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Afirmando, ainda, a existência de vida em outros planetas, oautor desenvolve estudos intrigantes sobre mundos de vidasuper...
sentidos do corpo, ainda não vos tocou com a sua mãoemancipadora. Pertenceis ao mundo dos vivos. Apesar doisolamento de er...
espetáculo prosseguir; recai, então, no sonho e numa espécie demeio-sono. Assim se balança nossa faculdade pensante ao sai...
curso, elas estão já acima do corpo e daí já observaram oadormecimento. Libertando-se dos liames magnéticos, sentem-se rap...
vil fragmento enferrujado. A molécula de oxigênio é idêntica,brilhe no olhar amoroso da noiva, ou, reunida ao hidrogênio,p...
começo e um fim; é uma força física inconsciente, organizadorae conservadora do corpo.   A alma é um ser intelectual, pens...
resultado um julgamento intelectual, por exemplo, concluir que4 multiplicado por 4 é igual a 16 ou que a soma dos três âng...
Quœrens – É a primeira vez que assimilo, sob uma formasensível, este fato não sobrenatural da morte, e compreendo aexistên...
constelado com as precedentes, admirava-se, na constelação doCocheiro, bela estrela de áureos raios, a que, desenhada àbor...
imediatamente a esse instante. O ano, os dias e as horas sãoconstituídos pelo movimento da Terra. Fora dessesmovimentos, o...
não ser forçado ao exame desses mundos, ela desaparecia deminha visão, deixando-me em excelentes condições paraobservar ap...
que tais dificuldades dependem tanto da imperfeição da nossavista quanto da lei geométrica do decrescimento das superfície...
Lúmen – Deixai-me prosseguir minha narrativa. Cheguei,pois, ao anel mencionado, cuja largura é bastante vasta paraque 200 ...
aparente paradoxo, a Terra é verdadeiramente um astro do céu(e isso eu vos recordei há pouco). De longe, de uma das estrel...
paisagem de inverno, árvores despidas de folhagem, um tristedia de Janeiro, enquanto que eu deixara a Terra em Outubro.Tiv...
também. A rua de Rivoli sumira-se. O Louvre não estavaconcluído, ou então demolido. Entre o trecho quadrado doLouvre e as ...
Tulherias apresentava sua cúpula quadrada central. As torresfeudais do Chatelet e da Santa-Capela assinalavam bem oantigo ...
II   Quœrens – Que situação extraordinária para o vossoEspírito analista, ó Lúmen! E qual o meio que vos permitiuchegar a ...
mais próximas; fora desse perímetro a percepção resultaconfusa. “Nosso Sol é uma dessas estrelas contíguas.”Conhecem, pois...
Minha vista afinal se adaptara ao espetáculo observado, edestaquei, no meio da praça da Concórdia, um cadafalsorodeado de ...
sentimos radicalmente ilusória e da qual não podemos admitira realidade, mesmo assistindo a ela.   Lúmen – Sim, meu amigo,...
Lúmen – Essas considerações, e outras, meu amigo, meabsorveram e atormentaram; mas, todas elas não puderamdestruir a reali...
isso correspondia; era a estrela, de primeira grandeza, Alfa doCocheiro, denominada também Capela ou a Cabra. Não havia am...
para os ao decuplo desta distância; 5 minutos para os que,colocados a 100 quilômetros, ouçam ainda esse trovão doshomens. ...
Quœrens – Se o raio luminoso que nos vem dessa estrelaemprega aquele tempo para atingir o nosso mundo, a luz quenos traz é...
surpreendente transformação do passado em presente. Para oastro observado, é o que já se passou, o já desaparecido; para o...
extinguiriam, sucessivamente, à proporção do decurso detempo necessário para que os respectivos raios luminosos, delaseman...
de 1864, data da vossa morte, mas na situação de Janeiro de1793, por isso que a luz gasta 872 meses para atravessar oabism...
épocas diversas, segundo suas distâncias e o tempo que a luz decada um gastou para chegar a Terra! Assim, nenhum olharhuma...
III    Lúmen – Depois de haver desviado meu olhar das cenassangrentas da praça da Revolução, eu me senti atraído parauma h...
menino. Era minha mãe. Ah! jamais, nunca, em meus setenta edois anos de existência terrestre, entre todas as peripécias,to...
completo no primeiro. Admitis que o aspecto da Terradespende 864 meses para chegar a mim, não é certo ? que osaconteciment...
outros sentidos tivessem tido a perfeição da minha vista,parece-me que eu teria podido tocar-me e ouvir-me a mimpróprio. E...
Onde está a criança, onde está o velho? Sem dúvida, o genitorestá mais idoso do que ele, mas esse tempo já passou, pois og...
Luxemburgo, a rua do Este e a aléia do jardim da rua de S.Jaques, e vendo acorrer minha bem-amada para me recebersob os li...
que quando me pareciam ser os próprios acontecimentos.Reconheci, na praça da Bolsa, Lamoricière, falecido no anopassado, e...
de conhecidos; e, enfim, chega o momento em que, pelapercepção dos raios ultravioleta, atravessando os mundos, eume vi, de...
Quœrens – Confesso que essa combinação foi a última, oupelo menos me intrigou de modo a excluir qualquer outra nomomento. ...
sucessivamente escalonados, me mostraram o conjunto daminha vida. Apresentaram-se quase todos sobre o mesmo raiovisual. Tu...
pudestes retornar ao leito de morte antes que vosso envoltóriomortal fosse sepultado.    Lúmen – Regressei, e bendisse as ...
Depois de algum tempo, cuja duração não me foi possívelverificar, cheguei ao mesmo anel e à montanha onde estivera naantev...
da Terra, até às regiões em que tais aspectos, trazidos pela luz,estavam gravados. Aí tendes revelada, meu amigo, a estran...
vos pude apresentar hoje o esquema geral, e que é fértil emnovos horizontes. As estrelas me chamam, e já desapareceram.Ade...
Segunda narrativa 4                      Refluum temporis                               I   Quœrens – As revelações interr...
são mesmo visíveis). Só compreendeis o que pertence ao mundodas vossas impressões. E porque estais propensos a ter porabso...
Lúmen – Algum tempo depois da minha partida da Terra, osolhos de minha alma se voltaram melancolicamente para estapátria, ...
Terra, assinalou uma distribuição de bandeiras tricolores, emextensa praça da cidade de Lião. Procurando distinguir aperso...
astros. As personagens que me pareceram ser no momento oDuque de Orleães e Luís XVIII, são talvez outros príncipes queestã...
impossível, ao contrário, seria não existir tal mundo, e maisfacilmente milhares em vez de um. A Natureza deverá ter-senão...
de Versalhes repleta de carruagens de luto e, em um atalhoaberto de Ville-dAvray, reconheci o lento caminhar dobotânico Jo...
me representava a França, porque é agradável estar longe,bastante longe da sua pátria, e nela sonhar sempre, deixandoque, ...
Camille flammarion   narrações do infinito
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Camille flammarion narrações do infinito

  1. 1. www.autoresespiritasclassicos.com Camille Flammarion Narrações do Infinito (Lúmen) Nebulosa de Carangueijo █ Conteúdo resumido Através das narrativas do Espírito Lúmen, esta obra nosmostra cientificamente que toda a história dos mundos estágravada no universo infinito.
  2. 2. Afirmando, ainda, a existência de vida em outros planetas, oautor desenvolve estudos intrigantes sobre mundos de vidasuperior, formas desconhecidas na Terra, alma das plantas eoutras temáticas de interesse atual em assuntos astronômicos.SumárioPrimeira narrativa ..................................................................... 2Segunda narrativa .................................................................... 45Terceira narrativa .................................................................... 71Quarta narrativa ....................................................................... 85Quinta narrativa ...................................................................... 128 Primeira narrativa 1 Resurrectio præteriti I Quœrens – Vós me haveis prometido, ó Lúmen!, fazer anarrativa dessa hora, estranha entre todas, que se seguiu aovosso derradeiro suspiro, e descrever de que modo, por uma leinatural, embora mui singular, revistes o passado no presente epenetrastes um mistério que havia permanecido oculto até hoje. Lúmen – Sim, meu velho amigo, vou cumprir a promessa e,graças à longa correspondência de nossas almas, esperocompreendereis esse fenômeno estranho, conforme oclassificastes. Há contemplações cuja força o olhar mortal nãopode suportar. A morte, que me libertou dos frágeis e fatigáveis
  3. 3. sentidos do corpo, ainda não vos tocou com a sua mãoemancipadora. Pertenceis ao mundo dos vivos. Apesar doisolamento de ermo, nessas reais torres do arrabalde Saint-Jacques, onde o profano não vem perturbar vossas meditações,fazeis, sem embargo disso, parte da existência terrestre e dassuas superficiais preocupações. Não vos admireis, pois, noinstante de vos associar ao conhecimento do meu mistério, doconvite para que vos isoleis, mais ainda, dos ruídos exteriores eme presteis toda a intensidade de atenção de que o vossoEspírito seja capaz de concentrar nele próprio. Quœrens – Serei todo ouvidos, para vos escutar, ó Lúmen!, etodo o meu Espírito estará concentrado em vos compreender.Falai, sem receio nem circunlóquio, e dignai-vos de me fazerconhecedor das impressões, ignotas para mim, que sucedem àcessação da vida. Lúmen – Por onde desejais comece a narração? Quœrens – Se bem recordardes, a partir do momento emque, mãos trêmulas, eu vos fechei os olhos. Gostaria que daípartisse a vossa origem. Lúmen – Oh! a separação do princípio pensante e doorganismo nervoso não deixa na alma nenhuma espécie derecordação. É como se as impressões do cérebro, queconstituem a harmonia da memória, se apagassem inteiramentee fossem logo restabelecidas sob outro modo. A primeirasensação de identidade que se experimenta depois da morteassemelha-se à que se sente ao despertar, durante a vida,quando, acordando pouco a pouco, à consciência da manhã,ainda se está penetrado pelas visões da noite. Chamado pelofuturo e pelo passado, o Espírito busca, por seu turno, retomara plena posse de si mesmo e deter as impressões fugitivas dosonho esvaecido, que passam ainda nele com o respectivocortejo de quadros e acontecimentos. Às vezes, absorvido em talretrospecção de um sonho cativante, sente sob as pálpebras,que de novo se fecham, os elos tênues da visão reatados e o
  4. 4. espetáculo prosseguir; recai, então, no sonho e numa espécie demeio-sono. Assim se balança nossa faculdade pensante ao sairdesta vida, entre uma realidade que não compreende ainda eum sonho não desaparecido completamente. As mais diversasimpressões se amalgamam e confundem, e se, sob o peso desentimentos perecedouros, tem saudades da Terra de onde vemexilado, é então oprimida por um sentimento de tristezaindefinível que pesa sobre nossos pensamentos, nos envolve detrevas e retarda a clarividência. Quœrens – Experimentastes essas sensações imediatamenteapós a morte? Lúmen – Após a morte? Mas não existe morte. O fato quedesignais sob tal nome, a separação do corpo e da alma, não seefetua – por assim dizer – sob uma forma dita material,comparável à separação química de elementos dissociados quese observa no mundo físico. Não se percebe essa separaçãodefinitiva, que vos parece tão cruel, mais do que a podeperceber o recém-nascido, saindo do ventre materno. Somosverdadeiramente nascidos para a vida celeste, tal qual o fomospara a existência terrestre. Apenas, não estando a alma envoltanas faixas corporais que a revestem na Terra, adquire ela maisprontamente a noção do seu estado e da sua personalidade. Talfaculdade de percepção varia todavia – essencialmente – deuma para outra alma. Há as que durante o viver nunca seelevaram rumo do céu, nem sentiram o desejo de penetrar asleis da Criação. Essas, dominadas ainda pelos apetitescorporais, permanecem longo tempo em estado de perturbaçãoe de inconsciência. Outras existem, felizmente, que, desde estavida, voaram com as suas aspirações aladas rumo aos cimos dobelo eterno. Estas, vêem chegar com calma e serenidade oinstante da separação; elas sabem que o progresso é a lei daexistência, que entraram no Além, numa vida superior à deaquém; seguem, passo a passo, a letargia que sobe ao coração e,quando o último movimento, vagaroso e insensível, pára em seu
  5. 5. curso, elas estão já acima do corpo e daí já observaram oadormecimento. Libertando-se dos liames magnéticos, sentem-se rapidamente arrebatadas por uma força desconhecida rumodo ponto da Criação, a que as suas aspirações, sentimentos eesperanças as atraem. Quœrens – A palestra que ora inauguro convosco, meu caromestre, traz à memória os diálogos de Platão sobre aimortalidade da alma; e igual a Fedro que o solicitava a seumestre, Sócrates, no próprio dia em que este devia beber acicuta – para obedecer à iníqua sentença dos Atenienses –, euvos pergunto, ó vós, que haveis transposto o termo fatal, quediferença essencial distingue a alma do corpo, de vez que esteperece, enquanto que a primeira não morre jamais? Lúmen – Não darei a essa questão uma resposta metafísica,qual a de Sócrates, nem uma solução dogmática, qual a dosteólogos, mas uma resposta científica, porque vós, tal qual eu,dais valor somente aos fatos constatados pelos métodospositivos. Ora, pode-se distinguir no ser humano três princípiosdiferentes, ainda que reunidos: 1ª: o corpo material; 2ª: o corpo astral; 3ª: a alma. Menciono-os nessa ordem para seguir o método a posteriori.O corpo material é uma associação de moléculas, formadas elaspróprias de agrupamentos de átomos. Os átomos são inertes,passivos, governados pela força, e entram no organismo pelarespiração e pelos alimentos, renovam incessantemente ostecidos, são substituídos por outros e, eliminados, vão pertencera outros corpos. Em alguns meses, o corpo humano étotalmente renovado, e nem no sangue, nem na carne, nem nocérebro, nem nos ossos resta mais um único dos átomos queconstituíam o todo alguns meses antes. Por intermédio da atmosfera, principalmente, os átomosviajam sem cessar de um para outro corpo. A molécula de ferroé sempre a mesma, quer esteja incorporada ao sangue quepulsa sob a têmpora de um homem ilustre, quer pertença a um
  6. 6. vil fragmento enferrujado. A molécula de oxigênio é idêntica,brilhe no olhar amoroso da noiva, ou, reunida ao hidrogênio,projete sua flama em um dos mil luzeiros das noites parisienses,ou, ainda, tombe em gota de água do alto das nuvens. Os corposatualmente vivos são formados da cinza dos mortos e, se todosos mortos ressuscitassem, faltariam aos vindos por últimomuitos fragmentos pertencentes aos primeiros. E, durante avida mesmo, numerosas mudanças ocorrem, entre amigos einimigos, entre homens, animais, plantas, trocas que causariamsingular espanto ao olhar analisador. Quanto respirais, comeisou bebeis, já foi respirado, bebido ou comido milhares de vezes.Tal é o corpo: um complexo de moléculas materiais que serenovam constantemente. O corpo astral é, por assim dizer, imaterial, etéreo, fluídico.É por ele que o Espírito está associado ao corpo material; é oenvelope da alma, a substância física do Espírito. Pela energia vital a alma grupa as moléculas, seguindo certaforma, e constitui os organismos. A força rege os átomos passivos – incapazes de seconduzirem eles próprios, inertes; a força os chama, faz que lheobedeçam, toma-os, coloca-os, dispõe todos conforme certasregras e forma esses corpos tão maravilhosamente organizadosque o anatomista e o fisiologista contemplam. Os átomos sãopermanentes; a força vital não. Os átomos não têm idade; aforça vital nasce, envelhece, morre. Um octogenário não é maisidoso do que o jovem de quatro lustros. Porquê? Os átomos queo constituem estão, naquele, apenas há alguns meses e, alémdisso, não são nem velhos, nem novos; analisados, os elementosconstitutivos do seu corpo não têm idade. O que envelheceu,pois, no octogenário? A sua energia vital, a qual outra coisa nãoé que uma transformação da energia do Universo, e esgotadano corpo. A vida se transmite pela geração. Ela mantém ocorpo instintivamente sem ter consciência dela própria: tem um
  7. 7. começo e um fim; é uma força física inconsciente, organizadorae conservadora do corpo. A alma é um ser intelectual, pensante, imaterial na essência.O mundo das idéias, no qual vive, não é o mundo de matéria:não tem idade, nem envelhece; não muda em um mês ou dois,igual ao corpo, pois, decorridos ano, lustro, decênio, sentimosque conservamos a nossa identidade, que o nosso eu permanece.De outro modo, se a alma não existisse, se a faculdade de pensarfosse função do cérebro, não poderíamos continuar a dizer quetemos um corpo: este seria o corpo que teríamos na ocasião.Além disso, de período em período, nossa consciência mudaria,não possuiríamos mais a certeza, nem mesmo o sentimento danossa identidade, e não seríamos mais responsáveis pelasresoluções segregadas pelas moléculas que haviam passado pornosso cérebro muitas dezenas de meses antes. A alma não é aforça vital, pois esta é mensurável, transmite-se por geração,não tem consciência intrínseca, nasce, aumenta, declina e morre– estados diametralmente opostos aos da alma, imaterial,imensurável, intransmissível, consciente. O desenvolvimento daforça vital pode ser representado geometricamente por um fusoque inche insensivelmente até ao meio e depois decresça atéanular-se na outra extremidade. No meio da vida, a alma nãodesincha (se se pode usar a comparação) para diminuir emforma de fuso e ter um fim, mas continua a abertura da suaparábola, lançada no Infinito. Além disso, o modo de existênciada alma é essencialmente diverso do da vida. É um modoespiritual. O sentimento do justo ou do injusto, do verdadeiroou do falso, do bom ou do mau; o estudo, as matemáticas, aanálise, a síntese, a contemplação, a admiração, o amor, o afetoou a antipatia, a estima ou o desprezo, em uma palavra, aspreocupações da alma, quaisquer que sejam, pertencem àordem intelectual e moral, que os átomos e as forças físicas nãopodem conhecer, e que existe tão verdadeiramente quanto aordem material. Jamais o trabalho químico ou mecânico dascélulas cerebrais, por mais sutil que se suponha, poderia dar em
  8. 8. resultado um julgamento intelectual, por exemplo, concluir que4 multiplicado por 4 é igual a 16 ou que a soma dos três ângulosde um triângulo é igual a dois ângulos retos. Esses elementos da entidade humana são encontrados noconjunto do Universo: 1º - os átomos, os mundos materiais, inertes, passivos; 2º - as forças físicas, ativas, que regem os mundos e que se transformam umas nas outras; 3º - Deus, o Espírito eterno e infinito, organizador intelectual das leis matemáticas às quais as forças obedecem; ser incognoscível, no qual residem os princípios supremos do verdadeiro, do belo e do bem. A alma é ligada ao corpo material pelo corpo astral,intermediário, que ela conserva depois da morte. Quando avida se extingue a alma se separa naturalmente do organismo ecessa qualquer relação imediata com o Espaço e o Tempo, poisnão tem densidade alguma, nem peso. Depois da morte ela seencontra desprendida do corpo e permanece maior ou menorinterregno na atmosfera. Relativamente livre, a alma podedeslocar-se facilmente e, às vezes, projetar-se mesmo a imensasdistâncias, com a rapidez do pensamento. Sabeis que do Sol àTerra, ou desta aos planetas, a gravitação se transmite quaseinstantaneamente com uma velocidade maior do que a da luz. Atransmissão da alma, mônada-psíquica, no Espaço, é da mesmaordem. Assim, estamos no céu, imediatamente depois da morte,de igual modo que o havíamos estado, aliás, durante todo operíodo da existência. Somente não temos mais o peso que nosprende ao planeta. Acrescentarei, todavia, que a alma demoraalgum tempo para desprender-se do organismo nervoso e, porvezes, permanece muitos dias, meses mesmo, magneticamenteligada ao antigo corpo que não deseja abandonar. Não raro,conserva, por largo período, seu organismo fluídico, além deque, dotada de faculdades especiais, pode transportar-serapidamente de um ponto a outro do Espaço.
  9. 9. Quœrens – É a primeira vez que assimilo, sob uma formasensível, este fato não sobrenatural da morte, e compreendo aexistência individual da alma, sua autonomia do corpo e davida, sua personalidade e sobrevivência, sua situação tãosimples no céu. Esta teoria sintética me prepara, eu o creio,para compreender e apreciar vossa revelação. Umacontecimento singular, dissestes, vos impressionou a entradana vida eterna. Em que momento sobreveio? Lúmen – Ei-lo, meu amigo. Deixe-me seguir na narrativa.Soavam, bem sabeis, as doze pancadas da meia-noite, notímpano do meu velho carrilhão e o plenilúnio, em meio do seucurso, derramava seu pálido clarão sobre meu leito mortuário,quando minha filha, meu neto e amigos de estima saíram doaposento, no intuito de repousar um pouco. Quisestespermanecer assistindo-me e prometestes à minha filha nãoabandonar o lugar até ao amanhecer. Eu vos agradeceria essedevotamento, terno e dedicado, se não fôssemos qual doisverdadeiros irmãos. Teria decorrido meia-hora, mais ou menos,pois o astro das noites declinava para a direita, quando vospeguei a mão e anunciei que a vida já me abandonava asextremidades. Assegurastes-me o contrário; mas, eu observavacom calma meu estado fisiológico e conhecia que poucosinstantes restavam ainda a respiração. Dirigistes sutilmentevossos passos para o aposento dos meus filhos, mas (ignoro porque concentração de esforços) pude conseguir gritar, detendotal intento. Voltastes, olhos lacrimosos, meu amigo, e dissestes:Sim, vossas derradeiras vontades foram observadas e amanhãcedo será tempo ainda de fazer vir vossos filhos. Havia nessaspalavras evidente contradição, que apreendi, sem isso deixarperceber. Lembrai-vos de que, então, pedi que fosse aberta ajanela? Que bela noite de Outubro, mais bela do que as dospoetas da Escócia cantada por Ossian! Não longe do horizonte,e sob meus olhos, distinguiam-se as Plêiades, veladas pelasbrumas inferiores. Castor e Pólux remigiavam vitoriosamenteno céu, algo mais distante. E, ao alto, formando triângulo
  10. 10. constelado com as precedentes, admirava-se, na constelação doCocheiro, bela estrela de áureos raios, a que, desenhada àborda das cartas zodiacais, se denomina Capela, ou a Cabra.Vedes que a memória não me falha. Quando abristes a janelade todo, os perfumes das recentes rosas, adormecidas sob a asada Noite, chegaram até mim e confundiram-se às claridadessilenciosas das estrelas. Exprimir a doçura que derramaram emminha alma essas impressões – as derradeiras que a Terra meenviava, as últimas que tocavam os sentidos ainda nãoatrofiados – ficaria para além das possibilidades da minhalinguagem: nas minhas horas de mais terno enlevo, de maissuave ventura, jamais senti essa alegria imensa, tal serenidadegloriosa, semelhante prazer já celeste, que me foram dados poresses minutos de êxtase, escoados entre o sopro odoroso dasflores e o meigo olhar das estrelas longínquas. E, quandoregressastes para junto de mim, eu também voltara ao mundoexterior e, juntas as mãos sobre o peito, deixei que meu olhar emeu pensamento rogassem unidos e subissem ao Espaço. Eporque meu ouvido fosse bem depressa se fechar para sempre,recordo as derradeiras palavras que pronunciei: Adeus, meuvelho amigo; sinto que a morte me conduz... rumo às regiõesdesconhecidas, onde nos reencontraremos um dia. Quando aaurora desmaiar as estrelas, haverá aqui apenas o meu corpomortal. Repeti à minha filha a última expressão da minhavontade: que ela eduque os filhos, tendo em mira os benseternos. E porque choráveis e dobrastes os joelhos diante do meuleito, acrescentei: Repeti a bela prece de Jesus. E começastes adizer em tom vacilante o Pai-nosso... Perdoai-nos... nossas ofensas tal qual perdoemos... àquelesque nos... hajam... ofendido... Tais são os pensamentos finais que chegaram à minha almapor intermédio dos sentidos. A vista se me perturbou ao fixar aestrela Capela e não sei mais de quanto se seguiu
  11. 11. imediatamente a esse instante. O ano, os dias e as horas sãoconstituídos pelo movimento da Terra. Fora dessesmovimentos, o tempo terrestre não existe mais no Espaço; é,pois, absolutamente impossível ter noção desse tempo. Creio,sem embargo disso, ter ocorrido no próprio dia do meutrespasse o acontecimento que vou narrar, pois, conformepercebereis desde logo, meu corpo ainda não fora sepultado,quando a visão se apresentou à minha alma. Nascido em 1793, estava, em Outubro de 1864, no meuseptuagésimo segundo ano de existência, e não me sentimediocremente surpreendido ao constatar-me animado deardor e agilidade de espírito não menos intensos do que nosmais belos dias da minha adolescência. Não possuía corpo,porém não me julguei incorpóreo, pois senti e vi que umasubstância me constituía, embora não houvesse nenhumaanalogia entre tal elemento e aqueles que formam os corposterrestres. Não sei de que modo atravessei os espaços celestes equal a força que me aproximou depressa de um sol magnífico,cujo dourado esplendor, aliás, não me deslumbrou e que estavarodeado, qual mostrara à distância, de grande número demundos, envoltos cada qual em um ou muitos anéis. Por essamesma força, da qual era eu inconsciente, fui levado rumo deum desses anéis, espectador de indefiníveis fenômenos de luz,pois o Espaço estrelado estava, dir-se-ia, atravessado porpontes de arco-íris. Não via mais o sol de ouro; estava numaespécie de noite colorida de nuanças multicores. A visão daminha alma atingira potência incomparavelmente superior àdos olhos do organismo terrestre que recentemente deixara; e,circunstância notável, esse poder me parecia subordinado àvontade. Tal poder visual da alma é tão maravilhoso que nãome deterei hoje em descrevê-lo. Basta que vos faça pressentiristo: em lugar de ver simplesmente as estrelas no firmamentotal qual as contemplais da Terra, eu distinguia também demodo nítido os mundos que lhes gravitam em redor; e, detalheestranho, quando não mais desejava divisar a estrela, a fim de
  12. 12. não ser forçado ao exame desses mundos, ela desaparecia deminha visão, deixando-me em excelentes condições paraobservar apenas um de tais globos. 2 Além disso, quando minhavisão sobre um mundo em particular chegava a distinguir osdetalhes da superfície, os continentes e os mares, os nevoeiros eos rios, e, embora não visse aumentar perceptivelmente, qualacontece com o auxílio dos telescópios, conseguia, porintensidade particular de concentração na “vista” de minhaalma, enxergar o objeto sobre o qual ela convergia, no mesmograu em que se distingue uma cidade, uma campina. Chegandoa esse mundo anelar, apercebi-me de que me revestira de umaforma idêntica à dos seus habitantes, tal qual se houvesse aminha alma atraído para ela os átomos constitutivos de umnovo corpo. Na Terra, os corpos são compostos de moléculasque não se tocam e se renovam constantemente pela respiração,alimentação e assimilação. Aqui, o envoltório da alma se formade modo mais rápido. Eu me senti vivo em mais alto grau doque os seres sobrenaturais cujas paixões e saudades foramcantadas por Dante. Uma das faculdades essenciais doshabitantes desse novo mundo é decerto a de enxergar muitolonge. Quœrens – Mas, meu amigo (perdoai minha observaçãoquiçá ingênua), a essa tão grande distância, os mundos e osplanetas que circulam em torno das estrelas não se confundemcom o próprio centro de atração? Por exemplo, a tão grandelongitude, onde vos achastes, os planetas do nosso sistema nãoficaram confundidos nessa estrela, no nosso Sol? Pudestesdistinguir a Terra? Lúmen – Haveis aproveitado, à primeira vista, a únicaobjeção geométrica que parece contrariar a observaçãoprecedente. Com efeito, a uma certa distância, os planetas sãoabsorvidos nos clarões do seu sol e nossos olhos terrestresteriam dificuldade em distingui-los. Sabeis que, a partir deSaturno, não se diferencia mais a Terra. Mas, convém acentuar
  13. 13. que tais dificuldades dependem tanto da imperfeição da nossavista quanto da lei geométrica do decrescimento das superfícies.Ora, no mundo a cujas margens acabava de aportar, os seres,não encarnados em um envoltório grosseiro igual ao da Terra, esim mais livres e dotados de faculdades de percepção elevadas aeminente grau de potência, podem, conforme vos disse já, isolara fonte ilumiradora do objeto iluminado e, por isso, perceberdistintamente os detalhes, que, a tamanhas distâncias, seriamde todo encobertos aos olhos dos organismos terrestres. Quœrens – E para tais observações eles se servem deinstrumentos superiores aos nossos telescópios? Lúmen – Se, para tornar menos difícil à compreensão essamaravilhosa faculdade visual, é mister concebê-la munida deinstrumentos ópticos, vós a podeis assim admitir teoricamente.Lícito vos é imaginar óculos que, por uma sucessão de lentes edispositivos de diafragmas, aproximam sucessivamente osmundos e isolam da vista o foco iluminador, para deixar àobservação somente o mundo objeto do estudo. Devo, porém,advertir que esses seres são dotados de um sentido especial,diferente da vista ordinária, e que o sabem desenvolver porprocessos ópticos muita eficazes. Fica entendido que tal podervisual e respectiva construção óptica são naturais nessesmundos, e não sobrenaturais. Atentai um pouco em os insetosque dispõem da faculdade de encolher ou alongar seus olhos àmaneira de tubos de binóculos, de intumescer ou achatar ocristalino para dele fazer uma lente de diversos graus, ou aindade concentrar no mesmo foco uma série de olhos assentados, àfeição de outros tantos microscópios para surpreender oinfinitamente pequeno – e podereis de modo mais fácil concebera faculdade de tais seres ultraterrestres. Quœrens – Sem poder figurá-la, embora, pois que está alémdo meu conhecimento-experiência, posso conjeturar essapossibilidade. Assim, pudestes ver a Terra e mesmo distinguirde tão alto as cidades e as aldeias do nosso baixo mundo?
  14. 14. Lúmen – Deixai-me prosseguir minha narrativa. Cheguei,pois, ao anel mencionado, cuja largura é bastante vasta paraque 200 Terras qual a vossa possam nele rodar enfileiradas, eme encontrei sobre uma vasta montanha coroada de paláciosvegetais. Pelo menos me pareceu que esses castelos feéricoscresciam naturalmente, ou eram apenas o resultado de um fácilajustamento de ramos e flores altas. Cidade bastante populosa.Sobre o cimo da montanha onde aportara, notei um grupo deanciães, em número de 25 ou 30, os quais se fixavam, com aatenção mais obstinada e mais inquieta, em uma bela estrela daconstelação austral do Altar, nos confins da Via-Láctea. Nãonotaram a minha chegada junto deles, tanto a sua múltiplaatenção estava exclusivamente concentrada no exame daestrela, ou de um mundo do respectivo sistema. Quanto a mim, chegando a essa atmosfera, me vi revestidode um corpo físico igual aos deles e, surpresa maior ainda, nãome admirei de ouvir que falavam a respeito da Terra, sim, daTerra, nessa linguagem universal do Espírito que todos os serescompreendem, desde o Serafim até as árvores da floresta. E nãosó falavam da Terra, mas, particularmente, da França. – Porque esses massacres regulares? – eles se diziam –.“Haverá necessidade de que a força bruta reine soberana? Aguerra civil irá dizimar esse povo até ao último dos seusdefensores e lavar com rios de sangue as ruas da Capital, aindahá pouco tão tranqüila, tão intelectual, tão elegante e tãobrilhante? Eu não compreendia nada de tais palavras, eu que viera daTerra com uma velocidade igual à do pensamento e que, navéspera ainda, respirava o ambiente de uma cidade calma epacífica. Reuni-me ao grupo e fixei com eles meu olhar naestrela de ouro. Bem depressa, escutando sua conversação ebuscando avidamente distinguir as coisas extraordinárias dasquais falavam, divisei, à esquerda da estrela, uma esfera azul-pálido: era a Terra. Não ignorais, meu amigo, que, apesar do
  15. 15. aparente paradoxo, a Terra é verdadeiramente um astro do céu(e isso eu vos recordei há pouco). De longe, de uma das estrelasvizinhas do nosso sistema, este aparece, à visão espiritual deque falei, no grau de uma família de astros composta de oitomundos principais, unidos em torno do Sol. Júpiter e Saturnochamam primeiramente a atenção, devido ao seu tamanho;depois, não se tarda em destacar Urano e Netuno e, em seguida,mais perto do Sol-estrela, Marte e a Terra. Vênus é mais difícilde perceber e Mercúrio fica invisível, devido à sua quaseabsoluta proximidade do Sol. Tal é o sistema planetário do céu. Minha atenção se prendeu exclusivamente na pequenaesfera terrestre, junto da qual reconheci a Lua. Bem depressanotei as alvas neves do pólo boreal, a Europa tão retalhada, oMediterrâneo azul, o triângulo amarelo da África, os contornosdo oceano, e, porque minha atenção estava unicamente fixadasobre o nosso planeta, o Sol-estrela se eclipsou da minha visão.Depois, sucessivamente, pouco a pouco, consegui distinguir naesfera, em meio de regiões azuladas, uma espécie de recorte decor bistre e, prosseguindo minha investigação, vislumbrar umacidade no meio do dito recorte. Não tive dificuldade emreconhecer que o recorte era a França e a cidade Paris. Oprimeiro sinal de identificação da capital francesa foi o listãoprateado do Sena, que tão faceiramente descreve tantascircunvoluções sinuosas a oeste da grande metrópole. Servindo-me do aparelho óptico, penetrei em maioresdetalhes. A nave e as torres de Notre Dame, que eu via porcima, formavam bem uma cruz latina na ponta oriental dacidade. Os bulevares estendiam suas faixas ao norte. Ao sulreconheci o jardim de Luxemburgo e o Observatório. A cúpulado Panteão toucava com um ponto cinzento a montanha SantaGenoveva. A oeste, a grande avenida dos Campos Elíseosdesenhava no solo a sua linha reta; divisava-se, mais distante, obosque de Bolonha, os arredores de Sannt-Cloud, os bosques deMeudon, Sèvres, Ville dAvray e Montretout. Tudo, porém, era
  16. 16. paisagem de inverno, árvores despidas de folhagem, um tristedia de Janeiro, enquanto que eu deixara a Terra em Outubro.Tive, em pouco, a certeza de que era bem Paris o alvo da minhavista; mas, porque não compreendesse melhor as exclamaçõesdos meus vizinhos, fiz esforços para mais exatamente realçar osdetalhes. Minha visão se deteve de preferência sobre o Observatório,pois estava no meu bairro favorito, o qual, durante oito lustros,deixara apenas por alguns meses. Ora, julgue qual teria sidominha surpresa, quando meu olhar se adaptou maiscompletamente ao cenário e percebi não mais existir avenidaentre o Luxemburgo e o Observatório, e que essa magníficaaléia de castanheiros dera lugar a jardins de mosteiros. Umdesses retiros ocupava o lindo centro do vergel. O bulevar S.Miguel não existia mais, nem a rua dos Médicis; era umamálgama de ruelas, e julguei reconhecer a antiga rua do Este,a praça S. Miguel onde outrora uma antiga fonte fornecia águaaos moradores do arrabalde, e uma série de outras ruazinhasque eu havia visto antigamente. Pareceu-me estar sob meusolhos o plano de Turgot, com as suas ruas e edificações. OObservatório estava despojado das cúpulas; as duas alaslaterais haviam igualmente desaparecido. Pouco a pouco,prosseguindo minha investigação, constatei que,particularizando, Paris mudara profundamente. Meus rancoresde artista contra as invasões da edilidade parisiensedespertaram, mas foram rapidamente superados por outrascogitações mais fortes. O Arco triunfal da Estrela não existiamais, nem as avenidas opulentas que nele vinham confinar. Obulevar de Sebastopol não existia também, nem a gare do Este,e nenhuma linha de via-férrea! A torre S. Jaques estavaenfeixada em um cortejo de velhos prédios e a coluna daVitória lhe estava aproximada. A coluna da Bastilha tambémausente, pois eu teria com facilidade reconhecido o gêniodourado que a encimava. Na praça Vendôme a coluna daGrande Armada havia desaparecido e a rua da Paz não se via
  17. 17. também. A rua de Rivoli sumira-se. O Louvre não estavaconcluído, ou então demolido. Entre o trecho quadrado doLouvre e as Tulherias, viam-se casebres amontoados, umapequena igreja, velhos terraços e mansardas. Na praça daConcórdia não se distinguia mais o obelisco, mas parecia ver-seenorme pedestal e ante ele grande e grulhante multidão contidapor tropas militares. Não se avistavam a igreja Madalena e arua Royale. Havia uma ilhota por detrás da ilha S. Luís. Osbulevares exteriores não eram outra coisa que o velho muro daronda, e as fortificações tinham destruído seus contornos.Enfim, embora reconhecendo a capital da França, pelosedifícios que lhe restavam e por alguns quarteirões nãotransformados, estava sem saber que pensar de tãomaravilhosa metamorfose, que, da véspera para o outro dia, tãoradicalmente mudara o aspecto da velha cidade. Ao meu pensamento acudiu, de início, a idéia de que, aoinvés de pouco tempo, gastara, em vir da Terra, mais de umano, lustro, decênio ou século. E porque a noção do tempo é essencialmente relativa e amedida da sua duração nada tem de real, nem de absoluta,separada do globo terrestre, eu perdera, por esse motivo, toda amedida fixa, e a mim mesmo dizia que um ano ou até um séculopodia ter passado ante meu ser sem que me apercebesse, pois otão vivo interesse tomado por essa viagem não me fizera acharo tempo longo – expressão vulgar indicadora dessa sensação emnosso espírito. Não tendo meio algum de me certificar darealidade, terminaria por crer sem dúvida que muitos séculosjá me separavam da vida terrestre e tinha sob os olhos a Parisdo século XXI, se eu não houvesse, então, aprofundado mais oexame do conjunto. Com efeito, identifiquei sucessivamente o aspecto da cidadee cheguei, por gradação, a reencontrar terrenos, ruas e edifíciosque havia conhecido na minha infância. O Palácio daMunicipalidade me apareceu todo embandeirado e o castelo das
  18. 18. Tulherias apresentava sua cúpula quadrada central. As torresfeudais do Chatelet e da Santa-Capela assinalavam bem oantigo palácio. Um pequeno detalhe completou minhaelucidação, quando, no centro do jardim de um velho mosteiroda rua S. Jaques, discerni um pavilhão cuja vista me fezestremecer. Fora ali que eu encontrara, adolescente, a mulherque me amou, com um profundo amor, a minha Eivlys, tãoterna e tão devotada, que tudo abandonou para se entregar aomeu destino. Revi a pequena cúpula do terraço ante a qualíamos sonhar à tarde e estudar as constelações. Ah! com quejúbilo acolhia eu esses passeios durante os quais, acertando opasso um pelo outro, caminhávamos as avenidas, fugindo aosolhos indiscretos do mundo ciumento. Revia o pavilhão,reconhecendo-o tal qual era então, e podeis calcular que talvista bastou, ela só, para completar minhas indicações econvencer-me, com uma convicção invencível e inquebrantável,de que, longe de ter sob os olhos – conforme fora naturalimaginar – a Paris de depois da minha morte, eu tinha antemim a Paris desaparecida, a velha Paris do começo do séculoXIX, ou a do fim do XVIII. Podeis compreender facilmente, no mínimo, que eu, apesarda evidência, não devia crer no que meus olhos viam. Parecia-me mais natural imaginar que Paris havia envelhecido tanto,sofrido tais transformações depois da minha partida da Terra(intervalo cuja duração me era totalmente desconhecida), queeu tinha sob a vista a cidade do futuro, se posso exprimir poresta imagem um fato que estava presente para mim. Prossegui,pois, atentamente minha observação, para constatar, de mododecisivo, que se tratava da antiga Paris, em parte demolidaatualmente, o que eu tinha sob os olhos, ou se, por umfenômeno não menos incrível, era uma outra Paris, uma outraFrança, uma outra Terra.
  19. 19. II Quœrens – Que situação extraordinária para o vossoEspírito analista, ó Lúmen! E qual o meio que vos permitiuchegar a conhecer a realidade? Lúmen – Os anciães da montanha tinham prosseguido aconversação, enquanto as reflexões precedentes se sucediam emmeu espírito. Subitamente, ouvi o mais idoso, espírito venerávelcuja cabeça nestoriana se impunha à admiração e ao respeito,exclamar, em tom tristemente ressonante: “De joelhos, meusirmãos, imploremos indulgência ao Deus universal. Essa terra,essa nação continua a ensopar-se em sangue: uma nova cabeça,a de um rei, acaba de tombar!” Seus companheiros pareceram compreendê-lo, porqueajoelharam sobre a montanha e prosternaram os alvos rostoscontra o chão. Para mim, que ainda não estava habituado a distinguirfiguras humanas no meio das ruas e praças públicas, e que nãohavia acompanhado a observação particular dos anciães,permaneci de pé e insistindo no exame do quadro distante. – Estrangeiro – disse o velho –, condenais a ação unânime devossos irmãos, pois que não vos unistes à prece que fizeram? – Senador – respondi –, não posso condenar, nem aplaudir,pois não sei do que se trata. Chegado a esta montanha hápouco, desconheço a causa da vossa religiosa imprecação. Então, aproximei-me do velho e, enquanto seuscompanheiros se ergueram e entretinham em mútuaconversação, eu lhe pedi que me narrasse as suas observações. Ensinou-me que, dada a intuição de que são dotados osEspíritos do grau dos habitantes desse mundo, e também pelafaculdade íntima de percepção que lhes coube em partilha,possuem uma espécie de relação magnética com as estrelasvizinhas. Tais estrelas são em número de doze ou quinze, as
  20. 20. mais próximas; fora desse perímetro a percepção resultaconfusa. “Nosso Sol é uma dessas estrelas contíguas.”Conhecem, pois, vagamente, mas com exatidão, o estado dasHumanidades que habitam os planetas dependentes desse Sol, eseu grau relativo de elevação intelectual ou moral. Além disso, quando uma grande perturbação atravessa umadessas Humanidades, seja na ordem física, seja na ordemmoral, eles sofrem uma espécie de comoção recôndita, àsemelhança do que acontece com uma corda, vibrando, ao fazerentrar em vibração outra corda colocada à distância. Desde há um ano (um ano deste mundo é equivalente a dezdos nossos) eles se haviam sentido atraídos por uma emoçãoparticular para o nosso planeta terrestre e os observadorestinham seguido com interesse e inquietude a marcha dessemundo. Haviam assistido ao fim de um reino, à aurora de umaliberdade resplendente, à conquista dos direitos do homem, àafirmação dos grandes princípios da dignidade humana.Depois, haviam visto a causa sagrada da Liberdade posta emperigo por aqueles que deveriam constituir-se seus primeirosdefensores, e a força brutal substituir o raciocínio e apersuasão. Compreendi que se tratava da revolução de 1789 eda queda do velho mundo político diante do novo. Desde algumtempo, principalmente, havia, com intensa mágoa,acompanhado os frutos do terror e a tirania dos bebedores desangue. Eles temiam pelos dias da raça humana e duvidavam,daí para o futuro, do progresso dessa Humanidadeemancipada, que alienava – ela própria – o tesouro que acabarade conquistar. Guardei-me bem de declarar ao Senador ter chegado daTerra e nela vivido até contar setenta e dois aniversários deexistência. Ignoro se ele teve alguma intuição a respeito, mas eupróprio estava tão estranhamente surpreendido de tal visão,que meu espírito se identificara com isso e não mais pensava naminha pessoa.
  21. 21. Minha vista afinal se adaptara ao espetáculo observado, edestaquei, no meio da praça da Concórdia, um cadafalsorodeado de formidável aparelhamento de guerra, de tambores,canhões, e de uma densa multidão pintalgada, empunhandochuços. Uma charrete, guiada por certo homem vermelho, conduziaos despojos mortais de Luis XVI, dirigindo-se para os lados doarrabalde de Saint-Honoré. Um populacho ébrio parecia ameaçar o céu. Cavaleiros seseguiam, sabre em punho. Viam-se, rumo dos Campos Elíseos,fossas, nas quais caíam os curiosos. Mas, essa agitação, concentrada no local tumultuoso, não seestendia à cidade – que parecia morta e deserta. O terror amergulhara em letargia. Eu não assistira ao acontecimento de 1793, pois esse fora oano do meu nascimento, e experimentava indizível interesse emser testemunha de tal cena, da qual os historiadores me haviaminformado. Muitas vezes eu discutira o voto da ConvençãoNacional, mas confesso que a execução de homens da estirpe deLavoisier, o criador da Química; Bailly, historiador daAstronomia; André Chenier, o dulcíssimo poeta; ou acondenação de Condorcet, para o qual não tinham a escusa darazão de Estado, haviam-me causado mais indignação do que osuplício de Luís XVI. Ser testemunha dos acontecimentos dessaépoca transcorrida despertava em mim interesse sem igual.Todavia, por imenso que fosse tal interesse, podereis calcularque estivesse dominado por um sentimento mais poderosoainda: achar no ano de 1864, e estar assistindo, presentemente,a um acontecimento desenrolado durante a RevoluçãoFrancesa. Quœrens – Parece-me, com efeito, que esse sentimento deimpossibilidade devia tornar singularmente perturbada a vossacontemplação, pois, em última análise, ali estava uma visão que
  22. 22. sentimos radicalmente ilusória e da qual não podemos admitira realidade, mesmo assistindo a ela. Lúmen – Sim, meu amigo, impossível. Logo, compreendereisem que estado de ânimo me encontrava, enxergando, com osmeus olhos, um tal paradoxo realizado? Certa expressãopopular diz que, por vezes, não se pode crer nos próprios olhos.Era o meu caso; impossível negar; impossível admitir. Quœrens – Não seria uma concepção do vosso Espírito, umproduto da vossa imaginação, uma exumação da vossalembrança? Adquiristes a certeza de que se tratava de umarealidade, e não de um reflexo singular da memória? Lúmen – Foi o primeiro raciocínio que me veio ao espírito,mas era de todo tão evidente estar sob meus olhos a Paris de1793 e o acontecimento de 21 de Janeiro, que não pude duvidarpor muito tempo. E, por outra parte, tal raciocínio estava deantemão derribado pela circunstância de me haverem os velhosda montanha precedido na observação dos fatos – que elesviam, analisavam e se comunicavam mutuamente a ação domomento, sem conhecer de qualquer modo a História da Terrae sem saber que eu conhecesse essa História. E, depois,tínhamos sob o olhar um fato presente, e não um acontecimentodo passado. Quœrens – Mas, então, se o passado se pode assim fundir nopresente, se a realidade e a visão se consorciam desse modo, seas personalidades mortas de há muito podem ser vistas ainda,agindo no cenário da vida; se as novas construções e asmetamorfoses de uma cidade do tipo de Paris podemdesaparecer e deixar ver em seu lugar a cidade de outrora; se,enfim, o presente pode esvair-se para ressurreição do passado;em qual certeza podemos doravante confiar? Em que se torna aciência de observação? Que será das deduções e das teorias?Sobre o que estão fundados nossos conhecimentos, que nosparecem os mais sólidos? E se aquelas coisas são verdadeiras,não deveremos de futuro duvidar de tudo, ou crer em tudo?
  23. 23. Lúmen – Essas considerações, e outras, meu amigo, meabsorveram e atormentaram; mas, todas elas não puderamdestruir a realidade que eu via. Quando adquiri a certeza deque tínhamos presente, sob os olhos, o ano 1793, refletiimediatamente que a própria ciência, longe de combater essarealidade (pois duas verdades não se podem opor uma à outra),devia dar-me disso a cabível explicação. Interroguei a Física eesperei a sua resposta. Quœrens – Quê! O fato era real? Lúmen – Não somente real, mas também compreensível edemonstrável. Ides receber a explicação astronômica.Examinei, inicialmente, a posição da Terra na constelação doAltar, da qual vos falei. Orientando-me em relação à estrelapolar e ao zodíaco, assinalei que as constelações não erammuito diferentes das que são vistas da Terra e, afora algumasestrelas particulares, sua posição continuava sensivelmente amesma. Orion reinava no equador terrestre; a Grande Ursa,detida em seu curso circular, tendia ainda ao Norte.Reportando-me às coordenadas dos movimentos aparentes,suspensos daí em diante, constatei então que o ponto onde euvia o grupo do Sol, da Terra e dos planetas devia marcar a 17ªhora da ascensão reta, isto é, ao 256° grau, mais ou menos (eunão dispunha de aparelho para tomar exata mensuração).Observei, em segundo lugar, que esse ponto se encontravarumo do 44° grau de distância do pólo Sul. Tais pesquisastinham por fim identificar a estrela sobre a qual havia eupairado e deram lugar a que eu concluísse encontrar-me numastro situado rumo do 76° grau de ascensão reta, e do 46° dedeclinação boreal. Sabia, por outro lado, pelas palavras doancião, que o astro onde nos achávamos não estava muitodistanciado do nosso Sol, pois este se incluía entre os astrosvizinhos. Com a ajuda de tais elementos, pude facilmenteencontrar nas minhas reminiscências qual a estrela emconcordância com as posições assim determinas. Uma única a
  24. 24. isso correspondia; era a estrela, de primeira grandeza, Alfa doCocheiro, denominada também Capela ou a Cabra. Não havia amenor dúvida a respeito. Assim, eu estava então certamente num mundo dependentedo sistema dessa estrela. De lá, o brilho do nosso Sol ficareduzido ao de uma simples estrela e, em conseqüência daviagem que faz, vai colocar-se em perspectiva diante e naconstelação do Altar, situada precisamente em oposto à doCocheiro, para o habitante da Terra. Desde então, procureirecordar qual era a paralaxe dessa estrela. Lembrava-me deque um dos meus amigos, astrônomo russo, já a haviacalculado, e seu cálculo – confirmado – dava a essa paralaxe0”,046.3 Expresso em milhões de quilômetros, o número é681.568.000. Assim, o astro sobre o qual eu me encontravadistava da Terra 681 trilhões 568 milhões de quilômetros. Elucidado desse modo o problema, estavam três quartaspartes resolvidas. Ora, eis aqui agora o fato capital, aquele parao qual chamo a vossa particular atenção, pois nele reside, nomomento, a explicação da mais estranha das realidades. Sabeisque a luz não vence instantaneamente à distância de um lugar aoutro, e sim sucessivamente. Não deixastes de assinalar decertoque, atirando uma pedra em águas tranqüilas, uma série deencíclicas se sucedem em redor do ponto onde a pedra caiu.Assim se dá com os sons no ar, quando passam de um extremoa outro, assim ocorre com a luz no Espaço: ela se transmitegradualmente por ondulações sucessivas. A luz de uma estrelaemprega, pois, certo tempo para chegar à Terra e essa duraçãodepende naturalmente da distância entre uma e outra. O som percorre 340 metros por segundo. Um tiro de canhãoé ouvido pelos artilheiros vizinhos da peça no preciso momentoem que parte; um segundo depois por aqueles que estejam nadistância de 340 metros; 3 segundos pelos que se acham a 1quilômetro; 12 segundos para os a 4 quilômetros; 2 minutos
  25. 25. para os ao decuplo desta distância; 5 minutos para os que,colocados a 100 quilômetros, ouçam ainda esse trovão doshomens. A luz se transmite com uma velocidade muito maior,porém não instantânea, conforme acreditavam os antigos. Elapercorre 300.000 quilômetros por segundo e faria oito vezes ogiro do Globo em um segundo, se pudesse fazer voltas; emprega15 segundos e 1/4 para vir da Lua à Terra; 8 minutos e 13segundos se partir do Sol; 42 minutos para nos chegar deJúpiter; 2 horas saindo de Urano e 4 horas para fazer a viagemdesde Netuno. Vemos, pois, os corpos celestes, não tal qual elessão no momento em que os observamos, mas tal qual eram noinstante da partida do raio luminoso que nos chegou. Se umvulcão, por exemplo, entrasse em erupção em um dessesmundos referidos, não o veríamos projetar suas chamas senão 1segundo e 1/4 depois, se se tratasse da Lua; 42 minutosdecorridos, se estivesse em Júpiter; 2 horas mais tarde, seviessem de Urano; 4 horas após, caso proviessem de Netuno. Senós nos transportássemos para além do sistema planetário, asdistâncias seriam incomparavelmente mais vastas e maior ademora na chegada da luz. Assim, o raio luminoso saído daestrela mais próxima da Terra, a Alfa do Centauro, despendemais de 1.400 dias para nos atingir; o que procede de Sírioemprega perto de um decênio para atravessar o abismo que nossepara desse sol. Estando a estrela Capela separada da Terra pela distânciaque mencionei, é fácil calcular, à razão de 300.000 quilômetrospor segundo, quanto tempo necessita a luz para franquear talintervalo. O cálculo feito dá sete decênios, 20 meses e 24 dias. Oraio luminoso que sai de Capela, para vir à Terra, não noschega senão depois de marchar, ininterruptamente, esses 14lustros, 20 meses e 24 dias. Igualmente, o raio luminoso que parte da Terra, paraatingir a estrela, ali não chega antes de tal decurso.
  26. 26. Quœrens – Se o raio luminoso que nos vem dessa estrelaemprega aquele tempo para atingir o nosso mundo, a luz quenos traz é pois a de quase 864 meses do momento da partida? Lúmen – Haveis compreendido com exatidão. E aí estáprecisamente o fato que importa bem penetrar. Quœrens – Assim, em outros termos, o raio luminoso ésemelhante a um correio que nos traz as novidades da situaçãodo país de onde vem e que, se demora 3.744 semanas emchegar, nos traz as notícias do país relativas ao momento da suapartida, isto é, de sete decênios anteriores ao instante em quenos chegam. Lúmen – Adivinhastes o mistério. Vossa comparaçãodemonstra haverdes erguido uma ponta do véu. Para falar maisexatamente ainda, o raio luminoso seria um correio trazendo,não notícias escritas, mas a fotografia, ou, mais rigorosamenteainda, o próprio aspecto do país donde saísse. Vemos esseaspecto tal qual era no momento em que os raios luminososenviados de cada um dos pontos do país no-lo fazemconhecido – na ocasião, repito, em que de lá saíram. Nada émais simples, mais incontestável. Quando, pois, examinamos aotelescópio a superfície de um astro, não a vemos tal qual ela éno instante em que a observamos, e sim tal qual era ao tempoem que a luz, que ora nos chega, foi emitida pela dita superfície. Quœrens – De sorte que se uma estrela cuja luz,suponhamos, necessita dois lustros para nos chegar, fossesubitamente aniquilada hoje, nós a estaríamos vendo duranteesse decênio, de vez que só ao termo de tal tempo nos chegaria oseu derradeiro raio luminoso? Lúmen – Precisamente isso. Em uma palavra, os raios de luzque as estrelas nos enviam não nos chegam instantaneamente, esim empregando um certo tempo em transpor a distância deseparação, não nos mostrando as estrelas tal qual são agora,mas tal qual eram por ocasião em que partiram esses raios deluz transmissores do respectivo aspecto. Aí está uma
  27. 27. surpreendente transformação do passado em presente. Para oastro observado, é o que já se passou, o já desaparecido; para oobservador, é o presente, o atual. O passado do astro é rigorosae positivamente o presente do observador. E porque o aspectodos mundos muda de um ano a outro, e mesmo da véspera parao dia seguinte, pode-se representar esse aspecto igual a umescapamento no Espaço avançando no infinito para se revelaraos olhos dos longínquos contempladores. Cada aspecto éseguido de um outro, e assim sucessivamente; e, na forma desérie de ondulações, levam ao longe o passado dos mundos, quese torna presente aos observadores escalonados na suapassagem. Isso que cremos ver presentemente nos astros já sepassou, e o que lá está ocorrendo nós não vemos ainda. Identificai-vos, meu amigo, com esta representação de umfato real, por isso que vos interessa muito apreender tal marchasucessiva da luz, e compreender com exatidão essa verdadeincontestável: o aspecto das coisas, quando trazido pela luz,apresenta essas coisas, não tal qual elas são presentemente, mastal qual eram anteriormente, segundo o intervalo de temponecessário para que a respectiva imagem, assim trazida,percorra a distância que delas nos separa. Não vemos astro algum qual é no momento, mas qual o erano instante em que dele saiu o raio luminoso que nos chega.Não é o estado atual do céu que nos é visível, mas a sua históriapassada. Há mesmo tais e tais astros que não existem mais,desde há dez milênios, e são vistos ainda, por isso que o raioluminoso deles chegado saiu de lá muito tempo antes da suadestruição. Tal estrela dupla, da qual buscais com mil cuidadose muitas fadigas determinar a natureza e os movimentos, nãoexiste mais, desde quando começaram a haver astrônomossobre a superfície da Terra. Se o céu visível fosse aniquiladohoje, seria visto ainda amanhã, e ainda no ano próximo e aindadurante um século, um milênio, cinco, dez milênios, e por mais,excetuadas apenas as estrelas muito próximas, que se
  28. 28. extinguiriam, sucessivamente, à proporção do decurso detempo necessário para que os respectivos raios luminosos, delasemanados, transpusessem a distância que nos separa: Alfa doCentauro extinguir-se-ia primeiro, em 48 meses, Sírio em 120,etc. E fácil agora, meu amigo, aplicar a teoria científica àexplicação do estranho fato do qual fui testemunha. Se daTerra se vê a estrela Capela, não tal qual é no momento daobservação, e sim tal qual foi 864 meses antes, de igual maneirade lá não se vê a Terra senão com idêntica diferença de aspecto,correspondente a igual período de tempo. A luz despende omesmo tempo para percorrer os dois trajetos. Quœrens – Mestre, acompanhei atentamente vossasexplicações. Não sendo luminosa, brilha a Terra, à distância,igual a uma estrela? Lúmen – A Terra espelha no Espaço a luz recebida do Sol.Quanto maior a longitude, mais o nosso planeta se parece auma estrela, concentrada toda a luz do Sol em um disco que setorna cada vez menor. Assim, vista da Lua, essa superfícieparece 14 vezes mais luminosa do que a do plenilúnio, pois é 14vezes mais vasta. Observada do planeta Vênus, daria aaparência do mesmo brilho que tem Júpiter, visto da Terra.Contemplada de Marte, converte-se em estrela da manhã e docrepúsculo vespertino, oferecendo fases iguais às que Vênusapresenta. Assim, embora não tenha brilho próprio, brilha delonge, a exemplo da Lua e dos planetas, pela luz que recebe ereflete do Sol no Espaço. Ora, assim como os acontecimentos deNetuno sofrem um atraso de 4 horas, vistos da Terra, assimtambém os da Terra passam pela mesma demora quandoobservados da órbita de Netuno. Por isso, de Capela, a Terra évista com aquele dito retrocesso de sete decênios,aproximadamente. Quœrens – Por muito estranhos e raros que sejam essesaspectos para mim, compreendo agora perfeitamente por que,transportado à estrela Capela, não vistes a Terra no seu aspecto
  29. 29. de 1864, data da vossa morte, mas na situação de Janeiro de1793, por isso que a luz gasta 872 meses para atravessar oabismo que separa o globo terrestre daquela estrela. Ecompreendo, com a mesma clareza, não se tratar de uma visãoou fenômeno de memória, nem de um ato maravilhoso ousobrenatural, mas de um fato presente, positivo, natural eevidente; e que, com efeito, quanto ocorrera na Terra, haviamuito, só então poderia chegar ao conhecimento do observadorcolocado àquela longitude. Permiti, porém, intercale umaquestão incidente. Para que, procedendo da Terra,testemunhásseis esses fatos foi indispensável franquear taldistância, do nosso mundo à Capela, com velocidade maior doque a da própria luz? Lúmen – Sobre isso já vos falei, quando disse que euacreditava tê-la transposto com a rapidez do pensamento, e queno dia mesmo da minha morte eu me encontrei no sistemadaquela estrela – que tanto apreciei e admirei durante a minhaestada na Terra. A velocidade da gravitação poderá dar umaimagem do que é a do pensamento, pois, vós o sabeis, é quaseinstantânea. Quœrens – Ainda uma objeção. Para que se possa ver, assim,de tão alto, a superfície do nosso globo, é necessário estar o céupuro, sem nuvens e sem brumas? Lúmen – Não, não é indispensável. órgãos especiais podemver através de corpos opacos; a luz visível não é a única queexiste: há raios invisíveis percebidos, por exemplo, pelafotografia. Quœrens – Ah! mestre, verdadeiramente, embora tudo seexplique assim, tal visão não é menos estupenda. Em verdade, éum fenômeno extraordinário esse de ver – atualmente – opassado presente e de não o poder ver senão por esse modopasmoso, e ainda o de não poder ver os astros tal qual o são nomomento em que são examinados, nem tão-pouco vê-los talqual foram – simultaneamente –, e sim apenas o que foram em
  30. 30. épocas diversas, segundo suas distâncias e o tempo que a luz decada um gastou para chegar a Terra! Assim, nenhum olharhumano vê o universo sideral tal qual é! Lúmen – O espanto legítimo que experimentais nacontemplação desta verdade, meu amigo, é apenas o prelúdio,ouso dizê-lo, do que vai agora aprender. Sem dúvida, parece, àprimeira vista, muito extraordinário que, distanciando-sebastante no Espaço, encontre alguém maneira de assistirrealmente a acontecimentos de eras desaparecidas e ressubir orio do passado. Mas não reside nisso o fato que tenho acomunicar e que ides achar mais imaginário ainda, se quiserdesouvir mais extensamente a narrativa da jornada que se seguiu àminha libertação do cárcere terrestre. Quœrens – Falai, eu vos peço, estou sequioso de vos escutar.
  31. 31. III Lúmen – Depois de haver desviado meu olhar das cenassangrentas da praça da Revolução, eu me senti atraído parauma habitação de antiquado estilo, fazendo face para a NotreDame, e situada no terreno ora ocupado pelo átrio. Diante daporta interior (paravento), havia um grupo de cinco pessoas,que estavam meio deitadas sobre bancos de madeira, cabeçadescoberta exposta ao Sol. E porque pouco depois selevantassem e se dirigissem a seus lugares, reconheci em uma apessoa de meu pai, tão moço qual jamais eu imaginara, minhamãe, mais jovem ainda, e um de meus primos, falecido nomesmo ano da morte de meu pai, aproximadamente há 8lustros. É difícil, à primeira vista, reconhecer as pessoas, pois,ao invés de serem vistas de face, são olhadas do alto, como quede um andar superior. Não me surpreendeu muito tal encontro.Recordei-me então ter ouvido dizer, na minha juventude, quemeus parentes residiam, antes do meu nascimento, na praçaNotre Dame. Com estupefação maior no sentir do que no poder expressar,senti minha vista fatigada e cessei de distinguir qualquer coisa,tal qual nuvens se houvessem estendido sobre Paris. Acreditei,por minutos, que um turbilhão me arrastava. De resto, já ohaveis decerto compreendido, não possuía mais a noção dotempo. Quando revi distintamente os objetos, notei um grupo decrianças correndo na praça do Panteão. Esses colegiais mepareciam saídos da aula, pois conduziam bolsas e livros, etinham a aparência de regressar aos lares, saltitando egesticulando. Dois entre eles atraíram minha atenção emespecial, porque pareciam alterados por uma rixa qualquer ecomeçavam uma luta particular. Um terceiro avançou parasepará-los, mas recebeu um encontrão de ombros que o atirouao chão. No mesmo instante vi uma senhora correr para o
  32. 32. menino. Era minha mãe. Ah! jamais, nunca, em meus setenta edois anos de existência terrestre, entre todas as peripécias,todos os espantos, todos os golpes imprevistos, todas asbizarrias de que foi tal existência pontilhada, entre todos osacontecimentos, todas as surpresas, acaso da vida – jamaisexperimentei comoção igual à que me sacudiu – quando, nessemenino, me reconheci eu mesmo! Quœrens – Vós mesmo? Lúmen – Sim, eu mesmo. Com os meus louros cabeloscacheados, aos cinco de idade, meu lencinho bordado pelasmãos daquela mãe que correra a me acudir, minha blusinhaazul celeste e meus punhos sempre amarrotados. Estava lá, omesmo menino do qual vistes a imagem meio esvaecida napequena miniatura colocada na lareira. Minha mãe veio,tomou-me nos braços, ralhando a meus camaradas, e meconduzia pela mão à nossa casa, então situada na aberturaatual da rua do Ulm. Depois, vi que, tendo atravessado ointerior, nos achamos ambos num jardim onde havia muitagente. Quœrens – Mestre, perdoai uma reflexão crítica. Confessoque me parece impossível que alguém possa ver-se a si mesmo!Vós não vos podeis tornar em duas pessoas. E uma vez quehavíeis atingido a idade setuagenária, a vossa condição infantilfora para o passado, estava desaparecida, anulada desde muito.Vós não podíeis ver uma coisa inexistente. Pelo menos, nãoposso compreender que, sendo velho, vos fosse possível ver aprópria personalidade com a idade atual de criança. Lúmen – Qual razão vos impede de admitir esse ponto nomesmo grau dos precedentes? Quœrens – Porque ninguém se pode ver, num duplo,simultaneamente, criança e velho! Lúmen – Vós não raciocinais de modo completo, meu amigo.Haveis assimilado o fato geral, para admiti-lo, mas nãoobservastes suficientemente que este último fato cabe de modo
  33. 33. completo no primeiro. Admitis que o aspecto da Terradespende 864 meses para chegar a mim, não é certo ? que osacontecimentos não me chegam senão com este intervalo detempo para sua atualidade? em uma palavra, que eu vejo omundo tal qual ele era naquela época. Admitireisparalelamente que, vendo as ruas de tal tempo, eu veja, namesma ocasião, os meninos que corriam então nas ditas ruas.Não está bem esclarecido? Quœrens – Inteiramente. Lúmen – Muito bem! Então, se eu vejo o grupo de crianças eeu fazia parte dessa infância, porque pretendeis não me vejatão bem quanto as outras ? Quœrens – Mas vós não estais mais nesse grupo! Lúmen – Ainda uma vez, esse grupo não existe mais,atualmente; mas eu o vejo tal qual existia à época em quepartiu o raio luminoso que hoje me chegou. E desde que divisoos 15 ou 18 meninos componentes do todo, não há razão paraque o menino que era eu desaparecesse, pelo fato de ser eumesmo quem observa. Outros observadores vê-lo-iam emcompanhia desses camaradas. Porque quereis houvesse umaexceção quando eu próprio olho? Eu os vejo a todos, e a mimcom eles. Quœrens – Eu não havia apreendido inteiramente o caso. É aevidência, com efeito. Abrangendo um grupo de crianças doqual fizestes parte, não poderíeis deixar de ver a vós próprio,desde que víeis a todos os outros. Lúmen – Ora, compreendereis em que estranha estupefaçãodevia precipitar-me uma tal visão? Esse menino era bem eu, emcarne e osso segundo a expressão vulgar e significativa. Era euno início do meu segundo lustro de idade. Eu me via, tão bemquanto os companheiros do jardim que brincavam comigo. Nãoera miragem, visão, espectro, reminiscência, ilusão: erarealidade pura, positivamente a minha personalidade, meupensamento, meu corpo. Estava lá, sob meus olhos. Se meus
  34. 34. outros sentidos tivessem tido a perfeição da minha vista,parece-me que eu teria podido tocar-me e ouvir-me a mimpróprio. Eu saltava naquele jardim e corria em torno do lagorodeado de balaustrada. Algum tempo depois, meu avô mecolocou sobre os joelhos e me fez ler em um grande livro. Mas, basta! Renuncio descrever essas impressões. Deixo-voso cuidado de as experimentar em vós mesmo, se estais bemidentificado com a realidade física desse fato, e me limito adeclarar que jamais semelhante surpresa caiu sobre minhaalma. Uma reflexão principalmente me atarantou. Eu me dizia:esse menino sou eu, e bem vivo. Ele cresceu e deve viver maisonze vezes a idade que tem. Sou eu, real e incontestavelmente,eu mesmo. E, de outro lado, eu que estou aqui com os 72 de vidaterrestre, eu que penso e vejo estas coisas, sou tanto eu quantosou essa criança. Eis-me, pois, em dois: lá embaixo, na Terra;aqui, em pleno Espaço. Duas pessoas completas, e não menosdistintas uma da outra. Observadores, colocados onde estou,poderiam ver esse menino no jardim tal qual o vejo e tambémme ver igualmente aqui: a mim, em dois. É incontestável.Minha alma está nessa criança, e igualmente aqui; é a mesma, aalma única, animando, no entanto, esses dois seres. Queestranha realidade! E não posso dizer que me engano, que estouem ilusão, que um erro óptico me domina. Ante a Natureza eante a Ciência, eu me vejo, ora menino e ora velho, lá e aqui...lá, descuidoso e alegre; aqui, pensativo e emocionado. Quœrens – É estranho realmente. Lúmen – E positivo. Buscai, na criação inteira, eencontrareis um paradoxo mais notável do que esse? Ora, que é o tempo? Suponde que um octogenário temdiante do olhar dois retratos representando, o primeiro, seu paiquando infante, saindo do primeiro lustro de idade, porexemplo, e o segundo, ele próprio, na idade atual de oitenta.
  35. 35. Onde está a criança, onde está o velho? Sem dúvida, o genitorestá mais idoso do que ele, mas esse tempo já passou, pois ogenitor já faleceu. Suas duas existências foram sucessivas; étudo que poderíamos dizer. Ante esses dois retratos, o pai é acriança, a criança um avô. Visto de mais longe, desaparecido otempo, o passado dá lugar a um presente perpétuo. O tempodesaparece também em astronomia. Eu vos dizia há pouco que ocasiona bastante fadigamensurar as posições precisas de pares de estrelas duplas quenão existem mais. A luz que recebeis hoje partiu há séculos eséculos, e desde essa época o par foi destruído por umaconflagração cósmica que vereis dentro de um milênio. Mas,estudais, apesar disso, o inexistente, e, muitas vezes, comverdadeira paixão. Não vos importa. Isso, aliás, é um prazermatemático. Não é inútil refletir a respeito dessas verdades:elas nos elevam acima das contingências pueris da vida. Que acrescentarei agora à minha narrativa? Eu me segui,assim, crescendo na vasta cidade parisiense. Eu me vi, em 1804,ingressando no colégio e fazendo minhas estréias no momentoem que o Primeiro Cônsul se coroava com a dignidadeimperial. Conheci essa fronte dominadora e pensativa deNapoleão num dia em que passou em revista o Carrocel. Não me havendo jamais encontrado em sua presença, fiqueisatisfeito em vê-lo atravessar meu campo atual de observação.Em 1810 eu me revi na formatura da Escola Politécnica e empalestra no pátio com o melhor dos meus camaradas, FranciscoArago. Esse jovem já pertencia ao Instituto e substituía Mongena Escola, devido ao jesuitismo de Binet, do qual o Imperadorse queixava. Encontrava-me desse modo na plenitude dosbrilhantes tempos da minha adolescência e dos meus projetosde viagem de exploração científica, em companhia de Arago eHumboldt, viagens que este se decidiu empreender sozinho.Depois, eu me reconheci, mais tarde, sob os Cem-Dias,atravessando rapidamente o pequeno bosque do velho
  36. 36. Luxemburgo, a rua do Este e a aléia do jardim da rua de S.Jaques, e vendo acorrer minha bem-amada para me recebersob os lilases em flor. Doces horas de solitude a dois, deconfidências de coração, silêncios da alma, transportes doamor, efusões da tarde – vós vos oferecestes à minha vistaemocionada, não mais no grau de saudades longínquas, porémna vossa atualidade absoluta! Assisti de novo ao combate dos Aliados na colina deMontmarte, à sua descida na Capital, à queda da estátua dapraça Vendôme, arrastada nas ruas, por entre gritos de alegria,ao campo dos ingleses e dos Prussianos nos Campos Elíseos, àdevastação do Louvre, à viagem de Gand, à reentrada de LuísXVIII! A bandeira da ilha de Elba flutua sob meus olhares e,mais tarde, porque buscasse no Atlântico a ilha solitária onde aáguia fora acorrentada, asas quebradas, a rotação do Globoaproximou de minha vista Santa-Helena, onde identifiquei oImperador, imaginando junto de um sicômoro. Assim passou cada ano presente ao meu olhar.Acompanhando sempre a minha própria individualidade, nomeu casamento, nas minhas iniciativas, minha vida de relação,minhas viagens, estudos, etc., assisti ao desenvolvimento dahistória contemporânea. À restauração de Luís XVIII sucede ogoverno efêmero de Carlos X. As jornadas de Julho de 1830mostraram as suas barricadas e, não longe do trono do Duquede Orleães, vi aparecer a coluna da Bastilha. Rapidamentepassaram esses 216 meses. Apercebi-me no Luxemburgo, nessaavenida magnífica, que fora aberta por Napoleão e substituíravelhos mosteiros. Revi Arago no Observatório e a turba que seapertava às Portas do novel anfiteatro. Reconheci a Sorbona deGousin e de Guizot. Depois, meu coração se constringiu, ao verpassar o enterro de minha mãe, senhora austera e talvez umpouco severa demais em seus julgamentos, porém que eusempre muito amei, conforme sabeis. A singular pequenarevolução de 1848 surpreendeu-me não menos vivamente do
  37. 37. que quando me pareciam ser os próprios acontecimentos.Reconheci, na praça da Bolsa, Lamoricière, falecido no anopassado, e, nos Campos Elíseos, Cavaignac, também jádesaparecido, há um lustro mais ou menos. O 2 de Dezembroveio encontrar-me observador na minha estação celeste, talqual eu o havia sido na minha torre solitária, e, sucessivamente,se escoaram assim acontecimentos que me haviam emocionado,e outros de mim desconhecidos. Quœrens – E esses acontecimentos passavam com rapidezante vosso olhar? Lúmen – Não saberia apreciar a medida do tempo; mas todoesse panorama retrospectivo se sucedeu de certo em menos deum dia... ou horas, talvez. Quœrens – Nesse caso, não compreendo melhor! Perdoe aum velho amigo esta interrupção um tanto viva; mas, segundohavia imaginado, pareciam-me ser os próprios acontecimentosque se apresentavam aos vossos olhos, e não um simulacrounicamente, em virtude do tempo necessário ao trajeto da luz,esses sucessos estavam atrasados quanto ao momento da suaocorrência. Se, pois, 864 meses terrestres passaram sob vossoolhar, eles deviam ter gastado esse período de tempo para vosaparecerem, e não algumas horas. Se o ano 1793 vos surgiu em1864, o ano de 1864, em retrocesso, não deveria,conseqüentemente, aparecer antes de 1936. Lúmen – Vossa objeção, nova, tem fundamento e demonstraque haveis perfeitamente compreendido a teoria desse fato. Seique estais satisfeito por havê-la formulado. Também vouexplicar porque não me foi necessário aguardar 864 novosmeses para rever minha vida, e por que, sob o impulso de umaforça inconsciente, eu a pude rever em menos de um dia.Continuando a seguir o desenrolar da minha existência, chegueiaos últimos tempos, notáveis pela transformação radical feitaem Paris. Vi meus velhos e queridos amigos, vós inclusive,minha filha e seus lindos filhinhos, minha família e meu círculo
  38. 38. de conhecidos; e, enfim, chega o momento em que, pelapercepção dos raios ultravioleta, atravessando os mundos, eume vi, deitado no meu leito de morte. Penetrei na câmaramortuária e assisti à derradeira cena, o que equivale dizer queeu regressara à Terra. Atraída pela contemplação que a empolgava, minha almahavia depressa esquecido a montanha dos anciães e Capela. Talqual acontece por vezes em sonho, abalava-se com o que via.Disso não me apercebi imediatamente, tanto a estranha visãoabsorvera todas as minhas faculdades. Não vos posso explicar qual o poder que permite às almastransportarem-se tão rapidamente de um lugar a outro; mas, averdade é que eu voltara à Terra, em menos de um dia, e quepenetrei em meu aposento de dormir, no preciso momento deser amortalhado. Por isso que em tal viagem de regresso caminhava aoencontro de raios luminosos, eu encurtava sem cessar adistância que me separava da Terra; a luz tinha cada vezmenos percurso a vencer e restringia assim a sucessão dosacontecimentos. No meio do caminho, os raios luminosos,chegando-me apenas com a metade do atraso (432 meses), nãomais me mostravam a Terra dos 864 anteriores, mas a daquelametade de tempo. Nas três quartas partes do percurso, osaspectos eram os de 216 meses de retardo. Na metade do últimoquarto do tempo chegavam com a diferença de 108 mesesdecorridos, e assim por diante, de modo que a minha existênciase condensou em menos de um dia, em conseqüência da voltarápida de minha alma vindo ao encontro dos raios luminosos. Quœrens – Essa combinação de marchas não é menosestranho fenômeno! Lúmen – Não vos acode ao espírito outras objeções, ouvindo-me?
  39. 39. Quœrens – Confesso que essa combinação foi a última, oupelo menos me intrigou de modo a excluir qualquer outra nomomento. Lúmen – Eu vos farei notar a existência de umas outras,astronômicas, que revelarei imediatamente para que não restedúvida. Tal combinação depende do movimento da Terra. Nãosomente o movimento diurno do Globo deveria impedir-me debem apanhar a sucessão dos fatos, mas também essemovimento, sendo desmesuradamente acelerado pela rapidezdo meu regresso rumo à Terra, e 864 meses escoando-se emmenos de um dia – refleti ser surpreendente que eu de tal nãome apercebesse. Mas, tendo visto apenas um númerorelativamente restrito de paisagens, de panoramas e de fatos, éprovável que, retornado ao nosso planeta, eu me mantivesse,por mui rápidos instantes isolados, sobre pontos quesucessivamente me interessaram. De qualquer modo, deviarender-me à evidência, e constatar que, sem fadiga, haviaassistido à sucessão célere dos sucessos do século e da minhaprópria existência. Quœrens – Essa dificuldade não me escapara, e pensei quehaveis navegado no Espaço à maneira de um balão arrastadopela rotação do globo. Certo, a inconcebível rapidez com quedeveis ter sido levado é das de causar vertigens; mas não melimito, todavia, a essa hipótese, meditando sobre vossaafirmativa. Assinalando que a vossa visão, e assim a vossa inscienteaproximação da Terra, eram devidas à intensidade de atençãosobre o ponto do globo onde vos víeis de novo, não éinadmissível que vos mantivésseis constantemente preocupadocom o dito ponto. Lúmen – A esse respeito, não vos afirmo coisa alguma, poisde tal permaneci inconsciente; mas, sobre isso, penso diferente.Não revi todos os acontecimentos da minha existência, masapenas um pequeno número dos principais, que,
  40. 40. sucessivamente escalonados, me mostraram o conjunto daminha vida. Apresentaram-se quase todos sobre o mesmo raiovisual. Tudo quanto sei é que a atenção indizível, que meprendia soberana e imperiosamente à Terra, agia na forma deuma corrente que me religasse a ela, ou, se preferis a expressão,com o poder dessa força ainda misteriosa da atração dos astros,em virtude da qual os pequenos tombariam diretamente sobreos mais importantes, se não fossem retidos nas suas órbitas pelaforça centrífuga. Quœrens – Cogitando desse efeito da concentração dopensamento relativamente a um ponto único, e da atração realque ele sofre logo, com relação a esse ponto, creio assinalar queaí está o eixo principal do mecanismo dos sonhos. Lúmen – Dissestes a verdade, meu amigo, e vos possoafirmar, eu, que, durante largo tempo, fiz dos sonhos o assuntoespecial de minhas observações e estudos. Quando a alma,liberta das atenções, preocupações e tendências corporais, vêem sonho um objeto que a encanta e para o qual se senteatraída, tudo desaparece em torno de tal objeto – quepermanece só e se constitui o centro de um mundo de criações;ela o possui inteiramente e sem reservas, contempla-o, dele seapossa e o faz seu, o universo inteiro se apaga da reminiscência,para deixar um domínio absoluto ao objeto da contemplação daalma, e, tal qual me aconteceu em meu regresso à Terra, não vêmais do que o dito objeto, acompanhado das idéias e dasimagens que engendra e faz sucessivamente surgir. Quœrens – Vossa rápida viagem a Capela, e assim vossoregresso não menos veloz à Terra, tinham, pois, porfundamento causal, essa lei psicológica, e agistes maislivremente ainda do que em sonho, porque vossa alma não maisestava peada pelas engrenagens do organismo. Recordo-me deque, em nossas conversações passadas, vós, com efeito,dissertastes muitas vezes a respeito da força da vontade. Assim,
  41. 41. pudestes retornar ao leito de morte antes que vosso envoltóriomortal fosse sepultado. Lúmen – Regressei, e bendisse as saudades sinceras daminha família, acalmei as dores da nossa amizade ferida,esforcei-me por inspirar a meus filhos a certeza de que eu nãoera mais aquele envelope mortal, e que eu habitava a esfera dosEspíritos, o Espaço celeste, infinito e inexplorado. Assisti ao meu próprio enterro e assinalei aqueles que sediziam meus amigos e que, por uma ocupação de medíocreimportância, não se deram ao incômodo de levar meus despojosterreais à derradeira morada. Ouvi as variadas conversaçõesque versavam sobre o meu cortejo funerário. Pareceu-me quemuitos se entretinham principalmente com os seus interessespersonalíssimos; mas verifiquei a presença de irmãos depensamento no convívio dos quais sempre me encontrava e,embora nesta região de paz não tenhamos avidez de elogios, eume senti feliz em constatar que uma suave lembrança da minhapassagem pela Terra lhes havia ficado na memória. Quando a pedra do túmulo caiu e separou a terra dosmortos da Terra dos vivos, dei um derradeiro adeus ao meupobre corpo adormecido e, porque o Sol já descesse para o seuleito de púrpuras franjado de ouro, permaneci na atmosfera atéà noite próxima, mergulhado na admiração dos belosespetáculos que se desdobravam nas regiões aéreas. A auroraboreal estendia por cima do pólo o seu turbante prateado,estrelas errantes choviam de Cassíope e a Lua-cheia, vagarosa,se elevava no Oriente, qual um novo mundo surgindo dasondas. Vi Capela cintilante, que me fixava com o seu luminosoolhar tão vivo, e distingui as coroas que a circundavam,príncipes celestes de uma divindade. Então, esqueci de novo aTerra, a Lua, o sistema planetário, o Sol, os cometas, para medeixar prender sem reservas à intensa atração da refulgenteestrela, e fui transportado no seu rumo pela ação do meudesejo, com uma rapidez maior do que a das setas elétricas.
  42. 42. Depois de algum tempo, cuja duração não me foi possívelverificar, cheguei ao mesmo anel e à montanha onde estivera naantevéspera, e vi os anciães ocupados no seguimento da históriada Terra, no período retardado de 860 meses. Estavam vendoos acontecimentos da cidade de Lião, do dia 23 de Janeiro de1793 Confessar-vos-ei qual a causa misteriosa da minha atraçãopara com a estrela Capela? Maravilha! Existem na Criaçãoligações invisíveis que não se rompem, qual acontece com oslaços mortais, correspondências íntimas que subsistem entre asalmas, apesar da separação pelas distâncias. Na noite dessesegundo dia, porque a lua-esmeralda se incrustasse no terceiroanel de ouro (tal é a medida sideral do tempo), surpreendi-mepercorrendo solitária avenida envolta de flores e perfumes.Flutuei nela alguns instantes, quando vi aproximar-se de mim aminha tão amada e cara Eivlys. Estava linda qual outrora; asprimaveras desaparecidas resplenderam ante meus olhos. Nãome deterei a descrever a alegria de tal reencontro, pois não écabível aqui, e talvez um dia nos entretenhamos em falar arespeito das afeições ultraterrestres que sucedem às da vidacarnal. Desejo apenas salientar, a propósito do reencontro emligação com esta tese, que bem depressa procuramos juntos, noCéu, a Terra – a nossa pátria adotiva, onde desfrutáramos diasde paz e ventura. Estimamos, com efeito, dirigir nossos olharesrumo desse ponto luminoso onde a nossa condição atual nospermitia distinguir um mundo; sentíamos prazer em consorciaro passado da nossa saudade ao presente que nos chegava nasasas da luz. E no êxtase em que nos mergulhava essasingularidade tão nova para ambos, buscávamos ardentementeressurgir ante a vista os acontecimentos da nossa mocidade.Assim, revimos, então, os amados tempos do nosso primeiroamor, o pavilhão do Convento, o jardim florido, os passeios dosarredores de Paris, tão faceiros e formosos, e nossas viagens,sozinhos os dois, através dos campos. Para reconstruir essesperíodos, bastava avançarmos, juntos, no Espaço, em direção
  43. 43. da Terra, até às regiões em que tais aspectos, trazidos pela luz,estavam gravados. Aí tendes revelada, meu amigo, a estranhaobservação que vos havia prometido. Eis a aurora que seavizinha, e já a estrela de Lúcifer empalidece sob a Alba Rósea.Volto às constelações... Quœrens – Ainda uma palavra, ó Lúmen, antes de findaresta palestra. De vez que os aspectos terrestres só se transmitemsucessivamente no Espaço, deve haver, pois, um presenteperpétuo para as vistas escalonadas nesse Espaço, até um limitefronteirado apenas pela extensão da visão espiritual. Lúmen – Sim, meu amigo. Coloquemos, por exemplo, umprimeiro observador na distância da Lua: ele se aperceberá dosfatos terrestres um segundo e 1/4 depois de ocorridos. Situemosum outro em distância quádrupla; esses acontecimentossofrerão uma demora de 5 segundos. Um terceiro os verá com adiferença de 10 segundos. A uma distância dupla ainda daprecedente, o quarto observador os distinguirá com o intervalode 20 segundos. E assim sucessivamente. À distância do Sol, jáexiste uma diferença de 8 minutos e 13 segundos. Com relação acertos planetas, a demora será de muitas horas, conformeassinalamos já. Mais longe, são necessários dias inteiros. Paraalém ainda, meses, mais de um ano. Das estrelas mais próximas,só se percebem os acontecimentos terráqueos um, dois lustrosdepois de realizados. Há estrelas bastante longínquas, as quaisa luz atinge com o retardo de alguns séculos, e mesmo emdezenas de séculos. Nebulosas existem onde a luz chega somentedepois de uma viagem de milhões de ciclos anuais. Quœrens – De sorte que, para ser testemunha de ocorrênciashistóricas ou geológicas dos tempos passados, bastaria que essesobservadores se afastassem suficientemente. Não se poderiarever verdadeiramente o dilúvio, o paraíso terrestre, Adão e... Lúmen – Já vos disse, meu velho amigo, que a chegada doSol ao hemisfério põe em fuga os Espíritos. Uma segundapalestra permitirá aprofundar melhor um assunto do qual só
  44. 44. vos pude apresentar hoje o esquema geral, e que é fértil emnovos horizontes. As estrelas me chamam, e já desapareceram.Adeus, Quœrens, adeus.
  45. 45. Segunda narrativa 4 Refluum temporis I Quœrens – As revelações interrompidas pela aurora, óLúmen, deixaram, desde então, minha alma ávida de penetrarmais fundo o singular mistério. De igual modo que a criança, aquem se mostrou um fruto saboroso, deseja nele metergulosamente os dentes, e quando prova mais deseja, assimminha curiosidade procura novos júbilos nos paradoxos daNatureza. É acaso temerária indiscrição submeter-vos algumasquestões complementares que meus amigos me comunicaram,desde o dia em que os fiz participantes da nossa conversação? Eposso pedir continueis a narrativa das vossas impressões dealém-Terra? Lúmen – Não posso, meu amigo, consentir em talcuriosidade. Embora perfeitamente disposto que seja vossoEspírito para bem receber minhas palavras, estou persuadido,não obstante, de que as particularidades do meu assunto nãovos tocaram harmonicamente, não tiveram todas aos vossosolhos a evidência da realidade. Acusou-se de mística a minhanarrativa. Não se compreendeu que aqui não existe romance,nem fantasia, e sim uma verdade científica, um fato físico,demonstrável e demonstrado, indiscutível, e que é tão positivoquanto a queda de um aerólito ou a translação de um projétilde canhão. O motivo que vos impediu, a vós outros, de bemapreender a realidade do fato, reside em que o caso sedesenrola fora da Terra, numa região estranha à esfera devossas impressões, e não acessível aos sentidos terrestres. Énatural que não compreendais (perdoai minha franqueza, masno mundo espiritual predomina a franqueza: os pensamentos
  46. 46. são mesmo visíveis). Só compreendeis o que pertence ao mundodas vossas impressões. E porque estais propensos a ter porabsolutas as vossas idéias a respeito do Tempo e do Espaço, quesão relativas, tendes o entendimento fechado às verdades queresidem fora da vossa esfera, e que não se acham emcorrespondência com as vossas faculdades orgânicas terrestres.Assim, meu amigo, eu vos prestarei meritório serviço,prosseguindo a narrativa das minhas observaçõesextraterráqueas. Quœrens – Não é por espírito de curiosidade, crêde-mesinceramente, ó Lúmen, que me permito evocar-vos do alto domundo invisível, onde as almas superiores devem fruirinenarráveis júbilos. Compreendi, melhor do que a vossaacusação o admite, a grandeza do problema, e é sob ainspiração de uma avidez estudiosa que procuro aspectos maisnovos ainda do que os precedentes (se assim me possoexpressar), ou melhor, mais grandiosos e mais difíceis decompreender ainda. À força de refletir, cheguei a crer quequanto sabemos é nada, e o que ignoramos é tudo. Estou, pois,disposto a tudo acolher e, por isso, vos peço: deixai-mepartilhar das vossas impressões. Lúmen – Em verdade, meu amigo, eu vo-lo asseguro, ou nãoestais muito disposto a entendê-las, ou estais. No primeiro caso,não as compreendereis; na segunda hipótese, sereis mui créduloe não lhes apreciareis o valor. Por isso, volto... Quœrens – Ó meu companheiro querido dos diasterrestres!... Lúmen – Além de tudo, os fatos que eu teria de narrar sãomuito mais extraordinários do que os precedentes. Quœrens – Eu sou a semelhança de Tântalo no centro do seulago, na mesma condição dos Espíritos do vigésimo-quartocanto do Purgatório, igual aos braços estendidos para os pomosodorantes das Hespérides, na ânsia do desejo de Eva...
  47. 47. Lúmen – Algum tempo depois da minha partida da Terra, osolhos de minha alma se voltaram melancolicamente para estapátria, quando atento exame sobre a interseção do 45º grau delatitude boreal e do 35° de longitude mostrou-me um cinzentotriângulo de terra firme, acima do mar Negro, ao bordo doqual, ao oeste, um triste grupo de pobres irmãos meusterrestres se entrematavam encarniçadamente. Entreguei-me àmeditação sobre a barbárie dessa instituição, pseudogloriosa – a Guerra, que ainda pesa sobre vós outros –, e reconheci quenesse recanto da Crimeia sucumbiam oitocentos mil homens,ignorando a causa do seu mútuo massacre. Nuvens passaramsobre a Europa. Estava agora, não em Capela, mas no Espaço,entre essa estrela e a Terra, na metade da distância de Vega, e,saído da Terra desde algum tempo, eu me dirigia a um montãode estrelas que se distingue, da vossa pátria, à esquerda doastro precedente. Meu pensamento, no entanto, de tempos atempos retornava para a Terra. Um pouco depois daobservação de que falei, meu olhar, incidindo sobre Paris, foisurpreendido ao ver a Capital presa de uma insurreiçãopopular. Examinando com atenção acurada, divisei barricadasnos bulevares, próximo da Prefeitura Municipal, nas ruasextensas, e cidadãos alvejando-se mutuamente a golpes de fuzil.A primeira idéia que me ocorreu foi a de que uma novarevolução se processava aos meus olhos e que Napoleão III foraderrubado do trono imperial; mas, por uma correspondênciasecreta das almas, minhas vistas foram atraídas para certabarricada do arrabalde de Santo Antônio, na qual estavaestendido o arcebispo Denis-Auguste Affre, que eu conheceraligeiramente. Seus olhos extintos miravam, sem ver, o céu ondeme encontrava; sua mão segurava um galho verde. Estavam,pois, ante mim os dias de 1848, e em particular o 25 de Junho.Alguns instantes (ou horas, talvez) se escoaram, durante osquais minha imaginação e meu raciocínio buscaram, pelaordem natural, a explicação de tal fato particular: ver 1848depois de 1854, quando meu olhar, de novo atraído para a
  48. 48. Terra, assinalou uma distribuição de bandeiras tricolores, emextensa praça da cidade de Lião. Procurando distinguir apersonagem oficial que fazia tal distribuição, conseguiidentificar os uniformes e recordei-me de que, depois daascensão de Luís Filipe, o jovem Duque de Orleães havia sidoenviado a aplacar as agitações da capital da indústria francesa.Conclui-se disso que, após 1854 e 1848, estava diante do meuolhar um acontecimento ocorrido em 1831. Pouco mais tarde,minha visão incidiu sobre Paris em dia de festa. Gordo rei, deabdômen proeminente, face rubicunda, era conduzido emcaleche suntuosa e atravessava nesse momento a Ponte-Nova. Otempo era magnífico. Jovens vestidas de branco estavamdispostas, qual corbelha de alvos lilases, sobre o terrapleno daponte. Estranhos animais, coloridos de nuanças claras, corriamao longo de Paris. Era evidentemente a reentrada dos Bourbonsem França. Eu não teria compreendido esta últimaparticularidade, se não houvesse recordado que, em tal ocasião,tinham sido lançados para os ares artísticos balões em forma deanimais. Vistos do alto do céu, pareciam correrdesajeitadamente sobre os telhados das casas. Rever umacontecimento transcorrido eu compreendia, explicando-o pelasleis da luz; mas, rever esses eventos em sentido contrário à suaordem real, eis o que me parecia fantástico, e mergulhava omeu entendimento numa estupefação crescente. No entanto,estando os fatos diante dos meus olhos, não os podia negar, eexcogitava, por isso, qual a hipótese que poderia dar conta desemelhante singularidade. A primeira hipótese foi esta: E sem dúvida alguma a Terraque estou vendo, e por um secreto destino, somente de Deusconhecido, a história de França repassa proximamente pelasmesmas fases já atravessadas; a nação avançou até um certomaximum, que acaba de fulgir às vistas maravilhadas dospovos, e eis que retorna rumo das suas origens, por umaoscilação que pode existir, à semelhança das variações daagulha imanada das bússolas, a exemplo dos movimentos dos
  49. 49. astros. As personagens que me pareceram ser no momento oDuque de Orleães e Luís XVIII, são talvez outros príncipes queestão repetindo exatamente quanto os primeiros fizeram. Tal hipótese, todavia, me pareceu pouco verossímil, e medetive em outra mais racional. Dada a multidão de estrelas e de planetas que gravitam emtorno de cada uma delas, perguntava-me eu, qual aprobabilidade para que se encontre no Espaço um mundoexatamente igual à Terra? O cálculo das probabilidades responde a esta questão.Quanto maior o número dos mundos, maior será aprobabilidade de que as forças da Natureza hajam dado origema uma organização semelhante à terrestre. Ora, o número exatodos mundos ultrapassa toda a numeração humana escrita oupassível de ser escrita. Se compreendemos o Infinito, ser-nos-átalvez permitido dizer que esse número é infinito. Daí concluireu que há mui alta probabilidade em favor da existência demuitos mundos exatamente semelhantes à Terra, à superfíciedos quais se realiza a mesma história, a mesma sucessão deacontecimentos, e que se acham habitados pelas mesmasespécies vegetais e animais, a mesma Humanidade, os mesmoshomens, as mesmas famílias, identicamente. Perguntei-me, em segundo lugar, se tal mundo, sendoanálogo à Terra, não lhe poderia ser simétrico. Aqui ingressavaeu na geometria e na teoria metafísica das imagens. Cheguei aadmitir possível que o mundo em questão fosse semelhante àTerra, mas todavia inverso. Quando vos examinais diante deum espelho, vereis que o anel-aliança (de casamento), posto namão direita, passou para o dedo anular da mão esquerda, o quemodifica o seu símbolo; que, se piscais o olho direito, o sósiapiscará o esquerdo; que, se estendeis o braço direito, vossaimagem esticará o braço esquerdo. É impossível, pois, que, nainfinidade de astros, exista um mundo exatamente inverso doorbe terráqueo? Seguramente, em uma infinidade de mundos, o
  50. 50. impossível, ao contrário, seria não existir tal mundo, e maisfacilmente milhares em vez de um. A Natureza deverá ter-senão só repetido, reproduzido, mas ainda desempenhado, sobtodas as formas, o papel da Criação. Pensei, pois, que o mundoonde via essas coisas não era a Terra, e sim um globosemelhante, cuja história era precisamente o inverso da vossa. Quœrens – Tive também a idéia de que podia ser assim. Mas,não vos foi fácil ter a certeza do acontecimento e constatar setratava da Terra, ou se outro astro se achava sob vossa vista,examinando a respectiva posição astronômica? Lúmen – Foi o que fiz sem tardança, e tal exame meconfirmou a minha idéia. O astro onde acabava de aperceberquatro fatos análogos a outros tantos acontecimentos terrestres,porém inversos, não me pareceu estar na mesma posiçãoprimitiva. A pequena constelação do Altar não existia mais edesse lado onde vos recordais me aparecera a Terra no meuprimeiro episódio havia um polígono irregular de estrelasdesconhecidas. Fiquei, assim, na persuasão de que não era anossa Terra sob o meu olhar; a dúvida não me foi mais possívele persuadi-me de haver por terreno de observação um mundomuito mais curioso, de vez que não era a Terra, e sua históriaparecia representar, em ordem inversa, a história do nossomundo. Alguns acontecimentos, é verdade, não me pareceram ter orespectivo correspondente na Terra; mas, em geral, acoincidência foi muito notável, tanto mais quanto meudesapreço aos falsos instituidores da guerra me havia feitoesperar que tal burlesca e desalmada loucura não existisse emoutros mundos e que, ao contrário, a mor parte dos sucessospor mim testemunhados eram ainda combates ou preparativos. Depois de uma batalha que me pareceu muito semelhante àde Waterloo, vi a das Pirâmides. Um sósia de Napoleãoimperador se tornara Primeiro Cônsul e vi a Revolução sucederao Consulado. Algum tempo decorrido, notei a praça do castelo
  51. 51. de Versalhes repleta de carruagens de luto e, em um atalhoaberto de Ville-dAvray, reconheci o lento caminhar dobotânico João Jaques Rousseau, o qual, sem dúvida, nessemomento filosofava sobre a morte de Luís XV. Oacontecimento que mais feriu minha atenção foi, em seguida,uma das festas de gala do começo do reino de Luís XV, dignassucessoras das da Regência, nas quais o Erário da Françaescorria em pérolas de água por entre os dedos de três ouquatro cortesãs adoradas. Vi Voltaire, em gorro de algodão, emseu parque de Ferney, e mais tarde Bossuet passeando nopequeno terraço do seu palácio episcopal de Meaux, nãodistante da colina cortada em nossos dias pela via-férrea, masnão distingui o menor traço desta indústria. Nessa mesmasucessão de acontecimentos, via os caminhos repletos de carros-diligência, e sobre os mares vastos navios de vela. O vaporhavia desaparecido, com todas as usinas que move em nossosdias. O telégrafo estava aniquilado e bem assim todas asaplicações da eletricidade. Os balões, que se tinham mostradode tempos a tempos em meu campo de observação se haviamperdido e o último que eu vira fora o globo informe aerizadoem Annonay, pelos irmãos Montgolfier, em presença dosEstados-Gerais. A face do mundo estava transformada. Paris,Lião, Marselha, o Havre, Versalhes notadamente, estavamirreconhecíveis. Aquelas primeiras haviam perdido seu imensomovimento; a última tinha ganhado um brilho incomparável.Eu me havia formado uma idéia incompleta do esplendorrealengo das festas de Versalhes; estava agora satisfeito porassistir a uma, e não foi sem interesse que reconheci Luís XV,em pessoa, no esplêndido terraço do Oeste, rodeado de milsenhores enfitados. Era de tarde; os derradeiros fulgores de umardente Sol se reverberavam na fachada palaciana e casaisgalantes desciam gravemente os degraus da escadaria demármore, ou se inclinavam rumo das alamedas silenciosas esombrias. Minha vista se limitava de preferência sobre aFrança, ou pelo menos na região do mundo desconhecido que
  52. 52. me representava a França, porque é agradável estar longe,bastante longe da sua pátria, e nela sonhar sempre, deixandoque, a cada vez, a ela retorne o pensamento com júbilo. Nãocreiais que as almas desencarnadas sejam desdenhosas,indiferentes, libertas de toda recordação; teríamos assim bemtriste existência. Não. Guardamos a faculdade de nos recordar,e nosso coração não se absorve na vida do Espírito. Foi, pois,com um sentimento de júbilo íntimo (do qual vos deixo aapreciação) que revi toda a História da nossa Françadesenrolar-se, qual se as fases se houvessem positivado em umaordem inversa. Depois da unificação do povo, vi a soberania deum potentado. Após isso, a feudalidade dos príncipes Mazarin,Richelieu, Luís XIII e Henrique IV apareceram-me em Saint-Germain. Os Bourbons e os Guises recomeçaram para mim assuas escaramuças; acreditei distinguir a matança de SãoBartolomeu. Alguns fatos particulares da história de nossas provínciasreapareceram, tal, por exemplo, uma cena de diabruras deChaumont, que tive ocasião de observar diante da igreja de S.João, e o massacre dos Protestantes em Vassy. Comédiahumana! muitas vezes tragédia! Subitamente, vi erigir-se noEspaço o cometa magnífico, em forma de sabre, de 1577. Emum plano brilhantemente adornado, divisei Francisco I eCarlos V saudando-se. Luís XI me apareceu sobre um terraçoda Bastilha, acompanhado das suas duas sombras pandilheiras.Mais tarde, meus olhos, voltando-se para uma praça de Ruão,distinguiram forte fumarada e chamas; no meio delas,consumia-se o corpo de Joana dArc, a virgem de Orleães. Na persuasão de que esse mundo era a exata contra-partidada Terra, eu adivinhava de antemão os acontecimentos que iaver. Assim, quando, depois de haver avistado S. Luís, quemorria sobre cinzas perto de Tunis, assisti à oitava cruzada,depois à terceira (onde reconheci Frederico Barbaroxa, com asua barba), e ainda à primeira (na qual Pedro, o Eremita, e

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