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Revista brasileira saude_familia_32
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Revista brasileira saude_familia_32

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Nesta edição: Capa: o trabalho da avaliação externa do Programa de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB), realizado com 18 mil equipes de saúde em todo o Brasil. E também: você …

Nesta edição: Capa: o trabalho da avaliação externa do Programa de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB), realizado com 18 mil equipes de saúde em todo o Brasil. E também: você também pode ler sobre saúde no sistema prisional, atenção integral à saúde do idoso e o programa do governo federal, Brasil Carinhoso.

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  • 1. REVISTABRASILEIRA SAÚDE DA FAMÍLIA 32 Publicação do Ministério da Saúde - Ano XIII - maio a agosto de 2012 – ISSN 1518-2355PMAQ-AB ENTREVISTA Maya Takagi e o desafio daciclo virtuoso que intersetorialidade para aalcança todo o Brasil alimentação saudávelSORRISO BRASIL CARINHOSOa amplitude terapêutica promove crescimento edo NASF desenvolvimento sadiosENCARTE SAÚDE NAS PRISÕESoriginalidade dos Universalidade no SUSACS chega a Angola
  • 2. Revista Brasileira Saúde da FamíliaAno XIII, número 32, mai./ago. 2012Coordenação, Distribuição e informaçõesMINISTÉRIO DA SAÚDESecretaria de Atenção à SaúdeDepartamento de Atenção BásicaEdifício Premium SAF Sul – Quadra 2 – Lotes 5/6Bloco II – SubsoloCEP: 70.070-600, Brasília - DFTelefone: (0xx61) 3315-9044Home Page: www.saude.gov.br/dabEditor Chefe:Hêider Aurélio Pinto Equipe de Comunicação: Déborah ProençaJornalista Responsável/ Editor: Fernando LadeiraFernando Ladeira de Oliveira (MTB 1476/DF) Luciana Melo Marcos BotelhoCoordenação Técnica: Raphael GomesPatricia Sampaio Chueiri Tiago SouzaAlexandre de Souza RamosMariana Carvalho Pinheiro Diagramação e ilustrações: Roosevelt Ribeiro TeixeiraSecretária de RedaçãoDéborah Proença Revisão: Ana Paula ReisConselho Editorial:Alexandre de Souza Ramos Normalização:Angelo Giovani Rodrigues Marjorie Fernandes GonçalvesAntonio Neves RibasDéborah Proença Fotografias:Felipe Cavalcanti Ana Nascimento/ MDS, Radilson Carlos GomesFernanda Ferreira Marcolino (RCG), Déborah Proença, Fernando Ladeira (FL),Fernando Ladeira Camila Giugliani, Carlile Lavor, D. Borges. Acervos:Hêider Aurélio Pinto SMS Sorriso, UBS Alice Tibiriçá, Projeto UhayeleKimielle Cristina Silva Angola, Telessaúde RS/SC, Conasems, AgênciaLarissa Menezes Silva Brasil, Ministério da Saúde, Peter Illicciev - FiocruzMarcelo Pedra Machado Multimagens, SES-AC. Capa: Fernando LadeiraMarco Aurélio Santana da SilvaMariana Carvalho Pinheiro Colaboração:Patricia Sampaio Chueiri Marcos Nascimento, Patrícia Jaime, Eduardo Melo,Patrícia Tiemi Cawahisa Marcos Botelho, Fábio Vieira, Andrigo Wiebling.Paulynne CavalcantiImpresso no Brasil / Printed in BrazilDistribuição gratuita Revista Brasileira Saúde da Família / Ministério da Saúde – Ano 13, n. 32 (mai. / ago. 2012). – Brasília : Ministério da Saúde, 2012. Quadrimestral. Ano 13, n. 32, publicada pela Gráfica do Ministério da Saúde. ISSN: 1518 2355 1. Saúde da Família - Periódico. I. Brasil. II. Ministério da saúde. III. Título. IV. Série. CDU 614
  • 3. SUMÁRIO CAPA 28 PMAQ-AB e censo: rotas de avaliação pelo Brasil afora CARTAS 04 EDITORIAL 05 Por um Brasil saudável ESF EM FOCO 06 Envelhecimento é pauta da 65ª Assembleia Mundial da Saúde 19 Congresso Nacional Conasems ENTREVISTA 08 Maya Takagi BRASIL 13 Rio +20 20 Saúde no sistema prisional 40 Brasil Carinhoso 44 Avaliação do Plano de CrônicasEXPERIÊNCIA EXITOSA 16 Atenção integral a saúde do idoso 46 Sorriso/NASF CARREIRA 24 Daiani de Bem Borges, farmacêutica PELO MUNDO 49 Família DE OLHO NO DAB 36 VI Congresso Internacional de AB 39 World Nutrition ARTIGO 52 Saúde e trabalho: condições de trabalho do agente comunitário de Saúde Departamento de Atenção Básica Edifício Premium -SAF Sul- Quadra 2 – Revista Brasileira Lotes 5/6 –Bloco II –Subsolo Saúde da Família Brasília- DF – CEP – 70070-600 Nº 32 Fone: (61) 3315-9044 http://dab.saude.gov.br/portaldab/
  • 4. CARTAS Sou médico com título de especialista em Medicina de Fa- se o Ministério tem protocolos sobre o assunto e, se mília e Comunidade e soube que nas equipes da Estraté- tem, poderiam encaminhá-los. Obrigada. gia Saúde da Família em que há presença do médico com residência médica em Medicina de Família e Comunidade, Sabrina Teixeira (por e-mail) ou título de especialista na área, haveria direito ao repasse de mil reais a mais no orçamento mensal da equipe, mas Prezada Sabrina, não estou conseguindo. Segundo a Secretaria de Saúde do município em que trabalho, o incentivo ainda não esta- O Ministério da Saúde não adota protocolos específicos ria vigorando. Gostaria de saber se a informação procede para a prescrição de medicamentos pelo enfermeiro que atua no PSF. e o que é necessário para receber tal benefício. De acordo com a Lei nº 7.498/86, que regulamenta o Agradeço a informação. exercício profissional da enfermagem, está entre as atribuições privativas do enfermeiro a “prescrição de Marcello Macedo (por e-mail) medicamentos estabelecidos em programas de saúde pública e em rotina aprovada pela instituição de saú- Prezado Marcello, de”. A Política Nacional de Atenção Básica define como competências do enfermeiro a prescrição de medica- Já tivemos uma portaria que trazia esse incentivo, mas foi mentos e a solicitação de exames complementares, de revogada. Isso se deve ao advento do Programa Nacional acordo com protocolos ou outras normativas técnicas de Melhoria do Acesso e da Qualidade e à criação do estabelecidas pelo gestor federal, estadual, municipal adicional de “melhoria do acesso e qualidade”, que in- ou do Distrito Federal. Assim, essa é uma discussão que clui toda a equipe e leva em consideração o trabalho de- cada Estado ou município precisa fazer de acordo com as políticas de saúde da atenção básica. senvolvido, além da organização do processo de traba- No contexto da Estratégia Saúde da Família, o enfermei- lho e das diretrizes da Nova Política Nacional de Atenção ro possui autonomia para exercer algumas atividades Básica (Portaria GM/ MS nº 2.488/2011). Qualquer dúvida, que visam à continuidade do cuidado, lembrando que por favor, nos retorne! a prescrição medicamentosa deve estar devidamente estabelecida em protocolo estadual ou municipal, res- peitando o sentido de continuidade do cuidado e os sa- ••• beres e competências da profissão. Segue o link do Manual de Enfermagem do Programa Estou terminando o curso de Enfermagem e meu tra- Saúde da Família – Ministério da Saúde para ajudar com balho de conclusão de curso (TCC) tem como tema a a sua pesquisa: prescrição medicamentosa e a solicitação de exames http://pt.scribd.com/doc/34807294/Livro-Manual-de-En- pelo enfermeiro que trabalha no PSF. Gostaria de saber fermagem-USP-Ministerio-Da-Saude Esta seção foi feita para você se comunicar conosco. Para sugestões e críticas, entre em contato com a redação: comunica.dab@saude.gov.br A Revista Brasileira Saúde da Família reserva-se ao direito de publicar as cartas edita- das ou resumidas conforme espaço disponível.4 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 5. EDITORIAL Por um Brasil saudável Setenta por cento das equipes que aderiram ao Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidadeda Atenção Básica (PMAQ-AB) já foram avaliadas. Os números são surpreendentes: de maio ao final de agosto,12.165 equipes de atenção básica foram avaliadas e 47.000 usuários entrevistados. Em 1.810 municípios, 7.236equipes já estavam com a certificação de qualidade definida e passam a receber a certificação de qualidade, apartir da qual o município pode garantir até o dobro do recurso repassado por equipe sem adesão ao programa.Os números foram apresentados na reunião ordinária da Comissão Intergestores Tripartite (CIT), realizada em30 de agosto, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O primeiro ciclo do PMAQ-AB, previsto para terminar na segunda quinzena de setembro, inclui a avaliaçãoexterna de 17.304 equipes de atenção básica nos 3.972 municípios aderidos. Quase 70 mil usuários dos serviçosde saúde foram convidados a opinar sobre o acesso e qualidade da atenção básica à saúde brasileira. São núme-ros expressivos que puderam ser concretizados pela ação conjunta e parceira entre o Departamento de AtençãoBásica (Secretaria de Atenção à Saúde/ Ministério da Saúde) e 45 instituições de ensino superior e de pesquisa,que iniciaram os trabalhos em maio e finalizam o primeiro ciclo de avaliação agora, cumprindo os prazos pactu-ados com o Ministério da Saúde. A divulgação dos dados deve ser feita até o final do ano pelo ministro. Serão milhões de dados processados que servirão de base para futuras ações do Ministério da Saúde, dosgovernos estaduais e municipais e das próprias equipes de saúde, que terão possibilidade de acessar os dados econtinuar o movimento pela melhoria da atenção à saúde dos usuários do Sistema Único de Saúde. A essas in-formações serão acrescidos os resultados do censo de infraestrutura, que atinge todas as quase 39 mil UnidadesBásicas de Saúde em atividade no País. A realização do censo está prevista para terminar em outubro. Com a certificação das 17.304 equipes e o encerramento dessa etapa do programa, será iniciado um novociclo, renovando o movimento pela melhoria do acesso e da qualidade da atenção básica. Mais do que a trans-parência na gestão, o compromisso das equipes de atenção básica, de saúde bucal, dos municípios e dos Estadospor um Brasil saudável. Usuários do SUS satisfeitos! Além do PMAQ-AB, que é matéria de capa nesta edição, contamos com matérias que tratam do ProgramaBrasil Carinhoso, do Plano de Ações Estratégicas para Enfrentamento das Doenças Crônicas, da experiência exi-tosa com o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) em Sorriso (MT) e a entrevista com a secretária Nacionalde Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), MayaTakagi, entre outras. No encarte, a atuação dos agentes comunitários de saúde em Angola (África) e a formaçãopossibilitada pelo Telessaúde Redes Brasil aos ACS.Desejamos a você uma boa leitura. Departamento de Atenção Básica Secretaria de Atenção à Saúde Ministério da Saúde 5
  • 6. Envelhecimento é pauta da 65ªESF EM FOCO Assembleia Mundial da Saúde Por: Luciana Melo / Fotos: Agência Brasil “E nvelhecimento e saúde: uma dicamentos genéricos e propriedade de um mecanismo de resolução, dentro boa saúde aumenta os anos intelectual foi um dos destaques das da OMS, para que os países membros de vida” foi o tema da 65ª discussões. A pauta foi liderada pelos tenham maior autonomia para decidir Assembleia Mundial da Saúde, realiza- membros do BRICS (Brasil, Rússia, Ín- políticas acerca desse assunto. da em Genebra (Suíça), de 21 a 26 de dia, China e África do Sul). Capacitar as Outro tema relevante, e consenso maio. Entre os subtemas abordados es- agências reguladoras nacionais e pro- entre os 194 delegados presentes na tiveram o monitoramento das Metas de mover a cooperação sustentável entre Assembleia, foi a adoção das recomen- Desenvolvimento do Milênio; prevenção elas foram apontados como cruciais dações da Declaração Política do Rio e controle de doenças crônicas; sis- para haver maior acesso aos medica- sobre Determinantes Sociais da Saúde temas de saúde e cobertura universal; mentos e à eficiência de produção e (DSS), que enfatizam a questão dos de- pesquisa e desenvolvimento; regula- distribuição deles. terminantes sociais, econômicos e am- mento sanitário internacional; erradica- A União das Nações Sul-Americanas bientais da saúde. Fruto da Conferência ção da poliomielite; saúde dos adoles- (UNASUL, que integra o Mercosul e a Mundial de DSS, realizada no Rio de Ja- centes; tuberculose; HIV/aids; nutrição; Comunidade Andina de Nações – CAN) neiro em outubro de 2011, o documento e vigilância sanitária. defendeu a livre circulação de medica- final prevê a boa saúde, que, segundo A transferência de tecnologia, me- mentos genéricos e propôs a criação o documento, exige a existência de um6 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 7. sistema de saúde universal, abrangen- sobre a gestão da atenção básica. O mostram que o modelo adotado emte, equitativo, efetivo, ágil e acessível. termo de cooperação prevê ações nas que o sistema de saúde vai até o usu- A posição defendida pelo Brasil é de áreas da saúde indígena, de enfrenta- ário tem melhores resultados do que aque saúde e desenvolvimento sustentá- mento às doenças crônicas transmissí- forma mais tradicional de assistência.vel estão interligados, e que o bem-es- Observou-se, por exemplo, a reduçãotar de todos os povos deve ser a força de 47% da mortalidade infantil (dadosmotriz das estratégias de saúde, e não a “...A posição de- do Censo 2010 do Instituto Brasileirodoença. O ministro da Saúde, AlexandrePadilha, em seu discurso no primeiro fendida pelo Brasil de Geografia e Estatística – IBGE) e da hospitalização por doenças cardiovas-dia da Assembleia, falou da importânciada consolidação de uma nova visão so- é de que saúde e culares e respiratórias. “O sucesso da Estratégia Saúdebre a saúde como fator fundamental de desenvolvimento da Família nos mostrou que essa é adesenvolvimento e justiça social, capaz melhor forma de dar à população bra-de promover a ideia de que o acesso é sustentável estão sileira acesso aos serviços de atençãoparte dos direitos humanos, e não umamera relação de consumo. interligados, e que básica e à rede de atenção à saúde. Por isso, tornou-se uma das prioridades Alexandre Padilha também des-tacou o sucesso do programa de dis- o bem-estar de to- do Ministério da Saúde consolidar esse modelo junto às gestões municipaistribuição gratuita de medicamentos“Saúde Não Tem Preço”, que já bene- dos os povos deve e estaduais”, declarou o secretário. O percentual de cobertura da populaçãoficiou mais de 10 milhões de brasileiros ser a força motriz pelas equipes de Saúde da Família é dee, recentemente, priorizou o controledas doenças crônicas no Brasil. Parte das estratégias de 53,9%, segundo dados do Ministério da Saúde, de junho deste ano.do programa, de medicamentos para otratamento de hipertensão e diabetes saúde, e não A Assembleia Mundial da Saúde, principal órgão controlador da OMS,nas farmácias populares, foi uma dasprincipais ações de enfrentamento às a doença...” se reúne anualmente em Genebra (Su-doenças crônicas não transmissíveis íça) para estabelecer as políticas dano Brasil em 2011. “Em nosso país, veis e não transmissíveis, de telemedi- Organização, que definem as questões72% dos óbitos decorrem dessas enfer- cina e telessaúde. prioritárias da saúde mundial. As reso-midades. Com o apoio e liderança da Indicado para apresentar as experi- luções da Assembleia são adotadasOMS, temos que sair daqui com con- ências brasileiras do Ministério da Saú- pelos delegados dos países membros,senso sobre metas e indicadores para de, o secretário de Vigilância em Saúde que, atualmente, somam 194 (incluindomonitorar os avanços nas ações a se- do MS, Jarbas Barbosa, destacou os o Brasil), e por organizações não gover-rem adotadas ao enfrentamento desse avanços do modelo brasileiro de aten- namentais. Além de discutir o processogrande desafio”, afirmou o ministro. ção básica, orientado pela Estratégia de reforma da OMS, o mais importante A atuação do governo brasileiro em Saúde da Família (ESF) e o Programa evento da saúde pública internacionalGenebra incluiu ainda a assinatura de Nacional de Melhoria do Acesso e da tem por objetivo fomentar o intercâmbionovo termo de cooperação técnica en- Qualidade da Atenção Básica (PMAQ). de informações e compartilhar experiên-tre o Brasil e o Canadá e discussões Jarbas mencionou estudos que cias de regulação sanitária mundial. 7
  • 8. ENTREVISTA MAYA TAKAGI Por: Fernando Ladeira / Fotos: Ana Nascimento (MDS) Formada em Piracicaba, a engenheira-agrônoma Maya Taka- gi destacou-se como uma das coordenadoras do projeto Fome Zero, desenvolvido e apresentado à sociedade pelo Instituto Ci- dadania, entre os anos de 2001 e 2002, e incorporado ao Governo Lula pelo então Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, entre 2003/4, onde atuou como assessora especial. Em 2004, ingressou na Embrapa como pesquisadora e, no ano seguinte, começou a trabalhar no Gabinete Adjunto de In- formações da Presidência da República. Seus tempos de sovar massa de pão com as mãos e fazer cami- nhadas com tranquilidade se foram, e os momentos de lazer estão reservados para a família e cuidados com os filhos de 7 e 4 anos de idade. Especialmente após assumir o cargo de secretária na- cional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan), desde feve- reiro de 2011, no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), onde tem tido importante participação na costura de ações interministeriais em prol da segurança alimentar e nutri- cional no País. Maya Takagi conversa com a Revista Brasileira Saúde da Família (RBSF) a respeito das ações do governo federal que evoluem para um pacto nacional em favor da retirada de 16 milhões de famílias da extrema pobreza. Além de medidas que garantam a produção de alimentos em quantidade e qualidade, com melhor e estraté- gica distribuição. RBSF – Como está inserido o sião, foi constituído o Conselho çando a visão de que a segurança tema da segurança alimentar, Nacional de Segurança Alimentar alimentar deve ser garantida pelo hoje, dentro do governo federal? e Nutricional (Consea), vinculado Estado brasileiro, União, Estados, Maya: O tema da segurança ali- à Presidência da República. Ele é municípios e pela sociedade civil, mentar e nutricional está inserido composto por dois terços da so- de forma participativa. com peso estratégico de política ciedade civil e um terço do gover- RBSF – Em que ponto o tema e de Estado desde 2003, quan- no, e esse um terço é formado por a prática caminham, hoje, den- do foi fortalecido com o projeto 19 ministérios. A secretaria-geral tro das ações de governo? Fome Zero e com a meta do ex- é de responsabilidade do MDS, Maya: Lançamos a política, essa -presidente Lula de garantir pelo mas todos os ministérios têm par- institucionalidade que lhe dá con- menos três refeições ao dia para ticipação importante, ressaltando, cretude, e ainda a Câmara Intermi- todos os brasileiros. A discussão fundamentalmente, os da Saúde, nisterial de Segurança Alimentar do Fome Zero foi alçada ao cará- do Desenvolvimento Agrário, da e Nutricional (Cisan), o Consea, ter de política pública dentro do Agricultura, Pecuária e Abasteci- e já tivemos quatro conferências, conceito de Política de Segurança mento e o da Educação. Parceiros sendo a quarta no ano passado. Alimentar e Nutricional e, na oca- que conseguem trabalhar refor- Antes, garantimos o direito à ali- Revista Brasileira Saúde da Família8
  • 9. mentação na Constituição Fe- outras políticas. Por exemplo, na mentação. Como estão sendo deral, em mobilização forte da rede escolar, como levar o tema trabalhados? Pois o Consea sociedade civil. Então, acho que para as crianças, ou como abor- é formado por dois terços da um dos principais desafios atuais dar com as famílias que recebem sociedade, e o governo fede- é fortalecer a noção de direito à o Bolsa-Família que estão melho- ral tem limites na capilaridade, alimentação adequada e saudá- rando o acesso à alimentação, já que depende dos Estados e vel, que é o cerne da política hoje. mas não necessariamente com municípios. Avançamos no acesso à alimenta- uma alimentação diversificada e Maya: Nossa ideia é de que os ção, de 2003 para cá, e os índices saudável. Melhoramos a condição programas e ações associados à de desnutrição infantil caíram bas- alimentar, no sentido quantitativo, alimentação incorporem o concei- tante, em razão de um conjunto de mas precisamos fortalecer ações to do direito a uma alimentação de fatores de evolução da sociedade, qualidade, e que o controle social, tais como o crescimento com dis- a sociedade, os monitorem. Na Lei tribuição de renda, a geração de Orgânica de Segurança Alimentar “...garantimos o direi- empregos, o aumento do salário e Nutricional e no decreto que a mínimo, e o Bolsa-Família teve to à alimentação na regulamentou, estabelecemos papel fundamental associado a Constituição Federal, a meta de adesão de Estados e esses fatores. Temos que avançar municípios ao Sistema Nacional em mobilização forte bastante no fortalecimento da no- de Segurança Alimentar, Sisan, ção do direito, superar a noção da da sociedade civil. que articule a União a essas esfe- alimentação como favor ou algo Então, acho que um ras de governo e sociedade civil.9 que está sujeito a uso político. Um Os Estados e municípios aderem segundo ponto fundamental é a dos principais desafios ao Sisan, estabelecem um rol de alimentação adequada e saudá- atuais é fortalecer a compromissos e os incentivamos vel. Melhoramos o acesso quan- noção de direito à ali- a aderir ao pacto pelo direito hu- titativo, mas estamos perdendo a mano à alimentação adequada, batalha da qualidade dos alimen- mentação adequada e para fortalecer o conceito de di- tos que os brasileiros consomem saudável, que é reito e universalizá-lo. No âmbito todos os dias, que se reflete no o cerne da do Sisan, criamos e conseguimos, aumento exponencial do sobre- com os 19 ministérios e uma con- peso e da obesidade nos últimos política hoje...” sulta ao Consea, lançar o primeiro 10, 20 anos, com olhar especial Plano Nacional de Segurança Ali- nas crianças, que vão se tornar os mentar e Nutricional com metas adultos do futuro com uma série de promoção da alimentação ade- para os próximos quatro anos, ba- de problemas de saúde. quada e saudável, que está asso- seado no PPA, o Plano Plurianual. RBSF – Com impacto nos servi- ciada à maior oferta e ao melhor Essas ações serão apresentadas ços públicos? acesso a esses alimentos, a ques- em próxima plenária, na primeira Maya: Tem um impacto especial tões de regulação, de campanhas, devolutiva de nossos principais na rede de saúde pública, por isso de educação para o consumo, objetivos, metas e iniciativas, de a garantia do direito humano à ali- pois, muitas vezes, as famílias não forma regular, periódica, junto à mentação adequada e saudável têm a percepção do quanto uma adesão de Estados e municípios só pode ser realizada de forma in- alimentação adequada afeta posi- – etapa que já estamos iniciando. tersetorial, porque a ação de um tivamente a sua saúde. Vinte e quatro Estados já aderiram ministério isoladamente e suas RBSF – Volto aos temas do ao Sisan, com o compromisso de políticas públicas se estendem a direito e da qualidade da ali- em um ano elaborar planos es- 9
  • 10. taduais de segurança alimentar, e pretendemos chegar a 750 mil. obesidade causados por aspectos com metas e iniciativas para a ga- Em situações em que não ocorre em comum, em especial o exces- rantia do direito de uma alimenta- chuva, a cisterna fornece abasteci- so de consumo de produtos ul- ção adequada e saudável. A etapa mento de água à família para que traprocessados, com quantidade seguinte será a de adesão dos possa suportar bem esse período. elevada de açúcar, de gorduras municípios. Queremos atuar de e de sal. É fundamental envolver Além disso, benefícios e serviços forma articulada, no nível federal e também outros atores sociais, as- estruturados tais como o progra- junto a Estados e municípios. sim como o Ministério da Saúde já ma Bolsa-Família, a garantia da Estamos agora na fase de constru- tem dialogado e pactuado com as safra e a atuação dos profissionais ção desse sistema, que não será, indústrias de alimentos em rela- da saúde na Estratégia Saúde da ção ao sal e à gordura trans. O im- certamente, como o SUS porque Família servem como anteparos portante é que todos os atores so- não haverá repasse de recursos, já que não é uma prestação de importantes para alcançar o direi- ciais tenham consciência de seu serviços. É mais um estabeleci- to à alimentação. papel e colaborem na construção mento de conceitos e regulações, de modos de vida saudáveis para marcos regulatórios e práticas que a população brasileira. queremos fortalecer dentro do ter- “...Temos que olhar RBSF – E na questão da agri- ritório brasileiro, de forma articu- cultura? Como tem sido fazer para o direito à saúde, o acerto entre ministérios para lada. É um desafio que temos em construção, faremos oficinas com o direito à alimen- chegar à questão comum da os Estados pensando na adesão tação, e não dá para segurança alimentar? dos municípios e em como estru- Maya: O Brasil é um caso emble- negligenciar o cresci- mático de convivência de uma turaremos uma comissão tripartite de pactuação. mento do sobrepeso e classe produtora empresarial al- RBSF – Sente que há uma cons- da obesidade causa- tamente tecnificada, voltada para ciência maior da questão da ga- exportação, com uma agricultura dos por aspectos em familiar bastante consolidada, fru- rantia do direito à alimentação? Maya: – Sim, na situação da seca comum, em especial o to de um processo de construção no Nordeste, pelos relatos mu- excesso de consumo de que contou com uma sociedade nicipais e estaduais e da própria civil bastante mobilizada. Temos produtos ultraproces- sociedade civil que atua na região movimentos sociais fortemente de que a situação de carência sados, com quantida- atuantes e mobilizados no País absoluta e do uso político muito de elevada de açúcar, que fazem a diferença, no senti- forte de distribuição de alimentos do de avançar na consolidação de gorduras e de sal...” está diferente hoje, por uma sé- de políticas voltadas para a agri- rie de motivos: o Brasil avançou cultura familiar. Ao olhar para os muito na garantia de direitos, nas dados da agricultura familiar que RBSF – Na questão da qualida- políticas públicas de saúde e na o Ministério do Desenvolvimento de da alimentação, por exemplo, agricultura familiar, por exemplo. Agrário divulga, vemos que ela é o Programa Saúde na Escola Atualmente, temos quase 450 mil responsável por 70% da produção cisternas construídas em parce- (PSE) tem atuado? de alimentos que ficam no Brasil, ria com a sociedade civil no se- Maya: Temos que olhar para o di- mas exporta também. Acredito miárido nordestino, que servem reito à saúde, o direito à alimen- que o Brasil já superou a questão como um instrumento importante tação, e não dá para negligenciar da falta de alimentos para consu- de convivência com o ambiente, o crescimento do sobrepeso e da mo interno. Temos condições e10 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 11. conseguimos atender à demandainterna, não temos problema deinsuficiência de produção, e simde distribuição, pois há concen-tração muito grande, por exemplo,do arroz e do leite em pó no Sule, quando é preciso levar estes ali-mentos para o Norte e Nordeste,o custo é enorme. É fundamentaldesconcentrar e estimular a pro-dução local, principalmente de ali-mentos frescos.RBSF – Como tem sido a rela-ção com o setor saúde? Comoé a participação e qual o graude importância?Maya: O Ministério da Saúdetem sido um grande parceiro, umgrande ator na política de segu-rança alimentar e nutricional. Noano passado, um dos eixos impor-tantes anunciados na Conferênciade Segurança Alimentar e Nutri-cional foi a revisão da Política Na-cional de Alimentação e Nutrição(PNAN), publicada no final da dé-cada de 90. Ele tem sido um par-ceiro importante no Plano de Pre-venção e Controle da Obesidadee articulamos para que esse Planofizesse parte do Plano de AçõesEstratégicas para o Enfrentamen-to das Doenças Crônicas, lançadono ano passado pelo Ministério daSaúde. Discutimos e convocamosconsulta pública para o marcoteórico conceitual em educação uma equipe médica tradicional, a carência nutricional, mas outrosalimentar e nutricional, em parce- pode participar ou colaborar tipos de necessidades que per-ria com os setores da saúde e da com essa questão? mitam seu encaminhamento aoseducação, que sirva de referência Maya:– A equipe de Saúde da serviços de assistência social parapara a atuação dos gestores de Família se insere, primeiro, na inclusão em políticas públicas,todos os níveis de governo dessas identificação das problemáticas especialmente os programas deáreas. múltiplas das famílias que afetam transferência de renda. A equipe éRBSF – Na prática, como uma a sua segurança alimentar e nutri- um dos canais essenciais para aequipe de Saúde da Família, ou cional, em que se incluem não só busca ativa das famílias em situa- 11
  • 12. ção de vulnerabilidade social, por de vulnerabilidade social do ca- isso foi inserida como ação a ser dastro único, e certamente envol- fortalecida no Brasil sem Miséria. “...trabalhávamos ve os ACS, permitindo o acesso Até o início do ano, trabalhávamos a esses complementos e suple- com uma estimativa mentos alimentares. com uma estimativa do governo de 800 mil famílias, que nem se- do governo de 800 RRBSF – E como se espera reti- quer são identificadas, para se- mil famílias, que nem rar os 16 milhões de famílias da rem beneficiadas por políticas. situação de miséria? sequer são identifica- Dessas, já inserimos 500 mil no Maya: – Os 16 milhões de famí- cadastro único, e a rede de saúde das, para serem bene- lias estão na situação de extrema é uma porta de identificação muito ficiadas por políticas. pobreza, e trazê-los para uma importante. A educação alimentar melhor condição é o grande obje- Dessas, já inserimos e nutricional pode ajudar bastante tivo do Plano Brasil sem Miséria, 500 mil no cadastro e temos expectativa plena disso. na orientação da gestante, incen- tivar a amamentação e a alimen- único, e a rede de Um dos meios é a transferência tação adequada e saudável. O saúde é uma porta de de renda, para a qual foram fei- Ministério da Saúde iniciou, recen- tos ajustes no Bolsa-Família, com identificação muito suplementação de recursos per temente, uma parceria para forta- lecer as ações de suplementação importante...” capita para as famílias na faixa de de ferro e de vitaminas, que é um extrema pobreza e com crianças fator de risco, pois a criança pode abaixo de seis anos. Outros dois ter peso e altura adequados, mas Brasil Carinhoso complementa o eixos são essenciais, o da univer- apresentar carências nutricionais Brasil sem Miséria e é voltado às salização do acesso aos serviços importantes. Parte do Programa crianças de famílias em situação das redes de saúde, de educação e de assistência social, e o da in- clusão produtiva, promovendo ações para melhorar a capacita- ção e oportunidades para que as famílias tenham maior autonomia de renda. Quer dizer não só ofer- tar renda, transferência de renda, mas também condições para que ela melhore as condições de in- serção no trabalho e melhore a renda. Pela primeira vez, temos um conjunto de Estados com- plementando a transferência de renda do governo federal para esse público, mostrando que é uma ação de Estado, de todo o Brasil, e não de um governo. To- dos ganham com essa melhoria da condição de vida da camada mais pobre do Brasil. 1212 Revista Brasileira Saúde da Família Revista Brasileira Saúde da Família
  • 13. ABrSaúde ganha espaço na Rio+20 BRASIL Por: Luciana Melo / Fotos: Agência Brasil e Peter Illicciev - Fiocruz Multimagens O s riscos que as atuais e futuro que queremos”, com 49 ção de poderes do Programa das futuras gerações pas- páginas, e uma da Cúpula dos Po- Nações Unidas para o Meio Am- sam com o descaso pelo vos, além do mar de gente, ideias, biente (PNUMA). As ausências planeta Terra podem ser ameni- manifestações e reivindicações de Barack Obama (EUA), Ângela zados por meio de conferências, por um planeta mais sustentável, Merkel (Alemanha) e David Ca- tratados e protocolos? Depois de foram o saldo da Rio+20, que ter- meron (Reino Unido) também fo- 20 anos da Eco 92 e há poucos minou com opiniões divididas. A ram alvo de críticas. meses da Rio+20, muitos são os erradicação da pobreza, atrelada A conferência da Organização desafios a serem ainda soluciona- ao desenvolvimento sustentável, das Nações Unidas (ONU) sobre dos e lacunas a serem preenchi- citada no documento oficial, foi desenvolvimento sustentável, que das, porém não há dúvida de que considerada um grande avanço e aconteceu entre 13 e 22 de junho houve muitos avanços nas discus- diferencial nos debates da Rio+20. no Rio de Janeiro (RJ), teve a par- sões dos modelos de produção ticipação de quase 45 mil pessoas O tema introduziu a preocupação e foi a maior da ONU já realiza- e consumo da sociedade, e das com a miséria, numa discussão da. O encontro dos mais de 100 relações entre meio ambiente e que era, anteriormente, direcio- chefes de Estado e, aproximada- saúde. Também passamos a ter nada a aspectos econômicos. mente, 12 mil delegados teve con- maior consciência dos impactos Houve críticas ao documento traponto político na Cúpula dos que causamos com nossos atos, final, e as principais foram as in- Povos, evento paralelo que reuniu modos de consumo e padrões de definições para responsabilidades 300 mil pessoas no Aterro do Fla- uso dos recursos ambientais. específicas, incentivos financeiros, mengo. Nessa última, a sociedade Duas declarações finais, a da discriminação de prazos para a civil e as universidades estiveram conferência oficial, intitulada “O adoção de medidas e a amplia- à frente de discussões e mobiliza- 13
  • 14. Após negociações, saúde é incluída A luta pela inclusão da saúde, iniciada pelos brasilei- “Saúde, Ambiente e Sustentabilidade”, da Cúpula dos ros, no documento da conferência foi vencedora, e nove Povos. Os determinantes sociais e ambientais da saúde, parágrafos (138 a 146) foram aprovados pelos chefes de os padrões de consumo e meio ambiente, e o desenvol- Estado. Veja, a seguir, a síntese dos parágrafos e o link vimento sustentável tiveram lugar de discussão no gra- do documento na íntegra no Saiba Mais: mado oficial dos movimentos sociais. Um dos debates mais importantes ocorridos na ten- • O reconhecimento da importância dos determinantes da foi o de segurança alimentar, colocada como um dos sociais e ambientais da saúde; elementos-chave para a tão almejada transição para um futuro sustentável. Foi salientada a importância de mu- • O compromisso com os sistemas universais de saúde; darmos os sistemas de governança de alimentos e agri- • Os signatários pedem que todos os agentes pertinen- cultura, e sairmos do modelo da monocultura de lógica tes participem de ações multissetoriais coordenadas, agroexportadora com elevado uso de agrotóxicos (veja de forma a atender às necessidades de saúde da po- link para relatório sobre agrotóxicos no Saiba Mais), pulação mundial; para um modelo agroecológico. Temas como o uso de transgênicos, o impacto de grandes empreendimentos • O compromisso em redobrar os esforços no enfren- sobre o meio ambiente e a saúde e a segurança química tamento ao HIV/aids, malária, tuberculose, gripe, poliomielite e outras doenças transmissíveis que também foram abordados. continuam sendo motivo de grande preocupação mundial; Objetivos de Desenvolvimento • O reforço de políticas multissetoriais para a prevenção Sustentável (ODS) e o controle de doenças crônicas não transmissíveis, No lugar de tratados e protocolos com medidas como o câncer, as doenças cardiovasculares, o diabe- mandatórias, estabeleceu-se, durante a conferência, tes e as doenças respiratórias; para setembro de 2013, um grupo de trabalho com • O direito de usar as legislações referentes à proprie- 30 integrantes que decidirá um plano de trabalho dade intelectual para promover o acesso universal a e uma proposta para os ODS à Assembleia-Geral da medicamentos; ONU. Ficou previsto no acordo o lançamento, até • O estabelecimento de compromissos relativos à saúde 2015, dos ODS que provavelmente irão substituir as sexual e reprodutiva, garantindo o planejamento fa- atuais metas de desenvolvimento do milênio. miliar nas estratégias e nos programas nacionais; Para além dos acordos, fica a pergunta: quem fis- • O compromisso em reduzir a mortalidade materna e caliza quem? Esta talvez seja uma das maiores ques- infantil e melhorar a saúde das mulheres, dos jovens tões relacionadas ao pós-conferências. Estados, orga- e crianças. nismos internacionais ou movimentos sociais seriam os responsáveis por fiscalizar e impor cobranças reais Saúde, Ambiente e Sustentabilidade e punições, caso os objetivos e metas não sejam cum- Além de garantir espaço no documento oficial, o de- pridos? Finda mais uma conferência e fica a lacuna, bate sobre a saúde também marcou presença na tenda ainda sem solução. 1414 Revista Brasileira Saúde da Família Revista Brasileira Saúde da Família
  • 15. ções em torno dos grandes temas Entrevista:e desafios da crise planetária. Paulo Buss Foto: Peter Ilicciev Outro ponto de encontro daRio+20 foi o Forte de Copacaba- Coordenador do Centro de Relaçõesna, onde o Projeto Humanidade Internacionais em Saúde – CRIS/Fiocruz2012 ficou instalado e fez enor-me sucesso de público. De acordocom dados da prefeitura do Riode Janeiro, mais de um milhão de 1) Como foi o processo para in- até vir a ser fatal, pois a crise cluir o tema saúde na Rio+20? ambiental vai se aprofundandopessoas participou dos eventos e há um momento de “não re-paralelos da Rio+20. Foi longo e difícil, pois começou torno”, do qual acho que esta- Para Ary Carvalho de Miranda, ainda em novembro de 2011, mos muito perto. quando foi divulgado o draft O documento da Rio+20 afirmamédico e pesquisador da Escola zero do documento “O futuro que a saúde é uma pré-condiçãoNacional de Saúde Pública Sérgio que queremos”, e não havia se- e um resultado importante e in-Arouca e participante dos debates quer menção ao tema da saúde dicador da consecução dos trêssobre saúde e meio ambiente na humana. O Brasil logo se movi- pilares do desenvolvimento sus-Cúpula dos Povos, refletir se as mentou e o tema passou a ser tentável (DS). Assume que ações considerado para os debates em para doenças transmissíveis (en-resoluções de encontros como a Nova York em março. A contri- tre as quais aids, tuberculose eRio+20 correspondem com a rea- buição brasileira foi, então, le- malária) e não transmissíveislidade é fundamental, pois para vada ao debate e incorporada (diabetes e hipertensão) são ne-ele “essas conferências estão dis- como proposta do G77 – os 130 cessárias para reduzi-las e alcan- países que compõem o Grupo çar os indicadores. Defende asociadas da vida real”. Segundo dos Não Alinhados. Finalmen- cobertura universal em saúde eAry, os interesses hegemônicos do te, o texto foi tomando corpo a cooperação internacional paragrande capital transnacional são e acabou sendo assumido pela o fortalecimento dos sistemasos verdadeiros protagonistas da Rio+20 na versão final, com nove de saúde. parágrafos, um dos mais longoscrise socioambiental e geram uma temas específicos do documento. 3) O debate sobre os temas re-contradição insolúvel, pois bus- lacionados à saúde na tendacam a solução para a crise criada 2) Qual é a sua leitura do que “Saúde, Ambiente e Sustenta-pelo próprio capital. Além de os foi incluído sobre o tema no do- bilidade” foi produtivo?Estados não cumprirem os com- cumento final da conferência?promissos firmados e haver uma Como muitos, eu esperava muito Foi excepcionalmente produtivopiora mundial nos indicadores de mais da Rio+20, com metas con- e criativo, elaborando inúmerasfome, índices de desemprego e cretas ecompromissos explícitos propostas que agora os movi- dos governantes. No entanto, mentos sociais deverão transfor-acesso adequado à agua. mar em bandeiras permanentes muitos dos países mais podero- O Brasil saiu à frente na lide- sos do mundo estão em crise eco- nas esferas nacionais e global.rança pela inclusão do tema saúde nômica – gerada, aliás, nos paí- O movimento social será fun-no documento final da conferên- ses centrais do capitalismo global damental para que o legado da pelo capital financeiro interna- Rio+20 se concretize. Sem umacia e nas discussões que antecede- cional, de forma irresponsável sociedade civil forte, cobrandoram o evento. Em março, quando – e não quiseram assumir com- dos governos e das Nações Uni-foi divulgado o rascunho zero, o promissos que implicassem de- das, todas as promessas ficarãotema saúde não constava e, de- sembolsos financeiros. Isso pode na retórica. É hora de ação!vido ao esforço conjunto da Fio-cruz, Ministério da Saúde, Orga-nização Pan-Americana da Saúde Saiba maise parceiros como o Centro Brasi- Leia o documento oficial da Rio+20, em espanhol:leiro de Estudos de Saúde (Cebes) http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/LTD/N12/436/91/PDF/N1243691.e a Associação Brasileira de Saúde pdf?OpenElementColetiva (Abrasco), o tema acabouocupando nove parágrafos do do- Leia o relatório da Abrasco a respeito do uso de agrotóxicos:cumento final. www.abrasco.org.br/UserFiles/File/ABRASCODIVULGA/2012/DossieAGT.pdf 15
  • 16. EXPERIÊNCIA Rio Negro, amigo do idoso EXITOSA Texto e fotos: Déborah Proença A 19 horas de lancha ex- tigos. É o Centro de Convivência pequena e fundamentalmente fe- presso de Manaus, Santa do Idoso (CCI). minina. Foi quando Rogério propôs Isabel do Rio Negro, lo- O Centro de Convivência nasceu mudança gerencial na saúde do calizada no meio da Calha do Rio da vontade de se fazer mais, fazer município, devido à expressiva par- Negro, impressiona. Com IDH de diferente e de melhorar o que já ticipação de idosos na formação po- 0,548 e 95% de sua população existe. Rogério de Souza Loredo, pulacional da cidade e à demanda com origem indígena (14 etnias), um médico de Família e Comunida- diferenciada que este público exige. no quesito saúde do idoso, Santa de acriano que adora desafios, che- “O posto estava sempre congestio- Isabel vem desbancando muita gou a Santa Isabel em 2009. O Cen- nado. Cuidar de idoso é diferente, cidade grande por aí. Atividade tro já existia há um ano sob a batuta requer atenção especial e paciên- física, artesanato, educação bási- de Alzenira de Lima, a Dona Nira. cia”, lembra o médico. ca, massagem, transporte e me- Até então, o CCI restringia-se a Assim, direcionou-se a deman- dicamento gratuito e muito mais promover algumas atividades físi- da de cuidado da saúde dos ido- serviços em benefício dos mais an- cas e artesanato. A frequência era sos, que era dividida entre as duas 1616 Revista Brasileira Saúde da Família Revista Brasileira Saúde da Família
  • 17. Unidades Básicas de Saúde (UBS), Dona Angelina, 54 anos. anos de idade, sofreu uma paralisiapara uma UBS construída dentro Dona Angelina, aliás, é um caso e é atendido no CCI. “Não é idoso,do Centro de Convivência, em que, à parte. Uma das poucas usuárias mas precisa de reabilitação, entãoalém dos atendimentos às terças e do Centro com menos de 60 anos, vem para o CCI”, diz o médico.quintas pela manhã, também se integra a nova estratégia de enve- Na estratégia de integralidade dofornece medicação prescrita. lhecimento ativo, também adotada atendimento, Rogério considera a Três vezes por semana, os ido- pelo médico. “A tendência é essa. medicina tradicional chinesa e assos se reúnem para praticar cami- Hoje o foco não é o envelhecimen- massagens como fundamentais.nhada, alongamento e ginástica, to, puro e simplesmente, e sim en- Acupuntura, eletroacupuntura,depois de um reforçado café da velhecer com saúde. Esse é o novo eletroestimulação e massoterapiamanhã. Na volta da atividade fí- paradigma. Vou esperar o paciente são algumas das técnicas utilizadassica, feita na praça, é dada pausa ter 60 anos com uma gastrite que para reabilitar e tratar dos idosos.para a merenda, um verdadeiro eu poderia tratar antes? Não. Faço Dona Maria Peti, 72 anos, é umalmoço às 10h30 da manhã. De- a sondagem no posto. Quando vejo exemplo de envelhecimento ativo.pois, quem desejar pode fazer alguém muito complicadinho, enca- É uma das poucas moradoras daartesanato, participar das aulas minho para o CCI. Eu mesmo me en- área rural, e não perde nenhumade alfabetização, ser atendido carrego de trazer o fluxograma dele aula. “A atividade física dela come-pelo médico na UBS ou ser levado pra cá, pois trabalhamos, aqui, com ça ainda em casa, quando pega apara casa pela Kombi do CCI (que uma estratégia mais integral”. canoinha, atravessa o rio e caminhabusca e deixa todos na porta de Outra situação diferenciada são até aqui. Ela não pede o transpor-casa). “Ah, melhorou demais. Tem os usuários que necessitam de rea- te”, conta Dona Nira. “No come-até transporte pra gente”, conta bilitação. Vitor, com apenas quatro ço, meu marido ficava com ciúme, Prêmio em Portugal Pensando grande, como dizem conhecer o Centro de Convivência. para todos os idosos, inclusive os os caboclos amazonenses, a equi- Ficaram admirados com a experi- que estão frágeis, fisicamente in- pe do Centro de Convivência do ência”, lembra o médico Rogério. capacitados e/ou que requerem Idoso (CCI) está sempre antenada No ano europeu do envelheci- cuidados especiais. Nesse sentido, em oportunidades. Foi assim que mento ativo, o prêmio foi entre- as pessoas com mais de 60 anos conquistou uma Menção Honrosa gue no 1º Congresso Internacional podem ser uma presença e partici- no prêmio “Inovação no Envelhe- do Envelhecimento, que faz parte pação valiosa para suas famílias e cimento”, edição 2011, promovido de uma série de ações integradas sociedade, desde que o ambiente pela associação portuguesa “Ami- para disseminar o conceito de possibilite. gos da Grande Idade”. A inten- que o envelhecimento precisa ser Assim, em 2005, surgiu a ideia ção era incentivar pesquisadores encarado como uma experiência do projeto mundial “Cidade Ami- e instituições sociais e de saúde a positiva, em que uma vida mais ga do Idoso”, desenvolvido pelos refletirem sobre o envelhecimento longa pode ser acompanhada de médicos Alexandre Kalache e Lou- em Portugal (especialmente) e no oportunidades contínuas de saú- ise Plouffe, com apoio da Organi- mundo e seus possíveis projetos. de, segurança e participação nas zação Mundial da Saúde (OMS), “Foi show lá! Nós fomos os úni- questões sociais, econômicas, cul- em 33 cidades de todo o mundo. cos brasileiros a ganhar uma men- turais, religiosas e civis, e não so- Segundo o guia deste projeto, ção honrosa. O diretor do Instituto mente como a capacidade de estar “em termos práticos, uma cidade do Envelhecimento e professores fisicamente ativo ou de fazer par- amiga do idoso adapta suas es- da Universidade de Lisboa, e os do te da força de trabalho. truturas e serviços para que sejam Centro de Reabilitação de referên- O objetivo do envelhecimento acessíveis e promovam a inclusão cia de Lisboa, e que atende o país ativo é aumentar a expectativa de de idosos com diferentes necessi- todo, estão doidos para vir aqui e uma vida com saúde e qualidade dades e graus de capacidade”. 17
  • 18. mas depois ele viu que eu melhorei, O Brasil em branco e preto envelhecer. Se você pensar, no sé- fiquei mais feliz, voltei a rir e a con- culo passado só se conhecia um versar. Ele é apaixonado por mim!”, Com uma população estima- dos quatro avós. Hoje, a criança entusiasma-se Dona Peti. da em 21 milhões de pessoas com que nasce conhece os quatro”. Para o pleno funcionamento des- mais de 60 anos, a expectativa de Com um perfil cada vez mais vida dos brasileiros cresce a cada ativo, é preciso (re)pensar estra- te modelo de gerenciamento espe- geração. Se na década de 70 a tégias que abranjam as necessida- cífico para o idoso, Rogério destaca proporção de idoso não extrapo- des desse grupo. Acompanhando que se devem abranger socialização esta evolução, o Ministério da lava 4%, hoje passa de 11%. E, de e abordagem educativa. “Essa es- acordo com projeções do IBGE, Saúde (MS) lançou, em 2003, a tratégia é muito importante, ainda essa porcentagem crescerá para Política Nacional de Saúde do Ido- mais pra comunidade indígena, que 18% em 2030 e 29% em 2050, ul- so, estabelecendo diretrizes para a informação deles é mais oral”. trapassando a casa dos 60 milhões o cuidado e focando sua atua- “Trabalho com metas e a minha de pessoas. É a faixa da popula- ção junto a Estados e municípios, ção que mais cresce atualmente principalmente em capacitações primeira foi fazer o modelo de ge- no País, tanto pela expectativa de profissionais. renciamento específico pro idoso. vida, que aumentou, quanto pela Um modelo de atenção para atu- taxa de natalidade, que diminuiu. Saiba mais ar na prevenção, no tratamento e Karla Cristina Giacomin, presi- Do que o Ministério da Saúde faz para na reabilitação. A gente consegue dente do Conselho Nacional dos o idoso! fazer isso aqui. A gente previne, a Direitos do Idoso (CNDI), garante http://portal.saude.gov.br/portal/saude/ gente trata e a gente reabilita”, que essa é uma grande conquista. area.cfm?id_area=153 orgulha-se o médico. “Nunca a humanidade conseguiu18 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 19. Congresso Nacional Conasems ESF EM FOCOXXVIII Congresso expande participação eimportância de atores do SUS Por: Fernando Ladeira/ Fotos: Acervo Conasems A “Sustentabilidade do SUS” plantação do Decreto nº 7.508/2011 Durante o congresso, em acor- foi o tema escolhido para o e a minuta de portaria das diretrizes do com o tema Sustentabilidade XXVIII Congresso do Conse- para regulação do acesso a ações e do SUS, foram abordadas questões lho Nacional de Secretarias Munici- serviços de saúde na implementação como a adesão e participação da pais de Saúde (Conasems), realizado da Política Nacional de Regulação. população, a Ouvidoria, o financia- entre 11 e 14 de junho, em Maceió O ministro da Saúde, Alexandre mento da saúde, os consórcios pú- (AL). Evento anual de porte já con- Padilha, na cerimônia de abertu- blicos, a formação dos profissionais, solidado, reuniu aproximadamente ra do XXVIII Congresso, agradeceu a atenção básica e as redes de aten- 4.850 pessoas entre gestores munici- aos presentes os bons resultados ção à saúde, a assistência farmacêu- pais, estaduais e federais, represen- que vêm sendo obtidos na saúde da tica, a rede de urgência e emergên- tantes de conselhos estaduais e mu- população. Citou, por exemplo, em cia, a saúde na fronteira e a saúde nicipais e pesquisadores do Sistema relação à saúde bucal, que este ano indígena, entre tantos outros. Único de Saúde (SUS). Eles também serão entregues pelo SUS, aproxima- O presidente do Conasems, An- participaram de duas realizações pa- damente, 400 mil próteses, o que re- tônio Carlos Nardi, satisfeito ao ralelas: o Seminário do Observatório presenta um aumento de quase 18% final do encontro, ressaltou a im- Internacional de Políticas e Sistemas em relação a 2011. Informou, tam- portância da mesa que envolveu de Saúde e o IX Congresso da Cultu- bém, que a mortalidade materna, a Frente Nacional de Prefeitos, ra de Paz e Não Violência. com 1.317 casos registrados entre em que foi aprovada uma carta- Os participantes puderam ain- janeiro e setembro de 2010, baixou da presenciar, no dia 12, a primeira 21% no mesmo período em 2011, re- -compromisso com o SUS enquanto reunião da Comissão Intergestores gistrando 1.038 mortes. E a dengue, bandeira perene dos municípios. Tripartite (CIT) – formada por repre- que nos quatro primeiros meses de Segundo Nardi, “a cada congresso, sentantes do Ministério da Saúde 2010 provocou 467 mortes pelo País, temos mostrado que o evento dei- (7), Conselho Nacional de Secretá- além de 11.845 casos notificados, xou de ser exclusivo de Secretarias rios de Saúde (Conass, 7) e do Co- caiu no mesmo período de 2012 para Municipais de Saúde para tornar-se nasems (7), fora de Brasília após seu 74 mortes e 1.083 casos registrados. um congresso do Sistema Único de reconhecimento e institucionaliza- Outros agradecimentos foram feitos Saúde, de todos que lutam por uma ção pela Lei nº 12.466/2011. Entre os pelas ações em cirurgias eletivas e saúde de acesso e qualidade, equi- tópicos da pauta apreciada, estavam a ampliação de cuidados pela Rede dade e decência, que são os pilares a situação atual do processo de im- Cegonha, entre outros. de sustentação do SUS”. 19
  • 20. PNSSP – o SUS para quem não tem liberdadeBRASIL Por: Fernando Ladeira / Fotos: Radilson Carlos Gomes e Déborah Proença A população carcerária do Brasil é estimada sentenciada com a perda da liberdade estão sen- em 520 mil habitantes, equivalente a de do implementadas no formato de Unidades Bá- uma capital como Porto Velho (RO) ou às sicas de Saúde, que ofertam ações e serviços de populações de municípios de grande porte como atenção básica. Assim, hoje, 159.588 homens e Juiz de Fora (MG) e Londrina (PR). Homens repre- mulheres encarcerados, 30,69% do total, já estão sentam 93% desse universo, e as mulheres ape- sob os cuidados do Sistema Único de Saúde (SUS) nas 7%, mas os tempos mudam e o crescimento em 25 Estados (Quadro 1). demográfico anual feminino em penitenciárias, Até então, a Lei de Execução Penal (LEP nº presídios, colônias agrícolas e hospitais de custó- 7.210/1984), anterior à Constituição Federal de dia é duas vezes maior que o masculino. 1988, regeu o acesso à saúde para os cidadãos Desde setembro de 2003, quando foi institu- privados de liberdade, e foram criados departa- ído o Plano Nacional de Saúde no Sistema Pe- mentos ou coordenações de saúde nas Secreta- nitenciário (PNSSP), as estruturas de saúde es- rias Estaduais de Administração Penitenciária, de taduais criadas para atender essa população Segurança ou de Justiça.20 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 21. 1 – Estados qualificados ao PNSSPCritérios dequalificação (PNSSP)Para um Estado se qualificar ao Pla-no Nacional de Saúde no SistemaPenitenciário, são necessários:• Enviar ao Ministério da Saúde o termo de adesão assinado pelos secretários estaduais de Saúde e de Justiça (ou correspondentes);• Apresentar, para aprovação, o Cadastro Nacional de Estabeleci- Se os municípios assumirem as ações Plano Operativo Estadual (POE) mentos de Saúde (CNES); e serviços de saúde no sistema pe- no Conselho Estadual de Saúde e nitenciário, por meio de pacto com na Comissão Intergestores Bipar- • Encaminhar a documentação para tite, e enviar as respectivas reso- que Estados e municípios recebam os Estados, conforme o §2º do art. luções e o Plano Operativo para o o Incentivo para Atenção à Saúde 2º da Portaria Interministerial nº Ministério da Saúde apreciar; no Sistema Penitenciário; 1.777/2003, é necessária a anuência do Conselho Municipal de Saúde,• Registrar os estabelecimentos e • Aguardar a publicação no Diário os profissionais de saúde das uni- Oficial da União da portaria de expressa em ata, e envio desta ao dades prisionais no Sistema de qualificação. Ministério da Saúde. Depois de lançado o Plano, 242 estabelecimentos prisionais, Marden Marques, a política pre-por meio do Decreto Intermi- dos 1.211 existentes no País. tende ampliar os recursos des-nisterial nº 1.777/2003, o acesso Até o final do ano, a Área tinados aos Estados e municí-dos encarcerados ao SUS se deu Técnica de Saúde no Sistema Pri- pios e se ajustará ao Decreto nºpor meio de equipes multipro- sional (SISP), do Departamento 7.508/2011, que instituiu – entrefissionais (médico, enfermeiro, de Ações Programáticas Estraté- outros – as regiões de saúde e opsicólogo, assistente social, den- gicas (DAPES/SAS/MS), pretende Contrato Organizativo de Açãotista e técnico de enfermagem), aprovar pela Comissão Interges- Pública (COAP), que funcionamsubstituindo, aos poucos, o for- tores Tripartite (CIT) uma políti- sob a ótica de relação interfede-mato médico-centrado em vigor ca nacional de saúde prisional rativa, com o compromisso legalna LEP. De 2004 para cá (Quadro que dê amplitude e maleabili- firmado entre União, Estados e2), já trabalham 269 equipes de dade ao PNSSP. Segundo o co- municípios.saúde penitenciária (EPEN) em ordenador da SISP, o psicólogo Atualmente, na medida em 21
  • 22. que os estabelecimentos e as pessoas presas têm atendimento lecimentos penitenciários para equipes se registram no Cadas- mínimo da equipe de saúde de instituir um observatório epide- tro Nacional de Estabelecimen- quatro horas semanais. Acima miológico em saúde prisional. tos de Saúde (CNES), os Ministé- de 100 presos, têm carga horária Com isso, poderá direcionar me- rios da Justiça (MJ) e da Saúde de 20 horas semanais. Para cada lhor os recursos e definir metas (MS) repassam os incentivos para 500 presos, é definida pelo me- de redução de agravos à saúde o custeio das ações que desen- nos uma equipe. necessárias para ação das equi- volvem junto à população car- O Ministério da Saúde está pes e atendimento aos usuários cerária. Unidades com até 100 realizando pesquisa nos estabe- encarcerados. 2 – Saúde no Sistema Penitenciário Evolução do número de equipes cadastradas no Plano 2004 76 2005 171 2006/7 174 2008 199 2009 215 2010 247 2011 269 Número de unidades penitenciárias com equipes: 242. O presídio estadual de Três Passos Texto e foto: Déborah Proença Em funcionamento desde 15 de setembro de 2011, a Unidade Básica de Saúde Prisional era uma demanda urgente para os detentos de Três Passos, município do noroeste do Rio Grande do Sul. Com média de 10 a 11 presos em cada uma das 25 celas (a capacidade é para, no máximo, quatro), o Presídio Estadual de Três Passos recebe homens e mulheres de todos os 21 municípios que compõem a região celeiro. Todavia, grande parte dos 230 presos (cerca de 60%) é de Três Passos e apresenta diferença no- tória para a equipe de saúde. “Os detentos do próprio município já esta- vam em tratamento ou receberam atendimento nas unidades, são diferenciados. Os demais, mui- tas vezes, nunca receberam qualquer tipo de as- sistência em saúde quando estavam vivendo na sociedade”, afirma Moisés Scherer, dentista da UBS, membro da equipe e também funcionário da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susep). Diego, um dos detentos, é natural de22 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 23. Direitos humanos Segundo Marden, o Ministério da Saúde tem como propósito alcançar a cobertura total da população car- cerária, os 520 mil cidadãos que es- tão sentenciados, ou são provisórios, e perderam o direito à liberdade, mas não perderam o de acesso à saú- de, à alimentação e à educação, en- tre outros. As equipes de saúde exe- cutam ações de atenção básica que transversalizam temas como racismo institucional, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, além das voltadas a gestantes. Quando questionados, os dire- tores informam que nos estabeleci- mentos prisionais os maiores agravos à saúde são: 1) Saúde mental (proble- mas vinculados à depressão devido ao confinamento); 2) Tuberculose; 3) DSTs e hepatites virais; 4) Dermato- ses; e 5) Hipertensão e diabetes.Portela, outro município, e diz que levantamento da situação da saúde. das 269 equipes de saúde peni-ficou impressionado com a saúde Antes da inauguração da unidade, tenciária (EPENs) que atendem ade Três Passos. “Estou com 31 anos não era possível fazer, e hoje é pro- população carcerária brasileira eme nunca fui ao médico. Aqui, tenho tocolo”, conta o médico Ivo Weis. 242 unidades prisionais que aderi-recebido acompanhamento”. Eliza- O apoio psicológico e da assis- ram ao Plano. A unidade prisionalbeth, por sua vez, detida há quatro tência social, agora inseridos inte- possibilita o atendimento dentromeses por tráfico de drogas e natu- gralmente no presídio, são funda- da carceragem, com todos os dis-ral de Três Passos, sempre teve acom- mentais, pois, embora as infecções positivos para segurança da equipepanhamento pelas eSF do município. e problemas respiratórios sejam de saúde e dos agentes penitenciá-No Presídio não sentiu diferença al- muito frequentes, a depressão é o rios. Além disso, Marden Marques,guma no tratamento, “não fui tra- maior problema, principalmente coordenador nacional do Planotada de forma diferente por estar entre as mulheres. A maior queixa é Nacional de Saúde no Sistema Pri-presa”, diz ela. a insônia. “A fala ‘doutor, não con- sional (PNSSP), informa que a cons- Com a inauguração da unidade sigo dormir’ é muito comum”, afir- trução de uma unidade de saúdedentro do perímetro de segurança, ma o médico. dentro do presídio tem menos des-o trabalho em saúde foi reestrutu- Vinculada ao Sistema Único de pesas, pois diminui os gastos comrado e organizado para atender a Saúde, a Unidade Básica de Saúde o acompanhamento armado dostodos os detentos, e não somente à Prisional (UBS-P) é regulada pelo detentos às unidades de saúde forademanda espontânea. Todas as mu- município tal qual as outras UBS, da detenção. “Gasta-se menos comlheres, então, realizaram exame pre- com o mesmo padrão de atendimen- escolta, pois diminui-se a quantida-ventivo; e a triagem e a anamnese to e qualidade. Resulta de uma par- de, lá fora, de presos e de agentes.de novos presos são feitas rigorosa- ceria entre o município, o Estado e a O constrangimento é amenizadomente no dia seguinte à detenção. União na medida em que cada um com os policiais e os presos dentro“Os que entram ficam numa cela dá a sua contrapartida, tanto pela das unidades e, com uma boa aten-provisória, na primeira noite, e no Secretaria de Saúde quanto pela ção básica, reduzem-se os gastosdia seguinte seguem para avaliação Saúde da Segurança Pública. com referência e contrarreferênciado médico e do dentista, para um Hoje, Três Passos detém uma para média e alta complexidade”. 23
  • 24. Daiani de Bem Borges Por: Luciana Melo Fotos: D. Borges A adolescente que gostava de química na escola e ficava se pergun- tando por que tal medicamento aliviava a dor, ou por que a bombinha de asma diminuía a falta de ar, é hoje uma atuante farmacêutica do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), no Distrito Sanitário Sul de Florianópolis. Daiani de Bem Borges é natural de Criciúma (SC), mas foi para Florianópolis estudar e nunca mais voltou. Formou-se em Farmácia, em 2004, e fez mes- trado na mesma área, em 2006, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Foi no mestrado que Daiani decidiu tornar-se uma profissional atu- ante na área: “Eu queria saber como é ser farmacêutica na prática!”, e em 2007 obteve seu primeiro trabalho na Prefeitura de Florianópolis. No mesmo ano, fez a especialização multiprofissional em Saúde da Família, na UFSC, o que ampliou ainda mais seu interesse pela atenção básica. Em outubro de 2010, Daiani começou a atuar no NASF e viu a oportu- nidade de desenvolver um trabalho diferente do que vinha fazendo. Ficou fascinada por trabalhar a saúde na perspectiva do cuidado integral, conhe- cer o usuário em seu território, estabelecer vínculo e trabalhar com a edu- cação em saúde. Fora do trabalho, Daiani gosta mesmo é de estar com a família, cozi- nhar, viajar, escutar uma boa música e ler. Estar em contato com a natureza e andar de bicicleta também são obrigatórios para o bem-estar dessa far- macêutica de Criciúma que adora desafios! RBSF: Como e quando desco- as atividades que desenvolvo, estão conclusão de curso em uma UBS, briu sua vocação profissional? a participação mensal nas reuniões onde tive o primeiro contato com Daiani Borges: Sempre gostei de de equipes de Saúde da Família; as equipes de Saúde da Família lidar com pessoas e, por isso, de- atendimentos individuais, na UBS (eSF). Antes de começar a trabalhar cidi fazer o curso de Farmácia. No ou em visita domiciliar e intercon- no NASF, eu era farmacêutica res- início, minha inclinação era mais sultas. Também participo do apoio ponsável técnica pela farmácia de pela manipulação, mas no final à gestão das farmácias locais; de referência do Distrito Sanitário Sul, da graduação tive a oportunidade atividades coletivas, tais como gru- onde são dispensados os medica- de participar de várias discussões pos de hipertensos, diabéticos, mentos sujeitos a controle especial. sobre saúde pública e assistência adolescentes e de usuários de me- Na época, em função da grande farmacêutica, temas que na época dicamentos controlados; e oficinas demanda, eu não tinha tempo para eram recentes e, simplesmente, me de boas práticas em farmácia com conversar com o usuário e explicar encantei. Outro universo se abriu os técnicos de enfermagem. Além todas as orientações para o trata- diante de mim! disso, estou envolvida no projeto mento prescrito. Muitas vezes me RBSF: Fale um pouco sobre seu Horta na Escola, em que, além de sentia uma mera entregadora de ambiente de trabalho e da práti- verduras e leguminosas, introduzi- medicamentos, e isso me angustia- ca profissional. mos algumas plantas medicinais. va muito. Daí, em 2008, foi publica- Daiani Borges: Eu matricio 14 RBSF: O que a levou à Saúde da da a portaria que instituiu o NASF e equipes, distribuídas em oito Unida- Família? eu a vi como uma oportunidade de des Básicas de Saúde (UBS). Entre Daiani Borges: Fiz meu estágio de contribuir para a promoção do uso2424 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 25. racional de medicamentos. Acredito etc.) junto às equipes SF possibilitaque, quando uma pessoa tem co- a ampliação das ações de saúde nanhecimento a respeito de sua doen- “...o farmacêutico atenção básica, por meio de umaça, e sabe por que e para que toma rede de cuidados. O último motivo,os medicamentos prescritos, pode pode ajudar no mas não menos importante, é quereforçar sua adesão e colaborar na aumento da adesão para mim o trabalho multiprofissio-resolutividade do seu tratamento. nal é desafiador e enriquecedor.RBSF: Foi uma opção mais ra- aotratamento, dobramentos. Hoje, mesmo tendocional ou emocional? tornandoas ações de descoberto outra doença grave eDaiani Borges: Foram as duas coi- apresentando outro prolapso, agorasas. Não tem como negar que ter es- saúde na vaginal, ela está comprometida comtabilidade financeira somada à pos- atenção básica os tratamentos, diminuiu o uso desibilidade de maior reconhecimento álcool e estabeleceu residência fixa mais amplasprofissional foram importantes. No ao conseguir um quarto em umaentanto, a oportunidade de realizar e resolutivas...” ocupação.um trabalho diferente daquele que RBSF: Qual a importância do far-vinha fazendo foi o grande desafio macêutico na equipe do NASF?que me motivou. Daiani Borges: O profissional far-RBSF: Dê três motivos para ser dito que os profissionais do Núcleo macêutico, ao trabalhar com orien-uma profissional do NASF? dão um “plus” às eSF. A presença tação ao usuário, com educaçãoDaiani Borges: A possibilidade de dos profissionais do NASF (farma- em saúde e com educação perma-trabalhar a saúde na perspectiva do cêutico, nutricionista, psicólogo, nente, pode ajudar no aumento dacuidado integral. Eu também acre- educador físico, assistente social adesão ao tratamento, tornando as 25
  • 26. ações de saúde na atenção básica RBSF: Como você avalia hoje a mente efetivada no Sistema Único mais amplas e resolutivas. No entan- prática da fitoterapia, preconizada de Saúde, é necessário o interesse to, para que isso possa acontecer, o pelas PICS, na atenção básica? dos gestores para a capacitação e farmacêutico não pode ficar preso Daiani Borges: A prática da fito- qualificação dos profissionais que à farmácia, única e exclusivamente, terapia na atenção básica vem se atuam na atenção básica. atendendo à demanda e cuidando impondo de forma bem tímida, RBSF: A prefeitura de Florianó- das questões gerenciais relaciona- ainda, mas o interesse e as discus- polis tem alguma ação nesse das à farmácia. Ele pode parar para sões em torno do tema têm cres- sentido? orientar aquele usuário que tem cido de maneira significativa. Per- Daiani Borges: A PMF tem realiza- maior dificuldade para seguir o tra- do um grande trabalho de sensibi- tamento medicamentoso prescrito. lização para a prescrição/utilização Seja pelo grande número de medi- de fitoterápicos na rede municipal. camentos, seja pela dificuldade de “...o interesse e as Vários profissionais (médicos, en- compreensão, além de poder parti- fermeiros, ACS, dentistas, farma- cipar das atividades coletivas. Onde discussões em torno cêuticos) têm participado de ofi- atuo, as discussões de casos com do tema têm crescido cinas que objetivam aumentar o as equipes de Saúde da Família são de maneira significa- conhecimento das equipes, como extremamente importantes. um todo, quanto ao uso das plan- RBSF: Você acha que essa ocu- tiva. Percebo muita tas medicinais no SUS. E também pação deve ser ampliada para a insegurança, entre os de onde e como buscar informa- equipe de Saúde na Família? prescritores e demais ções confiáveis de usos e indica- Daiani Borges: Eu não diria que ções delas, sempre procurando deve haver um farmacêutico para profissionais de saú- resgatar o conhecimento popular cada UBS, mas acredito que, nas unidades com duas ou mais eSF, de, quanto ao uso de local. Paralelamente, esse tema também tem sido explorado junto à a presença dele, em tempo in- plantas medicinais e tegral e à disposição da equipe, comunidade, nos grupos de educa- pode ajudar bastante na adesão e fitoterápicos...” ção em saúde realizados nas UBS, no aumento da resolutividade dos discutindo a importância da identi- tratamentos medicamentosos e ficação correta das plantas medici- não medicamentosos prescritos. nais, suas indicações e formas de Assim como na identificação de cebo muita insegurança, entre os preparo. Com isso, aos poucos se problemas relacionados com medi- prescritores e demais profissionais percebe maior interesse pela fito- camentos, tais como a falta de qua- de saúde, quanto ao uso de plan- terapia e maior segurança em rela- lidade deles, ou por problemas de tas medicinais e fitoterápicos. Para ção a seu uso, aliados ao resgate efetividade ou segurança. que a fitoterapia possa ser real- do saber popular.26 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 27. Raio X:1- PARA SER BOM MEU TRABALHO PRECISA DE: UM SONHO REALIZADO FOI: Pessoalmente já Equipe completa, unida e qualificada. 10- realizei vários, profissionalmente ainda estou tra- balhando para vê-los realizados FUNDAMENTAL NESTA PROFISSÃO É:2- Gostar daquilo que faz e buscar fazer sempre melhor. 11- TRÊS COISAS ESSENCIAIS: Determinação, acre- ditar (e ter no que acreditar) e realizar UM PACIENTE/ATENDIMENTO/MOMENTO MAR- UMA INSPIRAÇÃO/MOTIVAÇÃO: Querer apren- CANTE FOI: Certo dia, num grupo, eu perguntei sobre o que tínhamos conversado no encontro 12- der sempre mais e poder compartilhar o conhe- cimento adquirido3- anterior e uma senhora falou: “A gente conversou sobre os remédios”; eu não sei explicar direito, UMA ALEGRIA PROFISSIONAL: Trabalhar na mas depois daquele dia nunca mais me esqueci 13- atenção básica. Realmente gosto do que faço e quem me conhece sabe disso de tomar o meu captopril.... 14- UM IDEAL: Integrar ainda mais a academia (uni- UMA CHATEAÇÃO: Ignorância, falta de educação versidade) e o serviço, principalmente na área de e abuso de poder4- Farmácia, e poder desenvolver projetos que tra- gam melhorias para quem está na rede de saúde. UM OBSTÁCULO: A descontinuidade das ações Ao mesmo tempo, contribuir para a formação e do trabalho que vem sendo desenvolvido por desses jovens dentro do serviço 15- causa de politicagem e interesses que eram para ser políticos e voltados para a melhoria da saúde UM LEMA: De nada adianta ficar só reclamando pública e da sociedade, mas que, na verdade, sobre os problemas que existem no mundo. “Se5- são pessoais queremos progredir, não devemos repetir a his- tória, mas fazer uma história nova” (Mahatma DAQUI A DEZ ANOS ESTAREI: Eu acabei de co- Gandhi). 16- meçar! Daqui a dez anos, pretendo continuar a fazer o que faço, só que de forma ainda melhor! UM DESAFIO: Parece até contraditório, mas con-6- tinuar acreditando que é possível mudar, e não O MELHOR DA PROFISSÃO É: O reconheci- se deixar desanimar perante os obstáculos que 17- mento do trabalho que venho desenvolvendo, aparecem pelo caminho. É um grande desafio! tanto por parte dos usuários quanto por parte dos meus colegas de trabalho.7- PARA SER FELIZ: Antes de mais nada, é preciso se permitir ser feliz! 18- SAÚDE DA FAMÍLIA É: Vínculo e corresponsabilidade.8- SE NÃO FOSSE PSICÓLOGA SERIA: O que sou, uma aprendiz/aluna e uma educadora. 19- FINALIZANDO, UM CONSELHO: Acreditar em si e saber escutar é essencial!9- UM ATENDIMENTO ESPECIAL NECESSITA: De escuta qualificada 27
  • 28. PMAQ-AB e censo:CAPA rotas de avaliação pelo Brasil afora Texto e fotos: Fernando Ladeira Paralelo 1 – rota Paralelo 2 – Atualidade 9 de julho/2012 – Uberaba (MG) Promessa cumprida! Ou em fase final de cumpri- mento. No último dia 30 de agosto, durante a reu- Manhã – Reunião com as supervisoras: nião ordinária da Comissão Intergestores Tripartite Maryanne e Rosângela (CIT), em Campo Grande (MS), divulgou-se que a fase (2 equipes – 8 membros – se cruzam no tra- de avaliação externa definida no Programa Nacional jeto e dividem a avaliação do município). de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB) já estava chegando ao fim. Até ali, 70% das 17.304 equipes de saúde inscritas no pro- grama já tinham sido avaliadas e os 30% restantes o seriam até a metade de setembro. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já divulgou, no entanto, que 7.236 dessas 12.165 avaliadas estavam recebendo a certificação prometida, relativa ao acesso e quali- dade que promovem em suas ações e serviços junto aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), espe- cialmente pela atenção básica. Ao todo, o Ministério A enfermeira Maryanne Silva e equipe da Saúde já iniciava a liberação de R$ 148 milhões com três avaliadores estão fazendo o Ro- do incentivo acordado, em parcelas de R$ 37 milhões teiro 36. Começaram o Roteiro 3 por Juiz referentes aos meses de abril, maio, junho e julho. de Fora e região (12 municípios), entre Benefício que atinge 1.810 municípios. 17 e 31 de maio. Finalizado o trabalho, “Esse caminho da avaliação e de transferência de receberam novo Roteiro, 26, e ficaram recursos mediante compromissos e resultados monito- de 11 a 21 de junho só em Governador ráveis é um caminho sem volta do nosso governo e já Valadares. Agora, com novo, o 36, estão muito pactuado com Estados e municípios”, afirma o em Uberaba, onde começaram no dia secretário de Atenção à Saúde (SAS), Helvécio Miran- 2 e terminam em 20 de julho. Até este da Magalhães Júnior. Segundo ele, esse é um caminho de transparência, de cuidado com o recurso público28 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 29. que a própria população cobra a cada momento, e que roteiro e momento, foram 48 equipes eé favorável ao fortalecimento do SUS. Na avaliação ex- unidades do PMAQ avaliadas, mas, le-terna dessas 12.165 equipes, também foram ouvidos 47 vando em conta o censo das UBS, a ta-mil usuários das ações e serviços ofertados pelas equipes refa compreende 66 Unidades Básicas dede saúde, e as opiniões são um vetor de avaliação que Saúde (UBS). Tiveram dificuldade com osomam no cálculo da certificação das equipes e recursos uso do tablet, no início, mas, com auxílioque serão transferidos. e prática, agora, a novidade é uma mão Para chegar aos valores finais, três componentes/ins- na roda. As gestões municipais têm sidotrumentos se somam: autoavaliação (10%); desempenho solícitas em atender a equipe, e a dificul-em resultados do monitoramento dos 24 indicadores de dade está nos horários de ônibus entresaúde contratualizados no PMAQ (20%); e desempenho pequenas cidades.em padrões de qualidade verificados pelos avaliadores No trajeto intermunicipal, algumasexternos (70%). Nesse último é que foram envolvidas, no equipes se mostraram reticentes em res-desenvolvimento do trabalho, 45 instituições de ensino e ponder ao questionário. Entre gestores,pesquisa do País. alguns casos de tentativa de indicar usu- Para realizar a avaliação externa e o censo dos esta- ários para responder aos questionamen-belecimentos de saúde, foram contratados mais de 900 tos. Os usuários, no entanto, mostram-seprofissionais que se dividiram em equipes com um super- animados para responder sobre a saúdevisor e três avaliadores. Um verdadeiro zigue-zague foi na localidade e consciência de que a ava-promovido no País para que essas equipes chegassem com liação externa é para melhorar o serviçoseus questionários aos 3.972 municípios que aderiram ao de saúde que utilizam. Muitos se ofere-programa. O censo da infraestrutura de estabelecimentos cem para falar.de saúde, no entanto, atingirá a todos os municípios bra- Questionários do PMAQ e do censosileiros, e continuará sendo feito até meados de outubro. não oferecem dificuldades. Maryanne A grande novidade e desafio da pesquisa foi a criação observa que a realidade econômico-do instrumento de avaliação da qualidade dos serviços e -financeira dos municípios é muito dife-do acesso, pois para avaliar a gestão e opinião dos usu- renciada. Em alguns, o sistema de saúdeários já havia experiências consolidadas, afirma Antônio e as UBS são bons, enquanto que, emThomaz Matta Machado, coordenador da pesquisa no outros, os recursos sequer permitem aNúcleo de Estudos em Saúde Coletiva (Nescon), da Univer- impressão de prontuários, e usam carta-sidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Havia auditoria, zes antigos, recortados, no lugar.mas não avaliação”, explica, para informar que esse ins- A segunda supervisora, a psicólogatrumento foi inventado pelas instituições participantes. Rosângela Braga, e suas três avaliado- O Nescon, por exemplo, ficou responsável pela pesqui- ras começaram a avaliação externa emsa em metade de Minas Gerais e de São Paulo, além dos São João del Rey (Roteiro 16), entreEstados de Rondônia e Acre, que abrangeu um total de 11 e 20 de junho. Ao todo, visitaram2.500 equipes aderidas ao PMAQ, mas, assim como outras, 17 UBS, das quais 9 aderidas ao PMAQrealizou parcerias com universidades nesses Estados para com 12 equipes de saúde. Realizaramdesenvolverem o trabalho. “Foi desafiante fazer um tra- também a pesquisa em uma unidade debalho dessa magnitude no Brasil, até porque não se tem ocostume de fazer trabalhos juntos”, explica Thomaz. Para Luiz Augusto Facchini, presidente da AssociaçãoBrasileira de Saúde Coletiva (Abrasco – que coordenouo trabalho das universidades), essa primeira experiênciacom a avaliação externa permitirá que os instrumentos se-jam aperfeiçoados para as próximas pesquisas, que serãodesenvolvidas com a recontratualização pelos municípiosnos próximos anos. 29
  • 30. Barbacena. Inicialmente, os coordena- Acre dores da saúde municipal mostravam-se Integração e apreensivos, interpretando a avaliação como uma auditoria, mas ao final se di- integralidade no Norte ziam aliviados, percebendo o processo Por: Déborah Proença / Foto: Acervo SES-AC como positivo para melhorar a qualida- de do serviço. O segundo Roteiro da equipe é o 37, A ideia de que a implantação do Progra- que divide Uberaba com o Roteiro 36 da ma de Melhoria do Acesso e da Qualidade equipe de Maryanne. Rosângela e avalia- da Atenção Básica (PMAQ-AB) vai mudar a doras são responsáveis por 13 unidades realidade das equipes de atenção básica e com 24 equipes de atenção básica e mais dos usuários do SUS após o primeiro ciclo 5 unidades só para o censo. Educação avaliativo não é inteiramente verdadeira. permanente direcionada aos médicos e No Acre, a mudança começou bem antes. poucos recursos para custeio são algu- Dos 22 municípios do Estado, 11 aderi- mas das observações que fazem. ram ao PMAQ-AB, somando 36 equipes que representam cerca de 24% de todas as equi- Tarde pes de atenção básica. Em Plácido de Castro, Na UBS Dona Aparecida Conceição Ferreira, a 100 quilômetros de Rio Branco, os mais bairro Parque São Geraldo – Censo e PMAQ de 17 mil habitantes já se beneficiam com o programa, pois as sete equipes de Saúde da Família implantaram-no para melhorar a atenção à saúde local. “As oficinas de apresentação do PMAQ, realizadas antes da adesão, permitiram a compreensão do programa e fizeram as coi- sas começarem a mudar”, informa a coor- denadora de Atenção Primária da Secreta- ria Estadual de Saúde (SES), Elizete Araújo. Segundo ela, agora há integração no apoio Enquanto a equipe de Maryanne institucional, as áreas técnicas trabalham preenche o censo e os questionários de juntas em prol da atenção básica, também avaliação externa com funcionários e em articulação com a vigilância. A progra- usuários, a enfermeira Judete Nunes, chefe de uma das três equipes de Saú- mação anual e indicadores são discutidos de da Família da UBS, informa que a em conjunto e “não se trabalha mais em UBS Dona Aparecida atende entre 9 mil ‘caixinhas’”, afirma. e 10 mil pessoas da área, num bairro Nos municípios, a lógica em relação ao de classe média baixa. Contam com a acesso e à satisfação do usuário também participação de um Núcleo de Apoio à sofreu alterações. Segundo Elizete, a capa- Saúde da Família (NASF) para as ativi- citação levou os profissionais a se preocupa- dades com os usuários. Judete diz que a rem mais em organizar o trabalho de forma equipe se uniu para organizar equipa- a dar aos usuários mais satisfação quando mentos e documentos para mostrar aos acessam a UBS e os serviços oferecidos. avaliadores do PMAQ e censo, “pois Foram horas de trabalho e dois dias de o planejamento já estava pronto e as encontro com todas as equipes dos 11 mu- ações em curso/em andamento”. nicípios. Ao todo, 11 encontros em diferen-30 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 31. Os usuários Valmir e Jucélia da Silva, 32 e 31 anos, aguardam na sala de acolhi- mento para serem atendidos e mostram- -se satisfeitos com os serviços obtidos: a visita mensal feita pela agente comuni- tária de saúde, as consultas agendadas e os medicamentos que recebem pelos Correios (convênio do município). A avaliadora externa Edemilda dos Santos é formada em Patologia Clínica, mas se encantou com pesquisas e partici- pa daquelas que considera interessantes. O trabalho de avaliação do PMAQ e censo levam a uma atitude de neutralidade que permite, segundo ela, captar opiniões sem interferências: “A gente ouve recla-tes regiões do Estado, organizados por um mações, elogios e podemos avaliar a satis-grupo condutor reunido pela gerência de fação, o acesso e a qualidade dos serviços prestados. A gente vê in loco, não temAtenção Primária/Saúde da Família, da SES, como inventar algo de repente”.para apoiar o processo de adesão ao PMAQpelos municípios. Entre janeiro e março de 2012, técnicosda SES e consultores do Ministério da Saúdeprogramaram as oficinas, das quais partici-param os secretários municipais de saúde,coordenadores de atenção básica, gerentese técnicos da SES, além da presidenta doConselho de Secretários Municipais de Saú-de (Cosems). Cada diretriz do programa e os seus indi-cadores foram estudados para que o maior 10 de julho – Manhãnúmero de informações possíveis fosse Para a Revista Brasileira Saúde da Fa-transmitido às equipes. “Melhorou muito a mília, o secretário de Saúde de Uberaba,integração com o apoio institucional. Antes Valdemar Hial, afirmou que “ter aderidonão tínhamos o entrosamento que temos ao PMAQ nos dá maior responsabilida- de de fazer melhorias reais em acesso ehoje, em que todas as gerências e divisões 31
  • 32. qualidade de ações e serviços de saúde, fazem reuniões periódicas e se intercomu- e para a educação permanente dos pro- nicam”, afirma a enfermeira Adriana Lo- fissionais”. Lembrou das dificuldades em bão, gerente da área de doenças crônicas conseguir médicos para contratação nos do Departamento de Ações Programáticas termos da Política Nacional de Atenção Estratégicas (DAPE) e uma das integrantes Básica e que se deve ter cuidado com a do Grupo de Monitoramento e Apoio Insti- formação de profissionais para atuarem tucional da Atenção Básica. na atenção básica. “Todas as equipes, nos municípios, se A diretora de Atenção Básica, Elaine empenharam mais depois de entenderem Teodoro, revela que, inicialmente, se- riam cadastradas 50% das 50 equipes de melhor o programa. Antes os profissionais Saúde da Família (eSF) e 47 de Saúde Bu- pensavam que era algo novo, mas com a cal, atuantes em 34 UBS, mas decidiu-se oficina do PMAQ entenderam que seria apostar em todo o conjunto. Ao final, só para aprimorar o que já fazíamos”, afirma três eSF não aderiram ao programa. “É Elenira Costa, secretária municipal de saúde um processo constante, um ciclo virtuo- de Plácido de Castro. so, e só vai ganhar mais recursos quem Para Elizete, foi nítida a construção de merecer, o que é um estímulo legal. A unidades e a apropriação do conceito “tra- avaliação é um outro olhar que vem até balho em equipe”. “Começaram a enten- nós”, diz Elaine. As 50 eSF atendem 55% da população de Uberaba, estimada em der o que é trabalhar em equipe e surgiu 300 mil habitantes, aproximadamente. uma união que não existia. O médico, por exemplo, se apropriou de que ser membro Tarde – Partida de Uberaba em Araguari de uma equipe de Saúde da Família não é Em Araguari desde o dia 9, a supervi- só consultar e ir embora. Há mais a ser feito sora da avaliação externa, a enfermeira com a equipe para o serviço funcionar ple- Renata Costa, informou que a equipe, namente e com qualidade”, diz ela. com três avaliadores, até 1º de agosto, Samara Takahashi, enfermeira de uma segue o Roteiro 42, que ainda terá pela das equipes avaliadas, diz que as oficinas frente Cascalho Rico, Tupaciguara, Ara- proporcionaram às equipes uma visão mais porã, Centralina, Monte Alegre de Minas e Indianópolis. O grupo teve a primeira experiência com o Roteiro 12, realizado entre 31/5 e 7/6 somente em Juiz de Fora/ MG. O roteiro seguinte, 21, feito de 14 a Realidades distintas puderam ser ob- 29/6, se estendeu por vários municípios servadas conforme a capacidade de ação mineiros: Piranga, Porto Firme, Presiden- e de iniciativas dos municípios, que não te Bernardes, São Miguel do Anta, Canaã, impediram a participação em todo o pro- Araponga, Teixeiras e Pedra do Anta. cesso do PMAQ. 11 de julho – Manhã Secretaria de Saúde de Araguari: a secretária Iolanda Coelho, em entre- vista, considera que tanto a Estratégia Saúde da Família quanto o PMAQ po- dem ser bons e funcionarem. Nos úl- timos anos, o município ampliou sua cobertura de 38% para 52% da popu- 3232 Revista Brasileira Saúde da Família Revista Brasileira Saúde da Família
  • 33. crítica do trabalho. “O PMAQ veio para so- alidade dos pequenos municípios paramar. Eu tenho o livrinho azul (AMAQ – Au- entender suas necessidades.toavaliação para Melhoria do Acesso e daQualidade da Atenção Básica) o tempo in- UBSF Bairro Brasília – Censo e PMAQteiro na minha mesa. Não nos preocupáva-mos se o trabalho estava bom e a população Inaugurada há menos de ano, temsatisfeita. Agora sabemos a importância da duas eSF completas, e a equipe 1, ge-participação popular e, em cima disso, de- renciada pela enfermeira Anicésia Lu-senvolvemos o nosso trabalho”. dovino, passou pela avaliação da equipe Com a implantação do programa, pas- da supervisora Renata Costa. Ainda comsaram a valorizar a participação social. Só cadastramento de famílias em execu-na área em que atua, a população solicitou ção, cada equipe atende a média de 1mais palestras educativas e atendimento mil famílias e ainda não tem diagnósticoitinerante. “Passamos a fazer esse atendi- completo da área. As equipes do muni-mento de 15 em 15 dias e montamos um cípio contam com um NASF.calendário de palestras, que antes aconte- Satisfeita com as novas locações, Ani- césia reconhece que “trabalhar comciam esporadicamente. Estamos implantan- equipamentos adequados é muito bom,do a caixinha de sugestões para que digam porque o profissional se sente realizadoo que gostariam que acontecesse e não es- e a população percebe e quer conquis-tamos fornecendo”, acrescenta Samara. tar mais esse direito que tem de bom Para o próximo ano, Elizete espera que atendimento à saúde”. Participar dooutras equipes adiram ao programa e au- programa, de suas etapas, e receber amentem mais a resolutividade da atenção avaliação externa, segundo ela, faz a di-básica no Estado. “Por isso já capacitamos ferença e incentiva a adoção de medi-algumas equipes que não faziam parte do das de melhorias no acesso e qualidade.PMAQ. Assim, elas começarão o processo Após entrevistar usuários, o avalia-em 2013 conhecendo a proposta e podendo dor e assistente social Adilson dos San-colaborar da melhor forma”. tos cita que a unidade avaliada dá boa condição de acesso aos usuários. Adilson considera, ainda, que a equipe está uti- lizando estratégias de humanização no atendimento para melhorar os serviços oferecidos na UBS. Tarde Alex Vieira, jornalista e avaliador ex- terno, após finalizar o censo da UBSF Ma- ria Eugênia, considerou que, apesar de a estrutura física das unidades de saúde variar de cidade para cidade, as UBS têm surpreendido positivamente. Conforme lação (110 mil habitantes), sem ainda a localidade, a dispensação de medica- ser possível medir o impacto na situa- mentos é centralizada, mas algumas uni- ção de saúde local. Acredita que o Mi- dades a fazem de forma descentralizada, nistério deve se aproximar mais da re- mesmo sem a presença de farmacêuticos. 33
  • 34. UBSF São Sebastião Localizada em bairro periférico de mesmo nome, com forte presença de nortistas, nordestinos e ciganos, a uni- dade tem duas equipes de saúde atuan- tes gerenciadas pelos enfermeiros Ro- drigo Garcia e Frank de Miranda. Para Rodrigo, a avaliação externa veio validar, legal e eticamente, o tra- balho que já estão realizando, monito- rando o desempenho da equipe. “São documentos solicitados, mas quando a equipe entende o processo há maior co- laboração de todos os envolvidos”. Segundo o enfermeiro, pela primei- ra vez se estabeleceu uma ligação direta UBS, a coordenadora de Atenção Primá- entre gestores, coordenadores e equipes, ria, Heloína Amaral, informa que o mu- criando também canal de conversação e nicípio tenta participar do PMAQ e mu- negociação para a aplicação de recursos danças que introduz. O PMAQ e o censo, da saúde no município. segundo ela, “vão fornecer dados que às vezes não teríamos olhos para enxergar, 12 de julho – Manhã mas temos vontade de acertar, para me- Chateada com o furto de equipamen- lhorar o serviço de saúde no município”. tos que seriam instalados em algumas Tarde – Uberlândia Encontro com a equipe de avaliação (João Paulo e Cibele) e a supervisora Ka- ren Amarante, enfermeira. Cumprem o Roteiro 34, em Uberlândia, de 1º até 20 de julho. O terceiro avaliador está inter- nado em hospital no município devido a problema de saúde. Ao todo, coletarão dados de 58 unidades (incluídos peni- tenciária, presídio e centro socioeduca- 3434 Revista Brasileira Saúde da Família Revista Brasileira Saúde da Família
  • 35. Censo da infraestrutura Conhecer para poder melhorar! Por: Déborah Proença Até o fim de outubro, não se- ta os dados relacionados à es- UBS. Entre as informações estãorão avaliadas apenas as Unida- trutura das unidades de saúde a localização das unidades, sina-des Básicas de Saúde (UBS) com para o Censo, mesmo não ha- lização, acessibilidade, horárioequipes de atenção básica (EAB) vendo equipe participante do de funcionamento, recursos ma-que aderiram ao PMAQ-AB. PMAQ na unidade, permitindo teriais (insumos, equipamentosUnidades com equipes que não o conhecimento das condições tecnológicos), medicamentos eaderiram ao programa também das UBS cadastradas no CNESterão que responder ao módulo (Cadastro Nacional de Estabe- infraestrutura.I do instrumento avaliativo. É o lecimentos de Saúde)”, afirma No início de agosto, aproxi-Censo da Atenção Básica, que Paulynne Cavalcanti, consultora madamente 36% das unidadescoleta informações relativas à técnica do DAB. básicas já tinham seus dadosestrutura das UBS para que pos- Entretanto, censo e avalia- coletados. Distrito Federal, Riosam ser requalificadas. ção externa não são a mesma Grande do Sul e Sergipe lide- O censo acontece concomi- coisa, porém servem a um mes- ravam o ranking de unidadestantemente à avaliação externa mo objetivo: levantar informa- avaliadas, com 84,7%, 75,8% edo PMAQ, integrando o gru- ções para o aprimoramento das 73,9%, respectivamente. Entre-po de ações estratégicas que o estratégias de requalificação tanto, outros seis Estados (Acre,Departamento de Atenção Bá- das unidades de saúde, o aces-sica (DAB) desenvolveu a fim so a elas e a melhor qualidade Ceará, Paraíba Maranhão, Goiásde qualificar a atenção básica de serviços da atenção básica e Rio Grande do Norte) já ultra-do Brasil. “A mesma equipe de no País. Estima-se que sejam ob- passavam os 50% do total de es-avaliação de qualidade cole- tidos dados de mais de 38 mil tabelecimentos.tivo), mas para o PMAQ há 16 equipes com a população se dá pelas redes temáti-que aderiram ao programa. cas (mulher, homem, criança, hipertensos e diabéticos) ou com ações nas escolas.13 de julho – Manhã De acordo com Carolina, quando che-UBSF Alvorada – bairro Alvorada garam os critérios do PMAQ, constatou- Segundo a enfermeira volante (itineran- -se que as UBSF já estavam avançadaste) do setor, Carolina Petraglia, a unidade em relação à qualidade no serviço “e sótem uma equipe aderida ao PMAQ, mas precisamos organizar a documentaçãoduas em funcionamento, com atendimen- da produção da equipe, pois já utiliza-to a 6 mil usuários. Parte da aproximação mos prontuário eletrônico”. 35
  • 36. VI Seminário Internacional de Atenção BásicaDE OLHONO DAB reúne 1.500 no Rio de Janeiro Texto: Fernando Ladeira / Fotos: Luciana Melo “C onseguimos alcançar Padilha afirmou que o princi- com a participação de 18 países mais de 100 milhões pal e atual desafio do ministério é (Box 1) e 1.553 profissionais ins- de brasileiros com consolidar os avanços obtidos no critos. A sexta versão do seminá- muito esforço e sabemos o quan- Sistema Único de Saúde (SUS) rio começou a ser elaborada no to é difícil manter essa cobertu- nas últimas duas décadas, e res- primeiro trimestre do ano, com o ra com o trabalho cotidiano dos saltou que “a qualidade e a uni- delineamento de três eixos prio- agentes comunitários de saúde versalização do acesso à saúde ritários do encontro: gestão do e das equipes multiprofissionais, são fortes indicadores de inclu- cuidado; saúde bucal; e alimen- mas, em qualquer pesquisa que são social, motivo pelo qual o Mi- tação e nutrição, e realizada em tenhamos feito com a população nistério da Saúde tem trabalhado conformidade com as metas do quanto a benefícios recebidos, para consolidar a atenção básica Ministério da Saúde para o pe- a Estratégia Saúde da Família é em todo o País, pois é um mode- ríodo 2012–2015, que articulam sempre citada.” A afirmação do lo com capacidade de chegar a estratégias e ações com foco ministro da Saúde, Alexandre Pa- quem mais precisa, e resolver a na Estratégia “Saúde mais perto dilha, aconteceu na conferência maioria dos problemas de saúde de você – acesso e qualidade”, magna dada na abertura do VI da população”. por meio da Política Nacional de Seminário Internacional de Aten- O evento foi realizado entre 29 Atenção Básica. ção Básica, que teve por tema de julho e 1º de agosto, em hotel Sob essa ótica, formatou-se “Universalização com qualidade”. no Rio de Janeiro (RJ), e contou a programação do seminário in-36 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 37. ternacional, em que foi incluída, para os sistemas de saúde orienta- pida avaliação da fase de avalia-pela primeira vez, a saúde bucal, dos pela atenção básica, além de o ção externa do Programa de Me-que colaborou em completar um conjunto de experiências brasilei- lhoria do Acesso e da Qualidadequadro do que há de mais atual ras serem um marco de como os da Atenção Básica (PMAQ), quena atenção básica brasileira a ser sistemas de saúde devem evoluir e atingia, naquele momento, 33%apresentado aos representantes que, a exemplo do SUS, devem ser dos municípios brasileiros, comestrangeiros e nacionais. O resul- universalizados”. resultados favoráveis às ações etado da priorização da atenção Antes que o ministro Alexan- serviços oferecidos pela atençãobásica na atual gestão foi uma dre Padilha iniciasse a confe- básica no País. E lançou o Siste-manifestação triplicada no inte- ma de Monitoramento de Obrasresse em participar do evento, “...a qualidade e a (Sismob), que permite acompa-com 1.553 inscrições, quando a nhar todas as etapas das refor-média dos seminários anteriores universalização do mas, ampliações e construçõesera de 500 participações. de Unidades Básicas de Saúde De acordo com o secretário acesso à saúde são pelo País, acessável pelo site dode Atenção à Saúde, Helvécio fortes indicadores DAB.Miranda Magalhães Júnior, ao Os três dias seguintes oferece-fazer sua avaliação do seminá- de inclusão social, ram aos participantes 70 ativida-rio, “concretizar a atenção bá- des para discussões e análises.sica como o grande centro da motivo pelo qual o Pela manhã, entre 9h e 12h, umarede de cuidados do SUS signi- única mesa de debate com a pre-fica que tudo mais tem que girar Ministério da Saúde sença de representantes do Bra-e se organizar para atender às tem trabalhado para sil e outros países ou organismosdemandas da atenção básica, internacionais. À tarde, o mesmoe essa é uma mudança de ló- consolidar a atenção formato para um painel diário in-gica muito importante na qual ternacional, mas cuja atenção eraestamos jogando peso político; básica em todo dividida com os temas simultâ-assim, todos os outros departa- o País...” neos, que eram organizados emmentos e secretarias agem no mesas de debates com assuntossentido de dar viabilidade à atu- rência magna de abertura do VI diversificados, conforme os inte-ação da atenção básica, centro Seminário, Hêider Pinto informou resses e necessidades dos pre-da Política Nacional de Saúde”. aos presentes que a plataforma sentes: saúde bucal, saúde men- Em 29 de julho, a partir das 20 tecnológica ao Telessaúde com tal, atenção domiciliar, cuidadoshoras, começou o VI Seminário suporte em computadores, smar- a portadores de deficiências e deInternacional de Atenção Básica, tphones e tablets – nas mãos e doenças crônicas não transmis-tendo à mesa de abertura o pre- mesas das equipes de saúde no síveis, alimentação e nutrição,sidente do Conselho Nacional de País – terá acesso à internet pelos práticas integrativas e comple-Secretarias Municipais de Saúde padrões 2G e 3G. Apresentou rá- mentares, participação popular,(Conasems), Antônio Carlos Nar-di, o chefe do escritório da Orga-nização Pan-Americana da Saúde Países participantes(Opas) no Brasil, Felix Rigoli, oanfitrião e representante do Con- do seminárioselho Nacional de SecretariasEstaduais de Saúde (Conass), Argentina, Belize, Bolívia, Brasil,Sérgio Côrtes, e o diretor do De- Canadá, Chile, Colômbia, Equa-partamento de Atenção Básica dor, Espanha, Estados Unidos,(DAB), Hêider Aurélio Pinto. El Salvador, Índia, Itália, Nicará- Na solenidade, Felix Rigoli afir- gua, Paraguai, Portugal, Reinomou que “para a Opas, esses se- Unido, Uruguai.minários no Brasil são um marco 37
  • 38. financiamento, planejamento em nidade, fortalecer o usuário, seu de desempenho lhe ajudaram a saúde, carreiras e formação de acesso e qualidade de serviços pensar na prática dos serviços profissionais, entre os tantos. a ele ofertados, e planejar bem das equipes de saúde. A coordenadora do Centro os serviços para obtermos uma Após três dias e meio de tan- de Especialidade Odontológi- resolutividade de 80% a 85% de tos debates, o diretor do DAB, ca (CEO) de Feira de Santana, seus problemas e fortalecermos Hêider Pinto, ressaltou a avidez Bahia, a cirurgiã-dentista Isado- a atenção básica como orde- demonstrada pelos presentes ao ra Balinha, declarou-se satisfeita nadora das redes de atenção”, VI Seminário por espaços de dis- com a programação do VI Semi- considerou Fernando. cussão, aprendizado, trocas de nário. “Foi interessante conhe- Já a secretária de Saúde de experiências e ajustes de práti- cer os programas do ministério Ubiratã, no Paraná, Cristiane cas. Ele considerou importante o e mais a respeito da saúde pú- Pantaleão, mostrou-se cheia de discurso de abertura do ministro blica fora do Brasil, pois, às ve- ideias de como buscar a integra- Alexandre Padilha, que reforçou zes, temos uma visão deturpada ção da saúde bucal no processo o compromisso do governo fede- do que é feito lá fora, que não é da Estratégia Saúde da Família. ral e da presidenta da Repúbli- tão diferente do que é planejado Uma vez que seu município tam- ca, Dilma Rousseff, com a cons- aqui”, afirmou. bém estava passando pela fase trução das Redes de Atenção à Para o diretor do Departa- de avaliação externa do PMAQ, Saúde e de um SUS acessível e mento de Assistência à Saúde Cristiane considerou que as me- universal, “com qualidade, reso- de Francisco Beltrão (PR), Fer- sas que abordaram a avaliação lutivo e próximo das pessoas”. nando Pauli, ter ouvido experi- ências internacionais lhe permiti- Saiba mais ram considerar que o Brasil está Para conhecer a programação completa do VI Seminário acesse o link: no rumo certo de fortalecimento http://dab.saude.gov.br/sistemas/6seminariointernacional/ da atenção básica. “Temos que programacao.php trabalhar de perto com a comu-38 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 39. DE OLHO NO DAB World Nutrition Rio 2012 debate nutrição e saúde pública Por: Tiago Souza O rganizado de maneira inde- a prevalência da obesidade é de três atenção em saúde para a prevenção e pendente e sem patrocínio a cada quatro mulheres”. Para a res- o tratamento de doenças associadas a das indústrias de alimentos, ponsável da Coordenação-Geral de práticas alimentares inadequadas. o World Nutrition Rio 2012, Congresso Alimentação e Nutrição (CGAN), Patrí- Para Patrícia Jaime, uma das con- Mundial de Alimentação e Nutrição em cia Jaime, o Brasil tem “um cenário nu- clusões tiradas do Congresso Mundial Saúde Pública, reuniu, entre 27 e 30 de tricional muito complexo, no qual co- é a necessidade de abordagem inter- abril, no Rio de Janeiro (RJ), participan- existem a obesidade e a desnutrição, setorial para melhorar a qualidade do tes de 70 países, sob o slogan “Conhe- especialmente nas crianças da Região alimento e o modelo da produção, cimento, Política e Ação”. Na cerimônia Norte, indígenas e nas comunidades distribuição e consumo alimentar. O de abertura do evento, que discutiu o tradicionais, como de quilombolas. Sistema Único de Saúde (SUS) recebe panorama e desafios da alimentação o desfecho da insegurança alimentar no mundo, o secretário de Atenção à e nutricional, com o compromisso de Saúde (SAS) do Ministério da Saúde, garantir acesso e qualidade, porém os Helvécio Miranda Magalhães Junior, “...O Sistema Único de profissionais de saúde têm que somar ressaltou o apoio do Ministério para a num diálogo intersetorial que trate os realização do evento e apresentou al- Saúde (SUS) recebe o determinantes sociais e ambientais gumas importantes ações da sua Se- desfecho da insegurança que levam à adoção de práticas ali- cretaria na área da nutrição. “A Rede mentares inadequadas e ao desen- Cegonha, com componentes para a primeira infância muito bem definidos, alimentar e nutricional, volvimento das doenças. O evento envolve ações de promoção da ali- teve apoio do Ministério da Saúde, com o compromisso de ga- em parceria da Associação Brasileira mentação saudável e de suplementa- ção com micronutrientes, o que mostra de Pós-Graduação em Saúde Coletiva rantir acesso e qualidade, nossa vontade de fazer um país que se (Abrasco) e da Associação Mundial de nutre melhor e vive mais”, defendeu o porém os profissionais de Nutrição em Saúde Pública (WPHNA). secretário. A segurança alimentar e nutricio- saúde têm que somar num Nova Estratégia Amamenta nal foi destaque nas dezenas de ofi- e Alimenta Brasil cinas durante os cinco dias. O Brasil diálogo intersetorial que serve de exemplo da transição nutri- Durante o congresso, o Ministério trate os determinantes cional enfrentada no globo, pois, ao da Saúde lançou a Estratégia Ama- mesmo tempo em que conseguimos sociais...” menta e Alimenta Brasil, que reforça diminuir a desnutrição, enfrentamos e incentiva a promoção do aleitamen- agora o crescimento da obesidade e to materno e da alimentação saudá- suas consequências. São mais bara- vel para crianças menores de dois tos os alimentos processados, açuca- Não entendemos como duas agendas anos. Inserida na Rede Cegonha, a rados e gordurosos, naturalmente o separadas. A falta e o excesso são uma nova estratégia é resultado da união consumo é maior, o que tem provoca- única agenda que tem na base um mo- delo de determinação social relaciona- das ações da Rede Amamenta Brasil do o aumento no número de hiperten- da à pobreza e ao modo de produção e da Estratégia Nacional de Promo- sos, diabéticos e portadores de sobre- peso e obesidade, especialmente nas e distribuição dos alimentos e práticas ção da Alimentação Complementar classes média e baixa. alimentares não saudáveis”. Para ela, Saudável (ENPACS). Serão promo- Segundo Barry Popkin, da Uni- o enfrentamento dessa situação se dá vidas, aproximadamente, 50 oficinas versidade da Carolina do Norte, EUA, pela promoção da alimentação ade- de formação de novos tutores até o “dentro dessa faixa social no mundo, quada e saudável, e pela garantia da final de 2013.Revista Brasileira Saúde da Família 39
  • 40. Brasil CarinhosoBRASIL Ações pela saúde de uma geração Por: Déborah Proença / Fotos: Radilson Carlos Gomes N os últimos 10 anos, mais de consolidar uma estratégia de ação meira infância, entre crianças de até 28 milhões de brasileiros sa- que combata a miséria de forma de- seis anos. “No mundo inteiro, nas úl- íram da situação de extrema finitiva, e tem por meta superar a ex- timas décadas, começaram a se acu- pobreza com o auxílio de políticas trema pobreza até 2014, organizado mular evidências científicas da im- públicas do governo federal e a par- em três grandes eixos: garantia de portância desse período, a primeira ticipação de Estados e municípios. renda – Bolsa-Família e Benefício de infância, para o bom desenvolvimen- Programas como o Bolsa-Família, Prestação Continuada (BPC); inclusão to físico e cognitivo, e isso fez com Minha Casa Minha Vida e Luz para produtiva – rural e urbana; e acesso que os países elaborassem planos Todos e ações nas áreas de saúde, a serviços – área da educação, saúde, nacionais”, conta Paulo Bonilha, co- educação e agricultura familiar, en- assistência social e segurança alimen- ordenador da Área Técnica de Saúde tre tantos, deram base a esse movi- tar. da Criança e Aleitamento Materno, mento de resgate da cidadania, que No eixo de acesso a serviços, do Departamento de Ações Progra- ainda não terminou. Recentemente, a presidenta da República, Dilma máticas e Estratégicas (DAPES/SAS/ em junho de 2011, para comple- Roussef, lançou, em maio deste ano, MS). No Brasil, 16,2 milhões de adul- mentar essas políticas, foi lançado a ação Brasil Carinhoso, que objetiva tos e crianças – 8,5% de toda a po- o Plano Brasil sem Miséria, a fim de combater a pobreza absoluta na pri- pulação, segundo dados do Instituto40 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 41. Brasileiro de Geografia e Estatística mais”, afirma o coordenador. A(IBGE) – ainda vivem na extrema mi- meta é de, até 2020, aumentar a co-séria, com renda per capita mensal “...’No mundo inteiro, bertura para 50% do total de crian-abaixo de R$ 70,00. ças do País. O Brasil Carinhoso contempla es- nas últimas décadas, Na saúde, a Organização Mun-tratégias em três frentes propostas começaram a se acumular dial da Saúde (OMS) afirmou, ain-pelo eixo. Na assistência social, ao da em 2008, durante a Conferênciagarantir renda mínima de R$ 70,00 evidências científicas da Mundial de Determinantes Sociaisa cada membro das famílias bene- em Saúde, que investir nos primei- importância desse período,ficiárias do Programa Bolsa-Família, ros anos de vida aumenta as proba-com, pelo menos, uma criança me- a primeira infância, para bilidades de redução das desigual-nor de seis anos. Paulo explica: “No dades em saúde ao longo de uma o bom desenvolvimentocomponente da assistência social, geração. Dilma Rousseff corroboratodos os integrantes de uma famí- físico e cognitivo, e isso fez a afirmação da OMS, quatro anoslia que recebem o per capita menor depois, ao discursar na 9ª Confe-que 70 reais receberão o equivalen- com que os países elabo- rência Nacional dos Direitos date, individualmente, à diferença. rassem planos Criança e do Adolescente que a raizPor exemplo, se em uma família da desigualdade está no início dacom quatro pessoas cada uma ga- nacionais’...” vida. “Uma criança que tem acessonha o equivalente a 40 reais, a ideia a uma educação de qualidade, estí-é que a renda de todos chegue a, no mulos adequados e alimentação sa-mínimo, 70 reais. Então cada uma mulação do desenvolvimento cogni- dia será um adulto com mais opor-delas ganhará 30 reais a mais”. tivo com trabalhos pedagógicos nas tunidades”. Se para alguns pode soar como creches. Para isso, para cada nova Pensando nisso, a saúde é con-puro paternalismo garantir uma criança do Bolsa-Família matriculada templada, na ação Brasil Carinhoso,renda mínima de sobrevivência, esse em uma creche pública, a prefeitu- com a inclusão de remédio gratuitoauxílio pode significar o desenvolvi- ra receberá o dobro do repasse por para asma nas unidades do Progra-mento de todo um município, como matrícula – um estímulo para a cria- ma Aqui Tem Farmácia Popu-Matureia, na Paraíba, que teve a ção de mais vagas nas creches. “O lar; com a ampliação doeconomia alavancada a partir do Brasil tem uma baixíssima cobertura Programa Saúdemomento em que as famílias passa- de creches, em torno de 20%. E, en- na Escolaram a ter garantia de cultivo e co- tre os atendidos pelo Bolsa-Família,mercialização de produtos agrícolas por exemplo, esse índice é de 8%,financiados com recursos vinculados dificultando o alcance das po-ao Programa Bolsa-Família. líticas públicas de go- Na educação, prevê-se o aumen- verno a quemto do número de vagas em creches necessitapara crianças de até 3 anos e 11 me-ses, pois, para uma primeira infân-cia protegida com desenvol-vimento adequado,é necessáriaa esti- 41
  • 42. (PSE) para as creches e pré-escolas; com a reformulação do Programa Nacional de Suplementação de Fer- ro; e com a ampliação da cobertura do Programa Nacional de Suplemen- tação de Vitamina A. A escolha dessa estratégia não foi aleatória. A asma é a segunda maior causa de internações hospi- talares entre crianças com menos de seis anos – perde, apenas, para a diarreia. Embora vários medicamen- tos para tratamento da asma estives- sem disponíveis para venda pelo Pro- grama Aqui Tem Farmácia Popular, o pagamento de apenas 10% do valor original não era viável para os bene- ficiários do Bolsa-Família. Assim, foi indispensável a inclusão destes me- dicamentos na lista de distribuição gratuita, subsidiada pelo governo. Já o desenvolvimento físico e cognitivo na primeira infância está intimamente relacionado a ações de saúde. Em estudo sobre capi- tal humano publicado em 2003, os pesquisadores Pedro Carneiro e Ja- mes Heckman, do National Bureau of Economic Research (Cambridge, saúde pela expansão do programa o consumo insuficiente de alimentos Estados Unidos), afirmam que a re- a creches e pré-escolas, tornou-se ricos nesse micronutriente. Quan- lação entre taxa de retorno de de- indispensável perante os números. to melhor e mais prolongado for o senvolvimento humano e idade de O IBGE, em 2010, indicou que a ali- período de amamentação, menor o investimento é diretamente propor- mentação inadequada é responsável cional – quanto mais cedo a criança risco de crianças anêmicas. Entretan- pela anemia de 50% das crianças no receber incentivos, mais desenvolvi- to, estudos mais recentes mostram Brasil. Rica ou pobre, a mesa brasilei- da ela será no futuro. Para a OMS, que quando a criança apresenta de- ra sofre com a má qualidade. o desenvolvimento físico, socioe- ficiência de outros micronutrientes, mocional e linguístico-cognitivo das como a vitamina A, também desen- crianças com menos de seis anos de- Xô, anemia! volve anemia, pois são necessários termina, de forma decisiva, as opor- Outra estratégia, a reformulação para mobilizar o ferro da reserva tunidades na vida adulta. do Programa Nacional de Suple- (depositada, principalmente, no fí- Isso motivou, na saúde, três ações mentação de Ferro, está vinculada gado) para uso pelo organismo. estratégias do Brasil Carinhoso. A ao controle da anemia, doença que Atualmente, o suplemento de ampliação das ações do PSE é uma delas, que não poderia ficar de fora. tem por principal causa, para bebês ferro é comprado pelo Ministério da Contemplar a primeira infância, for- com menos de seis meses, a deficiên- Saúde para atender 20% das crian- malmente, com atenção integral de cia do consumo de ferro gerada pela ças de 6 a 24 meses usuárias do Siste- prevenção, promoção e atenção à introdução precoce de alimentos ou ma Único de Saúde (SUS), aproxima-42 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 43. risco maior de desenvolver um con- junto de doenças e agravamento de infecções”, afirma a coordena- dora de Alimentação e Nutrição, Patrícia Jaime. Entre as consequências da inges- tão insuficiente da vitamina A, estão problemas de visão e menor desen- volvimento neuropsicomotor. Patrí- cia Jaime salienta dados da OMS: “A adequada prevenção da vitamina A é capaz de reduzir 24% da mortali- dade infantil e até 28% da mortali- dade causada por diarreias”. O Programa Nacional de Suple- mentação da Vitamina A, atual- mente, cobre 100% dos municípios nordestinos, alguns municípios da Amazônia Legal, de Minas Gerais e Distritos Sanitários Especiais Indíge- nas (DSEIs). Com a ampliação, além desses já contemplados, o programa abrangerá toda a Região Norte, to- dos os DSEIs e todos os municípios das Regiões Sul, Sudeste e Centro- -Oeste prioritários no Plano Brasil sem Miséria. “Até o final do ano, se- rão contemplados 3.034 municípios, atendendo 7,8 milhões de crianças,damente 1,4 milhão em todo o País. gida pelo organismo para o pleno um acréscimo de 60% da coberturaA partir do próximo ano, aprovada desenvolvimento físico e cognitivo até então implementada pelo pro-a alteração pela Comissão Interges- é muito elevada. grama”, afirma Patrícia Jaime.tores Tripartite (CIT), a compra do No Brasil, a hipovitaminose A e A partir do sexto mês de idade,suplemento será responsabilidade a anemia são problemas de saúde todas as crianças que residem nessesde cada município. “É uma ação pública moderados. Assim, o Minis- municípios devem receber a mega-importante a ser fortalecida nas tério da Saúde, desde 2005, instituiu dose de vitamina A duas vezes aoUBS e priorizada pelas equipes de os Programas de Suplementação de ano (ou a cada seis meses). Esse ciclo continua até o 59º mês (4 anos e 11Saúde da Família, pois há resistên- Ferro e de Suplementação da Vita- meses de idade) e as doses devemcia por parte dos profissionais de mina A para prevenir essas doenças. ser ministradas conforme organi-saúde em aceitar a suplementação Com isso, a deficiência de vitamina zação da própria equipe, aprovei-de ferro por acreditarem que é des- A, muito comum na primeira infân- tando as campanhas nacionais denecessária”, afirma a nutricionista cia, também foi priorizada na ação vacinação, visitas domiciliares, con-Gisele Bortolini, consultora técnica Brasil Carinhoso, pelas repercussões sultas de rotina e por agendamentoda Coordenação-Geral de Alimen- no desenvolvimento infantil. “Quan- ou, até, busca ativa. O importante étação e Nutrição, do Departamen- do o corpo da criança apresenta de- não se esquecer de que deve se tor-to de Atenção Básica (DAB/SAS/ ficiência dessa vitamina, ela fica em nar uma rotina na unidade, assimMS). Gisele afirma que, na primeira risco maior de adoecimento por bai- como o preenchimento da Caderne-infância, a quantidade de ferro exi- xa resposta imunológica, apresenta ta da Criança. 43
  • 44. Plano DCNTBRASIL A boa luta do cuidado às doenças crônicas Por: Fernando Ladeira / Fotos: Marcos Botelho A té este final de ano o Mi- Espaço na ONU preparar o País para enfrentar as nistério da Saúde já terá DCNT no período de 2011–2022. em mãos os resultados A importância do problema Além de citar medidas como o das consultas públicas – via site não se restringe ao Brasil, a ponto acesso a exames que permitam o – para as linhas de cuidado para de tornar-se tema de discussão da diagnóstico precoce e a medica- pessoas com hipertensão arte- Assembleia-Geral da Organização mentos, a melhoria da qualidade rial sistêmica, Diabetes mellitus e das Nações Unidas (ONU), pela das mamografias e a ampliação obesidade. A intenção é buscar terceira vez, a saúde no centro da do tratamento do câncer, a pre- subsídios para a construção de história da instituição. Segundo sidenta afirmou ser “fundamen- proposta regulatória que contem- dados do Fórum Econômico Glo- tal que haja coordenação entre ple as necessidades reais dos tra- bal, as crônicas matam no mundo, as políticas de saúde e aquelas balhadores em saúde e usuários anualmente, 36 milhões de pesso- destinadas a lidar com os deter- do Sistema Único de Saúde (SUS) as, número que deve aumentar minantes socioeconômicos des- por meio da atenção básica. De- para 52 milhões em 20 anos. Até sas enfermidades”. pois, será a vez da linha de cuida- esse prazo, estima-se que terão do para doenças respiratórias. sido gastos 47 trilhões de dóla- Ações intersetoriais Os fatores de risco (hiperten- res em todo o mundo para tratar são, diabetes, obesidade) com- e controlar a incidência desses No Brasil, 20 ministérios estão põem parte das ações e serviços agravos. envolvidos em ações interseto- que se pretende desenvolver den- Na solenidade de abertura da riais para enfrentar as doenças tro da rede temática em formação crônicas. O do Desenvolvimen- Assembleia, em 21 de setembro de atenção às pessoas com do- to Agrário, por exemplo, tem o de 2011, a presidenta da Repúbli- Programa de Diversificação de enças crônicas. Segundo dados ca, Dilma Rousseff, apresentou Cultura, que promove a redução do Saúde Brasil 2010, estudo do o Plano de Ações Estratégicas de áreas plantadas de fumo com Ministério da Saúde, 72,4% dos para o Enfrentamento das Doen- substituição pelo plantio de frutas óbitos registrados no País têm ças Crônicas Não Transmissíveis e hortaliças. O da Pesca e Aqui- como causa as doenças crônicas. (DCNT), que tem o objetivo de cultura tem um programa para44 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 45. disseminar o consumo de pei- 2022 (ou antes). Como exem- assinatura do recente acordo dexe, mais sadio para o organismo plos: a) Reduzir a taxa de mor- redução de sódio em alimentose sistema cardiovascular. O da talidade prematura, que tem por processados. O eixo III, no en-Educação desenvolve, com o meta 2% a menos por ano. Já se tanto, de cuidado integral, estáda Saúde, o Programa Saúde na atingiu 1,9%, para se chegar a com a SAS. Nele está o desen-Escola (PSE), que já atinge mais 196 óbitos por 100 mil habitantes volvimento da rede temática dede 2 mil municípios e pretende em 2022; b) Reduzir a prevalên- cuidados com os portadores dechegar a todos os estudantes do cia do tabagismo a 11% da popu- hipertensão, diabetes, neopla-País. O PSE envolve a comuni- lação. Em 2010 era de 15,1% e já sias e doenças respiratórias e/dade escolar, aproxima os pais baixou para 14,8% em 2011 com ou sob o fator de risco da obe-das escolas e da assistência tendência de queda; c) Aumen- sidade. A Coordenação-Geral deofertada pelas equipes de Saúde tar a cobertura de mamografias Áreas Técnicas (CGAT), do De-da Família (eSF) e pelos Núcle- (50–69 anos) a 70% em 2022. O partamento de Atenção Básica,os de Apoio à Saúde da Família Brasil tem aumento anual médio é a encarregada de formatar a(NASF), promove campanhas de de 1,6% e já atingiu 73,3%. Além rede e elaborar as linhas de cui-prevenção à obesidade e incenti- dados para as doenças crônicasvo à prática de atividades físicas, e obesidade.entre outras ações. “...a presidenta “ desenvolvemos um docu- Já De acordo com a coordena- mento de diretrizes para o cui-dora-geral de Doenças e Agra- afirmou ser ‘fun- dado de pessoas com doençasvos Não Transmissíveis, da Se- damental que haja crônicas e estamos elaborandocretaria de Vigilância em Saúde as linhas de cuidados para osdo Ministério da Saúde (SVS/ coordenação entre fatores de risco mais prevalen-MS), Deborah Malta, o plano se tes (hipertensão, diabetes), quedesenvolve em três eixos: I) Vi- as políticas de saúde serão colocadas em breve paragilância, informação, avaliação consulta pública. A orientaçãoe monitoramento – por meio de e aquelas destinadas é cuidar e garantir integralida-pesquisas e estudos conduzidos a lidar com os de- de para a pessoa com doen-pelo MS; II) Promoção da saúde ças crônicas, e poder orientar e– em que se enquadra o PSE, o terminantes socio- acompanhar o caminho dessesrecente acordo com a indústria pacientes na rede de atenção”,da alimentação para redução de econômicos dessas afirma a coordenadora da CGAT,sódio em nova lista de alimen- Patrícia Chueiri.tos processados para atingir a enfermidades...” Além disso, afirma, as equi-meta de 5 g de sal diários/pes- pes de saúde têm de estar aten-soa (atualmente é de 12 g) da tas à adesão das pessoas aosOrganização Mundial da Saúde dessas, há metas como a redu- tratamentos, à orientação para(OMS). Ou mesmo a Lei Federal ção da obesidade em crianças, mudanças de hábitos e à neces-Antifumo (nº 12.546/2011) e ou- adolescentes e adultos (contro- sidade de trabalho em equipe –tras ações que levem à redução le), aumento da prevalência de o médico sozinho não resolverádo consumo de álcool; e III) Cui- atividade física no lazer, aumento problemas senão com a parti-dado integral das pessoas com do consumo de frutas e hortali- cipação de outros profissionaisDCNT – que está sob coordena- ças, redução do consumo médio como psicólogos, nutricionistas,ção da Secretaria de Atenção à de sal, entre outras. educadores físicos. A adoção deSaúde (SAS). Entram aí a orga- medidas diversificadas e com-nização da rede de atenção à Cuidado com a pessoa plementares é que permitirá quesaúde e das linhas de cuidados se obtenham resultados positi-temáticas, o acesso a medica- O acompanhamento do pla- vos nos cuidados às doençasmentos, o aperfeiçoamento da no, que é amplo e intersetorial, crônicas no Brasil, de forma agestão com o PMAQ-AB, a reor- cabe à SVS, principalmente nos obter sucesso com o Plano deganização da urgência e emer- eixos I e II. Também a Secretaria Ações Estratégicas para o En-gência, entre outros. de Atenção à Saúde participa no frentamento das Doenças Crôni- Também no plano estão esta- eixo II por meio de ações como cas Não Transmissíveis e atingirbelecidos indicadores de saúde a Academia da Saúde, o Pro- as metas de indicadores de vidae metas a serem atingidas até grama Saúde na Escola, e pela saudável acatadas na ONU. 45
  • 46. NasfEXPERIÊNCIA EXITOSA Sorriso sempre em movimento Por: Déborah Proença / Fotos: Acervo SMS Sorriso S orriso, município norte deve-se à soja, que deve esticar Unidade de Pronto-Atendimento mato-grossense, é bastante os cantos dos lábios dos grandes (UPA) entregue em meados des- conhecido pelas águas cris- produtores até perto das orelhas. te ano e um centro de reabilita- talinas em que turistas praticam Essa saúde econômico-finan- ção com seis fisioterapeutas que mergulho, mas tem outras pecu- ceira, que se manifesta em um atendem, exclusivamente, pelo liaridades. Localizado na transi- alto Índice de Desenvolvimento Sistema Único de Saúde. ção entre o Pantanal e a Floresta Humano (IDH – 0,824) da cida- Faltava, no entanto, algo Amazônica, é o maior produtor de, de alguma forma se reflete mais direcionado que amparasse de soja do País, segundo o Ins- na vida dos cidadãos. E é ao co- o trabalho nas Unidades Básicas tituto Brasileiro de Geografia nhecer a saúde pública implan- de Saúde (UBS). E essa percepção e Estatística (IBGE), e, devido à tada no município, em especial a veio de duas profissionais con- prosperidade econômica, em um atenção básica, com 100% de co- cursadas e lotadas no Departa- espaço de tempo de dez anos, bertura de Saúde da Família, que mento de Educação em Saúde, sua população quase duplicou. até aqueles que não são dados a da Secretaria Municipal: a edu- De 35.605 habitantes em 2000, sorrisos sorriem. Sorriso possui o cadora física e a nutricionista. Sorriso pulou para 66.506 em único hospital estadual 100% SUS “Sentíamos a necessidade de tra- 2010. Hoje, passa dos 78 mil. Esse do meio-norte-mato-grossense, balhar a prevenção e a promo- crescimento vertiginoso, dizem, com 120 leitos. Conta com uma ção da saúde no município. Foi46 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 47. quando descobrimos uma porta-ria que regulava um dispositivochamado NASF, que possibilitavaa inserção de profissionais comformações diferentes”, contaCarla Bonzanini, a educadora. Isso foi em 2008. Ela e a nutri-cionista Cláudia Sônego escreve-ram e apresentaram um projetoque gerou bastante desconfian-ça. “Lembro até hoje quando en-trei na sala do secretário e deixeio primeiro fôlder do Núcleo deApoio à Saúde da Família (NASF)lançado pelo Ministério da Saú-de. Ele olhou desconfiado e dis-se: ‘Meninas, façam o projeto evamos ver o que vai dar’”. E deu!Com uma metodologia comple-tamente inserida de acordo como Caderno de Atenção Básica nº27 (CAB NASF), o NASF de Sor- Circuito interativo Não! Não é uma nova ferra- incentivar a adoção de cães e com um circuito de 10 km para menta da internet, mas poderia gatos e a atividade física dos os corredores e de 5 km para os ser unindo, tecnologicamente, futuros donos. É montado um que preferem menos impacto. temas diferentes em lugares dis- circuito (em trilha) com agentes Os atletas são orientados por es- tintos da rede. Errou quem pen- da vigilância ambiental localiza- tagiários e, ao término do even- sou nessa possibilidade. dos em pontos estratégicos, que to, há distribuição gratuita de A criatividade da equipe do orientam os atletas a respeito de alimentos. “Temos uma barraca NASF de Sorriso permitiu de- carrapato, pulga, raiva, parvovi- onde a nutricionista orienta e senvolver um novo método de rose e leishmaniose. outras pessoas distribuem maçã orientação à população sobre - “Caminhada da Primavera”: e banana. Cada um pega quan- promoção e prevenção à saú- no trajeto de 5 km, estagiários tas frutas quiser”, explica Carla, de, em parceria com a vigilância de enfermagem e educação fí- que também corre, mas é impe- sanitária municipal. Nos even- sica aferem pressão arterial, fa- dida de participar dessa prova tos esportivos (caminhadas e zem teste de glicemia, calculam por estar na administração do corridas), estrategicamente, a o IMC e dão orientações nutri- evento. equipe posiciona “informantes” cionais, sob a supervisão dos A Corrida do Coração, orgu- – pessoas que dão informações profissionais do NASF. lho da corredora, já virou marca importantes relacionadas ao - “Corrida do Coração Saudá- do município e entrou, oficial- evento em questão. Vamos aos vel”: acontece em maio e abre mente, para o calendário de cor- exemplos: a semana de comemorações de ridas de rua do Estado de Mato - “Cãominhada”: evento para aniversário do município. Conta Grosso. 47
  • 48. riso é, atualmente, referência uma turma de ginástica locali- papel do NASF: fazer de qual- em saúde. Até uma comitiva da zada, ginástica aeróbica e alon- quer lugar um espaço terapêu- área de saúde sueca que visitou gamento. Isso em terra firme! tico, em que podemos tocar nos o município quer usar o modelo Na água, são seis turmas de seres humanos da melhor forma elaborado pelas “meninas” de hidroginástica, com um total possível”, fala a psicóloga Brine Sorriso! Carla atribui o sucesso de 248 participantes (gestantes, de Mattos. da iniciativa à quantidade de idosos, hipertensos e diabéticos Todos os professores de edu- atendimentos. “Não deixamos e funcionários das Secretarias cação física da rede municipal de atender ninguém e a parti- Municipais de Saúde, Educação de ensino foram capacitados cipação nos projetos é por tem- e Esporte e Lazer), e quatro tur- pelas profissionais do NASF po indeterminado. Quem quiser mas de natação. As turmas de para adaptar essa ação ao PSE, participar das aulas pode. Se natação fazem parte do Pro- de acordo com os protocolos do necessário, abriremos mais tur- grama Saúde na Escola (PSE) e Sistema de Vigilância Alimentar mas. Mas ninguém deixará de beneficiam crianças entre 5 e e Nutricional (Sisvan). Em 2011, ser atendido”. 19 anos que, em uma ação de 4.223 estudantes foram avalia- Enfermeiro e coordenador avaliação antropométrica e de dos e este ano, 4.826. de atenção primária, Valdelírio consumo alimentar, registraram Para participar dos eventos Venites afirma que o grande de- elevadas prevalências de Índice e atividades promovidas, bas- safio era explicar o conceito de de Massa Corporal (IMC) acima ta o usuário portar a “receita apoio matricial à nova equipe. de 25. “As crianças que frequen- saudável”, uma autorização do “Nós ousamos em provocá-los”, tam as aulas de natação rece- médico da equipe de Saúde da lembra. A provocação foi tama- bem acompanhamento semanal Família que o acompanha que nha que o grupo – formado por da nutricionista e da psicóloga, varia em cores conforme o tipo dois profissionais de educação que desenvolve trabalhos de ar- de usuário (gestantes, idosos, física, uma nutricionista, uma teterapia”, explica Carla. hipertensos, diabéticos etc.). psicóloga e uma fisioterapeuta “Vejo que no NASF todos “É impressionante os resul- – coordena, além dos eventos podem contribuir de alguma tados que a gente tem. É algo esportivos, 16 polos de cami- forma. E, para mim, qualquer real, algo que acontece de fato. nhada orientada (14 urbanos e ambiente onde as pessoas se A conscientização da população dois rurais), apoio matricial aos encontram e têm um espaço em relação a essas atividades agentes comunitários de saúde, para falar e escutar é um lugar me motiva a continuar traba- uma turma de dança folclórica, terapêutico. Penso que esse é o lhando”, emociona-se Carla.48 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 49. Família MUNDO PELOPor: Mellina Marques Vieira Izecksohn * ilustrações: Roosevelt Ribeiro N um dia de julho, em meio às férias es- colares, Roberta, médica de Família, há três anos na mesma comunidade, seguia a sua rotina, saía de casa cedo e demorava cer- ca de uma hora para chegar ao posto, tomava seu café e se preparava para mais um dia atribu- lado na Comunidade Nova Esperança. Na infância, Roberta assistia muito à série Dr. Queen na televisão. Nesse seriado, em pleno velho oeste, uma jovem médica lutava contra tudo e todos para fazer o que achava certo e por ser uma mulher... dá para imaginar como era. Essa série foi seguida do estrondoso sucesso: ER, que tratava do dia a dia de um serviço de emergência hospitalar. Enquanto todos queriam ser médicos de emer- gência e vivenciar toda a adrenalina do seriado, Roberta sonhava em ser médica, mas uma médi- ca, como sua mãe dizia que tinha na infância, a la Doctor Queen. “Sabe, Roberta, quando eu tinha a sua idade, nossa família tinha um médico que conhecia cada um de nós e frequentava a nossa casa. Todos se arrumavam para recebê-lo... isso não existe mais...”, ouviu a mãe dizer várias ve- zes. Mal sabia Claudia, mãe de Roberta, que, já na época em que se lamentava, a Saúde da Famí- lia começava a ganhar força no nosso país, mas estava restrita a áreas mais carentes e ao interior. Roberta chegou por volta das 8 horas, como mente grisalho e fininho como uma linha, e com sempre fazia, e identificou quais eram as pesso- uma corcunda discreta que lhe causava muito as que estavam aguardando atendimento. Junto desconforto. A dentadura grande, solta, se me- com Lúcia, técnica de enfermagem, avaliou as xia soltando da gengiva ao falar. Muito descon- prioridades e priorizou o atendimento de dona traída, falava sempre olhando para cima e cons- Francisca, chamando-a primeiro. tantemente ria dos próprios comentários. Dona Francisca tem 86 anos, aproximada- Já morava em Nova Esperança há uns três anos mente 1.45 m de altura, branquinha com o rosto e não frequentava o posto porque “não precisa- enrugado e marcas de sol, cabelo completa- va”, dizia constantemente. Morava com uma das 49
  • 50. filhas, Joana, que trabalhava diariamente, saindo to, minha filha, mais à noite... de dia também de casa às 6h e retornando apenas às 21h. “Ela dói”, explicava. trabalha muito, minha filha, e é tão longe, sabe! A médica investigou de todas as formas o Ela precisa pegar o trem e depois um ônibus. Leva que estaria causando aquela dor, mas nenhum umas três horas para ir e mais exame estava alterado, não ha- o mesmo tanto para voltar. Eu “...A dor sumiu via nada de errado com aquela queria que ela ficasse mais co- senhorinha que insistia na dor migo, mas ela não pode, minha nos exatos 28 dias que, às vezes, melhorava, mas filha trabalha muito”, dizia Fran- religiosamente, às 11h, Roberta cisca, repetidamente. que duraram as poderia esperar que dona Fran- Joana é a mais nova de cisca estaria pronta para vê-la. quatro irmãs, que em conjunto férias da dra. Ro- A deformidade óssea poderia deram oito netos, compondo justificar a dor, mas não com- a família de Francisca. Apesar berta, que voltou pletamente. Foi então que, nas de numerosa, ela via muito a trabalhar numa férias de sua médica, dona Fran- pouco os familiares: “Eles só cisca só foi procurar atendimen- se lembram de mim quando segunda-feira. to uma vez. Foi atendida pelo estou muito doente ou nas médico substituto, André, que festas. Aí todo mundo vem E, na terça seguin- não deu muita importância para me buscar. Só se lembram de a queixa e solicitou radiografia mim quando tem aniversário te, dona Francisca de tórax. Exame que a idosa já ou Natal, na Páscoa às vezes havia realizado há uns dois me- também se lembram de mim, reapareceu, ses, quando Roberta iniciou a in- mas não é sempre não.” queixando-se vestigação. Como nada havia de errado no exame, André passou Todo dia, por volta das 11h, dona Francisca ia até o posto da mesma dor...” um analgésico e disse que ela de saúde conversar com sua não tinha nada. médica de Família, e a quei- Após procurar João, o enfer- xa era sempre a mesma: “Uma dor, minha filha, meiro de sua área, para perguntar sobre a volta que faz assim, assim, assim”, enquanto abria e de Roberta e ter certeza de que não tinha per- fechava a mão esquerda, diversas vezes, para dido sua doutora, saiu do posto e não voltou exemplificar a dor. “Ela não me larga... dói mui- mais. A dor sumiu nos exatos 28 dias que dura-50 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 51. ram as férias da dra. Roberta, que voltou a tra- em volta de uma árvore de Natal. E, quando Joãobalhar numa segunda-feira. E, na terça seguin- perguntou da família, ela, prontamente, respon-te, dona Francisca reapareceu, queixandose da deu: “Vocês são a minha família, meu filho. Eumesma dor. os vejo mais do que a eles, que só aparecem Ela disse que ficou bem um tempo e elogiou nas festas e quando estou muito doente. AcheiVanessa, sua agente comunitária, que, muito que a doutora Roberta tinha me abandonado, eatenciosa, sempre perguntava como ela esta- ela não poderia ir embora, meu filho, pois comva. Nesse dia, Roberta conversou cerca de 30 quem vou conversar pela manhã? Quando meuminutos com Francisca, que, naquele dia, se marido estava vivo, sempre sentávamos às 11hqueixava muito de estar sozinha, da ausência para conversar e falar sobre a nossa vida. Eledas filhas e da dor. Mas, naquele dia, uma nova cuidava de mim, mas, depois que se foi, meuqueixa parecia tomar conta da conversa: as fé- filho, e já tem três anos, só a doutora Robertarias da médica. me dá atenção, e é por causa A senhora não conseguia “...Ao chegar à da minha dor, meu filho, queentender como sua doutora ahavia deixado por tanto tempo residência, des- eu vou lá, pois não gosto de perturbar não.”e aceitado que outro médico,o André, a atendesse, pois ele cobriu que a se- João começou, naque- le momento, a montar comnão era ela. Roberta ficou sem nhora morava no aquela senhora tão espertareação e não sabia como agir.Começou a se punir por ter dei- segundo andar e estratégias para não se sentir sozinha, de ligar para as filhasxado aquela senhorinha sofren- que a escada não e de ir ao posto participar dosdo de dor durante os 30 diasque duraram as férias. tinha corrimão, grupos onde poderia conver- sar não só com Roberta, como A partir daquele dia, Fran-cisca retornou ao velho hábito além de ter os com outras pessoas. Vanessa ficou de ver como ela estavade comparecer ao posto dia- degraus altos e de 15 em 15 dias. Inicialmen-riamente. Na reunião seguinteda equipe, Roberta comentou estreitos. A idosa te, dona Francisca ficou de ir ao posto aferir a pressão arte-essa situação e se surpreen-deu quando Vanessa relatou o demorou quase rial uma vez por mês.quão bem Francisca havia fica- 10 minutos para No dia seguinte, às 11h, ela “bateu o ponto” no posto, masdo no período das férias, queela não havia procurado o ser- chegar ao térreo e para dizer que não sentia mais dor e que ia começar a partici-viço porque estava sem dor e abrir o portão...” par de um grupo de idosos nachegou a encontrá-la passean-do na comunidade. comunidade. Roberta deixou João resolveu, então, em acordo com Rober- a porta aberta para quandota, assumir o acompanhamento de Francisca e ela quisesse voltar.chamar as filhas dela para uma conversa, já que A partir de então, toda quinta-feira, dia de pãoiria à comunidade. No dia seguinte, aproveitou doce na padaria, dona Francisca comparece aoe foi à casa da usuária. Ao chegar à residência, posto com um pedaço de pão para conversardescobriu que a senhora morava no segundo com Roberta, João, Vanessa, Lúcia ou qualquerandar e que a escada não tinha corrimão, além pessoa que esteja disponível. Antes de ir em-de ter os degraus altos e estreitos. A idosa de- bora, sempre, vai até a equipe para desejar ummorou quase 10 minutos para chegar ao térreo bom dia e ganhar um grande abraço.e abrir o portão para João e Vanessa. Na sala, havia muitos porta-retratos. Algunsde formaturas de filhos e netos, mas uma foto *Mellina Marques Vieira Izecksohn é medica dochamava atenção: nela estavam todos da família CSEGSF/ENSP, da SMS RJ/R. 51
  • 52. Saúde e trabalho: ARTIGO condições de trabalho do agente comunitário de saúde Aline Gomes Medina* Michele Peixoto Quevedo** Ilustrações: Roosevelt Ribeiro Resumo Introdução nitários de Saúde –, entendido como uma estratégia transitória Esta pesquisa apresenta A partir de 1986, com o acon- do Programa Saúde da Família como tema central o estudo so- tecimento da 8ª Conferência Na- (PSF) (BRASIL, 2001 apud MARTI- bre situações do cotidiano de cional de Saúde (CNS), o sistema NES; CHAVES, 2007). trabalho do agente comunitário de saúde brasileiro sofreu inú- Dessa experiência surge o PSF de saúde (ACS) que são potên- meras reformulações e ganhos em 1996. Sua equipe é composta cias geradoras de sofrimento em com o Sistema Único de Saúde por, no mínimo, médico, enfer- seu fazer produtivo. A pesquisa (SUS), previsto pela Constituição meiro, auxiliar de enfermagem foi realizada a partir do levanta- Federal de 1988. Nesse cenário, a ou técnico de enfermagem e mento bibliográfico de artigos Lei Orgânica nº 8.080, de 19 de agentes comunitários de saúde, acadêmicos indexados na base setembro de 1990, vem dispor com o objetivo de promover a de dados da Bireme. Os achados sobre a organização e funciona- saúde e garantir melhorias na foram agrupados em condições mento dos serviços de saúde, re- qualidade de vida dos sujeitos, relacionadas ao morar e traba- gulamentando assim o SUS, que direcionando-se não somente lhar na mesma comunidade, definiu um modelo assistencial para a cura e prevenção, mas, so- polos de tensão, presença da para todos os municípios brasi- bretudo, para a valorização e ên- violência, processo de trabalho leiros. Culminou desse processo fase do papel dos indivíduos no e organização da gestão do tra- a consolidação da Atenção Bási- cuidado com a saúde de sua fa- balho e do cuidado. ca à Saúde. mília e da comunidade, por meio Em 1991, por meio do convê- do desenvolvimento de vínculos Palavras-chave: Saúde do tra- nio entre a Fundação Nacional de corresponsabilização (BRASIL, balhador. Saúde mental e traba- de Saúde e as Secretarias de Es- 2006). lho. Programa Saúde da Família. tado da Saúde, é criado o PACS Segundo Mendes e Ceotto Agente comunitário de saúde. – Programa de Agentes Comu- (2011), o ACS se configura como52 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 53. o interlocutor entre a comunida-de e a equipe de saúde, por ser oprofissional que está primordial-mente realizando as visitas domi-ciliares. Além disso, é o primeirocontato do serviço de saúde pú-blica com a comunidade local.Ambos consideram que o ACS é oentremeio de usuário e profissio-nal de saúde e com outros atribu-tos associados a ele, reforçando aideia de: agente transformador,agente de mudanças e de profis-sional da saúde, prestigiando-opor ser o tradutor das questõesde sua área (JARDIM; LANCMAN,2009; MARTINES; CHAVES, 2007;NUNES et al., 2002). O fato de ser morador dacomunidade em que atua o fazcompartilhar de valores, cos-tumes e cultura de sua região.Bachilli (2008) e Tomaz (2002) timentos que, se não cuidados, Para o critério de inclusão ereferem que o ACS é um sujeito podem gerar sofrimento (WAI; exclusão de produções que res-que surge da comunidade e se CARVALHO, 2009, p. 566). pondessem ao problema da pes-integra às equipes de saúde sem quisa, foram eleitos os artigosbagagem técnica específica e tra- Metodologia que apresentaram: 1. aspectosbalha por meio do diálogo com a da condição do trabalho; e/oucomunidade, buscando conscien- Esta pesquisa bibliográfi- 2. aspectos de sofrimento rela-tizar e ser um agente educador. ca foi delineada seguindo-se a cionado ao trabalho de agentes Somente a partir das últimas estrutura apresentada por Gil comunitários de saúde.décadas, o trabalho passou a ser (1995) sobre levantamento bi- Serão apresentados, portan-compreendido como um fator bliográfico. to, os aspectos de maior con-constitutivo de adoecimento, O levantamento bibliográ- vergência entre os artigos sobresendo as “condições de traba- fico preliminar culminou na condições de trabalho potenciaislho” impactantes para a saúde formulação do problema a ser geradoras de sofrimento.do trabalhador. estudado: quais as condições No caso do ACS, esse trabalha- de trabalho do ACS que podem Desenvolvimentodor lida diretamente com o usuá- gerar sofrimento em relação aorio por meio de sua subjetividade seu fazer produtivo? Com isso, Entre os 29 artigos encontra-e, ao mesmo tempo, comparti- iniciou-se o estudo de pesqui- dos, 28 apresentaram aspectoslha a construção de histórias de sas em saúde do trabalhador das condições de trabalho dovida dos usuários como morador agente comunitário de saúde, ACS e 24 apresentaram aspec-do mesmo local e profissional de feito a partir da seleção de ar- tos do sofrimento relacionadosaúde. Na aproximação com as tigos científicos publicados por ao trabalho. Destes, 3 são rela-famílias, há transposição e iden- pesquisadores brasileiros em tos de intervenções com ACS notificação com os problemas e revistas científicas indexadas na que diz respeito ao cotidiano demisérias humanas, gerando sen- base de dados Bireme. trabalho e 26 são pesquisas ex- 53
  • 54. ploratórias com ACS, usuários e equipes PSF, com dos citam a condição desse cuidado oferecido na eixo transversal à condição de trabalho do ACS e mesma comunidade em que esse trabalhador re- ao sofrimento relacionado ao trabalho. side (JARDIM; LANCMAN, 2009; KLUTHCOVSKY As condições de trabalho potenciais geradoras et al., 2007; LEVY; MATOS; TOMITA, 2004; NUNES de sofrimento encontradas nos artigos foram agru- et al., 2002; SILVA; SANTOS, 2005; SOUZA; FREI- padas em tópicos apresentados na figura abaixo e TAS, 2011; WAI; CARVALHO, 2009). discutidos a seguir. Ao mesmo tempo em que a necessidade de cuidado da população não se restringe ao ho- Morar e trabalhar na mesma comu- rário de funcionamento da Unidade Básica de nidade: contaminação do tempo de Saúde (UBS), esses trabalhadores são procurados não trabalho pelos usuários também fora de seu horário de trabalho (Idem), gerando, com isso, falta de pri- Segundo Merhy et al. (2009), a subjetividade do vacidade e contaminação do tempo de não traba- ACS opera na vontade de cuidar. Diversos estu- lho (CORIOLANO; LIMA, 2010; JARDIM; LANCMAN, Figura 1 – Condições de trabalho potenciais geradoras de sofrimento Fonte: autoria nossa. 2009; NUNES et al., 2002; SOUZA; FREITAS, 2011). Morar e trabalhar na mesma Nesse sentido, o modelo condiciona a exces- comunidade: idealização perante siva valorização dos aspectos afetivos da relação resolutividade dos problemas de desenvolvida pelos ACS com os moradores. E co- saúde dos usuários locado ênfase em conteúdos ligados à vida pes- soal dos agentes pelos usuários, chegando por Outro fator relacionado à circunstância de mo- vezes a um extremo de exercerem um controle rar e trabalhar na mesma comunidade referese à vi- social sobre eles (NUNES et al., 2002). vência do ACS em experimentar de forma constan-54 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 55. te a onipotência e a frustração ma permanente na prática doque permeiam sua subjetivida- agente, que se vê dividido entrede, que mantém intensa rela- a dimensão técnica e a social deção de pertença com o espaço seu trabalho, o que gera con-em que vive e atua, as pessoas flitos evidentes na sua práticada sua realidade são as mesmas cotidiana.para quem dirige às suas ações Na análise dos maiores de-de cuidado (BACHILLI; SCAVAS- safios na prática cotidiana des-SA; SPIRI, 2008). se agente, é compreendido por Isso leva o ACS a sentir-se cor- Galavote et al. (2011) que o tra-responsável pelos problemas e balho se torna gerador de sofri-afetos relacionados à saúde des- mento quando se considera asa população, buscando atender intensa cobrança que é transfe-às necessidades de saúde que rida para esse profissional no co-emergem no contexto de cada tidiano, sendo ela imposta pelafamília com um arsenal restrito unidade de saúde e pela comu-de ferramentas que lhe é atri- nidade em que é “porta-voz”.buído pela unidade de saúde e Tal fato gera, por si só, constan-pelos próprios profissionais da tes enfrentamentos do agenteequipe, estando limitado quan- com as limitações de seu campoto às possibilidades de atuação de atuação, o que contribui parae resolutividade (GALAVOTE et o sentimento de impotência e li-al., 2011), podendo haver um conseguir atender às demandas mite de atuação.deslocamento da responsabilida- da população (FERRAZ; AERTS,de sobre as limitações da resolu- 2005, MARIN et al., 2007; MAR- Violênciatividade do PSF ao ACS (MARTI- TINES; CHAVES, 2007).NEZ; CHAVES, 2007). A presença da violência revela Wai e Carvalho (2009) refe- ACS e sua função entre em depoimentos dos ACS o graurem que a aproximação do ACS dois polos: o institucio- de exposição e tensão a que es-com as famílias gera transposi- nal e o comunitário tão submetidos durante a reali-ção dos problemas e das misérias zação das visitas domiciliares. Éhumanas. Eles se envolvem, se De acordo com Silva e Dal- predominante o sentimento deveem naquela ocorrência geran- maso (2002 apud SEABRA; CAR- impotência e desproteção peran-do sofrimento e sentimentos de VALHO; FORSTER, 2008), o ACS te as situações que são presencia-impotência e culpa. transita entre dois polos de das em seu cotidiano de trabalho Nesse cenário, o sofrimento tensão: o polo institucional e o (SIMÕES, 2009).psíquico se instala nesse profis- polo comunidade. Portanto, em Foram constatados por Ursi-sional que idealiza para si uma determinadas situações, ele se ne, Trelha e Nunes (2009) senti-expectativa em relação a sua aproxima mais da instituição, ao mentos de insegurança física ecompetência no sistema de saú- passo que em outras se dirige falta de proteção ao passo quede, ao mesmo tempo em que mais para o polo comunitário. O os ACS tornam-se cúmplices deesse sistema não responde às papel de mediador do ACS signi- informações sigilosas capazes denecessidades da população de fica para esse autor o hiato social o colocarem em risco de morte e,modo imediato. Como perso- entre a saúde e os usuários. com isso, conviver com a violên-nagem mediador entre a insti- Segundo Nogueira e Ramos cia organizada por gangues etucionalidade e a comunidade, (2000 apud GALAVOTE et al., narcotráfico.sente-se angustiado por não 2011), isso constituiu um dile- O medo também está pre- 55
  • 56. sente de serem culpabilizados volvidos na pesquisa dos auto- rentes interesses e necessidades pelos usuários de denúncias ao res entendem que isso se deve que nem sempre são conciliá- conselho tutelar e vazamento ao fato de serem um número veis (GALAVOTE et al., 2011). de informações (JARDIM; LAN- muito maior do que o de en- Silva e Santos (2005, p. 13) afir- CMAN, 2009) e de represálias fermeiros disponíveis para tal mam que: da população do próprio bairro atribuição, não contemplando ao exigirem ações imediatas em a necessidade deles. [...] o trabalho que o ACS saúde (MENEGOLLA; POLLETO; desempenha é importante e KRAHL, 2003). precisa de reformulações e Dessa forma, pode-se per- “...A partir do en- ajustes, identificando que há ceber que a violência existente tendimento que o falhas no processo de recru- no bairro faz com que sintam tamento, treinamento inicial medo, fiquem temerosos e ex- trabalho do ACS e continuado, supervisão, postos a situações de risco, uma pode ter impacto apoio da equipe e dos ór- vez que podem estar sujeitos a gãos centrais, recursos logís- essa situação (Idem). na gestão do con- ticos para apoio do trabalho, texto no qual se meios de transporte e parti- O processo de trabalho cipação comunitária, sendo insere, é evidente influenciado e influenciando Ferraz e Aerts (2005, p. 350) que há necessidade sua prática. apontam em sua pesquisa que o ACS compreende que o nú- de se visualizar a Mehry et al. (2009) referem mero de famílias sob sua res- gestão do trabalho que a inexistência de espaço de ponsabilidade é elevado, sendo elaboração coletiva de planeja- preconizadas pelo MS até 4.000 como uma das fer- mento do trabalho, de avalia- famílias por eSF e até 750 pes- ramentas estratégi- ção do cuidado e de critérios soas por ACS (BRASIL, 2006, p. de priorização das famílias que 24). Por outro lado, os autores cas à tomada necessitam de visitas faz com referem que os agentes impli- de decisão nas que os ACS criem estratégias cados em sua pesquisa realizam próprias de discussão e resolu- menos de oito visitas domicilia- instituições...” ção dos problemas verificados res por dia, tal como preconiza- nas diversas microáreas. Para do pelo MS. Para Ferraz e Aertz Organização da gestão Resende et al. (2011), esse fato (2005), Simões (2009), Ursine, do trabalho e do cuidado poder acarretar no surgimento Trelha e Nunes (2009), o núme- da síndrome de Burnout e/ou do ro reduzido de visitas se deve A partir do entendimento estresse ocupacional. ao fato de os ACS realizarem que o trabalho do ACS pode ter outras atividades na unidade impacto na gestão do contexto Considerações finais de saúde que não as preconiza- no qual se insere, é evidente das para sua profissão. que há necessidade de se visua- O agente comunitário de Outro fator identificado no lizar a gestão do trabalho como saúde é o trabalhador que se en- processo de trabalho do ACS é uma das ferramentas estraté- contra à frente no contato com a supervisão realizada pelo en- gicas à tomada de decisão nas a comunidade. Com isso, passa fermeiro como encontrado por instituições, pela complexidade a desempenhar um papel social Martines e Chaves (2007) e Ga- que ela traduz, uma vez que é diferenciado ao ser elegido pela lavote et al. (2011). Os ACS en- atravessada por diversos e dife- unidade de saúde como o elo56 Revista Brasileira Saúde da Família
  • 57. entre a UBS e a comunidade. de vida e decisões de acordo com ções de trabalho que podem ser Em todos os momentos de suas próprias vivências e valores. potencialmente geradoras deseu cotidiano, o ACS representa Também há de se considerar sofrimento em relação ao fazerpara essa comunidade a saúde que as situações de trabalho, so- produtivo do ACS remete à exis-oferecida à população e a comu- madas às características de cada tência de um território de ten-nidade se aproxima na tentativa trabalhador, podem desenca- sões sobrepostas cotidianamentede solucionar seus problemas. dear processos de sofrimento, que necessita de olhar sob as di-Passa a tornar seu dia a dia, que a depender das estratégias de versas perspectivas.antes era privado, público. enfrentamento adotadas por Em seu cotidiano de práticas ele e do suporte oferecido pela *Terapeuta ocupacional, especialis- ta em Redes de Cuidados Progressi-laborais, enfrenta conflitos ao instituição prestadora do serviço vos no cenário da Estratégia Saúdelidar diretamente com os pro- (OLIVEIRA et al., 2010). da Família, assessora técnica de in-blemas da população sob sua Com isso, a gestão do traba- clusão de profissionais com deficiên-responsabilidade ao passo que lho tem importante papel como cia no trabalho da Atenção Primária à Saúde Santa Marcelina e Hospitalocupar esse espaço de intersec- mediadora do sofrimento no tra- Santa Marcelina.ção gera tensões, podendo levá- balho ao ponto que pode contri-lo ao desgaste. buir com construção de espaços **Psicóloga, doutora em Saúde Pú- A vulnerabilidade desse tra- coletivos e democráticos, apoio e blica pela Faculdade de Saúde Pú- blica da Universidade de São Paulo,balhador é evidenciada no sa- compartilhamento de situações responsável pelo Setor de Produçãober-fazer do seu trabalho, en- difíceis de trabalho. Científica da Atenção Primária àfrentando complexas histórias Esta pesquisa sobre as condi- Saúde Santa Marcelina. 57
  • 58. Referências: BACHILLI, R. G.; SCAVASSA, A. J.; SPIRI, W. C. A identidade do agente comunitário de saúde: uma abordagem fenomenológica. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, 2008, p. 51-60. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Atenção Bá- sica. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. CORIOLANO, M. W. de L.; LIMA, L. S. De. Grupos focais com agentes comunitários de saúde: subsídios para entendimento destes atores sociais. Revista de Enfermagem UERJ, Rio de Janeiro, n. 18, v. 1, jan./mar. 2010, p. 92-96. FERRAZ, L.; AERTS, D. R. G. de C. O cotidiano de trabalho do agente comunitário de saúde no PSF em Porto Alegre. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 10, n. 2, abr./jun. 2005, p. 347-355. GALAVOTE, H. S. et al. Os processos de trabalho do agente comunitário de saúde nos cenários revelados na Estratégia Saúde da Família no município de Vitória (ES, Brasil). 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  • 59. Seja um doador de órgãos. Deixe sua visão para o homem que nunca viu o amanhecer nos braços de sua amada. Deixe Seja um doador de vidas. seu coração para a mulher que vive para fazer o coração de seu filho feliz. Deixe o exemplo. E, principalmente, deixe sua família saber do seu desejo de ser um doador de órgãos. Quem deixa o seu melhor deixa a vida seguir em frente. Acesse: www.facebook.com/doacaodeorgaos e divulgue nas redes sociais: #doeorgaos. O maior sistema público de transplantes do mundo é do SUS.
  • 60. Publicação do Ministério da Saúde - Ano XIII - Ed.32 - maio a agosto de 2012 - ISSN 1518-2355 PACS brasileiro amplia sua originalidade!O Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) deixou de serúnico e novidade. Em um movimento de reconhecimento ao programa ini-ciado em 1991, no Ceará, e que se expandiu para todo o País, cuja experi-ência deu origem ao programa e posterior Estratégia Saúde da Família, omodelo PACS também foi adotado em Angola, na África, e parcela de seus18 milhões de habitantes. Mais recentemente, o Paraguai também está ins-tituindo modelo assistencial de saúde semelhante para sua população. Éuma criação única da atenção básica brasileira que é exportada, aos pou-cos, para o mundo.Os ACS, assim como os outros profissionais das equipes de atenção bá-sica, também sentem a necessidade de aprimorar sua formação para me-lhor desenvolverem os trabalhos em equipe e atenderem os usuários doSistema Único de Saúde. É por isso que, no Tome Nota, aborda-se o temado acesso dos agentes aos produtos e serviços do Telessaúde.Temos ainda a entrevista do ACS Marcos Nascimento, que atua em UBSno Irajá, Rio de Janeiro, e iniciou o trabalho como agente na terceira idade,permitindo aliar seu agir profissional à experiência de vida. É ele, também,quem colabora com boa reflexão no texto “O ACS na promoção da saúde”,incentivando os colegas a refletir e aprimorar as práticas no trabalho.A todos, boa leitura e bom proveito!
  • 61. ACS mudam a realidade angolana Por Déborah Proença / Fotos: Projeto Uhayele Angola e Carlile Lavor A inda durante a guerra tante interesse em conhe- lana gasta, em média, entre civil (1975–2002), ins- cer a proposta brasileira”, 15 e 40 dólares per capita talada após 14 anos comenta o médico Carlile quando algum membro ado- de conflitos com Portugal e Lavor, criador do Programa ece, seja uma simples diar- que resultou em sua inde- de Agentes Comunitários de reia ou a já comum malária. pendência, a universalidade Saúde no Ceará e conside- Considerando que mais da e gratuidade dos serviços de rado, por muitos, o pai do metade do País, que contabi- saúde prestados pelo Esta- PACS nacional. liza 18 milhões de habitantes, do já estavam em pauta em A pesquisadora Camila vive com menos de 30 dóla- Angola. Apesar da escassez afirma que uma família ango- res por mês e as condições de recursos humanos provo- cada pelas centenas de mi- lhares de mortes, aprovou-se a Lei de Bases do Sistema Nacional de Saúde, que dá ao Estado a responsabilida- de de garantir o acesso de todos os cidadãos aos cui- dados de saúde “nos limi- tes dos recursos humanos, técnicos e financeiros dispo- níveis”. Este é o grande nó. Introduziu-se, com isso, o conceito de coparticipação dos cidadãos nos custos de saúde, o que, até hoje, não está bem delimitado. Em compensação, provocou a criatividade por soluções, e implantar um modelo de programa de agentes comu- nitários de saúde (ACS), ba- seado na solução do Brasil, foi uma delas. “A ONU vem estimulan- do o mundo a desenvolver a atenção primária, como fez o Brasil com a Estratégia Saú- de da Família e os agentes comunitários de saúde. A APS, aqui, tomou um vulto muito grande, então há bas-2
  • 62. de habitação são, em sua PACS angolano começoumaioria, insalubres, não sem característica de uni-sobra muito. versalidade e com implan- Atenção Básica: A comunidade inter- tação de piloto que não se reforços da OPASnacional vem desempe- restringiu a uma propostanhando papel fundamen- apenas, mas duas. Uma e da OMStal no auxílio aos países na capital, Luanda, e a 2007 e 2008 foram bons anosafricanos, em especial no outra em Huambo. Agora, para a visibilidade da atenção bá-financiamento da saúde após conhecer as maravi- sica no mundo. Primeiro, a Orga-(sobretudo da atenção lhas em se trabalhar com nização Pan-Americana da Saúdebásica). Hoje, os recursos agentes comunitários de saúde (ACS), Angola não (Opas) publicou um documentopara a AB estão mais di-recionados à (re)estrutu- se intimida: quer a amplia- (Renovação da Atenção Primáriaração física, centrada nos ção do projeto para outras à Saúde nas Américas) afirmandopostos, centros de saúde províncias. que focar a atenção em saúde nae hospitais municipais – atenção básica é essencial paramuitos em ruínas devido Luanda e o PACS cumprir os Objetivos do Milênioà guerra. “Estima-se que (ODM), bem como levar saúde amenos de 35% da popu- de Carlile todos, indistintamente. Para isso,lação tem acesso a insta- Era maio de 2007, ela sugere a transformação doslações de saúde em con- Mês das Mães. Mas essadições de funcionamento sistemas de saúde, amparando- foi a vez do pai. Carlile ee a menos de cinco quilô- -os na atenção básica como cen- sua esposa, Mirian, forammetros do local onde resi- convidados pelo Fun- tralizadora das ações de saúde.dem”, alerta Camila. do das Nações Unidas No ano seguinte (2008), foi a Contudo, mesmo dian- para a Infância (Unicef) vez da Organização Mundial date do cenário dramático, a participar de um proje- Saúde (OMS) se manifestar próem 2004 o Ministério da to piloto em Luanda para atenção básica com o documen-Saúde de Angola (MINSA) implantação de agentes to “Atenção Primária à Saúde,lançou o Plano Estratégico comunitários de saúde.para a Redução Acelerada agora mais do que nunca”. No “O pessoal do Unicefda Mortalidade Materno- acompanhou o projeto mesmo ano, foi firmada a Decla--Infantil, trazendo ares de do Ceará e nos chamou ração de Ouagadougou, resultan-esperança. Com ele, veio para ajudar. O governo te da Conferência Internacionalo processo de revitaliza- da província tinha o pro- sobre Atenção Primária à Saúdeção dos serviços munici- jeto, mas não sabia como e Sistemas de Saúde na África,pais de saúde, pautado colocar em prática. Então em Burkina Faso. A Declaração,em atividades de base fomos e treinamos os pri- assinada por 46 países africanoscomunitária e familiar, en- meiros agentes”, lembratre outras. Assim nasceu o médico. Com o objetivo membros da ONU, salientou a ne-o Programa de Agentes de auxiliar as famílias no cessidade de atualização de suasComunitários de Saúde cuidado à saúde e sane- políticas nacionais de saúde em(PACS) em Angola. amento básico e reforçar consonância com os princípios Surpreendentemente, o elo entre elas e as Uni- de Alma-Ata, a fim de fortalecerem virtude da descentrali- dades Básicas de Saúde os sistemas de saúde locais, en-zação administrativa vigen- (UBS), o projeto seguiu fatizando que isso poderia acele-te que força os governos uma estratégia muito si- rar o alcance dos ODM.provinciais a assumirem milar à brasileira.mais responsabilidades, o Para a experiência, 3
  • 63. foram escolhidas algumas regiões mais vulneráveis da província de Luanda (gran- des aglomerações humanas com saneamento básico precário e alta incidência de doenças infectocontagiosas) e os ACS foram seleciona- dos para atuação nas pró- prias comunidades em que moravam. “Começamos por Cacuaco, que é o município mais pobre da província de Luanda”, conta Carlile. Hoje, Cacuaco tem mil agentes e muita confiança no futuro. A cólera diminuiu consideravel- bwavali, enfermeiro angola- que tenha garantia financeira mente por conta das ações no que trabalha no projeto de sustentabilidade”. de saúde e orientações da- com Carlile e Camila Giuglia- Ninguém disse que seria das à população. E 2011 foi ni, é um orgulho estar traba- fácil. Como a própria OMS o primeiro ano sem pólio em lhando com atenção básica alerta, optar pela atenção Luanda, uma província com em Angola, mas que fica básica não é barato. Requer mais de cinco milhões de triste com a indefinição das investimentos consideráveis, pessoas. “Um ano sem pólio políticas de saúde. “Estou porém traz mais retorno do foi uma grande vitória para empenhado e gostaria de recurso investido do que al- eles”, comemora Carlile. continuar o projeto, porém ternativas centradas em mé- Para João Baptista Hum- é preciso fazer um programa dia e alta complexidade. Crescimento com desigualdade social Independente desde que se uniram pela liberta- 1975, depois de um longo ção do domínio português, processo de libertação, An- mas brigavam pelo controle gola, ex-colônia portuguesa, do país – principalmente da logo entrou em guerra, des- capital, Luanda. sozinho, levantar a nação e sa vez entre seus próprios A guerra civil entre o sanar todos os problemas pares que tinham antes, e Movimento Popular de trazidos por 41 anos de luta juntos, combatido Portugal. Libertação de Angola armada (14 contra Portugal Segundo maior exportador (MPLA), a Frente Nacional de diamantes da África Sub- de Libertação de Angola e 27 entre si). saariana e com uma econo- (FNLA) e a União Nacional Desde a pacificação, em mia capitaneada pela pro- para a Independência Total 2002, a população ango- dução de petróleo (a maior de Angola (UNITA) deixou lana experimenta um país ao sul do Deserto do Saara), mais de 500 mil mortos e mais estável politicamente era um país dividido entre um país dilacerado. Nem o e em franco desenvolvi- três grupos nacionalistas ouro negro seria capaz de, mento econômico, em taxa24
  • 64. A limitação de recursos é dados coletados pelos pró- Sérgio Zanetta e Gonzaloum problema para a continui- prios ACS de Luanda, tam- Vesina Neto, em 2008. “Pre-dade do projeto, que conta bém acredita que é possível. cisávamos construir um pro-com o trabalho praticamen- “Basta força de vontade dos jeto que agregasse valor ete voluntário dos agentes. A nossos dirigentes”. ficasse, pois havia algumasexpectativa é de 40 dólares diferenças sociais importan-mensais, porém o atraso nos Enquanto isso, do tes em uma região com pro-pagamentos fez com que a outro lado do País... blemas marcantes”, relatamaioria dos ACS procurasse Zanetta.outro emprego. Além disso, Um empresário angolano Hoje, o projeto contaa obrigatoriedade de apenas natural de Huambo, provín- com uma rede de 476 ACS,8 horas de trabalho semanais cia rural a 600 km de Luan- 42 técnicos em enferma-dificulta o bom andamento da, no coração de Angola, gem (que são ACS que sedas ações . decide ajudar a restabele- destacaram no trabalho e A expectativa, porém, é cer a saúde da população se tornaram supervisoresgrande. Carlile percebe muito de sua província de origem de campo), 5 enfermeirasinteresse por parte do gover- com a ajuda de profissionais assistenciais brasileiras (co-no da Província no projeto, de saúde brasileiros. O pro- ordenadoras de campo queinclusive para fornecer os jeto Uhayele (“saúde” em gerenciam o trabalho dosdados que os agentes conse- Umbundo, segundo idioma supervisores de campo eguem coletar com suas visitas mais falado no País e língua dos ACS) e 1 coordenadora– um retrato local. materna de 26% da popula- técnica provincial (que coor- E o enfermeiro João, que ção) começou com um am- dena todo o projeto).pretende concluir seu douto- plo diagnóstico da situação O supervisor de campo,rado na Universidade Federal sanitária local elaborado por Damasio Beu Calilongue,do Rio Grande do Sul (UFR- vários profissionais, dentre primeiro ACS do projeto, ex-GS) com uma avaliação dos eles, os médicos sanitaristas plica a diferença do seu car-média de, aproximadamente, 2010, Angola obteve a 146ª de esgoto para a maior parte6%. Os recursos advindos do posição de uma lista de 169 da população (eles utilizampetróleo têm sido direciona- países. A taxa de adultos alfa- latrinas), a água potável parados para o desenvolvimento betizados é de 67%, e 54,3% consumo é escassa e a ma-social, em especial para as seguem abaixo da linha de lária prolifera nas plantaçõesáreas de saúde e educação. pobreza, vivendo com me- de milho.É, ainda, um país em recons- nos de um dólar (US$ 1) por A taxa de mortalidade detrução, pois teve parte da in- dia”, afirma a médica e pes- crianças menores de cincofraestrutura básica (escolas quisadora Camila Giugliane anos é de 83,53 por mil nas-e unidades de saúde, por na tese de doutorado “Agen- cimentos, segundo dados deexemplo) destruída na guer- tes comunitários de saúde: 2010 da Organização Mundialra prolongada. efetividade no Brasil e pro- da Saúde (OMS), e mais de Embora esteja se tornan- cesso de implantação em 50% desses óbitos devem-sedo grande potência africana, Angola”, de 2011. à diarreia (25%), pneumoniaAngola enfrenta problemas A migração da população (20%) e malária (8%). Alémestruturais graves e enorme rural para as capitais das pro- disso, a expectativa de vidadesigualdade social, que se víncias (ao todo, 18) gerou da população angolana érefletem, seriamente, na saú- um rápido crescimento urba- baixa, a carga de doençasde. “No Relatório sobre o De- no e condições precárias de transmissíveis é elevada e assenvolvimento Humano de sobrevivência. Não há rede doenças crônicas crescem. 5
  • 65. ção oral e hoje não recebe mais, porque, durante a visi- ta domiciliar, nós ensinamos a preparar o soro caseiro. Alguns reclamam”, informa. O projeto, para a enfer- meira Analú Corrêa, vem be- neficiando as comunidades com melhorias significati- vas, focando os problemas de maior relevância (princi- palmente a malária), infec- ções respiratórias agudas, doenças diarreicas, desnu- trição e aspectos relacio- nados à saúde materna. E o supervisor Damasio com- pleta: “Ensinamos a amar o próximo, pois é dentro da go. “O supervisor é o geren- de morador local facilita o caridade que o nosso traba- te, é o responsável, quem trabalho e, como no Brasil, lho mais se apega, mais se faz o plano de atividades e ele se torna importante elo concentra”. distribui aos agentes que entre a comunidade e as Elias Francisco Vila é são indicados. E depois faz unidades de saúde”, salien- outro destaque do projeto. a cobrança, orienta as ati- ta Analú. Atualmente como gestor do vidades, acompanha as di- Para o ACS Constantino cuidado, trabalhando com ficuldades. E, caso não en- Franco Sacalembe, desde saneamento básico no me- contre solução com os ACS que o projeto começou, lhoramento físico das latri- e se não for do seu alcance, houve grandes melhorias. nas e tratamento de água, comunica à enfermeira téc- “Hoje já há entendimento foi ACS e supervisor de nica assistencial”. da importância das latrinas campo. E destaca que há, “Atuamos nas comuni- adequadas, aterros sanitá- ainda, grandes desafios. “Sobretudo na província de dades com reduzida infra- rios, aleitamento materno Huambo, o índice de latri- estrutura e sérios proble- exclusivo, uso do mosqui- nas inadequadas é elevado mas de saneamento básico teiro e fervura da água. Aqui ainda. Às vezes nos depa- e água potável disponível”, em Angola há muita dificul- ramos com algumas situa- explica a enfermeira Analú dade com a água porque ções que nos preocupam Corrêa de Souza, uma das falta tratamento. Antes, mui- bastante e, independente- coordenadoras. O projeto tas crianças adoeciam por- mente das áreas críticas, não está ligado diretamente que não se sabia da impor- eu planejo e depois par- às unidades de saúde, po- tância da fervura da água”. to para a solução, caso a rém elas são comunicadas Franco, como gosta de caso. Em Mana Culele [uma das situações de risco en- ser chamado, disse que aldeia rural da província], contradas na comunidade. aprendeu muito nos cursos tinham-se três latrinas no No trabalho cotidiano, os de formação e considera início. Depois do trabalho, ACS utilizam protocolos de que o mais difícil são as re- conseguiram-se 93 em uma coleta de dados que auxi- clamações da população. comunidade com 124 famí- liam no acompanhamento “Antigamente, a população lias. Hoje, todas têm latrinas das famílias. “Sua condição ganhava sais de reidrata- adequadas”, orgulha-se.6
  • 66. Por: Déborah Proença / Fotos: Acervo UBS Alice Tibiriçá Marcos José Alves do Nascimento Satisfação pessoal e complementação de renda, nos úl- timos dez anos, têm motivado pessoas com mais de 60 anos a procurar emprego, mesmo após começarem a usufruir a tão sonhada aposentadoria. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o número de idosos que voltaram para o mercado de tra- balho cresceu 65% entre 2000 e 2010 – de 3,3 para 5,4 milhões de pessoas economicamente ativas. Distrito Federal e Amapá registram os maiores índices de crescimento (151% e 135%, respectivamente), que é constatado, porém, em todas as regiões do País. No Rio de Janeiro, uma Unidade Básica de Saúde em Irajá, zona norte da cidade, resolveu contribuir para essa estatística contratando um agente comunitário de saúde com a ex- periência dos fios brancos. Divorciado, pai de dois filhos homens, com 36 e 34 anos, e uma moça com quase 30 (ele insiste em se referir a eles como “meninos”), Marcos Nascimento é potiguar de Na- tal, Rio Grande do Norte, e se mudou com a família para o Rio de Janeiro aos 9 anos. Felizmente, segundo ele. Leitor voraz, adora escrever. “É o meu lado jornalista frustrado”, brinca. Bem articulado, o técnico em contabi- lidade credita o raciocínio lógico rápido e sua facilidade em se expressar à leitura. É possível que seu interesse porRBSF: Por que escolheu filmes “que instigam o pensamento e fazem com que você cres-essa profissão? Em algum ça em relação à vida” tenham contribuído para essas caracterís-momento se arrependeu? ticas. Ou será o inverso?Marcos Nascimento: Eu Hoje, com 60 anos recém-completados, Marcos compartilha co-não conhecia este trabalho. nosco o que aprendeu – e ensinou – nesses dois anos em queSempre me virei por conta atua como ACS.própria, com vendas, mas de você conhecer mais pro- foi algo planejado a contra-andava estressado e muito fundamente o ser humano tação de uma pessoa maiscansado, até que um dia vi e perceber como há uma di- velha. Após minha admissão,um anúncio no bar do bairro versidade de pessoas e tem- na primeira reunião de equi-convocando para um con- peramentos. Aprendemos a pe, minha antiga gerente mecurso para o cargo de agen- conhecê-lo melhor, conhecer contou que, por ela, não teriate comunitário de saúde. Aí me contratado. Alegou que, suas necessidades, que nemme inscrevi e passei. E nunca na época, acreditava que a sempre são médicas. Às vezes minha idade poderia influen-me arrependi, pelo contrário! são necessidades emocionais ciar na atitude profissional,Apesar de a remuneração ser que se refletem no organis- usando de subterfúgios parabaixa, é muito gratificante, mo, e aprendemos a distin- evitar trabalhar conforme aspois é um trabalho dinâmico, guir a diferença. necessidades da unidade,que não cai na rotina, em que RBSF: A sua contratação como fazem muitos que jápodemos desenvolver várias partiu de uma decisão da trabalham há tantos anos.coisas de acordo com nossas gerência da Unidade Bá- No entanto, ela confessouaptidões e habilidades. Além sica de Saúde (UBS) ou do que estava muito feliz por terdo contato com as famílias município? desistido da ideia de não meser muito valioso, no sentido Marcos Nascimento: Não contratar em razão do pre- 7
  • 67. conceito da idade e que esta- mim, é exercitar a mente e resistência, que hoje já está va muito satisfeita com o meu ter uma boa qualidade de muito menor. O tratamento trabalho. Fez vários elogios. vida. Fazer o que se gosta é diferenciado, sim, talvez RBSF: O que achou dessa em virtude dos cabelos bran- é fundamental! E trabalhar oportunidade? cos, se bem que isso não tem como ACS me instiga, pois muito a ver, na prática, pois Marcos Nascimento: Achei possibilita que eu converse existe muita gente que não muito interessante, porque com diferentes pessoas – coi- respeita as pessoas mais ve- não é muito comum a con- sa que adoro – e exercite mi- lhas. A idade facilita; cria uma tratação de mão de obra com nha capacidade de escrever confiança maior em receber o mais de 50, e eu tinha qua- e me posicionar diante das agente, mas se o cadastrado se 60! Nunca conheci outro está com problemas a idade pessoas. Sempre quero parti- do agente não importa. Se agente sexagenário. cipar de tudo, algo que só o ele precisar falar e reclamar, RBSF: Quantas famílias o trabalho como ACS me pro- vai falar, independentemente senhor atende? Seu traba- porciona. da idade de quem esteja lá lho é diferenciado em virtu- RBSF: Há alguma coisa que para escutá-lo. de da idade? não possa ou consiga fazer? RBSF: : E como o você age Marcos Nascimento: Não, nessas situações? Marcos Nascimento: Não Marcos Nascimento: É pelo contrário! Continuo fa- tenho qualquer limitação físi- um exercício de paciência; zendo o que todo mundo ca. Faço todo o meu trabalho é preciso neutralizar essa faz, com muita tranquilidade. e visito todas as famílias da violência, até mesmo com Atendo 162 famílias e traba- minha microárea, conforme o silêncio. Aí, mostramos lho quase que somente em definido junto à equipe. o que está acontecendo na prédios, subindo os quatro RBSF: Como a comunidade unidade, como ela está tra- andares sem problemas ou recebe você? Percebe al- balhando em benefício da gum tratamento especial? comunidade. Fazer com que limitações. A medicina avan- Marcos nascimento: A co- o cadastrado perceba que çou muito nos últimos anos, munidade sempre me rece- estão acontecendo muitas a expectativa de vida aumen- beu muito bem, embora no coisas boas, sim, e que a tou. O mais importante, para início tenha havido muita Saúde da Família, esse pro-88
  • 68. jeto tão bonito e fascinan- cionei de forma clara, sem mim, é muito gratificante tra-te, realizou vários avanços. agredir ou ofender ninguém. balhar com essa juventude,RBSF: : Trabalhar na Saú- Sempre fui muito bem rece- pois podemos conhecer osde da Família lhe trouxe o bido, nunca deixei rugas ou anseios que vive.que, pessoalmente? mágoas em qualquer colega, Além de jovens, estou emMarcos Nascimento: Fico desde os porteiros e funcio- um meio predominante-muito feliz em fazer parte nários dos serviços gerais até mente feminino – sou odeste trabalho, pois se desco- os enfermeiros e médicos. único homem. E isso mudoubrem coisas que se desconhe- Meu ambiente profissional é minha visão com relação àscia possuir. No meu caso, a mulheres. Elas transformampaciência. Eu sabia que tinha, o ambiente. Dão mais cor,apenas não sabia que tinha “...conhecer mais mais alegria, mais barulho,tanto! profundamente mais criatividade.RBSF: Como é sua relação RBSF: É difícil ser ACS emcom os colegas ACS? o ser humano e plena terceira idade? QuaisMarcos Nascimento: Não perceber como há os maiores desafios?tenho problemas com nin- Marcos Nascimento: : Acho uma diversidade que sim, mas é difícil em qual-guém. Sou querido por todos.Mantemos uma relação de de pessoas e quer idade. No início, tivemos muitas dificuldades aqui emrespeito e coleguismo muito temperamentos. Irajá. No meu entendimento,boa, mas não sei se essa boa Aprendemos nas áreas urbanas, as dificul-relação é devido à idade ou à dades em trabalhar com apostura. Acredito que a ida- a conhecê-lo Saúde da Família são maiores.de tenha importância, mas a melhor, conhecer Tivemos muita rejeição, ini-postura, a forma como a gen- suas necessidades, cialmente. Muita gente nãote se coloca diante das situa- abre a porta; diz que não pre- que nem sempre cisa, que não tem interesse. Oções cotidianas da UBS, e obom senso servem como um são médicas...” morador do centro urbano é muito diferente dos interiora-exemplo para muita gente. nos. Hoje, ainda existem pes-RBSF: E com o restante da soas que mal falam, mas háequipe? aqueles que recebem você naMarcos Nascimento: Tam- porta, oferecem café.bém é uma relação muito formado por pessoas muito RBSF: Acredita que a recep-boa, muito tranquila. Quando jovens, o que poderia ser um tividade da comunidade étive problemas, eu me posi- obstáculo, mas não é. Para maior com o senhor? 9
  • 69. Marcos Nascimento: Se é viúvas porque os maridos não do as pessoas se abrem e fa- maior ou não, não sei avaliar. cuidaram da própria saúde. lam sobre os seus problemas. Mas percebo que minhas co- São pessoas solitárias, geral- RBSF:Tem algum recado legas acreditam que eu impo- mente, e precisam desabafar, para os ACS leitores da Re- nho mais respeito pela idade, ter com quem conversar. vista Brasileira Saúde da e que determinadas tarefas RBSF: Dê exemplos do que Família? poderiam ser executadas por você já aprendeu com a co- Marcos Nascimento: Tenho mim. Acho que são os cabe- munidade. sim, principalmente para os los brancos... Marcos Nascimento: Uma jovens. Enquanto estiverem RBSF: Sofre algum tipo de das coisas que aprendi e que na saúde, atuando como preconceito? agentes comunitários de saú- Marcos Nascimento: Não, de, é preciso vestir a camisa. nunca sofri qualquer precon- A função de ACS requer dedi- ceito com relação à idade. “...Você passa a cação, compreensão e afeto. Há, até, certa admiração por ser adotado pela Procurem realizar o trabalho parte da população por estar comunidade e com seriedade, com amor, desenvolvendo este trabalho sem que isso os impeça de na minha idade, principal- começa a viver perseguir os próprios sonhos. mente por estar em um meio o dia a dia das Não estamos lidando com tão jovem. Ainda me espanto automóveis ou ventiladores; quando me chamam de “Seu famílias...” são gente. Pessoas com mui- Marcos”, pois nunca foi há- ta importância e que mere- bito na minha casa. Meus fi- cem respeito. Além disso, os lhos me chamam de “você”. agentes precisam valorizar o É estranho. seu papel, sua posição, preci- RBSF: Como lida com esse me impressionou muito foi a sam adotar uma postura mais estranhamento? diversidade de dramas que madura e condizente com Marcos Nascimento: Às ve- as pessoas têm. Você passa a a profissão – não somente zes, deixo a saúde de lado e ser adotado pela comunidade conosco, mas também com puxo conversa sobre a vida, e começa a viver o dia a dia outros profissionais –, pois, pois eles precisam de aten- das famílias, torna-se quase dentro das nossas limitações ção. Então procuro diversifi- um membro. E, assim, perce- profissionais, muitas vezes car. Minha comunidade tem be os dramas que antes você podemos resolver problemas muitos idosos solitários, na não tinha nem noção. É uma que surgem que outros não maioria mulheres que ficaram lição de vida para mim quan- o fariam.10
  • 70. Tome Nota Por: Raphael Gomes / Fotos: Acervos Telessaúde RS/SCACS incorporam Telessaúdecomo instrumento de formação RSO Telessaúde Brasil a busca por capacitação per- ões presenciais das equipes Redes é um progra- manente, o que qualifica a e suas consequentes trocas ma do Ministério da rotina de trabalho desses pro- de informações, discussõesSaúde de apoio às equipes de fissionais e suas equipes. de casos, planejamento deatenção básica. Entre os pro- Eduardo Melo, coordena- ações e avaliações do pró-fissionais da atenção básica à dor geral de Gestão da Aten- prio trabalho.saúde, os agentes comunitá- ção Básica, do Departamen- “A participação dos pro-rios de saúde (ACS) têm aces- to de Atenção Básica (DAB), fissionais das equipes é cres-sado com muita frequência as explica que os ACS vivenciam cente. As últimas pesquisasações desse programa, con- situações em que precisam que fizemos sobre a utiliza-duzido pelas Secretarias de sanar não apenas as suas dú- ção da Biblioteca Virtual doAtenção à Saúde (SAS) e de vidas, mas as da comunidade. programa em 2010, 2011 eGestão do Trabalho e Educa- Nesse sentido, o Telessaú- 2012 indicam que cresceu oção na Saúde (SGTES). O fato de é uma ferramenta com- número de ACS que partici-de os ACS se apoderarem da plementar fundamental no param desses levantamentosferramenta, além de expres- processo de formação, que de 7% em 2010 para 17% dosar êxito na intenção de for- não descarta – ao contrário, total de acessos em 2012. Amação complementar, revela soma – os encontros e reuni- avaliação que fazemos é que 11 11
  • 71. o programa Telessaúde Bra- “...explica que ações do programa, com des- sil Redes vem despertando os ACS vivenciam taque para as webconferên- cada vez mais interesse nos cias e as teleconsultorias. “Os profissionais e trabalhadores situações em que ACS são muito empolgados do SUS, por permitir acesso precisam sanar e proativos nas teleconsulto- à informação e formação de não apenas as rias”, afirma Cutolo, ao mes- forma contínua. O programa mo tempo em que diz que está em constante expan- suas dúvidas, mas as ações visam a estimular o são”, afirma Felipe Proenço, as da comunidade. diálogo entre as equipes. “O diretor-adjunto do Departa- agente comunitário de saúde mento de Gestão da Educa- Nesse sentido, tem papel-chave no trabalho ção na Saúde (DEGES/SGTES). o Telessaúde é das equipes, mas nós aposta- Em Santa Catarina, 245 ci- uma ferramenta mos na equipe”, reforça. dades (83,6% dos municípios Denise de Oliveira é agen- do Estado) estão cadastradas complementar te comunitária do município no Núcleo Telessaúde SC, das fundamental de Pirituba (SC) e começou a quais 165 participam ativa- no processo de participar das ações síncro- mente de algum tipo de ser- nas (webconferências e tele- viço oferecido pelo Núcleo. formação...” consultorias) do Telessaúde Atualmente, ele é responsá- as atividades são pensadas direcionadas a sua rotina de vel pelo atendimento de 953 para atingir, sem distinção, trabalho no início deste ano. equipes de saúde. Luiz Rober- a todos os profissionais, mas Esses encontros ocorrem, ex- to Agea Cutolo, coordenador observa que os ACS têm par- plica Denise, a cada 15 dias do Telessaúde SC, reforça que ticipado cada vez mais das na Unidade Básica de Saú- Trabalho em equipe O Telessaúde Brasil Redes é uma atualiza- que não implica a falta de reuniões presenciais ção do Programa Nacional de Telessaúde, ins- das equipes; (c) as respostas elaboradas pelos tituído pela Portaria nº 35, de 4 de janeiro de teleconsultores são pensadas de acordo com as 2007. É uma ferramenta que visa a desenvolver especificidades de cada profissional, podendo, ações de apoio à atenção à saúde e de educa- inclusive, sugerir que determinada demanda ção permanente das equipes de atenção bási- seja discutida ou repassada para outro membro ca. Sua perspectiva é de melhoria da qualidade da equipe a qual o profissional solicitante da do atendimento, de ampliação do escopo de teleconsultoria está vinculado. ações ofertadas por essas equipes e de aumen- Aumentar a resolutividade clínica da aten- to da capacidade clínica, por meio da oferta ção básica, reduzir o número de encaminha- de teleconsultoria, segunda opinião formativa mentos desnecessários e melhorar a qualida- e telediagnóstico. de dos encaminhamentos necessários estão Pressupõe o entendimento, basicamente, de entre os desafios atuais do Telessaúde, que três princípios: (a) todos os profissionais podem podem ser superados com a articulação com participar das atividades; (b) é uma estratégia as centrais de regulação e processos de regu- complementar de formação dos profissionais lação do acesso.12
  • 72. RSde (UBS) do seu município. visto na portaria e na página atuante há cinco anos emÉ importante destacar que 34 do manual do Telessaúde Itajaí, participa mensalmenteo Telessaúde não funciona (www.telessaudebrasil.org.br). das webconferências. Ela pas-apenas duas vezes por mês, sou a acessar o Telessaúde emmas durante o tempo todo “...É importante 2012 e acredita que a trocapor meio de outras ativida- de informações e a interaçãodes para os diferentes profis- destacar que com as equipes contribuemsionais, a exemplo das ações o Telessaúde para ampliar o olhar sobreassíncronas, que, geralmen- situações cotidianas e pensar não funcionate, envolvem questões rela- em alternativas para resolvercionadas à atenção básica, apenas duas diferentes demandas. “Facili-tais como problemas comuns vezes por mês, ta o trabalho no dia a dia”,de saúde; relações entre os resume a agente.indivíduos, suas famílias e mas durante o No Rio Grande do Sul,comunidades; e processo tempo todo por o Telessaúde abrange 127de trabalho das equipes de municípios com pontos in-saúde, entre outros. Para a meio de outras formatizados, atingindo di-agente, o programa é uma atividades para retamente 286 equipes deoportunidade de melhorar o os diferentes atenção básica. Carlos Andréseu trabalho, na medida em Aita Schimitz, coordenadorque as dúvidas do cotidiano profissionais...” executivo do Núcleo gaú-são sanadas. O prazo para as cho, destaca que o Telessaú-respostas de teleconsultoria Da mesma forma, a ACS de oportuniza qualificação eé de 72 horas, conforme pre- Elisângela Neves de Sousa, contribui para diminuir a ca- 13
  • 73. SC rência de ações para os ACS. pontos ligados ao núcleo Te- como positiva essa interação Nesse sentido, webpalestras lessaúde AM – incluindo dois dos ACS por vários fatores. e cursos são pensados espe- em áreas indígenas (Yauare- Um deles evidencia uma de- cificamente para esses pro- tê e Umirituba) – e são aten- manda reprimida de ações fissionais, com cuidados que didas 353 equipes de saúde para os agentes, carência que na região. foi superada de modo a carac- abrangem desde os temas que Para além das particulari- terizar o núcleo do Amazonas serão abordados até a lingua- dades culturais, a participa- como um dos maiores em ter- gem a ser utilizada. ção ativa dos ACS é destaca- Entre os temas mais acessa- mos de teleducação, afirma da por Cleinaldo de Almeida dos no Núcleo do Rio Grande Cleinaldo. Outro destaque é Costa, coordenador do nú- do Sul destacam-se: educação a apropriação das webcon- cleo amazonense, como fun- em saúde, aconselhamento ferências por esse público, o damental para a melhoria do e dieta com enfoque psicoló- que representa um avanço no atendimento nas comunida- gico, endócrino, metabólico des. Essa participação rende alcance das ações diante das e nutricional; problemas de- atividades específicas, que dificuldades de deslocamen- pressivos; e medicina preven- contemplam temas deman- tos das equipes de atenção tiva e manutenção da saúde. dados pelos próprios agentes básica na região. Outro fator Subindo no mapa do Brasil em uma linguagem voltada à é a real apreensão dos conte- até o Amazonas, dos 62 mu- sua rotina de trabalho. údos para otimizar as práticas nicípios do Estado, 52 têm O coordenador classifica de trabalho dos ACS. Saiba mais! Cada núcleo do Telessaúde oferece ativida- pelo programa, contribuindo, dessa maneira, des específicas para as demandas dos pro- para a melhoria do atendimento da atenção fissionais das equipes de saúde. Levam em básica. No site www.telessaudebrasil.org.br, consideração as observações decorrentes da você pode acessar os núcleos estaduais e par- rotina de trabalho dos membros desses gru- ticipar das ações desenvolvidas. Não deixe de pos. Neste momento, estão sendo implanta- acessar o site, fazer suas perguntas e acompa- dos em todos os Estados do País núcleos do nhar as novidades e ofertas de atividades do Telessaúde para ampliar o número de profis- programa. Participe e incentive seus colegas sionais e equipes de atenção básica atendidos de equipe a participar também!14
  • 74. Crônica O ACS na promoção da saúde da Saúde Texto: Marcos Nascimento* Ilustração: Roosevelt Ribeiro Somos todos iguais no processo de promover e “adotados” como integrantes de inúmeras famíliasprevenir a saúde na atenção básica, em que cada sob sua responsabilidade.categoria tem sua importância inquestionável. Não Aproveitar o melhor de cada um desses profis-tenho intenção de ser corporativista e, caso assim sionais, reunir seus talentos individuais e promoverseja interpretado, peço desculpa, mas não posso a melhora da autoestima permitirá às equipes dedeixar de considerar o agente comunitário de saú- saúde ter ferramentas preciosas na condução dode, o ACS, um recurso humano indispensável no processo de trabalho. Ser um ACS requer afeto,contexto da Estratégia Saúde da Família. cumplicidade, compromisso e dedicação, espírito de Considerando as diferentes individualidades trabalho em equipe e postura firme diante dos obs-desses profissionais, sua diversidade cultural, social, táculos que o próprio sistema cria na rotina de suasfamiliar, a multiplicidade de talentos inatos, de ex- inúmeras atividades. Muitas dessas ações não sãoperiências de vida e profissionais, o ACS é um re- programadas, em consequência do inesperado dascurso valioso, desde que capacitado regularmente situações comuns na área da saúde, que dificultampor seus supervisores. É o canal de observação, co- o cumprimento de sua agenda de trabalho.municação e ação entre a comunidade e a unidade Somos tantos em um: escritores, locutores, can-de saúde, esclarecendo e divulgando os serviços que tores, desenhistas e atores. Somos acompanhantesestão à disposição dos usuários, desconhecidos por em caminhadas de grupos de hipertensão e diabé-estes muitas das vezes. ticos, sob a supervisão de um profissional de educa- Como todos sabem, os ACS são moradores em ção física. Temos a possibilidade de produzir mídiasuas comunidades, e cada beco, viela, rua estão de- visual, após capacitação recebida em cursos de mul-marcados em suas memórias. O território é mapea- timídia e oficinas de vídeo maker, um recurso midi-do, dividido em áreas e microáreas e, posteriormen- ático valioso na divulgação das ações educativas ete, são cadastradas as famílias, uma etapa difícil do campanhas preventivas organizadas pela unidade.trabalho, por enfrentarem rejeição e descrédito dos Nossa origem é de classes sociais desfavorecidas,usuários, principalmente nas áreas urbanas, ao con- tendo que estudar e trabalhar em condições adver-trário das comunidades de moradores da periferia, sas de sobrevivência, muitas vezes em meio social si-nas quais os beneficiários das ações e serviços de tiado pela violência marginal e a truculência policial,saúde se mostram mais receptivos. Em seguida, ini- resistindo contra a sedução do poder e dinheiro fácilciam a fase das visitas domiciliares, quando aguçam acenados pelo tráfico de drogas. Entretanto, todoso olhar, desenvolvem a percepção e a sensibilidade, têm suas aptidões, sua centelha de criação à esperapossibilitando uma visão mais ampla do contexto do sopro libertador das ideias.em que germinam as enfermidades, muitas das ve- Temos escritores, sim. Claro que intuitivos, semzes consequências dos conflitos familiares ou desa-justes sociais. O agente aprende a olhar o indivíduocomo parte de um núcleo familiar, emque situações de abandono, indiferença,conflitos, traumas, violências, frustraçõese outros sentimentos devastadores – quepotencializam a enfermidade – são bemcomuns. Nessas situações, o tratamentoindicado nem sempre é a prescrição mé-dica, mas sim a escuta atenta e cuidado-sa, o afeto e a solidariedade de todos osprofissionais da equipe de saúde, princi-palmente dos ACS. Afinal, passam a ser 15
  • 75. o domínio da técnica literária, mas ca- “...sua as oficinas de judô oferecidas a pazes de mostrar uma produção sen- crianças de uma comunidade mar- sível, poética e crítica, resultante de diversidade cada pela violência. Paralelamente suas observações e experiências. Têm cultural, social, às suas atividades, prestam um em comum o gosto pela leitura, o gosto pelo cheiro dos livros, e acham familiar, a serviço social de resgate da cidada- nia, passam lições de solidariedade que utilizar a literatura dos grandes multiplicidade e disciplina, investindo na forma- escritores e poetas nas salas de espera de talentos ção do homem do futuro em cujas seria um lenitivo confortador e conso- lador à angústia que precede o aten- inatos, de mãos estará a responsabilidade da mudança para um mundo mais dimento médico. A poesia de Mário experiências justo, mais ético e com menos de- Quintana ou Drummond, um trecho de Jorge Amado, Machado de Assis de vida e sigualdades sociais. Todos temos responsabilidade na educação das ou Clarice Lispector seriam cápsulas profissionais, crianças, sejam nossos filhos ou literárias eficazes no tratamento das dores da alma. o ACS é não, e os companheiros ACS estão Nas festas comemorativas do Dia um recurso cumprindo a missão que lhes foi dos Pais, Dia das Mães, Dia Interna- dada. Medalhas e troféus já foram cional da Mulher e Natal, temos vários valioso...” conquistados por alguns desses bons locutores e cantores cujas vozes interpretam meninos em competições, mas o maior prêmio será textos e canções que estimulam a comunidade a in- vê-los subir no pódio do bem. teragir e participar ativamente dos eventos, sempre Aproveito a generosidade do espaço concedi- num clima de muita alegria e emoção. do para um recado aos meus colegas: todos têm Nas ações e oficinas, revelam-se atores na figura direito de buscar suas aspirações e sonhos. Nada representativa de um mosquito, de um piolho, ou mais justo! Entretanto, enquanto estiverem nessa se caracterizam de Zé e Maria Gotinha, encantando função, dediquem-se com afeto, amor, empenho, as crianças. Interpretam jovens casais na representa- sejam solidários e comprometidos com o trabalho. ção da gravidez precoce ou dos perigos resultantes Nosso empenho é pelo bem-estar, pela saúde e pelo do não uso de preservativos, utilizando linguagem respeito ao próximo. lúdica e circense, o que facilita a compreensão e Tantas atividades dificultam o cumprimento de assimilação das mensagens. Temos companheiros nossas metas, entretanto são úteis para nossa evo- que trabalham com o teatro de fantoches, ou são animadores, palhaços, enfim, artistas cujo único ob- lução pessoal e desenvolvimento de nosso potencial jetivo é a alegria, é fazer sorrir. criativo. Certamente seremos reconhecidos e valori- Aproveitando o carnaval, os ACS formaram um zados por nossos gestores e população, pois já so- bloco de rua tipicamente carioca, com fantasias e mos parte da paisagem carioca. instrumentos improvisados, batizado de GRBC PRE- Alguns companheiros precisam melhorar suas VENIR É O MELHOR REMÉDIO. A marchinha que os atitudes e postura, construir uma imagem positiva, agentes compuseram tratava, de forma bem hu- demonstrar maturidade, desenvolver conhecimen- morada, de temas como hipertensão, diabetes, HIV, tos e ter interesse no próprio crescimento. Afinal, o dengue e cuidados com a saúde bucal, convidando ACS é um agente transformaDOR! a população do bairro a procurar nossa unidade para receber o atendimento devido. *Marcos Nascimento é agente comunitário de saúde na Companheiros de outras Clínicas da Família de- UBS Alice Tibiriçá,localizada em Irajá, no município do senvolvem projetos muito interessantes, entre eles Rio de Janeiro/RJ. Você faz a crônica, elabora textos técnicos, escreve artigos ou conta contos? Mande para nós. Esta seção foi feita para você se comunicar conosco! Envie também sugestões de matérias, entrevistas para a revista, ou suas críticas. Entre em contato com a redação: revista.sf@saude.gov.br , a Revista Brasileira Saúde da Família reserva-se o direito de publicar os textos editados ou resumidos conforme espaço disponível.16