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  • 1. E D I T O R I A L A revista Cidadania & Meio AmbienteCaros Amigos, é uma publicação da Câmara de Cultura Telefaxes (21)2432-8961• (21)2487-4128Não obstante a questão ambiental caminhar aos trancos e barran- cultura@camaradecultura.orgcos do Oiapoque ao Chuí – desmatamento galopante, destruição www.camaradecultura.org www.camaradecultura.orgsistemática de biomas para implantação do agronegócio de expor-tação e energético, entre outras mazelas –, nossa participação naCOP15 mereceu o aplauso internacional. Afinal, além das marcantesintervenções do presidente Lula no plenário e em reuniões comseus pares, o Brasil chegou a Copenhague com a ambiciosa propos-ta de participar do processo global de mitigação das mudanças cli- Diretora Regina Lima regina@camaradecultura.orgmáticas via redução voluntária, em 2020, de nossas emissões em Editor Hélio Carneiroaté 38,9% do projetado para aquele ano (2,7 gigatoneladas [Gt] de carneiro@camaradecultura.orgCO2 equivalente). Portanto, em 2020, nossas emissões deverão ser Subeditor Henrique Cortez henrique@camaradecultura.orgreduzidas a 1,7 Gt de CO2. O que não é nada desprezível face à Projeto Gráfico Lucia H. Carneiroproposta dos EUA de emitir, em 2020, apenas 17% a menos do que lucia@camaradecultura.orgem 2005. Para todos nós, a promessa é alvissareira, sobretudo por-que boa parte do CO2 não emitido representará a preservação denosso patrimônio vegetal. Veremos como ficará esse cenário noquadro da nova Política Nacional de Mudança Climática. Colaboraram nesta edição Alberto Giovanni BiusoNem só de COP15 vive esta edição. Chamamos sua atenção para a Andrew Simmsrepercussão de Dead Aid, livro da economista zambiana Dambisa Moyo Anna Whitesobre a ajuda econômica e humanitária ocidental aos países africanos. CEPAR David F. NobleSegundo a PhD em economia pela Oxford University – entre outros GRIDA-ARENDAL Maps & Graphicstítulos –, a ajuda não passa de paternalismo e neocolonialismo que Hélio Carneiromantêm a África refém de sua própria pobreza e vulnerabilidade. Vale IHUa pena ler os argumentos apontados por Moyo – uma das 100 pessoas José Eli da Veiga Juliana Santillimais influentes do mundo, segundo a revista The Time. (Se puder, leia o Mark Linaslivro, infelizmente ainda não publicado em língua portuguesa). ONU Peter FrumhoffOutra interessantíssima e bem fundamentada provocação nos chega Pierre-Antoine Delhommaisvia Mark Lynas, para quem a reinvenção do modelo econômico pas- Portal EcoDebatesa pela explosão do preço do petróleo. Para esse renomado especia- UNEPlista em mudança climática, conferencista e autor de três best-sellers,somente um processo de desintoxicação de choque – como na tera-pia de subtração total da droga nos dependentes químicos –, curaránossa dependência por petróleo. Visite o portal EcoDebateNo capítulo da reavaliação do papel do ser humano, vale a pena [Cidadania & Meio Ambiente]refletir com o pensador Roberto Marchesini sobre o devastador dis- www.ecodebate.com.brcurso antropocêntrico que nos torna alienígenas e inimigos mortais Uma ferramenta de incentivo aode todas as criaturas do planeta – inclusive de nós mesmos. E, para conhecimento e à reflexão através definalizar, confira com José Eli da Veiga porque temos de transitar notícias, informações, artigos de opinião e artigos técnicos, sempre discutindoda economia meramente ecológica para a socioambiental se não cidadania e meio ambiente,quisermos correr o risco de extinção. de forma transversal e analítica.Hélio Carneiro A Revista Cidadania & Meio Ambiente não se responsabiliza pelos conceitos e opiniõesEditor emitidos em matérias e artigos assinados. Editada e impressa no Brasil.
  • 2. Nº 24 – 2009 - ANO IVCapa: COP15 - United Nations Climate ChangeFoto: Neil Palmer/CIAT (International Center for Tropical Agriculture) 4 COP15: os interesses em jogo Para se entender o que estava em jogo em Copenhague deve-se conhecer quem ‘nega’ e quem ‘afirma’ as mudanças climáticas antrópicas. Uma liça onde ciência, sociedade civil e mercado se digladiam. Por Hélio Carneiro 6 O golpe da corporação do clima Veja como as grandes corporações negam as evidências científicas do aquecimento global antrópico para continuar a poluir e, ao mesmo tempo, reciclam o problema em lucrativos negócios de combate às severas mudanças climáticas. Por David F. Noble 13 Climagate – a controvérsia fabricada Às vésperas da COP15, os negadores da mudança climática tentaram solapar as bases científicas do aquecimento global via publicação distorcida de e-mails roubados de climatologistas. Veja como a ‘guerra suja‘ foi desmascarada. Por Peter Frumhoff 16 O movimento dos movimentos: da resistência à justiça climática A COP15 revelou o poder da sociedade civil planetária unida em torno da justiça social e climática. Agora, a governança global não poderá mais priorizar os interesses particulares dos Estados e do big business. Por Anna White 20 É hora de um ‘New Deal Verde’ A conspiração de antiecologistas explora a atual recessão econômica e o aumento do preço dos combustíveis e dos alimentos para pintar o ‘movimento verde’ como uma ameaça à liberdade a seus próprios privilégios.. Por Andrew Simms 22 COP15: Um crime climático A maior cúpula diplomática da história do meio ambiente frustrou as enormes expectativas das organizações da sociedade civil, sobretudo as ambientalistas, ao não chegar a um acordo mínimo para redesenhar propostas efetivas para salvar o planeta. Por CEPAR e IHU 24 Mais Moyo, menos Bono “A ajuda ocidental à África foi e continua a ser um desastre total nos planos político, econômico e humanitário.” Esta polêmica tese discute como resgatar o continente africano da miséria alimentada pela solidariedade paternalista e neocolonialista. Por Pierre-Antoine Delhommais 26 Antropodescentrismo: as fronteiras entre o ser humano e as outras espécies Para o pensador Roberto Marchesini, na esfera do ‘bios’ não há hierarquias nem distâncias qualitativas entre o humano e o mundo animal, apenas contiguidade e diferenças entre as espécies. Por Alberto Giovanni Biuso 30 Da economia ecológica à socioambiental Se a humanidade resistir em abrir mão de vulgaridades que prejudicarão a vida de futuras gerações, estará confirmando sua opção preferencial por uma existência mais excitante, mesmo que bem encurtada. Por José Eli da Veiga 32 Agrobiodiversidade e o direito A criação de reservas de agrobiodiversidade poderá representar mais um instrumento jurídico para a conservação da agrobiodiversidade. Temos de proteger variedades de mandioca, milho, arroz, feijão..., além de nossos ecossistemas agrícolas . Por Juliana Santilli 34 Desintoxicação de choque: a cura para a dependência de petróleo Uma explosão no preço do petróleo pode repercutir de forma muito positiva se encararmos o fato como uma oportunidade econômica de reduzir as emissões de gases de efeito estufa dos combustíveis fósseis, que aceleram o aquecimentro global. Por Mark Linas
  • 3. COP15: os interesses em jogo por Hélio Carneiro O s resultados da Conferência sobre Mudan- trovérsia fabricada – a ‘bomba suja dos emails frau- ças Climáticas das Nações Unidas (COP dados’ lançada no início da COP15 – corrobora os 15), ocorrida entre os dias 7 e 18 de de- estertores dos ‘negadores das mudanças climáticas’ zembro de 2009, em Copenhagen, Dinamarca, já se frente à sociedade civil global amadurecida e unida anunciavam muito antes de seu desfecho. Os especi- em torno do objetivo de salvação da Terra. alistas em negociações internacionais multilaterais pre- viam que as expectativas dos ‘defensores do clima’ O artigo O movimento dos movimentos: da resis- por medidas efetivas de contenção e de estabilização tência à justiça climática aponta como o exercício do aquecimento global seriam amplamente frustradas. da cidadania global – via ONGs, comunidades, as- Não deu outra: a esperança (Hopenhagen) sossobrou sociações... – já encurrala a governança global, for- no fracassado (Flopenhagen) Acordo de Copenhague. çando-a a priorizar a justiça social e climática so- bre os interesses do mercado e dos Estados. Sem Afinal, a Cúpula do Clima foi um retrocesso? Ou a monumental pressão dos defensores da justiça ocorreram avanços significativos na discussão social e climática, a tentativa dos países mais ricos propositiva de soluções para a questão ambiental e poluentes em abortar, na COP 15, as já pouco planetária? Para ajudar a aclarar tais indagações, cumpridas metas do vigente (e caduco) Protocolo preparamos um dossiê-reflexão sobre os agentes, de Kyoto teria sido coroada de êxito. os interesses e as forças presentes na liça das mu- danças climáticas. É hora de um ‘New Deal Verde’ desmascara os argumentos dos ‘apóstolos do caos’, para quem os O artigo O Golpe da Corporação do Clima traça o defensores da ecologia não passam de inimigos do histórico da reação das grandes corporações indus- progresso, e as ações em prol da sustentabilidade triais – um dos agentes referenciados – frente às representam um golpe de misericórdia na espécie evidências científicas do aquecimento global humana (ou seja, nos privilégios que eles e seus pares antrópico impulsionado pelas emissões de CO2 e desfrutam). Eles temem que o projeto de políticas dos outros gases de efeito estufa. Das campanhas conjuntas proposto pelo ‘New Deal Verde’ para iniciais de desinformação da opinião pública à apro- enfrentar o trio – crise de crédito, aumento do pre- priação da questão climática como business alta- ço do petróleo e impacto econômico das mudan- mente lucrativo, as ‘forças do mercado corporati- ças climáticas – equilibre as necessidades huma- vo’ – com o amparo da governança global – tam- nas, o bem-estar e a justiça social com os recursos bém não deixaram de acelerar a pesquisa e o de- disponíveis em nosso planeta mãe. Ou seja, temem senvolvimento de tecnologias e de processos ‘ver- a ‘ecologia da libertação’. des’, menos poluentes e predatórios, pavimentan- do a transição rumo à economia descarbonizada que Ao final da cúpula, o reacionarismo venceu mais um pode resgatar a ‘Terra prometida’. round, como indica o artigo COP 15: um crime climá- tico, resumo da ‘agenda de consenso’ sobre as ques- No entanto, como tal transição não pode ser opera- tões nevrálgicas que a Conferência deveria ter acor- da da noite para o dia, o onipresente mercado conti- dado, mas empurrou com a barriga para a COP16, a nua a investir (e faturar) na degradação ambiental e, ser realizada no México, em dezembro de 2010, onde obviamente, no processo de descrédito da ciência teremos mais um round na luta pela justiça social e climatológica junto à opinião pública. Climagate: a con- climática, e pela sobrevivência do planeta.4
  • 4. COP15FIASCOP 15 - Peça 1 do díptico Protocolo de Kyoto - Cúpula de Copenhague. Por Pierre Marcel Cidadania&MeioAmbiente 5
  • 5. O golpe da Corporação do Clima Se, a princípio, as grandes corporações negaram as evidências científicas do aquecimento global antrópico, logo sequestraram a questão em benefício próprio, como atestou a revista Newsweek (12/03/2007): “Wall Street expe- rimenta uma mudança climática ao reconhecer que ‘o modo de se tornar verde é enveredar pelo verde’.” Assim, o problema das mudanças climáti- cas foi reciclado em lucrativos negócios, incentivando a transição para a descarbonização da economia e do meio ambiente . Descubra os bastidores do ‘mercado’ que fatura com a degradação e a despoluição do planeta. por David F. Noble Alex de Carvalho Al Gore discorre sobre Aquecimento Global no Bank Al Gore palestra sobre aquecimento global Atlantic Center da univerisdade de Miami (28/02/2007). no Bank Atlantic Center da Universwiade Foto: Alex de Carvalho de Miami, em 28/02/2007.6
  • 6. COP15Não respire. Há uma guerra total Nos últimos 15 anos, fomos subme-contra as emissões de CO2, e você tidos a duas competitivas campanhasestá liberando CO2 cada vez que res- corporativas, ambas ecoando estra-pira. A campanha multimídia contra tégias corporativas de ocasião e re-o aquecimento global que satura fletindo a divisão dentro dos círcu-nossos sentidos e insiste que, den- los da elite negocial. A questão dastre os gases de efeito estufa, o CO2 é mudanças climáticas foi moldada poro pior inimigo, não aceita reflexão: ambas as partes desta elite fraciona- Bund Jugentou se está do lado de quem denun- da, dando a entender que só haviacia ou a favor dos ‘detratores do dois lados para a questão.aquecimento global’. Ninguém podequestionar a nova ortodoxia ou ousa A primeira campanha – Formatada “ Aedesinformaçãoincorrer no pecado de emissão. Se no final dos anos 1980, como parteBill Clinton estivesse hoje concor- da ofensiva triunfalista da ‘globali-rendo à presidência dos EUA, ele ju- zação’, buscou destruir a hipóteseraria que não libera CO2. o descrédito das mudanças climáticas pela nega- ção, dúvida, escárnio e desmontagemComo chegamos a esse ponto? Por contra as evidências das graves evidências científicas queque e como um assunto tão difícil, poderiam colocar o entusiasmo peloque ontem só interessava um pu- científicas do expansionismo capitalista em banho-nhado de cientistas e de especialis- maria. Ela foi até certo ponto modela-tas, não mais que de repente pas- aquecimento global são da sobre a primeira campanha desen-sou a dominar o discurso cotidiano volvida pela indústria do tabaco parado planeta? Como uma especulação articuladas em semear o ceticismo sobre a coleta decientífica explodiu tão rapidamente evidências dos efeitos danosos doem onipresentes inquietações apo- campanhas multimídia ato de fumar na saúde. Após estecalípticas? Todas essas indagações esforço de ‘propaganda negativa’,não são hipotéticas, mas históricas, patrocinadas pelas todos os críticos das mudanças cli-e todas têm respostas. máticas e do aquecimento global fo-Eventos como esses simplesmentenão acontecem; são programados corporações industriais. ” ram imediatamente identificados com esta vertente do debate.para acontecer. Em geral, nossas A segunda campanha – Deslan-idéias tendem a não ser de nossa própria Até muito recentemente, a maioria das pes- chada uma década depois – no despertarlavra: raramente as propomos; nós as ab- soas ou era desavisada ou confusa e relati- de Quioto e na plenitude do movimentosorvemos do mundo que nos rodeia. E isso vamente desinteressada sobre essa questão, antiglobalização –, buscou ‘tirar proveitoé especialmente óbvio quando nossas apesar dos crescentes consensos entre ci- da questão ambiental ao afirmá-la para me-idéias acabam sendo iguais a de quase entistas e ambientalistas sobre os possíveis lhor sequestrá-la e, assim, usufruir dividen-todo mundo, até mesmo de quem nunca perigos das mudanças climáticas. Ativistas dos corporativos’. Modelada em um sécu-chegamos a conhecer ou a contatar. De do aquecimento global, como Al Gore, eram lo de cooptação corporativa liberal dos mo-onde surgiu a concepção sobre a urgente rápidos em colocar a culpa por tal ignorância, vimentos reformistas populares, essa cam-crise do aquecimento global pelas emis- confusão e despreocupação popular numa panha objetivou apropriar-se da questãosões de CO2, e como ela entrou em nossas campanha de propaganda financiada pelas para moderar suas implicações políticas,cabeças, dado que tão poucos leram ou corporações de petróleo, de gás e de seus tornando-a deste modo compatível com ostentaram ler um único estudo científico agentes – políticos, agências de propagan- interesses corporativos econômicos, geo-sobre os gases de efeito estufa? Respon- da, de relações públicas e porta-vozes na mí- políticos e ideológicos.der a tal pergunta não é tão difícil quanto dia, todos anestesiando um complacentepoderia parecer por uma simples razão: são público ao semear dúvida e ceticismo acerca A campanha corporativa climática enfatizounecessários boa dose de descortino e de das inquietantes reivindicações dos cientis- a primazia das soluções ‘de mercado’, insis-recursos para implantar uma idéia ‘aliení- tas. E, claro que tinham razão: havia tal cam- tindo na necessidade da ‘uniformidade e dagena’ tão rápida e simultaneamente em tan- panha corporativa, hoje amplamente docu- previsibilidade de regras e regulamentos’.tas mentes. E os únicos detentores de tal mentada. No entanto, os ativistas do aqueci- Ao mesmo tempo, transformou a questãocapacidade e meios são o governo e as mento global convenientemente deixaram de climática em obsessão global, em preocu-corporações, com ssua poderosa máquina mostrar que suas próprias mensagens alar- pação acachapante, para melhor desviar amultimídia. Realizar uma mudança tão sig- mistas foram marteladas em nossas cucas atenção dos radicais desafios propostosnificativa no foco da percepção, do con- pelos mesmos meios, embora via mãos cor- pelo movimento por justiça global. Após estavencimento e da crença requer um subs- porativas diferentes. No entanto, a pregação campanha, todos os oponentes dos ‘nega-tancial e conseqüente esforço de visibili- dos ativistas, que poderia ter sido mais signi- dores’ foram identificados – e, muito impor-dade e de demonstração. ficativa, recebeu escassa divulgação. tante, se auto-identificaram por vontade Cidadania&MeioAmbiente 7
  • 7. própria ou não com os ‘cruzados cli- lógica, o movimento uniu-se emmáticos corporativos’. oposição à ‘agenda corporativa global’, desestabilizando pela raizA primeira campanha, dominante ao a campanha de globalização empre-longo dos anos 1990, sofreu as con- endida pelas elites.sequências da exposição e tornou-se quase moribunda no início da era Foi nesse contexto conturbado queBush II sem, no entanto, perder o os signatários da Convenção Qua- Djbonespoder de influenciar a Casa Branca dro das Nações Unidas para as Mu-(e o gabinete do Primeiro Ministro danças Climáticas – formulada porcanadense). A segunda, tendo con- Protesto na reunião da OMC, Seattle nov. 1999. representantes de 155 países na Cú-tribuído para a difusão de um movi- pula da Terra, no Rio de Janeiro, emmento radical, obteve sucesso aogerar a histeria atual sobre o aqueci-mento global, que, a partir de então, “ O movimento antiglobalização explodiu 1992 – se encontraram, ao final 1997, em Quioto, para estabelecer o cha- mado Protocolo de Quioto para Re-foi canalizado com segurança para dução das Emissões de Gases deas agendas de ações corporativassem risco de confrontar o poder cor- num protesto mundial Efeito Estufa, via metas de controle das emissões de CO2 e mecanismosporativo. Seu sucesso de mídia des-pertou o público e compeliu até mes- contra o capitalismo de de compensação, como os créditos de carbono. O tratado de Quioto,mo os mais empedernidos ‘negado-res do aquecimento global’ a muito mercado e a depredação sempre prorrogado e apenas ratifi- cado no final de 2004, converteu-seoportunamente cultivar uma imagem‘mais verde’. Enquanto isso, e mais patrocinada pelas no único acordo internacional sobre Mudanças Climáticas, tornando-seimportante ainda, atuando em con-junto, as duas campanhas corpora- corporações, imediatamente o eixo do debate polí- tico sobre o aquecimento global.tivas obliteraram com eficiência qual-quer margem de rejeição. incluindo a rapina e o O PROTOCOLO DE QUIOTOGLOBALIZAÇÃO, IPPC esgotamento E A REAÇÃO CORPORATIVA A oposição corporativa antecipou-E ANTIGLOBALIZAÇÃONo final dos anos 1980, as mais po-derosas corporações mundiais lança-ram sua revolução ‘globalizante’, invocando do meio ambiente. a economia. As ações do GCC conseguiram ” se a Quioto. No verão de 1997, o senado norte-americano aprovou uma resolução unânime exigindo que qualquer tratado sobre a questão aque-sem cessar o inevitável benefício do livre co- efetivamente colocar a questão das mudan- cimento global teria de incluir a participa-mércio e, neste processo, relegando as ques- ças climáticas em compasso de espera. ção dos países em desenvolvimento, emtões ambientais à periferia e acuando o movi- particular das potências econômicas emer-mento ecologista para ações de retaguarda. Nesse ínterim, após a insurreição indíge- gentes, muito especialmente China, Índia eNão obstante, o interesse pelas mudanças na em Chiapas, em janeiro de 1994, ocorri- Brasil, países de resto excluídos da primei-climáticas continuou crescendo. Em 1988, ci- da no primeiro dia da implementação do ra rodada do Protocolo de Quioto. Encur-entistas especializados em clima e gestores Tratado Norte-Americano de Livre Comér- ralados pelo crescente movimento por jus-políticos criaram o Painel Intergovernamen- cio, o ‘movimento antiglobalização’ explo- tiça global, os adversários do Protocolo detal sobre Mudanças climáticas (IPPC, em in- diu num protesto mundial contra o capita- Quioto no GCC taxaram o tratado de ‘soci-glês) para manter as rédeas sobre a questão lismo de mercado e a predação patrocina- alista’ ou de complô ‘terceiro-mundista’e publicar relatórios periódicos. Em uma reu- da pelas corporações, incluindo a rapina contra os países ocidentais desenvolvidos.nião realizada em Toronto, 300 cientistas e e o esgotamento do meio ambiente. Empolíticos de 48 países lançaram uma convo- apenas cinco anos, o movimento cresceu No entanto, a convergência do movimentocação para ações de redução das emissões em coesão, número de entidades filiadas, por justiça global e Quioto incitaram parte dade CO2. No ano seguinte, 50 empresas dos poderio, militância e combatividade, de- elite a repensar e a se reagrupar, fato que criousetores de petróleo, gás, carvão, automotor saguando nos chamados ‘dias globais de uma divisão nos escalões corporativos noe química – e suas associações de comércio ação’ ao redor do mundo, particularmente tocante à questão das mudanças climáticas.– formaram a Global Change Coalition (GCC), em ações diretas nas cúpulas do G8 e nas As defecções no GCC começaram em 1997 e,que distribuiu milhões de dólares em contri- reuniões do Banco Mundial, do Fundo três anos depois, incluíam participantes dobuições políticas e em campanhas de rela- Monetário Internacional e da nova Orga- peso de Dupont, British Petroleum, Shell,ções públicas para advertir que os mal direci- nização Mundial do Comércio. O auge do Ford, Daimler-Chrysler e Texaco. Exxon, Mobil,onados esforços de redução das emissões movimento foi alcançado no cancelamen- Chevron e General Motors foram os últimosde gases de efeito estufa via restrição de quei- to da reunião da OMC, em Seattle, em no- a deixar o GCC. (Em 2000, o GCC finalmentema de combustíveis fósseis comprometeri- vembro de 1999. Constituído por uma ex- deixou de existir, embora outras organizaçõesam a promessa de globalização e arruinariam tensa gama de organizações de base eco- corporativas com objetivos semelhantes te-8
  • 8. nham sido criadas para continuar a néficos do capitalismo de merca-‘campanha de desinformação’, que do. “O propósito primário da Par-persevera até hoje.) tnership é patrocinar mecanismos de mercado como instrumentoOs membros que deixaram o GCC para alavancar ação imediata e cre-fundaram novas organizações. En- dível de redução das emissões de Oxfam Internationaltre os primeiros, o Pew Center for gáses de efeito estufa com efici-Global Climate Change (Centro Pew ência de meios e de custos.”para a Mudança Climática Global),financiada pelas doações filantrópi- Desde o primeiro anúncio, estacas da Sun Oil/Sunoco. A diretoria Pela mitigação das mudanças climáticas, out.2009 mensagem foi repetida como umdo novo Centro foi confiada a Theo- mantra: ‘os benefícios dos meca-dore Roosevelt IV, bisneto do presi-dente da Era Progressista (e íconede conservadorismo), e administra-da pelo banco de investimento Leh- “ Encurralados pelo crescente movimento nismos de mercado’; ‘as regras de mercado’; os ‘programas de mer- cado podem prover os meios para se alcançar simultaneamente pro-man Brothers. Também na diretoriafiguravam o diretor administrativo do por justiça global, teção ambiental e metas de desen- volvimento econômico’; ‘o poderbanco de investimento Castle-Harlane o antigo diretor da Northeast Uti- os adversários de Quioto dos mecanismos de mercado con- tribuindo para solucionar a ques-lities, bem como o veterano advoga-do corporativo Frank E. Loy, nego- taxaram o protocolo tão das mudanças climáticas’. Na primavera de 2002, o primeiro rela-ciador para comércio e mudanças cli-máticas na gestão Clinton. de ‘socialista’ e de tório da Partnership orgulhosa- mente informava estarem “as em-Logo ao iniciar suas atividades, o Pew ‘complô terceiro- presas do PCA na vanguarda do novo setor de administração dosCenter criou o Business Environmen-tal Leadership Council (Conselho de mundista’ contra gases de efeito estufa”. Cita o re- latório: “O PCA não só está alcan-Liderança Ambiental Empresarial) pre-sidido por Loy. Entre os primeiros mem- os países ocidentais çando reais reduções nas emis- sões globais, como também pro-bros do conselho figuravam as corpo-rações Sunoco, Dupont, Duke Ener-gy, British Petroleum, Royal Dutch/Shell, Ontário Power Generation, DTE (De- desenvolvidos. ” vendo um corpo de experiência prática e demonstrando como 10 empresas reduzem a poluição e continuam auferindo lucro”.troit Edison) e Alcan. No início de 2000, os ‘líderes empresariais mundiais’ reunidos no Fórum Econômico O BUSINESS DA MUDANÇA CLIMÁTICAPara marcar seu distanciamento do GCC, Mundial, em Davos, Suíça, declararam que O potencial de lucrar com as mudanças cli-o Conselho de Liderança Ambiental Em- “as mudanças climáticas constituíam a mai- máticas ganhou a ávida atenção dos ban-presarial declarou “aceitar as perspecti- or ameaça ao mundo”. Naquele outono, cos de investimento, alguns deles parcei-vas da maioria dos cientistas sobre o fato muitos dos mesmos participantes, inclusi- ros privilegiados do PCA através de suasde já se contar com suficientes dados ci- ve Dupont, BP, Shell, Suncor, Alcan e Onta- conexões com a direção do Pew Center eentíficos sobre os impactos ambientais rio Power Generation, bem como Pechiney da Environmental Defense. Goldman Sachsnas mudanças climáticas para se passar à (a empresa francesa fabricante de alumínio), liderou o ‘pacote’ por ser proprietário deação e enfrentar as conseqüências”. E dis- juntaram forças com o grupo de advocacia centrais de geração de energia via Cogen-se a que vinha: “O mundo dos negócios americano Environmental Defense (Defesa trix e ter clientes como BP e Shell. Assim, apode e deve dar passos concretos, tanto Ambiental) para formar a Partnership for empresa de Wall Street tornou-se a maisnos EUA como no âmbito internacional, Climate Action (Parceria para Ações Climá- sintonizada com as novas oportunidades.para avaliar as oportunidades trazidas pela ticas). Os diretores da Environmental De- Em 2004, a companhia começou a explorarredução das emissões... e investir em no- fense incluíam Frank Lay (do Pew Center) e as possibilidades de ‘geração de mercado’vos e mais eficientes produtos, práticas e diretores dos Carlyle Group, Berkshire Part- e, no ano seguinte, estabeleceu seu Centertecnologias.” O Conselho enfatizou que ners e Morgan Stanley, além do presidente for Environmental Markets (Centro paraas mudanças climáticas deveriam ser ne- da Carbon Investments. Mercados Ambientais) ao anunciar que ogociadas via ‘mecanismos de mercado’, “Goldman Sachs buscará de forma agres-adotar ‘políticas razoáveis’, e expressou Ecoando a missão do Pew Center e apenas siva criar mercados e oportunidades de in-a convicção de que ‘as primeiras compa- um ano após a ‘Batalha de Seattle’ malo- vestimento nos nichos ambientais.” A em-nhias a adotar políticas e ações estratégi- grar a reunião da Organização de Comércio presa indicou o Center para se ocupar dacas relacionadas às mudanças climáticas Mundial ao opor-se ao regime de globali- pesquisa e desenvolvimento de opções emganhariam vantagem competitiva susten- zação corporativo, a nova organização re- políticas públicas destinadas à criação detável sobre os concorrentes’. afirmou sua convicção nos aspectos be- mercados centrados nas mudanças climá- Cidadania&MeioAmbiente 9
  • 9. ticas, avocando inclusive a forma- promotores do mercado das mudan-tação e a promoção de soluções re- ças climáticas, cujos esforços foramguladoras para a redução das emis- exaltados explicitamente. “Cada vezsões de gás de efeito estufa. A em- mais os executivos norte-americanospresa também assegurou à Goldman nos conduzem na direção certa –Sachs a função de “identificar opor- exultou Al Gore, acrescentando: “Hátunidades de investimento em ener- uma grande oportunidade a caminhogia renovável”. E naquele ano, o para a comunidade do investimen-banco de investimento comprou a to”. DaviptHorizon Wind Energy, investiu nosetor fotovoltaico via South Edison, Livro e filme refletiam fielmente e am-obteve financiamento para a Nor- plificavam as mensagens centrais datheast Biofuels e comprou uma par-ticipação na Logen Corporation,empresa pioneira na conversão depalha, sabugo de milho e grama em “As campanhas antiaquecimento global campanha corporativa. Assim como seus colegas do Pew Center e da Partnership for Climate Action, Al Gore enfatizou a importância de seetanol. A companhia também se ou- recorrer a mecanismos de mercadotorgou a competência de “atuar no afirmam que os esforços para enfrentar o desafio do aqueci-mercado da venda das emissões de mento global. “Uma das chaves paraCO2 (e S02)”, bem como nas áreas para reduzir as emissões resolver a crise climática – escreveude ‘derivativos meteorológicos’, de – envolve os meios de se usar como‘créditos energéticos renováveis” de gases estufa via aliado a poderosa força do capita-e em outras ‘commodities climáti- lismo de mercado”. Gore repetiu aoscas’. “Acreditamos – proclamou restrição de combustíveis investidores sua advertência sobreGoldman Sachs – que a administra- a necessidade de estratégias de in-ção de riscos e de oportunidades fósseis comprometem a vestimento a longo prazo e a inte-que surgem com as mudanças cli- gração dos fatores ambientais aomáticas e sua regulamentação será globalização e podem business plan, mostrando com or- gulho como os líderes empresariais ”particularmente significativa e atrai-rá crescente atenção dos que atu- arruinar a economia. tinham começado a “ter uma amplaam no mercado de capital”. visão de como os negócios empre- sariais podem sustentar sua renta-Entre esses participantes do mercado de as questões relativas às mudanças climá- bilidade com o passar do tempo”. O executi-capitais figurava Al Gore, ex-vice-presiden- ticas em suas análises de mercado de vo corporativo citado em duas páginas dote norte-americano. Gore mantinha interes- ações – se vale a pena investir, quanto livro foi Jeffrey Immelt, presidente da Gene-se constante nas questões ambientais e investir e por quanto tempo –, vocês ve- ral Electric, que de forma sucinta explicou ohavia representado o EUA em Quioto. Tam- rão que o negócio é simplesmente bom”, propósito dos novos rumos: “Vivemos umbém herdara trânsito livre na indústria ener- explicou Al Gore aos investidores presen- tempo em que o aprimoramento ambientalgética, através da amizade e da participa- tes. Aplaudindo a decisão de Jeff Immelt, conduz à rentabilidade.”ção financeira de seu pai na Occidental Pe- presidente da General Electric, de envere-troleum, de Armand Hammer. Em 2004, en- dar pela trilha ambiental, Al Gore decla- No início de 2007, a campanha corporativaquanto Goldman Sachs engrenava suas ini- rou: “Vivemos um momento extraordinari- acelerou significativamente sua atividadeciativas na criação do ‘mercado das mu- amente esperançoso... um momento em com a criação de várias novas organizações.danças climáticas’ em busca de ‘lucros ver- que os líderes do setor empresarial come- O Pew Center e o Partnership for Climatedes’, Al Gore se associou aos executivos çam a tomar suas decisões”. Nesta épo- Action criaram uma entidade de lobby polí-David Blood, Peter Harris e Mark Fergu- ca, Al Gore já estava trabalhando em seu tico, a U.S. Climate Action Partnershipson, da Goldman Sachs, para criar em Lon- livro sobre aquecimento global – Uma (USCAP). A USCAP reuniu sob sua bandei-dres a empresa de investimento ambiental Verdade Inconveniente –, e naquela mes- ra os participantes do esforço inicial, a sa-Generation Investment Management ma primavera iniciou os agenciamentos ber: BP, Dupont, Pew Center e Environmen-(GIM), ficando Gore e Blood na diretoria. para fazer o filme sobre a questão. tal Defense, aos quais vieram se juntar ou- tros, inclusive GE, Alcoa, Caterpillar, DukeEm maio de 2005, na qualidade de repre- AL GORE E O BOOM Energy, Pacific Gas and Electric, Power andsentante da GIM, Al Gore capitaneou a DO MERCADO CLIMÁTICO Light e PNM (empresas de utilidades doCúpula Institucional do Investidor em O livro e o filme de mesmo título foram lança- Novo México e do Texas). O PNM tinha seRisco Climático, ocasião em que enfati- dos simultaneamente em 2006, com enorme unido à Cascade Investments, de Bill Gateszou a necessidade de os investidores promoção e sucesso imediato junto à indús- (Microsoft), para formar a nova empresa ener-pensarem a longo prazo e a integrar as tria corporativa do entretenimento (o filme gética EUS. Jeff Sterba, presidente do PNM,questões ambientais em suas análises recebeu indicação para o Oscar). Tanto o li- também presidia a Climate Change Task For-patrimoniais. “Acredito que ao integrar vro quanto o filme ampliaram o alcance dos ce, do Edison Electric Institute. Também se10
  • 10. juntou à USCAP o Resources Defen- lares corporações globais de lu-se Council, o World Resources Insti- cros exponenciais e suas miríadestute e o banco de investimentos Leh- de agências e agendas; a incon-man Brothers, cujo diretor adminis- teste autoridade da ciência e a re-trativo, Theodore Roosevelt IV, pre- sultante crença na tecnologiasidira o Pew Center e, pouco depois, como fator de libertação; e as be-presidiria o Lehman’s New Global nesses do mercado auto-regula-Center on Climate Change. Como dor, sua panacéia de prosperida- Softpix Techienoticiou a revista Newsweek (12 de de via livre comércio e seus pode-março de 2007), “Wall Street experi- res mágicos capazes de transfor-menta uma mudança climática ao re- mar em commodities tudo aquiloconhecer que ‘o modo de se tornar que toca – inclusive a vida. Todasverde é enveredar pelo verde’”. as ofuscantes verdades reveladasEm janeiro de 2007, o USCAP emitiuuma ‘Convocação à Ação’, algo como “Os negadores das mudanças climáticas por aquele movimento sobre as in- justiças, danos e desigualdades semeados e sustentados por es-‘um esforço não partidário lançado sas crenças e fontes de poder fo-pelos altos executivos das organiza- apropriaram-se do ram então enterradas, varridasções membro’. A Convocação decla- para debaixo do tapete pelo apo-rava a “urgente necessidade de um aquecimento global para calíptico ímpeto de combate aoestatuto político para as mudanças aquecimento global.climáticas”, enfatizando “a obrigato- moderar a questão eriedade de um sistema que estabele- Explicitamente comparado a umaça de forma clara e previsível as exi- torná-la compatível com guerra, este desafio épico requergências de mercado para reduzir as atenção focada e total compromis-emissões de gases de efeito estufa”. interesses econômicos, so, não tolerando qualquer distra-A USCAP redigiu um ‘roteiro de abor- ção. Agora não é mais o momentodagem econômica de mercado à pro- geopolíticos e nem há tempo ou espaço para seteção climática’ que recomendava um questionar uma sociedade defor-‘programa de política ambiental’ paracompatibilizar os objetivos almejadosaos limites de emissão e aos créditos ideológicos corporativos. ” mada ou reexaminar seus mitos subjacentes. A culpa e a respon- sabilidade passam novamente ade carbono no mercado global. Há bros o agora familiar Theodore Roosevelt IV recair sobre o indivíduo imerso emmuito condenado pelos países em desen- (Lehman Brothers e Pew Center); o ex-con- culpa primordial: o pecador familiar tem devolvimento como ‘colonialismo de carbo- selheiro de segurança nacional Brent Scow- enfrentar o castigo por seus pecados e ex-no’, o comércio de CO2 converteu-se em croft; Owen Kramer, do Boston Provident; cessos, predisposto que é pela cultura pi-nova ortodoxia. O roteiro também concla- representantes do Environmental Defense, edosa que agora exige disciplina e sacrifí-mava a instalação de um “programa nacio- do The Natural Resources Defense Council cio. No dia da abertura do campeonato denal para acelerar tecnologia, pesquisa e de- e da National Wildlife Federation (Federação beisebol, em abril da 2007, o proprietáriosenvolvimento, e implementação de medi- Nacional da Vida Selvagem); e três antigos do time Toronto Blue Jays postou-se fren-das para encorajar a participação dos paí- administradores da Agência de Proteção Am- te ao gigantesco jumbotron – uma extrava-ses em desenvolvimento como China, Índia biental. Valendo-se de ‘técnicas de comuni- gância eletrônica enfeixada por um anele Brasil”, insistindo que “no final das con- cação inovadoras e de longo alcance’, Al coruscante de logotipos e de publicidadetas a solução deve ser global”. Segundo Jeff Gore explicou que ‘Alliance for Climate Pro- corporativa – e exortou, em tom solene, queImmelt, presidente da General Electric e por- tection (Aliança para Proteção Climática) em- cada indivíduo da multidão que lotava ota-voz da USCAP, “as recomendações de- preendia um trabalho de persuasão de massa estádio saísse para comprar uma lâmpadaveriam catalisar a ação dos legisladores a sem precedente’. A campanha multimídia glo- incandescente com selo de eficiência ener-encorajar a inovação para nutrir o cresci- bal contra o aquecimento global passou a gética. Todos aplaudiram.mento econômico, ao mesmo tempo em que saturar todos os nossos sentidos.maximizava a segurança energética e a ba- Em seu best-seller de 2005 – Weather Ma-lança comercial.” A campanha corporativa sobre as mudan- kers (Fabricantes de Condições Climáticas), ças climáticas alimentou uma febril preo- Tim Flannery convocou seus leitores a lu-No mês seguinte, surgiria outra organização cupação popular com a questão do aque- tar “nossa guerra das mudanças climáti-climática corporativa, especificamente dedi- cimento global e foi ainda mais longe. Ten- cas”. Com prefácio de Mike Russill, ex-pre-cada a divulgar o ‘novo evangelho do aque- do surgido em meio ao movimento por jus- sidente do gigante energético Suncor e,cimento global’. Presidido por Al Gore, da tiça global, a campanha restaurou a confi- naquele momento, diretor do World Wild-Generation Investment Management, a Alli- ança nas mesmas crenças e forças pelas life Fund/Canada, o livro refletiu muito bemance for Climate Protection (Aliança para a quais o movimento trabalhara com tanto a campanha corporativa. Cada indivíduoProteção Climática) incluía entre seus mem- empenho para expor e desafiar: as tentacu- “deve saber que a luta só pode ser venci- Cidadania&MeioAmbiente 11
  • 11. unidirecional e sua deferência ingênua à autoridade da ciência. “Mitigar as mudan- ças climáticas – declara Monbiot – tem de se tornar um projeto prioritário. Se falhar- mos nesta tarefa, falharemos em tudo mais. Precisamos de um corte da magnitude exigi- da pela ciência. Devemos adotar a posição determinada pela ciência em lugar da deter- minada pela política”, escreve Monbiot, como se fosse possível ciência desprovida de conteúdo político. Monbiot não desfere estocadas contra a “indústria do questio- namento das mudanças climáticas”, apenas desfere leves estocadas nas campanhas cor- porativas de desinformação por suas “idio- tices” e, incisivamente, sugere que logo, logo a “negação das mudanças climáticas parecerá tão estúpida quanto a negação do holocausto ou a afirmação de que a AIDS pode ser curada com suco de beterraba.” Colin Purrington No entanto, Monbiot não escreve sequer uma palavra de reconhecimento, muito me- “Há muito condenado pelos países em desenvolvimento como nos de crítica, aos defensores da tese das mudanças climáticas cujas mensagens ele inadvertidamente promove com paixão. Tam- bém aqui, um parágrafo curto e estranhamen- ‘colonialismo de carbono’, o comércio te enterrado no texto, aparentemente em des- conexão com o resto, perturba o leitor escla- de CO2 converteu-se em nova ortodoxia recido. “Nada disso sugere – escreve Monbiot – que a ciência não deva ser objeto e no direito de os ricos continuarem de revisão e de ceticismo permanentes, ou que os ambientalistas não devam ser chama- poluindo ainda mais o planeta.da em termos sociais e econômicos, sem ” to: “Devido ao fato de a preocupação com as dos às falas”. Os defensores das mudanças climáticas não têm maior ou menor direito de estarem errados do que qualquer pessoa. “Quem engana o público – admite Monbiotnecessidade de se alterar dramaticamente mudanças climáticas serem tão recentes e a – deve esperar ser desmascarado”. E acres-o modo como vivemos.” “A coisa mais im- questão tão multidisciplinar – anota Flannery centa: “Também precisamos saber que nãoportante é perceber – ecoa Flannery – que – esta área do conhecimento conta com pou- estamos desperdiçando nosso tempo: nãotodos podemos fazer a diferença e ajudar a quíssimos especialistas verdadeiros, e me- há razão que justifique dedicar a vida a lutarcombater as mudanças climáticas quase nos ainda com gente habilitada a traduzir a por um problema inexistente”. Talvez aqui,sem custos a nosso estilo de vida.” “A tran- questão para o grande público e a falar sobre nessas entrelinhas, vazem algumas migalhassição para uma economia livre de carbono o que se deve fazer.” de verdade, ao sugerir a abertura de outroé eminentemente realizável – exulta Flan- espaço e de outro momento. ■nery – porque dispomos de toda a tecno- A campanha corporativa fez mais do quelogia necessária para isso.” “Porém, existe somente criar oportunidade de mercado parauma armadilha potencial na estrada que escritores de ciência de cunho popular como David Noble – Historiador dedicado à revi-leva à estabilidade climática – adverte o Flannery. Ao estabelecer uma disputa mani- são crítica da tecnologia, da ciência e da educa-autor – e que vem a ser a tendência de se queísta entre, de um lado, os medíocres e ção; professor de História na Universidade deforçar o vagão ideológico para além da desinteressados questionadores da ques- York, em Toronto, Canadá. É autor de Forces ofsustentabilidade!” “Ao se enfrentar uma tão ambiental e, do outro, os esclarecidos Production: A Social History of Industrial Au- tomation (1984), The Religion of Technology:emergência séria – aconselha – o melhor é defensores da causa aquecimento global, The Divinity of Man and the Spirit of Inven-adotar um comportamento focado.” também predispôs jornalistas de esquerda tion ( 1997), Beyond the Promised Land (2005) politicamente astutos a uma inesperada cre- Em 1983, Noble, Ralph Nader e Al MeyerhoffO livro é inspirador e convence o leitor a lutar dulidade. O apaixonado manifesto de 2006 criaram a National Coalition for Universities incom diligência, entusiasmo e esperança con- do jornalista George Monbiot (articulista do the Public Interest. O artigo original The Cor- porate Climate Coup foi publicado emtra a ameaça global. Mas, ao leitor atento não jornal britânico The Guardian) sobre a ques- www.zmag.org/znet/viewArticle/15472escapa um pequeno aparte embutido no tex- tão, por exemplo, é embaraçoso por seu foco12
  • 12. COP15 Prédio Hubert Lamb, sede da Unidade de Pesquisa Climática da University of East Anglia, Reino Unido. Foto: Leo Reynolds ‘CLIMAGATE’: a controvérsia fabricada Às vésperas da COP15, os ‘negadores da mudança climática’ tentaram mais uma vez desacreditar os fundamentos científicos do aquecimento global. Para tanto, invadiram as caixas de e-mails da Unidade de Pesquisa Climática da East Anglia University, na Grã Bretanha, e pinçaram informações que, fora de con- texto, provariam uma “conspiração científica para esconder ou distorcer dados sobre as alterações climáticas”. Veja como a ‘guerra suja‘ movida pelos ecocé- ticos foi desmontada neste texto assinado pela Union of Concerned Scientists(1). por Peter Frumhoff, Union of Concerned ScientistsA ANÁLISE DA UCS Não há evidência de que os cientistas ‘fal- Embora os e-mails tenham suscitado preo-Ao analisar o conteúdo divulgado dos e-mails sificaram’, ‘manipularam’ ou ‘fabricaram’ cupação, o conteúdo publicado não indicae refletir sobre as consequências suscitadas, dados. Estas alegações sem consistência que os dados climáticos e a pesquisa em sieste texto objetiva corrigir junto à opinião – baseadas em conteúdo de e-mails fora tenham sido comprometidos. Mais impor-pública as idéias errôneas atribuídas aos e- de contexto – são promovidas pelos que tante ainda: nada do conteúdo dos e-mailsmails, situando-as em seu contexto científico há muito se opõem às evidências científi- roubados tem qualquer impacto negativoe explicando sua integridade científica. cas que implicam em novas legislações sobre nossa compreensão de que as ativi- para frear as mudanças climáticas. O Pai- dades humanas estão levando o aqueci-Alguns organismos da mídia têm reporta- nel Intergovernamental sobre Mudança mento global a níveis perigosos. No en-do erroneamente os aspectos críticos da Climática (IPCC, sigla em inglês), a Uni- tanto, os textos publicados na mídia peloshistória dos e-mails roubados. Não há evi- versidade de East Anglia e a Penn State que negam o aquecimento global insistemdência alguma de que cientistas falsearam University analisaram separadamente os que os dados são imprecisos.qualquer dos dados de temperatura já co- conteúdos dos e-mails roubados paranhecidos em artigos publicados após a de- avaliar as alegações de falsidade intelec- O cientista Phil Jones, diretor da Unidadevida revisão paritária (2). tual e científica. de Pesquisa Climática da University of East Cidadania&MeioAmbiente 13
  • 13. Anglia, Reino Unidos, não ‘escondia’ nada sempre procuram novos modelos para tornar Os cientistas podem depositar alto grau deque já não tivesse sido discutido e publi- os registros de temperatura mais precisos. confiança nas tendências das temperatu-cado em documentos científicos submeti- ras globais das décadas recentes porquedos à revisão paritária. Ele apenas recorreu Os anéis das árvores constituem uma fon- essas observações se baseiam em grandea um ‘trick’ – termo que, nesse caso, refere- te muito confiável de dados para os últi- volume de dados. Por isso, podemos afir-se à técnica (não a ‘truque’), termo usual mos 2 mil anos. No entanto, desde os anos mar sem medo de errar que durante as últi-em publicações científicas revisadas. 1960, os cientistas observaram haver, em mas décadas a Terra aqueceu. Também po- certas regiões, grupo de árvores que pare- demos afirmar com certeza que a contínuaA troca dos e-mails divulgados, ocorrida cem indicar temperaturas mais quentes ou sobrecarga de CO2 na atmosfera tornará oem 1999, refere-se a dados climáticos anti- mais frias do que na verdade sabemos ser planeta ainda mais quente.gos, que os cientistas examinavam e troca- a partir da medição por termômetros insta-vam entre si. Nesse caso específico, Jones lados em unidades de coleta de dados me- No entanto, os cientistas ainda tentam en-fala como os cientistas comparam os da- teorológicos. tender como o clima varia no curto prazo,dos de temperatura obtidos com termôme- por exemplo, no espaço de um ano. Numtros dos obtidos via leitura dos anéis de O termo ‘escondendo o declínio’ (hiding the dos e-mails, Trenberth lamenta a falta decrescimento anual das árvores. Essa com- decline) encontrado nos e-mails refere-se à equipamentos de monitoramento distribu-paração permite aos cientistas obter dados exclusão de dados de algumas árvores sibe- ídos nos oceanos e na atmosfera ao redorde temperatura de séculos passados, ante- rianas após 1960. Esta omissão foi discutida do globo. Se assim fosse, os cientistas con-riores à invenção do termômetro, que pos- abertamente na mais recente atualização em tariam com mais informações para enten-sibilitou medições precisas. A temperatura ciência climática, em 2007, pelo IPCC. Assim der exatamente como ocorrem as variaçõesmédia da superfície global, a partir de 1880, o ‘escondendo’ não é nada ‘escondido’. climáticas no curto prazo. Trenberth faz re-baseia-se no uso do termômetro e de aferi- ferência, em particular, ao ano de 2008, maisções de temperatura via satélite. fresco do que os cientistas haviam previs-As distorções fabricadasA palavra ‘trick’ referenciada no texto deum dos e-mails refere-se a ‘técnica’, ‘arte “ A guerra suja da desinformação to, mas, ainda assim, figurando entre os 10 anos mais quentes desde que foram inicia- dos os registros instrumentais.do ofício’ – não a truque ou mistificação –e foi empregada num artigo científico pu- revela as tentativas dos Os sentimentos de Trenberth expressos em seu e-mail privado refletem a consternaçãoblicado em jornal acadêmico,em 1998, apósa devida revisão paritária (3). ‘Escondendo ecocéticose para que manifestou em público: o cientista abor- dou o mesmo assunto em um documentoo declínio’ (hiding the decline), expressãoque também causou celeuma, refere-se à contestar as evidências científico, de 2009 (pdf) (5), onde figura exa- tamente a mesma pergunta.outra técnica citada em artigo publicadonuma revista científica acadêmica (4). Em irrefutáveis do Até hoje não existe nenhuma evidência palpá-todo caso, ninguém estava enganando nin-guém ou escondendo qualquer coisa. Naverdade, a troca de e-mails nada mais reve-la que a troca de informações entre cientis- aquecimento global ” vel de que os cientistas violaram quaisquer princípios basilares da integridade científica. Por isso, os e-mails não detonam a ciência.tas sobre os diferentes modos de analisar POR QUE ÁRVORES SIBERIANAS? Alguns e-mails abordando a questão de limi-os mesmos dados em pauta de discussão Na região de Yamal, na Sibéria, há um pe- tar a liberdade de informação e manter algu-naquele momento pela literatura submeti- queno conjunto de árvores que apresen- mas comunicações científicas fora de publica-da à revisão paritária. Posteriormente, os tam anéis mais finos do que se esperava ções também levantaram suspeitas acerca damesmos dados foram discutidos extensi- após 1960, quando comparado com medi- integridade científica dos autores. Os cientis-vamente no relatório de 2007 do IPCC. ções por termômetro realizadas na região tas devem se mostrar sempre tão transparen- atualmente. Os cientistas ainda estão ten- tes quanto possível em relação a seus dados eEm algumas partes do mundo, os anéis de tando entender por que estas árvores fo- métodos. A transparência é crítica para o exer-crescimento das árvores constituem um ex- gem ao padrão. Por isso, algumas análises cício da responsabilidade em qualquer área.celente gráfico de registro da temperatura. omitiram os dados destas árvores após 1960 De sua parte, Phil afirma não ter apagado ne-A cada nova estação, as árvores formam um e optaram pelas temperaturas aferidas por nhuma mensagem de e-mail referente ao res-novo anel de crescimento. Via de regra, as termômetro. Técnicas como estas auxiliam peito à liberdade de informação. Se tivessetemperaturas mais quentes produzem anéis os cientistas a reconstruir os registros de agido de outra forma, sua conduta seria repro-mais largos, enquanto as temperaturas mais temperatura climática do passado com base vável. E, até agora, não há evidência de quefrias geram anéis mais delgados. Outros fa- nos melhores dados disponíveis. qualquer e-mail tenha sido apagado.tores, como precipitação, características dosolo e idade da árvore também podem afetar Em outro e-mail, Kevin Trenberth – pesquisa- A ciência deve ser analisada dentro de seucrescimento dos referidos anéis. dor climático do Centro Nacional para Pesqui- contexto para poder ser contestada. Quando sa Atmosférica, no Colorado – escreveu que colocamos os e-mails roubados em seu devi-O ‘trick’ – referido em documento publicado os sistemas para observar a variação climática do contexto, eles não apresentam nada deem 1998, na revista científica Nature – consis- anual de curto prazo são inadequados, e la- novo e, por isso, não detonam os dados oute na comparação dos dados dos anéis mais mentou: “O fato é que não podemos explicar a as pesquisas climáticas. Também é importan-antigos com os dados obtidos com termôme- ausência de aquecimento neste momento, e é te entender a integridade das alegações ci-tro. O espelhamento dos dois conjuntos de uma pena que não possamos... Nosso siste- entíficas contra os cientistas no contextodados pode ser difícil e, por isso, os cientistas ma de observação é inadequado.” geral, não isoladamente, como foi o caso.14
  • 14. COP15Independentemente de os pesquisadores da ladora da amplitude do fracasso desses e interpretações científicas válidas. O pro-Unidade de Pesquisa Climática da Universi- grupos ao tentar manobras de todos os fei- cesso de produção científica é o que impor-ty of East Anglia terem ou não observado tios para contestar as evidências irrefutá- ta. Com o passar do tempo, o rigor das aná-os critérios de liberdade de informação, seus veis. A estratégia dessa gente também pro- lises, via revisões paritárias, tende a depu-dados continuam a gozar de rigor científico voca sérias conseqüências. No dia 8 de de- rar os argumentos mal fundamentados. Ee encontram eco em três outros conjuntos zembro, por exemplo, o jornal britânico the apenas as melhores explicações sobre ade dados independentes sobre a tempera- Guardian informava que os cientistas da mecânica do planeta – por exemplo, a óbviatura, a saber: da NASA, do National Ocea- University of East Anglia passaram a rece- evidência de que as excessivas emissõesnic and Atmospheric Administration e da ber ameaças de morte. de dióxido de carbono estão provocando oSociedade Meteorológica Japonesa. aquecimento da Terra – sobrevivem. ■ O momento escolhido para a divulgaçãoCausaram muito alvoroço os e-mails refe- dos e-mails corrobora as suspeitas sobrerentes a um certo artigo que alguns cien- as reais motivações de quem invadiu e setistas julgaram não deveria ter sido publi- apropriou ilegalmente do conteúdo das N OTAS DO E DITORcado em revista acadêmica dotada de revi- caixas postais dos cientistas. Afinal, os e- 1 – A Union of Concerned Scientists (UCS) é a principalsão paritária. Estes e-mails focam a variabi- mails roubados foram publicados duas se- organização sem fins lucrativos dos EUA objetivando um meio ambiente saudável e um mundo mais seguro. Fundadalidade solar sobre o clima com o passar do manas antes da maior conferência sobre em 1969, a UCS tem sede em Cambridge, Massachusetts, comtempo. O artigo foi publicado na revista mudanças climáticas – a COP 15 – promo- escritórios em Berkeley, Chicago e Washington, D.C.com revisão paritária Climate Research, só vida pela ONU, em Copenhague. Segundo 2 – Nos meios acadêmicos, a revisão por pares, tambémque em circunstâncias incomuns. Metade um periódico britânico, os e-mails foram ori- chamada revisão paritária ou arbitragem (peer review, refereeing, em inglês) é um processo utilizado na publicaçãodo comitê editorial da revista demitiu-se em ginalmente pirateados em outubro. E quem de artigos e na concessão de recursos para pesquisas. Con-protesto contra o que julgaram ser um fra- siste em submeter o trabalho científico ao escrutínio de umcasso do processo de revisão paritária. O ou mais especialistas do mesmo escalão que o autor, que se “Osforam publicados e-mails roubados mantêm anônimos ao autor. Esses revisores anônimos fre-artigo argumentando que o atual aqueci- quentemente fazem comentários ou sugerem a edição do tra-mento não é fato incomum foi contestado balho analisado, contribuindo para a qualidade do trabalho a ser publicado. Publicações e prêmios que não passam porpelos cientistas cujos trabalhos foram ci- revisão paritária tendem a ser vistos com desconfiança portados no artigo. Muitas publicações sub- acadêmicos e profissionais de todas as áreas.seqüentes corrigiram os dados, fato quedemonstra como o processo de revisão duas semanas antes 3 – Global-scale temperature patterns and climate forcing over the past six centuries. Michael E. Mann, Raymond S. Bradley & Malcolm K. Hughes. Nature 392, 779-787 (23paritária tende a corrigir tais tipos de lap-sos ao longo do tempo. Mais tarde, os ci- da COP 15, April 1998) | doi:10.1038/33859; Received 9 May 1997; Accepted 27 February 1998.entistas descobririam que o artigo fora cus-teado pelo American Petroleum Institute. embora tenham 4 – Reduced sensitivity of recent tree-growth to temperature at high northern latitudes. K. R. Briffa, F. H. Schweingruber, P. D. Jones, T. J. Osborn, S. G. Shiyatov & E. A. Vaganov.Em e-mail posterior, Phil Jones faz referência a sido pirateados Nature 391, 678-682 (12 February 1998) | doi:10.1038/ 35596; Received 14 May 1997; Accepted 11 November 1997.dois outros textos (6) que não considerou rele- ” 5 – Trenberth, K. E., 2009: An imperative for adapting tovantes. “Não posso imaginar qualquer um dois meses antes. climate change: Tracking Earth’s global energy. Current Opinion in Environmental Sustainability, 1, 19-27. DOIdestes artigos figurando no próximo relatório 10.1016/j.cosust.2009.06.001.do IPCC. De alguma forma Kevin e eu os man- 6 – A test of corrections for extraneous signals in gridded surfaceteremos fora – mesmo que sejamos obrigados os publicou provavelmente desejava dis- temperature data. Ross McKitrick, Patrick J. Michaels. Climate Research Vol. 26: 159–173, 2004. Published May 25.a redefinir o que seja revisão paritária!” seminar a desinformação sobre a ciência 7 – Climatologistas recebem ameaças de morte – Os cientis- climática para minar a conferência. A Uni- tas do CUR estão recebendo centenas de e-mails ofensivos eAinda assim, os textos em questão figura- versity of East Anglia, que hospedava os ameaçadores desde a divulgação de suas correspondências em meados de novembro de 2009. Kate Ravilious pararam no relatório do IPCC, fato que indica e-mails, iniciou uma investigação para de- environmentalresearchweb, parte do the Guardian Environ-não ter havido nenhuma restrição à incor- terminar o autor(es) do roubo. ment Network, Terça-feira, 8 de dezembro de 2009.poração dos mesmos. O processo do IPCCagrega centenas de autores e revisores, num CIENTISTAS SÃO HUMANOSprocesso de revisão transparente e exato. O COMO QUALQUER PESSOAfato de grupos adversários às ações em Em outros e-mails, os cientistas simples- Peter Frumhoff é diretor demudança climática invocarem ‘conspiração’ mente expressam sua frustração e – numa ciência & política e cientistaapenas revela o grau de desespero com que das mensagens – um deles até mesmo fala chefe do Climate Campaign,tentam desacreditar os cientistas. (não seriamente, esperamos) de sua von- do UCS. Ecologista de reno- tade em surrar uma pessoa que o atacou me global, ele publica e pro-Os milhares de e-mails subtraídos ilegalmen- publicamente. Esse tipo de ‘papo’, sabe- fere conferências sobre vastate cobrem mais de uma década. Quem os mos todos, não é incomum na troca de e- gama de tópicos que incluemroubou somente poderia divulgar um pu- mails pessoais. Só que esse tipo de ‘confi- impactos das mudanças cli-nhado que, fora de contexto, poderia levan- dência’ também acabou por chamar a aten- máticas, ciência climática,tar suspeitas em pessoas não familiarizadas ção, já que não se coaduna com a imagem conservação e gerenciamento de florestas tropi- cais e diversidade biológica. O artigo Debunkingcom os pormenores da ciência climática. Há que a opinião pública faz dos cientistas. Misinformation About Stolen Climate Emailsanos, os adversários das ações antiaque- in the “Climategate” Manufactured Controversycimento global vem atacando a ciência cli- Os cientistas também são pessoas sujeitas – bem como farto material de referência sobre amática. O fato de seus argumentos mais a vasta gama de emoções. Mas, indepen- ‘guerra suja’ contra a ciência climatológica po-fortes serem ataques pessoais a cientistas dente de como agem, todos devem apresen- dem ser consultados em http://www.ucsusa.orgvia argumentação fora-de-contexto é reve- tar seus argumentos através de evidências Cidadania&MeioAmbiente 15
  • 15. A Conferência do Clima, em Copenhague, revela um novo movimento de justiça planetária. Comparado aos protestos ‘antiglobalização’ dos anos 1990, o movimento pelo clima revela uma sociedade civil global amadurecida e unida em torno de um objetivo, ao invés de lutar por interesses dispersos. A autora acredita que a coesa identidade de interesses deste novo grupo de ONGs pode forçar os negociadores a priorizar a justiça social e climática sobre os interesses particulares dos Estados e do big business global. por Anna WhiteO Movimento dos Movimentos:da Resistência à Justiça ClimáticaA primeira semana de dezembro marcou o décimo aniversário ‘Batalha de Seat-tle’, ocasião em que dezenas de milhares de ção para a mobilização transnacional em prol da justiça social, econômica e ambiental, hoje uma presença regular em todas as reuniões obtenção de lucro, Copenhague pode es- tar revelando um ‘movimento de justiça global ‘ que, muito além das ações de re-manifestantes paralisaram a reunião minis- políticas internacionais. sistência, apresenta-se coeso num ‘movi-terial da Organização Mundial do Comércio mento de mudança’. Nas palavras de Da-(OMC) no dia da abertura. Pegando de sur- E, agora, na COP 15, quando os líderes mundi- vid Solnit, co-autor de ‘A História da Bata-presa os negociadores e a mídia, a ais se encontraram em Copenhague para dis- lha de Seattle’: “Se Seattle foi o ‘movimen-mobilização em massa de grupos diversos – cutir o que os cientistas advertem ser o maior to dos movimentos vindo de fora’, entãode ecologistas a sindicalistas – conseguiu desafio que a humanidade enfrenta a nível com certeza Copenhague será a celebra-protelar as negociações comerciais que, mundial – o aquecimento global –, o chaman- ção de nossa maioridade.”muitos críticos sugerem, poderia ter conso- do ‘movimento dos movimentos’ novamentelidado o poder global das grandes corpora- marca sua presença de modo marcante. JUSTIÇA CLIMÁTICAções às custas dos mais pobres e marginali- A marcha da mobilização que culmina emzados do mundo. Saudado pela ativista Da mesma maneira que Seattle revelou a Copenhague foi construída pela forçaNaomi Klein (1) como o movimento de justi- extensão da oposição dos movimentos so- aglutinadora de um ativismo interconecta-ça global ‘vindo de fora’, muitos analistas ciais espalhados ao redor do mundo às cor- do por grupos da sociedade civil espalha-viram naquele protesto a fonte de inspira- porações mundiais unicamente voltadas à dos pelo planeta, o que leva a pensar que,16
  • 16. COP15 nismos de mercado, a justiça em 56 jornais de 45 países. Todos urgindo o climática sugere que as cau- mundo industrializado a reconhecer sua res- sas repousam no modelo ponsabilidade em “ajudar os países mais econômico injusto, que per- pobres a se adaptarem às mudanças climáti- mitiu aos países industriali- cas... para permitir o crescimento econômi- zados colher os benefícios do co sem aumento de emissões”. desenvolvimento através do consumo intensivo de com- Enquanto as séries de protestos e de de- bustíveis fósseis. O movi- monstrações reafirmavam a necessidade de mento exige que o mundo in- se chegar a um acordo sobre a justiça cli- dustrializado pague sua dívi- mática, o coração do movimento da socie- da climática aos países po- dade civil pulsava no Klimaforum09 – a bres, às comunidades e aos contrapartida da conferência oficial. Nesta indivíduos – ou seja, a maio- plataforma aberta e inclusiva para discus- ria que sofrerá os impactos são acorreram indivíduos e grupos de to- das crises pelas quais não dos os cantos do planeta com o objetivo são responsáveis. de lançar uma declaração alternativa sob a bandeira ‘mudança de modelo – não mu- Além disso, a justiça climáti- dança climática’. A esperança é inspirar os ca reconhece que o direito ao líderes políticos a colocar a justiça climáti- desenvolvimento deve ocu- ca e social no cerne de um tratado forte, par o cerne de uma negocia- cooperativo, coeso e capaz de enfrentar o ção justa e sustentável. Em desafio da mudança climática. vez de focar o direito de com- pra e venda do direito de po- Embora fora da agenda oficial da cúpula de luir, os defensores da justiça Copenhague, os termos da esperada de- climática advogam soluções claração política da sociedade civil alinha- alternativas para a promoção vadas no Klimaforum09 não deixam de ter do desenvolvimento, tais suma importância, já que tais resoluções Manifestação em Copenhage (12/12/2009) - Foto: Johan.DK como compartilhamento de fixarão o cenário para as futuras negocia- tecnologia ‘verde’ não ções e rascunharão o esboço para um acor- poluente, estímulo de práticas do definitivo. O texto final da Declaraçãoà semelhança do que ocorreu em Seattle, agrícolas sustentáveis e garantia de acesso do Klimaforum09, finalizado em 14 de de-estes movimentos sociais fusionados num ao quinhão justo e equitativo dos recursos zembro, tem potencial para influenciar o re-único objetivo obterão sucesso em sua rei- mundiais às comunidades planetárias. sultado da COP15 e, assim, colocar a justi-vindicação. No entanto, a convocação por ça climática na ordem do dia da agenda ofi-‘justiça climática’ – bandeira que une o mo- MUITO ALÉM DE COPENHAGUE cial, fazendo-a avançar.vimento global – apresenta um aspecto dis- O nível e o modelo atuais de mobilizaçãotintamente diverso dos protestos ‘antiglo- transnacional em defesa da justiça climática Enquanto há uma década os protestos ‘mu-balização’ dos anos 1990. também são reveladores do amadurecimen- daram a história do livre comércio’, o to da sociedade civil global. No último 24 de ativismo da sociedade civil em Copenha-Ao contrário da mobilização contra a OMC outubro – dia de ação global mobilizado pela gue pode alcançar muito mais do que umae as instituições financeiras internacionais Campanha 350 (2) – ocorreram nada menos mudança na retórica popular. Com a meta– que muitos julgaram não passar de ex- do que 5.200 ações em 181 países: todos de criar uma resposta holística à ameaçapressões reacionárias de descontentamen- unidos à convocação por uma solução equi- do aquecimento global, o movimento deto –, o movimento pela justiça climática não tativa e eficaz para a crise climática. Foi o justiça climática poderá ter sucesso ao ba-é apenas a voz compartilhada da oposição. protesto com a maior participação na histó- lizar as futuras negociações e as diretrizesDos ecologistas e dos grupos que lutam ria da humanidade. Fato sem precedente, as políticas a priorizarem a justiça social e cli-contra a pobreza às organizações de agri- mídia ecoaram em editoriais integrados a mática além dos egoísticos interesses decultores e associações de comércio e sin- convocação para a solução social da crise alguns países e do big business. ■dicalistas, estas vozes estão tecendo em climática marcada para o dia 7 de dezembrouníssono uma narrativa coerente sobre as N OTA DO E DITOR (1) Naomi Klein – Ativista e pensadora política, autora de Acausas do aquecimento global, e constru- Doutrina do Choque - A Ascensão do Capitalismo do De-indo um paradigma alternativo que incor- sastre, Editora Nova Fronteira.pora seus interesses diversos. Anna White – Ativista política, social e am- biental. Artigo publicado nos sites Share theEm lugar de encarar a mudança climática World’s Resources (http://stwr.org/) e Globalcomo uma questão puramente ambiental, Policy Forum (www.globalpolicy.org ), em 10/evitável via soluções tecnológicas e meca- 12/2009. Cidadania&MeioAmbiente 17
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  • 19. Memorial Franklin D. Roosevelt, Washington D.C. - Foto: Tony MisfitÉ hora de um New Deal ‘Verde’ As convocações para salvar a civilização das inevitáveis mudanças climáticas finalmente parecem mudar as atitudes. Mas uma conspiração de antiecologistas que explora a atual preocupação com a situação econômica e com o aumento do preço dos combustíveis e dos alimentos tenta pintar o ‘movimento verde’ como uma ameaça à liberdade. por Andrew SimmsA s vociferações e investidas dos antie- cologistas ecoam forte – sejam as dosque agem como uma criança contrariada ao de pensar que torna toda ação para reduzir a poluição num ataque frontal e sem base mo- ral à liberdade de religião e de associação, à Perigos da Sustentabilidade), Austin Williams ganhou lamentável notoriedade ao ver condenada, numa revisão crítica delhe ser negada a possibilidade de ‘continu- democracia ou ao sufrágio universal. sua obra, sua postulação ao “direito dear torturando o gato’, sejam as bem articula- deixar as luzes acesas em aposentos vazi-das reflexões dos chefões da direita e da E esse movimento retrógrado só tende a os, de desperdiçar água em banhos pro-esquerda. Mais estranho ainda são as in- crescer. Sem uma intervenção dramática, longados, de dirigir carros beberrões, devestidas de Václav Klaus, o presidente Tche- ganhará espaço a expectativa ortodoxa de engordar e ficar fora de forma, e voar mais”.co advogado do ‘livre mercado’. Seu livro que os gastos, mesmo ‘justos’, devem so-Blue Planet in Green Shackles (Planeta Azul frer quando a economia soluça. O trio for- Por trás de tais reivindicações fantasiosas deem Grilhões Verdes), publicado no Reino mado por crise de crédito, aumento do pre- adolescente está a alegria inconseqüente eUnido pelo ferozmente conservador Com- ço do petróleo e impacto econômico das egocêntrica capaz de negar as necessidadespetitive Enterprise Institute (Instituto de Em- mudanças climáticas pode tornar-se sufi- de milhões de pobres que, em todas as par-preendimento Competitivo), sugere que o ciente para sufocar as ambições ambien- tes do mundo, carecem de eletricidade, decombate às mudanças climáticas vem a ser tais. Ao promover seu recente livro The água potável ou de transporte. Nosso gro-uma ameaça tão perigosa à liberdade quan- Enemies of Progress: the Dangers of Sus- tesco hiperconsumo equivale a uma cuspa-to o foi o comunismo soviético. É esse modo tainability (Os Inimigos do Progresso: os rada na face da real pobreza global, e leva à20
  • 20. COP15irreversível degradação ambiental que atin- O ‘New Deal Verde’ exigirá a regulamenta-ge primeiro e da pior forma os mais pobres.Em tempo de aquecimento global, invocar ‘gri- “ Em 1929, como agora, alguém precisa ção das finanças e da tributação em con- junto com um programa de transformação econômica capaz de reduzir substancial-lhões verdes’ é o mesmo que‘algemar quem écontra o trabalho infantil’ ou contra as leis que colar os pedaços de mente o uso de combustível fóssil. Nesse processo, serão criados incontáveis ‘pos-impedem que ateemos fogo às casas de nos- um sistema que tos de trabalho verde’ para enfrentar o de-sos vizinhos. Precisamos estabelecer parâme- semprego e fazer recuar a demanda cau-tros para os atuais níveis de consumo a fim de fracassou devido à sada pelo encolhimento creditício. O ‘Newimpedir que a pegada ecológica de nossos Deal Verde’ é a tradução moderna da políti-estilos de vida superem a pegada do planeta e perspectiva de curto ca de esperança e de pragmatismo empre-pisoteiem outros no processo. endida por Roosevelt, nos anos 1930, após alcance e ao mais a devastação econômico-social provoca- ”Felizmente, os antiecologistas parecem es- da pela Grande Depressão, de 1929. Na-tar perdendo terreno no debate público. puro egoísmo. quele tempo, como agora, alguém precisaRecente pesquisa do jornal The Guardian, colar os pedaços de um sistema que fra-no Reino Unido, revelou uma maioria a exi- aça à liberdade coletiva. Devido ao consu- cassou devido à perspectiva de curto al-gir do governo prioridade ao ambiente so- mismo, tornamo-nos escravos dos postos cance e ao mais puro egoísmo.bre a economia. Também desferiu um gol- de trabalho e demos as costas aos amigos,pe mortal no resistente mito de que as ques- à família, às bases ambientais de nosso Na contracorrente, os eco-oposicionistas setões ecológicas só interessam às classes sustento e às fontes de real satisfação. Tra- comportam como uma gangue de rua que,médias ricas. O apoio à priorização ambi- balhamos mais horas do que deveríamos para aparecer na TV, caem de murros e ponta-ental foi, de fato, mais forte nos grupos para ganhar dinheiro e comprar coisas que pés sobre os socorristas da ambulância nosociais menos favorecidos. prometem felicidade, mas que só nos dão local do acidente. O ‘New Deal Verde’ acio- apatia e descontentamento. Por quê? nará um coro de protestos ainda maior. A açãoO pior é que os ideólogos da antiecologia, de salvar a civilização de um ambiente cres-além do próprio desentendimento do que é Estudos sobre o comportamento consumi- centemente hostil, dirão eles, representa umaliberdade, também desconhecem as potenci- dor revelam que, hoje, o excesso de opção barreira inaceitável e opressiva à proprieda-ais repercussões benéficas da luta ambiental é ineficiente e contraproducente, acarretan- de de um aparelho de TV com tela do tama-nas crises financeira, energética e climática, do altos custos psicológicos e econômi- nho de um campo de futebol. cos. Na verdade, quase não há escolhas,Perceber que a liberdade individual ao luxo mas volume de ofertas. No livro The Ainda assim, como escreveu Keynes en-ilimitado significa negar a outrem a liberda- Paradox of Choice (O Paradoxo da Esco- quanto formulava os planos para econo-de de sobreviver não é algo novo, muito lha), Barry Schwartz descreve um estudo mizar e conservar recursos no esforço demenos reserva intelectual de alguns pou- sobre ganhadores de loteria cujos níveis guerra, na Inglaterra de 1940: “Fui acusadocos. O filósofo conservador Karl Popper sa- de felicidade não diferem em nada do da de tentar aplicar métodos totalitários a umalientou que “na realidade, os adeptos da população geral. Schwartz explica que “ini- comunidade livre. Nenhuma crítica pode-liberdade total são, qualquer que sejam suas cialmente, as pessoas se acostumam à sor- ria ser ter sido mais mal dirigida. Num esta-intenções, inimigos da liberdade”. Em sua te e ao azar. Em seguida, o novo padrão da do totalitário não existe o problema da par-obra The Open Society and its Enemies (A experiência boa (ganhar na loteria) pode tilha de sacrifício... Somente numa comuni-Sociedade Aberta e Seus Inimigos), Popper transformar muitos prazeres comuns do co- dade livre é que a tarefa de governar seargumenta que o comportamento individu- tidiano (o cheiro de café fresco, o perfume complica pelas reivindicações de justiçaal desenfreado “não somente é autodestru- de flores desabrochadas e a brisa refres- social.”tivo, mas propenso a gerar seu oposto, já cante de um belo dia de primavera) em fa-que se todas as restrições forem removidas tos apenas corriqueiros”. Quando conseguirmos equilibrar necessi-não haveria nada que pudesse impedir a dades humanas, bem-estar e justiça socialescravização dos fracos.” Os arquitetos do retrocesso ambiental pa- com os recursos disponíveis em nosso pla- recem despojar-se de suas próprias concep- neta mãe, não mais será preciso amaldiçoarA crise de crédito torna-se preocupação ções sobre o que fazer de diferente. Por ou- os ‘grilhões verdes’, mas apenas ‘quebrarobsessiva quando mobiliza a atenção para tro lado, o movimento verde transborda com as correntes’ de carbono e louvar a ecolo-a pergunta: será que as pessoas deixarão de propostas, como o recém-lançado ‘New Deal gia de libertação. ■comprar? Nosso atávico comportamento Verde’. Organizado por um grupo de ambi-consumidor é transformado em ‘biruta’ da entalistas e de especialistas em finanças, oeconomia e da sociedade, e embalado pelo plano propõe políticas conjuntas para en- Andrew Simms é co-editor do livro Do Goodmantra do ‘direito à opção de consumo’. Só frentar o trio crise de crédito, aumento do Lives Have to Cost the Earth?, diretor de política preço do petróleo e impacto econômico das da The New Economics Foundation (http://que o consumo conspícuo projeta nosso mudanças climáticas. No cerne do movimen- www.neweconomics.org) e membro fundador dobem-estar em becos escuros e nebulosos. recentemente formado grupo “New Deal Verde”Foi o consumismo, não o ambientalismo to está o reconhecimento do papel profun- (www.greennewdealgroup.org). Artigo publicadoque nos escravizou, tornando-se uma ame- damente distorcido das finanças. no jornal britânico The Guardian (04/07/2008). Cidadania&MeioAmbiente 21
  • 21. “A cidade de Copenhague foi palco de um crime climático, com os homens e mulheres culpados fugindo, envergonhados, para o aero- porto.” As palavras de Kumi Naiodoo, diretor internacional do Green- Neil Palmer /CIAT peace, resume a profunda frustração com a Conferência do Clima. por CEPAT e IHU COP15 Um crime climático“se ouviu aofracasso eda Conferênciasó o Cli- Fracasso, término fracasso”. Foi do que Prevê redução de 50% das emissões de CO2 em 2050, porém não fixa meta para 2020 – o Outro problema crônico da Conferência: o processo burocrático e complicado de ne- ma, em Copenhague. Um desrespeito com o objetivo mínimo cogitado por todos antes gociação, que exigia o consenso de 192 mundo, afirmaram as organizações da soci- do inicio da Cúpula. Ao mesmo tempo ‘não países. A Organização das Nações Unidas edade civil, sobretudo as ambientalistas. detalha os mecanismos financeiros, não (ONU) reconhece a necessidade de uma Considerada a maior reunião diplomática da prevê acordo sobre a verificação das ações ampla reforma em seus processos de deci- história, a 15ª Conferência do Clima (COP- ambientais em países em desenvolvimento são com vistas ao próximo encontro sobre 15) frustrou as enormes expectativas que se e não tem força de lei vinculante’. mudanças climáticas. depositaram sobre ela. Os denominados ‘lí- deres mundiais’ foram incapazes de chegar Um dos eventos mais aguardado estava fa- Havia uma agenda de consenso sobre os a um acordo mínimo. O encontro terminou dado ao fracasso em função da pouca von- pontos a serem enfrentados na Conferência: com um rascunho considerado ‘covarde’ tade demonstrada pelos países mais ricos – 1 – A necessidade de se estabelecer metas pelas organizações ambientalistas. neles vivem 20% da população mundial res- de emissão de CO2 – a referência, aceita ponsável por 60% das emissões industri- por todos, de que a temperatura do planeta DOCUMENTO FINAL: ais, desde 1990 –, sobretudo dos EUA, que não pode subir mais do que 2oC até o final SEM FORÇA DE LEI VINCULANTE em função de sua conjuntura interna foi para desse século; O texto não prevê metas obrigatórias de a Cúpula com uma proposta tímida. Associ- 2 – Definição de mecanismos de auxílio e redução de emissões de CO2 até 2020, e ado à tibieza dos americanos, viu-se muita proteção aos países mais vulneráveis aos ainda ameaça a existência do já superado retórica da União Européia e a costumeira efeitos das mudanças climáticas, como Protocolo de Quioto. O documento é vago. intransigência chinesa. transferência de tecnologias, para facilitar 22
  • 22. COP15o acesso dos países em desenvolvimento Metano e carbono aprisionados no soloàs tecnologias de baixa emissão e; serão liberados na atmosfera. Ainda no3 – Regras de financiamento – o Fundo do Ártico, a cobertura de gelo desaparecerá,Clima – de como os países ricos, principais causando a extinção do urso polar e deresponsáveis pelo aquecimento atual, aju- outras espécies nativas.dariam os países pobres a descarboniza- ■ Na Antártica, o degelo vai se acelerar,rem suas economias (aqui se incluía o de- aumentando a elevação do nível do mar ebate do REDD – Redução de Emissões de- levando à submersão de diversas ilhas.rivadas do Desmatamento e da Degrada- ■ Itália, Espanha, Grécia e Turquia podemção). Porém, tudo ficou na estaca zero. virar desertos. ■ A região central da Europa passa a terNada foi acordado e tudo foi posterga- temperaturas médias de 50oC no verão, tí-do. O presidente francês Nicolas Sarko- picas de desertos.zy convocou uma reunião em Bonn, na Manifestação durante a COP15 (12/12/09) - WWF FranceAlemanha, em junho de 2010, que ante- 5OC – UM PESADELO “cipará a nova tentativa de acordo na cú- ALTAMENTE IMPROVÁVELpula programada para dezembro na Ci- A ONU reconhece ■ Com um aumento médio de 5oC, as tem-dade do México. No entanto, a ausência peraturas na Terra vão ficar tão quentesde um compromisso mínimo faz aumen- a necessidade de quanto há 50 milhões de anos.tar o número dos que já consideram o ■ No Ártico, as temperaturas subirão bemenfrentamento da causa climática uma uma ampla reforma mais do que a média global — acima decausa perdida. 20oC: a região ficará sem gelo o ano inteiro. em seus processos ■ A maior parte das regiões tropicais, subtro-Rank Raes, chefe da Unidade de Mudan- picais e mesmo as regiões de latitude médiaças Climáticas do Centro de Pesquisa da de decisão com vistas se tornarão inabitáveis por causa do calor.Comissão Europeia, está entre os que du- ■ A elevação do nível dos mares levará avidam que um acordo freie o avanço do ao próximo encontro maioria das cidades costeiras a seremdesastre projetado. Segundo ele, nem mais abandonadas.o limite de 2oC é possível: “Seria bonito. Eu sobre mudanças ■ A população humana será drasticamentecolocaria 10 assinaturas, não uma. Uma reduzida.pena que seja irrealista: os 2oC são um ob-jetivo que não está mais ao nosso alcance.Dizer isso é um ato de honestidade. Assim climáticas. ” É a possibilidade desses últimos cenári- os que leva Leonardo Boff a afirmar quecomo é um ato de honestidade dizer que, rumamos para o desastre. Segundo ele,se não nos mexermos logo, se não fechar- 3OC – UM CENÁRIO “A humanidade penetrou numa zona demos em poucos anos a torneira dos gases CADA VEZ MAIS PROVÁVEL treva e de horror. Estamos indo ao en-do efeito estufa, não conseguiremos nem ■ Com tal elevação, o aquecimento global se contro do desastre. Anos de preparação,parar em 3oC ”. torna incontrolável, inviabilizando todos os dez dias de discussão, a presença dos esforços de mitigação. principais líderes políticos do mundo nãoA possibilidade real de um aquecimento ■ Milhões de quilômetros da Floresta Ama- foram suficientes para espantar a trevasuperior a 2oC seria devastador. Os cená- zônica serão queimados, liberando CO2 das mediante um acordo consensual de re-rios acima desse limite prevêem uma mu- árvores e do solo, e aumentando o aqueci- dução de gases de efeito estufa que im-dança drástica na face da Terra, a saber: mento em até em 1,5oC. peça chegar-se a 2oC. Ultrapassado esse ■ Desertos vão avançar no sul da África, na nível e beirando os 3oC, o clima não será2OC – O LIMITE SUPORTÁVEL Austrália e no oeste dos EUA. Bilhões de mais controlável e estaremos entregues■ As ondas de calor que atingiram a Euro- pessoas serão forçadas a abandonar suas à lógica do caos destrutivo, ameaçandopa em 2003, deixando milhares de mortos, terras, em busca de água e de alimento. a biodiversidade e dizimando milhões evoltarão a acontecer todos os anos. ■ Na África e no Mediterrâneo, a oferta de milhões de indivíduos”. ■■ O sudeste da Inglaterra vai se acostumar água vai diminuir entre 30% e 50%.com temperaturas de 400C no verão. ■ No Reino Unido, secas no verão serão■ Partes da Floresta Amazônica começam a seguidas por enchentes no inverno.se transformar num deserto. ■ A elevação do nível do mar vai causar o■ O aumento de CO2 na atmosfera vai promo- desaparecimento de países-ilha, e também de locais como Nova York, Flórida e Londres. Conjuntura da Semana – Análise das ‘No-ver a acidificação dos oceanos, tornando tícias do Dia’ do IHU (09 a 22/12) elaboradaimprovável a sobrevivência de recifes de co- pelo Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalha-rais e de milhares de formas de vida marinha. 4OC – CENÁRIO POSSÍVEL, dores (CEPAT) com sede em Curitiba, PR. [IHU■ Mais de 60 milhões de pessoas, a maio- COM UM ACORDO FRACO On-line é publicado pelo Instituto Humanitasria na África, sofrerá com aumento de ca- ■ Nesse estágio, o permafrost (solo con- Unisinos (IHU)da Universidade do Vale do Rio gelado) do Ártico se torna grande ameaça. dos Sinos (Unisinos) em São Leopoldo, RS.]sos de malária. Cidadania&MeioAmbiente 23
  • 23. A J U D A H U M A N I T Á R I A “A ajuda ocidental à África foi e continua a ser um de- sastre total nos planos po- lítico, econômico e huma- nitário.” Esta polêmica tese de renomada economista zambiana descortina novas perspectivas para resgatar o continente africano da miséria embalada na soli- dariedade paternalista e neocolonialista. por Pierre-Antoine Delhommais Mais Moyo, Em 2005, o Fórum de Davos assistiu a uma ■ Acabou arruinando os fabricantes locais Brown, então ministro de finanças do Rei- cena comovente e... altamente midiatizada. de mosquiteiros e provocando o desapare- no Unido, lançou a seguinte pérola: “Nós Após o discurso do presidente da Tanzânia cimento de centenas de postos de trabalho. os ajudaremos a ficar aptos para praticar o descrevendo as terríveis consequências da comércio. Não se trata apenas de abrir a malária em seu país, a atriz Sharon Stone, con- Sharon Stone, Bono, Bob Geldof... Todas porta, mas de garantir tônus para atraves- vidada de honra, levantou-se e ofereceu 10 essas almas sensíveis que se lançam à no- sar o umbral ”. mil dólares para a compra de mosquiteiros. bre empreitada da ajuda ocidental à África, todos ‘esses militantes da moral’ não são As teses de Dambisa Moyo repercutem em Sharon exortou os que participavam da apreciados pela economista zambiana Dam- consequência da crise financeira que se sessão a seguir seu exemplo. Em poucos bisa Moyo, que justifica: “A cultura pop im- abateu sobre o Ocidente: as certezas eco- minutos foi angariado um milhão de dóla- pulsionou consideravelmente a concepção er- nômicas ficaram tão abaladas que, agora, res junto aos presidentes de multinacionais rônea de que a ajuda humanitária pode reme- já se passa a ouvir um pouco mais as vozes e banqueiros, todos encantados tanto pela diar a pobreza generalizada.” vindas de muito longe... e não apenas as sedutora beleza daquela deusa da humani- estridentes guitarras. dade quanto pela correção da causa que No livro de Dambisa Moyo – L’Aide fatale ela abraçava. Abraços, beijos, agradecimen- (éd. J.-C. Lattès, 250 p., 20 euros) –, o que Dambisa Moyo nasceu em Zâmbia e tem tos, lágrimas... uma cena digna da cerimô- imediatamente chama a atenção é a cólera 40 anos. Cursava química na universidade nia de entrega do Oscar, em Hollywood. que permeia todo o ensaio. A obra pertur- de Lusaka quando a instituição foi fecha- ba e incomoda pelas teses radicais, que ge- da após uma tentativa de golpe de estado. No entanto, o pós-show de Davos foi bem raram polêmica quando do lançamento do Graças a uma bolsa de estudos, Moyo ru- menos divulgado, além de menos ofuscan- livro nos Estados Unidos. mou para os Estados Unidos e trabalhou te. A distribuição gratuita de 300 mil mos- dois anos no Banco Mundial, em Washing- quiteiros provocou: O livro é perturbador pelo simples fato de ton, antes de entrar para Harvard e, depois, ■ Graves perturbações no trabalho das or- estarmos acostumados a digerir análises e Oxford. Foi economista responsável pela ganizações humanitárias que operavam na explicações econômicas sobre a realidade seção África subsaariana no grupo Gold- Tanzânia; africana feitas por não-africanos; a aceitar que man Sachs, e foi indicada pela revista Time ■ Causou efeitos colaterais nefastos (mer- o discurso africano – entre o paternalismo e Magazine de 2009 como uma das 100 mu- cado negro, desperdício, reconversão dos o neocolonialismo, entre a condescendência lheres mais influentes do planeta. mosquiteiros em redes de pesca); e a má-fé – seja monopolizado por estrelas ■ Provocou a cólera e a incompreensão nas do rock, economistas e políticos ocidentais. Em seu livro, pode-se ler: “A ajuda foi e regiões vizinhas não beneficiadas pela continua a ser um desastre total nos pla- medida humanitária; e Querem um exemplo? Em 2005, Gordon nos político, econômico e humanitário.” 24
  • 24. Mulheres Darfuri no econômicos devastadores da ajuda: que se recebe” na África (investimentos em campo de refugiados Djaball, Chade. ■ Corrupção e irresponsabilidade dos go- infraestruturas em troca de matérias-primas). Foto:Oncedaily vernantes: a ajuda chega independente do que aconteça, e se torna ainda mais robusta As idéias de Dambisa Moyo podem ser quanto pior o desempenho econômico; altamente perturbadoras quando, por ■ Poupança desencorajada pelo estímulo exemplo, ela lança: “O que aconteceria se ao consumo; cada país da África, um após o outro, re- ■ Favorecimento da inflação; cebesse um telefonema informando que ■ Investidores estrangeiros descartados; ao final de cinco anos as bicas da ajuda ■ Exportações sufocadas pelo declínio da serão definitivamente fechadas?” competitividade e carência de mudanças estruturais; Nada de pior poderia ocorrer pois, insiste ■ A ajuda tem como contrapartida a apro- Moyo, o pior já está instalado. A África priação de matérias-primas. não perderia nada com tal terapia de cho- que. Mas, não seria excessivo? Talvez. No EXISTEM SOLUÇÕES? entanto, o justo e o certo é o que Niall Fer- M OYO TAMBÉM AS RELACIONA : guson – o economista que assina o prefá- ■ Busca de recursos no mercado internaci- cio do livro de Dambisa Moyo – escreve onal de capitais, a exemplo do que fizeram ao exigir “mais Moyo e menos Bono”. ■ os países asiáticosemergentes; ■ Estabelecimento de financiamentos inter- mediários (principalmente por microcrédito);menos Bono Pierre-Antoine Delhommais – Jornalista ■ Fim das subvenções à agricultura pelo econômico no jornal Le Monde, onde este arti- mundo ocidental; e go foi publicado na edição de 25/10/2009). E- ■ Limitação da política chinesa do “é dando mail: delhommais@lemonde.fr Não obstante os 1.000 bilhão de dólares já despejados no continente africano, a ren- da per capita real por habitante da África subsaariana é inferior a dos anos 1970: AS CRÍTICAS DAS ONGS Claro que as teses de Dambisa Moyo não agradam os defensores da ajuda à ■ Mais de 700 milhões de africanos vivem África, que, ao contrário, pressionam para que ela continue aumentando. com menos de 1 dólar por dia; Eles temem que o arrazoado de Moyo sirva de pretexto para o G8 deixe de honrar os compromissos assumidos no quadro do Plano do Desenvolvimento ■ O índice de pobreza extrema passou de do Milênio, da ONU, e, em particular, o da ajuda pública ao desenvolvimento 11% para 66%; da ordem de 0,7% do PIB. Mas ainda estamos longe disso. ■ A esperança de vida estagnou: uma em No site da Oxfam, uma das ONGs internacionais engajadas em ações de- cada sete crianças morre antes de comple- senvolvimentistas, o debate foi aberto. Chikondi Mpokosa, militante da Ox- tar cinco anos; fam originária do Malavi, expressa sua decepção com o livro da economista ■ A alfabetização é inferior ao percentual zambiana: «Fiquei triste ao ler o livro e verificar que ele apenas reforça os de 1980; e preconceitos vigentes nos países ricos. O livro é falso em dois pontos: ao ■ Quase a metade dos países africanos vive afirmar que a ajuda não funciona e também ao dizer que existem alternativas viáveis, sobretudo em tempos de crise econômica.» sob regimes não democráticos. Ducan Green, pesquisador da Oxfam Grã-Bretanha, teme os efeitos negati- vos do livro, embora reconheça que o fato de ser ‘branco e membro da No entanto, há apenas 30 anos o produto indústria da ajuda’ denunciada por Moyo fragilize sua tomada de posição. Ele interno bruto (PIB) por habitante do Mala- reconhece que o livro tocou uma corda sensível e conquistou muitos apoios, vi, do Burundi e do Burkina Faso ultrapas- em especial o de chefes de estado africanos, como Paul Kagame, de Ruanda. sava o da China. “O perigo é que o livro oferece aos governos dos países ricos, atualmente com recursos reduzidos, o álibi que permite o abandono dos compromissos de aju- da agendados. Eles agora podem argumentar: ‘... como se vê, até mesmo os Terá sido a ajuda mal utilizada? Ou insufi- africanos dizem que a ajuda não adianta nada. Ora, por que não reduzir ciente? Nada disso, revela Dambisa Moyo. nossas contribuições.”. Na verdade, foi a própria ajuda que encar- Para os que discordam das teses de Moyo (e que, a meu ver, contam com cerou a África na armadilha da pobreza. A bons argumentos), a partir de agora será impossível tocar na questão sem ajuda traz embutida em si mesma o mal que ficar na defensiva ou, pior, mostrar interesse pessoal no debate. pretende combater. Por isso, a autora re- O que fazer para que o debate se desenrole em terreno não minado, já que gistra em sua obra: “Na África, milhões de os pontos nevrálgicos da questão estão centrados em: Que tipos de ajuda pessoas estão hoje mais pobres devido à funcionam e não funcionam? Como retrabalhar a questão? O risco é que o ajuda internacional.” discurso de Moyo acabe curto-circuitando o debate. Fonte: Pierre Haski | Rue89 (23/08/2009). Moyo descreve em pormenores os efeitos Cidadania&MeioAmbiente 25
  • 25. O Em sua obra, o pensadorà Roberto Marchesini colocaX em discussão a centralida-E de do homo sapiens, des-LF tacando como na esferaE do ‘bios’não há hierarqui-R as nem distâncias qualita- tivas entre o humano e o resto do mundo animal, apenas contiguidade e di- ferenças entre as espécies. por Alberto Giovanni Biuso Captain Pants Antropodescentrismo: as fronteiras móveis entre o ser humano e as outras espécies O século XX foi (também) o tempo em que se tornar tudo o que quisesse – progressi- malidade” não é uma categoria. É mani- o paradigma humanista que, por milênios, vamente caiu. De pouco valem as nostalgi- festamente um engano assimilar formigas, havia embasado a cultura e a vida do Oci- as humanistas, mesmo que diversamente de- corvos e cavalos em uma ideal contrapo- dente começou a mostrar as suas falhas e clinadas: a antroposfera não existe – nunca sição com o homem, a partir do momento as suas contradições. Esse paradigma vi- existiu – fora de uma relação constante e em que muitíssimos animais são muito truviano – tão admiravelmente expressado dinâmica com a teriosfera (os outros ani- mais próximos – seja genética ou funcio- na célebre incisão de Leonardo da Vinci e mais), a tecnosfera (o chamado mundo arti- nalmente – à espécie humana que a ou- nas páginas de Pico della Mirandola, e fun- ficial), a teosfera (a dimensão do sagrado). tras. Um chimpanzé ou um cachorro são damentado na centralidade absoluta do muito mais “parentes” do Homo sapiens humano, na sua separação de qualquer A TERIOSFERA: OS ANIMAIS E O HOMEM do que das abelhas, dos moluscos, das outro ente e na autopoiese, uma virtualida- Concentremo-nos na primeira, a teriosfe- cobras. Na recorrente comparação dis- de ilimitada que permitiria à nossa espécie ra, partindo de um dado evidente: a “ani- tintiva entre a nossa espécie e os “ou- 26
  • 26. tros animais”, pode-se, portanto, ler um A INTELIGÊNCIAsintoma ao mesmo tempo de presunção ■ Social, ou relacional é a capacidade dee de insegurança. A vida se expressa em pensar com o grupo/bando e a favor dauma multiplicidade de formas, todas li- sua sobrevivência.gadas entre si e todas diferentes, e não ■ Solutiva é, pelo contrário, capaz de re-tem sentido a obsessão comparatista solver problemas em solidão.segundo as quais, toda a vez que se dis- Ÿ De mapa é capaz de visualizar mental-cute inteligência animal, ela é entendida mente os contextos espaço-temporais me-como uma categoria unitária, que deve diante coordenadas astronômicas, sinali-ser confrontada sempre e apenas com a zações paisagísticas e auto-reverenciaisinteligência humana, quase como se esta (como os feromônios ou as urinas). DaveBleasdaleúltima constituísse o parâmetro sobre o ■ Conceitual abstrai da realidade os con-qual se deve medir qualquer outra habi- ceitos gerais mediante operações de ma-lidade cognitiva. peamento e orientação interiores. ■ Pragmática inclina o mundo a suas pró-Tão radicados são esses estereótipos que prias exigências de utilização.uma perspectiva etológica e biológica mais ■ Mimética é capaz de aprender com a rela-rigorosa não poderá não levarsenão àquela que Roberto Marchesini de-finiu no seu “Intelligenze plurime. Manua- “A antroposferaexistiu existe – nunca não ção com membros do grupo, da espécie a que pertence ou também de outras espécies. ■ Dialógica permite intercambiar conteú-le di scienze cognitive animali” [Inteligên- dos com outros da mesma espécie.cias plúrimas. Manual de ciências cogniti- – fora de uma ■ Reflexiva ou introspectiva refere-se à ca-vas animais] (editora Perdisa, 2008) como pacidade de fazer referência à mente comouma nova “revolução copernicana”. relação constante mundo interno e, portanto, ao estado men- tal vivido, à própria biografia, à abordagemEscreve Marchesini: e dinâmica com a simpatética do outro e da abordagem em- “Nós, homens, temos a surpresa de ha- pática do outro. bitar em uma pequena e remota região teriosfera (os outros cognitiva que naturalmente tem conti- OBJETOS guidades, proximidades e até sobrepo- animais), a tecnosfera Com relação às críticas que são dirigidas à sições com a das outras espécies”. ciência por ser a maior responsável pela ve- (o mundo artificial) xação de outras espécies, Marchesini rebate:Mover-se rumo a um antropodescentra- “Ao contrário, é graças à ciência que o ho-mento do conhecimento significa, simples- e a teosfera mem contemporâneo soube sair do antro-mente, entender melhor a vida, tanto em pocentrismo (seja por analogia quanto porsentido biológico como em sentido ético. (a dimensão distanciamento), começando assim a olharSão muitas as formas em que o antropo- com humildade e interesse o grande patri-centrismo se expressa: do antropomorfis-mo, que tende a assimilar a cognição ani-mal à humana, à reificação, que nega que do sagrado). ” mônio de diversidade que o universo das outras espécies animais nos oferece”.nos animais não humanos haja inteligên- antropodescentrada e etológica, tanto o Se isso é verdade, não deve ser subavalia-cia. Em ambos os casos, é ignorado o fato comportamento reducionista quanto o fun- do, no entanto, o fato de que os laboratóri-de que a inteligência, citando ainda cionalismo computacional mostram a sua os científicos e farmacológicos constitu-Marchesini, é “uma função biológica que insuficiência, pois ambos ignoram o fato de em ainda hoje lugares de tortura para mui-– como a sensorialidade, a anatomia das que o humano não possui e não habita um tíssimos animais. Horrores praticados nãoartes, a digestão – se apresenta no univer- corpo, mas é corporeidade complexa e adap- apenas em nome dos negócios, mas tam-so animal de modo plural com uma multi- tada ao ambiente. bém “pelo progresso das ciências”.plicidade de vocações e atitudes não so-breponíveis entre si”. OITO FORMAS DE INTELIGÊNCIA E, entretanto, a vivissecção é uma das prá- Essa unidade plural do ser vivo, objeto em ticas mais anticientíficas que existem, comoNo bios, enfim, não há hierarquias, mas que Marchesini trabalha há anos, encontra argumenta Stefano Cagno, em “Imparareapenas especializações relativas aos con- em “Intelligenze plurime” e no posterior, o dagli animali” (Perdisa, 2009), um livro quetextos, não distâncias qualitativas entre o recentíssimo “Il tramonto dell’uomo. La toca as questões mais urgentes da relaçãohumano e o resto do mundo animal, mas prospettiva post-umanista” (Dedalo 2009) humano/animal, da engenharia genética àcontiguidade e diferenças entre as diver- um rigoroso ponto de apoio. A pluralidade clonagem, do vegetarianismo à caça, dasas espécies, incluindo os humanos. A cognitiva se explica, para Marchesini, em pet-therapy aos direitos dos animais – umoposição humano/animal se situa dentro oito formas de inteligência: social, enigmis- argumento, este último, do qual o filósofode um círculo comum e mais amplo, bioló- ta, orientativa, abstrata, operativa, referen- norte-americano Tom Regan se ocupa comgico e tecnológico. Em uma perspectiva cial, comunicativa, reflexiva. vigor há diversos anos, e cujo livro Cidadania&MeioAmbiente 27
  • 27. “Gabbie vuote” [Gaiolas vazi- humano e, com ele, do planeta.as] foi republicado recentemen- Mesmo que para contrastarte na Itália. esse perigo, a perspectiva pós- humana confere ao HomoCagno sustenta que a vivissec- sapiens características e fun-ção é “um método de pesquisa ções específicas – que ele cer-arcaico”, que “se baseia no tamente possui, como qualquerconceito de ’semelhante’, sem outra forma de vida – que, novalor científico”, tanto que “já entanto, renunciam à ilusãocausou danos à saúde huma- epistemologicamente errada ena”, pois “não existe nenhuma pragmaticamente suicida dasemelhança entre as doenças centralidade ontológica. “Porque surgem espontaneamente isso, falamos de antropodes-nos seres humanos e aquelas centrismo como de uma pro-induzidas artificialmente nos gressão que constrói os predi- Manifestação contra o esporte da caça - Foto:Pokpok313animais”. A vivissecção não só cados humanos contaminando-“representa uma violação dos se sempre mais com o mundo edireitos animais”, que são “tra-tados como objetos”, mas tam-bém se presta a “qualquer for- “ Mover-se rumo a um antropodescentramento do tornando o mundo partícipe do próprio projeto”.ma de abuso e de sadismo (…) Com a perspectiva zooantropo-antessala para uma experimen- conhecimento significa entender lógica e pós-humanista, decli-tação sobre o homem privada na a concepção do animal “bomde regras”. Esse grave “desper- melhor a vida, tanto em sentido de comer”, própria das filosofi-dício de recursos econômicos as e práticas mais antropocên- biológico como em sentido ético.(…) permite fáceis carreiras uni-versitárias” e, principalmente,inundem o mercado com novos produtos”. mesma alcança a vida, mas um projeto dia- ” tricas, que vêem nas outras es- pécies só recursos e instrumen-permite que “as indústrias farmacêuticas fechada que se gera por si mesma, e por si tos para a espécie humana. Mas também do animal só “bom de pensar”, de grande lógico e mundano. O corpo não é um equi- parte da excelente pesquisa antropológi-PRETENSÕES AUTÁRQUICAS pamento que se possui, uma casa que se ca e histórica que analisa a esfera das ou-Entre aquelas que Eugenio Mazzarella quis habita, interface instrumental, mas é a obra tras espécies nas suas expressões e fun-chamar, com uma bela definição, de “ciênci- aberta na qual convergem os processos ções simbólicas, tecnológicas, estéticas,as da nova humildade” e que deveriam nos metabólicos, perceptivos, emotivos, rela- sagradas, culturais, como espelho fiel ouinduzir a um repensamento sempre mais pro- cionais, tecnológicos que, juntos, definem deformador – em todo caso – do humano.fundo sobre a inaceitabilidade das dores in- e fazem a nossa espécie. Um corpo que se E acrescenta-se, pelo contrário, o animalfligidas a outras espécies em nome da supe- é; não que se usa. Um corpo que é tempo “bom de ser” àquilo que nós mesmos so-rioridade da humana, apresenta-se quase germinado pelas memórias e pelos genes, mos na complexidade e na extrema varie-com um estatuto bem preciso a zooantropo- constituído por aquela evidente transitori- dade da natureza. ■logia, cujo “assunto de base está em consi- edade que se chama finitude e morte. Biosderar o humano como um processo, não e téchne não são duas, “toda tecnologia é,como um estado”, para retomar mais uma de fato, uma biotecnologia”.vez as palavras de Roberto Marchesini no Roberto Marchesini – Estudioso de ciênci-livro assinado com Sabrina Tonutti, “Ma- UM PLANETA EM PERIGO as biológicas, de epistemologia e autor de “Inte- lligenze plurime” [Inteligências plúrimas] e “Ilnuale di zooantropologia” (Meltemi 2007). Pensar a tecnologia de modo instrumental tramonto dell’uomo” [O declínio do homem]. e exterior com relação ao caminho evoluti- Marchesini participou, em 2008, do SimpósioA zooantropologia rejeita as pretensões tí- vo da nossa espécie nos torna incapazes Internacional “Uma sociedade pós-humana?picas do humano com relação ao mundo de compreender sua potência intrínseca, Possibilidades e limites das nanotecnologias”,das outras espécies: a pretensão distintiva além da evidente pervasividade da vida organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, na Unisinos.que vê na cultura uma posse exclusiva da contemporânea. Observa Marchesini:nossa espécie; a pretensão autárquica que “As atitudes hiper-humanistas (a tecnoci- Alberto Giovanni Biuso – Professor de Filosofia da Mente na Faculdade de Letras enos tornaria autônomos do resto do mun- ência como domínio do homem sobre o Filosofia da Universidade de Catânia, Itália. Odo vivo; a pretensão separativa que faz das mundo) e trans-humanistas (a tecnociên- presente artigo, avaliação crítica do pensamen-características humanas o cume da vida e cia como salvação do homem pelo mundo) to de Marchesini, foi publicado originalmenteda sua evolução. não colocam em discussão o conceito de no jornal Il Manifesto (30/10/2009). Publicado homem-essência como centro gravitacio- pelo IHU On-line [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, daNessa perspectiva, e como Marchesini ar- nal em torno ao qual tudo gira e ao qual Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisi-gumentou em “Tramonto dell’uomo”, o tudo deve ser referido”. nos, em São Leopoldo, RS.] A tradução é decorpo humano não constitui uma fortaleza O risco é, portanto, a (auto) destruição do Moisés Sbardelotto.28
  • 28. Cidadania&MeioAmbiente 29
  • 29. M O D E L O E C O N Ô M I C O Da economia ecológica à socioambiental Se a humanidade resistir em abrir mão de vulgaridades que prejudicarão a vida de futuras gerações, estará confirmando sua opção preferencial por uma existência mais excitante, mesmo que bem encurtada. por José Eli da Veiga A maioria das pesso- tral comum de chimpanzés. as age segundo Faltam evidências suficien- convicção bem ex- tes para que se tome como plicitada pelo chefe-de-gabi- incontroversa a tese bioló- nete do presidente Lula: gica de que a aurora da hu- “Meio ambiente até pode ser manidade moderna foi de- importante, mas não é decisi- terminada por uma mudan- vo”. Nem chega a surpreen- ça cerebral provocada por der, então, que a cúpula pala- mutação genética. ciana sempre prefira soja se a alternativa for “um cerradi- Todavia, é o inverso que se nho”. O que poderia ser me- aplica à constatação de lhor que esse pejorativo des- que a partir daí a cultura foi prezo pelo bioma cerrado para se tornando tão poderosa rebaixar a dimensão ambien- que virou a mesa: passou a tal diante da social? Afinal, a influenciar o rumo da evo- primeira só pode mesmo pa- lução biológica, retardan- recer bem menos decisiva do-a. Reduziu as diferenças que a segunda sob a ótica entre genes bem-sucedi- política imediatista, embora dos e fracassados, dificul- seja grave equívoco estraté- tando as mudanças por se- gico, decorrente de ignorân- leção natural. E em prazo cia histórica. que na escala evolucioná- ria não passa de um piscar Não há certeza sobre o que de olhos, os humanos fo- realmente ocorreu há cerca ram paulatinamente ocu- de 50mil anos, quando a jo- pando todos os cantos do vem espécie humana deu a planeta, alterando a evolu- Tomas Saraceno volta por cima, após sacu- ção de milhões de outras dir poeira acumulada nos espécies e demonstrando milhões de anos que a se- incomparável capacidade paravam do último ances- de adaptação. 30
  • 30. Não é difícil perceber, então, que a socie- e Ciências Sociais”. Poucas semanas de-dade mantém com o chamado meio ambi- pois da defesa de dissertação sobre a en-ente uma relação cujo cerne é justamente tropia, de autoria do economista e agoraesse formidável processo de adaptação à mestre em ciência ambiental Andrei Domin-imensa variedade de ecossistemas. Daí ser gues Cechin: “Georgescu-Roegen e o de-inadmissível, em termos científicos, qual- senvolvimento sustentável”.quer raciocínio que não se baseie no en-tendimento da evolução, seja ela mais so- São dois modestos e concomitantes si-cial, ou mais ambiental. Só que tal insufici- nais de um mesmo movimento de renova-ência continua bem recorrente, principal- ção do pensamento científico que aindamente entre as chamadas ciências huma- não decolou porque esbarra em fortíssi-nas, mas também nas naturais. Ambas mos- ma inércia dos compartimentos estanquestram certa incapacidade de entender como criados pelas diversas disciplinas em suasmetabólicas as relações que os humanos respectivas fases de afirmação. No casoestabelecem com a natureza. Pior, contri- da economia, por exemplo, foi necessáriobuem para aprofundar a falha metabólica reduzir o sistema econômico exclusiva-resultante da revolução industrial, ao nu- mente às trocas de curto prazo entre ostrirem a ilusão de que a segunda lei da ter- agentes, pois a inclusão do tripé darwini-modinâmica seja algo de muito específico ano (variação, herança e seleção) e dae pouco significativo. termodinâmica (entropia) engendra neces- sariamente uma complexidade com a qualNão será uma simples troca semântica, “so- é mesmo dificílimo lidar.cioambiental” em vez de “ecológica”, que Beatacabará com o reducionismo econômico Parecia ter sido esse o desafio assumidono ensino/pesquisa. Todas as formas de em 1988 pelo pequeno grupo de pesquisa-energia são gradualmente transformadasem calor, que acaba ficando tão difuso aponto de se tornar inútil. E não há organis- “ O fenômenoglobal aquecimento do dores que fundou a Sociedade Internacio- nal de Economia Ecológica (ISEE). Entre- tanto, dois decênios de publicação regularmo vivo que não esteja sujeito a esse fe- de seu periódico “Ecological Economics”nômeno, chamado de entropia crescente. dificultará a evidenciam as imensas dificuldades epis-Ela precisa ser compensada pela extração temológicas dessa mudança paradigmáti-de elementos de baixa entropia disponí- adaptação humana ca. Os artigos ali publicados pouco têm aveis no meio ambiente. E um dos maiores ver com a ruptura que teria sido provocadasucessos adaptativos da humanidade foi aos ecossistemas, por uma real incorporação dos conceitosjustamente sua capacidade de extrair a bai- de evolução e entropia. Ao contrário, for-xíssima entropia contida nas energias fós- tendendo a acelerar talecem a abordagem convencional ao ado-seis, como carvão, petróleo e gás. Mas que tarem, por exemplo, a suposição de quetambém se revelou a principal causa do o processo de tudo possa ser precificado.aquecimento global, fenômeno que para- extinção da espécie.doxalmente dificultará a adaptação, tenden-do a acelerar o processo de extinção daprópria espécie. ” Claro, não será uma simples troca semânti- ca – socioambiental em vez de ecológica (ou ainda pior “ambiental”) - que poderá garantir a superação do reducionismo eco-Bem antes disso certamente surgirão for- Só pode ser mera coincidência que comece nômico na pesquisa e no ensino. Mas terámas mais diretas de exploração da energia pela letra “e” esse par de palavras-chave que a vantagem de retirar a questão dessa es-solar, e talvez também a fusão nuclear. Mas mais evidencia as atuais limitações das ciên- pécie de “banho-maria” em que permanecenada poderá contrariar o segundo princí- cias, principalmente as sociais aplicadas: evo- há 20 anos. ■pio da termodinâmica, que muito provavel- lução e entropia. Com grande destaque paramente exigirá a descoberta de vias de de- aquela pequena parte do conhecimento eco-senvolvimento humano que sejam compa- nômico que pode ser considerado ciência, já José Eli da Veiga – Professor titular da Fa-tíveis, como decréscimo da produção mate- que todas as suas dimensões práticas, ou culdade de Economia (FEA) e orientador do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Re-rial, o contrário desse crescimento econô- normativas, pertencem de fato à ética. lações Internacionais (IRI) da USP; pesquisa-mico medido pelo PIB que hoje parece a dor associado do “Capability & Sustainabilitymuitos como uma espécie de lei natural. E Mas certamente não é coincidência que Centre” da Universidade de Cambridge. Autorse a humanidade resistir em abrir mão de duas singelas manifestações da reação a do livro “A Emergência Socioambiental” (Senac,vulgaridades que prejudicarão a vida de esse retardamento ocorram na USP prati- 2007) e co-autor, com Lia Zatz, de “Desenvol- vimento Sustentável, que Bicho É Esse?”. Ar-futuras gerações, estará confirmando sua camente em simultâneo. A revista “Estu- tigo publicado no jornal VALOR (05/08/2008).opção preferencial por uma existência mais dos Avançados” 22 (63) traz um interes- Recomendamos visita à página do autor na web:excitante, mesmo que bem encurtada. sante dossiê sobre “Evolução Darwiniana www.zeeli.pro.br Cidadania&MeioAmbiente 31
  • 31. LEGISLAÇÃOAMBIENTAL Agrobiodiversidade e o direito Silldog Proteger variedades de mandioca, milho, arroz, feijão e os nossos ecossistemas agrícolas é tão importante quanto fazê-lo com a floresta amazônica, a mata atlântica, o mico-leão-dourado... por Juliana Santilli E m geral, a biodiversidade é associada um número cada vez mais reduzido de es- versidade e do sistema nacional de uni- a animais e plantas silvestres. Há, tan pécies, com consequências para o meio dades de conservação não contemplam to na sociedade quanto entre os am- ambiente e para a nossa saúde, que está a biodiversidade agrícola. Pior do que bientalistas, menos consciência e militância diretamente associada à qualidade dos ali- isso é o fato de que as leis agrícolas (se- em favor da diversidade biológica na agri- mentos que comemos. Temos uma alimen- mentes, proteção de cultivares etc.) têm cultura – a agrobiodiversidade – do que da tação cada vez mais pobre, e poucas pes- sido editadas sem considerar os seus im- biodiversidade silvestre. Historicamente, o soas se dão conta das interfaces entre os pactos sobre a diversidade genética, de componente cultivado da biodiversidade modelos agrícolas hegemônicos e o padrão espécies agrícolas e de ecossistemas cul- tem sido negligenciado pelos ambientalis- alimentar que nos é imposto, e de suas con- tivados. As leis agrícolas têm desconsi- tas e pelas políticas e órgãos públicos. Os sequências socioambientais: marginaliza- derado que a biodiversidade e a sociodi- juristas também têm se ocupado muito pou- ção socioeconômica dos agricultores tra- versidade associada são protegidas pela co do tratamento jurídico da biodiversidade dicionais e familiares, perda da segurança Constituição, e que as leis e políticas pú- agrícola, mesmo aqueles que se dedicam ao alimentar, contaminação das águas, erosão blicas devem promover a sua conserva- direito ambiental ou socioambiental. dos solos, desertificação, devastação das ção e utilização sustentável. florestas etc. Na agricultura, os impactos Proteger variedades de mandioca, milho, ambientais afetam a própria base de pro- A preservação da diversidade e da integri- arroz, feijão e os nossos ecossistemas agrí- dução, o agroecossistema. dade do patrimônio genético brasileiro é colas é tão importante quanto fazê-lo com expressamente determinada pela Constitui- a floresta amazônica, a mata atlântica, o Apesar dos avanços das leis ambientais, ção (art.225, par.1º, II), assim como a salva- mico-leão-dourado, o lobo-guará etc. Mui- ainda não há nenhuma especificamente guarda do rico patrimônio sociocultural bra- tas variedades e espécies agrícolas já se consagrada à agrobiodiversidade. As leis sileiro (art. 216), que inclui as variedades extinguiram e outras correm risco de extin- que tratam da política nacional do meio agrícolas, as práticas, saberes e inovações ção. E a nossa alimentação se baseia em ambiente, da política nacional de biodi- desenvolvidas pelos agricultores. 32
  • 32. Entre os instrumentos para promover a NOTA DO EDITOR: A legítima e improrrogável necessidade de salvaguarda da agrobiodiversidadeconservação da agrobiodiversidade, suge- defendida pela Dra. Juliana Santilli justifica-se frente ao alto potencial de agressão da humanida-rimos a criação de uma categoria de unida- de ao meio ambiente planetário. No quadro-ilustração abaixo, pode-se constatar a dramática escalada de perda de biodiversidade de 1700 até o ano 2000, e a projeção do cenário para o anode de conservação especialmente destina- 2050. A gravidade do quadro em nível mundial – e em nosso país – aponta a urgência dada à conservação e ao manejo sustentável implantação de medidas de proteção da biodiversidade antes que seja tarde demais.da agrobiodiversidade, tal como ocorre atu-almente com os parques, reservas biológi- PERDA DE BIODIVERSIDADEcas e estações ecológicas, que abrigam DEVIDO À CONTÍNUA EXPANSÃO DA AGRICULTURA, À POLUIÇÃO,espécies da fauna e da flora silvestres. Essa ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E À INSTALAÇÃO DE INFRAESTRUTURAseria uma forma de promover a conscienti-zação pública para a necessidade de con-servação da diversidade agrícola e para assuas implicações em relação à segurançaalimentar. Obrigaria também o poder públi-co a definir as áreas prioritárias para a con-servação da agrobiodiversidade A biodi-versidade agrícola deve ser conservadanão apenas em bancos de germoplasma (exsitu), como também nos habitats naturais(in situ) e nas propriedades rurais, pelosagricultores (on farm).Dentro das “reservas da agrobiodiversida-de” seriam legalmente restringidas as ativi-dades (como exploração de madeira e deminérios, obras de infraestrutura etc.) quepodem impactar negativamente a biodiver-sidade agrícola. Seria limitado o uso de agro-tóxicos e de outros poluentes químicos, pro-tegidos os mananciais hídricos (com maiorrigor) e estabelecidas normas de biossegu-rança mais severas, a fim de evitar possíveiscontaminações por cultivos transgênicos.A criação de “reservas da agrobiodiversi-dade” por si só não será suficiente paraminimizar os impactos de um modelo agrí-cola industrial e insustentável, principal-mente se tais reservas forem apenas “ilhas”cercadas por atividades agrícolas insusten-táveis. Entretanto, as reservas da agrobio-diversidade poderão representar mais uminstrumento jurídico para a conservação daagrobiodiversidade. É importante, assimcomo na criação de qualquer área protegi-da, que as reservas da agrobiodiversidadetenham sustentabilidade política e social eatendam a objetivos mais amplos de de-senvolvimento local sustentável e inclu-são social, e não apenas de conservaçãoambiental, e contem com o apoio e partici- Biodiversidade em percentual de espécies abundantes antes dos impactos antropogênicospação dos agricultores familiares, tradicio-nais e agroecológicos. ■ Impacto alto 0 – 25 Impacto alto-médio 25 – 50 Impacto médio-baixo 50 – 75Juliana Santilli, Promotora do MinistérioPúblico do DF, é autora do livro Agrobiodiver- Impacto baixo 75 – 100 %sidade e direitos dos agricultores (Editora: Pei- Abundância média de espéciesrópolis, 520 pp.). Artigo originalmente publi- Fonte: GLOBIO; Alkemade et al., 2009. Cartógrafo/designer: Hugo Ahlenius, Nordpil.cado no jornal Correio Braziliense e em Link para o site: http://www.grida.no/_res/site/file/publications/FoodCrisis_l ...www.ecodebate.com.br (29/09/2009). Cidadania&MeioAmbiente 33
  • 33. P O N T O - D E - V I S T A Uma explosão no preço do petróleo pode ser a oportunidade econômica para se reduzir as emissões de gases de efeito estufa dos combustíveis fósseis. por Mark Linas “Desintoxicação de choque” a cura para a dependência de petróleo Esqueça o ‘crescimento verde’. A julgar cessão não altera os fundamentos subja- aumentou consideravelmente na última pelas estatísticas reais, apenas dois fato- centes” do crescente fosso entre a oferta e década – induzida pelo consumo crescen- res econômicos podem produzir resultados a procura. Em vez disso, prevê um “desas- te de eletricidade na China. A forte deman- ambientais confiáveis: alto custo da ener- tre” caso os “governos continuem com a da e as altas cotações também impulsio- gia e recessão. No período de estratosféri- cabeça enterrada na areia” em relação à nam o investimento em novas tecnologias cos preços do petróleo – que chegou a mais perspectiva de novo pico do petróleo. que visam a liquefação do carvão (para de 140 dólares o barril, em junho de 2008 – combustível automotivo) e a produção de , é que se começou a adotar comportamen- Então, por que o aumento dos preços pode petróleo não convencional, ambos apre- tos ‘ecológicos’ postulados anos antes representar uma notícia ruim? Acima de 100 sentando enormes pegadas de carbono. como, por exemplo, usar menos o automó- dólares o barril – ou, melhor ainda, de 200 vel e não viajar tanto de avião. dólares –, o preço do petróleo poderia ter O pico do preço do petróleo pode ajudar a representado uma apólice de seguro glo- humanidade caso tenhamos a inteligência Mais recentemente, a recessão fez decres- bal contra o colapso das negociações cli- de transformá-lo numa ‘terapia de desinto- cer as emissões de combustíveis fósseis do máticas em Copenhague. Como os combus- xicação de choque’ para curar nossa de- Japão em quase 7% em um ano, e a Agência tíveis fósseis começam a atingir preços ca- pendência de petróleo. Se simplesmente Internacional de Energia prevê que as emis- pazes de descontrolar o mercado, também ampliarmos esforços para obter mais ‘dro- sões a nível mundial vão cair de 2,6%. Se os poderiam compensar o fracasso dos políti- ga de carbono’ – como o que está ocorren- políticos pudessem reivindicar o crédito cos na precificação correta do carbono em do, por exemplo em Alberta, Canadá, com a desta inesperada bênção climática teríamos relação aos danos ambientais provocados.. exploração das areias betuminosas, certa- prêmios Nobel saindo pelo ladrão. mente o maior projeto industrial destruidor No atual mercado de emissões, o preço do do meio ambiente do mundo –, então o fu- Infelizmente, os dois fatores capazes de redu- carbono vigente na União Europeia é de turo se apresenta sombrio. ■ zir as emissões de gases de efeito estufa são risíveis 15 euros por tonelada, cotação de- também o que todo mundo deseja desespera- masiadamente baixa para provocar reação Mark Linas – Há uma década especilizou-se em damente evitar – e já há sinais confiáveis de nos maiores consumidores europeus de mudança climática, setor onde passou a atuar com que na maioria dos países industrializados a combustíveis fósseis. Por outro lado, um reconhecimento internacional. É autor de três recessão está terminando. Mas a boa notícia é retorno à alta do petróleo torna as energias best-sellers sobre a questão: High Tide: News from que os preços do petróleo estão novamente renováveis, a eficiência energética, a ener- a warming world (2004), Carbon Calculator subindo: o petróleo cru já alcança 80 dólares gia nuclear e outras opções ambientalmen- (2007) e Six Degrees: Our future on a hotter pla- o barril, e ressurgem os temores de uma crise te preferenciais muito mais atraentes em ter- net (2007). É sócio da Oxford Climate Associates, mos econômicos convencionais. Por estas empresa de consultoria climática especializada na oferta de petróleo, após um ano de calmaria em aconselhamento e análise de política estratégi- pós-pico da alta de preços. razões, se provocados, muitos ambienta- ca e na criação e implantação de projetos de neu- listas não se furtarão a dizer, em conversas tralização de carbono para inúmeros governos e A bem informada ONG Global Witness reservadas: “Alta no preço do petróleo? agências internacionais. Participou das principais (www.globalwitness.org) acaba de emitir Que seja bem-vindo!”. reuniões da COP 15. O artigo original We need to sérias advertências sobre a iminente escas- go cold turkey to kick our addiction to oil foi sez de petróleo. Seu relatório de análise No entanto, o simplismo em excesso tam- publicado originalmente em New Statesman (17/ energética destaca que, nos últimos três bém embute perigos. O petróleo, na verda- 11/2009) e pode ser lido na íntegra em www.marklynas.org/we-need-to-go-cold-turkey- anos, “a produção de petróleo convenci- de, não é o único combustível fóssil. O to-kick-our-addiction-to-oil. Tradução livre de onal deixou de crescer, apesar dos inves- maior contribuinte histórico pelas emissões Cidadania & Meio Ambiente. timentos maciços, da demanda crescente de dióxido de carbono tem sido o carvão, e Foto: Usina processadora de areia betuminosa em e dos preços”. Além disso, adverte, “a re- a produção do mais sujo dos combustíveis Fort McMurray, Alberta 1981. Por Canada Good 34
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