Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                              Potter, de J.K. Row...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                              Potter, de J.K. Row...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                              Potter, de J.K. Row...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                              Potter, de J.K. Row...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                              Potter, de J.K. Row...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry                           Potter, de J.K. Rowlin...
Upcoming SlideShare
Loading in …5
×

Karin E. Westman - Perspectiva, memória e autoridade moral: O legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowling

2,348 views
2,256 views

Published on

O artigo publicado aqui é uma tradução.
Artigo original:

Perspective, Memory, and Moral Authority: The legacy of Jane Austen in J. K. Rowling’s Harry Potter.

Children's Literature, Volume 35, 2007

0 Comments
0 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

  • Be the first to like this

No Downloads
Views
Total views
2,348
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
732
Actions
Shares
0
Downloads
21
Comments
0
Likes
0
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Karin E. Westman - Perspectiva, memória e autoridade moral: O legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowling

  1. 1. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. RowlingÉ uma verdade universalmente reconhecida que um autor infantil, em busca deum leitor, deve querer uma fonte - ou assim clamam os detratores de J.K.Rowling, que insistem que sua série best-seller é simplesmente "derivada"(Hensher), uma simples coleção de brilhantes insignificâncias regularesfacilmente desmontáveis por uma Pelúcio trabalhador. Essas acusações demisturas literárias, no entanto, negam a alquimia da arte de Rowling, e eles nãoconseguem explicar as complexidades do personagem, o ponto de vista danarrativa, e o tema introduzido através de seu mundo ficcional. A série deRowling não mostra tanto quanto parece (como Philip Hensher, Harold Bloom,A.S. Byatt, e outros alegaram), mas revela tonalidades diferentes em váriasluzes. Coloque os romances de Rowling ao lado dos livros Alice de LewisCarroll, e a série Harry Potter apresenta enigmas variados, probabilidade,improbabilidade, e desejos espelhados; coloque-a ao lado de Tom Brown’sSchool Days de Thomas Hughes, e nós vemos os destaques da tradiçãoclássica e classista do internato, o valor de esporte, e os perigos do bullying.E o que dizer de Jane Austen, quem Rowling afirmou em 2001 ser uma desuas autoras favoritas ("J.K. Rowling Bookshelf")1, tendo já citado Emma deJane Austen no ano anterior como "the most skillfully managed mistery I‘veever read" ("Let me tell you a story") e como "the target of perfection at wich weshoot in vain" (qtd. in Boquet)? Não somente Rowling leu romances de Austenem alternância a cada ano, mas três títulos de Jane Austen aparecem naestante virtual no web site de sua autoria: Sense and Sensibility (1811), Prideand Prejudice (1813), e Emma (1816). De fato, a auto-crítica humorada deAusten em Pride and Prejudice - "Upon te hole," Austen escreveu à sua irmãCassandra em 1813, "the work is rather too light, bright and sparkling" (Letters299), aparece na introdução de Rowling de Dumbledore: "His blue eyes werelight, bright and sparkling" (Philosopher’s Stone 12). Olhe Harry Potter ao lado1 Em entrevistas desde 1997, Rowling tem repetidamente nomeado Austen como sua autorafavorita; Roddy Doyle é frequentemente listada em segundo lugar. Veja, por exemplo,Blakeney; ―Magic, Mystery, and Mayhem‖; J.K. Rowling Bookshelf‖; ―Comic Relief Live Chat‖;and Renton.
  2. 2. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingdos romances de Austen, como alguns têm feito2, e notamos como aperspectiva subscreve a educação moral - como a sua forma de narrativasimilar desenvolve um tema semelhante. Para sua série, Rowling seleciona umlimitado ponto de vista onisciente na terceira pessoa favorecido por Austen.Este ponto de vista permite que Rowling crie um estudo do desenvolvimento deum personagem em sete volumes, um estudo do que Edmund em MansfieldPark (1814) de Austen chama de sua carta para Fanny Price: ―a picture of [his]mind" (412). Ao representar o mundo dos bruxos e o dos trouxas através de umpensamento único, Rowling nos pede para testemunhar o processo deeducação de Harry. O resultado da narrativa marca as limitações de visãoparticular enquanto também evocam a simpatia dos outros3.A seleção de Rowling de uma forma narrativa semelhante a de Austen, porconseguinte, nos leva a considerar semelhanças temáticas entre as suasobras, incluindo a necessidade de perspectiva e de simpatia para crescimentomoral4. Também nos ajudará a considerar as críticas freqüentes a série. Arelativa simplicidade de Philosopher ‘s Stone, a passividade do personagem deHarry no início dos volumes, a falta de detalhes do mundo real nos mesmosvolumes iniciais, a perspectiva da série sobre garotas - todas essas críticaspadrões da série de Rowling são mitigadas, considerando esses aspectos dasérie que a comparação com Austen traz à luz. Com os romances de Austende um lado e Harry Potter do outro, podemos responder que Rowling estáinteressada na experiência de um personagem do mundo "real", oferecendoum "retrato" dessa mente individual e um registro do seu desenvolvimentomoral. A narrativa do romance quase sempre apresenta os mundos trouxa e2 Enquanto comentadores e estudiosos observaram o amor de Rowling por Austen, nada domeu conhecimento tem oferecido uma extensa análise do legado de Austen em termos deforma e tema.3 A dívida de Rowling para com Austen, então, atinge além do nome emprestado de Mrs. Norrisde Mansfield Park para a gata de Filch. Suman Gupta, em seu texto para o mundo do estudodos livros 1-4, poderá ver esta nomeação como apenas uma das muitas ―alusões evasivas‖ deRowling, como ele os chama, que meramente contribuem para a ―inconsistência eindiscriminada estratégia alusiva dos romances de Harry Potter‖ (97-98), mas eu acredito quepodemos ler na aparência de Mrs. Norris como parte de um conjunto mais significativo.4 Certamente ainda existem ligações temáticas a explorar entre os romances de Austen e asérie de Rowling – as críticas de Austen ao capitalismo e patriarcado, da autoridade quando seabdica da responsabilidade e cede poder ao egoísta, seu uso do gótico, para citar alguns –mas vou limitar minha discussão aqui no desenvolvimento do eu moral.
  3. 3. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingbruxo através do ponto de vista de Harry, subjetivo e por demais humano.Harry é muitas vezes um modelo de observação, detecção e ação, mas eletambém é falho. A visão de Rowling de uma auto-moral, como a de JaneAusten, emerge dessa lacuna.5Como sua autora favorita, Rowling incentiva os leitores a usarem suasimaginações para simpatizar com, refletir sobre, e então valorizar essespersonagens que equilibram generosidade de sentimento com a integridade doego. Para Rowling, como para Austen, a autoridade moral depende doconhecimento de si em relação ao passado e o presente; esse conhecimentopermite atuar moralmente no futuro. Para explorar essas implicações formais etemáticas do legado de romances de Austen dentro de Rowling, vou colocarprimeiramente a série de Rowling ao lado de Emma para discutir como o pontode vista narrativo molda nossas experiência da série e como modela osbenefícios da simpática percepção para o conhecimento dos outros e do eu.Vou então voltar para o menos popular Mansfield Park para marcar a suaressonância com a série de Rowling em termos de estoicismo, de humildade edo pensamento reflexivo. Termino com um olhar estendido ao papel que amemória e a imaginação desempenham no desenvolvimento moral do eu. Penetração perceptiva.Como Austen, Rowling favorece um estilo de narrativa que conta com limitadoponto de vista onisciente para restringir a experiência do leitor da história paraa visão de um personagem do mundo - o que Wayne Booth descreve em TheRhetoric of Fiction como "Simpatia através do Controle de Visões Interiores"em sua influente da "Distance in Emma".6 Como leitores, nós só gradualmentepercebemos o grau em que nossa perspectiva sobre o mundo bruxo é5 Para uma discussão da série de Rowling no âmbito das teorias de desenvolvimento moral deLawrence Kohlberg, veja Whited and Crimes. As leituras oferecem através dessa lente eco devárias conclusões que tiro, em comparação com Austen, do desenvolvimento moral de Harry.6 Para uma descrição sucinta do estilo de narrativa de Austen, veja Burrows; veja tambémHough; and Flavin. Conectando Rowling e Austen através da forma narrativa, meu argumentocontrasta com a alegação de Maria Nikolajeva de que ―Rowling não usa nenhuma das técnicasmais sofisticadas de narrativa para transmitir estados psicológicos‖ e que ―os romances deHarry Potter são claramente orientados para a ação ao invés de para o personagem‖ (134).
  4. 4. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingprimeiramente moldada pela perspectiva de Harry, assim como as limitaçõesde Emma impedem nosso conhecimento do compromisso de Frank Churchill eJane Fairfax no romance de Jane Austen. Estamos quase sempre alinhados aperspectiva de Harry, recebendo muito pouca descrição de terceira pessoa decenário ou de personagem que não são primeiramente vistos por Harry. Osdetalhes do "mundo real" dos mundos trouxa e bruxo só entram na suaconsciência, e portanto a narrativa da série quando ele os experimenta, e nãoantes, porque, como Rowling comentou durante um webcast global do RoyalAlbert Hall, em 2003, "Harry is the eyes through wich you see the world" (HarryPotter"). Enquanto Hermione e Ron podem ter sabido sobre outras escolasbruxas como Beauxbatons e Durmstrang desde Philosopher’s Stone, nós nãosabíamos que havia outras escolas no mundo mágico até Harry descobrir suaexistência na Copa do Mundo de Quadribol em Goblet of Fire.Rowling tinha sido criticada, até Goblet, por criar um mundo desconectado dasrealidades da cultura contemporânea, mas sua escolha de um estilo narrativocomo o de Austen nos ajuda contra essa acusação. Como Austen, Rowlingintroduz realidades sociais, políticas e econômicas que afetam a vida de seupersonagem principal, enfocando-os através de sua experiência dessas forçasexternas em vez de através de uma voz narrativa onisciente.7 Em Emma,nossa heroína toma nota dos pobres quando podem servir como lição de moralpara ela e sua amiga Harriet (79); em Harry Potter, nosso herói torna-sesintonizado ao processo de preconceito bruxo quando Draco Malfoy chamaHermione "You filthy little mudblood" (Chamber 86). Harry vê e compreendemuito mais sobre seu mundo a medida que cresce, e assim a cada ano (evolume), nós sabemos mais. A limitada visão onisciente de Rowling, focalizadaatravés de Harry, portanto, também explica os tons variados e ênfases de cadalivro - porque Philosopher’s Stone parece tão cheio de alegria em relação aosromances seguintes, porque as garotas de Hogwarts são frequentementedescritas como "risonhas" (Azkaban 56) e bobas em Azkaban e Goblet por umconfuso pré-adolescente, porque a relativa simplicidade de Philosopher’s Stone7 Veja, por exemplo, Westman; e Chevalier. Para discussões sobre os romances de Austencom atenção para o mundo político e cultural de seus personagens, veja, por exemplo,Johnson; Stewart; Lew; Fraiman;e Roe.
  5. 5. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowling(livro ridicularizado por alguns leitores e críticos) retorna à complexidade econfusão de volumes subsequentes.8 Nossa estrutura de referência para cadalivro é dinâmico, expandindo-se para explicar os novos conhecimentos deHarry sobre seu mundo preferencialmente ao previsto desde o início da série.A dívida de Rowling ao estilo narrativo de Jane Austen também nos lembra quea série está preocupada com o personagem mais que com detalhes externos,emoções interiores tanto quanto ações exteriores. Um estilo narrativoonisciente limitado enfatiza o desenvolvimento do caráter de Harry, como fazcom o de Emma. Esta proximidade persistente ao seu caráter forja nossaligação com ele. Como o crítico David Lodge afirma sobre o caráter de Emma,―we experience [her] errors with her, and to some extent share them", criandouma forte "pull of sympathy" (x). Os erros de julgamento de Harry - de confundirSnape como seu adversário principal em Philosopher’s Stone a liderar cincoamigos para provável morte no Ministério da Magia em Phoenix - similarmenteevoca a nossa simpatia, porque geralmente erramos com ele, tendo seguidosua linha de pensamento e aprovado seu curso de ação, sabendo não mais doque ele. Estamos muitas vezes à mercê de sua perspectiva limitada e seu graude maturidade emocional.Que ganhamos alguma distância crítica do ponto de vista de Harry é marcante,dada a forma que Rowling desdobra sua narrativa como Austen. Como osleitores de Emma, somos advertidos nas páginas iniciais sobre as falhas deEmma, aprendendo através do narrador como "[t]he real evils indeed ofEmma‘s situation were the power of having rather too much her own way,and adisposition to think a little too well of herself" - as graves conseqüências queforam ―no presente‖ ―imperceptíveis‖ (4). Estamos, assim, "put on our guard...against to close an identification with Emma‘s hopes and expectations,‖ comoobserva David Lodge (viii).9 Por outro lado, não temos reservas qualificadas8 Suman Gupta tenta explicar as diferenças entre os livros através de teorias de ―progressão‖ e―elaboração‖ (94-96), sem abordar esse elemento formal da prosa de ficção de Rowling.9 Wayne Booth descreve esse processo narrativo em detalhes: ―O próprio autor – nãonecessariamente a Jane Austen real, mas um autor implícito, representado neste livro por umnarrador confiável – aumenta os efeitos, orientado o nosso progresso intelectual, moral eemocional... reforçando ambos os aspectos da dupla visão que atua em todo livro: nossa visãointerior do valor de Emma e nossa visão objetiva de suas grandes falhas‖ (256).
  6. 6. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingsobre o caráter de Harry oferecida pela voz narrativa no início de Philosopher’sStone, como temos quando abrimos Emma para ler que "Emma Woodhouse,handsome, clever, and rich with a comfortable home and happy dispositionseemed to unite some of the best blessing in existence" (3). Mais tarde, nocapítulo XIII, o narrador de Austen até explica o fracasso de Emma emperceber a confusão de Mr. Elton quando ela o incentiva a ficar em casa porcausa da doença de Harriet: Emma " [is] too eager and busy in her ownprevious conceptions and views to hear him impartially, or see him with clearvision" (99), até como ela é capaz de refletir sobre equívocos dos outros,algumas páginas depois, " amusing herself in the consideration of the blunderswhich often arise from a partial knowledge of circumstances, or the mistakeswhich people of high pretensions to judgment are forever falling into..." (101).Na série de Rowling, tais narrativas adicionais, avisos ou apartes bem-humorados e irônicos acompanham nossa introdução a, ou a experiência de,Harry. Em vez disso, nossa identificação com o ponto de vista de Harry équase parecida. Exceto nas aberturas dos volumes 1, 4 e 6, nos romances deRowling não vemos ou ouvimos qualquer coisa que Harry não veja ou ouça -embora possamos, como Hermione, identificar alguns modelos dasexperiências de Harry que escapam de sua observação.Obtemos, então, uma relação mais irônica do personagem de Harry, maispróxima do que temos do de Emma, mas que evolui gradualmente ao longo dodecorrer da série, e essa ironia resulta de uma tensão entre nossoconhecimento prévio do personagem de Harry ao lado de sua novacircunstância ou pensamento, ao invés de ser o resultado de uma voz narrativaintrusiva.10 Momentos irônicos podem ocorrer dentro de um determinado livro -talvez nós percebemos, antes de Harry, porque seu estômago dá uma guinadaquando ele vê Cho Chang em Azkaban - mas tal perspectiva irónica é maisperceptível entre os volumes. Em Phoenix, por exemplo, estamos preocupados10 Como diz Lodge da nossa re-leitura de Emma, citando Harvey, "o modo irónico não dominatotalmente a segunda leitura porque ‗nossa atenção é tão diversificada pela fina rede denuance linguística que não nos concentramos nos resultados irônicos da mistificação.‘‖ A re-leitura é prazerosa, então, e também absolve Emma de não ver o que, ao ler novamente, nosperdemos na primeira vez (ix).
  7. 7. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingcom Harry quando ele evita o treino de Oclumência antes de dormir, nãoquerendo treinar sua mente para resistir à influência dos outros sobre ele, paraque possa ao invés disso realizar seu desejo de alcançar e finalmente abrir aporta do Departamento de Mistérios - e estamos preocupados, porque já vimosHarry sofrer as conseqüências de desejos semelhantes: em Philosopher’sStone quando ele deseja ver seus pais no Espelho de Ojesed, e em Azkabanquando ele deseja ouvir as vozes de seus pais quando deveria estar lutandocontra os dementadores. Em Phoenix, ganhamos uma relação incrivelmenteirônica com Harry, que em sua auto-dedicação pode, como Emma, tentarnossa paciência de leitores.A fé cega de Harry e Emma na retidão de sua perspectiva pode realmente seruma faca de dois gumes, testando a nossa simpatia. Emma "[having] taken upthe idea... and made everything bend to it" (121) ecoa a persistência errônea deHarry e de seus amigos, marcando o poder da mente para perceber que eladeseja ser assim. As conclusões erradas de Emma frustram Mr. Knightleyassim como nós - "Better to be without sense, than misapply it as you do" (57),ele diz a ela - tanto quanto os erros de raciocínio de Harry, sua exibição deregras necessárias, e seu desrespeito pelos sacrifícios dos outros frustramHermione (Phoenix 587-88), Snape (Azkaban 209), e Lupin (Azkaban 213).Muitas vezes, Hermione cumpre o papel atribuído ao contrário da voz narrativade Austen quando ela lembra Harry e Rony sobre uma informação esquecidaou negligenciada que fornece distância analítica sobrea a posiçãoaparentemente inexpugnável de Harry. Ansioso para resgatar Sirius doaparente cativeiro e tortura no Departamento de Mistérios do Ministério, Harryse irrita quando Hermione lhe oferece observações razoáveis: "[I]t‘s five o‘clockin the afternoon... the Ministry of Magic must be full of workers... how wouldVoldemort and Sirius have got in without being seen?‖ (Phoenix 645). Quandoum Harry agitado responde que "the Department of Mysteries has always beenempty whenever I‘ve been," Hermione deve lembrar a Harry , "You‘ve nevereven been there... You‘ve dreamed about the place, that‘s all" (Phoenix 645).Assim emocionalmente imerso no mundo real de suas visões, Harry perde ocontexto maior do mundo em torno dele. Ao oferecer sua perspectiva racional,
  8. 8. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. RowlingHermione não só representa uma voz narrativa de Austen mas também ecoaMr. John Knightley e seu irmão, Mr. Knightley, e as perspectivas que oferecema Emma. Através de tais comentários, do narrador de Austen ou dospersonagens de Austen e de Rowling, somos lembrados de nossa bemfocalizada visão do mundo do romance e das limitações de percepção danossa heroína e do nosso herói.Nossa capacidade de ver dentro das mentes de Emma e Harry, no entanto,tempera nossas críticas e mantém nossa simpatia, porque nós tambémtestemunhamos a confusão e vergonha de Emma e Harry. Quando Emmarecebe uma repreensão de Knightley sobre sua avaliação do caráter de RobertMartin, "[she] made no answer, and tried to look cheerfully unconcerned,", masa narrativa divide seus pensamentos com a gente: como "[she] was reallyfeeling uncomfortable and wanting him very much to be gone,‖ ―[no] repent[ing][her action]", mas sentindo a pressão "[of her] habitual respect for hisjudgement" (59). A resposta emocional de Emma é comparável a de Harryquando foi repreendido por Dumbledore, Hagrid, Hermione e Lupin, cujasopiniões ele valoriza. Em Azkaban, a correção de Lupin do comportamento deHarry ataca-o fortemente. Depois de quase escapar da punição por uma visitaclandestina a Hogsmeade e a loja de logros Zonkos, Harry escuta o lembretede Lupin: " Your parents gave their lives to keep you alive... A poor way torepay them - gambling their sacrifice for a bag of tricks‖ (213). As palavras deLupin impedem a alegria de Harry em escapar da punição por sua atividadefora de limite e oferecem um sóbrio lembrete de seu relacionamento com seuspais e seu passado. Como resultado, a repreensão de Lupin "leave[s] Harryfeeling worse by far than he had at any point in Snape‘s office" (213), e Harryexperimenta culpa e vergonha ao invés de indignação.Para ambos os personagens, então, reservamo-nos o nosso julgamento porqueHarry e Emma estão dispostos a se julgarem. Emma admite-se estar "incomplete error" (119) referente ao senhor Elton, e seu reconhecimento do errosustenta a nossa simpatia quando poderiamos deixar de nos importar. Harry,também, mantém a nossa simpatia, porque é capaz de reconhecer seusdefeitos, de analisar seus erros, de sentir vergonha (Phoenix 294), e até
  9. 9. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingmesmo, como Emma, de corar pelos erros que cometeu. Essa marca do séculoXVIII de verdadeiro sentimento - a manifestação física de inquietaçãoemocional - é o sinal exterior da experiência interior11 desses personagens. Aaparência do corar assegura a nossa solidariedade para com Emma (124, 127,341) e Harry, quando "the heat rises in his face" (Phoenix 687) em diversasocasiões ao longo da série, especialmente em Goblet e Phoenix. "[Such]involuntary physical manifestations of emotion‖ sinaliza que Emma e Harrypossuem a qualidade do século XIX ―[of] sensibility," ―the capacity of humansympathy": "[as it] registers the interface between the public self and privatereaction,‖, a sensibilidade serve como ―a sort of moral platform" para revelar asi mesmo e saber sobre o outro (Doody xiv). Como Emma e Harry se tornammais sensíveis sobre si mesmos dentro do mundo, ambos são incrivelmenteperspicazes sobre os motivos e ações de seus próprios caráteres, bem comoas dos outros.Se uma das qualidades valorizadas do personagem em Emma é realmente"penetração" (122, 173, 314), a capacidade de "perceber" (394) a si próprio ouo outro em uma luz mais clara, então o ponto de vista limitado oniscienteimplantado por ambas Austen e Rowling concede poderes para o leitor. Capazde ver nos caráteres de Emma e Harry seus motivos e respostas não ditas,capaz de assistir as suas próprias tentativas de dominar a habilidade de"penetração", nós por sua vez aprendemos a ser mais exigentes observadoresdo caráter humano. Em Austen e Rowling, a "penetração" é assim ligada àsimpatia pelos outros, ao reconhecimento de um outro do ponto de vista. Amudança de visão de Emma sobre Jane Fairfax, ao longo do romance,depende da capacidade de Emma para imaginar-se da perspectiva de Jane(343). Da mesma forma, a mudança de visão de Harry sobre Snape em Globete Phoenix, graças à Penseira, compreende uma troca semelhante de11 Como Roy Porter observa, no século XVIII, "aquela que não podia corar era uma mulher semvergonha" (qtd. in Gwilliams 148). Ruth Bernard Yeazell explica como "os escritores dos livrosde conduta claramente valorizavam a eficácia da vergonha e elogiavam o ato de corarprecisamente como um sinal de suscetibilidade da jovem mulher aos julgamentos – esentimentos – dos outros‖ (71). Para uma discussão maior do ―fascínio coletivo com o fluxorepentino de sangue para [a] bochecha‖ (65), consulte ―Modest Blushing‖ de Yeazell‘s emFictions of Modesty.
  10. 10. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingperspectiva.12 Além disso, para Harry e seus leitores, a habilidade de Harrypara pensar do ponto de vista de Luna no final de Phoenix (760) proporcionaum bem-vindo alívio do Harry cego, egoísta e gritante - o Harry estressado, nojargão de fãs – das 753 páginas anteriores. O ponto de vista onisciente deRowling incentiva-nos a respeitar e simpatizar com a experiência de outrapessoa, mesmo se nós nunca pudermos completamente entender ou aceitaresta outra perspectiva. Nasce um estóico: O Ser em perspectiva através da Reflexão e da Troca ColaborativaSimpatia penetrante serve como um passo para se tornar um agente moral nomundo; estoicismo e humildade são mais recursos para esse objetivo.Enquanto Emma demonstra essas duas qualidades adicionais com dificuldade,Fanny Price, a heroína do mundo obscuro de Mansfield Park, é um estudo vivo.À primeira vista, a energia de Harry, sua coragem e seu espírito de assumirriscos fazem dele o espelho oposto da calma e reservada Fanny, mas há umasérie de semelhanças entre os dois personagens que destacam a preocupaçãocomum de Austen e Rowling para um eu estóico, humilde e reflexivo.Primeiro, há semelhanças das circunstâncias. Ambos Harry e Fannyexperimentam uma mudança como a de Cinderella13 de um lar para outro: paraFanny, sua saída da família caótica e empobrecida de Portsmouth para osluxos comparativos de seus parentes em Mansfield Park; para Harry, a saídada casa de sua tia e tio Dursley na Rua dos Alfeneiros para as maravilhas esolvência financeira de Hogwarts e do mundo bruxo. Quando a Fanny de dezanos de idade deixa sua casa pobre, ela o faz como se fosse órfã: ela vai sercriada por sua tia e seu tio Bertram sem qualquer risco de ver seus pais eirmãos em breve. O Harry de dez anos de idade viveu como um órfão toda a12 A visão de Emma sobre Miss Bates sofre uma mudança semelhante, assim como a de Harrysobre Neville.13 Junto a outros críticos e comentadores como Ximena Gallardo C. e C. Jason Smith, RoniNatov percebe Harry como a ―Cinderlad‖ (315). Thomas Hoberg lê Fanny como ―uma paródiaartística da doce lenda da Cinderela‖ (138).
  11. 11. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingsua vida quando descobre, em seu décimo primeiro aniversário, que vai deixara privação da Rua dos Alfeneiros. Ambos Fanny e Harry estão esmagados porseus novos mundos, mas se adaptam rapidamente aos seus novos "lares" umavez que eles tem simpáticas companhias. Harry ganha a simpatia de Rony notrem, Fanny ganha seu primo Edmund logo após sua chegada em MansfieldPark, e seus novos amigos oferecem orientação em troca de apoioemocional.14 Para ambos os personagens, a mudança de estilo de vida é tãocompleta que o novo local, ao invés do velho, se torna ―o lar‖, como o retornode Harry a Hogwarts, no início de Azkaban faz com que sinta "he was home atlast" (74). Além disso, é a memória do novo lar que os sustenta quando Fannye Harry são obrigados a se afastar de Mansfield Park (384, 421) e do mundobruxo. (Azkaban 17).A partir dessas semelhanças em circunstâncias que demostram semelhançasno personagem, que por sua vez ressaltam os aspectos da série de Rowlingque colhem menos atenção crítica, mas são cruciais para sua visão deeducação moral como a de Austen: o valor do estoicismo e da humildade. Parasobreviver a seus problemas na vida, Fanny e Harry evidenciam o estoicismo,uma qualidade da série de Rowling observada por Edmund Kern ("BoyWonder"; Wisdow). Fanny continua impassível diante das artimanhas londrinasimprudentes dos irmãos Henry e Mary Crawford, humildemente resiste aameaça implacável dos insultos de sua tia Norris, e sacrifica-se aos pedidosincansáveis de sua tia Bertram em busca de assistência. Fanny é, nas palavrasde Marylea Meyersohn, "the moral presence who watches and listens," "[a]center of non-energy" operando ―[by] the deferral of gratification" (224-25). Emsua passividade, especialmente no início da série, Harry ocupa um ―centro denão-energia‖ similar, suas ações regidas por um ―adiamento de gratificação"enquanto eventos incidem sobre ele, de sua cicatriz em forma de relâmpagopara as instrusões de suas emoções por Voldemort. Nós testemunhamosestoicismo em sua determinação para resistir às ameaças repetidas ao corpo eà mente daqueles que querem lhe quer fazer mal; ele continua igualmente14 Ambas as amizades estão sem situação de maior igualdade do que aquela que Emma iniciapara seu divertimento com Harriet no romance seguinte de Austen.
  12. 12. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingobstinado em sua oposição à Voldemort e em sua lealdade a seus amigos eDumbledore. Embora nós ainda não tenhamos a conclusão da série deRowling, nós sabemos que a ―paciência‖ estóica de Fanny a guia para afelicidade no final do romance: é sua "paciência" que confere a ela quem elaama – Edmund - e ela tem o prazer de tê-lo agradecendo-lhe por sua paciênciaquando ele estava quase perdido, cego por um tempo para os fracassos moraisde Crawford (445). Nós aprendemos, também, nas páginas finais do romance,que o sucesso de Fanny em sua juventude decorre das "[from] the advantagesof early hardship and discipline, and the consciousness of being born tostruggle and endure" (456). Talvez nós escutemos um eco dessa declaração naobservação de Dumbledore, perto do final de Phoenix, quando ele reflete sobrea educação de Harry com os Dursley: "You arrived at Hogwarts," ele diz aHarry, "neither as happy nor as wellnourished as I would have liked, perhaps,yet alive and healthy" (737). Quando colocado ao lado do caráter estóico deFanny, a constância de Harry, o auto-sacrifício, e a elasticidade vem emprimeiro plano - qualidades que podem parecer ofuscadas em Goblet e emPhoenix por sua raiva adolescente, mas que, todavia, sustentam seu contínuosucesso.Fanny e Harry também compartilham a característica da humildade. Apesar demuitos personagens dizerem a Harry que ele é famoso, altamente qualificado,e digno de grande fama, Harry (ao contrário do pai do adolescente James) nãose vangloria. Ele modestamente acredita que Ron e Hermione estão brincandoquando lhe pedem para ensinar Defesa contra as Artes das Trevas para osseus colegas, incapaz de entender que ele poderia ter recebido notas maisaltas do que Hermione nesta matéria ou que ele teve mais do que "sorte" emsuas batalhas contra Voldemort (Phoenix 291-94). A "abnegação e humildade"que o tio Bertram de Fanny encontra tão carentes em suas próprias filhas eledescobre em Fanny até o final do romance: enquanto suas primas, Maria eJulia, não tinham sido incentivadas através da educação e do dever "[to] governtheir inclinations and tempers,‖ Fanny tem governado a dela (448). Com aênfase sobre "dominar as emoções" para o sucesso da Oclumência e para asobrevivência no mundo dos bruxos, Phoenix sugere que Harry, também, pode
  13. 13. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingprecisar completar sua humildade com uma capacidade de "governar" sua"inclinação" e "gênio" se ele é capaz de suportar e vencer as forças movidascontra ele. A humildade, como resolução estóica, desenfatiza desejos,colocando-os na perspectiva de um propósito maior ou bem social. ParaAusten e Rowling, o valor da perspectiva, portanto, reside não só na"penetração" simpática de um determinado ponto de vista, mas também emuma resposta bem-humorada às vicissitudes da vida. Alguém deve por seupróprio eu, assim como os outros, em perspectiva.Este equilíbrio entre o engajamento solidário e a distância estóica - essa buscade perspectiva - emerge em Mansfield Park de Austen e na série de Rowlingatravés de uma educação construída sobre leitura, reflexão e troca intelectual.Fanny revela na leitura privada e na troca intelectual com Edmund sobre livroscompartilhados.15 A pequena biblioteca de Fanny em seu quarto no sótão é oseu santuário, seu lugar de reflexão sobre seus próprios pensamentos e ações,bem como sobre os dos outros. Longe de prejudicar o desenvolvimento deFanny, como Alan Richardson observa, "―[r]eading is associated throughoutAusten‘s novels with education in the broadest sense, that is, with intellectualand moral development" (402). Como resultado, Fanny se beneficia danegligência da tia Norris graças à sua própria leitura e reflexão privada e aosensinamentos alternativos de Edmund. Na série de Rowling, assim como noromance de Jane Austen, experiências educacionais têm um influênciaduradoura sobre as escolhas dos personagens e nos recursos - umaconsequência que nos dá uma pausa, quando pensamos em uma Hogwartssob o controle da censura e na censora Dolores Umbridge, que ensina apenaspara a prova e através do plano de aprendizagem, uma Hogwarts semalternativa tomando ensinamentos das aulas de Harry para o D.A. na Defesacontra as Artes das Trevas. A educação prática, expansiva, não-ortodoxa efreqüentemente ilegal de Harry durante seus anos em Hogwarts temhabilmente preparado-o não somente para sua batalha contra Voldemort nofinal de Phoenix, mas também para seus exames OWL: "Lower[ing] his eyes to15 Aqui Fanny difere de Emma, que não pode seguir ―nenhum curso de leitura constante‖.(Emma 342).
  14. 14. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingthe first question,‖ Harry lê, "a) Give the incantation and b) describe the wandmovement required to make objects fly. Harry had a fleeting memory of a clubsoaring high into the air and landing loudly on the thick skull of a troll… smilingslightly, he bent over the paper and began to write" (628). Esse episódio com otroll, uma de suas primeiras infrações às regras da escola, é o resultado demanobras colaborativas, briguentas e inspiradas de Harry e Rony para salvarHermione - o resultado de colocar uma formação teórica em prática, por suavez criando uma memória viva do ato.A visão de Austen sobre educação, embora presente em toda a série deRowling, tem a sua apresentação mais presente em Phoenix com aapresentação de Dolores Umbridge. O traço textual de Mansfield Park na sériede Rowling - o gato de Hogwarts, Mrs. Norris - nos orienta para esta conexãoentre Austen e Rowling. "Mrs. Norris" certamente parece um nome apropriadopara a gata de Filch, que perambula pelos corredores de Hogwarts ajudandonos esforços de seu mestre para reduzir as violações sobre as regras eregulamentos da escola pelos estudantes e pelo poltergeist. Como a gata deFilch, a personagem Mrs. Norris em Mansfield Park "[is] walking all day" (69) eé preenchida "[with] a spirit of activity" (42), mas o teor dos insultos de Mrs.Norris para Fanny marcam tia Norris como uma tia Guida do período regencial,enquanto a ameaça e o brilho da sede de poder motivando suas atividades emtorno da casa Bertram sugerem que ela também poderia ter inspirado DoloresUmbridge de Phoenix. A visão da tia Norris sobre educação liga essas duasvilãs. O defeito de educação das meninas Bertram, Maria e Julia, sob aorientação de Mrs. Norris (55) não prevê guia moral nem compaixão, como Mr.Thomas percebe no final do romance, quando ele lança essa futura educadorapara fora de Mansfield Park (448).16 A partida ignóbil de Dolores Umbridge nofinal de Phoenix ecoa a destituição de Mrs. Norris de Mansfield Park, eexpurga, no momento, uma fisolofia educacional anti-intelectual e impraticáveldos salões de Hogwarts. Educação reflexiva, colaborativa, ligada à prática16 O ―efeito da educação‖ atinge Mary Crawford e também seu irmão, de modo que Mary fala―mal‖ da brincadeira (275), enquanto persegue riqueza e status social. Veja Kelly para umavisão geral da crítica de Austen dos preceitos educacionais contemporâneos.
  15. 15. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingcotidiana e de finalidade moral, é valorizada em ambos os mundos ficcionais deAusten e Rowling para o desenvolvimento moral do eu. Fala, memória: a mente particular a serviço da educação públicaA reflexão, quer por conta própria ou em troca de colaboração, depende damemória, uma faculdade da mente humana que Austen e Rowlingparticularmente admiram. Uma das ferramentas mais poderosas para aeducação moral de Harry na série de Rowling é a Penseira, um objetomaravilhoso que permite armazenar memórias para recuperação futura ouconsideração, para um desabafar da mente e avaliar uma experiência passadade forma isolada ou juntamente com outras lembranças para análisecomparativa. Para uma série que faz parte do Bildungsroman, a criação deRowling da Penseira dá em primeiro plano a importância da memória - de umapessoa e de outras - para os crescimentos intelectual, social e moral. Odesenvolvimento moral de Harry, ao que parece, depende do acesso e dareflexão sobre o passado.A magia da série de Rowling permite a seus personagens compreender todasas vantagens de memória para o desenvolvimento moral, enquanto levantamalgumas complicações éticas quanto à sua utilização. Um dos mais longosdiscursos espontâneos de Fanny em Mansfield Park mostra como osbenefícios de sua experiência educacional dependem da potência da memóriahumana. Falando a uma não receptiva Mary Crawford, Fanny maravilha-se daexperiência individual do, e no, tempo: "How wonderful, how very wonderful theoperations of time, and the changes of the human mind!‖ (222). Ela, então,continua, If any one faculty of our nature may be called more wonderful than the rest, I do think it is memory. There seems something more speakingly incomprehensible in the powers, the failures, the inequalities of memory, than in any other of our intelligences. The memory is sometimes so retentive, so serviceable, so obedient—at others, so bewildered and so weak—and at others again, so tyrannic, so beyond control!—We are to be sure a miracle every way—but our powers of recollecting and of forgetting, do seem peculiarly past finding out. (222)
  16. 16. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. RowlingA criação de Rowling da Penseira alivia o lamento de Fanny sobre as falhas dememória ("[that is] so bewildered and so weak") e, portanto, a Penseira permiteque aqueles que a utilizam se beneficiem das vantagens da memória – naspalavras de Fanny, como a memória é "so retentive, so serviceable, soobedient." No entanto, é aceitável romper os limites do eu particular, paraentrar a mente de outro? Quando é necessário fazê-lo? É possível manterqualquer integridade do eu em um estado tão permeável de ser? É aintegridade do eu um ideal valioso? A magia no realismo social de Rowlingleva-nos a desenvolver estas questões éticas, se quisermos compreender oque constitui a autoridade moral dentro da série, e o uso de feitiços bruxos demodificação de memória, as habilidades complementares da Legilimência e daOclumência, e a Penseira nos ajuda a respondê-las. Em última análise,Rowling defende-se exercendo tanto a imaginação como a varinha, a fim decolher - eticamente – o conhecimento benéfico mantendo a própria integridadedo eu. Nos romances de Austen, assim como na série de Rowling, educaçãomoral e ação moral evoluem de um compromisso com o mundo bem-humoradoe imaginativo.No mundo da série de Rowling, a mente particular torna-se freqüentementepropriedade pública - não simplesmente através da penetração simpática maspor transgressão literal. Os pensamentos da mente, especialmente as suasmemórias, são rotineiramente exploradas, modificadas, extraídas ouerradicadas enquanto uma mente controla outra. Bruxos frequentementerealizam feitiços de modificação de memória em trouxas, para que aqueles forada comunidade bruxa não sofram confusão ou curiosidade sobre pessoasincomuns, lugares ou coisas. Na verdade, feitiços de memória sãoProcedimentos de Operação Padrão para bruxos como Arthur Weasley e seuscolegas de Ministério. Esses feitiços são as institucionalmente aprovadasreparações das conexões entre o mundo dos bruxos e dos trouxas. Comopodemos ver em toda a série, bruxos do Ministério são rápidos em apontar asvarinhas para trouxas e dizer "Obliviate" - na cena do crime (o "assassinato" dePedro Pettigrew), em um evento desportivo internacional (Copa Mundial de
  17. 17. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. RowlingQuadribol), durante um encontro casual com um objeto mágico (uma privadaregurgitante, uma xícara de chá que morde o nariz), ou para evitar umtelefonema inconvenientemente cronometrado de um presidente dos trouxaspara o primeiro-ministro britânico dos trouxas. Quer como os primeiros aperceberem ou como grupos de limpeza, bruxos de vários departamentos doMinistério usam modificação de memória mais do que qualquer outro feitiçoquando trouxas estão envolvidos.Implícitos em tais atos, é claro, é a crença dos bruxos em seu direito de, bemcomo a necessidade de, fazer trouxas esquecerem. De acordo com os livrosescolares de Harry, o direito de remover memórias dos trouxas deriva deséculos de perseguição bruxa nas mãos trouxas, e a posterior necessidade dacomunidade bruxa se proteger para sobreviver - portanto, a criação do EstatutoInternacional de Sigilo em Magia de 1692 (Quidditch 16). No entanto, nosquatro exemplos acima, a necessidade de remover essas memórias édiferente, sugerindo que o direito não está sempre alinhado a necessidade.Esse último exemplo da abertura de Half-Blood Prince - um Presidente dosTrouxas "esquecendo" de avisar o Primeiro-Ministro Britânico para que oPrimeiro-Ministro possa ao invés conversar com o Ministro da Magia - modificaa memória, a fim de reorganizar eventos para a conveniência dos bruxos.Bruxos do Ministério, deste modo, percebem a memória dos trouxas comodispensáveis e infinitamente maleáveis, se eles estão ajustando a memória deum presidente ou adaptando e re-adaptando com frenética repetição asmemórias do Sr. Roberts, o gerente de área de camping na Copa Mundial deQuadribol, ou outras mentes trouxas. Em suma, os funcionários do Ministériopodem usar seu poder para modificar a memória para atender a conveniênciapessoal bem como políticas públicas. Sua própria integridade do eu é maisvalioso que o de um trouxa, um exercício de privilégio que a série ainda temque explorar plenamente.Enquanto a série de Rowling questiona apenas indiretamente esse privilégiobruxo para modificar a memória dos trouxas, os romances são rápidos paraindiciar bruxos que realizam esses feitiços uns contra os outros, especialmentepara fins pessoais ao invés de bem público. Gilderoy Lockhart, por exemplo,
  18. 18. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingprocura a fama adquirindo as memórias daqueles melhores em Defesa Contraas Trevas Artes e, em seguida, fazendo passar esses conhecimentos comoseus próprios; ele recebe o seu merecido castigo quando o seu próprio feitiçosai pela culatra, apagando sua memória. Embora ele tenha posto em perigovidas através de suas habilidades educadas na modificação da memória,Lockhart serve como uma ilustração humorística de quem abusa de tal magia -pelo menos como pode ser visto através dos olhos de Harry na Chamber ofSecrets. Dois anos mais tarde, em The Goblet of Fire, as experiências de BartyCrouch pai revelam os perigos de usar esses feitiços contra outros bruxos.Crouch pai, aprendemos com Harry, modificou a memória do Ministro bruxo eda fofoqueira Bertha Jorkins para que ela pudesse esquecer que tinha vistoviva uma pessoa que deveria estar morta: o filho adulto de Crouch, umcondenado Comensal da Morte. Embora Crouch sênior seja responsável porremover esse conhecimento da circulação pública, ele também carrega aresponsabilidade de fazer de Bertha Jorkins uma verdadeira máquina de vendaautomática de conhecimento para Voldemort. Feitiços de modificação dememória, como o comando "Delete" no teclado do computador, pode deixarvestígios da informações aparentemente desaparecidas; recuperar essasinformações é possível e pode causar danos permanentes na memória dessapessoa, se a recuperação acontece nas mãos de um bruxo como Voldemort,que se preocupa com fins e não com meios. O feitiço egoísta de Crouch pai,portanto, torna-o culpado por pelo menos duas razões: ele é responsável depôr em perigo o bem público, e, indiretamente, de acabar com a vida de BerthaJorkins.17 A perda pessoal de ação e subsequente morte de Crouch paienquanto sob a maldição Imperius de Voldemort pode ser visto como umapunição justa, mas estamos longe das consequências bem-humoradas dosmotivos de engrandecimento de Lockhart e a justiça poética de seu erradofeitiço de memória.17 A decisão de Slughorn de dar sua memória modificada com o objetivo de salvar sua peleoferece outro exemplo de modificação egoísta comprometendo o bem público (Prince 347-48).Somente os apelos de Harry a Slughorn pela estima a Lily Potter e ao desejo do não-sonserinopara ser ―bravo e nobre‖ traz a memória alterada á luz.
  19. 19. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. RowlingAs memórias dos bruxos, então, podem ser tão vulneráveis a modificaçõesquanto as mentes dos trouxas, mas existem poucos exemplos aprovado peloMinistério de tal modificação. Apenas um exemplo é exibido até agora na série:o auror Quim Shacklebolt modifica a memória da estudante Marietta Edgecomequando ela está prestes a revelar aos funcionários do Ministério detalhesincriminadores sobre as aulas suplementares de Defesa Contra as Artes dasTrevas que Harry tem ensinado aos seus colegas (Phoenix 548). Mesmo aqui,porém, a "aprovação" depende de nós vendo Harry, Dumbledore e Shackleboltcomo estando do lado "certo" em duas guerras secretas: uma contra o ineptoMinistro Fudge, e outra contra Voldemort. Voltaremos a esse contexto deguerra, mas por agora podemos concluir o seguinte sobre feitiços de memória:Primeiro, que a modificação da memórias dos trouxas ou dos bruxos para obem de muitos é mais adequado do que fazê-lo para poucos ou para benefíciopróprio. Em segundo lugar, independentemente do "direito" de realizar taismanipulações de memória, podemos ter certeza de que a memória ofereceuma frágil, ou pelo menos incerta, fundação para a construção de umacompreensão dos outros e de si mesmo, uma vez que podem ser modificadasa qualquer momento. Um eu mais fluido, poroso, vulnerável é, portanto,inevitável no mundo de Harry, a menos que bruxos defendam suas mentes ememórias, e exercitem, nas palavras de Olho-Tonto Moody, "Vigilânciaconstante."A prevalência de feitiços de memória contra trouxas e bruxos só começa asugerir o grau de permeabilidade entre o eu e o outro na série de Rowling, atensão entre um eu estável e fluido. Como aprendemos em Order of thePhoenix, o ato de Legilimência também pode transformar uma mente particularem propriedade pública. Legilimência (acesso a outra mente) e Oclumência(resistência a intrusão do outro) são dois lados da mesma moeda: a questão decada habilidade é a integridade da mente, quer penetrando ou preservando-a.Aqueles poucos bruxos qualificados para um tendem a ser qualificados para ooutro - Voldemort e Snape são bem sucedidos em ambos, como Dumbledore -e seu sucesso está ligado a capacidade de controlar suas emoções econcentrar o foco de suas mentes. Talvez porque a habilidade seja tão rara,
  20. 20. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. RowlingLegilimência eatá sob o radar de fiscalização do Ministério. Os leitoresmeticulosamente atentos do Harry Potter Lexicon especulam que Legilimênciapode ser regulada ou "restrita legalmente", como o uso de Veritaserum, apoção da verdade ("Legilimência"), mas, até agora na série, só sabemos queVoldemort, Snape e Dumbledore são todos Legilimens qualificados e que nãotransmitem esse talento. O acesso a outros rendimentos mentais, nas palavrasde Snape, "access to memories [they] fear," que por sua vez, tornam-se"weapons" (Phoenix 473). A capacidade de ver em outra mente, ganhandoacesso a memórias e emoções, juntamente com a capacidade de bloquear umolhar intrusivo de outra pessoa, concede a esses três bruxos poderes incríveisem um mundo que corre no conhecimento tático e emoção humana.A emoção humana, porém, é o calcanhar de Aquiles do sucesso daLegilimência e da Oclumência: como Snape diz a Harry, "Fools who wear theirhearts proudly on their sleeves, who cannot control their emotions" (Phoenix473), deixam-se vulneráveis a invasões, um fácil alvo de Voldemort ou, no casode Harry, de Voldemort e Snape. Essa qualidade desejável da sensibilidade ouda simpatia, como discutido anteriormente, pode ser uma suscetibilidade e nãouma habilidade. Durante as aulas particulares de Oclumência, as quais Harrytem para que possa aprender a bloquear o acesso de Voldemort a sua mente,Snape ganha acesso fácil às memórias de Harry, sabendo que Harry está comangústia adolescente e raiva. Uma onda de emoção sem foco, uma perda decontrole, também pode inverter a corrente de poder e transformar os índices deacesso, como Snape e Harry descobrem quando Harry ganho acesso àsmemórias de infância de Snape (Phoenix 519-20). Quando Snape baixa aguarda, as lembranças que Harry observa - "a hook-nosed man was shouting ata cowering woman, while a small dark-haired boy cried in a corner," porexemplo (521) - ilustram as "armas‖ que Harry agora tem à sua disposiçãocontra um professor odiado e ex-Comensal da Morte. Harry, sendo Harry, está"nervoso" pelo que viu e responde com uma promessa simpática, mas emoutras mãos essas memórias poderiam ser munições prontas ao invés de umaoportunidade para fazer uma pausa e reflexão. Para qualquer uso, aslembranças não são mais somente de Snape: aquela parte do seu eu
  21. 21. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingparticular, contra a sua vontade, tornou-se pública para outra mente. Ashabilidades duplas de Legilimência e Oclumência mostram-nos que a menteindividual pode ser tanto a mais permeável fronteira de defesa, uma vez quepode ser penetrado, bem como a última linha de defesa contra tais intrusões,se alguém pode empacotar as emoções e devolver o golpe, preservando amemória e, portanto, a integridade do eu.Através da Legilimência, as memórias particulares e emoções de uma pessoacirculam diretamente à mente de outra pessoa; uma circulação maior dependeda vontade somente da segunda pessoa. A Penseira expande a circulação doconhecimento consideravelmente, aumentando as apostas na privacidadeindividual e as implicações éticas do conhecimento compartilhado dentro domundo bruxo. Com o formato de uma tigela e rodando com a névoa damemória, a Penseira oferece uma forma de desafogar a mente e avaliar umaexperiência passada de forma isolada ou juntamente com outras lembrançaspara análise comparativa. Estas memórias podem ser as próprias ou da mentede outra pessoa, recuperada com a permissão ou pela força; uma vez naPenseira, a memória está em exposição, realizada a partir do ponto de vistaoriginal para quem entra nela. Como Rowling explicou em uma entrevista em2005, "The Pensieve recreates a moment for you, so you could go into yourown memory and relive things that you didn‘t notice [at] the time" (Anelli eSpartz). Quando as memórias são revistas apenas pelo seu criador, a interaçãocom a Penseira possibilita uma reflexão particular. Quando as lembranças sãorevistas por outra pessoa, por acaso ou intencionalmente, a interação com aPenseira oferece desempenho do conhecimento. A memória fala, e o privadose torna espetáculo público.Enquanto a Penseira fornece a Harry novos conhecimentos de como ser bom efazer o bem no mundo, graças aos seus benefícios de simpática "penetração" ereflexão, levanta algumas questões difíceis sobre recuperar, armazenar e exibira experiência de outra mente. Por um lado, a Penseira certamentedesempenha um papel crucial na educação moral de Harry, concedendo-lhe apossibilidade de experimentar outros pontos de vista e ampliando suacapacidade de simpatia. É por meio da penseira, por exemplo, que Harry
  22. 22. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingaprende sobre os limites do sistema democrático jurídico no mundo dos bruxosquando acidentalmente atravessa uma das memórias de Dumbledore (Goblet509-19). Através da penseira, ele também observa, por conta própria, a relaçãoentre seu pai e Snape, do ponto de vista de Snape - conhecimento que acabacom a visão idealizada de Harry sobre o caráter de seu pai e lhe concede asimpatia, até mesmo empatia, para com o professor que ele tanto despreza(Phoenix 564-73). Mergulhado na recordação de Snape das provocações deJames enquanto ainda em si mesmo, Harry experimenta uma visão dupla deconsciência que produz um conhecimento doloroso de seu pai, de Snape, e desi mesmo. Por outro lado, que direito Harry tem de ver as recordações deDumbledore e Snape sem a sua permissão? Por que a educação moral deHarry deveria vir à custa da privacidade alheia? Harry Potter and the Half-BloodPrince caminha ao lado desta questão ética fazendo da Penseira umaferramenta pedagógica sancionada na educação de Harry e na luta contraVoldemort, enquanto Harry se encontra com Dumbledore para aulasparticulares. No entanto, as várias lembranças que Dumbledore e Harryrevisam juntos ao entrar, nas palavras de Dumbledore, ―the murky marshes ofmemory" (Prince 187) levantam questões semelhantes, uma vez que algumasdessas memórias foram recuperados através de "persuasão" e não dadaslivremente (188).A Penseira, como uma ferramenta educacional para o desenvolvimento moral,assim capta o cerne da questão a respeito da integridade da personalidadeindividual e a integridade da personalidade dos outros: em busca de umamoralidade própria, é oportuno invadir a privacidade de alguém? É melhormanter a própria ligação intacta, ou dividir a personalidade com os outros? E sevocê compartilhar, qual é o custo - para você e para os outros? Dado queDumbledore e Harry estão envolvidos em uma guerra contra um líder tirânico efascista, o controle imediato sobre o próprio eu particular pode precisar darforma a fim de evitar a perda total de si mesmo no futuro. No entanto, talvezRowling pretende fazer um ponto menos contextualizado sobre o eu eprivacidade para a educação moral, especialmente através das ações deDumbledore para compartilhar informações em contraste ao sufocamento da
  23. 23. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingcirculação do conhecimento de Voldemort.18 Se memórias particulares podemser recuperadas, circuladas e compartilhadas com respeito e cuidado, então asforças potencialmente poderosas, como Harry, que poderiam agir sempreocupação com os outros, podem adquirir simpatia e compaixão detemperamento e canalizar o seu uso da força.Adquirida neste processo é a persopectiva, que pode vir do envolvimentoimaginativo, bem como de um novo fato – na realidade, a imaginaçãodesempenhará um papel na transformação desse fato em um enigma existentede experiência e desempenhará um papel na reflexão sobre seu significado. Aimaginação, portanto, oferece uma maneira de ganhar experiência que é não-invasiva, que preserva a própria integridade, que não é uma ameaça para aprivacidade das mentes dos outros ou de si mesmo. Alguns momentoshistóricos podem pedir o uso de feitiços de modificação de memória, paraLegilimência, para "persuadir" outros a produzir memórias para o consumopúblico (ou o seu equivalente em nosso mundo), mas a imaginação, e porextensão a arte, oferta uma forma ética e segura para manter a mente privadainteriormente - para ter fala de memória e para transformar a si mesmo.O papel que a memória e a imaginação desempenham na educação moral,certamente liga Rowling a Austen, que reúne a apresentação formal de seusmundos fictícios e os temas apresentados ali. Nos romances de Austen,personagens como Fanny, que pode reconhecer "how wonderful, how verywonderful the operations of time, and the changes of the human mind‖ e ―[the]faculty‖ da "memória‖ (222) são os personagens que pode ser "[the] moralagents‖ dentro do mundo (De Rose 227). Para Austen e para Rowling, oconhecimento do passado - suas próprias memórias e outras experiências -podem criar indivíduos moralmente responsáveis no presente e no futuro. Aoapresentar esses pontos de vista para seus leitores, Austen e Rowlingpartilham o objectivo artístico de apresentar ―[a] picture of [their characters‘]mind" (Mansfield Park 412) para retratar uma autoridade moral para o mundo18 A questão aqui é a circulação de conhecimento em relação ao poder: a idéia de poder deVoldemort depende da consolidação do poder dentro de uma pessoa – uma teoria talvez emdesacordo com sua decisão de fragmentar e dispersar sua alma – enquanto Dumbledore estádisposto a dividir seu conhecimento e, por conseguinte, seu poder com os outros.
  24. 24. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. Rowlingsocial. Embora alguns críticos dos romances, como Philip Hensher, aindaafirmarem que eles sejam apenas enredo - "And then, and then, and then‖ – o estilo danarrativa de Rowling ainda nos lembra que personagem e ponto de vista, bemcomo uma trama bem trabalhada, são os prazeres da série e parte de suasforças. Se apreciamos a representação do mundo de Rowling através dosolhos de um personagem, sua chamada para simpatia, e seu ponto de vista daprópria moralidade, então sua dívida narrativa para com Austen nos mostra ocaminho. Trabalhos citadosAnelli, Melissa, and Emerson Spartz. ―The Leaky Cauldron and Mugglenet Interview withJoanne Kathleen Rowling.‖ 16 July 2005. The Leaky Cauldron. 27 July 2005 <http://www.the-leaky-cauldron.org>.Austen, Jane. Emma. 1816. New York: Oxford, 1990.———. Jane Austen’s Letters. Ed. R. W. Chapman. 2nd ed. 1952. Oxford: Oxford UP, 1979.———. Mansfield Park. 1814. New York: Penguin, 1966.Blakeney, Sally. ―The Golden Fairytale.‖ The Weekend Australian 7 Nov. 1998: R10. Lexis-Nexis Academic. 1 June 2006 <http://web.lexis-nexis.com/universe>.Bloom, Harold. ―Can 25 Million Book Buyers Be Wrong? Yes.‖ The Wall Street Journal 11July2000.Booth, Wayne C. The Rhetoric of Fiction. Chicago: U of Chicago P, 1961.Boquet, Tim. ―J. K. Rowling: The Wizard Behind Harry Potter.‖ Reader’s Digest Dec. 2000.Quick Quotes Quill. 1 June 2006 <http://www.quick-quote-quill.org>.Burrows, John F. ―Style.‖ The Cambridge Companion to Jane Austen. Ed. Edward Copelandand Juliet McMaster. Cambridge: Cambridge UP, 1997. 170–88.Byatt, A. S. ―Harry Potter and the Childish Adult.‖ New York Times 13 July 2003.Chevalier, Noel. ―The Liberty Tree and the Whomping Willow: Political Justice, Magical Science,and Harry Potter.‖ The Lion and the Unicorn 29 (2005): 397–415.―Comic Relief Live Chat Transcript.‖ March 2001. Quick Quotes Quill. 1 June 2006<http://www.quick-quote-quill.org>.De Rose, Peter L. ―Memory in ‗Mansfield Park.‘‖ Notes and Queries 224 (1979): 226–27.Doody, Margaret Anne. Introduction. Sense and Sensibility. By Jane Austen. New York: OxfordUP, 1996. vii–xlvi.Flavin, Louise. ―Mansfield Park: Free Indirect Discourse and the Psychological Novel.‖ Studiesin the Novel 19 (1987): 137–59.
  25. 25. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. RowlingFraiman, Susan. ―Jane Austen and Edward Said: Gender, Culture, and Imperialism.‖ CriticalInquiry 21 (1995): 805–21.Ximena Gallardo C. and C. Jason Smith. ―Cinderfella: J. K. Rowling‘s Wily Web of Gender.‖Reading Harry Potter: Critical Essays. Ed. Giselle Liza Anatol. Westport, CT: Praeger, 2003.191–205.Gupta, Suman. Re-Reading Harry Potter. London: Palgrave, 2003.Gwilliams, Tassie. ―Cosmetic Poetics: Coloring Faces in the Eighteenth Century.‖ Body andText in the Eighteenth Century. Ed. Veronica Kelly and Dorothea von Mucke. Stanford: StanfordUP, 1994. 144–59.―Harry Potter—Transcript.‖ 26 June 2003. MSN.co.uk. 1 June 2006.<http://www.msn.co.uk/liveevents/harrypotter/transcript/>.Hensher, Philip. ―Harry Potter, Give Me a Break.‖ The Independent 25 Jan. 2000: 1.Hoberg, Thomas. ―Fanny in Fairyland: Mansfield Park and the Cinderella Legend.‖ Persuasions17 (1995): 137–44.Hough, Graham. ―Narrative and Dialogue in Jane Austen.‖ The Critical Quarterly 12 (1970):201–29.―J. K. Rowling‘s Bookshelf.‖ O Magazine Jan. 2001: 155.Johnson, Claudia L. Jane Austen: Women, Politics, and the Novel. Chicago: U of Chicago P,1988.Kelly, Gary. ―Education and Accomplishments.‖ Todd, 252–61.Kern, Edmund M. ―Harry Potter, Stoic Boy Wonder.‖ The Chronicle of Higher Education 16 Nov.2001. 17 Nov 2001. <http://chronicle.com/>.———. The Wisdom of Harry Potter: What Our Favorite Hero Teaches Us about Moral Choices.New York: Prometheus Books, 2003.―Legilimency.‖ 2005. The Harry Potter Lexicon. Steve Vander Ark. 3 Mar. 2006.<http://hplexicon.org/magic/legilimency.html>.Lew, Joseph. ―‗That Abominable Traffic‘: Mansfield Park and the Dynamics of Slavery.‖ History,Gender, and Eighteenth-Century Literature. Ed. Beth Fowkes Tobin. Athens: U of Georgia P,1994. 271–300.Lodge, David. Introduction. Emma. By Jane Austen. New York: Oxford, 1990. vii–xvi. ―Magic,Mystery, and Mayhem: An Interview with J. K. Rowling.‖ 1999. Amazon.com. 1 June 2006.<http://www.amazon.com>.Meyersohn, Marylea. ―What Fanny Knew: A Quiet Auditor of the Whole.‖ Jane Austen: NewPerspectives. Ed. Janet Todd. New York: Holmes and Meier Publishers, 1983. 224–30.Natov, Roni. ―Harry Potter and the Extraordinariness of the Ordinary.‖ The Lion and the Unicorn25 (2001): 310–27.
  26. 26. Perspectiva, memória e autoridade moral: o legado de Jane Austen em Harry Potter, de J.K. RowlingNikolajeva, Maria. ―Harry Potter—A Return to the Romantic Hero.‖ Harry Potter’s World:Multidisciplinary Critical Perspectives. Ed. Elizabeth E. Heilman. New York: Routledge-Falmer,2003. 125–40.Renton, Jennie. ―The Story Behind the Potter Legend.‖ Sydney Morning Herald 28 Oct. 2001.Quick Quotes Quill. 1 June 2006 <http://www.quick-quote-quill.org>.Richardson, Alan. ―Reading Practices.‖ Todd, 397–405.Roe, Nicholas. ―Politics.‖ Todd, 257–365.Rowling, J[oanne] K[athleen]. Harry Potter and the Chamber of Secrets. London: Bloomsbury,1998.———. Harry Potter and the Goblet of Fire. London: Bloomsbury, 2000.———. Harry Potter and the Half-Blood Prince. London: Bloomsbury, 2005.———. Harry Potter and the Order of the Phoenix. London: Bloomsbury, 2003.———. Harry Potter and the Philosopher’s Stone. London: Bloomsbury, 1998.———. Harry Potter and the Prisoner of Azkaban. London: Bloomsbury, 1999.———. J. K. Rowling Official Site. 2006. <http://www.jkrowling.com>.———. ―Let me tell you a story.‖ Sunday Times 21 May 2000.Stewart, Maaja A. Domestic Realities and Imperial Fictions: Jane Austen’s Novels inEighteenth-Century Contexts. Athens: U of Georgia P, 1993.Todd, Janet, ed. Jane Austin in Context. Cambridge: Cambridge UP, 2005.Westman, Karin E. ―Spectres of Thatcherism: Contemporary British Culture in J. K. Rowling‘sHarry Potter Series.‖ Whited, 305–28.Whisp, Kennilworthy [J. K. Rowling]. Quidditch Through the Ages. London: Bloomsbury, 2001.Whited, Lana, ed. The Ivory Tower and Harry Potter: Perspectives on a Literary PhenomenonColumbia: U of Missouri P, 2002.Whited, Lana, and M. Kathryn Grimes. ―What Would Harry Do? J. K. Rowling and LawrenceKohlberg‘s Theories of Moral Development.‖ Whited, 182–208.Yeazell, Ruth Bernard. Fictions of Modesty: Women and Courtship in the English Novel.Chicago: U of Chicago P, 1991.REFERÊNCIA:WESTMAN, Karin E. Perspective, memory, and moral authority: the legacyof Jane Austen in J. K. Rowling‘s Harry Potter. Disponível em:<http://muse.jhu.edu/journals/chl/summary/v035/35.1westman.html>

×