Linhares

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Linhares

  1. 1. Cultura Escolar Migrações e Cidadania ­ Actas do VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 20 ­ 23 Junho 2008, Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (Universidade do Porto) ISBN xxx­xxx­xxxxx­x­x Mesa Coordenada: Educação, género e história Coordenador: Lia Faria Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro História(s)  de Maria Yedda Linhares: educação e política no Brasil Republicano Lia Faria Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Vozes  Femininas  do  oitocentos  –  o  papel  das preceptoras nas casas brasileiras Maria Celi Chaves Vasconcelos Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Os  discursos  do  poder  e  as  políticas educativas na governação de Oliveira Salazar. As  vozes  das  mulheres  na  Assembleia Nacional (1946­1961) Áurea Adão, Universidade Lusófona Baltasar Lopes da Silva; Maria José Remédios, Universidade de Évora Memória,  história  e  testemunho  da  primeira mulher  secretária  de  estado  de  educação  e cultura  do  Rio  de  Janeiro:  Myrthes  de  Luca Wenzel Yolanda  Lima  Lobo,  Universidade  Estadual  do  Norte  Fluminense Darcy Ribeiro EIXO 4 – Inclusão, género e etnia
  2. 2. 2  Educação, género e história  A  sessão  coordenada  ­  Educação,  Gênero  e  História  ­  se  propõe  a  pensar  o  presente, examinando as referências conceituais e históricas, que permeiam as idéias e práticas políticas circulantes  no  contexto  escolar  luso­brasileiro,  relacionando  tradição  e  republicanismo.  Assim, iniciamos  com  a  apresentação  da  professora  Maria  Celi  Vasconcelos,  a  respeito  da  gênese  da educação, nos oitocentos, ainda confinada ao lócus doméstico, a casa. A  seguir, mais voltadas para  o  nosso  tempo,  os  estudos  de  Yolanda  Lôbo  e  Lia  Faria,  abordam  a  natureza  da  escola pública  do  Estado  do  Rio  de  Janeiro,  nas  décadas  de  70  e  80,  destacando  a  fundação  do sistema público fluminense, a partir do olhar de duas de suas dirigentes, as professoras Myrthes Wenzel e Maria Yedda Linhares. Por fim, a contribuição das autoras portuguesas, Áurea Adão e Maria  José  Remédios,  nos  remetem  ao  espaço  legislativo,  analisando  sob  a  perspectiva  de gênero, a importância da participação das vozes das mulheres na Assembléia Nacional. Logo, a presente  comunicação  objetiva  abordar  uma  dupla  dimensão,  a  da  tradição  republicana associada  às  questões  da  participação  feminina,  na  vida  pública  dos  dois  países,  Brasil  e Portugal. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  3. 3. Cultura Escolar Migrações e Cidadania ­ Actas do VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da  Educação  20 ­ 23 Junho 2008, Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (Universidade do Porto)  ISBN xxx­xxx­xxxxx­x­x  História(s)  de Maria Yedda Linhares: educação  e política no Brasil Republicano  Lia Faria    1 Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro  Mesa Coordenada: Educação, género e história  Coordenador: Lia Faria  Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro  EIXO 4 – Inclusão, género e etnia  Vivi, creio eu, boa parte das esperanças do Brasil.  No entanto, me pergunto: para que servem as memórias?  São confiáveis? Será que elas precisam ser confiáveis?  Maria Yedda Linhares  O  presente  estudo  traz  a  tona  a  trajetória  da  professora  Maria  Yedda  Leite  Linhares, desvelando  os  indícios  que  tornam  visíveis  a  contribuição  desta  historiadora.  que  esteve intelectualmente  a  frente  de  seu  tempo,  considerando  também  a  questão  de  gênero.  Desta forma,  analisamos  seu  pensamento,  ressaltando  a  luta  que  sempre  travou  pelas  causas  que acreditava  serem  fundamentais  para  a  consolidação  da  universidade  pública  e  da  escola republicana no Brasil.  Tal análise se inscreve no desejo de indagar  qual a contribuição desta professora para  a jovem  historiografia  brasileira,  destacando,  em  particular,  o  debate  acerca  da  atuação  feminina  2 nos meios intelectuais e universitários na década de 60  . Sem perder de vista que não sabemos  1  Professora­adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e do programa de Pós­graduação  em  educação  (PROPEd/UERJ).  Desenvolve  estudos  na  linha  de  pesquisa:  Instituições,  Práticas Educativas e História.  2  O Jornal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), publica encarte especial por ocasião dos 40 anos da invasão da Faculdade de Medicina. Em suas páginas, ecos de um momento de agressão à autonomia universitária: O movimento estudantil tinha três pernas: o Caco, a FNFi e a Faculdade de Medicina. Lutávamos pela reabertura de outros diretórios  fechados.  Pela  revogação  de  punições  dos  alunos  de  Arquitetura,  Direito  e  Filosofia  (Jornal  da  UFRJ,  p.  3, agosto de 2006).
  4. 4. 4  História(s) de Maria Yedda Linhares: educação e política no Brasil Republicano Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria do  passado  tudo  o  que  ele  foi,  nem  mesmo  tudo  o  que  somos  capazes  de  desejar  saber (GONDRA, 2001, p. 213).  Portanto, o rigor teórico exige um olhar atento, quase arqueológico, que se inscreva além  3 do  aspecto  fenomênico  das  coisas.  Dentro  de  tal  ótica,  desvendar  as  sombras  que  ainda ocultam a participação de mulheres como Maria Yedda, enquanto dirigente e intelectual de seu tempo é objeto desta investigação, rompendo esquecimentos e registrando memórias datadas de um determinado período histórico. Os múltiplos olhares, da cátedra à ação político­pedagógica, enquanto  secretária  municipal  e  estadual  de  educação  do  Rio  de  Janeiro  (RJ)  revelam  um cotidiano entrelaçado, em meio aos sucessivos embates travados nos campos da educação, da política e da história nacional e fluminense.  Logo,  é  a  partir  deste  deslocamento  da  filiação  da  memória,  que  intentamos  também recuperar a consciência geracional de uma coletividade acadêmica inserida naquela contingência temporal  dos  anos  60  e,  posteriormente,  dos  anos  80.  Segundo  Le  Goff  (1992),  a  classe hegemônica e o Estado são os senhores da memória e do esquecimento, deste modo, recuperar a visibilidade dos acontecimentos políticos ocorridos nos anos imediatamente pré e pós­ditadura  4 militar,  podem  contribuir  para  um  melhor  entendimento  da  atual  fase  anti­utopia  imposta  pelo fenômeno da globalização neoliberal.  Neste viés, a história de Maria Yedda, embora (...) única, perdida e solitária entre todas as outras  ­  aponta  para  o  perigo  dos  processos  de  manipulação  da  memória  coletiva,  5 ressignificando os sentidos da universidade pública brasileira (Faria, p.709, 1998)  .  Assim  sendo,  ao  articular  os  campos ­  educação,  história  e  política, falamos  de  nós,  ex­ alunas da antiga Faculdade Nacional de Filosofia (Universidade do Brasil) e ex­professoras dos sistemas públicos de ensino do Rio de Janeiro, em busca dos sentidos que nos identificaram no passado, vislumbrando no presente, pontos de rupturas e permanências.  Segundo  Walter  Benjamin  (1993)  articular  historicamente  o  passado  não  significa conhece­lo  como  ele  de  fato  foi.  Significa  apropriar­se  de  uma  reminiscência,  tal  como  ela relampeja no momento de perigo (p. 22). E, assim, orientados pela fala de Benjamin procuramos identificar os principais acontecimentos desta trajetória pessoal/coletiva, no feminino, desvelando os múltiplos olhares do seu percurso.  Desta  forma,  experiências  de  mulheres  intelectuais  como  Maria  Yedda,  descortinam ideologias  e  utopias  do  imaginário  daquela  época,  apontando  para  o  processo  de  construção histórica do gênero feminino no Brasil. Por outro lado, teorizar sobre a história feminina invisível é colocar  em  discussão,  a  simples  vida  do  dia­a­dia,  por  que  definimos  o  feminismo  como  a revolução da vida cotidiana, como uma revolução concreta, pois a vida diária que modificamos resulta em toda uma mudança social de caráter global (CAPELLER, 1982, p.20).  Vale  salientar  também  que  as  representações  do  comportamento  feminino  podem  ser identificadas na espessa teia social da micro­política cotidiana das relações de poder, sejam elas  3  Ver Karel Kosik, em Dialética do Concreto, p. 19, 1976, sobre (...) o mundo fetichizado da aparência para atingir a realidade e a” coisa em si”.  4  Sobre  o  modelo  de  anti­utopia,  declara  ao  Jornal  da  UFRJ,  o  professor  André  Bueno  da  faculdade  de  Letras (UFRJ): A década de 60 é o contrário do que temos hoje, tanto na política quanto na cultura. (...) transformada em mais um produto pasteurizado da indústria cultural, a rebeldia dos anos 60 perde radicalidade e ganha um sabor adocicado (p. 4, agosto de 2006, RJ)  5  Sobre  geração  ver  estudos  de  Ângela  Beatriz  de  Carvalho  Faria,  in:  Dos  mitos:  o  tríplice  dos  barcos  e  anti­ utopia, (1998). VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  5. 5. Lia Faria  5  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria na  família,  no  trabalho,  nas  escolas  e  universidades,  ou  ainda  nos  partidos  políticos.  E  não parece  ser  possível  compreender  a  história  de  como  as  mulheres  ocuparam  as  salas  de  aula sem  notar  que  essa  foi  uma  história  que  se  deu  também  no  terreno  das  representações  do masculino  e  do  feminino,  os  lugares  sociais  previstos  para  cada  um  deles  são  integrantes  do processo histórico (LOURO, 2003, p. 479).  Portanto, o debate acerca da história das mulheres mantém­se na ordem do dia, imposto pela  consciência  crescente  do  importante  papel  que  o  contingente  feminino  têm  nas  profundas transformações  econômicas,  sociais,  políticas  e  culturais  que  marcam  em  todos  os  níveis  a evolução da humanidade.  Segundo Scott (1992):  a  história  das  mulheres  apareceu  como  um  campo  definível  principalmente  nas  duas últimas décadas. Apesar das enormes diferenças nos recursos para ela alocados, em  sua  representação  e  em  seu  lugar  no  currículo,  na  posição  a  ela  concedida  pelas  universidades  e  pelas  associações  disciplinares,  parece  não  haver  mais  dúvida  de  que  a  história das mulheres é uma prática estabelecida em muitas partes do mundo (p.63).  Por outro lado, se observa um desejo análogo de inverter as perspectivas historiográficas tradicionais, de mostrar a presença real das mulheres na história mais cotidiana, sustentado pelo esforço das historiadoras nos últimos anos (PERROT, 1988, p. 171).  Diante de tal afirmação, justificam­se os estudos sobre o papel social das mulheres que se destacaram  pelo  seu  pioneirismo,  na  medida  em  que  a  análise  do  discurso  feminino  em  seu cotidiano  pode  identificar  as  contradições  vividas  pela  sociedade  brasileira  naquele  momento histórico e, ao mesmo tempo, o processo cultural e histórico do qual a mulher foi vítima, compõe o inventário desta mulher­educadora. E nem sempre será fácil libertar­se deste passado (FARIA, 1989 p. 60).  No  exercício  do magistério,  por  que  é  a mulher  a  “escolhida”? Por  que  continua  sendo, majoritariamente,  a  professora  ou  a  “tia”?  Em  estudos  anteriores,  por  ocasião  do  mestrado, investigamos que tal fato se dá devido ao aprisionamento histórico no mundo privado, tornando­ se  mais  difícil  para  as  mulheres,  romperem  com  o  modelo  hegemônico  de  um  mundo  público, ainda masculino (Faria, 1989).  Durante séculos, o esperado das mulheres seria aceitação, concordância e resignação. No entanto, algumas mulheres, embora minoria, vêem conseguindo romper lentamente as amarras do  tradicionalismo  da  sociedade  brasileira. Mas  esta não  é  uma  tarefa  fácil  e  nem  isolada.  Só coletivamente  as  mulheres  poderão,  de  fato,  serem  as  artífices  da  sua  própria  libertação (CHARTIER, 1995 p. 47).  Em  continuidade,  a  pesquisa  recupera  os  debates  acerca  da  escola,  enquanto  espaço privilegiado de formação da cidadania, através da análise das falas e do testemunho de vida de Maria Yedda. O importante, no entanto, é integrar de forma crítica, cenas distantes ou perdidas no tempo, buscando incessantemente nos arquivos os restos da memória guardada, mesmo que seja fragmentada, tentando reconstruir elos e conexões entre as diferentes dimensões do público e do privado (SAMARA, 2003).  Por  outro  lado,  as  mulheres  não  podem  apropriar­se  de  sua  história,  a  menos  que comecem  a  coletivizar  suas  experiências,  superando  o  isolamento  estrutural  sofrido  e compreendendo  as  causas  sociais  desta  exclusão  intelectual.  Portanto,  os  olhares  de  Maria Yedda, como acadêmica e cidadã, surgem lado a lado com a construção de um mundo novo, se somando  à  tarefa  de  garantir  às  mulheres  um  espaço  real  de  atuação  política  na  sociedade, VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  6. 6. 6  História(s) de Maria Yedda Linhares: educação e política no Brasil Republicano Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria considerando  que  a coincidência da mudança das circunstâncias com a mudança da atividade humana  ou  com  a  mudança  dos  próprios  homens,  só  pode  conceber­se  e  entender­se racionalmente como prática revolucionária (MARX, 1984).  Assim  sendo,  o  exemplo  pessoal  torna­se  instrumento  de  mudança,  assinalando  um movimento que pode contribuir para uma nova consciência coletiva que no caso das mulheres é passo importante para sua integração em qualquer processo revolucionário (PINEDA, 1982).  É  neste  panorama,  brevemente  descrito  acima,  que  se  insere  o  percurso  da  historiadora  6 Maria Yedda Leite Linhares  , com os seus múltiplos  olhares....  Primeiros passos:  Origem, infância e ingresso no mundo escolar  A análise do tema da memória feminina, objeto deste artigo, se ancora nas preocupações do  historiador  José  Honório  Rodrigues,  como  crítico  e  historiador  da  própria  historiografia brasileira, quando demarca a diferença entre memória e história (Apud Santos, 2007).  Santos (2007) nos traz as reflexões daquele historiador,  em  especial  no  que  se  refere  à  proliferação  do  uso  de  certa  concepção  de  memória,  em  detrimento  da  cultura  histórica,  profundamente  atingida  pelo  golpe  de  64  e  pela ditadura militar, que perseguiu historiadores e destruiu instituições, com o objetivo de  impedir o livre exercício da crítica e a destruição dos marcos e símbolos da história oficial  (p. 90).  Se  considerarmos  que  Maria  Yedda  é  protagonista  desta  história,  suas  memórias adquirem  uma  tonalidade  muito  especial,  por  ter  sido  também  uma  das  historiadoras  vítima daquele  movimento  de  truculência  militar,  tendo  como  foco  o  apagamento  da  resistência  de professores  e  alunos  e,  como  conseqüências  a  fragmentação  e  esvaziamento  da  autonomia universitária.  Embora mantendo o cuidado para não praticarmos um uso abusivo dos caminhos e limites da  memória,  queremos  estar,  através  desse  estudo,  redimensionando  o  debate  com  a  história, pois  segundo  José  Honório  –  só  a  história  é  a  análise  crítica,  dinâmica,  dialética,  julgadora  do  7 processo de mudanças e desenvolvimento da sociedade.  A seguir, os primeiros passos de um inventário cercado pela história brasileira e por muitas reminiscências:  Maria Yedda Leite Linhares nasceu em Fortaleza (Ceará) no ano de 1921, os pais eram do Rio  Grande  do  Norte  e  embora  não  fossem  de  família  ilustre,  pertenciam  à  camada  média  da população.Seus  pais  não  freqüentaram  escolas,  possuindo  uma  formação  intelectual  bastante simples,  entretanto  buscaram  formas  de  saber  e  conhecer  mais  “as  coisas  do  mundo  letrado”. Tal atitude certamente influenciou Maria Yedda, que assim os relembra:  (...) minha mãe era de uma família um pouco mais ilustre, os Brito Guerra (...) filha  de  uma  viúva  pobre.  Trabalhou  desde  menina  no  ateliê  de  costura  da  minha  avó,  em  6  A  obra  acadêmica  de  Maria  Yedda  sobre  a  história  agrária  brasileira  se  filia  hoje  aos  grandes  clássicos  da historiografia  nacional,  ao  lado  de  nomes  como  Sérgio  Buarque  e  Caio  Prado,  com  que  conviveu,  afirmando  mesmo serem eles os nossos “Pais Fundadores” (founding fathers). Cf. www.ifcs.ufrj.br/humanas.  7  Apud Santos, p. 82 José Honório p. 48. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  7. 7. Lia Faria  7  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  Moçoró,  nunca  teve  oportunidade  de  freqüentar  escolas,  tinha  uma  instrução  bastante  simples.  Mas  era  uma  pessoa  de  espírito  extremamente  fino.  Aprendeu  francês  sozinha  para poder ler a literatura francesa, o que, numa cidade pequena, do interior, é uma coisa  extraordinária. Meu pai era descendente de imigrantes portugueses, perdeu os pais muito  criança e foi criado por tios, trabalhando desde pequeno (...) também teve uma formação  intelectual precária (ROCHA, 1992, p. 216.).  8  De  sua  infância,  daquela  menina  de  fita  vermelha  no  cabelo  ,  outros  acontecimentos mereceram lugar definitivo, abaixo registramos algumas das experiências mais enriquecedoras:  Nessa  época  algumas  coisas  foram  importantes  para  mim:  a  música  que  papai  ouvia,  a  posição  crítica  de  mamãe,  sempre  contra  o  poder,  o  convívio  com  a  família  Linhares, amigos de papai que representavam a riqueza, tinham um nível social mais alto.  Preenchi minha infância com isso, com música, dança, teatro. (ROCHA, 1992, p. 216).  No estado natal inicia a formação educativa em um grupo escolar. Mais tarde, a família se muda para o Rio Grande do Sul e depois, em definitivo para o Rio de Janeiro (1933).  A seguir, mais recordações, fios entrelaçados que tecem a linha do tempo:  Chegamos aqui em meados de 1933. Nessa história de vai para o Sul, vem para o  Rio, minha vida escolar foi "pro beleléu". No final do ano comecei a me preocupar, porque  estava  fazendo  12  anos  e  não  tinha  nem  curso  primário  (...)  perto  de  onde  morávamos  ficava o Instituto Lafayette, fui até lá sozinha (...) eles tinham um curso de férias intensivo,  que preparava para o exame de admissão ao ginásio. Fiz esse curso, passei e comecei o  secundário  no  Lafayette.  Mas  em  1935  nos  mudamos  e  fui  fazer  o  segundo  ginasial  no  Colégio São Paulo. (ROCHA, 1992, p. 217).  Nesse mesmo período, houve um marcante acontecimento em sua jovem vida acadêmica, como ela mesma descreve:  Quando  eu  estava  no  último  ano  do  ginásio,  em  1938,  o  Ministério  da  Educação  promoveu uma maratona intelectual com alunos do curso secundário de todo o país. Eram  três  matérias­história,  matemática  e  português  –,  e  quem  inscrevia  os  alunos,  por  série,  eram os colégios. Acontece que nós estávamos querendo fazer um baile de formatura, eu  presidia  a  comissão  do  baile,  e  as  freiras  estavam  com  muita  raiva  de  mim  porque  achavam  que  dançar  era  imoral.  Eu  quis  me  inscrever  na  maratona  de  história,  e  elas  disseram  que  não,  que  eu  ia  desmoralizar  o  colégio.  Fui  então  sozinha  ao  ministério,  expliquei  que  o  colégio  tinha  se  negado  a  fazer  minha  inscrição, mas  que  eu  queria  me  inscrever como independente. Eles passaram uma espinafração nas freiras e obrigaram­  nas a me inscrever (ROCHA, 1992, p. 217).  Mais adiante, se refere ao primeiro contato, com aquele que seria um amigo e combatente de vida inteira, o antropólogo Darcy Ribeiro:  Fiz  provas  escritas,  depois  houve  uma  prova  de  debates  com  outros  alunos  ­  9  quem competiu comigo em Minas, por exemplo, foi o Darcy Ribeiro  ... Depois de um mês  8  Cf.  Faria  –  em  umas  das  inúmeras  conversas  com  Maria  Yedda  Linhares,  não  só  em  entrevistas  para  a pesquisa sobre  Memórias de Ex­Secretários de Educação (UENF/FAPERJ), mas como  ex­aluna  (FNFi, 1967)  e, depois professora nos anos 80 e 90, me ficou este relato, da menina que ao passar a Caravana da Aliança Liberal, colocou uma fita vermelha para saudar os revolucionários.  9  Embora muito amigos, por mais de 50 anos, era visível para aqueles que conviveram com Darcy Ribeiro e Maria Yedda,que havia às vezes inconscientemente, uma competição intelectual, que poderíamos caracterizar como saudável. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  8. 8. 8  História(s) de Maria Yedda Linhares: educação e política no Brasil Republicano Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  de  provas,  cheguei  em  casa  com  mamãe,  voltando  de  um  concerto  no  Municipal,  e  lá  estava  um  telegrama  com  a  notícia:  eu  havia  tirado  o  primeiro  prêmio  nacional  na  maratona de história. (ROCHA, 1992, p. 217).  Especificamente sobre aquele episódio do concurso, Maria Yedda rememora:  Foi o grande amigo da minha vida e nos conhecemos disputando esse prêmio de  história.  Alguns  anos  depois  nos  reencontramos  (...)  essa  é  minha  entrada  na  história.  História como ocorrência do passado. Não tinha noção nenhuma do  que  era a formação  do  conhecimento  histórico  (...).  História  era  ter  uma  boa  memória  e  saber  sobre  o  Napoleão, sobre os Faraós do Egito (In: Memórias da Educação Pública, 2007).  Por  fim,  em  1938  concluiu  o  ginásio,  sempre  prosseguindo  os  estudos  até  tornar­se, menos  de vinte  anos  depois,  a  primeira mulher  catedrática  (1954)  e  também  a  mais  jovem,  na história  da  universidade  pública  brasileira.  Por  outro  lado,  é  digno  de  nota,  ressaltar  o  breve período cursado na escola formal, o que nos leva a afirmar que Maria Yedda foi uma intelectual autodidata, permanentemente inquieta em busca de novos caminhos.  Um longo percurso: trajetória acadêmica e profissional  Ao longo dessa investigação tornou­se significativa a participação de Maria Yedda na vida acadêmica  do  país,  enquanto  intelectual  e  historiadora  desde  1939,  quando  ingressou,  como  10  11 aluna,  na  Universidade  do  Distrito  Federal  no  curso  de  história  .  Naquele  momento  de definição da sua vida profissional, sempre determinada, rememorou:  Concluído  o  ginásio,  afinal,  pensei:  que  curso  eu  posso  fazer?  Se  quisesse  estudar direito ou medicina, teria que fazer dois anos de pré­jurídico ou pré­médico. Além  de não ter o menor gosto por essas carreiras. Na Universidade do Distrito Federal, a UDF,  criada por Anísio Teixeira, eu podia fazer o vestibular direto. Entrei então para lá, para ser  professora de história. Eu não queria propriamente ser professora, na verdade não sabia o  que queria  ser. Mas tinha acabado  de fazer uma revisão imensa para a maratona, sabia  tudo, de modo que escolhi história (ROCHA, 1992, p. 217).  Em  1940  ganha  uma  bolsa  de  estudos  do  Institute  of  International  Education  (EUA), lecionando português na Columbia University até 1941. Dessa época, destacou que:  Os dois anos que passei nos Estados Unidos foram decisivos para mim. Se houve  um  tournant  na  minha  vida,  se  houve  um  momento  em  que  a  minha  cabeça  realmente  mudou,  foi  nos  Estados  Unidos.  Foi  lá  que  aprendi  como  se  organiza  um  curso,  como  deve ser uma universidade. Lá eu percebi que o que havia aqui não era uma universidade,  era  quase  uma  escola  secundária,  que  não  tinha  a  preocupação  de  formar,  orientar  ou  conduzir ninguém. ROCHA, 1992, p. 218).  Após  o  término  da  bolsa,  retornará  ao  Brasil  (1942)  e,  continuando  suas  reminiscências, relembra este momento, Porém,  certamente  o  fato  de  Maria  Yedda  ser  mulher,  levanta  a  hipótese  de  que  muitas  vezes,  não  lhe  foi  permitido ocupar de fato o primeiro lugar, na vida pública brasileira.  10  Universidade  criada  por  Anísio  Teixeira,  funcionou  de  1932  a  1935,  fechada  pelo  Estado  Novo,  período  da ditadura do presidente Getúlio Vargas.  11  Naquela época o curso habilitava para história e geografia. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  9. 9. Lia Faria  9  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  Meu pai pediu que eu voltasse. Estava numa situação muito difícil aqui, do ponto  de  vista  material,  e  queria  que  eu  voltasse  para  trabalhar  e  ajudar  a  família.  A  partir  da  experiência de ensinar português a estrangeiros, quando cheguei pude me manter. Com a  guerra,  e  a  presença  aqui  de  tropas  americanas,  ensinar  português  à  colônia  americana  tornou­se  até  rendoso  para  mim.  Fiz  isso  até  1943,  quando  fui  trabalhar  no  DASP  (ROCHA, 1992, p. 219).  Em  1944 conclui o curso de licenciatura em história, tornando­se rapidamente em 1946 a assistente de Delgado de Carvalho, na cadeira de História Moderna e Contemporânea da FNFi. Sobre este episódio comentou:  Delgado de Carvalho (...) me convidou. Eu já vinha colaborando com ele, durante  o  ano  de  45  escrevi  capítulos  de  livros  didáticos  que  ele  publicou  pela  Editora  Nacional.  Eu  tinha  uma  grande  admiração  pelo  professor  Delgado  de  Carvalho  e  aceitei  ser  sua  assistente.  A  cadeira  tinha  outro  assistente  muito  mais  importante  que  eu,  Antero  Manhães, que dava aulas sobre Renascimento. (ROCHA, 1992, p. 221).  Maria  Yedda  quando  retornou  dos  EUA,  veio  com  uma  outra  visão  acerca  do  meio acadêmico e do papel da Universidade. Alguns anos mais tarde, em 1953, passa no concurso e recebe o título de livre­docência, declarando naquela oportunidade:  Meu  primeiro  concurso  foi  para  livre  docente.  Naquela  época  não  havia  um  sistema montado de pós­graduação na universidade, de modo que a livre­docência supria  o doutorado, e era a única garantia para quem pretendesse suceder a um catedrático (...)  o  sucessor  do  professor  Delgado  de  Carvalho  seria  o  Antero  Manhães,  que  era  o  livre­  docente  da  cadeira.  Mas  o  professor  Manhães  faleceu  subitamente,  fui  instada  pelo  próprio  professor  Delgado  a  fazer  a  minha  livre­docência.  Como  eu  gostava  de  política  internacional,  e  naquele momento  estava  ocorrendo  uma crise muito  grave  entre Egito  e  Inglaterra  em  torno  do  canal  de  Suez  e  do  Sudão,  mandei  buscar  a  documentação  recente, que me faltava, e fiz um trabalho chamado As relações anglo­egípcias e o Sudão,  analisando a crise de 1951 (Rocha, 1992, p. 229).  Em  seguida,  em  1957,  é  aprovada  em  um  segundo  concurso,  agora  para  titular  de  12 cátedra  , sobre aquela ocasião afirmou que:  Esse segundo concurso foi muito puxado para mim. Além da tese havia unia prova  de  aula  e  uma  prova  escrita  muito  longa,  de  seis  horas,  com  ponto  sorteado,  e  eu  precisava ter toda a bibliografia do século XV ao  XX  na cabeça. Havia mil possibilidades  de  temas.  O  concurso  se  encerrou  em  1957,  e  consegui  me  sair  bastante  bem  (Rocha,  1992, p. 229).  Para  a  historiadora  a  diferença  entre  os  acadêmicos  paulistas  e  cariocas,  estava  na definição  do  papel  que  cabia  à  universidade  brasileira.  Um  dos  destaques  do  ensino  na  FNFi, defendido por Anísio Teixeira (Departamento de Educação) e Maria Yedda estava na valorização da  formação  dos  professores  de  história  para  o  ensino  médio,  visto  como  um  profissional importante na construção da identidade nacional.  12  Maria  Yedda  foi  a  primeira  catedrática  no  Brasil.  Em  seus  depoimentos  relembrou  que  só  havia  uma  outra professora  universitária  na  Escola  de  Música.  Em  São  Paulo  também  não  havia,  Alice  Canabrava  era  uma  grande historiadora e foi reprovada no concurso da USP porque era mulher (Revista Estudos Históricos, 1992). VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  10. 10. 10  História(s) de Maria Yedda Linhares: educação e política no Brasil Republicano Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  13  Ao  mesmo  tempo,  se  observa  o  papel  político  exercido  pela  FnFi  (RJ)  no  processo histórico  de  redemocratização  brasileira  nas  décadas  de  50  e  60.  Assim  sendo,  a  comunidade acadêmica  do  Rio  de  Janeiro  iria  contribuir  de  forma  significativa,  na  luta  pela  Reforma Universitária  e  pela  primeira  Lei  de  Diretrizes  e  Bases  da  Educação  Nacional  ­  LDBEN  14 (promulgada em 1961)  .  Dando  prosseguimento  a  uma  sucessão  de  desafios  que  tão  bem  caracterizaram  a  sua trajetória política e profissional, foi nomeada diretora da Rádio MEC em 1963 e destituída no ano seguinte  pelo  golpe militar.  Em  1968  é  aposentada  pelo  Ato  Institucional  nº  5  e  após  ser  presa algumas  vezes  e  responder  a  inquéritos  policiais­militares,  recebe  um  convite  e  vai  para  a França,  onde  é  nomeada,  pelo  Ministério  da  Educação  Nacional,  professeur  associé. Inicialmente, atuando em Paris­Vincennes e, de 1970 a 1974, na Universidade de Toulouse, só voltando ao Brasil em 1974.  Dois anos depois começa a se dedicar à pesquisa em história agrária brasileira, mais uma vez  inovando,  no  recém­criado  Centro  de  Pós­Graduação  em  Desenvolvimento  Agrícola (FGV/RJ  e  SEPLAN).  Em  1977,  organiza  e  dirige  o  Programa  de  História  da  Agricultura Brasileira,  publicando  ainda  o  livro  História  do  Abastecimento,  uma  problemática  em  questão, 1530­1918. Com a anistia será convidada a lecionar no mestrado da UFF e reingressa na UFRJ, retomando a função de professor­titular.  Novos  rumos  e  novos  olhares  se  apresentam  no  caminho  da  incansável  historiadora, durante  o  processo  de  redemocratização  do  Brasil  nos  anos  80,  com  a  eleição  de  Leonel  de Moura  Brizola  (1982),  para  governador  do  estado  do  Rio  de  Janeiro.  É,  então,  convidada  para assumir a secretaria de educação do município (1983) e em 1986, a secretaria de educação do  15  16 estado  , quando do licenciamento da secretária, professora Yara Vargas  , que se candidatava à deputada pelo estado do Rio de Janeiro.  Escola como formação de cidadania  (...)  porque  a  escola  pública  se  tornou  o  gueto  das  crianças  pobres  do  Rio  de  Janeiro  (e  do  país)?  Porque  ela  deixou  de  ser  um  elemento  de  democratização  e  de  convivência multi­racial, pluri­social (...) Estamos nos defrontando com duas nações e, aqui,  no  Rio  de  Janeiro,  com  várias  repúblicas...  As  elites  têm  de  se  conscientizar  de  que  prepararam essas duas nações.  17  Maria Yedda Linhares  13  O marido  de  Maria  Yedda, José  Linhares percebeu  o clima  de instabilidade política  que se  acirrava  dentro  da FnFi  no  início  dos  anos  60.  Tentando  solapar  o  trabalho  dos  servidores  mais  progressistas.  Vai  então  a  Brasília, preocupado, procurava vários amigos ministros, entre eles Darcy Ribeiro. No entanto, não foi ouvido quanto às suspeitas de conspiração contra o governo, pouco depois ocorre o golpe militar (Memórias da Educação, p. 134, 2007, RJ).  14  (...)  mais uma  vez torna­se  importante destacar que Maria  Yedda faz  parte  de uma geração  de intelectuais  e professores  universitários,  cuja  história  se  confunde  com  a  gênese  da  Educação  brasileira.  Dois  daqueles  expoentes serão seus contemporâneos e colegas de trabalho e de sonhos – Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.  15  Maria  Yedda  também  exerce  o  mesmo  cargo  (1991­1993),  na  SEE,  durante  o  segundo  mandato  daquele governador (1991­1994).  16  A professora Yara Vargas, objeto também de nossas pesquisas (UERJ/UENF/FAPERJ ­ 2000), foi eleita, pelo Partido Democrático Brasileiro (PDT), com o maior número de votos daquela eleição.  17  Torna­se importante registrar a atualidade das palavras “proféticas” de Maria Yedda, na atual crise de extrema violência  porque  passam  as  grandes  metrópoles  no  mundo  inteiro,  mas  em  particular,  na  cidade  do  Rio  de  Janeiro.  Cf entrevista concedida no caderno Idéias/ENSAIOS (JB, 29/12/91). VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  11. 11. Lia Faria  11  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  Sem  sombra  de  dúvidas,  Maria  Yedda  sempre  se  destacou  pela  irreverência  e  coragem intelectual,  ainda  consideradas  inesperadas  para  as  mulheres,  como  ela,  nascidas  no  início  do século XX. Jamais fez parte de grupos fechados, mantendo seu perfil questionador e combativo através  da  defesa  de  suas  posições  intelectuais  e  políticas,  não  se  submetendo  a “fundamentalismos”. Tal liberdade de pensamento lhe custou perseguições nos anos 50 e 60, na antiga FnFi e, posteriormente, por parte da ditadura militar.  Como  ela mesma  diz, nunca fui membro de partido algum, a não ser agora, do PDT... o próprio partido comunista desconfiava de mim, por que eu havia estado nos Estados Unidos.  Em  tal  contexto,  falar  de  Maria  Yedda  é  falar  da  própria  histórica  política  do  Brasil,  se considerarmos que ela conviveu com os intelectuais mais importantes das décadas de 50 a 80.  Sobre amigos e adversários, alguns de seus depoimentos:  18  Era  muito  comum  eu  e  meu  marido  pegarmos  um  avião  ...  encontrávamos  com  Novaes, Alice Canabrava, Otavio Ianni e Fernando Henrique Cardoso(...). Por que é que o  19  Carlos Lacerda  ficou tão meu inimigo a ponto de dizer que a anarquia do Brasil se devia,  entre outras pessoas, à Maria Yedda Linhares? Por que eu desmontei todo o mecanismo  de atuação política dele na Rádio Mec (Rocha, p. 229, 1992).  Sobre o casamento e o marido José Linhares, destacou ter sido um casamento feliz, que eram muito amigos, tendo tido um casal de filhos e, que atribuía muito de sua formação política ao marido e a sua família, os Linhares.  Enfim,  percebe­se  o  intenso  movimento  da  vida  no  intelectual  no  Brasil  estimulado  pelo processo de redemocratização, com o fim do Estado Novo, ocasião em que Maria Yedda, mais uma vez, reafirmou suas posições libertárias, relembrando que no final da guerra fui muito ativa na UNE... minha grande aventura consistiu em trabalhar em uma organização clandestina que eu não sabia o que era (Estudos Históricos, 1992).  Ainda em entrevista à Revista Estudos Históricos (1992), afirmou que nos anos 60 decidiu fazer  oposição  à  ditadura  militar,  se  mobilizando  politicamente  pela  primeira  vez  de  forma  20 consciente,  (...)  o  movimento  dos  professores  na  passeata  dos  cem  mil  ,  por  exemplo,  saiu daqui de casa.  Em  seu  período  como  secretária  municipal  (SME/RJ),  entre  março  de  1983  e  julho  de  21 1986, atuou ao lado de três prefeitos: Jamil Hadadd, Marcello Alencar  e Saturnino Braga. Sobre esta  experiência  como  gestora  pública  na  educação  apontou  como  ações  principais:  a  criação dos  CECs  (Conselho  Escola­Comunidade);  a  recriação  dos  grêmios  estudantis  (com  eleições diretas) e, a participação dos professores nas discussões e elaboração de programas referentes à  alfabetização,  treinamento,  conteúdos  programáticos,  gestão  escolar  e  avaliação.  Ao  mesmo  18  Em sua relação com os pensadores paulistas lembrou que: Vivíamos sonhando com São Paulo, em pesquisar como eles(...) desenvolvemos muito mais que eles o curso de formação de professores(...) na época estávamos imbuídos de que era fundamental formar bons professores de História (Rocha, 1992).  19  Carlos  Lacerda  (UDN)  foi  o  principal  opositor  do  presidente  Getúlio  Vargas,  governador  do  ex­estado  da Guanabara e, aliado dos militares no golpe de 1964,  contra o então presidente João Goulart.  20  A  passeata  dos  cem  mil  reuniu  professores,  estudantes,  artistas  e  intelectuais,  em  1968,  num  dos  principais atos populares contra o governo militar.  21  Em  entrevista  concedida  confessou:  tive  mais  prazer  em  ser  secretária  do  município,  sobretudo  no  primeiro período  em  que  Marcello  Alencar  foi  prefeito  (1983­1985).  Foi  uma  tarefa  muito  difícil  e  enfrentei  resistências  políticas imensas.Cf. www.ifcs.ufrj.br/humanas VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  12. 12. 12  História(s) de Maria Yedda Linhares: educação e política no Brasil Republicano Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria tempo,  assinalou  a  importância  das  parcerias  da  SME  com  a  Federação  de  Associações  de Moradores  do  Estado  do  Rio  de  Janeiro  (FAMERJ),  com  a  Federação  de  Associações  de  22 Favelas (FAFERJ) e com o CEP (Centro Estadual de Professores/RJ)  .  Por ocasião das  primeiras eleições presidenciais (1989) pós­ditadura militar, sinalizou em  23 entrevistas  à  imprensa,  que  embora  o  governo  Brizola  estivesse  naquele  momento  sendo veementemente combatido, foi durante a administração do PDT que, paralelamente aos debates com  a  categoria, foi  aprovado  o  primeiro  plano  de  carreira  dos  professores  públicos  municipais  24 do Rio de Janeiro  .  Assim sendo, durante os inúmeros embates ideológicos ocorridos na passagem dos anos 80  para  os  90,  Maria  Yedda  nunca  se  intimidou,  sempre  se  colocando  em  defesa  do  direito  à educação  e  à  garantia  de  uma  escola  pública  efetivamente  republicana.  É  preciso,  portanto, considerar a particularidade política daquele momento de grande comoção nacional, as vésperas de uma eleição presidencial após mais de vinte anos de regime de exceção.  Na  oportunidade,  citamos  falas  da  professora  que  desvelam  tensões  e  contradições dialéticas vividas na passagem do velho para o novo, no Rio de Janeiro nas décadas de 80 e 90,  25 permeadas pelos interesses dos diferentes grupos e partidos políticos  :  Cumpre–me,  ainda,  rememorar  que  foi  o  governo  Brizola  o  único  a  convocar  52.000  professores  de  primeiro  grau,  sob  o  titulo “Vamos  passar  a  escola  a  limpo”,  para  uma ampla consulta na criação do Programa Especial de Educação, do qual fazem parte  26  os CIEPs.  (...) A redução do Programa Especial de Educação a uma questão de custo­  eficiência é uma simplificação falaciosa. É exatamente assim que os defensores da escola  particular  atacam  a  escola  pública.  Foi  com  base  nos  mesmos  argumentos  que,  tanto  o  governo Moreira Franco, como o ex­prefeito Saturnino Braga reduziram os investimentos  na área de educação, inviabilizando os CIEPs (LINHARES, 1989)  O que se depreende ao longo deste estudo é que Maria Yedda tem na História o seu rumo mais constante, enquanto professora e pesquisadora, continuando até os dias atuais, com mais de  80  anos,  atuando  nessa  área  do  conhecimento.  Nos  últimos  anos,  vem  se  dedicando  a diversas atividades, incluindo pesquisas e aulas.  Em entrevista recente, falou dessas últimas experiências:  Como  professora  emérita,  tenho  o  privilégio  de  poder  continuar  trabalhando...Fazendo  conferências,  orientando,  participando  em  mil  atividades  de  22  Hoje SEPE, Sindicato  Estadual  de Professores do Rio  de Janeiro. Maria  Yedda  em resposta, concedida  pelo jornal O Globo (1989), ao jornalista do PT, César Benjamin, relativa à matéria – Brizola fechou mais escolas do que abriu, contestou, afirmando inclusive que o CEP, fechado pela ditadura, havia sido reaberto no início do governo Brizola.  23  Durante o pleito eleitoral de 1989, as forças políticas progressistas e de esquerda, travaram um duelo acirrado entre dois candidatos, Lula pelo PT e Brizola pelo PDT.  24  A lei  era de  autoria do  então  vereador Aloísio  de Oliveira, depois  eleito deputado  estadual, sempre pelo PDT. Nos últimos anos o parlamentar afastou­se totalmente da vida pública.  25  Ver Gramsci (1978) sobre relações entre sociedade civil e sociedade política.  26  O  I  Programa  Especial  de  Educação  (I  PEE),  foi  coordenado  por  Darcy  Ribeiro  e  Maria  Yedda  Linhares  no primeiro  governo  Brizola  (1983­1986),  que  estiveram  a  frente  também  do  Encontro  de  Mendes,  ponto  culminante  das discussões sobre os CIEPs, pelo professorado carioca e fluminense. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  13. 13. Lia Faria  13  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  natureza  acadêmica,  inclusive  escrevendo  muito,  sobretudo  depois  que  me  viciei  no  computador  (essa  invenção  maravilhosa  e  ligeiramente  diabólica).  Tenho  vários  projetos  em andamento, e tenho varado madrugadas no meu computador, escrevendo sem parar.  (MURILLO, p. 04, 2006).  Ao fim  e  ao  cabo,  a  intelectual  Maria  Yedda,  sinaliza  que  o  sucesso  da  escola  pública  27significa uma questão de sobrevivência se quisermos existir como povo e nação    e com o olhar de historiadora, utiliza o exemplo da Revolução Francesa para justificar tal pensamento:  a  França  quando  resolveu  instaurar  o  ensino  público,  republicano,  praticamente  enfrentou  um  estado  de  guerra  civil.  Mas,  a  burguesia  francesa  manifestou  uma  consciência nacional impressionante e conseguiu impor o seu projeto de republicanização  do país, através da escola pública (Rocha, 1992).  Parafraseando  Maria  Yedda,  acreditamos  que  enquanto  os  setores  mais  esclarecidos  e privilegiados da sociedade brasileira não conferirem à escola pública, o locus político necessário, não haverá solução possível para os críticos problemas sociais que o país enfrenta atualmente. É  urgência  democrática  começarmos  já,  pois,  a  França  levou  cem  anos,  depois  da  Revolução Francesa, para universalizar o ensino primário público e laico...  À guisa de uma conclusão  E fico pensando: será que fiz mesmo alguma coisa? De algo tenho certeza; gostei  muito de ser professora.  Hobsbawn  (1998)  afirma  que  existem  três  formas  de  desfrutar  do  passado:  buscar  o modelo ideal, as glórias para o orgulho da nacionalidade ou os elementos para problematizar o presente.  Este  último  aspecto  se  insere  nesta  pesquisa,  na  medida  em  que  a  recuperação  de memórias,  falas  e  discursos  nos  ajudam  a  melhor  compreender  e  debater  concepções impregnadas no processo histórico, no caso em tela, as memórias femininas sobre a genealogia da educação fluminense.  Para efeito deste ensaio, recolhemos no passado olhares que nos ajudam a problematizar os  dias  atuais.  Deste  modo,  ao  trazer  a  trajetória  de  Maria  Yedda  Linhares,  trabalhamos,  pois, com  a  possibilidade  de  apropriação  diferenciada  de  como  as  mulheres/educadoras  são  vistas, desenvolvendo  um  relato  da  história  que  não  toma  clivagens  macroscópicas  (o  político  e  o econômico, por exemplo) como únicas categorias explicativas.  Poder­se­ia  dizer  que  todas  as  implicações  que  fazem  parte  do  universo  cultural  da mulher­professora,  têm  uma  interferência  direta  no  processo  ensino­aprendizagem, apresentando muitas vezes dificuldades instransponíveis para que a professora consiga, de fato, ensinar  e  o  aluno,  finalmente,  aprender.  Entretanto,  só  uma  análise  crítica  da  história  da educação brasileira poderá trazer uma melhor compreensão das dificuldades enfrentadas pelos  28 sistemas públicos de ensino no Brasil. O que se pode dizer de uma história muda,  no que  se refere  a  sujeitos  e  acontecimentos  tradicionalmente  silenciados  ou  apagados  nas  pesquisas históricas, instituindo outras representações de mulher, de educação e da própria história.  27  Com  essas  palavras  finais,  Maria  Yedda  concluiu  sua  comunicação,  Os  Centros  Integrados  de  Educação Pública – CIEPs ­  um balanço, no Encontro Nacional de Mulheres do PDT (Brasília, jun/1989).  28 Cf. CERTEAU, Michel de (1994). A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  14. 14. 14  História(s) de Maria Yedda Linhares: educação e política no Brasil Republicano Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  Segundo  Costa  (2003),  vozes  inaudíveis,  seriam  ampliadas  através  de  uma  outra orientação, denunciando o quanto a historiografia de diferentes épocas manteve tantos sujeitos históricos,  inclusive  as  mulheres,  silenciados,  por  colocá­los  em  áreas  de  notável  invisibilidade (p. 190). Trata­se, deste modo, de operar em um registro bem determinado da história, desse devir contínuo  que  é  a  trajetória  de  uma  educadora  com  mais  de  80  anos  e,  mesmo  assim,  ainda atuando  no  magistério  superior. Seja  como for,  a  sua  principal  causa  permanece:  a  busca  pela qualidade da Universidade e da Educação Básica, públicas/republicanas.  Como  foi  observado  anteriormente,  muda  ainda  é  a  história  feminina,  no  entanto, caminhamos sim, em direção ao seu reconhecimento. Tornando­se importante questionar, neste momento,  porque  não  encontramos  pesquisas  tendo  como  objeto  as  políticas  educativas implantadas por Maria Yedda, enquanto dirigente das secretarias municipal e estadual (RJ), nos anos  80/90,  considerando  a  importância  de  sua  gestão  e  já  haver  se  passado  mais  de  uma década.  De um outro modo, o que se observa através da análise dos documentos oficiais da SME (RJ)  e  notícias  de  jornais,  é  que  nos  anos  80,  a  gestão  Maria  Yedda  operou  de  fato,  uma transformação significativa no ensino municipal através de ações que implantaram, por exemplo, as classes de  alfabetização (CA), possibilitando o acesso às crianças de 0 a 6 anos, até então excluídas.  29  Digno  de  nota  também  foi  a  extinção  do  terceiro  turno  escolar  ,  ampliando  a  carga horária,  dando  assim  os  primeiros  passos  em  direção  à  concepção  de  educação  integral. Todavia, conforme já assinalado em nossa revisão de literatura não encontramos trabalhos que privilegiassem, como objeto de estudo, aquele período tão importante da educação fluminense, no que se refere, mais especificamente à capital do estado.  Em  nossas  considerações  finais  apontamos  a  posição  que  historicamente  a  escola brasileira  assumiu  neste  embate  em  relação  a  questão  de  gênero,  a  resposta  mais  ou  menos imediata  seria  que  a  escola  tem  ajudado,  muitas  vezes,  a  consagrar  os  tradicionais  papéis femininos  ­  o  que  é  provavelmente  parte  da  verdade,  mas  não  toda  a  verdade.    Segundo Thompson (2001), é imprescindível perceber a visão historiográfica, que relegou por séculos, as mulheres a um segundo plano: há períodos históricos inteiros em que um sexo foi negligenciado pelo historiador, pois as mulheres são raramente vistas como atores de primeira ordem na vida política, militar ou mesmo econômica (p. 229).  A partir desse pensamento, se reitera a importância de espaços dedicados ao pensamento feminino  de  mulheres  do  status  intelectual  de  Maria  Yedda  Leite  Linhares,  garantindo  assim  a visibilidade política merecida e duramente conquistada por essas mulheres. É preciso considerar  30 que a compreensão crítica de si mesma, advém de uma luta de ‘hegemonias’ políticas  , primeiro no  campo  da  ética,  depois  no  da  política,  para  chegar  a  uma  elaboração  superior  da  própria concepção  do  real.  Logo,  a  consciência  de  ser  parte  de  uma  certa  força  hegemônica  (isto  é  a consciência  política)  é  a  primeira  fase  para  uma  ulterior  e  progressiva  autoconsciência (GRAMSCI, 1993).  29  Cf.  Memórias  da  Educação  Pública  (p.  157,  2007),  com  o  objetivo  de  extinguir  o  3º  turno,  o  governo  Brizola construiu  mais  de  200  escolas  pré­armadas,  um  meio  prático,  barato  e  rápido,  idealizado  por  João  Filgueiras  Lima, arquiteto carioca, mundialmente conhecido.  30  Cf. Louro, 2001. Ver as relações sociais de poder e a história das mulheres na sala de aula. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  15. 15. Lia Faria  15  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  Enfim,  também  fazemos  parte  desta  história,  vamos  nessa  estrada,  acompanhadas  por muitas  outras  mestras  das  artes  de  educar  e  de  viver/sobreviver  num  mundo,  ainda hegemonicamente  masculino.  Nesta  perspectiva,  o  percurso  de  Maria  Yedda  Linhares  merece  31 além  de  reconhecimento  político  e  intelectual,  uma  análise  atenta  e  aprofundada,  pois  é necessário  considerar  que  sua  atuação,  sobretudo  no  exercício  das  políticas  públicas,  vai  de encontro aos principais debates educacionais acerca da educação brasileira até os dias de hoje.  Portanto,  os  múltiplos  olhares  da  profissional,  historiadora  e  cidadã  Maria  Yedda  Leite Linhares,  que  há  tantas  décadas  trabalhou  (e  ainda  trabalha),  imaginou  (e  ainda  imagina), projetou (e ainda projeta) a utopia de uma escola pública, enquanto locus universal, democrático e igualitário demarca a oportunidade e importância deste estudo. Ao fim e ao cabo, esperamos estar contribuindo com este texto para a construção, no horizonte, de um Brasil Republicano.  32  Como bem diz Adélia Prado  , Maria Yedda inaugurou linhagens, fundou reinos. Enfim, foi desdobrável...  Referências BENJAMIM, Walter. Obras escolhidas I, Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1993. CAPELLER, Wanda In: A metodologia de estudos sobre a mulher. Rio de Janeiro: Edipuc, 1982. CHARTIER, Roger. Diferenças entre os sexos e dominação simbólica. Cadernos Pagu, 4, 1995, p. 37­48. COSTA. S. G. Gênero e historia. In: ABREU, M. SOIHET, R. (org.). Ensino de historia: conceitos, temáticas e metodologias. Rio de Janeiro: FAPERJ/ Casa da Palavra, 2003. FARIA, Ângela. Dos mitos: Dos mitos: o tríplice dos barcos e anti­utopia, In: Anais do Congresso Canônes e Contextos. UFRJ/ABRALIC. Vol. 3 Rio de Janeiro, RJ, 1998. FARIA,  Lia.  A  questão  feminina  no  movimento  das  contradições  da  escola  pública  do  Rio  de Janeiro  e/ou:  quem  é  esta  mulher  que  se  torna  professora?  (Dissertação  de  Mestrado).  Rio  de Janeiro: FGV/IESAE, 1989. __________Ideologia e utopia nos anos 60: um olhar feminino. Rio de Janiero: EdUERJ, 1997. FARIA, L. C. ; LOBO, Y. L. . Memórias e discursos: a escola fluminense. Cadernos de História da Educação, Uberlândia, v. 4, n. 1, p. 103­116, 2006. GODELIER, Maurice. As relações homem/mulher: o problema da dominação masculina. In: Encontros com a civilização brasileira. Mulher hoje. Editora Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1980. GONDRA,  J.  G..  h=P/p  ­  Reflexões  acerca  das  servidões  da  história.  In:  VII  Encontro  sul­rio­ grandense  de  pesquisadores  em  história  da  educação  ­  Pesquisa  em  História  da  educação: Perspectivas comparadas, 2001, Pelotas ­ RS. Pesquisa em História da educação: Perspectivas comparadas. Pelotas: UFPel, 2001. v. 1. p. 206­220.  31  Por ocasião da comemoração dos 80 anos de Maria Yedda, antigos alunos e colaboradores publicaram o livro: Cf.  FRAGOSO,  João,  MATTOS,  Hebe  Maria  &  SILVA,  Francisco  Carlos  Teixeira.  (orgs.)  Escritos  sobre  educação: homenagem a Maria Yedda Leite Linhares. Rio de Janeiro: Mauad: FAPERJ, 2001.  32  Poema  Com  licença  poética.  In:Homenagem  do  SINPRO  (Sindicato  dos  Professores  de  Nova  Friburgo  e Região, 2007). VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  16. 16. 16  História(s) de Maria Yedda Linhares: educação e política no Brasil Republicano Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria GRAMSCI, Antonio. Obras escolhidas. São Paulo: Martins Fontes, 1978. HOBSBAWM, Eric. Sobre Historia. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. LINHARES,  M.  Y.  L.  Os  Centros  Integrados  de  Educação  Pública:  CIEPs  –  um  balanço. Comunicação apresentada no Encontro Nacional de Mulheres do PDT, Brasília, junho de 1989 Lobo,  Y.  L.  e  Faria,  L.  Projeto  de  Pesquisa:  O  empreendimento  educativo­cultural  da  Fusão: memórias  de  secretários  de  educação.  Rio  de  Janeiro,  Universidade  Estadual  do  Norte Fluminense Darcy Ribeiro­ Universidade do Estado do Rio de Janeiro­ FAPERJ, 2000 ________Um dia, quem sabe? A Educação e a Construção do Grande Estado Único do Rio de Janeiro. Revista Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 103­122, 2004a _______Escola Pública fluminense: o frouxo movimento pendular das políticas de educação. In: V Congresso Luso­Brasileiro de História da Educação. Évora: Portugal, 2004b. _________Políticas  Escolares  e  Mudanças  Institucionais  no  Estado  do  Rio  de  Janeiro  (1975­ 1987). In: III Congresso Brasileiro de História da Educação. PUCPR: Curitiba, PR, 2004c. _________Centro  de  Documentação  e  Memória  da  Educação  Fluminense.  In:  I  Encontro  de Arquivos  Escolares  e  Museus  Escolares,  2005,  São  Paulo.  I Encontro  de  Arquivos  Escolares  e Museus Escolares. São Paulo: FEUSP, 2004d. _________Identidade e Campo de Produção: o laboratório de currículos da Secretaria de Estado de  Educação  e  Cultura  do  Rio  de  Janeiro  (1975­79).  In:  VII  Congresso  Ibero­Americano  de História  de  la  Educácion  Latinoamericana.  Universidad  Andina  Simón  Bolívar:  Quito,  Equador, 2005a. LOURO, Guacira Lopes. Mulheres na sala de aula. In: História das mulheres no Brasil. PRIORI, Mary Del (org). São Paulo: Contexto, 2001. MARX, K., ENGELS, F. A ideologia alemã; teses sobre Feurbach. São Paulo: Moraes. MEMÓRIAS DA EDUCAÇÃO PÚBLICA: Depoimentos de Secretários de Educação – Vol 1/2007. Rio de Janeiro: SME: Centro de Referência da Educação Pública da Cidade do Rio de Janeiro, 2007. MURILLO, Thatiana,  SAUL, Vicente.  Entrevista  com Maria  Yedda  Linhares:  sua  trajetória,  suas histórias e opiniões. Disponível em: http://www.ifcs.ufrj.br/humanas, em 20 de Fevereiro de 2006. PERROT, Michelle. Os Excluídos da História. S. Paulo. Ed. Paz e Terra, 1988. PINEDA, Magaly. In: A metodologia de estudos sobre a mulher. Rio de Janeiro: Edipuc, 1982. ROCHA, Dora. Entrevista com Maria Yedda Linhares. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 216­236. SANTOS,  Afonso  Carlos  Marques.  A  Invenção  do  Brasil:  ensaios  de  história  e  cultura.  Rio  de Janeiro: Editora UFRJ, 2007. SAMARA, Eni de Mesquita. Família, mulheres e povoamento. São Paulo: Edusc, 2003. SCOTT, Joan. História das Mulheres. In: A Escrita da História. BURKE, Peter. São Paulo: Unesp, 1992. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  17. 17. Lia Faria  17  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria SILVA,  Vieira  Rosemaria  J.  Educação,  gênero  e  história:  Maria  Yedda  Linhares  –  mulher, educadora  e  historiadora.  I  Encontro  de  História  da  Educação  do  Estado  do  Rio  de  Janeiro (IEHEd/RJ), 2007. THOMPSON,  Edward  P.  Folclore,  antropologia  e  historia  social.  In:  As  peculiaridades  dos ingleses e outros artigos. Campinas: Ed. UNICAMP, 2001, p. 227 – 268, 1998. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  18. 18. Cultura Escolar Migrações e Cidadania ­ Actas do VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da  Educação  20 ­ 23 Junho 2008, Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (Universidade do Porto)  ISBN xxx­xxx­xxxxx­x­x  Vozes  femininas  do  oitocentos  –  o  papel  das  preceptoras nas casas brasileiras  Maria Celi Chaves Vasconcelos    1 UERJ  Mesa Coordenada: Educação, género e história  Coordenador: Lia Faria  Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro  EIXO 4 – Inclusão, género e etnia  1. Introdução  A educação doméstica foi uma modalidade de ensino difundida a partir de seu emprego na educação  de  príncipes  e  nobres  e  utilizada  ao  longo  dos  séculos,  com  as  mesmas características,  em  diferentes  contextos,  datados  de  diferentes  épocas,  que  vão  do  século  XVI até o século XIX.  No  Brasil,  é,  no  século  XIX,  que  essa  prática  adquire  a  sua  maior importância,  aliada  ao estatuto  de  modernidade  e  civilidade  aspirados  dos  países  tomados  como  referência, principalmente, da Europa ocidental.  Copiada  dos  modelos  estrangeiros,  a  prática  de  educar  os  filhos  nas  casas,  conceituada como educação doméstica, era uma forma recorrente de educação nas classes mais abastadas do  Brasil  Imperial,  realizada  por  preceptores  ou  professores  particulares,  denominados  como “mestres das casas”. Os preceptores residiam na casa de seus alunos acompanhando­os não só nas lições diárias, mas também em atividades cotidianas como missas, passeios e outros. Já os chamados professores particulares visitavam as casas de seus alunos, semanalmente, com dia e hora  estabelecidos,  ministrando  aulas  de  primeiras  letras  ou  de  disciplinas  específicas.  A duração  dessa  forma  de  educação  era  variada,  e  o  próprio mestre  atestava  quando  o  aluno  já estava  apto  a  prestar  exames  ou  para  concluir  os  ensinamentos,  ou  ainda,  a  família  decidia quando era chegada a hora de dispensar os serviços do mestre.  1  Professora da Faculdade  de Educação  da Universidade  do  Estado do Rio de Janeiro – UERJ  e  professora  da Universidade  Católica  de  Petrópolis  –  UCP,  no  Curso  de  Mestrado,  na  linha  de  pesquisa  de  Políticas  e  Instituições Educacionais.
  19. 19. Maria Celi Chaves Vasconcelos  19  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  Desde  as  primeiras  décadas  do  oitocentos,  a  maneira  mais  usual  para  a  contratação  de preceptores e professores particulares era através de anúncios colocados nos jornais da época, nos  quais  tanto  eram  solicitados  os  serviços  de  mestres  para  a  educação  doméstica,  como também  os  próprios  mestres  ofereciam  seus  préstimos.  Considerando  uma  amostra  de periódicos  de  grande  circulação  entre  os  anos  de  1839  e  1889,  pode­se  depreender  que  tal conduta  permanece  atravessando  todo  o  século  XIX,  modificando­se  apenas  na  denominação, exigências  e  quantidade  da  oferta  e  demanda  existentes.  Inicialmente,  na  primeira  metade  do oitocentos, os  anúncios  solicitavam “uma senhora”, “um senhor”, “quem ensine”, “uma pessoa”, registrando­se mesmo um anúncio que buscava “qualquer pessoa”, desde que tenha “mais de 40  2 anos  de  idade”  e  “boa  letra”  .  Como  a  solicitação  era  genérica,  as  características  é  que descreviam  o  fim  para  o  qual  se  destinava  a  vaga  para  “uma  senhora”  ou  “um  senhor”,  pois, geralmente era exigido que apresentassem excelente conduta, idade, independência da família, ser solteiro ou solteira, entre outros atributos pedidos aos que se encarregavam da educação dos filhos das famílias brasileiras.  Além  da  “afiançada  conduta”  que  vai  estar  sempre  presente  como  característica  desses ofícios,  a  partir  da  segunda  metade  do  século  XIX,  as  habilitações  passam  a  ser  valorizadas, sendo registradas em alguns anúncios como “homem de boa conduta, que esteja habilitado para ensinar”, porém, mantêm­se as referências mais voltadas para a condição pessoal com destaque para  “idade  avançada  e  bons  costumes”,  “homem  de  40  anos  casado”,  “senhora  estrangeira capaz”,  ou  “em  estado  de  ensinar”.  Dessa  forma,  são  colocados  como  requisitos  tanto  “ter  as  3 habilitações necessárias” como, ou também, “ter os predicados exigidos”  .  Conjugando  conduta  pessoal,  condição  social  e  habilitações,  os  anúncios  colocados  em periódicos  podem  ser  observados  de  forma  crescente  ao  longo  de  todo  o  período  estudado, percebendo­se  que  essa  modalidade  de  educação foi  sendo  ampliada  em  número  de  usuários, acompanhando  os  demais  movimentos  que  aconteciam,  especialmente,  a  progressiva importância que a instrução vai adquirindo no oitocentos.  À  medida  que  aumenta  o  número  de  famílias  que  buscam  a  educação  doméstica  para seus filhos, também vai ocorrendo a institucionalização dessa prática que começa a ter os seus próprios códigos de realização e, entre eles, destaca­se a participação significativa de mulheres, disputando  com  os  homens  as  mesmas  possibilidades  de  atuação  como  preceptoras  e professoras particulares nas casas das elites brasileiras.  Nesse sentido, é possível localizar na década de 70 do oitocentos, o início da supremacia das  mulheres  nas  funções  relativas  à  educação  doméstica  e,  conseqüentemente,  o  declínio  do número de anúncios colocados por homens nessas funções, particularmente, no que se refere a professores  particulares,  pois,  na  preceptoria,  a  hegemonia feminina  já  era  observada  desde  a década anterior, só havendo mulheres candidatando­se a ensinar e residir nas fazendas e casas dos alunos. Tal fato, no Brasil, pode ser justificado pela própria natureza das funções exercidas pelos preceptores, uma vez que precisavam residir junto às famílias de seus alunos, bem como entrar  na  intimidade  das  casas  senhoriais,  sendo  essas  características  mais  apropriadas  a atuação feminina  do  que  a masculina.  A  preceptoria, portanto,  era  uma  prática  constantemente exercida por mulheres, tendência que perdurará por todo o período, estando ainda presente no limiar da República.  2  Cf. Jornal do Comércio, 18/01/1839, p. 4.  3  Cf. Jornal do Comércio, 16/01/1849, p. 3. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  20. 20. 20  Vozes femininas do oitocentos – o papel das preceptoras nas casas brasileiras Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  As  funções  e  atribuições  dessas  personagens  tão  comuns  no  oitocentos  também  se confundem  com  o  cotidiano  de  mulheres  letradas,  especialmente  estrangeiras,  que  eram majoritárias no desempenho de tais ocupações.  2. A preceptoria como uma ocupação feminina  As  características  da  educação  doméstica  praticada  pelas  elites  e  constatadas  em inúmeras  fontes,  autorizam  a  afirmação  de  que  era  comum  a  contratação  de  mulheres  como preceptoras.  Mais  do  que  isso,  a  atuação  de  mulheres  na  preceptoria  é  bastante  significativa, sendo  uma  das  poucas  ocupações  aceitas  e  admitidas  para  aquelas  que  não  tinham  quem provesse o seu sustento e precisavam de um trabalho fora de suas casas. Mesmo assim, apenas as mulheres que haviam recebido algum tipo de educação é que podiam candidatar­se a esses fazeres,  pois  eram  exigidos  inúmeros  conhecimentos pelos  pais  ávidos  de  educar  seus  filhos  à semelhança  da  nobreza  e  da  aristocracia.  Nesse  sentido,  abre­se  um  campo  de  atuação privilegiado  para  mulheres  estrangeiras  ou  brasileiras  que  acabavam  de  chegar  ou  voltar  da Europa,  pois  o  simples  fato  de  ser  estrangeira  ou  ter  vivido  na  Europa  parecia  ser  condição suficiente para se tornar preceptora, mais ainda, analisando­se os critérios estabelecidos para a oferta dos  serviços, constata­se  ser um diferencial de qualidade ter uma preceptora estrangeira ou  fluente  nos  idiomas  mais  apreciados  na  sociedade  oitocentista.  Há  registros,  portanto,  de muitas  mulheres  estrangeiras,  cujo  sustento  no  Brasil  provinha  unicamente  da  ocupação  como preceptoras.  Quanto  à  nacionalidade  das  preceptoras,  parece  não  ser  importante  informar  o  país  de origem,  pois  a  condição  de  estrangeiras  já  era  suficiente,  localizando­se  diversos  anúncios  do  4 tipo  “uma  senhora  estrangeira,  com  habilitações  dispondo  ainda  de  algumas  horas”  ,  “uma  5 senhora  estrangeira  recentemente  chegada  da  Europa”  ,  “uma  senhora  estrangeira  com  muita  6 prática  para  ensinar”  .  Ainda  assim,  entre  as  candidatas  que  se  oferecem  como  preceptoras, registram­se, no período analisado, alemãs, francesas e suíças.  Ao contrário da nacionalidade que não era totalmente explícita, é muito observada nessa época  a  conduta  moral  das  preceptoras,  provavelmente  por  se  tratar  de  uma  das  poucas profissões  aceita  para  mulheres  e  por  colocá­las  em  contato  íntimo  com  a  família  contratante. Dessa forma, são solicitadas informações relativas à condição moral e social da pretendente ao cargo  de  preceptora  como  que  “dê  abono  de  sua  capacidade  moral”  ou  “exige­se  as  melhores recomendações”.  As  preceptoras  intitulavam­se  professoras  e  algumas,  já  nas  últimas  décadas  do oitocentos,  ao  oferecerem  seus  préstimos  pelos  jornais,  apresentam  as  suas  habilitações  que vão  desde  uma  “professora  aprovada  pelo  conselho  de  instrução  pública  e  pela  academia  de  7  8 Belas­Artes”  ,  “professora  aprovada  pela  instrução  pública  e  pelo  conservatório  de  música”  ,  e  4  Cf. Jornal do Comércio, 04/01/1869, p. 2.  5  Cf. Jornal do Comércio, 06/01/1869, p. 3.  6  Cf. Jornal do Comércio, 06/01/1869, p. 2.  7  Cf. Jornal do Comércio, 01/01/1879, p. 6.  8  Cf. Jornal do Comércio, 03/01/1879, p. 6. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  21. 21. Maria Celi Chaves Vasconcelos  21  Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  9 “com carta da instrução publica para lecionar”  , até “um com longa prática de ensino, tendo feito  10 seus estudos em Paris”  .  Apesar da recorrente nomenclatura de professoras, a maioria não informa como ou onde esse  título foi  conseguido,  parecendo  que  o  mesmo  é  atribuído  a  todas  aquelas  que  atuam  na educação de crianças e jovens.  Outro diferencial para a contratação de preceptoras era a posição social e a fortuna que possuíam os patrões para os quais já houvessem trabalhado. Portanto, era contada como uma excelente  referência  “uma  professora  com  diploma  para  ensinar  e  de  habilidade,  ensina  o francês, inglês, português, piano e outras matérias de educação, a mesma durante alguns anos  11 esteve  como  professora  em  casa  de  uma  respeitável  família  brasileira”  ,  ou  ainda,  “uma professora aprovada pelo conselho de instrução pública, tendo lecionado nos primeiros colégios  12 e  casas  de  família  importantes,  tendo  horas  vagas  aceita  discípulas”  ,  e  “uma  professora estrangeira,  que  educou  por  espaço  de  quatro  anos  as  filhas  de  uma  família  distinta,  que  se retirou  para  a  Europa,  deseja  ser  empregada  como  governante  em  uma  casa  de  família  de  13 tratamento nesta corte ou no interior”  .  O tempo na função de preceptora também parece ter sido mais um atrativo para os que buscavam  esses  serviços,  pois,  sucedem­se  anúncios  que  informam  a  idade  das  pretendentes ao  cargo  de  professoras  particulares  ou  preceptoras  das  famílias,  demonstrando  que,  quanto maior a idade, mais adequadas estavam as candidatas ao exercício dessas funções, levando­se em conta, que a faixa etária a partir dos 30 anos já era vista como de “meia­idade”. Oferecem­se, nessa perspectiva, “uma senhora que leciona, há muito tempo”, “com muita prática do ensino”,  14 “ocupação que a mesma senhora exerce desde muitos anos”  .  A preferência por mulheres estrangeiras também estava relacionada a questões étnicas e, portanto, nem todas as candidatas que se ofereciam para tal cargo poderiam ser consideradas aptas a educar os filhos das famílias abastadas, como pode ser observado em dois anúncios que estabelecem como predicados às candidatas ao lugar de preceptoras o fato de serem brancas:  15 “qualquer Sr. viúvo com filhos, que precisar de uma Sra. Branca viúva, muito capaz”  e “quem precisar  de  uma  Sra.  Branca,  para  ensinar  algumas  meninas  a  ler,  escrever,  contar,  coser,  16 bordar,  marcar,  e  cortar,  ou  mesmo  para  tomar  conta  de  alguma  casa  de  pouca  família”  . Chama atenção ainda, em outro anúncio do período, ser solicitada uma “senhora inglesa” para “tomar  conta  e  passear  com  uma  criança  de  um  ano”,  tarefas  essas  que  normalmente  eram  17 referidas na compra e venda de negras escravas  .  9  Cf. Jornal do Comércio, 09/01/1879, p. 4.  10  Cf. Jornal do Comércio, 03/01/1879, p. 7.  11  Cf. Jornal do Comércio, 06/01/1869, p. 3.  12  Cf. Jornal do Comércio, 14/01/1879, p. 6.  13  Cf. A instrucção publica, 27/08/1887, n. 3, p. 8.  14  Cf. Jornal do Comércio, 04/01/1869, p. 3.  15  Cf. Jornal do Comércio, 22/01/1839, p. 4.  16  Cf. Jornal do Comércio, 14/01/1839, p. 4.  17  Cf. Jornal do Comércio, 10/01/1839, p. 4. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 
  22. 22. 22  Vozes femininas do oitocentos – o papel das preceptoras nas casas brasileiras Mesa coordenada: Educação, género e história  Coordenada por: Lia Faria  A partir do final da primeira metade do século XIX, vão progressivamente multiplicando­se os  anúncios  de  educação  doméstica  e,  conseqüentemente,  tornando­se  essa  prática  mais acessível  não  apenas  às  elites  que  dela  já  faziam  uso,  mas  às  classes  intermediárias  que também podiam dispor desses serviços. No entanto, a educação doméstica parece ter sido uma prática  imprescindível  à  elite.  Nesse  período,  considerava­se  um  diferencial  social  a  educação passar  pela  Casa.  Dessa  forma,  mesmo  aqueles  cujos  filhos  freqüentavam  algum  colégio,  ou aqueles que os educavam eles próprios, em determinado momento necessitavam dos serviços de uma preceptora. É o que atesta o anúncio de 25 de janeiro de 1849, no qual é solicitada “uma senhora estrangeira, capaz, em estado de ensinar inglês, francês, piano, canto e desenho, para  18 concluir a educação de uma menina em uma das fazendas desta província”  .  Empregando­se  para  “educar”  meninas  e  meninos,  dominando  os  diversificados conhecimentos exigidos para tal e ocupando um cargo ambicionado por estrangeiros que vinham para  o  Brasil,  as  preceptoras  não  poderiam  ser  desprovidas  de  um  lugar  representado  como privilegiado  nas  estruturas  sociais  existentes.  Entretanto,  havia  um  limiar  muito  tênue  entre  o respeito e reconhecimento à sua posição social e à condição de empregadas das elites, tratadas como  tal.  Nesse  sentido,  podem  ser  observadas  preocupações  por  parte  das  preceptoras, levando­as  a  certificar­se  do  lugar  que  ocupariam  na  casa  e  do  tratamento  que  receberiam  de seus  senhores.  É  o  que  se  observa  no  seguinte  anúncio:  “uma  professora  viúva,  de  exemplar conduta,  deseja  ir  para  algum  colégio  ou  fazenda  perto  da  corte,  ou  para  casa  de  algum brasileiro viúvo de probidade, pouca família e de algum tratamento, como governante: só exige  19 ser tratada com distinção.”  E ainda, na solicitação registrada: “precisa­se para uma fazenda do município de Parahyba do Sul, de uma senhora habilitada a ensinar meninas, que saiba piano e  20 canto e todos os trabalhos de agulha e afiança­se o bom tratamento”  .  Em  relação  aos  conhecimentos  ensinados  pelas  preceptoras,  os  mesmos  deveriam atender  aos  desejos  da  família  que  as  contratava,  o que  fazia  com  que  as  candidatas  a  essas funções devessem possuir um leque variado de conhecimentos e habilidades, a fim de satisfazer as  aspirações  de  educação  das  elites.  Eram  os  pais  que  escolhiam,  entre  as  matérias consideradas  de  educação,  aquelas  mais  adequadas  aos  seus  interesses  para  que  fossem ministradas  aos  seus  filhos.  Dessa  forma,  em  todos  os  anúncios  observados  ao  longo  das décadas  do  oitocentos,  apenas  em  alguns  casos  há  coincidência  de  matérias  lecionadas  pelas preceptoras,  pois  as  combinações  são  as  mais  diversas  e  relativas  às  habilidades  de  quem  as ensinava.  Excetuando­se  o  português  e  o  francês,  que  quase  sempre  estavam  presentes  nas lições  oferecidas,  os  demais  conhecimentos  ensinados  variavam  entre  as  áreas  consideradas como  importantes  à  formação  de  meninos  e  meninas,  resguardadas,  sem  dúvida,  as especificidades de cada gênero.  São  oferecidos  indistintamente  para  a  educação  doméstica,  nas  mais  diversas combinações,  desde  1839  até  1889,  além  de  “primeiras  letras”  e  “instrução  primária”,  – caracterizadas  como  o  ensino  da  escrita,  leitura  e  contas  –,  ensinamentos  de  português  e francês  prioritariamente,  seguidos  de  latim,  inglês,  alemão,  italiano,  espanhol,  caligrafia, literatura,  composição,  religião,  música,  piano,  solfejo,  canto,  rabeca,  gramática  portuguesa, latina,  francesa  e  inglesa,  lógica,  matemática,  geometria,  aritmética,  álgebra,  contabilidade, escrituração mercantil, física, botânica, história universal, história do Brasil, geografia, desenho, pintura e aquarela.  18  Cf. Jornal do Comércio, 25/01/1849, p. 4 – grifo meu.  19  Cf. Jornal do Comércio, 03/01/1869, p. 3.  20  Cf. Jornal do Comércio, 14/01/1869, p. 3. VII Congresso LUSO­BRASILEIRO de História da Educação 

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