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Simpósi internacional de história da historiografia intelectuais
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Simpósi internacional de história da historiografia intelectuais

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BARROS, Natália C.S. Joaquim Inojosa e a produção intelectual como escrita de si. Texto apresentado no Seminário de História e Historiografia.

BARROS, Natália C.S. Joaquim Inojosa e a produção intelectual como escrita de si. Texto apresentado no Seminário de História e Historiografia.

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  • 1. Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque deCastro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional deHistória da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP,2011.(ISBN: 978-85-288-0275-7) JOAQUIM INOJOSA E A PRODUÇÃO INTELECTUAL COMO ESCRITA DE SI Natália Conceição Silva Barros∗ Existe, sim, a boa imprensa. É aquela que coopera com princípios e ideais para progresso da humanidade. É aquela que aconselha os governos, educa o povo, reprova a dissolução dos costumes, prega a moral, a sã política, ensina administração, legisla, sanciona e vela, porque traduz a consciência popular ao passo que nela se reflete. E ela tem, sobretudo, uma missão educadora; a de levar aos lares, às escolas, às fábricas, às casernas, das capitais às cidades menores, o sopro dos ideais modernos, clareando as Inteligências materializadas pelo trabalho e fazendo vibrar as pilhas elétricas dos nervos humanos, ao eclodir dos pensamentos que estavam adormidos no subconsciente, à espera da varinha mágica que os despertasse. (INOJOSA, 1978) Acreditava Joaquim Inojosa, e muitos intelectuais e artistas da década de 1920,que a imprensa exercia uma ampla influência no “pensamento da humanidade”. Numperíodo distante da WEB 2.0, dos blogs, twitters e redes sociais, meios de rápida edinâmica difusão e produção de informações e conhecimentos por qualquer cidadão, aoalcance de todos, considerava-se os impressos, particularmente jornais e revistas, comoveículos privilegiados onde determinados sujeitos poderiam pensar e agir. Aindadistantes da televisão e do nosso mundo virtual, onde se pode ter acesso às últimasnotícias até mesmo via celular, percebia-se que aquela era uma época em que as pessoaspreferiam ler o jornal a comparecer às praças públicas para ouvir os políticos, umperíodo de declínio do prestígio da voz sonora, metálica e entusiasmada pordeterminada causa. Sentia-se o empobrecimento da oralidade, do relato de experiênciaque passava de pessoa a pessoa, assistia-se então a entrada da informação, dispersa,aligeirada, explicativa, como a forma de comunicação por excelência dos temposmodernos, expressão recorrentemente presente entre os contemporâneos de Inojosa.1Acreditava-se, naquele momento, que o artigo pensado, meditado, significava e instruíamais do que o discurso recitado ao capricho da fantasia. Jornalistas e jornais, conformeo pensamento da época, impulsionariam e educariam o povo, além de convencerem e∗ Professora do Colégio Aplicação da UFPE; Doutoranda em História – UFPE; email:natibarros1@yahoo.com.br1 Sobre o declínio da arte de narrar, da oralidade e do empobrecimento da experiência nos orientamos por:BENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nicolai Leskov. In: Obras Escolhidas.Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1994: 197-221. 1
  • 2. Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque deCastro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional deHistória da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP,2011.(ISBN: 978-85-288-0275-7)dirigirem governos. Para Inojosa, a missão da imprensa era ampla: educar, conscientizar, clarear asinteligências, erguer multidões e dirigir governos. No artigo Imprensa e Jornalistas,publicado em janeiro de 1925, além de descrever a missão da imprensa, conformecitamos acima, o escritor determina o papel dos jornalistas: os deveres do jornalista são,assim, os de um apóstolo. Apenas ele pensa no gabinete ao invés de sair de casa emcasa; mas a sua voz será ouvida por pobres e ricos, bons e maus, justos e injustos. Éque o jornalista, como o apóstolo, deve estar sempre ao lado da verdade. Originalmente publicado no Jornal do Comércio do Recife e no Jornal Flama doRio de Janeiro, o artigo citado reaparece em 1978 no livro Joaquim Inojosa: 60 anos deJornalismo (1917-1977), uma edição da Editora Meio-Dia, de propriedade do próprioInojosa. Além dos artigos produzidos, desde os seus 17 anos, em jornais dePernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo e Belém, acompanhados de um textode apresentação do autor, no livro foram publicados os discursos proferidos por Inojosae companheiros de carreira, autoridades políticas e intelectuais, na efeméride dos 60anos; uma fortuna crítica composta de memórias, cartas, mensagens, discursos, notíciase fotografias dando conta de sua atuação como jornalista e das repercussões de suascríticas e polêmicas ao longo da carreira. Poderíamos pensar esse conjunto documental como o esforço de reavivar oapostolado do já maduro intelectual? Seria um acerto de contas de suas convicçõescomo jornalista, um atestado de missão cumprida? Questões que se diluem e perdemdensidade quando, do confronto entre as produções do jovem e do maduro autor, daforma como organiza, edita e publica a documentação que carrega as marcas de sua vidaprofissional, percebemos os ecos dos aprendizados, das atitudes políticas e estéticasvivenciadas e não tão coerentes e lineares como, parece, pretendeu-se construir. Ao nostrazer à tona seus escritos de seis décadas na imprensa, Joaquim Inojosa nos possibilitacercar suas experiências como intelectual, de conhecermos as “campanhas” em que seempenhou, de entendermos seu exercício de mediador cultural, além de nos apontar ascrenças e valores de uma geração que pretendia modificar política e esteticamente oBrasil. Suas experiências na imprensa são aqui consideradas como fundamentais nacriação dos seus interesses e paixões, e nos permite vislumbrarmos a emergência doconfronto e da colaboração entre a reflexão consciente e a necessidade inconsciente, a 2
  • 3. Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque deCastro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional deHistória da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP,2011.(ISBN: 978-85-288-0275-7)mescla de lembranças e anseios mutáveis e inacabados na construção da vida pública.2 Além de escrever na imprensa, como jornalista e repórter, Inojosa fundou jornaise revistas no Recife e no Rio de Janeiro, e, em 1939, quando já morava na capital dopaís, criou a Editora Meio-Dia. Dentro das comemorações da carreira de 60 anos,publica em 1977, em texto chamado “Jornalismo por Ideal”, o que considera “as raízes”de sua carreira, suas influências literárias e pessoais e comenta algumas das“campanhas” que o mobilizaram: O jornalismo que exerço há sessenta anos (seis, apenas de profissional: 1922/1927), tem suas raízes fincadas num ideal de meninice, que atravessou a juventude e atingiu inato aos dias de hoje. Assumiu ou assume, por vezes, aspectos polêmicos, dentro da liberdade sadia que deve disciplinar e conduzir a imprensa, para que ela se impunha perante o público como força de cultura e de equilíbrio social. (...) Podia enumerar algumas das campanhas em que me empenhei. Seria, porém, delongar-me sem maior interesse, salvo para futuros pesquisadores de história da imprensa. Cito, contudo, sem pormenores, os entrechoques políticos de Pernambuco, em 1922, o movimento modernista no Nordeste (1922-1930); a defesa da instituição do salário mínimo; a eleição presidencial de 1937; a pregação em favor do divórcio, pelo O Jornal, no ano de 1933; a de democracia orgânica para o Brasil, quando cheguei a escrever, enfaticamente, que “a civilização de hoje não se constrói com oratória, mas com o trabalho” e que “o Brasil precisa de abelhas e não de patativas”. Foi isso publicado em 17 de outubro de 1940 (Meio-Dia) e não vejo como pensar diferentemente nos dias atuais, quando, mais do que nunca, podemos observar que somente as abelhas constroem uma nação. Que a boa imprensa contribua para isso... (INOJOSA, 1978) Se pensarmos que a escrita não apenas comunica ou exprime, mas, impõe um“para além da linguagem” que é ao mesmo tempo a História e o partido que nela setoma (BARTHES, 2004: 3), podemos começar a dimensionar a publicação dos artigosde Inojosa, suas memórias do início da carreira, suas concepções de imprensa e suaspercepções do país, no seu presente e no seu passado, como o exercício simultâneo debusca por uma “genealogia”, por um passado singular e linear e, ao mesmo tempo, aconstrução dessas mesmas aspirações por meio da escrita que indica, reivindica,2 É importante destacar que nossa abordagem da experiência, levando em conta o amor, a agressão, osconflitos, como elementos básicos da dimensão social dos sujeitos, ancora-se em Freud, particularmentena leitura freudiana da história feita por Peter Gay. Nesse sentido, para darmos um “salto analítico”, semdescuidar do rigor documental, procuraremos pensar os significados latentes dessa mesma documentaçãoproduzida por Joaquim Inojosa, tanto na juventude quanto na maturidade. Nossa narrativa tentará sersensível às possíveis condensações de desejos, fantasias e medos imersos nos escritos desse intelectual eque são partes fundamentais da experiência humana, pois, são sentimentos e percepções construídos emmomento histórico e social específicos. 3
  • 4. Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque deCastro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional deHistória da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP,2011.(ISBN: 978-85-288-0275-7)alardeia esse lugar na história da imprensa, do modernismo, das lutas políticas e sociaisno país. Ao tecer suas memórias, Inojosa, no trecho citado, tenta frisar sua autonomia,mostrando que apenas de 1922 a 1927 atuou profissionalmente, no período em que foiempregado do Jornal do Comércio. Ainda nos escritos do Diário de Estudante, suasreflexões insinuavam o temor de “ter patrão”, de ser “empregado público”, de perdersua consciência livre: Um dos maiores prazeres para o homem que estuda e sobretudo para o que escreve, é a independência de espírito. (...) eu prefiro perder dez bons amigos a deixar de dar ao meu espírito a necessária independência, a fim de pregar o que assimilou, pairando sempre às regiões da sinceridade, livre, completamente livre, sem variações simuladas nem negação vulgar. (...) O homem que não tem a consciência livre, não tem independente o caráter. Assim, um empregado público que costume, como quase todos em geral, viver sob a autoridade moral do patrão, guiando-se por seus passos, rastejando-lhe à sombra, vê-se, pela adaptação ao sinecurismo, obrigado a não “proceder como pensa” para não contrariar o superior hierárquico. Não tem livre vontade e muitas vezes foge do dever, receoso de exteriorizar acertada opinião.(INOJOSA, 1921: 142) Nas escritas do moço e do velho, delineia-se uma concepção do homem dasletras, do douto, do intelectual3 como aquele que pelo exercício da cultura, da distinçãopelos estudos, adquire uma autoridade e influência nos debates públicos, um sujeito quese diferencia socialmente e que, paradoxalmente, deve ser “livre” para ser “engajado”,em busca desse universal que é “a verdade”; sujeito que é polêmico, independente e,principalmente, que tem na escrita sua maneira própria de intervir na sociedade. Asescritas do estudante e do experiente jornalista, do reconhecido escritor, delineiam seuhorizonte, verticalizam suas posturas políticas e individualizam sua relação com o meiocultural e intelectual do país, seus compromissos e seus combates em 60 anos deimprensa. No entanto, essa escrita também ofusca trajetórias e escamoteia certasescolhas, melhor dizendo, essa escrita escolhe, toma partido na história e na memória doseu sujeito-autor. Em 60 anos de Jornalismo, o então Presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas43 Expressões presentes na documentação analisada.4 Localizada no Rio de Janeiro, da qual Inojosa foi um dos sócios fundadores. 4
  • 5. Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque deCastro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional deHistória da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP,2011.(ISBN: 978-85-288-0275-7)e acadêmico da Academia Carioca de Letras5, apresenta sua vida profissional dividindo-a em cinco períodos, delimitando as respectivas influências na sua “paixão pela vida deimprensa”. Segundo descreve, uma 1ª fase durou cinco anos: da estréia, em 14 de abrilde 1917, até fins de 1921, quando, em outubro, publicava o último artigo em jornal daParaíba, transferindo suas colaborações para a imprensa do Recife; seguiu-se uma 2ªfase, de 1922 a 1930, na capital pernambucana; uma 3ª fase, já no Rio de Janeiro,quando inicia em março de 1931 sua colaboração em O jornal e Diário da Noite(pertencente aos Diários Associados); a 4ª fase de 1939, com a fundação do jornalMeio-Dia, até outubro de 1942; a 5ª fase, de novembro de 1942 até aos dias de hoje (ouseja, 1977), voltando em 1968 para o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro. Inojosateve passagem também pelo semanário A Nação e pelo então Suplemento Literário de OEstado de São Paulo. Ao descrever e delimitar sua própria vida em fases ligadas aoexercício profissional, Inojosa, de certa forma, define-se e nos indica o forte desejo deque sua vida fosse alvo de interesse póstumo. Podemos pensá-lo como um sujeitolapidário de si6, que arquiva, seleciona, apresenta e publica o material que será deixadoà posterioridade, escolhendo definir-se nas polêmicas nas quais se envolveu comojornalista. É importante ressaltar que em 1975 ele publicou pela Editora Meio-Dia, NotíciasBiobibliográficas de Joaquim Inojosa. Com 92 páginas, narrado em 3ª pessoa, o livrotraz uma síntese da vida desse escritor, do ano de nascimento até os dias atuais. Naseção Iconografia, a obra apresenta retratos das várias fases de sua vida, ao lado deestudantes, recebendo condecorações e homenagens, discursando e na convivência comautoridades intelectuais e políticas do Brasil, a exemplo de Tarsila do Amaral, JoséAmérico de Almeida, do cônsul italiano Sotero Cosme e do General Eurico GasparDutra; a seção Oferendas traz imagens de contracapas de livros dedicados a Inojosa porimportantes nomes da literatura nacional e da crítica, como Menocchi Del Picchia,Mario de Andrade, Guilherme de Almeida - seus companheiros na difusão domodernismo no Brasil -, Alceu Amoroso Lima, Carlos Drummond de Andrade e Marioda Silva Brito. Notícias biobibliográfica e 60 anos de jornalismo trazem índices5 Em 1975.6 A expressão lapidário de si é usada por Hebe Mattos e Keila Grinberg ao estudarem a trajetória deAntonio Pereira Rebouças e as estratégias na construção de suas memórias. MATTOS, Hebe Maria;GRINBERG, Keila Maria. Lapidário de si: Antonio Pereira Rebouças e a escrita de si. In: GOMES,Angela de Castro (org.). Escrita de Si, escrita da História. Rio de Janeiro: FGV, 2004: 27-50. 5
  • 6. Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque deCastro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional deHistória da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP,2011.(ISBN: 978-85-288-0275-7)cronológicos da atuação do escritor, com listas de artigos, livros e discursos publicados. Quais eram os anseios do Inojosa de mais de 70 anos ao publicar esses livros emmeados da década de 1970? Na apresentação da contracapa do livro Notícias Biobibliográfica, logo acima deum retrato de Inojosa em frente a um microfone, com papéis em punho, provavelmentenuma tribuna, encontramos um indício desses anseios: Esta notícia biobibliográficamostrará em resumo o que tem sido a vida de Joaquim Inojosa, ora como advogado,ora como empresário, mas sempre jornalista e escritor, atividades que jamaisabandonou desde as estréias de 1917 e 1920. A escolha da palavra “notícias” no títulodo livro não deixa de ser pertinente, de chamar a atenção por se valer de um vocábulopróprio do meio jornalístico, razão mesma da existência dos meios de comunicação, oque mobiliza um jornalista e que torna o seu trabalho interessante. A notícia é umabusca, mas também, uma construção do jornalista. Podemos pensar que ao ressaltar suas“campanhas”, ao enumerá-las e publicá-las na forma de livros, reunindo os artigos dediferentes momentos de sua vida, Inojosa constrói-se como a própria notícia, ele é ofato. Acreditamos que nenhuma das campanhas o mobilizou tanto como a recepção edifusão do Modernismo no Brasil. Desde 1922, quando do seu encontro com osAndrades, Mario e Oswald, Tarsila do Amaral, Guilherme de Almeida e outros jovenspaulistas, organizadores da Semana de Arte que chocou São Paulo, Inojosa dedicarámuita energia, palavras e ações na construção de um lugar destacado e singular no que,segundo ele próprio, representou “a maior revolução cultural brasileira de todos ostempos.” (INOJOSA, 1975) Ele publicou muitos livros, documentos, artigos naimprensa por toda sua vida, contando o que considerava “a verdade” sobre oModernismo em Pernambuco, tentando “desmascarar” uma possível ascendência deGilberto Freyre e do Movimento Regionalista no Recife da década de vinte. No entanto, entendemos que o esforço de construir sua identidade como o arautodo modernismo no Nordeste, foi ao mesmo tempo um remédio e um veneno às suaspretensões biográficas, pois entendemos que houve um congelamento da sua imagem,dificultando um entendimento mais denso de quem era esse sujeito fora doenquadramento determinado por ele mesmo. Ao erigir boa parte de sua produção críticacomo respostas ao sociólogo Gilberto Freyre, Joaquim Inojosa conseguiu um espaço 6
  • 7. Camila Aparecida Braga Oliveira; Helena Miranda Mollo; Virgínia Albuquerque deCastro Buarque (orgs). Caderno de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional deHistória da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP,2011.(ISBN: 978-85-288-0275-7)privilegiado na historiografia do Movimento Modernista no Brasil. Destacando seupapel de precursor e difusor da renovação das artes no Nordeste, publica O MovimentoModernista em Pernambuco (1968,3 volumes), No Pomar Vizinho (1968), Ummovimento imaginário (1972), Carro Alegórico (1973) e Pá de Cal (1978) e constróiseu autorretrato como o outro de Freyre. O intelectual transforma sua vocaçãomemorialística, seu “gosto por arquivos” em estratégia na luta política e intelectualcontra o Senhor de Apipucus. Ao publicar seus arquivos (matérias de jornais e revistas,trechos de cartas, livros e relatos de contemporâneos de 1922) Inojosa aciona a memóriacomo dispositivo estratégico para definir um lugar intelectual no passado e no presente.No entanto, a historiografia até o momento não observou atentamente os esforços desseintelectual na difusão e cristalização de sua auto-imagem, limitando-se a reproduzir seusdiscursos sobre o modernismo e os modernistas. Ao abordarmos a trajetória desseescritor antes de 1922, quando ainda era estudante da Faculdade de Direito do Recife, edepois de 1930, quando fixa sua moradia no Rio de Janeiro, pretendemos analisar suaescrita, seu pensamento e suas práticas na diferença dos tempos, fora dos cenáriospredeterminados e dos quadros de referências cristalizados.Referências BibliográficasBENJAMIN, Walter. O Narrador: considerações sobre a obra de Nicolai Leskov. In: Obras Escolhidas. Vol. 1. São Paulo: Brasiliense, 1994.BARTHES, Roland. O grau Zero da Escrita. São Paulo: Martins Fontes, 2004.GOMES, Angela de Castro (org.). Escrita de Si, escrita da História. Rio de Janeiro: FGV, 2004.INOJOSA, Joaquim. 60 anos de jornalismo (1917-1977). Rio de Janeiro: Editora Meio-Dia, 1978.________________. Os Andrades e outros aspectos do modernismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. 7