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Adenauer novaes-sonhos-mensagens-da-alma
 

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    Adenauer novaes-sonhos-mensagens-da-alma Adenauer novaes-sonhos-mensagens-da-alma Document Transcript

    • 1Página em branco
    • 22ª EdiçãoDo 4º ao 5º milheiroCapa deRevisão: Hugo Pinto Homem e Jacqueline SampaioCopyright ©1998 byFundação Lar HarmoniaRua da Fazenda, nº 13, Piatã, Salvador-BA.CEP 41.650-020.Telefax (71) 286-7796livros@larharmonia.org.brwww.larharmonia.org.brImpresso no BrasilTodo o produto desta obra é destinado à manutenção das obrasda Fundação Lar Harmonia
    • 3 Adenáuer Novaes Sonhos:mensagens da alma FUNDAÇÃO LAR HARMONIA C.G.C. (MF) 00.405.171/0001-09 Rua da Fazenda, nº 13, Piatã. 41.650-020.– Salvador – Bahia – Brasil 2001
    • 4Novaes, Adenáuer Marcos Ferraz deSonhos: mensagens da almaSalvador: Fundação Lar Harmonia, 2001276p.1. Sonhos. I. Novaes, Adenáuer Marcos Ferraz de, 1955. - II.Título.CDU –CDD – 154.63Índice para catálogo sistemático:1. Sonhos : Psicologia 154.63
    • 5 Àqueles que sonham e objetivam sua realidade. “...revelam apenas a “fímbria da consciência”, como obrilho pálido das estrelas durante um eclipse total do Sol.” C. G. Jung. “Eu tenho um sonho.” Martin Luther King Júnior.Trecho de seu famoso discurso em 28.08.63, para cerca de200.000 pessoas na marcha pelos direitos civis dos negros emWashington. A Rosângela, Camila, Juliana e Diego, esposa e filhos queridos, sonhos que se tornaram realidade.
    • 6Página em branco
    • 7 ÍndicePrefácio 09Conceitos preliminares 15O significado dos sonhos 25Dormir: estar desperto para uma realidade plena 30Pesquisas sobre sonhos 34O que é o sonho (resumo histórico) 43Os sonhos em Jung 49Quem é o sujeito dos sonhos 68Influência de substâncias químicas sobre os sonhos 72Como anotar os sonhos 75Como lembrar dos sonhos 77Porque esquecemos dos sonhos 82Como continuar a sonhar um sonho interrompido 84O simbolismo e a linguagem dos sonhos 86A estrutura do sonho 101Sonhos repetitivos 104Somatização dos sonhos 106Das imagens à interpretação descritiva na linguagem do consciente 109Como interpretar os sonhos 112Amplificações dos sonhos 127
    • 8Uma análise freudiana 130Utilidade dos sonhos 141Sonhos em terapia 145Sonhos antes e depois da primeira sessão da terapia 152A depressão e a ansiedade nos sonhos 154O medo nos sonhos 156A culpa nos sonhos 158A sombra nos sonhos 160Uma análise espírita 163Sonhos com mortos e com a morte 184Os “pesadelos” 188Desdobramentos e sonhos 195Sonhos na Bíblia 203Sonhos prospectivos 205Sonhos eróticos 207A série de sonhos 212Uma análise segundo a Gestalt-Terapia 214Uma análise segundo a Psicossíntese 217Uma visão Transpessoal 219Sonhos no processo de individuação 224Formas de se trabalhar os sonhos 227Sonhos criativos 230Sonhos premonitórios ou proféticos 232Sonhos compensatórios 236Sonhos na gravidez 239Sonhos dentro de sonhos 243Os sonhos e a arte 245Reflexões finais 249Bibliografia 257
    • 9 Prefácio Sempre notei em meus seminários sobre o “Despertar daConsciência”, a mudança de interesse das pessoas quandoabordava a análise e interpretação dos sonhos. O tema, quandosurgia, provocava imediato interesse e fazia mudar o rumo dosassuntos. Isso me motivou a incluir no ciclo de temas daFundação Lar Harmonia um seminário específico sobre sonhos,levando-me a escrever mais sobre o assunto. Não tenho apretensão de trazer tudo sobre os sonhos, pois o tema éextremamente vasto e complexo. Aqui o abordo de formasintética em face do pouco que conheço sobre o seu sentido esignificado. O leitor poderá buscar uma melhor compreensão indodireto às fontes onde me inspirei, constantes na bibliografia aofinal, e, principalmente, na obra de C. G. Jung. O crescente interesse pelos sonhos em nosso século e oaumento de estudos e publicações sobre o tema são reflexos deuma mudança paradigmática que está ocorrendo em nossacivilização. A crescente valorização do feminino, o aumento dasubjetividade, a procura pelas artes, o surgimento de uma novaFísica, as abordagens holísticas e transpessoais são, dentre outrosfatores, responsáveis por essa revolução no campo da Psicologia
    • 10que, de uma forma ainda acanhada e lenta, tenta alcançar osavanços da ciência psíquica. A vulgarização dos estudos sobre os sonhos parecetambém revelar essa mudança de paradigmas. O tema, entãorestrito aos psicólogos e médicos, alcança o domínio público,interessando cada vez mais o ser humano comum, desacostumadocom os livros clássicos e descompromissado com teoriascomplexas e que, muitas vezes, não têm sustentação prática. Ossonhos, sobretudo os premonitórios, suscitam o interesse públicoe provocam o abandono de teorias preconcebidas cujapreocupação básica é a negação de sua possibilidade ou oengessamento a dogmas ultrapassados. Todos sonham, seja de forma premonitória ou não, e isso éincontestável face à sua comprovação científica, o que nivelacoletivamente os seres humanos num padrão único de atividadepsíquica, sem distinção de qualquer natureza. Pode-se dizer que ofato de todos sonharmos estabelece uma conexão transcendenteentre nós. O desejo de que algo futuro se realize, tendo sido tomadopopularmente como sendo um sonho, transformou o termo(sonho) em sinônimo de algo quimérico ou fantasioso. Em algunsidiomas, a origem da palavra está associada aos termos “errante”e “vagabundear”, porém isso não altera o significado verdadeiro ereal dos sonhos. Muito embora paire uma atmosfera deirrealidade quando se comenta sobre sonhos, sobretudo entreleigos, eles expressam, de forma sincera e objetiva, semsubterfúgios ou dissimulações, o estado real do psiquismo doindivíduo. Neste trabalho evitei apresentar casos ou análises desonhos de meus pacientes, a fim de não estimular certasidentificações que geralmente se fazem e que levam alguns aacreditar que as interpretações sempre funcionam da mesma
    • 11forma para com todos. A análise e o estudo de seus sonhosserviram-me como pano de fundo para a compreensão melhor daciência dos sonhos. O mundo mental ou o mundo dos pensamentos,sentimentos, fantasias, etc., é o mesmo mundo dos sonhos, pois,estando-se acordado ou dormindo, a vida obedece às leis dasubjetividade interior. Venham de onde vierem, sejam resultantesfisiológicos ou não, a vida é comandada pelo que se elaborapsiquicamente. O mundo psíquico é completamente simbólico. Arealidade, para o mundo psíquico, é constituída de símbolos enão das coisas em si. Tudo no inconsciente se passa dentro de umambiente de imagens, de raciocínios lógicos, de sentimentos eintuições, fora do domínio da consciência, em face de sualimitação à concentração e à exclusão do todo. O meio ambienteexterno ao mundo psíquico é pouco relevante, salvo para geraraquelas imagens e idéias, pois tudo se passa a partir do que éapercebido e não do que está posto em si. Partindo desseprincípio, o real é o psíquico, pois é a partir dele que se elaboramrespostas ao mundo dito externo a ele. O mundo objetivo dopsíquico é exclusivamente simbólico. O mundo das coisas em si ésubjetivo ao mundo psíquico. O que existe em nós sãorepresentações de imagens diferentes daquilo que percebemoscomo sendo o mundo. Os sonhos fazem parte daquele mundo objetivo dopsiquismo. Eles são uma realidade em si para o mundo psíquico,que, efetivamente, comanda a vida. Dizer-lhes inconscientes émera questão de relatividade com o ego vígil. É no mundo ditoinconsciente que se elaboram as decisões para o mundo ditoconsciente e vice-versa. Para investigar aquele mundo dito inconsciente tem-se quelançar mão de uma série de ferramentas. Uma delas é o sonho. Asoutras são: os complexos, os atos falhos, desenhos, pinturas,
    • 12meditações, trabalhos com argila (esculturas), discursos verbais,testes projetivos, etc. Todos eles são válidos e não vejo qualquerordem de importância de um em relação aos outros, pois cadaindivíduo estabelece seus mecanismos de defesa que nãopermitem a acessibilidade de seu mundo psíquico profundo, poreste ou aquele motivo. Os sonhos são retratos instantâneos da vida psíquica dosonhador, cuja lente fotográfica é ele próprio e o material plásticoé colhido do inconsciente. São como espelhos sensíveis dasituação psicológica do indivíduo. Eles são fonte de cura e decrise ao mesmo tempo. Curar-se para iniciar um novo ciclo decrescimento. Crise pela necessidade de mudança. Os sonhos sãosempre mensagens simbólicas cujo conteúdo está a serviço de umpropósito evolutivo. Em cada sonho está implícita uma idéiadiretora e significativa para a vida do sonhador. Os sonhos são metáforas da vida real, elementos de umalinguagem poética e genuína da vida psíquica do sonhador, quenunca cessa, nem se submete às contingências egóicas. Sãofenômenos tão complexos quanto a consciência o é. Ultrapassamo conceito de serem simples mensagens e recados para que o egopossa melhor dirigir sua vida de relações, pois são estruturas vivase consistentes da personalidade que se desenvolveinexoravelmente. O mundo dos sonhos nos auxilia a entender o mundoexterno, dito objetivo, material, concreto. O sentido da vida nãose explica pelos fatos referentes a esse mundo constituído pelosfatos do cotidiano. Eles são apenas fragmentos conseqüentes dopensar humano. Os sonhos, ao contrário, nos apresentamaspectos da totalidade objetiva do viver. Os sonhos permitem a reunião de experiênciasemocionalmente assemelhadas, desconectadas ou não noinconsciente, necessitando de elaboração na consciência. Por
    • 13mais que estudemos todos os aspectos sobre sonhos, eles aindase constituem um envolvente mistério para a alma humana. Suasmetáforas visuais nem sempre acompanham a lógica do ego,preocupado em lhes aplicar sua coerência rígida e convencional. Durante a confecção deste trabalho, já na sua fase f inal,faltando apenas algumas inserções de notas sobre os conceitos deJung, sonhei que corrigia uma frase de um determinado trechodeste material que escrevia ao computador. No sonho, via a fraseconstituída por uma única palavra que necessitava ser separadapor espaços e pela inserção de vogais. Quando acordei, decidinão interpretar o sonho, mas aproveitar a energia intensa de quefui acometido ao levantar-me pela manhã. Fui direto aocomputador e concluí o texto rapidamente, pois acreditava queainda ia me demorar algumas semanas. Aprendi a desenvolvermotivações a partir da disposição ao acordar e, certamente,aquele sonho motivara-me a finalizar este trabalho, inserindo oque faltava como a brevidade das vogais. Sempre me questionei: – Por que os sonhos exercem tantofascínio nas pessoas? Não há quem não deseje a interpretação deum sonho que teve. O surrealismo presente sempre se constituiunum enigma até então insolúvel ou parcialmente esclarecidoatravés das diversas teorias oníricas. Esse fascínio provavelmenteadvém da natureza essencial penetrada pelos sonhos, queconsegue remeter o sonhador à sua própria origem. Por muitotempo se associou o sonho ao feminino, ao prazer, ao mistério eao transcendente, e esses são temas importantes do ser humanomoderno. Desvendar mistérios constitui-se num desafio àsexplicações do significado da vida. Dessa forma, os sonhospenetram na possibilidade de que, sendo explicados, possaalcançar-se respostas há muito procuradas sobre a essência davida.
    • 14 Cada vez mais percebo que as escolas psicológicas, bemcomo a sabedoria popular, as afirmações da PsicologiaTranspessoal e as contribuições do Espiritismo, no seu conjunto,apresentam uma razoável idéia de como entender e trabalhar comos sonhos. Qualquer dessas abordagens, mesmo aquela que nospareça a mais completa, tomada em particular, significaria umseccionamento fragmentário sobre o conhecimento aindaincipiente do mundo dos sonhos, o que impediria a percepção desua riqueza e de sua importância para o desenvolvimento psíquicodo ser humano. As interpretações psicológicas que se dêem, nos casos dossonhos que apresentem fenômenos considerados comoexperiências fora do corpo e que apontam para uma realidadeextrafísica de natureza espiritual, não estarão erradas ouequivocadas, pois tais fenômenos se processam com o humano, ecomo tal, sujeito a uma dinâmica psíquica, quer seja considerado“vivo” ou “morto”. Há sempre uma instância inconsciente ondeeles se produzem. A Psicologia não se furta a estudar taisfenômenos quando eles se tornam objetos de saber e não crençamágica em algo “sobrenatural”. A priori, não se pode excluirqualquer idéia, mesmo que ela nos pareça inverossímil. Nenhum trabalho é obra de uma só pessoa. Seuinconsciente é constantemente contaminado pelos conteúdosassimilados de suas relações com seus semelhantes. Quem podedizer que o que pensa ou sente não é também fruto de dascontaminações a que está sujeito, sem se equivocar ou resvalarpelo egocentrismo? Este trabalho portanto, além dascolaborações oriundas de várias fontes e pessoas, teve aparticipação direta de amigos queridos aos quais explicitamenteagradeço. A Rosana pela ajuda na pesquisa, a Lahiri, Rita e Sueli,pela revisão, a Sílzen pela complementação do conteúdo e aosmeus pacientes pelo material onírico fornecido.
    • 15SalvadorMarço de 1998
    • 16 Conceitos preliminares A maioria das considerações emitidas neste trabalho vêmda Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961),psiquiatra suíço, de cujas obras extraímos as idéias e os conceitossintetizados adiante, necessários à compreensão do significadodos sonhos e de sua importância para o desenvolvimento doindivíduo. Evidentemente que não temos a pretensão deapresentar as observações e idéias de Jung, no seu conjunto, arespeito dos sonhos. Sua obra é por demais vasta, rica e extensano estudo dos sonhos. Não a conhecemos o suficiente para falarem seu nome ou dizer que escrevemos numa linguagem junguiana.Apresentamos apenas algumas idéias extraídas de parte de suaobra. Não creio que seria possível a alguém, sozinho, alcançartamanha proeza. Mesmo aqueles que conviveram de perto comele, não alcançaram penetrar na totalidade de suas idéiasluminosas. Jung foi maior que sua época. Nunca mais a Psicologiafoi a mesma após ele. Estabeleceu um marco divisório nosestudos da mente humana. O reconhecimento de sua obra veioainda em vida, quando novas abordagens psicológicas surgiramtendo como raízes seus conceitos e suas pesquisas sobre asorigens e estrutura do psiquismo humano. Eis, portanto, osconceitos que considero relevantes para o nosso fim:
    • 17 Ânima1 É o aspecto feminino interior do homem. Representa osomatório das experiências do homem com mulheres (mãe, irmã,amiga, esposa, amante, etc.). É a imagem feminina “perseguida”pelo homem. Sua projeção inicial estabelece-se primeiramente namãe e depois sobre outras mulheres. É uma espécie de imagomaterna que acompanha e influencia o homem por toda sua vida.O homem tende a, inconscientemente, comparar toda mulher, quese apresente a ele, com sua ânima. A tentativa de plasmar suaânima numa mulher tende a se tornar uma operação arriscada eperigosa na vida de todo homem. Nos sonhos geralmente elaaparece como figuras femininas sedutoras e arrebatadoras oumesmo condutoras do sonhador. Quando o homem se deixainfluenciar pelo arquétipo da ânima, geralmente ele se tornamelindroso e irritadiço, caprichoso, ciumento e vazio. Diz Jungque: − “A anima é o arquétipo da própria vida.”2 Ele distinguiuquatro grandes estágios da ânima, personificados como Eva,Helena, Maria e Sofia, isto é, de mãe, de amante, de deusa e desabedoria. É nesse quarto estágio que a ânima de um homemfunciona como guia da vida interior, intervindo entre os conteúdosconsciente e inconsciente. Jung considerava importante oconfronto com a ânima para o desenvolvimento do homem. Ânimus É o aspecto masculino interior de toda mulher. Representao somatório das experiências da mulher com homens (pai, irmão, 1 Optei por acentuar as palavras ânima, ânimus e psiquê em função da pronúncia que normalmente se utiliza. Conservei a grafia original nas transcrições. 2 The Archetypes and the Collective Unconscious, CW Vol. 9/1, par. 66.
    • 18esposo, amigo, amante, etc.). É a imagem masculina “perseguida”pela mulher. Jung dizia que “ Como a anima corresponde aoEros materno, o animus corresponde ao Logos paterno.”3 “Oanimus é uma espécie de sedimento de todas as experiênciasancestrais da mulher em relação ao homem, e mais ainda, éum ser criativo e engendrador, não na forma da criaçãomasculina.”4 Daryl Sharp diz5 que “Jung descreveu quatroestágios do desenvolvimento do animus numa mulher. Eleaparece primeiramente nos sonhos e nas fantasias como apersonificação da força física, um atleta, homem musculosoou bandido. No segundo estágio, o animus fornece-lheiniciativa e capacidade para a ação planejada. Está pordetrás de seus desejos de independência e de profissãoprópria. No estágio seguinte, o animus é a “palavra” que sepersonifica muitas vezes em sonhos na figura de um professorou de um clérigo. No quarto estágio, o animus é a encarnaçãodo sentido espiritual. Neste nível mais elevado, à maneira daanima como Sofia, o animus é um intermediário entre amente consciente da mulher e seu inconsciente. Na mitologia,este aspecto do animus aparece como Hermes, mensageirodos deuses; nos sonhos, é um guia espiritual prestativo.”Tanto quanto da ânima, é desejável a integração parcial doânimus a fim de auxiliar o indivíduo a lidar com a complexidadedas relações com as outras pessoas, assim como consigo mesmo. Aparelho psíquico Expressão utilizada para significar a psiquê ou a totalidadedo psiquismo inconsciente e consciente. Nele se situam todos os 3 C. G. Jung, Obras Completas Vol. IX/2, par. 29. 4 Estudos sobre psicologia analítica, Obras Completas Vol. VII, par. 336. 5 Léxico Junguiano, p. 25, Ed. Cultrix, SP.
    • 19processos psicodinâmicos. Nele estão as estruturas dinâmicas deidentidade e de relação, além do Self. As primeiras são o ego e asombra, as segundas são a persona e a ânima/ânimus. Arquétipo Estruturas virtuais, primordiais da psiquê, responsáveis porpadrões e tendências de comportamentos estruturais. Sãoanteriores à vida consciente. Não são passíveis de materialização,mas de representação simbólica. Para Jung, são hereditários erepresentam o aspecto psíquico do cérebro. São universais,comuns a todos os seres humanos e ordenam imagensreconhecíveis pelos efeitos que produzem. Pode-se percebê-lospelos complexos que todos temos, pelas imagens arquetípicasque geram, assim como pelas tendências culturais coletivas. Complexos Os complexos são conteúdos psíquicos carregados deafetividade, agrupados pelo tom emocional comum. São ‘temasemocionais reprimidos capazes de provocar distúrbiospsicológicos permanentes’, e que ‘reagem mais rapidamenteaos estímulos externos’. ‘São manifestações vitais da psique,feixes de forças contendo potencialidades evolutivas que,todavia, ainda não alcançaram o limiar da consciência e,irrealizadas, exercem pressão para vir à tona.’6 São unidadesvivas dentro da psiquê e que gozam de relativa autonomia. Porvezes somos dirigidos pelos complexos. Eles não são elementospatológicos, salvo quando atraem para si excessiva quantidade deenergia psíquica, manifestando-se como conflito perturbador da 6 Nise da Silveira, Jung Vida e Obra , p. 37.
    • 20personalidade. Os complexos têm a facilidade de alterar nossoestado de espírito, sem que nos apercebamos de sua presençaconstelada na consciência. À semelhança de um campomagnético, não são passíveis de serem observados diretamente,mas por meio da aglutinação de conteúdos que lhes constituem.No âmago de um complexo sempre encontramos um núcleoarquetípico. Consciência ou Consciente Atitude psíquica que envolve conteúdos, com forte cargade energia, acessíveis ao ego. Sua base e origem é o inconsciente.Difere do eu ou ego pelo seu conteúdo amplo e por ser seucampo de atuação. Geralmente se opõe ao que há noinconsciente. Jung escreveu que “Não há consciência semdiscriminação de opostos.”7 Em 19398 , Jung afirmou: − “Nossaconsciência não se cria a si mesma; mas emana deprofundezas desconhecidas. Desperta gradualmente nacriança, e cada manhã, ao longo da existência, desperta dasprofundezas do sono, saindo de um estado de inconsciência. Écomo uma criança que nasce diariamente do inconscientematerno. Sim, um estudo mais acurado da consciência nosmostra claramente que ela não é somente influenciada peloinconsciente, como também emana constantemente, doabismo do inconsciente, sob a forma de inumeráveis idéiasespontâneas.” Ego ou eu 7 Psychological Aspects of the Mother Archetype, CW Vol. 9/1, par. 178. 8 Psicologia da Religião Ocidental e Oriental, Obras Completas Vol. XI, par. 935.
    • 21 É o sujeito da ação consciente. Primeiro complexo a seformar na consciência, sendo seu centro. Estrutura-se a partir doinconsciente e é, muitas vezes, confundido com o centroorganizador e diretor do aparelho psíquico. Conhecer a si mesmonão é conhecer o eu ou ego, que só conhece seus própriosconteúdos, mas, também, aquele centro organizador. O processode desenvolvimento da personalidade, a individuação, consiste emdiferenciar o ego de suas estruturas arquetípicas auxiliares. Oego, o Self (centro organizador da psiquê) e o ego onírico (o eudos sonhos) são instâncias psíquicas diferentes. O ego se baseiano arquétipo do si-mesmo, sendo, de certa forma, seu agente nomundo da consciência.9 Inconsciente Constitui-se de conteúdos sem energia psíquica suficientepara atingir a consciência. É a parte da psiquê onde se encontramos conteúdos arquetípicos. Jung diz que o inconsciente “é a fontede todas as forças instintivas da psique”. Seu conteúdo nãoestá relacionado de modo perceptível com o eu. No inconscienteestá tudo que sei, mas que não estou pensando no momento ouque esqueci; tudo que é captado subliminarmente, mas nãopercebido; tudo o que faço involuntariamente bem como novaselaborações psíquicas a partir do material existente. Neste últimocaso atribui-se uma função criativa ao inconsciente. Tudo issopoderá se tornar consciente algum dia. Muitas vezes estar com osconteúdos inconscientes acessíveis à consciência poderá provocarsintomas psicóides. Os conteúdos inconscientes, dispostos deforma simbólica, quando acessíveis pela consciência, deverãosofrer a necessária interpretação. Jung colocou que existem duas 9 James A. Hall, Jung e a Interpretação dos Sonhos, p.41.
    • 22espécies de inconsciente: o pessoal e o coletivo. O pessoal éformado pelas experiências, reprimidas ou não, que o indivíduotem em sua vida consciente desde a infância. O coletivo éresultante das experiências da humanidade sedimentadas napsiquê coletiva, pela hereditariedade. Os conteúdos doinconsciente coletivo, para Jung, não podiam ser adquiridosindividualmente, mas coletivamente. Para ele toda a mitologia seriauma espécie de projeção do inconsciente coletivo ou psiquêobjetiva. Individuação É um dos conceitos centrais da Psicologia Analítica deJung. É o processo de desenvolvimento da personalidade peladiferenciação psicológica do eu. É um processo no qual o egovisa tornar-se diferenciado da coletividade, embora nela vivendo,ampliando suas relações. Para se alcançar a individuação énecessário se evitar as tendências coletivas inconscientes. Aindividuação respeita as normas coletivas e o individualismo ascombate. O contrário à individuação é ceder às tendênciasegocêntricas e narcisistas ou à identificação com papéis coletivos.A individuação leva à realização do Self, e não simplesmente àsatisfação do ego. É um processo dinâmico que passa pelacompreensão da finitude da existência material, objetiva, face àinevitabilidade da morte física. Persona ou máscara O termo persona deriva das máscaras que os atores gregosusavam para os diversos papéis ou personalidades queinterpretavam. É o aspecto ideal do eu que se apresenta aomundo e que se forma pela necessidade de adaptação e
    • 23convivência pessoal. É o que se pensa que é. Muitas vezes apersona é influenciada pela psiquê coletiva confundindo nossasações como se fossem individuais. Ela representa um pacto entreo indivíduo e a sociedade, sendo um conjunto de personalidadesou uma multiplicidade de pessoas numa só. A identificação doego com a persona provoca o afastamento de nossa identidadepessoal, isto é, corremos o risco de não sabermos quemrealmente somos. Somos, ao mesmo tempo, seres individuais ecoletivos, pois temos uma natureza singular como também temosatitudes que nos confundem com a coletividade. Psiquê O mesmo que aparelho psíquico. Representa a totalidadedas funções psíquicas e todos os processos que envolvem odeslocamento de energia a serviço do processo de individuação.Engloba não só os processos conscientes e inconscientes comotambém aqueles que fogem ao domínio imediato da realidade.Nele se encontram os opostos que anseiam em se completarem.Jung dizia que a psiquê é o princípio e o fim de todo oconhecimento, é o objeto e o sujeito da ciência. São quatro osníveis da psiquê: consciência pessoal, inconsciente pessoal,consciência coletiva e inconsciente coletivo. Self ou si-mesmo É o centro organizador da psiquê. É o arquétipo datotalidade. É a unidade e a totalidade da personalidade doindivíduo. É o centro do aparelho psíquico, englobando oconsciente e o inconsciente. Como arquétipo, se apresenta nossonhos, mitos e contos de fadas como uma personalidadesuperior, como um rei, um salvador ou um redentor. É uma
    • 24dimensão da qual o ego evolui e se constitui. Jung dizia que: − “Osi-mesmo também pode ser chamado ‘o Deus em nós’.”, ecompletava acrescentando que “o si-mesmo está para o eu,assim como Sol está para a Terra.”10 Isso nos faz entendermelhor qual é a relação entre o centro diretor da consciência e ocentro organizador da vida psíquica do indivíduo. O Self é oarquétipo central da ordem, da organização. São numerosos ossímbolos oníricos do Self, a maioria deles aparecendo comofigura central no sonho. Símbolo Representa algo cuja existência é reconhecida, porém nãose revela presente. “O símbolo, no entanto, pressupõe sempreque a expressão escolhida seja a melhor designação oufórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mascuja existência é conhecida ou postulada.” “Uma expressãousada para designar coisa conhecida continua sendo apenasum sinal e nunca será um símbolo.”11 Pode-se, portanto,inventar um sinal, nunca um símbolo. Os símbolos têm acapacidade de transformar e redirecionam a energia psíquicainstintiva em favor do processo de desenvolvimento dapersonalidade. Eles são produzidos constantemente na psiquê esurgem nos sonhos e nas fantasias. Sombra Representa o que não sabemos ou negamos a respeito denós mesmos. A sombra é o arquétipo que representa os aspectos 10 C. G. Jung, Obras Completas Vol. VII, parágrafos. 399 e 400. 11 C. G. Jung, Obras Completas Vol. VI, parágrafos. 903 e 906.
    • 25obscuros da personalidade e desconhecidos da consciência e queestá mais acessível a ela. Normalmente temos resistência emreconhecer e integrar a nossa sombra, o que nos levainconscientemente às projeções. Essa integração é geralmente feitacom relativo esforço moral. A sombra representa o queconsideramos mal e não nos damos conta de que nos pertence,fazendo parte de nós tanto quanto o bem. A sombra contém obem e o mal desconhecidos ou negados em nós, ou que nãoforam conscientizados. Portanto, é acertado dizer-se que asombra contém também qualidades boas. Ela dá lugar à personapor uma necessidade de adaptação social. Sua exposição torna oindivíduo inadequado e inviabiliza sua convivência harmônica. Nossonhos, a sombra costuma aparecer como personagens domesmo sexo do sonhador, muitas vezes em atitudes aversivas oucomo alguém conhecido e antipatizado por ele. Temos umatendência a projetar as características pessoais da sombra nosoutros, considerando-os moralmente inferiores. Reconhecer aprópria sombra é um grande passo no processo de individuação.A sombra se opõe à persona e ambas se relacionam num regimemútuo de compensação. Estes conceitos são necessários à compreensão de boaparte do conteúdo deste trabalho, muito embora não representemcondição essencial, pois a compreensão dos sonhos não passapela necessidade de um sistema de códigos. A grandecomplexidade do tema exige abordagens diversas para melhorpercepção de seu significado. Não há fórmula padrão como nãohá essencialmente um sonho igual a outro.
    • 26 O significado dos sonhos A natureza é mais complexa e ao mesmo tempo muito maissimples e bela do que supomos. Apresenta nuances cujo deleitesó é possível se transcendermos a esfera comum da análise fria eracional, típica do arcaico pensamento excessivamente dogmáticoe racionalista da humanidade. Ao ser humano, hoje, exige-se umestado de percepção do mundo, coerente com a beleza própriada natureza. O mundo não se constitui apenas do que éapreendido pelos sentidos, que a lógica nos obrigou a descrever apartir do organicismo típico dos séculos XIX e XX. O mundo dossonhos vem nos mostrar uma outra faceta da mesma realidade,antes observada pelas lentes embaçadas do intelecto, muitasvezes de modo inconseqüente, pois foi a consciência racional doshomens que gerou guerras. Sua interpretação pela consciência éapenas uma possibilidade de compreensão que, além de serdeformada, não açambarca a realidade dos sonhos como ummundo em si, rico de imagens, símbolos, emoções, enfim, de vida. Os avanços científicos do século XX e as descobertas quese prenunciam para o século XXI, principalmente no campo daFísica Quântica e da Psicologia, levarão a uma compreensão maisadequada do campo dos sonhos. A estreiteza de suacompreensão não se deve propriamente a seus estudiosos, mas,
    • 27também, aos limites estabelecidos pela época em que viveram evivem. Trata-se de uma ausência de faculdades psíquicas quepudessem permitir uma maior compreensão da realidade. Issoequivale à falta da capacidade de voar de algumas aves de grandeporte, cuja deficiência foi suprida pela evolução que lhesdirecionou para a estruturação da convivência social, junto ànatureza-mãe, na terra. O vôo do ser humano deverá ser mais altoe mais próximo ao si mesmo, credenciando-o à compreensão danatureza real do que é gerado em seu aspecto desconhecido eincomensurável, onde qualquer teoria preconcebida seria nomínimo incompleta. Costumo dizer aos meus pacientes que seus sonhos sãomais importantes do que o que sua consciência me diz. Atravésdeles, estabelecemos um diálogo permanente entre o que eleconscientemente não consegue me dizer e que ele necessita saber.Àqueles que costumam dizer que não sonham, afirmo-lhescategoricamente, buscando induzir-lhes, que a partir daquele dia(primeira ou segunda sessão) eles sonharão, basta que assim odesejem. Dormir não se opõe ao estar desperto ou acordado doponto de vista psicológico, tampouco o sonhar se opõe ao sono.Enquanto se dorme, processam-se fenômenos riquíssimos quepodem mudar a vida da pessoa. A atividade do sono está ligada àvida íntima do ser humano. O sonho,12 como atividade onírica,revela de forma sintética a riqueza fantástica do dormir. O sono éuma importante fonte de prazer do ser humano, muito embora, àsvezes, pode revelar-se doloroso para o ego ao mostrar-lhe,através do sonho, situações e conteúdos que vão de encontro àssuas tendências e aspirações conscientes. 12 Jung dizia que o sonho não é o resultado de uma continuidade da experiência, mas o resíduo de uma atividade que se exerce durante o sono. CW, Vol. VIII, par. 443.
    • 28 O sonho é um grito inaudível e frutífero do senhor da vidapsíquica, o Self, e, portanto, também da consciência, contra seualgoz, o sono, que, embora facilite a emissão da mensagem deforma direta, impede a manutenção da consciência do ego. É atentativa exitosa do ego em perpetuar-se, face aos receiostemerosos da consciência. O sonho é imponderável e improvável.Qualquer que seja o estado do sonhador, durante e depois dosonho, ele é simultaneamente fascinante, misterioso e paradoxal.Traz à consciência uma situação mágica e singular, variando domaravilhoso ao s obrenatural, do divino ao dantesco, do incrívelao absolutamente verdadeiro. Às vezes, nos levam a momentosinesquecíveis, a situações de deleite intraduzíveis, de cujasensação não queremos nos desligar. Outras vezes, nos trazemmedo e pavor ou angústia, dando-nos um aperto no coração. Sua linguagem é completamente simbólica e nem sempreencontra correlações na cultura do sonhador. Sua mensagem,portanto, se levada ao pé da letra, nem sempre poderá sercompreendida. Eles têm a peculiaridade de nos apresentargeralmente uma situação de conflito. Digo geralmente, pois ossonhos podem ser gerados exatamente pelo oposto. Nem sempreo são por um conflito, mas pela satisfação em relação a algo quedeve chegar à consciência. Quando os explanamos, as palavrasmas, porém, entretanto, parecem se repetir com muitafreqüência. Uma situação oposta ou contrária à normalidadeconsciente surge nos sonhos e esse estado pode serextremamente variável. Ao mesmo tempo que o sonhador quer uma análise de seusonho, ele elabora uma que atende imediatamente a ansiedadeque porventura tenha sido provocada. Caso sua análise sejacontrariada, ele buscará entender a que lhe foi dada e readaptaráa anterior visando obter mais alívio à consciência.
    • 29 O sonho é algo improvável, salvo pelo depoimento dosonhador, única e solitária testemunha de seu objeto decuriosidade. É uma daquelas ocorrências da vida psíquica do serhumano que o obriga a uma resposta sobre sua gênese, pela suaincognoscibilidade inicial. Tudo que diz respeito ao psiquismo humano é objeto decontrovérsias, quanto a sua gênese, nas mais variadas escolas queestudam o comportamento humano. Os sonhos não escapariam aessa discussão. Umas os consideram fantasia, frutos daimaginação, portanto sem valor científico; outras os colocamcomo uma espécie de subproduto psíquico, algo que se eliminacomo material imprestável. Porém seu valor, causal e finalista aomesmo tempo, tem sido defendido ultimamente. Em que pese nem sempre ser possível a compreensão doseu sentido, as conseqüências de sua ocorrência, porém, sãoobserváveis. Muitas pessoas alteram seu humor a partir dalembrança, ao acordar, do sonho. Outras tomam atitudes apósseus sonhos, ou mesmo realizam projetos após lembrar-se deles.Mesmo assim, eles sugerem interrogações e desejos decompreensão. Em que meio eles ocorrem? Como sãoprovocados? Qual o material de que se utilizam? É possíveldominá-los? Para que ocorrem? São interrogações comuns detodos os sonhadores. Muito lógico que entendamos que o sonho se processenuma instância inconsciente e, por um mecanismo desconhecido,alcance o córtex, pois, para ser lembrado, deverá ser impressonos neurônios cerebrais. Esse “imprint” deve alcançar neurôniosnovos, cujo poder de retenção é mínimo, fazendo com que ossonhos sejam facilmente esquecidos. Essa probabilidade dossonhos ficarem registrados em neurônios novos parece seassemelhar à possibilidade de existir uma memória virtual, volátil,que se inibe com a atividade consciente. A força de certas
    • 30imagens oníricas parece não conter energia suficiente parapermanecer retida no córtex por muito tempo, tendo em vista nãocontarem com o mecanismo associativo proporcionado pelo ego. São pensamentos não pensados, não elaborados ouelaborações mentais irrompidas à consciência sem que esta tomequalquer iniciativa. São emanações do inconsciente nãocontroladas pela consciência, não sendo possível sonhar-seexatamente como e o que se deseja. O sonho é, muitas vezes,perturbador, revelando os mais dramáticos conflitos interiores e,por ser inconsciente, leva o indivíduo à ansiedade, à angústia e aestados de humor incontroláveis. Pelo mesmo motivo, podemlevar o sonhador a estados felizes e ditosos incomensuráveis,aliviando as tensões entre o consciente e o inconsciente. Sua interpretação sempre despertou vivo interesse naspessoas e vem desafiando sérios estudiosos quanto à suaveracidade e alcance. Tentarei neste trabalho trazer algunsapontamentos que venho fazendo em meu trabalho clínico, semcontudo achar que trarei algo novo ou que não tenha sido objetode estudos anteriores. De qualquer forma o assunto é palpitante,emocionante e que transcende a esfera clínica. Espero trazer algode bom àquele que o ler.
    • 31 Dormir: estar desperto para uma realidade plena Há pessoas, cujo hábito de dormir é -lhes extremamenteimportante e chegam a não trocar qualquer outro prazer por umbom sono. Vivem sob o domínio de Morfeu, a quem se entregamprazerosamente. Porém há aqueles para os quais dormirrepresenta algo extremamente desagradável e dispensável. Suasocupações diárias são mais importantes que seu sono. Dormemmal e acordam mal. A insônia pode representar também a fuga doestado onírico desagradável. A dificuldade de dormir associa-se àpreocupação latente por algo importante na vida de vigília, mastambém por algo incognoscível e complexo na vida íntima dapessoa. Se não fossem os sonhos, poder-se-ia dizer que o sono éuma morte com direito a retorno, face ao seu estado de absolutainconsciência. Mas os sonhos ‘perturbam’ o sono demonstrandoum estado “consciente” além da consciência desperta. O sonho é um recado do Inconsciente (Self) para oConsciente (ego). É uma mensagem com endereço certo, semdevolução, pois, sempre chega ao seu destino, independente davontade consciente do ego. Ele tem um papel orientador e
    • 32regulador da relação das duas instâncias psíquicas conhecidas, oinconsciente e o consciente. Na leitura de textos sobre sonhos, oriundos de váriosautores, observamos nas análises e interpretações dos mesmosuma certa função auxiliadora dos sonhos. Parece que os autoressão unânimes em lhes atribuir tal caráter. Os sonhos atuam aserviço do desenvolvimento do ser, denotando, simultaneamente,os sentidos evolutivo e curativo de que são portadores. Independente destes dois aspectos, o ato de dormir esonhar certamente refletirão no estado de espírito da pessoa nodia seguinte. Ter um sono tranqüilo representa um bom início dedia para qualquer pessoa, porém há quem já acorde de mal com avida, como se o mundo lhe fosse extremamente adverso, em facede um mau sonho. Geralmente isso ocorre em função de um sonointranqüilo e mal dormido, principalmente se seus sonhoschamarem a atenção aos aspectos negados ou aversivos. Muitas vezes acordamos com a sensação de terexperimentado algo muito importante, agradável e fascinante,diferente de tudo que se viveu antes. Parece que, durante o sonoentramos em contato com uma natureza extremamente prazerosacapaz de fazer com que os fatos e fenômenos do estado de vigíliapareçam sem importância. É o sono com sonhos profundos quenos mantém em contato com nossa natureza essencial e divina. Os sonhos refletem o passado, o presente e o futuro, bemcomo situações atemporais. Tempo e espaço são relativizadosnos sonhos assim como a noção de causalidade. Não se podequerer que os sonhos apresentem a mesma seqüência cronológicade eventos como na consciência. Se assim fosse não seriamsonhos, mas apenas a continuidade da vida de vigília. Tratam deuma natureza que escapa à maneira ortodoxa e rígida de ver osfatos como o faz a consciência.
    • 33 Todo sonho tem uma mensagem que, quando nãoentendida pelo ego do sonhador, se repetirá até que o processode crescimento tenha atingido seu real objetivo. Essa mensagem éque tem sido objeto de busca e compreensão. Nem sempre ela éencontrada, principalmente devido à forma pragmática epreconcebida como a buscamos. A parte da mente que busca osignificado dos sonhos não é a mesma que os elabora. Talvez o grande desejo do sonhador seja ter o domínio daconsciência durante seu sonho a fim de observar melhor ouniverso em que eles são elaborados. Essa tentativa de manter suavitalidade é vencida pelo processo fisiológico natural do sono.Quando a consciência retorna, ela tenta, da mesma forma,compreender os sonhos, resvalando em sua própria incapacidadede penetrar nos domínios que não lhe pertencem. Pensar sobre os sonhos, anotá-los, tentar interpretá-los, oudar-lhes qualquer atenção, disparará um mecanismo psíquico queproduzirá novos sonhos criados pelo fato de lhes atribuirmosalgum valor. Isso nos leva a entender que h sonhos que são ácriados pela observação que fazemos deles, segundo o princípioda incerteza ou da indeterminação de Heisenberg, de que oobjeto observado se altera com a visão do observador. Jung serefere a esse princípio,13 agradecendo ao físico norte-americanode origem austríaca, Prêmio Nobel de 1946, Wolfgang Pauli, portê-lo ajudado a entendê-lo. Os registros encefalográficos mostram traçados durante osonho semelhantes aos obtidos no estado de vigília. Enquanto oestado de vigília caracteriza-se pela coerência consciente deconteúdos, os sonhos apresentam uma certa coerência temáticade imagens visuais. Com os estudos acadêmicos os sonhosdeixaram de pertencer ao domínio das teorias, tornando-se 13 Obras Completas, Vol. VIII, par. 438.
    • 34objetos de investigação experimental. As descobertaseletroencefalográficas foram fundamentais para que se avançassenos estudos sobre sonhos e se criassem laboratórios em váriaspartes do mundo exclusivamente para pesquisas oníricas. Além dos estados de sono, de despertar e de consciênciaabsoluta, a filosofia hindu considera o sonho um dos estados deconsciência em que o irreal passa a ser real, o subjetivo passa aser objetivo. No volume XI das Obras Completas sobre RamanaMaharshi, encontramos suas impressões sobre os sonhos, naseguinte questão: Pergunta 2214 - Não existe diferença entre vigíliae sonho? Resposta - “A vigília é longa e o sonho curto; essa éa única diferença. Assim como os acontecimentos do períodode vigília parecem reais enquanto estamos despertos, tambémos acontecimentos do período de sonho parecem reaisenquanto sonhamos. No sonho, a mente toma outro corpo.Tanto no estado de vigília como no estado de sonho,pensamentos, nomes e formas ocorrem simultaneamente.” Muito provavelmente os sonhos apresentem uma marcaregistrada do sonhador. Cada indivíduo possui um certo padrãode sonho cuja característica básica torna-se sua identidadeessencial. Cada sonhador apresentará, sempre, um estilo própriode sonho, independente de seu conflito pessoal ou das imagensarquetípicas que utilizar. Como o sonho é uma realidade dosonhador, nele vamos encontrar sua identidade e seu estadopsíquico. 14 Ramana Maharshi, Ensinamentos Espirituais.
    • 35 Pesquisas sobre sonhos A neurofisiologia ainda se encontra embrionária para acompreensão das mudanças bioquímicas que ocorrem durante osono, sobretudo na conexão porventura existente entre a químicacerebral e os sonhos. Sem dúvida que substâncias químicasalteram os padrões de sono, conseqüentemente modificam ossonhos, porém não se sabe o que elas alteram e de que forma ofazem. O desenvolvimento da compreensão fisiológica dos sonhosindiscutivelmente se inicia com a invenção do eletroencefalogramapor Hans Berger, que demonstrou que as ondas cerebrais nãocessam durante o sono. Porém, a primeira descoberta importanteno campo dos sonhos se deu com o estudante americano EugeneAserinsky, em 1953, que, orientado por seu professor defisiologia Nathaniel Kleitman, percebeu, ao observar criançasdormindo, que seus olhos mexiam intensamente durante o sono,mesmo depois de cessada a atividade corporal. Esse estágio dosono passou a chamar-se, por aquele motivo, REM (Rapid EyesMovement – ‘movimento rápido dos olhos’), cujas ondascerebrais se aproximam muito daquelas do estado de vigília. Oestágio REM é chamado de sono paradoxal ou dessincronizado.
    • 36 É principalmente no estágio REM que os sonhos ocorrem.Enquanto cerca de noventa e cinco por cento das pessoasacordadas durante esse estágio se lembram dos sonhos, apenasdez por cento se lembram dos sonhos quando acordadas emoutros estágios do sono (sono Não-REM). As pessoas privadasdo sono REM têm dificuldade de concentração e memória fraca eas pessoas privadas do sono NREM mostram-se cansadas elentas. Nathaniel Kleitman escreveu sobre o tema, tendo publicadosuas pesquisas pela Universidade de Chicago, com o títuloPadrões de Sonhos, que a seguir comento e, às vezes, transcrevosuas palavras para não lhes alterar o conteúdo, que, com certezatraz informações preciosas aos estudiosos do assunto. Ele inicia criticando as interpretações dos sonhos comovisões proféticas e como determinadores da personalidade,destituindo-lhes o valor científico. Porém ele admite a dificuldadedo pesquisador que queira investigar o processo do sonhorevelando o motivo: − “Somente a pessoa que dormia é quepode, ao despertar, testemunhar o fato de ter sonhado. Se elaafirma que não sonhou, pode ser que tenha esquecido seusonho.” Admitindo essa dificuldade ele prossegue em suainvestigação e chega a descobrir um modo objetivo eaparentemente confiável de determinar se uma pessoa adormecidaestá sonhando – no sentido, é claro, de seu “relato de tersonhado” quando ela acorda ou é acordada. O indicador objetivodo sonho, caracterizado por um padrão diferenciado de ondascerebrais, tornou possível marcar o início e a duração deepisódios de sonho durante a noite, sem perturbar a pessoaadormecida. Ele também pode despertá-la e interrogá-la após constataro início de um sonho. Ele determinou que há uma periodicidade
    • 37no sonho e observou as conseqüências dos esforços paraperturbar essa periodicidade. Os resultados indicam que o sonho,como um processo fisiológico fundamental, está relacionado aoutros ritmos do corpo. Seu trabalho procura responder a questões como: Será quetodos sonham? Quanto se sonha no decorrer de uma noite desono? Está o “enredo” de um sonho realmente condensado nummomento de sonho? Os estímulos externos e internos – luz,barulho, fome ou sede – afetam o conteúdo dos sonhos? Foi com o trabalho de Eugene Aserinsky que se descobriuque os movimentos oculares forneciam u meio mais confiável mpara distinguir entre as fases ativas e as tranqüilas do sono. Antesisso era feito através dos grandes movimentos corporais. Suasobservações sugeriram que os movimentos oculares poderiam serusados para seguir ciclos semelhantes na profundidade do sonoem adultos. O incômodo para a pessoa adormecida eraminimizado controlando-se remotamente os movimentos ocularescom um eletroencefalógrafo, um mecanismo que registra os sinaiselétricos fracos continuamente gerados pelo cérebro. Taismovimentos oculares começavam geralmente após uma hora emeia de sono e se repetiam em períodos de tempo irregularesdurante todo o sono. Embora a pessoa adormecida estivesse imóvel, as taxas depulsação e respiração aumentavam durante o sono REM,sugerindo uma atividade cerebral emocionalmente15 carregada.Ele testou essa hipótese acordando a pessoa e questionando-asobre o que ocorria naquele momento do despertar. Muito embora as pesquisas de Kleitman não pudessemalcançar o conteúdo dos sonhos, elas chegaram a determinar osmomentos de seu início e fim. Mesmo sabendo que não poderia 15 Destaque do original.
    • 38entrar no mérito do “enredo” (como ele chama o conteúdo, comaspas) ele anotou: − “O conteúdo alucinatório dos sonhosparecia, desse ponto de vista, ser apenas expressão de umtipo grosseiro de atividade executada no córtex cerebraldurante uma certa fase do sono.” Vale salientar que afirmar seralucinatório o conteúdo do sonho, vem mais do preconceito deledo que de suas pesquisas. Analisando, também distante dos resultados de suaspesquisas, a ausência de censura do sujeito do sonho (que supõeser o próprio sonhador e não o ego onírico), ele afirma o seguinte: “É instrutivo observar o contraste com o tipo deatividade cerebral que caracteriza o estado de vigília emadultos sadios e crianças mais velhas. Respondendo aosimpulsos que chegam dos vários órgãos receptores do sistemasensorial, o córtex primeiro os submete à análise. Relaciona omomento presente da experiência com sua memória dopassado e projeta passado e presente no futuro, pesando asconseqüências da ação não realizada. Chega-se a umadecisão, e o córtex gera uma resposta integrada. Esta semanifesta na ação dos órgãos efetores (principalmentemúsculos) ou na inibição deliberada de ação. (Boa parte docomportamento civilizado consiste em não fazer o quenaturalmente se faria). No processo de sonho, o mesmo tipode atividade cortical se processa num nível inferior dedesempenho. A análise dos fenômenos é falha; o sonhadorreconhece um amigo falecido, mas aceita sua presença semsurpresa. A memória é cheia de fendas e traz confusamente opassado à superfície. Conseqüentemente, a integração daresposta cortical é incompleta e o sonhador é muitas vezeslevado a cometer imaginariamente atos anti-sociais.Felizmente, os impulsos do córtex adormecido morrem acaminho dos órgãos efetores e nada de mal acontece.”
    • 39 Em seu trabalho ele também verificou que alguns sujeitosrelataram que estavam sonhando durante períodos em que nãomostravam movimentos oculares rápidos. E, algumas vezes,durante o sonho, o coração e a taxa de respiração diminuíam, aoinvés de se acelerarem. Kleitman, citando William Dement, outro estudante de seulaboratório, afirma que o critério mais confiável para se registrar omomento do sonho é o padrão de ondas cerebrais. Ele descreve esse critério a partir dos registrosencefalográficos de uma pessoa em estado de vigília e tambémdormindo. Diz ele: “Uma pessoa que está acordada, mas em repouso, comos olhos fechados, mostra o chamado ritmo alfa – ondascerebrais com uma amplitude relativamente grande e umafreqüência de oito a treze ciclos por segundo. Quandoadormece, a amplitude das ondas diminui e o ritmo cai paraquatro a seis ciclos por segundo. Dement denominou essepadrão de eletroencefalograma Estágio 1. O sono maisprofundo se caracteriza pelo aparecimento de “fusos desono” – séries curtas de ondas que aumentam e diminuemprogressivamente na amplitude e têm uma freqüência de 14a 16 ciclos por segundo. Dement dividiu esse nível de sono emdois estágios (EEG Estágio 2 e EEG Estágio 3). O nível maisprofundo do sono caracteriza-se pelo aparecimentos de ondasgrandes e lentas (EEG Estágio 4). Durante uma típica noitede sono, a profundidade do sono flutua num ciclo que duraaproximadamente 90 minutos. O p adrão do EEG passa oestágio 1. Durante ciclos posteriores o sono não pode ser tãoprofundo; o padrão do EEG pode não ir além do estágiointermediário antes de retornar ao estágio 1.” Kleitman afirma que os movimentos oculares rápidospodem ser horizontais ou verticais e que parecem representar um
    • 40laborioso esquadrinhar da cena da ação do sono, isto é, aqualidade e direção dos movimentos oculares correspondem aoque o sonhador está olhando ou seguindo com seus olhos. Alémdisso, movimentos oculares rápidos parecem estar relacionadoscom o grau em que o sonhador participa dos acontecimentos dosonho. Um sonho “ativo”, no qual o sonhador está muitoenvolvido, é mais provavelmente acompanhado de movimentosoculares rápidos do que um sonho “passivo”. Isso nos l va a acreditar que o sonho, cujo conteúdo se etransforma em imagens impressionáveis no córtex, interfere noorganismo do indivíduo a ponto de lhe transmitir m ovimentos,mesmo que sejam apenas nos olhos, tal qual um filme que seassiste. Edward A. Wolpert, também da Universidade deChicago, registrou potenciais elétricos de ação também nosmúsculos dos membros de sonhadores, que, ao serem acordadosdurante o sono REM, relataram estarem fazendo movimentos comaqueles membros na mesma seqüência registrada nos eletrodos. Essa interferência não pode nos levar a afirmar que taissonhos não sejam meramente simbólicos, ou que retratem osonhador, num estado psicofísico (“viagem astral”) realizandoalguma atividade física no momento do sono. A atividaderegistrada no eletroencefalograma quer apenas dizer que o sonhointerfere no organismo numa medida capaz de ser captadavisualmente, pelos movimentos oculares, e eletricamente, peloaparelho. Nathaniel vai mais longe justificando o sonambulismo apartir do defluxo motor registrado, em grau extremo. Essa constatação científica derrubou por terra a hipóteseque afirmava serem os conteúdos oníricos oriundos dosmovimentos corporais durante o sono, isto é, o sonhar com ummovimento era fruto do próprio movimento corporal durante osono. Por exemplo: um sonho onde o sonhador está cego seriamero reflexo de sua dificuldade em abrir os olhos ao acordar.
    • 41 Após suas pesquisas ele afirmou seguramente que t dos osonhavam e o faziam repetidamente toda noite, de acordo com osrelatos obtidos daqueles que foram acordados nos momentosadequados. Ele diz que há ‘recordadores’ e ‘não-recordadores’. Para testar a idéia de que os estímulos externos podemafetar os sonhos de alguém, Dement e Wolpert expuseram algunssujeitos aos estímulos de som, luz e gotas d’água durante operíodo de sonho. O resultado foi o seguinte: “Elementos sugestivos de tais estímulos apareceramapenas numa minoria dos sonhos recontados depois. Oestímulo mais sugestivo foram as gotas d’água caindo napele. Quedas d’água apareceram em seis dos quinzes sonhosrelatados depois de o sujeito ter sido despertado por esseestímulo, e a água apareceu em l4 das 33 narrativas quandoas pessoas estiveram sujeitas ao estímulo, mas não haviamsido despertadas por ele. Uma campainha elétrica usadarotineiramente para despertar os sujeitos apareceu em vintedos 204 sonhos, mas freqüentemente como uma campainhade telefone ou de porta. Afirmou-se que estímulos internos,das vísceras, provocariam ou ao menos i fluenciariam os nsonhos. Afirmou-se que os sonhos sobre comer sãoestimulados por contrações de um estômago vazio. Dement eWolpert tinham três sujeitos que passaram sem líquidosdurante vinte e quatro horas. Em cinco ocasiões, apenascinco das quinze narrativas de sonho continham elementosque poderiam relacionar-se com a sede. Em nenhum doscasos a narrativa envolveu uma consciência da sede oudescrições de beber, embora os sujeitos estivessem muitosedentos quando foram para cama.”16 16 Vale lembrar que, para muitos estudiosos dos sonhos, essa possibilidade justificava a origem dos sonhos bem como explicava seus conteúdos. Ouspensky (1914), pensador russo, formulando crítica à psicanálise, faz uma análise a partir
    • 42 Nathaniel também verificou o tempo versus quantidade desonho recordada, chegando à conclusão de que quanto maistempo se durma depois do sonho menos o sonhador se recordadele. De suas pesquisas ele concluiu que os sonhos ocorrem emintervalos de noventa minutos e com duração média de trinta ecinco minutos cada, tendo-se em média de três a cinco períodosde sonho, num total de uma ou duas horas de sonho por noite.Foram realizadas 2343 sessões de sono, com 33 sujeitos. Dement concluiu que, provisoriamente, suas descobertassão indicativas de que “uma certa quantidade de sonho é umanecessidade”. De uma forma bastante pragmática, Kleitman conclui emseu relatório que os sonhos podem não ter qualquer funçãosignificativa. Vale lembrar que a atividade cortical nos primeiros estágiosdo sono é diferente daquela registrada ao acordar-se. Os eventose pensamentos do dia certamente estarão presentes nos sonhosocorridos no início do sono. Os sonhos que se dão no final dosono certamente são mais profundos, isto é, alcançam conteúdosmais inconscientes, principalmente pela pouca influência cortical.David Feinstein17 coloca que “Há vigorosos paralelos entreessa estrutura e as descobertas feitas nas pesquisas deRosalind Cartwright, que identificou um padrão noturno, emque os sonhos iniciais tendiam a rever preocupações nãoresolvidas do dia anterior. Em seguida vêm os sonhos queconsideram cenas do passado em que problemas análogos de seus sonhos, onde justifica-os pelas suas crenças da infância e nas dificuldades inconciliáveis entre suas pernas e o cobertor. Para ele, os sonhos estavam relacionados não apenas com a sensação de um estado, mas simplesmente com a sensação e postura do corpo no momento dado. 17 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 36.
    • 43foram enfrentados anteriormente; depois, vêm os sonhosorientados pelo desejo, em que há a sensação de que oconflito foi resolvido. Os sonhos finais tentam integrar osvários elementos da seqüência de sonhos numa resoluçãoviável do conflito.” Comentários As experiências de Kleitman não devem ser tomadas comoa última palavra sobre os sonhos. Sem sombra de dúvidasrepresentam um avanço sobre o estudo do tema, mas requeremuma revisão tendo em vista o longo tempo que separa a época(1953) da sofisticação atual dos aparelhos que a medicina seutiliza para a investigação cerebral. Estabelecer o momento em que se pode detectar, por meiode uma alteração de freqüência cerebral, que se esteve sonhando,não quer dizer que se desvendou o significado dos sonhos ou desua teleologia. Mesmo considerando que Kleitman se utilizou de todo origor científico exigido, suas conclusões não devem sergeneralizadas. Elas não trouxeram uma compreensão dosignificado dos conteúdos dos sonhos. Conclusões maissignificativas teremos quando for possível alcançar uma amostramais representativa, num tempo maior de pesquisa. Observamos, em certos aspectos, que seu trabalho teveuma preocupação em investigar os pressupostos psicanalíticos.Esse fator pode, de alguma forma, ter provocado um certo viésem seu trabalho. Estudos posteriores, sobretudo os de Krippner(1994), vieram trazer maiores resultados.
    • 44 O que é o sonho (resumo histórico) Certamente que os sonhos são mais complexos que osconceitos que temos deles. É uma atividade que se processa deforma espontânea em todos os seres humanos, capaz de serregistrada cientificamente. As primeiras notícias históricas sobre sonhos, citadas nolivro No Mundo dos Sonhos, da Time-Life Books, editado porJanet Cave, afirmam existir referência no ano 2070 a. C., de umcerto Rei Mericate, do Egito, que dizia ser o sonho uma intuiçãode um futuro possível. Posteriormente a ele, citados pela Bíblia,há os sonhos de José, bem como aqueles por ele interpretados,cujo conceito se prende a uma certa premonição a partir dasimagens simbólicas trazidas pelo sonhador. Não é difícil encontrar na história da humanidade poetas,pensadores, filósofos, homens de ciência, religiosos, visionários,escritores, etc., que tenham escrito algo sobre sonhos, cujanatureza mágica a todos eles fascinou. Nas civilizações maisantigas, na China, na Grécia, na Índia, e mesmo na Europa, ossonhos exerceram, e exercem, uma atração irresistível pela suaproximidade com o maravilhoso, o espiritual, o divino.
    • 45 Pode-se, sem sombra de dúvida, afirmar que tal encantopelos sonhos se deve à sua identidade com a essência mítica etranscendente do ser humano. Os antigos viam os sonhos sob pontos de vista diferentes.Alguns eram céticos a ponto de os tratarem como fantasias.Outros, sob a ótica religiosa, acreditavam tratar-se de sugestõesdemoníacas. Outros acreditavam que eles vinham dos deuses quequeriam avisar sobre os destinos humanos, utilizando-os naspráticas adivinhatórias. Outros acreditavam tratar-se de sintomasdas doenças, sendo eles avisos sobre as partes doentias, ou quese tratavam de delírios semelhantes aos dos loucos e eram sinaisde quem estava perturbado mentalmente. Alguns, como ospitagóricos, aceitavam a tese de que os sonhos eram estados daalma que se emancipava entrando em contato com outros seresno mundo não corpóreo. Porém, o mais famoso trabalho sobre sonho vem deArtemidoro de Éfeso, datado de cerca de 150 d.C., cujo títuloera Oneirocriticon (A Interpretação dos Sonhos), onde elecolocava a realidade do sonho como inerente ao sonhador. Eledizia, nos cinco volumes de sua obra, que continha a análise decerca de 3000 sonhos, que podem ser de cinco tipos: simbólicos,proféticos, fantasiosos, pesadelos e visões diurnas. Os antigos acreditavam que os sonhos estavamrelacionados com o mundo dos seres supra-humanos, com osdeuses e com os demônios. Na Grécia antiga existiam templosdedicados à cura advinda da interpretação dos sonhos do doente.Hipócrates (460 – 351 a.C.) já relacionava os sonhos com asdoenças. Aristóteles, filósofo estagirita grego (383 – 322 a.C.),acreditava que os sonhos eram demoníacos, mas que tambémrevelavam aspectos mórbidos do corpo além de seremfragmentos de lembranças dos fatos do dia.
    • 46 Porém a efetiva entrada do estudo sobre os sonhos nomundo científico acadêmico se deu com o também famosotrabalho sobre o tema: A Interpretação dos Sonhos, de SigmundFreud (1856-1939), datado de 1900. Sem dúvida nenhuma, suateoria sobre os sonhos como realização (disfarçada) de desejosinconscientes abriu um imenso leque de estudos e proposiçõespara os que se dedicavam ao tema. Talvez essa importância sedeva à própria teoria freudiana do inconsciente. A percepção daexistência do inconsciente como instância psíquica e comogerador dos sonhos foi fundamental para o desenvolvimento desua compreensão. É do trabalho de Freud que extraímos amaioria dos nomes e resumos das abordagens dos seguintesautores que se dedicaram ao estudo dos sonhos: Kant (1764) – Afirmava que “o louco é um sonhadoracordado.”; Cabanis (1802) e Lelut (1852) – Estabeleciam um certoparentesco entre os sonhos e as desordens mentais; Burdach (1838) – Criticava a teoria de que o sonho era umestado de vigília parcial. Ele dizia que o sonho é uma atividadenatural da mente e que era a vitalidade livremente operante doscentros sensoriais; Krauss (1861) – Ele dizia que “a loucura é um sonho quese teve enquanto os sentidos estão despertos.”; Griesinges (1861) – Ele afirmava que “As idéias nos sonhose nas psicoses apresentam em comum a característica de seremrealizações de desejos.”; Scherner (1861) – Para ele, o material das imaginaçõesoníricas, além de serem estímulos somáticos orgânicos, falam porsímbolos e não por palavras. Dizia que interpretar um sonho éatribuir-lhe um significado; Robert (1866) – Descreve os sonhos como um processode excreção somático que conscientizamos quando reagimos a ele
    • 47e que servem como uma válvula de escape ao cérebrosobrecarregado. Eles curam e aliviam; Volket (1875) – Para ele os sonhos representavam partesdo organismo de forma simbólica e apresentavam mais desprazere dor do que prazer; Maury (1878) – O sonho era um estado de vigíliaincompleto e parcial. Ele tinha sonhos hipermnésicos(conhecimento superior inexistente no estado de vigília); Binz (1878) – Os sonhos eram impressões materiais dopassado mais recente, concatenados de forma tumultuada eirregular. Os sonhos deveriam ser categorizados como processossomáticos e que eram, em todos os casos, inúteis e, em muitoscasos, positivamente patológicos; Radestock (1879) – Fazia analogia entre os sonhos e aloucura, seguindo uma tendência comum na Medicina de suaépoca e complementava dizendo que os sonhos eramcompensatórios. Suas idéias influenciaram Freud; Delboeuf (1885) – Para ele, o sonho era uma continuidadeda atividade psíquica; Haffner (1887) – Ele assinalou que ‘Em primeiro lugar, ossonhos dão prosseguimento à vida de vigília. Nossos sonhosregularmente se associam às idéias que tenham estado em nossaconsciência pouco antes. A observação acurada quase sempreencontra um fio que liga um sonho às experiências do diaanterior.’; Eduard von Hartmann (1890) – Para ele, em quem Jung sebaseou no estudo do inconsciente, os sonhos eram contrariedadesda vida de vigília transportadas para o estado de sono; Yves Delage (1891) – Os conteúdos dos sonhos, segundoele, eram fragmentos e resíduos dos dias precedentes e de épocasanteriores. Resultavam da reprodução não reconhecida dematerial já experimentado. A energia psíquica armazenada
    • 48durante o dia, mediante inibição e supressão, tornava-se a forçamotriz dos sonhos à noite. O material psíquico que tinha sidosuprimido vinha à luz nos sonhos; Herbart (1892) – Ele considerava que o sonho era umdespertar gradual, parcial e, ao mesmo tempo, altamente anormal; Florence Hallam e Sarah Weed (1896) – Realizaramestatísticas com seus próprios sonhos, chegando à conclusão deque eles eram mais desprazerosos que prazerosos; Freud deu continuidade aos estudos sobre sonhos trazendoefetivamente algo novo, sobretudo à compreensão da naturezaessencial dos sonhos. Suas teorias ainda hoje são objeto deestudos e utilizadas na prática clínica. Muitos estudos que foramfeitos posteriormente a ele tentaram desfazer suas teorias, comrelativo sucesso, porém não foram s uficientes para impedir suautilização, nem apagar o brilho de seu pioneirismo na ciênciapsíquica. Sobre os estudos de Jung a respeito dos sonhos em suaatividade clínica, poderemos melhor avaliar seu pensamento numcapítulo à parte. Mas podemos afirmar que sua contribuição foifundamental para o desenvolvimento da própria Psicologia e doentendimento do significado dos sonhos, sobretudo do simbolismoque lhe é característico. Os estudos com rigor científico se tornaram mais freqüentesa partir dos trabalhos de Aserinsky e Kleitman, de 1953, queconseguiram estabelecer parâmetros de detecção do momento dosonho. Esse achado tornou o sonho um objeto científicoimportante para os estudos sobre o sono. Podemos distinguir também determinadas idéias e seusautores em épocas distintas: Hipócrates, considerando que ossonhos refletem problemas patológicos do organismo; oEspiritismo, afirmando que os sonhos são produtos das atividadesdo espírito durante o sono; Freud, assinalando que os sonhos são
    • 49realizações de desejos reprimidos; Jung, estabelecendo que ossonhos são manifestações simbólicas do inconsciente; Ouspensky,colocando que os sonhos são produtos dos movimentoscorporais; e, por fim, Kleitman, mostrando que os sonhos sãoprodutos de atividades cerebrais. Nem sempre as afirmações decada um deles se baseou nas hipóteses anteriores, mas, não sepode negar que, no seu conjunto, elas formam a base da históriados estudos sobre os sonhos. Isoladas, essas idéias se mostramincompletas para a percepção global dos sonhos e de seu realsignificado. Ainda estamos longe de alcançar uma precisão maior sobreo sentido dos sonhos e seus significados, pois, em face de suanatureza, eles ainda são pouco estudados e, quando isso ocorre,muitos autores sustentam-se em teorias cuja comprovaçãocientífica se torna difícil. Em ciência é fundamental teorizar, porémpreconceber dogmaticamente torna-se um crime contra o bomsenso coletivo.
    • 50 Os sonhos em Jung Talvez os sonhos sejam um dos temas mais abundante naPsicologia de Jung. Se não o for, creio que seja o mais recorrente,dada a sua importância para a compreensão dos aspectosinconscientes da psiquê. Ele soube notar a importânciafundamental desse fenômeno para a compreensão da n aturezahumana e de seu desenvolvimento. Seus estudos mais importantesincluem essa via de acesso aos conteúdos inconscientes damesma forma que um astrônomo se utiliza do telescópio para vero universo. Ele o explorou de várias formas sobre pontos de vistanunca antes experimentados. Dos teóricos que se dedicaram aoestudo dos sonhos, ele foi o que mais se utilizou de estudosexperimentais para o desenvolvimento de suas afirmações. Foi fundamental para Jung o desenvolvimento do m étododas associações de palavras na constituição de sua teoriapsicológica, em particular no que se refere à descoberta doscomplexos e à análise dos sonhos. Em 1902, antes de avistar-se com Freud, Jung, então umjovem médico de 27 anos, tece algumas considerações sobre ossonhos em seu trabalho Estudos Psiquiátricos18 , onde considera 18 Obras Completas, Vol. I, par. 97.
    • 51que os sonhos apresentam à consciência um simbolismo daquiloque nunca é admitido. Neste particular, que se refere à formacomo o sonho se apresenta, ele parece querer mostrar, com outralinguagem, o que Freud chamava de conteúdo latente dos sonhos.Ao analisar os fenômenos denominados de alucinações, Junglevantava uma questão a respeito dos estudos de Freud sobresonhos, em seu Die Traumdeutung, cuja leitura lhe fora recente.Ele, embora admitisse o simbolismo expresso pelo sonho, nãoidentificara, no caso em estudo, a repressão afirmada por Freud.Reconhecia uma certa censura no sonho, como Freud já haviaassinalado antes. Creio que, talvez, ele já percebesse osimbolismo de que os sonhos se revestem. Jung considerava que “quanto menos a consciênciaacordada interferir com reflexões e cálculos, mais segura econvincente será a objetivação do sonho.”19 Atribuindo aoinconsciente o papel de gerador dos sonhos, ele deixa em abertoa possibilidade da interferência da atividade consciente (o desejo,por exemplo). Ele não considerava que os sonhos não pudessem ser frutoda realização de desejos sexuais, como consta no parágrafo 120do Volume I de sua obra. Porém, ele admitia a existência deoutros tipos de sonhos com outras interferências. Mais tarde, na sua obra Estudos Experimentais, escritaentre 1904 e 1907, ele cita20 outro tipo de sonho, o sonambúlico,que surge como sintoma da histeria. Nesta mesma obra ele vaiestabelecer21 o paradigma de que há sonhos que são expressõessimbólicas do complexo, cujo conceito ainda não estava bemdefinido claramente. Jung fazia estudos sobre associação, sonho esintoma histérico e c olocava o sonho como sendo uma porta à 19 Idem, par. 117. 20 Obras Completas, Vol. II, par 157. 21 Idem, par 823.
    • 52compreensão dos complexos. Mais tarde ele vai assinalar que oinconsciente é de tal forma rico que não se pode ter a pretensãode enxergá-lo a partir de uma única estrutura (o sonho). Noparágrafo 844 ele diz: – “Vimos principalmente que os sonhosconfirmam o complexo revelado nos testes de associação. Asassociações indicam um complexo sexual intenso e os sonhosse referem exclusivamente, por assim dizer, ao tema doacasalamento. Ficamos sabendo que os complexos queconstelam as associações no estado de vigília tambémconstelam os sonhos. Encontramos também na análise dossonhos os mesmos bloqueios que se manifestam noexperimento das associações. A análise das imagens oníricasrevelou o complexo sexual, sua transposição para o autor, adesilusão e volta da paciente para a mãe e o reatamento deuma relação infantil e misteriosa com o irmão.” Seus estudoso levaram ao inevitável paralelismo entre os sonhos e oscomplexos. Como Freud, Jung também considerava os sonhos comoresíduos do dia. Ele empregava, na análise, o métodopsicanalítico freudiano. Ele afirmava22 que os sonhos, ao invés deserem conseqüência de desejos reprimidos, eram representaçãode complexos reprimidos. Ainda nesta época, por volta de 1906, Jung publica seutrabalho intitulado Psicogênese das Doenças Mentais, onde elecontinua a colocar a análise dos complexos juntamente com ossonhos. No capítulo III – A influência do complexo de tonalidadeafetiva sobre a valência da associação, daquela obra, noparágrafo 122, ele afirma: – “Os sonhos também se estruturamsegundo os modos de expressão simbólica do complexoreprimido, (...). Na verdade, encontramos os mais belos 22 Obras Completas Vol. III, par. 308.
    • 53exemplos de expressão por semelhança de imagens nossonhos. Freud reconhecidamente abriu um novo horizontepara a análise dos sonhos. Espero que a psicologia logovenha a perceber esta verdade, que lhe traria enormesbenefícios. Nessa perspectiva, a Interpretação dos Sonhos deFreud é fundamental no que concerne ao conceito deexpressão por semelhança de imagens, tão i portante na mpsicologia da dementia praecox.” Jung considerava que a maiorparte dos complexos fosse de origem erótica-sexual, porémafirmava que existiam outros tipos. Seguindo a cronologia, num texto escrito em 1909, emfrancês, ainda contaminado pelas idéias de Freud, embora jáapresentando aspectos novos e preparando sua teoria sobre ossonhos, Jung coloca que as sensações orgânicas não são a causados sonhos. Os sonhos possuem um significado. Eles desfiguram,mas apontam para o complexo reprimido. Essa desfiguração éfeita pela censura. Perguntar ao sonhador o significado direto dosonho é perder tempo. Deve-se ir às associações. Deve-se fazerperguntas ao sonhador. Quem? O que? Etc. No volume V das Obras Completas, Símbolos daTransformação, escrito entre 1911 e 1912, que marca adissidência entre ele e Freud, encontramos elementos através dosquais se pode dizer efetivamente que ele apresenta uma novateoria dos sonhos. Desenvolve o conceito de que os primeirossonhos em análise tratam da relação transferencial e servem deexcelente instrumento ao analista no seu trabalho terapêutico.Procura demonstrar que as bases inconscientes dos sonhos nãosão somente reminiscências infantis, mas, na realidade, tratam-sede formas de pensamento primitivas ou arcaicas, que naturalmenteaparecem mais claramente na infância do que depois. Coloca aquestão da compensação dos sonhos em relação ao estadoconsciente, isto é, completam o que nele falta. Apresenta a idéia
    • 54dos sonhos prospectivos afirmando que “os sonhos repetem arealidade com exatidão excessiva ou insistem com excessivanitidez numa realidade antecipada”. Em 1916, Jung volta a abordar a importância dos sonhospara o conhecimento das camadas do inconsciente, pessoal ecoletivo, colocando os arquétipos como estruturas pertencentes aestes últimos, e que surgem nos sonhos, a exemplo da sombra.Critica o procedimento redutivo, exclusivamente causal, na análisedos sonhos, face aos símbolos não mais serem passíveis deredução às reminiscências ou anseios pessoais, por trazeremimagens do inconsciente c oletivo. A partir de muitos fracassos,segundo Jung, ele abandonou a orientação exclusivamentepersonalística da psicologia terapêutica. Ele afirmava que todaanálise deve ser seguida de uma síntese, e essa síntese deve serfeita com o material arquetípico ampliado. Reafirma a naturezacompensatória dos sonhos a fim de conservar o equilíbrio daalma, porém, esta não é a única finalidade da imagem do sonho.Ele (o sonho) também retifica a concepção do paciente. Suatécnica se reforça com a busca dos elementos arquetípicospresentes nos sonhos e sua necessidade de compreensão porparte do paciente. Mais tarde, em 1921, no volume VI, Tipos Psicológicos,ele tratou do tema, reforçando a idéia de que os sonhos possuema facilidade de fazer reaparecer a realidade primitiva da imagempsíquica, encontrando neles os temas da mitologia grega presentesem negros de raça pura, além de uma faculdade de antecipar ofuturo de forma construtiva visando o desenvolvimentopsicológico. Assinala novamente a função compensadorainconsciente. Neste volume ele também desenvolve os conceitossobre as interpretações no plano do objeto e no plano do sujeito.Sobre esse assunto ele afirmava: “Quando falo de interpretarum sonho ou fantasia no plano do objeto, quero dizer que as
    • 55pessoas ou situações que neles aparecem são objetivamentereais, em oposição ao plano do sujeito em que as pessoas ousituações nos sonhos se referem exclusivamente a grandezassubjetivas. A concepção freudiana dos sonhos estáexclusivamente no plano do objeto, uma vez que os desejosnos sonhos se referem a objetos reais ou a processos sexuaisque incidem na esfera fisiológica, portanto extrapsicológica.” Em 1928, ao escrever os “Aspectos Gerais da Psicologiado Sonho”, ele desenvolve outros conceitos que reforçam suasconcepções, cada vez mais distanciadas das idéias freudianas.Para Jung, nessa época, o sonho é uma criação psíquica quecontrasta com os conteúdos habituais da consciência. Não é oresultado de uma continuidade da experiência, mas o resíduo deuma atividade que se exerce durante o sono. Porém, eles nãoestão totalmente à margem da continuidade da consciência, poisse podem encontrar detalhes que provêm do dia anterior ou dedias anteriores. A dificuldade de se recordar os sonhos vem dacombinação das representações numa seqüência estranha aomodo habitual de se pensar. Chamam-se os sonhos de absurdospela própria projeção da incapacidade de entendê-los. Asignificação psicológica mais profunda dos sonhos é semelhanteao sentido moral oculto das fábulas. Para se explicarpsicologicamente os sonhos deve-se investigar as experiênciasprecedentes de que se compõem. Ele considerava que, para se entender o sentido do sonhodeve-se perguntar ao paciente que elementos estão associados àimagem onírica. Lugares conhecidos, familiares, parentes, fatospassados, etc., porém a redução é insuficiente. Deve-sequestionar o “porquê” daquelas associações e não outras. Umacausa só é insuficiente. “Só a influência de várias causas écapaz de dar uma determinação verossímil das imagens dosonho.” Pode-se evocar toda a história do indivíduo como
    • 56material associativo ao sonho, porém deve-se ir até onde possaparecer necessário. Deve ser feita uma seleção do material esubmetê-lo ao método comparativo. Os fenômenos psicológicospodem ser abordados de duas formas: causalidade e finalidade.Do ponto de vista causal, o material recolhido leva às tendências.Saindo da causalidade e indo para finalidade, Jung pergunta paraque serve o sonho. Para que e não por que ele ocorre. Ele nãodeixa de concordar com as interpretações causais, porém vai maisalém. Afirma que a compreensão não é um processo intelectual. Aeficácia dos símbolos religiosos é um exemplo disso. O sonho nãoé simplesmente uma instância moral. O inconsciente é aquilo quenão se conhece num dado momento. O sonho acrescenta àsituação psicológica aspectos essenciais desconhecidos. O sonhoacrescenta ao sonhador aspectos que foram ignorados por ele. Critica novamente a concepção freudiana pela limitação àanálise causal, que parte do desejo recalcado e que tudo poderiadesembocar no aspecto genital erótico. Para ele a linguagem dossonhos não deve ser interpretada em sentido concreto. Alinguagem sexual é de natureza arcaica, cheia de analogias, semcoincidir todas as vezes com o conteúdo sexual verdadeiro. Eleafirma a riqueza dos símbolos e critica a uniformidade designificação. Para ele o ponto de vista causal tende para essauniformidade, ao contrário do final, baseado na concepção de queo símbolo não dissimula, ensina. O ponto de vista final é capaz deconcorrer para a educação prática da personalidade, pois mostrao que ela está negligenciando. Muito embora assinale a limitação da análise causal eleconsidera que a psiquê não pode ser entendida apenas pelomodo causal. Ela também exige uma abordagem finalista. O sonhosó pode ser melhor compreendido pela conjugação dos doispontos de vista. Quanto aos motivos dos sonhos, eles podem ser
    • 57encontrados nos mitos e contos de fadas. A psicologia onírica éuma psicologia comparada. Muito embora se deva munir doselementos mitológicos, ele considera que os sonhos comunicampensamentos, julgamentos, concepções, diretrizes, tendências,etc., inconscientes recalcados, reunidos associativamente face ànecessidade do estado momentâneo da consciência, sendofundamental conhecer-se esse estado para se compreender osonho. Como ele considerava que todos os sonhos têm um carátercompensador em relação aos conteúdos conscientes, elescontribuem para a auto-regulação da psiquê. Nesse processo decompensação, ao contrário de Freud, ele dizia que o sonho éjustamente aquilo que mais perturba o sono. Ele afirma que aconcepção de Freud é estreita e reafirma a função compensadorados sonhos em dado momento da consciência. As atitudesunilaterais da consciência sofrem a reação do inconsciente com ointuito de manter o equilíbrio produzindo sonhos em contrastecom aquelas atitudes ou idéias fixas. O caráter compensador dossonhos é individual e se manifesta de acordo com a personalidadede cada um. A função compensadora implica que o inconscienteacrescenta à situação consciente todos os elementos que nãoalcançam o limiar da consciência por causa do recalque ousimplesmente por serem débeis demais para chegar à consciência. Ele aborda a questão da finalidade como uma funçãoprospectiva e que ela é uma antecipação, surgida no inconsciente,de futuras atividades conscientes, um exercício preparatório ouum esboço preliminar, um plano traçado antecipadamente. Ela ésuperior à combinação consciente e precoce das possibilidades,face aos conteúdos subliminares do inconsciente e atua quando oindivíduo se encontra inadaptado ou fora da norma. Porém, alertaque a função prospectiva dos sonhos pode levar a se exagerar aimportância do inconsciente. A importância do inconsciente é
    • 58quase igual à da consciência. Não se deve desprezar a atitudeconsciente e guiar-se pelos sonhos. Quando o indivíduo estáaquém do que pensa que é, a função prospectiva atuanegativamente, adquirindo um caráter de uma função redutora doinconsciente, levando-o a perceber-se através de imagensinferiores ao seu papel consciente. Ampliando os tipos de sonhos e sua função para oindivíduo, cita um outro comum em situações t aumáticas. Ele rdizia que os sonhos redutores, prospectivos, compensadores, nãoesgotam todas as possibilidades de interpretação, pois há sonhosreativos que derivam de situações traumáticas graves. Essessonhos reproduzem uma situação traumática vivenciada até queseu conteúdo seja destituído da intensa carga afetiva associada aotrauma e possa ser reintegrado na hierarquia psíquica. Ele éreativo quando a interpretação analítica não interrompe suaprodução dramática. Fala da influência do organismo do sonhador na produçãodos sonhos, afirmando que os estímulos somáticos sóexcepcionalmente têm sua significação determinante nos sonhos.Coloca também que os fenômenos telepáticos também exerceminfluência sobre os sonhos. Eles são os que antecipam no tempo eespaço um acontecimento, por exemplo, o falecimento de alguém;muito embora considere que não haja leis sobrenaturais, sabe-seque há fatos cuja explicação transcende o saber acadêmico. Sobre o significado intrínseco das imagens oníricas eleanalisa primeiro a questão das projeções, considerando anecessidade de se estabelecer diferença entre o objeto e suaimagem. Para ele, os conteúdos do nosso inconsciente são todosprojetados em nosso meio ambiente. Deve-se perceber aimportância das projeções e o valor simbólico do objeto. Ainterpretação objetiva decorre, às vezes, da incapacidade dedistinguir-se entre o objeto e a idéia que se tem dele. Há apenas
    • 59uma relação estética entre a imagem e o objeto. Assim, como nãotemos uma idéia precisa de alguém, a imagem onírica expressa asubjetividade. As imagens oníricas são partes constitutivas denossa mente. São fatores subjetivos que se agrupam numaimagem, não por motivos externos, mas por motivos internosdesconhecidos. A interpretação ao nível do sujeito concebe todasas figuras do sonho como traços personificados da figura dosonhador. Ele se questiona sobre o que é mais importante: o níveldo objeto ou o nível do sujeito? Os laços afetivos com apersonagem do sonho pode levar a um dos lados. A substituiçãodas figuras é um trabalho dos sonhos motivado pelo recalque. Énatural que ocorram substituições das figuras nos sonhos já que orecalque mantém afastado da consciência aqueles conteúdos queainda não são passíveis de integração. Desse modo, o sonhoapresenta tais conteúdos sob a forma de imagens (símbolos) quepenetram na consciência pela necessidade de serem reconhecidose trabalhados. Tal substituição pode refletir o pouco valor doafeto com a pessoa. A interpretação ao nível do sujeito traz aosonhador uma ajuda a fim de que corrija suas atitudesinadequadas. Além disso, a relação vital entre o sonhador e apersonagem do sonho auxilia a decidir qual será o nível deinterpretação a ser empregado. A interpretação no nível dosujeito perturba a concepção ingênua da identidade dosconteúdos da consciência com os objetos. Toda religião antiga sefundamenta nessa ligação mística com o objeto, onde asprojeções inconscientes são colocadas. Em 1947 é publicado o texto escrito em 1931, oriundo deum discurso, intitulado “A aplicação prática da análise dossonhos”, onde Jung estabelece novas considerações s obre ossonhos e sua prática psicoterapêutica. Baseando-se no conceito de inconsciente, formulado porC. G. Carus, no “campo incomensurável de idéias” de Kant e na
    • 60formulação de um inconsciente anímico de Leibnitz, ele afirma queo problema dos sonhos não subsiste sem a hipótese doinconsciente, pois sem ele, reduzem-se às sobras do dia. Para eleo objetivo da análise dos sonhos é a descoberta e aconscientização de conteúdos até então inconscientes, sendo elessua expressão direta e capazes de apresentar sua etiologia. Algunssonhos são mais complexos e neles não transparecemprognósticos nem etiologias, porém podem apresentar umaorientação à terapia. Os sonhos apresentam a situação inconsciente como ela é,independente do desejo do sonhador ou das interpretações doanalista. Quando a análise é causalista, o sonho pode ser privadodo sentido de indicar algo ao sonhador. Os sonhos iniciais daanálise são mais claros e de fácil entendimento. À medida que otratamento avança, eles perdem a clareza e, se essa condiçãopermanece, é sinal de que a análise não chegou à parte essencialda personalidade. Há sonhos iniciais que desvendam toda aprogramação futura do inconsciente e que, por motivosterapêuticos, não se deve revelar ao paciente. Muitas vezes,quando o analista considera que o sonho, ou mesmo seu paciente,é confuso, ele deveria admitir sua própria confusão, reconhecendosua projeção. Segundo Jung, o analista deve tentar convencer o paciente,e, em certos casos, mostrar-lhe sua resistência. Porém deve,acima de tudo, querer buscar o consenso, o que impedirá asugestão, na análise do sonho, evitando a compreensão unilateral,pois ela pode ser fruto da tentativa de encaixar sua opinião numaortodoxia. O paciente não deve ser instruído acerca de umaverdade, mas evoluir até ela. Nesse ponto, o analista deve evitar asugestão ao paciente, sempre convidando-o a dar sua opinião e atomar decisões quando colocado diante de problemas. Da mesmaforma o analista deve precaver-se para não se confundir com as
    • 61interpretações apressadas de seus pacientes. O sonho deve sersempre encarado como uma novidade, fazendo surgir no analistaa pergunta: – para que este sonho? Para Jung, a concepção de que o sonho é a satisfação deum desejo já estava superada, pois os sonhos podem ocorrerexatamente representando desejos realizados. Eles podemexprimir: verdades implacáveis, sentenças filosóficas, ilusões,desenfreadas fantasias, recordações, planos, antecipações, visõestelepáticas, experiências irracionais, etc. Eles não devem sersubmetidos a uma doutrina, pois determinam algo de essencial àconsciência, que apenas é concentração, limitação e exclusão. Aassimilação do sentido do sonho integra os conteúdosinconscientes à consciência. As regras operacionais para ainterpretação dos sonhos devem ser abertas a modificações. Elasdevem tentar compor o contexto do sonho para depois entendê-lo, a partir da focalização dos elos associativos. A associaçãolivre, por si só, não leva à compreensão do sonho, sendonecessária a montagem do contexto. Ela leva aos complexos, masnão ao sentido do sonho. A regra básica para a compreensão dos sonhos é a teoriada compensação para o pensamento psíquico geral. Deve-seperguntar: Que atitude consciente é compensada pelo sonho?Acolhendo o sonho como ele é, percebe-se que, além de ser uminstrumento de informação e controle, é o recurso mais eficaz naconstrução da personalidade. Quando o analista percebe deantemão algumas informações contidas nos sonhos, que, seconscientizadas, podem alterar negativamente valores de seupaciente e que podem prejudicar s relações com terceiros, uasdeve ele evitar colocá-las, salvo de forma a não lhe levar prejuízoalgum. É importante não destruir valores verdadeiros dapersonalidade de seu paciente. O analista deve não só levar emconsideração como respeitar as convicções religiosas, filosóficas e
    • 62morais de seu paciente. Jung também critica a posição freudiana a respeito dossímbolos sexuais oníricos, que tendia a interpretar como um pêniso que parecesse fálico. Para ele, os símbolos sexuais oníricospodem expressar algo que vai da atividade glandular fisiológicaaos mais sublimes e fulgurantes lampejos indefiníveis deespiritualidade, pois eles representavam o criativo, o determinado,o mana, etc. Posteriormente, em 1945, ele escreve um trabalho intitulado“Da Essência dos Sonhos”, onde procura aprofundar suasconcepções e estabelecer princípios gerais a eles aplicados. Ele considera que os sonhos dizem respeito à saúde e àdoença, e que, no futuro, serão importantes para a identificaçãodos prognósticos referentes a uma doença ulterior ou mesmo àmorte. Eles não procuram satisfazer à lógica, à moral e à estética;os que assim se apresentam são exceções. Deve-se ter cuidadoem não ferir a sensibilidade do paciente com interpretações quelhe são agressivas, mesmo que óbvias. Ao ouvir um sonho deve oanalista pensar: – “Não tenho a mínima idéia do que este sonhoquer significar.” Mesmo que eles tenham motivos oníricostípicos freqüentes, não são suficientes para se concluir que aestrutura dos sonhos obedece leis determinadas, muito emborasua repetição logicamente queira dizer alguma coisa. Nestetrabalho de buscar o sentido dos sonhos, precisa-se da ajuda dosonhador para limitar a diversidade das significações verbais aoseu conteúdo essencial, pois é necessário descobrir-se o contextosubjetivo dos termos surgidos. Jung afirmava que considerar ossonhos como resultantes da realização de desejos recalcadoslimitou os procedimentos com eles. As associações são necessárias para que se alcance areconstituição do contexto, com o intuito de descobrir o sentidodo sonho, e, para tanto, exige-se:
    • 63 a) empatia psicológica; b) capacidade de fazer combinações; c) penetração intuitiva; d) conhecimento do mundo e dos homens; e, e) um saber específico. É o próprio sonho que nos fornece a maior parte domaterial empírico para a exploração do inconsciente. A autonomiado inconsciente produz sonhos que muitas vezes se opõem àconsciência. No sonho ocorre um sistema de compensação quese distingue do de complementação. A compensação resulta numequilíbrio ou numa retificação. Na atitude consciente fortementeunilateral, o sonho adota um partido oposto. Na atitudeconsciente mais ou menos no centro, isto é, flexível ou que admitepossibilidades, o sonho exprime posições variantes. Na atitudeconsciente correta o sonho coincide com essa atitude. Jung coloca a importância da análise da série de sonhoscomo uma maneira de se entender o processo evolutivo dapersonalidade, cujo fenômeno, inconsciente, ele chamou deprocesso de individuação, que para ser visto fora da análiseexige um certo tempo. O processo de individuação é a realizaçãoespontânea do ser humano total. A compreensão do processo deindividuação exige conhecimentos da mitologia, do folclore, dapsicologia dos primitivos e da história comparada das religiões.Os chamados grandes sonhos (significativos), nunca esquecidos,são importantes para a percepção do processo de individuação,por conterem motivos mitológicos ou arquetípicos. Nelesverificamos que a alma é singular e coletiva; ao mesmo tempo, ésubjetiva e objetiva. Esses sonhos vêm da camada mais profunda da psiquê eocorrem nos grandes momentos da vida. O material associativo
    • 64em torno de suas imagens é escasso. Eles geralmente ocorrem nameia idade. Trazem temas comuns tais como: dragões, heróis,cavernas, animais benfazejos, demônios, velho sábio, homem-animal, tesouro oculto, árvore mágica, a fonte, o jardim protegidopor alta muralha, processos de transformação, substâncias daalquimia, etc. Comentários Embora não tivesse um método rígido para análise einterpretação dos sonhos de seus pacientes, Jung freqüentementerecorria a que eles fizessem amplificações buscando a exploraçãode seus conteúdos. Jung considerava que os sonhos eram sinais oriundos daesfera da psiquê ainda não contaminada pela nossaintencionalidade e sabedoria superior.23 Enquanto em Freud vamos encontrar um sistema rígido emrelação à análise dos sonhos, em Jung vamos perceber umenfoque aberto que permitiu uma visão mais ampla através dossímbolos mitológicos e antropológicos. Os sonhos sãoconsiderados processos psíquicos naturais e reguladores dapsiquê. Um dos diferenciais da análise dos sonhos entre Freud eJung é a concepção deste último do inconsciente coletivo. Jung procurou também fazer distinção entre sinais esímbolos a fim de melhor se fazer entender quanto ao significadodas imagens oníricas. Enquanto os sinais se prestam apenas aindicar os objetos que estão ligados, os símbolos indicam algoque se encontra oculto, vago ou desconhecido, que não éimediato nem se encontra manifesto. Os sonhos retratam símbolosde forma espontânea e inconsciente, fora do domínio, portanto, 23 C. G. Jung, Obras Completas Vol. VII, par. 209.
    • 65da consciência. Para Jung, os sonhos são uma forma de segundopensamento que se apresenta de maneira simbólica, por terpassado despercebido à consciência. Coloca ainda que muitospsicólogos justificam a existência da psiquê inconsciente, peloestudo dos sonhos, por serem estes reveladores dos aspectosinconscientes. Ele chama os sonhos de “ − fantasias inconscientes,evasivas, precárias, vagas e incertas do nossoinconsciente.”24 , ou ainda “o mais fecundo e acessível campode exploração para quem deseje investigar a faculdade desimbolização do homem”, cuja importância está em ser um elode ligação entre as duas instâncias psíquicas (consciente einconsciente). Ele aceitava a tese de que os sonhos expressam, através deformas simbólicas, sintomas neuróticos, porém não acreditava quese restringissem a isso, dado que manifestam símbolos numavariedade muito maior que aqueles sintomas. Da mesma formaaceitava a visão freudiana de que os desejos e a repressãosurgissem manifestados nos símbolos oníricos. Porém, a partir daconstatação da existência dos complexos (‘temas emocionaisreprimidos capazes de provocar distúrbios psicológicospermanentes’, e que ‘reagem mais rapidamente aos estímulosexternos’), ele percebeu que os sonhos poderiam estar levando osonhador à percepção dos mesmos, tanto quanto de qualqueroutra situação até então desconhecida da consciência. Aí elepercebeu que os sonhos têm uma significação própria. Decidiu então não mais utilizar o método da livreassociação para análise e interpretação dos sonhos, maspreocupar-se com o conteúdo e a forma com que os símbolos 24 O Homem e Seus Símbolos, p. 25.
    • 66neles se apresentam, a fim de não se afastar do que eles realmentequeriam dizer. Analisando os sonhos e verificando suas inconsistênciascom a vida do sonhador e percebendo que ela não apresentavaaspectos que pudessem ser correlacionados aos símbolosoníricos, ele buscou referenciais na história e na cultura, cujassemelhanças eram evidentes. Verificou que os símbolos sãouniversais e surgem nos sonhos de forma nem sempre coerentepara a consciência, tendo em vista que seus elementos geradoresnão são dela provenientes. Considerando os sonhos como mensagens ao sonhador eleafirma que a consciência tende a rejeitar ou ignorar aquilo que énovo ou desconhece. Os sonhos devem ser tratados semsuposições prévias e sim como expressões do inconsciente. Ampliando a visão que se tinha sobre os sonhos eleafirmava “que as imagens e as idéias contidas no sonho nãopodem ser explicadas apenas em termos de memória; expressampensamentos novos que ainda não chegaram ao limiar daconsciência.”25 Os pensamentos, idéias e elementos pertencentes à esferada consciência nem sempre têm o sentido que lhes atribuímos.Eles estão conectados a aspectos inconscientes dos quais nãotemos a menor idéia. Os sonhos vêm revelar que sentido eles têm.Parecem desconexos e inverossímeis à consciência, porém,através das imagens oníricas podemos vislumbrar seussignificados destituídos da lógica linear do ego, trazendo osignificado inconsciente. Essas imagens são muito mais vivas eprecisas do que as experiências semelhantes da vida consciente. Os sonhos do ser humano moderno são ricos em símbolose, neste aspecto, diferem dos sonhos do ser humano primitivo 25 Idem, p. 38.
    • 67tendo em vista a forma diversa como as experiências conscientesafetam a ambos. O ser humano primitivo era mais instintivo,psiquicamente indiferenciado, inconsciente e, portanto,constantemente ligado aos seus conteúdos. O ser humanomoderno, mais controlado (reprimido), possuidor de umaconsciência extremamente diferenciada, necessita dos símbolosoníricos inconscientes para compensar a unilateralidadeconsciente. Sobre o conteúdo dos sonhos, Jung escreveu: – “Ossonhos contêm imagens e associações de pensamentos quenão criamos através da intenção consciente. Eles aparecemde modo espontâneo, sem nossa intervenção e revelam umaatividade psíquica alheia à nossa vontade arbitrária. O sonhoé portanto um produto natural e altamente objetivo da psiquedo qual podemos esperar indicações ou pelo menos pistas decertas tendências básicas do processo psíquico. Este último,como qualquer outro processo vital, não consiste numasimples seqüência causal, sendo também um processo deorientação teleológica. Assim pois, podemos esperar que ossonhos nos forneçam certos indícios sobre a causalidadeobjetiva e sobre as tendências objetivas, pois são verdadeirosauto-retratos do processo psíquico em curso.”26 Numa perspectiva junguiana, os sonhos são fenômenoslivres, independentes da vontade do ego vígil e espontâneos,gerados no inconsciente. Tornam-se seletivamente conscientespor um processo desconhecido. A esse respeito Jung coloca,numa perspectiva fenomenológica, que “os sonhos não sãoinvenções intencionadas e dependentes do arbítrio, mas sim 26 C. G. Jung, Obras Completas Vol. VII, par. 210.
    • 68fenômenos naturais, que não constituem nada mais do queaquilo mesmo que representam.”27 Diferente de outros estudiosos, que se prenderam aosaspectos circunstanciais apresentados nos sonhos, Jung percebeua riqueza expressa em suas imagens como oriundas da psiquêcoletiva. Verificando que essas imagens arquetípicas não podiamser adquiridas na vida do sonhador, aliado a outros conceitos, eleemprestou aos sonhos um caráter mais universal. Entender osconceitos de inconsciente coletivo, arquétipos e complexos, éfundamental para uma boa análise dos sonhos. Podemos dizer que uma abordagem junguiana passaria poruma visão nítida e compreensiva do sonho, suas possibilidades deassociações e amplificações, bem como uma contextualização deseu conteúdo em relação ao processo de desenvolvimento dosonhador. Jung assinala28 sua discordância de que o sonho seja umacontinuidade da vida consciente do sonhador, preferindo acreditarque se trata de um fenômeno que contrasta com os conteúdos daconsciência, muito embora não se distancie deles, em face de umacerta continuidade para frente. 27 C. G. Jung, Obras Completas Vol. XVII, par. 189. 28 Obras Completas, Vol. VIII, par. 443 e seguintes.
    • 69 Quem é o sujeito do sonho O sonho é uma realidade do sonhador. Por mais que sesonhe com a realidade de alguém ou de algo que porventuravenha a acontecer, as imagens cedidas ao córtex pertencem aosonhador e elas surgem numa disposição própria de cada um,independente das influências que receba do consciente ouinconsciente alheio. Parece haver uma tendência a se entender que o sujeito dosonho (ego onírico) é o mesmo sujeito desperto (ego consciente);como também que seja o mesmo para o qual o sonho se destina eo mesmo do qual ele se origina. Como muitas vezes o egodesperto não se satisfaz com o que o sonho produz, muito menosquando sua sobrevivência é ameaçada, é claro que se tratam deinstâncias e sujeitos distintos. O ego desperto não é o principal “executivo” da vida,muito menos do sonho. Ele apenas representa uma estruturapsíquica maior, que comanda a vida consciente do sonhador,esteja este dormindo ou desperto. Quando dormindo, ele sechama ego onírico, quando acordado, se chama ego desperto ouvígil. São egos, porém, instâncias diferentes. Um da vidaconsciente, o outro da vida onírica. Ambos vivem a serviço doSelf. Fundamental é comparar as atitudes discrepantes entre essas
    • 70duas instâncias psíquicas bem como suas particularidades, pois ossonhos estarão apontando para uma situação de conciliação, aserviço do processo de desenvolvimento psíquico. Muitas vezes o sonhador estranha a forma como elepróprio aparece no seu sonho. Independente disso, quetrataremos adiante, ele se admira de suas atitudes, que diferemdaquelas no estado de vigília. O sujeito do sonho, chamadotambém de ego onírico, apresenta um certo grau deindependência em relação ao ego da consciência vígil. Ele, o ego onírico, goza de uma espécie de livre pensarcuja capacidade de censura desaparece quase quecompletamente. O sonhador acredita tratar-se dele mesmo, nemsempre percebendo a diferença de que, no sonho, ele está numoutro estado de (in)consciência. Nem sempre o ego desperto é representadosimbolicamente pelo ego onírico no formato humano, às vezes eleaparece como figuras inanimadas ou mesmo por animais. Raramente o ego onírico dirá ao ego desperto o que fazer.Apenas apontará situações de conciliação e compensação. Asituação em que esse ego onírico se encontra é que vai dar umindicativo da mensagem para o ego desperto. O ego despertogeralmente acredita ser o mesmo ego onírico. Tende a realizarconexões objetivas. Na análise dos próprios sonhos, o egodesperto, ou vígil, dificilmente impedirá sua função persona deatuar. A persona tende a exercer uma certa ação de adaptaçãodo sonho às suas necessidades de convivência. Seuscondicionamentos conscientes geralmente distorcem o significadodo sonho. A persona geralmente busca a compreensão do sonhorelacionando-o diretamente aos papéis normalmente executadospelo ego desperto, o que resulta, às vezes, num entendimentoequivocado sobre seu significado.
    • 71 Há sempre uma perda quando as imagens oníricas sãoexpressas em forma de palavras. Essa perda também ocorre pelatentativa de se traduzir em linguagem do ego acordado o que vemdo ego onírico. As palavras falam menos que as imagens e estasmenos que os conteúdos reais. Uma figura importante surge nos sonhos: o ego onírico. Elerepresenta uma visão com a qual o sonhador não conta no estadode vigília. O ego onírico tenta se manter, sobreviver. Geralmentenão apresenta as mesmas defesas e sentimentos do egoacordado. É um ego auxiliar e sua atuação ou não num sonho éimportante para se entender o significado da mensagem contida. Às vezes, o ego onírico se coloca como mero observadorno sonho, o que pode significar que, na vida desperta, ele estásendo tomado, inconscientemente, pela atitude do sonho. Aparticipação ativa ou não do ego onírico no sonho é umaexcelente pista para a compreensão de um sonho. Sonhos em queo ego onírico estabelece relações emocionais, ou mesmo que elasestejam ausentes, podem conter respostas aos complexosconstelados no inconsciente. A ausência de receptividadeemocional pode também simbolizar uma necessidade de atividadepor parte do ego desperto. Quando a figura personificada peloego onírico fisicamente se assemelha ao ego desperto, temos umaidentidade e uma confirmação da atitude consciente; quando oego onírico não guarda semelhança física com o ego desperto,temos aí um distanciamento daquela atitude. Para qualquer pessoa é aterrorizante a idéia de perder aconsciência, de perder o controle sobre seus próprios sentidos,porém, a vontade, ou melhor, a necessidade de dormir nãoperturba nem inquieta a ninguém. A certeza do acordar no diaseguinte com a mesma identidade do dia anterior é garantia parase perder a consciência sem traumas maiores. É paradoxalacreditar-se que o ego permanece consciente durante o sono,
    • 72pois sua volição, propriedade vital, desaparece. Nos fenômenosoníricos noturnos que se assemelham aos sonhos, alguns deleschamados de sonhos lúcidos, outros de viagens astrais, em quepersiste a volição e deles nos recordamos, o ego onírico dá lugarao ego desperto, por razões ainda desconhecidas. Do ponto de vista psicológico subjetivo, os personagensconhecidos do ego vígil, que surgem nos sonhos, nem sempredevem ser considerados como “reais”. Certamente ainterpretação objetiva, que considera os personagens conhecidoscomo sendo eles próprios que aparecem nos sonhos, tenderá ainfluenciar o fortalecimento da relação que se tenha com eles. Emse tratando, por exemplo, de um caso em que o analista apareçano sonho de seu paciente, o cuidado deve ser dobrado quando setratar da interpretação objetiva, sobretudo naqueles de carátererótico. Essa interpretação objetiva é linear e direta, poisrelaciona as imagens oníricas diretamente com a realidade externaao sonhador. Atitudes do ego onírico podem representar um confrontoaos papéis assumidos pelo ego desperto. As imagens oníricaspodem estabelecer uma necessidade de que o ego despertoperceba os equívocos de determinada situação de persona.
    • 73 Influência de substâncias químicas sobre os sonhos Os estudos de Stanislav Grof revelaram que o uso desubstâncias químicas, psicodélicas ou não, altera os estados deconsciência, provocando visões muito semelhantes às obtidas nosestados de êxtase dos místicos. Os sonhos de seus pacientestraziam, de forma extremamente acentuada, imagens doinconsciente. Os comprimidos para dormir, substâncias alucinógenas,calmantes, bem como os ansiolíticos, principalmente osbenzodiazepínicos, e os antidepressivos, alteram o ciclo regular desono, influindo diretamente no sono REM. Geralmente eles, bemcomo as anfetaminas, diminuem a quantidade de tempo do sonoREM, conforme Grof. Em geral quem ingere tais substâncias tem poucos sonhos ede difícil interpretação, face ao grande volume de símbolosdesconexos que afloram ao córtex, oriundos do inconscientepessoal e, principalmente, do coletivo. A análise de sonhos de pacientes psiquiátricos que tomammedicação imunodepressora deve revestir-se de muita cautelatendo em vista as vinculações provocadas por substâncias
    • 74químicas que alteram o sistema nervoso central. Seus sonhos,complexos pela natureza de seus conflitos inconscientes,costumam trazer imagens cujas associações em geral podem seramplas, portanto pouco esclarecedoras. O “sono artificial” provocado por tais substâncias é repletode inconsistências simbólicas que podem induzir a interpretaçõesesdrúxulas e estapafúrdias pelo sonhador ou pelo analista desonhos. O trabalho com sonhos de pacientes psiquiátricos deveser no sentido de entender a formação de outros símbolos a partirdos símbolos oníricos. Os símbolos oníricos desses pacientesgeralmente estão contaminados, merecendo uma nova redução àsimagens mais próximas da consciência. Solicitar que elesdesenhem, pintem ou representem os sonhos na caixa-de-areia oucom argila, será muito mais valioso que a análise descritiva direta.A dificuldade que os pacientes psiquiátricos têm em verbalizarseus conflitos, como em fazer associações, pode ser facilitadopelo trabalho concreto com os sonhos. Os trabalhos de Nise daSilveira junto a esse conjunto de sujeitos redundou na criação doMuseu do Inconsciente, que abriga obras de arte oriundas daselaborações psíquicas, oníricas ou não. Sabe-se que substâncias químicas contidas nosmedicamentos imunodepressores e ansiolíticos afetam, não só osistema nervoso central como também os estados de consciênciae inconsciência do ser humano. Como conseqüência, os símbolosoníricos trazidos ao córtex estarão mais livres de vinculações unscom os outros. Elas abrem os canais inibidores que impedem oacesso ao inconsciente, adicionando mais energia psíquica aoscomplexos ali existentes, aproximando-os por demais àconsciência. A análise dos sonhos de pacientes que se encontram sobmedicação psiquiátrica, mesmo que não se observe qualqueralteração de sua capacidade cognitiva ou motora, deve se revestir
    • 75de precauções quanto à correlação que se queira fazer,envolvendo aspectos da vida consciente do sonhador. Osaspectos presentes nos sonhos se referem a conteúdos dacamada mais profunda da psiquê. Trazem mais informações sobrevivências passadas, num período pouco acessível à compreensãológica do próprio paciente. Pessoas que tomam remédios antidepressivos, a partir deum diagnóstico preciso, geralmente têm sonhos mais voltados aopassado e em situações de angústia, sofrimento ou de ausênciamaterna, cujo sentimento de autopiedade é a característica básicade seus enredos. Pacientes que, além da análise, se encontram em tratamentopsiquiátrico, podem fornecer pistas, através de seus sonhos,visando a modificações positivas na medicação prescrita. Édesejável, quando conveniente, uma interação entre o analista e opsiquiatra, visando o auxílio mútuo, em benefício do pacientecomum. Determinados medicamentos interferem nos sonhos, eestes, através das imagens oníricas, podem sugerir modificaçõesde dosagens, suspensão ou alterações daqueles. Quando não épossível aquela interação, costumo sugerir, com certa cautela paranão induzi-lo a fazer por conta própria, que o paciente leve ao seupsiquiatra solicitações de suspensão e/ou redução da medicação,tomando por base o conteúdo dos sonhos. Às vezes, tambémsugiro que ele converse com o psiquiatra sobre a necessidade deaumentar a dosagem desta ou daquela medicação, muito embora,pessoalmente, seja favorável à redução progressiva. Os processos psíquicos se camuflam com o auxílio damedicação, o que não deixa de ter uma função redutora da dor eda angústia do próprio paciente. Mas chega um momento em quea dor maior é a não solução do conflito íntimo. Essa situação, dequerer sair da medicação, é do interesse do Self, às vezes
    • 76inconsciente ao ego, a fim de que ele continue seu processo deindividuação.
    • 77 Como anotar os sonhos Tenha sempre à cabeceira de sua cama, preferencialmente àvista, um caderno (seu caderno de sonhos), uma caneta ou lápis,uma pequena lanterna. Um pequeno gravador a pilha podesubstituir a caneta ou lápis. Sempre que você for anotar o sonho não se esqueça deanotar o dia da ocorrência (não coloque o dia em que você foidormir, mas sim o dia em que ocorreu o sonho). Caso alembrança tenha sido muito tempo depois do acordar, éconveniente que você anote a hora da lembrança e o fato ou olocal que a motivou. Ao acordar, se você se lembrar de um sonho, antes delevantar-se para anotá-lo, repasse-o ainda deitado29 e, só depoisde tê-lo em mente, você deve levantar-se para escrevê-lo outomar de um pequeno gravador convenientemente preparado. Àsvezes, basta anotar algumas palavras chaves e todo o sonho serálembrado depois. É comum, em terapia, ao se relatar um sonho,relembrar-se de detalhes não registrados ao acordar, o que 29 Ouspensky, afirmava que esse momento, que ele chamava de semi-sonho, era fundamental para a compreensão dos sonhos. Freqüentemente ele entendia seus sonhos anteriores repassando-os nesse momento.
    • 78reforça a necessidade de que relatemos nossos sonhos a alguém,pois essa atitude nos faz recordar mais detalhes do sonho. O seu caderno de sonhos pode funcionar como um diário.Nele você pode grafar outras lembranças que lhe venham à mente.Algo que você pensou, fruto de uma meditação ou de umainspiração, ou intuição, mesmo que não tenha um significadopróprio no momento, você poderá anotar. Tenha apenas ocuidado de destacar que tais lembranças não se tratam de sonho. Não se esqueça de, além de anotar o sonho como eleocorreu, sem qualquer interpretação, escrever suas emoçõesdurante o sonho e as associações e correlações que fez depoisque acordou. Caso você lembre, anote seus pensamentos antesde dormir pois, em muitos casos, eles catalisam a formação dosonho. Após anotar o sonho, horas depois, relate suas impressõese fale dos personagens do sonho. Se forem figuras conhecidas faleda sua relação com eles. Se os locais que surgirem no sonhoforem conhecidos, relate as semelhanças e diferenças. Se vocêquiser, pode dar um título ao sonho ou fazer alusão a algum fatoque você acredite ter correlação com ele. Procure anotar toda e qualquer impressão que o sonho lhecausou como também as correlações com o passado e com ofuturo, que porventura você venha a fazer.
    • 79 Como lembrar dos sonhos Pode-se separar as pessoas em dois grupos: aquelas que selembram dos sonhos e aquelas que não se lembram. Em ambos oscasos tudo leva a crer que sempre se sonha. A lembrança podeestar associada a uma predisposição para a livre associação. Aspessoas que se lembram de seus sonhos geralmente têm facilidadede fazer associações mentais por uma questão de treinamento,muito embora, às vezes, trate-se de uma capacidade inata. Quantomais dermos valor aos nossos sonhos mais nos lembraremosdeles. O não lembrar dos sonhos ao acordar não quer dizer que apessoa não possa recordá-los durante o restante do dia. Umapalavra, um fato, um sentimento poderá desencadear a lembrançado sonho. Muito embora, após os primeiros dez minutos depoisdo acordar, torna-se cada vez mais difícil acessá-lo. Caso sevenha a lembrar do sonho após esse período, deve-se procedercom calma a fim de recordar todo o sonho. Forçar a memórianem sempre é produtivo. Deve-se parar, concentrar-se e deixarfluir os pensamentos e as imagens que venham à mente naqueleinstante e que tenham conexão com o sonho. Às vezes, quando acordamos e nos lembramos de umsonho e vamos grafá-lo num papel ou mesmo na memória,
    • 80tentamos dar-lhe uma feição compreensível a nós mesmos ou aalguém. Essa preocupação costuma mutilar o sonho de tal formaque, muitas vezes, sua mensagem se torna contrária ao objetivopretendido. Preste atenção ao conjunto de eventos, externos e internos,que o fizeram retornar à lembrança do sonho. Geralmente há umaemoção envolvida na recordação espontânea. A lembrança dos sonhos pode, portanto, ser trabalhada devárias formas, embora não se possa garantir que seja eficaz paratodas as pessoas. Para lembrar dos sonhos, deve-se observar as seguintesrecomendações: 1. Associe seu ato de sonhar a um objeto visto todas asnoites antes de dormir. Preferencialmente que esse objeto seja umcaderno junto a uma caneta. Escreva neste caderno, na capa,“Caderno de Sonhos” e, quando um caderno acabar, compreoutro e escreva a mesma coisa; 2. Coloque-o em algum lugar que fique sempre visível,junto a um abajur, onde você normalmente dorme; não há nenhumproblema que seu caderno de sonhos fique acessível a alguém,pois eles são tão indecifráveis para você quanto para outrapessoa. Salvo se seu conteúdo trouxer informaçõescomprometedoras ou constrangedoras a alguém; 3. Sempre que você acordar, ainda deitado, pergunte-se seteve algum sonho. Caso positivo, registre-o imediatamente no seucaderno de sonhos que deverá estar próximo. Não se esqueça deanotar o dia da ocorrência; 4. Esteja sempre atento durante o dia para as ocorrênciasinusitadas. Elas são sinais que podem possibilitar conexões comsonhos anteriores, não lembrados ao acordar. Assim que você selembrar de um sonho durante o dia, anote-o em um rascunho e
    • 81depois passe para o caderno, registrando, nesse caso, o dia e ohorário da lembrança; 5. Antes de adormecer, já no leito, deseje sonhar comdeterminado assunto ou pessoa; evite pensar em problemas ousituações de conflito nas quais você esteja envolvido; afirmeconvictamente “sonharei e me lembrarei quando acordar”; 6. Evite dormir cansado. Antes de dormir, no leito, façaexercícios respiratórios. Respire pelo menos cinco vezes de formalenta e profunda, até não mais sentir a respiração. Acostume-se sebanhar antes de ir para a cama. Frio ou quente, o banho relaxa ediminui a tensão; 7. Acostume-se a contar seus sonhos a outras pessoas ebusque sempre sua interpretação algumas horas depois deescrevê-los. Exercite constantemente esse hábito. Anote, naspáginas do caderno, após o registro do sonho, sua(s)interpretação(ões); 8. Valorize cada sonho. Sua atenção a eles funciona comoestímulo a novas produções. Não os trate como elementosexcitadores da adivinhação ou fantasias inconseqüentes nemestimuladores da cobiça; 9. Trate dos seus sonhos como parte de seu mundo interiorobjetivo e de relevância para sua vida cotidiana. Eles são sinaisproveitosos para sua individuação; 10.Quando acordar procure, independente de lembrar ounão dos sonhos, perceber o que está sentindo, isto é, qual seuestado de espírito naquele momento ao despertar. Se ainda assim você continuar tendo dificuldade em lembrarseus sonhos, faça a seguinte experiência durante uma semana: 1. Permaneça na cama alguns instantes ao acordar e tentelembrar de algum sonho;
    • 82 2. Caso não consiga lembrar de nada, procure verificarqual a emoção que você está sentindo naquele momento. Entreem contato com essa emoção; 3. Se ainda assim você não conseguir, recapitule seu diaanterior, ainda na cama; 4. Relembre um conflito que esteja ocupando sua mentenos últimos dias; 5. Por último, antes de dormir e caso o passo anterior nãolhe tenha trazido a lembrança de bons sonhos, visualize algo debom com o qual deseje sonhar. Escolha algo de positivo eagradável; 6. Persista no método até alcançar êxito. O cansaço antes de dormir prejudica a lembrança dossonhos no dia seguinte, assim como a pressa ao levantar por umaobrigação qualquer. A lembrança do sonho é possível graças à sua influência nocórtex, durante o sono. Provavelmente a baixa atividade cerebralfavorece o imprint dos registros oníricos. Desconhece-se, porenquanto, qual o mecanismo que provoca essa impressão, àsvezes tão indelével. Acredita-se que as pessoas que têm dificuldade em lembrarseus sonhos geralmente necessitam trabalhar inicialmente osconteúdos conscientes. Às vezes, o ego desperto utiliza ummecanismo de defesa que aprisiona a energia psíquica e impede aaproximação dos conteúdos inconscientes. Por outro lado, agrande quantidade de informações conscientes administradas peloego, pode conduzi-lo à desvalorização dos sonhos através darecusa em encará-los com seriedade. Se você lembrou de um sonho, mas não conseguiu reteraspectos importantes e deseja fazê-lo, ou ainda, se ao acordar,lembrou-se de um sonho, mas não o anotou e depois, durante o
    • 83dia deseja relembrá-lo, há formas de tentar resgatar essesconteúdos para a consciência. Repassar as partes do que foi lembrado de um sonho, compaciência, sem pressa mental de concluir sua percepção, poderálevar o indivíduo a se lembrar dos trechos esquecidos. Pode-se também, caso não se alcance sucesso paralembrar do sonho com mais detalhes, propor conscientemente umfinal (desfecho) para ele. Essa atitude certamente levará oinconsciente a provocar um novo sonho, confirmando ou negandoa proposta do ego vígil.
    • 84 Porque esquecemos dos sonhos Esquecemos por não serem suficientemente relevantes aoego desperto, pois, muitas vezes, tratam de temas gerados noinconsciente, a partir das elaborações entre o ego onírico e oSelf, e que não têm energia suficiente para impressionar aconsciência. Por serem gerados num estado de consciênciaabaixo do nível desperto, não conseguem ser retidos por ela. Aqueles que contêm carga energética suficiente para venceras resistências do ego desperto e que possuem conteúdosrelevantes para este, conseguem emergir à consciência para anecessária compreensão. Esses são constituídos de certa cargaemocional capaz de impressionar o ego desperto. Jung dizia que “Os sonhos significativos...freqüentemente são lembrados a vida inteira e, não rarasvezes, demonstram ser a jóia preciosa do palácio de tesourosque é a experiência psíquica.” Esquecemos deles porque tratam de conteúdosinconscientes que se situam numa camada da psiquê inacessíveldiretamente pela consciência, exatamente por terem poucaenergia, o que não lhes diminui a importância. Ali se alojam, ou
    • 85são gerados, por não caberem na consciência pela incapacidadedesta de tudo reter. Quando são lembrados recebem um quantum de energiasuficiente para impressionar o córtex cerebral, a fim de seremcompreendidos. Essa quantidade de energia é suficiente poralguns instantes, porém, se não anotados, retornam à sua camadainconsciente para só serem lembrados se receberem novoquantum de energia psíquica. Por não serem lembrados não significa que não cumpriramsua função. O ato de sonhar permite um equilíbrio de tensõesentre o consciente e o inconsciente. É um resultante compensadore aliviador.
    • 86 Como continuar a sonhar um sonho interrompido Caso você deseje continuar a sonhar um sonhointerrompido, naturalmente ao acordar, ou por qualquer outromotivo, é possível consegui-lo, desde que ele tenha algumsignificado especial que mereça ser relembrado. Se ele não forrelembrado, o inconsciente produzirá outro que tenha o mesmoobjetivo. É importante que você se lembre cada passo das cenasanteriores à interrupção do sonho, para poder continuá-lo.Procure não interpretá-lo na hora de relembrá-lo, mas apenasrever cada detalhe dele. Depois de ter escrito seu sonho ou fragmento dele, sublinheos verbos e descreva as emoções que você sentiu durante edepois do sonho. Antes de dormir procure fazer o exercício respiratóriorecomendado em capítulo anterior. Após isso e depois de estardescansado e com sono, rememore cada passo do sonho anteriore adormeça. Se não adormecer logo, repita a rememoração váriasvezes até adormecer. Faça isso por noites seguidas. O resultado será:
    • 87 1. a continuação do sonho; ou 2. um novo sonho em resposta à solicitação consciente da continuidade do sonho anterior. A solicitação de produção de um sonho funciona como umaespécie de diálogo entre o eu consciente (ego) e o euinconsciente, Self (centro organizador da vida psíquica). Vale lembrar que, quando acordamos durante um sonho enos lembramos dele naquele momento, voltando a dormir ou não,significa que o sonho lembrado tem uma importância maior do quese imagina. Trata-se de um recado importante que não devemosdesprezar. Deve-se levantar, mesmo no meio da noite, e escrevero sonho, bem como as impressões que ele causou, e só entãovoltar a dormir.
    • 88 O simbolismo e a linguagem dos sonhos A civilização tecnológica de hoje tem gradativamenteperdido o contato com a Natureza, ameaçando a conexãoemocional do ser humano com a própria vida. O ser humano dehoje é marcado por uma certa orfandade psíquica resultante dodistanciamento de suas raízes culturais e afetivas. Essa perda,segundo Jung, é compensada pelos símbolos revelados nossonhos. As tentativas de interpretação dos sonhos sem o cuidadode entender que sua expressão é puramente simbólica e figurada,resvalará pela fantasia absurda de estabelecer elementosuniversais para todos os conteúdos oníricos. Antes de qualquer análise é necessário verificar seefetivamente o fenômeno onírico se trata de um sonho. Háexperiências oníricas que não devem ser definidas como sonhos,pelo menos da forma como os concebemos. Quando essasocorrerem, a análise a ser feita será diferente e o analista deveráter bastante conhecimento para não supor interpretações ouassociações descabidas, fruto de sua ignorância, a rrogância oupreconceitos, sobre os processos psíquicos noturnos. O mundo
    • 89extra-físico ou psíquico poderá ser tratado de forma surreal pelosonhador ao acordar, face à ausência de correlatos paradescrever o que foi experienciado. Faltam-lhe palavras paradescrever o que não pertence ao domínio consciente. Nessescasos, o uso de símbolos será necessário e poderá parecer, aoanalista acostumado às interpretações psicológicas, que elesdecorrem de processos psíquicos do sonhador. O sonho é próprio de cada sonhador. Tem significadosdistintos os mesmos símbolos para diferentes pessoas. Nenhumsignificado simbólico nele contido pode ser dissociado dapersonalidade do sonhador. O sonho provém do inconsciente e seprocessa na inconsciência, sendo traduzido ao consciente sob aforma de imagens no córtex. As imagens que aparecem no córtexdo sonhador lhe são próprias, tendo significados singulares. Os sonhos sempre trazem alguma mensagem. Eles falamda vida psíquica do sonhador numa linguagem própria. São umaespécie de logogrifo com vinhetas, um rébus30 , com imagenscriptografadas. São mensagens que afloram à consciência comenergia suficiente para romper a força da vida consciente e suaunilateralidade. Irrompem à consciência mesmo no estado devigília pela necessidade de serem compreendidos, integrados oureconhecidos. Sua irrupção independe da vontade consciente dosonhador. Eles trazem do inconsciente o que deveria estar naconsciência e não coube ou não foi possível, mas que não devemais permanecer excluído dela. Há que entendermos que a linguagem do inconsciente não éverbal ou mesmo pictórica. Como disse Jacques Lacan “oinconsciente se estrutura como uma linguagem”. Nãosabemos a natureza dessa linguagem mas, certamente, para sefazer entender (o Self) ela é expressa através dos símbolos 30 Whitmont e Perera, Sonhos, um portal para a fonte, p. 41.
    • 90existentes no inconsciente e no consciente. As imagens produzidasnos sonhos não são em si a linguagem do inconsciente, mas, tãosomente, o material disponível para a expressão de umamensagem que sempre vem codificada. Se misturamos ruídos externos aos sonhos, isto é, seincluímos como acontecimentos deles ruídos da televisão,campainhas, conversas, chamados de telefone, e outros queestejam ocorrendo paralelamente ao sono, isso não i valida seu nconteúdo simbólico. Freqüentemente, quando eles ocorrem, osruídos externos podem ser aproveitados para a elaboração dossonhos. Eles desempenham o mesmo papel simbólico dosconteúdos inconscientes. Não só os complexos, mas também os arquétipos sãomodeladores dos sonhos, estruturando seus enredos e reunindoos símbolos adequados ao propósito do Self. Complexos earquétipos são estruturas psíquicas que agem como núcleosgeradores das imagens oníricas. Muitos temas da vida do serhumano surgem nos sonhos; são eles padrões típicos decomportamentos engendrados pelos arquétipos do i consciente ncoletivo. Imagens oníricas distintas podem representar, nummesmo sonho ou em sonhos diferentes, os mesmos complexos.Nos sonhos, os complexos são apresentados de forma simbólica,como uma espécie de metáfora. O ser humano é essencialmente subjetividade. Sua estruturapsíquica, que lhe comanda a vida orgânica e de relações com omundo, é constituída de elementos imponderáveis, cuja definiçãoescapa à ciência. Podemos dizer, para uma melhor compreensão,a partir de uma visão científica, descritiva, que o mundo íntimo doser humano é o inverso de seu mundo exterior. Se dissermos queo mundo exterior ao ser humano é concreto, então classificaremosde abstrato seu interior. É como uma lente em que se vê de um
    • 91lado a imagem invertida em relação ao outro. A diferença é que ainversão é de essência e não de posição. Ao estabelecermos essa forma de compreensão, estaremosafirmando que o mundo com o qual o ser humano lidaverdadeiramente é o mundo interior, onde está contido todo omundo exterior adaptado e condicionado de forma simbólica.Desse ponto de vista, o mundo objetivo é aquele com o qual o serhumano lida imediatamente no seu psiquismo. Preferimos dizer que o mundo íntimo contém uma parteorganizadora de si mesmo. É essa parte organizadora que enviasuas mensagens através das imagens inconscientes. Mas, elas,como tudo que provém do mundo inconsciente, passam pelaconsciência e se ligam às imagens ali existentes, dando-lhesdirecionamento ou alterando sua disposição. O resultado dessaconexão é o sonho, que, de certa forma, se presta ao papel deaglutinar, ou permitir uma socialização dos conteúdosinconscientes dispersos que, por uma tensão interna, exigem umaexteriorização e compreensão. Simbolismo A utilização de certos símbolos, bem como sua organizaçãonos sonhos, é uma disposição diretamente relacionada com onível de desenvolvimento do Self. O estágio de desenvolvimentopsíquico poderá interferir na lucidez dos s onhos bem como naforma como eles se apresentam, a fim de facilitar suacompreensão pelo ego desperto. Quando surgem símbolos arquetípicos nos sonhos, ainterpretação não deve ser pessoal, isto é, pouco adiantaperguntar ao sonhador o que ele acha daquele símbolo. Pode-seaté fazê-lo, mas deve-se buscar o significado mitológico, cultural,enfim, arquetípico, portanto coletivo, para aquele símbolo
    • 92específico. Isso levará a um certo distanciamento do caráterpessoal da análise. Algumas imagens que surgem nos sonhosparecem ter significados, de tal forma c oerentes, que sugeremuma certa universalidade a indicar origens comuns, parecendopertencentes a um substrato coletivo da psiquê humana. Jung dizia que − “Devemos entender que os símbolos dosonho são, na sua maioria, manifestações de uma parte dapsique que escapa ao controle do consciente.”31 Os sonhos podem ser, quanto à origem das imagens: Superficiais: quando provêm das camadas superficiais davida psíquica. Referem-se ao inconsciente próximo (pessoal) ouao consciente. Trazem imagens representantes de experiências eemoções vivenciadas pelo sonhador. São geralmenteinterpretados no plano do objeto, muito embora devam sempreser tomados, também, no plano do sujeito. Profundos: provenientes das camadas profundas dapsiquê. Geralmente alcançam o inconsciente coletivo e sãochamados de sonhos arquetípicos ou grandes sonhos. Trazemimagens de caráter impessoal, arquetípicas, tecendo geralmentetemas míticos. Ocorrem em momentos próprios detransformações e são espaçados entre si por longos períodos.Devem ser sempre interpretados no plano do sujeito, porém semse distanciar da realidade do sonhador. Os símbolos arrostados pelo inconsciente podem ser:pessoais, coletivos, regionais, nacionais, culturais, raciais, etc. Adepender do teor da mensagem, o inconsciente irá buscar osímbolo mais adequado. 31 O Homem e seus Símbolos, p. 64.
    • 93 A situação ou contexto em que os símbolos sãoorganizados, isto é, o paradoxo que o sonho apresenta, é maisimportante do que as imagens em si. A situação problema ou aafirmação contida numa mensagem simbólica deve ocupar osonhador mais do que o significado aparente do símbolo. Umaimagem onírica nunca é apenas a própria imagem. A ela estãoassociados elementos fundamentais à compreensão do significadode sua presença no sonho. Uma boa “investigação” sobre osonho trará aqueles elementos de volta à consciência. É sempre importante se ter uma percepção, dentro docontexto dos sonhos, de quais as emoções e a intensidade comque ocorrem para cada imagem surgida. A arrumação de certasimagens oníricas se refere a alguns tipos de emoções que não sãosentidas pelo sonhador ao acordar. As imagens, tanto quanto suaarrumação, sugerem essas emoções. Os sonhos expressam: umtema onírico principal, uma perspectiva de realidade psicológicado sonhador, um simbolismo particular, núcleos de significado,padrões de energia, uma expressividade emocional. É comum o surgimento de animais nos sonhos, cujainterpretação é sempre dada como fácil e de correlação comaspectos instintivos. Alguns autores consideram que a dependerda espécie animal que surja no sonho o instinto será diferente. Háquem afirme que, quando o animal, no sonho, está correndo atrásdo sonhador e o alcança, é sintoma ou de que aquele instinto jáfoi integrado ou, ao contrário, dessa necessidade. Como ossignificados serão variáveis e de acordo com a cultura de cadasonhador, a espécie animal poderá ter significações simbólicasdiferentes. Lógico é que a relatividade com que devemos estabelecerassociações poderá proporcionar entendimentos diferentes aosignificado do sonho. Nunca, em hipótese alguma, poderáesquecer-se o analista do contexto do sonho bem como da
    • 94personalidade do sonhador. As associações universais tendem aincorrer em equívocos cuja correção ficará sobrecarregando apsiquê para a necessidade da produção de novos símbolos a fimde consertar o resultado das interpretações anteriores. Muito embora as experiências arquetípicas, pertencentes aoinconsciente coletivo de cada indivíduo, possam contribuir para aprodução de símbolos universais, suas i terpretações ou mesmo nassociações que se possam fazer poderão permitir compreensõesdistintas e diferenciadas, e até contraditórias, exatamente porserem arquetípicas. Da mesma forma são comuns sonhos com fogo, cujainterpretação ou associação mais comum é a transformação, alémde simbolizar a energia psíquica que se manifesta na forma deimpulsos, vontades, desejos, determinação, etc. Essasassociações se dão pela utilização milenar da experiência de selidar com ele como elemento transformador e gerador de umanova substância. Mas não podemos esquecer os significadosparticulares que as experiências individuais podem dar àquelesímbolo. Uma experiência traumática com o fogo, seja dosonhador ou de alguém que lhe é próximo e em sua presença,poderá provocar o surgimento da imagem com objetivo diferentedo que a experiência universal sugere. As imagens onde a água é elemento abundante e osonhador mantém contato com ela, costumam ser associadas einterpretadas como sendo a camada inconsciente da psiquêhumana ou ainda relacionadas à sua vida afetiva e sexual. Taisidéias advêm do próprio significado da água como “fonte davida”, sem maiores correlações diretas com o sonhador, mas comaspectos coletivos da espécie humana. Há símbolos universais e pessoais, como também há osnaturais e os culturais. Eles, de qualquer forma, expressarãoaspectos do ser humano, de sua época, de sua história e de suas
    • 95tradições. Como no ser humano encontramos os traços de toda ahumanidade, os símbolos também trarão a história individual ecoletiva. O fato do sonhador fixar uma imagem específica de seusonho e lembrar-se mais detidamente dela, não significa que sedeve reduzir sua interpretação à análise desse ponto. Seria maisconveniente observar outros, buscando correlacionar suasimagens. Ao nos determos agora em partes de sonhos, nãosignifica dizer que estaremos desprezando sua análise global.Quando o sonhador valoriza determinada imagem de um sonho,pode-se deduzir que ele se incomodou com aquele aspecto, masnão se pode dizer que ali está o significado total do sonho. A seguir faremos algumas associações comuns que se podeestabelecer com imagens dos sonhos. Essas associações nãodevem ser tomadas sempre como universais e verdadeiras.Podem ter significados distintos a depender do enredo em que seencontram e do estado de consciência do sonhador. Sonhar com árvores Sonhos onde aparecem árvores tendem a ser associados aopróprio processo de transformação que ocorre na vida dosonhador. Elas também podem representar um grupo familiar,empresarial, associativo, etc., cujo significado será dado pelaforma e pelo tamanho com que se apresentem. Em alguns sonhosa cruz tem significado semelhante ao das árvores. Sonhar com água Sonhar com o mar, com praia, com orla ou margem de rio,geralmente significa contato e entrada em outras instânciaspsíquicas além do consciente. A água é o elemento primordial da
    • 96vida humana. Por esse motivo ela pode ter muitos significados;geralmente eles estão associados à idéia do inconsciente e tudoque a ele se refere. Sonhar caindo São sonhos que lembram os aspectos do processo detransformação ocorridos a nível consciente e, a depender dassensações do sonhador, poderão significar a tomada ou ainterrupção, na consciência, do contato com os elementosfundamentais de seu desenvolvimento. Nos casos de viagensastrais, costuma-se correlacionar com o movimento dedeslocamento do corpo etéreo em relação ao corpo que dorme. Sonhar com números Os números que aparecem nos sonhos devem serreduzidos ao que exceder da divisão por quatro, número datotalidade. O excesso da divisão, seja um, dois ou três, temsignificado próprio. O número um significa ativação, o começo, asemente. O número dois significa atração, casamento de opostos.O número três significa expansão, movimento, necessidade deequilíbrio. O número quatro significa harmonia, segurança,totalidade. Sonhar voando Esses sonhos podem tentar nos mostrar algo em relaçãoaos nossos limites e aos inícios e términos de estágios ou fases doprocesso de desenvolvimento da personalidade. As imagens esensações antes e depois do voar demarcarão aquelas fases.
    • 97Semelhantes à sensação de cair, podem também ser reflexos daatividade de entrar e sair do corpo durante o sono. Sonhar com animais Os animais nos sonhos geralmente representam a spectosinstintivos ou pré-racionais do sonhador. Não raro, também, oanimal que aparece nos sonhos pode estar se referindo a figurasmitológicas do inconsciente coletivo que têm o sentido dedivindades. O tipo de animal será fundamental para que asassociações possam ocorrer. Há determinados animais, com osquais o sonhador pode ter tido uma experiência traumáticaconsciente, que provocarão associações ao nível do objeto, istoé, mais direta e causal. Outros merecerão uma análise subjetiva,variando com a espécie do animal. Sonhar com cobra A cobra é um animal que se assemelha ao que se conhecemitologicamente com o nome de serpente, que tem um simbolismomuito amplo. Em muitas culturas ela foi, e ainda é, símbolo sexual;em outras é o símbolo da sabedoria, do conhecimento, daprudência, da transformação, do mal, do renascimento e damorte. Deve-se levar em conta o enredo do sonho para seencontrar o significado mais coerente. Sonhar com uma casa A casa é geralmente tomada como símbolo da consciênciado sonhador. Ela pode estar representando aspectos da vida atualou de experiências passadas, variando pelos elementosdecorativos internos e externos do imóvel do sonho. Quando o
    • 98sonhador se encontra dentro ou fora dela, geralmente se associaaos aspectos da vida consciente em que ele necessitarespectivamente integrar ou eliminar da consciência. Sonhar com dinheiro O dinheiro é um elemento neutro que possui uma relevânciamuito grande em nossa sociedade. Certamente o sonhador nãoescapará de estabelecer uma relação entre ele e seu processo decrescimento. O dinheiro pode significar toda a possibilidade deprogresso e o futuro do próprio sonhador. Pode também sercorrelacionado com a energia psíquica. Sonhar com veículos É muito comum relacionar-se as situações em que osonhador contracena com carros, com sua própria liberdade emovimentação na vida. Muitas vezes o carro que lhe apareceparado ou em movimento no sonho, retrata seu próprio corpo,cuja idade ou aparência poderá ter similaridade com a do veículo. Sonhar lavando alguma coisa Esses são sonhos cujo conteúdo nos remete à necessidadede redenção ou purificação. É um tema que nos propõe umaespécie de desculpa de si mesmo e compreensão em relação àspróprias atitudes. É o tema do perdão a si mesmo. Sonhar com casamento São sonhos das uniões desejáveis ou necessárias, em que osonhador ainda não se deu conta de sua importância. Muitas
    • 99vezes eles representam uma necessidade do encontro com algo oucom aspectos da personalidade de alguém, esquecidos dosonhador e que devam ser a ele integrados. Sonhos de perseguição O capítulo sobre pesadelos pode trazer uma melhorcompreensão sobre esse tipo de sonho, porém, é bom atentarmospara o simbolismo contido no contexto da perseguiçãoapresentada. É conveniente o sonhador atentar para quem ou oque o persegue e para o motivo da perseguição. Independentedos aspectos apresentados na análise espírita, a interpretaçãosimbólica será de grande utilidade. O que nos persegue poderepresentar algo com o qual devemos nos reconciliar ou buscarintegrar à nossa personalidade consciente. Sonhar com uma profissão Quando o sonho apresenta o sonhador numa determinadaprofissão, ele geralmente quer mostrar aspectos relacionados àpersonalidade do sonhador enfocando seu papel social ou a formacomo ele é visto pelas pessoas de sua convivência. Estámostrando traços de sua persona. Sonhar com uma autoridade Tais sonhos geralmente estão relacionados com a maneiracomo o sonhador se relaciona com as figuras masculinas, e com omasculino na sua vida: o pai, o chefe, a lei, o estado, etc. Quandono sonho a autoridade se apresenta como um dos símboloscaracterísticos do Self, merece outra interpretação; são comorecados diretos do Self ao ego.
    • 100 Sonhar com religião ou figuras religiosas Tais sonhos estarão provavelmente se referindo à vidamoral do sonhador; às suas repressões e às proibições familiares.Às vezes, as figuras religiosas podem representar conselheiros atentar passar orientações importantes p a vida do sonhador. araNuma linguagem junguiana, simbolizam o arquétipo do VelhoSábio. Alguns sonhos com figuras religiosas podem tentar mostrarao sonhador a importância da moral em sua vida. Sonhar com cristais O cristal, mais especificamente o diamante, sempre foitomado como um elemento puro e figurativo do equilíbrio pessoal,da transcendência. Seu simbolismo está associado ao Self,tornando-se sua imagem mais límpida. Sonhar com crianças Muitas vezes os sonhos com crianças, principalmentequando é o próprio sonhador que se reveste daquele papel,denota algo relacionado com sua “criança interior”. Podem trazeraspectos negativos da posição infantil do ego desperto comopodem representar sua simplicidade e pureza. A idade da criançabem como sua atitude no sonho serão relevantes para se obteruma melhor interpretação. Ao nível do objeto, podem representarvivências do sonhador quando no período da infância. Sonhar com maternidade
    • 101 “Mãe é um arquétipo que indica origem, natureza, oprocriador passivo (conseqüentemente, matéria, substância)e, portanto, a natureza material, o ventre, (útero) e asfunções vegetativas e, por conseguinte, também oinconsciente, o instinto e o natural, a coisa fisiológica, ocorpo no qual habitamos ou somos contidos.”32 Há sonhos que refletem situações referentes aos estadoscorporais, como afirma Patricia Garfield33 , cujo estudo serestringiu à mulher: “À medida que o corpo da mulher setransforma, passando da infância à adolescência, de um ciclomenstrual a outro, da virgindade à atividade sexual, daconcepção ao parto e da amamentação à velhice, essasmudanças se refletem no espelho dos seus sonhos. Todos ostraumas infligidos ao seu corpo por acidente ou por moléstiasão igualmente retratados nos sonhos. As transformações notamanho, na forma, na sensação ou no funcionamento docorpo da mulher, assim como suas emoções a propósitodessas mudanças, são reveladas pelas imagens que ela criaem seus sonhos.” Símbolos do Self O Self, enquanto totalidade psíquica e centro organizador,apresenta-se nos sonhos com aspectos variados, mas que,ordinariamente, ocupam posição de destaque na vida consciente.São símbolos comuns do Self, que surgem como imagensoníricas: o Sol, uma divindade, o diamante, o rei, a rainha, umapraça central, uma mandala, um círculo, uma esfera, umquadrado, a quaternidade, o centro, a cruz, o Cristo, um velho 32 C. G. Jung, Obras Completas Vol. XVI, par. 344. 33 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 146.
    • 102sábio, o Buda, um conselheiro, uma flor, uma bola, uma pirâmide,um cristal, um anel, o ouro, etc. Geralmente são símbolos queapareceram na história da humanidade significando um centroorganizador e ordenador. A solução dos problemas profissionais nos sonhos Não apenas dos problemas profissionais, mas também dequalquer problema, os sonhos podem se tornar poderosoinstrumento de auxílio, quando são colocados a serviço dessepropósito. Antes de dormir deve-se, além de desejar sonhar comdeterminado aspecto que envolva o problema que esteja maispreocupando, deve-se também propor uma solução para se ter aconfirmação ou a negativa através do sonho. Deve-se aguardar, àsvezes por alguns dias, os resultados. Eles poderão vir através dossonhos ou de intuições conscientes. Os antigos, na Grécia,costumavam incubar os sonhos, o que consistia em levar oindivíduo a um templo específico, a fim de que ele, ali dormindo,sonhasse e, com a proposta do sonho, resolvesse seu problema,fosse de saúde ou de outra ordem. Na análise dos símbolos contidos nos sonhos, Jungverificou as semelhanças existentes entre as imagens oníricas doser humano primitivo e as do ser humano moderno. Percebeu apresença de motivos mitológicos em ambos, o que denominou deimagens primordiais ou arquétipos (resíduos arcaicos, nalinguagem freudiana). Eles aparecem nos sonhos comoorganizadores do conteúdo inconsciente para percepção daconsciência.
    • 103 A estrutura do sonho Os sonhos geralmente têm uma estrutura típica: Exposição,Desenvolvimento, Clímax e Solução. A exposição é uma espéciede prólogo onde encontramos um cenário e, às vezes, aintrodução do problema ou a narração do tema. Nodesenvolvimento temos as peripécias e o desenrolar da história.No clímax ou impasse, também chamado de crise, geralmente sedá uma situação de tensão ou mudança. Na solução, ou lysis, quetambém pode não estar presente no sonho, encontramos aproposta final ou catástrofe, como chama Marie-Louise vonFranz34 . Muitos sonhos têm uma estrutura dramática clássica.Há uma exposição (lugar, tempo e personagem) que mostra asituação inicial do sonhador. Na segunda fase há umdesenvolvimento do enredo (ocorre a ação). A terceira fasetraz a culminação ou clímax (ocorre um evento decisivo). Afase final é o resultado ou a solução (se é que existe) da açãono sonho.35 Exposição ou situação é onde encontramos a indicação delugar, dos principais protagonistas, da situação inicial e o 34 O Caminho dos Sonhos, p.48. 35 Daryl Sharp, Léxico Junguiano, p. 153.
    • 104levantamento de questões; é nesse ponto inicial que costumamoslocalizar a questão problemática. Desenvolvimento oucomplicação é onde encontramos o enredo, que geralmente secomplica fazendo surgir, às vezes, uma tensão. Clímax: algodefinido acontece ou a situação muda; muitas vezes as situaçõesde tensão ocorrem em várias partes do sonho, não se restringindoa um só momento. Solução ou desfecho: nem todos os sonhos a têm, porémhá uma situação final, na qual uma proposta é colocada; quando asolução não é apresentada, o ego desperto deve buscar váriasalternativas para resolver seu conflito. Quando o desfecho dosonho é a parte considerada mais significativa e de maiorconteúdo emocional por parte do sonhador, costumo iniciar suaanálise por ela, questionando-lhe a que situação de sua vidaaquela situação, que está sendo apresentada, se refere. Em taiscasos é mais recomendado iniciar-se pela análise objetiva. Longe de serem mensagens aleatórias e sem conexão coma vida do sonhador, os sonhos se apresentam como um código aser decifrado por ele. Se sua estrutura não se apresentar coerenteou como o modelo apresentado acima, não significa que não devaser analisado. É exatamente por não estar de acordo com a lógicada consciência que deve ser buscado seu sentido. Geralmente têm uma estrutura central, enredo, foco oumotivo principal. Além desse foco, eles geralmente têm umaconclusão ou final significativo ao enredo. Suas imagens sãoelementos constitutivos, porém não únicos para seu significado.Além delas, cuja importância é fundamental, deve-se ficar atentoao sentimento do sonhador durante e depois do sonho. Eles sãoimportantíssimos para sua decifração. Quando ocorre na primeira fase do sono, geralmente ele serelaciona com aspectos da consciência e trata de temas emcontinuação ao estado de vigília. Quando o sonho se dá na
    • 105metade do sono, se relaciona com aspectos mais profundos doinconsciente. Quando ocorre no final do sono, geralmente serelaciona com aspectos que serão enfrentados pelo ego aoacordar. Essas fases estão relacionadas com a duração relativa dosono de cada pessoa. O sonho se assemelha a uma história, a um ato ou umaencenação proporcionada pelo sonhador. Encontraremos umaestrutura, um enredo, e, na grande maioria deles, há sempre umapersonagem principal. O sonhador poderá envergar a túnicadessa personagem ou ser um espectador ou ator. Mas mesmo naposição de espectador, ele deverá entender que cada personagemdo ato é parte sua que ali está sendo encenada. Cada atorrepresenta um pouco dele e cada enredo (se houver mais de um)poderá ser um complexo ou grupo de complexos, representados.Ali, naquelas imagens, poderá estar representada a história devida do sonhador, sem os inconvenientes do relato feito peloconsciente. Os sonhos não envolvem, necessariamente, tempo eespaço. Trazendo-nos a realidade do sonhador de forma amplacom conexões causais e também acausais e atemporais. Jung colocava36 que os sonhos, em geral, possuem umaestrutura dramática. A exposição continha as indicações de lugar,das personagens da ação e a situação inicial. Tudo isso é aexposição. No desenvolvimento da ação surge umacomplicação ou tensão. No seu enredo há um certo momento detensão, e quando acontece algo de decisivo ou uma mudança, elechama de culminação ou peripécia. A etapa final, chamada delysis, é a solução ou o resultado produzido pelo sonho. É asituação final ou resultado procurado. A falta de conclusãorepresenta um problema especial. 36 Obras Completas, Vol. VIII, par. 561s.
    • 106 Sonhos repetitivos O fato de chamarmos de repetitivos não significa dizer queeles sejam iguais. O sonho é sempre único, singular. Ele é comouma equação com várias incógnitas. Quando se pretendeinterpretá-lo, introduz-se mais variáveis, tipo: momentopsicológico do sonhador ou seu estado emocional, o lugar dainterpretação, quem o auxilia a interpretar e sua acuidade intuitiva,as associações, as amplificações, etc. A simples lembrança, face àlinguagem lógica do ego, produz alterações nos sonhos. É comum as pessoas relatarem sonhos repetitivos que, detempos em tempos retornam, onde ocorrem situações ou lugaresjá vividos em outros, ou que trazem os mesmos temas. Isso se dáem função da necessidade do ego consciente se aperceber dealgo muito importante. O sonho que se repete traz uma mensagemsignificativa para a vida do sonhador e sua interpretação é desuma relevância para seu destino. Os sonhos geralmente se apresentam em série e trazem umpadrão de mensagem a ser assimilada pelo ego desperto que, porser dotado de muita energia psíquica, não sintoniza facilmentecom a mensagem que o Self lhe envia. Essa série pode aparecerem sonhos de uma mesma noite assim como em sonhosespaçados em dias ou mesmo em anos.
    • 107 Esse padrão se repete pela constelação de um ou maisarquétipos que, através dos complexos, predominam nos sonhos.A repetição se dá na tentativa do sonhador dar-se conta de seuscomplexos, que necessitam de conscientização por parte do egodesperto. Há casos em que os sonhos se repetem trazendo pequenasdiferenças entre uns e outros, mas com a mesma temática. Essaspequenas diferenças são pistas valiosas para sua compreensão.Nelas encontramos elementos simbólicos que visam cada vez maiso esclarecimento do sonhador. Eles desaparecem na medida que seus recados sejamentendidos, isto é, quando o sonhador se dá conta de seucomplexo e trabalha pela sua dissolução. A partir daí os sonhosterão novas temáticas, conduzindo o sonhador no processo dedesenvolvimento de sua personalidade. Mesmo numa série de sonhos pode haver um ou mais,intercalados, que destoam da temática dos outros; tal ocorre pelanecessidade da consciência de estabelecer paralelos comprocessos psíquicos que se correlacionam, porém se distanciamno tempo. Há pessoas que nunca esquecem determinado sonho, de talforma que as imagens nele produzidas perseguem a vida dosonhador por muitos anos, influenciando, inclusive, suas atitudesde forma imperceptível. Esses sonhos são fundamentais ecostumam surgir nos momentos decisivos da vida do ser humano. Jung denominava esses sonhos de recorrentes. Ele afirmou:“Esse tipo de sonho é em geral uma tentativa decompensação para algum defeito particular que existe naatitude do sonhador em relação à vida; ou pode datar de umtraumatismo que tenha deixado alguma marca. Pode tambémser a antecipação de algo importante que está para
    • 108acontecer.” Eles ocorrem na primeira infância, na adolescência ena meia idade.
    • 109 Somatização dos sonhos Jung coloca37 que “em algum lugar a alma é corpo vivo,e corpo vivo é matéria animada; de alguma forma e emalgum lugar existe uma irreconhecível unidade de psique ecorpo que precisaria ser pesquisada psíquica e fisicamente,isto é, tal unidade deveria ser considerada pelo pesquisadorcomo dependente tanto do corpo quanto da psique.” Adam Zwig38 citando B. Siegel, em Love, Medice, andMiracles, lembra uma interpretação de Jung de um sonho de umpaciente seu, em que ele vê uma lagoa e um mastodonte e éaconselhado, por Jung, a verificar se não havia algum bloqueio dofluido cérebro-espinhal. Marie-Louise von Franz coloca39 que alguns sonhos comcobras ou insetos, por exemplo, podem ocorrer quando háperturbações do sistema nervoso simpático e que, algunsarquétipos estão ligados a certas áreas específicas do corpo,denunciando sua situação através dos sonhos. Sabemos que alguns sonhos eróticos em determinadosindivíduos, sob certas condições, podem provocar o orgasmo, 37 C. G. Jung, Obras Completas, Vol. VI, par. 1031. 38 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 81. 39 Os Sonhos e a Morte, p.120.
    • 110interferindo assim no organismo do sonhador. Da mesma forma, adepender do estado físico do sonhador e do tipo de sonho, elepoderá trazer ao corpo aspectos que poderão provocar doenças.Algumas doenças, inclusive, são antecipadas nos sonhos; nessecaso, eles não serão causadores, mas sinais de alerta. Podemosperguntar: – se os sonhos curam, porque eles também nãopoderiam causar problemas de saúde? Se eles causassem taisproblemas, que mecanismo seria responsável por essa fatalidadepsicossomática? O estudo sobre a influência de sonhos traumáticos comoindicadores de advertências de grave moléstia encoberta, é citadopor Robert Smith no livro Decifrando a Linguagem dos Sonhos,à página 209. Para ele, esses sonhos são advertências, como umabandeira vermelha ou sinais de perigo, do sofrimento psicológicoencoberto do sonhador. Sua análise se refere a pacienteshospitalizados, não se aplicando aos sadios. Independente das teorias sobre os sonhos, elesrepresentam sintomas de algo que se processa num nívelinacessível à consciência no instante em que ocorrem. Sãosintomas da atividade psíquica, como afirma Jung, quer sejamprenúncio de doenças ou não; algo ocorre, e eles avisam, abaixodo nível da consciência. Invariavelmente os sonhos dizem mais respeito àpersonalidade do que ao corpo, muito embora haja aqueles queatuam como prognósticos em relação a aspectos orgânicosparticulares. Jung, no que diz respeito aos sonhos se referirem aaspectos orgânicos, escreveu40 : “Os sonhos endógenos dizemrespeito exclusivamente aos complexos, e os exógenos, isto é,os sonhos influenciados ou gerados por estímulos corporais 40 Obras Completas, Vol. III, nota 146 do par. 163.
    • 111que se dão durante o sono são, tanto quanto pude observaraté hoje, fusões de constelações do complexo comelaborações mais ou menos simbólicas da sensaçãocorporal.” Noutro trabalho, Jung interpreta dois sonhos de umajovem, cujo desfecho é letal, que apresentam, segundo ele, ostraços indicativos de uma doença orgânica grave, mas que não sereferiam diretamente à morte, muito embora entendesse que issopudesse ocorrer em certos sonhos. Na análise de Jung41 , vê-se aidentificação, em símbolos específicos, do aspecto autodestrutivoprognosticado nos sonhos do paciente. 41 Obras Completas, Vol. XVI, par. 343s.
    • 112 Das imagens à interpretação descritiva na linguagem do consciente É necessário levantar-se um questionamento dialético sobreos sonhos: independente de seus significados, eles devem servistos como uma pergunta ou como uma resposta para osonhador? Muito comum que se queira entender os sonhos comouma resposta aos conflitos do sonhador, tendo em vista suautilização no passado. Na Grécia eles eram usados com a funçãode trazer tais respostas, através dos íncubos. Porém, o sonhadordeve ficar atento a essa armadilha cujo poder é muito grande. Ossonhos podem, e geralmente o fazem, trazer questões ao ego,mais do que respostas. As respostas ou perguntas trazidas nos sonhos se referemao momento presente, aos períodos da infância, à vida como umtodo ou ao futuro do sonhador? Esse é outro cuidado que tanto osonhador quanto o analista devem ter na análise dos sonhos.Escolher a alternativa adequada nem sempre é tarefa fácil,exigindo perspicácia e paciência. As associações e amplificações
    • 113serão relevantes para se obter a resposta mais adequada a essapergunta. Outra questão que se levanta é quanto à aplicação que sedeve dar ao entendimento do sonho. Ele deve levar o sonhadorpara fora (mundo da persona) ou para dentro (mundo dasombra)? As perguntas ou as respostas advindas das imagensoníricas deverão levar a uma reflexão sobre as atitudes externasou sobre reflexões (atitudes) internas? A solução desse conflitopoderá vir a partir da análise de uma série de sonhos e n ãoapenas de um ou de uma particularidade dele. Os sonhos se formam pelo conjunto de imagens forjadaspela interação entre a vida psíquica inconsciente e a consciente.Eles não são a linguagem do inconsciente, mas representamaquela linguagem que, para aflorar à consciência, isto é, parachegar ao seu destino, o ego, solicita as imagens codificadas noinconsciente e as imprime no córtex. O “recado” do sonho, vindodo centro organizador do psiquismo, sofre alterações peloselementos existentes no i consciente e utiliza-se dos códigos de nimagens presentes na consciência, reorganizando-os de acordocom seus objetivos. O sonho é resultante : 1. De uma mensagem do centro organizador da vida psíquica; 2. Da interferência que essa mensagem sofre na passagem pelos conteúdos inconscientes; 3. Das imagens-símbolos disponíveis no córtex, em forma de códigos; 4. Do estado de espírito do sonhador em relação à sua vida consciente.
    • 114 A interpretação dos sonhos pode se dar apenas paraalcançar quais os fatores inconscientes que interferem na vida dosonhador. Geralmente as terapias só alcançam os primeiros níveisdo inconsciente (quando alcançam). Os n íveis mais profundos,isto é, de onde provém a mensagem, dificilmente têm sidoalcançados. A mensagem do sonho representa, muitas vezes, umacorreção de rumo na vida do sonhador. O inconsciente tem sua própria linguagem, cujos sinais nãose assemelham àqueles constantes na linguagem da vidaconsciente. Para se fazer entender, o Self utiliza os símbolosdisponíveis e compreensíveis ao ego desperto. A mensagemtraduzida da linguagem singular do inconsciente, chega para amente consciente através de imagens sensoriais, visuais, auditivas,proprioceptivas ou cinestésicas. Jung, consciente da riqueza do mundo inconsciente,costumava buscar em seus próprios pacientes e em suacapacidade de imaginar e recriar símbolos, os significadosprofundos da linguagem onírica vinda do inconsciente. Eleafirmou: “Observei muitos pacientes cujos sonhos indicavamrico material produzido pela fantasia. Estes pacientestambém me davam a impressão de estarem literalmentecheios de fantasias, mas incapazes de dizer em que consistia apressão interior. Por isto, eu aproveitava uma imagemonírica ou uma associação do paciente para lhe dar comotarefa elaborar ou desenvolver estas imagens, deixando afantasia trabalhar livremente. De conformidade com o gostoou os dotes pessoais, cada um poderia fazê-lo de formadramática, dialética, visual, acústica, ou em forma de dança,de pintura, de desenho ou de modelagem.”(...) “,... euobservei que este método muitas vezes diminuía, de modoconsiderável, a freqüência e a intensidade dos sonhos,reduzindo, destarte, a pressão inexplicável exercida pelo
    • 115inconsciente. Em muitos casos, isso produzia um efeitoterapêutico notável, encorajava tanto a mim como o pacientea prosseguir no tratamento, ...”42 42 C. G. Jung, Obras Completas Vol. VIII par. 400s.
    • 116 Como interpretar os sonhos Interpretar os sonhos não é um simples exercício intelectualnem uma atividade professoral. Seu campo pertence à esferaemocional e intuitiva, onde os insights possibilitam uma apreensãodo significado necessário e do sentido de suas imagens oníricas.Além do uso do conhecimento técnico, deve-se utilizar,sobretudo, a sensibilidade e a intuição. Muito embora se possaconsiderar o intérprete de sonhos um simples tradutor, o que nãolhe outorga portanto a ciência completa de seus significados, essepapel não é mecânico. Não se trata de traduzir linearmente ossímbolos, mas de penetrar numa história real, de formaconsciente, entendendo que seu inconsciente também enviará osnecessários insights, como uma espécie de intuição, para acompreensão dos significados simbólicos e dos sentimentos a elessubjacentes. Na interpretação de um sonho, analista e sonhador,devem chegar, através das associações e das questões levantadase respondidas, às conexões emocionais que os símbolos contêm.São essas conexões emocionais que farão o sonhador alcançar osentido e o significado do sonho e, principalmente, seuscomplexos. As interpretações das imagens oníricas requerem oconhecimento, pelo analista, da personalidade do sonhador. Essa
    • 117condição pode, de certa forma, interferir na análise dos sonhos,pois o analista tenderá a encaixar as imagens trazidas à realidadedo sonhador, como uma obrigação e um limite. É claro que nãose pode dissociar os símbolos oníricos da realidade do sonhador,porém não se deve ter isso como uma camisa de força, tendo emvista a condição prospectiva e numinosa dos sonhos. O exercício da interpretação de sonhos, ao lado de seconstituir numa forma de alicerçar o conhecimento sobre seusignificado profundo, serve também para o desenvolvimento deuma faculdade humana extremamente importante no exercícioprofissional de um analista, que é a intuição. Aprender a captar ossinais do próprio inconsciente, como um artista faz quando seinspira ao compor uma obra, é exercitar a arte de comunicar-secom seu próprio Self. Qualquer interpretação dos sonhos não pode prescindir dasensibilidade emocional nem se precaver contra as armadilhaslógicas do intelecto. À exceção dos casos cuja ansiedade sejavisível ou quando ele não anotou o sonho, costumo acolher ossonhos de meus pacientes e buscar trabalhar com eles na sessãoseguinte à apresentação, tendo em vista a necessidade de evitar aprimeira interpretação que me vier à mente. Levo-os comigo, leio-os, e depois busco estudá-los para iniciar, posteriormente, aanálise. Ainda não sei avaliar se é melhor analisar o sonho quandoestá “fresco” na memória do sonhador ou, mais tarde, lê-lo einterpretá-lo numa sessão na qual ele não esperava que o fizesse. Aconselho sempre as pessoas que desejam estudar a artede interpretar os sonhos a reler as estórias e contos infantis quefazem parte do repertório cultural do universo teórico não só desua época como mais antigos. Penetrar no mundo simbólico damitologia e das tradições populares se constitui num início depreparo para aquele mister especial. Os contos de fadas, osmitos, as tradições folclóricas contêm ricos materiais para a
    • 118compreensão dos símbolos oníricos coletivos. As interpretaçõesdevem examinar as similaridades estruturais, temáticas eemocionais presentes nos sonhos e nos temas mitológicos. Além do conhecimento técnico a respeito dos sonhos e dahabilidade prática em lidar com análise, é necessário que todoanalista, que no fundo é um facilitador, um parteiro, possuasobretudo humildade para interpretar as imagens oníricas de seupaciente a fim de estabelecer as conexões favoráveis ao equilíbriopsíquico. A interpretação dos sonhos é uma arte que mereceequilíbrio, discernimento e harmonização, pois ela ocorre no lugarsagrado (temenos) de uma terapia. É também uma atividade querequer grande esforço mental e que exige também consideráveldesprendimento de energia física e psíquica. Nesse trabalho, qualquer interpretação preconcebida oupadronizada poderá vir em prejuízo da compreensão dosignificado dos sonhos. Da mesma forma, qualquer preconceitoreligioso, cultural ou algum tipo de rejeição contra-transferencialserá um impedimento real para a percepção do significado dosonho. Jung dizia que métodos e regras são bons quandopodemos prescindir deles para trabalhar. Devemos sempre nos precaver quanto à análise imediata eprecipitada do conteúdo manifesto nos sonhos ou de seusfragmentos. Sua aparente inteligibilidade pode levar a umapercepção equivocada de seu significado. É certo que algunssonhos apresentam uma história verossímil, mas deve-se buscarseu significado subjetivo, que nem sempre é percebido à primeiravista. A análise deve sempre procurar um ou m significados aisexistentes e que não se mostram imediatamente à consciência.Esse conteúdo não manifesto, a que Freud chamou de latente,pode ser entendido à semelhança da moral existente por detrás de
    • 119uma fábula, que facilmente uma criança capta ao ouvir, conformeassinalou Jung.43 Os sonhos não ocorrem para serem interpretados. Sãoprodutos espontâneos da atividade psíquica cuja interpretaçãovisa auxiliar o sonhador no seu processo de individuação. Elesfazem parte da tarefa de auxiliar o sonhador nessa empreitadasolitária, e solidária ao mesmo tempo, de descobrir sua própriasingularidade. Eles são como sentinelas que alertam quanto àscorreções de rumo do navegador solitário em noite escura natentativa de chegar ao seu porto. Há sonhos, ou parte deles, que não devem serinterpretados. O analista não deverá interpretar quando verifica,não só pelo conteúdo do sonho como também a partir de outrasobservações, que o seu paciente, naquele momento, não está emcondições de lidar com aquele aspecto de seu enredo. Tomar-se apenas a tarefa de interpretar puramente ossímbolos contidos nos sonhos, desprezando os sentimentos e osaspectos que dizem respeito à formação do simbolismo na vida dosonhador, pode conduzir ao equívoco de apenas trazer um estudológico e coerente à consciência sem penetrar no processo de curado indivíduo. A análise e interpretação dos sonhos, num momentode terapia, não devem se transformar num campo de testes dointelecto ou na tentativa de se confirmar teorias preconcebidas. Ésobretudo um exercício de empatia para com o sonhador. Noexercício da interpretação, é preciso encontrar algo no sonho queimplique num certo consenso ou concordância interna dopaciente, o que, às vezes, ocorre de forma inconsciente. Interpretar os sonhos não é um exercício decorrespondência entre elementos, como numa prova escolar demúltipla escolha. Não existem interpretações padronizadas e 43 Obras Completas, Vol. VIII, par. 449.
    • 120estabelecidas por um compêndio pertencente a um saberestabelecido e universalmente aceito. É atividade onde váriosfatores interferem, inclusive o momento, o local, o sentimento e,principalmente, o estado de espírito do sonhador, real intérpretede seu próprio sonho. Numa mesma pessoa, em sonhosdiferentes, ou no mesmo sonho, idênticas imagens podem tersignificados distintos, a depender do momento de vida dosonhador e da seqüência delas. O cuidado na interpretação dos sonhos de um paciente vaidesde a construção teórica que o analista faz daquilo que elepresume seja o inconsciente e o consciente do outro, até a formacomo ele apresenta sua vida consciente. Ambos os aspectos sãoreelaborados pelo analista, principalmente a construção doinconsciente de seu paciente. A lembrança de uma particularidadeda vida, principalmente da infância ou do principal conflito dele,pode ser tomada como relativo àquele símbolo ou imagem dosonho. Esse procedimento pode ser um equívoco que,provavelmente, será corrigido por outro sonho. Na interpretação pode-se começar do geral para oparticular ou do particular para o geral, após questionar-se aopaciente como ele prefere. Sua preferência pode ser umimportante balizador para o significado do sonho pela escolhaanalítica ou sintética. Geralmente as pessoas costumam preferir aescolha analítica pelas interrogações que os diversos símbolostrazem. Nesse caso deve-se cuidar para não se perder o objetivogeral do sonho. O método de interpretação analítico, do particularpara o geral, que busca significados para cada seção do sonho,não despreza a interpretação sintética, do geral para o particular,na qual um objetivo maior está por trás do conteúdo lembradopelo sonhador. Às vezes, quando o sonho é muito longo, peço ao meupaciente que escolha uma parte do sonho para análise,
    • 121preferencialmente aquela que mais o impressionou. Desse modofocamos o complexo que se manifesta no sonho, pois, às vezes,essa mesma estrutura se encarrega de “florear” o enredo,dificultando sua percepção. Mesmo fracionando o sonho, não sedeve perder de vista sua mensagem global. Muito embora se empregue na interpretação dos sonhos alivre associação, temos que entender melhor esse conceito que,de forma alguma, significa colocar o pensamento a serviço deidéias que nada tenham que dizer em r elação ao conteúdo dosonho. Por livre associação devemos entender a busca porconceitos que possam estar conectados às imagens do sonho eque tenham significado próprio para o sonhador. No momento emque ele busca estabelecer associações das imagens com seuspróprios conceitos e sentimentos, o analista deve auxiliá-lo sem noentanto interferir com os dele. Para a análise e interpretação dos sonhos alcançar umaidentidade com as idéias geradas no inconsciente, coletivo oupessoal, o analista deverá munir-se de conhecimentos demitologia, história das religiões, filosofia, antropologia cultural,folclore, além da vida pregressa do sonhador, a fim de poderestabelecer os paralelos necessários com as imagens formadas.Naqueles campos do saber se situam imagens significativas daexperiência humana, com as quais se podem estabelecer paralelosarquetípicos interessantes. Mesmo assim, ainda não será possíveluma interpretação completa, definitiva e real das imagens oníricas.Esses paralelos arquetípicos poderão levar o sonhador a sentir umcerto deslocamento da análise pessoal para um campoemocionalmente distanciado de seu conflito. A necessidade de expressar os conteúdos inconscientes,oníricos ou não, através de palavras, isto é, em expressõesverbais, não pode ser considerada como a única forma dediminuir as pressões internas. Métodos como a dramatização, a
    • 122visualização, a sonorização, a dança, a pintura, o desenho, obordado, a modelagem, a meditação e outros, também se revelamválidos e de resultados idênticos, além de, muitas vezes, seremcomplementares ao relato verbal. Há sonhos que não precisam ser interpretados, isto é, quesão apenas retratos, semelhantes às radiografias, dos processosda psiquê no que diz respeito à atuação do Self no trabalho deredirecionar os complexos a serviço do processo deindividuação. Algumas pessoas têm mais facilidade em entender seuspróprios sonhos que outras. Isso se dá em função de suacapacidade de suspender ou relativizar as exigências do egodesperto no sentido de não lhe permitir estabelecer (pre)conceitosao lembrar dos sonhos. Os sonhos que nos colocam em situação de visívelinferioridade tendem a dificultar uma interpretação isenta por partedo ego desperto, que nem sempre deseja situar-se em posição deinferioridade, de necessidade de mudança. É conveniente não interpretar o sonho imediatamente nahora que se recordou dele ou que o anotou, muito embora osonhador deva registrar suas impressões iniciais. Procure, casoesteja em terapia, levar seus sonhos à análise com seu terapeuta.Caso não esteja, busque interpretá-lo ao final do dia, quandoestiver mais relaxado. Nesse momento relate-o a alguém epergunte-lhe o que acha; mesmo que a opinião da pessoa sejapueril, pois ela poderá lhe despertar uma outra naquele momento. Para iniciar a interpretação de um sonho deve-se classificá-lo de acordo com sua natureza, isto é, se é simbólico, se é sonhocriativo, se é premonitório, se é espiritual, se é regressivo ou se ésonambúlico. Feita essa classificação, pode-se escolher a formamais adequada a trabalhar com o material onírico ou parte dele,face à possibilidade de um mesmo sonho apresentar mais de uma
    • 123natureza, o que exigirá uma certa habilidade do analista em saberdistingui-las. O conhecimento relativo que tenha de cada uma dasáreas correspondentes à natureza do sonho será fundamental aoseu trabalho. O ponto de partida para a interpretação dos sonhos é fazerperguntas. Saber elaborar e levantar questões fundamentais é desuma importância na análise e interpretação dos sonhos.Perguntas do tipo: o que lhe pareceu esse sonho? O que lhesugere tal imagem? Você vê alguma correlação entre essasituação do sonho e seu momento atual? O que tal personagemsentiu durante aquele momento? Que sentido tal sonho tem paravocê? Você se lembra de algum fato ao qual este sonho possaestar se referindo? O que lhe chamou a atenção neste sonho? Etc. A análise e interpretação de um sonho requerem muitocuidado e flexibilidade, pois sua mensagem diz respeito aosonhador. Interpretar-lhes é perscrutar segredos, o que requerenvolver-se com a vida do sonhador, conhecendo-lhe seuspensamentos e atitudes mais particulares, bem como penetrar emconhecimentos pertencentes às culturas da própria humanidade.Isso requer certa perspicácia e discernimento pelo analista, quedeve acautelar-se contra as interpretações apressadas a fim desatisfazer seu próprio ego, que, às vezes, deseja surpreender seupaciente com revelações novas. É bastante conhecida a análise que Jung faz de um sonhoseu, no qual ele se vê na sala do primeiro andar de uma casa que 44era a sua, com mobília estilo século XVIII. O sonho prosseguecom a descida aos andares inferiores, passando pelo subsolo,porões e, por fim, chegando a uma gruta, onde encontra duascaveiras. Jung apresentou uma forma peculiar de entender ossímbolos nele contidos. Ele vai desde a filosofia, passando pela 44 O Homem e seus Símbolos, p. 56.
    • 124religião, chegando até a paleontologia, na análise de seu própriosonho, não se detendo nos aspectos conscientes e extrapolandoos fatos pertencentes ao seu dia-a-dia. Embora Jung chame atenção às generalizações que se podefazer a respeito de teorias em Psicologia, ele alerta quanto aoconfronto de dois indivíduos, o analista e seu paciente, na hora dese interpretar os sonhos. Esse confronto poderá ser facilitado seambos forem do mesmo tipo psicológico. Mas, se forem de tiposdiferentes, poderão entrar em choque. O introvertido se inclinarápara uma análise segundo seus sentimentos e pensamentosíntimos, o extrovertido para suas atitudes e sensações externas. Oanalista deverá estar atento ao seu tipo psicológico e à sua funçãopsíquica predominante, além de se precaver quanto às projeçõesque venha a fazer. Na interpretação dos sonhos é interessante conhecer o tipoe a função predominante do sonhador. O tipo introvertido, porexemplo, poderá apresentar um padrão de atitude na análiseexatamente oposto à sua atitude consciente. A depender dasimagens oníricas apresentadas, as interpretações serãoestabelecidas de acordo com a função superior, pois os sonhostenderão a mostrar a função inferior. A tendência do ego é usar afunção superior no momento da interpretação. A análise de um sonho pode ser subjetiva ou objetiva. Aanálise ao nível do objeto, portanto objetiva, refere-se aoselementos oníricos como eles se apresentam nos sonhos. Aanálise ao nível do sujeito, portanto subjetiva, psicológica, refere-se à vida psíquica do sonhador. Em ambas deve-se permitir, deinício, a livre associação por parte do sonhador. As interpretações objetivas nos levam a acreditar que oconteúdo dos sonhos é expresso como sinais que se referem aomundo externo, numa correspondência linear. A tradução damensagem expressa nos sonhos não deve perder de vista o
    • 125caráter simbólico das imagens gravadas. Além de sinais, hásímbolos que expressam sensações ou experiências quetranscendem a vida cotidiana, como também aspectosinconscientes do sonhador. Tais símbolos são mais prospectivosdo que superficiais. A tendência da análise junguiana é consideraresses símbolos como referentes à atividade intrapsíquica dosonhador, portanto, subjetivamente. Nas interpretações dos sonhos deve-se atentar para oselementos contraditórios que apresentam, sobretudo aqueles quesurgem apresentando imagens com elementos em transformaçãopelo embate e oposição. São pontos focais importantes na vidado sonhador que, na análise, deve ser questionado sobre o queacha daqueles pontos, o que sente e pensa a respeito, comotambém sobre o ritmo do sonho, sobre as cores, sobre aproporção das figuras, etc. Aqueles pontos de contradição nãodevem ser tomados como algo apenas pertencente à sua esferaconsciente, mas, principalmente, ao que lhe é desconhecido daconsciência. As tentativas de se interpretar os sonhos nem sempreredundam em êxito, considerando-se que se está sempre dianteda necessidade de uma tradução para a linguagem do consciente.Quem traduz, trai, (traduttore tradittore). O sonho deve entãoser aceito como ele é, como uma ocorrência natural e nãoenganosa. Não se trata de uma falsa imagem a ser passada aoconsciente ou um mecanismo de defesa contra o ego e seusequívocos. Embora sua linguagem seja metafórica, não éenganosa ou dissimulada. Quando, num sonho, houver um relato em que um ruídoexterno interferiu na elaboração ou penetrou seu enredo, oanalista deve ficar atento às interpretações apressadas ou mesmoa querer, simploriamente, desprezar aquela parte. Asinterferências externas podem, por sincronicidade, ser elementos
    • 126importantes na formação dos sonhos. São símbolos que teimamem fazer parte do sonho. Bem como devem ser observadas asposturas corporais do paciente enquanto ele relata seu sonho aoanalista. Muitas vezes ele busca uma posição ou executainconscientemente um movimento que pode fornecer uma pista àcompreensão de seu sonho.45 O analista, antes de tentar fazer associações nos sonhos deseus pacientes, deve, ao ouvi-los, preocupar-se em descobrir quala pergunta que deve ser feita e em que momento fazê-la.Acreditar que já se sabe o que um sonho está dizendo, geralmentesignifica perder a oportunidade de descobrir seu significado. Ouvirmais do que falar é fundamental para uma melhor “escuta” dosonho. A pretensão do saber impede o verdadeiro saber. Narealidade o pior cego não é aquele que não quer ver, mas, o quepensa que está vendo e acredita que sua visão é a verdadeira eque contém todos os instrumentos necessários para enxergar. Acegueira é o preconceito ou a certeza de que se sabe. Interpretar um sonho é como deslindar um enigma, cujosignificado transcende, às vezes, a própria vida do sonhador,atravessando fronteiras inimagináveis ao senso comum bem comoàs nossas concepções de verdade, de tempo e de espaço. Oriento meus pacientes a analisar os vários personagens deseus sonhos não só como aspectos de sua própria personalidade,mas também como entidades introjetadas, com as quais mantémpermanente diálogo inconsciente. Uma interpretação, por mais correta que seja, não é capazde esgotar as possibilidades de entendimento de um sonho. Eladeve situar-se nos limites do quanto possa interessar ou baste àconsciência. Pode-se levá-la aos primórdios da vida do sonhador; 45 Whitmont e Perera, Sonhos, um porta l para a fonte, p. 55.
    • 127é indicado explorar apenas os elementos tão somenteindispensáveis à compreensão do sonho 46 . Para se interpretar os próprios sonhos, em conjunto comalguém, deve-se seguir alguns passos fundamentais para sealcançar relativo sucesso. A seqüência é a seguinte: a) lembrar dosonho; b) registrar o sonho; c) amplificar o sonho com asassociações possíveis; d) perceber sua estrutura; e, finalmente, e)verificar sua finalidade e propósito para o ego desperto. Pode-se,para alcançar isso, explorar o seguinte: 1. Verificar sentimentos, questionando-se – o que sentiu durante o sono? – o que sentiu ao acordar? 2. Fazer associações lógicas – globais: Qual o significado que você deu a esse sonho na sua totalidade? – parciais: O que lhe sugere tal situação (específica, do sonho)? O que lhe sugere tal imagem do sonho (coisa ou pessoa)? – o que tal pessoa é para você? – qual a correlação que você faz entre essa situação específica (ou todo o sonho) e outro sonho anterior? – você vê algum sentido nesse sonho, ou em parte dele, em relação a determinada situação-conflito do estado de vigília? – esse sonho faz lembrar de algum episódio passado? 46 C. G. Jung, Obras Completas, Vol. VIII, par. 454.
    • 128 – esse sonho faz lembrar de alguma situação consciente que você enfrentará adiante? 3. Verificação de modificações e transformações – após esse sonho o que mudou em você, isto é, como você se sente? – que você pensa, ou sente, agora, após esse sonho, em relação a determinada situação-conflito do estado de vigília? 4. Verificação de identificações – verificar se é enfocada a sombra – se há foco em alguma persona – se se refere à dinâmica transferência/contra- transferência. – qual ou quais os complexos presentes. Toda interpretação de um sonho significa sua degradação.A consciência tentará apreender seu significado a partir de seuspróprios referenciais (da consciência). É como traduzirliteralmente um texto escrito em outro idioma. Sonhar, lembrar,anotar, interpretar, são instâncias diferentes que significamalcançar um nível último e de interferência mínima na mensagemenviada. Sempre achei que o ego vígil não é o melhor intérprete dossonhos do sonhador. Quem sonha não é esse ego, pois algo (osonho) é produzido para ele, mesmo que ele tenha tido a intençãode sonhar. Se sua leitura devesse ser feita de maneira direta, elenão viria na forma de imagens simbólicas. O analista pode solicitara alguém que nada entenda de sonhos para ajudá-lo a interpretarseus próprios sonhos quando não o faça com um colega seu, e,mesmo que a interpretação seja esdrúxula, ela pode levar o
    • 129analista a ter um insight naquele momento e assim entendermelhor seu próprio sonho. Os sonhos costumam tocar o pontocego da consciência, tornando difícil a interpretação delessomente pelo próprio sonhador.47 O ego quando quer interpretar um sonho, geralmenteprocura relacionar seu conteúdo ou as emoções por eledespertadas, aos aspectos disponíveis na consciência. Pode-sever esse exemplo nas interpretações dadas por Sigmund Freudem seu livro A Interpretação dos Sonhos. A interpretação deseus próprios sonhos se baseou em aspectos exclusivamenteconscientes, do domínio do ego. Isso não quer dizer que ainterpretação tem equívocos, mas que atende a uma disposiçãodo ego desperto. É sempre conveniente fazer interpretações dos própriossonhos com a ajuda de alguém que servirá como uma espécie dealterego a estabelecer associações sem a censura e os limites doego do sonhador. Os objetivos da mensagem do sonho podemnão ser integralmente atingidos se o sonhador não buscar o auxílioadequado para sua interpretação. Quando um sonho de um paciente me parece confuso,penso que também o pode estar sendo para ele, então lhe peçoque repita a leitura do sonho. A repetição ajudar-me-á a melhorentendê-lo e o conduzirá a uma escuta de si mesmo, o que poderáestabelecer conexões antes não havidas. Se o exercício de interpretação dos próprios sonhostornar-se uma tarefa que redunde em perturbação interior, deve-se interrompê-la e procurar uma ajuda profissional. Essaperturbação pode se dar pela conexão com complexos quepodem, após as interpretações, se constelar na consciência sem adevida percepção pelo sujeito. 47 Marie-Louise von Franz, O Caminho dos Sonhos, p. 27.
    • 130 A experiência do analista, na análise e interpretação dossonhos de seus pacientes, poderá levá-lo a identificar, atravésdeles, quando um tratamento pode ser modificado, quando assessões poderão ser mais espaçadas ou quando ele deve alterar ocurso da terapia. O analista deve se precaver contra as interpretaçõesredutivas e reducionistas, quer no que diz respeito a “levar”excessivamente para a “tradução” das figuras oníricas comopersonagens do mundo desperto do sonhador, como referentes àsua infância, quer a acreditar que tratam das complexas relaçõesda transferência e contratransferência ou, ainda, que estãotrazendo núcleos arquetípicos, por isso mesmo suscetíveis àsfantásticas amplificações. Jung coloca48 que é insuficiente aredução dos componentes do sonho às conexões que o sonhadorpossa fazer com os fatos que se lembre da vida desperta. Importasaber, mais do que os significados particulares dos símbolosoníricos, por que aquelas imagens foram as escolhidas e com quefinalidade elas estão agora associadas psiquicamente. Jung não desprezou a análise redutiva, porém não se detevenela como única forma de se buscar as causas dos conflitos. Aanálise prospectiva, que aponta para onde está indo odesenvolvimento psíquico do sonhador, também foi por eleexplorada. Nos sonhos onde a infância do sonhador, bem comolocais que pertenceram ao seu passado, surgiam como imagensoníricas, necessariamente não seriam objeto apenas de umaanálise redutiva, mas, também, prospectiva sobre seus significadospara o processo de desenvolvimento do sonhador. 48 Obras Completas, Vol. VIII, par. 453.
    • 131 Amplificações dos sonhos Jung colocava que a amplificação enriquece o sonho,tornando-o compreensível. Em Psicologia e Alquimia eleafirmou: “O sonho é uma insinuação demasiado vaga para oentendimento, devendo portanto ser enriquecido com omaterial associativo e analógico e reforçado até tornar-seinteligível.”49 Trata-se da necessidade de estabelecer-seconexões e ligações com aspectos que não estejam, no momento,conscientizados, mas que, com o auxílio de alguém, podemalcançar sentido. Amplificar é desenvolver as particularidades de um assunto.A amplificação de um sonho é a tentativa de interpretação de suasparticularidades com o sonhador. Tende a buscar nas imagensoníricas os conteúdos arquetípicos em apoio à sua melhorcompreensão. Essa técnica é uma faca de dois gumes, pois podelevar a uma generalização que atende ao intelecto do analista, masque geralmente se afasta do núcleo emocional do complexo dosonhador. Torna-se positiva quando o sonhador sente que seusonho lhe trouxe algo de solidário ou quando percebe que seutema é conhecido. Ele se sente da mesma forma que um doente 49 Obras Completas, Vol. XII, par. 403.
    • 132quando o médico diagnostica sua doença benigna. Asinterpretações arquetípicas devem ser feitas com bastante cautelatendo em vista a produção pouco comum de sonhos com temasmitológicos clássicos. Para Jung, essa é uma das técnicas fundamentais na análisedos sonhos. Amplificar é falar a respeito e explorar o sonho. Essatécnica não deve levar o sonhador a estabelecer uma crítica aosonho, considerando-o tolo, inconseqüente ou questionável. Todosonho traz em si uma mensagem importante que escapa àconsciência do sonhador. Deve-se procurar substituir os símbolos apresentados porpalavras genéricas como: algo, alguém, alguma coisa, etc. Osonho consegue com facilidade condensar, ou pelo menos,estabelecer uma analogia entre dois objetos externamentesemelhantes. Um dos trabalhos do analista é separar essesobjetos, identificando-os e depois buscar o contexto em que elesforam condensados. O sonho com alguém que possua um cargo de direção develevar a questionar-se o que representa a autoridade para osonhador; montanhas e muros devem levar a questionar-se sobreobstáculos; figuras do mesmo sexo devem l var a questionar-se esobre as relações do sonhador consigo mesmo; figuras do sexooposto devem levar a questionar-se sobre as relações dosonhador com o outro sexo; os sonhos em que o sonhador tenhaque fazer uma escolha sugerem a reflexão sobre decisões eposições a respeito de algo. Observe as contradições apresentadas nos sonhos. Elasestarão sinalizando para aspectos relevantes na vida do sonhador,via de regra, referindo-se à necessidade de mudanças. Deve-se evitar buscar uma interpretação imediata para umsonho. Há uma tendência em se interpretar os sonhos buscandorestringi-los aos episódios mais recentes da vida do sonhador. Os
    • 133sonhos podem apresentar aspectos que vão se desenrolar muitodepois do momento da lembrança ou aspectos de algo jáocorrido. É pela percepção da dimensão universal dos símbolos,presentes nas mais diversas culturas, que se consegue amplificaradequadamente um sonho. As amplificações dos sonhos são assinaladas por Hall50como semelhantes ao processo de “descascar” as camadas deum complexo e são factíveis em três níveis: as associaçõespessoais, as culturais e, por último, as arquetípicas. Emborareconheça a significação e a importância das interpretaçõesarquetípicas, ele não as considera indispensáveis num contextoclínico, provavelmente pelo seu caráter impessoal e distanciador. Segundo Hall, no trabalho psicoterapêutico: “Na amplificação de motivos oníricos, as associaçõespessoais devem usualmente ser mais importantes do que asaplicações culturais ou arquetípicas, embora alguns sonhos sópossam ser entendidos à luz de material transpessoal. Osonho ampliado deve ser firmemente colocado no contexto davida do indivíduo que o teve.” Não só os temas mitológicos se prestam às amplificações,mas os filmes, talvez porque eles os retratem subliminarmente. Osfilmes que porventura o terapeuta conheça, podem servir com omesmo propósito dos mitos. Algumas vezes sugiro aos meuspacientes que assistam esse ou aquele filme a fim de entenderemmelhor a si mesmos, e que leiam antigos contos de fadas ousimplesmente livros que possam trazer alguma lucidez sobredeterminado tema. Os temas mitológicos, por pertencerem aoinconsciente coletivo, estão também presentes nas produçõesculturais contemporâneas. 50 Jung e a Interpretação dos Sonhos, p. 44.
    • 134 Uma análise psicanalítica Sem sombra de dúvida o livro de Sigmund Freud AInterpretação dos Sonhos (Die Traumdeutung), escrito em1899 e editado em 1900, pode ser tido como um marco noestudo dos sonhos, tendo em vista a profundidade e coerênciacom que ele trata do tema. Em princípio, ele faz uma retrospectivahistórica sobre o assunto, citando quase uma centena de autores ediscorrendo a respeito das opiniões de cada um, após o quedesenha toda uma teoria sobre os sonhos calcada em cima deseus estudos sobre o psiquismo humano. Ele considerava os estímulos somáticos como fontes queatuavam adicionalmente aos estímulos psíquicos, mas não comofontes exclusivas para a produção dos sonhos. Sua definição clássica sobre sonhos está na frase por eleescrita em 1900:“A interpretação dos sonhos é a via real que leva aoconhecimento das atividades inconscientes da mente.” Mais tarde, em 1932, ele conclui dizendo:“O sonho que se origina dessa maneira já é uma estruturafundada na conciliação. Tem dupla função: por um lado, éegossintônico, pois, eliminando os estímulos que estãointerferindo com o sono, serve ao desejo de dormir; por outro
    • 135lado, permite que um impulso instintual reprimido obtenha asatisfação que nessas circunstâncias é possível, na forma darealização alucinada de um desejo.”51 Posteriormente ele vai afirmar que “um sonho é arealização (disfarçada) de um desejo (reprimido)”. Para ele amaioria desses desejos tem origem sexual. Os desejos são recalcados para o inconsciente por seremincompatíveis à consciência, proibidos pela moral e culturavigente, dada sua natureza preponderantemente sexual. Foi somente em 1933 que ele completou sua definiçãosobre o que é o sonho, afirmando que se trata de “tentativas” derealização de desejos. Tal desejo, que ele chamava de “desejoonírico” era proveniente do inconsciente. Para ele, esses desejostinham quatro origens possíveis: a) desejos próprios do inconsciente, que não alcançam a consciência; b) desejos não satisfeitos, gerados durante o dia, que ficaram por satisfazer; c) desejos não satisfeitos, gerados durante o dia, mas reprimidos ou recalcados ao inconsciente; d) desejos que surgem durante a noite, estimulados por necessidades corporais. Mas ele acrescenta o seguinte:“As necessidades corporais que ocorrem durante a noitepodem dar azo a desejos suscetíveis de serem apresentadoscomo satisfeitos no sonho, ou inseridos de algum modo no seuconteúdo manifesto. Tais desejos não são suficientes, por simesmos, para formar um sonho.” 51 Sigmund Freud, Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise, Vol. 22.
    • 136 Ele, porém, adianta que nenhum deles pode ser formadosem o primeiro, ao afirmar:“Minha suposição é que um desejo consciente só pode tornar-se um induzidor de sonho se obtiver sucesso em despertar umdesejo inconsciente do mesmo teor e conseguir reforço dele.” Ele afirmava que existiam três grupos de teorias a respeitodos sonhos. A primeira considerava os sonhos como merarepetição das atividades psíquicas estruturadas durante o estadode vigília. O segundo grupo de teorias considerava que o sono eraum acordar parcial, isto é, o abaixamento das atividadespsíquicas, que redundariam em pressões orgânicas expressas nosonho. O terceiro grupo considerava que os sonhos envolveriamexperiências que não se revelam na vigília ou que se mostramparcialmente nela. Diferente dos autores anteriores, ele considerou umavariável presente nos sonhos, antes não percebida: a afetividade.Um tema afetivo está sempre presente nos sonhos. Respaldando seu método em alguns dos autores por elecitados, introduz na ciência dos sonhos um aperfeiçoamento dométodo de Griesinges (1861) e do de Radestock (1879). Freuddizia que compartilhava das mesmas idéias deles. Para o primeiro“...as idéias nos sonhos e nas psicoses apresentam em comuma característica de serem realizações de desejos.” Para osegundo, que fazia analogia entre os sonhos e a loucura, seguindouma tendência comum na medicina de sua época, os sonhos sãocompensatórios. Freud, seguindo a linha de Breuer, que considerava o sonhosintoma da atividade psíquica, especialmente ligada à patologiamental, chega ao seu método de interpretação considerando osdesejos reprimidos como fundamentais para sua análise. Ele dizia que havia dois métodos de interpretação: asimbólica (sintética), que substitui o conteúdo do sonho por algo
    • 137inteligível e a interpretação por decifração (analítica), onde cadasinal é traduzido por outro conhecido. Seu método se aproximada decifração, embora considerasse que os mesmos sonhospodem ter significados diferentes a depender do sonhador. Para Freud a forma dos sonhos recebe influência de duasforças psíquicas: a primeira constrói o desejo que é expresso pelosonho; a segunda exerce uma censura sobre esse desejo onírico.É o emprego dessa censura que acarreta uma distorção naexpressão do desejo. Esta segunda instância é defensiva e nãocriativa. É também por esse motivo que os sonhos têm umsignificado secreto, face aos mecanismos de defesa da segundainstância. Sobre a natureza da censura ele dizia: − “os propósitosque exercem a censura são aqueles reconhecidos pelojulgamento vígil da pessoa que sonhou, aqueles com os quaisela está de acordo...” Para ele os sonhos têm um conteúdo manifesto e umlatente. O conteúdo manifesto é resultado da deformação emfunção de uma repressão defensiva e é visto na forma do própriosonho, como ele é relatado. O conteúdo latente é o que estáoculto e que necessita de interpretação. Ele dizia sobre seu sonho:“O sonho representava um estado de coisas específico, comoeu devo ter desejado que fosse. Assim, seu conteúdo foi arealização de um desejo.”“Quando o trabalho de interpretação fica concluídopercebemos que um sonho é a realização de um desejo.” Sobre os resíduos do dia ele dizia:“Estes resíduos diurnos são descobertos por remontarem osonho manifesto aos pensamentos oníricos latentes;constituem porções do último e acham-se assim entre asatividades do estado de vigília - conscientes ou
    • 138[discriminadamente] inconscientes - que conseguirampersistir no período de sono... Esses resíduos do dia, contudo,não são o próprio sonho: falta-lhes o elemento essencial deum sonho. De si próprios, não são capazes de construir umsonho. Estritamente falando, são apenas o material psíquicopara a elaboração onírica, exatamente como os estímulossensórios e somáticos, quer acidentais, quer produzidos sobcondições experimentais, constituem o material somático paraa elaboração do sonho... O estado atual do nossoconhecimento leva-nos a concluir que o fator essencial naconstrução de sonhos é um desejo inconsciente [no sentidodinâmico] - por via de regra, um desejo infantil, agorareprimido - que pode vir a expressar-se nesse materialsomático ou psíquico... O sonho é, em todos os casos, arealização desse desejo inconsciente, seja o que for que possaconter mais... Um psicanalista pode caracterizar como sonhosapenas os produtos de elaboração onírica; apesar do fato desó se chegar aos pensamentos oníricos latentes a partir dainterpretação do sonho, ele não pode considerá-los comoparte deste, mas apenas como parte da reflexão pré-consciente.”52 Para Freud, o conteúdo latente dos sonhos consiste em: 1. Desejos dinamicamente inconscientes (impulsos do id) impedidos pela censura (as defesas do ego) de atingirem a consciência; 2. Pensamentos oníricos latentes, que incluem os resíduos do dia bem como os pensamentos ligados às experiências infantis; 52 S. Freud, Obras Completas, Um sonho probatório , Vol. 12, 1913.
    • 139 3. Excitações sensoriais, que incluem a fome, a sede, o sexo, etc. Sobre as emoções no sonho ele dizia: “A inibição dosentimento ou emoção deve ser considerada, portanto, asegunda conseqüência da censura dos sonhos, tal como adeformação onírica é a primeira conseqüência.” Para Freud, os sonhos têm algumas propriedades: sãofacilmente esquecidos tão logo ocorra o retorno à vigília, graçasao mecanismo de recalque; as imagens visuais predominam sobreos aspectos conceituais; seu caráter metafórico exigeinterpretação; e, mobiliza experiências inacessíveis à consciênciano estado de vigília. Segundo ele, a repressão psíquica atua principalmentesobre os impulsos sexuais, devido à intensa discriminação culturalde que são alvo; isso resulta na aceitação do desejo que, às vezes,só é realizável através do sonhos Para ele o pesadelo se justifica como sendo os desejos nãoaceitos pelo ego, isto é, a expressão de um conflito entre o desejoe a censura. A construção de um sonho envolve a mobilização de algunsmecanismos: a) Condensação. Por um impulso irresistível de combinar dados, o conteúdo latente se expressa no conteúdo manifesto dos sonhos; b) Dramatização. Há uma representação do que realmente está acontecendo. No sonho os conteúdos conceituais são substituídos por imagens plásticas; c) Simbolismo. Algumas imagens são substituídas por outras que a censura permite. Imagens universais tomam o lugar de imagens particulares;
    • 140 d) Deslocamento. A carga afetiva se desloca e se destaca de seu objeto original para fixar-se num objeto substituto; esse deslocamento vai estabelecer diferença entre o conteúdo latente e o manifesto; e) Elaboração secundária. Processo pelo qual, à medida que se aproxima a vigília, introduz-se nas produções oníricas uma lógica artificial, a fim de preparar o sonhador às condições da realidade. A grande chave que auxiliava Freud na interpretação dossonhos era considerá-los sempre como a realização de umdesejo. Ele escreveu à página 96 de seu livro: “...as idéias nossonhos e nas psicoses apresentam em comum a característicade serem realizações de desejos. Minhas próprias pesquisasensinaram-me que neste fato está a chave de uma teoriapsicológica, tanto dos sonhos como das psicoses.” A interpretação isolada dos símbolos foi utilizada por Freudem seu método. Para ele, os sonhos podem ser divididos, de acordo com acausalidade e a significação inconsciente em: – sonhos decifráveis sem análise; – sonhos que só a análise permite compreender; – sonhos que a análise só pode interpretar se relacionar com processos inconscientes. Os sonhos segundo Lacan Segundo os estudiosos da obra de Jacques Lacan, eleatribuía mais importância à forma como o sonho é relatado do queao sonho em si, tendo em vista sua preocupação com a linguageme suas “derrapadas”. O analista fica observando o relato do
    • 141sonho e quando o paciente duvida e diz: “não sei... não melembro mais... talvez... provavelmente”. É aí onde ele vai buscar oque falta, o que foi “deslocado” ou “condensado”. Para Lacanimporta o material verbal do paciente no relato de seus sonhosmais do que o conteúdo deles. A análise lingüística é o métodoapropriado para o estudo do inconsciente, que se estrutura comouma linguagem. Cabe ao analista perceber no discurso de seupaciente o significado correspondente à falta ou ao lapso havido. Os sonhos para Otto Rank Segundo Grof em seu fenomenal livro Além do Cérebro,Otto Rank, dizia que “O sonho é uma condição que lembra avida intra-uterina e pode ser tomado como uma tentativa derecordar o trauma do nascimento e retornar ao estágio pré-natal. Muito mais do que o próprio ato de dormir, elerepresenta um retorno psicológico ao útero. A análise dossonhos confere o mais forte apoio à significação psicológicado trauma do nascimento.” Comentários Realmente é possível entender todos os sonhos comorealizações de desejos, desde que se entenda o significado dapalavra desejo. Desejo como algo inerente ao Self em processode desenvolvimento psíquico, inconsciente ao ego e, às vezes,contrário a ele ou a qualquer idéia sua. Embora Freud criticasse pessoas que se apoiavam em suafé religiosa para afirmar a existência e atividade de forçasespirituais sobre-humanas nos fenômenos dos sonhos, ele, deforma análoga, embora inversa, em nota de rodapé introduzida naedição de 1914, se apoia no texto bíblico de Isaías, Capítulo 29,
    • 142versículo 8, (‘Será também como o faminto que sonha queestá a comer, mas, acordando, sente-se vazio; ou como osequioso que sonha, que está a beber, mas, acordando, sente-se desfalecido e sedento; assim será toda a nação que pelejarcontra o monte Sião.’) para confrontar, confirmando, suaopinião a respeito do sonho como realização de um desejo. Na análise de um sonho seu, ele o relaciona comocorrências cotidianas, com eventos que aconteceram e comoutros que estavam previstos acontecerem. Seu dia-a-diaprofissional era constantemente utilizado como referencial parasua análise que se baseava exclusivamente naquilo que lhe era dodomínio da consciência.53 Não se pode desprezar, na análise dossonhos, todos os paradigmas do sonhador. Suas crenças, suasrelações, seu desenvolvimento intelectual, suas preocupaçõesgerais, seu dia-a-dia, etc. Freud considerava que na origem do sonho há algo cujaconotação é sexual. O que vale dizer que a sexualidade estápresente nas raízes do inconsciente, pois, como sabemos, eleconsiderava que os sonhos eram a via real para alcançá-lo. Talvezessa afirmação freudiana tenha ocorrido em função de sua época,quando a expressão sexual era extremamente restringida. Vivia-se, em fins do Século XIX, quando Freud escreveu seu primeirotrabalho sobre sonhos, sob uma repressão e ignorância sexuaismuito grandes. Hoje, passados quase cem anos, após osmovimentos da década de 60 e 70, de liberação sexual e demodificação de costumes em relação à conduta sexual dassociedades, certamente se têm outras explicações mais plausíveis. 53 Jung considerava que “a concepção freudiana dos sonhos está quase exclusivamente no plano do objeto, uma vez que os desejos nos sonhos se referem a objetos reais ou a processos sexuais que incidem na esfera fisiológica, portanto extrapsicológica.” Obras Completas, Vol. VI, par. 878.
    • 143 Considerar certos sonhos como realização de desejos podenos levar a justificar uma coisa pelo seu oposto, o que nemsempre se pode aceitar coerente. Sem querer diminuir o trabalho de Freud (creio que não oconseguiria se o quisesse) nem tampouco colocar-me emcondições de criticar sua obra, acredito que ele hoje reveria muitodo que escreveu sobre sonhos bem como algumas interpretações,um pouco forçadas, pelo seu desejo de adaptar o significadodeles às suas teorias, na época despontando. A censura na vida de vigília é perfeitamente compreensívelface à necessidade da convivência social. A censura nos sonhostorna-se algo pouco compreensível tendo em vista ainexplicabilidade da existência de um mecanismo psicodinâmicocensor, oculto ou inconsciente, como também pela grandequantidade de sonhos que temos exatamente sem qualquercensura. A negação da existência de sonhos premonitórios é, semdúvida, querer “tapar o sol com a peneira”. Não só eles ocorrem,como se confirmam, sem que se lhes possa caracterizar como arealização de desejos. A não ser que se prove, por exemplo, queo sonho com um acidente de avião possa ser causado pelosonhador, a partir de um “desejo oculto reprimido e censurado”. A visão freudiana sobre os sonhos parece que teve desubmeter-se a uma concepção teórica geral. Tudo leva a crer queFreud não descobriu uma teoria sobre os sonhos, mas limitou-os àteoria da libido reprimida. Não foi a partir de observaçõesnumerosas e de constatações experimentais que chegou à suateoria, mas – e isto pode ser deduzido pelas alterações que seusseguidores tiveram que realizar – como produto de suasconcepções sobre sexo. Caso ele, por ter observado em seuspacientes alguma correlação entre seus desejos e as imagens
    • 144oníricas, demonstrasse um nexo de causa, poderíamos afirmar ocontrário do que dissemos antes. Isto não invalida a afirmação de Freud, pois tudo leva acrer nessa possibilidade; há uma gama de sonhos que se referem adesejos não realizados, por um mecanismo psicodinâmico decompensação. Além do que se pode dizer que os sonhos tambémse situam na ordem dos fenômenos fisiológicos. A tentativa de alguns psicanalistas em encontrar nos sonhoselementos oriundos exclusivamente da infância, em suasrepressões, produz uma limitação considerável, tendo em vista oscomponentes riquíssimos das outras etapas da vida do indivíduo,principalmente nos momentos de transformação da adolescência eda vida adulta para a velhice, sem falar nas experiênciasarquetípicas inerentes.
    • 145 Utilidade dos sonhos Os sonhos trazem à consciência aspectos profundos efundamentais da vida psíquica do sonhador. Circunstâncias quedificilmente seriam retratadas de outra forma que não através deimagens simbólicas. São situações e atitudes inerentes ao própriosonhador que ele não teria coragem de abordar de outra maneira.Sua relevância está, principalmente, nesta particularidade. O trabalho de interpretação de um sonho, mesmo que nãoalcançada a real expressão do símbolo nele retratado, constitui-senum exercício, por si só, útil ao sonhador, pelas conexões que elefaz, penetrando nos meandros do inconsciente, permitindo novaspossibilidades intuitivas e questionadoras de si mesmo. Talvez a utilidade dos sonhos esteja em sua possibilidadede transformação das imagens oníricas em ações realizadoras, esobretudo naqueles em que o sonhador perceba com clareza suaestrutura psíquica inconsciente e de que forma ela atua na vidaconsciente. É essa influência, nem sempre percebida pelo sujeito,que interfere em seus atos da vida desperta. O trabalho com os sonhos visa uma conciliação entre oinconsciente e o consciente a bem do desenvolvimento psíquicodo sonhador. Na produção dos sonhos ocorre a conexão deopostos autônomos presentes no inconsciente.
    • 146 A prática de se utilizar os conteúdos dos sonhos comoproposições em resposta a questões do ego vígil, pode nos levara crer que seria essa sua utilidade básica, além de,equivocadamente, considerar-se que suas imagens se dirigemexclusivamente a ele. As imagens oníricas não apenas se referemàquelas questões, como também trazem outras mais amplas doque pode conter a vida consciente. Muitas delas se referem àtotalidade da vida do sonhador e à própria humanidade nelecontida. Como aplicação terapêutica, os sonhos podem serempregados para acesso às áreas inconscientes, para a solução deproblemas diversos, como inspiração artística, para odesenvolvimento psicológico e para aprofundar experiênciasespirituais. Pode-se colocá-los como úteis para o sonhador nabusca de: a) Autoconhecimento b) Autodescoberta c) Desenvolvimento da criatividade d) Autotransformação Montague Ullman (1965), citado por Stanley Krippner,descreveu os aspectos criativos do sonhar a partir daoriginalidade, da fusão de elementos desconexos em novospadrões, da procura de expressão através de símbolosimportantes e, finalmente, da própria reação frente ao sonho. Paraele o sonho, em primeiro lugar, é um ato de criação. Algo comouma obra de arte. Ullman coloca como exemplo de sonhos criativos o doinventor da máquina de costura que sonhou com lanças furadas naponta, num ritual de sacrifício, e construiu a agulha que lhe faltavapara completar o invento. Ele também afirma que o famoso
    • 147escritor escocês Robert Louis Stevenson, autor de estórias comoA Ilha do Tesouro, criou o fantástico conto “O Estranho Casodo Dr. Jekyll e do Sr. Hyde” a partir de um sonho que teve. A hipótese de que os sonhos sejam também prenúncios, emalguns casos, de problemas de saúde, não é de todo descartada.Essa possibilidade já foi colocada por diversos e studiosos, emvárias épocas da história da humanidade, o que pode ser umindício de sua probabilidade ser verdadeira. Se os sonhos podemtrazer aspectos desconexos do psiquismo do indivíduo, por quenão apontariam também comprometimentos orgânicos? Seconsiderarmos os problemas orgânicos como reflexos deproblemas emocionais, psicológicos portanto, não seriam ossonhos, por conseqüência, reveladores daqueles? Os sonhos têm a utilidade de permitir uma descoberta domito pessoal do sonhador, além de contribuir para sua revisão eseu desenvolvimento. A descoberta do mito predominante podese dar pelo exercício da interpretação dos sonhos como tambémpelas lembranças de fatos marcantes na vida do sonhador. Asimagens oníricas surgem apresentando formas mitológicas ou não;assemelham-se a figuras arquetípicas significativas, que remetem osonhador à percepção de si mesmo. Esse mito pessoal exerce influência significativa na vida dosonhador de forma tão determinante que se parece com umapersona inconsciente. Os mitos pessoais aparecem como temas comuns dosnossos sonhos, pela preponderância constante de sua influênciasubliminar na vida desperta. Eles sugerem sonhos nítidos econsistentes. São sonhos que se mostram de tal forma reais quetemos a impressão de que se tratam de criação consciente. Além das aplicações terapêuticas os sonhos podemproporcionar, para leigos, um encontro dirigido, visando sua
    • 148discussão sem objetivos clínicos. Deborah J. Hillman54 explica osobjetivos desses grupos espontâneos, que estão em fase deexpansão nos Estados Unidos, como sendo, principalmente, ocompartilhamento de seus sonhos visando uma aplicação práticapara o estado de vigília. Nesse trabalho dela, há grupos quebuscam a análise coletiva do sonho, como se ele fosse do grupo. Os sonhos se prestam a reconstruir fatos passados que seestruturaram no inconsciente sob a forma de complexosautônomos; servem também para dar novo significado a eventosrecentes que se encontram desconectados no inconsciente einfluenciando a consciência; e, por fim, apresentar possíveiscenários para o desenvolvimento de prognósticos. Ao analisar a função compensatória dos sonhos, Jung alertapara não se desprezar os avisos provenientes deles, pois, se...“rejeitados, podem ocorrer acidentes reais. A pessoa podecair da escada ou sofrer um desastre de carro.”55 Como se vê,para ele, os sonhos representavam algo de premonitório e depreventivo quanto ao destino do sonhador. Ele considerava quenão se trata de uma forma de previsão, mas que, às vezes, podehaver um desejo secreto do sonhador para que tal aconteça.56 Indiscutivelmente o sonho pode ser um instrumento útil nodesenvolvimento das relações interpessoais, a partir do momentoem que o sonhador estabeleça comparações entre os símbolosoníricos e as situações e emoções por ele geradas, e sua vidaconsciente, principalmente no que diz respeito às suas relaçõesafetivas, do ponto de vista do ego e do Self. 54 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 24. 55 O Homem e seus Símbolos, p. 49. 56 Idem, p. 50.
    • 149 Sonhos em terapia 57 É na Psicologia Analítica que os sonhos encontram suamaior aplicação, no campo da psicoterapia, dentre as abordagensatuais. A grande maioria dos analistas junguianos utiliza os sonhoscomo material imprescindível ao processo de cura em seusmétodos. As psicoterapias mais voltadas para o ego e suasrelações com o mundo, e que dão pouco ou nenhum valor aosaspectos inconscientes da personalidade, têm negligenciado aimportância dos sonhos como m ecanismo de auto-regulação eautofocalização da psiquê. Sem dúvida nenhuma os trabalhos com sonhosdesenvolvidos em terapias de grupo são mais enriquecedores paraa compreensão do sonhador do que os obtidos nas terapiasindividuais. O grupo terapêutico tem maiores possibilidades deobter insights do que o próprio sonhador sozinho ou com seuanalista. O grupo, por estar envolvido, de certa forma, na vida dosonhador, e conhecendo-lhe a natureza, pode opinar sem o viéscientífico do analista, contribuindo assim para uma melhorcompreensão e amplificação do sonho. 57 Adaptado de um trabalho apresentado em 1996, no curso de graduação em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia.
    • 150 É comum a algumas pessoas atribuírem um papel mediadoraos sonhos dando-lhes importância de juiz entre uma e outradecisão. Às vezes, antes de dormir, se fazem algumquestionamento solicitando ao Self que sonhem com algo que lhesdê a resposta devida. Mesmo dessa forma, está aí uma funçãoterapêutica dada ao sonho pela possibilidade de que ele integreaspectos conflitantes do inconsciente do sonhador. Esse papelatribuído ao sonho não lhe acrescenta qualquer poder superior,mas permite que sua fonte geradora passe a utilizar-se dele commais freqüência. Numa psicoterapia deve-se dar muita importância aossonhos que antecedem e sucedem a primeira sessão. Muitas vezesdizem respeito à relação transferencial e contratransferencial, bemcomo podem trazer uma panorâmica total ou parcial do processoterapêutico do sonhador. Eles servirão de guia ao analista. Oselementos apresentados no sonho deverão ser criteriosamenterevistos pelo analista junto a seu paciente, por vezes em futurassessões. Costumo questionar aos meus pacientes sobre a atitude doego onírico quando ela é inusitada para o ego vígil. Pergunto-lhespor que tal atitude é inusitada e por que ele não a aceita. Essequestionamento tem a faculdade de provocar um movimento nadireção oposta àquela comumente aceita pelo ego, o que podeproporcionar mecanismos de aceitação e compreensão de simesmo. Os sonhos podem ocorrer por condescendência, isto é,para atender um desejo (in)consciente de agradar ao analista, e, àsvezes, dificultar o processo terapêutico. Pode também não ocorrer, por sonegação ou resistência,quando há uma tentativa (in)consciente de boicotar a terapia. No trabalho terapêutico deve-se lembrar que a análise é dopaciente e não apenas de seus sonhos. Isto é, as sessões
    • 151terapêuticas não devem se transformar em momentos prazerososde interpretação de sonhos. A interpretação dos s onhos é umrecurso e não a finalidade da terapia. Os sonhos também podem ser utilizados para seestabelecer um diálogo entre o analista e o inconsciente de seupaciente. Nos casos em que se pretende tomar uma decisãoquanto ao término da terapia, pode-se consultar os sonhos. Hallcita58 essa possibilidade como uma forma de se obter umaresposta do inconsciente sobre se devemos ou não fazê-lonaquele momento. Os sonhos considerados difíceis pelo sonhador devem serexaminados criteriosamente pelo analista dada sua i portância mser, às vezes, maior do que os sonhos muito claros. Aquelesconsiderados muito claros trazem, geralmente, aspectossuperficiais da vida psíquica do sonhador. Os consideradosdifíceis ou complexos, provavelmente estão penetrando emregiões mais obscuras de sua vida inconsciente. A interpretação dos sonhos requer cuidados tendo em vistasua expressão peculiar a cada indivíduo. Na s compreensão uanão se pode tomá-los de forma coletiva como se seu significadofosse o mesmo para todas as pessoas. Os significados simbólicosdos sonhos, embora possam expressar aspectos coletivos,dependerão da vivência e da cultura (habitat) do sonhador.Digamos que duas pessoas sonhem com um animal, como porexemplo, um cavalo numa relva, e ambas estejam em terapia comum mesmo analista. As interpretações que se possa dar sobre talsonho, irão variar de acordo com a história de vida de cada umdos indivíduos. Deverá o analista buscar os significados dossignificantes simbólicos trazidos pelo inconsciente a partir dasassociações que o consciente do sonhador possa estabelecer. É 58 A Experiência Junguiana, p.115.
    • 152como uma técnica cirúrgica que se vai realizando, dissecandotecido a tecido até se chegar ao âmago do corpo. Eles representam a linguagem do inconsciente e procuramrestabelecer uma ligação com a consciência, de alguma formaprejudicada pelos mecanismos de defesa do ego e dos processosincognoscíveis inconscientes. Há um significado oculto ao ego,expresso subliminarmente nas imagens oníricas e que merece adevida busca, num trabalho prospectivo. O papel do analista,dentre outros, no manejo dos sonhos de seus pacientes, é auxiliá-los na exploração do que está naturalmente oculto por falta deoutra forma de expressão. Os sonhos se assemelham a umestrangeiro falando ao nativo numa língua estranha a ele. Longe de se pensar que um sonho pode ser imediatamenteinterpretado completamente numa só sessão, muito menos naprimeira, ou apenas contando com o material trazido peloconsciente. Não se pode também deixar de considerar oselementos introduzidos na primeira sessão pela transferência, cujanatureza nem sempre se conhece imediatamente. Mas se opaciente resolve contar, já na primeira sessão, um sonho, pode-seencontrar alguns elementos significativos de sua vida. Os sonhos geralmente trazem uma mensagem subliminaratravés das imagens arquetípicas. A procura desse elementooculto poderá ser o Fio de Ariadne que restabelecerá o eixoSelf-ego, quebrado pela exigência da vida consciente ou poralgum complexo que começou a constelar-se. A terapia seiniciará com essa vertente ou buscando entender se é este oprocesso simbólico a que o sonhador está submetido. A procura de um significado sintético para o sonho, emrealidade torna-se a tentativa de identificar um aspectoarquetípico nele. Não se trata de reduzir o sonho a tal aspecto,mas de ampliar a possibilidade de entendê-lo sob determinadavertente. O significado particular do sonho é logo entrevisto pelo
    • 153paciente que, via de regra, já o identificou antes de chegar àsessão. A compreensão dos significados arquetípicos éencontrada com a ajuda do terapeuta. Para Jung, a autonomia do inconsciente é um fatorimportante na análise dos sonhos tendo em vista, às vezes, apresença de elementos com forte oposição à consciência. Ele diz:− “Como o sentido da maior parte dos sonhos não está deacordo com as tendências da consciência, mas reveladivergências singulares, devemos admitir que o inconsciente,a matriz dos sonhos, tem um funcionamento independente. Éo que eu designo por autonomia do inconsciente. Nãosomente o sonho não obedece à nossa vontade, mas muitasvezes se opõe, até mesmo muito fortemente, às intenções daconsciência.”59 A interpretação dos sonhos em terapia exige cuidadosespeciais tendo em vista as possibilidades de contaminação, tantopelo paciente quanto pelo terapeuta. O consciente do paciente,captador do sonho, tenderá a interpretá-lo, talvez, com o mesmoviés que motivou sua eliminação pelo inconsciente. Por sua vez, oconsciente do analista, tanto quanto seu inconsciente, não estarãolivres de uma análise tendenciosa. Dessa forma, a procura dosignificado do sonho deverá ser levada a efeito em conjunto,analista e paciente, principalmente, quando se tratar da procurapelos conteúdos arquetípicos. Quando os sonhos mostram aspectos compensatórios davida consciente, geralmente estaremos diante da situação oposta aela. Sobre a confrontação dos sonhos com a consciência, Jungescreveu: “Nesta perspectiva existem três possibilidades. Se aatitude consciente a respeito de uma situação dada da vida é 59 C. G. Jung, Sobre a Natureza dos Sonhos, Obras Completas Vol. VIII, par. 545.
    • 154fortemente unilateral, o sonho adota um partido oposto. Se aconsciência guarda uma posição que se aproxima mais oumenos do centro, o sonho se contenta em exprimir variantes.Se a atitude da consciência é “correta” (adequada), o sonhocoincide com essa atitude e lhe sublinha assim as tendências,sem, contudo, perder a autonomia que lhe é própria.”60 Podemos entender que o inconsciente, elaborador dasituação onírica, poderá criar uma situação oposta à atitudeconsciente do sonhador, complementar ou confirmatória. Mesmotendo este entendimento, devemos considerar que a elaboraçãoonírica tem um propósito oriundo do Self, portanto tem suaautonomia. O “jogo” com o consciente não se estabelece comouma competição, mas como uma comunicação, um recado, uma“correção de rumos”. Seu propósito é estabelecer uma relaçãonão satisfeita entre o Self e o ego, onde este buscará acompreensão dos objetivos daquele. O inconsciente buscaráutilizar-se dos símbolos disponíveis para que o consciente melhorentenda sua mensagem. Tais ícones poderão fazer parte dopassado ou do presente do sonhador. Às vezes, o inconscienteutiliza um símbolo que pertenceu à história passada da civilização(cultura, raça, etc.) à qual o sonhador pertence, como tambémpoderá buscá-lo nos fatos do cotidiano. O sonho representa dealguma forma uma realidade do sonhador; seus enigmas, suasimagens, lhe pertencem e é através dele próprio que se poderáentendê-las. Confirmando a idéia de que o sonho retrata aspectos dapersonalidade do sonhador e buscando o que ele designava comouma interpretação ao nível do sujeito (interpretação subjetiva),Jung afirmou: − “Toda a elaboração onírica é essencialmente 60 Idem, par. 546.
    • 155subjetiva e o sonhador funciona, ao mesmo tempo, comocena, ator, ponto, contra-regra, autor, público e crítico.”61 Entendemos que nos sonhos estão representações dopróprio sonhador. Tomar uma figura onírica como um ente real,concreto, externo ao sonhador, pode nos levar ao terrenoperigoso das interpretações intelectuais do consciente. É, por essemotivo, que a abordagem intelectual, interpretativa de um sonho, éinsuficiente. Nem sempre numa única sessão é possível trabalhar comum sonho pelo pouco tempo de que se dispõe. O analista podeescolher trabalhar o mesmo sonho em várias sessões,principalmente quando haja demanda do paciente, ou escolher,junto com ele, um extrato do sonho que possa ser utilizado notempo previsto. Essa última opção é reforçada pelo fato de quese pode dar apenas indicações sobre o significado do sonho, poiso próprio sonhador fará o restante. 61 Idem, par. 509.
    • 156 Sonhos antes e depois da primeira sessão da terapia Via de regra, os sonhos antes e depois de uma primeirasessão de terapia estão se referindo à relação transferencial e/ouao processo de individuação do paciente. São sonhos que devemser, de tempos em tempos, relidos pelo terapeuta; falam não sódas atitudes para com a terapia, do modo como o paciente aentende, mas também dizem respeito a um diagnóstico e, às vezes,a um prognóstico. Eles podem trazer aspectos da maneira como o paciente vêo terapeuta, seus sentimentos em relação a ele e o que deleespera. Quando esses sonhos são trazidos a uma sessão deanálise, devem ser trabalhados cuidadosamente pelo analista, poisproporcionam um momento fundamental de sua relação com seupaciente. Eles sinalizam aspectos que provavelmente serãorelevantes no decorrer da relação terapêutica. Marie-Louise von Franz considera “o primeiro sonhotrazido para a análise como de especial importância, poiscomumente antecipa o que ocorrerá no processo.”62 Se o 62 Os Sonhos e a Morte, p. 65.
    • 157sonho ocorre algum tempo depois de iniciada a análise, mas é oprimeiro que ele traz, mesmo assim se reveste de importância,pois pode ajudar a estabelecer um parâmetro de verificação doprogresso analítico. Os sonhos iniciais, após a primeira sessão, podemapresentar imagens que anunciam uma certa melhora em relaçãoao problema que ele apresenta. Às vezes, eles sugerem uma oumais alternativas ao terapeuta. São balizadores de um processo alongo prazo, mas, certamente, seus elementos simbólicos surgirãoem outros sonhos posteriores. O desconforto inicial de uma terapia, por ela tocar emalgum complexo inconsciente, pode ser revelado nos primeirossonhos, cuja sensação é desagradável ao paciente. Às vezes, sãosonhos que deixam o sonhador extremamente agoniado edesconfortável devido ao caráter de exposição de sua vida, fatoque deve ser tratado pelo analista de forma a deixar seu paciente àvontade quanto a trabalhá-los em sessões posteriores.
    • 158 A depressão e a ansiedade nos sonhos A depressão é o retorno da raiva inconsciente do egosobre si mesmo ou sobre sua imagem projetada. A raivaprojetada, não conscientizada, quando não é expressa, volta-sesobre a própria pessoa. A característica básica da depressão é aperda de interesse pelo mundo externo e a falta de objetividadena vida. Isto porque o depressivo promove um acréscimo deenergia psíquica a seus processos internos em detrimento da vidarelacional, isto é, a energia psíquica, que deveria estar a serviçoda consciência, fica aprisionada no inconsciente. Essa regressãoda energia acentua os sentimentos perturbadores associados aocomplexo em questão, dominando a vontade consciente eimpedindo qualquer ação contrária às suas tendências. Istopromove, muitas vezes, atitudes que fazem o depressivo voltar-secontra pessoas com as quais possui intensa relação afetiva. Nossonhos, geralmente, a raiva de si mesmo é representada por umaameaça ou uma agressão contra o ego onírico. Sua contenção ourepressão pela não canalização da energia nela contida produziráimagens oníricas correspondentes.
    • 159 O depressivo geralmente sofre uma regressão na libido emdecorrência do medo que se apodera do ego quando exposto aosdesafios inerentes a seu processo de desenvolvimento. Odepressivo busca regredir a uma atitude de satisfação semelhanteà que tinha junto à mãe. Volta-se a um estado anterior cujoacolhimento lhe foi satisfeito e onde obteve a necessáriacompreensão. As mudanças que se efetuam na vida desperta, quanto àsaída de uma depressão, são sinalizadas nas imagens oníricasatravés de símbolos menos aversivos, indiferenciados, quesubstituem outros mais específicos. As situações que causam ansiedade são, muitas vezes,imponderáveis e provocam os mais diversos tipos de sonhos. Sãotípicas as situações em que o ego desperto almeja determinadoobjetivo, deslocando a energia da consciência para essafinalidade, em detrimento de seu papel central. Essa situação detensão produzirá o necessário escape através dos sonhos, numatentativa de aliviar o deslocamento. As imagens produzidasgeralmente apresentarão situações em que o ego onírico estaráem falta ou deslocado no tempo, isto é, adiantado ou atrasado emrelação a algo. As atitudes exigidas pela persona costumam provocaransiedade pela necessidade de desempenhar um papel socialacima das condições do ego desperto. A ansiedade em realizar talproeza poderá surgir numa imagem de supervalorização do egoonírico. Os sonhos onde o ego onírico se apresenta em atitudesativas devem ser considerados como mensagens para que o egodesperto reaja à regressão, buscando sua progressão.
    • 160 O medo nos sonhos Talvez seja esse um dos temas mais comuns nos sonhos,mesmo que apareça de forma implícita. Não raro, os sonhos quetrazem situações de tensão, de angústia, ou mesmo de terror,causam medo ao sonhador. Às vezes, o medo não se manifestano sonho, mas surge após o acordar. Às vezes, o medo pode tornar o sonho um “pesadelo”.Mas nem sempre o sonho terá o caráter de “pesadelo” somentepelo contexto em que o medo se apresente como um sentimentolatente. Há estados típicos que forjam o aparecimento de um sonhocujo fundo principal seja o medo: – ansiedade. – insegurança. – ambivalência de atitudes. – indecisão. Se o sonhador tiver um pouco de perspicácia, poderáencontrar a solução para sair do estado em que se encontra nopróprio sonho, pois o Self age a favor do processo dedesenvolvimento da personalidade. A perspicácia consiste em
    • 161enfrentar as situações que causem o medo, inclusive nos sonhos.Num sonho em que o sonhador seja colocado numa situação quelhe cause medo, deve, na noite seguinte, antes de dormir, solicitarao Self que o coloque em situação idêntica ou semelhante, pois,dessa vez, saberá como agir. Para isso, antes de dormir, osonhador ainda desperto procurará alternativas para enfrentar asituação apresentada no sonho anterior; alternativas de confrontocom a situação apresentada e que possam resultar em vencer omedo e dominar a situação aversiva. Se o sonho apresenta uma situação de medo à consciência,talvez esteja indicando ao sonhador o que lhe falta para,decididamente, enfrentar situações típicas no estado desperto.Porém, contrariamente ao que dissemos, o medo nos sonhospode surgir como a mostrar ao ego desperto a importância desenti-lo, face à sua condição inflacionada.
    • 162 A culpa nos sonhos Outro tema de relevância que aparece nos sonhos é aculpa, que, pela inexistência de uma censura no ego onírico, comoa imposta ao ego vígil, pela persona, surge com relativafreqüência. Esses sonhos freqüentemente nos trazem nossas atitudesem relação aos outros, cuja finalidade foi a agressão física, verbalou emocional, das quais nos arrependemos consciente ouinconscientemente. Às vezes o sonhador se vê cometendo um crime durante osonho, o que lhe provoca um sentimento de culpa, cuja raiz estávinculada a atitudes inadequadas, tomadas pelo sonhador noestado de vigília, das quais se arrepende inconscientemente.Nesses casos é conveniente que o sonhador busque identificarseus sentimentos durante o sonho, bem como quem era oprejudicado, a fim de perceber em que aspectos a personalidadedele se assemelha à sua. As atitudes em que a moral social vigente, bem como umacerta moral interna, provoquem culpa, poderão ser responsáveispor sonhos cujo conteúdo apresentará o sonhador sendoperseguido ou em situação de julgamento que o incrimine. Essessonhos visam compensar a situação de tensão em que se encontra
    • 163a consciência, pela existência de um complexo conscientizado ounão. Os sonhos estarão sempre mostrando esse complexo, atéque o sonhador alivie sua culpa, transferindo-a a alguém oudividindo-a com seu analista. A confissão a que se refere Jung63 tem esse papel dediminuir a carga emocional contida no segredo pessoal,principalmente quando não se tem consciência do que se oculta. 63 Obras Completas, Vol. XVI, par. 125.
    • 164 A sombra nos sonhos Freqüentemente estamos a sonhar com aspectosdesconhecidos ou negados de nossa personalidade. Nos sonhos,geralmente, surge tudo aquilo que normalmente criticamos nosoutros, como parte de nossa personalidade. Aqueles defeitos dosquais nos envergonhamos de ter, tais como: inveja, ciúme, cobiça,ambição, irritabilidade, etc., aparecem nos sonhos de formafreqüente tendo em vista sua importância no processo deindividuação. Atuando como elemento catalizador de transformações, ossonhos irão revelar, com muita freqüência, os aspectos adesenvolver na vida do sonhador. Muito freqüentemente nossasombra estará presente em aspectos que normalmente atribuímosaos amigos, parentes, colegas de trabalho, que nos surgem comofiguras oníricas. Nos sonhos onde ela aparece com mais nitidez, sem deixardúvidas quanto à sua presença marcante no processo dedesenvolvimento psíquico, além da interpretação necessária, osonhador deverá fazer um trabalho de educação com suasombra. Este termo foi empregado por Jung, dentre outrasconceituações, como uma das fases do processo dedesenvolvimento psicoterápico, necessária para que se estabeleça
    • 165uma adaptação social do indivíduo, após a percepção dos seusconteúdos sombrios. Os sonhos também convidam o sonhador àpercepção da sombra e, principalmente, à necessidade de buscaruma nova forma de educação para a vida social. A sombra, por ser o arquétipo cujas representações estãomais acessíveis à consciência, estará mais presente nos sonhos eutilizará os símbolos mais diversos para provocar a necessáriatransformação do sonhador. Às vezes, a sombra surge ematitudes contrárias à tendência do ego desperto, quando este já seafastou daquele comportamento, o que nega o antigo conceitoreducionista de que os sonhos sejam apenas a realização dedesejos. Tais sonhos trazem resquícios da culpa pelo passado járedimido, embora não esquecido. Ao contrário do que se possa pensar, nossa sombra nãoestá somente presente nos chamados “maus sonhos” ou“pesadelos”. A sombra pode surgir nos sonhos, cuja serenidadese transfere para o estado de vigília, durante horas ou dias. Elanem sempre deixa marcas desagradáveis no sonho, pois suascaracterísticas podem se revestir de aspectos negados oudesconhecidos, portanto também positivos. É necessário, em toda análise, que a identificação dasombra seja levada parcialmente à consciência, sobretudo aquelaconstituída e alicerçada na infância, a fim de que ocorra ofuncionamento adequado do ego. Os sonhos podem trazer aparte da sombra que deve ser conscientizada. A inclusão da parterevelada é uma necessidade que implicará na avaliação dasverdades morais adotadas pelo indivíduo até então. É umprocesso que exigirá coragem e prudência, por se tratar de umadecisão adulta, da qual o terapeuta é um aliado importante. Pode-se dizer, sem receio de erro, que seríamosextremamente pobres, quais metades inúteis de um instrumento,se fôssemos apenas o que pensamos que somos. A sombra é
    • 166parte indissociável da personalidade. Quem pensa que sempretem razão, luta muito com sua própria sombra, queinevitavelmente, estará mostrando o contrário. Em que pese os “pesadelos” serem tomados geralmente aonível do sujeito, isto é, de forma subjetiva, e considerados comoreferentes aos aspectos da sombra do sonhador, prefiro,preliminarmente, procurar uma correlação com aspectosenvolvendo sua vida espiritual. Quando possível, estabeleçoinicialmente uma interpretação ao nível do objeto, porém numaótica interexistencial. Pergunto-me se aquele sonho ou “pesadelo”não estaria trazendo algo que objetivamente está acontecendodurante o sono. Caso não encontre tal correlação ou, mesmoencontrando, ela me pareça inverossímil, tento também percebê-la numa série de sonhos. Se ainda assim não houver campo paraaquela interpretação, passo então a analisá-lo do ponto de vistasubjetivo. A interpretação do ponto de vista espiritual não éinduzida ao paciente, mas conservada por mim, como referencialpara uma melhor condução de seu caso.
    • 167 Uma análise espírita A visão espírita a respeito dos sonhos, como uma atividadeextrafísica, já era defendida pelos pitagóricos, bem como porPlatão, além de estar presente no conhecimento esotérico egípcio,não se constituindo uma idéia nova nem sobrenatural. Durantemuito tempo evitou-se abordar temas sob a ótica espírita,sobretudo na Psicologia clássica, porém os fatos, senhores darazão, introduziram-se irreverentemente nas ciências obrigando-asa considerar, pelo menos como hipótese, sua possibilidade deocorrência. Tem sido comum a terapeutas, das mais variadas linhas,penetrarem no conhecimento dos aspectos psíquicos do serhumano e nos elementos que envolvem fenômenos antesatribuídos às concepções religiosas distanciadas dos meioscientíficos. Essa proximidade de objetos de estudo reflete umaprovável mudança de paradigmas dos conhecimentos envolvidos.Nenhum conhecimento em si é absoluto e nem contém todas aspossibilidades de compreensão. Por isso a análise aquiapresentada é apenas uma pálida visão de um tema cujacomplexidade envolve aspectos culturais e até arquetípicos, coma dificuldade em descrever, numa linguagem psicológica,fenômenos que fogem a antigos cânones científicos.
    • 168 Uma análise espírita, aqui exposta, não se propõe a quererprovar as relações entre espíritos e os sonhos. Seria como tentardoutrinar o leitor a uma visão estritamente ortodoxa. Aqui não háuma preocupação em provar que os sonhos são de origemespiritual ou que alguns deles apresentam aspectos inerentesàquela concepção. Limito-me a expor, sob vários ângulos, opensamento espírita a respeito, sem a pretensão inclusive deconhecê-lo em profundidade. Preocupar-me-ei em apresentar como o Espiritismoconceitua os sonhos, sem entrar no mérito da crença espírita. Apesquisa não se ateve ao Espiritismo iniciado por Allan Kardec, apartir de alguns relatos colhidos nos livros que lhes deram a base,mas também de expoentes atuais que dão continuidade à fixaçãode suas teses. A maioria dos relatos e idéias sobre sonhos foramcolhidas nas obras de Allan Kardec, editadas entre 1857 e 1868. Algumas idéias, em que pese serem divulgadas numalinguagem pouco comum, pelo ângulo em que são apresentadas,isto é, de quem não se encontra “vivo”, se assemelham a muitasapresentadas por estudiosos, alguns anos d epois, ou no séculoseguinte. Esse ângulo de visão parece se assemelhar, se fossepossível, a alguém que estivesse falando, estando no inconsciente,para outro que estivesse no consciente. Seria como se oinconsciente falasse do consciente, diferente da descrição sobre oinconsciente, feita pelo ego consciente. Para uma melhor compreensão dessa abordagem énecessário entender que, para o Espiritismo, o ser humano,independente dos aspectos psíquicos, é constituído de três partesdistintas: Espírito, perispírito e corpo físico. O Espírito é oprincípio inteligente, sede do saber e dos processos psicológicos,consciente e inconsciente. O perispírito é um corpo energético deque o Espírito se utiliza para atuar com o corpo físico comotambém para operar quando este dorme. O corpo físico é o
    • 169veículo de manifestação na realidade m aterial em que o Espíritoatua quando no estado de vigília (encarnado). No corpo, asimpressões do Espírito são gravadas no córtex cerebral e passampelo perispírito. Na visão espírita, o sonho não pode ser compreendidocomo algo estritamente resultante das atividades realizadas pelosonhador durante o dia, já que propõe um certo estado deconsciência (porém inconsciente) durante o sono. O ego oníricopor vezes é o próprio espírito, consciente de sua individualidade,fora dos limites do corpo físico. Muita embora prevaleça a afirmação de que o sonho sejauma realidade do sonhador, neste capítulo veremos que, para oEspiritismo, há sonhos que se referem a terceiros, ou a eles sedestinam como mensagens de sua vida passada ou para sua vidafutura. Sonhos que trazem recados de pessoas “mortas” paraparentes, não dizem respeito objetivamente ao sonhador, masàqueles para os quais se destina a mensagem. Diretamente nãodizem respeito ao sonhador, mas indiretamente, pela forma comosurgem e pelas imagens apresentadas, trazem o traçocaracterístico dele. Esses sonhos podem ser interpretados aonível do objeto e ao nível do sujeito sem prejuízo da visão espíritae vice-versa. Os sonhos se originam no espírito que, durante o sono,estando ligado ao perispírito, atua no mundo espiritual e, aoacordar, imprime suas impressões, imagens e sensações, nocórtex cerebral, dando margem à lembrança em forma de sonho. O sonhador poderá estar destituído do corpo material(desencarnado) ou não (encarnado), pois o sonhar é um atopsíquico, cuja abrangência transcende os neurônios cerebrais.Mesmo desencarnado, o ser espiritual tem um ego, e esse egosonha. As impressões serão gravadas em sua estrutura
    • 170perispiritual, após o acordar. Corresponde a afirmar que a vidado espírito fora do corpo permite-lhe também sonhar. O senhor do sonho não é a alma, enquanto entidadehumana, restrita aos limites do corpo enquanto este vive, mas aindividualidade, o Espírito, cuja destinação exclusiva é o ascenderespiritual. Esse ascender difere do processo de individuaçãojunguiano, pois este ocorre no intervalo entre o nascer e o morrerfísico, e aquele atravessa as vidas sucessivas num crescimentoevolutivo contínuo. De acordo com o pensamento espírita, há uma faculdadepsíquica denominada mediunidade, que permite ao ser humanoperceber a interexistencialidade da vida. Nessa condição épossível ao indivíduo, o médium, perceber ocorrências de níveisenergéticos distintos. Essa aptidão permite que se observe aexistência e a atividade, por exemplo, de espíritos que estão numnível energético mais sutil que o físico-material. Certas pessoasparecem ter uma aptidão especial para ter um tipo específico desonhos. Essa aptidão especial (mediunidade) ocorre quandosonham freqüentemente com pessoas falecidas e delas recebemorientações variadas em relação à sua vida ou à de terceiros, ouque sonham com acontecimentos que serão confirmadosposteriormente, quando não havia possibilidade alguma de seremprevistos por leis probabilísticas. Para os estudiosos do Espiritismo não há uma distânciamuito grande entre o Saber Espírita e a Psicologia. Oestabelecimento de uma linha divisória muito rígida pode revelar odesconhecimento de ambos. A Psicologia, enquantoconhecimento acadêmico, preocupa-se em estabelecer uma linhadivisória bem nítida com o conhecimento espírita, porém seusobjetos de estudos, em muitos aspectos, se assemelham. Apsicologia do ser humano não entra em choque com a idéia doespírito. O Espiritismo não contradiz a Psicologia. Há variadas
    • 171escolas da Psicologia, que têm sido revisadas dia-a-dia,merecendo uma nova compreensão pelos estudiosos doEspiritismo. A Psicologia ortodoxa está dando lugar às PsicologiasAlternativas, arremedos de uma nova Psicologia da alma. Muito embora o Espiritismo seja uno e apresente tesescoerentes, bem como aplicáveis para explicar o mundo do pontode vista cosmológico, antropológico e existencial, ele ainda nãomostra, por uma questão de tempo de maturação de sua exegesedoutrinária, uma Psicologia do Espírito. Os estudiosos doEspiritismo estão mais voltados para sua demonstração filosóficae sua prática religiosa, importantes para os fins a que se destinam.Resta uma lacuna no campo da ciência e no campo da pesquisapsíquica. Explico-me. Ainda há uma preocupação muito grande em provar asteses espíritas em prejuízo de um detalhamento de seu conteúdo,aplicável à vida como um todo. Não que não se deva continuarperseguindo uma aceitação, principalmente na área acadêmica,dos princípios básicos espíritas. Mas não se deve pensar que atarefa seja concluída apenas por essa prática importante. O espírito, enquanto ser existencial, apresenta aspectosdesconhecidos que carecem de uma análise psicológica e de umaabordagem contextualizada, sempre exigidas em toda ciência. Muito embora haja uma tendência do saber espírita emafirmar que todo sonho se trata de uma ocorrência no momentodo sono, a grande maioria dos sonhos traz conteúdos simbólicosque merecem análise adequada do ponto de vista psicológicosubjetivo. Alguns sonhos efetivamente tratam de fenômenosespirituais. Estes deverão, independente da escola psicológica quese adote para interpretá-los, merecer cuidados especiais,principalmente questionando-se sobre por que ocorrem naquelemomento da vida do sonhador.
    • 172 A literatura espírita a respeito desses sonhos é vasta. Cito,entre outros, o trabalho do Dr. Carlos Bernardo Loureiro, AVisão Espírita do Sono e dos Sonhos, para o leitor que queiraaprofundar-se no assunto, bem como a bibliografia por eleindicada em seu livro. Há sonhos que trazem conteúdos decorrentes deorientações e encontros espirituais cuja análise, pela suaamplitude, pode ser feita de forma psicológica sem prejuízo desua interpretação espírita. Não há delimitação de fronteiras nemse pode saber onde termina o espiritual e onde começa opsicológico. Quando um ser desencarnado, “morto”, persegue alguémencarnado, “vivo”, chama-se esse fenômeno de obsessãoespiritual. Há sonhos que retratam essa possibilidade deocorrência durante o sono, quando o sonhador está liberado docorpo que dorme. Os sonhos carregados de emoções fortes,geralmente apresentam aspectos que se assemelham às obsessõese perseguições características do mundo espiritual. São oschamados pesadelos. Alguns sonhos, onde aparecem personagens já falecidos,conhecidos ou não do sonhador, podem se tratar de encontrosespirituais. Eles se assemelham, numa linguagem junguiana, a umencontro com a imagem do arquétipo do velho sábio, que nadamais é do que um espírito conselheiro a conversar com osonhador. Semelhante fenômeno é descrito em textos bíblicoscomo um anjo anunciando, em sonhos, sobre o destino dealguém. Os chamados sonhos lúcidos, em que o sonhador temconsciência de que está dormindo e de que sua consciêncianaquele momento lhe afirma estar sonhando, são sonhos deemancipação do espírito, que, naquele momento, não só detém avolição, como também tem acesso à memória que guarda de
    • 173outras vidas. Liberto do corpo, o qual retém as lembranças devidas passadas, o espírito entra em contato, em si mesmo, comesse conhecimento que lhe é inerente. Há sonhos, que se assemelham aos lúcidos, que seapresentam muito nítidos e se referem a aspectos da vidaconsciente fora do corpo físico, pela sua clareza e ausência deconteúdos simbólicos expressivos. São mais que sonhos. Sãosituações revividas p ego onírico para serem refletidas pelo eloego vígil, de forma objetiva e direta. Alguns sonhos proféticos se devem ao contato comespíritos mais esclarecidos que antevêem as ocorrências futuras eas transmitem ao espírito liberto do corpo pelo sono.Assemelham-se aos sonhos prospectivos a que se referia Jung. Uma das primeiras afirmações da visão espírita sobre ossonhos pode ser encontrada na obra de Allan Kardec, cujoconteúdo resume o pensamento espírita a respeito de váriostemas, inclusive dos sonhos, onde se encontram inúmeras páginasescritas. Usamos a tradução inédita de Djalma Motta Argollo, deO Livro dos Espíritos, feita a partir da segunda edição francesa,de Allan Kardec, nas transcrições seguintes. A primeira questão sobre o tema, apontada no pensamentoespírita, coloca os sonhos como uma possibilidade de retratar osencontros espirituais. Na questão 343 do livro citado, consta: “Os Espíritos amigos que nos seguem na vida são osque vemos por vezes nos sonhos, que nos testemunham afeto,e que a nós se apresentam sob traços desconhecidos?” Resposta: “Freqüentemente são eles; vêm visitar-vos, como idesvisitar um prisioneiro nas grades.” Esta colocação viria a explicar alguns dos personagensestranhos ao ego vígil e presentes nos sonhos. As afirmações espíritas sobre os sonhos estãofundamentadas numa outra questão que vem estabelecer uma linha
    • 174de base sobre todos os fenômenos envolvendo o sono. Eis apergunta e respectiva resposta: Questão 401. “Durante o sono a alma repousa como ocorpo?” Resposta: “Não, o Espírito nunca fica inativo. Durante o sono,os elos que o unem ao corpo relaxam, e o corpo não precisa do Espírito;ele percorre o espaço, e entra em relação mais direta com os outrosEspíritos.” Os sonhos são então explicados pelas atitudes do espíritoquando fora do corpo. Nesse sentido a existência daindividualidade independente do corpo é condição fundamentalpara a compreensão dos sonhos. A questão seguinte entra no mérito dos sonhospremonitórios, dos sonhos desconexos, dos sonhos subindo edescendo, das influências das preocupações do estado de vigília edos “pesadelos”. A concepção espírita se amplia, admitindotambém que as preocupações do ego vígil interferem nos sonhos,o que lhes dá um caráter psicológico, sem penetrar na esfera dacrença no espírito. Eis a pergunta e respectiva resposta: Questão 402. “Como podemos avaliar a liberdade doEspírito durante o sono?” Resposta: “Pelos sonhos. Acredita que quando o corpo repousa,o Espírito tem mais faculdades que no estado de vigília; lembra dopassado e por vezes tem previsões do futuro; adquire mais poder e podeentrar em comunicação com os outros Espíritos, seja nesse mundo, sejanum outro. Freqüentemente, dizes: tive um sonho estranho, um sonhohorrível, mas completamente inverossímil; enganas-te; é freqüentementeuma recordação dos lugares e coisas que vistes ou que verás numa outraexistência ou em outro momento. O corpo estando adormecido, o Espíritotrata de quebrar as amarras procurando no passado ou no futuro. (...) O sonho é a lembrança do que o vosso Espírito viu durante osono; mas nem sempre sonhais, porque nem sempre vos lembrais do que
    • 175vistes ou de tudo o que vistes. Não é a vossa alma plenamentedesenvolvida; não é por vezes senão a lembrança da perturbação queacompanha a vossa saída ou chegada, ao qual se junta a do que fizestesou do que vos preocupa no estado de vigília; se não, como explicar essessonhos absurdos que têm os mais sábios como os mais simples? Os mausEspíritos servem-se também dos sonhos para atormentar as almas fracase pusilânimes. (...) Noutra pergunta, referindo-se ao não recordar os sonhos,vem a resposta apontando as impossibilidades do corpo físico esuas propriedades energéticas. Há uma certa “densidade” docorpo físico que impede a gravação das impressões havidasdurante a vida fora da matéria. Pergunta e respectiva resposta: Questão 403. “Por que nem sempre nos lembramos dossonhos?” Resposta: “O que chamas sono, não é senão o repouso do corpo,pois o Espírito está sempre em movimento; nele o Espírito reencontra umpouco da sua liberdade, e se corresponde com os que lhe são queridos,seja neste mundo, seja noutros; mas como o corpo é uma matéria pesada egrosseira, conserva dificilmente as impressões que o Espírito recebeu,porque este não as percebeu com os órgãos do corpo.” Em questões seguintes a essa, o conceito de sonhos volta afrisar seu significado espiritual em detrimento do psicológico,muito embora não o despreze de todo. As preocupações da vidaconsciente são novamente colocadas como motivo para ossonhos de pressentimentos que não se realizam, bem como aslembranças de vidas passadas misturadas às intuições do futuro,fazendo parte deles. Na questão 405, o desejo é citado comofonte da realização dos sonhos, o que antecipa em pouco mais de40 anos, as concepções freudianas, já que o livro citado teve suaprimeira edição em 1857. A partir da questão 425 até a 455 háquestionamentos e uma análise sobre os fenômenos envolvendo osono, os sonhos, o êxtase e o sonambulismo, que vale a pena
    • 176serem lidos pela sua atualidade e pelo seu significado para acompreensão das diferenças entre os sonhos e outros estadosconscienciais. Tais fenômenos são colocados como meios deacesso à vida inconsciente, e o texto chama a atenção para o fatode que eles não devem ser menosprezados pela Psicologia paraessa finalidade. Pela sua extensão e complexidade não poderemosneste estudo comentá-lo. Ao que tudo indica, a análise sobre os sonhos contida nasquestões trazidas em 1857, por Allan Kardec, procura não entrardiretamente na questão psicológica, mas, principalmente chamar aatenção para uma outra ordem de sonhos, cuja diferenciação dossonhos simbólicos constitui-se num desafio para a Psicologiacomo ciência. O assunto é retomado no ano seguinte, na RevistaEspírita, de dezembro de 1858, por Allan Kardec, onde ossonhos são definidos como: lembranças daquilo que o espírito vêdurante o sono, lembranças da partida e chegada ao corpo elembranças daquilo que se faz e que o preocupa no estado devigília. Os pesadelos são perseguições dos maus espíritos. Em Julho de 1865, no mesmo periódico, o autor transcreveum sonho tido e relatado por N. G. Bach, um bisneto de J. S.Bach, o famoso músico, em que, após ganhar uma espineta64 depresente de seu filho, à noite sonha com o seu antigo proprietário,a quem desconhecia, a lhe contar a história do instrumento e lhetoca uma música com tal emoção que o acorda, de madrugada.Dias depois, após tentar sem sucesso escrever a músicacompleta, para sua surpresa, ao acordar pela manhã, encontrou acomposição escrita pelo espírito que lhe tinha aparecido nosonho. O sonhador, embora fosse músico, nunca havia escrito 64 Antigo instrumento de cordas percutíveis e teclado, cuja mecânica e técnica são iguais às do cravo.
    • 177qualquer música. Sobre esse episódio Allan Kardec comenta,dentre outros aspectos doutrinários espíritas, que não vem aocaso assinalar no momento, que era natural que ele sonhasse coma espineta, tendo em vista sua constatação e satisfação quanto àdata antiga do instrumento (abril de 1564). Isto coloca os sonhos,numa visão espírita, como resultante das preocupações do estadode vigília, conforme o número da mesma Revista Espírita deJunho de 1858. Para o Espiritismo este é um sonho que se pode chamar deespírita pela sua nitidez e veracidade, pois a história contada nosonho foi investigada e comprovada. Esse sonho não se prestariaa uma interpretação psicológica. Fazê-lo seria alongar-se demaisem algo que é apenas um fato. A interpretação ao nível do objetoé mais adequada. É também neste número que Allan Kardec coloca ossonhos, dentre outros fenômenos, como uma emancipação daalma. Ele divide os sonhos em três categorias, pelo grau delembrança: 1ª . Sonhos que são provocados pelo organismo e que sedemoram em ser esquecidos; 2ª . Sonhos mistos provocados pelo organismo e pela açãoespiritual e que são logo esquecidos; 3ª . Sonhos etéreos ou puramente espirituais e que não sãolembrados. Parece-nos que a primeira categoria reflete uma idéiacomum à época, em que se pensava que os sonhos eram oriundosda dinâmica orgânica noturna. No número de Junho de 1866, Allan Kardec cita um sonhoinstrutivo seu, em que, inicialmente, atribuiu a alguma doençaorgânica, pois que estivera doente naquela época. Eis o sonho:
    • 178 “Num lugar que nada lembrava à nossa memória e que separecia com uma rua, havia uma reunião de indivíduos queconversavam em grupo; nesse número só alguns nos eramconhecidos em sonho, mas sem que os pudéssemos designar pelonome. Considerávamos a multidão e procurávamos captar o assuntoda conversa quando, de repente, apareceu no canto de um murouma inscrição em letras pequenas, brilhantes como fogo, e que nosesforçamos por decifrar. Estava assim concebida: Descobrimos quea borracha rolada sob a roda faz uma légua em dez minutos, desdeque a estrada.... Enquanto procurávamos o fim da frase, a inscriçãoapagou-se pouco a pouco e acordamos. Com o receio de esquecerestas palavras singulares, apressamo-nos em as transcrever. Ele consulta o, então seu amigo, Dr. Demeure, que eramédico, e este lhe explica, afirmando que os sonhos estãorelacionados com o caráter das doenças, e que muito a medicinaainda iria estudar isso, mas que, aquele sonho, era de outracategoria. Era um sonho instrutivo, isto é, os espíritos estavam lhemostrando que as invenções são precedidas de estudosanteriores, durante o sono. Assim como Hipócrates, Allan Kardec, e seu amigomédico, acreditavam que os sonhos prenunciavam como tambémdenunciavam doenças. Jung, em vários tópicos, também tinhaconsciência dessa possibilidade. Pode-se afirmar que, na visão espírita, trazida por AllanKardec, nos primórdios do Espiritismo, os sonhos sãoconseqüências: 1. das interferências das preocupações do estado de vigília; 2. dos desejos do estado de vigília; 3. das disposições orgânicas; 4. das lembranças de vidas passadas; 5. das atividades do espírito durante o sono;
    • 179 6. das intuições quanto ao futuro. Atenho-me agora a comentar apenas textos extraídos demais duas fontes, pela abrangência de suas obras, muito emboratenha consultado vários autores espíritas citados na bibliografia,ao final. Comento trechos de um dos livros de Francisco CândidoXavier e também trechos de livros de Divaldo Pereira Franco.Dois espíritas que, como médiuns, trouxeram valiosa contribuiçãoao desenvolvimento do Espiritismo como doutrina. Nos livros consultados, os sonhos são explorados, maisespecificamente, como resultantes de encontros espirituais,encontros do sonhador durante o sono, com outros que estãotambém em sono, liberados do corpo como também comentidades espirituais. As recordações se dão de forma superficial,mas guardando-se as emoções características dos encontroshavidos. Quando não são encontros, são registros gravados namemória, referentes às vidas passadas do sonhador, que, porestar liberto do corpo no sono, tem acesso a eles. O acesso élembrado no dia seguinte como um sonho. Geralmente quando o sonhador se encontra com alguém dequem não goste ou lhe é inimigo, o sonho é lembrado como umencontro com uma figura demoníaca ou agressiva. Os símbolosvão surgir tomando o lugar do personagem “real”. A figuraaversiva do sonho, que terá ou não o mesmo sexo do sonhador,poderia ser interpretada como sendo sua sombra, se do mesmosexo, ou a projeção de sua ânima/ânimus, se do sexo oposto.Essa generalização pode não corresponder à realidade na vida dosonhador. Nesses casos, quando se pretende trabalhar com essessonhos, seria mais adequado levar-se à dramatização deles, àsemelhança do método utilizado na Gestalt-Terapia.
    • 180 Nos trechos colhidos, vê-se que, embora o sonho seja umarealidade do sonhador, é possível que, nos encontros espirituaisdurante o sono, duas pessoas se lembrem após o acordar, haversonhado uma com a outra, mesmo que com pequenas diferençasde relato. Os textos colocam também o fato de que, quando nãoocorre a lembrança desses encontros, é porque não há aconveniência do registro para a consciência desperta.65 Ospesadelos são tidos como conseqüência da consciência culpadaou de remorso pelos equívocos cometidos no estado de vigília.66Alguns sonhos repetidos são tomados por repetidas situaçõesvividas nos estados oníricos.67 No livro Árdua Ascensão, do médium Divaldo P. Franco, àpágina 26, há o seguinte trecho, interessante para nossa análise: “Ao buscar o repouso físico, Augusta era assaltada,invariavelmente, por estranho e peculiar sonho, revivendo,ora as cenas de encantamento, quando, doutras vezes, as deaflição. O inconsciente profundo liberava as impressões maisfortes que irrigavam o consciente atual, facilitado peloparcial desprendimento do espírito pelo sono.” É nessa última frase que percebemos a identidade entre asteses espíritas e a Psicologia junguiana, em que o inconsciente édividido em duas partes: o coletivo, mais profundo, e o individual.Não se observa nenhum conflito, visto que, ao que se depreendedo texto, na condição de espírito fora do corpo durante o sono,ainda há uma vida inconsciente que, tanto desperto quantodormindo, influencia no estado consciente. No livro O Consolador, do médium Francisco C. Xavier,encontramos, à página 43, o que se segue. 65 Nas Fronteiras da Loucura , Divaldo Pereira Franco, p. 241. 66 Do Abismo às Estrelas, idem, p. 164. 67 Calvário de Libertação, idem, p. 306.
    • 181 “49 − Como devemos conceituar o sonho?” − “Na maioria das vezes, o sonho constitui atividade reflexa dassituações psicológicas do homem no mecanismo das lutas de cadadia, quando as forças orgânicas dormitam em repousoindispensável. Em determinadas circunstâncias, contudo, como nos fenômenospremonitórios, ou nos de sonambulismo, em que a alma encarnadaalcança elevada porcentagem de desprendimento parcial, o sonhorepresenta a liberdade relativa do espírito prisioneiro da Terra,quando, então, se poderá verificar a comunicação inter vivos, e,quando possível, as visões proféticas, fatos esses sempreorganizados pelos mentores espirituais de elevada hierarquia,obedecendo a fins superiores, e quando o encarnado em temporárialiberdade pode receber a palavra e a influência diretas de seusamigos e orientadores do plano invisível.” O autor vai considerar o sonho como “atividade reflexa desituações psicológicas”, premonição, além de comunicação entreduas pessoas desprendidas do corpo físico durante o sono. Aprimeira afirmação vai exatamente ao encontro das teoriaspsicológicas vigentes à época, sendo complementadas pelas duasúltimas afirmações. Ainda do mesmo médium extraímos do livro Entre a Terrae o Céu, editado pela FEB, lançado em 1954, à página 94, anarração do seguinte sonho, de um sonhador de 35 anos,enfermeiro, solteiro, que morava com a mãe: “Sonhei que alguém me chamava, à distância, em voz alta, e,acreditando tratar-se de algum doente em estado grave, não vacilei.Corri ao apelo, mas, ao invés de topar um quarto de enfermagem, vi-me,de imediato, numa cela mal iluminada e úmida... E, com os recursos de imaginação de que dispunha paracorresponder às requisições da mente, o rapaz continuou: Era um perfeito cubículo e prisão, onde me surpreendi encarcerado,de repente, junto de um criminoso de mau aspecto e de infortunadamulher em pranto... Senti tanta simpatia pela moça desventurada, quantoaversão pelo réu de medonha catadura. Tive, porém, a impressão nítida
    • 182de que nos conhecíamos. Um misto de ódio e sofrimento me tomou deassalto, junto deles, principalmente ao lado do infeliz, cujo olhar se meafigurava cruel... Perguntava, a mim mesmo, por que não me retirava detão desagradável presença, mas, enquanto o homem me repelia, a mulherme provocava o maior enternecimento... Por mais estranho que pareça,experimentava o desejo de agredi-lo e de acariciá-la ao mesmo tempo.Achava-me em expectativa, quando o criminoso avançou para mim, como propósito evidente de liquidar-me, ao passo que a pobrezinhaprocurava defender-me. Estava atônito, ignorando se o condenadopretendia assassinar-me, ali mesmo, quando tentei uma reação à altura!Cego de incompreensível rancor, ia precipitar-me sobre ele, quando,rápido, apareceu um delegado policial, seguido de dois guardas, queentraram na contenda, impedindo-nos o mau impulso. O chefe, segundopercebi, de um só golpe conteve o meu agressor, obrigando-o a sentar-se,vencido, conquistando-me um respeito tão grande que, realmente, apesardo desejo de ouvir a mulher ajoelhada, em soluços, não arredei pé dolugar em que me apoiava. Depois de palavras enérgicas e rápidas, odelegado trouxe, então, à cela outros ajudantes que arrastaram meuadversário para fora... Logo após, acomodando-me numa velha cadeira,reconduziu a jovem para o interior do cárcere... Estampou na fisionomia a expressão de quem se propunhainutilmente lembrar-se e, decorridos longos instantes de reticência,rematou: Depois... depois, não consigo precisar as recordações... Sei apenasque me pus a correr, em fuga para nossa casa, de vez que os policiais semostravam igualmente dispostos a recolher-me. Temendo o xadrez,acordei estremunhado e abatido...” O sonhador teve um reencontro espiritual junto a antigodesafeto desencarnado, de quem tinha “roubado” sua mulher.Naquela noite os três se encontraram em casa da mulher, tambémencarnada e, se não fosse o auxílio espiritual, os dois homensentrariam em luta corporal. Realmente o desafeto chamou pelo sonhador. Não havia cela mal iluminada e úmida, mas a sala da casada mulher. Provavelmente esta caracterização simbólica pode ter-se originado a partir do estado emocional do sonhador.
    • 183 Os sentimentos dele para com o desafeto e para com amulher, no sonho, eram verdadeiros durante o sono. Realmente o desafeto tentou avançar sobre ele para agredi-lo. O delegado era o espírito encarregado da reunião. Os doisajudantes eram auxiliares do encarregado. Realmente ele se evadiu do local e foi para casa pelamanhã, quando acordou com a sensação de um mau sonho. Igualmente extraímos do livro Tramas do Destino, domédium Divaldo Pereira Franco, à página 53, o seguinte trecho,que por si mesmo se explica, durante e após o sono de umpaciente hospitalizado com hanseníase: “ No transe experimentado, sentiu-se recuar às contingências da vidaatual, como se estivesse diante de uma tela de cinemascópio e se revisseem caráter retrospectivo, desde o internamento hospitalar ao berço edaí, após uma larga faixa de sombras em que se debatiam vultos informese se sucediam acontecimentos sem nitidez, recomeçassem as paisagens,nas quais se sentia viver. Destacavam-se, na visão colorida, cenas que retratavam poder edistinção social em torno de um homem abastado e nobre, bajulado, noqual, acurando observações, se descobriu a si mesmo, embora algunsdiferentes traços fisionômicos... Ao deparar-se com a personagem, com ela se identificando, percebeu-se com tal afinidade que experimentou transladar-se da posição deobservador para a vivência emocional do indivíduo examinado. Sentiu a arrogância e a prepotência que lhe intumesciam o peito, oorgulho exacerbado e a alta carga de paixões, que a custo dissimulava;a mente varrida por dramas sucessivos parecia deleitar-se em poderexecutá-los sinistramente. Sabia-se temido e odiado, no que secomprazia. Como continuasse a viagem em retrospecto, encontrou-se numaampla alcova, diante de bela mulher imóvel, que fitava aterrada aconstrução de uma parede... O silêncio, quebrado somente pelas ferramentas manipuladas, arespiração abafada e uma soma de ódio que não extravasava, emexplosão, porque parecia vingar-se fria, calculadamente, assinalavam oambiente.
    • 184 De súbito enevoaram-se os cenários, perderam-se os contornos, e ele,volvendo à posição anterior, passou a fugir em delírio, desequilibrado,açodado por implacável vingador que cavalgava empós, alcançando-o eliberando-o, para novamente vencê-lo... Na luta desigual, ao verificar-se dominado pelo outro, emestarrecimento pôs-se a gritar. A debater-se no leito humilde, despertou, banhado de suor, comexpressão bestial. A balbúrdia produziu reclamação dos acamados em volta e atraiu oenfermeiro, que, gentil, procurou acalmá-lo. − Um pesadelo, pois não? − inquiriu prestimoso. − É a primeira fase.Todos são vítimas desses sonhos tenebrosos, quando dão ingresso aqui. “Acostumam-se depois. Os primeiros são os piores dias. Oinconsciente se liberta, as imagens inspiradas pela doença desbordam-see agridem suas vítimas. Não desespere. O tempo lhe enxugará aslágrimas, e você aprenderá a lutar pela sobrevivência, eu bem o sei...” Tinha razões o cooperador da enfermagem, não, porém, totais. Énatural que o choque produza, inevitavelmente, a liberação daslembranças arquivadas no inconsciente, mas não apenas as que dizemrespeito à vida atual. Os depósitos da “memória não cerebral” guardamos arquivos dos sucessos atuais e pregressos, das vidas anteriores, de quedão conta ao impositivo das emoções mais fortes, dos gravames morais,das contingências espirituais imperiosas. (...) Daí os pesadelos semelhantes, conforme anotara o enfermeiro, que osacometiam, porque a consciência individual, expressando a ConsciênciaSoberana, ...”” Outro aspecto que vale a pena comentar no que dizrespeito à interpretação dos sonhos é a análise dos que sãoproduzidos pelos médiuns. Eles costumam ter sonhos maispróximos de encontros espirituais do que sonhos simbólicos. Seussonhos são, muitas vezes, repletos de temas e emoções que nãolhes pertencem, mas sim a espíritos com quem travam contato nostrabalhos espíritas que visam eliminar as obsessões. Históriascarregadas de emoções e de envolvimentos cármicos, queexigem um trabalho laborioso e persistente de solução, vão sefixar na mente dos que delas participam, provocando sonhos que
    • 185não dizem, diretamente, respeito ao sonhador e que, emboratragam símbolos oníricos, nem sempre se prestam à análisesubjetiva. O analista deve, conhecendo as atividades espirituais(mediúnicas) do sonhador, ficar atento às interpretaçõesapressadas. Muito embora o sonho seja uma realidade dosonhador, a sua poderá estar interligada à de alguém por força desua participação indireta na solução dos problemas quando ele sepresta ao trabalho como médium, onde a mente exerce influênciadecisiva. É também nesse sentido que se pode aplicar arecomendação de Jung68 em se considerar as convicçõesreligiosas, filosóficas e morais do sonhador. De acordo com as pesquisas de Aserinsky e Kleitman,ficou constatado que todos sonham sempre que dormem, masnem sempre se recordam que sonharam, bem como de seuconteúdo. Às vezes sabe-se que se sonhou, mas não se sabe comquê. Esse material onírico resultante, não lembrado, permanecerásubconscientemente guardado, sem energia suficiente para assumira consciência, salvo se algum fato ou objeto se conecte ao sonhoe o traga à tona. Esse material subconsciente permanecerá poralgum tempo e poderá ser responsável por alguns fenômenos de“dèjá vu”, isto é, da sensação de que já se esteve em algum lugarou já se passou por aquilo antes. Essa não é uma explicação paratodos os casos de “dèjá vu”. Eles também ocorrem sempre queas pessoas se deparam com situações que já viveram antes emoutras vidas e que as marcaram emocionalmente. No livro Autodescobrimento, também de Divaldo Franco,à página 102, há um capítulo sobre subconsciente e sonhos, cujaanálise fazemos a seguir. 68 Obras Completas, Vol. XVI, par. 339.
    • 186 O texto inicia colocando que os sonhos se originam nosubconsciente, numa zona onde se encontram os registros d osacontecimentos vividos pelo indivíduo, destacando suaimportância na apreciação do ser humano. Considera-se ali, queos sonhos são representações das liberações de: – anseios e medos não digeridos; – ocorrências não compreendidas; – educação castradora; – interrogações sem resposta; – conflitos de personalidade; Da mesma forma que são colocados esses aspectos,outros, negligenciados pelos estudiosos do tema, muito emboraJung se tenha referido a eles69 , são também citados comorelevantes para produzir representações oníricas: – impressões agradáveis e salutares; – sucessos e alegrias; – aspirações realizadas; – desejos satisfeitos. No texto, o Eu Superior é o mesmo espírito, que mantémcontatos fora do corpo, trazendo as impressões que surgem comosonhos. O texto também coloca como responsável pela produçãodo sonho a libido, mal direcionada ou excessivamente liberada,que ocorre em função do estresse, da depressão, das fobias, dosdesejos, etc. 69 Obras Completas, Vol. XVI, par. 317.
    • 187 Nota-se também uma confirmação da tese freudiana, naseguinte afirmação: “Todo desejo fortemente acionado liberado subconsciente as cargas arquivadas, que retornam aocampo da consciência como sonhos, recordações,memórias...”. Os sonhos são, portanto, também a realização dedesejos conscientes e inconscientes. O texto coloca que os sonhos podem ser programadostanto quanto extintos quando no formato de pesadelos, bastandoque, conscientemente se deseje sonhar com algo de agradável epositivo. Sonhos cujas imagens de certos locais se repetem e nãosão conhecidas do sonhador quando desperto, podem serreferentes às vidas passadas. Quando a elas se referem,provavelmente, aquele lugar foi palco de situações vividas pelosonhador, em outras vidas, e ainda se encontra influenciando aatual. Pode-se afirmar que a tese defendida no Espiritismo, porAllan Kardec e após ele, compreende a visão psicológica arespeito dos sonhos. Os textos citados nos levam à percepção deque a visão espírita atual compreende a visão psicológica,adicionando a ótica do espírito. Essa visão permite a análiseobjetiva, subjetiva e espiritual. Não observamos conflito deopinião, mas acréscimo de visão. Tanto de um lado como deoutro, se é que existe antagonismo, as posições são corretas epodem ser utilizadas na prática clínica sem prejuízo ao paciente esem a necessidade de convertê-lo a uma crença. Na minha prática clínica, observo sonhos que trazem asduas possibilidades separadas e, às vezes, noto sonhos que sedividem numa parte completamente simbólica, arquetípica ou não,e uma outra de cunho espiritual. Pode-se dar tratamentos distintosa esses sonhos.
    • 188 A interpretação espírita não deve ser imposta ao paciente,pois, qualquer que seja ela, deve implicar num consenso. Eis um campo amplo e vasto que merece estudos maisapurados e compreensivos a respeito dos sonhos comomensagens da alma.
    • 189 Sonhos com mortos e com a morte Os sonhos com parentes já falecidos ou com amigos que jámorreram poderão merecer interpretações variadas a dependerdo conteúdo do sonho. Podem ser recados dos “mortos” comopodem trazer um simbolismo ligado à necessidade de se lidar comperdas e desapegos. Sua análise poderá tomar caminhos diversose, certamente, penetrará no mundo das crenças do paciente. Elizabeth Kübler-Ross, em seu livro Sobre a Morte e oMorrer, faz uma análise c riteriosa dos estados psicológicos depacientes terminais diante da morte iminente. Seu trabalho deteve-se nos aspectos conscientes sem entrar na esfera de como seriamseus sonhos. Marie-Louise von Franz coloca que, diante damorte, há uma certa abundância de símbolos oníricos, cuja funçãoé preparar o ego desperto para a morte próxima. Muitos sonhostrazem como símbolo onírico prefigurando a morte, um intruso ouassaltante, em atitude de confronto, levando vantagem em suasintenções, e, na maioria das vezes, alcançando relativo sucesso.Nesses casos não se sonha morrendo, mas sendo vítima de umainvasão de assalto em sua vida.
    • 190 Jung costumava interpretar os sonhos no nível subjetivo,muito embora, às vezes, e em certos casos, ele usasse o métodoobjetivo. Marie-Louise von Franz assinala70 que ele fez umaanálise de seis sonhos de uma paciente de uma colega sua, que,decepcionada com a interpretação objetiva que ela havia dado,foi procurá-lo. A análise que ele fez foi a mesma dela, isto é, ofalecido seu noivo que lhe falava nos sonhos era ele mesmo, adespeito de não saber qual a interpretação de Marie-Louise vonFranz. Isso coloca, pelo menos para Jung e Marie-Louise vonFranz, a possibilidade de alguns sonhos ditos espíritas seremverdadeiros, muito embora se observe certa cautela em asseguraressa hipótese, principalmente por parte dela. No seu livro OsSonhos e a Morte, p. 16, ela coloca sua dúvida em relação aoEspiritismo por considerar difícil estabelecer o que é fantasia e oque é realidade. Para Marie-Louise von Franz, a psiquê parece ter ciênciade que a vida é eterna, procurando, através dos sonhos,tranqüilizar o ego quanto à aproximação daquele momentoimportante de transformação para uma outra realidade. Os sacerdotes babilônicos acreditavam que os sonhos commortos eram prenúncios de doenças ou morte do sonhador. Oschineses também desenvolveram um sistema interpretativo para ossonhos, correlacionando-os com doenças físicas. Robert C. Smith71 cita pesquisa feita num hospital em queos pacientes que sonharam com morte e separação tiveram seusquadros clínicos agravados. Não parece haver diferençassignificativas entre os sonhos de pacientes terminais e outraspessoas. Há, de fato, sonhos que ocorrem antes da morte que 70 Os Sonhos e a Morte, p. 17. 71 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 209.
    • 191parecem preparar a pessoa para o fenômeno. Esses sãoexceções. Sonhar constantemente com pessoas já falecidas é,segundo alguns espíritas, um certo tipo de mediunidade. A“presença” dos mortos nos sonhos, com a finalidade de tratar deassuntos de seu interesse, com o fim de resgatar algo que ficouobscuro, reflete também, do ponto de vista subjetivo, umanecessidade do sonhador de libertar-se de alguma culpa emrelação àquele indivíduo do sonho. Quando os d ados trazidospelo sonho podem ser confirmados e representam algodesconhecido do sonhador, e que, às vezes, se referem aterceiros, merecem uma interpretação objetiva. Nestes casos, ossonhos são ditos espirituais. Mesmo que se interpreteobjetivamente, ainda assim, eles comportam uma análise subjetiva.Do ponto de vista psicológico, os sonhos com a morte sãoindicadores de transformação da imagem do ego e de suaspersonas. A morte de alguém, principalmente dos familiares dosonhador, ou dele mesmo, nos sonhos, não estão necessariamentese referindo à vida “real”. Da mesma maneira o assassinato defiguras conhecidas, até mesmo quando o sonhador é o autor docrime, não devem ser levados de forma objetiva e direta comosendo factíveis de ocorrer. Geralmente esses sonhos sinalizampara a necessidade do sonhador não mais considerar as figurasarquetípicas como ameaçadoras à integridade do ego. Os sonhosque antecedem a morte, que pode vir a acontecer muito tempodepois do sonho, às vezes anos, trazem sempre uma proposta aosonhador para integrá-la à realidade de sua vida. Os sonhos onde pessoas falecidas solicitam que o sonhadorou terceiros realizem algum ritual ou dêem algum recado a alguém,devem ser cuidadosamente analisados, tanto do ponto de vistaobjetivo quanto subjetivo. Muito embora os rituais tenham, de
    • 192alguma forma, função terapêutica e sejam excelentes instrumentosde cura, tais pedidos, quando verdadeiros, não devem seconstituir numa obrigação por parte do sonhador em satisfazê-los.Muitas vezes o medo de uma certa “punição” ou “perseguição”do falecido, obriga o sonhador a fazer coisas que podem colocá-lo no ridículo. Do ponto de vista da análise subjetiva, deve-severificar o vínculo entre o falecido e o sonhador, bem como o tipode pedido que foi feito. Das duas análises, é preferível a subjetiva tendo em vista ainterferência do sonhador, com seu sistema de crenças, na formacomo o sonho é relatado, o que pode induzir o analista a duvidarde sua veracidade devido às interferências do ego. Richard Noll, em seu controvertido trabalho O Culto deJung, faz uma crítica a James Hall, analista junguiano, porconsiderar que ele estabelece uma certa correlação entre ossonhos e as provas de vida após a morte. Noll afirma que ainterpretação dos sonhos seria, em Hall, uma preparação iniciáticapara o “além-túmulo”, o que fortalece sua disposição em afirmaro caráter místico da Psicologia Junguiana. Jung dizia72 que, em certos sonhos, o sonhador se livra dosinimigos, matando-os. 72 Obras Completas, Vol. III, par. 275.
    • 193 Os “pesadelos” Algumas ocorrências do início do sono são tidas comopesadelos, mas, muitas vezes, não passam de fenômenosfisiológicos ligados aos processos gástricos, que interferem nosono, provocando mal estar físico com conseqüênciaspsicológicas. Nunca houve nenhuma evidência de que processosgástricos fossem justificar o conteúdo e a causa dos pesadelos,tanto quanto fossem causados por personagens demoníacos. Freqüentemente a doença mental é associada aospesadelos, sobretudo quando se trata de esquizofrenia e psicosesem geral. Os pesadelos não são causados pelas doenças mentais,mas eles surgem tanto em indivíduos sadios quanto nos que sãoportadores de doenças mentais. Os pesadelos dos doentesmentais são muito úteis no estabelecimento de um diagnóstico. Muitos fisiologistas acreditavam, sem evidênciacomprobatória, que a má oxigenação cerebral fosse causa dospesadelos, até que se depararam com pacientes que tinhamapnéia durante o sono e raramente relatavam pesadelos. Porém, há uma ocorrência que nada tem de fisiológica nemse trata de pesadelo, ou mau sonho, e que leva muitas pessoas aodesespero sem saber o que está acontecendo e que lhes incutemuito medo e pavor. Trata-se da inércia logo após o adormecer
    • 194quando, em algumas pessoas, o corpo permanece rígido, semqualquer possibilidade de movimento e a consciência percebe-sedesperta. Quando esse fenômeno se inicia há uma tendência dapessoa querer se mexer sem conseguir, levando-a ao desespero.Quer gritar, mas a voz não sai. Quer se mexer, mas os músculosnão obedecem. A pessoa é tomada por um estado de pavor epânico, cujo desejo único é levantar-se. Durante esses momentos,às vezes, ocorrem algumas alucinações e visões típicas dosestados oníricos. Esse fenômeno é o início da separação da mente emrelação ao corpo73 . É apenas seu início. Ir adiante sem medo é omelhor que se tem a fazer, pois conduzirá o indivíduo ao estadoonírico conhecido pelo nome de sonho lúcido. Muito embora Freud tenha considerado o pesadelo comosendo resultante de uma falha parcial no trabalho de elaboraçãoonírica, ou conseqüência de desejos não aceitos pelo ego,expressando o conflito entre o desejo e a censura, sabemos quenele residem processos de aprimoramento para o sonhador,através do contato com sua sombra. Costuma-se afirmar, pelos psicólogos da linha junguiana,que os sonhos onde aparecem figuras do mesmo sexo dosonhador, em atitudes aversivas, são indícios de sua sombra. Os sonhos conflitivos, também chamados de pesadelos, sãoressonância clara dos processos psíquicos de seu agente. Muitos sonhos, tidos como pesadelos, em que o sonhadorse vê em situação onde geralmente está sendo perseguido,agredido, entre a vida e a morte, ou que “monstros” querematingi-lo, podem ter explicações diversas e, às vezes, seapresentam de formas distintas. O conhecimento do analista a 73 Na linguagem espírita, o fenômeno é o chamado desdobramento ou viagem astral, em que o perispírito, ou Modelo Organizador Biológico, se separa do corpo físico.
    • 195respeito da psicologia dos sonhos e do Espiritismo o faráestabelecer a diferença. Do ponto de vista psicológico pode-se entender como umamanifestação de um complexo ou da sombra do sonhador. Oselementos simbólicos que impõem situações aversivas aosonhador representam aspectos negados ou desconhecidos emsua personalidade. Do ponto de vista espírita, trata-se da conhecida obsessãoespiritual, em que o sonhador, em espírito, entrou em contato comcircunstâncias aversivas a ele durante o sono. O resultado é alembrança do episódio através dos símbolos constantes noinconsciente. A literatura espírita é vasta neste campo, através devários livros psicografados ou não, onde as obsessões sãoexaustivamente estudadas. Há sonhos perfeitamente distinguíveis quanto a naturezapsicológica ou espiritual, mas h outros de difícil verificação. A áforma como se apresentam geralmente é a mesma. Quando setrata de problema de ordem espiritual, que não exclui a existênciade problemas psicológicos, o sonhador nem sempre se sentefisicamente bem. É comum sentir-se cansado e descompensado. Aos espíritas, num e noutro caso, seria importante buscar aterapia do passe, da oração e do esclarecimento. Aos que nãosão espíritas e nem se interessam pelos métodos utilizados peloEspiritismo, o tratamento psicoterápico será de grande valia. Há pesadelos, conhecidos pelo nome de terror noturno,que provocam tamanha perturbação ao sonhador, que ele acordaabruptamente, com sensações desagradáveis e, às vezes, gritandode medo ou pavor. O acordar abrupto é seguido, não raro, desuores e tremores que se prolongam por alguns minutos. Essefenômeno é muito comum em crianças e adolescentes, sendocurável com um bom tratamento psicoterápico. O uso de
    • 196medicação nem sempre é aconselhável, pois costuma mascarar osintoma impedindo o conhecimento da verdadeira causa. Do ponto de vista psicológico, os pesadelos funcionamcomo uma espécie de tratamento de choque, tentando sensibilizar,de forma violenta, o sonhador, a fim de que ele perceba anatureza real de seu conflito. A sombra nele expressa deixa deser velada e irrompe abruptamente. É uma espécie de‘eletrochoque’ onírico. Como se livrar dos “pesadelos” Naqueles estados de incapacidade de mover o corpo,erroneamente chamados de pesadelo, o tratamento é muitosimples. Deve-se não tentar mover o corpo, nem tampoucochamar alguém. Deve-se buscar pensar em outro local, em estarnum outro lugar da casa ou da cidade. Imediatamente a “pessoa”se deslocará para lá. O indivíduo não deve temer coisa alguma.Nada vai lhe acontecer naquele momento. A maioria das pessoas,por desconhecimento do processo, teme que advenha a própriamorte. Não há perigo. Experimente. Será uma sensaçãoindescritível, extremamente agradável e prazerosa, além de dar avocê a certeza de que não se reduz a seu próprio corpo. Naqueles estados em que realmente está ocorrendo um“pesadelo”, isto é, uma perseguição ou uma situação aversiva queo “sonhador” porventura esteja enfrentando no sonho, asrecomendações são as seguintes: 1. Relate seu sonho a alguém, preferencialmente a seu analista, se estiver em análise; 2. Após lembrar-se do pesadelo, caso não seja a hora de levantar-se, faça-o, tome um pouco de água e volte a dormir;
    • 197 3. Procure identificar no pesadelo qual o motivo de seu pavor e tente livrar-se dele na consciência; 4. Caso o pesadelo se repita procure a ajuda profissional de um psicólogo; 5. Utilize-se da técnica da dessensibilização sistemática74 no caso de passar a ter medo de objetos ou pessoas retratadas nos sonhos aversivos; 6. Relembe o pesadelo e enfrente, numa sessão terapêutica, os desafios apresentados nele; 7. Durante a lembrança do pesadelo procure “pedir ajuda” a um personagem antecipadamente criado por você, como um velho sábio ou guia onírico. Há dois tipos de sonhos que costumam provocar uma certasensação de desconforto, típica de um pesadelo. Eles dão aosonhador a sensação de que está caindo ou de que está voando.A seguir descrevo os dois tipos. Sonhar caindo São freqüentes os sonhos onde o sonhador se vê caindo dealgum lugar bem alto ou para o fundo de um poço ou buraco. Aqueda geralmente produz medo ou sensação de pavor. Esses sonhos podem ter significados amplos. Primeiro,quando se trata de uma sensação física, refere-se a um processocomum e diário em que o sonhador, ao retornar ao seu corpoinerte pelo sono, sente o processo de entrada nele. Essa sensaçãoaparecerá como um sonho em que se cai de algum lugar.Segundo, pode-se pensar de forma simbólica que a sensação dequeda significa a entrada no inconsciente ou o contato com algum 74 Exposição gradual aos elementos aversivos num cenário terapêutico agradável.
    • 198complexo. Ainda do ponto de vista psicológico, pode significarum recado ao sonhador de que ele deve estar “elevado” demais,isto é, provavelmente está com um conceito muito alto sobre simesmo ou com idéias muito acima de sua capacidade de realizá-las. Necessita descer à consciência, ou seja, pôr os pés no chão. Sonhar voando São comuns os sonhos em que o sonhador se encontravoando, subindo ou descendo, mas em plena liberdade, ou aindaflutuando. Esse movimento ainda pode ser interpretado como umestado de passagem, de mudança ou transformação. Numaanálise subjetiva serve como reflexão para que o sonhador venhamanter mais contato com a realidade. Sonhos, como pesadelos, de estar sendo sufocado, presonum espaço reduzido, ou deteriorando-se lentamente, podem seruma lembrança de uma situação de morte, isto é, lembrança deum período em que se esteve ligado ao corpo no estado dedecomposição. Dentro do simbolismo dos sonhos, Jung coloca tambémque os movimentos que neles ocorrem podem ter um significadoparticular, de acordo com o contexto em que ocorrem. “Para aesquerda equivale, portanto, a um movimento em direção aoinconsciente, enquanto que o movimento para a direita é‘correto’, tendo por meta a consciência.”75 Ele dizia tambémque as funções psíquicas podem ser representadas nos sonhospor pai e filho ou mãe e filha. Na primeira dupla estariam asconscientes, masculinas, e, na segunda dupla, as funçõesinconscientes, femininas. 75 C. G. Jung, Obras Completas, Vol. XII, par. 166.
    • 199 Preocupar-se com os pesadelos é mais importante do quecom os sonhos em geral. Os pesadelos sempre indicam algumaanormalidade no sono e, por extensão, na vida do sonhador. Agrande maioria dos pesadelos diz respeito aos conflitos dosonhador e lhe indica como resolvê-los. Desprezá-los é como nãovalorizar um exame para a obtenção de diagnóstico médico.
    • 200 Desdobramentos e sonhos A diferença entre estes dois fenômenos nem sempre éperceptível ao sonhador, tendo em vista, principalmente, suapouca familiaridade com o primeiro. A diferença básica é o uso da vontade durante o sono,inadmissível no sonho, m uito embora se acredite ser possível acontinuidade do sonho após se ter acordado. Ouspensky diziaque o estar desperto não é um estado isolado. Para ele o estado éde sonho mais estar desperto, isto é, o estado real é o do sonhocom a vida desperta. Gordon G. Globus76 , psicólogo americanocitado por Stanley Krippner, vê o sonho e a vigília como maneirasigualmente viáveis de ser. Para ele, no fundo, a existência é ummovimento criativo que, praticamente, se repete nas fases desonho e de vigília. Às vezes um desdobramento termina num sonho.Raramente o contrário. Muito embora há pessoas que têmconsciência de que, no momento do sonho, estão dormindo.77 76 G. G. Globus, Dream Life, Wake Life, 1987, State University of New York Press, Albany, Nova York-USA. 77 Blackmore (1982) cita um relato de Oliver Fox (1902) em que ele, durante o sono, ao tomar consciência de que sonhava, o cenário do sonho se modificou. Ele denominava essa ocorrência de “sonho de conhecimento” ou “sonho translúcido”.
    • 201 Os desdobramentos são mais comuns no início do sono,onde o indivíduo não alcançou o sono profundo. Às vezes, osdesdobramentos ocorrem em momentos de vigília do indivíduo,antes da entrada no sono. As imagens e temas dos desdobramentos são maiscoerentes e nítidas que nos sonhos, onde os conteúdos simbólicoscostumam alterar a ordem e disposição das idéias. Osdesdobramentos não são um tipo de sonho vez que podemocorrer em estado de absoluta consciência. Eles possuem acapacidade de acessar informações normalmente inacessíveis àconsciência. Há casos em que o sonhador, no meio de um sonho, tomaconsciência de que está sonhando e de que está em outro lugar,além de saber que está na cama. Ele não sonha que está em outrolugar, mas ele toma consciência de que está em outro lugar. Adualidade da mente pode levar o sonhador a querer estar junto aseu próprio corpo ou a ficar indeciso se continua onde se sente ouse retorna à sua cama onde sabe que está. Essa indecisão podeprovocar um certo desconforto. No caso do sonhador resolverretornar ao seu corpo poderá ter, (e geralmente tem), dificuldadeem movê-lo. O fenômeno é conhecido por muitas pessoas, quepassam a temer o sono por tal ocorrência inusitada, muitosemelhante à catalepsia. Alguns desdobramentos se parecem de tal forma com umsonho que o sonhador “acorda”, vê as coisas em seu quartodiferentes, procura entender a situação, busca uma forma deestabelecer diferenças entre o que vê e o que sabe que existe,mas, ao se deparar com algo improvável, (como seu própriocorpo dormindo), realmente acorda, e diz que foi um sonho. Há relatos de desdobrados que visitam ou recebem visitasde pessoas amigas, mas elas não se lembram do contato feito
    • 202durante o sono, mesmo que o “sonhador” relate detalhes doencontro. Enquanto seja possível verificar-se em laboratório omomento em que se sonha, é talvez pouco provável que seconsiga determinar quando se está desdobrado. Seria comoquerer detectar se a pessoa está consciente ou não durante osono, com o agravante de que a consciência não estaria no corpoque dorme. Há, porém, estudos citados por Blackmore, em queos sujeitos submetidos a testes, quando em desdobramento nãoapresentavam os mesmos resultados das atividades do sistemavegetativo quando durante um sonho. Quando ocorre um sonho lúcido, onde o sonhador detém aconsciência do sono e de que está sonhando, as imagenslembradas nem sempre permitirão uma interpretação adequada.As imagens oníricas geralmente se apresentam misturadas aconteúdos remanescentes de vidas passadas ou de ocorrênciasnaquele momento de sono, dificultando sua compreensão. Às vezes a volição ocorre durante parte do sonhodesaparecendo sem a percepção do sonhador. Isso se dá quandoo conteúdo do sonho possui forte ligação com um complexo,superando o ego onírico. Nesses casos é conveniente verificar-sea natureza do complexo. Não se deve confundir estes sonhoscom desdobramentos parciais. Ocorreu-me, uma certa ocasião, contava cerca de 23 anos,acordar durante o sono, porém vendo-me em outro local que nãoa cama onde dormia. Vi-me na sala de minha casa, diante dajanela sem saber o que fazer. De repente uma voz, saindo dajanela, no canto da sala, falou-me convidando a dar um passeio afim de conhecer um local. Pensei em não ir, pois o fenômeno erainusitado para mim. Sabia que estava dormindo. Tinha domínio dotempo e do espaço. Talvez percebendo minha indecisão disse-me, a voz, que seria um passeio de aprendizado. Aquiesci
    • 203dirigindo-me à janela que ficava no quarto andar de um prédio,que pela existência de garagens nos andares inferiores, tinha aaltura de sete pavimentos. Confiante no dono daquela voz que meapareceu como um homem alto, moreno e seguro, dei-lhe minhamão. Ele então me conduziu à rua, por cima dos prédios, até ofinal dela, numa praça famosa da cidade. Mostrou-me o horizonteescuro da noite apontando numa dada direção e disse: – hojevamos conhecer uma cidade espiritual onde vivem pessoas quesofrem. – Fiquei receoso, mas me deixei conduzir. Chegamos aolocal, à frente de uma porta grande que se abriu à nossa chegada.Entramos. Ao ver as figuras ali residentes, fui tomado de umpavor que me fez retornar ao leito onde dormia, como se fossearremessado por um canhão. Acordei no meio da noite, com umaforte dor de cabeça e com todas as impressões ruins que ofenômeno proporcionou. Noutra ocasião, estava em casa de parentes, e, antes doalmoço, por volta das treze horas de um domingo ensolarado,resolvi deitar-me. Logo após ter dormido, vi-me em pé, ao ladoda cama. Como sabia estar fora do corpo, decidi-me por verificarcomo estavam as pessoas nos outros cômodos da casa. Fui a umdos quartos e vi algumas crianças a ssistindo à televisão. Fui àcozinha e vi minha cunhada dizendo aos presentes que estava comdor de cabeça. Ato contínuo, aconselhei-a a não tomar remédio.Vi que ela, além de não me enxergar, não me ouvia. Mas, ao seulado, junto ao seu ouvido, repeti para não tomar remédio. Viquando ela saiu da cozinha e foi a um dos quartos pegar umremédio em um pequeno armário. Senti, naquele momento, necessidade de voltar ao corpo.Fui ao quarto em que adormecera e deitei-me na cama em quelembrava ter adormecido. Não vi meu corpo. Este fato sempreme chamou a atenção quando os casos de desdobramentoscomeçaram a ocorrer comigo. Após deitar-me, não consegui
    • 204levantar, mesmo querendo fazê-lo e sabendo que estavadesdobrado. Pensei que havia “morrido”. Tentei repetidas vezessem sucesso. Apelei para um processo que sempre uso emsituações difíceis: comecei a orar solicitando ajuda para resolveraquela situação inusitada. Imediatamente, após o início de minhaoração, percebi com mais clareza o ambiente, pois a visão nessesmomentos é geralmente embaçada ou turva. Vi que meu corpoestava deitado numa posição diferente daquela que tentavaencaixar o outro corpo, o espiritual (perispírito). Virei-me,encaixei um corpo no outro, e consegui acordar. Após levantar,pude constatar os fatos vistos fora do corpo e certifiquei-me deque estavam corretos. Inclusive a dor de cabeça da cunhada e suabusca por um comprimido, depois de ficar indecisa entre atendera uma “voz” interior que dizia para que não tomasse remédio esua vontade de fazê-lo, como o fez. Comigo ocorreram dezenas de casos de desdobramentosespontâneos em que a dissociação dos corpos foi o ponto alto,onde minha consciência desperta se viu distante do local em que ocorpo dormia. Outras vezes sentia o momento exato em que aseparação ocorria. Essa sensação é indescritível. Estar saindo docorpo físico e poder dirigir-se a outro local tem sido uma dasexperiências mais gratificantes de minha vida. A literatura científica sobre desdobramentos ou projeçõesastrais como também é conhecido o fenômeno é muito vasta.Aconselho a leitura do excelente livro da Dra. Ph. D. SusanBlackmore, Experiências Fora do Corpo e os livros do Dr.Waldo Vieira, Projeciologia e Projeções da Consciência. Neste último livro citado, ele coloca as seguintescaracterísticas diferenciais entre sonho e desprendimentoconsciente, que ele chama de projeção:
    • 2051. No sonho ocorre uma atividade mental habitual; na projeção, a atividade mental transcende em riqueza a própria vigília.2. No sonho, o raciocínio integral não atua com facilidade; na projeção, mantém-se igual e, não raro, expande-se além das possibilidades ordinárias da vigília.3. No sonho, a pessoa não determina as imagens oníricas à vontade, mas atua ao modo de espectador ou semi-espectador de um espetáculo que se desenrola à revelia, sem nenhum controle da sua mente; o projetor dirige os atos do desprendimento e dispõe de capacidade decisória como na existência humana.4. No sonho, a faculdade crítica fica ausente e se aceita os acontecimentos e situações mais absurdas com naturalidade, porque a consciência não está suficientemente alerta para despertar o sentido da atenção; na projeção, o juízo crítico se faz sentir sempre.5. No sonho, não se conserva a lembrança seqüencial das imagens; o projetor pode recordar as ocorrências integrais da projeção em todos os pormenores.6. No sonho, a auto-sugestão não funciona na coordenação das imagens; na projeção pode determinar atos e acontecimentos extrafísicos.7. No sonho, a pessoa jamais começa a sonhar desde a vigília; na projeção há ocorrências com a manutenção da consciência absoluta da vigília, antes, durante e depois do processo, sem solução de continuidade.8. No sonho, não há impressões de uma saída para fora do físico; na projeção, a experiência da decolagem é fascinante e única.
    • 206 9. É muito difícil prolongar o sonho; na projeção, torna-se possível prolongar a estada fora do físico. 10. No sonho, as excitações sensoriais agem na produção de fantasias; na projeção, pequenos toques no físico imobilizado provocam o ato de interiorização do psicossoma com a sensação inconfundível de tração do cordão de prata. 11. O sonho não apresenta o conjunto de fatores psicológicos e extrafísicos comuns à projeção consciente como: grau de consciência, sentido de liberdade, bem-estar, clareza mental, expansão de poder, deslizamento, levitação e, às vezes, até euforia. 12. No sonho, as imagens se apresentam deformadas e irreais; nas projeções, as imagens não se deformam. 13. No sonho, as imagens são de intensidade inferior às da vigília; na projeção, alcançam a maior intensidade de todos os estados de consciência. 14. O sonho, embora com imagens mais fracas, tem lembranças mais fortes e fáceis, por ocorrerem quase sempre no estado consciencial perto da coincidência 78 ou não, pelo menos próximo ao físico; a projeção, conquanto de imagens mais fortes, tem lembranças ou rememorações mais fracas e evanescentes, por se darem à distância e sem a influência direta do cérebro físico. Essa regra é um dos notáveis paradoxos da projeção consciente: quanto mais prolongada seja a experiência e mais ‘distante’ a excursão do psicossoma ou do corpo mental, mais difícil será a rememoração. Outra diferença comumente notada entre os queexperimentam desdobramentos ou experiências fora do corpo é o 78 Encontro dos dois corpos (físico e perispiritual).
    • 207que concerne à l minosidade dos objetos. Nos sonhos quando unão há nenhum destaque num objeto específico, as coisas têmuma luminosidade normal ou baixa. Nos desdobramentos osobjetos “parecem” possuir luz própria. As coisas são maisiluminadas. O ambiente tem luz própria, diferente da luz nossonhos e da luz do dia ou mesmo da luz artificial. Segundo Blackmore, as sensações de queda ou de descidabruscas que, às vezes, ocorrem em sonhos, podem ser atribuídasaos retornos precipitados da alma ao corpo, motivados por“perseguições” astrais. Pode-se afirmar que, em cerca de um terço daquilo quechamamos de sonho, ocorrem experiências de desdobramento.As lembranças de experiências fora do corpo são muitosemelhantes às imagens oníricas simbólicas. Em sessões de terapiacostumamos separar aqueles sonhos que não são simbólicos dosoutros. Há pessoas que se vêem em situações que podem optarentre acordar ou continuar sonhando. Algumas até conseguemconcluir que estão sonhando, portanto prosseguem no sono. Seriabom que o indivíduo buscasse prosseguir no “sonho”, mas deforma voluntária, isto é, podendo escolher o que vai acontecer apartir daquele momento que tomou consciência. Até nos casos deincapacidade de mover o corpo, seria conveniente que oindivíduo tentasse ir a algum lugar conhecido. Quando eu possooptar pelo que fazer durante o sono, imagino estar emdeterminado lugar. Imediatamente me vejo naquele local. Os chamados sonhos mútuos, em que dois ou maissonhadores sonham ao mesmo tempo, com o mesmo lugar,fazendo a mesma coisa, podem ser tomados como encontrosastrais que se assemelham a desdobramentos. As pessoas sonhama mesma coisa porque estavam fazendo a mesma coisa enquanto
    • 208dormiam. Existem técnicas de grupo que favorecem o sonhocompartilhado, como também é chamado o sonho mútuo.
    • 209 Sonhos na Bíblia Os hebreus, povo que deu origem à saga constante naBíblia, tinham nos sonhos uma forma de comunicação entre Deuse o ser humano. O Antigo Testamento, primeira parte da Bíblia,está repleto de sonhos e visões onde se acreditava que Deusestabelecia comunicação com os condutores, profetas e adivinhosdaquela época. É em Gênesis capítulo 20, versículo 3, que o tema surgepela primeira vez: “Deus, porém, veio a Abimeleque, emsonhos, de noite, e disse-lhe: – Vais ser punido de morte porcausa da mulher que tomaste; porque ela tem marido.”Verificamos, não só por esse versículo, mas em toda a Bíblia, queos sonhos eram tidos como sinais de comunicação entre o serhumano e Deus, servindo como forma de aviso, advertência ouconcordância, ou ainda como recompensa àquele que muitotrabalhava e, como paga, sonhava com seu Deus instruindo-o. É famoso o sonho de Jacó constante em Gênesis, capítulo28, versículo 12: “E sonhou: eis posta na terra uma escada,cujo topo atingia o céu; e os anjos de Deus subiam e desciampor ela.” É nesse sonho que ele recebe instruções sobre seudestino e sua proteção divina. Novamente o sonho é tido comopremonitório e denota proteção.
    • 210 É na história de José, filho de Jacó, que os sonhos têmimportância decisiva em sua vida e na de todo um povo. É atravésdos sonhos e de suas interpretações precisas que ele consegueguiar-se e definir os rumos dos egípcios. Do capítulo 37 ao 50,em Gênesis, pode-se conhecer toda a história de José e de comoele interpretava profeticamente os sonhos. Sua forma deinterpretá-los não diferia do conceito divinatório que se tinha dossonhos, porém, ele tinha uma certa percepção precisa de seussignificados. É, porém, o profeta Jeremias, no capítulo 23, versículo 32,de seu livro, quem inicia advertências contra os sonhos e suasinterpretações. Ele vai de encontro às falsas interpretações, bemcomo aos sonhos, colocando-os na mesma linha dos falsosagouros. Não é diferente, como consta no Antigo Testamento, aforma como os hebreus lidavam com os sonhos, no NovoTestamento. Em ambas as épocas, isto é, antes e depois deCristo, os sonhos tinham o papel de receber comunicados divinos,informações e advertências quanto ao futuro. Os intérpretescontinuavam a existir dentro da linha profética pessoal e, às vezes,coletiva. A trajetória da vida de Jesus Cristo é toda permeada porsonhos confirmatórios, proféticos, de avisos e, cuja interpretaçãose tornou decisiva para o desfecho que sua vida teve. Não se pode dizer que essa percepção religiosa, bíblica,dos sonhos, está de todo afastada na análise contemporânea. Atradição cultural é muito forte e exerce influência arquetípica sobretodos que se encontrem trabalhando com os sonhos. Há umatendência, por esse motivo, de se buscar uma teleologia proféticana análise dos sonhos, estabelecendo, sem prejuízo real, um viésinterpretativo. De qualquer forma, como nas outras culturas,
    • 211prevalece a análise dos sonhos como um fenômeno deintervenção externa à consciência.
    • 212 Sonhos prospectivos Os sonhos apontam caminhos e nos conduzem a umapercepção de fatos que estão por acontecer se continuarmos aproceder da mesma forma que estamos fazendo. Indicam umdesenvolvimento futuro da vida do sonhador, em aspectosparticulares e de forma geral, caso as coisas continuem comoestão. Quando o sonhador estabelece alguma atitude de mudançaem sua vida, provavelmente haverá novo sonho, mantendo omesmo diálogo, agora incentivado pela resposta do ego desperto. Jung coloca79 que a função prospectiva é uma antecipação,surgida no inconsciente, de futuras atividades conscientes, umaespécie de exercício preparatório ou um esboço preliminar, umplano traçado antecipadamente. Jung preferia chamá-los deprognósticos do que de proféticos, pois comparava essa funçãocomo um prognóstico médico ou meteorológico. Essa condição dos sonhos geralmente leva algunspesquisadores a relegá-la a um plano desprezível por confundi-lacom a antiga prática mística e imediatista de lidar com os sonhos,ditos proféticos. A possibilidade dos sonhos alcançarem o futuroinsere-se na categoria dos atributos do inconsciente. Pela sua 79 Obras Completas, Vol. VIII, par. 493.
    • 213condição de conter elementos da própria história da humanidade,com muito mais propriedade, consegue penetrar emprobabilidades maiores que o senso comum, pertencente àconsciência. O estudo da prospecção nos sonhos corresponde à imersãodo saber humano em conhecimentos avançados e, de certa forma,impertinentes e incômodos, pela exclusividade com que aconsciência trata de seus assuntos.
    • 214 Sonhos eróticos A linguagem dos sonhos não deve ser interpretada de formaconcreta, sobretudo aqueles que trazem imagens oníricas sexuais.A linguagem sexual é de natureza arcaica, cheia de analogias, semnecessariamente coincidir, todas as vezes, com um conteúdosexual verdadeiro.80 A maioria dos sonhos eróticos apresenta aspectos dasexualidade do sonhador que necessitam de uma melhorpercepção e orientação do ego vígil. Eles são comuns e, às vezes,deixam o sonhador com uma sensação de culpa, principalmentequando causam bem estar. Há, porém, situações oníricas tão reaisque provocam no sonhador sensações semelhantes a uma relaçãosexual, o que tende a aumentar sua libido nesse campo. Há estudos sobre a vinculação da atividade sexual dosonhador imediatamente anterior ao sono, com seus sonhos. Foiverificada correlação entre a atividade sexual anterior ao sono e otipo de sonho, porém sem qualquer preponderância a outrasatividades normais. Os desejos sexuais desempenham um papelrelevante na atividade onírica tanto quanto os outros desejos dosonhador. A fome, a ansiedade, a sede, a necessidade de 80 C. G. Jung, Obras Completas, Vol. VIII, par. 506.
    • 215descanso, o desejo de poder, etc., desempenham idênticainfluência nos processos oníricos, salvo quando o sonhador lhesatribui uma particular importância específica em sua vida. O sonhador deve sempre contar seu sonho erótico aalguém de confiança a fim de diminuir a tensão por ele provocada.Deve não ter vergonha de falar o que houve no sonho, pois setratam de símbolos e como tais devem ser vistos. Sonhar fazendosexo com alguém não se refere à pessoa real, mas à imagem quese tem dela. Do ponto de vista psicológico, os sonhos eróticosgeralmente representam tentativas de diminuir a distânciaemocional entre os que dessa forma se relacionam nas imagensoníricas. Denotam união e transformação em curso. Às v ezes,referem-se a uma mudança na relação transferencial. Às vezes podem se dar pela falta de atividade sexual dosonhador ou pela mesma atividade noturna. Nem todo sonho erótico diz respeito à vida sexual dosonhador. Jung opinava81 que a fantasia erótica poderia ocorrer narelação transferencial para preencher o vazio entre o analista e opaciente quando não existissem pontos comuns entre eles. Damesma forma, o sonho erótico poderá estar preenchendo umvazio na relação inconsciente entre analista e paciente. Na adolescência ocorrem situações em que o sonhador élevado ao orgasmo durante o sono. Isso não deve preocupá-lo. Oorganismo está em fase de intensa atividade hormonal, o que podeprovocar aquela reação fisiológica durante um sonho, cujasimagens apresentem conteúdo erótico. Não seria apenas a repressão da libido o que provocariaum sonho erótico. É certo que toda repressão provoca anecessidade de uma conseqüente liberação de energia, porém a 81 Quinta Conferência de Tavistock, Vol. XVIII/1, par. 331.
    • 216libido represada poderá acarretar um sonho erótico tanto quantouma necessidade de estabelecer um vínculo mais íntimo com algoou alguém. Sonhos onde partes eróticas do corpo se apresentem nuaspodem significar uma certa repressão do sonhador em relação àsua sexualidade. É muito comum o surgimento de símbolos ou temasreligiosos ao lado de imagens eróticas nos sonhos. Isso pode sedever ao mecanismo da repressão face ao papel castrador dareligião como também à ligação existente, nos primórdios dahumanidade, entre as duas temáticas pela conotação sagrada quese atribuía ao sexo. Às vezes o erotismo excessivo nos sonhos pode significaruma obsessão espiritual na área do chakra genésico. O sonhadorpode estar sendo vítima de espíritos perturbados e perturbadores,que tentam submetê-lo ao vício do sexo durante o sono. Sonhos incestuosos A temática do incesto é antiquíssima na Humanidade. Nassociedades tribais primitivas era prática comum e não se constituíaum problema de ordem moral como hoje. Sua passagem paraessa conotação se deu lentamente em todas as culturas. Asimagens incestuosas do ego onírico não devem ser tidasnecessariamente com o mesmo caráter moral do ego desperto.Geralmente demonstram uma necessidade de assimilação porparte do ego desperto de atributos específicos do parceiro docontato sexual, no seu sentido arquetípico. Esses sonhos podemestar retratando, para a esfera da consciência pessoal, uma certainfluência do complexo correspondente (materno ou paterno).
    • 217 Sonhos homo-eróticos É muito comum, mais do que se imagina, os sonhosapresentarem situações claras de homo-erotismo sem que osonhador, conscientemente declare ou tenha tido qualquercomportamento que as justifique. Muitas vezes as cenas seprocessam com personagens familiares, parentes consangüíneos,do sonhador e, às vezes, com o próprio terapeuta do mesmosexo, sem que a transferência tenha essa conotação consciente. Os sonhos que apresentam imagens homo-eróticas, em queo sonhador se encontra em atitude mais íntima com uma pessoado mesmo sexo ou na prática de um ato sexual ou algo que se lheassemelhe, poderá estar significando: • uma necessidade de uma identidade maior com aquele personagem; • uma excessiva identidade com aquele personagem; • a percepção de uma tendência homossexual; • um deslocamento do arquétipo ânima/ânimus. Os sonhos homo-eróticos trazem aspectos à vidaconsciente referentes à percepção da relação entre o ego oníricoe o Self. O mito de Narciso,82 revela-nos a paixão dele pelaprópria imago, sombra, sob a influência de sua ânima. Nessessonhos, o ego vígil parece estar à procura do si-mesmo, comquem intensamente busca uma integração, impossível no campodesperto. Tenho verificado que, em muitos sonhos homo-eróticos depacientes homossexuais, surgem personagens ou locais ligados àreligião, à semelhança dos sonhos eróticos em geral. No casos de 82 Junito Brandão, Mitologia Grega, Vol. II, p. 173, Vozes, 1995.
    • 218homossexuais, creio haver uma forte semelhança das figurasoníricas e dos enredos dos sonhos, com a ligação consistente quetêm com a mãe. É comum o homossexual ter uma ligação muitoforte com sua mãe, cuja representação ocorre nos sonhos homo-eróticos. Há estudos83 em que se detectou diferenças significativasentre sonhos de homossexuais, transexuais e heterossexuais, ondeseus relatos apresentavam aspectos referentes ao dia-a-dia,porém sem qualquer modificação inerente à preferência sexual. Os sonhos onde o sonhador esteja mantendo relaçõessexuais podem significar uma tentativa de mostrar ao egodesperto o que o atrai e que se encontra representado na figurado parceiro. No caso das relações homo-eróticas, da mesmaforma, podem estar mostrando aquilo que complementaria o egodesperto. 83 Stanley Krippner, Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 128.
    • 219 A série de sonhos Muitos sonhos podem ser considerados correlacionadosentre si ou uma repetição de anteriores. Os sonhos em sérieassemelham-se a uma história em capítulos que se alteram emfunção da audiência do ego desperto. Às vezes eles se transformam numa cadeia evolutiva dosaspectos que envolvem as transformações do sonhador. Aevolução de seu quadro poderá estar representada numa série desonhos. Ou ainda, o aprofundamento das investigações doinconsciente poderá estar representado numa série de sonhos,cujos símbolos vão se tornando menos indistintos e mais claros àconsciência. Os sonhos podem ser parte de uma série que pode ter seupróprio contexto. Um único sonho pode mostrar aspectosimportantes, porém, uma série dirá sempre algo mais. Nessa sérieos dados pessoais serão irrelevantes. Em série, os sonhos podemmostrar mais claramente um complexo e sua rede de ramificaçõesno inconsciente. O ego onírico poderá, na série, apresentar-se ematitudes que sugerem uma seqüência ativa ou passiva em relaçãoao confronto com o inconsciente. A série poderá, também, indicara despotencialização de um complexo, dependendo das imagensoníricas apresentadas.
    • 220 Pode-se, e os resultados certamente trarão bons insights,reunir sonhos diferentes e extrair os elementos comuns desituações semelhantes, cujo conteúdo emocional pareça aosonhador correlacionado com uma mesma causalidade.
    • 221 Uma análise segundo a Gestalt-Terapia Assim como Freud considerava o sonho como a via realpara o inconsciente, Fritz Perls, um dos pais da Gestalt-Terapia, oconsiderava como ‘uma via real para a integração’. Para ele, osonho ocorre com a intenção, o trabalho ou a deliberação dosonhador. No seu trabalho com os sonhos, que considerava algomuito sério e aconselhava que se fizesse em conjunto com outrapessoa, ele sugeria que se faça sem interpretações ouinterferências dos órgãos de pensar. Ele pedia que o paciente contasse seu sonho como umaestória – algo que lhe aconteceu – e, em seguida, que escolhesseum fragmento do sonho e o repetisse no presente do indicativo,como se estivesse sonhando naquele momento. Ele questionava se o paciente estava vendo o sonho. Casonegativo, ele pedia que o paciente repetisse o fragmento do sonhoaté que pudesse vê-lo, isto é, não apenas o recordasse. Casopositivo, ele pedia que seu paciente psicodramatize seu sonho,como se fosse seu encenador, que ele representasse o sonho(acting out). Dessa forma o sonhador conversaria com cada
    • 222personagem do sonho, ou do fragmento de sonho, representandocada um deles, inclusive aqueles que surgissem no momento dasessão, até que houvesse uma ausência de disputa entre osonhador e os personagens do sonho ou da representação. Elepretendia com isso uma integração entre o sonhador e as partesfragmentárias de seu eu, expressas no sonho. Com isso eledemonstrava que todas as partes diferentes, ou qualquer parte deum sonho, são aspectos da própria pessoa, como projeções doseu eu. Os aspectos incompatíveis e contraditórios, porventuraexistentes num sonho, devem confrontar-se até chegar “a umentendimento e a (...) uma apreciação das diferenças.” Sobre a análise freudiana dos sonhos, ele diz: “aabordagem psicanalítica de um sonho é convertê-lo num jogointelectual por interpretações e enunciados fixos, pseudo-simbólicos: isso é sexual, o chifre é um símbolo fálico, a vacaé o símbolo materno, etc. Mas não vamos muito longe atravésda interpretação.” Para a maioria dos psicólogos dessa psicoterapia, ossonhos são vistos como elementos de auxílio à organização eestruturação das informações. Os elementos do sonhonecessariamente se relacionarão com algo “ainda em aberto” namente. Fritz Perls presentifica o sonho buscando fazer com queseu paciente faça associações visualizando, no momento daterapia, as partes mais significativas dele. Ele costumava dizer àspessoas que têm dificuldade em lembrar-se deles: “pergunte aseus sonhos por que não consegue se lembrar deles”. Ele criouuma técnica para a interpretação dos s onhos que consistia noseguinte: “Pegue duas cadeiras e coloque-as uma em frente daoutra. Sente-se em uma delas e imagine que seu sonho estejasentado na outra. Pergunte ao sonho por que não consegue
    • 223compreendê-lo e depois vá para a outra cadeira e agora,como se fosse o sonho, responda a você mesmo. Mude decadeira à medida que for perguntando e respondendo àsquestões. O processo pode demorar algum tempo, mas, ao final,você (como o sonho) emitirá uma frase que o lembrará dealguma coisa. Quando isso acontecer, a intenção do sonhoserá claramente revelada.” Pode-se notar que a Gestalt-Terapia aproveita-se domaterial dos sonhos como um fenômeno real da vida do paciente,utilizando-se de seus elementos constituintes para a busca datotalidade do indivíduo. As interpretações tanto quanto asassociações ocorrem por conta do sonhador, sem a orientação doanalista. A técnica se baseia na representação dos complexos, oque contribui para o aumento da percepção consciente deles embenefício do sonhador. Há críticas de junguianos sobre o riscodessa técnica, considerando essa forma de estruturação doinconsciente indesejável.84 No método gestáltico, o sonhador dá um sumário do sonhoe é convidado a estabelecer um diálogo com cada um dos seuselementos − animados ou inanimados −, os quais são tidos comorepresentações dos vários aspectos do Self. Perls considerou quecada um desses elementos significa uma tarefa emocionalinacabada que restou do passado. O trabalho com os sonhos, na Gestalt-Terapia, parte daconvicção freudiana de que os sonhos expressam um significadopsicológico. Porém, também está próximo do Budismo em algunsaspectos. Por exemplo, Perls insiste que, o conteúdo reveladopelos sonhos não pode ser fragmentado dentro de um modelo deexperiência subjetivo/objetivo. E há uma outra similaridade: o 84 James Hall, Jung e a Interpretação dos Sonhos, p. 35.
    • 224trabalho com os sonhos, tanto na Gestalt-Terapia como na yogatibetana, é mais experiencial do que analítico.
    • 225 Uma análise segundo a Psicossíntese 85 Conforme assinala Rossi (1972), os sonhos apresentamgeralmente aspectos importantes da personalidade, que podemestar em processo de mudança, denotados na expressão oníricaque experiencie dois ou mais estados diferentes. Para ele aindividualidade é expressa nos sonhos como algo exclusivo,singular, estranho ou idiossincrático. Uma série de sonhos poderevelar o desenvolvimento psicológico da personalidade dosonhador. Eles estão sempre trazendo ou r etratando diferentesaspectos da consciência em seu desenvolvimento psíquico. Observamos que a análise dos sonhos na psicossíntese sefaz de forma prospectiva e raramente redutiva. Prefere-seconsiderar os sonhos como sinalizadores do processo emdesenvolvimento e não como apontadores de causas passadasdos conflitos atuais. Eles são tidos mais como confirmatórios doque como mensageiros do Self para o ego. A preocupação doanalista consiste em identificar os aspectos referentes às 85 Citado por Rossi, Gerard (1964) define a psicossíntese como “a integração e expressão harmônica da totalidade da nossa natureza humana − física, emocional, mental e espiritual”.
    • 226transformações do paciente mais do que em entender cadasímbolo dos sonhos. A visão é macro, global e não particular. Quando os sonhos trazem aspectos envolvendo a repetiçãodas atividades rotineiras diárias, é sinal de que não está havendouma mobilização interna no sentido do desenvolvimentopsicológico da personalidade do sonhador. Para Rossi issosignifica um boicote do ego desperto em relação ao processo dedesenvolvimento, não permitindo os sonhos prospectivos quedarão sinais das mudanças. Para tanto os sonhos devemapresentar imagens oníricas do sonhador em intensa atividade afim de integrar o novo. Para ele a psicossíntese, nos sonhos, se manifesta nasensação do sonhador em lidar ativamente com as forçasautônomas do inconsciente. Ele explica a psicossíntese como:“uma interação ativa entre as forças autônomas,manifestada em sonhos e fantasias e que possui um efeitoformativo na criação da nova identidade.”86 As mudanças de comportamento ou atitudes quer dosonhador ou de outros personagens, nos sonhos, são encaradascomo sendo sinais da alteração de identidade dele. E, quando ospersonagens são seus familiares, significa o rompimento deidentificação com aqueles parentes. Para ele é fundamental entrar-se em contato com o que éautônomo, inconsciente, e passar a dirigir o processo dedesenvolvimento da personalidade. Para isso, por vezes, usa atécnica junguiana da imaginação ativa. Além dela, ele costumavadar continuidade a um sonho na terapia a fim de encontrar novasformas de mudança de identidade do eu desperto. 86 Os sonhos e o desenvolvimento da personalidade, P. 195.
    • 227 Uma visão Transpessoal Embora admitindo a existência de sono sem sonhos, aabordagem transpessoal vai incluir o sonho como algo que ocorrenum estado alterado de consciência.87 A visão transpessoal dos sonhos não despreza asabordagens múltiplas dos vários campos do saber humano,incluindo os enfoques científicos, filosóficos e religiosos. Suapsicoterapia compreende todas as formas de trabalho terapêutico.O significado mais apropriado aos símbolos oníricos será aqueletrazido pelo próprio sonhador, com ênfase no aspecto liberadorde sua interpretação. Muito embora a abordagem gestáltica seja utilizada, ajunguiana, da amplificação dos sonhos, por sua compreensãoabrangente, é muito valorizada no enfoque transpessoal. Algumasvezes aconselha-se a utilização de ambas em determinadaseqüência. Wilber (1990), um dos teóricos da PsicologiaTranspessoal, elaborou o quadro, que parcialmente reproduzimosa seguir, sobre os níveis de consciência e os sonhos, o que nos dá 87 Para Wilber (1990) os sonhos são uma íntima indicação simbólica dos aspectos do universo com os quais já não estamos identificados. O material com que se produzem os sonhos surge onde há alienação do universo.
    • 228uma idéia de sua visão sobre eles, bem como uma compreensãoextensa do que a Psicologia Transpessoal propõe para o estudodo significado dos sonhos. NÍVEL SONHOS NECESSIDADES Sombra Pesadelos, sombra simbólica, Necessidade neurótica: aspectos malévolos, sombra manipulação do poder, projetada. e sexualização obsessivo-compulsiva. Ego Remanescentes do dia, Necessidade de uma Gestalten ambientais auto-imagem acurada e inconcluídas, psicodinâmica. aceitável. Necessidades básicas. Bio-social Refletem convenções da Bio-socialização de sociedade. necessidades existenciais. Existencial Fundo de quadro ambiental não Emergência de convencional, sonhos de morte, metanecessidades, fatores perinatais, sonhos necessidade de resistir ontogenéticos. ao tempo e de existir (espaço) compensação das repressões. Transpessoal Remanescentes da história Satisfação das filogenética, encarnacional, metasnecessidades, arquetípica, sonhos de elaboração arquetípica, percepção extra-sensorial, relação transindividual, sonhos translúcidos. evitação da mente. Na visão transpessoal, inconsciente coletivo e arquétipo sãodois conceitos que permitiram expandir a significação dos sonhosdo nível pessoal para o transpessoal, coletivo ou individual. Entre as formas não-interpretativas de trabalhar com ossonhos, a abordagem transpessoal vê positivamente a inovadoradireção técnica dada pela Gestalt-Terapia. A Psicologia Transpessoal considera que da atividadeonírica ordinária são obtidos dados muito úteis à compreensão
    • 229dos processos psicológicos, os quais contribuem enormementepara a psicoterapia. No entanto, apoiando-se em descobertas científicas na áreada Parapsicologia, a Psicologia Transpessoal leva em conta aexistência de outras categorias de sonhos. Tais sonhos referem-seaos eventos psi (telepatia, clarividência e precognição) oníricos.Segundo Holzer (l976), os sonhos paranormais autênticosconstituem por si mesmo mensagens que não requereminterpretações. Jung admitiu a possibilidade de que os sonhos contenhaminformações desconhecidas do ego vígil, baseando-se na idéia deque o inconsciente se manifesta nos sonhos. “Qualificou osfenômenos de percepção extra-sensorial, ou fenômenos psi,como sincronísticos.” Para Hall (l985), os sonhos de eventos sincronísticos,quando são notados, devem ser tratados na mesma base deoutros materiais psicodinâmicos, mas com particular ênfase sobreo motivo pelo qual o inconsciente usou a sincronicidade e sobre oque quis chamar a atenção. Nunca se deve “rechaçar” asicronicidade nem lhe atribuir valor excessivo, pois isso poderádistorcer a estrutura da análise. Na abordagem transpessoal da consciência onírica tambémpodem ser incluídos os chamados “sonhos lúcidos” (Tart, l969).Trata-se de experiência na qual o ego onírico sabe que estásonhando e tem certo controle sobre o conteúdo do sonho. Segundo Ullman (l985), algumas pessoas podem ainda darum passo adicional e usar a experiência do “sonho lúcido” comoponto de partida para um “teste fora do campo”; sentem queestão se afastando do corpo físico e podem se ver dormindotranqüilamente. Para Holzer (l976), esses sonhos de OBE (Out-of-the-Body Experience) não podem ser tratados psicologicamente ou
    • 230através de análise dos símbolos, porque, no caso, as pessoasrealmente vivenciaram claramente aquilo que dizem terexperimentado. Tart também fala dos high dream, que define como: “Uma experiência que ocorre durante o sono, na qualvocê se encontra em outro mundo, o mundo do sonho, e ondevocê reconhece que está em estado alterado de consciência, oqual é similar, porém não necessariamente idêntico, ao highinduzido por um psicodélico.” O high dream se assemelha aosonho lúcido. Para Williams (l980), alguns sonhos podem ser trabalhadoscomo transpessoais. São os que carregam, no seu conteúdo,material não criado pelo ego ou pela escolha consciente dapersonalidade. De acordo com Williams, as experiências transpessoaisoníricas podem vir de dentro da psiquê e da personalidade, talcomo de parte do sonho como produto de uma “fonte” além doego ou, em termo junguiano, do Self. Também podem vir do ladode fora e serem vividas e experienciadas como fenômenospsíquicos e realidades transcendentes. A identificação dos sonhos transpessoais também pode serestabelecida através dos seus símbolos. Os sonhos que refletemexperiências superiores são repletos do simbolismo universal doSelf e, em razão disso, de energia transcendente. Esses símbolos muitas vezes oferecem indicações de algunsaspectos da personalidade do sonhador, geralmente um aspectoespiritual que precisa ser desenvolvido. Por exemplo, sonhar comuma parede, uma porta fechada, uma estrada retrocedendo ouescalar montanhas, precipitar-se em abismo, vastas paisagens eoutros, são símbolos que podem oferecer indícios transpessoais(Mintz, l983, e Williams, l980).
    • 231 Freqüentemente, esses sonhos de aspectos transcendentes,evocam no sonhador sentimentos de reverência em relação aosseus conteúdos. Trabalhar com seus significados promove umatransformação significativa na vida, numa direção curativa ebenéfica. Welwood, citado e adaptado por June Singer88 , coloca aexistência de quatro níveis de processo de trabalho com ossonhos: o contextual, o pessoal, o transpessoal e o holístico. Apesar dos esforços multidisciplinares na direção dacompreensão dos sonhos, entendemos que toda cautela énecessária ao lidar com imagens oníricas. A PsicologiaTranspessoal se propõe a acrescentar novos esclarecimentos aoproblema dos sonhos, por expandir os limites existentes no nossoentendimento acerca do cérebro e da mente, da vida consciente einconsciente, da vida pessoal e transpessoal. 88 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 70.
    • 232 Sonhos no processo de individuação Para Jung, “a individuação, a realização própria, não éapenas um problema espiritual, e sim o problema geral davida.”89 Sem sombra de dúvida esse é o grande objetivo dosonhar. É uma tendência arquetípica do Self, o processo dediferenciação do coletivo. O sonho está a serviço desse processo.Por mais fragmentário que seja, ele representa uma via de acessoàs etapas daquele processo. Os sonhos referentes ao processo de individuaçãogeralmente ocorrem em séries conectadas entre si, cujainterpretação isolada seria um equívoco. Eles trazem, inicialmente,a consciência e o inconsciente em integração, sendo estealcançando aquela, isto é, conteúdos inconscientes tornando-seconscientes. Mostram, muitas vezes, uma situação de crise (oulesão do ego) e início de um processo penoso que envolve oconfronto entre o ego e sua sombra. Figuras bizarras eameaçadoras são exemplos dos receios do ego em continuar esseprocesso. Símbolos da resistência ao confronto e dos 89 C. G. Jung, Obras Completas, Vol. XII, par. 163.
    • 233mecanismos de defesa do ego, surgirão como confirmação doque é negado por ele, centro da consciência que, historicamente,tende a desenvolver-se separada do inconsciente. Figuras do sexooposto ao sonhador tendem a surgir como uma necessidade deintegração com a polarização oposta à consciência. Na série de sonhos do processo de individuação não é raroo surgimento de escadas como a simbolizar os degraus em que sedá o processo de transformação e suas peripécias. Às vezes, aescada possui sete degraus, numa referência aos processosalquímicos antigos. Nos sonhos ocorrem imagens de natureza arquetípica quesurgem como a descrever o processo de desenvolvimento dapersonalidade, muitas vezes mostrando a tomada de consciênciada aproximação do ego com o Self. Para alcançar esse fim, oinconsciente produz sonhos mostrando a necessidade de lidarcom conteúdos do inconsciente pessoal primeiro, para depois seir ao coletivo. Os sonhos onde se atinge um ápice, um últimodegrau, podem significar a necessidade de sair do processo deconscientização do inconsciente pessoal e sinalização para o iníciode uma nova etapa. Ver-se em sonhos, nos primeiros degraus daescada, significa a necessidade de integrar alguns conteúdosinfantis. Nesse processo, é comum surgirem imagens oníricaspersonificadoras da racionalidade e do intelecto, a assumirposição secundária, solicitando ao ego dar lugar à emoção, aosentimento, à intuição, enfim, à função inferior da consciência. Elastambém costumam ajudar o ego no processo de individuação, oque não deve, porém, ser motivo para que se confie a vida aossonhos. O símbolo da mandala representa o novo centrodeslocado do ego, o Self. Ela se reveste de várias formas nossonhos: o círculo, a esfera, o quadrado, a flor, a quadratura do
    • 234círculo, etc., ou objetos que se lhes assemelhem. A mandala,enquanto símbolo onírico, impõe um padrão de ordem ao caos.Nos sonhos ela representa a tentativa da psiquê de organizar osopostos irreconciliáveis. O aparecimento de um símbolo querepresente o Self nos sonhos, como por exemplo uma mandala,certamente estará trazendo à consciência algo que diga respeito aoego, por este ter se originado por uma necessidade daquelenúcleo arquetípico. Ao ego desestruturado, surge nos sonhos umsímbolo do Self perfeitamente definido e constituído. O indivíduo, enquanto vivendo o processo de individuação,terá sonhos significativos em relação a orientação que precise. Asimagens procurarão mostrar-lhe a necessidade de: 1. Tornar consciente o inconsciente; 2. Dar menor poder ao ego; 3. Desligar-se das influências psicológicas parentais; 4. Tornar-se independente; 5. Diferenciar-se do coletivo aprendendo a conviver com tendências opostas e precavendo-se das arquetípicas; 6. Eliminar projeções e enxergar as transferências, bem como reconhecer as personas de que se utiliza para conviver socialmente e sua excessiva valorização; 7. Perceber seus mecanismos de defesa que tentam evitar a aproximação dos conteúdos inconscientes; 8. Aceitação de sua sombra; 9. Confrontação com a ânima/ânimus e percepção de suas projeções; 10. Dissolução dos complexos para enxergá-los e trabalhá-los; 11. Deslocar o centro orientador da personalidade do ego para o Self; 12. Estabelecer o encontro com o Self. Os sonhos iniciais do processo costumam causar certo
    • 235incômodo natural para o sonhador. Posteriormente, passam atrazer-lhe relativa segurança.
    • 236 Formas de se trabalhar os sonhos Os sonhos podem ser ou não interpretados verbalmentenuma terapia. Sua análise pode ser feita a partir de umarepresentação novamente simbólica. Pode-se utilizar instrumentosterapêuticos com aquela finalidade. Um deles é o desenho.Desenhar o sonho ou seus aspectos significativos é uma dasformas de materializar o símbolo, conscientizando-se dele. Outra é a utilização da caixa de areia, principalmente paraos tidos como pesadelos. A simbolização a través da caixa deareia serve como alívio de tensão provocada pela descarga dosonho. A técnica utilizada por Perls, na Gestalt-Terapia, dadramatização dos sonhos é extremamente útil para se trabalharcom os sonhos, cujos resultados terapêuticos são consideráveis.A representação dos conteúdos surgidos nos s onhos deve serconduzida por profissional experiente no reconhecimento doscomplexos e arquétipos do inconsciente coletivo, tendo em vistasua possibilidade de constelação sem a percepção do paciente.
    • 237 Imaginação ativa Esta técnica de acesso ao inconsciente, de forma direta,criada por Jung, que a considerava uma forma de auxiliar eacompanhar a análise90 , permite que o conteúdo inconsciente sejaencorajado a vir à consciência sob a mediação do ego. Escolhe-se um sonho e focaliza-se a concentração nele, simplesmentefixando-o ou observando-o. A partir daí tenta-se descobrir quetipo de imagem surge nesse estado de espírito contemplativo dosonho. É como tentar sonhar acordado, dando continuidade a umsonho lembrado. Para Jung91 , assim como surgem nos sonhos, naimaginação ativa também aparecem os símbolos do si-mesmo. Aimaginação ativa é uma espécie de meditação, onde o egomantém sua integridade e permite que as reações imaginadas,mesmo aquelas que contrariem seu senso, apareçamespontaneamente. Uma outra forma de se trabalhar os sonhos em terapia ésolicitar ao paciente que se imagine num cinema vendo um filme, oqual é seu próprio sonho. Pergunto-lhe com quem ele está vendoo filme, o que ele sente naquele ambiente do cinema, se havia algono cinema que chamou sua atenção durante o filme; finalmentefaço-lhe perguntas sobre o próprio filme. É interessante quesurgem vários relatos de sensações durante o filme e o paciente sónotou que as sentia no sonho quando passou a “situar-se” naquelelocal fechado. Rever as cenas do sonho como espectador poderáfazer com que o sonhador consiga, não só dar continuidade aosonho, como também, verificar que ele começou antes da partelembrada. 90 Obras Completas, Vol. XIV, par. 327. 91 Idem, par. 141.
    • 238 O trabalho com argila também representa uma excelentefonte de compreensão dos sonhos. Na manipulação do barromole, construindo e refazendo formas, o sonhador não só poderádirecionar a energia psíquica presente no sonho, como tambémtrazer novo material em continuidade a ele. Com a argila, eleconsegue dar continuidade à reestruturação dos conteúdospsíquicos da mesma forma que num sonho.
    • 239 Sonhos criativos São sonhos que antecedem a criatividade das pessoas.Alfred Adler (1870-1937), estudioso da psicanálise, como Jung,dissidente da escola freudiana, afirmava que os sonhos podiamdesempenhar a função de resolver problemas que no momentoestavam sem solução. Um exemplo dessa afirmação foi o sonho do famosoquímico F. A. Kekulé. Ele sonhou com uma cobra com sua caudana boca (a cobra que engole a própria cauda é chamada deuroborus, um dos símbolos do retorno ao inconsciente). Elebuscava uma forma de conceber a estrutura da m olécula dobenzeno, que foi delineada como um anel, após o sonho. O fato de uma pessoa desejar sonhar com umadeterminada coisa, idéia ou pessoa, não significa, por mais que ofaça intensamente, que seu pedido será integralmente satisfeito. Oinconsciente poderá produzir um sonho não necessariamente emresposta ao desejo, mas em atenção ao fato do ego ter desejado.Os símbolos oníricos produzidos trazem aspectos quetranscendem ao desejo do ego e se referem, em sua maioria, aosaspectos da totalidade psíquica. Outro relato interessante é o sonho que Jacopo, filho deDante Alighieri, teve oito meses após a morte do pai, em que o
    • 240autor da Divina Comédia lhe aparece e mostra-lhe onde seencontravam os últimos treze cantos do Paraíso, capítulo final docélebre livro. Conta o filho que o pai apareceu num sonho einformou-lhe que seus escritos estavam em um armário embutidonuma parede, por detrás de um tapete, na antiga casa ondemorara, ora já habitada por outro proprietário. Logo após osonho, Jacopo acordou e, no meio da noite foi acordar PieroGiardino, discípulo de Dante e, com ele, foi à referida casa,acordando seu proprietário, que aquiesceu na investigação, e lápuderam constatar a veracidade do sonho, e assim a DivinaComédia pode ser publicada na íntegra.92 Para se ter sonhos criativos deve-se permitir que o ego sedistraia do objeto do desejo e passe a ligar-se à inspiraçãoonírica. Para tal, antes de dormir, deve-se solicitar ao Self quecolabore na busca de soluções ao que se deseja alcançar. Acriatividade poderá vir de forma direta, como nos exemploscitados, como também de forma simbólica. Caberá ao egodesperto a capacidade de interpretar os símbolos exteriorizadosnas imagens oníricas. 92 O poder dos sonhos, Brian Inglis, Editora Pensamento, 1990, São Paulo, citado por Martin Claret.
    • 241 Sonhos premonitórios ou proféticos Geralmente os sonhos que se referem a eventos futuros sãoimprecisos e não apresentam informações muito seguras para osonhador, motivo pelo qual não devem ser levados literalmente asério, como se a vida devesse se guiar pelas premoniçõesoníricas. Quando muito, devem ser tratados como probabilidadese não como certezas. Há os que são proféticos, que parecem trazer ao conscientealgo que estava ocorrendo ou vai se processar algum tempodepois. Para o psiquismo não há tempo nem espaço. As coisasocorrem como num mesmo instante. Ao contrário do que se pensa, a Psicologia, no que dizrespeito ao sonho premonitório, não considera apenas seusaspectos subjetivos, mas também se ocupa, interagindo com afísica quântica, de entender sua possibilidade enquanto produtoocorrido na mente humana. Jung preocupou-se em estudar a questão do tempo, atravésdo que ele chamou de sincronicidade ou princípio da conexãoacausal, que descrevia ocorrências simultâneas de dois eventosdistintos, sendo um externo e outro interno, que pareciam ter o
    • 242mesmo significado ou alguma correlação significativa nãoaparente. Ele criticava em seus estudos uma causalidade rígida oua inexistência de interações instantâneas no universo. Umdeterminismo absoluto contrariava sua idéia de uma psiquê nãosujeita ao tempo nem ao espaço. O sonho se desenrola como se asituação fosse no tempo presente, trazendo, àquele momento,imagens passadas e futuras, num contexto único e, às vezes,intercalando-as. As cenas apresentadas devem merecer atençãodo sonhador e de seu analista quanto aos episódios pretéritos desua vida. As imagens futuras apontam para uma percepção daintencionalidade do sonhador. Quando um paciente relata um evento sincronístico, valelembrar que o analista não se deve deter na sincronicidade em si,enquanto fenômeno, mas principalmente no elemento “escolhido”para estabelecer a conexão entre o interno e o externo. A análisedeve recair sobre o significado desse elemento na vida dosonhador e na forma como se deram os eventos. Os eventos sincronísticos ocorrem com muita profusão emnosso cotidiano, muito embora não lhes notemos. Durante os diasem que escrevia estas páginas, tive a oportunidade de ir a umaconferência sobre transição planetária em que o expositor falavade um complicado mecanismo semelhante a uma teia de aranha.Como ele estava de costas para mim, que como convidado,sentara-me à mesa da conferência, pude notar, sem que ele nem oauditório percebessem, por ser muito extenso, uma minúsculaaranha descendo do teto, presa por um imperceptível fio, pordetrás dele, e pousando lentamente no chão. Quando elacomeçou a descer, ele tinha acabado de pronunciar a palavraaranha. Este é um daqueles eventos em que não se percebequalquer correlação causal, porém de alguma forma estãoocorrendo no mesmo tempo e lugar e para a consciência dealguém. Houve aí uma dupla conexão acausal: uma entre o que ele
    • 243falava e a aranha, e outra entre esse evento da conferência e ofato de, naquele dia, eu estar escrevendo sobre o assunto. Ambossó foram percebidos por mim. Alguns eventos tidos como explicados pela sincronicidadepodem ser mais bem entendidos a partir dos estudos de J. B.Rhine, na Duke University, na Carolina do Norte, EstadosUnidos.93 Há pessoas cujos sonhos são, em sua maioria,premonitórios. Muitos são sonhos de maus presságios que,geralmente, deixam os sonhadores extremamente tristes por severem como uma espécie de “profeta do mau agouro”. Achamque tudo que sonham de ruim vira realidade. Embora os sonhos interpretados por José do Egito,constantes no livro bíblico Gênesis, sejam considerados comoproféticos, pode-se afirmar que, para se chegar à conclusão sobresua veracidade, necessitou-se da análise dos símbolos nelescontidos. Isto faz com que estabeleçamos uma diferença entrecertos sonhos proféticos e sonhos simbólicos, ou então conceberuma variante deles. Há sonhos proféticos ou premonitórios, semsímbolos, que não necessitam de uma interpretação e outros quenecessitam ser interpretados. Nos primeiros, o acontecimentofuturo aparece límpido, claro e preciso. No segundo caso, comonos sonhos interpretados por José, o acontecimento futuro vemrevestido pelos símbolos, carecendo de interpretação. Como bem assinalou Jung, em entrevista a Freeman, daBBC de Londres, uma situação antevista coletivamente poderáprovocar sonhos que se assemelham a uma premonição. Aspossibilidades da ocorrência de algo poderão se tornar coletivas econscientizadas, o que levará uma pessoa, ou muitas, a terem 93 H. G. Andrade, Parapsicologia Experimental, Editora Pensamento, São Paulo - SP.
    • 244sonhos antecipatórios sem serem premonitórios. Uma possívelguerra ou uma calamidade, cuja probabilidade sejapsicologicamente experimentada antecipadamente por umapopulação, provocará sonhos que apresentarão imagens de suaprovável ocorrência tanto quanto de sua negação. Ele considerava que há sonhos que “são apenas umacombinação precoce de possibilidades que podem concordar,em determinados casos, com o curso real dos acontecimentos,mas que podem, igualmente, não concordar em nada ou nãoconcordar em todos os pormenores. Só neste caso é que sepoderia falar de profecia.”94 94 Obras Completas, Vol. VIII, par. 493.
    • 245 Sonhos compensatórios Muitas vezes os sonhos se produzem no intuito decompensar desejos (conscientes ou inconscientes) que pressionamo ego quando este se encontra impossibilitado de realizá-los. Essacompensação decorre da relação complementar entre o Self e oego, entre a vida inconsciente e a consciente. Para Ouspensky, o sistema compensatório dos sonhosobedecia a uma lei geral de contraste, em que o oposto no sonhoé óbvio, em face deles serem o negativo em relação ao positivoda vida. Jung, no parágrafo 170 do Volume VII, das ObrasCompletas, escreveu: “..., a grande maioria dos sonhos é denatureza compensatória. Eles sempre acentuam o outrolado, a fim de conservar o equilíbrio da alma.”95 Porém elecoloca que essa não é a única finalidade dos sonhos. Eleconsiderava o sonho, não só como uma fonte preciosa deinformações, mas também como um instrumento educativo eterapêutico eficientíssimo. Para ele “a função geral dos sonhos é tentarrestabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um 95 O grifo é do original.
    • 246material onírico que reconstitui, de maneira sutil, o equilíbriopsíquico total.” O sonho tem então a função de compensar asdeficiências da personalidade do indivíduo, orientando-a quantoao seu destino futuro. É nesse sentido que os sonhos não devemser desprezados. Quando se assume uma atitude unilateral na consciência,excessivamente voltada para um aspecto particular, os sonhosproduzem uma compensação visando o reequilíbrio psíquico entreos opostos. Embora considerasse os sonhos como de naturezacompensatória, ele não negava a possibilidade da existência desonhos “paralelos”. Sobre isso ele afirmou: − “Não contesto demodo algum a possibilidade de sonhos ‘paralelos’, isto é, desonhos cujo sentido coincida com a atitude da consciência ouvenha em apoio desta última. Mas, na minha experiência,pelo menos, estes últimos são relativamente raros.”96Naturalmente ele estava se referindo aos sonhos confirmatórios. Os sonhos compensam distorções do ego em relação à suaprópria conduta quando complementa ações conscientes nãototalmente realizadas. No sonho, o sonhador poderá realizar oque a v social o impediu, pela necessidade de preservar sua idapersona. Outra compensação se dá quando o sonho vem em auxíliodo ego que não percebe necessidade de modificação de seusrumos em relação ao processo de individuação. James Hall coloca um terceiro processo compensatóriopara o sonho, no qual ele ‘pode ser visto como uma tentativapara alterar diretamente a estrutura de complexos sobre os 96 C. G. Jung, Obras Completas, Vol. XII, par. 48.
    • 247quais o ego arquetípico se apóia, para a identidade em níveismais conscientes’97 . Quando o ego não é suficientemente estruturado, os sonhosnão só se comportam de maneira compensatória, mas tambémcomo um auxiliar ao desenvolvimento e fortalecimento do ego. A depender da situação do complexo e da posição do egodesperto, os sonhos podem apresentar símbolos em oposição, emconfirmação ou modificando suas atitudes. Os sonhos compensatórios modificam as visões distorcidasou incompletas do ego vígil. Nesse sentido eles têm uma funçãocomplementar, pois ocupam um vazio deixado pelo ego que, pormais que o queira, não consegue ter domínio completo darealidade consciente, muito menos do inconsciente. 97 Jung e a Interpretação dos Sonhos, p. 32.
    • 248 Sonhos na gravidez A análise e interpretação dos sonhos não podem prescindirdo conhecimento da condição psíquica do sonhador. O estadofísico, emocional, bem como o universo social em que vive, sãofatores relevantes para o deslindamento de seus sonhos. Existem estudos em que se afirma a influência do sexo dosonhador nos seus sonhos, porém não se pode afirmar que elesdifiram significativamente, ou modifiquem sua forma deapresentação, por essa condição. É claro que as característicasdo sonhador fazem seu sonho, mas o sonhar é uma atividadeuniversal, isto é, todos sonham da mesma forma, segundo umacondição cerebral e psíquica padronizadas. Os sonhos sãodiferentes como são singulares os sonhadores. Os sonhos de umhomem serão diferentes dos de uma mulher por eles serempessoas diferentes, mas não por terem essa ou aquela condiçãosexual anatômica. Parece-nos que estabelecer uma diferença nosonhar pelo tipo de sexo é o mesmo que estabelecer diferençapela raça, o que implica numa generalização perigosa. Como odia-a-dia de um homem, assim como sua infância, difere do deuma mulher, face às características culturais e regionais, seussonhos apresentarão imagens e símbolos coerentes com suashistórias de vida. Ao que tudo indica, as diferenças existentes
    • 249entre os sonhos dos homens e os das mulheres se devem àsdiferentes condições socio-culturais em que se situam eles. O fato do homem, segundo Jung, ir em busca de sua ânimae a mulher de seu ânimus, poderá levá-los a interpretar seussonhos segundo essa busca, porém a elaboração onírica, adisposição de conectar conteúdos inconscientes é semelhante. Damesma forma, a gravidez não altera o s onhar, mas provoca autilização de certos símbolos, particulares e universais, com maiorintensidade. A relação que a mulher tenha com seu bebê interferirá nossímbolos oníricos apresentados. Nos casos em que há uma certarejeição, por mais leve que seja, da mãe em relação a seu bebê,isto é, no que diz respeito à não aceitação da gravidez, tambémhaverá interferência na formação dos símbolos oníricos. Ascircunstâncias físicas da gravidez, o fato de ser a primeira, suarelação com o pai biológico, a aceitação social em relação àgestação, são fatores intervenientes na produção dos símbolos. Ainterpretação dos sonhos das grávidas não pode prescindir dessaconsideração. O sonho de mulheres, segundo relata Kenneth Rubinstein98 ,possui mais experiências emocionais do que o de homens. Ossonhos de homens apresentarão mais atividades tipicamentemasculinas do que os das mulheres. A gravidez é um estado cujo psiquismo da gestante sealtera face à existência de um outro em seu contexto. Asreferências de Thomas Verny99 sobre a vida intra-uterina nosremetem à percepção da atividade inconsciente da vida de umfeto. Pelos seus estudos não se pode afirmar que inexista uma 98 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 130. 99 The Secret Life of the Unborn Child , Dell Publishing, New York-USA, 1986.
    • 250vida consciente como também atividades inconscientes, e atéelaborações oníricas. Patrícia Maybruck,100 num trabalho publicado em 1989sobre gravidez e sonhos, comenta que o padrão de sono dasgrávidas, por ser irregular, induz a uma maior possibilidade delembrança dos sonhos, além do fato de acordarem mais vezesdurante o sono e de dormirem mais do que as não grávidas.Adianta também, que se pode perceber, pelos sonhos, apossibilidade de que a mulher esteja grávida. Ela coloca que ossonhos no início da gestação são povoados de animais aquáticose no meio da gravidez eles apresentam animais terrestres, comocachorrinhos, gatos e coelhos. Stanley Krippner, que realizou estudos sobre sonhos demulheres grávidas, relata que na maioria deles constavamreferências à água, à arquitetura, a pequenos animais e a membrosda família. São comuns sonhos em que a sonhadora se sente presa aalgo, principalmente no início da gestação, como correntes oufios, além de imagens oníricas indicando algo em crescimento.Esse crescimento também pode ser observado se compararelementos semelhantes, em sonhos distintos, que se apresentamem estágios de desenvolvimento (tamanhos) diferentes. As grávidas, geralmente, sonham com seus bebês, com osobjetos que lhes digam respeito, e, muitas vezes, amamentando-os. Sonham com o sexo de seu bebê, tendo em vista sua grandeansiedade em obter uma resposta a respeito, às vezes, diferentedo real. Em geral as grávidas tendem a ter sonhos com seus futurosfilhos. Segundo a visão espírita, face ao encontro espiritual queporventura venham a ter com eles. Os sonhos podem se 100 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p. 148.
    • 251apresentar como pesadelos a depender da condição espiritual doreencarnante. Os sonhos das mulheres que irão engravidar podemrevelar aspectos importantes da personalidade do reencarnante. Éatravés dos sonhos que as revelações ocorrem, no que dizrespeito às situações com as quais o reencarnante vai se defrontar. As mulheres que provocaram abortos freqüentemente têmpesadelos, pela culpa que costuma acompanhar suas vidas.Vêem-se perseguidas, agredidas, angustiadas e, por vezes,violentadas, fruto dos processos referentes ao aborto praticado.Muitas vezes os temas de seus pesadelos se devem ao fenômenoda obsessão espiritual, quando ocorre durante o sono, peloespírito que fora impedido de reencarnar.
    • 252 Sonhos dentro de sonhos Não é raro sonhar-se que, no momento do sonho, está-sesonhando, isto é, no sonho o sonhador tem um sonho. Geralmentetal acontece em face da necessidade de justificar algo que seencontra sob censura do ego onírico e/ou que está influenciadopelo ego desperto. Sonhar sonhando representa a entrada em outro nível de(in)consciência durante o sono. O segundo sonho, que ocorrenaquele momento, representa uma instância mais profunda doinconsciente, a que o ego raramente tem acesso. A interpretaçãodesse segundo sonho é extremamente difícil e complexa, pois temum significado mais oculto do que o dos sonhos comuns. Quando esse fenômeno ocorrer, o analista pode separar osdois sonhos e tentar estabelecer correlações entre eles de modo aobter uma visão ampla da mensagem de ambos e em que pontoselas se conectam. Nesses casos de sonhos duplos, quem sonha é o egoonírico, e é sobre ele que se refere o segundo sonho. Jung afirmaque “O inconsciente percebe, tem propósitos e intuições, sentee pensa como a mente consciente.” Equivale afirmar a existênciade um ego (onírico) diferente do Self e do ego desperto, cujas‘faculdades’ permitiriam, de alguma forma, o sonhar. Porém, isso
    • 253não nos permite afirmar que o inconsciente deve ser visto comouma personalidade à parte do indivíduo, pois ele está semprepresente em todos os processos psíquicos, permeando asatitudes, desejos, emoções e intuições humanas. Não há ego seminfluência do inconsciente. Pode-se interpretar o sonho ocorrido dentro de outrosonho como algo da esfera do ego onírico, portanto dainconsciência, no que diz respeito à relação com o Self. O sonhodentro de outro sonho é o negativo dele, sendo o positivo para oego desperto.
    • 254 Os sonhos e a arte Desde os tempos mais remotos que o ser humano, nas maisdiversas culturas, vem representando os conteúdos doinconsciente através da arte. Seja na música, seja na escultura,como também na pintura, ou em outra qualquer, as formas deexpressão têm variado de acordo com as característicastipológicas de cada artista. As artes em geral se assemelham aos sonhos pela tentativaem ambos de representar uma realidade inacessível à lógica doego. São expressões simbólicas de objetos desconhecidos quepretendem mostrar-se ao ego. As características tipológicas (introversão e extroversão),quando cruzadas às funções racionais e irracionais (pensamento,sentimento, sensação e intuição), produzem, em cada indivíduo,modelos e padrões típicos de habilidades que o levarão a realizarestilos distintos em suas capacidades artísticas. De alguma forma os artistas, poetas principalmente, semprese colocaram entre a consciência e o inconsciente de uma maneirabastante freqüente. O mundo dos sonhos lhes é particularmentepróximo, pois suas obras de arte os colocam acima do nível doego.
    • 255 Independente de nossa capacidade artística e de termos ounão dons especiais para a elaboração de obras de arte, mesmoque não consideradas como tal, durante o sono, através dossonhos, nos revelamos artistas de primeira linha, produzindo obrascujo surrealismo causa espanto aos mestres deste gênero. Muitas vezes os artistas retiram suas idéias e modelos dossonhos ou das ocorrências durante o sono. Várias obras musicaisforam compostas após seus autores declararem t rem entrado enum certo estado de sono ou torpor. Os artistas captam dasprofundezas do inconsciente os motivos ou imagens para suasobras. Vale lembrar que as imagens traduzidas em obras de artesão geradas pelo consciente ou pelo inconsciente. As imagens daconsciência são reproduções da realidade exterior vista peloartista. Essas imagens podem surgir nos sonhos e não sãoformulações do inconsciente, mas tão somente utilizadas pararepresentar seus conteúdos. As imagens do inconsciente, pessoalou coletivo, são representações das emoções e experiências doindivíduo, bem como fruto de conteúdos arquetípicos, que v ãosurgir nos sonhos com características distintas daquelaspertencentes à esfera da consciência. Um dos exemplos claros da influência do inconsciente nasartes são as obras surrealistas. Dizia-se popularmente que apintura surrealista era a “arte dos sonhos”, pois a arte, para serimortal, teria que ir além dos limites normais, isto é, ir à esfera dossonhos. Muitos dos pintores surrealistas procuravam retratar emsuas obras, de forma figurativa, o mundo onírico, dentre eles, onotável Salvador Dalí. Alguns artistas costumam guardar seus instrumentos detrabalho junto à cama, pois, assim que acordam e, às vezes, aindadeitados, retratam seus sonhos em obras de arte, que hoje seencontram em grandes museus no mundo.
    • 256 A propriedade do inconsciente de gerar mensagenscriativas estabelece conexão com a capacidade artística doindivíduo. Essa conexão, aflorada nos sonhos, se produz peloprocesso de diferenciação do coletivo. A terapêutica ocupacional, introduzida com sucesso napsiquiatria, possibilitou a realização simbólica, e providencial, dosconteúdos inconscientes. Nessa mesma linha de raciocínio, pode-se estabelecer um paralelo com a realização do inconscienteatravés da arte, pela sua possibilidade de deslocamento doexcesso de energia psíquica inconsciente. O uso terapêutico daarte em pacientes psiquiátricos não objetiva a realização de obrasde arte, mas tão somente a expressão das emoções maisprofundas do indivíduo. Não se trata de buscar uma estéticaartística, mas apenas a possibilidade para o indivíduo de projetarseus conflitos pela “linguagem plástica”.101 Mais do que esboços ou garatujas de produções artísticas,as realizações oníricas projetadas numa obra são como que auto-retratos da psiquê, que se permite uma representação simbólica.A linguagem do inconsciente se assemelha à artística, onde oselementos, aparentemente desconexos, têm um sentido próprio esurpreendente. Jung “Não é suficiente explicar, em todos os casos, ocontexto conceitual do conteúdo de um sonho. Muitas vezesimpõe-se a necessidade de esclarecer conteúdos obscuros,imprimindo-lhes uma forma visível. Pode-se fazer isso,desenhando-os, pintando-os ou modelando-os. Muitas vezesas mãos sabem resolver enigmas que o intelecto em vão lutou 101 Nise da Silveira, O Mundo das Imagens, p. 92.
    • 257por compreender. Modelando um sonho podemos continuar asonhá-lo com mais detalhes, em estado de vigília, e umacontecimento isolado, inicialmente ininteligível, pode serintegrado na esfera da personalidade total, emborainicialmente o sujeito não tenha consciência disso. Aformulação estética deixa-o tal como é, e renuncia à idéia dedescobrir-lhe um significado. Isso faz com que certospacientes se imaginem artistas – naturalmente malcompreendidos. O desejo de compreender o sentimento domaterial produzido que renuncia à idéia de cuidadosaformulação, para ele tem início com uma associação causaltosca, e por isso carece de base satisfatória. Só se tem algumaesperança de êxito, quando se começa com um produto jáformulado.”102 Em outro trecho,103 Jung já salientava os efeitos terapêuticosda arte em seus pacientes, reduzindo inclusive a quantidade eintensidade de seus sonhos. A realização de uma obra de arte, seja produto de umsonho ou não, atinge a integração de conteúdos pertencentes aoinconsciente, porém ainda não organizados no ego. A expressãoartística, presente na obra e, principalmente, no momento dacriação, é, sobretudo, um fator transcendente para a realização danecessária integração de opostos. A direção seguida na realizaçãodas obras de arte, em todos os campos, é a do processo deindividuação, presente na dialética entre as imagens doinconsciente e o ego.104 A arte surge como uma proposta para reorganizar o ego apartir do fortalecimento da capacidade criativa existente em todos 102 C. G. Jung, Obras Completas Vol. VIII, par. 180. 103 Idem, idem, par. 400 e seguintes. 104 Nise da Silveira, O Mundo das Imagens, p. 87.
    • 258os seres humanos. Esse poder criativo, então agindo de formabruta e inconseqüente, encontrará uma diretiva através da arte.
    • 259 Reflexões finais Nada pode nos garantir que todas as teorias existentessobre os sonhos não possam ser aspectos parciais doentendimento de uma importante função psíquica. Eles podem,dentro desta perspectiva, referir-se a: premonições, respostas adesejos, prenúncio de doenças, movimentos corporais noturnos,lembranças de vidas passadas, desdobramentos, imaginaçõesfantasiosas, encontros espirituais, resultantes dos pensamentosdiurnos, lembranças da infância, elaborações simbólicas doinconsciente, conselhos úteis para o desenvolvimento psíquico,influência divina, fonte de idéias criativas, sinais de problemasmentais, orientações para a vida de vigília, etc. Da mesma forma que as teorias explicativas sobre ossonhos podem ser abordagens complementares, as práticas etécnicas utilizadas para sua compreensão e uso na vida de vigília,podem, também, ser aplicadas isoladamente ou em conjunto, semprejuízo ao sonhador. A interpretação dos sonhos é uma atividade poucorelevante para a grande maioria das pessoas. Sua importânciapoderá se acentuar no futuro quando se conhecer melhor a mentehumana. Os sonhos podem ser responsáveis por uma nova etapa
    • 260na evolução psíquica do ser humano, se a eles se aplicaremtécnicas de aperfeiçoamento. Pode-se perceber que existem muitas teorias a respeito dossonhos bem como explicações e interpretações as mais diversas,porém nenhuma certeza. Muitas crenças, muitas críticaspolarizadas e antagônicas entre si. Sabe-se, certamente, que osonho é um fato cuja testemunha principal, e talvez única, é opróprio sonhador. Ficção simbólica, subjetividade, realidadeespiritual, tudo se mistura num universo único na mente dosonhador, início e fim do que se chama sonho. Independentedesse aparente caos de teorias, eles se prestam aodesenvolvimento da totalidade psíquica, ao ser humano integral. É importante ficar-se atento ao risco das generalizações. Omundo dos sonhos, tão real quanto o mundo sentido pelos nossosórgãos e descrito como o verdadeiro, é desconhecido na suatotalidade. Ele, como tudo que o ser humano estuda, é entrevistonuma pequena faceta acessível no nível psíquico em que opróprio ser humano consciente se situa. A mente, que estuda a simesma, certamente sozinha não conseguirá fazê-lo em suatotalidade. O sonho parece ser um grito de alerta do ego que luta pelasua sobrevivência ou contra sua morte aparente. Ele representa aesperança da noite escura do sono. Produção espontânea einquestionável dos escaninhos da mente que nunca dorme. A interpretação dos sonhos sempre foi entregue aos magos,feiticeiros e adivinhos para que os explicassem e dessem umsentido real, hoje, porém, eles se tornaram objeto de investigaçãocientífica e não só do domínio dos psicólogos, analistas eterapeutas, mas também do domínio público. Há que se considerar os aspectos contextual e cultural nasua análise e interpretação. Cada época e cultura poderãoestabelecer paradigmas diferentes. Pode-se observar, em todos
    • 261os sistemas interpretativos, uma certa visão etnocêntrica etradicional que os torna parciais. A maioria dos estudos sobre sonhos, ou mesmo osparadigmas subjacentes às suas análises e interpretações, parecemlevar em conta que eles (os sonhos) são produzidos pelo ego (nosseus desejos inconscientes) e para o ego, como se ele fosse ocentro das atenções. Os sonhos irrompem na consciência atravésdo córtex e não são produtos planejados, mesmo quando se tentasonhar antecipadamente com algo. São frutos de conexões cujaobjetividade escapa à certeza dos estudiosos, que são unânimesem afirmar que há uma objetividade, mas é de se perguntar paraque e para quem. As respostas serão provisórias, mesmo aquelas oriundasdaqueles que têm a certeza de deterem a verdade, cujarelatividade desafia o tempo. Assim como o pensar humano éinerente àquele que o faz, o sonhar é intrínseco ao sonhador. Sóele sabe o que se passa em seu mundo objetivo das imagensdesafiadoras dos sonhos. O ego onírico é a testemunha solitáriadas ações que se processam no mundo dos sonhos. As preocupações sobre causalidade são de todos ostempos e são inerentes à espécie humana, e elas nos levam àcerteza de propósitos em tudo que se refere à vida. Mesmo quese diga que aquela causalidade é fruto d uma visão d da e ual,mente que se fragmentou, uma explicação vai ser exigida porconseqüência do fato dela ter sido suscitada nos sonhos. Muitoalém da causalidade se coloca a finalidade, que nos remete ànecessidade de entender propósitos. O tema dos sonhos sempre se revelou num fascínio para aspessoas. O próprio nome nos remete a um mundo mágico efantástico, do qual parece que viemos ou algo neles temos a nosregozijar. Eles, por ocorrerem num momento de abaixamento daconsciência, denotam um quê de mistério e sagrado ao mesmo
    • 262tempo. A experiência do sonho ocorre num estado alterado deconsciência, abaixo do nível da consciência desperta. Parecempensamentos não pensados ou elaborações mentais irrompidas àconsciência sem que esta tome qualquer iniciativa. São emanaçõesnão controladas pela consciência, não sendo possível sonhar-seexatamente como e com que se deseja. O sonho é imponderável, improvável salvo pelodepoimento do sonhador, porém suas conseqüências sãoobserváveis. Mas, em que meio eles ocorrem? Como sãoprovocados? Que estrutura os provoca? O Self? O ego vígil? Oego onírico? São interrogações desafiadoras à nossa mente lógica.Talvez as respostas só sejam alcançadas quando nos situarmosalém do concretismo lógico-matemático e penetrarmos nosdomínios da emoção e da intuição. Jung vai explorar os sonhos como poucos, em suavolumosa obra, dando-lhes um caráter de importânciafundamental no processo terapêutico, fazendo deles o principalapoio à entrada nos domínios do inconsciente. Os sonhos ocorrem a partir de uma brecha que oinconsciente abre para o consciente, motivada por fatoresexternos ou internos. Alguns parecem originar-se dos maisrecônditos lugares do inconsciente. Outros demandam dasuperfície do inconsciente pessoal e, em alguns casos, retratamum instantâneo do psiquismo, isto é, do estado geral do indivíduo,estabelecendo uma relação complementar entre as instânciaspsíquicas, consciente e inconsciente. O sonhador deve sempre se perguntar após a lembrança deum sonho: – Qual a intenção desse sonho? Que efeito elepretende ter? As respostas podem ser obtidas com a ajuda dealguém, o qual não deve se limitar a dar interpretações mágicas edesconexas.
    • 263 Deve-se sempre questionar ao sonhador o que ele sente emrelação às imagens do sonho, pois, geralmente, ele se refere a umdeterminado problema sobre o qual o sonhador tem uma visãoconsciente equivocada. O questionamento que se deve fazer aosonhador é semelhante a uma anamnese médica, isto é: − Comofoi o sonho? Como você se sentiu no sonho? E depois quelembrou? Quando? Por que? Onde? Com quem? etc. O enredo de um sonho parece obedecer a um esquemasemelhante ao existente na estrutura do mito. Ele, o sonho, éestruturado como um padrão de coordenadas que conduzem auma idéia central. Às vezes parece-nos que o mito forja o sonho. Um mesmo sonho pode conter elementos contraditóriosentre si, que se opõem na consciência, representando aspectosque necessitam conciliação. Nesse tipo de sonho costumam surgirelementos que tendem a confundir o analista que, sempre quepossível deve manifestar sua incapacidade, mesmo quemomentânea, de entendê-lo. A influência da era do mundo virtual sobre os sonhos podetransformá-los em peças da imaginação e da fantasia, a serviço doirreal e do inconsistente. Porém, a tecnologia vai oferecer umamaior quantidade de imagens e símbolos que se prestarão aliberar conteúdos semelhantes aos apresentados nos sonhos, aserviço do processo de individuação. Os sonhos revelam estruturas ou complexos intrapsíquicosdo sonhador e suas relações com os outros, com seu própriomundo interno e com o mundo das imagens objetais. Os sonhos expressam: um tema onírico principal, umaperspectiva de realidade psicológica do sonhador, um simbolismoparticular, núcleos de significado, padrões de energia, umaexpressividade emocional. Eles são uma das formas de expressãoda energia psíquica interior.
    • 264 Os sonhos expressam também, e devem ser vistos sob osaspectos: dos sentimentos, da sensibilidade e da intuição. Suaanálise e compreensão pelo ego desperto deverão conter essascondições psíquicas. Não se lida diretamente com os sonhos, mas com alembrança deles, isto é, do sonho ao relato, há o momento dalembrança. Desta, ao relato, ocorrem alterações significativas emface da linguagem utilizada pelo sonhador para descrever aspróprias imagens oníricas. Wynn Schwartz105 afirma que “Aquiloque é contado ao analista é modelado não só pelo conteúdooriginal do sonho, mas também pelos sentimentos dosonhador, a respeito e no contexto das complexidades darelação com o analista.” A consciência é dual. O sonho é mono (unidimensional).Não há separatividade nos sonhos. Eles apresentam imagensinstantâneas e globais. Para alcançar sua compreensão única épreciso meditar sobre eles, continuá-los, dialogar com suasfiguras, desenhar suas imagens, enfim viver com elas. Mesmo queapresentem como lembrança uma única imagem isolada, em lugardo sonho todo, aquela imagem é o ponto de convergência de umarede de significados que merece atenção. Uma das mais conhecidas e mais largamente usadastécnicas para a exploração do inconsciente, extensamenteadotada por Freud e seus seguidores, é a da análise dos sonhos.Embora não entremos aqui numa discussão do sistema deinterpretação de Freud, assinalaríamos que, embora os sonhospropiciem acesso ao inconsciente do indivíduo, verificamosfreqüentemente que eles dão acesso a apenas uma pequenaparte dele. Em muitos indivíduos, só uma parte do inconsciente écapaz de se expressar através dos sonhos. 105 Decifrando a Linguagem dos Sonhos, p.58.
    • 265 Muita gente não leva a sério os sonhos, porém nem sempresabe que segue teorias religiosas, filosóficas e até políticas, que seoriginaram através de sonhos de seus profetas e líderes. Os sonhos, na primeira metade da vida, geralmente sereferem ao mundo exterior, à vida de adaptação, à necessidade dofortalecimento do ego. Na segunda metade da vida eles sereferem à vida interior, à totalidade, à necessidade de entender seusignificado. Estudar os sonhos é dedicar-se a uma atividade importantee intensa na vida do ser humano. Em média sonhamos cerca decem mil vezes (média de quatro por dia durante cerca de setentaanos), o que coloca o sonhar como atividade extremamentefreqüente em nossas vidas. Com essa intensidade, certamente anatureza pretende mostrar o quanto ela é importante. Quantas pessoas dizem: − minha vida não tem sentido! Elasnão sabem, mas certamente estão falando do ego e de suasnecessidades. Outro sentido, o real, pode ser encontrado naanálise dos sonhos. Prestar atenção aos sonhos poderá darsentido à vida das pessoas. Os processos tão decantados deautoconhecimento e autodescobrimento podem ser mais bemcompreendidos pela percepção dos sonhos, que indicarão ascorreções de rumo que devem ser feitas pelo ego desperto a fimde alcançar a autotransformação. Os sonhos operam como se o ego desperto tivesse umavisão unilateral, incompleta, negligenciada ou imperfeita dasituação global da personalidade. Por esse motivo os sonhos sãocomplementares e operam como um (supra)senso de orientaçãoda consciência, uma espécie de comentário supra-racional. Elesse processam num momento em que o inconsciente sobrepõe-se àconsciência, permitindo-a, posteriormente, ter acesso aos seusconteúdos. É nesse sentido que eles são a via real aoinconsciente, através principalmente dos complexos.
    • 266 Por isso, quem se identifica com a metade diurna de suaprópria existência psíquica, só pode conceber os sonhos noturnoscomo nulidades desprovidas de valor, embora a noite possa sertão longa quanto o dia, e toda consciência esteja baseada numaevidente situação de inconsciência, aí tendo suas raízes e aí seextinguindo a cada noite. Será que um dia assistiremos o sonho em real time,quando uma tela venha a mostrar o que se passa no córtexhumano? Não tenho dúvidas que sim, e nessa época, m uitasdúvidas cairão por terra, mas outras certamente surgirão. Oavanço científico, com o mapeamento cerebral e a evolução dainformática, possibilitará uma melhor compreensão dos sonhos,sobretudo de sua origem e finalidade. O ego é o sonho do Self.
    • 267 Bibliografia Andrade, Hernani Guimarães, ParapsicologiaExperimental, Editora Pensamento, São Paulo-SP; Assagioli, Roberto, Psicossíntese - Manual de princípiose técnicas, 1982, Editora Cultrix, São Paulo-SP; Blackmore, Susan J., Experiências Fora do Corpo, 1988,Editora Pensamento, São Paulo-SP; Brandão, Junito de Souza, Mitologia Grega, 1995,Volume II, Sexta Edição, Editora Vozes, Rio de Janeiro-RJ; Claret, Martin, A essência dos sonhos, 1997, EditoraMartin Claret Ltda., São Paulo-SP; -------, Jung Vida e Pensamentos, 1997, Editora MartinClaret Ltda., São Paulo-SP; Coxhead, David y Hiller, Susan, Sonhos e Visões, 1997,Edições delPrado, Rio de Janeiro-RJ; Fagan, Joen e Shepherd, Irma Lee, Gestalt-Terapia –Teoria, Técnicas e Aplicações, 4ª Edição, 1980, ZaharEditores, Rio de Janeiro-RJ; Faria Junior, Ademar, Mecanismo dos Sonhos, 2ª Edição,1997, Editora Mnêmio Túlio, São Paulo-SP;
    • 268 Franco, Divaldo Pereira e Ângelis, Joanna (espírito),Autodescobrimento – Uma busca interior, 1995, LivrariaEspírita Editora Alvorada, Salvador-BA; -------, e Manoel P. de Miranda (espírito), NasFronteiras da Loucura, Edição LEAL, 1982, Salvador-BA; -------, idem, Tramas do Destino, Edição FEB, 1979, Riode Janeiro-RJ; -------, e Victor Hugo (espírito), Do Abismo às Estrelas,Edição LEAL, 1975, Salvador-BA; -------, idem, Calvário de Libertação, Edição LEAL,1979, Salvador-BA; Franz, Marie-Louise von, O caminho dos sonhos, 1993,Editora Cultrix, São Paulo-SP; -------, Os sonhos e a morte - Uma interpretaçãojunguiana, 1990, Editora Cultrix, São Paulo-SP; Freud, Sigmund, A Interpretação dos Sonhos, 1972, Vol.IV e V, Imago Editora Ltda, Rio de Janeiro-RJ; Gamashi, Halu e Lage, Sônia Luiza, Sonhos OráculoFundamental no processo de autoconhecimento, EditoraMahatma, 1992, Belo Horizonte-MG; Grof, Stanislav, Além do Cérebro, McGraw-Hill, 1988,São Paulo-SP; Hall, James A., A Experiência Junguiana, 1992, EditoraCultrix, São Paulo-SP; ------, Jung e a Interpretação dos Sonhos, 1990, EditoraCultrix, São Paulo-SP; Hossri, C. Morey, Sonho Acordado Dirigido, 1974,Editora Mestre Jou, São Paulo-SP; Imbassahy, Carlos, Freud e as manifestações da alma,2ª Edição, 1976, Editora Eco, Rio de Janeiro-RJ; Jung, Carl Gustav, CW Vol. I, Estudos Psiquiátricos,Vozes, 1994, Rio de Janeiro-RJ;
    • 269 -------, Vol. II, Estudos Experimentais, Vozes, 1997, Riode Janeiro-RJ; -------,Vol. VI, Tipos Psicológicos, Vozes, 1991, Rio deJaneiro-RJ; -------,Vol. VII, Estudos Sobre Psicologia Analítica,Vozes, 1981, 2ª edição, Rio de Janeiro-RJ; -------,Vol. VIII, A Dinâmica do Inconsciente, Vozes,1991, 2ª edição, Rio de Janeiro-RJ; -------,Vol. IX/2, Aion - Estudos Sobre o Simbolismo doSi Mesmo, Vozes, 1982, Rio de Janeiro-RJ; -------, Vol. XI, Psicologia da Religião Ocidental eOriental, Vozes, 1983, 2ª edição, Rio de Janeiro-RJ; -------, Vol. XII, Psicologia e Alquimia, Vozes, 1991,Rio de Janeiro-RJ; -------, Vol. XIV, Mysterium Coniunctionis, Vozes,1985, Rio de Janeiro-RJ; -------, Vol. XVI, A Prática da Psicoterapia, Vozes,1988, Rio de Janeiro-RJ; -------, Vol. XVII, O Desenvolvimento daPersonalidade, Vozes, 1986, 2ª edição, Rio de Janeiro-RJ; -------, XVIII/1, Conferências de Tavistock, Vozes,1991, 6ª edição, Rio de Janeiro-RJ; -------, e outros, O Homem e seus Símbolos, 1992,Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro-RJ; Kleitman, Nathaniel e outros, Psicobiofísica, as basesneurológicas do comportamento, 1970, Ed. USP, São Paulo-SP; Krippner, Stanley (org.), Decifrando a Linguagem dosSonhos, 1994, Editora Cultrix, São Paulo-SP; -------, Possibilidades Humanas, 1988, LivrariaFrancisco Alves Editora, Rio de Janeiro-RJ;
    • 270 Kübler-Ross, Elizabeth, Sobre a Morte e o Morrer, 2ªedição, 1985, Martins Fontes, São Paulo-SP; Loureiro, Carlos Bernardo, A Visão Espírita do Sono edos Sonhos, Casa Editora O Clarim, 1996, Matão-SP; Maharshi, Ramana, Ensinamentos Espirituais, 1993,Cultrix, São Paulo-SP; Nagera, Humberto (org.), Conceitos psicanalíticosbásicos da teoria dos sonhos, 1981, Editora Cultrix, São Paulo-SP; Nasio, Juan-David, Cinco Lições Sobre a Teoria deJacques Lacan, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro-RJ, 1994; Noll, Richard, O Culto de Jung, Editora Ática, 1996, Sãopaulo-SP; Novaes, Adenáuer, Reencarnação: Processo Educativo,1995, Edição da Fundação Lar Harmonia, Salvador-Ba; Ouspensky, P. D., Um Novo Modelo do Universo, 1987,Pensamento, São Paulo-SP; -------, Tertium Organum, 1988, Pensamento, SãoPaulo-SP; Parker, Julia e Derek, O Livro dos Sonhos, 1997,Publifolha, São Paulo-SP; Rossi, Ernest Lawrence, Os sonhos e o desenvolvimentoda personalidade, 1982, Summus Editorial Ltda., São Paulo-SP; Sharp, Daryl, Léxico Junguiano, 1993, Editora Cultrix,São Paulo-SP; Silveira, Nise da, O Mundo das Imagens, 1992, EditoraÁtica, São Paulo-SP; -------, Jung Vida e Obra, 1994, 14ª edição, Editora Paze Terra, São Paulo-SP; Tabone, Marcia, A Psicologia Transpessoal, 1988,Cultrix, São Paulo-SP;
    • 271 Vieira, Waldo, Projeções da Consciência, 1982, EditoraLake, São Paulo-SP; Whitmont, Edward C., e Perera, Sylvia B., Sonhos - umportal para a fonte, 1995, Summus Editorial Ltda., São Paulo-SP; Wilber, Ken, O Espectro da Consciência, 1990, EditoraCultrix, São Paulo-SP; Xavier, Francisco Cândido e Luiz, André (espírito), Entrea Terra e o Céu, 1954, Editora FEB, Rio de Janeiro-RJ; ------- e Emmanuel (espírito), O Consolador, 1940,Editora FEB, Rio de Janeiro-RJ;
    • 272 Contra capa Sonhar é uma atividade inerente à existência doinconsciente, pois é sua expressão natural e de importânciafundamental ao equilíbrio psíquico. Nos sonhos encontramos ummundo numinoso, mágico, pouco compreensível, mas belo eintrigante. No mundo dos sonhos, objetos, animais e pessoas semisturam como numa orquestra, formando um conjuntoharmonioso e coerente em si, sob o comando de seu maestro, osonhador. Sua estrutura sempre fascinou o ser humano pela identidadede suas imagens com a natureza essencial dele próprio. Nascido egerado nas profundezas do psiquismo, os sonhos trazem consigoos resíduos pertencentes à trajetória da humanidade ao longo doprocesso de desenvolvimento da consciência superior. Neste novo século de luzes e imagens multicoloridas e dogrande avanço tecnológico, já ingressos no Terceiro Milênio,estamos na iminência de descortinar um dos véus que encobrem averdadeira natureza do ser humano. Novas e a rrojadas idéiasvirão tomar o lugar da era quântica e, certamente, darãosurgimento a uma nova ciência que permitirá uma compreensãomaior do significado dos sonhos.
    • 273 Orelhas Esquerda Este é mais um trabalho do estudioso das ciências psíquicasAdenáuer Novaes que nos traz novos elementos para acompreensão do significado da vida humana. Visandoproporcionar, numa linguagem simples e direta, estudos psíquicos,novos subsídios sobre as relações dos aspectos consciente einconsciente, vem nos informar a respeito dos sonhos e de comopodemos aprender a lidar com eles em proveito do nossodesenvolvimento pessoal. Direita Os sonhos são mensagens da alma para a própria alma emascensão na busca do si-mesmo. São instantâneos ou retratos dapsiquê a serviço do seu próprio aperfeiçoamento. “A vida em sua plenitude não precisa ser perfeita, e simcompleta. Isto supõe “espinhos na carne”, a aceitação dosdefeitos, sem os quais não há progresso nem ascensão.” C. G.Jung.