O refúgio secreto

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O refúgio secreto

  1. 1. O REFÚGIO SECRETOCorrie ten BoomJohn e Elizabeth SherrillOriginalmente publicado em inglês sob o título “The HidingPlace”Copyright © 1971, Corrie ten Boom e John e Elizabeth SherríllPublicado pela l vez em português pelaEditora Betânia S/CC. P. 30.000 Venda NovaMG - BRASILEdição para PortugalCopyright © 1982 NÚCLEO - Centro de Publicações Cristãs,Ltda.Apartado l • 2746 QUELUZ Codex • PORTUGALTodos os direitos reservados Proibida a reprodução sob todasas formas, mesmo parcial, sem autorização do editor.Adaptado da tradução Brasileira por Joaquim Barreiros CapaBetty e Dan DyeImpresso em Portugal porNÚCLEO - Queluz1ª Edição • 3000 exemplares • Janeiro 1985***(foto)Corrie ten Boom, autora de O Refúgio Secreto.(desenho de corte transversal)O Beje (lê-se be-iê) - diagrama da velha e centenária casa daCorrie ten Boom, que hoje ainda pode ser vista no centro dacidade de Haarlem, na Holanda.(foto)O pai(foto)A Mãe(foto)A Nollie, a Corrie e a Betsie(foto)Saindo do quarto secreto(foto)Membros da rede clandestina e alguns dos judeus escondidos.***
  2. 2. PREFÁCIO ... 11CAPÍTULO I - O Centenário da Loja ... 13CAPÍTULO II - Todos À Mesa ... 25CAPÍTULO III – Karel ... 35CAPÍTULO IV - A Relojoaria ... 47CAPÍTULO V - A Invasão ... 58CAPÍTULO VI - O Quarto Secreto ... 71CAPÍTULO VII – Eusie ... 82CAPÍTULO VIII - Nuvens Escuras ... 99CAPÍTULO IX - A Batida ... 111CAPÍTULO X - Scheveningen, a Penitenciária ... 121CAPÍTULO XI - O Tenente ... 139CAPÍTULO XII - Vught, o Campo de Concentração ... 147CAPÍTULO XIII - Ravensbruck, o Campo de Extermínio ... 163CAPÍTULO XIV - A Blusa Azul ...175CAPÍTULO XV - As Três Visões ... 191Epílogo ... 207Três Maneiras de Aplicar a Mensagem Deste Livro À SuaVida ... 209***O Refúgio SecretoUma história como esta, com elementos de “suspense”, ternura,humor e terror, só aparece uma vez em cada geração.No início de O Refúgio Secreto, a Corrie deixa escapar ogrito: “Ah! Pai, Betsie, se eu soubesse, teria eu feito o quefiz? Teria eu tido coragem? Mas como poderia eu prever? Comopoderia eu supor que esse velhinho de cabelos brancos, a quemtodas as crianças de Haarlem chamavam avô, seria sepultadopor estranhos, num túmulo desconhecido?“E Betsie, com o seu vestido de gola de renda e o dom dedifundir beleza ao seu redor, como poderia ela pensar que apessoa a quem eu mais queria, seria forçada a aparecer nuanuma sala cheia de homens?”Estas coisas aconteceram - e outras piores - e desse grandesofrimento saiu uma das mais notáveis mulheres do nossotempo, trazendo uma mensagem que precisa ser ouvida por todosaqueles que se esforçam para encontrar uma vida com maissentido neste conturbado século XX. Estes terríveisacontecimentos narrados em O Refúgio Secreto não pertencemapenas a um momento da História, mas a todos os que se lheseguiram.Com a facilidade de ver sempre o lado prático de tudo, o quea tornou uma das mais procuradas conferencistas dos nossosdias, a Corrie mostra-nos como podemos amar a quem nos odeia,
  3. 3. como podemos entrar no céu estando no meio do inferno, comopodemos manter a lucidez num mundo que perdeu a razão.O Refúgio Secreto é um livro que o leitor não abandonafacialmente. Somente depois de ler a última página é que seapercebe de que o que leu não é apenas uma aventuraemocionante. Nas nossas mãos encontra-se a chave da soluçãodos nossos problemas.11PrefácioDurante todo o tempo em que fizemos os nossos trabalhos depesquisa para o livro O Contrabandista de Deus, um nomedesapontou várias vezes: Corrie ten Boom. Essa mulherextraordinária - que estava com os seus setenta e cinco anosquando ouvimos falar dela pela primeira vez - era o melhor“companheiro de viagem” do Irmão André. As históriasfascinantes que este nos contou a seu respeito, no Oriente -onde era conhecida pelo nome honroso de “Velha avó” - enoutras partes do mundo, vinham-lhe à memória com talfrequência, que acabamos por lhe pedir que parasse com aquelatorrente de recordações. “Ela não vai poder figurar nestelivro”, dissemos. “Ela sozinha é um livro!”São estas coisas que a gente diz sem querer insinuar nada.Em Maio de 1968, estávamos na Alemanha, e fomos assistir aoculto numa certa igreja. Um homem estava a contar os horroresque tinha sofrido num campo de concentração nazista. A suaexpressão era ainda mais eloquente do que as suas palavras;os olhos guardavam a lembrança da dor; as mãos tremiam - mãosque não conseguiam esquecer... Seguiu-se lhe no púlpito umamulher de cabelos brancos, alta e forte, calçando sapatosgrossos, cujo rosto, pelo contrário, irradiava alegria, paz eamor. Ela relatava os mesmos factos. Também ela tinha estadonum campo de concentração, também tinha presenciado as mesmascenas brutais e sofrido as mesmas perdas. Enquanto que ossentimentos dele eram perfeitamente compreensíveis, os deladavam que pensar.Terminado o culto, deixámo-nos ficar para lhe falar. Assimque principiamos a conversa, percebemos logo que se tratavada Corrie ten Boom, de quem o André nos tinha falado.O maravilhoso ministério de consolar e aconselhar da Corrieten Boom tinha começado no campo de concentração, onde elaencontrou um “... Esconderijo contra o vento... Refúgiocontra a tempestade... Sombra de grande rocha em terra seca”.Ali
  4. 4. 12também aprendeu a verdade de que, quando o pior acontece, omelhor ainda está para vir.Em palestras posteriores, chegamos a conhecer bem esta mulheradmirável. Com ela visitamos a casa estreita, tipicamenteholandesa - apenas uma sala a toda a largura - onde, até aoscinquenta anos, ela levou uma vida pacata de solteirona, aconcertar relógios e a cuidar da irmã mais velha e do paiidoso, sem nem sequer sonhar que um mundo de aventuras edesventuras lhe estava a bater à porta. Visitamos aquela casado sul da Holanda, em cujo jardim a jovem Corrie entregou aoKarel o seu coração, e também a espaçosa mansão de Haarlem,onde, em plena guerra, o Pickwick serviu bom café aos amigos.E no meio de tudo isso, tivemos a nítida impressão de que nãoolhávamos para o passado, mas sim, para o futuro. Era como seaqueles lugares e aquelas pessoas nos estivessem a falar nãosobre factos já passados, mas sobre o mundo que nos esperava,na década de 70. Já demos, algumas vezes, connosco a pôr emprática os segredos espirituais que com ela aprendemos arespeito de como suportar uma separação;Como se contentar com pouco;Como se sentir seguro no meio da insegurança;Como ter forças para perdoar;Como Deus usa as fraquezas;Como lidar com pessoas problemáticas;Como encarar a morte;Como amar os inimigos;O que fazer quando o mau é vitorioso;Mencionamos o facto de que tudo o que nos contava era muitoprático, e que essas lembranças do passado estavam a lançarluz sobre alguns dos nossos problemas actuais. “Mas é paraisso que o passado serve”, respondeu. “Cada experiência queDeus nos concede, cada pessoa que passa pela nossa vida, fazparte da nossa preparação para um futuro que somente Ele vê”.Cada experiência, cada pessoa: o pai, que era o melhorrelojoeiro da Holanda, mas que sempre se esquecia de mandaras contas dos consertos; A mãe, cujo corpo se lhe tornara emprisão, mas cujo espírito vagueava livremente; A Betsie, quecom três batatas e um bocadinho de folhas de chá já usadas,sabia organiza uma festinha. Ao fitar os olhos brilhantesdaquela mulher forte, quase desejamos que essas pessoastenham feito parte da nossa vida também.Depois, naturalmente, vimos que afinal faziam John eElizabeth Sherríll.13
  5. 5. CAPÍTULO IO Centenário da LojaSaltei da cama naquela manhã com uma preocupação - o diaestaria claro ou não? Na Holanda em Janeiro, geralmente otempo e úmido, frio e o céu fica nublado. De vez em quando,porém, num raro dia de magia e encanto, brilha um sol deinverno. Cheguei à janela do quarto, e debrucei-me até ondepude. Do Beje era sempre muito difícil ver o céu. Dei com umaparede de tijolos, que era o fundo douta construção antigadesse atulhado centro de Haarlem. Esticando o pescoço aomáximo para ver melhor, consegui divisar, lá em cima, umanesga do céu cor de pérola, por sobre o emaranhado dostelhados e chaminés tortas. O dia da nossa festa ia sercalorento.Tirei o meu vestido novo do nosso velho guarda-roupa de pés aabanar, encostado a parede, e ensaiei uns passos de valsa. Oquarto do pai era por baixo do meu, mas aos setenta e seteanos, ele dormia a bom dormir."Esta era uma das vantagens davelhice", pensei, enquanto enfiava os braços pelas mangas edava uma olhadela ao espelho para ver como estava.Embora em 1937 algumas mulheres já usassem as saias pelaaltura dos joelhos, eu ainda usava a minha bem compridas.Tu não estas a ficar nada nova, comentei para mim mesma.Talvez fosse o facto de vestir um vestido novo que me levassea olhar para mim mesma com um pouco mais de atenção do quegeralmente fazia quarenta e cinco anos, solteira, e já meiopesadona.A minha irmã Betsie, embora fosse sete anos mais velhos doque eu, ainda era graciosa e esbelta. Às vezes, as pessoasparavam na rua para a admirarem. Sei muito bem que não erapor causa da roupa. A nossa relojoaria nunca nos permitiramuito luxo, mas quando a Betsie vestia um vestido novo,parecia que ela sofria uma transformação.Comigo - antes que a Betsie resolvesse modificar-me - eramuito diferente: as bainhas dependuradas, as meias rasgadas,a gola torta. Desta vez,porém - pensei afastando-me do espelho o máximo que mepermitia o pequeno espaço do quarto - o efeito daquelevestido novo, castanho-escuro, era excelente.Lá em baixo a campainha tocou. Convidados, já! Abri a porta e14desci rapidamente a escada em espiral e íngreme. Essa escada
  6. 6. não tinha sido feita quando a casa, de início. Na verdade,havia duas casas. A da frente tinha a estrutura típica dascasas de Haarlem - três andares, duas divisões no comprimentoe uma na largura. A certa altura da sua existência, a paredede trás tinha sido demolida para que ela fosse unida à quelhe ficava ao fundo, e que era ainda mais estreita e esguia -tinha apenas três quartos, uns sobre os outros. Entre as duascasas, estavam à escada estreita, em caracol.Embora eu tivesse descido depressa, a Betsie chegou à portaprimeiro. Um ramo enorme tapava a entrada. Assim que ela osegurou, o rapazinho que o trouxe apareceu detrás dele."Lindo dia para a festa", disse, procurando olhar para dentroda sala como se o café e o bolo já estivessem servidos. Maistarde, ele viria, assim como, ao que parecia, toda a gente deHaarlem.Procuramos o cartão entre as flores."Pickwick!" Gritamos ao mesmo tempo.O Pickwick era um freguês nosso, imensamente rico; era elequem comprava os nossos melhores relógios. Muitas vezes,subia connosco à parte residencial da casa, que ficava porcima da loja. O seu verdadeiro nome era Herman Sluring, mas,entre nós, chamávamos-lhe Pickwick, porque se parecia muitocom o desenho que ilustrava um dos nossos volumes de Dickens.Herman era, sem dúvida, o homem mais feio de Haarlem. Baixo,muito gordo, calvo e tão estrábico que, ao falarmos com ele,nunca sabíamos se estava a olhar para a gente ou para apessoa do lado; tinha tanto de bom e generoso como de feio.As flores tinham sido entregues na porta lateral que erautilizada pela família e que dava para um beco estreito.Levamos o ramo para a loja. Primeiro chegava-se à oficina dosconsertos. Ali estava a banca alta do pai, na qual eletrabalhara durante tantos anos, para executar o seu trabalhodelicado e minucioso, considerado um dos melhores da Holanda.Ao centro, estava a minha banca; junto à minha, estava a doHans, o aprendiz, e, próximo da parede, a do velhoChristoffels.Na frente, ficava a parte comercial, com o balcão de tampo devidro, cheio de relógios, e onde atendíamos os fregueses.Todos os relógios de parede davam às sete horas quando alientramos com a "corbeille" e começamos a ver qual seria omelhor lugar para a colocar. Desde criança que gostava muitode entrar naquela sala e ouvir o murmúrio agradável decentenas de tique-taques. O aposento estava escuro, pois osestores das janelas ainda se encontravam descidos.Destranquei a porta e saí para a rua. As outras lojas, ooculista que ficava ao lado, a de roupas, a padaria e a casade peles do outro lado da rua, estavam ainda fechadas e sem
  7. 7. sinal de vida.Afastei os estores e fiquei algum tempo a admirar a montra deque, agora, tanto eu como a Betsie gostávamos. Estávamossempre a ver qual seria a melhor maneira de a arranjar. Eugostaria de colocar ali muitos15relógios, tantos quantos ela comportasse, mas a Betsieafirmava que seria melhor expor apenas dois ou três dos maisbonitos, talvez sobre um fundo de cetim ouseda,artisticamente arranjado. Esse arranjo, dizia ela, seriamais elegante e atraente. Dessa vez, porém, estivemos deacordo. Pusemos ali uma coleção de relógios - despertadores ede bolso - todos com pelo menos cem anos de idade, quehavíamos pedido emprestados aos amigos e conhecidos quepossuíam lojas de antiguidades. Comemorávamos nesse dia ocentenário da loja. Fora nessa data, em Janeiro de 1837, queo pai do meu pai colocara na janela a placa: Relojoaria tenBoom.Ouvi os sinos das igrejas de Haarlem baterem às sete horasdurante os dez minutos seguintes, dando uma demonstração decompleto desdém pela precisão do tempo. Por último, napraceta a meio quarteirão abaixo, o grande sino da Igreja deSão Bravo deu as sete pancadas. Deixei-me ficar para ali acontá-las, embora estivesse muito frio naquela manhã deJaneiro. Agora, em Haarlem, toda a gente tinha rádio, mas eulembrava-me do tempo em que a vida da cidade era reguladapelo sino de São Bravo.Apenas os funcionários do caminho de ferro e outras pessoasque precisavam saber a hora exacta vinham à nossa lojaconsultar o relógio astronômico. Todas as semanas, o pai ia aAmsterdã, de comboio, para acertar o seu cronômetro peloObservatório Naval. Ele tinha muito orgulho pelo facto dorelógio astronômico nunca se atrasar nem adiantar mais do quedois segundos por semana. Voltei a entrar na loja. Lá estavaele, brilhando no alto do seu pedestal, mas agora semqualquer importância.Novamente a campainha da porta: mais flores! Aquilo continuoudurante cerca de uma hora - "corbeilles" grandes e pequenas,trabalhos caseiros e vasos de cerâmica com plantasornamentais. Embora a festa fosse em honra da loja, o afectoda cidade era dirigido ao meu pai. "O bom velho de Haarlem",era como lhe chamavam; e, pareciam todos dispostos a provarque ele era querido. Quando a sala da frente e a oficinaficaram cheias, começamos a levar as coisas para os doisquartos que ficavam por cima da loja. Esses quartos eram
  8. 8. conhecidos por nós como "os quartos da Tia Jans", embora elajá tivesse falecido há vinte anos. A tia Jans era a irmã maisvelha da minha mãe. Parecia que estava ainda ali, com apesada mobília escura que nos tinha deixado. A Betsie colocouno chão um vaso de tulipas de estufa, deu um passo para tráse soltou uma exclamação de prazer."Corrie, vê como isto alegrou o ambiente!"Pobre Betsie! O Beje está tão cercado, tão comprimido entreoutras casas que as mudas de flores que ela plantava emcaixas nas janelas, todas as primaveras, nunca sedesenvolviam o bastante para dar flores.Ás 7:45 chegou o Hans, o aprendiz, e às 8 horas, a Toos,nossa empregada de balcão e guarda-livros. A Toos era umadessas pessoas que estão sempre de má cara. O seu constantemau-humor impedira-a16de permanecer num só emprego por muito tempo, até que, há dezanos atrás, veio trabalhar connosco. A gentil cortesia do meupai tinha-lhe abrandado o gênio. Embora preferisse morrer aadmitir isso, ela gostava muito dele, tanto quanto detestavao resto das pessoas. Deixamos a porta a cargo do Hans e daToos e subimos para tomar o café.Só três pratos pensaram enquanto punha a mesa. A sala dejantar era na casa de trás, num andar acima do da loja.Subia-se por um lance de cinco degraus. Com uma única janelaque dava para o beco lateral, esta sala era, para mim, a salaprincipal. Quando era criança, tapando a mesa com um grandecobertor, eu fazia dela a minha tenda ou uma caverna depiratas. Aqui faziam os meus deveres, quando estudante. Aquia mãe lia Dickens em voz alta para nós, nas noites deinverno, enquanto as brasas da lareira de tijolos estalavam ecobria de reflexos vermelhos o azulejo que tinha entalhado afrase: "Jesus é vitorioso!”Agora utilizávamos apenas uma parte da mesa, eu, o pai eBetsie; mas, para mim, era como se o resto da família aindase encontrasse ali. Dum lado a cadeira da mãe, acolá o lugardas três tias (mais duas irmãs da mãe que,além da tia Jans,tinham morado connosco). A minha irmã Nollie sentava-se aomeu lado, e o Willem, o único filho homem, ao lado do pai.A Noellie e o Willem já tinham casado há vários anos e tinhamas suas próprias casas; a mãe e as tias já não estavamconnosco, mas ainda me parecia vê-los todos ali.As suas cadeiras não tinham permanecido vazias por muitotempo. O pai não suportava a idéia de ter uma casa semcrianças, e por isso, sempre que ouvia falar dum pequenino
  9. 9. sem tecto, uma carinha nova surgia à nossa mesa. Com essarelojoaria que nunca rendia muito, ele arranjou maneira dealimentar, vestir e calçar mais de onze crianças, depois dosseus quatro filhos estarem criados. Agora, porém, tambémestes onze tinham crescido e casado ou saído de casa paratrabalhar. Assim, coloquei apenas três pratos na mesa.A Betsie trouxe café da cozinha, que era contígua à sala dejantar e pouco maior que um armário embutido, e tirou o pãoda gaveta. Quando ela o colocava na mesa, ouvimos os passosdo pai a descer a escada. Agora ele descia semprevagarosamente aqueles degraus em espiral; mas pontual, comoum dos seus próprios relógios, entrou na sala na hora exactaem que entrava quando eu era pequena: às 8:10."Pai", disse eu beijando-o e aspirando o aroma dos charutosque impregnava a sua barba longa, “o dia da nossa festa estálindo!”.Os seus cabelos e barba eram brancos como a nossa melhortoalha, que a Betsie pusera na mesa para este dia especial.Os seus olhos azuis, ao fitarem-nos com agrado, através dosóculos grossos, eram meigos e alegres."Querida Corrie, minha Betsie! Como estão bonitas!”A seguir, sentou-se, inclinou a cabeça e deu graças pelo pão,e depois continuou alegremente:17"A vossa mãe teria adorado estes vestidos novos, e ficariaalegre de as: ver as duas tão bonitas!"Nós as duas fixamos os olhos no café para não rirmos. Estes"vestidos novos" eram a tristeza das nossas sobrinhas queestavam sempre a quererconvencer-nos a usarmos roupas de cores mais claras, saiasmais curtas e decotes mais baixos. Embora fôssemos bemconservadoras no nosso modo de vestir, a verdade é que a mãenunca tivera um vestido mais claro do que esse meu castanhoou que o azul-escuro da Betsie. No tempo da mãe, as mulherescasadas e as solteiras de uma "certa idade” só usava vestidospretos. Nunca vi a minha mãe nem as minhas tias com vestidosdouta cor."A mãe ia gostar de tudo hoje!" Interveio a Betsie. “Lembras-te como ela gostava de festas?”A mãe fazia um bolo e um café em questão de instantes. E jáque ela conhecia quase toda a gente em Haarlem,principalmente os pobres, os doentes e os abandonados, nãohavia um dia que não fosse - como ela dizia - "um dia defesta para alguém".Nós ficamos a conversar durante o café, como se deve fazer em
  10. 10. dias assim, e começamos a recordar o tempo em que a mãevivia. Depois retrocedemos mais e falamos do tempo em que opai era criança e morava nesta mesma casa."Nasci mesmo nesta sala", disse ele como se já não nostivesse dito isto uma centena de vezes.”Só que, naquelaépoca, não era a sala de jantar, era um quarto. A cama eradentro de uma espécie de armário embutido na parede; nãohavia janelas, nem iluminação directa, nem ar puro. Fui oprimeiro que consegui sobreviver. Não sei quantos nasceramantes de mim e morreram. A minha mãe estava tuberculosa, eeles não conheciam as regras de higiene, nem sabiam nadasobre o contágio pelo ar, e não pensavam em afastar ascriancinhas da pessoa doente”. Foi um dia cheio derecordações, um dia de invocação do passado. Nunca poderíamosadivinhar, quando estávamos ali sentados - duas solteironasde meia-idade e um velho - que, em vez de recordações,estávamos para enfrentar acontecimentos com os quais nuncatínhamos sonhado. Desventuras e angústias, horrores ealegrias, aguardavam-nos, dentro em pouco, e não o sabíamos.Ah! Pai, Betsie, se eu soubesse, teria eu feito o que fiz?Teria tido coragem?Mas como poderia eu prever? Como poderia eu supor que essevelhinho de cabelos brancos a quem todas as crianças deHaarlem chamavam avô seria sepultado por estranhos, numtúmulo desconhecido? E Betsie, com o seu vestido de gola derenda a difundir beleza ao seu redor, como poderia ela pensarque a pessoa a quem eu mais queria, seria forçada acomparecer nua numa sala cheia de homens? Naquele momento,naquela sala de jantar, tais possibilidades eram impossíveis.O pai levantou-se e pegou na velha Bíblia de cantoneiras debronze.18A Toos e o Hans bateram à porta e entraram. Outro regulamentofixo no Beje era a leitura da Bíblia às 8:30 em ponto, a quedeviam assistir todos os que;Estivessem em casa. O pai abriu o livro, e eu e a Betsiecontivemos a respiração. Naturalmente, hoje, quando tínhamostanta coisa a fazer, ele não leria um capítulo inteiro!Mas ele já a estava a abrir na passagem de Lucas onde tinhaficado navéspera - e o livro de Lucas tinha capítulos tão longos! Como dedo no lugar, o pai ergueu os olhos."Onde está o Christofells?" Perguntou. O Christofells era ooutro empregado da loja, um velhinho encurvado e miúdo, queparecia mais velho que o pai, embora fosse dez anos mais
  11. 11. novos. Lembrei-me do primeiro dia em que aparecera na nossacasa, há seis ou sete anos atrás. Estava tão andrajoso etinha uma aparência tão infeliz, que pensei que fosse um dosmendigos que sabiam que o Beje era o lugar certo para seconseguir uma boa refeição de graça. Estava a ponto de oencaminhar à cozinha, onde a Betsie tinha sempre uma panelade sopa quentinha, quando solenemente ele me informou queestava à procura de emprego e tinha vindo primeiro a nós,oferecer os seus préstimos. Fiquei, a saber, então, que oChristofells pertencia a uma classe já quase totalmentedesaparecida, a dos relojoeiros ambulantes, que percorriam opaís a pé, regulando e consertando os relógios de pêndulo queeram o orgulho de todas as fazendas holandesas. Mas se eufiquei surpresa ao ver o ar sério e grave daquele homenzinhode aspecto miserável, fiquei ainda muito mais ao ver que opai lhe deu o emprego imediatamente."Estes consertadores ambulantes", disse-me mais tarde, “sãoos melhores que existem. Conseguem consertar qualquer defeitoapenas com as ferramentas que trazem consigo”. E isto ficouprovado nos anos seguintes, pois todo o povo de Haarlem lhetrazia relógios. O que ele fazia com o dinheiro do seusalário, nunca soube; ele continuava tão mal vestido comoantes. O pai falou-lhe a esse respeito um pouco, mas nãomuito, pois, fora o seu desalinho, o traço mais forte da suapersonalidade.Hoje, pela primeira vez, o Christofells estava atrasado.O pai limpou os óculos ao guardanapo e começou a ler, fazendoa sua voz grave demorar-se prazerosamente nalgumas palavras.Quando chegou ao fim da página, ouvimos os passos arrastadosdo Christofells a subir a escada. A porta abriu-se, e todosnos admiramos. O Christofells estava impecável. Trajava umfato novo, preto e um colete xadrez, também novo, camisaimaculadamente branca de colarinho gomado, e gravataestampada. Esforcei-me para desviar os olhos de talespetáculo, pois a expressão do seu rosto proibia-nosqualquer comentário."Christofells, meu prezado amigo", disse o pai na sua maneiraformal e antiquada, "que alegria vê-lo neste... é... dia tãoauspicioso”.E, apressadamente, retomou a leiturainterrompida.19Antes que ele terminasse o capítulo, as campainhas - daentrada lateral e daloja - começaram a tocar. A Betsie correu a fazer mais café ea meter as "tortas" no forno, enquanto eu e a Toos corríamos
  12. 12. para as portas. Parecia que cada pessoa de Haarlem queria sera primeira a cumprimentar o pai. Daí a pouco, uma torrente deconvidados estava a subir até aos quartos da Tia Jans, ondeele se encontrava, meio escondido por entre as flores.Eu estava a conduzir um dos nossos convidados mais idosos,pela escada acima, quando a Betsie me segurou no braço."Corrie, vamos precisar já das xícaras da Noellie. Comovamos...?""Vou buscar!”. A Noellie e o marido viriam à tarde, logo queos filhos chegassem da escola. Desci rapidamente, peguei nocasaco e na bicicleta, e já a empurrava pela porta quando avoz da Betsie me deteve:"Corrie, o teu vestido novo!"Dei meia volta, subi ao quarto e mudei o vestido novo pelomais velho que possuía; e, saí pedalando pela rua acidentada.Eu gostava imenso de ir à casa da Noellie. Ela morava a quasedois quilômetros dali, num bairro afastado daquele velhocentro atulhado de prédios. Lá, as ruas eram mais largas erectas, e até o céu parecia mais amplo. Atravessei a pracetae depois a ponte sobre o canal, e rodei pela estrada,deliciando-me com o fraco sol de inverno. A Noellie residiana Rua Bosen Hoven, num conjunto residencial, de casasgeminadas, todas iguais, com cortinas brancas e vasos deplantas na janela. Enquanto virava a esquina, nunca poderiaimaginar que, num dia de verão, quando os bulbos de jacintode um viveiro próximo estivessem prontos para o plantio, eutravaria a bicicleta e ficaria ali parada com o coração aospulos, sem coragem de me aproximar mais, com receio deenfrentar o que se estava a passar no interior daquelascortinas.Hoje, porém, ziguezaguei pela calçada e entrei pela portadentro, sem bater."Noellie, a casa já está cheia! Tu precisas ver! Precisamosdas xícaras agora”.A Noellie veio da cozinha com o rosto redondo corado pelocalor do forno."Já estão arrumadas perto da porta. Ah! Eu queria ir contigo,mas tenho que acabar de assar os biscoitos, e prometi ao Flipe às crianças que esperaria por eles”."Vocês vão todos, não vão?”"Sim, Corrie. O Peter também vai”. E ela começou a colocar asxícaras no bagageiro. Como uma boa tia eu queria amar os meussobrinhos igualmente, mas Peter... Bem, Peter era Peter. Comtreze anos, ele era um prodígio;Musical - embora um bocado maroto - mas era todo o meuorgulho."Ele até escreveu uma música especial para comemorar a data",
  13. 13. disse!20A Noellie. "Segura aqui. Vais ter que carregar com este saco.Tem cuidado”.O Beje estava mais cheio que nunca, quando voltei. No becolateral havia tantas bicicletas que tive que deixar a minha àesquina da rua. O prefeito de Haarlemjá lá estava, de casaca, e com a corrente de ouro do relógiode bolso bem à vista. Estavam lá o chefe dos correios, ocondutor do carro, e meia dúzia de guardas, da esquadrapolicial que ficava perto.Depois do almoço, começaram a chegar às crianças e, comosempre faziam, foram direitas ao pai. As mais velhassentavam-se no chão, à volta dele; as menores iam para o seucolosso porque, além dos seus brilhantes olhos azuis e da sualonga barba cheirando a charuto, ele carregava consigo otique-taque de dezenas de relógios. Um relógio deixado numaprateleira funciona de maneira diferente do que quando em usoe, por isso, o pai trazia sempre nos bolsos os que estivessema funcionar naquele momento. Todos os seus casacos tinhamquatro grandes bolsos internos, cada um com doze divisões,para doze relógios. Assim, onde quer que ele fosse, ia comele o alegre ruído de centenas de engrenagenzinhas. Agora,com uma criança em cada perna, e mais dez à volta, eleretirou de um dos bolsos a cruzeta de dar corda, cujas quatropontas eram de formatos diferentes para servirem em cadatipo. Com um piparote, fê-la girar rapidamente, brilhando...Brilhando...A Betsie parou à porta com uma bandeja de bolo nas mãos."Ele nem repara na presença doutas pessoas", disse. Eu estavaa descer a escada com alguns pratos vazios, quando alguém láem baixo deixou escapar uma exclamação abafada de espanto, oque me advertiu que o Pickwick chegara. Nós que lhe queríamosbem, nunca nos lembrávamos do choque que o seu aspectocausava aos outros. Corri à porta, apresentei-o à esposa deum negociante de Amsterdã, e depois o acompanhei lá acima.Ele afundou o seu corpanzil numa cadeira ao lado da do pai,olhou-me - um olho em mim e outro no tecto - e disse:"Cinco torrões, por favor”.O Pickwick adorava crianças tanto quanto o pai, mas enquantoestas gostavam do pai à primeira vista, ele tinha de lutarpara as conquistar. Tinha, porém, um truque que nuncafalhava. Entreguei-lhe a sua xícara de café muito doce -cinco torrões - e vi-o a olhar à volta, simulando grandeconsternação.
  14. 14. "Mas, Cornélia", exclamou, "não há uma mesa aqui para eucolocar a minha xícara”.Correu o olho por perto mais uma vez para ver se as criançaslhe estavam a dar atenção. "Por acaso eu trouxe a minhaprópria mesa!". Em seguida, plantou a xícara com o pires nasua avantajada pança.Nunca vi uma só criança que resistisse àquilo. Em poucosmomentos, um bom número delas tinha-se reunido à volta dele.Mais tarde, a Noellie chegou com a família.21“Tia Corrie", gritou-me o Peter com fingida inocência, "mas asenhora não aparenta cem anos”. Antes que eu pudesseresponder-lhe com um tabefe, já ele estava sentado ao pianoda tia Jans, enchendo a casa com as suas melodias. Algumaspessoas começaram a apresentar-lhe os seus pedidos: cançõespopulares, corais de Bach, hinos, e daí a pouco, toda a genteestavam a cantar.Quantos de nós que estávamos ali naquela tarde alegreiríamos, dentro em breve, encontrar-nos novamente emcircunstâncias bem diferentes! O Peter, os polícias, o feio equerido Pickwick, todos os que estavam ali - e ainda o meuirmão Willem e a família. Eu perguntava a mim mesma por queestavam eles tão atrasados. O Willem morava com a esposa efilhos em Hilversum, a cerca de quarenta e cinco km deHaarlem, mas, mesmo assim, já deviam ter chegado.De repente, a música parou, e o Peter, do seu posto elevadona banqueta do piano, anunciou:"Avô, vem aí a concorrência!"Olhei para fora. O Senhor e a Sra. D. Kan, proprietários daoutra relojoaria da rua, estavam justamente a virar a esquinapara entrar no beco. Pelos padrões de Haarlem eles eramnovatos ali, pois se tinham estabelecido em 1910, haviaapenas 27 anos, portanto. Todavia, como eles vendiam muitomais do que nós, achei que o comentário do Peter era bem aexpressão da verdade. O pai, entretanto, não gostou."Concorrente não, Peter", disse-lhe com desaprovação,"colega!" E tirando dos joelhos a criança que lá estava,colocou-se no topo da escada para receber os Kan. Ele tomavaas frequentes visitas do Senhor Kan à loja como as de um bomamigo."O senhor não está a ver o que ele quer?" Explodia eu depoisdo homem se afastar. "Ele só quer saber os nossos preços paravender mais barato!"Na loja dele, os relógios exibiam os preços escritos emalgarismos bem grandes, e sempre cinco guílderes abaixo dos
  15. 15. nossos.O rosto do pai iluminava-se com uma expressão de surpresa,como sempre acontecia nos raros momentos em que ele pensavano lado comercial do negócio."Mas Corrie, quem lhe compra ganha!" E depois acrescentava:"Como é que ele consegue vender tão barato?"O meu pai, como o seu pai também, era totalmente sem malícianos negócios. Às vezes, trabalhava dias seguidos num relógioque apresentava um defeito sério e depois se esquecia decobrar. Quanto mais caro fosse o relógio, mais difícil lheera pensar nele em termos de dinheiro."A gente devia pagar para ter o privilégio de consertar umrelógio destes", dizia ele.22Quanto aos seus métodos de apresentação da mercadoria -durante os primeiros oitenta anos de funcionamento da loja,as persianas que davam para a rua eram fechadas todos osdias, às seis horas da tarde. Foi somente quando eu entrei nonegócio, há vinte anos atrás, que notei que algumas pessoasgostavam de passear pelas ruas estreitas e pelas calçadas, ànoite, e vi que outras lojas deixavam as suas montras abertase iluminadas. Quando mencionei isto ao pai, ele ficouencantado, como se eu tivesse feito uma descobertamaravilhosa."E se as pessoas virem os relógios, pode ser que desejemcomprá-los. Ah! Corrie, que inteligência a tua!”O Senhor Kan vinha na minha direcção com o seu pedaço de boloe os parabéns. A consciência doía-me por causa dospensamentos de ciúme que abriguei a seu respeito, e escapeiescada abaixo, metendo-me no meio das pessoas. A oficina e aloja estavam mais cheias do que os quartos de cima. O Hansestava a servir bolo na parte de trás, enquanto a Toos faziao mesmo na da frente. No seu rosto via-se a sombra de umsorriso - o máximo que ela permitia aos seus lábiosperpetuamente cerrados.Quanto ao Christofells - que surpresa! - ele simplesmente setinha transfigurado! Era quase impossível reconhecer naquelamajestosa figura que saudava os nossos visitantes à porta,levando-os a percorrer a loja, o homenzinho encurvado e malvestido de sempre. Estava bem claro que este era o maior diada sua vida.Durante toda aquela tarde de inverno, recebemos pessoas quese contavam entre os amigos do pai Jovens e velhos, pobres ericos, homens cultos e empregadinhas iletradas - só que, parao pai, eram todos iguais. Este era o seu segredo: não é que
  16. 16. deixasse de se preocupar com as diferenças entre osindivíduos; simplesmente não sabia que existiam.O Willem ainda não tinha chegado. Acompanhei até à porta umgrupo de convidados que se retirava, e fiquei ali algunsinstantes a olhar para a rua. Embora fossem apenas quatro datarde, o crepúsculo já descia, e as luzes das lojas jácomeçavam a ficar acesa. Eu ainda tinha um pouco daquelaadmiração de irmã mais nova para com o irmão mais velho. Eleera cinco anos mais velhos do que eu. Fora o único da famíliaa cursar a universidade, e era ministro do evangelho, pastorordenado. O Willem tinha uma grande percepção das coisas. Elesabia tudo o que se passava no mundo.Muitas vezes eu desejava que ele não tivesse tal visão, poismuito do que o meu irmão previa era aterrador. Dez anosatrás, em 1927, ele tinha defendido tese de doutorado, naAlemanha, e tinha mencionado que havia uma terrível ameaçapairando sobre aquele país. Ali mesmo na Universidade, disseele, estavam sendo lançadas as sementes de um grande desprezopela vida humana, tal como nunca se tinha visto antes.Agora, naturalmente ninguém mais se ri quando se trata daAlemanha.23Os melhores relógios vinham de lá, e, recentemente, algumasdas firmas com as quais havíamos negociado vários anos,tinham misteriosamente “fechados às portas”. O Willemacreditava ser isso o resultado de um amplo e deliberadomovimento anti-semítico. Todas as firmas fechadas eram dejudeus. Sendo um dos chefes do trabalho da Igreja Reformadaentre os judeus, ele estava bem dentro de tais assuntos. Meubom Willem pensei, ao voltar para dentro e ao fechar a porta;ele era tão fraco nos negócios da igreja, como o pai era nodos relógios. Chegou-se a conseguir a conversão dum únicojudeu em vinte anos, eu não soube disso. O Willem não tentavamodificar as pessoas, apenas ajudá-las. Ele tinha conseguidoeconomizar dinheiro e sido até um pouco sovina, paraconseguir juntar o suficiente para construir em Hilversum umabrigo para judeus idosos, que mais tarde veio a ser paravelhinhos de todos os credos, já que ele era contrário aqualquer tipo de segregação. Ultimamente, porém, o Lar tinhaficado cheio de jovens refugiados - todos judeus, e todos daAlemanha. Ele e a sua família tinham cedido os seus própriosquartos e estavam a dormir nos corredores. E mais judeus,apavorados e sem abrigo, estavam a chegar, e narravam factosincríveis a respeito duma crescente e incrível loucura. Fui àcozinha, onde a Nollie tinha acabado de fazer mais café e
  17. 17. trouxe-o para os quartos da tia Jans.“O que será que esse homem quer?” perguntei a um grupo depessoas reunidas ali, quando colocava o bule na mesa. ”Essehomem da Alemanha, quer a guerra”.Sabia que era um mau tema para conversação num dia de festa,mas a lembrança do Willem levava sempre o meu pensamento aconcentrar-se em assuntos perigosos. Um silêncio pesado caiusobre nós e espalhou-se pela sala.“O que é que isso nos interessa?” ouvi alguém perguntar.“Deixa esses países grandes lutarem entre si. Não vãoatingir-nos.”“Isso mesmo”, disse um relojoeiro. “Os alemães que não nosincomodam com essa grande guerra. Para eles é melhor quefiquemos neutras.”“Tu podes dizer isso”, atalhou outro, que era nossofornecedor de peças. “Tu compras da Suíça; mas, nós? O quefaço eu se a Alemanha entrar em guerra? Isso arrasaria osmeus negócios.” Naquele momento, o Willem entrou na sala. Comele vinha à esposa, Tine, e os quatro filhos. Contudo, quasetodos os olhares se fixaram no homem que o Willem conduziapelo braço. Era um judeu de trinta e poucos anos. Usava otradicional chapéu de abas largas e o, sobretudo preto,comprido. Os olhos de todos estavam sobre ele, queapresentava uma horrível queimadura. Perto da orelha direitavia -se um anel de cabelos grisalhos, como os de um velho. Oresto do queixo era uma chaga viva chegou a Hilversum hoje demanhã. Gutlieber, este é o meu pai.24E depois duma pausa, prosseguiu em holandês: “Este homemfugiu da Alemanha escondido num caminhão de leite. Ele foicercado na rua, em Munique, por uns rapazinhos que deitaramfogo à sua barba.” O pai levantou-se e apertou a mão dorecém-chegado com muita efusão. Eu trouxe-lhe uma xícara decafé e um prato com biscoitos da Nollie. Nesse momento,senti-me grata pela insistência do pai em que os seus filhosaprendessem alemão e inglês e falassem estas línguas tão bemcomo o holandês. Gutlieber sentou-se na beira da cadeira,muito direito, olhando para o café no seu colo. Arrastei umacadeira para o pé dele e comecei a falar acerca de qualquercoisa, sobre o tempo em Janeiro. Imediatamente, a conversaçãose generalizou, retomando o volume normal da conversa dumsalão de festas: era um zunzum que subia e depois baixava.Ouvi um vendedor de relógios dizer:“Que miseráveis! Vagabundos! Está a acontecer o mesmo em todaa parte. A polícia vai prendê-los. Sim, porque a Alemanha é
  18. 18. um país civilizado.” E foi assim que uma nuvem desceu sobrenós naquela tarde de inverno de 1937, mas não pesou muito.Ninguém sonhava que aquela nuvenzinha ia crescer tanto, queviria a escurecer todo o céu. Nenhum de nós imaginava sequerque todos tomaríamos parte nela: o pai, o Senhor Kan, oWillem, e até esse velho Beje, com os seus soalhosdesnivelados e antiquados. À noite, depois de todos osconvidados já terem saído, fui para o quarto a pensar nopassado. O meu vestido novo estava em cima da cama; eu tinha-me esquecido de o vestir. “Nunca me preocupei nada comroupas”, pensei, “nem mesmo quando era jovem...”. Recordaçõesda infância voltaram naquele momento - estranhamente,pareciam actuais e muito relevantes. Agora eu sei que aslembranças contêm o segredo do futuro; não do passado, mas dofuturo. Sei que, quando deixamos. Deus usar as nossasexperiências passadas, elas convertem-se em instrumentos depreparação do trabalho que o Senhor tem para nós. Mas eu nãosabia disso naquele tempo. Nem sabia até tendo uma vida tãopacata - que haveria um futuro para o qual eu precisaria deuma preparação especial. E ali deitada no quarto, na parte decima da casa, eu só sabia que certos momentos da minhainfância e juventude começaram a destacar-se do fumo dopassado, como se ainda os estivesse a viver, como se elestivessem ainda algo para me dizer...25CAPÍTULO IITodos à MesaEra o ano de 1898, e eu tinha seis anos. A Betsie colocou-mediante do espelho do guarda-roupa, e passou-me um sermão.“Olha para o teu sapato. Faltam metades dos botões. E essameia toda rasgada logo no primeiro dia de aulas! Vê como aNollie está!”. Encontrávamo-nos no nosso quarto - meu e daNollie - que ficava no último andar do Beje. Olhei para aminha irmã, dois anos mais velha que eu: era verdade. Ossapatos dela estavam perfeitamente abotoados. Com relutância,tirei o meu, enquanto a Betsie procurava no armário. A Betsietinha treze anos, e, para mim, era quase adulta. Ela sempreme parecera mais velha, pois nunca tinha podido correr efazer algazarra como as outras crianças. Tinha anemiaperniciosa desde o nascimento. Assim, enquanto nósbrincávamos, andávamos com o arco, ou apostávamos na corridapatinando pelos canais gelados no inverno, ela ficava sentadaem casa, a fazer as coisas enfadonhas, a bordar, por exemplo.
  19. 19. A Nollie, porém, brincava tanto como qualquer outra criança,e era pouco mais velha que eu. Não me parecia justo que elafizesse sempre tudo certinho.“Betsie”, estava ela a dizer, “eu não vou para a escola comaquele chapelão horrível, lá porque foi à tia Jans quem ocomprou. No ano passado, foi aquele cinzento horroroso, eagora é este, que ainda é pior”. A Betsie olhou-a com um arde compreensão.“Pois é, mas... Bem, tu não podes ir sem chapéu, e outro nãopodemos comprar.”“Não vai ser preciso”. Dando uma rápida olhadela para aporta, a Nollie baixou-se, enfiou a mão debaixo da camaestreita - que era a que o quarto comportava - e puxou de láuma caixa redonda e pequena. Dentro achava-se o chapéu menorque eu já vira. Era de peles e tinha uma fita azul para atarno queixo.“Que coisinha mais linda!” A Betsie ergueu-o cuidadosamenteda caixa para o ver melhor à luz da manhã que mal entrava noquarto.“Onde é que tu...?”“Foi a Senhora Van Dyer que mo deu.”26Os van Dyer eram os proprietários da chapelaria que ficavaduas portas abaixo da nossa.“Ela viu que eu estava olhando para este, e depois da tiaJans já ter comprado aquilo, ela veio cá e deu-me. “ Ao dizer“aquilo”, a Nollie tinha apontado para cima do guarda-roupa.Era um chapelão castanho, de abas largas, enfeitadas com umcacho de rosas de veludo roxo e que revelava claramente quemo escolhera. A tia Jans, irmã da minha mãe e mais velha doque ela tinha vindo morar connosco logo que o marido faleceu,para passar na nossa companhia, como dizia, “os poucos diasque me restam”, embora tivesse apenas quarenta e poucos anosde idade. A sua vinda só complicara mais a vida da velha casa- que já tinha ficado apertada com a chegada, anteriormente,de mais duas irmãs da mãe, a tia Bep e a tia Anna, poisconsigo ela trouxe várias peças de mobília, todas grandesdemais para as pequenas divisões do Beje. A tia Jansacomodara-se nos dois quartos do segundo andar da casa dafrente, que ficavam por cima da loja e da oficina. Oprimeiro, ela usava-o como escritório, onde produzia os seusinflamados folhetos evangélicos, pelos quais era conhecida emtoda a Holanda. No outro recebia a visita das damas ricas quesustentavam a obra. A tia Jans acreditava que a nossafelicidade no além dependia da quantidade das nossas acções
  20. 20. aqui. Para dormir, ela tinha feito, no primeiro quarto, umadivisão em que cabia só a cama. A morte, dizia ela, estava àespera para a arrebatar do seu trabalho, e, por isso, as suashoras de descanso eram breves e poucas. Não me recordo bemcomo era o Beje antes da tia Jans chegar, nem sei de quemeram aqueles quartos antes dela os ocupar. Por cima deles,tendo por tecto a cúpula triangular do telhado, havia umlongo sótão. Desde que me lembro, este espaço era dividido emquatro quartos muito pequenos. O primeiro, que dava para arua e o único com janela, era da tia Bep. Atrás dele, todosem fila, vinham os quartos da tia Anna, da Betsie e doWillem. Subindo-se os cinco degraus para a residência detrás, chegava-se ao quarto que Nollie e eu ocupávamos. Logopor baixo dele, estava o quarto do pai e da mãe, e por baixodeste, a sala de jantar com aquela cozinha que parecia ter-lhe sido adicionada como uma idéia de última hora. Nunca nosocorreu que talvez a porção que coubera à tia Jans, nadistribuição dos quartos dessa casa super populada, fossedemais. Todos simplesmente “abriam alas” para a tia Jans.Todo o dia ouvíamos o tropel do carro puxado a cavalos quepassava em frente da nossa casa, e parava na praceta, pontode paragem para todos os passageiros. Entretanto, para a tiaJans, era diferente. Quando ela desejava ir a algum lado,colocava-se na calçada em frente da loja, e quando os cavalosse aproximavam, erguia um dos dedos da mão enluvada. Parecia-me ser mais fácil deter o sol no céu do que fazer pararaqueles animais, mas,27para a tia Jans eles paravam. Os freios gemiam os cavalosquase amontoavam uns sobre os outros, e o cocheiro inclinavao chapéu num cumprimento enquanto ela subia para o carro.Seria diante desse olhar dominador que a Nollie temia passarcom o chapeuzinho de peles. Desde que veio morar na nossacasa, a tia Jans tomara para si a responsabilidade de comprarquase toda a roupa para nós, as três meninas. Os seuspresentes tinham - porém, um preço para a tia, o que estavana moda quando ela era jovem representava a palavra final deDeus na questão do vestuário. Todas as mudanças que eramdepois tinham vindo directamente dos figurinos do diabo. Numdos seus conhecidos panfletos, ela indicava os cornosinventores da manga afofada e da saia-culote.“Já sei!”gritei, enquanto os dedos ágeis de Betsie coram meupé, abotoando-me o sapato. “Tu podias por primeiro o chapéupeles e depois o chapelão por cima dele. Quando chegassesfora tiravas o chapelão.”
  21. 21. “Corrie!” A Nollie estava positivamente chocada. “Isso nãoseria honesto!” Com um olhar de raiva para o chapéu castannopegou no chapeuzinho de peles e saiu atrás da Betsie para irtomar café. Peguei no meu chapéu - o desprezado chapéucinzento do “Ari” anterior - e desci atrás delas, com uma dasmãos no poste central, a” redor do qual as escadas davam assuas voltas. Então Jelxa a tia Jans “veria” chapéu. Que meimporta? Eu nunca chegaria a compreender todo esse alvoroçosó por causa de roupas. Uma coisa, porém eu compreendia, umfacto terrível e a’’arrematante’’: nesse dia eu começava aestudar. Deixava esse velho e amado - deixava a mãe e astias, deixava tudo o que representava segurança e carinho.Agarrei o poste com tanta força que, ao contorná-lo ouvi o“ruído” da palma da mão contra a madeira. Era verdade que aescola ficava a pouca distância de casa, e a Nollie já afrequentava há dois anos sem dificuldades. Mas a Nollie eradiferente de mim; ela era bonita bem comportada e estavasempre arranjadinha. E então, na última volta da escola,encontrei a solução. Era tão simples, tão clara que ri em vozalta. Eu simplesmente não ia a escola. Ficaria em casa eajudaria a tia Anna na cozinha. A mãe ensinava-me a ler e eunão precisaria nunca de aproximar-me daquele prédio feio eameaçador. Senti um grande alívio invadir-me e desci os trêsdegraus num salto.“Ssssssssiiiuuu!” a Betsie e a Nollie estavam a minha esperana porta da sala de jantar. “Por favor, Corrie, não fariasnada. Para irritar a tia Jans”, disse a Betsie. “Tenho acerteza de que o pai a mãe e a tia Anna vão gostar do chapéuda Nollie”, acrescentou, duvidando.“A tia Bep não vai”, respondi.“Ela não gosta de nada”, interveio a Nollie.”Ela não conta”.Atia Bep, com o seu eterno ar de’’’ desaprovação a mais velhadas tias, e aquela de quem nós menos gostávamos. Ela tinha28como governanta para algumas famílias ricas e estava sempre acomparar-nos com as meninas e rapazinhos em cujas casas tinhatrabalhado. A Betsie apontou para o relógio da parede, e comum dedo nos lábios abriu silenciosamente a porta. Eram 8:12.O café já tinha sido servido.“Dois minutos de atraso”, gritou Willem num tom de triunfo.“Os filhos dos Waller nunca se atrassavam”, disse a tia Bep.“Mas elas já chegaram!” disse o pai. “E a sala até parece queficou mais alegre!”“A tia Jans vai ficar na cama hoje?” perguntou a Betsieesperançosa, enquanto pendurávamos os chapéus nos respectivos
  22. 22. cabides.“Ela está na cozinha, a preparar um tônico”, disse a mãe.Inclinou-se para nos servir café e disse em voz baixa:“Hoje precisamos ter muita paciência com a tia Jans. É oaniversário da morte da irmã do marido dela - ou é da prima?”“Julgava que fosse da tia dele”, disse a tia Anna.“É da prima dele; e foi uma bênção”, informou a tia Bep.“Bom; não interessa”,disse a mãe apressadamente, “vocês sabemque a Jans fica muito nervosa nestes aniversários da morte deparentes;então,vamos ajudá-la em tudo.” A Betsie cortou trêsfatias de pão redondo, enquanto eu olhava ao redor da mesa, atentar imaginar qual dos três adultos iria mostrar-se maisentusiasmado com o meu projecto de não ir à escola. O pai, euestava certa de que dava uma importância quase religiosa àeducação. Ele tinha deixado de estudar para trabalhar narelojoaria, quando era ainda jovem, e, embora tivesse sido umautodidata, aprendendo sozinho História, Teologia eLiteratura de cinco línguas, ficava sempre muito sentido pornão ter frequentado a escola mais tempo. Ele ia querer que eufosse; e, o que ele quisesse, a mãe também queria. E a tiaAnna? Ela tinha dito várias vezes que não poderia passar semmim, para as subidas e descidas pela escada com algunsrecados. Já que a mãe não era forte, a tia Anna encarregava-se da maior parte do serviço pesado para a nossa família denove pessoas. Ela era a irmã mais nova e tinha o espírito tãogeneroso como o da mãe. Havia uma crença na nossa família deque a tia Anna recebia pagamento pelo seu trabalho. E eraverdade: todos os sábados, o pai pagava-lhe, fielmente, um“guílder”. Na quarta-feira, porém, quando passava o vendedorde hortaliça, muitas vezes ele tinha que pedi-lo emprestados,e ela ainda tinha aquele dinheiro guardado e intacto. Pois é!Ela poderia ser a aliada de que eu precisava.“Tia Anna”, principiei, “estou a pensar em si trabalhandotanto, todo o dia e eu na escola...” Ouvimos uma respiraçãoprofunda e ruidosa, e todos erguemos os olhos. A tia Jansestava parada à porta da cozinha, tendo na mão um copo cheiode um líquido castanho, xaroposo. Ela respirou fundo e fechouos olhos; levou o copo à boca e bebeu de um golo. Depois deuum suspiro, pôs o copo sobre o armário da louça, e sentou-se.“Mas, realmente”, disse, como se estivéssemos a discutir oassunto,29“que é que os médicos sabem? O Doutor Blinker receitou-meeste tônico, mas para que é que os remédios servem? Quandochega a hora final, nada adianta!”
  23. 23. Corri os olhos ao redor da mesa; ninguém sorria. Apreocupação da tia Jans com a morte poderia até parecercômica, mas não era. Mesmo sendo tão jovem, eu sabia que omedo nunca era engraçado.“Entretanto, Jans”, disse o pai gentilmente, “a medicina temprolongado muitas vidas.”“Não valeu de nada para a Zusje! E ela foi aos melhoresmédicos de Roterdam. E foi no dia de hoje que ela morreu, enem era mais velha do que eu sou agora. Naquele dia, elalevantou-se, vestiu-se e tomou café, exactamente como eu fizhoje.” Ela já ia lançar-se num relato detalhado do último diade vida da Zusje, quando os seus olhos deram com o chapéunovo da Nollie pendurado no cabide.“Um gorro de peles nesta época do ano?” perguntou,desconfiada.“Não é um gorro, tia Jans”, explicou a Nollie baixinho.“E pode saber-se o que é?”“É um chapéu”, respondeu a Betsie. “Foi um presente daSenhora J van Dyer. Não foi gentileza dela...”“Ah, não! Ò chapéu da Nollie tem uma boa aba, e é como deveser o chapéu de uma menina bem educada. Eu sei disso. Fui euquem o comprou e pagou.” Os olhos da tia Jans brilhavam; osda Nollie marejavam. A mãe veio em seu socorro.“Não sei bem se este queijo está fresco!” Cheirou o queijoamarelo, que estava na mesa, e empurrou-o para o pai.“Que é que tu achas, Cáspio?” O pai, que era incapaz dedissimular, e mesmo de entender uma dissimulação, pegou-lhe echeirou-o aspirando profundamente.“Está perfeita, querida. Está tão fresco como no dia em quechegou. O queijo que o Senhor Steerwijk faz é...” Depois,percebendo o olhar da mãe, voltou-se para a tia Jans meioconfuso. “Ah... Jans, o que é que tu achas?” A tia Jans pegouna queijeira e olhou-a muito zelosa. Se havia algo que atraíamais a sua ira que as roupas modernas, era o alimentodeteriorado. Afinal, e quase com relutância, pareceu-me, eladeu a sua aprovação ao queijo, mas o chapéu estava esquecido.Ela já enveredara pelo caso duma conhecida sua - “da minhaidade!” - que morrera após ter comido um peixe de aparênciameio duvidosa; e foi aí que os empregados da loja chegaram, eo pai retirou a Bíblia da estante. Em 1898, havia só doisempregados na relojoaria: o oficial relojoeiro e o aprendiz,que também era moço de recados. Depois da mãe lhes servir ocafé, o pai colocou as lunetas, e começou a ler: “Lâmpadapara os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho...Tu és o meu refúgio e o meu escudo; na tua palavra euespero.”
  24. 24. 30Que tipo de refúgio? Procurei imaginar, enquanto observava asua barba a baixar e a levantar, a cada palavra proferida. Deque é que a gente precisa abrigar-se?Era um salmo muito comprido; ao meu lado, a Nollie começou aremexer-se. Logo que o pai fechou o livro, ela, o Willem e aBetsie puseram-se em pé e pegaram nos chapéus. Um minutodepois, já decepam as escadas, e saíam pela porta lateral. Osdois empregados da loja levantaram-se também, embora não tãodepressa e seguiram-nos. Foi só então que os cincos adultosderam comigo ainda sentada à mesa.“Corrie”, exclamou a mãe, “esqueceste-te que agora já és umamenina crescida? Hoje vais para a escola também. Depressa,senão terás que atravessar a rua sozinha.”“Eu não vou!” Houve um curto silêncio de assombro,imediatamente quebrado por todos ao mesmo tempo.“Quando eu era menina...” começou a tia Jans.“Os filhos da Senhora J Waller...” era a tia Bep. A voz gravedo pai abafou as outras:“É lógico que ela não vai sozinha. A Nollie estava tãoanimada que se esqueceu de esperar, é só isso. A Corrie vaicomigo.” Então ele pegou no meu chapéu, deu me a mão e levou-me dali. A mão do meu pai! Isso era para irmos ao moinho deSpaarne ou ver os cisnes do canal. Desta vez, porém, elelevava-me onde eu não queria ir. Havia um corrimão naescadinha. Agarrei-me a ele e segurei-me firme. Os seushabilidosos dedos de relojoeiro envolveram a minha mão egentilmente fizeram-na soltar-se. Lutando e gritando, fuilevado do mundo que eu amava para um outro maior, estranho eperigoso... Às segundas-feiras, o pai ia a Amsterdã para vera hora certa no Observatório Naval. Agora que eu começava aestudar, só poderia acompanhá-lo no verão. Eu descia a correrpara a loja, cabelos escovados, sapatos abotoados, depois deter sido declarada passada pela Betsie. O pai estava a dar asinstruções finais ao aprendiz.“A Senhora Staal vem logo de manhã buscar o relógio dela.Este aqui é para ser entregue ao Senhor Baker, emBloemendaal.” Depois iríamos de mãos dadas para a estação: eualargando os passos e ele encurtando-os, para podermos andarjuntos. A viagem para Amsterdã não levava mais que meia hora,mas era maravilhosa. Primeiro, passávamos pelos prédiosvelhos e aglomerados de Haarlem, que, em seguida, davam lugara casas mais dispersas, circundadas de pequenos quintais.Depois, os espaços despovoados aumentavam. Finalmente,encontrávamo-nos em pleno campo, na região das fazendas,plana até perder de vista, e cortada de canais tão rectos que
  25. 25. pareciam traçados à régua. Por fim chegávamos a Amsterdã, coma magia das suas ruas e canais, e maior ainda do que Haarlem.O pai ia sempre com uma ou duas horas de antecedência, paravisitar os armazenistas que lhe forneciam relógios e peças.Muitos deles eram judeus, e era deles que nós maisgostávamos. Depois de fazer os negócios, o que levava o31menor tempo possível, o pai tirava uma Bíblia pequena da suamala de viagem. O negociante, cuja barba era em geral maiscomprida e cheia que a do pai, segurava num livrinho ou rolo,e punha um barrete no alto da cabeça. Assim os doisconversavam muito tempo, comparando textos e interrompendo-semutuamente - cada um deleitando-se mais com a presença dooutro. Depois, quando eu já estava quase a chegar à conclusãode que tinha sido totalmente esquecida, o homem levantava osolhos, via-me - como se fosse a primeira vez - e batia natesta com a palma da mão.“Uma visita! Estou com uma visita em casa e não lhe oferecinada!” Levantava-se de repente, procurava rapidamente pelosarmários e, daí a pouco, eu tinha no colo um prato cheio dospetiscos mais deliciosos do mundo: bolos de mel, tâmaras, umaespécie de docinho de nozes, frutas e açúcar. Sobremesa noBeje era coisa rara; as delícias como aquelas eramcompletamente desconhecidas. As cinco para o meio-dia,estávamos de volta à estação, aguardando, num pontoestratégico, o sinal do Observatório Naval. No alto da torre,de onde podia ser avistada por todos os navios ancorados noporto, estava a coluna com os dois ponteiros. Ao meio-dia emponto, o sinal era dado. Da sua posição privilegiada e tendona mão o bloco, lápis e o seu cronômetro, o pai aguardava omomento, cheio de entusiasmo pela precisão do aparelho. Aíestá! Quatro segundos adiantado! Uma hora mais tarde orelógio astronômico da nossa loja seria acertado com precisãode segundos. Na viagem de volta, não olhávamos pela janela.Conversávamos. Falávamos a respeito dos assuntos maisdiversos, que variavam com o passar dos anos: a formatura daBetsie no liceu, apesar das muitas aulas perdidas por causade doença; e quando o Willem acabasse o liceu, será queconseguiria a bolsa de estudo para entrar na Universidade? Ea Betsie começando a trabalhar na nossa loja como guarda-livros. Muitas vezes, eu aproveitava aquelas viagens paradiscutir assuntos que me estivessem a perturbar, já que emcasa, tudo o que eu perguntasse era respondido pelas tias.Certa vez - devia eu ter dez ou onze anos fiz-lhe umapergunta sobre um poema que tínhamos lido na escola. Uma
  26. 26. frase falava de “um jovem cujo rosto não fora marcado pelopecado do sexo”. Eu “receei” perguntar à professora o quesignificava aquilo, e a mãe, quando a interroguei, ficou todavermelha. Naquela época, nos princípios do século XX, nuncase conversava sobre sexo, nem mesmo em família. A fraseficara na minha mente. Pecado, eu sabia, era algo queirritava muito a Tia Jans; sexo era a diferença entre meninose meninas. Os dois reunidos, porém, eu não sabia o que vinhaa ser. Foi assim que, sentada no comboio ao lado do meu pai,lhe perguntei de chofre:“Pai, o que é “pecado do sexo?” “ Ele olhou-me como semprefazia ao responder a uma pergunta; mas,32para minha surpresa, não disse nada.Levantou-se, tirou a malado porta-bagagem por cima de nós, e colocou-a no chão.“Queres levá-la por mim, Corrie?” Pus-me de pé e peguei nela.A mala estava cheia de relógios e peças que ele tinhacomprado nesse dia.“É muito pesada”, disse eu.“E mesmo”, confirmou ele. “E eu seria um péssimo pai seexigisse que a minha filhinha carregasse com todo este peso.Com os conhecimentos dá-se o mesmo, Corrie. Algumas coisassão pesadas demais para as crianças. Quando você for maiscrescida, poderá suportá-las. Hoje, porém, tem que confiar emmim e deixar que eu as leve por você.” Fiquei satisfeita;mais que satisfeita, fiquei em paz. Havia resposta para estae outras perguntas difíceis que eu tivesse; mas, por agora,eu estava tranquila por entregá-las aos cuidados do meu pai.As noites no Beje eram reservadas para receber visitas etocar música. Algumas pessoas traziam flautas, outrasviolinos, e como cada um da família ou cantava ou tocava uminstrumento, formávamos quase uma orquestra à volta do pianoque havia num dos quartos da tia Jans.Somente quando havia umconcerto na cidade é que não tínhamos a nossa pequena reuniãomusical. Não podíamos pagar o bilhete, mas havia uma entradalateral para o palco, de onde se conseguia ouvir bem. Do ladode fora, nós e dezenas de outros amantes da boa músicaseguíamos o concerto nota por nota. As mães e a Betsie nãoeram muito fortes e não aguentavam ficar lá muito tempo, masnós ficávamos ali, à neve e à chuva ou geada. E, enquantodentro do salão se ouviam tosses e ruído de pessoas que semoviam, o grupo que estava à porta não fazia o menor barulho.Ainda melhor era quando havia um concerto na catedral, poisum parente nosso era sacristão. Perto da entrada de serviçoutilizada por ele, havia um banco de madeira junto da parede.
  27. 27. Nós sentávamo-nos nele, sentindo nas costas o frio das velhaspedras, mas com o coração aquecido pela música. O som dealgumas notas daquele velho órgão, no qual Mozart tinhatocado, parecia vir directamente do céu. Eu costumava pensarque o céu devia ser como a catedral de São Bravo, e mais oumenos do mesmo tamanho. Eu sabia que o inferno era quente;então o céu devia ser, como este santuário, frio e úmido, como fumo dos aquecedores de pés a subir como incenso. No céu,eu acreditava, todos teria direito a aquecedores. Até mesmono verão, as lajes de mármore do chão eram frias. Quando,porém, o organista tocava, a gente quase que se esqueciadelas, e se tocasse Bach, então é que se esquecia mesmo. Euestava a subir, com a mãe e a Nollie, uma escada cheia deteias de aranha que se pegavam ao nosso cabelo, e de ratosque fugiam à nossa aproximação. Essa casa ficava um poucodistante do Beje e a sua construção era mais recente,33mas ali não havia uma tia Anna para lavar e encerar. Íamosvisitar uma família pobre da vizinhança, uma das muitas que amãe ““adaptara””. Nós, crianças, nunca percebêramos queéramos pobres. Pobre era a família a quem se levava uma cestade alimentos. A mãe estava sempre a fazer sopas ou papas paraos velhos semi-abandonados ou jovens mães pálidas, isto éclaro, nos dias em que ela própria não se sentia demasiadofraca para ficar ao pé do fogão. Na noite anterior, o bebêdeles tinha morrido e agora a mãe fazia a visita da praxe,levando pão fresco que ela mesma tinha feito. Subiapenosamente, parando várias vezes para recuperar o fôlego.Entramos por uma porta que dava para uma divisão que era, aomesmo tempo, quarto de dormir, sala de jantar e cozinha.Várias pessoas já ali se encontravam, muitas delas de pé, porfalta de cadeiras. A minha mãe encaminhou-se directamentepara a mãe do bebe, mas eu parei à entrada, purificada. Àdireita, no seu bercinho de fabricação caseira, estava acriancinha. É estranho como uma sociedade que escondia dascrianças as verdades sobre o sexo, nada fazia para asproteger da realidade da morte. Fiquei ali de olhos fixos nocorpinho morto, com o coração a bater fortemente. A Nollie,sempre mais corajosa que eu, tocou com a mão no rostinhobranco como marfim. Desejei trazer o mesmo, mas, amedrontadademais, não conseguia. Por alguns instantes, em mim, acuriosidade lutou contra o pavor. Finalmente, encostei umdedo na mãozinha cercada. Estava fria quando vínhamos devolta ao Beje, fria enquanto me lavava para jantar, e friaainda no aconchego da nossa sala de jantar iluminada a gás.
  28. 28. Aqueles dedinhos gelados interpunham-se entre mim e todosaqueles rostos queridos à mesa. Apesar da tia Jans falartanto na morte, até então ela tinha sido para mim apenas umapalavra. Agora eu sabia que era algo real - se era real paraaquele bebezinho, então podia ser para a mãe, para o pai,para a Betsie. Ainda tremendo por causa daquele frio, segui aNollie até ao nosso quartinho e enfiei-me na cama ao seulado. Por fim ouvimos os passos do pai pela escada acima.Aquele momento era, para mim, o melhor do dia - ele vinhaajeitar os nossos cobertores. Nunca dormíamos antes de elevir arranjá-los à sua maneira, e colocar as mãos nas nossascabeças por um instante. Depois, ficávamos quietas eprocurávamos não nos movermos, nem só um dedo. Naquela noite,porém, assim que ele atravessou a porta, rompi em lágrimas.“Eu preciso de si”, solucei. “O pai não pode morrer, nãopode!”A Nollie sentou-se na cama. “Fomos à casa da Senhora Hoog”,explicou. “A Corrie não jantou nem comeu nada.” O pai sentou-se à beira da nossa caminha estreita.“Corrie”, disse gentilmente, “nos dias em que vamos aAmsterdã, quando é que eu te dou o bilhete?”34Funguei duas ou três vezes, pensando no facto.“Pouco antes de tomar o comboio.”“Certo. O nosso Pai celestial é muito bom e sabe o momentocerto em que iremos precisar das coisas. Não passes à frentedele, Corrie. Quando chegar a hora em que tivermos de morrer,vais ver que o teu coração terá a força de que precisas. Nomomento exacto.”35CAPÍTULO IIIKarelConheci o Karel numa das famosas recepções da minha mãe.Nunca consegui lembrar-me se foi num aniversário, nonascimento de uma criança, ou num aniversário de casamento -a mãe fazia uma festa por qualquer motivo. O Willemapresentou-o como um amigo da cidade de Leiden, e ele apertoua mão a todos nós, um por um. Apertei-lhe a mão forte, olheipara aqueles olhos castanhos, e apaixonei-me no mesmoinstante.Quando já todos estavam servidos, sentei-me e fiqueia olhar para ele. Ele, porém parecia totalmente inconsciente
  29. 29. da minha presença, mas isso era natural. Eu tinha só catorzeanos, enquanto que ele e o Willem já eram universitários, asbarbas ralas a começarem a despontar, a conversa entremeadacom o fumo do charuto. Para mim, já era bom estar na mesmasala que ele. Quanto a não ser notada, eu já estavahabituada. A Nollie é que o era sempre, embora, como quasetodas as moças bonitas, ela não ligasse a mínima importânciaàquilo. Quando um rapaz lhe pedia uma mecha do cabelo métodousado então para pedir namoro - ela arrancava alguns fios donosso velho tapete cinzento, amarrava-os com uma fitinhaazul, e fazia de mim o portador. Nessa época, o tapete estavajá muito desbastado, e os corações de um bom número derapazes, destroçados. Eu, pelo contrário, “apaixonei-me” portodos os rapazes da classe, um após o outro, numa espécie deciclo contínuo.Mas, como eu não era bonita, e, ainda por cima, era tímidademais para mostrar os meus sentimentos, toda aquela geraçãode rapazes não reparava na menina da cadeira 32.“Com o Karel, porém, seria diferente” - pensei enquanto a viamexer o café. Eu amá-lo - ia para sempre. Foi somente doisanos mais tarde, que o vi de novo. No inverno de 1908 eu e aNollie fomos a Leiden, para vermos o Willem, na Universidade.Ele ocupava um quarto mal mobiliado no quarto andar duma casaparticular. Acolheu-nos a ambas com um só abraço, e depoiscorreu para a janela.36“Olhem”, disse tirando do peitoril um pãozinho doce recheadoque ali pusera para gelar, “comprei isto para vocês. É melhorcomerem já, antes que os meus amigos esfomeados apareçam poraí.” Sentamo-nos a saborear o precioso pãozinho. Eu sabiaque, para o comprar, o Willem devia ter ficado sem almoço. Umminuto depois, a porta ficou escancarada e quatro colegasseus irromperam pelo quarto dentro - altos, vozes graves, decasacos de gola remendada e punho poído. Entre eles, o Karel.Engoli o último bocado de pão, limpei as mãos à saia, elevantei-me. O Willem apresentou-nos. Quando chegou a vez doKarel, este interrompe:“Nós já nos conhecemos.” Fez uma pequena vênia:“Lembra-se de mim? Conheci-a naquela festa na sua casa.”Olhei para a Nollie - não, ele dirigia-se mesmo a mim. Do meucoração brotaram palavras de contentamento, mas a minha bocatinha ainda os restos do pãozinho doce, e elas nuncaconseguiram chegar-me aos lábios. Os rapazes sentaram-se nochão, e começaram a falar animadamente, todos ao mesmo tempo.Sentada na cama, ao meu lado, a Nollie juntou-se à conversa
  30. 30. com toda a naturalidade, como se visitar aquela escola fosseum hábito diário na nossa vida. Ela parecia mesmo pertencerao grupo: tinha dezoito anos e usava saias compridas,enquanto que eu usava ainda peúgas de vinte centímetros -grossas e pretas - que me cobriam as pernas, da barra dovestido até ao sapato. Outra coisa: a Nollie sabia de quefalar. No ano anterior, ela tinha começado o curso da EscolaNormal. Na verdade, ela não queria ser professora, mas,naquela época, as universidades não davam bolsas de estudo àsmoças, e a escola normal era muito menos dispendiosa. Bem,ela participou na conversa, falando com facilidade sobre osassuntos de interesse dos rapazes - a nova teoria darelatividade, recentemente proposta por um tal Einstein, e aprobabilidade do Almirante Peary de chegar ou não ao PóloNorte.“E você, Corrie, vai ser professora também?” O Karel sorriapara mim, sentado no chão aos meus pés. Senti um calor subir-me ao rosto.“Quero dizer, no ano que vem”, insistiu. “Você está no últimoano do curso secundário, não está?”“Sim... Isto é, não. Vou ficar em casa a ajudar a mãe e a tiaAnna.” A minha resposta saiu curta e seca. Por que é que eunão conseguia dizer nada, tendo tanto para dizer? Quandoterminei o curso, na Primavera, tomei a responsabilidade dotrabalho de casa. Desde há muito que isto tinha sidodeliberado em família, mas agora tínhamos mais uma razão: atia Bep estava doente. Nesse tempo, a doença era incurável. Oúnico tratamento conhecido37era o repouso num sanatório, mas isso era só para os ricos. Eassim, durante meses e meses, a tia Bep ficou deitada no seuquarto, com a vida a esvair-se no meio dos acessos de tosse.Para diminuir o perigo de contágio, somente a tia Anna alientrava. Ela tratava da irmã todo o dia, e, às vezes, toda anoite também. Assim, todo o serviço de casa - cozinhar,lavar, limpar - passou para mim. Eu adorava trabalhar, e, senão fosse a doença da tia Bep, podia sentir-me completamentefeliz. A sombra dela, porém, obscurecia tudo, não só peladoença, mas também por causa de toda a sua vida, triste efrustrada. Muitas vezes, ao dar a bandeja com a comida à tiaAnna, eu espreitava para o interior do quarto. Via as pobreslembranças, os souvenirs dos trinta anos passados nas casasem que trabalhara: frascos de perfume vazios há muito, poisas boas famílias davam sempre perfumes as governantas, noNatal. Fotografias desbotadas, velhos retratos de crianças
  31. 31. que agora tinham os seus próprios filhos e netos. Então aporta fechava-se e eu deixava-me ficar ali, naquele corredorestreito, cujo tecto era o beiral do telhado, desejandoardentemente poder dizer alguma coisa, a querer poder ajudarum pouco, a desejar amá-la mais. Um dia falei disso à mãe.Também ela estava a começar a passar mais tempo de cama.Dantes, sempre que a dor da vesícula ficava insuportável, elasubmetia-se a uma operação. Depois da última, porém, elasofreu um pequeno derrame e não pôde voltar a ser operada.Muitas vezes, ao preparar a bandeja da tia Bep, fazia tambémuma para ela. Dessa vez, quando cheguei com o seu almoço, elaestava a escrever cartas. Sempre que não estava a trabalhar,a fazer gorros e roupas de bebê para toda a vizinhança,estava a escrever mensagens de conforto para quase todos osentrevados e doentes de Haarlem. Nunca se lembrava que mesmoela passara a maior parte da sua vida na cama.“Esse pobre homem, Corrie”, disse-me no momento em queentrei, “está fechado no quarto a três anos. Imagina, fechadoem casa, sem ver o céu.” Dei uma olhadela para fora, pelaúnica janela do quarto.“Mãe”, disse depois de colocar a bandeja na cama e de mesentar ao seu lado, “será que nós não podemos fazer nada pelatia Bep? Quero dizer, é uma pena que ela tenha de viver osseus últimos dias aqui, num lugar que sempre detestou, em vezde estar onde foi tão feliz como na casa da família Waller,ou outra qualquer.” Ela depôs a caneta e olhou para mim.“Corrie”, disse por fim, “a Bep tem sido feliz aqui. Nem maisnem menos do que o foi noutro lugar.” Fitei-a semcompreender.“Sabes quando foi que ela começou a elogiar os Waller?”continuou. “Foi no dia em que deixou a casa deles. Enquantolá esteve, só tinha queixas. Os Waller nem se comparavam aosHook, onde tinha estado antes. Acontece, porém, que, quandoela estava com os Hook, tinha sido muito infeliz. Afelicidade não depende do lugar onde nos encontramos, Corrie.É uma disposição que existe dentro de nós.”38A morte da tia Bep afectou fortemente as três irmãs. A mãe ea tia Anna redobraram de trabalho a cozinhar e a costurarpara os pobres, como se tivessem percebido de novo que a vidaé breve.A tia Jans, por sua vez, pareceu aproxima-se mais doseu próprio fim.“A minha própria irmã!” dizia várias vezes ao dia. “Podia tersido eu!” Mais ou menos um ano depois da morte da tia Bep, umnovo médico passou a fazer as visitas, que antes eram feitas
  32. 32. pelo Doutor Blinker. O seu nome era Doutor Jan van Veen. Comele veio a sua jovem irmã, Tine van Veen, que era enfermeira.Ele trouxe também uma novidade: um aparelho para medir atensão arterial. Não sabíamos o que era aquilo, mas todos nossubmetemos ao processo de enrolar aquele pedaço de lona nobraço e dar à bomba para o encher d’ar. A tia Jans, queadorava todo e qualquer instrumento médico, simpatizoubastante com o Doutor Veen, e daí em diante, passou aconsultá-lo tantas vezes quantas lhe permitisse a suasituação financeira. Alguns anos depois, o Doutor Veendescobriu que a tia Jans tinha diabetes. Naquela época, issoera, tal como a tuberculose, uma sentença de morte. Durantealguns dias, toda a família ficou chocada. Depois de receá-ladurante tantos anos, aí estava a temida presença da morte. Aoreceber a notícia, a tia Jans foi logo para a cama. Ainactividade, porém, não combinava bem com a suapersonalidade vigorosa, e um dia ela surpreendeu-nos a todos,aparecendo para o café exactamente às 8:10, e informando-nosque os médicos muitas vezes se enganam.“Esses exames e análises”, disse a tia Jans que neles criapiamente, “o que é que realmente eles provam?” A partir dessedia ela atirou-se ao trabalho mais do que nunca - escrevia,fazia palestras, formava clubes, iniciava projectos. Em 1914,a Holanda, assim como o resto da Europa, estava mobilizandopara a guerra, e, de um dia para o outro, as ruas de Haarlemencheram-se de soldados. Da sua janela que dava para a rua, atia Jans via-os a passear e a ver montras. Quase todos erammuito jovens, estavam sem dinheiro e saudosos do lar. Foientão que teve a idéia de criar um centro para eles. Talcoisa era novidade naquele tempo, e a tia Jans pós todo o seuentusiasmo no projecto. O carro de tracção animal, quecirculava pela nossa rua, foi substituído por um eléctrico.Este também parava, travões rangendo, quando a tia Jans sepunha majestosamente à porta do Beje. Ela subia para o carrosegurando numa das mãos a longa saia preta, e tendo na outrauma lista com o nome das damas ricas que poderiam vir afinanciar o novo projecto. Só nós, que a conhecíamos,sabíamos que, debaixo de toda aquela actividade, havia umterror monstruoso a impulsioná-la.39Entretanto, a sua enfermidade apresentava mais problemasfinanceiros. Todas as semanas era necessário um teste deverificação do nível do açúcar no sangue, teste esse queenvolvia um processo dispendioso, pois o Doutor Veen ou a suairmã tinham que vir à nossa casa. Depois de algum tempo, a
  33. 33. Tine ensinou-me a fazer o teste. Tinha várias etapas, dasquais a mais delicada era a final: aquecer a mistura até umatemperatura determinada. Era difícil conseguir que o nossofogão fizesse qualquer coisa com precisão, mas afinal,aprendi, e daí em diante, todas as sextas-feiras, eu fazia oteste. Se a mistura depois de aquecida continuasse clara,tudo estava bem. Se escurecesse, eu devia notificar ao Doutorvan Veen.Naquela Primavera, o Willem veio passar alguns dias connoscoantes da sua ordenação. Ele formara-se na universidade doisanos antes, e agora terminava o seu último período naFaculdade de Teologia. Numa noite cálida, estávamos todossentados à mesa na sala de jantar. O pai, com trinta relógiosdispostos à sua frente fazia pequenas anotações num caderno,com a sua letra precisa e elegante: “dois segundos atrasado,cinco segundos adiantado”, e o Willem lia em voz alta umtrecho da história da reforma holandesa.De repente, a campainha da porta lateral soou. Havia umespelho do lado de fora da janela da sala, que nos permitiaver quem estava à porta, antes mesmo deabri-la. Dei uma espiadela rápida, e levantei-me num salto.“Corrie”, gritou a Betsie em tom de recriminação, “olha a tuasaia!” Eu nunca me lembrava de que estava a usar saiascompridas agora, e vária vez a Betsie teve que remendar osrasgões que eu arranjava, sempre que saía depressa demais.Dessa vez desci num pulo os cinco de graus. À porta, com umramalhete de margaridas na mão, estava a Tine van Veen.“Para a tua mãe, Corrie”, disse ela assim que abri a porta,estendendo-me às flores. “Espero que ela...”“Não, não. Tu mesma as entregas. Estás tão bonita assim!” Emesmo sem a ajudar a tirar o casaco, empurrei a espantadamoça pela escada acima. Introduzi-a na sala, quase pisando osseus calcanhares, a fim de ver a expressão do Willem. Eu jásabia como ia ser. Até ali, eu tinha vivido só de romances;retirava da biblioteca pública livros em inglês e alemão,além de holandês, e, muitas vezes, os que eu gostava, lia-osnas três línguas. Tinha lido milhares de vezes a cena em quea mocinha conhece o herói. O Willem pôs-se de pé commovimentos lentos, os olhos na Tine. O pai também selevantou-lá ao nosso filho willem, está é a moça, cujotalento e bondade já nos ouviste elogiar.40Duvido que algum deles tenha prestado atenção ao que o paidisse. Estavam a olhar um para o outro, como se não houvessemais ninguém na sala. O Willem e a Tine casaram-se dois meses
  34. 34. depois da ordenação dele. Durante todo o tempo da preparação,só um pensamento me ocupava a mente: o Karel vai estar cá. Odia do casamento amanheceu frio, mas claro. Imediatamente, osmeus olhos encontraram Karel no meio da pequena multidãoparada em frente da igreja. Usava casaca e cartola, comotodos os homens, mas era, sem dúvida, o mais simpático detodos. Quanto a mim, eu tinha mudado muito desde a última vezque o vira. A nossa diferença de idades - cinco anos - nãoparecia tão grande como antes. Além disso, eu sentia-me...Não, bonita não. Mesmo num momento tão romântico, eu não mepoderia convencer disto. Sabia que o meu queixo não erabonito, tinha pernas compridas e mãos grandes. Mas euacreditava - todos os livros o afirmavam - que para o homemque me amasse eu seria linda.A Betsie tinha-me arranjado o cabelo. Depois de uma hora como ferro tinha conseguido ajeitá-lo todo no alto da cabeça.Milagrosamente, até àquela altura, ainda estava arranjado.Ela também tinha feito o meu vestido de seda, assim como osde todas da família, fazendo serão, à luz fraca da lâmpada,pois a loja ficava aberta de Segunda a sábado, e ela nãogostava de costurar aos domingos.Examinando as outras mulheres presentes, verifiquei que asnossas roupas estavam tão elegantes como as de qualqueroutra. Ninguém poderia supor, pensei ao encaminhar-mejuntamente com os outros para a entrada, que o pai tinhaprescindido de alguns charutos, e a tia Jans do carvão paraaquecimento do quarto, a fim de comprarmos a seda que agoranos envolvia.“Corrie?” À minha frente estava o Karel, alto, cartola nasmãos, com os olhos em mim, parecendo meio indeciso. “Corrie?”“Sim, sou eu!” respondi sorrindo. Sou eu, Karel; e vocêtambém! E este é o momento com que tanto sonhei!“Mas você cresceu! Perdão, Corrie, claro que cresceu. É quesempre pensava em si como a garotinha de grandes olhosazuis.” Olhou para mim outra vez e depois prosseguiusuavemente:“... E agora a garota é uma moça encantadora!” De repente,pareceu-me que a música do órgão era tocada para nós,41única coisa que me prendia à terra, e me impedia de voarpelos telhados de Haarlem. Foi numa chuvosa e fria sexta-feira de Janeiro que os meus olhos viram algo que, aprincípio, me recusava a aceitar. O líquido do exame, norecipiente de vidro no fogão, estava turvo, muito escuro.Encostei-me e fechei os olhos.
  35. 35. “Ó Deus, concede que eu me tenha enganado!” Revi as etapas daanálise; verifiquei os frascos de substâncias e os utensíliosde aferição. Não, eu tinha feito tudo bem. Devia ser entãopor causa da cozinha. Era sempre tão escuro aquele quartinho.Segurei na proveta com um pegador de panela, e fui até àjanela da sala de jantar. Preto Negro como o próprio medo.Ainda com o frasco na mão, desci os cinco degraus eatravessei a porta de trás para a oficina. O pai, com o seuóculo de aumento procurava por cima do ombro do aprendiz, comtoda a perícia, uma peça pequenina, no meio das que seencontravam espalhadas na banca de trabalho à sua frente.Olhei para dentro da loja, pelo vidro da porta. A Betsie, pordetrás da caixa, falava com uma freguesa. Não; não era umafreguesa, era uma importuna. Eu conhecia bem àquela senhora.Vinha sempre aqui pedir conselhos sobre relógios, e depois oscomprava na outra loja da rua, na relojoaria dos Kan. Nem opai nem a Betsie pareciam preocupar-se com o facto dessascoisas acontecerem cada vez mais. Quando ela saiu, entrei como teste revelador na mão.“Betsie”, disse a chorar, “Betsie, está escuro. Como vamosdizer-lhe? O que vamos fazer?” A Betsie saiu de trás da mesaapressadamente, e abraçou-me. O pai também chegou e entrou.Os olhos dele foram do vidro para a Betsie e dela para mim.“Tu fizeste tudo bem, Corrie? Com todos os detalhes?”“Infelizmente, sim.”“Também me parece, filha; mas precisamos da opinião domédico.”“Vou lá agora”, disse. Passei o líquido escuro para umfrasquinho e corri com ele pelas ruas molhadas eescorregadias de Haarlem.Havia uma nova enfermeira no consultório e tivemos queesperar meia hora, na sala de espera, silenciosamente. Eusentia-me horrivelmente apreensiva. Finalmente o doente saiue o Doutor van Veen pegou no frasquinho e levou-o para olaboratório.“Não há dúvida, Corrie”, disse ao regressar. “A sua tia temno máximo três semanas de vida.” Quando voltei para casa,fizemos uma reunião de família: a mãe, a tia Anna, o pai, aBetsie e eu. A Nollie só voltaria à noite. Todos concordamosem que ela precisava saber já.42“Vamos contar-lhe todos juntos”, decidiu o pai, “mas eu direias palavras necessárias. Talvez...” o seu rosto iluminou-seum pouco, “talvez ela se alegre ao pensar em tudo o que járealizou. Ela dá tanta importância às coisas. E quem sabe se
  36. 36. ela não estará certa?” Assim, subimos a escada para osquartos da tia Jans. O pai bateu à porta.“Entra”, disse ela. E depois concluiu como sempre: “e fecha aporta antes que eu apanhe uma corrente de ar.” Estava sentadaà mesa redonda de mogno, a escrever um novo apelo a favor docentro para soldados. Ao ver tantas pessoas entrarem, largoua caneta. Olhou-nos um a um até chegar a mini, e aí soltouuma exclamação sufocada. Era sexta-feira de manhã, e eu aindanão lhe tinha levado o resultado da análise.“Minha querida cunhada”, começou o pai gentilmente, “há umaviagem feliz que cada filho de Deus tem que fazer mais cedoou mais tarde. Sabes, Jans, alguns vão de mãos vazias, mas tunão!”“Todos esses clubes...” aventurou-se a tia Anna.“Os seus panfletos...” juntou a mãe.“O dinheiro que a senhora conseguiu...” disse a Betsie.“As suas palestras...” comecei. Os nossos bem intencionadosesforços, porém, não deram nada. Aquele rosto orgulhosoabateu-se muito diante de nós. A tia Jans levou as mãos àcara e começou a chorar.“Vazia!” disse por fim, entre lágrimas. “Como é que se podedar algo a Deus? Que lhe interessam as nossas ninharias?”Enquanto a observávamos quase sem poder acreditar, eladescobriu o rosto e, com lágrimas escorrendo pela face,murmurou: “Senhor Jesus, eu te agradeço porque temos de iraté ti de mãos vazias. Eu te agradeço porque, na cruz, tufizeste tudo, mesmo tudo; e é só isto que precisamos sabercom certeza, na vida e na morte.”A mãe abraçou-a e as duas ficaram agarradas por um momento.Eu estava presa ao chão. Sabia que tinha visto um mistério.Era a passagem de comboio de que o meu pai falou, e que lheera dada no momento exacto. Com um rápido movimento do lençoe um ruidoso assoar do nariz, ela fez-nos saber que o momentode sentimentalismos tinha passado.“Se me deixarem só”, disse, “pode ser que eu ainda façaalguma coisa.”Deu uma olhadela ao pai, e naqueles olhos sérios passou, aode leve, um brilho maroto.“Não que o trabalho importe, Casper; não importa mesmo nada;mas”, ela despachava-nos dali, “não vou deixar a mesaatravancada para alguém ter de arrumá-la por mim.” O esperadoconvite para o primeiro sermão do Willem só chegou quatromeses depois da morte da tia Jans. Depois dele ter trabalhadoum ano como co-pastor43
  37. 37. duma igreja, começou a pastorear, ele mesmo, uma outra igrejaem Brabant, a belíssima região rural do sul da Holanda. NaIgreja Reformada Holandesa, o primeiro sermão dum pastor, noseu primeiro pastorado, era as ocasiões mais solenes, alegrese emocionantes que um povo pouco emotivo como o nosso poderiater. A família e os amigos viriam até de muito longe, eficariam ali vários dias.O Karel escreveu, do lugar onde estava a servir como co-pastor, a dizer que iria e que estava ansioso por nos voltara ver a todos. Dei a esse “todos” um significado muitoespecial, e enquanto passava a roupa e fazia as malas,vibrava antecipadamente pelo encontro. Para a mãe, a viagemfoi uma tortura. Ela acomodou-se mesmo no canto do nossocompartimento, e ficou ali apertando a mão do pai, a pontodos nós dos dedos ficarem brancos, sempre que o comboiobalançava ou dava um arranque. Enquanto nós apreciávamos asramagens verdes das árvores, ela não tirava os olhos do céu.O que para nós era um passeio pelos campos, para ela era umfestim de nuvens e duma imensidão azul. Tanto a cidadezinhade Made como a congregação tinha sofrido um grande declínionos últimos anos. O templo, porém, que datava de épocasmelhores, era muito grande, como também a casa pastoral, dooutro lado da rua. Comparada com o Beje, era enorme. Nasprimeiras noites, o tecto parecia-me absurdamente alto, tãoalto que não consegui dormir. Todos os dias chegavam primos,tios e amigos, mas a casa nunca parecia cheia. Três diasdepois da nossa chegada, bateram à porta e fui abrir. Dei como Karel de pé à entrada, os ombros ainda salpicados pelacinza do comboio.Atirou com a mala para o corredor e agarrou-me uma das mãos, puxando-me para fora.“O dia está lindo, Corrie”, disse. “Vamos dar uma volta.” Daíem diante, pareceu ficar decidido que iríamos dar uma voltatodos os dias. O nosso trajecto por aquelas trilhas sinuosasde terra batida, tão diferente das ruas pavimentadas deHaarlem, era cada vez um pouco mais longo. Naqueles momentos,era difícil acreditar que o resto da Europa estivessecomprometido na luta mais sangrenta da Historia. Aquelaloucura, ao que parecia, tinha cruzado o oceano: a América,diziam os jornais, estava para entrar na guerra. Aqui naHolanda neutra, porém, a um dia solarengo de Verão, seguia-seoutro. Só algumas pessoas - e entre elas o Willem -asseguravam que a guerra significava tragédia para a Holandatambém. E este foi o tema do seu primeiro sermão. Operava-seuma mudança tanto na Europa como no resto do mundo, disse.Aquele modo de vida estava a terminar, não importava quemganhasse a guerra. Olhei ao meu redor. Essa congregaçãocomposta de aldeões e fazendeiros vigorosos não ligava muito
  38. 38. a tais idéias.Depois do culto, os amigos e parentes mais distantespartiram. O Karel, porém,44ficou. Os nossos passeios tornaram-se mais longos.Conversámos sobre o seu futuro e, de repente, começamos afalar não sobre o que ele faria, mas sobre o que nósfaríamos... Nós imaginávamo-nos a ter que decorar uma casagrande como aquela, e, com alegria, descobrimos que tínhamoso mesmo gosto quanto a mobiliário, flores, e até mesmo quantoa cores predilectas. Discordamos apenas num ponto: os filhos.O Karel queria quatro, e eu, firmemente, desejava seis.Durante todo o tempo, porém, a palavra “casamento” nunca foipronunciada.Um dia quando o Karel se ausentara, o Willem aproximou-se demim com duas xícaras de café na mão. Logo atrás dele, tambémcom o café, vinha a Tine.“Corrie”, disse ele dando-me o café e falando-me comdificuldade, “Será que o Karel lhe deu a entender queestá...”“Com intenções sérias?” completou a Tine. Aquele rubor que eudetestava e que nunca conseguia controlar subiu-me às faces.“Eu... Nós... Não. Porquê?” O rosto do Willem também seruborizou.“Porque isso não deve acontecer. Tu não conheces a famíliadele. Desde que ele era pequeno, que eles só têm um desejo.Sacrificaram-se muito, e já fizeram planos; basearam toda asua vida numa só coisa: querem que o Karel faça um “casamentovantajoso”. Parece que é assim que eles dizem.” De repente,aquela sala vazia pareceu-me ainda mais feia.“Mas... E o que o Karel deseja, não vale nada? Ele já não écriança!” O Willem fixou em mim o olhar sério e profundo.“Ele vai obedecer, Corrie. Não digo que ele queira estasituação; mas para ele já é coisa resolvida. Na faculdade,quando conversávamos sobre moças de quem gostávamos, eledizia sempre: “Naturalmente, não poderei casar-me com ela;seria a morte da minha mãe”.” Tomei o café rapidamente equase me queimei. Saí para o jardim. Detestei aquela casasombria, e comecei quase a odiar o Willem também. No jardim,as coisas eram diferentes. Juntos, ele e eu tínhamosapreciado cada planta, cada flor, e parecia que cada umadelas estava impregnada dum pouco do afecto que tínhamos umpelo outro. O Willem podia saber mais do que eu a respeito deteologia, guerra e política, mas quanto a romances... Noslivros, estes problemas de dinheiro, prestígio social, plano
  39. 39. de família, etc. acabavam sempre por se desfazer como nuvensligeiras.O Karel foi-se embora mais ou menos uma semana depois. Assuas últimas palavras tocaram o meu coração. Somente algummês mais tarde me lembrei de que elas tinham sido muitoestranhas. Ele tinha falado com certa ansiedade, quase comdesespero. Estávamos de pé, à entrada, à espera do carro queo levaria, e que em Made ainda era o transporte seguro,quando se tinha que45tomar o comboio. Despedimo-nos depois do café da manhã. Emparte, eu estava triste, pois ele ainda não falara emcasamento e, em parte, eu estava contente só pelo facto deestar perto dele. De repente, segurou as minhas mãos.“Corrie, escreva-me”, disse sem sorrir e num tom de súplica.“Fale-me sobre o Beje. Quero saber tudo. Quero saber tudodaquela maravilhosa casa velha e feia. Fale de seu pai, comoele se esquece de mandar as contas dos consertos que faz.Corrie, o Beje é o lar mais alegre da Holanda.” E era mesmo,quando todos nós: o pai, a mãe, a Betsie, a Nollie, a tiaAnna e eu voltávamos para lá. Sempre fora um lugar feliz.Agora, porém, cada acontecimento parecia adquirir um novobrilho, porque agora eu contava tudo ao Karel. Cada refeiçãoque eu preparava era uma homenagem que lhe fazia; cada panelaque brilhava, um poema; cada maneio da vassoura, um gesto deamor. As suas cartas não eram tão frequentes como as minhas.Atribuí isso ao seu trabalho. O pastor de que ele eraassessor, escreveu Karel, tinha-Ihe passado todo o trabalhode visitas. A congregação era rica e aqueles bonscontribuintes esperavam longas e repetidas visitas doministério da igreja. Com o decorrer do tempo, as suas cartastornaram-se cada vez mais escassas. Compensei essa faltaescrevendo mais, e continuei na mesma vida, no Verão e noOutono.Num maravilhoso dia de Novembro, quando toda a Holandacantava comigo, a campainha tocou. Eu estava na cozinha alavar a louça, mas atravessei a correr a sala de jantar edesci aqueles degraus antes que outra pessoa tivesse tidotempo de se mexer.Abri a porta depressa e lá estava o Karele, ao seu lado, uma jovem. Ela sorria-me. Os meus olhoscorreram do chapeuzinho - com uma enorme pena para a gola docasaco de arminho, para a mão enluvada de branco que seapoiava no braço dele.“Corrie, quero apresentar-lhe a minha noiva”, disse o Karel,e imediatamente a cena ficou turva.Eu devo ter dito alguma
  40. 40. coisa; devo tê-los conduzido para o quarto da tia Jans, queagora usávamos como sala de visitas, mas só me lembro de quea família veio em meu socorro, falando, cumprimentando,pegando nos casacos, oferecendo cadeiras, para que eu nãotivesse que fazer isso nem dizer nada. A mãe bateu o seupróprio recorde de fazer café. A tia Anna serviu o bolo. ABetsie saiu para conversar com a moça sobre a moda deinverno, e o pai apanhou o Karel numa palestra de carácterbem impessoal sobre assuntos internacionais. O que é que elepensava do facto do Presidente Wilson, dos Estados Unidos,enviar tropas para a França?Por fim, há meia hora passou-se. De alguma maneira, conseguiapertar a mão dela, depois a dele, e desejar-lhesfelicidades. A Betsie acompanhou-os à porta, e antes46que esta se fechasse, eu já estava a subir escada acima, parao meu quarto, onde poderia deixar as lágrimas correrem àvontade.Não sei quanto tempo fiquei ali a chorar por causa do amor daminha vida. Mais tarde, ouvi os passos do pai subindo. Por ummomento, pensei ser eu ainda a garotinha cujas roupas elevinha arranjar. O meu sofrimento de agora, porém, nenhumcobertor poderia amenizar. Subitamente, tive medo do que opai me fosse dizer. Receei que dissesse: “Muito em breve vaiaparecer outro...”, e que esta mentira ficasse entre nós, aseparar-nos a partir de então. Eu tinha a certeza absoluta deque nunca mais haveria outro amor na minha vida. O doce aromado charuto do pai entrou no quarto com ele. E, naturalmente,ele não disse a frase falsa e vã que eu temia.“Corrie”, principiou ele, “sabes o que é que nos fere tantonuma situação destas? É o amor. O amor é a força maispoderosa do mundo, e, quando é bloqueada, causa dor.“Quando isto acontece, podemos fazer duas coisas: podemosdestruir o amor para reprimir o sofrimento, e neste caso, umaparte do nosso ser é destruída com ele também; ou então,Corrie, podemos pedir a Deus que abra uma outra estrada parao nosso amor transbordar.“Deus ama o Karel - muito mais do que tu o amas - e, se tupedires ao Senhor, Ele dar-te-á esse amor. É um amor que nãopode ser frustrado nem destruído. Quando não podemos amar àmaneira humana, Corrie, Deus dá-nos capacidade de amar demodo perfeito.” Naquele momento, e depois, quando ouvi ospassos do pai descendo a escada, eu não percebi que ele merevelara mais que um segredo para superar aquela ocasiãodifícil. Não sabia que ele colocava nas minhas mãos a chave

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