oi, Toni! Lembra de mim? 18 3
  • 184. _ Mas é claro! Lembro-me sim, você é aquele menino muito esperto e comunicativo.Carijó, não é mesmo?_ Se você precisar de alguma coisa pode contar comigo, eu e minha amiga estamosandando pela feira, e não tenha receios, pois não somos ladrões. Somos pobres, porémhonestos. Pedimos, mas não roubamos. Somos pessoas de bem, pode crer!Uns quarenta minutos depois..._ Hei, Carijó: Posso lhe pedir uma coisa? Dá para você me da uma força aqui? Meu irmãonão estava se sentindo muito bem e teve que ir para casa._ Claro que sim. E minha amiga pode ficar comigo pra te ajudar?_ Se ela quiser pode ajudar também. Só que eu não posso pagar vocês. Só posso dar umagrado. Tudo bem?_ Qualquer coisa tá bom prá gente. Não temos nada mesmo..._ Ai Carijó será que eu sei fazer isso? _ pergunta Elisa que ao contrário de Carijó erainibida e quase morria de vergonha. Fora criada no mato feito bicho._ É só gritar: “Olha a laranja, a manga, a melancia! Tudo bem fresquinho!”._ Ta bom, mas tem mesmo que gritar?_ E bem alto! Presta atenção em mim e veja como eu faço... _ e Carijó gritava a plenospulmões para atrair a freguesia para a banca de Toni. Elas não resistiam e olhavam paraCarijó e ele sorria mostrando suas covinhas e os dentes perfeitos. 18 4
  • 185. _ Quando as clientes se aproximavam ele sempre fazia um elogio, então as freguesasderretiam-se e acabavam levando alguma coisa nem que fosse só para agradá-lo.Toni observava-o de longe e estava impressionado com o talento e a esperteza dorapazinho. Pensava consigo mesmo: “Esse moleque vai longe! Sabe mesmo comoconquistar a freguesia... Mesmo as clientes mais carrancudas saem daqui sorridentes esatisfeitas com o atendimento, graças ao carisma dele”.Entre uma freguesa e outra, Toni o dono da banca, que sabia o nome da maioria de suasclientes preferenciais chama as pelo nome uma simpática senhora que se aproxima:_ Pois não, dona Clotilde! O que vai querer hoje? Está tudo tão fresquinho! Que tal fazeruma salada de frutas especial para agradar a patroa? E por falar nisso, como vai donaDolores? Ela gostou das frutas da semana passada? Espero que sim!Elisa vencendo a timidez continua gritando e não percebe nada do que está ao seu redor,mas Carijó servindo outra cliente, e atento a tudo, pergunta a Toni ao acabar, malacreditando na sua sorte. Era muita coincidência..._ Você falou dona Clotilde?_ Sim dona Clotilde, minha cliente. Uma das melhores, por sinal. Compra bastante e nãopechincha como as outras._ E para onde ela foi? _ pergunta Carijó já aflito, pois a perdê-la-á de vista._ Porque a pergunta? _ Toni acha estranho o interesse repentino de seu ajudante._ Eu fiquei de ajudá-la a levar as compras até a casa dela enquanto você estava fazendo otroco. Ela é muito simpática e prometeu me dar uns trocados e pagar um pastel e olha que 18 5
  • 186. a minha barriga já está roncando! _ dizendo isso Carijó sai correndo atrás de donaClotilde, pois voltara a vê-la da barraca, quase sumindo de vista no meio da multidão._ Dona Clotilde? _ aproxima-se Carijó ofegante da corrida que dera para alcançá-la_ Pois não, menino? O que você quer uma moeda?_ Não,não na verdade quero dizer, sim, mas só se a senhora deixar eu lhe ajudar a levar ascompras até a sua casa._ Menino, você não é daqui. Eu nunca lhe vi por aqui. Olha que eu sou boa fisionomista!_ É verdade a senhora tem razão eu não sou daqui, mas já faz um bom tempo que eu estouajudando o Toni._ Toni?_ O dono da barra de frutas._ Ah! É que eu não sabia o nome dele, e olha que já faz tempo que eu só compro frutascom ele. Ele é bem bonitão! E as frutas, são as melhores!_ Mas ele sabe o seu nome!Ela ri muito bem humorada e diz:_ Esses feirantes são mesmo muito espertos eles sabem o nome de cada cliente... Sabematé quando a gente não está muito bem. E hoje é um daqueles dias. Essa minha colunaestá me matando... Foi ele quem mandou você me ajudar, eu tenho certeza! Só pelo jeitode andar da gente ele já sabe... Muito atencioso esse rapaz! Não é a toa que a mulheradagosta dele ainda mais com aqueles olhos verdes._ Só não me pergunte como ele faz para gravar na memória o nome de todas as lindasclientes que compram na sua banca, pois eu não saberia responder. 18 6
  • 187. _ Você é muito gentil, meu rapaz. Acompanhe-me, por favor, não é muito longe daqui._ Bem chegamos! Quanto eu lhe devo? _ pergunta Clotilde pegando as sacolas._ A senhora não quer que eu leve até a cozinha? Faço isso com todas as minhas clientes.O serviço é completo! De primeira qualidade!_ Está bem! Eu não estou mesmo podendo levantar peso e essas sacolas estão tão pesadashoje... E o pior é que eu não consigo me acostumar com o tal carrinho de feira. Dá muitotrabalho para pilotar “e eu sou uma péssima motorista”. _ diverte-se Clotilde.Já dentro de casa, Carijó tira os velhos sapatos antes de entrar na cozinha e deixa-os nocorredor para não sujar o piso que está até brilhando de tão limpo._ Quanto eu lhe devo? _pergunta dona Clotilde._ A senhora não me deve nada. Já está bem pago. Não se lembra das moedas que asenhora me deu e ainda me pagou um pastel? Que estava delicioso por sinal._ Mas foi tão pouco!_ Não foi, não. Assim está bom! Eu não gosto de explorar as pessoas, ainda mais asenhora que é tão simpática. _ (e que está me prestando um grande serviço), diz Carijóbem baixinho, quase sussurrando:_ Não entendi. O que foi que você disse?_ Que a senhora é muito boa e que tem um coração de ouro. Bem, eu tenho que ir, senão oToni me manda embora. Adeus! E muito obrigado. 18 7
  • 188. _ Eu é que agradeço meu adorável rapaz. _ responde Clotilde, encantada com Carijó.Mais uma que ele cativa. E quando está saindo, de longe avista Dolores na sacada que lheacena com um sorriso.De volta a barraca de frutas..._ Oi, Toni! Fui ajudar dona Clotilde, eu tinha prometido para ela. Não demorei muito, nãoé mesmo?_ Não. Mas você saiu correndo feito um doido, o que foi que te deu?_ É que não queria perdê-la de vista, só isso._ Está bem. Carijó, você não encontrou a Elisa?_ Não. Ela não está aí?_ Ela saiu atrás de você e até agora não voltou. Eu bem que tentei impedi-la, mas ela nemme ouviu._ Puxa vida! E agora, o que vou fazer?_ Depois você a encontra agora eu preciso que você me ajude aqui na banca. Omovimento hoje está ótimo e o tempo está ajudando bastante._ Desculpe Toni, mas eu estou preocupado com a Elisa. Não temos endereço, moramos narua. Com licença, mas vou procurá-la. Se der depois eu volto. _E saiu em disparada, aflitopara encontrar Elisa. Mas também pensava ele: “Por que ela não ficara esperando porele?” E agora, se não a encontrasse?Enquanto isso, Elisa perdida em algum lugar, pois fora andando sem rumo e depois nãoconseguiu encontrar o caminho de volta, pensava em voz alta e quase chorando: 18 8
  • 189. _ “Por que o Carijó fez isso comigo? Sumiu daquele jeito no meio da feira, desembestadofeito um doido. Nem falou comigo. Também pudera, eu acho que ele tem razão. Carijócom certeza andava cansado de mim e dos meus problemas, por isso que ele estava meioesquisito. E o pior é que eu estava gostando dele. Que bobagem... Ele é seis anos, maisjovem que eu ele é só um menino. Eu tenho que é tomar vergonha na cara, pois já souuma mulher! Além do mais, a única coisa que eu quero na vida é meu filho!”. Elisa não conseguia mais segurar as lágrimas, dando vazão aos seus sentimentos tãoconfusos. _ “E agora o que vai ser de mim, meu Deus?” _ pergunta-se Elisacompletamente desnorteada. Mais uma vez ela rezava e mais uma vez a DivinaPrevidência vinha em seu socorro, ainda que ela não percebesse... Começou então asentir-se mais calma, mais serena, não deixando levar-se pelo desespero.Parte 10 CapítuloCarijó já exausto de tanto andar a procura de Elisa, de vez em quando ficava na ruaperguntava para um ou para outro sobre o seu paradeiro, mas não obtinha a respostasatisfatória afinal ninguém a conhecia e ele fica sem saber que rumo tomar numa cidadetão grande. Ele volta ao local onde ambos acostumavam dormir em um abrigoabandonado em uma praça, Elisa também passou por aquele lugar a alguns minutos antesde Carijó na esperança de encontra-lo. Mas ela não teve a paciência de permanecer pormais algum tempo. Seu coração já estava apertado de saudades e preocupação e ele nãosabia mais o que fazer. Com certeza Elisa deve ter se perdido e sabe Deus onde estariaagora. 18 9
  • 190. Só restava esperar que ela acabasse encontrando o caminho de volta, mais cedo ou maistarde em outra feira eles por duas vezes se cruzaram, mas não perceberam um ao outro.Porém Carijó resolve partir em busca de sua companheira, pois não era de ficar de braçoscruzados e esperando que as coisas se resolvam por si próprias.Ainda mais se tratando de alguém tão especial para ele como era Elisa. Ah, como elequeira que ela soubesse do amor e do carinho que ele sentia, sem que ele tivesse que seexpor; Sem que tivesse que falar para ela dos seus sentimentos, do seu amor secreto. Era-lhe tão difícil colocar seus sentimentos em palavras e sempre que ele tentava, vinha-lheaquele nó na garganta, o estomago até embrulhava só de pensar e as palavras não saiam;Embora ele fosse extremamente extrovertido, na hora de declarar o seu amor nem pareciao mesmo Carijó que todos conheciam. Faltava-lhe coragem. Justamente ele que era tãocorajoso e destemido. Determinação era o seu ponto forte, mas então ficava a sertotalmente sem graça e sem jeito de declarar seu amor para Elisa. Por várias vezesensejara e por inúmeras vezes tentara encontrar o momento certo, mas sempre revogavaarrumando uma desculpa para sua pusilanimidade. Era como se algo o impedisse. No seuíntimo o que mais temia além de ser rejeitado por ser ainda um moleque, seria submergirna amizade de Elisa. Enquanto ele podia ao menos desfrutar de sua companhia, amando-aem silêncio já se sentia gratificado.Esperava que ela de alguma maneira percebesse, nem que fosse através de seus pequenosgestos. As pequenas coisas que ele fazia para agradá-la como, por exemplo, dar-lhe umaflor roubada de algum jardim, deixar o único colchão velho achado no entulho disponívelpara ela dormir confortavelmente enquanto ele dormia no chão duro e frio; Ou então 19 0
  • 191. aquelas guloseimas gostosas que ele abria mão para deixar ela saborear e mesmo que eletivesse vontade, fingia não querer enquanto a observava discretamente, assim, com ocanto dos olhos; ela deliciando-se com os doces tal qual uma criança chegando até mesmoa lambuzar-se toda.Lembrou-se de uma vez em que Elisa se lambuzara toda de chocolate rindo muito depois,em que ela lhe oferecer os lábios para que ele sentisse o gosto do chocolate em que elaacabara de degustar, ela feliz como em raros momentos. Ele a havia encostado seus lábiosnos de Elisa. Para Carijó aquele foi o momento mais feliz de sua vida, até então. Como elaera linda, pensava ele. Mas de onde conhecia aquele olhar, que lhe parecia tão familiar...Por que ele sentia aquela emoção e um friozinho na barriga cada vez que ela o encarava?E ele a sentia como em uma retrospectiva ela em varias formas, bela e feminina em suamente sempre junto a ele. Como definir aquele sentimento, senão sendo como amor de varias vidas? Isto lheintrigava. Um amor puro, sem malícia, algo que transcendia no tempo e no espaço.Um dia... Pensava Carijó _ “Quem sabe, um dia... _Com estes pensamentos as emoçõesinvadiam seu coração de ainda menino totalmente ingênuo no tocante ao amor e grossaslágrimas jorravam dos olhos do jovem Carijó: Mas que em compensação lavavam suaalma.Os dois se procuram por quase todas as ruas de Belo Horizonte, às vezes até chegammuito perto um do outro no meio da multidão quase se esbarrando, mas quis o destino queeles se separassem, até que Carijó desiste temporariamente da procura e tenta concluir 19 1
  • 192. suas investigações, simplesmente para não deixar pela metade, pois assim era seu costumede terminar o que começou. Não podia mais perder tempo.Parte 10 Capítulo IISendo assim...Na semana seguinte, logo bem cedinho Carijó dá o ar da graça, surpreendendo Toni que jáestava preocupado com ele._ Carijó, achou sua amiga? _ pergunta ele aflito.Não, não achei, e estou desesperado com o seu desaparecimento. Não sei mais ondeprocurar e olha que eu já revirei a cidade. _ Mais cedo ou mais tarde ela vai acabar aparecendo, você vai ver. _ Deus te ouça, Toni, Deus te ouça, meu amigo. _ O que você está fazendo Carijó? Tem algum compromisso? _ Não._ Você pode então me dar uma ajuda?_ Claro que posso. Vai ser até bom para mim, assim eu me distraio um pouco e não pensonos meus problemas._ É assim que se fala garoto! Fé em Deus e bola pra frente; como se diz por aí...É, Carijó, você está sempre pronto a ajudar as pessoas e isso é muito bom, sabia?_ De repente, sem que eles percebessem dona Clotilde aproxima-se da banca todasorridente como era seu costume. Desta vez vem acompanhada de sua patroa. 19 2
  • 193. _ Bom dia dona Clotilde! Bom dia dona Dolores. Sejam bem vindas._ Bom dia! _ respondem as duas alegres com a recepção calorosa._ Lembra-se de mim? Eu sou Carijó, e estou sempre ao seu dispor! É só pedir._ Menino, você é muito educado e gentil. Quando crescer será um cavalheiro. _respondeu Dolores admirada._ É... Se eu tivesse oportunidade de estudar, quem sabe? _ E você não estuda? Não vai aescola? _ pergunta Dolores _ Não, senhora._ Por quê?_ É que ele mora na rua, dona Dolores. _ responde Toni tentando explicar a situação deCarijó._ Ah... Eu não sabia que até mesmo crianças morassem nas ruas. E os abrigos?! Nóspagamos tantos impostos, por que não usam esse dinheiro para tais fins? Nenhuma criançadeveria passar por isso. É inaceitável! Uma pouca vergonha dos nossos governantes._ No rádio e na televisão eles sempre falam de crianças que moram nas ruas. E não ésensacionalismo é a pura realidade._ É verdade, mas às vezes a gente até pensa que isso não existe de fato, que é só ficção. Édifícil de acreditar, mesmo sabendo da miséria e as injustiças sociais que há por aí._ Ficamos na rua até surgir um herói que traga justiça em todos os sentidos, para este beloe gigante, Brasil. _Com estes argumentos de Carijó ele empolga-se._ Como você sabe tudo isso, meu filho? _ pergunta Dolores. _ Falou bonito, hein?! _ Meu filho?! Obrigado pelo meu filho; Eu não tenho esse privilégio de ter uma mãe eouvir alguém tão linda como a senhora me chamar de filho... Eu peço que me perdoe, maspor um segundo acho que me empolguei. 19 3
  • 194. _ Você é muito esperto, menino Carijó! _ comove-se Dolores._ É,e,e, senhora Dolores: Também o ambiente em que vivi me ensinou muito, inclusive látem até escola._ E onde é?_ No orfanato onde fui criado até meus dez anos.Dolores resolve partir, mas não sem antes cometer sinceros elogios ao garoto._ Bem Clotilde, vamos às compras. Até logo, Carijó! Gostei muito de você, garoto.Você é muito esperto e inteligente para a sua idade.Clotilde sempre tão tagarela, desta vez escolhia as frutas em silêncio, só ouvindoadmirada a conversa de sua patroa com o menino, afinal era raríssimo, dona Doloresconversar com estranhos.Sabia que sua patroa era um tanto calada e reservada e por isso admirava-se ao vê-laconversando tão entusiasticamente com Carijó.Carijó pensa: “tenho que me aproximar da casa de dona Dolores, preciso bolar um plano”.Mas não seria realmente necessário, pois Dolores vai até o final da feira e faz o mesmocaminho de volta. Ela então convida Carijó para almoçar em sua casa, arrumando até uns“bicos”; pequenos serviços para ele fazer e ele volta lá várias vezes, passando a freqüentara casa, sempre muito prestativo, caprichando o mais que pode em todas as tarefas da qualé incumbido.As noites de Carijó eram perturbadas, pois não tinha Elisa em sua companhia, e sentia-seculpado pela separação não espontânea dos dois. A saudade era imensa e doía no peito. 19 4
  • 195. Bem que Elisa poderia ter indagado ao Toni sobre o paradeiro de Carijó, mas o orgulho,por deduzir que Carijó arranjou um jeito de se safar dela.Numa noite de contemplação, Carijó não conseguindo dormir, então ele começa a fazerum retrocesso em sua vida; Começa a voltar para os dias atuais e lembra-se porque certanoite ele acordou sobressaltado. Elisa estava tendo um pesadelo no qual se debatia muito e gritava o nome de Dolores.Dizia também: _ “Zé...! Pai! Mãe! Por que me abandonou? Filhinho! Neném! Mãe! _parecia aterrorizada e desesperada. Carijó acordara-a e dera-lhe um pouco de água, poisela transpirava muito, depois ficou com ela até que dormisse novamente. No dia seguinteela não se lembrava de nada, apenas sentia uma forte dor de cabeça como jamais haviasentido antes”.Carijó naquele momento se lembrava bem daquela noite e achou muita coincidência elater chamado o nome “Dolores” várias vezes. Seria a mesma pessoa que ele agora tinhacontato e que também se chama Dolores? Mas como podia ser? Como bom investigadorque era ele jamais descartaria um acontecimento como aquele pesadelo que Elisa tiveraele tentava juntar as pecas daquele quebra-cabeça que tanto o intrigava. Qual seria osignificado de tudo aquilo? 19 5
  • 196. Parte 10 Capítulo IIICarijó continua trabalhando na feira, na banca de seu amigo Toni no período da manhã.As vendas aumentaram consideravelmente, graças ao carisma dele que conquistara de fatoa freguesia. Jovens, senhoras, homens e mulheres. Carijó sabia agradar a todos.De repente eis que surge Dolores seguida de Clotilde, sua fiel assistente para todos osassuntos domésticos, seu braço direito. Dolores ao ver Carijó chama-o e ele atende-aprontamente. Sempre sorrindo e mostrando-se todo solícito._ Pois não, dona Dolores! Estou ao seu inteiro dispor. Gostaria que eu levasse a sacolapara a senhora? Será um prazer. Deixa comigo!_ Obrigado menino. A propósito, Carijó você quer almoçar na minha casa hoje? Meumarido vem almoçar conosco excepcionalmente, pois ele raramente almoça em casadurante a semana e eu falei tanto de você que ele gostaria muito de conhecê-lo. Você énosso convidado. Convidado de honra!_ Não. Dona Dolores: Sinto muito, mas não posso aceitar o convite. Sinto muito enfatizao menino astuto com logro._ Por que não, Carijó? Você não aceita o meu convite? Vai me fazer essa desfeita? Eununca pensei..._ É que eu estou muito mal vestido, dona Dolores. Seu marido é um homem importante.O que ele iria pensar de mim? Eu tenho vergonha de me apresentar assim diante umapessoa tão importante do porte dele.Dolores comove-se com as palavras de Carijó. 19 6
  • 197. _ Não faz mal, Carijó._ Se fosse no seu lugar, também não me sentiria bem. Desculpe! _É capaz de eu morrerde vergonha. Espero que a senhora entenda._ Tudo bem. Não seja por isso. Então passamos numa loja lá no centro da cidade ecompramos uma roupa bem bonita e elegante para você. Se isso o fará sentir-se melhor.Está bem assim? Mas, por favor... Não recuse o meu convite Carijó!_ Mas... _ela o interrompe entusiasmada:_ Não tem, mas, meu rapaz. Eu faço questão. Você vai aceitar o meu convite! Não vai?Diga que aceita... E me fará muito feliz._ Aceita, Carijó! _ interfere Clotilde. _ Dona Dolores não costuma convidar ninguémpara ir à sua casa. Se ela te convidou é porque faz questão que você vá._ Mas... Mas..._ Mas o que? Você não é qualquer um, por isso estou te convidando. Você é umrapazinho muito especial Carijó, pode acreditar. _ acrescenta Dolores.Carijó acaba cedendo apesar da vergonha que demonstrava sentir-se. Na verdade era tudoque ele queria para ficar mais a vontade em seus anseios de inquirição. Um pouco antesdo almoço Carijó trava conhecimento com doutor Ricardo, marido de dona Dolores quefoi logo deixando o menino à vontade e também ficara espantado com a desenvoltura elucidez do jovem. Conversaram bastante e o almoço transcorreu muito agradavelmente. Acomida estava deliciosa e Carijó pensou nunca antes ter provado iguarias tão gostosas. 19 7
  • 198. Clotilde caprichara como sempre... E ainda com direito a vários tipos de sobremesas. _pensava ele. Seus olhos encheram-se de água ao lembrar-se de Elisa e do quanto ela iriaadorar aquela refeição caprichada e principalmente os doces, pois era louca por eles,carijó gostava de doces também, mas não tanto quanto ela. Apreciava mais os pratossalgados. Achava que doces eram para crianças... E por falar em criança, ele gostou muito de Ramon, pois tinha muita paciência com ospequeninosDr.Ricardo agora entendia o encantamento de Dodô por Carijó. Realmente era admirávelum rapazinho naquelas condições tão precárias. Com uma inteligência magnífica emuitíssimo, educada também. Isso provava o quanto o ser humano tem a capacidade dedesenvolver-se mesmo em condições tão adversas e talvez até justamente por causa delas.Apesar de estar adorando a conversa e a companhia agradável de Carijó, doutor Ricardoconteve-se porque teria que voltar ao trabalho, assim que terminou de almoçar, mas nãosem antes tomar seu habitual cafezinho. Muitos compromissos inadiáveis o aguardavamna parte da tarde. Bem que ele gostaria de poder ficar mais, mas não podia.Carijó também se despediu prometendo de voltar outro dia.Também gostara muito do marido de dona Dolores e daquele ambiente familiar que paraele tornara-se tão agradável.No caminho de volta Carijó pensava alto:_ “Dolores, Elisa, Dodô, Elisa só quem a chama assim é o doutor Ricardo”. 19 8
  • 199. Será porque o tal do “Zé, marido de Elisa, tinha naquele papel o nome de Dodô “, em vezde Dolores com seu número de telefone? Ah, já sei! O doutor deu esse nome para nãolevantar suspeitas, mas o bilhete caiu nas mãos do Carijó, o maior investigador que há emtodo país. Eu prometo a mim mesmo que vou desvendar esse mistério... Ah, se vou! Paramim Será questão de honra.Na semana seguinte Carijó volta à casa de dona Dolores para cuidar do jardim conformehavia prometido. Esta é uma atividade muito prazerosa para ele que adora a natureza.Ama o contato com a terra, cuidando de plantas e flores e faz isso com tanto amor queelas sentem e retribuem com beleza, aroma e exuberância. Seria um excelente jardineiropor natureza se seguisse esta profissão pois possuía um grande senso estético, tornando-se quase um paisagista.Havia em Carijó uma predileção pelas rosas, pois admira a sua beleza e seu perfume, issosem falar na maciez de suas pétalas. Chega a conversar com elas fazendo-lhes mil elogios,pois sente que são as vaidosas e caprichosas, tal como as mulheres de bom gosto.A sensibilidade de Carijó permitia que ele captasse tudo aquilo, inclusive o cheiro da terramolhada que para ele era um aroma delicioso.Enquanto Carijó cuidava do jardim, lembrava-se de dois sonhos consecutivos esemelhantes que sempre o intrigara, mas para o qual nunca encontrou uma explicação.Sonhara por vezes que estava em um lindo e imenso jardim repleto de rosas e deorquídeas várias que ele circundava e também um imenso castelo. Ele via-se na pele deum jovem com cerca de seus vinte e um anos completamente apaixonado; tão apaixonado 19 9
  • 200. que seria capaz de cometer loucuras em nome desse amor que cientifica ser um amorproibido. Mas... Por quê? Por que era um amor impossível? No sonho Carijó via-senaquele jardim imenso e muito bem cuidado “brincando” e sorrindo muito na companhiade uma linda mulher. Não conseguia discernir o seu rosto, mas ouvia seu riso, que paraele era como uma encantadora melodia. Eles pareciam dois infantes, de tão felizes eespontâneos, sem se importarem com nada.O personagem que Carijó pressentia persegue aquela bela dama em um determinadomomento e então ela tropeça e cai, pois ele segura a ponta de seu longo vestido.De repente ele perde o equilíbrio e advém em sua queda quase por cima dela e os doisagora sérios olham-se fundo nos olhos e naquele olhar ele vê toda sua vida. Sente que elaera tudo o que ele precisava para viver. Muito mais do que o próprio ar que respirava.Então se beijam instintivamente e por um bom tempo extravasando todo aquelesentimento que já não podiam mais conter. Amaram-se loucamente e ambos eramplenamente correspondidos. Seus corações estavam em folguedo festival, e naquelemomento ele nem se lembrava que ela era casada e que eles corriam serio risco caso seumarido descobrisse. Jamais os perdoaria.Carijó na pele do jovem de seus sonhos não conseguia ver o rosto daquela linda mulherem seus exacerbados sonhos, apenas um vulto, mas sabia que ela era linda e era o amor desua vida... Algo de muito grave estava para acontecer... Mas o que? Ele sempre acorda noinstante em que as nuvens escuras pairam no céu anunciando a tempestade, então os doisapaixonados olham-se aflitos prevendo uma inevitável separação ou talvez coisa pior. 20 0
  • 201. Tudo é muito confuso e então Carijó acorda com a sensação nítida, uma forte impressãode já ter vivido aquela cena. Depois que encontrou Elisa algo assim ainda mais inteligentepassou a acontecer. Quando ele tinha esse mesmo sonho, às vezes via o rosto dela, deElisa, no sonho e às vezes o rosto se associava ao de uma mulher linda, de olhos de umazul profundo como o mar e de um porte elegante e altivo. Os dois rostos se confundiam,alternando-se e associando Elisa aquela linda mulher. De alguma maneira ele sabia tratar-se da mesma pessoa. Mas como poderia ser? Isto deveras é enigmático.Nunca falara com alguém sobre esse sonho, pois temia que o julgassem maluco. Nemmesmo com Elisa ele teve coragem de argumentar este assunto que para ele seria detremenda importância, pois ela iria com certeza achar que era apenas mais uma das muitashistórias fantasiosas que ele inventava para distraí-la. Mas não era. Aqueles sonhos eramreais.Tão distraído que estava nem percebeu quando Clotilde aproximou-se, trazendo-o de voltaà realidade._ No que está pensando, menino Carijó? _ ela indaga curiosa._ Nada, não, só estava pensando em umas coisas bobas sem a menor importância donaClotilde._ E pode-se saber o que é?Carijó aproveitando aquela pergunta da colaboradora de Dolores, então resolve colocarseu plano em ação. 20 1
  • 202. _ Eu estava pensando em uma coisa bem bacana, mas vou precisar de sua ajuda. Contocom a sua colaboração._ Como assim? _ pergunta Clotilde já morrendo de curiosidade._ É o seguinte: Estou pensando em mandar uma carta para aquele programa de televisão“Esta é a sua vida”, homenageando este fantástico casal, dona Dolores e seu marido e ofruto do amor deles, o menino Ramon;Por isso preciso saber sobre a vida deles, por exemplo, como começaram a namorar.“Coisa assim..._ Mas como assim? Não estou entendendo, Carijó. Aonde você quer chegar?_ Como eles se conheceram, como foi que se apaixonaram? Como ambos se conheceram,onde nasceram enfim detalhes de como tudo começou._ Isso eu não posso fazer; não posso falar da intimidade do casal._ Pode sim. Ah, conte-me tudo, Clotilde. Não tem nada de mais!_ Por que tenho que fazer isso, menino? Não sei não, hein?! Não gosto de falar da vidados nossos patrões.Porque quero fazer uma homenagem que eles nunca mais se esquecerão. Eles merecemuma homenagem, você não acha? São pessoas muito boas. Você não gostaria de fazer issopor eles?Com sua ingenuidade, Clotilde relata quando Dolores se casou com Doutor Ricardo e queela tinha apenas treze anos de idade e também que sua patroa nasceu numa pequenacidade por nome riacho Grande era só o que sabia. 20 2
  • 203. Para as investigações de Carijó, isto já era um grande avanço, mas não o suficiente para assua conclusões e que ainda era um mistério que pairava sobre a cabeça do garoto.Carijó anotava tudo o que escutava para suas buscas. Toda e qualquer informação é muitoimportante, mesmo aquelas que parecem não ter a menor importância.Então ele resolve voltar ao inicio, de onde tudo começou. Mais uma vez seguiria na suadestemida busca pela verdade, onde quer que ela estivesse, ele só queria a verdade, nua ecrua doa quem doer.Parte 11Capítulo ICarijó então segue em suas averiguações. Com pouco dinheiro que havia guardado pelosseus serviços prestados ele parte de volta à pequena cidade onde Zé e Maguinaldoestavam presos e vai diretamente para a delegacia._ Doutor Feijó “o delegado”, lembra de mim?_ Não. Não me lembro. _ reponde o delegado sem sequer olhar direito para ele, poisestava muito atarefado naquele dia. Com a violência aumentando até mesmo nas cidadespequenas, não poderia perder um minuto para ficar de prosa._ Então me de algumas balas ou doces que eu falo quem sou._ Não é possível É você Carijó? É você mesmo ou será que eu estou tendo uma visão?_ Exatamente doutor! Sou eu em carne e osso. E é um prazer rever o senhor com saúde etrabalhando em nome da justiça como sempre._ Como você cresceu moleque! Está diferente, até sua voz engrossou, rapaz! 20 3
  • 204. _ É verdade, doutor. Mas eu sou o mesmo e preciso de um grande favor do senhor. Emnome dos velhos e bons tempos. Ou será que o senhor já se esqueceu do seu amigo aqui?_ Claro que não, Carijó. Sempre eu me pergunto o que teria sido feito de você.Preocupava-me pensando se você não teria se dado mal ao intrometer-se onde não era dasua conta. Mas diga-me. Qual é o favor?_ O Zé e o Maguinaldo ainda estão detidos aqui nesta delegacia? _ Por que pergunta? Não sei, não hein? _ pergunta o delegado um tanto intrigado. _ Deixe-me falar com eles?_ De jeito nenhum! Quem você pensa que é seu moleque? Não é autoridade; Ainda é ummoleque e vejo que continua atrevido._ O senhor desculpe o meu atrevimento, mas eles estão em cana graças a minha grandecolaboração com a justiça se não fosse a minha ajuda._ Eu sei Carijó, mas as normas da lei não permitem._ A lei também não permitia que eu fosse até Riacho Grande buscar as provas necessáriaspara botar os dois delinquentes na cadeia, mas eu fui, não é mesmo?_ Bem, isso é verdade. Eu sou obrigado a reconhecer a importância da sua ajuda..._ E então? Deixa, vai doutor?_ Não, Carijó. Não pode!_ Doutor o senhor lembra que o Zé falou que tomou aquela atitude porque o filho não édele? Só que o filho é dele sim! 20 4
  • 205. _ Como você sabe?_ Eu sei. Na hora certa eu lhe falo. Por favor, abra uma exceção dei-me falar com o Zé._ Você está sonhando, moleque. Saia daqui, por favor, pois eu preciso trabalhar._ Doutor, o senhor é um homem justo, eu sei. Por favor, me dá essa oportunidade, euposso até estar errado, mas desde aquela época eu tenho trabalhado nisso. Só quero cincominutos com eles, é só o que lhe peço, prometo não lhe pedir mais nada._ Está bem. Você vai entrar lá não mais que dois minutos. Ah, eu não sei onde estou coma cabeça..._ Obrigado doutor. Nem sei como agradecer. Sabe Doutor: O senhor e o meu maiorídolo!, Eu sempre me inspirei no seu talento.O delegado nem sequer responde, apenas olha para cima como se estivesse clamando aoscéus por paciência.Alguns instantes depois Mantiqueira resolve interferir e diz:_ Doutor com todo respeito, acho que o senhor está ficando maluco. É melhor mandaraquele moleque sair da carceragem já, pois ali não é lugar para ele, isso ainda vai dar umaencrenca dos diabos!_ Naquelas alturas, Carijó já havia ido até a cela e convencido ao Zé a relatar a história,alegando que era amigo intimo do delegado e se ele lhe contasse sobre o passado de Elisaele poderia convencer o delegado a libertá-lo. O que Zé sabia com relação à Elisa e suafamília. Zé na ansiedade de se ver livre do cárcere lhe dera algumas poucas informações, 20 5
  • 206. Carijó decidiu então ir até Riacho Grande onde reencontrou Carlão, que se tornara seuamigo.Carlão lhe apresentou pessoas mais velhas, inclusive a prostituta que apanhou da cafetina,dona Dondoca. E assim Carijó conseguiu as informações que precisava.Ele era realmente muito esperto.Após a conversa que Carijó tivera com Zé e logo após com o Carlão, a prostituta ealgumas pessoas de Riacho Grande só lhe faltava confirmar com dona Dolores o que eletinha de informação para concluir tudo em relação ao filho de ElisaParte 11capítulo IIDe volta a Belo Horizonte, no bairro da Pampulha, onde morava Dolores, Carijó deciderevelar-lhes tudo o que sabia._ O de casa! _ grita ele ansioso._ Diga, meu rapaz. O que deseja? _ diz um senhor que pintava a fachada da casa._ Quero falar com dona Dolores._ Aqui não tem nenhuma Dolores. Estou reformando a casa para a pessoa que comprouesta casa há alguns dias, ela se chama dona Isaura e não Dolores._ Não é possível! _ responde Carijó desesperado, mal podendo acreditar na sua falta desorte. Logo agora que desvendara aquele quebra-cabeça... _ Para onde eles mudaram? O senhor sabe? É caso de vida ou morte!_ Não sei, meu amigo. Desculpe. 20 6
  • 207. _ A nova dona da casa está? Quando eu posso encontrá-la?_ Daqui a pouco ela chega. Pode esperar se quiser. Eu só não posso ficar de prosa comvocê, pois tenho muito serviço, como pode ver._ Não se incomode comigo, senhor, eu prometo que não vou atrapalhar.Carijó sentia vontade de chorar, mas não podia perder as esperanças, pois já haviachegado tão longe por tanto não poderia jogar tudo pro alto, Só que ele não esperava poressa. Seus amigos nunca haviam mencionado uma possível mudança. Ele bem que tentavapuxar pela memória, mas não se recordava. Talvez tivessem mudado em segredo. Mas,por quê?Passado um tempo que lhe pareceu uma eternidade..._ Pois não, meu rapaz, o que deseja? _ pergunta uma senhora robusta e muito simpatia._ O que preciso é de uma informação muitíssimo importante. Se a senhora puder meajudar eu lhe serei eternamente grato._ Mas o que é? Diga logo, sou toda ouvida. _ responde dona Isaura já curiosa._ A senhora sabe para onde dona Dolores e sua família mudou-se?_ Eles foram para São Paulo, capital meu filho._ E o bairro? Por acaso a senhora saberia me dizer?_ Eu não sei não, só sei que é na capital._ Está bem. Muito obrigado. Deus lhe pague._ Até logo, rapaz. E boa sorte. 20 7
  • 208. Carijó não se conformava, pois sempre ouvira falar que São Paulo é uma cidade imensa.Seria praticamente impossível encontrá-los. E ainda havia Elisa que desaparecera. Entãoele decide procurar Toni, seu amigo feirante que fica muito feliz ao revê-lo e o recebecom um largo sorriso._ Carijó, faz um tempão que eu estou a sua procura! Pensei até que nunca mais fosse lhereaver, meu amigo._ Pois é quem é vivo sempre aparece, não é mesmo? Pensou que fosse se livrar de mimassim tão fácil?_ Você sumiu, onde estava? Por aí._ Você não está mais procurando sua amiga Elisa?_ Lógico que estou. Eu nunca desisti de procurá-la. Você a viu? Ela esteve por aqui?_ Carijó, infelizmente as noticias não são boas. Ela pegou uma pneumonia muito forte eficou mal, foi internada aqui em Belo Horizonte e depois foi transferida para São Paulo._ Que lugar? Como assim?_ Para a Santa Casa de Misericórdia. Lembra-se de minha irmã mais velha?_ Sim é claro._ Pois é... Ela trabalha no hospital, lá onde Elisa esteve internada e a conheceu aqui nafeira, lembra-se? Quando Elisa começou a contar sua história, minha irmã então selembrou da “sua Elisa” e descobriu que ela era sua amiga. Ela me ligou contando que 20 8
  • 209. reconheceu Elisa e que ela estava mal, tendo que ser transferida para São Paulo, onde hámais recursos e mais leitos disponíveis.Carijó desesperado diz:_ Toni preciso ir para São Paulo._ Você é louco, aquela cidade é imensa e perigosa. Você não sobreviveria muito tempopor lá._ Mesmo assim, preciso ir para São Paulo. Não se preocupe comigo, pois eu sei me virarem qualquer lugar e não tenho medo de nada._ Como você fará isso?_ Tenho um dinheiro aqui que não é muito talvez não dê para pagar a passagem, mas dareium jeito. E chegando lá eu me viro, esquece que eu durmo na rua? Você poderia mearrumar mais algum trocadinho? Prometo que lhe pagarei assim que puder._ Tudo bem. Toma aqui mais esse dinheiro, acho que é o suficiente para a sua passagem etambém para a sua alimentação durante a viagem. Vá com Deus garoto. Vou rezar porvocê e por Elisa. Não tem jeito mesmo pra te segurar. Vá com Deus e juízo! _ respondeToni tentando segurar as lágrimas que teimavam em brotar de seus olhos._ Obrigado, Toni. Você é realmente meu amigão. Não sei o que seria de mim sem você.Um dia eu te pago amigo!_ Você não me deve nada, Carijó. _ responde Toni já com saudades do amigo que partianovamente, agora rumo ao desconhecido. 20 9
  • 210. Parte 11 Capítulo IIIJá em São Paulo, muito impressionado com a imponência dos altos edifícios e com aimensidão da cidade..._ Não foi fácil, mas depois de três meses e muito andar achei a tal Santa Casa demisericórdia: Até que não demorei muito, mas pra chegar até aqui, tive que andar em, mascompanhias e... Eu acho que estraguei minha vida em prol de Elisa, mas tenho que meconformar cada um de noz tem que passar pelos nossos dissabores a vida é assim mesmo._ pensava Carijó aflito agora para encontrar Elisa. Será que ela estaria bem? Estaria viva?Ele não sabia e isso o deixava profundamente angustiado, como jamais se sentira antes.La chegando, dirigiu-se até a recepção, com o coração disparado, parecia que iria pularpara fora do peito, então ele pergunta aflito:_ Eu gostaria de saber sobre uma paciente por nome Elisa, por favor._ Elisa de que, meu rapaz?_ O sobrenome eu não sei, não senhora._ Então assim fica difícil, mocinho. Existem muitos pacientes aqui neste hospital.Carijó então explica que ela fora transferida de Belo Horizonte com um caso gravíssimode pneumonia a uns noventa dias atrás.Enquanto a recepcionista procurava, Carijó temia que ela não tivesse resistido. Se issotivesse ocorrido, então ele perdera seu amor para sempre. Não era possível que justo agoraque suas investigações estavam quase concluídas ele sofreria tamanho golpe, aí entãonada mais, valeria à pena e todo seu esforço fora em vão. 21 0
  • 211. O tempo de espera parecera muito longo para ele e que o separavam de sua amada...Finalmente a recepcionista localiza Elisa na enfermaria e Carijó é conduzido até lá. Suaspernas tremiam. Mal podia conter a alegria e a emoção do reencontro, dizendo baixinhoao abraçá-la para que só ela ouvisse:_ Ah, Elisa, que saudades. Eu tive tanto medo de perdê-la. Perdoa-me.Elisa, também emocionada estava muito surpresa e mal podia acreditar que eles estavamnovamente juntos._ Mas como é que você me encontrou aqui, Carijó? _ pergunta ela entre risos e lágrimas._ Ah, essa é uma longa história. Depois eu te explico melhor. Agora me diga, como é quevocê está?_ Eu agora estou bem!Mas não sei como escapei da morte, Aqui eu sou muito bemtratada, bem até demais. O problema é que eu vou ter que voltar para as ruas, passar frio enecessidade, então já viu NE? Seu eu tiver uma recaída... Aqui está tão bom! Nunca tiveuma cama igual a essa, tão quentinha e macia. Sou alimentada quatro vezes por dia e nãoprecisa nem pedir. Isso aqui é o paraíso. Vou dar um jeito de pegar outra pneumonia sópara ficar aqui mais um pouco._ Ah, não fale isso nem de brincadeira. Você quase me mata de preocupação._ Ah, é mesmo? Obrigado por ter me abandonado naquela feira lá em Belo Horizonte.Quase ia me esquecendo de te agradecer, seu Carijó!_ Não, não, é verdade. Você está enganada. _ responde Carijó com lágrimas nos olhos. _ Sei, bobinho, agora eu sei. Não sou tão burra. Durante a minha vida eu aprendi algumacoisa. Sei quando as pessoas estão sendo sinceras. 21 1
  • 212. _ Mas eu tenho um pouco de culpa sim. Você deve ter me odiado, não é mesmo?_ Eu senti tanto a sua falta, Carijó. Se eu tivesse ao seu lado, garanto que nem doente euteria ficado. Meu coração chegava a doer de saudades de você, passei muito frio e chuvanada mais me importava._ Eu também fiquei doente._ Como assim, você foi internado também?_ Não, não foi bem assim Elisa; Na verdade quando eu comprei a passagem para SãoPaulo eu não tinha noção da dimensão do estado de SãoPaulo e Ives de vir para a capitalpaulista fui para em uma cidade do interior e após o ônibus chegar ao seu destino já eramais ou menos uma hora da madrugada, então parei olhei para um lado olhei para o outrolado e assim que eu avistei três rapazes resolvi perguntar se o hospital da santa casa ficariapróximo dali, mas pro meu azar eles estavam drogados e dividindo o que elesconseguiram em um assalto. Em seguida a policia chegou e nos deu voz de prisão comisto eu passei de inocente a compareça dos tais assaltantes, como se eu estivesseparticipado daquele delito fui preso junto com os delinqüente então eles me seguraram eme drogaram com uma seringa em que era usada coletivamente com isto me tornei umviciado e ao sair da cadeia os policias alegando que iria nos soltar por sermos peixepequeno e que os lhes interessava era peixe grande então nas minhas andanças por aiconheci outro pessoal da pesada e você sabe como é... Conversa vai, conversa vem e opessoal cismou que eu era “dedo duro” e que os entregariam prá polícia.Mas Para provarque eu não era nada disso me obrigaram a injetar mais droga na veia, só que aquilo deixaa gente fora do normal e vicia. Aí então eu comecei a sentir a necessidade da maldita 21 2
  • 213. droga, ou seja, quando dei por mim já estava viciado. Hoje sou um dependente químico.Infelizmente... Não vivo sem a droga._ Mas em tão pouco tempo?_ Para você ver. Basta experimentar para entrar no inferno. Se existe demônio, isso é umacoisa dele. Destrói qualquer ser humano... Acaba com a vida e dignidade de qualquer um.E a droga está acabando com a minha vida._ E agora, o que é que nós vamos fazer? Você sempre me ajudou. Então é a minha vez.Estou com você para o que der e vier. Eu tenho que dar um jeito para reverter estasituação eu te prometo que irei te ajudar._ É, eu pensei muito em você. Dia e noite. E sonhava, ou melhor, eu planejava lheencontrar. E o mais engraçado é que nos meus sonhos você às vezes não era você, isto é,você era outra pessoa com outro rosto e outro corpo, mas eu sabia que era você. E ossonhos eram tão reais que eu acordava muito feliz, pois tinha estado contigo ao menos emsonho._ Saiba você, que eu também tenho uns sonhos esquisitos que em muitas das vezes seassocia a você e são sonhos muito bons e que às vezes, parecem ser reais tão verdadeirosque eu chego a pensar que já vivi aqueles momentos. É engraçado esse negócio de sonho,não é?_ Tenho tanta coisa para te contar, Elisa. Você sentiu saudades de mim?_ Claro que sim. Muita saudade e raiva também._ Mas eu te procurei! E muito. 21 3
  • 214. _ Eu imagino. Eu também te procurei muito, meu amigo. Mas acho que o destino quis quea gente se separasse por um tempo. Sei lá... Vai saber!_ Bem, Elisa ficamos um bom tempo separados e sinto que você, mesmo com todo otempo que ficou na rua sozinha, ainda é bastante ingênua._ O que você quer dizer, Carijó?_ Calma Elisa: Deixa me falar. Preciso desabafar, sei lá, não é fácil. Não sei como vai serminha vida de hoje em diante._ Calma, digo eu Carijó. Agora que a gente está junto de novo, tudo vai melhorar. Vocêdeveria estar feliz. Você não gosta de mim, não é meu amigão? E pensando bem eu achoque somos muito mais do que somente amigos._ Sempre gostei de você Carijó, sempre: Desde que te conheci, sei lá, parece que oconheço há muito tempo. É uma sensação saudosa, uma lembrança de um passadoinexplicável e muito distante..._ Então vamos em frente. Enxuga as lágrimas! Não quero ver você triste. Senão voujuntar as minhas tristezas com as suas e aí não vai dar certo, não é mesmo?_ Mas acontece que o problema não é só esse Elisa, responde Carijó com os seus olhosnegros entrelaçados com lagrimas. Demonstrado uma fortaleza incrível para a sua amada._ E o que é então, Carijó? Você sabe que pode confiar em mim, não é? Somos um pelooutro._ É verdade, eu sei. Veja bem, quando a pessoa usa droga e principalmente na veia, eoutros viciados usam também a mesma seringa, é justamente aí que vem o pior. Você jáouviu falar na AIDS ou HIV? 21 4
  • 215. _ É já ouvi falar sim. Aqui na Santa Casa eles falam muito dessa doença e parece queainda não tem cura. É uma doença que mata sem piedade._ Pois é, Elisa. Infelizmente eu a contraí essa terrível doença e estou condenado._ E agora, Carijó? _ diz Elisa chorando, tentando ser forte, mas sentindo-se desmoronar.Com a cabeça entre as pernas ela chora sentida. Jamais imaginara reencontrar Carijónaquele estado e sem poder fazer absolutamente nada por ele, pois se tratava de umapessoa muito especial para ela e essa doença é incurável.A felicidade do reencontro agora estava ameaçada irremediavelmente e logo agora que elafinalmente admitia para si mesma que o amava como nunca havia amado antes. Mais estedesgosto a vida lhe reservara e ela tentava entender o porquê de tudo aquilo. Naqueleinstante não encontravam as respostas de que necessitava, mas sabia no seu intimo queum dia as teria, todas, todas para que finalmente pudesse compreender por que tantosofrimento e decepções, e assim aquietar seu coração e seguir seu destino.O que ela não daria para reencontrar seu filho e agora para ver Carijó curado? A duaspessoas que mais amava do fundo do seu coração. Já mais ela esquecera aquele beijorápido e tão bom com sabor de chocolate. 21 5
  • 216. Parte 12Capítulo ICarijó percebe o quanto Elisa ficara abalada com a sua revelação e decide não ser um“peso” para ela. Não quer causar mais problemas para Elisa, pois ela debelava os seuspróprios e ele não a deixaria ela sofrer também com os seus.Carijó decide então não ir mais visitá-la; apenas ficando nas imediações da Santa Casa deMisericórdia para que quando ela tivesse alta ele pudesse seguir seus passos, mas adistancia e sem que ela percebesse.É uma decisão difícil, mas necessária.Foi assim que veio a conhecer Flora, uma garota moradora de rua assim como ele, que aosdezesseis anos cometia pequenos furtos para comprar drogas e assim sustentar o seu vício.Também se prostituía sempre que possível para ganhar alguns trocados.Ela aproxima-se um tanto tímida e temerosa e pergunta:_ Você mora aqui nesta calçada?_ Só por uns dias e você? Por que quer saber?_ Estou procurando um novo parceiro._ É, mas eu não sou boa companhia._ É porque sozinha é uma barra. Deixe-me ficar com você? Eu sei viver bem na rua. Nãopasso apuros, você quer ver? 21 6
  • 217. _ Ela some por uns instantes e logo em seguida aparece com algum dinheiro e todaorgulhosa. Onde conseguiu esse dinheiro? _ pergunta Carijó pressentindo que aquelagarota lhe traria problemas, pois lhe parecia um tanto “desmiolada”._ Ora, eu meti a mão no bolso de um tiozinho que estava de bobeira. Ninguém mandouele ficar dando mole. A gente pode comer agora, uma boa comida e eu estou morrendo defome! E você não está com fome não, meu chapa? Olha que saco vazio não para em pé,hein? Você é meu convidado! Vamos?Carijó só então ouviu sua barriga roncar. Mas era assim mesmo, ele às vezes nem selembrava de comer. Ainda mais agora que após tanto esforço reencontrara Elisa, mas parao seu bem decidira afastar-se dela e renunciar ao seu amor.Ele sacrificar-se-ia para o bem de sua amada. E pensar que ela nem sabia o quanto ele aamava... Mas o amor nunca é demais, principalmente quando é verdadeiro. Ele agorasabia, aliás, sempre soube.Naqueles dias Carijós estava muito calado e pensativo. Quase não conversava com suanova parceira que lhe dava comida e droga em troca de proteção. Aguardava Elisaansiosamente, mas sabia que dali para frente tudo seria bem diferente do que fora um dia.Sentia-se tão próximo dela e ao mesmo tempo distante. Nunca se sentira tão só...Sem querer ele pega-se com os olhos fixos na placa de uma clínica médica, com o nomede alguns médicos especialistas e entre eles o nome de doutor Ricardo. Carijó fica paradopor alguns instantes olhando para a placa sem piscar e sem entender bem porque elelembra-se do marido de dona Dolores que agora se encontra em São Paulo com a família. 21 7
  • 218. Mas ao mesmo instante, pensa: “Que bobagem. Existem tantos médicos com esse mesmonome assim como tantas mulheres com nome de Dolores; só mesmo Carijó existe um só,disso eu tenho a certeza, e dentro em breve não haverá mais nenhum Carijó, pois eu seique não vou muito longe... Mas enquanto eu viver quero ser útil e ajudar a Elisa.Elisa finalmente curada veste suas roupas praticamente novas e sapatos e uma linda bolsadoados por algumas enfermeiras que se afeiçoara a ela. Elisa também se afeiçoara a todosali e gostaria de ficar mais. Se pudesse, mas não podia. O mundo lá fora esperava por ela e isso a assustava bastante, mas teria que enfrentar. Nãoapenas por si própria, mas por seu filhinho desaparecido e também por Carijó.Tinha certeza que um dia iria reencontrá-los. No momento certo; nem antes nem depois. E assim cheia de esperança ela segue seu destino. Respira fundo e ergue a cabeça.Corajosa e destemida pronta para o que der e vier. Então ela pergunta a si mesma: Comodeveria ser, estava sem destino.Na saída foi abordada por Flora, atraída por sua boa aparência das roupas e sapatos queElisa ganhara das enfermeiras.A garota escolhia suas vítimas, de preferência as mais bem arrumadas e adorava mostrarsuas habilidades a Carijó. Esse era seu maior orgulho. 21 8
  • 219. _ Vê se presta atenção, Carijó. Lá vem uma daquelas mocinhas meio tontas. Não deve termuito dinheiro, mas vai dar pro nosso almoço. Que ver? Vai ser mais fácil que roubar opirulito de uma criança. Olha só._ Sua maluca! _ diz Carijó sem prestar atenção de quem se tratava.Flora mais do que depressa, num piscar de olhos está ao lado de Elisa, que não sabe querumo tomar e pergunta:_ Moça, a senhora tem uns trocados para mim? Eu e meu amigo ainda não comemos nadahoje._ Não, não tenho. _ responde Elisa enquanto vai andando a passos apressados como setivesse um destino certo.Flora a acompanha insistente, já quase pegando sua bolsa e saindo correndo, mas decideantes insistir mais um pouquinho para preparar o assalto:_ Moça, arruma pelo ao menos umas moedas. Meu amigo Carijó só tem uns trocadinhos enós precisamos almoçar. Estamos morrendo de fome, a barriga até dói._ O que você falou? Carijó? _ espanta-se Elisa mal contendo sua surpresa_ É moça. Carijó é meu amigo, eu não devo nada. Conheci-o a pouco tempo e não sou suacomparsa!Elisa olhando em volta desesperadamente não vê Carijó que tratara de esconder-se aoavistá-la, pois não queria que ela o visse. 21 9
  • 220. Ele pensava: Vou acompanhar Elisa à distância e no momento certo eu revelo para ela oque descobri em relação ao seu filho, só preciso de tempo para concluir tudo.Elisa por sua vez pensava: “Cadê o Carijó, meu Deus? Ele tornou a sumir. E agora, que éque eu vou fazer? Aqui é São Paulo sozinho! Eu não queria que ele fosse embora, precisocuidar desse moleque... Por que ele fugiu de mim novamente? E eu meu Deus, não seinem que rumo tomar!Elisa sem saber o que fazer e nem para onde ir, senta-se na porta da Santa Casa um tantodesanimada, quando então uma mulher se aproxima e diz:_ Por que está sentada aí no chão? Uma moça tão bonita e bem vestida?_ Nada. _ responde Elisa secamente._ Como nada? Faz mal ficar sentada aí nesse chão frio! Onde você mora querida?_ Moro aqui, aqui é a minha casa. Viu só como a minha casa é grande? _ responde Elisaagora chorando e apontando para a rua._ Vamos para a minha casa, garota. Lá eu te arrumo comida, uma boa cama e um bomtrabalho. Você ira ganhar muito bem, eu te garanto!_ E do que é o emprego, dona?_ Vendedora afirma a mulher de meia idade._ Mas eu não sei vender nada minha senhor, nem limão na feira._ Bonita do jeito que você é e com esse corpinho bem feito e esta cor bronzeada aonatural esses lábios grossos, não precisa saber nada._E pensando bem é até melhor que você seja bonita e burra._ diz a mulher para si mesma. 22 0
  • 221. _ É muito longe, dona?_ Não, é logo ali.Elisa a segue, sabendo que poderá se decepcionar, mas afinal está só mesmo no mundo eprecisando de amparo ainda que seja de uma estranhaCarijó a segue a distancia, já prevendo o que aconteceria com a sua amada, mas preferiunão interferir.Já na casa... Um sobrado bem decorado. Grande e com vários dormitórios._ Chegamos, minha querida. Vá tomar um belo banho. Aí tem umas roupas que acho queservirão direitinho em você. Fique a vontade. Descanse bastante que amanhã à noite vocêcomeça a trabalhar e tem que estar bem disposta.A mulher chama duas serviçais e manda que preparem um banho quente com sais paraElisa e também uma refeição digna de uma princesa. Ela toma um banho e come comapetite e vai dormir sem pensar em nada, apenas querendo esquecer seus problemas.No dia seguinte Elisa desperta bem animada e disposta. Dona Isabelli manda que apreparem para o seu primeiro dia de trabalho._ Mas para que essa coisa de maquiador e manicura, dona Isabelli? Precisa mesmo?_ Por que das funcionárias que eu tenho você é de longe a mais bonita e meproporcionara bons lucros. Além do mais é “carne nova” no pedaço. Os clientes ficamloucos por uma novidade e pagam em dobro. Às vezes até o triplo, se gostarem do“material”. E você ira agradar com certeza e aqui minha queridinha só recebemos clientes 22 1
  • 222. executivos de alto nível temos uma clientela maravilhosa até políticos nos procura comtotal sutileza._ Eu não entendi nada, a senhora está dizendo que eu..._ Você não precisa entender nada, querida. Aliás, esse seu “ar” ingênuo deixa a maioriados clientes malucos._ em seguida dona Isabelli dá ordens à sua assistente:_ Edileusa, pegue minha agenda e procure o telefone do doutor Ricardo Siqueira Ramosde Albuquerque. Ele é um dos nossos melhores clientes e vai adorar essa ninfetinha.Lembra-se dele? É dono daquela clínica em frente a Santa Casa. É uma das mais famosasclínicas de cirurgia plástica do país. O homem ganha rios de dinheiro e garanto que virácorrendo ao saber do “tesouro” que estou reservando para que ele desfrute e tenha a honrade “inaugurá-la” na nova vida desta ninfeta, será toda dele, eu faço questão e já estoucontando com sua generosidade na hora do pagamento._ dizendo isso dona Isabelli ri e seus olhos brilham de cobiça. Examinando Elisaminuciosamente; muito satisfeita com o resultado, pois ela estava mesmo deslumbrante.Bonita, cheirosa e com aquele “frescor” que os homens tanto apreciam principalmenteaqueles que já estão na “idade do lobo” e fazem qualquer coisa por uma jovem em tenraidade pronta para satisfazê-los. 22 2
  • 223. Parte 12 Capitulo IIApós identificar-se pelo telefone, dona Isabelli é prontamente atendida._ Doutor Ricardo, desculpe incomodá-lo, mas o senhor falou-me que poderia ligar quandotivesse “mercadoria nova”. Pois bem, doutor, eu tenho uma jóia raríssima ao seu dispor“fresquinha” que estou reservando exclusivamente para o senhor. Que tal esta noite?_ Está bem. Qual é mesmo o endereço? _ pergunta doutor Ricardo apenas para disfarçar,pois sua secretária encontra-se em sua sala e julga tratar-se de um telefonema comercial.Seu patrão é um homem muito sério e respeitado, e a secretária jamais poderia suspeitar.Ele era um homem casado e muito distinto para todos os efeitos.À noite..._ Boa noite, doutor Ricardo. Tenha a bondade de entrar._ Boa noite. _ responde ele impecavelmente vestido e barbeado, com um brilho de cobiçanos olhos. Um homem muito atraente com certeza, que confidencia à dona Isabelli comuma voz um tanto insegura:_ Eu gostaria que a senhora soubesse que eu amo a minha esposa, mas o que me obriga afazer isso é o problema dela... Não quero que pense que eu..._ O senhor não precisa se explicar._ Minha esposa não tem saúde e por isso... Bem, onde está a garota?Isabelli manda então que tragam Elisa, que nem tem coragem de encarar o ilustredesconhecido ao cumprimentá-lo. 22 3
  • 224. _ Boa noite, senhor._ Boa noite, Elisa. É esse o seu nome, não é?_ Sim, senhor. Queira me acompanhar, doutor. É por aqui. _ responde Elisa levandodoutor Ricardo aos seus aposentos. Contrariada com a situação, mas sem ver outra saídapara sua vida no momento resolve submeter-se, afinal nunca fora antes tão bem tratada.Tinha do bom e do melhor. Boa comida, boas roupas e até um quarto muito bonito só parasi. Parecia até um sonho.Ao ver-se sozinha com aquele homem olhando-a com desejo, Elisa não consegue seguraro pranto, afinal era a primeira vez que teria que provar a sua “competência” em seu novotrabalho e estava por demais assustada e temerosa. Temia não agradar seu cliente e acabarsendo expulsa dali, tendo que ir para as ruas novamente. Não queria ir para as calçadas davida como era antes se sentia vulnerável, mas também não gostaria de submeter-se aquelasituação com um desconhecido alem do mais ter que vender ou alugar seu corpo parasomente satisfazer o prazer ou fantasia daquele cavalheiro.Doutor Ricardo vendo Elisa chorar baixinho chega a comover-se com o pranto da lindajovem. E para tentar deixá-la mais à vontade, diz olhando o céu pela janela e suspirandofundo._ Que noite mágica e agradável! O céu está cheio de estrelas e esse cheiro delicioso de“dama da noite” está inebriante, você não acha? Venha cá para sentir melhor._ Para mim é uma péssima noite responde Elisa sem conseguir conter-se._ Para mim a noite esta perfeita, retruca Ricardo tremulo como se fosse a sua primeiraaventura amorosa. 22 4
  • 225. _ Sei sim, vai ser uma noite maravilhosa, mas pro senhor lhe prometo, mas não pra mim,pensa Elisa querendo mesmo era sumir dali._ Mas se não é do seu gosto essa situação, então por que está aqui, menina?_ O senhor quer mesmo saber por que eu estou aqui?_ Sim, gostaria._ Eu sou uma menina de rua, vivo pelo mundo desde a adolescência, mas nunca meprostituí, e essa senhora está me obrigando a isso._ E por que você não fugiu ou chamou a polícia? Você não é obrigada a nada Elisa._ Não, ela não me prende aqui. Não do jeito que o senhor está pensando. Ela me prendepela boa alimentação, cama quente roupas, perfumes e tudo mais. Como o senhor achaque eu vou paga-la? Sabe como? Fazendo o que ela quer que a gente faça. Eu sou burra ebonita e é tudo que ela precisa. Agora o senhor entende? Eu não tenho onde caír morta anão ser minha aparência física meu bom senhor._ Eu, eu não sabia que era assim, estou indignado. Pensei que você estivesse nessa vidapor opção sua e que até gostasse do seu trabalho._ Não, senhor. Eu não tenho saída e o senhor é o meu primeiro cliente. Ela me ofereceuum emprego de vendedora, isso sim, e eu burra, acreditei. _Desculpe-me Elisa, eu não sabia que era desta forma que dona Isabelli trabalha.O senhor não tem culpa de nada. Eu é que lhe devo desculpas._ Então façamos o seguinte: Venha apenas jantar comigo amanhã, e conversar, semnenhum compromisso mais íntimo, como amigos. Está bem assim? 22 5
  • 226. Eu não quero te forçar a nada. Gostei muito de você, inclusive da sua sinceridade, eu nãopretendo me aproveitar. Quero que você saiba que não sou mau caráter, mas tenho minhasnecessidades e por ser muito conhecido como cirurgião plástico eu não posso me expor,por isso que procuro estes lugares mais reservados para os meus desabafos fique tranqüila.Repito, eu não vou te forçar a nada que não seja da sua vontade._Bem, agora lhe pergunto quer jantar comigo amanhã? As moças que aqui trabalhamnão podem sair daqui no horário de serviço doutor Ricardo, afinal, Isso aqui é umprostíbulo, mas considerado um local de trabalho, sabia?Dona Isabelli me mata se souber que eu não estou cumprindo com a minha obrigação. Aientão, eu estou perdida mesmo! O que vai ser de mim?_ Então que tal amanhã? E pode ficar tranqüila que da minha parte ela não ficara sabendode nada. Só se você contar. Mas eu quero te ver amanhã, pode ser?Elisa aceita o convite para almoçar com doutor Ricardo, pois a noite ela deveria estar bemdisposta para receber os clientes.E ele após tramar com Elisa uma saída, por sua vez disse para dona Isabelli na presençade Elisa:Esta noite foi realmente maravilhosa e que não queria que a garota fosse incomodada pormais ninguém, pois o dinheiro que pagou era o valor do pernoite e era mais do quesuficiente para cobrir todas as despesas. Também exigiu exclusividade.Isabelli concorda prontamente, pois jamais iria desagradar um cliente tão importante edigamos tão “generoso” como doutor Ricardo. Deixa Elisa recuperando-se, afinal ela 22 6
  • 227. agora era sua “galinha dos ovos de ouro” e lhe daria grandes lucros, dona Isabelli sentiraisso desde que botara os olhos nela.Ricardo ficara bastante impressionado com a beleza de Elisa e principalmente com a suameiguice. Tencionava conquistar-lhe a confiança com paciência e perseverança. Esses“jogos de sedução” o excitavam muito, pois ele gostava da sensação de ser um homemsedutor, aquilo o revigorava. Elisa estava magoada, revoltada, mas não iria resistir muitotempo, pensava ele.No dia seguinte, em umas restaurantes cinco estrelas..._ Eu quero agradecer o senhor, por não ter falado nada com dona Isabelli._ Pensei muito em você, Elisa. Acho a sua situação muito complicada. Você mexeu comos meus sentimentos por este jeito franco, porem meigo realmente você me conquistou._ É doutor! Eu vim do interior de outro estado e eu já observei e aprendi muitas coisas. Jápassei por cada uma que o senhor nem imagina... Que mundo! O senhor é muito bom, nãoexigindo nada mais intimo ontem naquele quarto La no prostíbulo de dona Isabelli eficássemos somente conversando sem mais intimidades, muito obrigada._ Fale-me de você, Elisa. _ diz Ricardo completamente fascinado por ela.E então Elisa conta só parte de sua vida, comenta do rapto do seu filho e a sua busca ondejá não havia mais esperanças, mas não falou de sua terra natal. Acha melhor nem tocarnesse assunto, pois de que adiantaria?_ Elisa, eu realmente estou muito impressionado, você é tão jovem e já passou por tantacoisa. Você é muito forte uma guerreira, você tem fibra, merece vencer na vida. 22 7
  • 228. _ E o senhor, doutor? Fala agora de você, também._ O que você gostaria de saber de um velho de quarenta anos?_ Que velho que nada! O senhor é muito bonito, inteligente e educado. Quantas mulheresgostariam de estar aqui no meu lugar, só aqui dentro deste belo salão já observei duasbelas senhoritas lhe comendo com os olhos discretamente._ Obrigado, Elisa eu pensei que não teria mais chance de ser feliz. Não quero que vocêpense que eu sou um canalha, mas é que depois que minha esposa ficou doente, eu soupraticamente obrigado a buscar prazer nos braços de outras, sabe como é eu sou humano etenho as minhas necessidades.Agora que a conheci, sinto-me como um garoto apaixonado. Não parei mais de pensar emvocê. Ricardo pensando: “Que coisa! Senti por esta menina a mesma sensação e desejoque senti por minha esposa quando a conheci ainda jovem e esta moça fez me lembrar dequando saí de Riacho Grande para Belo Horizonte com Dolores. Ah, mas isto é umabobagem. Não devo mais pesar nisso.”Elisa tomou duas taças de vinho e como não estava acostumada com o álcool sentia-sebastante relaxada sob efeito do excelente vinho. Além disso, ela nunca havia conhecidoum homem como aquele, tão bem educado e atencioso e quando deu por si havia deixadoenvolver-se de tal forma que até pareciam dois adolescentes apaixonados. Acontecerammuitos outros encontros depois daquela tarde. Elisa flutuava de tanta atenção que ele lhedispensava, tornaram-se amantes e a cada novo encontro entregavam-se mais.Elisa veio a conhecer com aquele homem os verdadeiros prazeres do sexo. Sensações quesequer sonhava que existissem e que agora descobrira. Agora se sentia uma mulher de 22 8
  • 229. fato plena e realizada e chegava a estremecer nos braços de Ricardo, mas mesmo comtanto carinho ela não conseguia esquecer Carijó, e resolve então procurá-lo para ajudá-lo,pois sabia que ele precisava dela.Continuava morando na casa de dona Isabelli, mas era exclusividade de doutor Ricardo.Durante o dia trabalhava como secretária e recepcionista na clínica dele, onde cumpriacom eficiência sua função. Todos a elogiavam e ninguém suspeitavam de sua ligaçãoamorosa com doutor Ricardo, nem mesmo a secretária particular dele.Elisa pedira a ele que lhe arrumasse um emprego, pois ela queria aprender uma profissão,e como ele precisava mesmo fazer uma contratação, achou por bem mantê-la por perto;assim ele poderia vê-la todos os dias. Sem levantar suspeitas. O difícil era conseguircontrolar-se, pois às vezes só o que ele queria era trancar-se com ela em sua sala eentregar-se àquela louca paixão. Mas na clínica tinham de ser discretos e praticamentemal conversavam limitando-se a cumprimentos formais. E assim o tempo passavarapidamente.Elisa contratou um professor particular em que em um certo período ela reservava paraestudar.Um belo dia no caminho para casa, o destino quis colocar Elisa e Carijó novamente frentea frente._ Como vai, Carijó? Ela mal pôde acreditar._ O que faz aqui, Elisa? Parece que você progrediu, fico feliz por você._ Como você está, meu amigo? Quanto tempo se passou! Por que você fugiu de mim edesapareceu? Eu não entendo... 22 9
  • 230. _ É vou indo. _ Carijó percebera que ela havia perdido até o sotaque caipira e agora estavafalando corretamente.Ele havia ficado internado um bom tempo e perdera uma boa parte da vida de Elisa.Agora ela estava tão diferente mais madura, tornara-se enfim uma mulher vestia-se muitobem e sabia comportar-se em qualquer lugar. Estava claro para ele que havia alguém protrás dela, dando-lhe suporte e certamente seria um homem. Sentiu um ciúme quaseinsuportável naquele momento, que chegava a doer-lhe a alma, mas procurava controlar-se tirando forças nem ele saberia de onde, pois, teria de suportar mais esta prova._ Carijó eu gostaria de poder lhe ajudar. Colocá-lo em um lugar decente. Deixe-meretribuir toda a ajuda que você me deu um dia. Eu jamais esqueci._ Não Elisa, obrigado. Eu te agradeço do fundo do meu coração, mas não quero te causarproblemas e pelos os meus erros eu sei que tenho que passar por tudo isto. Sei quase tudoda sua vida e o que você faz. _ disse assim Carijó, com a intenção de que Elisa desistissede ajudá-lo para na criar problemas para ela.Na verdade só agora ele começava a tomar conhecimento dos passos daquela que era oseu grande amor e apesar de não recriminá-la sentia uma tristeza profunda ao pensar que aperdera para sempre. Seus sonhos estavam desfeitos e não havia mais como iludir-se, eainda mais com aquela maldita doença não havia mais qualquer esperança para ele. Nãohavia cura para o seu mal. Ainda não._ Deixa eu te ajudar, Carijó. _ insistente agora Elisa com os olhos marejados. Aquelaresistência de Carijó causava-lhe uma arraiga dor, pois tudo o que ela mais queria era vê-lo bem, com saúde e feliz. 23 0
  • 231. _ E o que você quer fazer? Pense bem Elisa: Tornei-me um viciado, como você devesaber é muito difícil me ajudar. Esse caminho das drogas é um caminho sem volta. Nãohá salvação._ Mesmo assim, eu gostaria de tentar. Por favor, Carijó deixe-me te ajudar eu tenhopossibilidades se eu não poder te ajudar, então eu prefiro morrer ..._ Bem, mas eu acho que você poderá se arrepender Elisa._ Como você está abatido, Carijó! Com certeza não tem se alimentado bem?_ Não sinto fome._ Mas você precisa se cuidar para ficar forte e lutar contra essa doença. Não deixe ela tevencer, enquanto há vida há esperança!Carijó apenas sorri e seu sorriso é enigmático, Indefinível.Elisa de imediato aluga uma quitinete já mobiliada e coloca Carijó para morar lá. Ele porsua vez, espera o momento certo para revelar tudo a ela.Elisa sempre que podia peregrinava até o pequeno apartamento para levar suprimentospara Carijó, que já estava até com uma aparência melhor devido à dedicação e o carinhodela, que fazia ele alimentar-se mesmo não tendo apetite.Chegava a dar comida na boca de Carijó para que ele aumentasse suas resistências. Faziavitaminas com frutas, legumes e ele tinham que tomar tudo e mais os comprimidossupridos de vitaminas. Sua dedicação era total, o que lhe fazia um bem enorme. Sentia-sefeliz em poder ajudar e amparar aquele que fora seu grande amigo e também seu amado,mas era um amor tão puro e bonito que ela não sabia explicar. Só sabia que era um amorque lhe trazia saudades e que poderia ser de outra vida, como diz ela “aquilo só podia ser 23 1
  • 232. coisa de outro mundo” uma ligação muito forte. Algo que nem mesmo o tempo poderiaaniquilar. Essa certeza aumentava a cada dia, e Carijó sentia o mesmo. Era por ela e sópor ela que ele ainda mantinha-se preso à vida. Por ela, ele sabia que valeria a pena.Sempre. Ou até quando pudesse resistir... 23 2
  • 233. Parte 13 Capítulo IEm um desses dias: Ricardo pergunta a Elisa: Cheio de ciúme e desconfiança, tentandocontrolar o seu nervosismo._ Elisa, você está se ausentando muito da clinica e de mim também. O que se passa? Vocêconsegue me explicar?_ Nada, talvez eu precise de umas férias do trabalho. Ando esgotada._ Está cansada de mim? Quer férias de mim também?_ Não é isso; fique tranqüilo, Ricardo. Você está me pressionando. Sinto-me confusa._ Me desculpe, Elisa, mas eu não agüento mais, e tenho que lhe perguntar, pois não éjusto o que você está fazendo comigo e quero uma resposta sincera. Por mais que doa,prefiro a verdade. Não minta para mim ou não me responsabilizo por meus atos. Vocêquer me enlouquecer, é isso?Elisa sente-se acuada e imagina que ele descobrira tudo e fica com medo de sua reação.Não pensava que exercia tanto poder sobre aquele homem e só agora percebia que eleestava louco de ciúmes, com certeza imaginando coisas horríveis a seu respeito, e deviaestar sofrendo muito._ O que você vai fazer quase todos os dias na Avenida Rio Brancos?_ Por que a pergunta Ricardo fazendo-se dissimulada?_ Nada. Se não quiser, não precisa responder, mas saiba que vou descobrir. _ dizendo issoRicardo sai batendo a porta, enfurecido com a calma de Elisa. Decide seguirá e abordá-la 23 3
  • 234. da próxima vez em que ela se dirigisse até lá. Aí então ele a desmascararia, e ela não teriacomo negar.Alguns dias após na entrada do edifício ele a aborda depois de segui-la sem que elapercebesse:_ Oi, Elisa, veio ver o seu amante? O tal está aí dentro dormindo pelo que me informaram,e pelo que parece não gosta de trabalhar. Mas isso não é problema, pois você o sustenta ecom o meu dinheiro não é?_ Você está completamente enganado, Ricardo. Ele não é meu amante. É apenas umgrande amigo dos velhos tempos e está muito doente._ Ah, doente? Já pensou se você me transmitiu uma doença venérea ou até mesmo HIVque você pode ter contraído do seu amigo._ Eu posso explicar..._ Explicar o quê? Você alugou esta espelunca em seu nome sem nem ao menos, meconsultar, me dar uma satisfação e quer que eu pense o que? Não vai me dizer que estesujeito é seu irmão. É? Diga-me que ele é seu “irmãozinho”, quem sabe eu acredito?_ Na verdade não é. Eu só não lhe contei antes para não aborrecê-lo, Ricardo, e eu alugueiesta quitinete com o meu salário, você esta sendo arredio e esta me ofendendo e muito._ Então fica com ele. Eu vou lhe dizer mais uma coisa; volte para a cafetina, pois lá é oseu verdadeiro lugar, de onde você nunca devia ter saído. Eu é que fui Ontário instalando-a em um apartamento próximo a clínica achando que você era digna e que lá seria nossorefúgio, nosso ninho de amor onde pudéssemos ter a nossa vida, o nosso mundo, dando 23 4
  • 235. vazão aos nossos sentimentos, à nossa paixão. _ desabafa Ricardo totalmentetranstornado. Nem ele mesmo sabia então o quando era louco de desejo por aquela mulherlhe comprando com bons presentes. E o quanto se deixara dominar por aquela paixão semlimites.Elisa indignada com a sua fúria acaba extravasando toda sua indignação e revolta, por elenem sequer deixá-la explicar._ Pensando bem, é para lá mesmo que eu vou voltar, e espero que você vá lá um dia tendoque pagar para dormir comigo, assim como você sempre fez, não é? Nunca me amou, massempre comprou o meu amor com jóias, roupas caras, dinheiro e até emprego naquela suaclínica. Pois se você não confia em mim pode ficar com tudo. Eu não quero mais nada quevenha de você. Nada! Você Ricardo é possessivo não me da nem o direito de defesa.Elisa vira as costas e deixa Ricardo falando sozinho, e sem olhar para trás vai embora sesentindo humilhada e mal compreendida, justamente por aquele de quem mais elaesperava um mínimo de compreensão, consideração e até apoio. Estava decepcionada.Como ele podia ser tão cruel só pensava em seu bel prazer agora ela sabia realmente quemera aquele homem excessivamente egoísta! 23 5
  • 236. Parte 13 Capítulo IIAlguns dias depois, Elisa acostumada com uma vida melhor e tendo a responsabilidade doaluguel, do sustento de Carijó e também os remédios que ele haveria de tomar era muitocaros. Não teve outra saída e resolveu bater à porta de dona Isabelli. Assim ela começou aprostituir-se. E para suportar essa nova fase de sua vida começa a consumir álcool emcerto exagero, até que um dia..._ Elisa eu quero você, custe o que custar. _ era Ricardo, alucinado de desejo e de saudade.Já não podia agüentar mais. Tornara-se escravo daquela paixão que o consumia. Bem queele tentara consolar-se nos braços de outras mulheres, mas em vão. Era Elisa, e só ela queo satisfazia._ Vamos lá, doutor. A cama nos espera. Já sabe o valor, não sabe? Pagamento antecipado,por favor. Já deve ter pago para a minha cafetina, não é? Claro!_ Não me humilhe tanto assim, Elisa. Eu a amo e não posso viver longe do seu amor.Afogue meu desejo. Faça de mim o que você quiser, só não me despreze, meu amor.Eles entregaram-se então a uma paixão incontrolável, dando vazão aos sentimentosrepresados. Quando finalmente estava saciado, Ricardo diz:_ Ramon, meu filho, vive me perguntado de você. Parece estar obcecado estou deveraspreocupado com o meu filho. 23 6
  • 237. _ Sei. Fiquei conhecendo ele na clínica, lembra? É um rapaz muito educado e fino, esempre dava um jeito de puxar conversa comigo. Eu bem que tentava evitar, mas eleinsistia sempre e eu não tinha como escapar._ Ele só fala em você Elisa, parece que está alucinado, acho que é uma idéia fixa, umaobsessão. Quer saber o seu paradeiro de qualquer jeito e jurou que vai descobrir. Estoupreocupado._ Engraçado! Não precisa acreditar em mim, mas quando eu estava com você e... Não,deixa pra lá._ Fala Elisa._ Eu também senti alguma coisa muito forte pelo seu filho, toda vez que o via, mas nãoera nada de sexo, nenhuma atração física. E algo mais forte e mais puro e inexplicávelmesmo.Só de lembrar meu coração dispara. _ e de repente ela por acaso lembra-se que seu filhoCarlinhos estaria com a mesma idade de Ramon. Seria já um rapaz. Por onde andariaCarlinhos? Devia estar muito forte e bonito. Ah, como gostaria de vê-lo. Daria tudo paraeste momento._ O pior é que eu o trouxe aqui uma vez para sua iniciação sexual. Sabe como é ele émuito tímido com as mulheres e eu achei que isso iria ajudá-lo. Mas o meu medo é quenuma dessas suas vindas a esta casa, ele acabe descobrindo-a aqui. E aí, como é que vaiser?_ Quem vier a minha procura Ricardo, será bem vindo. Aqui é o meu trabalho e eudependo dele para viver. Assim como você, na sua clínica. Ou você rejeita algum de seusclientes? 23 7
  • 238. _ Quero pedir-lhe, implorar se preciso for, para que você não tenha nada com ele, caso elevenha aqui. Além do mais, ele está quase noivo de uma moça de bem. A namorada dele éde uma família muito distinta, gente muito importante da alta sociedade, você meentende?_ E eu com isso? É minha profissão e eu tenho que trabalhar. Sou uma profissional, e dasmelhores isto aqui também é um trabalho meu amigo.Elisa usa deste argumento para humilhá-lo e dar-lhe o troco e então Ricardo imploradesesperado:_ Além do mais, ele é só um menino, Elisa. Eu não sou mau caráter. Fiquei com você umbom tempo e sempre te respeitei. Minha esposa contraiu uma doença séria no útero e seumédico pediu para que ela não mantivesse mais relações sexuais; pois toda vez que issoacontecesse, ela sangra muito. Eu precisava de uma amante e encontrei você, e aprendi agostar de você. Apaixonei-me e agora lhe peço este favor. É pedir demais? Em nome detudo que vivemos._ E... na verdade Ricardo você me usava e me pagava muito bem por isso. Você mecomprou._E o que tem a ver uma coisa com a outra?_ Eu não gostaria que meu filho tivesse uma relação amorosa com uma mulher que foiminha amante durante tantos anos seria deprimente para mim._ Você é egoísta. E eu sou uma profissional como já disse: Você bem sabe disso. Aliás,aprendi tudo com você inclusive ler e escrever e falar corretamente e eu lhe agradeço porter me incentivando a estudar, mas realmente você é muito egoísta, pois todos seus atos 23 8
  • 239. você tem que levar vantagem, você não tem amor a ninguém e sim um desejo forte desatisfazer seu ego, hoje eu entendo melhor isso!_ Você me traiu Elisa não negue e me prometa, por favor, que..._ Não posso prometer nada, e agora vá, pois eu preciso ficar só, você já pagou e eu já fizo meu trabalho. _ Elisa estava irredutível e indignada com a convicção errada de Ricardoem relação a sua traição, mas percebera que não valeria à pena se defender pois ele não seconvenceria da verdadeira história.Ricardo vai embora arrasado pensando em Elisa, em Ramon e em si próprio. Nãoreconhecia mais Elisa. Ela parecia outra pessoa, e em tão pouco tempo.Elisa ao envolver-se com bebida alcoólica envolve-se também com companhiasespirituais inferiores que pretendem arrastá-la para a lama de vez, valendo-se de sua vidadesregrada. Ela não percebe quando dois vultos escuros a abraçam inspirando-lhepensamentos sensuais a respeito de Ramon então ela tenta banir tais pensamentos econsidera:_ “Mas que coisa! Aquele rapazinho é um moleque ainda, mas é muito bonito devoadmitir. Também com o tratamento de primeira que tem! Pena que não seja mais virgem,pois eu iria adorar tirar sua virgindade. Apesar de que o que eu sinto por ele é mais fortedo que o sexo; mas se ele vier aqui, nada poderei fazer que se dane! Mas acho que nãovem, não. O Ricardo vai dar um jeito. Esses bacanas sempre dão um jeito prá tudo. Nãohá nada que o dinheiro não compre”. 23 9
  • 240. Elisa estava enganada. O dinheiro não compra a paz de espírito de uma criaturaatormentada pela sua própria consciência... Pois com todas as virtudes que Ricardopossuía ele falhou incrivelmente em relação a sua esposa Dolores cujo ele havia lheprometido amor eterno. Afinal quando ela mais precisou de seu companheirismo Ricardolhe virou as costas dando lhe apenas a assistência alimentícia necessária e poucoscuidados médicos sem os bons proventos domésticos como dantes, lhe faltando o carinhoe a cumplicidade que antes era em abundancia.Sua mulher estava debilitada arrazoava Ricardo e ele em plena forma física e sexual, nãodeveria renunciar ao prazer da carne pelo o amor a Dolores. Sua esposa já não poderiamais lhe trazer satisfação sexual. E se um dia as pessoas conhecidas viessem, a saber, dosseus atos incubados ele se defenderia argumentando que estava vivo e merecia ser feliz.Parte 14 Capítulo IE assim os dias passam sem maiores acontecimentos. Elisa continua levando a sua vidanormalmente, parecendo não se importar com nada; até que uma noite Ramon resolve iraté o bordel onde Elisa exercia a sua função de dama da noite, ele aparece exatamente emsua frente com um lindo sorriso, um brilho indefinível no olhar e lhe pergunta:_ Boa noite, Elisa, lembra-se de mim? O que você faz aqui? Bem na verdade eu já sei umpassarinho me contou. Afirma o belo rapaz._ É claro que me lembro, você está um moço muito bonito, Ramon. 24 0
  • 241. Quando Elisa avistou Ramon, apesar de já possuir uma certa tarimba ela se estremeceuestava com uma sensação inexplicável sentia vontade de abraçá-lo com ternura e não como desejo carnal._ Eu não sei o que você pensara de mim, mais eu vivo pensando em você. Não consigotirá-la do meu pensamento. Não me leve a mal, por favor. Mas na verdade não é bem sexoo que quero em relação a você._ Neste momento os espíritos impostores ou hipócritas se aproxima de Elisa por ela terlhe dado uma brecha_ Olha aqui meu jovem rapaz, eu fico até lisonjeada com isso, mas você realmente é acopia fiel de seu pai gosta de justificar as coisas como se eu fosse juiz.Aqui não tem essa de declaração de amor ou explicar o que é certo ou errado. Vou tomarum banho e você fique a vontade que eu já volto.Ramon sente-se meio atordoado, confuso mesmo, mas senta-se na cama, muito macia porsinal, e fica aguardando Elisa ansiosamente, suas mãos começam a suar frio de puronervosismo. Ao mesmo tempo, sente uma vontade de sair correndo dali.De repente ouvem batidas na porta, era seu pai que desesperado começa a gritar:_ Ramon, Ramon, meu filho, eu sei que você está aí dentro! Abra já está porta, por favor.Você não pode fazer isso! Abra, eu estou mandando!_ Ramon fora pego de surpresa, e do susto que leva não consegue dizer uma unicapalavra. Seu coração dispara como um cavalo selvagem que não pode ser dominado. 24 1
  • 242. _ Ramon, essa mulher é minha, por isso ela não poderá ser sua meu filho. _ esbravejaRicardo, ao mesmo tempo em que arromba a porta; pois no seu desespero acredita até quejá poderia ser tarde demais. Parece enlouquecido. E para total espanto de seu filho, quenada entende.Ramon estava sentado na cama, nervoso e tremendo quando Elisa sai do banho assustadacom o barulho.Neste momento entra Carijó, totalmente debilitado, pois sua doença havia agravado-semuito e ele já havia contraído a tuberculose em todo seu pulmão, tão comum nesses casos,além da forte depressão que sofria por não poder mais realizar seu sonho de ser uminvestigador policial e saber que estava próximo o seu fim.Todos fitavam-no sem entender o que ele faz ali no meio daquela confusão, quandofinalmente ele declara:_ Um momento, por favor. Deixem-me concluir o meu ultimo trabalho como investigadorpolicial:_ Você não é o tal do amante da Elisa? _ pergunta Ricardo irado com a ousadia de Carijó._ E você é o pai adotivo desse garoto, não é? _ Carijó pergunta apontando para Ramon,que perplexo Ramon olha para o pai de boca aberta, completamente perturbada._ O que você está dizendo? _ pergunta o jovem tentando entender aquela conversaabsurda._ Eu quero dizer que não sou nem nunca fui amante de Elisa e você não é literalmente ofilho legitimo desse homem e de dona Dolores, aquela que se diz ser sua mãe biológica._ Dolores, você disse Dolores? _ pergunta Elisa espantada. 24 2
  • 243. _ Sim, minha amiga, Dolores. Por que tanta admiração?_ É que veio na minha mente!.. Esse nome de repente me é familiar. Dolores é a esposa deRicardo! E era o nome da minha mãe também._ Ao que você está se referindo Elisa?_ Estou me lembrando da minha infância._ Vamos parar com essas bobagens. _ diz Ricardo em tom irritado. Vamos já emboradeste amaldiçoado lugar Ramon!_ Não, espera, o senhor! Não está vendo que Elisa está chorando? Deixe-a desabafar. Poracaso está com medo do que papai? Parece que há algo que eu desconheço que precisa seresclarecido._ E aí, minha amiga, por que se assustaram quando ouviu o nome Dolores? PerguntaCarijó já bem debilitado quase não conseguindo ficar em pé._ Das poucas vezes que meu finado pai comentava comigo sobre minha mãe, ele falava eexcomungava muito citando o nome Dolores, por ela ter o abandonado e exatamente nodia em que eu nasci e ir embora com o filho do fazendeiro por nome Ricardo.Minha mãe pensando que eu estava morta, por isso abandonou meu pai e também porqueele bebia muito e judiava dela assim eu fiquei sabendo por outras pessoas daquele lugar.Sim, agora eu me lembro._ Como ele falava? Você consegue se lembrar faça um esforço. É muito importante!_ Ele dizia assim: “Você é igual a sua mãe, aquela vagabunda da Dolores. Ela foi emboracom o Ricardo o filho daquele fazendeiro desgraçado. A ordinária pensou que você minha 24 3
  • 244. filha estava morta e então ela se mandou. Traidora!” Meu Deus era assim mesmo que elefalava e depois me batia muito, como que descontando em mim toda sua revolta. MeuDeus, eu sofria muito com isso! Só Deus sabe o quanto..._ Que coincidência! Os nomes dos meus pais são Ricardo e Dolores. _ Ramon mal podiaacreditar._ Eu não entendi nada. _ diz Ricardo confuso ou querendo confundir os demais._ O senhor tem uma esposa que se chama Dolores não é verdade?_ Sim. Mas e daí?_ E você a chama ou chamava pelo apelido que você mesmo a colocou Dodô. _ Elisaquestionava._ Este é o apelido dela, não é doutor? _ retruca Carijó._ É verdade. É como eu sempre a chamei. Às vezes até me esqueço que seu nome éDolores. Mas aonde você quer chegar, afinal de contas quem é você?_ Fale logo Carijó, o que você sabe? _ Insiste Elisa já impaciente com aquele suspense,pois sentia que ele tinha algo de muito sério a revelar._Calma, calma Elisa, você gostaria de conhecer sua mãe? _ pergunta Carijó._ É lógico que sim! _ responde Elisa, com lágrimas nos olhos._ E o seu filho? Gostaria de reencontrar seu filho, não é mesmo?_ Eu sei que meu filho já está moço, e eu não me importo de morrer em seguida, masantes só queria poder abraçá-lo e beijá-lo, depois cair em seus braços morrendo aospoucos, pois já estou mesmo condenada pelo vício da bebida e nesta vida marginalizada... 24 4
  • 245. _ Elisa, seu filho tinha algum defeito físico, alguma marca de nascença? Tente se lembrar._ Não chegava a ser um defeito. Ele só apresentava uma grande mancha marrom escuranas costas. Parecia até uma poça de chocolate na sua pele tão branquinha. O meu amigoCarlão acostumava ir até a minha casa só para ver a mancha do meu menino._ O Carlão me falou dessa mancha. Afirma Carijó; Você gostaria mesmo de rever seufilho?_ Daria tudo para revê-lo até a minha própria vida, afinal das contas minha existência todaapós roubarem o meu Carlinhos eu dediquei para procurar o filho que meu ex-marido mesequestro e depois vendeu para a tal Simone lá em Cachoeira próximo a Riacho Grande emeu marido após tentar me matar colocando gasolina em meu casebre. Mas já perdi asesperanças de encontrar o meu Carlinhos._ Ramon, vamos embora, meu filho. _ Ricardo, que nada sabia sobre esse episódio navida de Elisa, mas começou a associar o método que a mercenária Simone usou paraadquirir o filho adotivo para ele e sua esposa ele estava completamente atordoado e nãopretendia ouvir mais nada. Nem conseguia raciocinar com clareza e parecia estar vivendoum terrível pesadelo. Estariam todos loucos? Seria um delírio coletivo?_ Por que ir embora, papai, com estas coincidências todas? _ depois se virando para Elisapergunta:_ De que cidade mesmo você é Elisa?_ Sou de Riacho Grande._ E o senhor, papai?_ Quem, eu? 24 5
  • 246. _ É! O senhor. O senhor não é de lá também?_ E a mancha do seu filho é igual a esta! _ completa Carijó levantando a camisa deRamon onde uma mancha cor de chocolate comprova a sua identidade._ Estou perplexo com tudo isso, eu não posso acreditar. Mas não estou entendendo o queestá se passando aqui. Você quer me enlouquecer não é mesmo seu doente? EsbravejaRicardo._ É claro que o senhor está entendendo. O seu erro foi ter escondido a verdade ao Ramone a criminosa neste acontecimento chama-se Simone que logo após negociar a adoção deRamon foi trucidada por bandidos.Mas a verdade sempre aparece meu caro passe o tempoque passar, mais cedo ou mais tarde.Porque você e sua esposa não disseram pro menino que ele é filho adotivo e não legitimo?Pense bem: Este foi o seu grande erro doutor._ Quem é você afinal? Para vir me dar lição de moral, em? seu insolente. Como sabe detudo isso? Quem lhe deu este direito?_ Lembra quando o senhor morava com sua família em Belo Horizonte?_ Claro que me lembro. O que tem isso agora?_ Pois então o senhor deve se lembrar de um garoto que ajudava com as compras, limpavao jardim e freqüentava sua casa duas a três vezes por semana fazendo pequenos serviçosgerais auxiliando dona Clotilde sua empregada de confiança? 24 6
  • 247. _ Lembro, era o Carijó, um bom menino. Muito esperto e inteligente. Não vá me dizer... _Ricardo abre a boca e torna a fechá-la, mudo de espanto como se estivesse vendo umaassombração. Era inacreditável! Era ele mesmo. Agora podia reconhecê-lo._ Calma, doutor. Parece até que está vendo um fantasma?! Ainda não. Estou muitodoente e apesar de estar com os dias contados, ainda estou vivinho! _ e com isso Carijótem um forte acesso de tosse e sente-se muito fraco. Sendo levado até a cama por Elisa eRamon, pois perdera os sentidos, após tanto esforço e emoções tão fortes.Parte 14 Capítulo IIQuando Carijó volta a si encontra Elisa ao seu lado segurando a sua mão e chorandomuito, então diz:_ Elisa não chore. Não chore por mim. Tudo o que eu quero é ver o seu sorriso mais lindo.Elisa pede à Carijó para que ele conte tudo o que sabe, em seus mínimos detalhe.Carijó devagar e com muito esforço lhe afirma fique tranqüila minha amiga e meu grandeamor eu não partirei desta vida antes de revelar toda a verdade para vocês, afinal eurealmente sou um grande detetive. E mesmo sofrendo aquele incomodo Carijó sorri para asua amada e narra com detalhe tudo o que sabe. Sente que seu fim está próximo. Ramon,Elisa e Ricardo acompanham a narrativas, atentos e emocionados. 24 7
  • 248. Elisa eu preciso lhe pedir duas coisas, ou melhor; Vou lhe fazer um pedido e lhe dar umaordem. Pode pedir meu querido responde Elisa, lhe prometo com toda a força do meucoração que cumprirei com detalhes a sua ordem e também o seu pedido.Você terá que abandonar o maldito vício do alcoolismo, esta é a minha ordem e o meupedido seria que... Você não deve chorar por mim sabe por quê? Exatamente por eu estarmuitíssimo feliz, feliz por conseguir concluir com êxito o que eu me propus a fazer porvocê e Ramon ou Carlinhos e a convicção de saber que meu espírito estará bem...Por tantose você se lastimar, em minha nova vida não poderei ficar bem.Sabe Elisa; em minhas andanças por ai conheci um senhor bem velhinho deaproximadamente noventa a noventa e cinco anos de idade cujo seu nome é FranciscoCandido este senhor parecia não ser deste mundo ele era ou é por demais carismáticos,muito amável, solidário e extremamente sábio, ele me falou da espiritualidade e do quetemos que passar durante nossa estada por este planeta e me disse também que a nossasvidas não termina aqui ela continua segundo as promessas do bom pastor Jesus,exatamente quando o Cristo enfatizava dizendo que na casa do pai há varias moradas etambém o meu reino não é deste mundo.Com este modo de pensar eu conclui que a nossa vida não termina aqui, ficando o corpoque é perecível na terra, por que na verdade: O corpo fisico é o invólucro do espírito e anossa alma ou espírito partem para novas etapas como eterno no mundo espiritual ouquem sabe em outros mundos. 24 8
  • 249. Depois ele me pegou pela mão exatamente quando eu imaginava não ter mais aoportunidade de rever você e levou-me em um lugar maravilhoso onde havia muita paz eo desejo aguçado de ficar por La, onde pelo o intermédio de outros companheiros comoeles assim os chamam.Então me foi revelado os sonhos constantes que eu tinha em relação a uma linda mulherque eu sempre associava a você, eu achei incrível como eles sabiam dos meus sonhos dealguns anos atrás em que no meus sonhos eu e aquela bela mulher sempre estava em umpalácio muito bonito na Inglaterra.Mas você ainda é tão jovem Carijó para nos abandonar!Elisa meu amor, quando eu voltei desta viagem astral tive vontade de sair andando e nestaminha caminhada fui parar em um bairro periférico e La me deparei em uma casa humildeonde havia uma reunião de pessoas que cantavam freneticamente louvando os espíritosdesencarnados e principalmente a Deus e o seu filho amado o Cristo e La eles meensinaram o que aprenderam com o bom pastor Jesus; A solidariedade ou a caridade, operdão e a tolerância o amor ao próximo em todos os sentidos.Em fim me tornei um adepto destes ensinamentos, porque aprendi que aqui é só umapassagem e o nosso corpo físico é somente um invólucro mesmo, perecível e o espírito;Este sim é eterno porem, o mesmo volta na condição de humano e imaculado quantasvezes se fizer necessário para seu aprendizado a caminho da perfeição. Sendo que cadaespírito com o seu histórico. Por tanto cada caso é um caso. Uns partem para o mundoespiritual prematuros, no entanto, outros na adolescência e também jovens e velhos cada 24 9
  • 250. fruto terão que ser colhido no seu tempo certo, pois não cai uma só folha de uma arvoresem o consentimento do nosso papai dos céus.E lhe afirmo Elisa, com toda minha convicção que já estivemos juntos em vidas passadas,mas voltamos e aqui e até hoje ficamos juntos para os nossos ajustes ou acertos dos erroscometidos por noz em vidas passadas naqueles tempos, rejeitamos um filho pela amaléfica pratica do aborto e nesta vida atual, lutamos com muito sofrimento para obteresta vitória de revelo hoje com o nome de Ramon que também é Carlos ou Carlinhos.E eu estou deveras muito Felix por entender que as dividas de minha vida anterior econseqüentemente as suas estão mais amena pelo o que passamos e assim que eu partir omeu espírito será auxiliado pelos os bons companheiros da espiritualidade.E espero que você se mantenha firme, pois terá que continuar até a sua total velhice paranovas perspectivas junto ao seu filho. E eu em um futuro próximo poder estar trabalhandojunto aos bons companheiros no mundo espiritual para auxiliar tantos os espíritos que sesentem perdidos como também os espíritos encarnados e a você minha querida se assimDeus permitir.Prometo-lhe Elisa que pelo o nosso amor farei o possível e o impossível para estar ao seulado e te auxiliando no que for possível para a tua felicidade e desenvoltura espiritual, porisso Elisa. Peço que deixe que eu parta Feliz, pois a minha carne será consumida pela mãeterra após o meu sepultamento, mas o meu espírito prevalecera pela misericórdia esapiência do grande criador de todas as coisas o nosso Deus amado. Agora deixe queRamon fale. Pelo o que me parece ele pretende me perguntar algo. 25 0
  • 251. _ Sim quero: Então pelo o que eu pude deduzir Elisa é minha mãe? _ pergunta finalmenteRamon olhando para Elisa com incredulidade._ Sim é verdade. Elisa é sua mãe sim, é aquela que te deu a luz do mundo e que quaseenlouqueceu quando te tiraram dos braços dela... Sempre te amou muito, e saiu pelomundo como louca a sua procura. Passou fome dormiu no mato comeu raízes viveu boaparte de sua vida nas calçadas, foi presa por sua causa e finalmente está nesta vida, tudopor você, meu caro Ramon, tudo!._ Por isso este enigmático amor que sinto por Elisa: Será? Será então que é por essemotivo que tenho vontade de estar sempre perto dela?Responde Carijó: _ O que você e Elisa sentem um pelo o outro, e nunca outra coisa, senãoestar preso a esse sentimento instintivo materno e subentendido.Eu sabia que algo muito forte nos unia e nos atraía feito um imã; Afirma Elisa gaguejandopelo choro de muita emoção só que jamais eu poderia imaginar já correndo para os braçosde Ramon.Naquele instante parecia que o tempo havia parado._ Meu Deus! Não me importo com mais nada. Estou realizada! Achei meu filho querido.Carlinhos! Quer dizer Ramon. Não faz mal que hoje você tenha outro nome, o queimporta é poder sentir essa alegria. Obrigada, meu Deus! Obrigada, Carijó! _ Elisa estavatão feliz com o reencontro que mal cabia em si e ao mesmo tempo triste por que sabia doestado de saúde do seu grande amor absoluto Carijó._ Carijó está morrendo. _ diz Ricardo, percebendo que não há nada que possa ser feito,infelizmente. Sente sua pulsação, que já está muito fraca. 25 1
  • 252. _ Carijó, eu te amo. _ grita Elisa correndo para o lado de seu grande amor. Sim, ele é omeu verdadeiro e grande amor pena que não tivemos tempo ou a coragem suficiente paranos revelarmos um para o outro._ Eu também, sempre te amei e sempre vou te amar, quando te avistei pela primeira vezmeu coração pulsava com generosidade. E é por isso também que partirei em paz para aminha nova morada no mundo dos espíritos. Esperei muito tempo para ouvir isso... _brinca ele com os olhos bonitos pela a emoção que tivera na revelação de ser amado peloo seu amor verdadeiro.Elisa sem arrazoar dar-lhe um beijo intenso nos lábios de seu amado entre lágrimas deamor, gratidão e comiseração._ Elisa, você está maluca? Você pode contrair a... Eu não quero que fique doente, meuamor. Afinal você tem que continuar ainda há muito que fazer! Sua vida será longa _ressalta Carijó com muito esforço._ Quando se ama de verdade? Não, Carijó, um beijo não contamina nem o corpo e nem aalma. Pelo contrário, eleva nosso espírito. Não me deixe, por favor! Não agora!_ Doutor Ricardo, aquela sua empregada ainda está com o senhor?_ A Clotilde? Sim, está. Mas por que pergunta? Mesmo após aposentar-se, ela quiscontinuar conosco por gratidão e por ter se apegado à nossa família._ Ela vivia querendo saber por que eu andava remexendo tanto em suas coisas e porque euperguntava sempre sobre a sua história de vida e sua família, ou melhor, o seu passado,mas dona Dolores era um verdadeiro cão de guarda, dificultou muito as minhas 25 2
  • 253. inquirições. Agora o senhor e sabedor por que eu agia desta forma e sei exatamente detudo relacionado a esta família? Porque na verdade, eu sou um grande policial, eu sousim! É verdade! Eu sou o melhor de todos os policiais. Vocês não acreditam?_ Carijó, reaja! Você não pode morrer..._ Não dá mais, eu sei. Tenho que descansar. Já conclui o meu trabalho. Usei drogas,dormi nas ruas, passei fome e frio, mas não abandonei o meu maior objetivo: Encontrarseu filho Elisa. Deveras foi muito complicado acompanhar seus passos, pois doutorRicardo dificultou muito o meu trabalho na época, pelas insinuações ou suspeita que elecontenha de sermos amantes. Elisa, por amor eu não me arrependo, pois valeu à pena.Você tem que me prometer que não vivera assim, e que deixara de agora em diante estacasa e viver uma vida digna e sem vícios. Prometa-me pelo seu filho, pelo seu amor. Peloamor de Deus! Só assim eu poderei ir em paz para minha nova vida e no meu coraçãoresta o meu amor eterno por você._ Sim, Carijó. Custe o que custar, esta é a minha palavra! _ e virando-se para Ricardo elacontinua: _ O nosso amor sempre foi puro, nós sempre fomos como dois irmãos, nuncapassou disso Ricardo, nunca passou disso! Você entende agora!?Sim, finalmente ele compreendia. Ricardo nada conseguia dizer. Arrependia-seamargamente das acusações e de não ter mais Elisa em seus braços. _Te julguei mal,argumenta Ricardo, mas o ciúme o havia me cegado. Ele agora sabia o quanto haviaerrado, e pensava em reparar o seu erro cometido na intenção de reconquistar sua presaElisa. 25 3
  • 254. Carijó após ouvir Elisa prometer que mudaria de vida, e sentir que havia concluído a suamissão, dera enfim o seu último suspiro e consentir que aquele corpo frágil e doentepudesse ser consumido pela a terra como adubo e tributo para então libertar-se rumo àuma nova vida, sendo auxiliado por seu mentor espiritual e também pelos socorristas doespaço, que estão sempre nos amparando quando consentimos que sejamos ajudados,principalmente no momento derradeiro da “passagem”. Sendo esse trabalho realizado commuita dedicação e amor. E assim Carijó parte em paz rumo a um novo mundo, rumo anovos desafios rumo a espiritualidade em uma das moradas do nosso Deus querido,Parte 15 Capítulo IMais tarde na casa do casal, Dolores surpreende se com a presença de Elisa e indagamuito curiosa, esperando uma explicação:_ O que esta mulher está fazendo aqui, Ricardo? Ela não era sua secretária lá na clínica? Eque você a mandou ir embora?_ Sim, Dolores, é ela mesma. Lembra-se?_ Eu não tive outra saída, tudo aconteceu tão de repente..._ Do que você está falando? _ Dolores nada compreende, quando Ramon resolveinterferir: 25 4
  • 255. _ Mamãe, a senhora... A senhora fique sabendo que o papai não tem toda culpa, afinal eleé homem... _ Ele refere-se ao caso de seu pai com Elisa, mas Dolores continuaincompreenciava._ A coisa é um pouco mais complicada, Dodô. A Elisa é da mesma cidade que a gentee..._ É mesmo? Que coincidência! E por que é mais complicada? Eu não estouentendendo, vocês não estão dizendo coisa com coisa. Não me diga que... É daquelepessoal..._ É um pouco pior, Dodô, mas procure manter a calma. Acontece que a sua filha nãomorreu... _ Como assim? O que você quer dizer, Ricardo? _Dolores olha para Elisatotalmente perplexa._ Dodô, esta é a sua filha, aquela que o seu ex-marido, Joaquim, levou para enterrar; maschegando lá, a menina começou a respirar. Então ele pediu ajuda para uma senhora quemorava lá perto daquele rio onde seu ex marido pretendia sepultar sua filha e como era decostume, enquanto a menina estava sendo tratada, ele foi encher a cara e ficou dois diaspor lá. Quando finalmente lembrou-se de ir buscar a menina, nós já havíamos ido paraBelo Horizonte. _ Ricardo finalmente terminou o seu relato.Dolores passa a mão trêmula no rosto de Elisa e começa a chorar baixinho, e, seu prantoentão termina em soluços convulsivos, quando finalmente ela diz em prato:_ Meu Deus! Minha filha não morreu, ela está aqui comigo; e eu bem que não sentia que amenina estivesse morta, nos meus sonhos eu há via ela viva, por isso aqueles sonhosconstantes. Como você me achou minha filha? Como eu pude te abandonar? Não esperei 25 5
  • 256. teu pai voltar. Você deve ter sofrido muito, todos esses anos. Minha filhinha... Perdôo-me,eu não sabia. Se eu soubesse jamais a deixaria._ Calma mamãe! Ainda tem mais. _ Afirma Ramon com muita emoção na sua voz._ Você viu, Ramon? Essa é sua irmã._ Não, mamãe, não é minha irmã. É minha mãe._ Sua mãe sou eu, meu filho._ responde Dolores sentindo sua cabeça rodar semcompreender coisa alguma._ A senhora é minha avó.Dolores então solta um grito e desmaia, perdendo completamente os sentidos devido àsfortes emoções do momento.Quando finalmente volta a si, ela espera por uma boa explicação para tudo aquilo, pois eratudo incrivelmente demais para ela. Inacreditavelmente fantástico. “Estaria ficandolouca?” _ Chega a pensar.Ricardo conta à ela toda a história, desde a saída deles de Riacho Grande até a vagem quefiseram até lá para adotar uma criança que por ironia do destino era o filho de sua filha etudo nos mínimos detalhes, sem omitir-lhe informação alguma, pois sente que era omomento de jogar limpo e ser honesto, deixando Dolores tirar suas próprias conclusões,mesmo por que as revelações de Carijó não poderia ser negada diante Ramon e Elisa.Explica em detalhes que Elisa é a verdadeira mãe de Ramon; outrora, Carlinhos. E comoaconteceu a adoção e completa: 25 6
  • 257. _ Só que a sua filha tornou-se uma viciada, infelizmente. Mas ela terá todo o nosso apoiopara recuperar-se.Dolores ainda em estado de choque, mal pôde acreditar em tudo o que ouviu. Levaria umbom tempo até que ela pudesse acostumar-se, mas estava feliz em reencontrar sua filha,que julgava morta e saber que seu filho adotivo era na verdade seu neto, tão querido eamado e agora ainda mais, pois o amava como mãe e avó. Esse amor era por demaisintegrais.Zé por sua promiscuidade e agressividade acaba morrendo na cadeia, vítima de umterrível assassinato; pois já estava jurado de morte por outros presos, aos quais ele haviaprejudicado e como nesses lugares a lei é “olho por olho, dente por dente”. Ele Encontrouenfim seu destino letárgico, traçado por si próprio. Quanto a Maguinaldo, conseguiu fugirda prisão e voltou para Riacho Grande, porem é quase linchado e acaba sendo expulso dacidade pelo povo, revoltado com sua má conduta e como diz o ditado popular: “Quemplanta vento, colhe tempestade”.De volta a São Paulo, vamos encontrar Elisa indo juntamente com sua mãe, Dolores àigreja levar algumas flores e acender algumas velas em memória de Carijó. Ela já estárecuperada, após um rigoroso tratamento, libertou-se completamente de seu vício.Emocionada, Elisa diz:_ Quero rezar por Carijó todos os dias de minha vida. Carijó foi meu herói, minha almagêmea. Jamais irei esquecê-lo... O que fez por mim não tem preço ele realmente eraincrível. 25 7
  • 258. De volta à sua nova casa, ou melhor, na casa de Dolores, Elisa assistindo televisão, ela vêa seguinte notícia: “E atenção! Mais uma noticia exclusiva. Em Riacho Grande, nointerior do estado de Minas Gerais... Ocorre no momento um fenômeno que ninguémconsegue explicar. Vamos agora entrevistar a pessoa que mora nesta casa”._ Como você se chama?_ Me chamo Carlos, mas me chamam de Carlão._ E o que está acontecendo aqui em riacho grande? Poderia nos explicar?_ É uma luz que sai de dentro desta casa, sobe mais ou menos uns trinta metros, depoissegue em direção ao rio e penetra na água daquele grande rio. Eu nunca havia visto nadaigual._ E qual sua opinião a respeito deste fenômeno? O que o senhor acha que pode ser? Seriaum disco voador... Ou alma de outro mundo? É mesmo sobrenatural?_ Nenhuma coisa nem outra. Acredito que seja algum fenômeno da própria natureza.Voulhe dar um exemplo: Nesta região há uma grande quantidade enxofre na terra... Às vezes ovapor da terra após uma boa chuva e em seguida um sol bem forte pode provocar estefenômeno. O enxofre e outros minerais mais o vapor que esta comprimida na terra podesim lançar fogo semelhante a um vulcão, lógico que não tão intenso mas em menorquantidade sim. Onde tem enxofre pode acontecer este fenômeno. Se o senhor procuraralgum cientista ele poderá lhe explicar melhor... E como diz: Prá tudo na vida há umaexplicação!_ E então, por que os vulcões estão quase em extinção? ha poucos no planeta hoje em dia. 25 8
  • 259. _ Porque o ser humano explora muito a terra, tira minerais, petróleo, o próprio enxofre;então os vulcões enfraquecem. Eu acho que só pode ser por isso, mas não tenho certezaabsoluta._ Você mora aqui Carlão?_ Tomo conta deste lugar, pois a proprietária está viajando há algum tempo e pediu-meprá eu tomar conta. E faz muito tempo que ela se foi._ E você acha que um dia ela voltara? Disse que já faz muito tempo que ela foi embora...Quem sabe ela não pode estar nos assistindo neste momento! Por que não aproveita emanda um recado a ela? Quem sabe senhor Carlão._ Eu lhe afirmo moço: Que a dona destas terras e muito poderosa e me confiou este lugarem minhas mãos por tanto por estes próximos dias ela estará aqui para resolver estapendenga, mas posso lhe garantir que isto não é nada de mais, posso lhe garantir. E seique ela está pra chegar.Carlão tentava desta, forma mostrar para Elisa que se por acaso ela estivesse ouvindoaquele noticiário estendesse o seu recado nas entre linhas. E ele continua com o repórter,toda esta extensão de terra é dela, até onde vai esta luz pertence a ela. Quando elacomprou este lugar... Eram tão barato as terras por aqui que quase não tinha valor algum,ou melhor, não tem valor algum, mais uma vez Carlão usava de suas artimanhas paradespistar o repórter e outros curiosos.Por ser Carlão ex-garimpeiro suspeitava que ali houvesse algo de muito valor talvezouro ou alguma pedra preciosa sobre a terra. Ele havia adquirido os documentos da 25 9
  • 260. propriedade de Elisa e do seu finado marido Zé, no pequeno cartório de registrodaquela comarca, e concluiu após a leitura dos documentos que a extensão de terraera muito grande cujo rio em que a tal luz sumia passava dentro daquelapropriedade e que estas terras valem bem mais nos dias atuais do que podemimaginar._ Mas e esta luz, o que você acha que é?_ Eu já disse moço... É um fenômeno natural. Blefando Carlão continua: em minhaopinião quem causa tudo isto é o enxofre em contato com o vapor eu já trabalheicom mineração de enxofre por isso tenho experiência quanto a estes fenômenos._ Penso eu que deve haver alguma explicação mais explicita. Por que isto parece seralgo assim, meio que sobrenatural, não acha seu Carlos?_ Veja bem... Já briguei muito para manter estas terras livre de invasores porqueaqui é de dona Elisa. Há alguns desocupados e tomadores de terras e cachaceirosnessas redondezas querendo invadir as terras dela. Mas eu não sou bobo não, nãodescuido e boto pra fora e chamo a policia se necessário._ Explique-se melhor, por favor! Porque tanto mistério... Não é muito estranho?_ Moço, procure um biólogo, ou melhor, um geólogo, que é quem estuda a terra.Acho que a ciência lhe explicara com mais detalhes. Custe o que custar... Voumanter isso aqui intacto para dona Elisa. Até quando eu tiver forças, e que Deus meajude. Dona Elisa, por favor se estiver me ouvindo venha até aqui, volte para tomarposse das suas terras! 26 0
  • 261. _ Bem Carlão, Obrigado por seu depoimento... E voltaremos com esta reportagemna próxima edição, às oito da noite. Tenham uma ótima tarde!Elisa fica indignada com a reportagem, pois mal se lembrava daquelas terras e pensaconsigo mesma:Eu não acredito! Mas era mesmo meu amigo Carlão ele esta um pouco diferente,mas com certeza é ele mesmo. Depois de tanto tempo, de todos esses anos... E olhaque ele não mudou muito! Falava do rancho onde eu passei os piores dias de toda aminha vida e que foi totalmente destruído pelo fogo e se La agora tem outro casebrecom certeza foi ele que construiu talvez para preservar a terra e ele esta lá como umescravo, até correndo risco de vida para tentar salvar as minhas terras, e ainda achaque aquilo tem algum valor. Pensando bem devo ir até lá, vender aquelas terras porqualquer preço... Não!Eu acho que Vou doar aquelas terras pro Carlão, ele talvezpossa morrer de velho, ali naquele lugar... Coitado! Mas o que será esta luz tãomisteriosa? Que coisa mais estranha! Ah! Não há de ser nada, bobagem”. 26 1
  • 262. Parte 15 Capítulo IIMais tarde enquanto conversava com sua família, Elisa relatava seus planos:_ Bem... Como já sabem, estou desempregada. Tenho algumas economias napoupança. Vou sacar e ir até Riacho Grande para resolver a questão daquelasterras. Faço questão de resolver estes assuntos com meus próprios recursos._ Mas o que você vai fazer lá? Não precisa daquilo para nada, minha filha. Aquelelugar só nos traz lembranças tristes. Pense minha filha... Não vale a pena voltar lá..._ Lembra-se como escapei de morrer? Então! Foi graças a Deus e ao meu amigoCarlão. Tenho que ir até lá... Tenho que “libertar” meu fiel amigo daquele cativeiroeu devo isto ao Carlão. _ E a senhora não assistiu ao jornal La no seu quarto?_ Não, minha filha, hoje estive muito ocupada._ Então fique atenta, pois na edição das oito da noite eles vão repetir a reportagem.Vão falar sobre o que está acontecendo por La; a senhora vai entender melhor o queestá acontecendo naquele lugar, e porque eu tenho que ir prá lá com urgência. Masnão se preocupe comigo! Não pretendo ficar mais que dois dias naquela cidade,preciso voltar e arrumar o que fazer. Irei somente para resolver a situação daquelasterras de uma vez por todas. Tenho que ajudar o Carlão... Ele já se sacrificou demaispor tão pouco._ Está bem. Então vá, minha filha! Ficaremos com saudades. Volte logo! Estaremosaguardando ansiosos a sua volta. 26 2
  • 263. Naquela noite durante a viagem Elisa sonha com Carijó. Ele estava muito bem, comuma ótima aparência, saudável, radiando vida e saúde. Não parecia ter passado portantas coisas ruins, nem mesmo ter falecido. Mas na verdade não estava realmentemorto... Apenas seu invólucro carnal perecera sob a terra, mas seu espírito agoraliberto segue livre seu caminho, para um novo destino de aprendizagem e elevaçãonas esferas espirituais.Elisa e Carijó estavam em um lindo jardim, onde conversavam sobre muitas coisas esuprimiam as saudades com grande alegria, mas quando Elisa acorda, lembra-seapenas de uma parte da conversa onde ele pede muito para que ela siga adiante evolte para Riacho Grande. Carijó enfatiza para que ela volte para sua terra natal.Embora não conseguisse recordar com clareza o rumo da conversa, a agradávelmemória de um lindo e tranqüilo sonho com seu saudoso amigo permanece.Sentindo-se leve como uma pluma levada ao vento, sente uma grande alegria, comohá muito tempo não sentia.Parte 15 Capítulo IIIAo chegar a Riacho Grande, Elisa descuida-se e sua bolsa e roubada por um garotoque a fitava desde o desembarque, entra em total desespero, pois sabia que nelaestavam todas as suas economias, a chance que teria de ajudar um grande e velhoamigo, e acreditava estar em total segurança em suas mãos. Mas a miséria e apobreza local eram tamanhas, que as pessoas viravam-se como podiam parasobreviver, mesmo que tivessem de furtar ou cometer crimes ainda piores. 26 3
  • 264. _ Meu Deus! Por que tudo dá errado na minha vida? Fui roubada... Minha bolsa, láestava tudo o que eu tinha para ajudar Carlão e voltar para casa. Veja o que merestou, meu Pai! Uns míseros trocados... O que vou dizer pro meu amigo? Nada.Nada vou falar. Conhecendo ele como eu o conheço... Ele ira querer ir atrás doladrão, vai ficar preocupado comigo, com minha saúde... Estou cansada, com fome...Não posso fazer nada, nada. Tenho que comer alguma coisa ou vou acabar tendo umdesmaio, preciso ser forte e desmaiar só vai piorar as coisas.Ela olhou os poucos trocados meio amassados que tirou de seu bolso, os contou comtristeza e certa raiva, não havia restado muito, mal podia comprar um prato decomida num bar qualquer. Passou sua mão amarrotando ainda mais o dinheiro esacudiu a cabeça inconformada com a situação. Ainda bem que seus documentosestavam em sua mala de viagem. Num impulso raivoso jogou o dinheiro no chão ofitou com desprezo. Mas refletiu com calma e decidiu apanhá-lo novamente, poissabia que ainda podia lhe ser útil para alguma coisa, por menor que esta fosse. Saiuas presa entediada e com lágrimas no olhar.Mais tarde, encontrara-se com o amigo. Fora um encontro emocionante, como era dese esperar. Abraçaram-se, mataram a saudade sentindo um misto de alegria e apertodevido às barreiras do tempo em seus corações. Após muito conversarem e jantaremum prato de sopa rala, os dois deitaram-se e dormiram um sono profundo ereparador. 26 4
  • 265. No dia seguinte, com o despertar da aurora que agora tocava a delicada face daTerra com sua luz e beleza, anunciando mais um novo dia, eles despertam para acontinuação de suas jornadas._ Bom dia Elisa! Dormiu bem, minha amiga?Ela bocejou, sorriu ajeitando os cabelos e respondeu docemente:_ Sim, meu amigo. Obrigada! Mas e você... Como passou a noite Carlão?Ele gargalhou, serviu à ela uma xícara de café fresco e respondeu retirando algumastorradas e biscoitos de uma lata meio amassada?_ Dormi feito uma pedra... Se o mundo acabasse esta noite, eu nem saberia. Mascustei um pouco para pegar no sono. Apesar de exausto... A história de sua vida medeixou impressionado. Só lamento por não poder te oferecer um café decente. Peloque você pode observar a miséria por estas bandas não é pouca. Por incrível quepareça... Não sobra um tostão furado. Parece que o progresso não gostou muito destelugar, ou talvez não encontrasse o caminho... Se é que quis vir até aqui. Quevergonha eu sinto por este misero café da manhã minha boa amiga!Elisa por sua vez, nada respondeu, lembrou-se do ocorrido e por um segundo, sentiupena daquele pobre rapaz solitário que levara sua bolsa, embora não fosse este omelhor jeito para se prosperar na vida. Sentiu ainda mais por si e por seu amigo,mas tomou um gole do café e simplesmente sorriu. Enquanto Carlão lhe contavasobre os rumores que ouvia sobre a prefeitura daquele município, ela o fitava comum olhar perdido e deixava sua mente vagar pelas fronteiras de seus pensamentos: 26 5
  • 266. “Coitado! Nem imagina como estou com fome, ainda assim se preocupa comigo, como conforto que não pode me oferecer... Se eu contasse pra ele que fui roubada... Se eunão tivesse sido roubada não estaríamos tomando este café ralo...O pior é que aqui não tem nem como pedir ajuda a ninguém. Também estão namesma situação que nós... Ou até pior. Que lugarzinho... Foram esquecidos... Issonão se chama vida. Coitados!..Elisa então voltou à realidade e percebeu que ficar ali parada, pensando apenas nosproblemas, não resolveria nada... Precisava fazer alguma coisa, ao menos paratentar reverter sua situação e a de seu amigo... Precisava saber investigar sobre osúltimos acontecimentos. Levantou-se e o agradeceu pelo café, que apesar de serpobre e de acordo com a situação em que estava, pouco pode saciar sua fome, masaquele café com torradas já envelhecidas garantiu a ela um pouco mais de força,talvez pelo carinho com que fora preparado._ Aonde a senhora vai dona Elisa? Não é muito bom sair por aí. Perigo é o segundonome deste lugar. Hoje em dia não se temos segurança nem para andar por aí._ Me leva até onde você disse que a luz podia chegar! Vou seguir o caminho em que atal luz segue._ Mas para que, minha amiga? Não há nada por lá, pois ela não apareceu mais foi sóuma única vez._ Eu sei... Mas preciso ir até lá... Meu coração me pede isso. Pode me levar até láagora mesmo Carlão? 26 6
  • 267. _ Não sei, dona Elisa. Tenho medo de ir lá... Quer dizer... Medo não, respeito pensoser coisa do outro mundo! A senhora não pensou nisso?._ Ora, largue de ser frouxo homem! Medo de que? Não foi você que disse que nãoacreditava nessas coisas? Então, respeito é bom, mas medo só atrapalha, embora omedo às vezes possa salvar nossa própria vida._ Sei não, acho melhor a gente ficar por aqui no nosso cantinho, não é o lugar maisseguro do mundo, mas também não vamos nos prejudicar. Sabe que mexer comessas coisas... Ai, ai! Não vai dar certo. Olha, veja! Não precisa ir até lá... Da pra verdaqui mesmo. Pra que ir até lá?_ Esta noite sonhei com um pássaro muito bonito, um pássaro que ele falava.Imagine só um pássaro falante._ Credo! Parece até coisa de outro mundo mesmo!... Mas o do que o tal pássarofalava dona Elisa? _ Indagou Carlão coçando a cabeça num tom irônico, porémassustado, gargalhou para disfarçar o espanto e continuou: _ Pássaros não falam...Pelo menos não que eu saiba. Sonho é sonho, estas coisas só acontecem nelesmesmo... Vai querer seguir uma bobagem dessas?_ Pois é! Este falava, e muito bem. Pediu-me para acender umas velas para o Carijólá na beira do rio. Carlão, com certo medo ela retruca. Bem: Mas eu sei que narealidade, tirando papagaio, ave nenhuma fala. Isso deve ser é coisa da minha cabeçaresponde Elisa. Sonhos são engraçados, mas geralmente querem nos dizer algumacoisa. Eu sinto, eu sei. 26 7
  • 268. _ Ai meu Deus do céu... Está bem... Vamos até lá, já que insiste, e só me seguir, masnão saia de perto de mim dona Elisa.-Larga de ser medroso Carlão. –Veja bem dona Elisa eu não tenho medo deenfrentar nada nesta vida, mas coisa do outro mundo eu realmente tenho muitomedo e respeito._Venha Carlão, não tenha medo o perigo esta nos vivos e não nos mortos fiquetranqüilo, mas antes vamos pegar algumas velas e... Você tem, não tem?_ Sim. Mas por que a pergunta?_ Por que todos os dias por volta deste horário eu acendo uma vela e oro para o meuamigo Carijó. Queria que o tivesse conhecido, ia gostar muito dele. Ele era um rapazmuito esperto, muito especial... Mudou minha vida. Além do mais, o pássaro dissepara acender umas velas para ele lá no rio._ Ah! Mas quem te disse que eu não o conheci? Lembro muito bem quando ele veioaqui pela primeira vez... Ele aqui esteve com o delegado Feijó; foi aí queconseguimos prender o safado do Zé e seu comparsa. Lembra?_ Não poderia ter me esquecido deste episodio por mais que eu quisesse.Bem: Se faltar vela para a senhora acender... Eu ainda tenho uns trocados aquiesta... Não e muito, mas creio que dá para comprar um pouco mais. Se quiserpassamos no empório primeiro o mais próximo é logo ali, compramos as velas e emseguida iremos direto para onde a luz seguiu antes de sua chegada aqui em riachogrande. _Este lugar parece estar progredindo já tem até uma bodega aqui perto!Comenta Elisa. 26 8
  • 269. Após a compra das velas Carlão afirma. Bem dona Elisa estas velas dá para passaruma semana fazendo orações para o seu Carijó, já que todo dia a senhora acendeuma.Prefiro ficar no escuro, mas não deixo meu amigo sem uma vela que é o símbolo deluz para a sua caminhada onde ele estiver, não deixo ele ficar na escuridão. Nem queeu tenha que comer mato para isso, não deixo meu amigo sem luz. Não posso fazerisso. Entende? Foi por causa dele que larguei a perdição, não sou mais prostituta,nem viciada... Ele me fez prometer que largaria aquela vida horrível. Foi muitodifícil, mas eu consegui. Devo tudo a ele, ou melhor, devo lhe a minha própria vida.Neste momento, as lágrimas rolaram dos olhos de Elisa, que recordara da promessaque fizera ao jovem em seu leito de morte. E junto com suas lagrimas emanada amais pura e sincera saudade e gratidão, lavando por completo sua alma quevolitavam os seus pensamentos._ Não chore, minha amiga... Eu entendo você. Acredite! No seu lugar, não fariadiferente. _ disse Carlão abraçando-a. Deu uma breve pausa e fitou surpreso olado externo de sua janela, com a boca aberta inclinou sua cabeça para observarmais de perto e disse:_ Veja, dona Elisa! Tem uma ave estranha ali... Parece até que está observando agente. Se falasse... Creio que nos diria alguma coisa.Elisa enxugou suas lágrimas com a manga da blusa, fitou a ave com certo espanto edisse meio a um sorriso admirado com a beleza imponente do animal que pareciaobservá-los, o que de fato fazia com seus negros e vivos olhos: 26 9
  • 270. _ Nunca vi isso em toda minha vida que ave linda e imponente._ O que será isto, minha amiga? _ Indagou Carlão, realmente assombrado eperplexo com o que seus olhos viam. Jamais havia visto coisa igual, nem mesmosemelhante.Tratava-se de uma belíssima ave enigmática, ou melhor, desconhecida as vezesparecia uma águia, outras vezes um galo de briga, que agora pairara no ar numaaltura baixa rumo ao rio, como se os chamassem em seus gritos.Apressando seu amigo, Elisa apanhou em suas trêmulas mãos algumas velascompradas na bodega, correu junto ao amigo para o rio seguindo a enigmáticapresença da ave que agora sobrevoava rasteiramente próximo ao local onde a luzatingira._ Meu Deus! Carlão... Estou toda arrepiada. É uma ave muito bela, de cores fortes...Talvez uma espécie rara. Não sei explicar, mas a sensação que sinto é tão estranhaque me assusta. Nunca vi algo assim, parece até que veio do nada. Incrível! Nãoacha?_ Tem razão dona Elisa... Mas parece que está indo embora._ Estou vendo. Mas que pena! Pelo amor de Deus, pare de me chamar de “dona”,pois entre amigos não tem que haver estas formalidades. Depois de Carijó, você é omeu melhor amigo Carlão._ Está bem dona Elisa... Ou melhor, Elisa. Obrigado! Fico muito feliz e honrado. _Respondeu ele orgulhoso de sua amizade com ela. Sua alegria mal cabia no seu bomcoração que agora parecia explodir dentro do peito. 27 0
  • 271. _ Veja bem, é mais ou menos por aqui que a luz aumenta e em seguida desaparece.Aproveitando a oportunidade, aqui estão os documentos das suas terras, o peguei nocartório uma cópia autenticada a senhora ira precisar destes documentos ejuntamente com as velas Elisa olhando pro alto os pegou.A divisa de suas terras chega mais ou menos até ali, e eu acho que valem um bomdinheiro. Eu se fosse a senhora, quer dizer... Você, não jogaria essas terras fora dejeito algum, mas respeito sua decisão minha amiga seja qual for._ Entendo, mas não vale o sacrifício que você fez por mim tomando conta deste lugardurante todos esses anos... Ah! Veja meu amigo! A ave está voltando._ Onde, Elisa?_ Ali, naquela direção. Segura os documentos, por favor! Coloque-os de volta no seubolso, pois eu não tenho onde guardá-los. Depois a gente verifica com mais calma seestas terras valem mesmo algum dinheiro Carlão. Está bem? Obrigada por tomarconta de tudo prá mim, meu bom amigo!_ Você é quem manda. Sabe que é gratificante ter alguém como você paraconversar... Eu já estava até me habituando com minha solidão. Embora jamaisestejamos totalmente sós. Não é mesmo?Assim que Elisa resolve entregar os tais documentos ao amigo, o pacote de velas cairumo ao rio como se uma misteriosa força o tivesse atraído para suas águas, ou sealgo o tivesse tirado de suas mãos. Desesperada e numa atitude impensada, elaarremessa- se nas águas profundas daquele grande rio que o levavam rapidamente opacote com as velas e ao mesmo tempo a misteriosa ave sobrevoa rasteiramente 27 1
  • 272. sobre a superfície das águas, de tal forma que suas garras quase podiam tocá-las e aave muito agitada gritava por várias vezes.Elisa continua nadando desesperada, rumo ao pacote de velas sem notar que a águacomeçava a ficar turbulenta e a levá-la pela correnteza do rio em direção a uma gruta nassuas profundezas, ainda bem que Elisa aprendeu bem a nadar em sua infância e começode adolescência. Carlão gritava desesperado enquanto corria pela margem tentando tirarsuas calças para não molhar os papeis onde constatavam a autenticidade da propriedadedaquelas terras em nome de Elisa e seu finado marido, então ele notou no seu ponto devista, que a águia a conduzia diretamente para algumas pedras limosas e esverdeadas etambém bastante escorregadias pelo limo. Meu Deus que loucura Elisa não resistira esterio é muito perigoso.Elisa em um esforço descomunal conseguira por fim, agarrar o pacote com as velas que jáestava prestes a seguir rumo às profundezas das agitadas águas. Após ela pegar as velasjuntamente com o pacote estava também em sua mão uma minúscula pedrinha queformava a boca da gruta.Fraca pelo esforço excessivo e pela fome que sentia o que lhe causara uma grandefraqueza, ela com a ajuda de seu amigo leal mal chega à margem e cai desacordada.Carlão desesperado, assistindo com pavor toda a cena que rapidamente ocorrera, desistede pular na água e corre em sua direção para salvá-la. Embora não soubesse nada sobresalvamento, pressionava fortemente suas mãos sobre o peito da amiga enquanto lhe fazia 27 2
  • 273. respiração boca, a boca, até que esta por fim cuspiu parte da água que havia engolido erecuperou sua consciência ainda atordoada._ Que susto que você me deu Elisa! Você esta ficando louca, mulher? Podia ter morrido._ Não... Eu não estou morta meu amigo. E não devo deixar de acender as velas que euprometi acender todos os dias de minha vida para o meu amigo Carijó, e você Carlão háde entender que não temos mais dinheiro para eu comprar outras velas. Eu creio que essaluz..Ha,a,.a. Essa luz há de iluminar o caminho dele, tenho certeza:E esta ave é assustadora mas me traz uma sensação maravilhosa como se estivesseanunciando algo muito bom que ha de acontecer algo realmente maravilhoso._ Ainda assim... Arriscou sua vida por um maço de velas? Oh Elisa!_ Eu não poderia deixar de cumprir com a minha obrigação eu fiz uma promessa para oCarijó que todas os dias e principalmente nas segundas feiras eu deveria de ascender ummaço de velas em sua intenção e por não ter mais dinheiro para comprar outras velas eupreferi me arriscar..Esta será a minha missão a partir de agora meu Carlão, cuidar da vidaespiritual do Carijó.Carijó adorava ajudar as pessoas, queria muito ser um policial, um detetive para lutarpelos os impotentes ao lado da justiça... Ele acreditava que com a chama de uma vela esua oração podia guiar seus entes queridos ao Pai. Não faço apenas por obrigação ou porser uma missão a qual acatei... Faço por amor a ele! 27 3
  • 274. _ Sei disso Elisa, mas para isso você tem que continuar a... Que pedra é esta em sua mão?De onde você tirou isso, mulher? _ indagou Carlão maravilhado examinando a pedra comum dos olhos fechados direcionando-a ao sol._ Joga isso fora... Na hora do desespero quando fui pegar o maço de velas que estavaparado naquela pedra, ela veio junto com o maço. _ Respondeu Elisa sem dar muitaimportância._ A senhora... Quer dizer... Você sabe que pedra é esta? Pode imaginar que pedra e essaElisa?Ela o olhou com um ar de inocência e indiferença, fitou a pedra sem dar muitaimportância e respondeu levantando desajeitada:_ Não sei... Só sei que é uma pedrinha escura. Estranha não? Parece ate de vidro... Pegapra você! Assim você vai se lembrar de mim... Depois dessa que passei estou pronta paraqualquer coisa, para o que der e vier.E também pode pagar o susto que eu lhe dei. _Está me dando esta pedra... A Elisa... Vocêtem certeza?_ Mas que tanta pergunta Carlão... É lógico que eu estou te dando. É sua, pode ficar comela. Você já fez tantas coisas por mim e eu nunca posso te retribuir ou fazer algo deimportante por você... Só posso te dar esta pedrinha bonitinha como lembrança para vocêsempre se lembrar de sua amiga. Mas é claro que eu gostaria de poder te ajudar de outraforma de dar um belo presente meu amigo...Mas do jeito que a gente está indo. Só posso te dar isso, como símbolo de minha amizadee gratidão. Ela não tem valor nenhum eu sei... Mas a partir de agora terá um valor 27 4
  • 275. estimativo o meu carinho e grande afeto pela a nossa boa amizade. E por que este espantosó por causa de uma pedrinha? Lá embaixo tem um montão delas, mesmo com as águasturvas eu percebi que há varias._ Está falando sério Elisa? Não é possível, meu Deus! _ Diz Carlão estendendo em suaface um riso emocionado, riso de um vitorioso, riso de uma esperança que pareciafinalmente mostrar-se._ Oh, Carlão!O que, que está acontecendo com você homem? Parece estar ficando tolo é?_ Você falou que lá embaixo têm muitas destas? Tem certeza Elisa?_ Claro, Carlão! Eu que quase me esborracho nas pedras e você que fica lesado, é? É claroque tem! O lugar é bem nessa direção, é só dar um mergulho e... _ Carlão a interrompecom os olhos arregalados: _ Oh, Elisa acorda mulher este lugar onde estão estas pedras édentro de suas terras!Ela o olhou franzindo as suas sobrancelhas não entendiam o porquê de tanta euforia, detanto espanto de seu amigo, fez um gesto negativo com a cabeça sem nada entender e elecontinuou:_ Está bem... Elisa, você sabe que ha muito tempo atrás, eu trabalhei, em alguns garimpos.Não sabe? E com isto logicamente que eu adquiriu alguma experiência nesse negocio depedras, umas eram de pura ilusão, outras... Nem tanto. Mas eu sei muito bem reconhecerpedras quando vejo uma. Isso que esta em minhas mãos é uma pedra preciosa, de grandevalor. Esta pedrinha vale muito dinheiro minha amiga... É uma esmeralda, Elisa! É umaesmeralda que quase da pra perceber que é em formato de um coração! Você nãoreconhece por que está em seu estado bruto é lógico, mas quando for lapidada, você vera 27 5
  • 276. que ela ficara igual à de um anel de senhora consorte. E se no fundo deste rio tem aquantidade que você diz que tem... Elisa... Você está milionária. _ Ele passou a mão no rosto, gargalhou com extrema alegria, abraçou sua amiga girando-a como num carrossel. De verdadeiras e grandes emoções. Ele a colocou novamente nochão e sentando-se na margem do rio, começou a chorar de tanta alegria._ Carlão... Está falando sério, meu amigo? Não pode ser Carlão. Essas terras não valemnada pelo o que eu sei...- É ai que você se engana minha amiga, realmente naquela época estas terras não valianada, mas agora as coisas mudaram e muito.– Mas Se fossem realmente esmeraldas, alguém já teria descoberto há muito temporesponde Elisa. Não chore a toa meu amigo! _ Disse ela um tanto que desacreditada,sorriu e sentou-se ao lado dele, que segurava firmemente a pedra em sua mão.Ela respirou profundamente e se encolheu sentindo um pouco de frio, sorriutranqüilamente olhando as agitadas águas e continuou:_ Não se iluda meu amigo! Olha, vamos voltar... Você tinha razão... É bobagem correratrás de um sonho onde pássaro fala. Tudo o que eu mais quero agora é tomar um bombanho quente e comer alguma coisa. Então, vamos lembrar dos velhos tempos e colheralgumas verduras e legumes que nascem por ai e procurar alguns ovos de aves nos ninhosabandonado por este terreno e preparar um cosido para nos alimentar. Mas pode ficar coma pedrinha pra você._ Não, Elisa. Você ainda não entendeu... Esta pedra na minha mão vale uma fortuna...Você está rica, milionária. Confie em mim... Sei muito bem reconhecer uma pedra 27 6
  • 277. preciosa. Você pode comprar um carro, uma lanchonete ou sei lá o quê... Você podemudar de vida de uma vez por todas. _ Disse ele, mais calmo, fitando-a com carinho eternura._ Se você estiver certo... E francamente, espero que sim... Poderemos investir em muitascoisas, meu amigo. Mas só não me fale em lanchonete, pois, me lembra que... Estoumorrendo de fome!!!Parte 15 Capítulo IV_ Você é uma pessoa alegre e modesta, mesmo com todo sofrimento que passou. Acabade saber que está milionária, talvez se não bilionária e quer almoçar tranqüilamente numcasebre pobre e feia. É por isso que sempre a ajudei e a admiro muito Elisa. Você sabe serhumana: Bem... Recomendo a você Elisa a não comentar nada a ninguém... Sabe como é,né? O mundo está cheio de gente gananciosa que só pensa em dinheiro e poder, sãocapazes até de tirar uma ou mais vidas para tê-los o que não são seus de direito.O silêncio muitas vezes nos leva para mais perto de onde queremos chegar, minhaamiga... Portanto iremos até o fundo deste rio, pegaremos o máximo que pudermos destaspedras e depois tomaremos os procedimentos legais de acordo com a lei, porque se assimagirmos estaremos protegidos pelo próprio princípio da lei e pronto, tudo isto com muita 27 7
  • 278. calma e cautela para não dar nada errado. Quem poderia imaginar? Meu Deus... Umverdadeiro tesouro neste lugar. Quem diria?_ Carlão, nós vamos nos alimentar primeiro e mais tarde pensaremos nisso, com a fomeque sinto eu não tenho condição de pensar em nada meu caro senhor;Eu acho que há pessoas que nos viu correndo para cá, você sabe que o povo adora fofocar,principalmente em uma cidade pequena. Não demoraria muito para saberem disso, temosque ser o mais discreto possível. Estou errado? Estou zonza, não como bem desde ontemquando cheguei aqui. Não me leve a mal meu amigo... Mas aquela sopa mal deu paraforrar o estômago..._ Está bem, Elisa! Vamos à quitanda perto de casa e vou comprar algumas verduras elegumes... Tenho só uns trocados que não dá para comprar a mistura, talvez alguns ovosnoz achassem nos ninhos por ai. Gostaria de lhe oferecer um banquete, minha amiga aindamais agora que você é milionária. E os dois sorriram muito.Neste instante ela o abraçou, seus risos misturavam-se com as lagrimas de alegria quedesciam silenciosas por sua face. Riu da situação, estava milionária e tão pouco proventotinha para se alimentarem.Meu Pai... Que ironia do destino... O que o Senhor me reservou! _ Pensou ela, até quevoltou a fitar a majestosa águia que de volta ao mesmo local sobrevoava planando comsuas grandes asas a margem do rio e emitindo um agudo som, como que comemorandoaquele acontecimento e se despedisse vitoriosa. Ambos levantaram-se, fitaram aenigmática ave por um tempo e despediram-se partindo por fim. Uma leve e rápida chuva 27 8
  • 279. começou a advir como se fosse para lavar e consumir um passado amargo de ambos, eassim que cessou a chuva. Nasceram atravessando os céus uns alegres e mágicos arco-íris.Estes não só chegara para enfeitar o céu, mas também para saldar e abençoar a boa sortede Elisa, que agora viveria uma nova vida.Ela o fitou aquela obra prima do criador como se estranhasse aquele feito tão belo emagnífico do “Ser Supremo” que agora lhe presenteando ou lhe condecorava com arecompensa de seu bom aprendizado e também pela sua perseverança como guerreira queera.Captou por fim a mensagem que lhe fora enviada através dos céus e quando novamenteprocurou a ave com ligeiros olhares seguidos para todas as direções, percebeu que ela jánão estava mais ali... E talvez jamais estivesse.Seu pensamento desatinado imediatamente retorna à Carijó, e ao perceber o seuenigmático sorriso na claridade que surgia na imensidão do horizonte, com suas covinhase um brilho indecifrável no olhar, que sempre fora tão vivo esperto e peculiar como odaquela ave que até ali a guiara, emocionou-se levando suas mãos para o céu num gestode amor e agradecimento. Quando neste momento em seu devaneio ela o enxerga seuamado Carijó sobre as nuvens consentindo que caísse de suas mãos varias esmeraldas emforma de coração sobre o rio para que ela apanhasse para usufruí-las em sua nova etapa devida sendo totalmente solidaria com os seus semelhantes principalmente os moradoresdaquela cidade tão esquecida e miserável por conseqüência da ganacia das autoridadeslocais e o descaso de outros comandos superiores. 27 9
  • 280. Será que... Será que a ave era o espírito do meu saudoso Carijó? E que me apareceu emforma de uma ave enigmática e imponente? Será meu Deus!?Pensou Elisa com um olhar umedecido por lágrimas que estampavam em sua face,tamanha a saudade que sentia do amigo e amplo amor. Ela então compreende e um calormisterioso e aconchegante passa a aquecer sua alma.E seu coração devoto por aquele jovem dedicado que se fora, mas que deixou um legadomaravilhoso em sua alma de mulher, e em total silêncio e respeito naquele instante, elafaz uma confrangedora oração e o agradece do fundo do coração que palpitava comoquem almejasse gritar por seu nome.Aquele sagrado e mágico instante jamais poderia ser esquecido por Elisa, pois para elaseria completamente impossível esquecer, até mesmo após sua passagem de vida carnalneste plano.Ao cair da noite, Elisa contempla o céu iluminado pelas as estrelas que exuberanteinsistiam em mostrar-lhe a sua beleza onde ela as avistava da janela de seu casebrereconstruído por Carlão. Exausta pelo dia que tivera e ansiosa pela colheita de suasesmeraldas, verdes como a esperança. E que a aguardavam submersas nas profundezasdaquele rio, ela começa a pensar e refletir sobre toda a sua vida e uma nova etapa demulher humilde e solidaria.Em todas as coisas pelas quais já havia passado, até o momento em que ali estava comonuma breve e bem resumida retrospectiva. Da qual surgira a questão que todos os seresdeste planeta mais fazem quando elucubram: Por quê? Ela era uma mulher guerreirapersistente e tinha muitas histórias para contar, algumas felizes, outras nem tanto, mas não 28 0
  • 281. conseguia entender o motivo pelo qual tinha que vivenciar tudo isso, mas sabia em seuintimo que tudo na vida serve como um bom aprendizado.“E que os piores algozes são os melhores professores”.Pensava com certa perplexidade em como a própria vida era irônica. Sempre quis sairdaquele lugar e ter uma vida melhor... E, no entanto novamente ali estava ela, de volta aoseu ponto de partida.Questionava-se sobre como poderia ser sua vida dali para frente, agora que descobrira quea felicidade poderia estar por trás de tanto sofrimento ou com toda a riqueza que passariaa adquirir poderia enfrentar mais problemas do que antes, o sofrimento poderia aumentar-lhe ainda mais, ganhos e perdas. Sabia que teria que tomar sérias decisões de agora emdiante. Então ela se perguntava; devo seguir em frente ou renunciar a tudo e seguirmodestamente? Mas não naquela noite preciso descansar e refletir.E com tantas questões que rondavam pelos caminhos de sua mente, ela adormeceuapoiada no batente de sua janela decidindo antes em uma prece comovida entregar todasua vida nas mãos de Deus, o pai amoroso que lhe concedeu a reencarnação para seu bomaprendizado a caminho da perfeição espiritual já que fora os bons mentores do plano extrafísico quem a guiara até então pelo consentimento de Deus.Com certeza como todo bom Pai,o criador jamais o a abandonara, e jamais o faria então sesentindo segura entregou-se a um sono tranqüilo.Enquanto encontrava-se no deleite de seu sono que era testemunhado e velado pela belezada noite, ela sente desprender-se de seu corpo fisico e percorre um lugar tranqüilo ondeCarijó sorrindo lhe aguardava e permaneceu ao seu lado. Ele corado e bem vestido, o 28 1
  • 282. rapaz apanha suas mãos com delicadeza, afaga seus cabelos tão maltratados e diz comuma voz terna e harmoniosa que parecia ser acompanhada por uma doce e bela músicacujo tema fala-se de amor e que partia de uma estranha e misteriosa luz que parecia umaporta por detrás de seu ser:_ Venha comigo, minha querida! Quero mostra-lhe algo a você. _ Ela fitou-o com certocuidado e estranheza e então a misteriosa luz por cima de seu ombro parecia lhe proteger.Ele sorriu a fitando-a com carinho, ameigou a sua mão e sobre seu rosto macio e delicadolhe disse: _ Sou eu, Carijó. Não confia mais em mim?Ela não conseguiu conter suas emoções, o abraçou-o com um choro silencioso e em umpiscar de olhos, estavam em outra dimensão num imenso jardim, repleto de flores, todasperfumadas e bem cuidadas. Ela notou que mesmo envolvidos pela beleza daquele lugar,havia uma grande construção que aparentava ser um enorme e luxuoso salão de festas,porém vazio no momento.Apenas uma linda e melodiosa música enche o lugar. A mesma música que saía daquelaluz que ela por um breve tempo temera e que agora podia ouvir mais claramente. Ele apuxa delicadamente pelas mãos subindo alguns degraus e a convida para entrar. Assimque entraram, Elisa permaneceu maravilhada com a beleza do lugar, e extasiada fitava-oem total silêncio e se surpreendeu quando Carijó aproximou seu corpo sobre o dela e lhefez um convite:_ Quer dançar?Ela sorriu ajeitando seus cabelos e respondeu: 28 2
  • 283. _ Ah, meu amor! Sabe que eu não sei dançar. Pra falar a verdade nunca dancei em todaminha vida... Também... Deixa pra lá!_ Não faz mal, é só me acompanhar. Venha, eu te mostro. Você sabe sim, aprendeu hámuito tempo e por ser em uma época distante, não se recorda.Ela ficou muda fitando-o com um olhar confuso, porém admirado. Ele a segura levementepelas mãos, encosta seu corpo ao dela, seu rosto compenetrado fita-a com amor.Enlaçando seus braços na sua cintura e levando-a com passos pequenos que iam e vinhamcomo uma pequena e leve onda, ele a fez recordar da dança. Rodopiaram num embaloembriagador e leve feito uma brisa por todo o salão sem dizerem uma única palavraapenas sentia as batidas de seus corações rumo a uma felicidade indescritível enlevadospor volitarem e com a presença um do outro. Não havia necessidade de palavras, já queem certos momentos estas só atrapalham. Havia muito a se dizer de ambas as partes, éclaro. Mas no momento eles queriam apenas sentir a presença um do outro, mesmo queesta fosse tão silenciosa quanto à noite, ou o imenso jardim no qual estiveram antes. Nãodesejavam nada mais, além disso, além-mundo do instante mágico que estavam vivendonaquela viagem astral ou sonho tão real.Não! Não importava mais o passado, nem o futuro, apenas o presente, que bem poderiaser eterno. Não importava se o que vivia naquele momento fosse um sonho ou realidade, afelicidade estava ali, acima de qualquer coisa. Os sonhos nesta dimensão podem ser arealidade, ou o desprendimento do espírito encarnado durante o sono para além dasfronteiras do tempo e do espaço. 28 3
  • 284. Tudo era perfeito e mágico dava até para sentir a presença do criador naquela morada, aharmonia musical e o perfume que exalava pelo ar, a beleza do ambiente com seu pisobranco e espelhado cercado de grandes vidraças e flores e a pureza de seus sentimentosque quase podia ser ateada. E assim eles aproximam os seus lábios com branduracontinuaram dançando, na candura de um sonho lindo e a beleza de suas almas, até odespontar do sol. Quando os primeiros raios surgiram no horizonte e alegar consigo umnovo dia, ele diz a Elisa:_ Venha, meu amor! Você precisa voltar.Ela o abraçou fortemente e novamente numa fração de segundos haviam retornado paraaquele humilde casebre onde Elisa repousava adormecida preparando-se para despertar.Mas antes ele a segura pelas mãos e fitando-a com ternura diz com toda convicção:_ Elisa! Você deve seguir seu caminho para que de agora em diante servir em paz aos quecom ansiedade lhe aguarda! Pois foste designada para ser uma guerreira e servir aos quenecessitam do teu aconchego por tanto agora começa uma nova etapa em sua vida terrena.Nós haveremos de nos encontrar outras vezes... Eu estarei sempre, sempre aguardando porvocê quando nos for permitido outro dia... Ouça bem meu amor! Em vidas futuras com oconsentimento do criador, poderemos voltar para casa e ficaremos para sempre juntos. Onosso Amor é e sempre será Eterno... Sempre... Sempre. 28 4
  • 285. Ela quis lhe dizer algo, mas antes que o fizesse, ele levou sua mão leve e brevementerumo à sua boca com amor e ela chorou emocionada com as palavras do seu amado, quesorriu por fim dizendo:_ Até um dia, meu amor. Cuide-se, viva sua vida, já que a existência é um breve sonho,um breve instante. Viva-a da melhor forma possível. _ E quando ele estava prestes a entrar naquela luz tão clara e bela Carijó disse beijandosuas mãos com um forte brilho no olhar: _ Ah! Você dança muito bem! Sempre foi assim,lembrou mais rápido do que pude imaginar!Elisa desviou o olhar e quando a voltou para ele, Carijó já havia desaparecido de suapresença junto àquele feixe de luz. Só então se dera conta de que ele estavacompletamente diferente do que sempre fora, daquele rapaz que um dia conhecera eestava também, com um familiar sotaque que lhe soava estranho, mas que ao mesmotempo era absoluto.De alguma forma, de um modo que seu coração não sabia explicar... Ela sabia... Era ele,seu eterno Carijó. Sabia que agora era ainda mais belo que quando o conhecera elecircunstanciava com mais elegância! Um perfeito cavalheiro, de finos modos e roupas doséculo passado outros tempos. Mas ainda assim ela sabia que se tratava da mesma pessoa,com aqueles mesmos olhos escuros, aquele mesmo sorriso sedutor onde poderia apreciarduas covinhas em cada lado de sua face... Tinha certeza de que assim como eles seconheciam de outra vida, ia novamente se encontrar, pois sempre confiara na palavra deseu amado. 28 5
  • 286. Então, sem qualquer receio, Elisa retorna ao seu corpo físico e adormecido sentada numavelha cadeira frente à janela. Ela sentou-se despertou com a calorosa e agradável luz solartocando sua face, espreguiçou-se com vontade e com um sorriso alegre em seu rosto.Estava confusa, mas sem saber o motivo, sentia-se feliz. Com certa dificuldade para abrircompletamente seus olhos devido à luz do dia, ela bocejou novamente e sussurrou comternura e paz:_ Ah! Carijó! Meu amor, que saudade de você!Carijó quando desencarnou, recebeu toda atenção e carinho de todos que se encontravamà sua volta e quando seu espirito despertou assustado, sendo tranqüilizado pela doce vozde um senhor que estava frente a ele. Tratava-se de seu mentor espiritual designado paraorientá-lo, um senhor já de idade avançada cujo seu nome era Francisco Candido. Era eleum espírito bastante paciente, carismático e muito sábio que o assistia sempre até que eleestivesse completamente recuperado para a vida no plano espiritual. Sua recuperação foirápida, pois aceitara sua nova condição sem qualquer sinal de revolta, sentindo apenas porter que se separar daqueles que tanto amava, principalmente de Elisa e de seu sonho de serum grande investigador. 28 6
  • 287. Parte 15 Capítulo VQuando Carijó mostrou-se preparado, Gabriel, seu outro mentor, o levou para terapia umasessão de regressão onde poderia facultar o domínio da regressão materializada numagrande tela projetada em sua própria mente, cenas importantes e decisivas de suas vidasregressas. Ele então se reconhece na pele de Matthew que se apaixona pela esposa dosócio de seu pai, o era um amor proibido e também perigoso. Pois Joseph, o marido deElisa, que na época era a senhora Annie Elizabeth, era um homem bastante ciumento epossessivo.Quando ela finalmente assume seu amor pelo jovem Matthew, acaba engravidando de seumarido Joseph. Uma gravidez que antes fora tão esperada, agora se torna totalmenteindesejada, um peso. Ela então pensa em cometer um aborto, mas não tem coragemsuficiente para tanto. Mas quando a criança nasce um lindo menino chamado Charles, elasimplesmente o abandona à própria sorte e sem medir as conseqüências foge comMatthew. Como a fuga fora muitíssimo bem planejada, eles jamais foram encontrados,deixando para sempre a fria Inglaterra, passando a viver numa pequena cidadezinha aonorte da França.Joseph enlouqueceu e jamais reconheceu Charles como seu filho legítimo, pois acreditavaque ele era fruto da traição de sua bela Annie Elizabeth com Matthew em que a sua 28 7
  • 288. paixão por ela não passava somente de ajuntar duas heranças mais a atração física e osentido de posse, mas mal sabia ele que estava enganado. O menino era realmente seufilho sanguíneo, pois até então, ou melhor, até a gestação de Annie o amor entre sua ela eo jovem Matthew era um amor sem maiores intimidades.Joseph tentou encontrá-los para justapor um corretivo o que ele julgava ser justificado,mas para seu total desespero em suas buscas nunca foram encontrados, sua procura foraem vão. Ao morrer, Joseph doa seu espólio que era uma grande fortuna para a Igreja,abandona seu filho sanguíneo Charles a deriva na bucólica miséria, sofrendo as maiorespenúrias, sendo o menino obrigado a levar uma vida de esmolas afinal pelo o abandono ojovem adolescente não foi nem preparado para pelejar pela sua sobrevivência.Os pais de Matthew também sofrem muito e não se conformavam, pois o seu filho comum futuro promissor deixa tudo e abandona até seus estudos por causa de uma mulhermais velha, casada e vulgar. A mãe de Mattew, Alice Smith, amaldiçoa aquele amor comtoda a força de seu coração amargurado pela desonra do filho. Desejando a todos os diasde sua existência vingar-se daquela a quem considerava uma devassa e promiscua.E até mesmo em seu leito de morte deseja vingar-se, e acaba o fazendo. Mas na pele deSimone, a traficante de crianças inescrupulosa, que nesta vida tira o filho de Elisacruzando novamente seu caminho e juntamente com Zé que é a reencarnação de Joseph,ela executa então o terrível crime. Sendo este o verdadeiro motivo para que Zé não tivesseCarlinhos como seu legítimo filho, e sim como fruto da traição de sua mulher. Jamais 28 8
  • 289. acreditou na inocência de Elisa, que sempre falara a verdade e nunca compreenderaaquela terrível obsessão de seu marido. Eram os resquícios de sua vida passada.Carijó então entende o porquê do sofrimento de Elisa, o motivo pelo qual foraterrivelmente separada de seu filho, Carlinhos. Numa terrível trama entre Zé e Simoneseus inimigos imortais.Também entende que a missão de fazê-la reencontrar seu filho,Carlinhos ou Ramon, quepor vez, tratava-se da reencarnação de Charles, era sua, pois ele fora o principal motivode Annie “Elisa” ter abandonado seu filho ainda um bebê, para que pudessem fugir rumoa um outro país. Quando seu extinto maternal falou mais alto e fez com que elamanifestasse a intenção de levá-lo com eles na fuga para o interior da França, eleprotestou, não permitindo de forma alguma que ela assim o fizesse, pois queria começaruma nova vida com sua amada e por isso não queria que nada mais lembrasse o passado,mesmo que fosse algo tão precioso quanto um filho, porém seu amor apesar de sincero eraegoísta e possessivo, tanto quanto o de Joseph.Não achava justo dividir o amor da mulher amada com um filho que nem sequer tinha seusangue correndo nas veias.Carijó compreendera que seu amor, quando Matthew, fora egoísta e cego pela vontade depossuir somente para si sua amada. Viu também o quanto Elisa ou Annie Elizabeth,precisava passar pela dura experiência de ter seu filho arrancado de seus braços, para queassim pudesse dar o devido valor à benção e a graça de dar a luz e criar um filho, decarregar no coração, o sagrado dom materno. 28 9
  • 290. Experiência esta nomeada por ela própria um longo tempo após desencarnar e entenderque deveria resgatar os graves erros de sua vida passada quando ainda era conhecidacomo Annie Elizabeth, na escolha de como seria sua próxima reencarnação, ela optou porser Elisa passando por dissabores para mais tarde obter a recompensa do altíssimo.A grandeza da sabedoria do Criador, que através do livre arbítrio nos permite avaliar asnossas próprias necessidades de aprendizagem e assim traçar um novo caminho de acordocom nossas necessidades e capacidades, pois o fardo que carregamos determinado por nosmesmo, jamais Deus permite que seja maior do que podemos suportar, embora em nossosmomentos de fraqueza, a maioria de nós pense justamente o contrário. Muitos dos seres humanos por pura ignorância quando passa por determinadossofrimento os rotulam como desígnios de Deus e não deles mesmo como se Deus fosseum pai que nos castigam para depois nos conceder o alento.A verdade e que: Na benção do esquecimento propiciado pelo o criador não nosrecordamos do que fora planejado por noz mesma durante o nosso aprendizado no planoespiritual, pois seria ainda muito mais difícil e doloroso o fato de mantermos vivas aslembranças dos erros cometidos no passado, o que faria com que o nosso fardo se tornassemuitíssimo mais pesado.Nada mais que reflexos de nossas faltas ficam impregnados em nosso “perispirito” ousubconsciente para o que praticamos de errado aos nossos semelhantes e para com nósmesmos.E assim através da benção da reencarnação, vamos aprender com boas experiências, aslições de que necessitamos para a elevação de nosso espírito rumo às esferas superiores, 29 0
  • 291. onde o sofrimento não será mais necessário se seguimos o caminho correto comoinstrumento para o nosso aperfeiçoamento espiritual, e continuaremos a aprender cada vezmais e mais, mas desta vez, não pelo sofrimento, e sim pelo amor e o labor em prol dosque estão na relação de nossa convivência espiritual ou fisica, pois enfim teremoscompreendido as leis do infinito universo e incondicional Amor que nos regem atravésdas sábias e abundantes fontes divinas condicionadas na constituição de Deus, entre este eem outros mundos.Mas devemos lembrar que Deus e democrático no sentido da palavra, ou seja, ele nos da olivre arbítrio, por tanto podemos tanto no físico como também no extra físico optar pelocerto ou errado.Parte 15 Capítulo VIU 29 1
  • 292. _ Ricardo e Ramon prestem bem a atenção! Eu tenho que fazer uma viagem: Irei atéRiacho Grande e com urgência, argumenta Dolores._ Por que, Vovó, o que houve?Ricardo a encara exigindo uma explicação. O relacionamento deles já não é mais omesmo. Após todos os acontecimentos, eles continuam vivendo na mesma casa, mas nãomais como marido e mulher de fato, na verdade ele não aprova aquela nova maneira devida após toda aquela descoberta.Ignorando a cara feia de Ricardo, ela responde olhando para Ramon:_ Sua mãe me ligou: Ela perdeu todo o dinheiro, roubaram sua bolsa e agora ela não temcomo voltar e está passando necessidades. Você sabe como é aquela cidade, Ninguém temdinheiro para levar uma vida pelo menos dura sequer, e quando tem é muito pouco. É umamiséria que só... Onde vamos parar meu Deus? Aquela cidade parece amaldiçoada ouesquecida por Deus_ Eu também quero ir com a senhora, vovó. _ responde Ramon animado com apossibilidade de conhecer a terra natal de seus familiares, mesmo que uma terra pobre emiserável. _ Mas e a faculdade, meu filho?_ Nunca faltei às aulas e agora a faculdade pode esperar, afinal, eu ganhei mais uma mãe,e não vou perdê-la. Já aprendi a amar aquela doce criatura... Eu amo minha mãe, vovó! Eamo você também que é minha mãe duplamente.Ricardo que escutava tudo com seus olhos avermelhados como brasa, responde furioso: 29 2
  • 293. _ Vocês estão loucos? Está na cara que aquela vagabunda está mentindo... Pensei que elafosse arrumar um emprego ou um macho que a sustentasse, mas nem pra isso ela prestaElisa não quer nada com nada... Só quer torrar nossa paciência. _ Após uma breve pausa,deu-lhes as costas e com um violento soco no batente da porta, continuou: _ E se queremsaber, aquela morta de fome inventou isso tudo, essa história mal contada, dizendo quetinha a tal “luz” só para ter que sair e não ajudar na casa. E vocês acreditaram...Ricardo nem parecia o mesmo. Tornara-se uma pessoa amargurada e infeliz. Aconvivência com ele estava cada vez mais insuportável ele não admitia que Elisa saísse davida dele seu desejo carnal por ela continuava agudo._ Já chega! Para com isso Ricardo. Você esta ficando maluco é? _ Gritou Doloresimpacientemente, ajeitou seus cabelos e prosseguiu: _ Se quer saber, eu não acho que elatenha mentido depois de tudo o que passou... Admira-me você que se diz todo justo,agindo desta forma. _ Dolores ficara indignada com a atitude de Ricardo, quepermanecera de costas como quem a ignorasse sem dar muita importância para o que diziaela. Não conseguia entender o motivo de tais palavras, as quais vinham de quem um diaenfatizava reafirmando que amara e admirara, o que parecia no momento não mais serpossível pela total transformação de Ricardo após a doença de Dolores.Ricardo enfim revela sua verdadeira personalidade ou seria Dolores que demorou tantopara perceber por estar cega pelo carinho que sentia por ele e mais a gratidão? 29 3
  • 294. _Retruca Ricardo: Ela não teve tempo para comentar que iriam reprisar a reportagemsobre o “fenômeno sobrenatural” que estava ocorrendo por lá? Só mesmo vocês dois paraengolir essa história que aquela louca inventou vocês dois são mesmo muito ingênuos._ Olha aqui, Ricardo! Já engoli várias histórias suas em relação as suas amantes... Evocê... Você sim se revelou um grandessíssimo de um mentiroso e infiel já me causouvárias decepções. Nunca pensei que pudesse me enganar tanto assim com alguém. Masenfim, a gente só acredita mesmo no que quer acreditar. O ser humano é cheio deignorância e egoísta mesmo! Insistimos em nos iludir não querendo enxergar a verdade...Enfim, nada disso importa agora.De repente tudo ficou quieto Ramon permanecera de cabeça baixa durante a discussão,dona Dolores o fitou com certa pena do rapaz, e disse:_ Bem... Eu vou para Riacho Grande custe o que custar. Se ela estiver... Se ela estivermentindo, não faz mal. Se tem alguém que merece toda minha atenção e carinho, estealguém é a minha filha. Afinal, nós dois somos responsáveis por tudo o que Elisa passou eainda está passando e com tudo nos agraciou com o seu perdão._ Você tem o dinheiro para ir... Tem como concluir esta viagem? _ Indagou Ricardo aindade costas._ Lógico que não. Aliás,... Faz tempo que não sei o que é dinheiro, meu caro;Aqui nesta eu só tenho o direito à alimentação e moradia, a troco do meu trabalho dedomestica. Sinto-me apenas uma governanta nesta casa, não tenho direito a conter meupróprio dinheiro para minhas necessidades pessoais. Antigamente você me tratava como 29 4
  • 295. uma rainha Lembra-se? Mas então, após eu adquirir uma moléstia cujo eu não pude maislhe satisfazer como mulher._ Pois Bem: Não contem comigo. Se forem, por favor, não voltem para esta casa. Queroque me deixem em paz... Vivam a vida de vocês que eu quero viver a minha. _ Dizendoisso, finalmente Ricardo virou-se para Dolores, fitou-a com desprezo e partiu para seuconsultório._ Deixa ele pra lá, vovó! Eu tenho algumas economias, a senhora sabe que com o queganho pago a faculdade... Pode contar comigo. Eu guardei um pouco no banco._ Ah, meu filho! Infelizmente Ricardo não quer nos ajudar... Cada dia que passa as coisasvai de mal a pior, ele gasta ou guarda tudo que ganha para fazer o seu próprio pé-de-meia... Egoísta, não pensa em ninguém, só nele mesmo. E se não der para nós voltarmoscom o dinheiro que você tem?_ Aí então faremos igual a minha mãe Elisa. Voltamos a pé, porque devemos isso a ela,minha mãe vale qualquer sacrifício. _ Responde Ramon extremamente convicto de suaspalavras._ Agora o que importa é estarmos ao lado dela. Nós teremos que permanecer juntos eunidos como uma família, que é o que somos.Neste momento dona Dolores abraça Ramon comovido com as palavras do generosorapaz a quem amava profundamente. 29 5
  • 296. Já em Riacho Grande, Dolores, Ramon e Elisa novamente encontram-se meio a um forte esaudoso abraço, envoltos por uma grande felicidade causada pelo emocionantereencontro._ Como você está, minha filha? Parece bem e até feliz... Vejo que há um brilho diferenteem seu olhar. Está acontecendo alguma coisa que me parece boa?_ É que na verdade! Parece-me estar com um ar de felicidade.. Viu o passarinho verde émamãe? _ pergunta Ramon._Como é gratificante e confortante ouvir você meu filho me chamar de mãe. Posso atéadivinhar o que Ricardo falou de mim... Com certeza disse que eu estava mentindo e..._Ah, minha filha. Esqueça Ricardo infelizmente ele mostrou sua verdadeira personalidade!Elisa sorriu, acariciou o rosto de Dolores e continuou: _ Mas desta vez ele estava certo,pela primeira vez ele teve razão. Eu menti. Menti para vocês, escondi a verdade para quevocês pudessem ficar tranqüilos e não contar nada à ninguém. O Carlão me orientou destaforma para que noz não saíssemos perdendo. Mas fiquem calmos que logo vão entenderdo que estou falando._ Não faz mal minha filha, de qualquer maneira a gente te ama, não importa se vocêmentiu para noz.O que importa agora minha filha e socorrer você. Temos pouco dinheiro, mas você nãopassara mais necessidade eu prometo. 29 6
  • 297. _ É verdade mamãe, não vamos mais sair do seu lado se tivermos que passar dificuldadesque seja junto á você do seu lado, eu e Vovó já estamos determinados a não deixar àsenhora ficaremos juntos._ Mas é lógico que não vamos mais nos separar, meu filho, afinal eu encontrei vocês._ É na verdade, devemos isso ao Carijó._ Só que tem uma condição._ Qual, a sua condição minha mãe? _ Perguntou Ramon ansioso, sem imaginar que suamãe agora era uma mulher de grandes posses financeiras._ Nós temos que viver aqui... Temos muito que fazer nesta região._ Por mim eu ficaria, mamãe... Mas eu tenho minha faculdade, não posso deixá-la, masnão pretendo me separar da senhora como eu disse antes._ Está certo. Mas veremos isso mais tarde. Com certeza você poderá continuar seusestudos aqui mesmo, deixa comigo._ Vovó, nesse momento o que eu mais quero é ficar com vocês duas, minha avó e minhamãe. Pelo amor de Deus... Não quero perder minha duas mães, não vamos maispermanecer longe um do outro._ Ah! Meu filho, bem que estranhei você me chamando de vovó... Mas faz tanto tempo,que eu tenho você como meu filho que não consigo me acostumar. Depois de tanto tempotendo-o como meu filho... É muito esquisito. Mas enfim, a única vantagem é que avó émãe duas vezes. Não é mesmo? 29 7
  • 298. Os três riram alegremente e abraçaram-se celebrando em total comunhão aquele momentomágico em suas vidas. Agora nada mais podia separá-los, pois o amor sincero os uniapara sempre.Carlão chega meio afobado e entra correndo na velha casa dizendo todo assustado:_ Elisa, Elisa... Tem um monte de jornalistas lá fora, estão querendo entrevistar você. Eagora? O que devemos fazer pra despistá-los? Estão de novo querendo falar sobre a tal“luz”. Que droga! Imagina se descobrem a verdade? _ Chame aquele policial que estátrabalhando para nós!_ Qual deles?_ O Mantiqueira. Ele é de confiança.Assim ele o fez. Já na presença do policial, Elisa chama-o para orientá-lo quanto aosjornalistas._ Mantiqueira, venha cá, por favor! Quero que dê um jeito e despiste aqueles repórteres,faça o que achar melhor, mas procure não ofendê-los, pois estão apenas fazendo seustrabalhos._ Pois não, dona Elisa!_ Carlão, quero que venha comigo! Ordena Elisa.Neste momento Ramon já não agüenta mais de curiosidade e indaga:_ Mamãe! O que isso tudo significa? Não estou entendendo o que esta se passando._ Entre no carro, meu filho! Depois eu te explico tudo com mais calma. 29 8
  • 299. Após entrarem no carro Dolores indaga_ Agora nos diga minha filha... O que estáhavendo aqui? O que estes jornalistas querem com você? _ esquadrinha Dolores comcerta aflição, sem nada entender. Temiam que sua filha novamente estivesse impetrada emproblemas.Neste momento Carlão resolve interferir:_ Elisa, conta logo o que está acontecendo. Sua mãe se sujeitou a tudo e seu filho deixouaté a faculdade para estar com você. Talvez não seja justo guardar este segredo por maistempo._ Está bem, meu caro amigo. Você tem razão. Por favor, Carlão, conte tudo para minhamãe e para meu filho. Afinal, somos uma família... E você faz parte dela de agora emdiante, aliás, sempre fez. Porque se não fosse por você, por sua lealdade e coragem, estapropriedade já teria sido invadida há muito tempo e se não tivesse me salvado eu nãoestaria aqui hoje para que alguém um dia possa contar minha saga._ Está bem. Fico muito honrado com tamanha consideração. É com alegria que comunicoà senhora, Dolores, e seu neto Ramon, que dona Elisa, agora é uma mulher milionária.Muito mais do que possam imaginar. Ela pode comprar quantos bois, terras, casas que elaquiser que ainda lhe sobrara muito dinheiro... Mas Muito dinheiro mesmo.Os dois entreolharam-se incrédulos, fitaram Elisa com espanto, e esta logo veio a dizeremocionada:_ Eu preciso de vocês para me ajudar a administrar tudo, sem cometer nenhum erro.E você, meu filho, como já é uma pessoa estudada... Pode nos ajudar e muito. 29 9
  • 300. _ Mas como assim, minha filha? Como se sucedeu este fato como você consegui se tornartão rica assim do dia pra noite?_ Fique calma, minha mãe! Lembra da reportagem que eu disse para verem no jornal dasoito?_ Sim minha filha, mas não cheguei nem a ver... Se é que passou._ Como assim? Não reprisaram a reportagem?_ A vovó está certa, mamãe. Eles não repetiram a programação._ Bem, talvez estivessem atrasados com outras matérias, ou então não deram muitaimportância, afinal o Carlão mostrou desinteressado pelo o acontecido para despistar osrepórteres e os curiosos.Mas de qualquer modo... Foi assim... _ Elisa junto de seu amigo relata detalhadamentecada fato ocorrido na beira do rio, o que os levou à mina de esmeraldas, e com extremasimplicidade, Carlão completa: A primeira pedrinha que Elisa achou mesmo não estandolegalizada judicialmente eu fui até um joalheiro em Cachoeira e vendi por um bomdinheiro para ter como continuar com o projeto que é extrair as outras pedras que estãoenvoltas em uma gruta nas águas daquele maravilhoso rio._ Sua mãe está fugindo dos jornalistas para preservar a segurança da mina eprincipalmente de todos nós. Espero que não dêem atenção a ninguém até a gente possamontar uma boa equipe de segurança que o policial Mantiqueira já está providenciandopra nós.Porque eu pedi para o Carlão ligar para ele La na cidade em que eu vivi por um tempopróximo de belo Horizonte e ele veio o mais rápido que pode para nos ajudar e sabemosque ele é de total confiança. 30 0
  • 301. Avó e neto ficam atordoados, pasmos diante da incrível revelação. Boquiabertos poralguns instantes, sem saber o que dizer sorri com certa dúvida, ficando em silêncio por umbreve tempo, silêncio que logo foi quebrado por Ramon:_ Mamãe, nós não viemos aqui por causa disso, só queremos o seu amor, nada mais queisso._E eu Quero apenas seu carinho e seu perdão, minha filha._ Eu sei mamãe. Mas não tenho nada o que lhe perdoar, afinal a senhora não tem culpanenhuma, eu sei que vocês vieram aqui somente para me ajudar, me apoiar. Mas é poramor que vocês estão enterrados nisso até o pescoço, afinal vocês é a minha família, sãotudo de mais precioso que eu tenho nesta minha vida. Não vão me deixar sozinha, não émesmo? Estou muito assustada, minha mãe; não sei o que fazer e nem como agir... Àsvezes acho que isso tudo é um sonho, e que a qualquer momento irei acordar... Mas nomesmo tempo sei que estou acordada, assim como sei que tem muita gente ruim nestemundo, pessoas que são capazes de tudo, até de matar só para ter riqueza. Que loucura...Estou muito assustada._ Imagina mamãe! Jamais a abandonaríamos aqui, independente de estar rica ou não. Nãoestivemos sempre juntos? Pelo menos desde que nos encontramos a senhora. Por issopode contar com a gente.Os três abraçaram-se demonstrando um verdadeiro gesto de união, mais que isso, agora seuniam com toda a força de seus corações à uma esperança que nunca morrera, e que agoramostrava sua face, esperança de dias melhores, num futuro muito próximo. Uma aura osenvolve neste momento, e como que por telepatia se lembram do amigo Carijó e de mãos 30 1
  • 302. dadas numa forte corrente de amor e fé, eles começam uma oração enternecida por ele. EElisa comenta: É... Meus queridos teremos muito trabalho pela frente!Naquele instante sagrado, embora não pudessem enxergar o amigo Carijó, que se faziapresente com os seus dois principais mentores, Gabriel e Francisco Candido e que aliestavam por terem eles ouvido o convite por intermédio das orações fervorosas de Elisa eos demais:Atraídos sim, pela luz daquela maravilhosa prece. O saudoso amigo sente-se envoltonuma enorme felicidade porque tivera a permissão de seus superiores para que pudesse sepermanecer por algum tempo junto a sua amada Elisa. Então Ali ele ficou como quemabsorvesse parte daquela aura que envolvia os quatro seres encarnados. Ele estava deverasmuito alegre. Elisa, aquela que foi e ainda é o seu grande amor. Sabia que um dia ambos,estariam juntos, então ela esperaria com paciência e dignidade a cada dia de sua existênciapara no futuro estar neste novo plano que agora Carijó vivia com alegria.Enquanto isso Carijó fora prevenido pelos os seus mentores e se lembrou de que haviamuito trabalho a realizar, uma tarefa que optou em cumprir com grande satisfação.Escolhera trabalhar com aqueles que desencarnam na mais profunda solidão. Vítimas deterríveis doenças contagiosas que os aprisionam nas mais tristes das prisões: Opreconceito, e esquecimento de seus familiares ao desencarnarem. E sem muito comentardo descaso de lideres religiosos que se dizem apóstolos de Jesus ou missionários dapalavra divina, muito poderiam colaborar para encaminhar estes espíritos solitários eperdidos em seus estados psíquicos, por conseguinte a sociedade que pouco colabora para 30 2
  • 303. a evolução do planeta e sucessivamente o principal: O plano espiritual, Cujo Jesus omestre dos Mestre tanto enfatizou.A muitos irmãos que ao desencarnarem chegam desesperados no plano espiritual,desolados precisando de todo o tipo de atenção especial, de apoio e companhia, pois estãoextremamente carentes de afeto.Ramon, Elisa, Dolores e Carlão sentem uma brisa suave e permanecem em um profundosilêncio como se as palavras fossem dispensáveis, naquele momento.Então Carijó usufruindo do que aprendeu com seus mentores usa a telepatia paradespedir-se de seus amigos e segue com seus queridos guardiões para as escolasespirituais, com o intuito de continuar sua árdua, mas abençoada tarefa.Mais tarde Elisa lembra-se de alguém em especial e diz ao Carlão:_ Me lembrei de uma coisa que você nem pode imaginar. Lembram-se quando te falei deuma mulher que me ajudou naquela casa de prostituição arcando a sua própria vida parame tirar das garras da cafetina dona daquele lugar?_ Qual, Minha amiga Elisa?_ Aquela, que quando o Zé queria me obrigar a ir trabalhar lá, me tirou das garras da donada casa.Eu fiquei sabendo que ela apanhou muito por ter me ajudado e em seguida jogaram apobrezinha na rua da amargura e você me disse que após ela ir para fora daquela casaninguém quis ajudá-la e que ela passa muita necessidade por ai.. 30 3
  • 304. _ Ah, sim... Sei sim. Ela anda por aí, com as costas toda marcada das chibatadas quelevou. Ela ainda é forte, mas a coitada está bastante acabada, foi bem judiada._ Pois é... Eu estava aqui pensando... Ela não vai mais passar humilhação alguma nestavida. Terá uma vida digna de agora em diante. Será minha “protegida” vou lhe dar estudoe um trabalho digno.Quanto a você, meu filho... Preciso de sua ajuda, é bastante estudado e já está quaseterminando sua faculdade. O que é mesmo que você estuda?_ Economia, mas quero fazer direito também._Pois é... Nós vamos montar a sua faculdade aqui, nesta cidade meu filho, se você mepermitir é claro. E também quero montar uma Fundação para atender as crianças destacidade e varias escolas para as crianças e adultos também. Vamos ajudar algumas famíliasa saírem do sufoco, mas terão que trabalhar para viverem com dignidade, nada será degraça.A fundação se chamara: Fundação Carijó. Se depender de mim... Nunca mais estascrianças vão passar necessidades. Mas terão que estudar, praticar esportes... Terão odireito de lutar por seus bons objetivos.Ramon a olhava com orgulho, enquanto sua mãe falava com extrema animação sobre seusplanos de ajudar as pessoas que tanto necessitavam. Mas nada seria de graça. Todos quequisessem fazer parte daquele belo projeto teriam de colaborar para que este elo setornasse cada vez mais intenso todos se preparassem e se sentissem valorizados._ Aqui vou reconstruir o cemitério, os mortos também devem ter seu lugar, seus restosmortais devem ser respeitados e não jogados no lixo como fazem nesta cidade.É neste velho e abandonado cemitério que foi sepultado o seu avô minha filha. Sabia? 30 4
  • 305. Quero trazer os restos mortais de Carijó para cá quando tudo estiver pronto. E é para eleque quero construir o mausoléu mais bonito de todos, ele merece, deve ter uma estátuadele, com sua doce e alegre expressão. Quanto à luz que alguns desta cidade viram no rio,não posso fazer com que ela apareça novamente, mas luz não faltará no mausoléu doCarijó e todos que a verem irão sentir-se iluminados também._ Se me permite... _ Disse Carlão sugerindo algo ainda mais nobre._ Por que não faz uma estátua dele na praça principal?_ Ah, meu amigo. É uma ótima idéia. Assim essa Luz chamada Carijó ficara acesa nocoração de cada morador desta cidade._ Eu acho, ou melhor, eu tenho certeza que aquela ave tão bela era o nosso amigo Carijósim, a nos indicar o caminho... O caminho do bem e da sabedoria. _ Disse Carlão fitandoo céu com um ar de mistério e contemplação e completou afinal a palavra carijó e a raçade um animal alado e este era o apelido deste espírito de tanta luz._Bem: E para Carlão, minha mãe? O que devemos fazer como devemos homenageá-lo?_ Vamos ver... Espere... Há! Já sei. Que tal um beijo nesta bochecha fofa?Ele permitiu que Elisa o beijasse na face, corou com um tímido riso, mas quando Ramontentou beijá-lo fugiu correndo sendo perseguido pelo amigo que tentava a todo custoagarrá-lo sem qualquer sinal de malícia, enquanto Elisa e sua mãe gargalhavam abraçadasaproveitando ao máximo aquele momento de descontração e paz que os envolviaCom o passar do tempo todo o conhecimento, ou melhor, o aprendizado que Elisaadquiriu durante sua vida lhe serviu como estágio usando todo o que aprendera como 30 5
  • 306. estratégica para administrar bem a sua fortuna em prol das pessoas daquela pequenacidade com o nome de riacho grande e com a imensa bondade de Elisa, porem com severadisciplina em sua administração, a pequena e miserável cidade cresceu em dimensão eprosperou muito em recursos obtidos para aquela região.Suas crianças tornaram-se cultas de tal forma, que hoje é chamada de “a cidade modelooutros a chama de cidade da esperança”, onde predomina a paz, a prosperidade, orespeito, solidariedade e amor ao próximo. Mas ainda assim, está sempre lutando paraevoluir... E mesmo acolhendo em seu seio, pessoas de outros recantos que mal conheciamo passado e a história daquela tão sofrida cidade, Riacho Grande está sempre caminhando,rumo ao futuro, rumo à democracia e à evolução.Trazendo para o coração de todos que nela vive uma luz que jamais será esquecida, e quetraz a todos a certeza de que um dia tudo mudará e para melhor. Uma luz chamadaesperança ou Carijó. Aquela mesma esperança que trouxe à cidade de Riacho Grande obrilho da fé a perseverança e da vitória e que por vez surgiu como esmeraldas no formatocoração que é o símbolo do amor. Submersas nas profundezas do rio. E foi assim queaquele município encontrou inspiração e boa vontade em uma filha do lugar, a guerreirapor nome de Elisa, que até hoje seus situados encontra paz na luz que ilumina o mais belode todos os sentimentos, o amor.Elisa por opção não almejou casar-se, mesmo com interessantes pretendentes que lhecircunstanciava. Pois a sua imensa família já estava formada. Porque alem de Ramon o 30 6
  • 307. seu amado filho e também sua mãe havia Carlão e os filhos de sua terra natal Riachogrande.Elisa residiu feliz em sua cidade natal ao lado dos seus até a sua total velhice e após sedesencarnou tranqüila com a consciência do dever cumprido e convicta com a promessade Cristo que enfatizava em suas pregações a dois mil e poucos anos atrás: quando elecitava: Na casa do pai há varias moradas. E também com a certeza de reencontrar Carijó oseu grande amor de varias encarnações vividas por ambos, ou melhor: o reencontro com asua alma gêmea.E assim pela afabilidade do criador, como em um passe de mágica ela descobre o seubenevolente e bem amado em uma das moradas do pai “Deus”.Carijó ao vir ao encontro de sua amada para conduzi-la a sua nova estada em uma colôniaprovisória enquanto ela passaria por um estagio ou aprendizado para se adaptar ao planotranscendental, ele constata que sua amada estava totalmente rejuvenescida, assim comoela era, jovem autentica e guerreira... E após o treinamento de Elisa concluído, os doisjovens seguem juntos para o labor espiritual. Que eles os consideram como sendo umanova aventura e desta vez como iluminados que são.E assim foi. FIM 30 7
  • 308. São Paulo, 10 de junho de 2011.Caro diretor Jorge Fernando: 30 8
  • 309. Chamo-me Nevas Amaral, sou autor anônimo de dois livros romanceados cujo á alguns anos atrástive a inspiração para servi-los. São histórias baseada em fatos reais e ficção. (vidas passadaspresentes e futuras) “ na minha modéstia nem eu mesmo sei se é psicografia ou não”Hoje o meu pensamento é dar vida aos personagens destes contos, mostrando a continuação da vidado espírito pós o fenômeno morte.“Portanto depois de refletir, digo pela a minha insegurança por não obter um curso acadêmico ouespecifico para autores, tomei coragem em lhe enviar uma destas obras.” Quem sabe você “leia”Lembro-me bem quando você ao conceder uma entrevista mencionou a sua ousadia de adentrar asala de um importante diretor de novela da tv Globo para tornar-se um ator, junto é claro, commuito esforço e acima de tudo o seu talento. Com esta porta que se abriu você tornou-se umrenomado diretor da emissora de televisão mais importante do país.Bem: Sem a pretensão de bajulação faço esta afirmativa, afinal o seu trabalho é relevante,reconhecido e admirado por milhões de expectadores em vários países.Desculpe-me pelo o meu atrevimento em estar lhe enviando estas escritas para a sua apreciação.Peço que, assim como abrirão uma porta para o seu talento no início de sua carreira, ajude-me arealizar este grande sonho por isso basta que leia, se assim for será para mim um jubilo de comendapara o meu modesto ego.Sem mais.Um forte abraço! Nevas Amaral. Tenho sessenta e quatro anos de idade, Nasci na Bahia estouradicado em São Paulo a sessenta e dois anos.Sinopse: 30 9
  • 310. O que vale mais ao longo de nossa jornada, os bens acumulados ou os amigosque conquistamos?Carijó e Eliza reencontrou-se para novas aventuras, e principalmente para o resgate ouajustes de um passado distante de vidas anteriores.Ao longo do caminho eles se defrontaram com vários obstáculos que lhes causou muitasdificuldades, mas que também lhes condeu bons aprendisados. Nesta peregrinaçãoencontraram seus algoses no plano físico e meta-fisico, mas também amigos tanto desteplano como do plano espiritual dispostos a estender-lhes as mãos.A benção da mão amiga que a Divina Providência coloca em nosso caminho em formatode porto seguro que vale mais do que qualquer tesouro, basta que saibamos avaliar estadádiva divina.Esta empolgante e envolvente história proporcionará a você, caro leitor, muitos anseios eum ótimo lazer cultural, além de um importante aprendizado sobre como conduzir nossasvidas com coragem e determinação sem ceder-mos ao desanimo a caminho da evolução...Boa leitura o autor: 31 0
  • 311. 311

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