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História da Filosofia

História da Filosofia

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  • 1. G . Reale - D. Antiseri HISTORIADA FILOSOFIA 3 Do Humanism0 a Descartes
  • 2. Dados lnternacionais de Catalogagto na Publica@o (CIP) (CBmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Reale, GiovanniHistoria da filosofia: do humanism0 a Descartes, v. 3 1Giovanni Reale, Dario Antiseri; - [tradupBo Ivo Storn~olo]. SBo Paulo: Paulus, 2004. Titulo original: Storia della filosofia Bibliografia. ISBN 85-349-2102-41. Filosofia- Historia I. Antiseri, Dario. II. Titulo. Ill. Titulo: Do Humanismoa Descartes. indices para catAlogo sistematico: 1. Filosofia: Historia 109 Titulo original Sfofla de//a fi/osofia - Vo/ume //. Da/lUmanes~mo Kanf a O Editrice LA SCUOLA, Brescia, Italia, 1997 ISBN 88-350-9271-X Revislo Zo/ferho Tonon IrnpressSo e acabamento PAULUS 0 PAULUS - 2004 Rua Francisco Cruz, 229.04117-091 SSo Paulo (Brasil) . . Fax (11) 5579-3627 Tel. (11) 5084-3066 www.paulus.com.br editorial@paulus.com.br ISBN 85-349-2102-4
  • 3. Existem teorias, argumentacdes edisputas filosoficas pelo fato de existirem pro- A historia da filosofia e a historiablemas filosof icos. Assim como na pesquisa dos problemas filosoficos, das teorias fi-cientifica ideias e teorias cientificas sdo res- losoficas e das argumentaq5es filosofi-postas a problemas cientificos, da mesma cas. E a historia das disputas entre filo-forma, analogicamente, na pesquisa filoso- sofos e dos erros dos filosofos. E semprefica as teorias filosoficas sdo tentativas de a historia de novas tentativas de versarsolucdo dos problemas filosoficos. sobre questdes inevitaveis, na esperanca 0s problemas filosoficos, portanto, de conhecer sempre melhor a nos mes-existem, sdo inevitaveis e irreprimiveis; en- mos e de encontrar orientacdes paravolvem cada homem particular que ndo nossa vida e motivagdes menos frageisrenuncie a pensar: A maioria desses pro- para nossas escolhas.blemas ndo deixa em paz: Deus existe, ou A historia da filosofia ocidental e aexistiriamos apenas nos, perdidos neste historia das ideias que in-formaram, ouimenso universo? 0 mundo e um cosmo seja, que deram forma a historia do Oci-ou um caos? A historia humana tem senti- dente. E um patrimdnio para ndo ser dis-do? E se tem, qual e? Ou, entdo, tudo - a sipado, uma riqueza que ndo se devegloria e a miseria, as grandes conquistas e perder: E exatamente para tal fim os pro-os sofrimentos inocentes, vitimas e car- blemas, as teorias, as argumentacdes enifices - tudo acabara no absurdo, despro- as disputas filosoficas sao analiticamentevido de qualquer sentido? E o homem: e explicados, expostos com a maior clarezalivre e responsavel ou e um simples frag- possivel.men to insignificante do universo, determi- ***nado em suas acdes por rigidas leis natu-rais? A ciencia pode nos dar certezas? 0 Uma explicacdo que pretenda ser cla-que e a verdade? Quais sdo as relacdes ra e detalhada, a mais compreensivel naentre razdo cientifica e fe religiosa? Quan- medida do possivel, e que ao mesmo tem-do podemos dizer que um Estado e demo- po ofere~a explica~des exaustivas compor-cratic~? quais sdo os fundamentos da de- E ta, todavia, um "efeito perverso", pelo fatomocracia? E possivel obter umajustificaqdo de que pode ndo raramente constituir umracional dos valores mais elevados? E quan- obstaculo a "memoriza~do"do complexodo e que somos racionais? pensamento dos filosofos. Eis, portanto, alguns dos problemas Esta e a razdo pela qual os autores filosoficos de fundo, que dizem respeito pensaram, seguindo o paradigma classi-as escolhas e ao destino de todo homem, co do Ueberweg, antepor a exposicdo e com os quais se aventuraram as men- analitica dos problemas e das ideias dos tes mais elevadas da humanidade, dei- diferentes filosofos uma sintese de taisxando-nos como heranca um verdadeiro problemas e ideias, concebida como ins-patrimdnio de ideias, que constitui a iden- trument~didatico e auxiliar para a me- tidade e a grande riqueza do Ocidente. moriza~ao.
  • 4. Afirmou-se com justeza que, em linha Ao executar este complexo traqado,geral, um grande filosofo e o g&io de uma os autores se inspiraram em c;inones psico-grande ideia: Platdo e o mundo das ideias, pedagogicos precisos, a fim de agilizar aAristoteles e o conceit0 de Ser, Plotino e a memorizaqao das ideias filosoficas, que sioconcep@o do Uno, Agostinho e a "tercei- as mais dificeis de assimilar: seguiram ora navegaqiolsobre o lenho da cruz, Des- metodo da repetiqao de alguns conceitos-cartes e o "cogito", Leibniz e as "mbnadas", chave, assim como em circulos cada vezKant e o transcendental, Hegel e a dialetica, mais amplos, que vaojustamente da sinte-Marx e a alienaqio do trabalho, Kierke- se a analise e aos textos. Tais repeti@es,gaard e o "singular", Bergson e a "dura- repetidas e amplificadas de mod0 oportu-@o", Wittgenstein e os "jogos de lingua- no, ajudam, de mod0 extremamente efi-gem", Popper e a "falsificabilidade" das caz, a fixar na atenqdo e na memoria osteorias cientificas, e assim por diante. nexos fundantes e as estruturas que sus- Pois bem, os dois autores desta obra tentam o pensamento ocidental.propdem um lexico filosofico, um diciona-rio dos conceitos fundamentais dos diver- Buscou-se tambem oferecer aojovem,sos filosofos, apresentados de maneira di- atualmente educado para o pensamentodatica totalmente nova. Se as sinteses visual, tabelas que representam sinotica-iniciais s i o o instrumento didatico da me- mente mapas conceituais.moriza~ao,o lexico foi idealizado e cons- Alem disso, julgou-se oportuno enri-truido como instrumento da conceitual iza- quecer o texto com vasta e seleta serie de@o; e, juntos, uma especie de chave que imagens, que apresentam, alem do rostopermita entrar nos escritos dos filosofos e dos fildsofos, textos e momentos tipicos dadeles apresentar interpretaqdes que encon- discussdo filosofica.trem pontos de apoio mais solidos nos pro-prios textos. Apresentamos, portanto, um texto ci- entifica e didaticamente construido, com Sinteses, analises, lexico ligam-se, a intenqdo de oferecer instrumentos ade-portanto, a ampla e meditada escolha dos quados para introduzir nossos jovens atextos, pois os dois autores da presente olhar para a historia dos problemas e dasobra estio profundamente convencidos ideias filosoficas como para a historia gran-do fato de que a compreensdo de um fi- de, fascinante e dificil dos esfor~osintelec-Iosofo se alcanqa de mod0 adequado nao tuais que os mais elevados intelectos doso recebendo aquilo que o autor diz, mas Ocidente nos deixaram como dom, maslanqando sondas intelectuais tambem nos tambem como empenho.modos e nos iarqdes especificos dos tex-tos filosofico~.- GIOVANNI - DARIO REALE ANTISERI
  • 5. [ndice de nomes, XV 111.0s "profetas" e os "magos"Indice de conceitos fundamentais, XIX orientais e pag5os: Hermes Trismegisto,Primeira parte Zoroastro e Orfeu 14 1.0conhecimento hist6rico-critic0 diferen-0 HUMANISM0 te que os humanistas tiveram da tradigiio latina em relagiio 2 grega, 14; 2. HermesE A RENASCENCA Trismegisto e o "Corpus Hermeticum", 15; 2.1. Hermes e o "Corpus Hermeticum" na realidade histbrica, 15; 2.2. Hermes e oCapitulo primeiro "Corpus Hermeticum" na interpretagiio da0 pensamento humanista- Renascenga, 16; 3. 0 "Zoroastro" da Re-renascentista nascenga, 16; 4. 0 Orfeu renascentista, 17.e suas caracteristicas gerais 3 P. 0.Kristeller: 1.Nega@o do sig- ~$~do~filosdfico Humanismo, 18; E. doI. O significado Garin: 2. Reivindica@o da valdncia "filo- historiogriifico sofico-pragmhtica " do Humanismo, 18; J. do termo "Humanismo" 3 Burckhardt: 3 . 0 individualismo como mar- co original da Renascen~a, K. Burdach: 19;1. 0 Humanismo e a valorizagiio das "litte- 4. As rakes da Renascen~a afundam na Ida-rae humanae", 3; 2. As duas mais signifi- de Mkdia, 20.cativas interpretagoes contemporheas doHumanismo, 6; 2.1. A interpretagiio deKristeller, 6; 2.2. A interpretasgo de Garin, 7; Capitulo segundo3. Possivel mediaggo sintCtica das duas in- 0 s debates sobre vroblemas moraisterpretag6es opostas, 7.II. Conceito historiogriifico, I. 0 s inicios do Humanism0 21 cronologia e caracteristicas da "Renascenqa" 9 1. Francisco Petrarca, 21; 2. Coluccio Salu- tati, 22.1. A interpretagiio oitocentista da "Renas-cenga" como surgimento de novo espiri- 11. 0 s debates sobre temas Ctico-to e de nova cultura que valorizam o mun- politicos em L. Bruni,do antigo em oposigiio 2 Idade MCdia, 10; P. Bracciolini, L. B. Alberti - 2 32. A nova interpretagiio da "Renascenga"como "renovation e a "volta aos antigos" 1.Leonardo Bruni, 23; 2. Poggio Bracciolini,como "volta aos principios", 11; 3. Re- 24; 3. Leon Battista Alberti, 24; 4. Outrosflexoes conclusivas sobre o conceit0 de humanistas do Quatrocentos, 25."Renascenga", 11; 4. Cronologia e temasd o Humanismo e da Renascenga, 12; 111. Lourenqo Valla 265. Relagoes entre Renascenga e Idade MC- 1. 0 Neo-epicurismo de Valla, 26; 2. A su-dia, 12. peragiio de Epicuro, 26; 3. A filologia de
  • 6. VIII Yndice geralValla: a "palavra" como suporte da verda- - T~xros Nicolau de Cusa: 1.0conceito dede, 27. "douta ignorLincia ",46; 2. A "coincidtncia -T~xros F. Petrarca: 1. Verdadeira sabedo- dos opostos" em Deus, 47; 3. 0 principioria, 28; L. Valla: 2. A defesa da prdpria in- "tudo esta em tudo" e seu significado, 49;t e r p r e t ~ @ ~ ccvoluptas",29. da 4. 0 maximo absoluto e a natureza do ho- mem como microcosmo, 51; M. Ficino: 5. A c o n c e p ~ i oda alma como "copulaCapitulo terceiro mundi", 52; Pico della Mirandola: 6. A dig- nidade do homem, 53.0 Neoplatonismo renascentista- 31I. Acenos sobre Capitulo quarto a tradigio plat6nica em geral 0 Aristotelismo renascentista e sobre os doutos bizantinos e a revivesc2ncia do Ceticismo- 55 do stc. XV 311. Reviveschcia do platonismo, 3 1. I. 0 s problemas da tradigio aristottlica11. Nicolau de Cusa: na era do Humanism- 55 a "douta ignorhcia" 1. As tr2s interpretagdes tradicionais de em relagio ao infinito 33 Aristoteles, 55; 2. As temiticas aristotklicas1. A vida, as obras e o delineamento cultu- tratadas na Renascenga, 56; 3. A complexaral de Nicolau de Cusa, 34; 2. A "douta ig- questiio da "dupla verdade", 56; 4. Valincianori?ncia", 34; 2.1. A busca por aproxima- do Aristotelismo renascentista, 57.giio, 34; 2.2. A "coincidCncia dos opostos"no infinito, 35; 2.3.0s t r k graus do conhe- 11. Pedro Pomponazzi 58cimento, 35; 3. A relagio entre Deus e o uni- 1. 0 debate sobre a imortalidade da alma,verso, 36; 4. 0 significado do principio 58; 2. A natureza da alma e a virtude hu-"tudo esti em tudo", 36; 5. A proclamaqiio mana, 59; 3. 0 "principio da naturalida-do homem como "microcosmo", 36. den, 59; 4 . 0 privilkgio que deve ser dado i experitncia, 80.111. Marsilio Ficino e a Academia plat6nica 111. Renascimento florentina 38 de uma forma moderada1. A posigio de Ficino no pensamento de Ceticismo 61renascentista e as caracteristicas de sua obra, 1.Reviveschcias das filosofias helenisticas na38; 2. Ficino como tradutor, 39; 3 . 0 s pon- Renascenga, 61; 2. Michel de Montaigne e otos fundamentais do pensamento filosofico ceticismo como fundamento de sabedoria, 61.de Ficino, 39; 4. A filosofia como "revela-gio" divina, 40; 5. A estrutura hierirquica TEXTO~ Pomponazzi: 1. A quest20 da - P.do real e a alma como "copula mundi", 40; imortalidade da a h a , 63; M. de Montaigne:6. A teoria do "amor plathico" e sua difu- 2. Filosofar e aprender a mower, 65.sio, 40; 7. A doutrina migica de Ficino esua importihcia, 4 1. Capitulo quintoIV. Pico della Mirandola A Renascenga e a Religiiio- 67 entre platonismo, aristotelismo, I. Erasmo de Rotterdam cabala e religiio 42 e a "philosophia C h r i s t i " 671. 0 pensamento de Pico, 42; 2. Pico e a 1. A posigio, a vida e a obra de Erasmo, 67;cabala, 42; 3. Pico e a doutrina da dignida- 2. Concepqiiohumanista da filosofia cristii, 68;de do homem, 44. 3 . 0 conceito erasmiano de "loucura", 69.V. Francisco Patrizi 45 11. Martinho Lutero 701.Patrizi: exemplo da continuidade da men- 1. Lutero e suas relagdes com a filosofia,talidade hermktica, 45. 70; 2. As relagdes de Lutero com o pensa-
  • 7. mento renascentista, 71; 3. 0 s pontos basi- IV. Jean Bodincos da teologia de Lutero, 72; 3.1. 0 ho- e a soberania absolutamem se justifica apenas pela fC e sem as do Estado 99obras, 72; 3.2. A "Escritura" como a fontede verdade, 73; 3.3. 0 livre exame da "Es- 1.A idCia de "soberania" do Estado no pen-critura", 74; 4. ConotaqGes pessimistas e samento de Bodin, 99.irracionalistas do pensamento de Lutero, 74. V. Hugo Grotius111. Ulrich Zwinglio, e a funda~io o reformador de Zurique- 76 do jusnaturalismo 1001. A posiqiio doutrinal de Zwinglio, 76. 1.Grotius e a teoria do direito natural, 100.IV. Calvino - TEXTOS N. Maquiavel: 1. A necessidade e a reforma de G e n e b r a 77 de "ir diretamente a verdade efetiva da coi- sa", 101; 2. A sorte e arbitra da metade de1. 0 s pontos fundamentais da teoria de nossas ap5es, 101.Calvino, 77.V. Outros teologos da Reforma Capitulo setimo e figuras ligadas VQtices e resultados conclusivos ao movimento p r o t e s t a n t e 79 do pensamento renascentista:1. IntCrpretes importantes do movimento Leonardo, TelCsio,protestante, 79. Bruno e Campanella 103VI. Contra-reforma I. Natureza, citncia e arte e Reforma catolica 80 em Leonardo 1031. 0 s conceitos historiograficos de "Con- 1. Vida e obras, 103; A ordem mecanicistatra-reforma" e de "Reforma catolica", 80; da natureza, 104; 3. "Cogitagiio mental" e2. 0 Concilio de Trento, 81; 3. 0 relanqa- "experihcia", 105.mento da Escolastica, 83. -TEXTOS Erasmo: 1. Erasmo: o elogio da 11. Bernardino Telksio:loucura, 84; M. Lutero: 2. 0 primado da fe a investigasgo da naturezaem Cristo sobre as obras, 8 8; 3. Sobre o ser- segundo . ,.vo-arbitrio do homem, 89; J. Calvino: 4. Deus seus proprios principios- 106predestinou alguns homens a salva@o, ou-tros a dana@o, 90. 1. Vida e obras, 106; 2. A novidade da fisi- ca telesiana, 107; 3. 0 s principios proprios da natureza, 108; 4. 0 homem como reali-Capitulo sexto dade natural, 109; 5. A moral natural, 109;A Renascenqa e a Politica 93 6. A transcendcncia divina e a alma como ente supra-sensivel, 110.I. Nicolau Maquiavel 93 111. Giordano Bruno:1. A posiqiio de Maquiavel, 93; 2. 0 realis- universo infinitomo de Maquiavel, 94; 3. A "virtude" do e "heroic0 furor" .. 111principe, 94; 4. Liberdade e "sorte", 94;5. 0 "retorno aos principios", 95; 1. Vida e obras, 112; 2. A caracteristica de fundo do pensamento de Bruno, 113;11. Guicciardini e Botero 96 3. Arte da memoria (mnemottcnica)e ar-1. A natureza do homem, a sorte e a vida te magico-hermitica, 114; 4. 0 universopolitica em Guicciardini e Botero, 96. de Bruno e seu significado, 114; 5. A in- finitude do Todo e o significado impress0111. Tomis Morus 97 por Bruno a revolugiio copernicana, 115; 6. 0 s "heroicos furores", 116; 7. Conclu-1.Imagem emblemitica e conceit0 de "Uto- sGes, 117.pia", 97; 2. 0 s principios morais e sociaisem que se inspiram os habitantes de Uto- MAPA CONCEITUAL - A deriva@o do univer-pia, 98. so de Deus e o "herdico furor", 118.
  • 8. IV. Tomas Campanella: pritica, 147; 4. 0 s instrumentos cientifi- naturalismo, magia e anseio cos como parte integrante do saber cienti- fico, 148. de reforma universal 1191. A vida e as obras, 120; 2. A natureza e osignificado do conhecimento filosofico e o Capitulo nonorepensamento do sensismo telesiano, 121; A revoluqiio cientifica3. A autoconscihcia, 122; 4. A metafisica e a tradiqiio magico-hermktica--- 151campanelliana: as tres "primalidades" doser, 123; 5 . 0 pan-psiquismo e a magia, 123; I. Presenqa e rejeiqiio da tradiqiio6. A "Cidade do Sol", 124; 7. Conclus6es, migico-hermetica - 151124.MAPA CONCEITUAL. - 0 s fundamentos da 1. Resultados do pensamento magico-her-metafisica, 126. mitico sobre a ciincia moderna, 152; 2. A uniao estreita entre astrologia, magia e ci&n-T E X T- Leonardo da Vinci: 1. As caracte- ~S cia moderna, 153; 3. Caracteristicas da as-risticas da ciZncia, 127; B. Telisio: 2. A na- trologia, 154; 4. Fisiognomonia, quiroman-tureza deue ser explicada segundo seus cia e metoposcopia, 154; 5. Caracteristicasprincipios, 129; G. Bruno: 3. Unidade e infi- da magia, 155.nitude do uniuerso, 130; 4 . 0 mito de Action,132; T. Campanella: 5. A doutrina do co- 11. Reuchlinnhecimento, 133; 6. A estrutura metafisica e a tradiqio cabalistica.da realidade, 135. Agripa: "magia branca" e "magia negra" 156Segunda parte 1. Reuchlin e a cabala, 156; 2. Agripa e a magia, 156. 111.0 programa iatroquimico de Paracelso 158 1. Paracelso: da magia a medicina natural,Capitulo oitavo 158.Origens e traqos gerais IV. TrGs "magos" italianos:da revoluqiio cientifica 139 Fracastoro, CardanoI. A revoluqio cientifica: e Della Porta- 160 o que muda com ela 139 1.Jer6nimo Fracastoro, fundador da epide-1. Como a imagem do universo muda, 141; miologia, 161; 2. Jer6nimo Cardano, um2. A terra niio i mais o centro do universo: mago que foi midico e matematico, 162;consequincias filosoficas desta "descober- 3. Giambattista Della Porta, entre 6tica etan, 143; 3. A ciEncia torna-se saber experi- magia, 163.mental, 143; 4. A autonomia da ciincia emrelaqiio a f6, 144; 5. A cisncia niio i saberde essincias, 144; 6. Pressupostos filos6- Capitulo dicimoficos da cihcia moderna, 144; 7. Magia e De CopCrnico a Kepler - 165cicncia moderna, 145. I. Nicolau Copernico11. A formaqiio e o novo paradigma de novo tip0 de saber, da teoria helioctntrica 165 que requer a uniio de ciEncia 1. 0 significado filosofico da "revoluqao e tecnica 146 copernicana", 166; 2. A interpretaqso ins-1. A revoluqiio cientifica cria o cientista ex- trumentalista da obra de CopCrnico, 167;perimental moderno, 146; 2. A revoluqso 3 . 0 realism0 e o Neoplatonismo de Copir-cientifica: fusao da ticnica com o saber, nico, 168; 4. A situaqiio problematica da146; 3. A cicncia moderna reune teoria e astronomia pri-copernicana, 169; 5. A teo-
  • 9. ria de CopCrnico, 170; 6. CopCrnico e a IV. Galileu:tens50 essencial entre tradi@o e revolul50, as rakes do choque171. com a Igreja11. Tycho Brahe: e a critica nem "a velha do instrumentalismo distribuigiio ptolemaica" de Belarmino 199 nem "a moderna 1. A origem dos dissidios entre Galileu e a inovagiio introduzida Igreja, 199; 2. As relaq6es entre Galileu e pel0 grande Copernico" 173 Belarmino, 200.1. Uma restaural50 contendo os germes V. A incomensurabilidadeda revoluq50, 173; 2 . 0 sistema tych8nic0, entre ciihcia e f i 202174. 1. A Sagrada Escritura n5o se refere a estru-111.Johannes Kepler: tura do cosmo, 202; 2. Autonomia da citn- a passagem do "circulo" cia em rela@o i s Escrituras, 202; 3. As Escri- turas se referem ? nossa salvaq50, 203. i para a "elipse" e a sistematizac;5o matemitica VI. 0 primeiro processo 205 do sistema copernicano - 176 1. Primeira advertincia a Galileu para n5o1. Kepler: vida e obras, 177; 1.1.Kepler, ma- sustentar a teoria copernicana, 205.temhtico imperial em Praga, 178; 1.2. Keplerem Linz: as "Tabuas rodolfinas" e a "Har- VII. A derrocada da cosmologiamonia do mundo", 179; 2. 0 "Mysterium aristotdicacosmographicum": em busca da divina or- e o segundo process0 206dem matematica dos &us, 180; 3. Do "cir- 1.Uma s6 fisica basta para o mundo celesteculo" a "elipse". As "tris leis de Kepler", e o terrestre, 206; 2. 0 principio de relativi-181; 4. 0 sol como causa dos movimentos dade galileano, 207; 3. 0 segundo proces-planetarios, 183. so: a condena@o e a abjuraqio, 208.T~y,ros- N. CopCrnico: 1. A novidade daconcep@o copernicana, 185; T. Brahe: 2. VIII. A ultima grande obra:Entre tradi@o e inova@o, 187. 0s Discursos e demonstra@es matematicas e m tornoCapitulo dkcimo primeiro de duas novas ci2ncias 2090 drama de Galileu 1.Estrutura da matiria e estitica, 209; 2. Ae a fundaqiio celebre experihcia do plano inclinado, 210.da cihcia moderna 189 1X.A imagem galileanaI. Galileu Galilei: da cihcia 212 a vida e as obras 192 1. A ciincia nos diz "como vai o cCu" e a fC1. As etapas mais importantes na vida de "como se vai ao cCu", 212; 2. Contra oGalileu, 192. autoritarismo filosofico, 212; 3. A atitude jus- ta em rela@o 2 tradiqao, 212; 4. A ciincia11. Galileu e a "fen na luneta- 195 nos diz verdadeiramente como C feito o mun-1. A luneta como instrumento cientifico, do, 21% 5. A citncia C objetiva, porque des-195. creve as qualidades mensuraveis dos corpos, 213; 6 . 0 pressuposto neoplat8nico da ciin-111. 0 Sidereus Nuncius cia galileana, 214; 7. A citncia n5o busca as e as confirmag6es essincias, e todavia o homem possui alguns conhecimentos definitivos e n5o revisiveis, do sistema copernicano 197 215; 8 . 0 universo deterministic0 de Galileu1.0universo torna-se maior, 197; 2 . 0 cho- ngo C mais o universo antropocintrico deque entre os maximos sistemas do mundo, Aristoteles, 215; 9. Contra o vazio e a insen-197. satez de algumas teorias tradicionais, 216.
  • 10. J n d i c e geralX. A quest50 do mktodo: 1. A importincia da fisica newtoniana na <c experiencias sensatas" historia da cicncia, 241. elou "demonstraq6es VIII. A descoberta do cilculo necessarias" ? 217 infinitesimal1. A experihcia cientifica C o experimento, e a polemica com Leibniz - 242217; 2. A mente constr6i a experihcia cien-tifica, 218; 3. Um exemplo de como a ob- 1 . 0 s estudos matemiticos de Newton, 242;servaqio depende das teorias, 219. 2. Newton e o cilculo infinitesimal, 243; 3. A poltmica entre Newton e Leibniz, 244.TEXTOSG. Galilei: 1. 0 telescopio na re- - -volu@o astron&nica, 220; 2. CiBncia e f&, TEXTOSI. Newton: 1.As quatro regras do221; 3. Metodo e experiBncia, 225; 4. CiBn- metodo experimental, 245; 2. Deus e a or-cia e ticnica, 226; R. Belarmino: 5. A inter- dem do mundo, 246.pret~@~ instrumentalists do Copernicanis-mo, 227. Capitulo dkcimo terceiro As ciincias da vida,Capitulo dkcimo segundo as AcademiasSistema do mundo, e as Sociedades cientificas 249metodologiae filosofia na obra I. Desenvolvimentos das cienciasde Isaac Newton 229 da vida 249I. 0 significado filosofico 1. 0 avanqo da pesquisa anathmica, 250; 2. Harvey: a descoberta da circulaqio do san- da obra de Newton 232 gue e o mecanicismo biologico, 250; 3. Fran-1. A teoria metodologica de Newton, 232. cisco Redi contra a teoria da geraqio espon- tinea, 251.11. A vida e as obras 2331. Como Newton soube ler a queda de uma 11. As Academiasma@, 233; 2. A polCmica com Hooke, 234. e as Sociedades cientificas- 253111. As "regras do filosofar" 1. A Academia dos Linceus, 254; 2. A Aca- demia do Cimento, 254; 3. A "Royal Socie- e a "ontologia" ty" de Londres, 256; 4. A Academia Real que elas pressupoem 236 das CiCncias na Franqa, 257.1.TrCs regras metodologicas, 236; 2. A teo- - TEXTOS F. Redi: 1. Contra a teoria da ge-ria corpuscular, 236; 3. A gravitaqiio uni- rag20 esponthzea, 258.versal, 237.IV. A ordem do mundo e a existencia de Deus 238 Terceira Parte1. 0 sistema do mundo C uma grande mi-quina, 238. BACON E DESCARTESV. 0 significado da senten~a metodologica: Capitulo dkcimo quarto "hypotheses non fingo" 23 8 Francis Bacon:1. 0 mitodo de Newton: formular hipote- filosofo da era industrial 263ses e provi-las, 238. I. Francis Bacon:VI. A grande maquina do mundo 239 a vida e o projeto cultura- 2631. As trCs leis do movimento, 239; 2. A leide gravitaqio universal, 240. 1. Bacon: o fil6sofo da era industrial, 263.VII. A mec5nica de Newton 11. 0 s escritos de Bacon como programa de pesquisa- 241 e seu significado 265
  • 11. 1.A filosofia baconiana expressa nas obras, 1. Criticas a filosofia e a logica tradicionais,265. 286; 2. Criticas ao saber matemitico, 287; 3. 0 problema geral do fundamento do sa-111. "AntecipaqGes da natureza" ber, 288. e "interpreta~Ges natureza" -267 da 111. As regras do mttodo 2881. 0 mCtodo por meio do qua1 se alcanqa overdadeiro saber, 267. 1. Conceitos e numero das regras do mito- do, 289; 2. A primeira regra do mitodo, 289;IV. A teoria dos "idola" 269 3. A segunda regra do mitodo, 289; 4. A1. Significado da teoria dos "idola", 269; terceira regra do mttodo, 290; 5. A quarta2 . 0 s "idola tribus", 269; 3 . 0 s "idola spe- regra do mttodo, 290; 6. As quatro regrascus", 270; 4. 0 s "idola fori", 270; 5. 0 s como modelo do saber, 290."idola theatri", 271. IV. A duvida metodicaV. 0 escopo da ciincia: e a certeza fundamental: a descoberta das "formas" 272 cogito, ergo sum" G< 29 11. Um ponto cardeal do pensamento de 1. A duvida como passagem obrigatoria,Bacon, 272; 2. 0 poder do homem esta em mas provisoria, para chegar a verdade,~roduzir um corpo novas naturezas, 272; em 291; 2. Absolutez veritativa da proposi-3. A citncia esti na descoberta das "formas", q5o "eu penso, logo existo", 292; 3. A pro-272; 4. A idiia baconiana de "forma", o posiqzo "eu penso, logo existo" n5o C um"processo latente" e o "esquematismo la- raciocinio dedutivo, mas uma intuiqiio,tente", 273. 292; 4. 0 eixo da filosofia n5o i mais a citncia do ser mas a doutrina do conheci-VI. A induqiio por eliminaqiio mento, 293; 5. 0 centro do novo saber C e o "experimentum crucis" - 274 o sujeito humano, 294; 6. A reta raz5o humana, 294.1. Critica induq5o aristotClica, 274; 2. Astrts "tabuas" sobre as quais se deve ba- V. A existinciasear a nova indug50, 275; 3. Como das e o papel de Deus 295trts tabuas se extrai a "primeira vindima",275; 4. A nova induqso como "via media- 1. 0 problema da relagio entre nossasna" entre as seguidas por empiristas e idiias, que s5o formas mentais, e a realida-racionalistas, 276; 5. 0 "experimentum de objetiva, 295; 2. "IdCias inatas", "idiiascrucis", 276. adventicias" e "idCias facticias", 296; 3. A idiia inata de Deus e sua objetividade,MAPA CONCEITUAI. -A interpreta@o da nu- 296; 4. Deus como garantia da funq5o ve-tureza, 278. ritativa de nossas faculdades cognosciti-TEXTOSF. Bacon: 1. A necessidade de - vas, 297; 5. As verdades eternas, 298; 6 . 0um novo metodo nus ciBncias e nus artes, err0 n5o depende de Deus, mas do homem,279; 2. As linhas gerais do novo metodo, 299.281. VI. 0 mundo t uma maquina 299 1. A idCia de extens50 e sua importinciaCapitulo d k i m o quinto essencial, 299; 2. Apenas a extensio C pro-Descartes: priedade essencial, 300; 3. A matiria (ex-"0 fundador tens5o) e o movimento como principiosda filosofia moderna" 283 constitutivos do mundo, 300; 4. 0 s prin- cipios fundamentais que regem o univer-I. A vida e as obras 283 so, 301; 5. Reduq5o de todos os organis- mos e do mundo inteiro a maquinas, 301.1. Um novo tip0 de saber centrado sobreo homem e sobre a racionalidade huma- VII. Alma ( "res cogitans" )na, 283. e corpo ("res extensa") -302II. A experiincia da derrocada 1. 0 contato entre "res cogitans" e "res ex- da cultura da tpoca 286 tensa" ocorre no homem, 302.
  • 12. VIII. As regras da moral CONCE~TUAL 0 "cogit0 ",306. MAPA - provisoria 3031. A primeira regra, 304; 2. A segunda re- TMTOS R. Descartes: 1.AS regras metodi- -gra, 304; 3. A terceira regra, 304; 4. A quarta cas, 307; 2. 0 cogit0 ergo sum", 309; 3. Aregra, 304; 5. A razz0 e 0 verdadeiro corn0 "terceira meditapio" em torno de Deus efundamento da moral, 304. de sua exist2ncia, 310.
  • 13. 3, es* BRUNELLESCHI F., 147 BRUNI 21,23-24, 31 L., G., BRUNO 41, 55, 57, 103, 111-Abetti G., 177, 179, 180 BACONF., 108, 139, 141, 145, 12, 118,120,130-133,143, 168,ACQUAPENDENTE, F. D, 249,250 151,153,163,239,253,257, 199,285Afonso I1 dEste, 45 261,263-278,279-282 Bullart I., 136Afonso X, rei de Leiio e Castela, 170 Bacon N., 263,264 BUONARROTI M., 5AGOSTINH~ IIF HIIONA, 16,22,68, BadouGre J., 189, 195 Buono, C. del, 255 91,122,135,202 Baliani J.B., 217 Buono, P. del, 255AGRIPA DE NFTTESHEIM C. (Heinrich BANFI 167 A., Burckhardt I., 9, 10, 19-20 Cornelius),161,156-158,163 BARBARO25,42E., Burdach K., 9,11,20ALBERTI 23,24-25, 147 L.B., Barone F., 166,167 B U R I D A172 , N~Alcibiades, 84 BarSnio C. card., 190,202 Butterfield H., 171ALEMBERT, LEROND 266 J.B. I), BARROW229, 233,242 I.,ALEXANDRE DE AFROD~SIA, 56,58,64 BAYIX 145, 151, 153 P.,Alexandre VI, 44 BEECKMAN I., 284Alexandre VII, 256 BELARMINO R., 144,165,168,190,AMBR~SIO, 68 200,201,205,208,227-228Ammannati G., 192 Bembo P., 38,41ANAXAG~RAS, 36,49 BENI 145 P.,ANSELMOAOSTA, DE 297 BERKELEY F., 243 CAIETANO (Tomas de Vio), 83ARIST~TELES, 8, 22, 23, 24, 3, 6, BERULI. DE, F P 284 CAIVINO(Jean Cauvin), 77-78, G. 25,29,31,45,47,56,57,60, BESSAIW>NE G., card., 32 83, 90-92, 144, 190, 200, 63, 64, 76, 83, 94, 107, 108, BIRINGUCCIO V., 147 250 109,110,115,124,137,143, Bocchineri G., 193 CAMPANEILA T., 9,55,57,103,119- 144,191,192, 197,199,207, J., BODIN 99, 200 126,133-136, 193, 199,285 210,212,213,215,216,217, BOHME 79,80 J., Carafa, 107 218,225,264,265,273 BOI.ZANO 244B., J., ~ C A R D A N160, 162-163, 265A R N A LDE ~ D BR~SCIA, 20 BORELLI 249,251,255 A., Carlos 11, 253,256AKNAULI) 285 A., J., BORELLI 255 Carlos V, 75A K N ~ B 68 , IO B6rgia C., 103 Carlos VIII, 161ARQUIMEDES, 148, 192 144, J., B ~ T E K O96 CASTELLI 148, 189, 193, 203, B.,Arrighetti N., 221, 222 R., BOYLE 145, 148, 153, 229, 205,221Asimov I., 250 232,239,252,254 Castiglione B., 38,41ATANASIO, 64 BRA(:C:IOLINI 24 P., 23, CAUCHY 244 A.L.,AVERR~IS, 57, 58, 60, 64 21, 56, T., BRAHE 142, 152, 173-175, 176, CAVALIERI B., 211,242AVICENA, 158 177,178,180,181,182,187-188 Cellari A., 142* Neste indice:-reportam-se em versalete os nomes dos fil6sofos e dos homens de cultura ligados ao desenvolvimento do pensamento ocidental, para os quais indicam-se em negrito as piginas em que o autor e tratado de acordo com o tema, e em itilico as piginas dos textos;-reportam-se em itilico os nomes dos criticos;-reportam-se em redondo todos os nomes n5o pertencentes aos agrupamentos precedentes.
  • 14. Cellini B., 147, 162 240,254,256,263,283,285,CESALPINO60, 250 A., 288,300Cesi F., 196, 198,253,254 L., GALILEI 192CICERO TULIO, M. 3,5,29,76,154, ECFANTO PITAG~KICO,171 166, Galilei Vincenzo (filho), 192 170,265,287 ECKHART (Mestre) G., 34 Galilei Vincenzo (pai), 192CIPRIANOCARTAGO, DE 68 Eduardo VI, 163 Galilei Virginia (irml Maria Ce-Clemente VIII, 178 A., EINSTEIN 141,241 leste), 192Cola de Rienzo, 9, 11, 12 Elisabeth I, 263,264 Gamba M., 192Colbert J.B., 253, 257 E~rcu~to, 26, 29, 115 24, Garin E., 3,7,8,11,18-19,22,24,Colombo C., 161 ERASMO ROTTERDAM DE (Geer 27,29COLOMBO 249,250 R., Geertsz),67-69,70,71,84-87 GASSENDI P., 285Constantino, imperador, 14,27 Ernesto de Baviera, 179 Gaywood R., 251C~PPRNICO N. (NiklasKoppemigk), Esco~o ERIUGENA, 34 GClio Aulo, 3, 5 117,124,139,140,141,142, ~ s ~ u i ndesSfetto, 23 e GEMISTO PI.FTON 17, 32 J., 143,144,145,152,161,166, ESTEVAO (Stephanus), 61, 65 H. Genser C., 163 167-172,173,174,175,178, EUCLIDES, 192,232, 244 148, A., GENTILI 100 185-187,l88,l99,2Ol,206, Eunoxlo DE CNIIIO, 244 Geymonat L., 196, 199 EULER, 288 GHIBEK~ 147 1 L., EUSTAQUIO B., 250 Giese T., 185Cosme de MCdici (o Velho), 38 GILBEI~T183 W.,Cosme I1 de MCdici, 189,192,195, 197 Giordano A., 222Cranach L., 71 Giordano P., 222CI~EMONINI C., 60 GRASSI 193, 206 H.,CRISOI.ORA 22, 23, 31 M., Gregory T., 64Cristina da SuCcia, 283,285,286 FALOPIO 250 G., GKOTIUS (Huig de Groot), 100 H.Cristina de Lorena, 189,193,202, Farrington B., 266 GUI(:CIARDINI F., 96 203,217,221 Ferdinand0 da Austria, 178 Guldenmann C., 177 FERMAT 242, 243 P., Guthrie D., 161, 162 FERNEI. 163,251 J., FICINO 15, 16,17,31,32,38- M., 41,42,45,52-53,54,67,71, 76, 109, 113, 114, 115, 116, 145,155Da Costa Andrade, 233 HAI.I.FY 229, 234 E., Filipe de Hessen, 77DARWIN 147 C., Hals F., 284 FII.OI.AUTEBAS, 171 LIE 166,DATI C.R., 255 W., HARVEY 144, 152, 163, 249, FOSCARINI200, 228 A., N.DECUSA (Kryfts ou Kreb), 31, 250-251,252 FRACASTORO J., 151,153,160,161, 32, 33-37,46-52, 114, 116 HEGEL G.W.F., 71 170Del Monte EM., 205 Henrique 111, 112, 114 Francisco da Austria, 255DELLA PORTA G.B., 120,145,154, Henrique VIII, 97 Francisco I, 104 160,163,196 HERACLIDES P~NTICO, 171 166, FRANCK 79, 80 S.,Demostenes de Atenas, 23 HERACLITO DF. EFESO, 270 Frederico I1 da Dinamarca, 173,DESCARTES J., 283 HERMES TK~SMF.GISTO/COR~USHER- 174 R.,DESCARTES12, 121, 122, 125, METICUM, 1,4,7,8,14,15-16, Frederico V do Palatinato, 286 139,141,146,153,231,232, 17,38,39,40,44,45,53,71, 239,242,249,250,251,254, Fugger S., 158 113,145,152,155 261,283-306,307-316 HERON, 148Devereux R., 264 HERVET 61, 65 G.,DIDF.ROT 266 D., HOBBES 243, 249, 250, 285 T.,DIGGES 172 T., Holbein H. (o Jovem), 68,69,97Dijksterhuis E.J., 181, 183, 233 Homen D., 13Dini P., 189, 193, 201, 204 GAI.ENO, 158, 250, 265 144, Homero, 84Dro~Lslo AREOPAGITA (PSEUDO), 17, GALILEI 9, 12, 103, 105, 107, G., 108,110,120,137,139,140, HOOKE 149, 150, 229, 234- R., 33, 34, 39 r 235 141,142,143,144,145,146,Donato L., 196 147,148,149,152,153,166, HORKY LOC:H~VIC179 DE M.,Dreyer J.L.E., 179 168,171,173,175,176,177, Huss J., 74DUNS ES(:OTO 57, 265 J., 178,179,184,189-219,220- HUYGENS 148,229,234,253, C.,Diirer A., 87 227,228,231,232,233,239, 255,257
  • 15. Jndice d e nomes XVII Leopoldo de Toscana, 253, 254, 255,256 Liceti F., 218, 225 AIOTAI)E SIKACUSA, 170 166, LICHTENBEKC G., 166 OCKHAM 57, 71 G.,INACIO L ~ Y O I . A , I)F 80 Lipps J.H., 232 OLDENBURG H., 253,257I K E N E ~LIAO, 68 IIF. J LIPSIO (JOOS~ 61 J. Lips), OKESME 172 N.,Isabel (filha de Frederico V), 286 LOCKE 229,234 J., O K F E U / H I N ~ S 14, 17, 38, ORFI(:OS, 39,40, 71 Lorini N., 205 Orsini card., 205 Lourenfo de MCdici, 41, 44 OSIANL)ERA H. Hosemann), (Andreas Luc"i0, 54 144,165,168,172,199 Lua&c:lo CAKO, TITO, 115 OUGHTRED242 W., Ludovico, o Mouro, 103Jaime I, 264, 265 Luis XIII, 121JA~vilr~.rco CALCIDA, LIE 39 Luis XIV, 253,257JoHo (Evangelists), 16, 51JoHo de Stefano, 15 Lul.ro R. (Ramon Lhull), 114,307 rg L L ~ T E R ~ 69, 70-75, 76, 77, M., 67,JOKGF. TRF.BISONI)A, DF. 32 78, 79, 83, 88-90, 144, 190, M.7 25Juliano de Medici, 178 200 PARACF.I.SO (Theophrast BombastJuliano o Teurgo,l6 vonHohnheim),145,151,153, 158-160, 163, 265 ;;;czL~;;%;; 5A PATRIZI 45, 107 F., E., MACH 231,240 Paulet A., 264KANT 167,229,232,233,299 I., MAESTLIN 172, 176, 177 M., P A U IDE TARSO, 26, 69, 78 .~ 17,Kepler H., 177 MAGAI.OTTI148, 254, 255 L., Paulo 111 papa, 169, 185, 199KEIUK 139, 140, 141, 142, J., v., MAGG~ 107 PEDRO LOMHARDO, 83 144, 145,146,147,151, 152, MA,pl(;,lr M., 148, 252 PFIKCE 154 C.S., 153,166,168,172,173,174, MANErrl 25 G., Pelli L., 260 175,176-184,192,195,196, 239,242,283 MANSO G.B., 145 PETRAKCA E, 5,9,11,12,14,21-22,KIEKKF.GAAKD S.,71 MAQUIAVFI. N., 93-95,96,101-102 23,28-29KIKCHEK 260 A., MAIWLI 255 A., PICAKII 234 J.,KI.AU (Clivio), 198, 199 C. Mauricio de Nassau, 284 Picchena C., 206~ ~ 140, 147, 167, 239j A., ~ ~ , MAuKol,lc:o F., 178, 196 Piccolomini A., 193Kristeller PO., 3, 6, 7, 8, 18 Maximiliano da Baviera, 284 Prco DEI LA MIKANDOI.A Giovanni, 1, MAZZONI 192 J., 31, 32, 38, 41, 42-44, 45, 53-KUHNTH. 141,166,167,172, S., 54,59,67,71,76,113,121,156 175, 180, 181, 182, 184, 199 MF.~.ANCHTON FV79,144,190,200 M., MERSENNE 125,254,284,285 Pr(x GianfrancescO, 61 Micincio F., 192 PIF.RO I A FKANCFSCA, DEI 147 Mierevelt, M. van, 100 Pio XI papa, 97 Mocenigo J., 111, 113 PITAGORAS,40 38, MoisCs, 16 PLATAO,7, 8, 14, 17,21,22,23, 4,LAcTANclo L.C. FIRMIANo, 16,169 25, 31, 38, 39,40,45,46, 53, MONTAIc;NE, 61-62, 65-66 M. de,Larmessin, N. de, 136 64, 76, 84, 87, 94, 124, 210, M o ~ u T., 97-98 sLAUSCHEN (Rheticus), 165, G.J. Miintzer T., 77 265 168,169,171 PIOTINO DF. LI(:(POI 4, 7, 8, 39, IS, Muraro L., 164LAVATEK 154 J.C., 45,52,115 A.-L.,LAVOISIF.~ 141 PLUTAKCO IIE QUERON~.IA, 23LEAO HEBKEU (JehudahAbarbanel), Poliziano A., 54 41 P o ~ n r ~ * zP. r z (Peretto Mantova-LeHo X papa, 104, 187 no), 6, 57, 58-60, 63-65LEEUWENHOEK, 148,252 A. VAN, Nard2 B., 60 POPE 137 A.,LEF~VKE D~TAPLESJ. (Faber Stapu- N E w m I., 137, 139, 141, 142, ~ PoR~~IO T1~0, 39 lensis), 77 147, 149, 150, 152, 176,184, Pnocr o,r39, 45, 169 G.W.,LEIRNIZ 211,232,242,244, 211,229-244,245-248, 253 ~ ~ ~ 1 . M.,039 1 . 254,283 Niethammer, El., 4 P T ~ L ~ M124, ,151, 154, 171, EULEONAKDO DA VINCI, 103-105, 4, NOVAL~S, 114 174,192,197,199,200,204 127-128, 147 NOVAKA D.M., 169 Piitter, 80
  • 16. SOCRATES, 22,28, 59,68, 84, 94 VFSALIO 249, 250 A., B., SP~NOZA41, 111, 114, 117 VIETE 242 F., Sprat R.T., 266 Vinta B., 218, 226RAWLEY 264 W., Stevenzoon van Calcar J., 250 VITRUVIO, 148Rmr F., 249,251-252,255,258- F., SUAREZ 80, 83 VIVIANI 148, 189, 194,255 V., 260 Sylvius, 163 VOET (VoCcio),285 G. E.,RF.INHOI.D 172 VOLTA~RF. (ArouetEM.), 233, F.M.REUCHLIN J. (Capnion), 156 235REY 148 J.,Rheticus (ver Lauschen G.J.)Rlccr O., 189, 192Richelieu, A.-J. card. de, 119 TARGIONI-TOZZETTI G., 255RINALDINI255 C., TARTAGLIA189, 192 N., W~LLENSTE~N A., 180Rodolfo I1 de Asburgo, 112,174, TELBSIO 55,57,103,106-110, B., WALLIS 242,243, 244 J., 178 121,123,129 M., WFRER 78Ronchi V., 178,196 TEM~STIO, 64 WEICEL 79-80 V.,Rosselli C., 54 Ticiano, 82, 250 WOI.FF 80, 83 C.,Rossi P., 175, 254 TOMAS AQUINO, DE 57,58,63, 64, C., WREN 229,234 83,120,135,265 WYCLIF 74 J., Tomis de Vio (ver Caietano)Sagredo G., 192,207SAI.UTATI21, 22 C., Xenofonte de Atenas, 23Salviati F., 207Santi di Tito, 95 ULIVA 255 A.,Sarpi P., 192Savonarola J., 42 Urbano VIII (Maffeo Barberini), A 121,191,193,206,208,285 Yates F.A., 113SCHLEIERMACHER 114F.D.E.,SCH~LARIOS GENNADIO J., 32Schonberg N., 167, 185 A.,SEGNI 255S~NECA, 76 28, M.,SERVET 79,249,250 VALLA 15,26-27,29-30 L., ZABARELLA J., 60SEXTO EMI~~R~<:o, 65 61, 62, VALTUR~O DE R~MINI, 147 Z~ROASTRO(ZARATUSTRA)/ORACU-SIWR BRABANTE, 57 LIE 55, VANINI 60 J.C., LOS CALDEUS, 16-17, 38, 14,SOCINO 79F., Vayringe, 255,256 39,40,43, 45, 71SOCINO 79L., Verrocchio A., 105 ZW~NGLIO U., 76-77, 83
  • 17. antecipaqiio da natureza, 267 idtia, 297anticopernicanos, 200 indu~iio elimina~iio, por 275 interpretaqso da natureza, 268rq"cogito, ergo sum", 292evidtncia, 289 "res cogitans" e "res extensa", 293experitncia (papel da experitncia na pesqui-sa cientifica), 218Ft religiosa (finalidade da f i ) , 203 sorte do De revolutionibus, 172
  • 18. DO HUMANISM0 A DESCARTES
  • 19. E A RENASCENCAOrigensTra~os essenciaisDesenvolvimentos Magnum miracu/um est homo. " Hermes Trismegisto, Asc/ep/i/s 6suprema merakdde de Deus Pai! 0 suprema e admirave/fekcidadedo homed H o r n ao qua/ foi concedido obter aqu//oque dese/b e ser aqu//o que quel Ao nascerem, 0s brutos /evam consgo, do seio materno, tudo aqu//oque ter20, 0 s esp/i- tos supeflores, desde o Ihicio oupouco depois, ja s20 aqulo que ser20 nos secu/os dos secu/os.No h o r n nascente, o Oai depositou semenfes de toda especie e germs de toda vida. 6 2 medida que cada um os cu/tiva/;e/escrescerao e ne/e da- r2o seus frutos, E se forem vegetais, serap/anta; se forem sensive&,serabruto,,se forem racionais, se tornard amha/ ce/este; se forem /hie/ectua/s, sera anjo e Mho de Deus. Se, contudo, n20 con- tente com a soHe de nenhuma cHatura, se reco- /her no centro de sua unidade, tornando-se um so esphito corn Deus, na soktarianevoa do Pa/;aque/e que foiposto sobre todas as coisas estara sobre todas as coisas. " Pico della Mirandola
  • 20. Capitulo primeiro0 pensamento humanista-renascentistae suas caracteristicas geraisCapitulo segundo0 s debates sobre problemas morais e Neo-epicurismoCapitulo terceiro0 Neoplatonismo renascentistaCapitulo quarto0 Aristotelisrno renascentista e a revivescGncia do CeticismoCapitulo qulntoA Renascenqa e a ReligiiioCapitulo sextoA Renascenqa e a PoliticaCapitulo sCtimoVirtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista:Leonardo, Telesio, Bruno e Campanella 103
  • 21. Capit~Io primeiro0 pensamento hMmanista-renascentista e s a caracteristicas gerais M s d o terrno "tl~zrnanisrno" 0 termo "Humanismo" foi usado pela primeira vez no inicio do 800 paraindicar a area cultural coberta pelos estudos classicos e pelo espirito que Ihe eproprio, em contraposi@o ao bmbito das disciplinas cientificas. A palavra hu-manista, porem, ja era empregada pela metade do 400, e derivade humanitas, que em Cicero e Gelio significa educa@o e forma- Humanismo@o espiritual do homem, na qua1 tern papel essencial as discipli-nas literarias (poesia, retdrica, historia, filosofia). essential Ora, a partir sobretudo da metade do 300, e depois de mod0 representadosempre crescente nos dois seculos sucessivos, desenvolveu-se na pelas "litteraeltalia justamente uma tendencia a atribuir valor muito grande humanae"aos estudos das litterae humanae e a considerar a antiguidade + 9 1classics, grega e latina, como um paradigma e um ponto de refe-rencia para a atividades espirituais e a cultura em geral. "Humanismo", portanto, ssignifica em geral esta tendencia que, surgida essencialmente no seio da culturaitaliana, pelo fim do 400 se difundiu em muitos outros paises europeus. Entre os estudiosos contemporbneos do Humanismo, sobressaem princi-palmente P.O. Kristeller e E. Garin, cujas interpretac;ijes contrapostas resultamna realidade muito fecundas justamente por sua antitese el se prescindirmos dealguns pressupostos dos dois autores, podemos integrd-las mutuamente. Segundo Kristeller, o Humanismo representaria apenas me-tade do fenbmeno renascentista e melhor dizendo, a " literaria", ouas , djfeEnte,na"o a filosdfica; portanto, ele seria plenamente compreensivel teses modernasapenas s considerado junto com o Aristotelismo que s desen- sobre o e evolveu paralelamente, e que expressaria a verdadeiras ideias fi- significado slosoficas da epoca. filosdfico Segundo Garin, ao contrario, os Humanistas s voltaram a de Humanism0 eum tip0 de especu1ac;a"ona"osistematica, problematica e pragmd- + 3tica, e formaram novo metodo que, centrado sobre um novo sen-tido da historia, deve ser considerado como efetivo filosofat; a direc;(?o contem-plativo-metafisicaem que o Humanismo italiano embocou desde a segunda me-tade do 400 teria sido portanto a consequencia do advent0 das Senhorias e doeclipsar-se das liberdades politicas republicanas. Ora, e verdade que "humanista" indica originariamente a tarefa do litera-to, mas tal tarefa foi muito alem do ensino universitdrio, entrou na vida ativa e setornou de fato "nova filosofia". Alem disso, o Aristdteles deste period0 foi umAristoteles frequentemente lido no texto original, sem a mediaslio das tradu@ese das exegeses medievais; tratou-se, portanto, de um Aristoteles revisitado corn
  • 22. 4 Primeira parte - O t l u m a n i ~ m ~ R e n a s c e n c a ea novo espirito que apenas o Humanismo pode explicar. Por fim, a pOssibiidade grande mudanca do pensamento humanista n l o esteve apenas de integrar mutuamente ligada a uma mudanca politica, mas a descoberta e As tradu~aes as duas de HermesTrismegisto e dos Profetas-Magos, de Platlo, de Plotino interpretac5es e de toda a tradiclo platgnica. A marca que contradistingue o opostas Humanismo foil portanto, um novo sentido do homem e de seus +§3 problemas, novo sentido que encontrou expressdes multiformes e por vezes opostas, mas sempre ricas e freqiientemente muito originais, e que culminou nas celebrac$es teoricas da "dignidade do homem" como ser "extraordinario" em relaclo a toda a ordem do mundo. A quest50 revela-se ainda mais com- plexa pelo fato de que, nesse periodo, n5o ocorre apenas mudanqa no pensamento fi- losofico, mas tambCm, em geral, a mudan- qa da vida do homem, em todos os seus as- pectos: sociais, politicos, morais, literarios, Ha toda uma interminavel literatura artisticos, cientificos e religiosos. E tornou-critica sobre o periodo do Humanismo e do se bem mais complexa ainda pel0 fato de queRenascimento. No entanto, os estudiosos as pesquisas se tornaram predominantemen-n5o conseguiram chegar a uma definiqso das te analiticas e setoriais, e os estudiosos apre-caracteristicas dessa Cpoca, capaz de reunir sentam a tendencia de fugir das grandes sin-um consenso unhime, mas, pouco a pou- teses ou at6 simplesmente das hipoteses deco, enredaram a tal ponto a meada dos va- trabalho de carater global ou das perspecti-rios problemas que hoje C dificil para o pro- vas de conjunto.prio especialista desenreda-la. Assim, C necessario antes de mais nada focalizar alguns conceitos bisicos, sem os quais nHo seria possivel sequer a exposiq50 dos va- rios problemas relativos a esse periodo. Comecemos por examinar o pr6prio conceit0 de "humanismo". 0 term0 "humanismo" C recente. Pare- ce que foi usado pela primeira vez pel0 fi- losofo e teologo alemiio F. I. Niethammer (1766-1848) para indicar a area cultural coberta pelos estudos classicos e pel0 espi- rito que Ihe 6 proprio, em contraposiqHo com a area cultural coberta pelas disciplinas cien-
  • 23. 5 Capitdo primeiro - 8 p e n s a m e n t o h u m a n i s t a - r e n a s c e n t i s t n e suds caracteristicastificas. Entretanto, o termo "humanista" (e pela intensidade, a ponto de marcar o ini-seus equivalentes nas varias linguas) nasceu cio de um novo period0 na historia da cul-por volta de meados do skulo XV, calcado tura e do ensa amen to.nos termos "legistan, "jurista", "canonista" Grande fervor nasceu em torno dose "artista", para indicar os professores e cl6ssicos latinos e gregos e de sua redesco-cultores de gramatica, retorica, poesia, his- berta, do paciente trabalho de pesquisa detoria e filosofia moral. Ademais, j i no s k u - codices nas bibliotecas e de sua interpreta-lo XIV falava-se de studia humanitatis e de qiio. Varios acontecimentos levaram a umastudia humaniora, expressoes referidas a nova aquisiqiio do conhecimento da linguafamosas afirmagoes de Cicero e Gelio para grega, considerada patrim6nio espiritualindicar essas disciplinas. essencial do homem culto (as ~rimeiras > c5- A Para os mencionados autores latinos, hu- tedras de lingua e literatura gregas forammanitas significava aproximadamente aqui- instituidas no Trezentos, mas a grande di-lo que os heknicos indicavam com o termo fusiio do grego ocorreu sobretudo no Qua-paideia, ou seja, educagiio e formaqiio do trocentos. De mod0 especial, o Concilio dehomem. Ora, nessa Cpoca de formaqiio es- Ferrara e Florenqa, em 1438-1439, e, logopiritual considerava-se que as letras, ou seja, depois, a queda de Constantinopla, ocorri-a poesia, a retorica, a historia e a filosofia da em 1453. levaram alguns doutos bizan- L,desempenhavam um papel essencial. Com tinos a fixar moradia na Itdia, tendo porefeito, siio essas disciplinas que estudam o conseqiihcia um grande increment0 no en-homem naquilo que ele tem de peculiar, pres- sino da lingua grega).cindindo de qualquer utilidade pragmatica.Por isso, mostram-se particularmente capa-zes niio apenas de nos dar a conhecer a na-tureza especifica do proprio homem, mastambem de fortale&-la e potencializa-la. Sobretudo a partir da segunda metadedo Trezentos e depois, sempre de forma cres-cente, nos dois seculos seguintes (com seuponto culminante precisamente no sCculoXV), verificou-se uma tendEncia a atribuiraos estudos relativos as litterae humanae umgrande valor, considerando a antiguidadeclas-sics, latina e grega, como paradigma e pontode referkcia para as atividades espirituais ea cultura em geral. Pouco a pouco, os auto-res latinos e gregos se firmavam como mo-delos insuper6veis nas chamadas "letras hu-manas", verdadeiros mestres de humanidade. Assim, "humanismo" significa essa ten- d h c i a geral que, embora com precedentes ao longo da tpoca medieval, a partir de Fran-cisco Petrarca, apresentava-se agora de mo- do marcadamente novo por seu particular colorido, por suas modalidades peculiares e 0 celehre "Davt " de M~chelangelo, nu m u p t a d e e nohreza dos t r a p s , rejmsenta vtsua~rnentr, de rnodo puradrgmatl~o, o concerto do hornern conzo "o rnamr rnllugre" do unwerso, que constltnr umu das chaues esprrrtuurs mars tlpzcas du Renuscen~a. 0 "Davl" se encontra ern Floren~a, na Gulerra cia Academta, e utnu copra dele esta na P~uzzadella Stgnorru.
  • 24. Primeira parte - 0+Iumuni.;~?o i. n Renuscrncn ,,,, A s d u a s mais sadores peripattticos que retornassem aos textos gregos de Aristoteles, deixassem de ~i~nificativas lado as traduqdes latinas medievais e fizes- sem uso dos comentadores gregos e tambCm de outros pensadores gregos. Desse modo, destaca Kristeller, os es- tudiosos hostis h Idade MCdia confundiram esse aristotelismo renascentista com o resi- duo de tradi~oes medievais superadas e, por- Entre as interpretaqdes contempori- tanto, como residuo de urna cultura ultra-neas do "humanismo", duas s i o as mais im- passada, pensando que deviam deixa-lo deportantes por se referirem a o seu significa- lado em beneficio dos "humanistas", verda-do filosofico. deiros portadores do novo espirito renas- centista. Mas, segundo Kristeller, tratar-se- ia de grave err0 de compreensiio historica, porque frequentemente a condenaqiio do aristotelismo renascentista foi feita sem urna efetiva consci2ncia daquilo que se estava De um lado, P.O. Kristeller procurou condenando. A exceqio de Pomponazzi (dolimitar fortemente o significado filosofico e qual falaremos adiante), que no mais dasteorttico do humanismo, inclusive a ponto vezes foi seriamente considerado, um gravede elimini-lo. preconceito condicionou o conhecimento Segundo esse estudioso, bastaria dei- desse momento da historia do pensamento.xar a o termo o significado tecnico que pos- E necessario, portanto, estudar a fundo assuia originalmente, restringindo-o assim ao questdes discutidas pelos aristotClicos italia-imbito das disciplinas retorico-literarias nos desse periodo: desse modo, cairiam por(gramatica, retorica, historia, poesia e filo- terra muitos lugares-comuns que so se man-sofia moral). tem porque foram continuamente repetidos, Conforme Kristeller, os humanistas do mas que carecem de base solida, emergindoperiodo de que estamos tratando foram su- consequentemente urna nova realidade his-perestimados, sendo-lhes atribuido um pa- torica.pel de renovaqio do pensamento que eles, Em conclusio, o humanismo repre-na realidade, niio desempenharam, visto que sentaria apenas uma metade do fen6menoniio se ocuparam diretamente da filosofia e renascentista e, mais ainda, a metade ndoda ciencia. Em suma, para Kristeller, os hu- filosofica. Assim, ele so seria plenamentemanistas niio foram verdadeiros refor- compreensivel se considerado junto com omadores do pensamento filosofico porque, aristotelismo que se desenvolveu paralela-de fato, niio foram filosofos. mente, o qual expressaria as verdadeiras Na visio de Kristeller, para compreen- idCias filosoficas da Cpoca. Ademais, segun-der a Cpoca de que estamos falando, seria do Kristeller, os artistas do Renascimentonecessario dedicar atenqio h tradigdo aris- niio deveriam ser vistos na otica do grandetotelica, que tratava de mod0 sistematico da "genio criativo" (que constitui urna visiiofilosofia da natureza e da logica, que ja ha- romintica e um mito oitocentista), mas simvia se consolidado fora da Itilia (sobretudo como "otimos artesiios", cuja excekncia n5oem Paris e Oxford) ha bastante tempo, mas decorre de urna espCcie de superior adivi-que na Itilia so se consolidaria mais tarde. nhaqiio dos destinos da cicncia moderna, eDiz Kristeller que foi na segunda metade do sim da bagagem de conhecimentos ticnicosTrezentos que "comeqou urna tradiqiio con- (anatomia, perspectiva, mecgnica etc.), con-tinua de aristotelismo italiano, a qual po- siderada indispensiivel para a pratica ade-de ser seguida atravis do Quatrocentos e quada de sua arte. Por fim, se a astronomiado Quinhentos e at6 por boa parte do Seis- e a fisica realizaram progressos notiveis, niiocentos". foi por motivo de sua ligaqiio com o pensa- Esse "aristotelismo renascentista" se- mento filosofico, e sim com a matematica.guiu os mCtodos proprios da "escolastica" 0 s filosofos tardaram a se harmonizar com(leitura e comentario dos textos), mas enri- essas descobertas, porque, tradicionalmen-quecendo-se com as novas influcncias huma- te, n5o havia uma conexio precisa entrenistas, que exigiriam dos estudiosos e pen- matematica e filosofia.
  • 25. 7 Capitulo primezro - 0 p e n s a m e n t o humantsta-renascentista e s u d s cavactevisticas culado B liberdade politzca daquele momen- to. 0 advent0 das tutelas e o eclipsar-se das Diametralmente oposta C a reconstru- liberdades politicas republicanas transfor-qiio de EugBnio Garin, que reivindicou ener- mou os literatos em cortesiios e impeliu agicamente uma precisa valGncia filosdfica filosofia para evas6es de carater contem-para o humanismo, notando que a negaqiio plativo-metafisico. b: i?de significado filosofico aos studia huma-nitatis renascentistas deriva d o fato de que,"no mais das vezes, entende-se por filosofiaa constru~iio sistematica de grandes propor- ; Possivel mediaG6o sintLtica@es, negando-se que a filosofia tambem d a s duas i n t e ~ p r e t a q 6 e spode ser outro tip0 de especula@o niio sis- opostastematica, aberto, problematico e pragma-tic0 ". Alias, diz Garin, a atenqiio "filologica"para com os problemas particulares "cons- Na realidade, as teses contrapostas detitui precisamente a nova filosofia, ou seja, Kristeller e de Garin revelam-se muito fe-o novo mitodo de examinar os problemas, cundas precisamente por sua antitese, por-que, portanto, niio deve ser considerado, ao que uma destaca aquilo que a outra silen-lado da filosofia tradicional, como um as- cia, podendo portanto ser integradas entrepecto secundario da cultura renascentista, si, se prescindirmo? de alguns pressupostoscomo acreditam alguns (basta pensar, por dos dois autores. E verdade que, original-exemplo, na posiqiio de Kristeller que exa- mente, o termo "humanista" indica o ofi-minamos), e sim como o proprio filosofar cio do literato, mas essa profissiio vai bemefetivo ". alCm do simples ensino universitario, entran- Uma das mais destacadas caracteristi- do na vida ativa, iluminando os problemascas desse novo mod0 de filosofar t o senti- da vida cotidiana, tornando-se verdadeira-do da histdria e da dimensiio historica, com mente uma "nova filosofia".seu respectivo sentido de objetivaqiio e de Ademais, o humanista distingue-se efe-afastamento critic0 do objeto historicizado, tivamente pel0 novo modo como 16 os clas-ou seja, historicamente considerado. A esshcia do humanismo niio deve servista naquilo que ele conheceu do passado,mas sim no mod0 em que o conheceu, nuatitude peculiar que adotou diante dele. Mas a tese de Garin niio se reduz a isso.Ele coloca a nova "filosofia" humanista narealidade concreta daquele momento da vidahist6rica italiana, tornando-a uma expres-S ~ dessa realidade, a ponto de explicar com Orazoes sociopoliticas a reviravolta sofrida pe-lo pensamento humanista na segunda meta-de do Quatrocentos. 0 primeiro humanismofoi uma exaltaqiio da vida civil e das pro-blematicas a ela ligadas, porque estava vin- " A Filosofia ", incisuo tirada da Biblioteca Ciuica "A. Mai" de Bergumo. 0 estudo du filosofiu antiga alirnentou o nouo espirito prescnte no pemamento hurnanistu-re~zascentista. Este esta ligado us trudup5es de Hcrmcs Trismegisto, tfos Profetus-Maps, ifc Pldtiio, rfe Plotitto c de toda a tradiqiio plutiinicu.
  • 26. um Aristoteles revisitado com novo espiri- to, que so o "humanismo" pode explicar. Portanto, Garin tem razio ao destacar o fato de que o humanismo olha o passado com novos olhos, com os olhos da "historian, e que so atentando para esse fato C que se pode compreender toda essa ipoca. E a aquisiqio do sentido da historia significa, ao mesmo tempo, aquisiqiio do sentido de sua propria individualidade e originalidade. So se pode compreender o passado do homem quando se compreende sua "diversidade" em relaqio ao presente e, portanto, quando se compreende a "peculia- ridade" e a "especificidade" do presente. Por fim, no que se refere excessiva vinculagio do humanismo aos fatos politi- cos, que leva Garin a algumas afirmaqdes que correm o risco de cair no historicismo sociologista, basta destacar que a grande mudanga do pensamento humanista n i o esta ligada somente a uma mudanga politi- ca, mas tambim A descoberta e as tradu- qdes de Hermes Trismegisto e dos profetas-" A Kcttir~sir", irzcrsiio tirilda cia Biblioteca Ciclica magos, de Platio, de Plotino e de toda a AS" A . hlill" de B i r g ~ t n o . Iittcrae humanae tradiqio plathica, o que representou a aber-sor~stlturrno c-orupio du ~ C M ~ ~ L hurnutzistil. LYLI tura de novos e ilimitados horizontes, de quelIntrc cstus rcsrrfwse pzrticuhr ateiz@o 2 rettjrica, falaremos adiante. De resto, o proprio Garinporquc soizstitui elemento de continuitfade n i o se deixou levar por excessos sociolo-cJtztrea paidkia antiga e enodcrna. gistas, como, no entanto, fizeram outros intirpretes por ele influenciados. Concluindo, podemos dizer que a mar-sicos: houve um humanismo literario por- ca que distingue o humanismo consiste emque surgiram novo espirito, nova sensibili- um novo sentido do homem e de seus proble-dade e novo gosto, com os quais as letras mas: um novo sentido que encontra expres-foram revisitadas. E o antigo alimentou o sdes multiformes e, por vezes, opostas, masnovo espirito, porque este, por seu turno, sempre ricas e freqiientemente muito origi-iluminou o antigo com nova luz. nais. Novo sentido que culmina nas celebra- Kristeller tem razio quando lamenta que q6es teoricas da "dignidade do homem"o aristotelismo renascentista seja um capi- como ser em certo sentido "extraordinirio"tulo a ser reestudado desde o inicio e tambCm em relaqio a toda a ordem do cosmo, comotem razio ao insistir no paralelismo desse veremos adiante. Mas essas reflex6es teori-movimento com o movimento propriamen- cas nada mais s i o do que express6es concei-te literario. Mas o pr6prio Kristeller admite tuais que tim nas representaq6es da pintu-que o Aristoteles desse period0 t um Aristo- ra, da escultura e de grande parte da poesiateles freqiientemente procurado e lido no as correspondincias visuais e fantistico-ima-texto original, sem a mediaqio das tradu- ginativas que, com a majestade, a harmo-qdes e das exegeses medievais, tanto que nia e a beleza de sua figuragio, expressam achega at6 a retornar aos comentadores gre- mesma idtia, de varios modos, com esplin-gos para ser iluminado. Assim, trata-se de didas variaqdes.
  • 27. 9 Capitdo prirneiro - O pensamento humanists-renascentista e slnas caracteristicas I. IConceito historiogr6fico, cronoIogia e caracteristicas da "Renascenca" A categoria historiografica da "Renascenqa" se impbs no 800 graqas a1. Burckhardt, segundo o quai a express%o designava um fenbmeno de origemtipicamente italiana, oposto a cultura medieval: um fenbme-no caracterizado pelo individualismo pratico e teorico, a par- A Renascenqatir da exaltaqao da vida mundana, do acentuado sensualis- na defini@omo, da mundaniza(;ao da religiao, da tendhcia paganizante, oitocentistada liberdade em relaqao as autoridades que no passado ti- + § 1nham dominado a vida espiritual, do forte sentido da historia,do naturalism0 filos6fic0, do extraordinario gosto artistico. "Renascenqa" se-ria, afinal, a sintese do novo espirito, que se criou na Ithlia, com a antiguidade:o espirito que, rompendo definitivamente com o da era medieval, abre a eramoderna. Em nosso seculo esta interpretaqao foi muitas vezes contestada, particu-larmente por K. Burdach. 0 s Humanistas explicitamente usaram expressiies como"fazer reviver", "fazer renascer", e contrapuseram a nova eraem que viviam com a medieval como a era da luz a era da 06s- A Renascenqacuridade e das trevas. A ldade Media, porem, foi uma epoca de novagrande civilizat;lo, percorrida por fermentos e frCmitos de vari- interpretaqao:os generos quase que desconhecidos aos historiadoresdo Oito- nascimentocentos. Portanto, 0 "Renascimento" que constituiu a peculiari- de novadade da "Renascenc;a" foi mais o nascimento de outra civilizaq~o, civiIizaqsode outra cultura: a Renascenqa representou grandioso fenbme- baseadano de "regenerasao" e de "reforma" espiritual, em que a volta sobre a voltsaos antigos significou revivesc6ncia das origens, "retorno aos aOSanfig0sprincipios aut6nticos", e a imita@o dos antigos revelou-se como 3 2-3 +o caminho mais eficaz para recriar e regenerar a si mesmos. Emtal sentido, Humanismo e Renascen~a constituem uma so coisa, e o Humanismotorna-se fenbmeno literario e retorico apenas no fim, ou seja, quando s expan- ede o novo espirito vivificador. Do ponto de vista cronologico, o periodo humanista-renascentistaocupouinteiramente o 400 e o 500, mas seus preludios devem ser buscadosja no 300 (nasfigoras de Cola de Rienzo e de Francisco Petrarca), enquanto oepllogo alcansa os primeiros decCnios do 600 (com a figura de Cmno/ogia eCampanella); do ponto de vista dos conteudos filos<5ficos,no 400 caracteristicasprevalece o pensamento sobre o homem, enquanto o pensamento essenciais dodo 500 abrasou tambem a natureza. A Renascenqa representou periodouma era diversa tanto da medieval, como da moderna (a qua1 humanists-comega corn a revolu@o cientifica, ou seja, com Galileu); assim renascentistacomo na ldade Media devem ser buscadas a raizes da Renascen- s 3 4-5 +$a, por sua vez, na Renascenqa devem ser buscadas a raizes do smundo moderno, ou melhor, o epilog0 da Renascenqa e marcado pela propriarevoluq%o cientifica.
  • 28. 10 Primeira parte - 8t l ~ m a n i s m ~ R e n a s c e n c a ea f i n t e r p r e t a q 2 ; o o i t o c e n t i s t a que viu surgir nova cultura, oposta a me- dieval. E a revivesc$ncia do mundo anti- da " R e n a s c e n c a " go teria desempenhado nisso um papel c o m o surgimento importante, mas n i o exclusivamente deter- d e novo e s p i r i t o minante. Portanto, partindo da renascen- e de nova cultura Ca da antiguidade, passou-se a chamar de "Renascenqa" toda essa ipoca, que, po- q u e valorizam rim, i algo mais complexo: com efeito, i o w~uncfo n t i g o a a sintese d o n o v o espirito que se criou na Italia com a propria antiguidade - i o e m oposi@o espirito que, rompendo definitivamente A Jdade Mkdia c s m o espirito da ipoca medieval, inau- gurou a tpoca moderna. Essa interpretaqiio foi muito contesta- 0 term0 "Renascimento", como ca- da, por virias vezes, em nosso siculo. Algunstegoria historiogrifica, consolidou-se no Oi- chegaram mesmo a duvidar que a "Renas-tocentos, em grande parte por mirito de cenqa" constitua efetiva "realidade histo-uma obra de Jacob Burckhardt (1818-1897) rica" e n i o seja muito mais (ou predomi-intitulada A cultura d a R e n a s c e n ~ ana nantemente) uma invenqio construida pelaItalia (publicada em Basiliia, em 1860), historiografia oitocentista.que se tornou muito famosa, impondo-se Variados e de diversos tipos foram oslongamente como modelo e como ponto de reparos trazidos sobre a questio.referencia indispensavel. Na obra de Burck- Alguns observaram que, se atentamen-hardt, a Renascenqa emergia como fen& te estudadas, as varias "caracteristicas" con-meno tipicamente italiano quanto A suass sideradas tipicas do Renascimento podemorigens, caracterizado pelo individualis- ser encontradas na Idade Media. Outrosmo pratico e teorico, pela exaltaqio da vi- insistiram muito no fato de que, a partir doda mundana, pel0 acentuado sensualismo, sic. XI, mas sobretudo nos sics. XI1 e XIII,pela mundanizaqio da religiiio, pela ten- a Idade MCdia pode ser considerada plenadcncia paganizante, pela libertaqio em de "renascimentos" de obras e autores an-relaqio A autoridades constituidas que ha- s tigos, que pouco a pouco emergiam e eramviam dominado a vida espiritual no pas- recuperados. Conseqiientemente, esses au-sado, pelo forte sentido de historia, pel0 tores negaram validade dos pariimetros tra-naturalism0 filosofico e pel0 extraordinii- dicionais que durante longo tempo basea-rio gosto artistico. Segundo Burckhardt, ram a distinqiio entre a Idade MCdia e aa Renascenqa seria portanto uma ipoca "Renascenqa".
  • 29. 11 primeir0 - 0pensamento humanista-renascentista e suas caracteristicas Capit~l0 nova interpreta~Zio na idCia de renascimento do espirito nacio- nal unido a fe, que na Italia se expressou so- da lIRena~~enCa" bretudo em Cola de Rienzo, em cujo projeto como lvenovatio" politico a idCia de renascimento religioso C e a "volta aos antigos" inserida no projeto politico de renascimento hist6rico da Ithlia, gerando vida nova. cowo "volts aos principios" Cola de Rienzo (1313-1354) torna-se assim (junto com Petrarca) o mais significa- tivo precursor da grande Cpoca da Renas- Todavia, logo se estabeleceu novo equi- cenga italiana.librio, reconstituido em bases bem mais s6- "Renascenga" e "Reforma" expressamlidas. conceitos que se interpenetram at6 consti- Em primeiro lugar, estabeleceu-se que tuir urna unidade indissoluvel: "Pode-se di-o term0 "Renascenca" niio node em abso- zer - escreve Burdach - que, no alicerce des-luto ser considerado como mera invenciio sas duas visdes, encontra-se aquele conceitodos historiadores oitocentistas, pel0 simples mistico do renascer, da recriagiio, que en-fato de que os humanistas usavam expres- contramos na antiga liturgia pagi e na li-samente (com insistincia e com plena cons- turgia sacramental crist5."ciincia) expressdes como "fazer reviver","fazer voltar ao antigo esplendor", "reno-var". "restituir a urna nova vida". "fazerrenascer o mundo antigo" etc., contrapon- Reflex~es conclusivasdo a nova Cpoca em que viviam i Cpocai sobre o conceitomedieval como a idade da luz contrapostah idade da escuridzo e das trevas. de %enascenca" E claro, portanto, que os histori6grafosdo Oitocentos niio erraram sobre este Don-to. Erraram, porCm, ao julgar que a Idade A Renascenga, portanto, representouMCdia constituira verdadeiramente urna grandioso fen6meno espiritual de "regene-Cpoca de barbarie, um tempo nebuloso, um ragiio" e de "reforma", no qua1 o retornoperiod0 de escuridiio. aos antigos significou revivescincia das ori- 0 s homens da Renascenga, natural- gens, "volta aos principios", ou seja, retor-mente, tinham essa opiniio, mas por razdes no ao, autintico.polimicas e niio objetivas: eles sentiam sua E tambCm nesse espirito que deve sermensagem inovadora como mensagem de entendida a imita@o dos antigos, que seluz que rompia as trevas. 0 que niio signifi- revelou o estimulo mais eficaz para que osca que "verdadeiramente", ou seja, histori- homens encontrassem, recriassem e regene-camente, antes dessa luz houvesse trevas, rassem a si pr6prios.pois poderia haver (para manter a imagem) Sendo assim, conseqiientemente, comourna luz diferente. sustentou Burdach, o Humanismo e a Re- Com efeito, as grandes aquisig6es his- nascenga "constituem urna s6 coisa". Umatoriogriificas de nosso sCculo mostraram que tese que, na Itilia, Euginio Garinacornpro-a Idade Media foi uma epoca de grande civi- vou brilhantemente em outras bases, comliza@o, percorrida por fermentos e frimitos novos documentos e com provas abundan-de varios tipos, quase que totalmente des- tes e de varios tipos.conhecidos pelos historiadores d o Oitocen- Desse modo, niio se pode mais susten-tos. Portanto, o "renascimento" que cons- tar que foram os studia humanitatis, enten-titui a peculiaridade da "renascenga" niio C didos como fen6meno literario e filol6gicoo renascimento da civilizaciio contra a (retorico), que criaram a Renascenga e oincivilizacio. da cultura contra a incultura > , espirito renascentista (filosofico), como see a barbarie, do saber contra a ignoriincia: se tratasse de urna causa acidental produ-ele C muito mais o nascimento de outra civi- zindo como efeitos um novo fen6meno subs-lizagio, de outra cultura, de outro saber. tancial. Pode at6 ser que se tenha verificado K. Burdach mostrou claramente que a justamente o contrario, isto C, foi a "renas-Renascenga tambCm tem raizes na idCia de cenga" de um novo espil-ito ( o descrito aci-renascimento d o Estado romano, que era ma) que se serviu das humanae litterae comobastante viva na Idade MCdia, quando n i o de um instrumento. .
  • 30. 12. .. Primezra parte - O t l w n a n i s m o e a R e n a s c e n C a 0 Humanismo s6 se tornou fen6meno De todo modo, o certo t que hoje entende- literario e retorico no fim, isto 6, quando se se por Renascenqa a denominaqso historio- extinguiu o novo espirito vivificador. grafica de todo o pensamento dos stculos Para concluir: se por "Humanismo" se XV e XVI. Por fim, devemos recordar que entende a tomada de conscitncia de uma os fen6menos de imitaqso extrinseca e de missio tipicamente humana atravts das filologismo n i o s i o proprios do Quatrocen- humanae litterae (concebidas como produ- tos, e sim do Quinhentos, constituindo en- toras e aperfeiqoadoras da natureza huma- quanto tais (corno ja acenamos) os sintomas na), entio ele coincide com a renouatio de da incipiente dissoluqio da ipoca renascen- que falamos, ou seja, com o renascimento tista. d o espirito d o homem: assim, o Humanismo e a Renascenqa s5o duas faces de um unico fen6meno. , Relacoes e n t r e R e n a s c e n G a e J d a d e Mkdia Cvonologia e t e m a s do t l ~ m a n i s m o AlCm disso, no que se refere i s rela- e da Renascenca q6es entre a Idade Media e a Renascenqa italiana, devemos dizer que, no atual esta- do dos estudos, n i o se manttm de p i nem a Do ponto de vista cronologico, o Hu- tese da "ruptura" entre as duas Cpocas e m a n i s m ~ a Renascenqa ocupam dois sC- e tampouco a tese da pura e simples "conti- culos inteiros: o Quatrocentos e o Quinhen- nuidade". tos. Como ja observamos, seus preludios A tese correta C uma terceira. A teoria devem ser procurados no Trezentos, parti- da ruptura pressup6e a oposi@o e a con- cularmente na figura singular de Cola de trariedade entre as duas Cpocas, ao passo Rienzo (cuja obra culmina pel0 Trezentos) que a teoria da continuidade postula uma e na personalidade e na obra de Francisco homogeneidade substancial. Mas, entre a Petrarca ( 1304-1374). Seu epilogo alcanqa contrariedade e a homogeneidade, existe a as primeiras dCcadas do Seiscentos. Cam- "diversidade". Ora, dizer que a Renascen- panella foi a ultima grande figura da Re- qa C uma Cpoca "diversa" da Idade MCdia nascenqa. n i o apenas permite distinguir as duas Cpo- Tradicionalmente falava-se do Quatro- cas sem contrap6-las, mas tambCm identifi- centos como Cpoca do Humanismo e do car facilmente seus nexos e suas tangtncias, Quinhentos como Cpoca da Renascenqa pro- bem como suas diferenqas, com grande li- priamente dita. Como, porCm, caiu porter- berdade critica. ra a possibilidade de distinqso conceitual E, conseqiientemente, outro problema entre Humanismo e Renascenqa, necessa- tambCm pode ser facilmente resolvido. riamente tambCm cai por terra essa distin- A Renascenqa inaugura a Cpoca mo- q5o cronologica. derna? 0 s teoricos da "ruptura" entre Re- Se levarmos em conta os conteudos fi- nascenqa e Idade MCdia eram fervorosos losoficos, eles mostram (e o veremos com defensores da resposta positiva a essa per- mais amplitude um pouco adiante) que o gunta. J4 os teoricos da "continuidade" da- pensamento sobre o homem prevalece no vam-lhe resposta negativa. Hoje, em geral, Quatrocentos, ao passo que, no Quinhen- tende-se a identificar o comeqo da Cpoca tos, o pensamento se amplia, abrangendo moderna com a revoluqio cientifica, ou seja, tambim a natureza. Nesse sentido, se, por com Galileu. Do ponto de vista da historia raz6es de comodidade, quisermos indicar d o pensamento, essa parece a tese mais cor- como Humanismo predominantemente o reta. A Cpoca moderna revela-se dominada momento do pensamento renascentista que por essa grandiosa revoluqio e pelos efeitos teve por objeto sobretudo o homem, e como que ela provocou em todos os niveis. Nesse Renascenqa este segundo momento do pen- sentido, o primeiro filosofo "moderno" foi samento, que considera tambCm toda a na- Descartes (e, em parte, t/ambCm Bacon), co- tureza, podemos at6 fazt-lo, embora com mo veremos mais amplamente adiante. Sen- muitas reservas e com grande circunspeqio. do assim, o Renascimento representa uma
  • 31. 13 Capitdo primeiro - 8 pensamento humanistcr-venascentista e suas cavcrrtrristicas - -Cpoca diversa tanto da Cpoca medieval como ferengas" que caracterizam a Renascenga,da ipoca moderna. tanto em relagso a Idade Media como em Naturalmente, assim como as raizes da relag50 ipoca moderna, atravis do exa-Renascenga devem ser buscadas na Idade me das viirias correntes de pensamento e,MCdia, da mesma forma as raizes do mun- individualmente, dos pensadores de des-do modern0 devem ser procuradas na Re- taque. Todavia, antes disso e necessarionascenga. Podemos dizer atC que, como o chamar a atengso do leitor para um dosfim da Idade Media C marcado pela trans- aspectos mais tipicos do pensamento renas-formag50 da economia mundial que se se- centista, ou seja, a reviveschcia do compo-guiu as descobertas geogriificas, assim o epi- nente helenistico-orientalizante, cheio delogo da Renascenga 6 marcado pela pr6pria ressonincias migico-teiirgicas, difundidorevolug50 cientifica: mas essa revolug5o as- em alguns escritos que a tardia antiguida-sinala precisamente o epilogo, nso a "mar- de havia atribuido a deuses ou profetas anti-can da Renascenga e sua tEmpera espiritual quissimos e que, na realidade, eram falsifi-em geral. cagoes, mas que os renascentistas tomaram Falta-nos, agora, examinar concreta- c o m o aut8nticas, com conseqiihcias demente quais s5o as mais significativas "di- grande importsncia. Mapa nautico executado em Veneza em 1560, pelo portuguSs Diego Homen (Veneza, Biblioteca Marciana).
  • 32. 14 Primeira parte - 0t l u m a n i s m o e a Renascenca Um dos aspectos mais tipicos da Renascen~a foi a 0s equivocos revivesc@ncia componente helenistica-orientalizante, cheia da aproximacso de resson8ncias magico-teurgicase difundida em alguns escri- dos gregos tos que a antiguidade tardia havia atribuido a antiquissimos +§ 1 deuses ou profetas e que na realidade eram falsificaqbes (o Corpus Hermeticum, os Oraculos Caldeus, os Hinos drficos). * Ora, os Humanistas, que descobriram a critica filologica do texto, cairamtodavia no erro clamoroso de tomar como autknticas as obras atribuidas aos Pro- fetas-Magos Hermes Trismegisto, Zoroastro e Orfeu, e assim o complexo sincretismo entre doutrinas greco-pagss, neoplato- Hermes, nismo e cristianismo, tao difundido na Renascenqa, baseou-seem Zoroastro larga medida sobre esse equivoco colossal. Atingiu particularmen- e Orfeu te os homens da Renascenga o aceno ao Filho de Deus, apresen- + 3 2-4 tad0 como Logos divino destinado a encarnar-se, contido no XI1 tratado do Corms Hermeticum. Zoroastro, depois, consideradoo autor dos Oriiculos Caldeus, foi apresentado at6 como anterior a Hermes. Orfeu,por fim, e considerado o anel de conjun@oentre Hermes e Platao: Hermes, Orfeue Platao foram assim liaados em uma conexao aue sustentou a construci30 doplatonismo renascentise, que resultou, portanto, completamente diferente doplatonismo medieval. O conhecimento desconcertante em relaq5o a esses docu- mentos? Cist6vico-critico diferente A resposta i quest50 C bastante clara i que os humanistas luz dos estudos mais recentes. tiveram da tvadic~o Iatina 0 trabalho de pesquisa dos textos lati- nos, que comegou com Petrarca, consolidou- e 21 m veIaG&o gvega se antes q u e ocorresse o impact0 c o m os tex- t o s gregos. Portanto, a sensibilidade e a capacidade tCcnica e critica dos humanistas Antes de tudo devemos esclarecer se agugaram muito antes em relaqiio aos tex-uma quest50 importante: como foi possi- tos latinos do que em relaqiio aos textos gre-vel que os humanistas, que descobriram a gos. AlCm disso, os humanistas que se apro-critica filol6gica do texto e que chegaram ximaram dos textos latinos tinham interessesa identificar gritantes falsificaq6es (corno, intelectuais mais concretos do que aquelespor exemplo, o ato de doaq5o de Constan- que se ocuparam predominantemente dostino) corn base no exame da lingua, tenham textos gregos, que tinham interesses maiscaido em erros t50 flagrantes, tomando co- abstratos e metafisicos. 0 s humanistas quemo autinticas as obras atribuidas aos pro- se ocuparam predominantemente de textosfetas-magos Hermes Trismegisto, Zoro- latinos interessaram-se sobretudo pela lite-astro e Orfeu, que s i o falsificaqoes t i o ratura e pela histbria, ao passo que os huma-evidentes para n6s hoje? Como C que dei- nistas que se ocuparam de textos gregos in-xaram de aplicar a elas o mesmo mCto- teressaram-se sobretudo pela teologia e ado? Como C possivel observar tHo grande filosofia. AlCm disso, as fontes e tradiq6esfalta de sagacidade critica e credulidade t5o usadas como referincia, pelos humanistas
  • 33. Capitulo primeiro - O pensamento humanista-renascentista e suds caracteristicasque se ocuparam de textos latinos eram bem que nunca existiu. Essa figura mitica indicamais limpidas do que as utilizadas pelos o deus Thoth dos antigos egipcios, conside-humanistas que se ocuparam de textos gre- rado inventor das letras do alfabeto e dagos, as quais se revelam extraordinariamente escrita, escriba dos deuses e, portanto,carregadas de incrustaqoes multisseculares. revelador, profeta e intirprete da sabedoriaPor fim, foram os pr6prios gregos doutos divina e do logos divino.que sairam de Biziincio para a Italia que, Quando tomaram conhecimento des-com sua autoridade, avaliaram uma sirie de se deus egipcio, os gregos acharam que eleconvicq6es destituidas de fundamentos his- apresentava muitas analogias com seu deustoric~~. Hermes (= o deus Mercurio dos romanos), 0 que dissemos, portanto, explica per- intirprete e mensageiro dos deuses, qualifi-feitamente a situaqiio contraditoria que se cando-o entiio com o adietivo "Trisme-criou: enquanto, por um lado, humanistas gisto", que significa "trCs vezes grande".como Valla denunciavam como falsificaq6es Na antiguidade tardia, particularmen-documentos latinos pluriconsagrados, por te nos primeiros siculos da ipoca imperialoutro lado, ao contrario, humanistas como (sobretudo nos sics. I1 e I11 d.C.), alguns te-Ficino reafirmavam a "autenticidade" de ologos-filosofos pagiios, em contraposiqiioflagrantes falsificaqoes gregas tardio-antigas, ao cristianismo que se expandia, produzi-com resultados de grande alcance para a ram uma sirie de escritos que eles apresen-historia d o pensamento filosofico, como taram sob o nome desse deus, com a evi-veremos agora. dente intenqiio de contrapor i s Escrituras divinamente inspiradas dos cristiios outras escrituras, a~resentadas tambCm como "re- velaq6es" divinas. t l e r m e s Trismegisto As pesquisas modernas determinaram, e o "Corpus t l e r m e t i c ~ m " sem qualquer sombra de duvida, que sob a mascara do deus egipcio ocultam-se diver- sos autores e que, nesses textos, siio bastan- te escassos os elementos "egipcios". Na rea- tlermes e o "Corpus tlermeticum" lidade, trata-se de uma das ultimas tentativasna realidade hist6rica de ressurgimento do paganismo, amplamen- te baseada em doutrinas do platonismo da Comecemos por Hermes Trismegisto epel0 Corpus Hemeticum, que tiveram a maior Entre os numerosos escritos atribuidosimportiincia e celebridade na Renascenqa. a Hermes Trismegisto, o grupo claramente Hoje sabemos com certeza o que iremos mais interessante constitui-se de dezesseteexpor. Hermes Trismegisto i figura mitica, tratados ( o primeiro dos quais leva o tituloc~orrt3s/x~t~ilorlt(~ iro Hrrrrz~~s q o c iro M c ~ i ~ i r YOIIZLIIIO. gr io 0 s (Sintos I 1 3 1 i/tr;l~ui(ios ~ (tot7zizdos t~zlrito frtrzosos) silo firlsrficirpic~s cfc cnr iriz/)cvi~l.
  • 34. Primeira parte - O tlumanismo r a Renasceniade Pimandro), mais um escrito que s6 che- Essa estupefaqiio diante do profeta pa-gou a t i nos apenas em urna versiio latina giio (tiio antigo quanto MoisCs), que fala do(que, no passado, era atribuido a Apuleio), "Filho de Deus", levou aceitaqiio, pel0 me-intitulado Asclipio (talvez elaborado no sCc. nos parcial, da estrutura astrologica e gnos-IV d.C.). E precisamente esse grupo de es- tica da doutrina. E niio apenas isso: como ocritos que se denomina Corpus Hermeticum Asclepius tambCm fala expressamente de(= corpo dos escritos postos sob o nome de praticas magicas, Ficino e outros encontra-Hermes). ram em Hermes Trismegisto urna espCcie de justificaqiio e legitimaqiio da propria magia, embora entendida em novo sentido, como veremos. A complexa visiio sincretista de plato- nismo, cristianismo e magia, que constitui A antiguidade tardia aceitou todos es- urna das marcas do Renascimento, encon-ses escritos como autinticos. 0 s Padres cris- tra assim em Hermes Trismegisto, "priscustiios, que neles encontraram acenos a doutri- theologus", urna espCcie de modelo antenas biblicas (corno veremos), ficaram muito litteram ou, pelo menos, urna significativaimpressionados e, conseqiientemente, con- sCrie de estimulos extremamente nutrientes.vencidos de que eles remontavam ? Cpoca i Portanto, sem o Corpus Hermeticum niio Cdos patriarcas biblicos, pensando assim que possivel entender o pensamento renascen-fossem obra de urna espicie de profeta pa- tista.g2o. Foi assim que pensou Lactsncio, porexemplo, como tambtm, em parte, santoAgostinho. Ficino consagrou solenementeessa convicqiio e traduziu o Corpus Herme-ticum, que se tornou texto basilar do pen-samento humanista-renascentista. Assim,por volta de fins do sic. XV (1488), Her-mes foi solenemente acolhido na catedral de Um documento que apresenta muitasSiena, com urna efigie no pavimento com a analogias com os escritos hermtticos t cons-inscriqiio: "Hermes Mercurius Trismegistus, tituido pelos chamados Oraculos caldeus,contemporaneus Moysi" . obra em hexsmetros da qua1 numerosos 0 sincretismo entre doutrinas greco- fragmentos chegaram at6 nos. Com efeito,pagiis, neoplatonismo e cristianismo, tiio podemos encontrar em ambos os escritos adifundido no Renascimento, baseia-se em mesma mistura de filosofemas (extraidos dogrande medida nesse equivoco colossal. mtdio-platonismo e do neopitagorismo),Desse modo, muitos aspectos doutrinirios com acentuaqiio do esquema triidico e tri-da Renascenqa, considerados estranhamente nitario e com representaqdes miticas e fan-paganizantes e estranhamente hibridos, apre- tisticas, apresentando um tip0 analog0 desentam-se agora sob justa luz. religiosidade confusa de inspiraqiio oriental, Na complexa concepqiio hermitica, caracteristica do paganism0 tardio, conju-considerada mais ou menos tiio antiga quan- gada com aniloga pretensiio de transmitirto os mais antigos livros da Biblia, os ho- urna mensagem "revelada".mens do Renascimento niio podiam deixar Nos Oraculos, aliis, o elemento migi-de ficar impressionados com os acenos ao co predomina ainda mais claramente do que"filho de Deus", ao Logos divino, que lem- no Corpus Hermeticum e o componentebra o Evangelho de Joiio. 0 tratado XI11 do especulativo se enfraquece e se submete aCorpus Hermeticum contCm at6 urna espk- objetivos praticos religiosos, a ponto de per-cie de "Sermiio da montanha" e afirma que der toda a sua autonomia.a obra de "regeneraqiio" e salvaqiio do ho- Estes Oraculos, mais do que a sabedo-mem deve-se ao "filho de Deus", definido ria egipcia (a qua1 os escritos hermiticoscomo "um homem por vontade de Deus". tambtm se referem), se vinculam a sabedo- Ficino chegou a considerar o Corpus ria babilhia. Com efeito, a heliolatria cal-Hermeticum at6 mais rico que os proprios tex- dCia ( o culto do sol e do fogo) desempenhatos de MoisCs, no sentido em que ele previ a papel fundamental nesses escritos.encarnaqiio do Logos, do Verbo, dizendo que Como sabemos, seu autor Juliano (quea "Palavra" do Criador C o "Filho de Deus". viveu no sic. 11) foi denominado (ou se fez
  • 35. 17 Capitulo primeiro - O pensamento humanists-renasceot~sta e suas camcte~isticas - -- - -denominar) "o Teurgo". A "teurgia" C a influenciou Pitagoras e Platio, sobretu-"sabedoria" e a "arte" da magia utilizada do no que se refere a doutrina da metempsi-para finalidades mistico-religiosas. E s i o cose.precisamente essas finalidades mistico-reli- Todavia, muitos dos documentos quegiosas que constituem o dado caracteristico chegaram atC nos como "6rficos" s i o falsi-que distingue a teurgia da magia comum. ficaq6es posteriores, nascidas na Cpoca hele- 0 s estudiosos modernos observaram nistico-imperial. A Renascenqa conheceuque, enquanto a magia vulgar utiliza-se de sobretudo os Hinos orficos. Nas atuais edi-nomes e formulas de origem religiosa com qoes, esses hinos s i o oitenta e sete, mais umobjetivos profanos, a teurgia, ao contrario, proemio. Siio dedicados a varias divinda-faz uso das mesmas coisas com fins religio- des, distribuindo-se conforme uma ordemsos. E esses fins, como sabemos, s i o a liber- conceitual precisa. Ao lado de doutrinas quetaqio da alma em relaqio a o corporeo e a remontam ao orfismo original, contem ain-"fatalidade" a ele ligada e a conjunqio com da doutrinas estoicas e doutrinas ~rovenien-o divino. tes do meio filosofico-teologico alixandrino, 0 s renascentistas, porCm, niio pensa- sendo portanto, seguramente, de composi-vam assim, induzidos que foram a grave erro $50 tardia. Mas os renascentistas os consi-por abalizado douto bizantino, Jorge Gemis- deraram autEnticos. Ficino cantava essesto (cerca de 1355-1450),nascido em Cons- hinos para obter a influencia benCfica dastantinopla, que se fez denominar Pleton. Este estrelas.considerou ser Zoroastro o autor dos Ora- Segundo o proprio Ficino, na genea-culos Caldeus e, indo para a Itilia por oca- logia dos profetas Orfeu foi sucessor desiio do Concilio de Florenqa, ministrou li- Hermes Trismegisto e muito proximo a ele.q6es sobre Plat50 e sobre as doutrinas dos Pitagoras ligava-se diretamente a Orfeu.Oraculos, acreditando-os como express50 Platio teria haurido sua doutrina de Hermesdo pensamento de Zoroastro e suscitando e de Orfeu. Assim, Hermes, Orfeu e Plationotavel interesse pelos mesmos. ligaram-se em uma conexio que constitui o Zoroastro foi, portanto, considerado alicerce de toda a construqio do platonismoprofeta ("priscus theologus"), e por vezes renascentista, que, conseqiientemente, mos-apresentado at6 como anterior a Hermes ou tra-se completamente diferente do platonis-como primeiro por cronologia e dignidade mo medieval.com ele. Na realidade, Zoroastro (= Za- E claro, portanto, que, se n i o se leva-ratustra) foi reformador religioso iraniano rem em conta todos os fatores que recorda-do seculo VIINI a.C., que nada tem a ver mos, escapa toda possibilidade de captar ocom os Oraculos Caldeus. significado da proposiqio metafisico-teolo- Esse novo equivoco, portanto, contri- gico-magica da doutrina da Academia flo-buiu grandemente para a difusio da menta- rentina e de grande parte do pensamento doslidade magica na Renascenqa. sics. XV e XVI. A tudo isso devemos agregar ainda a enorme autoridade granjeada pel0 Pseudo- Dionisio Areopagita, que ja &a apreciado CJ O r f e u venascentista na Idade Media. mas agora Dassava a ser " lido com outros interesses (Ficino tambim realizou uma traduqio latina dos escritos de Dionisio). Esse autor, como sabemos, n i o t Orfeu foi poeta mistico da Tracia. Com o santo convertido por s8o Paulo em Ate-ele ligou-se o movimento religioso mistCrico nas, e sim um autor neoplat6nico tardio. Echamado "orfico", do qua1 j i falamos no tambtm essa "falsificaqio" contribuiu paraprimeiro volume. Ja no sCculo VI a.C. esse criar o clima especial de que falamos.poeta-profeta denominava-se "Orfeu de A luz do que foi dito at6 agora, pode-nome famoso". mos passar ao exame do pensamento dos Em relaqio a o Corpus Hermeticum e varios humanistas e das diversas tendcnciasaos Oraculos Caldeus, o orfismo repre- e correntes filos6ficas humanistas e renas-senta uma tradiqio muito mais antiga, que centistas.
  • 36. Primeira parte - O tlumanismo e a R e n a s c e n ~ a campo dos estudos filosoficos ou c~entificos, mas no dos estudos grarnat~cais retoricos [...I. Fl e critica humanista d cibncia medieval i fre- : quentemente radical e violanta, mas ndo toca seus problemas e suas questdes especificas [. . .]. Todavia, se os humanistasforarn dlletantas0 NegagBo do significado em jurisprudbncia, teologia, rnedicina e at& em f~losofia, eles forarn especialistas em uma quan- filosofico do Humanismo tidade de outras rnathrias. Seu carnpo foram a gramhtica, a retorica, a poesia, a historla, e o estudo dos autores gregos e latinos. Eles pe- Ssgundo o sstudioso omsricano P. 0. netrararn tambbrn no campo da filosofia moral, Kristsllar, o Rsnascsngo n8o foi umo tpoca e fizeram alguma tentativa de invadir o da 1691- de sintsss, mas antss um periodo ds tron- ca, tentativa que foi pnmeirarnente dirigida a si@io, s o Humonismo, porticulorments, rs- reduzir a logica d rat6r1ca. s humanistas, con- 0 prssentou um movimsnto confinodo oos es- tudo, ndo daram contributos aos outros rarnos tudos rstoricos e Filologicos a, em suo moior da fllosofia ou da cibncia. port@,sstronho oos intsr~ssss filosoficos. P. 0.Kristeller, Umanesimo e Scolastica nsl R~noscimento itoliano. em "Human~tas". 1950. 51. As corrsntss culturais Ja Renascmsa No literatura filosofica da Ranascen~a aprirneira corrente que nos vern ao encontro & oRristotelismo [...I. 0 Humanismo, segundo en-tre os rnaiores rnovirnantos intelectuais da Re-nascensa, tombbm tave seus precedentes me-dievais, mas atinge seu pleno desanvolvirnentoapenas durante a Ranascensa, do qua1 repre-senta em certo sentido o aspect0 mais caracte-ristico e rnais difuso. E seus precedentes e m ReivindicagBo da valOncicram sua origam, o Humanismo foi um movimen- "filosofico-pragm6tica"to litar6rio rnais qua filosofico, a sua influbnciasobre a historia da filosofia foi antes indireta, do Humcrnismomas forte e penetrante [...I. 0 Platonisrno foisem dljvida o rnais importante entre os v6rios I9 intsrpretog80 ds Kristsllsr sa opds ds-movirnentos filosoficos que surgiram do Hurna- cisivomants o estudioso itoliono Eug&nionismo. Ele rnerece considerqdo 6 parte, tambhm Gorin, qus sustsntou qus os vsrdodsiros fi-porque teve outras raizes fora do classicismo Iosofos do 400, otivos foro dos "~scolos filo-humanista [...I. Outro grupo de pensadores, o soficos" oficiais, forom justarnsnts os humo-dos assim chamados filosofos da natureza, & nistas: elss souberam construir um mQtodoconstituido por alguns dos mas fomosos pen- novo para snfr~ntor divsrsos problsrnos ossadores do periodo, como Paracelso, Bruno e do culturo s do vida prdtico. Contr6rios 6sCampanella. Ainda menos que os aristot&licos, Qrondsscotsdrais ds idbias", os humonistosos humanistas e at& os plat6nicos, ales podem se d~dicoramo indogar metodicomsnte sser considerados como escola ou trodisdo concrstomsnts os objstos dos ci&ncios rno-unificada [...I. A ljltlma corrente intelectual da rois e dos ci$ncios naturo/s.E, ssgundo Gorin,Renascenp que devernos lernbrar, e talvez a o otsnq50 Klologico" aos problemos porti-rnais importante, & a que desembocou no ci&n- culorss constitui justoments o novo filoso-cia cl6ssica rnoderna. fia", thico do Rsnoscsnp. P. 0. Kr~steller, Movirnenti Filosohci d d Rhascimento, em "Giornale critic0 della filosofia italiano", 1950. 99 1. A filosofia humanista foi extra-sscolastica2. 0 s humanistas niio foram filosofos Repetir, como se tem feito, que o Huma- Creio que os humanistas italianos de fato nismo foi fen6rneno ndo "filosofico",purarnentendo foram fil6sofos, nem bons nem maus. Com liter6rio e retorico; qua os humanlstas foramefeito, o movirnento hurnanista ndo surgiu no apenas rnestres de eloqu&ncia e grarn6ticos,
  • 37. - r u w l % / i LLLX ~3.1~1 19 & 81": Capitulo primeiro - O pensamento humanisfa-renascentista e suas caracteristicassignif~ca primsiro lugar dar como pacifica uma em ctoritos, tam em todo Bmbto aquela exube-vis6o do filosofar que est6, ao contrbrio, em dis- rBncia que o "honesto", mas "obtuso", escolas-cuss6o; s significa, ao mesmo tempo, n60 vsr ticismo ignorou.bem claro os studio humonitot~s, "retor~ca" a e E. Garin,as "cartas". E significa tambhm esquecer que IUmonesimo itoliono.aquele movimento de cultura afirmou-se primel-ramente fora da "escola", entre homens deaq50, polit~cos, senhores, chanceleres de r e p -blicas e 0th d~rigentes, mercadores e mesmoartistas a artesdos. E na "escola"entrou por meiodas disciplinas logicas e morais; med~ante novalinguagem e o estabelec~mento novas rela- de@es. R filosofia para a qua1 certos historiodoresolham, a "teologia" das escolas medievais, quacertamente foi coisa grandissima, naqueles dias 0 individualismovia justamente suas aulas tornorem-sedesertas,e sempre menor o eco de seus ensinamentos. como marco originalDepois que por sQulos, e grandes sQulos, o pen- da Renascen~asamento humano dedicara-se sobretudo 6 ela-bora(6o de uma filosof~a experi6ncia reli- dagiosa, e tudo fora visto sob tal signo, agora a 0orgumanto fundomanto1do ansolo darazSlo humana voltavo todo seu esfor~o para o Jocob Rurckhordt, La cultura del Rinascimentohomem "poeta", para sua "cidade", para a na- in ltalia (1860), C o dassnvolvirnanto do in-tureza mundana qus estava conquistando. d~viduo civilizogio do Ranoscanp: o mito no da umo humanitas anfirn libarto do torporme- E. Gar~n. Meclloevo e Rinascimento. dtsvol s obarto o todos as axper16nciosdo vido (raligiosos, socio~s,ortisticos, politicos). Rurckhordt cont~nuovo ossim o p6r o ocanto,2. 0 s humanistas contra as grandes corno os rombnticos, sobra o tema clo kuptu- "catedrais de idiias" da Escolastica ro" antra Iclode MQdioa Ranoscango. Todavia, para dlzer a verdade, a raz6ointima do condena@o do siqmficado filosoficodo Humanismo 6 outra; e de resto manifesta- 1. 0 despertar do "individuo"se claramente a partir da continua refer6nclapor contraste com as sinteses metafisico-teolo- No ldade M&diaos dois lados da consci6n-gicas da "obtusa mas honesta Escol6stica":tra- cia - o que reflete em si o mundo externo s ota-se do amor sobrevivente por uma imagem qua mostra a imagem da vida interna do homemdo filosofia qua o pensamento do Quatrocen- - estavam como que envolvidos por urn vhu co-tos constantamente sentlu. Com efeito, aquilo mum, sob o qua1 ou languesciam em lento torporde que se lamenta por tantos a perda foi justa- ou se moviam em u mundo de puros sonhos. mmente aquilo que os humanistas qulseram des- Ovhu era tecido de fh, de 1gnor6ncia infantil, detruir, isto 6, a constru@o das grandes "catedrais vds ilus6es: vistos atravhs dele, o mundo e ade idhias", das grandes sistematizaq3es Iogico- historia apareciam revestidos de cores fanMsti-teoloqicas: do F dosofia qua subsume todo pro- cas, mas o homem n6o tinha valor a n6o ser comoblem~, toda pesquisa, ao problema teologico, membro de uma familia, de um povo, de u mque organiza e fecha toda possibilidade no tra- partido, de uma corpora(60, das quais quasema de uma ordem logica preestabelecida. inteiramente vivia a vida. fl Itblia & a primeira aI?quela Filosofia, que foi ignorada na era do Hu- rasgar este vhu e a consideror o Estado e todasmanlsmo como vSl e inutil, se substituem pes- as coisas terrenas de um ponto de vista objati-quisas concretas, definidas, precisas, nos duos vo; mas ao mesmo tempo se desperta podero-dire@ss das ci6ncias morais (htica, polit~ca, samente no ital~ano sentimento de SI e de seu oecon6m1ca, esthtica, Iogico-retorica) e das ci6n- valor pessoal ou subjativo: o homem se transfor-cias do natureza qua, cultivadas luxto propr~o ma no indivicluo, e se ofirma como tal.principio,"ora de todo vinculo e de toda ou- 2. 0 advento de homens "universais" Ora, quando este prepotents impulso vi- Subord~no nha a cair em uma natureza extraordinariamen- "Sagundo saus pr~ncip~os paculinras" te valorosa e verdtil, a ponto de se apropriar
  • 38. ao mesmo tempo de todos os elementos da R Renascen~a est6 enraizada na ldadeculturo daquela era, tinha-se entao o homsm MBdia, e [...I f o ~ dominada por profundo im-univsrsol, que pertence exclusivamente 6 IM- pulse para human~zar religido [...I: a opinido. aha. Homens de saber enciclop&dico houve em h6 muito tempo dominante e ainda ndo intei-todos os lugares no ldade Mhdia em mais pa- ramente morta, que atribui b Renascen~a umi s e ~porque o saber era mais restrito e os ra- , car6ter pagdo [...I. & um erro, e esta oplnidomos do cognoscivel mais afins entre si; e pela err6nea surgiu de uma visdo anti-historica,mesma razdo at& o s&culo XI1 encontram-seor- como de uma tend&ncia racionalista,classiciststistas universais, porque os problemas da or- e liberal.quitetura eram relativamente simples e unifor- R Renascen~a surgiu no despertar, e pormes, e na escultura e na pintura o conceito ou a meio do despertar do pensamento de uni-substdncia do coisa a ser representada preva- dade do Estado nacional. Na lt6lia o ssnti-lecia sobre a forma. Na lt6lia da Renascenp, mento nacional jamais se apagara, mesmoao contrdrio, nos nos defrontomos com artistas durante a ldade MBdia. Conservara-se sobsingulares, os quais em todos os ramos apre- as cinzas, mesmo quando Bizdncio, os Godos,sentam criaq%s de fato novas e perfsitas em os longobardos, a monarquia franco-carolin-seu g&nero, e ao memo tempo emergem sin- gia, os imperadores alemdes das dinastiasgularmente tambhm como homens. Outros sdo sax6nlca, s6lica, sueca, aplicaram suas pre-universa~s abraqm, al&m do circulo da arte, e tensaes ao dominio politico sobre a It6lia.tambhm o campo incomensur6vel da ci&nc~a com enquanto de outro lado a CCltedra de Pedro,sintese maravilhosa. em sua r~validade luta com o impbrio uni- e J. Burckhardt, versal olemdo, cr~ara-se, em base de seu l a culturo dsl Rinascimento in Ital~a. pr~ncipotus eclesi6stico mundial, um dominlum terreno sobre a terra itCllica, em Roma, sede origindria da monarquia universal antiga. 0 sentimento nac~onal italiano viveu sampre da lembrancp do antiga grandeza do Estado ro- mano. No s&culo XI1 inflamou-se na revolu- $60 e restaurar;do nacional de Rrnaldo de Br&scia, que p6de ser abatida pelo papa e pelo ~mperadorOarbarroxa. Todavia, desde o shculo XI os municipios it6licos haviam chegado no auge do bem-estar econ8mico e civil [. . .] e quando, depois do morte do Impe- rador Federico II e o apos a queda casa de Soave, chegou ao fim a terrivel luta entre imp&r~o papado pela hegemonia politico e 0prsconcsito romdntico de umo ruptu- universal, quando a lt6lia se sentiu livre do ro sntrs Idods Mddio s Renoscengo foi ds- dominio alemdo, seu sentimento nacional ex- cididomente combotido sm nosso sQculo plodiu em um grande inchndio espiritual, po- pslo sstudioso olsmao Konrod Burdoch, litico-social e artistico. Esto foi a fonts espiri- qua mostrou como o Renoscsnp t~vsro suos tual da Ranascenp. roizss e suo fonts sspirituol no iddio, difun- 0 antigo pensamento de Roma, jamais dido no Itdlio mscl,sval e sxprssso sobrs- extinto, fez afluir nova e maior for~a. Rienzo, tudopor Colo di Risnzo, de renascimento poli- inspirado pela ld&ia politico de Dante, mas ul- tico e rellgioso do Estado romano. FI humanitas trapassando-a, proclamou, profeto de futuro do Ouotrocantos se concrstizou, portonto, longinquo, a grande exig&ncia nacional do nssto perspactivo ds rsconciliog~o sntrs fd Renascimento de Roma. 6, sobre esta base, a s espirito nocionol, s Colo di Rienzo foi o poi exig&ncia da unidade da It6lia. sspirituol do procssso ds formogio dos Es- K Burdach. todos nociono~s europsus. Slgnlhcoto e origlne ddle parole "Rinoscimento"s "R~forma "
  • 39. 0 s debates ernas r n o v a i s 1)a propagagso d o "naturalismo " di- fundido pel0 pensamento arabe, especial- mente por Averrois; 2 ) o predominio indiscriminado da Como j i dissemos, Francisco Petrar- dialetica e da logica, com a respectiva men-ca (1304-1374)C considerado unanimemen- talidade racionalista.te como o primeiro humanista. Isso estava E julgou facil indicar os antidotos paramuito claro para todos ja nas primeiras dC- esses dois males:cadas do sCc. XV, quando Leonardo Bruni 1)ao invCs de nos dispersarmos no co-escrevia solenemente: "Francisco Petrarca nhecimento puramente exterior da nature-foi o primeiro, tendo tanta graCa e enge- za, e precis0 voltarmo-nos para nos mesmos,nho, que reconheceu e trouxe a luz a an- objetivando o conhecimento da propriatiga graciosidade do estilo perdido e ex- alma;tinto." 2) ao invis de nos perdermos nos vazios E como Petrarca chegou ao Humanis- exercicios dialeticos, precisamos redescobrirmo? Partindo do exame e da atenta analise a eloqiiikcia, as humanae litterae cicero-da "corrup@o" e da "impiedade" de seu nianas.tempo, ele procurou identificar as causas, Com isso, ficam perfeitamente delinea-para tentar remedia-las. E, em sua opiniao, dos o programa e o mCtodo do "filosofar"as causas eram basicamente duas, estreita- proprios de Petrarca: a verdadeira sabedoriamente ligadas entre si: esta em conhecer-se a si mesmo, e o caminho
  • 40. 22 Primeira parfe - 0tlumanismo r a Renascenia(0 mCtodo) para alcanqar essa sabedoria estanas artes liberais. A passagem indubitavelmente mais fa-mosa que ilustra a primeira parte C aquele 0 caminho aberto por Petrarca foi se-trecho da Epistola que narra a subida ao mon- guido com sucesso por Coluccio Salutati,te Ventoso. Chegando ao cume do monte que nasceu em 1331 e se tornou chancelerdepois de longa caminhada, Petrarca abriu da Republics de Florenqa de 1374 a 1406 .as Confiss6es de santo Agostinho e as pri- Ele C importante sobretudo pelos se-meiras ~ a l a v r a s leu foram estas: "E os que guintes motivos:homens admiram os altos montes, as gran- a) prosseguiu com grande vigor a po-des ondas do mar, os largos leitos dos rios, limica contra a medicina e as ciincias natu-a imensidade do oceano e o curso das estre- rais, reafirmando a tese da supremacia daslas; e esquecem-se de si mesmos. " E eis o seu artes liberais;comentario: "Ha muito tempo eu deveria b) contra a colocaS50 dialitico-racio-ter aprendido, inclusive com os filosofos nalista de sua Cpoca, sustentou uma vis5o depag5os, que nada C digno de admiral50 filosofia entendida como mensagem testemu-alCm da alma, para a qual nada 6 grande nhada e transmitida com a propria vida (cornodemais" . fez o pag5o Socrates e como fizeram Cristo e Da mesma forma, no que se refere ao se- santos como Francisco) e centrada no ato dagundo ponto que apontamos, Petrarca in- vontade como exercicio de liberdade;siste no fato de que a "dialktica" leva a im- c) sustentou vigorosamente o primadopiedade e niio a sabedoria. 0 sentido da vida da vida ativa sobre a contemplativa;nao C revelado por montes de silogismos, d) como operador cultural teve o gran-mas sim pelas artes liberais, cultivadas opor- de mirito de ter promovido a instituic;io datunamente, isto C, n5o como fins em si mes- primeira citedra de grego em Florenqa, sen-mas, mas como instrumentos de formaqso do chamado a Itilia para assumi-la o doutoespiritual. bizantino Manuel Crisolora (1350-1415). A antiga definiq50 de filosofia dada por A seguinte passagem d o tratado SobrePlat50 no Fedon C apresentada como coin- a nobreza das leis e da medicina (utilizamoscidente com a visiio cristg: a verdadeira fi- a traduqao de E. Garin), ilustra muito bemlosofia n50 C mais que o pensamento e a a concepqiio do primado da vida ativa so-meditaqio sobre a morte. bye a contemplativa, a qual retornaria mui- Compreendemos, portanto, como a con- tas vezes o pensamento do Quatrocentos etraposig50 entre Arist6teles e Plat50 se apre- que constitui uma das marcas do huma- sentasse inevitavel. Em si mesmo, Aristoteles n i s m ~Dirigindo-se a quem foge da vida dos . C respeitavel, mas foi ele quem forneceu as homens para concentrar-se na pura especu- armas para os averroistas, sendo utilizado laqiio, ele escreve: "Para dizer a verdade, para construir aquele "naturalismo" e aque- afirmo corajosamente e confess0 candida- la "mentalidade dialCtican a que Petrarca mente que, sem inveja e sem contrariedade, tinha tanta aversgo. Assim, Plat50 (um Pla- deixo de bom grado para ti e para quem t5o que, no entanto, ele n5o podia ler, pois eleva ao cCu a pura especula@o todas as n5o conhecia o grego) torna-se o simbolo outras verdades, desde que se me deixe a do pensamento humanista, "o principe de cogni@o das coisas humanas. Podes perma- toda filosofia". necer cheio de contemplaq50, mas que, ao Para concluir, citamos uma afirmaq50 contrario, eu possa ficar rico de bondade. que mostra a que altura Petrarca elevara Podes meditar por ti mesmo, procura o ver- a dignidade da "palavra" que, em certo dadeiro e regozija-te ao encontra-lo. (...) sentido, se tornaria para os humanistas Que eu, ao contrario, esteja sempre imerso aquilo que h i de mais importante: "Pois na a@o, voltado para o fim supremo. Que Socrates, vendo um belo jovem em silin- toda a@o minha sirva a mim, A familia, aos cio, disse-lhe: Fala, para que eu possa ver- parentes e - o que C ainda melhor - que te! Pois ele pensava que n2.o e tanto pela eu possa ser util aos amigos e a patria e pos- fisionomia que se vZ o homem, mas pelas sa viver de modo a servir a sociedade hu-palavras. " mana pel0 exemplo e pelas obras. "
  • 41. 23 Capitulo segundo - 0 s debates sobre problemas morais e o Nee-rpicurismo 11. 8 debates s sobve tem6ticas ~tico-politicas No 400, o Humanism0 es~iritualista intimista de Petrarca foi sendo substi- e tuido, decisivamente, por u m ~ u m a n i s m o civilmente e politicamente mais empe- nhado. Protagonistas desta direqao foram principalmente Leonardo Bruni (1370- 1444), cuja fama esta ligada sobretudo as traduqdes da Politica e Temas ~tico- da gtica de Aristoteles, e Poggio Bracciolini (1380-1459), que dis- politicos cutiu a fundo o problema da relasao entre "virtude" e "sorte", em alguns sustentando que a primeira pode ter supremacia sobre a segun- humanistas da principalmente operando em favor d o Estado. do Quatrocentos Figura versatil e polikdrica de humanista f o i Leon Battista -+ 5 1-3 Alberti (1404-1472). que se ocupou sobretudo dos seguintes temas: a) a critica das investigasdes teologico-metafisicas e a contraposiq2o das in- vestigaqdes morais a elas; b) a exaltas20 d o homo faber e da sua atividade factiva e construtora dirigida a utilidade de todos os outros homens e da Cidade; c) a relevdncia d o conceito de "ordem" e de "proporqao" entre as partes nas artes, porque a verdadeira arte reproduz e recria a ordem que existe na realidade das coisas; d)a relaq2o entre "virtude" e "sorte", pel0 que a virtude ti a atividade pecu- liar d o homem que o aperfei~oa,garante sua supremacia sobre as coisas e tem precedencia sobre a sorte. porque forneceram linfa vital para a pro- pria especulagio. Bruni op8s ao humanismo espiritualis- ta e intimista de Petrarca um humanismo Leonardo Bruni (1370-1444), inicial- mais empenhado politica e civilmente. Paramente funcionirio da Curia Romana e de- ele, os clissicos s i o precisamente mestres depois chanceler em Floren~a,foi discipulo, virtudes "civis". Assim, para Bruni, C para-amigo e continuador da obra de Salutati. d i g m a t i c ~ conceito aristotClico de homem o 0 s efeitos do ensino da lingua grega entendido como "animal politico", que sepor Crisolora j i se manifestam em Bruni torna o eixo do seu pensamento: o homemcomo frutos extraordinariamente maduros. so se realiza plena e verdadeiramente na di-Com efeito, ele traduziu Plat50 (Fkdon, Gor- mensiio social e civil indicada por Aristotelesgias, Fedro, Apologia, Criton, Cartas,e par- em A politica.cialmente 0 banquete), Aristoteles (Etica a Mas a Etica a NicBmaco de Arist6telesNicBmaco, EconBmicos, Politica), e ainda tambCm C reavaliada por ele. Bruni estavaPlutarco e Xenofonte, Demostenes e Es- convencido de que sua dimens50 "contem-quines. Revestem-se de interesse filosofico plativa" havia sido substancialmente exa-seus Dialogos e a Introdu@o a promo@o gerada e, em grande parte, deformada. 0moral, alCm das Epistolas. que vale mais n5o C o objeto contemplado, A fama de Bruni liga-se sobretudo i s e sim o homem que pensa e, enquanto pen-tradu@es de Politica e Etica a NicBmaco sa, age. 0 "sumo bem" de que fala a Eticade Aristoteles, que fizeram ipoca n i o ape- a NicBmaco n i o 6 um bem abstrato ou, denas porque contribuiram para mudar o tip0 qualquer forma, transcendente ao homem,de aproximaqio desses textos, mas tambCm mas sim o bem do homem, a realizaq50 con-
  • 42. 24 Primeira parte - O t l u m a n i s m o e n Renascencacreta de sua virtude, que, como tal, nos da a C ) a gloria e a nobreza como fruto dafelicidade. virtude individual; Como Aristoteles, Bruni reavalia o pra- d) a quest20 da "sorte", que torna ins-zer, entendido sobretudo como conseqiitn- tavel e problematica a vida dos homens,cia da atividade que o homem desenvolve mas contra a qual a virtude pode levar asegundo sua propria natureza. melhor; Ainda como Aristoteles, Bruni sustenta e) a reavaliaqgo das riquezas (ja iniciadaque o verdadeiro parimetro dos juizos morais por L. Bruni na introduqiio aos Econ6micost o homem bom (e n20 uma regra abstra- de Aristoteles), consideradas como o nervota). E realizando o bem e a virtude, o homem do Estado e como aquilo que torna possivel,realiza a felicidade. Eis as suas conclusdes: nas cidades, os templos, os monumentos, a"Se, portanto, quisermos ser felizes, empe- arte, os ornamentos e toda beleza.nhemo-nos em ser bons e virtuosos". Bracciolini se concentra sobre um dos pensamentos-chave do Humanismo: a verda- deira nobreza e aquela que cada um conquis- ta agindo. Pensamento que nada mais i do.&515 Pog9io Bvacciolini que uma variante de outro conceit0 basilar, de origem romana, ngo menos car0 a essa ipoca: cada qual e artifice da pr6pria sorte. Poggio Bracciolini (1380-1459),secre-tario da Curia Romana e depois chancelerem Florenqa, tambtm era muito ligado a L e o n Battista AlbevtiSalutati. Foi um dos mais esforqados e fer-vorosos descobridores de antigos codices. Em suas obras, ele debate tematicas que sehaviam tornado can6nicas nas discussdes dos Uma figura de humanista de interesseshumanistas, particularmente as seguintes: poliidricos foi Leon Battista Alberti (1404- a) o elogio da vida ativa em oposiqio h 1472), que, alim das questdes filosoficas,ascese da vida contemplativa vivida em so- tambim se ocupou de matematica e de ar-lidao; quitetura. Sao conhecidos especialmente b) o valor de formaqao humana e civil seus escritos Sobre a arquitetura, Da pintu-das litterae; ra, Da familia, Do govern0 da casa, Inter- cenais (recentemente descobertos por Garin em sua integridade). Eis alguns temas (entre tantos outros) que se destacam em Alberti: a) Em primeiro lugar, deve-se destacar a critica das investigaqdes teologico-meta- fisicas, consideradas vas, contrapondo a elas as investigaqdes morais. Para Alberti, i inu- ti1 procurar descobrir as causas supremas das coisas, porque isso nao foi concedido aos homens, que s6 podem conhecer aquilo que est4 sob seus olhos, ou seja, por meio da experitncia. b) Ligada a essa critica encontra-se a exaltaqio do homo faber e de sua atividade produtiva e construtora, ou seja, aquela ati- vidade que n2o esta voltada apenas para o beneficio do individuo, mas tambCm para o beneficio de todos os outros homens e da cidade. Por isso, ele censura a sentenqa de Epicuro, "que, em Deus, reputa como suma L eon Ruttlstu Albert1 ( 1 404-1 472) felicidade o nada fazer", sustentando que a fol hummrsta tic rnteresses polrt.drrcos, verdade i exatamente o contririo e que o frhsofo, matematrco e arqulteto. supremo vicio i "estar a toa". Sem a aq20, Este retrato fol ttrado tie ulna rncrsio. a contemplaqiio n2o tem sentido. N o entan-
  • 43. 25 Capitdo segundo - 8 s debates sobre problemas morais e o Nee-epicurismoto, elogia os estoicos, que consideravam "ohomem ser pela natureza constituido nomundo especulador e operador das coisas"e achavam que "cada coisa nasceu para ser-vir ao homem e o homem para conservar acompanhia e a amizade entre os homens". Para concluir, recordemos alguns no-E louva Plat50 por ter escrito que "0s ho- mes de cilebres humanistas do siculo XV.mens nasceram por motivo dos homens". Giannozzo Manetti (1396-1459) tra- C)Nas artes, Alberti destacou a grande duziu Aristoteles e os Salmos, mas ficou co-import4ncia do conceit0 de "ordem" e "pro- nhecido sobretudo por seu escrito De digni-porqiio" entre as partes: a arte reproduz e tate et excellentia hominis, corn o qua1 abriurecria aquela ordem entre as partes que exis- a grande discuss50 "sobre a dignidade dote na realidade das coisas. homem" e sua superioridade em relaqiio as d ) Mas um dos temas mais caracteris- outras criaturas.ticos debatidos por Alberti i o da relaqiio Mateus Palmieri (1406-1475)conciliouentre "virtude" e "sorte". Para ele, a "vir- vida contemplativa e vida ativa. Embora re-tude" n5o i tanto a virtus crist5, mas muito afirmando a fecundidade da obra humanamais a arete grega, ou seja, aquela atividade e o papel central da cidade, revela inflextiespeculiar do homem que o aperfeiqoa e lhe plat8nicas que antecipam uma mudanqa degarante a supremacia sobre as coisas. Em clima espiritual.especial, apesar de algumas observaqties Por fim, devemos mencionar Ermolaupessimistas, Alberti mostra-se firmemente Barbaro (1453-1493), que se qualificou co-convencido de que, quando considerada e mo tradutor de Aristoteles (chegou a t i nosexercida de mod0 realista e n5o como velei- a tradu@o da Retorica), empenhando-se emdade, a virtude leva a melhor sobre a sorte. restituir ao texto do Estagirita o seu antigo Duas afirmaqties mas, sobre o sentido espirito, libertando-o das incrustaqties me-da atividade humana e sobre a superiorida- dievais.de da virtude sobre a fortuna, tornaram-se Uma afirmaqiio sua tornou-se famosis-particularmente cilebres: o homem nasceu sima: "Reconheqo dois senhores: Cristo e "niio para murchar jazendo, mas sim para as letras." Essa divinizaqiio das letras leva-estar de pe fazendo". " A fortuna subjuga va Ermolau Barbaro a uma posiqiio quaseapenas q u e m se lhe submete." de ruptura; com efeito, ele chegava a ponto Essas afirmaqties s5o como que duas de propor o celibato e o descompromisso esplhdidas epigrafes que valem para todo civil para os doutos, a fim de que pudessemo movimento humanista. se dedicar inteiramente ao oficio das letras. Frs a planta de Eloren~a por uolta d o ano 1 $00 (trrutla d~ " I ~llustruzrorre rtul~anu"I9 10). Murtos dos hunrunrstus mars rmportantes d o 400 vrveranr e m blorerz~a scJ tornurum chatzrelcres; e errtrc estes C o l u ~ ~ Salutdtl, L2c~onurdo r u n ~ Pogg~oH ~ L I L C I O ~ I I I I . ro R ,
  • 44. 111. LourenCo Valla A posis8o filosofica de Lourenso Valla (1407-1457) constitui uma retomada em base crista do Epicurismo: ela, com efeito, esta marcada por uma pol@mica cerrada contra o ascetismo estoico e monastico, aos quais Valla contrapde as ins- tancias do prazer, entendido porem no sentido mais amplo. A Louren~o va//a: tese de fundo de Valla e que todo produto da natureza e santo e o Neo-epicurismo louvavel, e, portanto, tambem o e o prazer; mas existem diferen- e o metodo tes graus de prazer, e o vertice e constituido pelo amor crist8o de filologico Deus. Por isso o prazer maximamente desejavel, que e tambem o + 2 1-3 sumo bem, encontra-se na religi80 crist8 e e alcansavel n8o na terra, mas nos ceus. A isso liga-se tambem a conceps80 de Valla da filologia, enquanto a salva- $80 do homem e garantida pela verdade, e a verdade e restituida pela correta intepretagao da "palavra"; o metodo filologico permite justamente respeitar a palavra e restitui-la em sua genuinidade para entender o espirito que ela expri- me: isso e necessdrio por causa da propria sacralidade da linguagem, porque a lingua e encarnag80 do espirito dos homens, e a palavra e encarnagao de seu pensamento. 1. 0Bee-epic~vismo de VaIIa Valla niio tem duvida de que se possa chamar de "prazer" at6 a felicidade de que a alma desfruta no Paraiso. Uma das figuras mais ricas e significa-tivas do Quatrocentos foi certamente Lou-renqo Valla (1407-1457). Sua posiq5o filosofica, como se expres-sa sobretudo na obra Do verdadeiro e dofalso bem, i marcada por viva polemica 0 resultado ultimo dessa amplificaqiiocontra o ascetismo estoico e contra os ex- do prazer 6 uma transcendcncia em relaqiiocessos do ascetismo moniistico, em oposi- ii doutrina do proprio Epicuro. Com efeito,q5o aos quais afirma as inst2ncias d o "pra- o impact0 desta doutrina com o cristianis-zer", entendido, porem, em seu sentido mo muda sua figura, como o proprio Vallamais amplo e niio somente como prazer da expressamente afirma: "Desta forma, refu-carne. 0 trabalho de Valla representa, por- tei ou condenei a doutrina tanto dos epi-tanto. uma curiosa tentativa de retomada curistas como a dos estoicos, e mostrei quedo epicurismo, relanqado e resgatado em nem com uns nem com outros, nem mesmobases cristiis. com qualquer um dos filosofos, ha o bem 0 raciocinio de fundo de Valla i o se- sumo ou desejavel, e sim em nossa religiiio,guinte: tudo aquilo que a natureza fez "niio a ser alcanqado niio na terra mas nos cius".pode ser sen50 santo e louviivel"; o pra- Se levarmos em conta essas afirmaqties,zer deve ser visto nessa otica. isto i. deve n50 nos surpreenderiio as conclusties a queser considerado ele proprio como santo e chega Valla em outra obra cilebre que es-louvavel; mas, como o homem i feito de cor- creveu: Sobre o livre-arbitrio. Contra a ra-po e alma, o prazer se explica em diferentes ziio silogizante e contra o conhecimento doniveis; assim, ha um prazer sensivel, que 6 o divino entendido aristotelicamente, Valla fazmais inferior, mas tambim existem os pra- valer as insthcias da fi, entendida como azeres do espirito, das leis, das intituiqGes, entende siio Paulo, e contraptie as virtudesdas artes e da cultura, bem corno, acima teologais i s virtudes do intelecto, escreven-de todos, o prazer do amor cristio por do textualmente: "Fujamos portanto daDeus. cupidez de conhecer as coisas superiores e
  • 45. 27 Capitulo segundo - 0 s debates sobre problemas moi.ais e o Nee-epirurismo l2ouren(-oVullu (1407-14.C7) propfis uinn fortnu tie Epicurlsrno concilratd coin u cloutrinil iristd; u l t m disso foi filtjlogo de ~ w l o r : cfescohriu - entre ontrus C O ~ S U S- a fulsidade do documento referente a celchre "Doa@o de Constunt~no ". Tirutnos estc retrato de ulna estuwzp~ conservada nu Civica Kuccolta delle Stampc Rcrturelli, ern Miliio.nos aproximemos muito mais das coisas hu- 0 trabalho de pesquisa filologica demildes. Nada importa mais para o cristio Valla tambCm se estendeu aos textos sagra-do que a humildade. Desse modo, sentimos dos, na obra Confrontos e anota~ijes sobremuito mais a magnificencia de Deus, pois o N o v o Testamento extraidas de diuersosestii escrito: Deus resiste aos soberbos, mas codices de lingua grega e de lingua latina,concede a graqa aos humildes. " 8-5,; que tinha o objetivo de restituir o texto genuino d o Novo Testamento e, desse modo, torni-lo mais inteligivel. 0 s estu- diosos destacaram que, com essa delicada A filologia d e Valla: operaqio, Valla pretendia opor o mitodo filologico ao mitodo filosofico medieval das a "palavra" quaestiones na leitura dos textos sacros, polindo-os de todas as incrustaqoes que se haviam depositado sobre eles ao longo dos siculos. Analogamente, apenas nessa otica e nes- Dessa forma, Valla abria um caminhose espirito podemos entender corretamente destinado a um grande futuro. E a forqao Discurso sobre a falsa e mentirosa doa@o demolidora do seu metodo revela-se por in-de Constantino, no qual Valla demonstra com teiro no termo com o qual ele indica a lin-rigorosas bases filologicas a falsidade do do- gua latina, isto 6, "sacramentum." Paracumento sobre o qual a Igreja fundava a le- Valla (como bem esclareceu Garin), a lin-gitimidade de seu poder temporal, fonte de gua C encarnaqio do espirito dos homenscorrupqio. A correta interpretaqio da "pa- e a palavra C encarnaqio do seu pensa-lavra: restitui a verdade, e esta salva. mento. E assim que Valla conclui esse admi- Dai a sacralidade da linguagem e a ne-ravel escrito: "Que eu possa um dia ver - cessidade de respeitar a palavra e restitui-lae n i o hii nada que eu deseje mais forte- a sua genuinidade, para entender o espiritomente d o que ver isso, especialmente se que ela expressa.acontecer a meu conselho - o Papa sendo Com Valla, o humanism0 alcanqa umaapenas vigiirio de Cristo e n i o tambCm de de suas conquistas mais elevadas e dura-CCsar! " douras.
  • 46. Primeira parte - 0 H u m a n i s m o e a R e n a s c e n G a tas estar no sumo grau da felicidade toda vez que compuseste por acaso, com muita vertigem cerebral, ficando insone uma noite inteira, um fr6gil silogismo que ndo conclui nada de nada. 2. A verdadeira filosofia Verdodeiro sobedorin 6 meditag6o sobre a morte Meditar profundamente sobre a morte, armor-se contra ela, dispor-se a desprez6-la e Unonimsmente considerodo como o a suportd-la, enfrentd-la, caso necsssdrio, dan- principal precursor dos humonistos, ou mes- do esta breve e misera vida em troca da vida mo como o primeiro humonisto, Francisco sterna, da felicidade, da gloria: eis a verda- Petrorco teve efetivomente IGcida consci&n- deircl filosofia, que alguns disseram ndo ser cio do volor dos studio humanitatis no psrs- outra coisa que o pensamento do morte. Expli- pactivo do filosofio: o verdodeira sobsdorio ca<do esta, do filosofia, que, embora encon- consist5 em conhecer o si mesmos, e o via (o mdtodo) poro reolizor tal sobadorio est6 trada pelos pagdos, todavia & pr6pr1a cris- dos t6os, que devem sentir o desprezo por esta vida nos artes libarois cultivados oportunomante, e a esperclnp do sternidads, e o desejo do isto 6, como instrumentos de forma@o espi- ritual. dissolu<do.Se tu, 6 velho del~rante, que pom- posamentee te chamas filosofo, tivesses pen- Petrorco defin~uoldm disso o verdodei- sado aquilo mesmo uma vez apenas em uma ro filosofio como pensomento e meditoqdo vida assim longa,jamais terias ousado chamar- sobre o morte, referindo-ss 6,possogem do te filosofo, nem terlas parado onde paraste, FBdon plotbnico, em que Socrotes ofirmo: "To- nem te venderias torpemente por tdo pouco dos oqueles que proticom o filosoFio de modo dinheiro, aviltando com os fatos tua profissdo, reto arriscom qua posse despercebido oos que enalteces com as palavras. outros que sua authntico ocupogdo ndo C mois qus morrer a estor mortos". -- 3. 0 valor do solid60 e o conhecimento de si mesmos R soliddo & carente de muitos prazeres1. A artes liberais s6o o caminho, s do vulgo, mas & abundante de prazeres pro- n8o a meta prios: repouso, liberdade, ocio. Rneu disse, s Dizes em primeiro lugar que estou priva- 6 verdade: "0 ocio sem as letras & morte. 6do de Logica; espero que ndo me negues a sepultya dos v ~ v o s " . ~Retorica e a Gram6tic0, que estdo compreen- E certo que o solit6rlo Ignorante, se Cristo n6o estiver continuamente com el@,por maiordidas no nome da Logica, embora tamb&m issopossas facer, conforme teu parecer. Sumo exem- que seja o espqo do terra qua ele tiver a suaplo de todo barbarismo, tu me tiras apenas a disposi@o, estard amarrado sem grilhdes.Dial&tica, no qua1 taus silogismos te mostram Ndo me maravilho que este g&nero deser excelente, e que chamas Log~ca. vida seja malvisto por ti. 0 que farias sntdo, a "€iso delito, 6 juizes". Ora, se quisesse po- ndo ser contar as horas e esperar o momentoderia fazer ver que os ilustres filosofos cqoam em que deves ir 6 ceia, conforme teus h6bitos.dessa propria Dialbtica, do qua1 sou acusado e quando a0 Ieito? N60 haveria ningubm comde estar privado; e eu poderia demonstrar, como quam pudesses dar uma volta, ou com o qua1 pudesses gritar; nem saberias falar contigo. Talse I& em Cicero, que os antigos peripat&ticos,clarissima seita de filosofos, tamb&m a deixa- virtude 6 de poucos homens; e nestes lugares,ram de lado. Todavia, 6 estulto, dela ndo estou confesso, h6 bem poucos, ou melhor, quase ningubm. Eu, ao contrdrio, pelo grande amorprivado: sei que valor dar a ela e que valor dards artes liberais. Rprendi com os filosofos a nBo que dedico 6s letras, vivo uma vida tdo bela eestimar excessivamente nenhuma delas. Portan- t60 doce que, se conhecesses o estado do meuto, assim como & louv6vel t&-lasaprendido, tam- Bn~mo, creio que odiarias a hora em que nas-b&m & puer~l nelas envelhecer. Elas s6o o cami-nho, n60 a meta: exceto para os errantes e Petrorco sa d~rige rnbd~coq u 6 olvo da suo oo ~vogabundos que ndo t&m nenhum porto no v~da. invact~vo.Para ti que ndo tens nenhuma meta mais nobre "Corn gronde j~Ct8flCla".6 meta qualquer coisa que encontres. Rcredi- 3S&neco.Cartas o lucilio, XIX.
  • 47. Capitulo segundo - 8 s debates sobre problemas morais e o Neo-epicurismocaste, porque te colocou em uma vida misera e tdo. No que se refere a Epicuro parece-mequeinfeliz, a qual, pela esperanGa de pouco dinhei- em todo lugar os vossos tsnham atitude seme-ro, te ocasiona grandissimas angirstias. Ihante, quando vos deixais lnduzir em u erro m Com quem portanto falaste, velho miser6 td0 graves afirma~s o termo "prazer"que se quevel? Com quem sentenciaste contra mim? Rma- encontra em Epicuro & outra coisa, assim como oram a soliddo os patriarcas, os profstas, os termo "Ieticia", que se encontra em Rristoteles,santos, os filosofos, os poetas, os c h e f e ~os ,~ dado que foi assim que os b6rbaros o traduzi-imperadores famosissimos. E, na verdade, quem ram. De fato, se Rristoteles ndo condena todando ama a soliddo sendo quem ndo sobe estar Ieticia,so dig0 isso, a causa jn @st6vencida: comconsigo mesmo? Odeia a soliddo todo aquele efeito, quem aprova a letic~a tambhm ndo con-que est6 sozinho na soliddo, e teme o ocio todo dena o prazer, uma vez qua, 00 menos em SGUSaquele que ndo faz nada. escritos, estes dois termos sdo u so. Entre nos, m F. P~trorca. porhm, eles diferem, como o g&nsro e a espkie. Contra medicum. 2. 0 duplo significado da palavra "voluptas" para os Latinos Vos, porhm, dizeis: o termo latino & ver- gonhoso. Mais vergonhoso, porhm, 6 quem mente e acusa falsamente. Quem de fato vos ensinou isso? Deixando de lado todos os ou- tros testemunhos, Cicero traduz sempre com "voluptas" aquele nome, tanto nos textos de Rristoteles como nos de Plat60 e de outros. E para que saibais o que isto significa e o termo interpretag60 do "voluptos" que assim o defina (De fin~bus, 4, 1 3 ) : ne- 11, nhuma palavra traduz melhor hsdonQque pra- 0Nso-spicurismo ds loursngo Vollo 6 zer. R este termo todos aqueles, em qualquer o rssultado ds umo tsntatlvo ds concilio~do lugar, qua sabem folar lotim atribuem dois sen- sntrs o cristionismo s o concspgdo spicur~sto tidos, a alegria do Bnimo que nasce de uma do hedonh (sm lotim voluptas, prozsr). suave comoq50, e o go20 do corpo. Ndo ser6, 0ssntido do doutrino ds Vollo do pro- no verdade, prazer aquele deleite que goza- zsr foi intsrprstodo finoments por €. Gorin: mos pela I~beralidade, pela miserlcordia, por "R proclomodo sontidode do voluptas, ds uma obra Ievada egregiamente a termo, por rssto santida muito lucrscionomsnts, Q umo ter fugido do perigo, de uma desgra~a, uma de defsso do divindods do noturszo, monifss- doenp e outras coisas semelhantes? tag60 odmlr6vsl do ordsnodo s providsnciol < dificil para mim entender no que dife- bondods ds Dsus. [...I Noda ss psrds do rem estes do~s nomes; e quem o nega h sem volidsz s do justsza do rsfsr6ncio 2, sxpsri- dljvida um iletrado, mas, se tambhm ele o diz, 6ncio cristd, antsndido como rsdsngdo ndo tambbm a vido eterno ser6 prazeroso. ch olmo, mos do homam, ds todo o homsm, corns s olmo, contra todo oscstismo psssi- 3. 0 vsrdadsiro prazer 6 bem-avsnturanp, misto s todo avidsnts ou loivol monqusismo. e consiste em servir a Dsus R possogsm citodo a ssguir, olQm ds mostror como Volla tsnho corojosomants Todavia, d~zem que este nome ndo con- dsfsndido suo proprio doutrino hsdonisto, Q vhm, nem coaduna com quem fala de modo cris- u tsstsmunho do pops1 otivo e bostants m tdo; & mois conveniente o termo "frui@o" que funcionol dsssmpsnhodopalo filologia nss- substituis bquele, como se ndo se possa "fruir" ts mssmo ombisnte doutrinol. e se costume entender tambhm este em sent(- do torpe, e "frui@o"ndo seja um termo insolito e, por assim dizer. fruto sem dopra que n60 so1. A defesa de Epicuro ndo se encontra jamais nos selvas dos erudi- Primeiramente responderei em defesa de tos, mas tambhm sequer nos jardins do novo eEpicuro, ~sto de um grego e, portanto, em de- &, do antlgo testamento, enquanto, ao contr6r10,Fesa dos Latinos, e por fim sobre o costume cris- encontramos "prazer", e com frequ&ncia, e en- tre as 6rvores no lugar mais ameno. Rcrescen- tarsi um testemunho ndo falso, como fazeis a0 dizer "do vontade da carne" em vez de "do pra-
  • 48. Primeira parte - 0 tlumanismo e a Renascencazer". Com efeito, no principio do G&nesis Iemos: po com o nome; que o chamem como quise-"Deus tinha plantado no inicio o paraiso do pra- rem: prazer, frui@o, deleite, ou alegria, felici-zer". e esta passagem 6 repetida, e nbo muito dade e bem-aventuranp, contanto qua a COI-depois 6 chamado de "paraiso de Deus" (Gn sa se torne evidente e seja claro aquilo que2.8; 2.15; 3.23; 3,24). Ora, assim incriminamos eu me havia proposto provar, ou seja, que nbotamb6m o nome ou a dignidada do prazer; a h6 nenhumo virtude verdad~iro nb0 ser no aqua1 coisa foi alguma vez atribuida tanta digni- servi<ode Deus; e isso para que nbo nos pos-dade e honra? Com certeza a nenhuma outra, sam insultar os que sustentam os qmtios,nbo 6 cihcia, nbo d virtude, nbo 6 pot&ncia, para os quais existem verdadeiras virtudesndo a nenhuma das outras coisas que tamb6m naqueles que nbo pensam ter recebido decostumamos louvar e desejar; o qua devemos Deus suas almas nem acreditam que tives-ent6o pensar do prazer a ndo ser que seja a sem sido estabelecidos pr&mios e puni~desbem-aventuran~a, daqueles que a perseguem e por Deus, para os mbritos dos vivos ou doso qua podemos augurar a nbo ser que ndo a mortos.alcancem jamais e qua deixem para mlm a par- Onde estbo aqueles que dizem que eute deles, caso a merepm? Omito aquilo qua tenho atitude mb em rela(bo d fC? Eu quadisse Davi: "Tu os embriagas na torrents de tau sempre combati assiduamente por ela e quaprazer" (Salmo 36,9), e tambbm Ezequiel que, tambCm agora, se 6 licito dizer a verdade,Falando do paraiso, menciona "0s frutos do pra- combat0 em sua defesa tanto que meus acu-zer" (€2 31.9.16.18). sadores devem dizer-se inimigos da FC, e eu Mas por que, poderia algubm me pergun- defensor.tar, assumiste a tarefa de louvb-lo? IVda, . [. . .] Eu, no verdade, santissimo poi, como Rpologlo ad Eugen~umIV.testemunhei em minha propria obra, ndo me ocu- sm Opera omnia. Valla, xi e m urn6r incisdo renascentista, pode ser considerado prim reiro dos grandes fildlogos da era moderna.
  • 49. CaritMlo terceiro sobre a tradiCzo platGnica ern geral e sobre os doutos bizantinos do SCCM~O A era do Humanismo e da Renascenga e marcada por maci- NJ g revivesctSncia do Platonismo atraves da mediagao de bizantinos a Neoplatonismo doutos, que afluiram ii Ithlia a partir dos inicios do 400; mas o difundiu-se texto platdnico redescoberto continua a ser lido B luz da tradigao xv no s ~ c u ~ o plat8nica posterior, ou seja, em funs80 dos parametrostornados por bizantinos canbnicos pelos Neoplatcinicos, 0 Platonismo, portanto, chegou doutos aos renascentistas na forma do Neoplatonismo, e seu grande +§ 1 relangamento ocorreu principalmente por obra de Nicolau de Cusa, Ficino e Pico. Para o leitor de hoje, que esta de posse das mais refinadas tkcnicas exegtticas, isso pode parecer paradoxal. Na realidade, po- rim, n i o o 6. Somente a partir de inicios do A Cpoca do Humanismo e da Renas- Oitocentos C que se conseguiu comeqar a se-cenqa C marcada por maciqa reviveschcia parar as doutrinas genuinamente plathicasdo platonismo, que cria uma tgmpera espiri- das doutrinas neoplat6nicas, e somente emtual inconfundivel. nossos dias, pouco a pouco, se esta comple- A revivesciincia do platonismo, portm, tando sistematicamente a imagem filosofi-n i o significa o renascimento do pensamen- ca de Platio em todos os seus traqos, comoto de Platio tal comp o encontramos ex- jA vimos em parte no volume I.presso nos dialogos. E verdade que a Idade No fim do Trezentos Manuel CrisoloraMtdia leu pouquissimos dialogos (Menon, abrira uma escola de grego em Florenga,Fedon e Timeu) e que, ao contr6ri0, ao lon- destinada a ser a "nova Atenas" no Ociden-go do Quatrocentos, os didogos foram to- te. Ai L. Bruni e depois M. Ficino teriam tra-dos traduzidos para o latim, as vers6es de duzido Platiio; ai acorreram os doutos deLeonardo Bruni alcangaram grande sucesso Constantinopla para o Concilio que em 1439e muitos humanistas estavam em grau de teria devido reunificar a Igreja grega com aler e entender o texto grego original. Entre- latina; ai novamente encontraram acolhidatanto, o redescoberto texto platbnico conti- os doutos gregos que haviam fugido denuou a ser lido i luz da tradiqio platbnica Constantinopla depois da queda da cidadeposterior, ou seja, em funqio dos pariimetros na m i o dos turcos em 1453.que os neoplat6nicos tornaram normativos Era inevitavel a disputa a respeito dae com multisseculares incrustag8es. "superioridade" de Platio ou de Aristoteles.
  • 50. 32 Primeira parte - 0t l u m a n i s m o e a RenascenGaJorge Gemisto (significativamenteapelidadoPleton) sustentou o primeiro, enquanto Jor-ge Scholarios Gennadio (por 1405-1472) eJorge de Trebisonda (1 396-1486) o segundo;mais equilibrado, o doutissimo cardeal Bessa-rione (1400 aproximadamente-1472),"o maislatino dos gregos e o mais grego dos latinos",tentou demonstrar a harmonia dos dois fi-losofos. A preferhcia global dos humanistasfoi, em todo caso, em geral por Platso. Todavia, o grande relanqamento doNeoplatonismo, do ponto de vista filosofi-CO, aconteceria, de um lado, por obra deNicolau de Cusa, e, por outro, por obra daAcademia Plat6nica florentina com FicinoA sua frente, e depois Pico.N/c-thrr tic Cusil (1401-1464) for ~rtrileletctilogo cjilrisol;, r~coplirttirr~~-o;I S tcv,r.~rss>o c-orno L ~ I I I L I SIIL,yrirudc3j901rtc cntrr ir evil rncd~ezirl 1 rendsc-etztista. eA foto 2 clircit~irc~f~roiirrz~norzi~wzerrto Nic-olau o lie~ J I ~ C C I I C O I I ~ ~ IV~ I 51111 sc ~ I Prrtro in Vine-olr,lN2 K o I ~ z L ~ . .I)r/c rcc-ovdmnos d tcorid da douta ;p~ori?tzcid m eqric, ~ s t Ii ~ Y C W ~ I ~ O C O I Z S C ~ G I I C I C~I L d ~ ~ s p r o p ~ r ~ d o 1 I~~sfr//fnrLr1 d t n ~ n t e r~mzn~z crrtr~~ h (finit~l) o infinrto 1,ro q//Lzlclr tcntfc. lltnl~~riso, 1 1 1 ~ 1 ~incisilo tir~dLr en1 1eft, l f t l t d ol)rd if^ I j 38, N I C O ~ I1; M~ J J ) . c s c I ~1 ~ 0~ ~ O IT 2c.cpntroiolll o c - h ~ cdi~zalic-io, h ctzquirnto C gr4iLz(io[J(/Osc-oreiGcs d o chrz/)Cu prlo przpiz, rr firn dr q ~ l ctrilrrstnitiz ires fibs s i ~~zhetforiir. ~
  • 51. 33 Capitdo terceiro - O Neoplatonismo renascentista .-m.-*---..rm.z,s . - 11. JJicoIaude Cusa: a "douta ignov&ncia" em velaG~o infinito a0 A marca do pensamento de Nicolau de Cusa (1401-1464) e Predominio do constituida principalmente pelo predominio do Neoplatonismo Neoplatonismo (especialmente na formulagao dele dada pelo Pseudo-Dionisio), no pensamento a servigo de fortes interesses teologicos e religiosos. Em particu- de Njco/au lar, ele usa metodos matematicos de forma original, desfrutan- , tj 1 do-os em sua valencia analogico-alusiva e dando assim lugar a um metodo definido como docta ignorantia. A douta ignorsncia consiste: a) na consci@ncia desproporgao estrutural entre a mente humana (finita) e da o infinito; b) na pesquisa relacionada que s mantem rigorosamente dentro do 6mbito e de tat consci4ncia critica: a mente humana, o intelecto, est6 para a verdade como o poligono esta para o circulo. Ora, a verdade, que e por si inatingivel, podemos porem nos A aproximar por meio de uma pesquisa por aproximagao, ja que as ignor;incia: varias coisas finitas podem aparecer como tendo certa relagao desproporqdo simbolica com o proprio infinito; no infinito (em Deus), com efei- entre mente to, tem lugar uma coincidentia oppositorum, no sentido que nele humana (finita) coincidem todas as distingbes que nas criaturas s encontram ao e infinito e inves opostas entre si: Deus e o absolutamente maximo e 6 tao + 3 2 sem nenhuma oposigao, que nele o minimo coincide com o m6xi- mo. A esta verdade pode aproximar-se nao a percepgao sensorial, que e sempre positiva, afirmativa, nem a razao (ratio), que e discursiva, e afirma e nega man- tendo distintos os opostos segundo o principio de nao-contradi@o, mas o intelec- to (intellectus), que esta acima de toda afirmagao e negagao, e capta a coincidh- cia dos opostos com um ato intuitivo. A derivagao das coisas a partir de Deus comporta tr@s aspectos fundamentais: 1) a complica@o: Deus contem em si todas as coisas, e portanto as "complica" (inclui) todas elas; 2) a explicagao: o universo e a "explicagao" de Deus como A relac30 explicagao da unidade na multiplicidade, no sentido de que o entre Deus universo e "imagem" do Absoluto; e o universo. 3) a contragao: explicando-se, Deus se "contrai" no universo, significado isto e, s recolhe manifestando-se nele, assim como a unidade doprincipio e esta "contraida" na pluralidade. Ora, uma vez que cada ser e "tudo "contra@o" do universo, assim como o universo e por sua vez esta em tudo" contragao de Deus, cada ser reassume em si, de seu modo, o uni- + tj 3-4 verso inteiro e Dew, e tudo esta em tudo. 0 homem, por conseguinte, e "microcosmo" em dois niveis: conceito a) em nivel ontologico geral, porque "contrai" em si proprio de todas a coisas; s como b) em nivel ontologico especial e gnosiologico, porque, sen- ~lmicro,osmolf do dotado de mente e de conhecimento, e complicagSo das com- + tj 5 plicagbes; a mente humana, que e imagem de Deus, e a imagem da complicag~o complica~bes. das Aqui Nicolau esta em sintonia com os humanistas, os quais, do conceit0 de homem como "microcosmo", fizeram a sigla espiritual de uma epoca.
  • 52. 34 Primeira parte - 0t l w n a n i s m ~e a Renascen~a A vida, obras as o adjetivo corrige o substantivo de mod0 essencial. e o delinearnento cukural Vejamos, concretamente, em que con- siste essa "douta ignorincia" de Nicolau de Cusa. Uma das personalidades de maior des-taque do Quatrocentos, talvez o ginio espe-culativamente mais dotado, foi Nicolau deCusa, assim chamado por causa da cidadede Kues (hoje Bernkastel, sobre o Mosel),onde nasceu em 1401 (seu nome era Kryftsou, na grafia modernizada, Krebs). Alemiode origem, mas italiano por formaqio, Nico- Em geral, quando se busca a verdadelau estudou especialmente em Padua. Foi acerca das varias coisas, p6em-se em relaqioordenado sacerdote em 1426 e tornou-se e comparam-seo certo com o incerto, o desco-cardeal em 1448. Morreu em 1464. nhecido com o conhecido. Portanto, quan- Entre suas obras, podemos recordar: do se indaga no imbito das coisas finitas, oA douta ignoriincia (1438-1440), As con- juizo cognoscitivo C ficil ou dificil (quandojecturas (elaboradas entre 1440 e 1445), A se trata de coisas complexas), mas, de qual-busca de Deus (1445), A filia@o de Deus quer rnodo, e possivel.(1445), A apologia da douta ignoriincia Entretanto, as coisas s i o bem diferen-(1449), 0 idiota (1450), A vis2o de Deus tes quando se indaga do infinito, que, en-(1453), A esmeralda (1458), 0 principio quanto tal, escapa a toda propor@o, res-(1459), 0 poder ser (1460), 0 jogo da bola tando-nos portanto desconhecido. E essa a(l463),A caCa da sabedoria (1463), 0 com- causa do nosso nzo saber em relaqio aopdndio (1463) e 0 apice da teoria (1464). infinito: precisamente o fato de ele n i o ter Entretanto, somente em parte Nicolau "proporqio" alguma em relaqiio i s coisasde Cusa interpreta as instincias renascen- finitas. A consciincia dessa desproporqiotistas. Inicialmente, ele se formou com base estrutural entre a mente humana (finita) ena problematica ligada i s correntes ocka- o infinito, ao qual porCm ela tende e pelomistas, e depois foi influenciado pelas cor- qual anseia, e a busca que se mantCm rigo-rentes misticas ligadas a Eckhart. Mas a rosamente no imbito dessa conscihcia cri-marca de seu pensamento C constituida so- tics constituem a douta ignorincia.bretudo pelo predominio do Neoplatonis- Eis as conclus6es de Nicolau de Cusa:mo, especialmente na formulaqiio desenvol- "0 intelecto ..., que niio C a verdade, n i ovida pel0 Pseudo-Dionisio, quando niio de pode compreender nunca a verdade de mod0Escoto Eriugena (ainda que em menor me- preciso, n i o podendo portanto compreendi-dida), a serviqo de fortes interesses teologi- la ainda mais precisamente ao infinito, por-cos e religiosos. que esta para a verdade como o poligono Entretanto, seria errado pensar em esta para o circulo. Quanto mais ingulosNicolau de Cusa como filosofo predominan- tiver o poligono, tanto mais sera semelhan-temente ligado ao passado: com efeito, em- te ao circulo; entretanto, jamais sera igual abora ele n i o se mostre alinhado com os ele, ainda que multipliquemos seus inguloshumanistas, tambCm niio se encontra alinha- ao infinito, ja que nunca se chegari i iden-do com os escolasticos. Na verdade, ele n i o tidade com o circulo."segue o metodo "retorico" (ou seja, inspi- Estabelecida essa premissa, Nicolau in-rado na eloqiiincia antiga) proprio dos pri- dica um caminho correto de busca por apro-meiros, mas tambtm n i o segue o mitodo xima@o daquela uerdade (em si mesmada quaestio e da disputatio caracteristico dos inalcanqavel),centrado na concepqio segun-segundos. Nicolau faz uso original de mC- do a qual ocorre no infinito uma coincidentiatodos extraidos dos processos matemiiticos, oppositorum, isto 6, uma "coincidincia dosnio, porCm, em sua valincia matemitica opostos". Por esse caminho, as virias coisaspropriamente dita, e sim em sua vakncia finitas podem aparecer n i o tanto em antite-analogico-alusiva. 0 tip0 de conhecimento se com o infinito, mas muito mais como ten-que deriva desse mCtodo C denominado por do com o proprio infinito uma rela@o sim-nosso filosofo como docta ignorantia, onde bolica, de certa forma significativa e alusiva.
  • 53. 35 Capitulo terceiro - 8Neoplatonismo renascrntista Em Deus, portanto, enquanto infinito, 0 mesmo vale, por exemplo, tambCmcoincidem todas as distinqoes, que nas cria- para o triingulo. Se, pouco a pouco, pro-turas se apresentam como opostas entre si. longarmos um lado ao infinito, o triiingulo0 que significa isso? acabara por coincidir com a reta. E os exemplos poderiam se multiplicar. Portan- to, ao infinito, os opostos coincidem. Deus J? "coincid&ncia dos opostos" C, portanto, "complicaq50" dos opostos eno infinito sua coincidhcia. 3:::""iT Nicolau mostra bem o que entendequando fala de "coincidhcia dos opostos",utilizando o conceito de "miiximo". Em Tudo isso implica uma superaqiio doDeus, que C maximo "absoluto", os opos- mod0 comum de raciocinar, que se fundatos "maximo" e "minimo" siio a mesma no principio da niio-contradiqiio.coisa. Com efeito, pensemos em uma "quan- Nicolau p6de tentar uma justificaqiiotidade" maximamente grande e em uma ma- das possibilidades dessa superaqiio exploran-ximamente pequena. Agora, com a mente, do a distinqiio (degCnese plathica) dos graussubtraiamos a "quantidade". Note-se que de conhecimento em: a)percepqiio sensorial;subtrair a quantidade significa prescindir do 6 ) raziio (ratio); ) intelecto (intellectus). C"grande" e do "pequeno". 0 que resta en- a) A percepqiio sensorial C sempre po-tiio? Resta a coincidtncia do "maximo" e sitiva ou afirmativa.do "minimo", visto que "o maximo C su- 6 ) A raziio, que C discursiva, afirma eperlativo, como o C o minimo". Por isso, nega, mantendo os opostos distintos (afir-Nicolau escreve: "A quantidade absoluta mando um nega o outro e vice-versa) segun-(...) niio C mais maxima do que minima, jA do o principio da niio-contradiqiio;que nela coincidem minimo e maximo." Ou, C) ja o intelecto, acima de toda afirma-para melhor dizer, pel0 fato de que Deus C $50 e negaqiio racionais, capta a coinciden-coincidhcia de maximo e de minimo, ele cia dos opostos com um ato de intuiq3o su-tambCm esta acima de toda afirmaqiio e ne- perior. Escreve Nicolau: "Assim, de mod0gaq5o. incompreensivel, acima de todo discurso A geometria nos oferece esplhdidos racional, vemos que o maximo absoluto C oexemplos "alusivos" de coincidt?ncia dos infinito, ao qual nada se op6e e com o qualopostos no infinito. Tomemos um circulo, o min?mo coincide."por exemplo, e aumentemos o seu raio, pou- E nesse quadro que ele repropoe asco a pouco, ao infinito, isto 6, at6 faze-lo principais temiticas do neoplatonismo cris-tornar-se miximo. Pois bem, nesse caso, o tiio com originalidade e fineza.circulo acabari por coincidir com a linha, e Tr2s pontos merecem ser destacados dea circunfer2ncia pouco a pouco se tornarii mod0 particular:minimamente curva e maximamente reta, a) o mod0 como ele apresenta a rela-como mostra este grifico: r AlCm disso, no circulo infinito cada 6 ) o destaque que dii ao antigo princi-ponto sera centro e, ao mesmo tempo, tam- pio segundo o qual "tudo esta em tudo";bim extremo. E, analogamente, coincidiriio c) o conceit0 de homem como "micro-arco, corda, raio e di2metro. E tudo coinci- cosm~".diri com tudo. Examinemos estes trss pontos.
  • 54. f reIaC&o vento no vento, C Pgua na agua, C tudo em tudo, segundo a antiga maxima de Anaxa- entre D e u s e o universo goras. Eis uma belissima pagina de Nicolau de Cusa, em que ele expressa esse conceito Nicolau de Cusa apresenta a derivaqiio de mod0 admiravel: "Dizer qualquer coisadas coisas em relaqiio a Deus em funqiio de esta em qualquer coisa niio C mais do quet r k conceitos-chave ( j i utilizados por alguns dizer Deus esta em tudo pel0 tudo ou kudopensadores plat6nicos medievais): 1 ) o con- estP em Deus pel0 tudo. Essas elevadissimasceito de "complicaqiio"; 2) o conceito de verdades podem ser cornpreendidas clara-"explicaqiio"; 3) o conceito de "contraqiio". mente por um intelecto sutil: ou seja, de que 1)Deus contCm em si todas as coisas mod0 Deus, sem diversidade, esth em todas(corno maximo de todos os maximos). As- as coisas (porque qualquer coisa esta emsim, pode-se dizer que ele "complica" (in- qualquer coisa) e todas estiio em Deus (por-clui) todas as coisas. Deus C a "complica- que todas estiio no todo). Mas, como o uni-qiio" de todas as coisas, assim corno, por verso esti em qualquer coisa como qualquerexemplo, a unidade numCrica C a "compli- coisa esta nele, o universo, de mod0 contra-casiio" de todos os numeros, dado que es- ido, C em qualquer coisa aquilo que ele pro-tes nada mais siio do que a unidade que se prio C contraidamente. E qualquer coisa noexplica, e em cada numero nada mais se universo C o proprio universo, embora o uni-encontra sen50 a unidade. Basta pensar tam- verso esteja de mod0 diverso em uma coisab t m no ponto, que C "complicaqiio" de to- qualquer e esta esteja diversamente no uni-das as figuras geomktricas, visto que a linha verso."niio C mais do que o ponto que se explica, e E eis algumas belas exemplificaq6es:assim por diante. "Esta claro que a linha infinita C linha, tri- 2) Com esses exemplos, tambim fica iingulo, circulo e esfera. Toda linha finitaclaro o conceito de "explicaqiio". Mas de- tem seu ser a partir da linha infinita, que Cvemos notar uma coisa: quando se conside- tudo aquilo que existe. Por isso, na linhara Deus como "complicaqiio", deve-se di- finita, tudo aquilo que C a linha infinita (istozer que todas as coisas est5o em Deus, e G o t, linha, triingulo etc.) C linha finita [...IDeus em Deus; quando se considera Deus Todas as coisas na pedra siio pedra, na almacomo "explicaqiio", Deus C em todas as coi- vegetativa siio alma, na vida siio vida, nosas aquilo que elas Go. Diz Nicolau: enquan- sentido siio sentido, na vista siio vista, noto explicaqiio, Deus "6 como a verdade na ouvido siio ouvido, na imaginaqiio siio ima-sua imagem". Desse modo, dizer que o uni- ginaqiio, na razio siio raziio, no intelecto G overso C explicaqso de Deus significa dizer intelecto, em Deus siio Deus." ",," que ele C "imagem" do Absoluto. 3) 0 conceito de "contraqiio" se expli- ca como consequtncia disso, ou seja, como manifesta~iiode Deus. N o universo, Deus e s d "contraido", assim como a unidade esta "contraida" (se manifesta) na pluralidade, a simplicidade na composiqiio, a quietude no movimento, a eternidade na sucessiio temporal e assim por diante. 0 conceito d e homem como "mi- c r o c o s m ~ "nada mais C do que uma con- sequincia dessas premissas. N o context0 do pensamento de Nicolau, o homem C "mi- 4 0~ i ~ n i f i c a d o principio do crocosm~" dois planos: a ) no plano on- em "tudo est6 em tudol tol6gico geral, porque "contrai" em si mes- mo todas as coisas (da mesma forma que, nesse sentido, toda coisa C microcosmo); Assim sendo, entiio, cada ser C "con- 6) no plano ontologico especial, visto que,traqiio" do universo, assim como este, por sendo dotado de mente e conhecimento, oseu turno, C contraqiio de Deus. 0 que sig- homem, d o ponto de vista cognoscitivo,nifica que cada ser resume o universo intei- t "implicaqiio" das imagens de todas asro e Deus. Todo o universo C flor na flor, C coisas.
  • 55. Citemos duas passagens mais caracte- se explicam universalmente no universo,risticas a esse respeito, dado que, nesse pon- porque existe um mundo humano. Todasto, Nicolau de Cusa estii em perfeita sintonia as coisas siio complzcadas humanamente nacom os humanistas, que fizeram d o concei- humanidade, porque ela C um deus huma-to de homem como "microcosmo" uma ver- no. Com efeito, a humanidade C unidade,dadeira bandeira ideal, a marca espiritual que C tambCm infinidade humanamentede toda uma Cpoca. contraida." Nas Conjecturas, lemos: "0 homem No escrito A mente (que 6 parte de 0C um microcosmo ou urn mundo humano. idiota), no fim, se 1;: "Considero que a men-Em sua p o t h c i a humana, a area da huma- te [do homem] C a mais simples imagem danidade compreende Deus e o universo-mun- mente divina, entre todas as imagens dado. 0 homem pode ser um deus humano complica@o divina. A mente C a imagemou humanamente urn deus, como pode ser yrimeira da complica@o divina, que com-um anjo humano, uma fera humana, um plica todas as suas imagens na sua simpli-lea0 humano, urn urso humano etc. Na cidade e na sua virtude de complica@io.potencia da humanidade todos os seres Deus, com efeito, C a complzcapio das com-existem segundo o mod0 particular dela. plica@5es e a mente, que C imagem de Deus,Na humanidade se explicam humanamen- C a imagem da complica@o das compli-te todas as coisas, do mesmo mod0 como cagoes. " . l f Roma, como sede do dominium terreno sobre terra italica do papado, opBs urn sentimento nacional italiano contra as pretens6es ao dominio politico sobre a Italzu do imperio. lncisao tirada do Supplementum Chronicarum, 1490.
  • 56. 38 Prtmeira parte - 0t l u m a n ~ s m o r a Renascenca III. jVlavsilio Ficioo e a Academia plat6nica florentina Nascimento * Em 1462 nasce em Florenqa a Academia Platenica, urna associac$o de doutos e amantes da filosofia platbnica sob a dire- l o de Manilio Ficino (1433-1499). Este, corn suas tr&satividades caracterjsticas do pensamento 5undamentais- intimamente ligadas - de a) traduto~; pensa- b) dor e fildsofo, C) mago, marcou urna virada decisiva na historia de Ficino do pensamento humanista-renascentista. +§I 0 pensamento de Ficino, express0 sobretudo na Theologia platonica, 6 urnaforma de Neoplatonismocristianizado, do qua1emergem quatro aspectospeculiares. a) A filosofia como "revela@o". 0 dispor a alma de mod0 0s qua tro que s torne intelecto e acolha a luz da divina revelaqao, em que e aspectos consiste a atividade filosofica, coincide corn a propria religi%o: principais iniciada com Hermes, Orfeu, Zoroastro, e conthua- esta revelac;c?o, da fiosofia da por Pitagoras e Platlo, completa-se depois definitivamente de Ficino + 3 3-7 com a vinda de Cristo, com o fazer-se carne do Verbo. b) A alma como "copula mundi". A estrutura metafisica da realidade e urna sucessa"~ cinco graus decrescentes de perfei- deqdo: 1) e 2) Deus e anjo (mundo inteligivel), 3) alma, 4) e 5) qualidade e materia(mundo fisico). A alma representa o no de conjun@o, que e simultaneamentetodas as coisas: ela tem em si a imagem das coisas divinas, das quais depende, e asrazdes e os exemplares das coisas inferiores, que de certo mod0 ela propria pro-duz. A alma e o centro da natureza, e o n6 e a copula do mundo. c) 0 repensamento em senso cristao do "amorplat~nico".0 amor na sua maisaka manifestasao coincide com a reintegraszo do homem empirico com sua meta-empirica ldeia em Deus: esta reintegraqao e possivel atraves da progressiva ascen-Go na escala de amor, e portanto e urna especie de "endeusamento", um tornar-s eterno no Eterno. A teoria do "amor plat6nico" teve larga difusao na Italia e(Pico, Bembo, Castiglione) e tambem na Fran~a. d) A impodncia da magia "natural". Ficino n l o hesitou em se proclamar"mago", seguidor porCm n%o magia profana, fundada sobre o culto dos de- dam6nios, e sim da magia natural, que liga a coisas celestes a terrenas. A magia s snatural implica a animaszo universal das coisas, e age por meio do "espirito", asubst4ncia material sutilissima que permeia todos os corpos; particuiarmente, elapredispae o "espirito" do homem a receber o mais possivel o "espirito" do mun-do. E em tudo isso Ficino nao via nada de contrario ao Cristianismo: o proprioCristo, em muitos casos, fora um curador. 1 A posi@o de Ficino qiiilidade, dedicar-se ao estudo e B traduqiio de PlatHo. Essa data assinala o nascimento no pensamento renascentista da "Academia Plat(jnican, que ndo foi uma e as caracteristicas escola organizada, mas muito mais um so- de sua obra dalicio de doutos e amantes da filosofia plat& nica, d o qua1 Ficino foi a mente diretora. Marsilio Ficino (1433-1499) marcou Em 1462, Cosme, o Velho, dos Medici, urna reviravolta decisiva na histbria do pen-doou a Ficino urna vila em Carregi, para que samento humanista-renascentista. Em parte,ele pudesse, com toda a comodidade e tran- essa reviravolta se explica pelas novas con-
  • 57. 39 Capitdo terceiro - 0N e o p l a t o n i s m o renuscentisfa seguindo um plano filosofico claro. 0 teo- rico, portanto, guiou as escolhas do tradu- tor. E a atividade do tradutor, assim como a do pensador, liga-se com a do mago, n i o de mod0 agregado, e sim essencial, pelas ra- z6es que explicaremos. Ficino c o m o tvadutor Lid irio A atividade oficial de Ficino como tra- dutor comeqou em 1462, precisamente com as vers6es de Hermes Trismegisto, ou seja, com o Corpus Hermeticum, do qua1 ja fala- mos amplamente, e com os Hinos brficos, aos quais se seguiram, em 1463, os Com- mentaria in Zoroastrem. Em 1463, Ficino co- meqou a traduqio das obras de Platio, nas quais trabalhou at6 1477. Entre 1484 e 1490 traduziu as Enbadas de Plotino e, entre 1490 e 1492, traduziu Dionisio Areopagita. Entre uns e outros, traduziu tambimdiq6es politicas, que acarretaram uma trans- obras de Medio-plat6nicos, de Neopitagoricosformaqio do literato-chanceler da Republi- e de NeoplatGnicos, como Porfirio, JBmblicoca no literato-cortesiio, a serviqo dos novos e Proclo, alim do bizantino Miguel Pselo.senhores. Mas a atividade de pensamento dos Como se v;, o mapa da "tradiqio plat&literatos-chanceleres ja esgotara todas as suas nica" esta completo.possibilidades, e agora era necessario apre- A traduqio de Hermes Trismegisto,sentar uma fundamentaqiio teorica daquele Orfeu e Zoroastro antes de Platiio decorre"primado" e daquela "dignidade" do homem do fato de que Ficino considerava comosobre os quais todos os humanistas da pri- autcnticos e antiquissimos os documentosmeira metade do Quatrocentos insistiram, atribuidos aqueles pretensos profetas e ma-mas, no mais das vezes, permanecendo no gos, achando que Platio dependia deles.nivel fenomenologico e descritivo. E essa obrafoi empreendida precisamente por Ficino,com base na recuperaqiio maciqa e no repen- ...0 s p o n t o s f u n d a m e n t a i ssamento da grande tradiqio "platGnican. do p e n s a m e n t o filosbfico A importiincia de Ficino esta emergin-do de mod0 sempre mais claro como ver-dadeiramente essencial n i o somente paracompreender o pensamento da segunda me- Como filosofo, Ficino se expressou so-tade do Quatrocentos, mas tambim para bretudo nas obras Sobre a veligiiio cristii eentender o pensamento do Quinhentos. na Teologia plat6nica, alim de em varios Foram tr2s as atividades fundamentais comentarios a Platio e a Plotino.i s quais Ficino se dedicou: 1)a de tradutor; Seu pensamento i uma forma de Neo-2 ) a de pensador e fiksofo; 3 ) a de mago. platonismo cristianizado, rico em observa-N i o acrescentaremos como quarta ativida- q6es interessantes, entre as quais emergemde a de sacerdote (fez-se ordenar padre em como peculiares as seguintes: 1474, ja na faixa dos quarenta anos de ida- a ) o novo conceito de filosofia comode), pois, como veremos, para ele "sacerdo- "revela@o";te" e "filosofo" s i o a mesma coisa. Suas tr2s b ) o conceito de alma como "copulaatividades revelam-se intimamente ligadas mundi ";entre si e ate indissoluveis. Ficino traduziu c ) um repensamento do "amor plat&grande quantidade de textos (de que falare- nico" em sentido cristio;mos logo) nao por erudiqio, mas para res- d ) uma defesa da "magia natural". ponder a necessidades espirituais precisas e Examinemo-las singularmente.
  • 58. 4 f filosofia Ora, os primeiros dois graus e os ulti- mos dois siio claramente distintos entre si, I coma " r e v e l a ~ o divina " como mundo inteligivel e mundo fisico, ao passo que a alma representa o "elemento de conjunqiio", que tem as caracteristicas do A filosofia nasce como "iluminaqiio" mundo superior e, ao mesmo tempo, C ca-da mente, conforme dizia Hermes Trisme- paz de vivificar o mundo inferior.gisto. 0 ato de dispor e dobrar a alma de Numa otica neoplatGnica, Ficino ad-mod0 que se torne intelecto e acolha a luz mite uma alma do mundo, almas das esfe-da divina revelaqiio, em que consiste a ativi- ras celestes e almas dos seres vivos, mas Cdade filosofica, coincide com a propria reli- sobretudo para a alma racional do homemgiiio. Filosofia e religiiio siio inspiraqiio e que ele dirige seu interesse.iniciaqiio aos sagrados mistCrios do verda- 0 lugar mediano da alma C terceiro,deiro. Hermes Trismegisto, Orfeu e Zoro- tanto percorrendo os cinco graus da hie-astro foram igualmente "iluminados" por rarquia do real de baixo para cima comoessa luz, sendo portanto profetas. Assim, sua de cima para baixo, como mostra este es-obra 6 uma mensagem sacerdotal, voltada quema:para a divulgaqiio do verdadeiro. 0 fato de que esses "prisci theologi" 1 1 1 Deus 5tenham podido captar uma mesma verdade(que tambem foi atingida, sucessivamente, ?A &por Pitagoras e Platgo), segundo Ficino, se 4 qualidade 2explica perfeitamente em funqiio do Logos, 5 matCria 1ou seja, do Verbo divino (do qua1 at6 mes-mo Hermes Trismegisto fala expressamen-te), que C igual para todos. A vinda de Cristo, Ficino salienta particularmente a im-o Verbo fazendo-se carne, assinala o com- portincia da alma com sua funqiio de "in-plement~ dessa revelaqiio. termCdio7 (medium) de todas as coisas. Ela Portanto, Hermes, Orfeu, Zoroastro, se insere entre os corpos sensiveis, sem serPitagoras, Platiio (e os platbnicos) podiam corporea nem sensivel; C dominadora dosperfeitamente se harmonizar com a doutri- corpos, mas adere ao divino. E isto, diz Fi-na cristii, posto que derivavam de uma uni- cino, t o milagre maximo da natureza (hocca fonte ( o Logos divino). maximum est in natura miraculum). Ela, em A religiiio dos simples niio basta para certo sentido, inclui em si todas as coisas,vencer a incredulidade e o ateismo; C preci- porque tem em si as imagens das coisas di-so fundar uma douta religiiio (docta religio) vinas das quais todas as outras dependem,que sintetize,filosofia platbnica e mensagem e constitui o nexo que as liga e, portanto,evangilica. E precisamente nessa 6tica que ela C "o no e a copula do mundo" (nodusquedeve ser vista a consagraqiio sacerdotal de et copula mundi).Ficino, assim como a sua miss20 de sacer-dote-filosofo. 5 f estrutura hier6rquica do real e a alma coma "corula mundi" Estreitamente ligado a tematica da al- ma esta, em Ficino, o tema do "amor platb- Ficino concebe a estrutura metafisica nico" (ou "amor socratico"), no qua1 o Erosda realidade, segundo o esquema neopla- platbnico (entendido por Platiio como for-tbnico, como uma sucessiio de graus de- qa que, visiio da beleza, eleva o homem aocrescentes de perfei~iio,que ele, porCm, de Absoluto, dando alma as asas de que ne-mod0 original (em relaqiio aos neoplat6- cessita para retornar ? patria celeste) sua inicos pagiios), identifica nos cinco graus se- se conjuga com o amor cristiio.guintes: Deus, anjo, alma, qualidade (= for- Para Ficino, em sua mais alta manifes-ma) e matCria. taqiio, o amor coincide com a reintegraqiio
  • 59. 41 Capitulo terceiro - 8~ e o p l c r t o n i s m o~ . e v m s c r n t i s t ado homem empirico a sua metaempirica "magia natural", niio a magia perversa, queIdeia em Deus, o que se torna possivel atravis trafica com os espiritos, nem a magia vaziade uma progressiva ascensiio na escala do e profana.amor. Portanto, i uma espicie de "endeusa- A "magia natural" de Ficino fundamen-mento", um fazer-se eterno no Eterno. tava-se na construqiio neoplat6nica do seu "Certamente - escreve Ficino no Co- pensamento, que implica a animaqiio uni-mentario ao Banquete - aqui estamos di- versal das coisas, mas tambim, particular-vididos e truncados, mas depois, ligados pel0 mente, na introduqiio de um elemento espe-Amor a nossa IdCia, voltaremos a ser inte- cial que ele chama "espirito", que 6 umagros, de mod0 que parecera que nos primei- substLincia material sutilissima que perpas-ro amamos Deus nas coisas para depois sa todos os corpos e que, entre outras coi-amar as coisas nele e que nos honramos as sas, constitui o meio pelo qual a alma agecoisas em Deus sobretudo para nos recupe- sobre os corpos e estes sobre ela.rarmos - e, amando Deus, amamos a nos Esse "espirito" (substiincia pneumati-mesmos. " ca) esta difundido em toda parte e, portan- A teoria do "amor plat6nicon teve am- to, esta presente em nos, assim como estapla difusiio na Italia (Pico della Mirandola, presente no mundo e no ciu. 0 "espirito doBembo, Castiglione), pois o terreno ja ha- ciu", porim, C mais puro. Fazendo uso devia sido preparado pela difusiio do "doce varios meios, precisamente "naturais", aestilo novo" e pelas tematicas a ele ligadas, "magia natural" de Ficino tendia a predis-mas tambim fora da Italia (especialmente por oportunamente o "espirito" que esta nona Franqa). homem a receber o mais possivel o "espiri- Leiio Hebreu (cujo verdadeiro nome C to" do mundo e a absorver sua vitalidadeJehudah Abarbanel, tendo nascido em 1460 "por meio dos raios dos astros oportuna-e morrido por volta de 1521), em seus Dia- mente atraidos".logos de amor distinguiu-se de todos pel0 Enquanto portadores de vida e de es-frescor e originalidade, reelaborando essa pirito, podiam ser utilizados diversamentedoutrina de forma que fara sentir sua influtn- pedras, metais, ervas e conchas, desfrutan-cia at6 mesmo na concepqio do amor Dei do-se de sua presumida "simpatia" de mod0intellectualis de Spinoza, de que falaremos vantajoso. Assim, Ficino tambim confec-adiante. cionava talismiis. Alim disso, fazia uso de Entre os muitos documentos relativos encantamentos musicais, cantando hinos or-ao "amor plat6nicon, para concluir, lembra- ficos com acompanhamento instrumentalremos a bela Alterca@o de Lourenqo de monocordico para assim captar as benifi-Midici, que mostra a grande penetraqiio cas influtncias danetarias com consonin-dessa doutrina do amor e pde em grande cias que "simpatizavam" com as dos astros.salitncia o conceit0 de que, amando a Deus, E vinculava estreitamente essas praticas comn6s "nos elevamos a altura dele", e que nos- a medicina.sa alma "amando se converte e m Deus, e Ele n i o via nada de contrario ao cris-sobre o Deus visto se dilata". tianismo em tudo isso: em muitos casos, o proprio Cristo havia sido um curandeiro. Essas coisas, notemos bem, niio siio fe- n6menos de pura excentricidade isolada, A doutrina mhgica mas S ~ coisas comuns a muitos homens do O de Ficino Renascimento, constituindo portanto um elemento caracteristico de uma ipoca, do e sua importAncia qual niio podemos prescindir para compreen- der esse periodo. Notemos que Giordano Bruno, um si- A doutrina magica de Ficino pode ser culo depois, apresentara na Universidade devista sobretudo na obra De vita, de 1489 Oxford aulas sobre "magia natural", at6(que i composta de trts escritos). Ele niio mesmo plagiando o terceiro dos tratados dohesita em proclamar-se "mago", seguidor da De Vita de Marsilio Ficino.
  • 60. IV. Pico della Mivandola entve plat~ni~mo, avistotelismo, cabala e veligizo 0 s dois pontos mais relevantes da filosofia de Pico della Mirandola (1463- 1494) - vizinha, mas com numerosas divergCncias, da posiqiio de Ficino - referem- se A concepqiio da cabala e a doutrina da dignidade do homem. A cabala e urna doutrina mistica de origem medieval e de influxo helenistico, ligada 8 teologia hebraica, que reline o aspec- Pico della to tedrico-doutrinalde uma interpretasiio "aleg6ricaUda Biblia, e Mirandola: o aspect0 pratico-mdgico, baseado sobre a concep@ode que as a cabala letras e os nomes hebraicos refletiriam tanto a natureza espiritual a dignidade do mundo como a linguagem criativa do mundo. Ora, Pico afirma hornern + 3 2-3 erroneamente que a cabala remonta a mais antiga tradisiio hebraica, e at6 a Mois&s, e nesse sentido projetou a unifica~iio de aristotelismo e platonismo, filosofia e religiiio, magia e cabala. Preliminar a esse grande projeto de unificaqiio era a doutrina da "digni- dade do homem", segundo a qual, enquanto todas as criaturas silo ontologica- mente determinadas a ser aquilo que sao e n%o outra coisa, o homem 6, ao con- trario, a unica criatura posta no confim de dois mundos e com urna natureza constituida de mod0 a plasmar-se e esculpir-se segundo a forma pre-escolhida: a grandeza e o milagre do homem esta, portanto, em ser artifice de s i prdprio, autoconstrutor.:. ,, 0 pensamento de Pico teorico, mas atingisse tambim a vida reli- giosa e retomasse a pureza dos costumes (nesse sentido, foram significativas suas sim- A posig5o de Ficino, t i o rica de ideias patias por Savonarola).e tematicas, tem urna correspondincia an6- Deter-nos-emos aqui em dois pontos deloga na posigiio de Pico della Mirandola maior relevo de sua doutrina.(1463-1494), apesar de suas numerosas di-ferengas e divergincias. As novidades mais vistosas que ele trou-xe, em relagio a Ficino, foram as seguintes: Pico e a cabala a) -2 magia e ao hermetismo, ele agre-gou tambCm a "cabala" (ou cabbala), cujaeficacia extraordinaria exaltou; Como Pico entendia a "cabala" e como b) quis tambCm envolver Aristoteles no considerava poder inseri-la em seu plano deprograma geral de pacificagiio doutrinaria conciliaq50 geral entre religi5o e filosofia?(estudara o aristotelismo sobretudo em A cabala C urna doutrina mistica ligadaPadua); a teologia judaica, sendo apresentada como C ) alCm disso, sentiu a necessidade de revelagio especial feita por Deus aos hebreus,reagir contra os sintomas de um incipiente a fim de que pudessem conheci-lo melhor efen6meno de involuq50 em sentido grama- melhor pudessem entender a Biblia.tologico e, portanto, fortemente reducionis- A cabala conjuga dois aspectos: umta, que se manifestava em alguns humanis- aspecto teorico-doutrinario (que, entre ou-tas, defendendo assim algumas conquistas tras coisas, comporta urna particular inter-da escolistica (nesse sentido, i significativa pretagzo "alegorica" da Biblia) e um aspec-a polimica com Ermolau Barbaro), que es- to pratico-magico, que se desenvolve tantotudou especialmente em Paris; por urna forma de auto-hipnose voltada para d) manifestou o vivo desejo de que a concretizar a contemplag50 como por urnareforma religiosa n5o se limitasse ao plano forma muito proxima da magia, fundada no
  • 61. 43 Capitulo terceiro - 0fleoplatonisrno renascentistasuposto poder sagrado da lingua hebraica e Por esse motivo, Pico dedicou-se inten-no poder proveniente dos anjos oportuna- samente ao estudo da lingua hebraica (alCmmente invocados, bem como dos dez nomes do arabe e do caldeu), porque sem o conhe-que indicam os poderes e atributos de Deus, cimento direto do hebraico n30 se pode pra-chamados sefirot. ticar a cabala com eficicia, pel0 motivo que, A cabala i de origem medieval, apre- segundo as convicq8es dos sustentadores dasentando influhcias helenisticas (em certos cabala, as letras e os nomes hebraicos teriamaspectos manifesta um espirito analog0 a o um poder especial, enquanto refletiriam tan-dos escritos hermtticos, dos Oraculos Cal- to a natureza espiritual do mundo como adeus e do Orfismo), porim seus fundadores linguagem criativa de Deus.a fizeram remontar imais antiga tradiqao Somente nessa otica C que se podemhebraica. entender as famosas novecentas Teses ins- TambCm neste caso, o responsavel por piradas nu filosofia, nu cabala e na teologia,uma sCrie de posiq6es assumidas por Pico apresentadas por Pico, nas quais deveriamfoi um gritante err0 historico. Com efeito, se unificar aristotilicos e platGnicos, filoso-ele considerava que a cabala remontava ver- fia e religiiio, magia e cabala. Algumas des-dadeiramente a antiga tradi~iio, mesmo ate sas teses foram julgadas herkticas e conde-a Moises, que a teria transmitido oralmen- nadas. Em conseqiicncia disso, Pico sofreute, sob a forma de iniciaqiio esotirica. uma serie de contrariedades, sendo inclusi-
  • 62. 44 Primeira parte - O t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n G ave preso na Savoia, quando fugia para a fato de ele ser artifice de si mesmo, auto-Franqa. (Depois foi libertado por Louren- construtor.qo, o Magnifico, e perdoado por Alexandre Eis o belissimo discurso posto por PicoVI em 1493).0 Discurso sobre a dignidade na boca de Deus e imaginado como dirigi-do homem, que se tornou muito famoso e do ao homem recCm-criado, o qua1 teveque permanece um dos textos mais conhe- vastissimo eco sobre contemporheos decidos do humanismo, devia constituir a pre- todas as tendhcias: "Eu niio te dei, Adgo,missa geral das Teses. nem um lugar determinado, nem um aspec- to proprio, nem qualquer prerrogativa s6 tua, para que obtenhas e conserves o lugar, o aspect0 e as prerrogativas que desejares, segundo tua vontade e teus motivos. A na- tureza limitada dos outros esta contida den- tro das leis por mim prescritas. Mas tu de- terminaras a tua sem estar constrito por nenhuma barreira, conforme teu arbitrio, a cujo poder eu te entreguei. Coloquei-te no A doutrina desse grandioso "manifes- meio do mundo para que, dai, tu percebes-to" sobre a "dignidade do homem" i apre- ses tudo o que existe no mundo. Niio te fizsentada como derivaqiio da sabedoria do celeste nem terreno, mortal nem imortal,Oriente, desenvolvendo-se particularmente para que, como livre e soberano artifice, tude uma sentenqa do AsclLpio, obra atribui- mesmo te esculpisses e te plasmasses na for-da, como ja dissemos, a Hermes Trismegisto: ma que tivesses escolhido. Tu poderas dege-"Magnum miraculum est homo". nerar nas coisas inferiores, que siio brutas, Eis as afirmaq6es explicitas do nosso e ~ o d e r a ssegundo o teu querer, regenerar- ,autor: "Li nos escritos dos hrabes, vene- te nas coisas superiores, que siio divinas."randos Padres, que Abdalla Saraceno, inter- Este C um verdadeiro e proprio mani-rogado sobre o que lhe parecia admiravel festo do pensamento humanista-renascen-neste palco do mundo, respondeu que niio tista em sua globalidade.percebia nada de mais esplhdido do que o Portanto, enquanto os seres brutos na-homem. E com essa afirmaqiio concorda o da mais podem ser alCm de brutos e os anjosfamoso dito de Hermes: Grande milagre, 6 somente anjos, j4 no homem existe o germeAsclipio, C o homem. " de cada vida. Conforme o germe que culti- Mas por que o homem C esse grande var, o homem se tornari planta, animal ratio-milagre? A explicaq50 que Pico d i a essa nal ou anjo e at6 mesmo, se niio estiver con-quest50 (e que, com justiqa, tornou-se mui- tente com todas essas coisas e recolher-se emto famosa) C a seguinte. Todas as criaturas sua unidade mais intima, entiio, "tornado umsiio ontologicamente determinadas a ser s6 espirito com Deus, na solitaria nCvoa doaquilo que siio e niio outra coisa, em virtu- Pai, aquele que foi posto acima de todas asde da esshcia precisa que lhes foi dada. coisas estari acima de todas as coisas".Ja o homem, unico entre as criaturas, foi Em conclusiio, como se pode ver, so-posto no limite entre dois mundos, com mente no context0 migico-hermitico euma natureza niio predeterminada, mas cabalistic0 C que se pode entender a cilebreconstituida de tal modo que ele prdprio se mensagem de Pico della Mirandola. E so-plasmasse e esculpisse segundo a forma mente considerando essa otica C que se podeprL-escolhida. Assim, o homem pode se entender a especificidade e a peculiaridadeelevar a vida da pura intelighcia e ser do humanismo renascentista e, portanto, suacomo os anjos, podendo a t i mesmo ele- diferenqa em relaqiio ao human~smo medie-var-se ainda mais acima. Desse modo, a val e a outras formas posteriores de huma-grandeza e o milagre do homem estzo no n i s m ~2; .
  • 63. 0 fundamento da filosofia de Francisco Patrizi (1 529-1 597) e a conviq%ode que sem filosofia n%o possivel ser religiosos. A e Patrizi: filosofia de Aristoteles ele opde a de Plat$o, mas sobretudo a a importSncia filosofia hermetica, para ele de muito valor. Depois dessa certeza da filosofia convidou o papa a promover o ensinamento do Corpus Her- hermetica meticum e se atreveu tambem a recomendar-lhe o hermetismo +5 1 no plano de estudos dos jesuitas. maes retornarem i f i catolica. E chegou att i mesmo a recomendar ao pontifice a intro- duqao do hermetismo no programa de estu- da mentalidade hermktica dos dos jesuitas. Em suma, para Patrizi, o Corpus Hermeticum teria podido ser otimo instrumento a serviqo da restauraqio do Francisco Patrizi viveu no sCculo XVI catolicismo.(1529-1597), mas trilhou o mesmo cami- A Inquisiqio, obviamente, condenounho de Ficino e de Pico. Ele representa um como nao-ortodoxas algumas das idiias deexemplo paradigmatic0 da tenaz manuten- Patrizi, que aceitou submeter-se a julgamen-sao da mentalidade hermttica, como ja ilus- to. A tentativa de fazer a Igreja acolher ofi-tramos: Ele se ocupou a fundo do Corpus cialmente Hermes Trismegisto so podia fa-Hermeticum, bem como dos Oraculos Cal- lir, dada a confusio dos planos religioso edew. Sua obra teorttica mais notivel i a magico que implicava. Todavia, tal tentati-Nova filosofia universal. va permanece verdadeiramente emblematica Seguindo Hermes Trismegisto (que ele e muito significativa para fazer compreen-considerava n i o apenas contemporiineo de der uma das componentes essenciais do es-Moisis, mas a t i mesmo mais velho um pou- pirito renascentista.co, paulo senior), Patrizi tinha a convicqaode que, sem filosofia, n i o era possivel serreligioso nem piedoso. Mas a deformaqgoda filosofia de Aristoteles, que negava a pro-vidcncia e a onipotincia de Deus, mostra-va-se gravemente prejudicial. Portanto, eranecessirio opor a Arist6teles a filosofia pla-t6nica (PlatHo, Plotino, Proclo e os Padres),mas especialmente a filosofia bermetica (para ele, um tratado de Hermes valia mais do que todos os livros de Arist6teles). Patrizi chegou ao ponto de conclamaro Papa a promover o ensino das doutrinasdo Corpus Hermeticum, que, na sua opi-niiio, seria de enorme importiincia, poden- do ter o efeito de fazer os protestantes ale-
  • 64. Primeira parte - 0 tlumanismo eaRenas~en~a mente, que seja sd, ndo pode discordar. Todos aqueles que buscam, julgam as coisas incertas comparando-as e proporcionando-as com u m pressuposto qua seja certo. Toda busca tem cardter comparative e emprega o meio do pro- porc;do. € quando os objetos da busca podem0 0 conceito ser comparados ao pressuposto certo e a ele ser proporcionalmenteconduzidos por u caml- m de "douta ignoriincia" nho breve, entdo o conhecimento se torna fdcil. Contudo, se temos necessidade de muitas pas- sagens intermedidrias, nascem dificuldades e 0conceito de "doutoignorBncio Q cer-" Fadiga: vemos isso na matemdtica, onde as pri- toments u dos mols significotivos e mois m meiras proposi(6es sdo remet~das aos princi- conhscidos sntrs os concsitos sloborodos por pios primeiros, por si mesmos conhecidos, com Nicolou ds Cuso. facilidade, enquanto & mais dificil ai reconduzir Conhecer implico ssmpre uma possogem as propos@es sucessivas, e 6 preciso faz&-lo do conhaido ao desconhecido. No Bmbito das atravhs das proposi~bes precedentes. coisas finitos ssto possogam Q ssmprs possi- vel, por mois dificil que posso ser om csrtos cosos,porque oquilo que 0 buscodo ssM ssm- 2. 0 infinito, prs em proporgio dquilo que se busco s do enquanto transcende quo1 ss parte. Ro contrario, quondo sa indo- toda proporg60 e comparagiio, go sobrs Deus, Falto esta relaq3o ou propor- 6 incognoscivel (;do, porqus Dsus Q inhito, e entrs o finto e Toda pesquisa consiste portanto em uma o infirtito ntio hd proporgtio. propor@ocomparativa, que & fdcil ou diHciI. Mas R consci&ncio que ss odquire desta o infinito, enquanto infmito, urna vez que se "despropor@io" entrs nosso mants s o infini- subtrai a qualquer propor@o, nos & desconhe- to Q justamente o "douto ignordncio critico- " cido. R proporq30 exprime conveni&ncia e, ao mants fundado. Podsmos nos avizinhar do mesmo tempo, alteridads em rela~do algo, e a vsrdods apenos por aproxima~do, ssm jo- por isso ndo a podemos entender sem empre- mais pod&la compresndsr de mod0 prsciso gar os numeros. 0 numero inclui em si tudo e que ndo results supardvsl sm um modo aquilo que pode ser proporcionado. 0numero, aindo mais preciso. que constitui a propor@o, ndo existe apenas no Bmbito da quantidade, mas tamb&m em to- das as outras colsas que, de qualquer modo. podem convir ou diferir entre si pel0 substdncia1. Em toda pesquisa procedemos ou pelos acidentes. Por isso, talvez, Pittigoras comparando e proporcionando pensava que tudo exists, tern consist&nciae & as coisas incertas com prenupostos certos inteligivel em virtude dos numeros. Dom de Deus, vemos que em todas ascoisas 6 inerente certa aspirqdo natural de 3. A douta ignorsnciaexistir do melhor mod0 permitido pela natureza como consci8ncia Fundada da ignorenciade coda uma delas; e todas agem em vista que 6 pr6pria do homemdeste fim e t&m meios adequados; e a elasest6 ligada certa capacidade de julgamento Todavia, a precisdo nos combina$5esen-conveniente com o objetivo de conhecer sua fi- tre as coisas corporeas e uma propor~do per-nalidade, a fim de que sua aspira@o ndo seja feita entre o conhecido e o desconhecido & su-v6 e cada urna possa alcancar a pa2 no centro perior as capac~dades raz6o humana, razdo dade gravidade para o qua1 tende a propria natu- pela qua1 parecia a S6cratas n60 conhecer nadareza. S s ocorre diversamente, & seguramente mais que a propria ignordncia; e Salom6o.devido a causas acidentais, como quando urna saplentissirno, sustentava que "todasas CO~SOSdoenp corrompe o gosto ou urna opinido des- sdo dificeis" e inexplictiveis com nossas pala-via a razdo. Por isso dizemos que um intelecto vras; e outro sbbio, dotado de espirito divino.sdo e livw conhece e abra<a corn amor a ver- diz qua a sabedoria e o Iugar da intelig&nciadade qua aspira insaciavelmente alcan~ar quan-do vai indagando sobre toda coisa com o pro-cedimento discursivo que Ihe & inerente; e sem Cf. PlatGo. Rpologia de Sdcrotes, 25b.dljvida a verdads mais segura 6 a de qua toda "cles~ostes 1.8.
  • 65. 47 ,i , Capitulo terceiro - O ~leoplatomis~o renascentistaestdo escondidos "aos olhos de todos os vi- pode medi-lacom precisdo, assim como o ndo-v e n t ~ s "Portanto, se & assim, que tambhm .~ circulo ndo pode medir o circulo, cuja realida-Rristoteles, o pensador mais profundo, no filo- de & 0190 de indivisivel. Por ISSO, o intelecto,sofia primeira afirma que nas colsas por sua que ndo & a verdade, jamais conseguenatureza mais evidentes encontramos urna difi- compreend8-la de modo t6o preciso qua ndoculdade semelhante b de uma coruja que ten- possa compreand8-la de modo mais preciso.tasse fixar o soIr4 entdo quer dizer que deseja- ao ~nfinito; tam com a verdade uma rela<do smos saber n60 saber, dado que o desejo de semelhante b do poligono com o circulo: osaber, que estb em nos, ndo dsve ser vdo. E se poligono inscrito, quanto mais 6ngulos tivarpudermos alcan$b-loplenamente, teremos al- tanto mais se tornarb semelhante ao circulo,can~ado uma douta ignordncia. R coisa mais per- mas jamais se tornarb igual a ale, mesmo quefeita que um homem, por mas interessado que multiplique ao infinito os proprios dngulos, aesteja no saber, poder6 alcanpr na sua doutri- menos que ndo se resolva em identidade comna & a consci8ncia plena da ignor8ncia que Ihe o circulo.6 propria. E tanto mais ser$ douto, quanto mais < portanto evidente que, no que se referese reconhep ignorante. E em vista deste fim ao verdadeiro, ndo sabemos mais do que o fatoque assumi a fadiga de escrever algumas pou- de ale ser incompreensivel em sua realidadscas colsas sobre a douta ignordnc~a. de modo preciso; que a verdade & como a ne- cessidade mais absoluta, que ndo pode ser nam4. 0 intelecto humano mais nem menos do que aquilo que &, e nosso jamais pode compreender a verdade intelecto 6 como a possibilidade. R sss8ncia de modo t60 preciso das coisas, qua & a verdade dos entes, & Ina- que 16 a possa compremder 10 tingivel em sua pureza, buscada por todos os de mod0 ulteriormsnte sempre mais preciso, f~losofos, por nenhum debs descoberta sm mas ao infinito sua realldads em si. E quanto mais a fundo for- mos doutos nesta ignorbncia, tanto mais tere- Se & por si evidente que o infinito ndo tam mos acesso b propria verdade.propor560 com o f~n~to, segue-sedo modo mais Nicolau ds Cusa,claro que, onde se encontra um mais e um me- I douto ignor6ncio. 3nos, ndo ss chsgou ao mbximo em todos ossentidos, pois as coisas qua admitem um maise um menos s6o entidades finitas. U m6ximo mde tal porte & necessariamente infin~to. Dadauma coisa qualquer, que ndo seja o m6ximo A coincidOnck dos opostos"em todos os sentidos, & claro que poder-se-6 em Deusdar algo malor do qua ela. E urna vez que des-cobrimos que a igualdade & gradual, de modoque uma coisa & igual mais a uma outra e ndo Outro concsito fundamento1 sobrs oa uma tarceira, em base a conveni8ncias s a quo1 ss bosaia o pensomsnto ds Nicolou dsn6o-conveni&ncias,em rslagio a coisas seme- Cuso B o do coincid&ncia dos opostos emIhantes, no g&nero, no esphcie, no situaq5o lo- Deus.cal, no capac~dade influ&nc~a, tempo, & de no Colocando-sa ocimo c b razdo discur-evidente que n6o se podem encontrar duas ou siva, qua procsds atrovBs ds ohrmo@o smais coisas tdo semelhantes e iguais entre si. nsgogbo, bossondo-sejustomsnts sobrs aque ndo se &em outras mais semelhantes, ao distlngio dos opostos (ou ssjo, ofirmando~nfinito.Por lsso a medida e a coisa medida, um dos dols opostos s nsgondo o outro, oupor mais se avizinhem para ser iguais, perma- vics-vsrso), o homsm pods com o intui~donecerdo sempre diferentes entre SI. intelectiva colocor-ss aclma do discurso ro- U intelecto finito, portanto, ndo pode m cionol, s comprssndsr como no infin~tooalcanrpr com precisdo a verdade das coisas "mdximo obsoluto a o "minimo o bsoluto " "procedendo mediante semelhanqs. fl verda- coincidam.de ndo tem graus, nem a mais nem a menos, Um sxsmplo olusivo 6, o proposito,e consiste em 0190 de indlvisivel; de modo que o do circulo: sa oumsntado ao infinito,aquilo que ndo seja o proprio verdadeiro, ndo todo ponto nsls sa tornord cantro s oo masmo tempo ponto sxtrsmo, s todo orco, corcla, roio a dldmstro ao infinito v1r6o o 3J0 28,2l. coincidir. Cf Aristoteles, Metofkico, livro II, 1 . 993b 95s
  • 66. Primeira parte - 8tlwnanismo e a Renasrenca B. A coincidhcia dos opostos Deste rnodo, Deus ao infinito Q todas capta-sr pondo-sr acima as coisas, e, oo rnesrno tempo, nenhuma de- da raz6o discursiva los, justornente porqus, sendo sle codo urno maxirnamente, Q ao mesmo tempo codo urno 0 s opostos encontram-seapenas nos coi- m~nirnamente, couso do coinciddncio, no por sas que adrnitsm o mais e o rnsnos, e ai se en- infinito, d~rnaxirno e rninirno. contram de modos d~versos; mas em nada con- N ~ s t ssntido, sernpre por couso do co- e v&m ao m6ximo absoluto, pois ele & superior a incid6ncio dos opostos no infinito, Deus Q o toda oposi@o.Portanto, uma vez que o rn6ximo Unidode obsoluto, ou sejo, o Uniclode que em ssntido absoluto & em ato, de rnodo rn6xi- em oto d tudo oquilo que tern o possibilido- mo, todas as coisas que podsrn ssr, ssm qual- d~de sar, justornente no infinito obsolutez. quer opos~@o, pelo fato de no rnbxirno estor o coinciddncio do rninmo, el@ tornbQrn superior C o todo ofirrno@o, ossirn como o todo negogdo. E tudo aquilo que nele & concebido como 1. Em qur srntido mdximo r minimo ser, n6o h6 razdo para que seja em vez de que no absoluto coincidrm n6o seja. E tudo aquilo que nele se concebe como ndo-ser, n60 h6 razdo para que ndo seja 0m6ximoabsoluto em todo sentido, do qua1 em vez de que seja. Mas ele Q ~ s t o coiso de n6o pode haver colsa maior, nos o captarnos modo to1 qua Q tochs os coisos, e Q todas os. apenas no modo do incompreensivel, pois el@ coisos de rnodo to1qua ndo Q nsnhurno coiso. E & superlor b nossa capacidade de compreend&- & de modo m6xirno esta coisa, de tal mod0 a lo, pelo fato de ser verdade infinita. s&-lade modo minirno. Ele ndo pertence b natureza das coisas que Dizer: "Deus, que & a propria maxim~dade adrn~tem mais e urn rnenos, mas est6 acima absoluta, & luz", & o mesmo que dizer: "Deus & um de tudo o qua possa ser concebido por nos. maximamente luz de modo tal que & luz mini- Todas as coisas, sejam elas quais forem, que mamente". Se assim ndo fosse, a rnaximidade apreendemos corn os sent~dos, com a razdo ou absoluta nbo serla em ato todas as coisas pos- com o intelecto, diferem em si mesrnas e uma siveis, lsto &, se ela n6o fosse ~nfin~ta, termo em relagio d outra de modo tal que entre elas de todas as coisas, mas determin6vel por ne- ndo se d6 nenhurna igualdade preclsa. R nhuma delas. [. ..] igualdade m6xtma, que n6o admite alteridads Este pensamento transcende toda a nos- ou diversidads em relaq3o a algurna coisa, su- sa capac~dade intelect~va, qual, seguindo o a para toda capacidade do intelecto. caminho da razdo, n60 consegue p6r junto os 0mdx~mo sentido absoluto, uma vez contraditorios no proprio principio.Camlnharnos em que & tudo aqu~lo que pode ser, est6 plena- entre as coisas que a naturezo nos torna mani- mente em ato. E como ndo pode ser maior fsstas: e a raz60, bem distante desta for~a infh [daquilo que 61, pelo mesmo motivo n60 nita, n6o sabe ligarjunto os contraditor~os, que pode ser rnenor, dado que ele 6 tudo aqu~lo d~stam ~nfin~tamente SI.Vernos, portanto, entre que pode ser. 6 que a absoluta maxim~dade inf~n~ta, aclma de Minimo & aquilo do qua1 ndo pode haver todo d~scursoracional, a maximidade b qua1 colsa menor. E, uma vez que o m6ximo & da nada se op6e, e com a qua1 o minimo coincide. mesma natureza, & claro que o minimo coincide Mdximo e minimo, assim corno 560 emprega- corn o m6ximo. dos neste I~vro, s6o termos transcendentes, lsso ss tornard mais claro para t~se cons(- dotados de s~gn~ficado absoluto, e abarcam em derares o m6ximo e o minimo controidos em sua absoluta simplicidade todas as coisas, aci- quantidade. ma ds toda contra@o em um signif~cado or- de n quant~dadem6xirna 6 rnaximamente dm- quantitat~va, relatwa a massas e forqx. grande. R quantidade minima 6 max~marnente pequena. C~berta agora da quantidade o m6- 3. A maximidade absoluta Q o Uno absoluto xlmo e o rninimo, subtraindo-lhes,com o Inte- lecto, a n o ~ 6 o grande e de pequeno, e de Mas a unidade n6o pode ser nirmero, pols ver6s com clareza que o m6ximo e o rnin~mo o nljmero admite sempre u mais, e n6o pode m coincidem. ser nem minimo nem m6ximo em t d o sentido. Tanto o m6x1mocomo o minimo s6o su- Todavla, ela & pr~ncip~o todo numero, pois 6 o de E perlativos. Portanto, na quantidade absoluta min~rno. & o flm de todo numero, pois 6 o m6- ndo h6 motlvo para que seja m6xima em vez ximo. Portanto o unidode obsoluto, 6 quo1nodo de minima, pois nela o minimo & o m6xim0, co- ss opda, Q o proprio rnoxirnidode obsoluto, qus incidindo os dois entre si. Q Deus bendito. Tal unidade,sendo rndxima, ndo
  • 67. 49 Capitdo terceiro - 8N e o p l a t o n i s m o renascentistaC multiplic6vel, pois C tudo aquilo que pode ser. 1. 0 antigo principio de AnaxagorasE, portanto, ela ndo pode se tornar nljmero. "tudo esta em tudo" V6, portanto, que as considera@es sobre na interpreta@o metafisica neoplatenicao nljmero nos levaram a entender como a Deus Se considerares corn agudez tudo o queinomin6vel convenha mais de perto a unidode foi dito, ndo te ser6 dificil ver o fundamento deobsoluto, e qua Deus Q uno de rnodo to1 qua GIG verdade daquela express60 de flnaxCl~0raSQ ern oto tudo oquilo que tern o possibilidode que "toda coisa est6 em toda coisa", verdadede ser. talvez mais profunda do que o proprio Rnaxa- Tal unidade n6o acolhe o mais e o menos, e goras pensasse. Com efeito, uma vez que dondo & multiplic6vel.R divindade 6 unidadeinfinita.Rqueleque disse: "Owe,Israel",o teu h s "6 uno"; pr~meiro livro se conclui que Deus est6 ern to- das as coisas de modo tal que todas estdo nele,e: "uno & o mestre" e C "o vosso p nos ~ C u s " , ~ i e uma vez que agora nos consta que Deus @st6n60 teria podido dizer coisa mais verdadeira. em todas as coisas como qua por meio do uni- N~colau Cusa. verso, a partir disso temos que todas as coisas de A douta 1gnor6ncia. ~ s t d em todas e toda coisa esM em cada uma. o 0universo, por certa ordem de natureza, precedeu toda coisa como realidode perfei- tissima, de modo que toda coisa pudesse es- tar em toda coisa. Ern todo crioturo o universo Q o ser da- "tuclo est6 em tudo" quelo rnssrno criotura, e assim coda coisa rece- e seu significado be todas as coisas, de modo que nela esteja o proprio ser delas, controido. Uma vez que toda coisa ndo pode ser em 0ontigo princ@iode Rnaxdgoros "tudo ato todas as coisas, estando controido, ela con- estd ern tudo" Q retornodo pel0 Naoplo- trol em s~todas as coisas, a fim de que estas tonisrno, a Q lavodo por Nicolou de Cuso ds sejam o seu propr~o ser. extrernos consequ&ncios. Ern Rnox6goros o Se todas as coisas estdo em todas as prlnc@io volio poro os horneornerios", qua colsas, todas as coisas parecem preceder coda constituern o rnothrio do quo1 os coisos sdo coisa. Mas a totalidade das colsas ndo C plu- feitos: todos os horneornerios esMo presan- ralidade, pois a pluralidade ndo precede cada tes ern todos os coisos, oindo que am peque- coisa. Todas as coisas, portanto, sem plu- nissirno rnedido, rnos o Intelig&ncio perrno- ralidade, precederam cada coisa por urna or- nacio cornplatornenta foro dasss nexo. No dem natural. R pluralidade, portanto, ndo @st6 Neoplotonisrno ossurne, oo contrdrio, urn sig- em ato em toda coisa, mas todas as coisas, nificodo global e urno volidez obsoluto poro sem pluralidade, sdo o proprio ser de cada uma. todo forrno de reolidode ern todos os nivais. Nicolou de Cuso, oo oprofunclor a da- 2. Em que sentido Deus senvolver a t e princ@io,ssrve-sa do concei- esta em todas as coisas to rnetofkico de "controgio". Este conceito e todas as coisas est6o em Deus significo o de-terminar-se da olgo de rnois garol a universal ern olgurno coiso rnois por- 0 universo est6 nas coisas apenas de ticulor ou rnois definido e em urno rnultipli- rnodo controido,e toda coisa que existe em ato cidode estruturol. Pondo-nos nesto optico controi todas as colsas, de modo que elas se- conceituol, se Daus h rndxirno, obsoluto, inh- jam em ato aqu~lo que coda uma C. Tudo aqui- nito, o cosrno oporece corno ser Deus de lo que ex~ste ato est6 em Deus, porque ele em rnodo contraido, ou sejo, vern o ser o uno, o & o ato de todas as coisas. 0ato 6 a perfeicdo obsoluto a o infinito de-terminado em urna e o fim da pot6ncla. Portanto, uma vez que o multiplicidade de coisas especificamente di- universo est6 controido em toda colsa existen- ferenciadas e fini tas. Por suo v e ~o universo , te em ato, & evidente que Deus, que esth no esM ern todo coiso singulor de rnodo contra- universo, est6 em toda coisa, e coda coisa exis- ido, ou sajo, esM em codo coiso aspecifico- tente em ato est6 imed~atamente em Deus, rnante da-terrninodo s dlferanciodo, a indi- enquanto ela & o universo. viclvolrnanta rnultiplicodo. Portanto, d~zsr "toda coisa est6 em toda co~sa" o mesmo que dizer Deus, mediante &
  • 68. Primeira parte - 6 tlumanismo e a R e n a s c e ~ ~ atodas as coisas, est6 em todas, e todas as assim a estupenda unidade das coisas, a ad-coisas, mediante todas, estdo em Deus. mir6vel igualdade, a admirdvel conexdo, de Estes pensamentos muito profundos se mod0 que todas as coisas est6o em todas.compreendem com clareza e com agudez de Compreendes tamb&m como disso pro-intelecto, isto 6 , que Deus sem diversido- cedam a diversidads e a conexdo das coisas.de est6 em todas as coisas, porque coda coi- Com efeito, toda coisa ndo pode ser em atosa @st6 toda coisa, e que todas as coisas em todas as coisas, uma vez que desse modo ela@st60em Deus, porque todas estdo em to- teria sido Deus, e por isso todas as colsasdas. Todavia, uma vez que o universo est6 estariam em cada uma segundo a possibili-em coda coisa, de mod0 tal que cada uma dade do ser propria de coda uma. E nem to-esteja nele, o universo 6 em coda coisa con- da coisa poderia ser em tudo semelhante atraidamente aquele ser que coda uma & de outra [...I.modo contraido, e toda coisa no universo 6o proprio universo, embora o universo em 5. Ulterior sxemplifica@iocada coisa esteja de modo diverso, e toda do tudo ern tudo"coisa, igualmente, esteja diversamente no na imagem do homemuniverso. r de wus membros Todas as coisas, portanto, encontram pa23. Exemplo da linha e das Figuras em cada urna delas, uma vez que um grau do Eis um exemplo. € claro que a lmha ~nfini- ser n6o poderia estar sem o outro, corno, entreta 6 linha, tri6ngul0, circulo e esfera. Toda linha os membros de um corpo, todo membro & ljtilfinita tem o propr~o a partlr da linha infinita, ao outro e todos encontram paz em todos. Uma sere esta & todo o ser dela. Por isso, na linha fini- vez que o olho n6o pode ser em ato tambhmta todo o ser do linha infinita - que 6 linha, m60, p& e todos os outros membros, o olho setridngulo etc. - 6 o proprio ser do linha finita. contenta de ser olho, e o p& de ser p&.Toda figura, no linha finita, & a mesma linha. Todos os membros se ajudam reciproca- E ndo & que nela exista tridngulo, ou cir- mente, de modo que coda um deles subsisteculo, ou esfera em oto, porque cle mais coisas no proprio ser do melhor modo possivel.em ato n6o temos um ato so, uma vez que toda R m6o e o p& n6o est6o no olho, mas nocoisa ndo est6 em ato em toda coisa, mas o olho eles 560 olho, enquanto o olho est6 notri6ngulo na linha & linha, o circulo no linha & homem de modo imediato.linha, e assim por diante. E assim tamb&m todos os membros es- Para que vejas isso com maior clareza: a t60 no p&, porque o pb est6 de modo imedia-linha s6 pode estar em ato no corpo [...I. to no homem, e assim todo membro atravhs NinguBm p6e em dljvida que em um cor- de todo outro membro est6 imediatamente nopo, dotado de comprimanto, largura e profun- homem, e o homem, ou seja, o todo, em virtu-didads, estejam complicodas todas as figuras. de de coda membro est6 em cada outro mem-Na linha em ato todas as figuras em ato s6o a bro, assim como o todo est6 nos partes, oupropria linha, e no tridngulo sd0 tridngulo, e seja, em cada parte em virtude de coda umaassim por diante. das outras. Com efeito, todas as coisas na pedra s6o Se considerares a humanidade como algopedra, na alma vegetativa s6o a mesma alma absoluto. n6o mistur6vel e n6o contraivel, evegetativa, na vida s6o vida, no sentido sdo considerares o homem no qua1 estd a mesmasentido, no vista s6o vista, no ouvido s6o ouvi- human~dade modo absoluto e do qua1 pro- dedo, na imagina~60,imaglnaG60, na raz60, ra- cede a humanidade controido, que & o ser do260, no intelecto, intelecto, em Deus, Deus. homem, ent6o a human~dade absoluta & como E agora v&s como a unidade das coisas, se fosse Deus, e a contraido & como se fosse oou seja, o universo, est6 no pluralidade e, vice- universo.versa, a pluralidade est6 na unidade. R humanidade absoluta est6 no homem de modo principal e prlorit6rio e, em consequ&n- cia disso, tambbm est6 em cada membro e em4. Todas as coisas s60, na coisa especifica, a propria coisa, coda parte; a humanidade controido, a0 con- trbrio, no olho & olho, no corq6o & cora@o, e a a propria coisa, em Deus, i Drus assim por d~ante, seja, de modo controido ou Olho mais atentamente, e ver6s que toda em coda colsa & coda coisa.coisa existente em ato encontra pa2 porque tudo Nicolau d s Cusa,nslo Q a10 propr~o, slo om Deus Q Deus. V8s e R douta ignor6ncia.
  • 69. 5 1 llj/ Capitdo terceiro - 0 rleoplatonismo renascentista sas, e todas os coisos, snquonto contraidas, 0 m6ximo absoluto nels sncontroriam poz como em suo perfeito rsolizogbo. e a natureza do homem Ele seria medida do homem e do anjo, co- como microco~mo mo diz Jo6o no Rpocalipse; serla tomb&m me- dida de cada coisa singular, porque seria entida- de contraida das criaturas singulares em virtude Com boss nos concsltos qua lemos nos da mido com a entidade absoluta, que 6 entida- pdginos prscsdsntss, Nicolau ds Cuso oprs- de absoluta de tudo. Atrav&s dele todas as COIF ssnto o homem como "microcosmo". 0 ho- sas rcxeber~am inicio e o F de sua contra(60, o m i mam, com efsito, contrai as rsalidodss supe- uma vez que atrav6s dele, que & m6ximo contra- riores (ongQ11cos) os rsalidadss infsriorss a ido, todas as coisas a partir do m6ximo absolu- (os onimais s os vsgetois) como rsolichds to seriam postas no ser da contra(60, e retor- mQdio ou intsrmsdidr~a. nariam ao absoluto pela mediac60 dele, como E Daus fsito homam (no F~lho), md- m o principio da emana(6o e fim do retorno. ximo, o min~mo o mQd~o noturszo ss e do unam smtsticoments no mdximo obsoluto, ds modo to1 qus €16-sa imp& como o psrfsigbo 3. Cristo, filho d r Deus e filho do homem obsoluto de todos os coisos. Deus, sendo a igualdade do ser para to- Mos tombam considsrodo em si, o ho- das as coisas, & o criador do universo, o qua1 mam Q como um Deus humano, um infinito foi criado tendo Deus como Flm. R igualdade humonomsnts controido", s todos os coisos sumo e m6xima do ser em relac60 a todas as do univsrso sxistsm no homam sob Formo co~sas sentido absoluto seria aquela b qua1 em humona, s naste ssntido justomsnts o ho- se uniria a natureza da humanidads, e ossim mem Q um "microcosmo". Dsus, om virtuds clo humonidads qus ossumiu, sario contraidomsnts todos os coisos no humo- nidods, assim como & absolutamente todas as coisas pela igualdade do ser. Este homem,1. A natureza humana portanto, uma vez que subs~ste virtude da em como a mais devada das criaturas unido na mesma igualdade mdxima do ser, se- R natureza humana & a que vemos eleva- ria Rlho de Deus como seu verbo, no qua1 Fo-da acima de todas as obras de Deus, um pou- ram feitas todas as coisas, ou seja, serla aco menor em rela(6o b natureza ang&lica; el0 mesma igualdade do ser, a qua1 se chama filhocomplico a natureza intelectual e a sensivel, e de Deus [...I; e todav~ando deixaria de ser Fi-abrqa em si mesma todas as coisas, de modo Iho do homem, assim como n60 deixaria de sera ser chamada justamente pelos antigos de homem.microcosmo ou pequeno mundo. €lo Q oquslaqua, se fosse elsvodo d unibo com o moxl- 4. Em que sentido o homem 6 "microcosmo"mldods, constitu~rio planituds ds toclos os oparfeigbes do univsrso s dos sntss singulorss, fldmirdvel criasdo de Deus 6 esta, na qual, gradualmente,o poder do discernimentodo pon-e na unidade todas as coisas alcan(ariam seu to central dos sentidos & Ievado at& a naturezagrau supremo. intelectual suprema, atrav&s de graus e de car- tas vertentes orgenicas, onde, com continuida-2. Em Deus encarnado no homem de, as liga~des produzidas pelo mais sutil espi- esta a totalidade contraida rlto corporeo sdo tornados luminosas e simples de todas as coisas at& a vitoria da virtude da alma e at& a que tal Foculdade do discernimento chegue 21 c&lula do fl humanidade exlste apenas de modo poder da raz6o. Dai, em seguida, ele chega at&controido neste ou naquele homem. De modo a virtude supremo do intelecto, como atravbs deque ndo seria possivel que mas do que um so um rlo se chega ao mar sem fim, onde se con-verdadeiro homem ascendesse b unido com a jectura hover outros coros, da disciplina, da mte-maximidads, e este, certamente, seria homem lig6ncia e da intelectual~dade simplicissima.de modo tal que serla Deus, e Deus de modo fl unidade do humano, uma vez que est6tal que seria homem, perfei@o do universo, controido humanamente, parece complicor tudoprimeiro em todas as coisas; nsls o minimo,o mdximo s o mhdio do noturszo, unidos dmoxlmidods obsoluto, coinc~diriom modo deto1 qus sls serio o psrfsigbo ds toclos os COI-
  • 70. 52 Primeira parte - 0t l v m a n i s m o e a R e n a s c e n c asegundo a natureza desta controgdo. 0 poderd a t a sua unidade abrago a universalidade dascolsas e a cont&m dentro dos termos da pro-pria regido, ds modo que nada de tudo Iheescape. Uma vez que se conjectura que todoante seja captado ou mediante o sentido, oumediante a razdo, ou mediante o intelecto, e ohomem v& que estas faculdades s6o complica-das em sua unidade, sup6e poder-se esten- como "copula mundi"der, de modo humano, a todos as entes. 0 homem 6 , com efeito, Deus, mas ndoem sentdo absolute, porque 6 homem; 6, por- Uma dos concepq3es mais significoti-tanto, um Deus humano. 0 homem & tamb&m vos de Morsilio Ficino Q a do almo como co-mundo, mas n6o G controidomante todas as pula mundi, de derivogdo neoplotdnico.coisas, porque & homem. Ele G por isso micro- Pora Plotino, com efeito, a olmo Q a ul-cosmo ou mundo humano. A regido da humani- timo deuso, ou sejo, o ultimo dos r~alidodesdade abra<a Deus e o mundo universal no seu inteligiveis e, por conseguinte, Q a real~dodepoder humano. 0 homem pode ser Deus hu- que confino com o sansivel, ocupando oss~mmano e, como Deus, pode ser de modo huma- um grau mtermediario entre os sera.no, anjo humano, besta humana, ledo humano ConformaFicino, anologamante, no es-ou urso ou qualquer outro ser. No poder huma- truturo hier6rquica do realidode a olmo dono existem todos os entes conforme o modo mundo ocupa o grau mQdio (o t~rceiro), reu-desse poder. nmdo em suo propria unidode todos os ou- Na humanidade todas as coisas a t 6 0 tros graus, isto 6, o mundo inteligivel (Deusexplicodos humanamente, assim como no uni- s onjo) e o mundo fisico (quolidodes 5 ma-verso elaso sd0 no modo do universo, de sor- tQr~o): desse modo, a almo cosmico 6 inter-te que existe um mundo humano. medidrio de todos as coisas, e a todos ultra- Na humanidade, por fim, todas as coisas posso, oscendendo poro o olto e descendoestdo complicoclos de modo humano, porque o poro o baixo.homem 6 um Deus humano. R humanidade 6 unidade, e ela b um infi-nito humanamente controido. Disponhamos mais uma vez a realidadede Uma vez que G propriedade da unidade todas as coisas em cinco graus. Coloquemosexpl~cor si os entes, dato que ela & ent~da- por Deus e o Rnjo na sum~dade natureza, o cor- dade que os complico em sua simplicidade, tam- po e a qualidade no grau mais baixo, mas ab&m a humanidade tem o poder de explicorpor alma no meio, entre as coisas altissimas e assi todas as coisas dentro do circulo da propria infimas, a alma que com razdo chamamos, deregido, de extrair tudo a partir da pot6ncia do mod0 plat8nic0, terceiro ou mQdio ess&ncio,centro. € propriedade da unidade per-se como pois ela est6 no meio em rela<do a todas asFim das explicog6es, pois C infinidode. colsas e 6 terceira a partir de qualquer parte for isso o criar ativo proprio do humani- que comecemos.dade nbo tem outro fim a ndo ser a propria hu- Dizem corn razdo os Plat6n1cos que, aci-manidads. Esta nbo se volta pqra fora de si ma daqu~lo que flui limitado pelo tempo, est6quando cria, mas, quando expl~ca propria vir- a aquilo que subsiste por todo o tempo, que aln-tude, tende a si mesma. E ndo produz algo que da acima est6 aquilo que subsiste pela eterni-seja novo, mas percebe que tudo o que est6 dade e que, por fim, aclma do tempo est6 ocriando na explicqdo estava j6 em si mesma. eterno. Mas, entre as coisas que sdo apenasDissemos, com efeito, que todos os coisos ex~s- eternas e as outras que fluem apenas no tem- tem no homam sob formo humono. po, temos a alma, que & espbcie de liga@o Rssim como o poder da humanidade tem entre as duas ssferas.a capacidade de estender-sea todas as coisas Toda obra que consta de uma rnultipl~c~-sob forma humana, tambGm todas as coisas t&m dade, 6 , entdo, perfe~ta, quando est6 tbo 11ga-este poder em relag30 a ela, e que este admi- da em seus membros, a ponto de recolher-ser6vel poder humano se dir~ja percorrer todas a de toda parte em unidade, para ser consisten-as colsas ndo & mais que um complicor em si, te e conforme a si, de modo a ndo se dissiparsob forma humana, todas as coisas. facilmente [. ..]. Com maior razdo devemos pro- N~colau Cusa, ds por a conexdo das partes do universo, que G R douto ~gnordncia Rs conjocturos. s obra de Deus, de modo qua sle tamb&m resul-
  • 71. 53 /" Capitdo terceiro - 0 flleoplatonismo renascentistate a h i c a obra do unico Deus. Deus e o corpo Nos escritos dos 6rabes li, venerandossdo por natureza as partes extremas e uma di- Pais, que Abdalla Saraceno, quando Ihe per-versissirna da outra. 0Anjo ndo consegue reu- guntaram sobre o qua Ihs parecla sumarnenteni-las, pois esta inteiramentevoltado para Deus admiravel nesta esp6c1e teatro qua 6 o mun- dee esquece o corpo [...I. do, respondeu que nada via de mais espl&ndi- Nem a qualidade refine os extremos, pois do do que o homem. E com este dito concordase inclina para o corpo e abandona as coisas o famoso de Hermes: "Grande milagre 6 o ho-superiores; deixando as coisas incorporeasela mem, Ascl6pio!".propria se torna corporea. At6 este ponto as Ora, enquanto eu procurava o sentidocoisas sZlo como extremos, e reciprocamente se dessas sentenps, ndo me satisfaziam os argu-excluem as coisas superiores a as inferiores, fal- mentos que em grande numero muitos aduzemtando os opostos de uma ligagio. sobre a grandeza da natureza humana: ser o Todavia, urna vez posta no meio a terceira homem vinculo das criaturas, familiar 6s supe-ess&ncia, ela 6 tal qua, enquanto se refine corn riores, soberano das inferiores, inthrprete daas coisas superiores, nBo deixa as inferiores, de natureza pela agudez dos sentidos, pela pes-modo que nela estas e aquelas se encontram quisa do razdo, pela luz do intelecto, interme-reunidas. [A alma], corn efeito, 6 imovel e mo- diario entre o tempo e a eternidade e, comovel. Daquela parte ela se liga com a realidads dizem os persas, copula ou seja Himeneuedosuperior, desta com a inferior. ligando-se com mundo, pouco inferior aos anjos segundo o tes-ambas, deseja uma e outra. Por isso, [a alma], temunho de D ~ v iGrandas coisas estas, sem .~por certo instinto natural, ascende para coisas d6vida, mas ndo as mais importantes, ndo tais.superiores e desce para as inferiores.E, anquan- isto 6, por meio das quais possa justamenteto ascende, ndo abandona as coisas mais bai- arrogar-se o privilhgio de uma admira@o semxas, e, enquanto desce, jamais deixa o divino. limites. Por que, com efeito, ndo admirar mais M. Ficino, os anjos e os beatissimos coros do cbu? Theologio plotonica. Todavia, no F parece-me ter compresn- i m dido porque o homem seja o mais feliz dos se- res animados e, por isso, digno de toda admi- ra~do, qua1 seja por fim aquels destino que. e cabendo-lhe na ordem universal, & invej6vel ndo so aos brutos, mas aos astros e aos espi- ritos ultramundanos. Co~sa incrivel e maravilho- sa! E como poder~a diferente, ss 6 justa- ser mente por ela que o homem & proclamado e considerado um grande milagre e maravilho entre os viventes? Mas qua1 seja ela, escutai, 6 Pais, e dai benignamente ouvidos, em vossa cortesia, a este meu falar. J6 o sumo Poi, Deus criador, ti- 0Discurso sobre a dignidade do ho- nha Formado, conforme as leis de uma arcana mern Q certornente o escrito de Pico qua se sabedoria, esta morad~a mundo, tal qua1 nos do tornou rnois chlabre, e oth se irnp6s corno aparece, templo augustissimo da d~v~ndade. urn dos textos ernblerndticos do Hurnanismo. Havia embelezado com as intelig&nciaso hipe- R possogern oqui proposto verso so- rur6ni0, avivara de almas etsrnas os globos bre o significodo rnstoffsico e rnorol do ho- ethreos, povoara com uma turbo de animais de mern corno Qrandarnilogr@". Todos os crio- toda espCcie as partes vis e torpes do mundo turos qua se encontrorn tonto no rnundo infenor. Contudo, levando a obra b realiza@o, sensivel como no rnundo supra-sensivel Fo- o artifice desejava que ai houvesse algu6m rorn criaclos corno reoliclodes ontologicamen- capaz de captar a razdo de tdo grande obra, te determinadas. 0hornern, oo contrdrio, foi de arnor sua belezo, de admirar sua imensida- posto no confim dos dois mundos, corn urno de. Por isso, tendo j6 realizado o todo, como noturezo astruturoda de rnodo to1 que e1e pro- atestam MoisCs4e TimeuZ5 ljltimo pensou por prlo deve deterrn~nor, plosrnondo-o sagundo o forrno de vido rnorolrnente prh-escolhido. R grondezo do hornern sstd portonto em ter sldo criodo por Deus corno artiflce de RsclQp~o, Corpus Hermeticum, vol. 1. em 1 "~meneu, ou H~mene, o deus q r q o dns niipclns ern SI proprio, como autoconstrutor segundo suos Snlmo 8.5-6. escolhos rnorois. 4G&nes~s 1.26-28. 5Piot~o.fimeu, 41 b.
  • 72. Primeira parte - O t l u m a n i s ~ e ~ R e n a s c e n c a ? aem produzir o homem. Mas, dos arquhtipos ndo aquilo que existe no mundo. Ndo te fiz nern ce-restava nenhum sobre o qua1 modelar a nova leste nern terreno, nern mortal nern imortal, paracriatura, nern dos tesouros urn para entregar que, por ti mesmo, como livre e soberano artifi-como heranp ao novo filho, nern dos lugares ce, te modelasses e te esculp~ssesno formade todo o mundo permanecia um sobre o qua1 que tivesses de antemdo escolhido. Poder6sse sentasse este contemplador do universe. degenerar nas coisas inferiores, que sdo osTodos j6 estavam ocupados; todos haviam sido brutos; poder6s regenerar-te,conforms tua von-distribuidos, nos sumos, nos mtdios, nos infi- tade, nas coisas superlores que sdo divlnas".mos graus. 6 suprema liberahdads de Deus poi! 6 Todavia, ndo teria sido digno do paterno suprema e admir6vel felicidade do homem, aopoder tornar-se como que impotente no irltima qua1 concede-se obter aquilo qua deseja, serobra; nern de sua sabedor~a permanecer incer- aquilo que quer. 0 s brutos, ao nascerem, tra-ta na necessidade por falta de conselho; nern zem consigo do seio materno, como d ~ z Lu~ilio,~de seu bentfico amor, que aquele qua era des- tudo aquilo que terdo. 0 s espiritos superiorestinado a louvar nos outros a divina liberalidade ou desde o inicio ou pouco depois tornaram-sefosse constrangido a reprov6-la em si mesmo. aquilo que serdo pelos stculos dos stculos. No Estabeleceu finalmente o otimo artifice homem que nasce o Pai colocou sementes deque, bquele ao qua1 nada podia dar de pro- toda esptcie e germes de toda vida. E, confor-prio, fosse comum tudo aquilo que singularmen- me coda um os cultivar, ales crescer60 e nelete atribuira aos outros. Rcolheu por isso o ho- dardo seus Frutos. E se forem vegetais, ser6mem como obra d s natureza indefin~dae, planta; se sensiveis, ser6 animal; se racionais,pondo-o no coraq3o do mundo, assim Ihe fa- tornar-se-6animal celeste; se intelectuais, ser6IOU: "NBo te dei, Addo, nern um lugar determi- anjo e filho de Deus. Todavia se, ndo contentenado, nern um aspecto teu proprio, nern qual- com a sorte de nenhuma criatura, se recolherquer prerrogativa tua, porque o lugar, o aspecto, no centro de sua un~dade, tornado um so espi-as prerrogativas que desejares, tudo enfim, rito com Deus, na escuriddo solit6ria do Poi,conforme teu voto e teu parecer, obtenhas e aquele que f o ~ posto sobre todas as coisasconserves. A natureza determinada dos outros estar6 sobre todas as coisas.estd contida dentro da leis por mim prescritas. G. P~codella M~randola.Tu determinar6s a tua, ndo constrangido por D~scurso sobrs o dignidads d o homsm.nenhuma barreira, conforme teu arbitrio, a cujopoder te entreguei. Eu te coloquei no meio domundo, para que dai melhor avistasses tudo Sobros, 623 ad1q5oMorx 6Lucil~o, Representam-se aquios presumidos retratos de Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano (da esquerda para a direita). Particular do afresco do "Milagre do Sacramento", de Cosme Rosselli. Floren~a, igrea de santo Ambrcisio, capela do Milagre.
  • 73. Nao temos ainda conhecimento preciso das relasties que existem entre os dois ramos do Aristotelismo: a) o etico-politico, que os humanistas liter 6) o Iogico-naturalista das Universidad 0 tom geral da epoca 6 em todo caso , e o Aristotelismo, na dialetica geral d 0 Aristotelismo serve prevalentemente de antitese; nhentos (Teksio, Bruno, Campanell forto das paginas de Aristoteles. 0s aristotelicos da Renascenca se ocuDar - - - - - problemas Iogico-gnosiolo icos ede problbmas fisicos, aprofun- 9 dando os aspectos metodo ogicos, tanto que a Escola de Padua cunhou a expres- sao "metodo cientifico" (politica, etica e poetica permaneceram, ao contrdrio, heranqa dos humanistas filologos. No que se refere as fontes do conhecimento, os aristotClicos distinguiram: a) a autoridade de Aristoteles; 6)o raciocinio aplicado aos fatos; c) a experiencia &reta; mas pouco a pouco eles comesaram a preferir esta ultima. Papel importante teve ate o 600 a doutrina da dupla verdade, proposta peia primeira vez na ldade Media por Siger de Brabante, segundo o qua1sobre a base da razao e da doutrina aristotelica uma coisa pode resultar mais provavel, mesmo que sobre a base da fe seja aceito o oposto. 0 Aristotelismo renascentista merece maiores considerar$ies enquanto 4 indispensavel para compreender a epoca. Para o momento n80 se tem ainda cai nhecimento preciso da diferensa entre o Aristoteles etico-politi- co dos humanistas e o Aristoteles Iogico-naturalistic0 das Univer- Importiincia sidades. Em geral, porem, o Aristotelismo representa, para o pen- do Aristotelismo samento renascentista, a antitese do Platonisrno. Alguns fil6sofos renascentista do Quinhentos, ao contrario, experimentarso at6 fastio ao ler as 5 + obras de Aristoteles. fs t&s intevpretac&s claro que o quadro do pensamento renas- centista permanece incompleto e falso se n2o tradicionais de fristtees levarmos em conta as contribuiq4es que ele trouxe. Procuraremos agora completar o Ja destacamos a importincia atribui- que ja haviamos antecipado.da pelos estudiosos ao aristotelismo na Ita- Deve-se recordar que as interpretaqoeslia nos skculos XV e XVI e como se tornou basicas do aristotelismo foram tris.
  • 74. 56 Primeira parte - O H u m a n i s m o e a R e n a ~ c e n ~ a a ) A primeira 6 a alexandrina, que No que se refere i s tematicas, devemosremontava ao antigo comentador de Arist6- recordar que, em virtude da estrutura do en-teles Alexandre de Afrodisia. Alexandre sus- sino universit6rio. os aristotClicos da C ~ o c atentava que o homem possui o intelecto po- renascentista ocu~aram-sesobretudo dostencial, mas que o intelecto agente C a problemas 16gico-~nosio16gicos dos proble- epropria Causa suprema (Deus) que, ilumi- mas fisicos (a politica, a Ctica e a poCtica fica-nando o intelecto potencial, torna possivel ram patrim6nio dos humanistas filologos).o conhecimento. Assim sendo, n5o ha lugar No que diz respeito A fontes do co- spara urna alma imortal, pois ela deveria co- nhecimento, os aristotklicos distinguiam: a )incidir com o intelecto agente (as interpre- a autoridade de Aristoteles: b ) o raciociniotag6es recentes levaram ao reconhecimento aplicado aos fatos; c) a experkncia direta.da presenqa de certa forma de imortalidade Mas, pouco a pouco, comeqaram a privile-em Alexandre, mas urna imortalidade im- giar esta ultima, tanto que os estudiosospessoal e inteiramente atipica; de qualquer consideravam que (pelo menos tendencial-modo, urna imortalidade impessoal n5o mente) eles podem ser definidos como "em-podia interessar aos cristios). ~iristas". b) N o sCc. XI Averrois submeteu as Ademais, tambkm aprofundaram osobras aristotClicas a poderosos comenta- problemas 16gicos e metodologicos com dis-rios, que tiveram ampla repercuss50. A ca- cuss6es de alto nivel. A Escola de Padua che-racteristica de sua interpretaqio era a tese gou atk a cunhar a express50 "mitodo cien-segundo a qua1 haveria um intelecto unico tifico".e separado para todos os homens. Caia as- Todos os conceitos da fisica aristotilicasim por terra qualquer possibilidade de se foram discutidos analiticamente. Mas. nes-falar de imortalidade do homem, visto que se terreno, a estrutura geral da cosmologiaso era imortal o Intelecto unico. do Estagirita, que distinguia o mundo ce- TambCm era tipica dessa corrente a leste, feito de Cter incorruptivel, do terres-chamada doutrina da "dupla verdade", que tre, constituido de elementos corruptiveis,distinguia entre as verdades acessiveis a for- n5o permitia progressos notaveis, impondoqa da razao e as verdades acessiveis unica- urna rigorosa separaq50 entre a astronomiamente a f (mais adiante, voltaremos a falar C e a fisica. Alkm disso. a teoria dos auatrodo sentido dessa doutrina). elementos aualitativamente determinados e c) Por fim, havia a interpretaqio to- a teoria das "formas" tornavam impossivelmista, que tentara urna grandiosa concilia- a quantificaqao da fisica e a aplicaq50 daqio entre o pensamento aristotClico e a dou- matem5tica.trina cristi. Era muito comentado e difundido, em particular, o tratado De anima, com sua dou- trina sobre a alma (que, no esquema aristo- tClico. entrava no fmbito da ~roblematica As ternbticas aristotklicas "fisica", ~ e l omenos em sua parte funda- mental). tratadas na RenascenGa Na Cpoca da Renascenqa todas essas A cornpIexa quest60interpretaqoes foram repropostas. Entre- da "dupla verdade"tanto, hoje, tende-se a contestar a validadedesse esquema cemodo, destacando que arealidade era bastante complexa, n i o ha- Mas um ponto merece ser destacadovendo nenhum aristotClico que se possa con- com especial atenqio. No passado, deu-se asiderar seguidor de urna dessas tendzncias doutrina da "dupla verdade", que foi reto-em todos os pontos, e que, a proposito de mada na Cpoca renascentista, um significa-cada problema em particular, o alinha- do bastante inexato, que deve ser rediscutidomento dos varios pensadores muda muito, profundamente.apresentando grande variedade de combi- Ha certo tempo os estudiosos chama-naqdes. ram a atenqio para o fato de que a relaqio Trata-se, portanto, de urna divisio a entre teologia e filosofia constituiu um pro-ser usada com cautela. blema que explodiu repentinamente no sC-
  • 75. 57 Capitulo quarto - 0Pristotelismo renasrentista e a revivesc&cin do Ceticismoculo XIII, em virtude do encontro entre a Resta. alem disso. o fato de clue o tomteologia, que se constituira em bases 16gi-cas, com um conjunto coerente de doutri- - C geral da ~Doca dado sobretudo-~elo Pla- tonismo, e que o Aristotelismo, na dialiticanas, e a filosofia de Aristoteles, que, por seu global do pensamento renascentista, repre-turno, representava um conjunto de doutri- senta de mod0 prevalente a antitese.nas coerentes -e desse encontro brotaram 0 s proprios filosofos do Quinhentoscontrastes de varios tipos. aue estudaremos mais adiante., aue se diri- - A A tentativa de sintese proposta por giram i Natureza em ~rimeira instincia. niioTomas fora muito contestada: Escoto e s6 niio trario nenhum conforto das paginasOckham haviam alargado o fosso que se- de Aristoteles, e sim fastio: Teltsio acharipara a ciencia da fC, e Siger de Brabante pro- Aristbteles, ao mesmo tempo, demasiada-pusera a doutrina da "dupla verdade", que mente pouco fisico e demasiadamente pou-os averroistas latinos tornaram sua, sendo co metafisico; Bruno o considerari "um velhosustentada por alguns aristotClicos at6 o sC- deplorhvel", "inclinado, curvo, corcunda,culo XVII. dobrado Dara a frente. como Atlante. o ~ r i - Pois bem, o que significa "dupla ver- mido peso do c&, de mod0 q;e h i odade" ? pode vC-lo"; enquanto os habitantes da Ci- 0 s estudiosos mais atentos colocaram dade do Sol de Campanella, que exprimemem evidihcia que tal teoria, em seu nucleo as idCias do filosofo, "siio inimigos de Aris-de fundo, pode ser essencialmente reduzida toteles, e o chamam de pedante".a este principio: sobre a base da razz0 e dadoutrilza aristotelica uma coisa pode se tor-nar mais provhvel, mesmo que sobre a baseda fe seja aceito o oposto. Isto n i o significava abandon0 da teo-logia e da fC, mas apenas uma distin~iio heu-ristica e metodologica das esferas da ciGn-cia e da fC. renascentista Dissemos acima que d m razio os quesustentam que o Aristotelismo renascentistamerece maior consideraqiio do que teve nopassado e que ele constitui uma componen-te indispens5vel para compreender a Cpoca.De nossa parte, logo levaremos em conside-raqiio a figura de Pedro Pomponazzi. Isto C certamente exato em si. Toda-via, no momento encontramo-nos ainda Ion-ge de um conhecimento precis0 das relaq6essubsistentes entre os dois ramos do Aristote-lismo: o que os humanistas literatos fizeramreviver, que 6 o Aristoteles Ctico-politico, eo Aristotelismo 16gico-naturalista das Uni-versidades.
  • 76. O tlurnanisrn~ a Renascenca e 11. Pedro PomPonazzi * Sob muitos aspectos, o mais interessante dos aristotelicos foi Pedro Pom- ponazzi (1462-1525), segundo o qua1 a alma intelectiva e principio de intelec@oe voli@o imanente no homem, e e capaz de conhecer o universal e Pietro o supra-sensivel; todavia, ela nao 6 uma inteligencia separada: Pornponazzi: nOo pode estruturalmente prescindir do corpo, que e o mais no- a natureza bre dos seres materiais, tem perfume de imaterialidade, embora da a h a nOo de mod0 absolute. Pomponazzi pde tal posi+o dentro da O principio doutrina da dupla verdade, porque a imortalidade da alma e ar- da tigo de fP que deve ser provado com os instrumentos da fe (reve- 4 3 7-3 iagao e Escrituras), mas nao e urna verdade demonstravel pela raz%o;a "virtude", isto e a vida moral, e em todo caso garantida , mais com a tese da "mortalidade" do que com a da "imortalidade" da alma: a verdadeira felicidade 6 posta na propria virtude, prescindindo de recompensas futuras no aldm. No quadro da dupla verdade deve ser inserido tambem o principio de natura- lidade, segundo o qua1todos os eventos sem exce@opodem ser explicados sobre a base de causas naturais e da experiencia, compreendendo tudo o que acontece na histbria dos homens; em todo caso, os eventos admitem tambCm urna explica- $40 com base em verdades sobrenaturais. 0debate Mas, sendo assim, a alma n i o pode estruturalmente prescindir do corpo, ja que, sobre a imortalidade da alrna privada dele, n i o poderia desenvolver sua funqiio propria. Assim, ela deve ser consi- derada urna forma que nasce e perece com Pedro Pomponazzi (1462-1525), cha- o corpo, niio tendo nenhuma possibilldademado Peretto Mantovano, foi certamente o de agir sem o corpo. Entretanto, como dizmais discutido dos aristotClicos e, por mui- Pomponazzi, sendo o mais nobre dos serestos aspectos, considerado o mais interessante materiais e encontrando-se na fronteira comdeles. os seres imateriais, a alma "recende a imate- Sua obra que maiores pol&micassusci- rialidade, ainda que n i o em absoluto".tou foi o De immortalitate animae, que de- A tese desencadeou verdadeira tempes-batia um problema central no Quinhentos. tade, at6 porque - C bom lembrar - o N o inicio, Pomponazzi era averroista, dogma da imortalidade da alma era consi-mas pouco a pouco seu averroismo entrara derado absolutamente fundamental pelosem crise. Depois de ter meditado longamente plat8nicos e, em geral, por todos os cristios.sobre as soluq6es opostas de Averrois e de Para dizer a verdade, Pomponazzi niiosanto Tomas, ele assumiu urna posiqiio con- queria em absoluto negar a imortalidade,siderada "alexandrina", mas que, embora pretendendo neg6-la apenas como "verda-tenha pontos de contato com a teoria de de demonstravel com seguranqa pela razio".Alexandre, C por ele formulada com novo Diz ele que a imortalidade da alma O artigocolorido. de fb, e que, como tal, deve ser provado com A alma intelectiva C o principio do enten- os instrumentos da fC, ou seja, "com a reve-der e do querer imanente do homem. Dife- laqiio e as escrituras can8nicasn, ja que osrentemente da alma sensitiva dos animais, a outros argumentos n i o siio apropriadosalma intelectiva do homem C capaz de conhe- para isso. E diz tambCm niio ter duvidascer o universal e o supra-sensivel. Entretan- sobre esse artigo de fC. Levando-se entiio emto, ela niio 6 urna "intelighcia separada", conta o que dissemos sobre o significado datanto que so pode conhecer mediante as "dupla verdade", a posiqiio de Pomponazziimagens que Ihe derivam dos sentidos. torna-se bem clara. z ~m
  • 77. 59 Capitulo quarto - 0Sristotelismo rrnascenfista e a vevivescZncia co Ceticismo ! A alma aparece em primeiro lugar na hierarquia dos seres materiais e, portanto, como tal, confina com os seres imateriais, sendo assim "mCdia entre uns e outros": t material, se comparada com o imaterial; C Outro ponto tambim merece ser desta- imaterial, se comparada com o material.cado. Pomponazzi sustenta que a "virtude" Participa das propriedades das puras inteli-(ou seja, a vida moral) salva-se mais com a ghcias, bem como das propriedades mate-tese da "mortalidade" do que com a tese da riais. Quando realiza aq6es pelas quais se"imortalidade" da alma, porque aquele que t assemelha i s intelighcias puras t chamadabom tendo em vista os pr6mios do alCm esta divina e, em certo sentido, transforma-se emde alguma forma corrompendo a pureza da realidade divina; quando realiza obras ani-virtude, submetendo-a a algo fora dela. De mais, transforma-se em animal.resto, diz ainda nosso fiksofo, retomandouma cClebre idCia j i defendida por Socratese pela Estoa, a verdadeira felicidade esta de-positada na propria virtude, ao passo que a 0" p v i n c i p i o da natuvalidade"infelicidade esta depositada no proprio vicio. Todavia, apesar dessas drasticas con-traq6es da imagem metafisica do homem,Pomponazzi retoma a idCia do homem como TambCm foi muito apreciado o De in-"microcosmo" e algumas idCias do cklebre cantationibus (0livro dos encantamentos),"manifesto" de Pico. no qua1 Pomponazzi responde i quest50 se
  • 78. 60 Primeira parte - 8H~rnanisrno a Renascensa eexistem causas sobrenaturais na produqiio a opiniiio do pr6prio Aristoteles e a contidados fen6menos naturais, mostrando que to- no respectivo comentirio de Averrois, bemdos os acontecimentos, sem exce~iio,podem como depois de expor de forma silogisticaser explicados com o principio da naturali- as demonstraq6es sobre a inabitabilidade,dude, inclusive tudo o que ocorre na histo- de repente ele afirma poder desmentir os si-ria dos homens. logismos apoditicos de Aristoteles e Aver- N o passado, exagerou-se muito o va- rois com a carta de um amigo do Vineto,lor da formulaqiio desse "principio da na- que atravessara a zona torrida, encontran-turalidade" e sua respectiva aplicaqiio, afir- do-a habitada.mando-se que Pomponazzi pressentia o E agora?novo e era muito superior aos seus tempos. A conclusiio de Pomponazzi C a seguin-Mas a critica historicamente mais conscien- te: "Oportet stare sensui". E a experiincia,te chamou a atenqiio para o fato de que Pom- e niio Aristoteles, que sempre tem raziio.ponazzi, no caso, realiza uma operaqiio que Depois de Pomponazzi, destacaram-seexpressamente declara circunscrita ao pon- ainda entre os aristotilicos os nomes de An-t o de vista aristotelico, alCm de afirmar ter drC Cesalpino (1519-1603), Jacopo Zaba-consciincia da existincia de uma verdade rella (1533-1589), CCsar Cremonini (1550-diferente, que C precisamente a verdade da 1631) e Julio CCsar Vanini (1585-1619).fC. Isso redimensiona notavelmente o senti-do do seu discurso. Analoga C a posiqiio do De fato, de li-bero arbitrio et de praedestinatione, no qua1sustenta que, do ponto de vista natural, niioh i soluq6es certas para a quest50 do desti-no, mas que tambCm se mostram contradi-torias a proposit0 as soluq6es dos teologos.TambCm nesse caso, para se ter uma respostasegura, C precis0 confiar na fC e na revela-qiio. Entretanto, como filosofo natural, eleprefere a soluqiio dos estoicos, que admitiamo destino como soberano. O priviIkgio que deve s e v dado Mas a modernidade de Pom~onazzi.como aristotklico. esta ~recisamente fato node comeqar a preferir a experiincia h auto-ridade dos escritos de Aristoteles, quandoestes siio contraries iquela. Em uma aula de 1523 (apontada demod0 especial por B. Nardi), comentandouma passagem dos Meteorol6gicos deAristoteles sobre a habitabilidade da terrana zona torrida (entre o tropic0 de Cincer eo tropic0 de Capricornio), depois de expor
  • 79. 61 Capitulo quarto - 0Sristotelismo renascentista e a revivesc2ncia do Ceticismo de uma f o r m a moderada d e C e t i c i s m o A tradiqees dominantes no 400 d o a do Platonismo e do Aristotelismo. s s Grande difusao no 500 tiveram tambem o Epicurismo, Estoicismo e Ceticismo, este ultimo na formulaqao que Ihe foi dada por Sexto Empirico. O Ceticismo conseguiu ate criar verdadeira e propria tempera cultural, especialmentena Franqa com Michel de Montaigne (1533-1592). E Montaigne o Ceticismo convive m com uma fe sincera, porque ele e estrutural desconfian~a fa-na za"oe, justamente por isso, nao pode per em causa a fP. Inspiran- do Ceticismo. do-se na posi@o de Sexto Empirico, para quem a tranquilidade Michel de iinimo consegue, pela renuncia, conhecer a verdade absolu- de Montaigne ta, Montaigne sustenta que a sabedoria, o "conhecer a si mes- + § 1-2 mo", n%opode chegar a uma resposta sobre a esshcia do ho- mem, mas apenas sobre caracteristicas do homem singular: cada um deve cons- truir para si uma sabedoria conforme sua propria medida. A grandeza do homem esta em reconhecer e aceitar sua propria mediocridade, em dizer sempre sim a vida, aprendendo a aceita-la e am$-la assim como ela e. Revivesc&cias liga-se Heinrich Cornelius (que se fez cha- mar de Agrippa de Nettesheim, 1486-1535, d a s filosofias helenisticas conhecido sobretudo como mago) na obra Incerteza e fatuidade das cizncias e das artes (escrita em 1526 e publicada em 1530), na qua1 sustenta que niio siio as ciencias e as As tradig6es predominantes no Quatro- artes humanas (que siio refutadas com argu-centos eram as do Platonismo e do Aristo- mentos extraidos de Sexto Empirico) quetelismo, como vimos, ao passo que o Epicuris- salvam o homem, mas somente a f6.mo e o Estoicismo constituiam apenas Na Franga, foram publicadas sucessi-instfncias marginais, que transparecem em vamente nove vers6es latinas de Sexto Em-alguns autores, sem, no entanto, imporem- pirico. Em 1562, EstCviio (Henri Estienne,se de mod0 relevante. Muito maior, porkm, 1531-1 598) traduziu os E s b o ~ o s pirronia-foi a difusiio que estes ultimos tiveram no nos e, em 1569, Gentian Hervet (1499-1584)Quinhentos, juntamente com o renascido publicou todas as obras de Sexto EmpiricoCeticismo, na formulagiio que lhe foi dada em versiio latina.por Sexto Empirico. Nesse meio tempo, Justo Lipsio (Joost 0 Ceticismo conseguiu at6 criar uma Lips, 1547-1606) repropunha na Alemanhaverdadeira e peculiar timpera cultural, es- e na BClgica o estoicismo, tomando porpecialmente na Franga, encontrando sua ex- modelo sobretudo Sineca e procurando con-pressiio mais elevada em Montaigne. cilii-lo com o cristianismo. Como ocorreu esse renascimento? 0 primeiro a utilizar Sexto Empirico demod0 sistemitico foi Gianfrancesco Picodella Mirandola (1469-1533),net0 do gran- e o ceticismo como t ~ n d a m e n t ode Pico, em sua obra Exame das fatuidadesdas teorias dos pagiios e da verdade da dou- d e sabedoriatrina cristii (1520),na qua1 ele utiliza elemen-tos ckticos para demonstrar a insuficiinciadas teorias filosoficas e, portanto, da raziio No quadro acima brevemente tragado,pura, concluinda que, para alcangar a ver- insere-se tambCm o pensamento de Micheldade, C precis0 a fC. A Gianfrancesco Pico de Montaigne (1533-1592), autor dos En-
  • 80. 62 Primeira parte - 8t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c asaios (1580 e 1588), que siio obras-primas A soluqiio adotada por Montaigne ins-ainda hole muito consideradas. pira-se nessa, mas 6 muito mais articula- Tambim em Montaigne o ceticismo da, rica em nuanqas e sofisticada, com a in-convive com uma fC sincera. Isso surpreen- clusio, tambim, de sugest6es epicuristas edeu muitos historiadores. Na realidade, po- estoicas.rim, sendo o ceticismo desconfianqa na ra- 0 homem C misero? Pois bem, captemosZ ~ O ,ele niio p6e a fe em causa, pois esta o sentido dessa misiria. E limitado? Capte-situa-se num plano diferente, sendo portan- mos o sentido dessa limitaqiio. E mediocre?to estruturalmente inatacivel pel0 espirito Captemos o sentido dessa mediocridade.citico. "0ateismo -escreve Montaigne - Mas, se compreendermos isso, compreende-i [. ..] uma proposiqiio quase contra a natu- remos tambim que a grandeza do homemreza e monstruosa, dificil tambim e inapta esta precisamente em sua mediocridade.para fixar-se no espirito humano, por mais Enti50 6 claro que o "conhece-te a tiinsolente e desregulado que ele possa ser". mesmo" nHo pode desembocar em uma res-Entretanto, a "naturalidade" do conheci- posta sobre a essi2ncia d o homem, mas so-mento de Deus depende inteira e exclusiva- mente sobre as caracteristicas do homemmente da fi.0 citico, portanto, s6 pode ser singular, que alcanqamos vivendo e obser-fideista. vando os outros viverem, bem como procu- Mas o fideismo de Montaigne niio C o rando nos reconhecer a nos mesmos refleti-de mistico. E o interesse dos Ensaios volta- dos na experiincia dos outros.se predominantemente para o homem e niio 0 s homens siio notavelmente diversospara Deus. A antiga exortaqiio contida na entre si e, niio sendo possivel estabelecer ossentenqa inscrita no templo de Delfos, "ho- mesmos preceitos para todos, i preciso quemem, conhece-te a ti mesmo", da qua1 So- cada um construa uma sabedoria a sua pro-crates e grande parte do pensamento antigo pria medida. Cada qua1 s6 pode ser sabiose apropriaram, torna-se para Montaigne o de sua propria sabedoria; o sabio deve sa-programa do autintico filosofar. Mas niio ber dizer sim a vida, e m qualquer circuns-s6 isso: os filosofos antigos visavam ao co- tdncia, e aprender a aceita-la e ama-la as-nhecimento do homem com o objetivo de sim como k, sempre.alcanqar a felicidade -e esse objetivo tam-bim estL no centro dos Ensaios de Mon-taigne. A dimensiio mais autintica da filo-sofia i a da "sabedoria", que ensina comodevemos viver para sermos felizes. Mas como a razio cCtica, abragada porMontaigne, pode alcanqar esses objetivos,aquela mesma raz5o citica que prop6e aci-ma de todas as coisas a pergunta de adver-tencia "o que sei eu?" (que sais-je?). Sexto Empirico escreveu que os citi-cos conseguiram resolver o problema da fe-licidade precisamente mediante a renunciaao conhecimento da verdade. A este propo-sito, ele citava o conhecido ap6logo do pin-tor Apeles que, n5o conseguindo pintar sa-tisfatoriamente a espuma sobre a boca deum cavalo, tomado de raiva, lanqou contraa pintura a esponja embebida em tintas. Mii-he1 d e Morrtizig~re( 1 .5.j.j-1.592)Entiio, a esponja deixou na tela uma man- re/,ro/lhs e m setis Ensnios rim / I C I Z S L ~ I I Z C ~ I ~ Ocha que parecia espuma. E da mesma ma- ric fundo c+trcm, ric.0 cJr,l tcrmifrc-1s c i r s i ~ ~ t ~ t i i l sneira que, com a renuncia, Apeles alcangou pelLrs ~ r t r t i g ~i~l s s ~ f i ~ ~ s ~ / ~ / s t i i ~ ~ ~ . f o hel rrms trL~~frtzrifL~s rirtz~zlirrgu~rger1z ern 1~11trtoI I O ~ ( Y I I L ~ , Io seu objetivo, os citicos, com a renuncia a j i ~ d i i df2111 / l ~ i g i / 7 d ~ dl?11/il / l f l / c l l ~ ~ i l ! O ; ~ ~ l l ~ t l l ~ ~ l ~ . tl!encontrar o verdadeiro (ou seja, suspenden- I-:st? yr4c. rc~proJsizirtrosr; r.rrlr 1wIo rcptrrtodo o juizo), acabaram encontrando a tran- dc rrrn ~zrrtorm f i ~ l i r ~ o ,qiiilidade. c-orlscr~~iltio0 (:ilstr~lo /c~sL7ill~s. 12 tic,
  • 81. fi$ Capitdo qUUYto - O Fristotelismo renascentista e a revivescEncia d o Ceticismo - Deus, a confirma irrevogavelmente. Todavia, sobre o que tenho duvidas 6 se estas asssr@es n6o superam os limites naturais do homem, de modo a pressupor algo aceito por f6 e revela- do, e se estejam conformes 6s palavras de Aristoteles, como sustenta o proprio S. Tom6s.l Na verdade, dado que a autoridads de tdo ilustre doutor 6 para mim grandissima, nBo da -imortalidade da alma apenas no campo do teologia, mas tambhm no do pensamento aristotblico, ndo ousaria afirmar qualquer coisa contra sua opinido; mas R tsss d s Pomponazzi, qus suscitou o que direi eu o proporei sob a Forma de du- todo umo s&ris ds discussdas, C o do insus- vida e ndo como afirma@o, e 6 prov6vel que tsntabilidods por pura rozdo s sm ssntido pelos seus doutissimos seguidores a verda- cotsgorico do imortalichds do almo. R olmo de poder6 ser-me desvelada. Sobre sua pri- ~ntslectlvodo homam, smboro rodicalmsn- meira afirma@o, isto 6, que na rsalidade no ts superior 6 olmo sansitivo dos animais, ndo homem a faculdade sensitiva e a intelectiva pods considsror-ss uma rsolidods sspora- sejam a mesma coisa, ndo tenho nenhuma du- do, ou ssjo, tronscsndsnts ao corpo, porqua vida; mas as outrcls quatro me parecem muito n60 pods conhecsr e ogir a ndo sar ma- obscuras. dionts os sentidos s, portanto, msdionts o E, em primeiro lugar, que tal ess&ncia seja corpo. Portonto, do ponto ds visto do razdo por si e verdadeiramente imortal, mas impro- filosofico, slo sario formo ds um corpo, s priamente e segundo csrto aspect0 mortal. E m como nosca com o corpo, ossim tombhm po- primeiro lugar, porque com raciocinios semelhan- rscario parscar com o corpo, porque ndo tes bqueles com os quais ele sustenta esta tese pods ogir e subsistir ssm o corpo. TombQm pode ser provada tamb6m a tese oposta. Com ssgundo o pansomanto d s Rristotslas, so- efeito, do constata<doqua tal ess&ncia acolhe brs o boss d s umo intsrprsta@o difundi- todas as formas materiais, que aquilo que nes- do, Pomponozzi ofirmo que dsvs "dizsr-se to se acolhe 6 entendido em ato, que ndo se mortoI". ssrve de um orgdo corporeo, que tende b eter- Molgrodo os orgumsntag6es qus Pom- nidade e ds coisas divinas, se concluia que ela ponozzi oduz nests sentdo, els solisnto 6 imortal. Mas, igualmente, uma vez que ela, vdrios vszes o psrfums" ds imotsriolido- como alma vegetativa, opera materialmente, e ds e imortolidods do olmo. No rsolidods, como alma sensitiva ndo acolhe em si todas as Pomponozzindo pretandia de modo nenhum formas, e alCm do mals se serve de um or960 negar a imortal~dade,mos prstsndio ope- corporeo e tende 6s coisas temporais e cadu- nos nsgor que ssto fossa dsmonstrdvsl com cas, poder-se-6provar que ela 6 propria do fi- obsoluto csrtszo s ds modo cotsgor~co palo Iosofo n a t u r ~ lA ~ . esta considera@o se refere roz6o. Na imortalidade se cr& por f6, como Aristoteles naquela passagem do I livro do Ds dsmonstro o sagundo possogem qus oqui partibus onimolium. E a outra dfirma$do, que a oprsssntomos. mente vem de fora, deve ser referida a ela como pura mente, n6o como mente humana; ou, caso se queira entender como referida a ela como mente humana, ndo deve ser tomada em senti-1. Dcvidas sobre a imortalidade da alma do absolute, mas apenas enquanto, em con- Naturalmente, sobre a verdade desta tese front~ com a vegetativa e com a sensitiva, ela[ou seja, a tese tomista de que no homem a participa maiormente do divindade. Com efei-alma sensitiva e a intelectiva sdo uma so subs- to, no cap. 9"do IV livro do Da portibus animo-t8ncia simples e individual, imortal por sua na- lium se diz que apenas o homem & de naturezatureza e mortal sob certo aspecto, forma subs- ereta porque so ele participa de modo not6veltancial do homem, multiplicada com o numero do d i ~ i n d a d e . ~dos corpos humanos, que comega a existir jun-to com o corpo por um ato de cria~do imediatapor parte de Deus e continua a viver depo~s do Torn65 da nqu~no,De un~tate~ntellectuscontramorte do corpo] ndo h6 para mim nenhuma in- overrontas pro&m~ocerteza, uma vez que a Escritura can8nic0, que %st6teles. Fis~ca,hvro 1 1 , 7 . 1980 97-31deve ser anteposta a todo raciocin~o expe- e 3Ar~stoteles. pornbus an~mohum, De hvro IV. 10 ( e nBorihncia humana uma vez qua nos f o ~ dado por 9). 6860 27-28
  • 82. Primeira parte - 0 t l ~ m a n i ~ m Renascen~a ea~ Ndo admitirnos, todavia, que o homern blema n60 possa ser resolvido de mod0 certosobreviva como alrna depois de sua rnorte, dado a ndo ser por Deus. Todavia, ndo me pareceque ela tem um principio, e (I livro do Ds coslo) justo nem conveniente que os homens perma-"tudo aquilo que tem um principio tambbm tem nqarn privados desta certeza. [. . .] Contudo, urna e Platdo, no Vlll livro das Leis, diz: "Tudourn f i ~ n " ; ~ vez que ele proprio tornou manifesto com aaquilo que de qualquer modo cornqa a ser, palavra e com a obra que a alma & imortal -tamb&m cessa de ~ e r " . ~ corn a palavra, quando ameaGa os rnaus com o Quanto ao que depois se diz a proposito fog0 eterno e prornete aos bons a vida eternado texto 1 7 O do livro VII da Mstafisico, ndo (ele diz, com efeito: "Vinde, banditos de meucondivido a resposta de Rlexandre que ai re- Pai",e continua: We, malditos, para o Fog0 eter-porta Rverrois, tirando-a de Temistio, ou seja, n ~ " ecom a obra, quando no terceiro dia res- ),~de que isso seja dito corn refer6ncia ao intelec- suscitou do morte - o quanto d~fere luz emato ~ g e n t ecom efeito, o intelecto agente ndo :~ relagio ao objeto lurninoso e a verdade emQ forrna do homern; ao contr6ri0, diz-se em re- rela@o ao verdadeiro e o quanto a causa infi-fer6ncia ao intelecto possivel, que por vezes nita 6 mais nobre que o efeito finito, tanto maisentende, outras vezes ndo; corn efeito, ele se eficazrnente isso dernonstra a irnortalidade dacorrompe a partir da corrupgio de algurna coi- alma.sa em SI, ou seja, da alma sensitiva corn a qua1 Por isso, se h6 alguns argurnentos quese ident~fica. realidade, Ar~stoteles ex- Na se parecern provar a rnortalidade da alma, elesprime assim corn refer6ncia ao intelecto como s6o falsos e apenas aparenternente justos, aele Q por si e n6o como & por acidente, como partir do mornento que a primeira luz e a pri-se dissesse que nada impede que sobreviva meira verdade nos demonstram o contrdrio; seenquanto & intelecto, ndo enquanto & intelecto alguns outros, depois, parecern provar sua imor-humano, dado que j6 no I livro do Ds coslo fo~ talidade, eles s6o t6o verdadeiros e lurn~no-dernonstrado que tudo aquilo que & gerado se sos, mas n6o sdo a luz e a verdade. Por issocorrompe. apenas esta & a via rnais segura, ndo desrno- E que exatamente este tenha sido o pen- ron6vel e firme; as outras, 00 contr6ri0, estdosarnento de Aristoteles sobre a a h a hurnana, todas sujeitas a incertezas. Rlbrn do mais todapode ser esclarecido tarnbhrn por rneio daque- arte deve servir-se de rneios proprios e adap-la passagern do livro X1 da Mstofisico, texto I tados a si, pois de outro rnodo se desvia e ndo39", onde escreve estas palavras: "Mas a feli- procede segundo seus ditames, conforme dlzcidade, em sua rnais alto forrna, a nos & conce- Aristoteles no I livro do Rnolit~cos ssgundos edido por breve tempo; naquela forrna & conce- no I livro da €tica.1° Todav~a,que a alma sejadido aos deuses como sterna, enquanto para irnortal & artigo de f&, como est6 no Simbolonos 6 coisa irnpo~sivel".~ dos Rpostolos e em Rtondsio, e por isso deve ser dernonstrado corn os meios que sdo pro- prios do f&; e o rnelo sobre o qua1 a f& se ba-2. A imortalidade da alma i verdade de f i sela 6 a revela<doe a escritura can8nica; ape- e n60 dt3 pura rat60 nas com seu auxil~o,portanto, verdadeira e Estando assim as colsas, parece-me de- propriamente sernelhante verdade se devever sustentar este argumento, perrnanecendosalvo a doutrina rnais justa, de que o problemada imortalidade da alma & suscetivel de duos 4Rr~st6teles. coelo. 1. 10, 279b 20-21 Desolu<des opostas, corno o da eternidade do SPlot~o, Republics (e n60 leis). VIII. 5460.mundo. Parece-me,com efeto, que n6o se po- R esta respato escrave Gregory: "No raal~doda, dern aduzir argumentos de ordem natural que Rverro~s, noqualo passagem, n6o folo, c~tnndo Rlexondre,concluarn com absoluta certeza que a alrna seja de lntelecto ogente, mas de ~ntellectus de odeptus, e o lsso Foto Rlexondre se rafere, tanto no comantdr~o Me- bimortal, e rnuito menos que seja mortal, corno tafisico (Rlexondr~ Aphrodisi~ns~s RristotelnMetophpco Indeclararn mu~tissirnos doutores que tamb&m commentorio, ad. M . Hoyduck, nos Commentorlo in Rr~sto-sustentam sua imortal~dade. isso n6o me telem groeca, vol 1, p. 678 r. 4). como no De animo (ed Porpreocupei em responder 2.1 outra tese, coisa j6 Bruns., pp. 90r. 13-91 r. 44); mos tombbm Q verdode que Rverro~s onimo, Ill, comm. 36, digr. pors II) ohrmo que o (Defeita por outros e, em particular, de modo arn- intellectus odeptus de Rlexondre n6o Q mas queo Ink-plo, exaustivo e s&rio por S.Tombs. lecto ogente no oto em que este mforrno o ~ntelacto mote- Por isso d~rei,corno Plat60 no livro I das r~ol" 714; n. 52) (p.l e a que apenas a Deus foi dado fornecer a Rr1st6telas.Metofism, hvro Xll, 7, 1072b 14-16. PIot60, leis, I. 641certezo daquilo sobre o que muitos di~cordam;~ Moteus 25.54.41 dpois, de fcto, tantos homens ilustres estdo em ORr~s~oteles, Rnoliticos segundos. hvro 1, 7. 750 36-desacordo entre si, que eu penso que este pro- 74b 21, Etica a Nic8maco. Ivro I, 75n 10980 26-32.
  • 83. Capitulo quarto - 6 Fvistotelismo venascentista e a vevivescEncia do Ltirismoprovar, e todos os outros argumentos n60 560 1. Filosofar 6 preparar-se para a mortsaproprrados e se fundamentam sobre melos que Cicero dlz que filosofar n6o 6 mais quen6o esttio em grau de provar aquilo que se nos preparar-se para a morte. € por isso que o es-propde. N60 deve, portanto, suscitar maravilha tudo a a contempla~60 transportam de algumase os filosofos discordam entre SI sobre o pro- forma nossa a h a para fora de nos e a mant&mblema da imortalidade da alma, dado que eles ocupada, separada do corpo. € uma esp&ciese fundamentam sobre argumentos n6o ade- de experi&nclae semelhanp da morte; ou me-quados 6 conclus60 e falazes; enquanto todos Ihor, & fato que toda a sabedorra e todas asos cristdos esttio de acordo porque recorrem a considera@es do mundo se resolvem por fimmeios aproprlados e infaliveis, a partir do mo- neste ponto: ensinar-nos a n6o ter medo demento que as coisas n60 podem estar a n6o morrer. No verdade, ou a raztio cocoa, ou deveser em apenas um modo. [. .IPor isso, sem qual- apenas mirar para a nossa satisfa$30, e todoquer hes~ta@o preciso afirmar que a alma 6 6 seu esfor~o deve, em conclustio, tender a fa-imortal, mas n6o se p8r naquele caminho so- zer-nos viver bem e na alegr~a, corno diz a Sa-bre o qua1 caminharam os sapientes desk s&- grada Escritura.culo, - que tais se dizem, mas termlnam por serestultos -, pols, a meu ver, quem quiser perse-verar nesse camlnho sempre se mover6 na in- 2. Tambim na virtuds o fim io prazsrcerteza e na vaguid6o. [. . .] Rqueles, porhm, que Todas as opinides das pessoas s6o queprocedem no caminho dos crentes, permane- o prazer & nosso escopo, embora a ele se mirecem firmes e seguros: demonstram isso o des- com meios diversos; de outro modo, algu&masprezo da riqueza, das honras, dos prazeres e exputsaria logo que nascem, umo vez qua quemde todo bem mundano, e por fim a coroa do ficaria ouvindo aquele que pusesse para si comomartirio qua eles ardentemente desejavam e fim nosso sofrimento e nosso infortirnio?finalmente alcanpvam, alegres depois de tan- Rs diverg&nc~as seitas filosof~cas, das nes-to desejo. ts caso, stio apenas de palavras. H6 mais obs- P. Pomponazzi, tinaq3o e teimosia do que conv&m a uma tdo L k ~rnrnortalitate onirnoa. santa profisstio. Mas qualquer que seja o per- sonagem que o homem represente, nele sem- pre representa a si mesmo. Digam o que disse- rem, at& na virtude o irltlmo escopo de nossa aspira<bo6 o prazer. Gosto de rspetlr no ouvi- do deles esta palavra que tanto os perturba. E se ela significa um prazer supremo e uma enor- me satisfo@o, melhor condiz com a virtude do que com qualquer outra coisa. Esta volirpia, para ser mais forte, nervosa, robusta, viril, 6 por isso tamb&m mars fortemente voluptuosa. E deve- Filosobr aprcndcr a rnorrcr riamos dar a ela o nome do prazer, que 6 mais propicio, mais doce e natural: n6o o da vlrtude. Montoignesituo-seno quodro do renas- com o qua1 a chamamos. cimento dos Esbo<os pirronianos de Sexto Empirico s do Ceticismo em gerol (Iembre- 3. A virtude e o desprszo da morts rnos que no Frongo Henri EstevLio, isto 8, o Stephonus, publicou o editio princeps de Sex- R felicidade e a bem-aventuranga que res- to e troduziu em lotim os Esbo~os pirronlanos, plandecem na virtude preenchem todas as suas enquonto G. Hervet publicou o versdo lotino pertin&nclase todas as suas ambi&ncias,des- de todos os obros de Sexto). E Montoigne m de sua entrada at8 sua irltima porta. Ora, entre o pirronismo temperodo a o ceticismo mode- os principais baneficios da virtude est6 o das- rodo se cosom corn umo F Forte s sincero. d prezo do morte. € um meio que fornece 6 nossa No trecho que segue, Montoigne ofir- vida uma doce tranquilidade, que torna nosso mo que o contemplo@o e o estudo hobituom gosto puro e am6vel, sem que seja a p ~ g a d a o morrer, porque nos tronsportom corno qus qualquer outra volirpia. poro Foro do vido. 0desprezo do morte estd €15 que todas as regras se encontram por entre os principois bensfcios c/o virtude,por- e conv&m neste principio. E, embora elas tam- que 8 preciso pensor que o msto poro o quo1 b&m nos Ievem de comum acordo a desprezar o vido corre 8 o morte. a dor, a pobreza e outros acidentes aos quais a vlda humana est6 sujeita, isso n60 ocorre com
  • 84. Primeira parte - 0+Ir*manismo e a R e n a s c e n p aigual preocupa<do, seja porque tais acidentes p6lidos e lacrimosos, um quarto sern luz, ciriosndo sdo absolutamente necess6rios (a maior acesos, m6dicos e padres apinhados 6 nossaparte dos homens transcorre a vida sern provar cabeceira: em suma, so horror e espanto aoa pobreza, e outros ainda sem provar dor e nosso redor. Eis-nos j6 sepultados e soterra-doenp, como Xenofilo o Musico, o qua1 viveu dos. Rs crian~as t&m medo at6 de seus ami-cento e seis anos com sairde plena) ou por- gos, quando os v&em com aquela m6scar0, eque, no pior dos casos, a morte pods p6r fim, assim a temos nos. E precis0 tlrar a mdscaraquando nos aprouver, e eliminar todos os ou- das coisas, e tamb6m das pessoas: quando fortros inconvenientes, mas, quanto 6 morte, ela tirada, encontraremos sob ela apenas aquela6 inevit6vel. mesma morte que um servo ou uma simples camareira assistiram sem nenhum medo. Feliz4. Ensinar a morrsr 6 ensinar a viver a morte que acontece sern os enfeites de tal aparato. Eu, no momento, estou, grasas a Deus, M~chel Montaigne, deem tal condi<do que posso partir quando Iha Ensolos.aprouver [. . .]. Como os egipcios que, depois de seusbanquetes, mandavam oferecer aos presentesuma grande imagem da morte por algubm quelhes gritava: "Rebe e goza, pois, quando mor-to, assim serds": do mesmo modo tenho porh6bit0, de modo continuo, manter a morte ndoso no pensamento mas tamb&m no boca; e n60h6 nada de que me informe com tanto prazercomo do morte dos homens: que palavras, queaspecto, que postura tiveram naquele momen-to, e ndo h6 passagem das h~storias que eundo note com tanta aten<do.Pela interpola<bode meus exemplos manifesto-se como eu te-nha particular amor por este assunto. Se euFosse um fazedor de livros, faria um livro co-mentado sobre d~versasmortes. Quem ensi-nasse os homens a morrer, estaria lhes ensi-nando a viver.5. € prsciso tirnr a mirscara das coisas, s tamb6m das pessoas Ora, pensei frequentementede onde pro-v&m que nos guerras a imagem da morte, tantoao v&-la em nos como nos outros, nos parecesern compara<do menos terrivel do que emnossas casas; de outra forma, veriamos umex&rc~to rnbd~cos de carpideiras: e pensei de eque, sendo ela sempre uma so, h6 sempre maisfor~a dnimo nos pessoas de aldeias e de debaixa condi~do que nas outras. Na verda- dode, creio que existam as imagens e apar&nciasterriveis, com as quais pintamos a morte e que Frontispicio de uma edi@o dos Essaisnos ddo mois medo do que ela propria: um de Michel de Montaigne (Paris, 16S9).modo completamente d~ferente se compor- de Notemos a pergunta admoestadora "que sei eu?"tar, os gritos das mdes, das mulheres e dos (que sais-je?) sob o retrato do autor,filhos, as visitas de pessoas espantados e aba- que represents bem o ceticismo professadotidas, a assisthncia de uma multiddo de servos pelo fiMsofo.
  • 85. I. Crasmo de Rotterdam ea +hilosophia Christi" Erasmo (1466-1 536) e contrario a filosofia compreendida como constru@o de tip0 aristotClico-escol6stic0, centrada sobre problemas metafisicos, fisicos e dialeticos. A verdadeira filosofia e, para Erasmo, conhecimento sapiencialde vida, e sobretudo C! sabedoria e pratica de vida crista"; o caminho que Cristo indicou para a salvagao 6 o mais simples: fe sincera, caridade n%ohipbcrita e esperanga aue nil0 se enveraonha. Nesse sentido, ha a necessidade de vol- kr as origens, tambem com instrumentosfilol6gicos adequados. A manifestasao mais peculiar da filosofia de Erasmo s en- A ~ o s i ~ a o e contra na obra Elogio da loucura, na qua1 Erasmo, depois de ofe- recer toda uma gama de graus de "loucura", apresenta esta ulti- ma na sua autenticidade como reveladora da verdade, como d, ::Ez:o conceito aquilo que rompe os veus e faz ver a comedia da vida; e o 6pice da loucura esta na fe em Cristo, que e a loucura da Cruz, e sobre- , tudo na felicidade celeste, que aos fieis e concedido a vezes s saborear ja aqui, sobre a terra. Muitas posiqaes de Erasmo, sobretudo a critica a lgreja e ao clero renascentista, antecipam algumas posiq8es de Lutero, embora de mod0 atenuado e com grande fineza; todavia, depois da ruptura de Lutero com Roma, Erasmo n%oe juntou a ele, mas escreveu contra ele o tratado Sobre o livre- s arbitrio. mo de Rotterdam e, sobretudo, corn Lutero . - posiqzo, a vida e a obra de kvasmo (e, depois, corn os outros reformadores). 0 primeiro p6s o humanism0 a servieo da Reforma sem romper com a Igreja catolica; ja o segundo comprometeu o proprio huma- Todo o pensamento humanista-renas- nismo e quebrou a unidade cristii.centista C perpassado por um poderoso Comecemos por Erasmo.frimito e por grande anseio de renovaqiio Desiderius Erasmus (esse C o nome lati-religiosa. Vimos, inclusive, que a propria pa- nizado do flamengo Geer Geertsz) nasceulavra "Renascenqa" apresenta raizes tipica- em Rotterdam em 1466 ( 6 possivel que amente religiosas. Tambkm vimos emergirem data de nascimento seja tambCm 1469).tematicas especificamente religiosas em al- Ordenado sacerdote em 1492, pediu te ob-guns humanistas, e a grandiosa tentativa de teve dispensa do ministirio e do habito. Masconstruir uma "docta religio" em Ficino, nem por isso seus interesses religiosos sebem como a posiqiio analoga de Pico. Mas enfraqueceram. Em muitas de suas posigoesa explosiio da problemitica religiosa, por teoricas, sobretudo na critica a Igreja e aoassim dizer, ocorreu fora da Italia, com Eras- clero renascentista, embora de forma ate-
  • 86. 68 Primeira parte - 8tl~~wmnismoa RenascenCa enuada e com grande fineza, ele antecipou livre-arbitrio (1524) ja citado, suas ediqoesalgumas posigoes de Lutero, tanto que foi de Padres da Igreja e, sobretudo, a ediqiioacusado de ter preparado o terreno para o critica do texto grego do Novo Testamentoprotestantismo. Mas, depois da flagrante (1514-1516), com a relativa traduqiio.ruptura de Lutero com Roma, Erasmo niiose alinhou com ele, chegando at6 a escrevercontra ele (embora impelido por varias so-licitaqoes de amigos e niio espontaneamen- ConcepC6o humanistste) um tratado intitulado Sobre o livre-arbi- d a filosofia crist6trio. Mas tambkm niio se alinhou a o ladode Roma, preferindo ficar numa posiqiiopropria ao assumir ambigua posiqiio de neu- Erasmo tinha aversiio a filosofia enten-tralidade que, se lhe foi favorivel por certo dida como construqiio de tip0 aristotklico-es-periodo, com o correr do tempo foi-lhe pre- colastico, centrada sobre problemas metafi-judicial, deixando-o isolado e sem seguido- sicos, fisicos e dialkticos. Contra essa forma deres. E, assim, a grande fama que granjeara filosofia adota, alias, tons quase de desprezo.em vida acabou se dissolvendo rapidamen- A filosofia 6 , para Erasmo, o conhecer-te depois de sua morte, ocorrida em 1536. se a si mesmo ao mod0 de Socrates e dos Entre suas obras, merecem especial men- antigos: k conhecimento sapiencial de vida e,qiio 0 manual d o soldado cristzo (1504), os sobretudo, k sabedoria e pratica de vida cris-Proverbios (publicados em sua redaqiio de- t2. E a sabedoria cristii niio tem necessidadefinitiva em 1508), o Elogio da loucura, de de complicados silogismos, podendo ser al-1509 (impressa em 1511), o tratado Sobre o canqada em poucos livros: os Evangelhos e as Epistolas de siio Paulo. Escreve Erasmo: "Que outra coisa k a doutrina de Cristo, que ele proprio denomina renascenGa, sen50 um retorno a natureza bem criada?" Essa filoso- fia de Cristo, portanto, i uma "renascenqa", que representa um "retorno a natureza bem criada". E os melhores livros dos pagiios con- t&m "grande numero de coisas que concor- dam com a doutrina de Cristo". Para Erasmo, a grande reforma religio- sa se resume em sacudir dos ombros tudo aquilo que o poder eclesiastico e as dispu- tas dos escolasticos acrescentaram simpli- cidade das verdades evangklicas, confun- dindo-as e complicando-as. 0 caminho que Cristo indicou para a salva@o 6 o mais sim- ples: fe sincera, caridade niio hipocrita e es- peran~a niio se envergonha. Se tomarmos que os grandes santos como exemplo, veremos que eles niio fizeram outra coisa sen50 viver com liberdade de espirito a genuina doutri- na evangklica. E a mesma coisa pode ser en- contrada nas origens no monaquismo e na vida +st5 primitiva. E preciso, portanto, retornar as origens. E nessa otica de retomada das fontes que se inserem a ediqiio critica e a traduqio do Novo Testamento (que Erasmo gostaria de ter visto nas miios de todos), alkm da edi- qiio dos antigos Padres: Cipriano, Arnobio, Ireneu, Ambrosio, Agostinho e outros (nes- se sentido, Erasmo pode ser considerado o iniciador da patrologia). A reconstruq50 filologica do texto e sua correta ediqiio d m
  • 87. portanto significado bem precis0 em Eras- mas da qual, as vezes, C dado aos piedososmo, um sentido que vai alCm da mera ope- perceberem, ja aqui nesta terra, o sabor e oraq5o tCcnica e erudita. perfume, pelo menos por breve momento. A rigidez com que Erasmo criticou pa- pas, prelados, eclesiasticos e monges do seu O conceit0 erasmiano tempo e certos costumes dominantes na Igre- d e "lowzMraN ja, bem como certas afirmaqdes doutrina- rias que fez, valeram-lhe a avers50 dos ca- tolicos, que, mais tarde, puseram no Index E no Elogio da loucura que encontra- algumas de suas obras e recomendaram cau-mos o espirito filosofico erasmiano em sua tela critica em relaq5o a outras.manifestaq50 mais peculiar. Trata-se de uma Lutero, porCm, enfureceu-se com a po-obra que se tornou muito famosa e entre as kmica sobre o livre-arbitrio, definindo Eras-poucas obras suas que ainda hoje se kem mo, com insolita violencia, como ridiculo,de bom grado. tolo, sacrilego, tagarela, sofista e ignorante, 0 que C essa "loucura"? qualificando sua doutrina como um misto de N5o C ficil individua-la e defini-la, da- "cola e lama", de "lixo e excrementos". Masdo que Erasmo a apresenta em extensa ga- Lutero, como logo veremos, n5o admitia opo-ma, que vai do extremo (negativo)em que se siqdes. Com efeito, para alcanqar objetivosmanifesta a pior parte do homem, ao extre- em parte identicos, esses dois homens trilha-mo oposto, que consiste na fC em Cristo, que vam caminhos de direqdes opostas. P IC a loucura da cruz (corno o proprio s5o Pauloa define). E, entre os dois extremos, Erasmoapresenta toda uma gama de graus de "lou-cura", num jogo muito habil, por vezes usan-do a ironia socratica, outras vezes gostososparadoxos e outras ainda uma critica dila-cerante e um n50 disfarqado desapontamen-to (corno quando denuncia a corrupqiio doscostumes da Igreja da Cpoca). As vezes, Erasmo denuncia a loucuracom a evidente intenqzo de condenaq50; ou-tras vezes, como no caso da fC, com a inten-q5o evidente de exaltar seu valor transcen-dental; outras, ainda, simplesmente paramostrar a ilusiio bumana, alias, apresentan-do-a como elemento indispensavel do viver. A "loucura" C como uma vassoura ma-gica, que varre tudo o que se antepde a com-preens50 das verdades mais profundas e se-veras da vida ou que nos faz ver que as vezes,sob as vestes de um rei, nada mais ha do queum pobre mendigo ou o contrario, e que asvezes, sob a miscara do poderoso, nada maish i do que um vil. A "loucura" erasmianaarranca os vCus, fazendo-nos ver a comCdiada vida e a verdadeira face daqueles que seescondem sob mascaras; mas, ao mesmo tem-po, mostra o sentido do palco, das mascarase dos atores, procurando de certa forma fa- 0 espirrto frlostific-o c~ils~ni~l~lozer com que se aceitem todas as coisas comoelas s5o. Assim, a "loucura" erasmiana 6 csplrc-1-sc, I I O Elogio J a l o u c u r ; ~ : l ~Jilliioj.Lz( I L ~ l o ~ ~ i; 1.61 ~ l " ~ 1 L l ~ ~ ~ d l l.. l s ~ ll - c ~ l i ~ ~t ~ i d tlql4i/o q l t r sc3 r ~ z t c ~ / ) 7 kc, ~ o t i 1 / ) r c c ~ 1 1 ~ 2 0 ~ ~o~ rr (reveladora de "verdade". /IS l~Priizci(5111111s / ~ r o f l l t l t ~6, s1,1 lc>I.lls i l l l ~ls [ h , 0 ponto culminante da "loucura" eras- f;rz c o i n / ~ r i ~ e r ~ oi e r t sc~rrtitio iiirs s o i s l l s ; miana, como diziamos, esta na fC. c o ~ 1 1 1 1 1 ~ z " l o 1 i ~ l l r ~C " ~ I T I I ~osti I1 / 1 1 fb. dt z Y I ~ E o cume dos cumes da "loucura" C a PLigina f;lld/ tio 1-logio J a l o u c u r a felicidade celeste, que C propria da outra vida, COIH 1 1Z I ! ~ S C I ZdeO ~ 0 / ~ ~ 1 ]Olfl171. 4i /J ~ 0111
  • 88. II. MartiM ~ Lutero O * A nosicSo de Lutero (1483-1546) em relacao aos filosofos e totalmente negativa] ele negava qbalquer valor a uma pesquisa racional autbnoma, considerando a filosofia como fruto da soberba abominavel A posi~so d o homem. Quanto 3s relasties com o movimento humanista, de Lutero Lutero: em rela~do a) deu grande voz ao desejo de renova~ao religiosa e 2 ne- I a fi~osofia cessidade de regeneragao, que constituem as proprias raises da e ao pensamento Renascen~a; renascentista b) levou as extremas conseqijCncias o principio humanista da + 2 1-2 valta 4s origens, apresentando a volta ao Evangelhocomo revolu- ~a"o sub versa"^ da tradiciio cristk e c) rompeu com a tradisiio na sua totahdade, porque a teologia luterana nega qualquer valor a propria fonte da qua1 brotam as humanae litterae e a especula- @o filosofica, e confia a salva@o inteiramente a fe. e Lutero d o substancialmente trCs. penas. A doutrina tradicional da fe como pelas obras, enquanto s com base na tese de que o ho- ,sozinho nao pode fazer nada, lusivamente do amor divino: a fe esta regar-se totalmente a Deus. ilidade da Escritura, considerada como do o que sabemos de Deus e da rela- dito pelo prbprio Deus na Escritura: ape- dade infalivel de que temos necessidade, e toda a tradi@o mais nil0 fazem do que I do livre exame das Escrituras. Entre o e m intermediario especial: um cristao isola- nte por Deus, pode ter raza"o contra u m pregar a palavra de Deus. 1d 1 e L~tero SMQS veIaC&s Romanos (1515-1516), as noventa e cinco Teses sobre as indulgBncias (1517), as vinte corn cl filosoficl e oito teses relativas i Disputa de Heidelberg (1518) e os grandes escritos de 1520, que J i se disse muito bem que "ubi Eras- constituem verdadeiros manifestos da Re-mus innuit ibi Luterus irruit" ("Onde Eras- forma: Apelo a nobreza cristii da napio ale-mo aludiu, Lutero irrompeu"). Com efeito, mii pela reforma do culto cristiio, 0 cativei-Lutero (1483-1546)irrompeu no cenirio da ro babil6nico da lgreja e A liberdade dovida espiritual e politica da tpoca como au- cristiio, altm do Servo arbitrio, contra Eras-tEntico furaciio, que envolveu toda a Euro- mo, em 1525.pa e cujo resultado foi a dolorosa ruptura Do ponto de vista historico, o pspel deda unidade do mundo cristiio. Do ponto de Lutero t da maior importincia, pois comvista da unidade da ft, a Idade Mtdia ter- sua Reforma religiosa logo se entrela~arammina com Lutero, iniciando-se com ele im- elementos sociais e politicos que mudaramportante fase d o mundo moderno. a fisionomia da Europa, sendo tambtm de Entre os numerosos escritos de Lutero, importincia primordial em termos de his-podemos recordar: o Comentario a carta aos t6ria das religi6es e do pensamento teol6gi-
  • 89. 71 Capitulo quinto - A RenascenGae a Religi60co. Entretanto, Lutero merece um lugar tam- z20. Para ele, a filosofia era v5 sofistica-bem em termos de historia do pensamento $20 e, pior ainda, fruto daquela absurda efilosofico, seja porque verbalizou a instiin- abominavel soberba propria do homemcia de renovaggo que os filosofos da Cpoca que quer basear-se em suas proprias for-fizeram valer, seja por algumas valtncias te6- gas e n5o na unica coisa que salva, isto C,ricas (sobretudo de carater antropologico e a fi.teologico) intrinsecas ao seu pensamento Nessa optica, Aristoteles parece-lhe co-religioso, seja ainda pelas consequtncias que mo que a expressgo de certa forma paradig-o novo tip0 de religiosidade por ele suscita- matica dessa soberba humana. 0 unico filo-do exerceu sobre os pensadores da Cpoca sofo que n i o t inteiramente envolvido nessamoderna (por exemplo, sobre Hegel e Kier- condenaqio parece ser Ockham; mas, pre-kegaard) e da Cpoca contemporiinea (por cisamente ao separar e contrapor f e reli- Cexemplo, certas correntes do existencialismo giio, fora Ockham que, sob certos aspec-e da nova teologia). tos, abrira urn dos caminhos que levariam i A posiqio de Lutero em relaggo aos posiqio de Lutero.filosofos i totalmente negativa: a descon-fianqa nas possibilidades de a natureza hu-mana salvar-se por si sd, sem a graga divi-na (como logo veremos), levaria Lutero a As r e l a G ~ e de L u t e r o sn2o dar qualquer valor a uma investiga@oracional autdnoma, a qualquer tentativa corn o p e n s a r n e n t ode examinar os problemas de fundo d o renascentistahomem corn base no logos, na pura ra- Vejamos brevemente a posiq5o de Lu- tero no iimbito da Cpoca renascentista, para depois examinar os nucleos centrais de seu pensamento religiose-teologico. As relagdes de Lutero com o movimen- to humanista ja estio bastante claras (e, em parte, ja as antecipamos com algumas ob- servaldes). a ) Por um lado, ele verbaliza com voz potente e at6 prepotente aquele desejo de renova@o religiosa, aquele anseio de re- nascimento para uma nova vida e aquela necessidade de regenera@o que constitu- em as proprias raizes da Renascenga. E, desse ponto de vista, a Reforma protestan- te pode ser vista como um dos resultados desse grande e multiforme movimento es- piritual. b) Alim disso, Lutero retoma e leva as ultimas consequhcias o grande principio do "retorno as origens", ou seja, do retorno as fontes e aos principios, que os humanistas haviam procurado realizar pel0 retorno aos classicos, que Ficino e Pico pretendiam me- diante o retorno aos prisci theologi ( i s ori- gens da revelagio sapiencial: Hermes, Orfeu, Zoroastro, a cabala) e que Erasmo ja apon- tara claramente no Evangelho e n o p e n - samento das origens cristis e dos Padres da Igreja. Mas o retorno a o Evangelho, que Erasmo havia procurado fazer mantendo equilibrio e medida, em Lutero torna-se re- volu@o e subvers20: tudo aquilo que a tra-
  • 90. 72 Prirneira parte - O t l u w n n i ~ m o e a Renascencn 0 s pontos doutrinirios basicos de Lu- tero S ~ substancialmente tris: O 1)a doutrina da justificagio radical do homem unicamente pela fb; 2) a doutrina da infalibilidade da Es- critura, considerada como a unica fonte de verdade; 3) a doutrina do sacerdocio universal e a decorrente doutrina do livre-exame das Escrituras. Todas as outras proposig6es teologicas de Lutero nada mais siio do que corolarios ou conseqiiincias que derivam desses principios. 0hornern se justifica apenas r e l a f.e i sem a s obras A doutrina tradicional da Igreja era e C a de que o homem se salva pela fe e pelas obras: a fC so C verdadeira quando se pro- longa e se expressa concretamente nas obras; as obras S ~ testemunhos autinticos de vida O cristi, quando s i o inspiradas e movidas pela f i , impregnando-se dela. Ou seja, as obrasdigiio cristii construira ao longo dos s k u - S ~ indispensaveis. O10s parece a Lutero incrustagiio, constru- Lutero contestou energicamente o va-giio artificiosa e peso sufocante, do qual era lor das obras. Por qua1 razao? Vamos assi-precis0 se libertar. Para ele, a tradigiio mor- nalar apenas de passagem as complexas ra-tifica o Evangelho. E mais: uma C a antite- z6es de carater psicologico e existencial, sobrese do outro, a tal ponto que, diz Lutero, as quais os estudiosos muito insistiram, por-"o acordo 6 impossivel". Portanto, para que aqui nos interessam predominantemen-Lutero, o retorno ao Evangelho significa niio te as motivag6es doutrinarias. Durante mui-apenas urn dristico redimensionamento, to tempo, Lutero sentiu-se profundamentemas at6 mesmo a eliminagiio do valor da frustrado e incapaz de merecer a salvaqiotradi~iio. com as proprias obras, que lhe pareciam c) Isso, evidentemente, comporta uma sempre inadequadas, e, conseqiientemente,ruptura niio apenas com a tradigiio religio- a angustia diante da problematicidade dasa, mas tamb6m corn a tradigiio cultural, que salvaqio eterna o atormentou incessante-em muitos asuectos constituia o substrato mente. A soluq80 que adotou, afirmando quedaquela. Como pensamento e como teoria, basta a fC para salvar-se, libertou-o comple-portanto, o humanism0 C rejeitado em blo- ta e radicalmente dessa angustia.co. Nesse sentido, a posigiio de Lutero C de- Mas eis as motivaq6es conceituais: nos,cididamente anti-humanista: com efeito, o homens, somos criaturas feitas "do nada"nucleo central da teologia luterana nega qual- e, enquanto tais, niio podemos fazer nadaquer valor verdadeiramente construtivo B de b o m que tenha valor aos olhos de peus,dropria fonte de onde brotam as humanae isto e, nada que tenha valor para nos trans-litterae, bem como i especulagao filosofica, formar naquelas "novas criaturas" e reali-como j i recordamos, visto que considera zar aquela "renascen~a" exigida pelo Evan-a raziio humana como nada diante de Deus gelho. Como Deus nos criou do nada come visto que confia a salvagiio inteiramente. -. um ato de livre vontade, da mesma formaa fe. nos regenera com ato analog0 de livre von-
  • 91. 73 Capitulo quinto - $ Renascencn r a Tirligi&otade, completamente gratuito. Depois do pe- precisas indicam que deviam circular pel0cad0 de Ad50, o homem decaiu a tal ponto menos cem mil exemplares do Novo Testa-que, por si sd, niio pode fazer absolutamen- mento e cerca de vinte mil exemplares doste nada. Considerado em si mesmo, tudo Salmos. Entretanto, a demanda era muitoaquilo que deriva do homem i "concupis- superior a oferta. E a grande ediqiio da Bi-czncia", termo que, em Lutero, designa tudo blia feita por Lutero respondia precisamen-aquilo que i ligado ao egoismo, a o amor de te a essa necessidade: dai seu triunfal suces-si proprio. Sendo assim, a salvaqiio do ho- so. Portanto, n5o foi Lutero que (como semem n5o pode deixar de depender do amor dizia no passado) solicitou aos cristios quedivino, que i dom absolutamente gratuito. lessem a Biblia, mas foi ele quem, mais doA f i consiste em compreender isso 5 entre- que todos, soube satisfazer essa prementegar-se totalmente a o amor de Deus. E preci- necessidade de leitura direta dos textos sa-samente como ato de total confianqa em grados, que ja havia amadurecido em suaDeus que a f i nos transforma e regenera. ipoca. A f i "justifica sem obra alguma". Ain- Uma diferenqa, contudo, merece serda que, dada a f i , Lutero admita que dai ressaltada. 0 s estudiosos observaram que,decorrem boas obras, nega que elas possam na Biblia, os humanistas procuravam algoter aquele sentido e aquele valor que tradi- diferente do que Lutero buscava: com efei-cionalmente lhes eram atribuidos. to, os primeiros queriam encontrar nela um Deve-se recordar que essa doutrina pres- codigo de comportamento itico, as normassupoe como fundo toda a quest50 das "in- da vida moral, a o passo que Lutero pro-dulg2nciasn (e as polgmicas relativas), liga-da justamente 2 teologia das "obras" (sobrea qual, aqui, so estamos acenando), mas quevai muito alim dessas polcmicas, atingindoos proprios fundamentos da doutrina cris-tii. Lutero niio apenas corrigiu os abusos li-gados i pregaqiio das indulgencias, mas tam- i bim cortou pela raiz a base doutriniria, comgravissimas conseqiiCncias, das quais fala- remos adiante. % j "E-scvit~ra" C a O ~ O fontede vrrdadr Tudo o que ja dissemos seria suficientepara tornar compreensivel o sentido do se-gundo ponto basico do luteranismo. Tudoo que nos sabemos de Deus e da relaqiio ho-mem-Deus nos i dito pel0 proprio Deus naEscritura. Esta, portanto, deve ser entendi-da com rigor absoluto, sem a interferhciade raciocinios e glosas metafisico-teologicas. So a Escritura constitui a autoridadeinfalivel de que necessitamos: o papa, os bis-pos, os concilios e toda a tradiqio niio so-mente n i o beneficiam, mas at6 obstaculizama compreensiio do texto sagrado. Essa energica remitencia a Escritura j iera propria de muitos humanistas, comovimos. Mas os estudos recentes destacaram rfe / L , I ~ Z ~ Y dZi ~ t i d o s tcxtos L i l ~ l l z 7 t i l 4 ~ c ~ r - i t f 1l1 d b 1 ) 0 ~ ~ 7 . S~~~YLZ~IOS. l l - t C L I C l l 0 t ~ l 1 O S/ k l C l S S O [ J O Y i i l l 4 S i l rii7 S R I I I L ~l C ~ ( ~ ~ l t / L l t ~ ~tambkm o fato de que, quando Lutero deci- P ~ I 1I, 1 1 t c w C ~ / J P I I L I 7 ~ l.;surt~irrdiu-se a empreender a traduqiio e a ediqiioda Biblia, ja circulavam numerosas ediq6estanto do Antigo como do Novo Testamen-to. Calculos realizados com bases bastante
  • 92. cura nela a justificapio da fe, diante da qual induziu os principes a controlarem a vida(como ele a entende), o c6digo moral, religiosa, chkgando a t i a exorti-10s a amea-considerado em si, perde qualquer signifi- gar e punir todos aqueles que desleixavamcado. as maticas religiosas. Desse modo. o desti- no ;spiritual d; individuo tornavaLse patri- m6nio da autoridade politica, nascendo as- sim o principio cuius regio, eius religio ("a religiio deve depender do Estado"). 0 terceiro ponto basico do luteranismopode ser muito bem explicado, alCm de pelalogica interna da nova doutrina ( n i o ha ne-cessidade de um intermediirio especial en- ConotaG6es pessimistastre o homem e Deus, entre o homem e a e iwa~ionalistasPalavra de Deus), tambCm pela situagio his-torica que se viera criando no fim da IdadeMCdia e durante o Renascimento: o clero semundanizara, perdera credibilidade, n i o sevendo mais uma distingio efetiva entre pa- 0 s componentes pessimistas e irracio-dres e leigos. nalistas do pensamento de Lutero estio evi- As revoltas de Wyclif e Huss, no cre- dentes em todas as suas obras, mas de mod0pusculo da Idade MCdia, s i o particularmen- especial no Servo-arbitrio, escrito contrate significativas. Erasmo. Nesse escrito, aquela "dignidade do N i o era precis0 muito, portanto, para homem", t i 0 cara aos humanistas italianosextrair dai as conclus6es extremas, como fez e da qual Erasmo havia sido defensor, emjustamente Lutero, isto i, a idCia de que um ampla medida subverte-se inteiramente,cristio isolado pode ter razio contra um apresentando-se com sinal oposto.concilio, se estiver iluminado e inspirado 0 homem so pode se salvar se com-diretamente por Deus, n i o sendo portanto preender que n i o pode em absoluto ser onecessiria uma casta sacerdotal, visto que artifice de seu proprio destino: com efeito,cada cristio t sacerdote em relagio h comu- sua salvagio niio depende dele, mas de Deus;nidade em que vive. Todo homem pode pre- enquanto estiver tolamente convencido degar a palavra de Deus. Assim, elimina-se a que pode agir por si proprio, estara se ilu-disting2o entre "clero" e "leigos", embora dindo, nada rnais fazendo do que pecar. 0n i o seja eliminado o ministkrio pastoral en- homem precisa aprender a "desesperan-quanto tal, indispensavel em uma socieda- qar-se de si mesmo" a fim de abrir cami-de organizada. nho para a salvagio, ja que, desesperan- Todavia, nesse aspecto, as coisas logo gando-se de si mesmo, entrega-se a Deus eassumiram uma conotag20 francamente ne- tudo espera da vontade de Deus - e, des-gativa. A liberdade de interpretagio abriu se modo, aproxima-se da graga e da sal-caminho a uma sCrie de perspectivas n i o vaqio.desejadas por Lutero, que, pouco a pouco, Considerado em si mesmo, ou seja, semfoi se tornando dogmatic0 e intransigente, o Espirito de Deus, o g h e r o humano C "opretendendo, em certo sentido, estar dota- reino do diabo", t "um caos confuso dedo daquela "infalibilidade" que contestara trevas".ao papa ( n i o por acaso foi chamado de "o 0 arbitrio humano e sempre e somen-papa de Wittenberg"). E pior ainda aconte- te "escravo": de Deus ou do Dem6nio. Lu-ceu quando, tendo perdido toda confianqa tero compara a vontade humana a urn ca-no povo cristiio organizado em bases reli- valo que se encontra entre dois cavaleiros:giosas, em virtude dos infinitos abusos, Lu- Deus e o Dembnio; tendo Deus sobre o dor-tero entregou aos principes a Igreja por ele so, quer andar e vai aonde Deus quiser; ten-reformada: nasceu assim a "Igreja de Esta- do no dorso o Dembnio, anda e vai aondedo", que C a antitese daquela Igreja i qual a i quer o Dem6nio. Ela n i o possui sEquer aReforma deveria ter levado. faculdade de escolher entre os dois cava- Portanto, aconteceu que, depois de ter leiros, s20 eles que disputam entre si o di-afirmado solenemente a liberdade da fb, reito de cavalgi-la. E a quem acha "injus-Lutero depois se contradisse de mod0 cla- ta" essa sorte do homem, que desse mod0moroso nos fatos. Pouco a pouco, Lutero fica predestinado, Lutero responde com
  • 93. 75 Capitulo quinto - $ R r n a s c e n G n e n Rrl~cJ~douma doutrina extraida d o voluntarismo reza, o homem outra coisa niio pode fazerockhamista: Deus C Deus precisamente por- senio pecar; e, quando pensa de acordo comque n i o precisa prestar contas daquilo que seu intelecto, outra coisa n i o pode fazer se-quer e faz, estando bem acima daquilo que n i o errar. As virtudes e o pensamento dosparece justo ou injusto para o direito hu- antigos s i o vicios e erros.mano. Nenhum e s f o r ~ ohumano pode salvar Desse modo, natureza e graqa ficam o homem, mas somente a graGa e a miseri-radicalmente separadas, assim como raziio cordia de Deus. Essa C a unica certeza que,e fC. Quando age de acordo com sua natu- segundo Lutero, nos d5 a paz. P a Martinho Lutero diante da Dieta de Worms (1.521) e m que foi afastado d o lmpkrio por conta de Carlos V. Segundo Lutero, ndo e necessaria uma casta sacerdotal, a pois cada cristiio d sacerdote e m rela~iio comunidade e m que vive, mas a liberdade de interpreta@o abriu caminho para u m a serie de perspectivas tamhkm politicas ndo deseiadas por Lutero.
  • 94. 76 Primeira parte - O t l w n a n i s t n ~ e a Renas~en~a III. Mlrich Z w i ~ ~ l i o , critura C a unica fonte de verdade; 6) o papa e os concilios n5o possuem uma autoridade que v alim da autoridade das Escrituras; A c) a salvaq5o ocorre pela f6 e n5o pelas obras; Ulrich Zwinglio (1484-1531) foi ini- d) o homem C predestinado.cialmente discipulo de Erasmo. E, apesar de Separavam Zwinglio de Lutero, alCmum rompimento formal que teve com ele, de algumas idiias teologicas (em particularpermaneceu profundamente ligado a men- sobre os sacramentos, aos quais ele dava umtalidade humanista. Aprendeu o grego e o valor quase que simbolico), tambCm a cul-hebraico e estudou niio somente a Escritu- tura humanista, com fortes elementos dera, mas tambCm os pensadores antigos, racionalismo, e um marcado nacionalismocomo Plat50 e Aristoteles, Cicero e S2neca. helvitico (que, inconscientemente, o levouPelo menos no inicio de sua evoluqiio espi- a privilegiar os habitantes de Zurique, comoritual, compartilhou a convicq50 de Ficino se eles fossem os eleitos por excelhcia).e de Pico sobre a revelaqiio estendida uni- Para dar uma idCia concreta do desdo-versalmente, mesmo fora da Biblia. bramento da doutrina zwingliana em senti- Em 1519 comeqou a sua atividade de do humanista-filosofico, escolhemos doispregador luterano na Suiqa. Zwinglio era pontos muito importantes: a quest50 do pe-ativo defensor das teses fundamentais de Lu- cad0 e da convers5o e a retomada de tema-tero, particularmente das seguintes: a ) a Es- ticas ontologicas de carater panteista. Em Zurrque (aqut reproduztda em utrn mc~srioquznhmtrsta), desenvolueu suu obra Zwinglzo, conutcto tiefensor de algumas das teses fundanzentats de Lutero. U m forte patrrotrsmo heludt~co o leuou a przurlegrar ~nconsczentemente os hab~tantes tul czdade, de como se fossem os elertos.
  • 95. No que se refere ao pecado, Zwinglio logo Zwinglio deu sinais de autonomia, n5oreafirma que ele tem sua raiz no amor de si cessou nem mesmo com a sua morte, queproprio (egoismo).Tudo aquilo que o homem ele assim comentou: "Zwinglio teve o fimfaz enquanto homem C determinado por esse de um assassin0 (...); ameaqou com a espa-amor de si proprio, sendo, portanto, pecado. da e teve a sorte que merecia." Lutero afir-A convers5o C uma "iluminag50 da mente". mara solenemente (com as palavras do Evan- Para Zwinglio, a predestinag50 se in- gelho) que "quem usar a espada, perecerasere em um context0 determinista, e i con- ~ e l espada", pois a espada n5o deveria ser asiderada um dos aspectos da Providtncia. usada em defesa da religiiio. Mas depois seHa um sinal seguro para reconhecer os elei- contradisse gravemente: ja em 1525 ele exor-tos, sinal que, precisamente, consiste em ter tara Filipe de Hessen a reprimir com san-f6. Enquanto eleitos, os fiCis s5o todos iguais. gue os camponeses revoltados sob a lideran-A comunidade dos fi6is se constitui tambCm qa de Thomas Muntzer, que fora convertidocomo comunidade politica. Assim, a Refor- por ele e nomeado pastor de uma localida-ma religiosa desembocava em uma concep- de da SaxBnia.qzo teocratica, sobre a qua1 pesavam ambi- A espiral da violhcia j i se tornaraguidades de diversos tipos. irreprimivel: o germe das guerras religiosas Zwinglio morreu em 1531,combaten- estava se difundindo fatalmente e se torna-do contra as tropas dos cantees catolicos. ria uma das maiores calamidades da Euro-A ira de Lutero contra ele, que comeqou t5o pa moderna. IV. Calvin0 e a reforma de Genebra Calvino 0 destino do franc& JoBo Caivino (1 509-1564) esta ligado a cidade de Genebra, onde, de 1541 a 1564, soube realizar um teocrdtico govern0 teocratico inspirado na Reforma. Como Lutero, Calvino ern Genebra est6 convicto de que a salva@o esta apenas na Palavra de Deus +§I revelada na Sagrada Escritura, e que o pecado original eliminou completamente os dons sobrenaturais do homem. 0 s conceitos peculiares do Calvinismo s%o: a) a Provid@ncia, entendida como continua~Bo ato de cria~Bo, do cuja ag%ose estende a todos; b) a predestina@o, que consiste no eterno conselho de Deus por meio do qua1 determinou aquilo que queria fazer de cada homem. 0s pontes f ~ n d a m e n t a i s soube realizar um governo teocratico inspi- rado na Reforma, muito rigido tanto em d a t e o v i a d e Calvino relaqiio 5 vida religiosa e moral dos cida- d5os corno, sobretudo, em relag50 aos dis- Calvino (Jean Cauvin)nasceu em Noyon, sidentes.na Franqa, em 1509, formando-se sobretu- 0 calvinismo ja foi definido como odo em Paris, onde sofreu especialmente as mais dinimico de todos os tipos de protes-influCnciaqhumanistasdo circulo de Jacques tantismo. Mais pessimists que Lutero a res-Lefkvre dEtaples (Faber Stapulensis, 1455- peito do homem, Calvino foi mais otimista1536). Seu destino, porCm, esteve ligado 5 que ele a respeito de Deus. Enquanto, paracidade de Genebra, onde atuou sobretudo Lutero, o texto basic0 era o de Mateus 9,2entre 1541 e 1564, ano de sua morte, e onde ("0s teus pecados te s5o perdoados"), para
  • 96. da aue niio tenha retirado inteiramente) os dons naturais do homem. e eliminou cbm- ~letarnente dons sobrenaturais. os Como Lutero, Calvino insiste no "servo arbitrio", apresentando a obra da salva- $50, que ocorre unicamente pela f i , como obra do poder de Deus. Se nos pudCsse- mos realizar at6 mesmo a menor aq5o por n6s mesmos, por meio do nosso livre-arbi- trio, entao Deus n5o seria plenamente nos- so criador. Mas, bem mais que Lutero, Calvino insiste na predestina~iioe amplia o sentido da onipotincia do querer divino, a ponto de subordinar quase inteiramente a ele as volic6es e as decisoes do homem. Ele subs- titui o determinismo de tip0 estoico, que i de cariter naturalista e panteista, por uma forma de determinismo teista e transcen- dentalista igualmente extrema. "Providincia" e "predestinaq5ow constituem, portanto, os dois conceitos car- deais do calvinismo. Em certo sentido. a Provid2ncia C o prosseguimento do ato de criaqgo e sua aqao se estende a todos, n i o so no geral, mas tam- bim no particular, sem qualquer limite. A predestina~iioi "o eterno conselho de Deus, pel0 qual ele determinou aquilo que queria fazer de cada homem". E sim- plesmente absurdo procurar a causa de tal decis5o de Deus: ou melhor, a causa 6 a von-Calvino, a o contririo, era o de Paulo, Epis- tade livre do proprio Deus, e sua vontade etola aos Romanos 8,31: "Se Deus esta conos- a lei suprema.CO, quem estari contra nos?" 0 proprio pecado original de Ad50 n5o E Calvino se convenceu de que Deus apenas foi permitido por Deus como tam-estava com ele a o construir a "Cidade dos bCm ele o quis e o determinou. Isso podeeleitos" na terra, que foi Genebra, o novo parecer absurdo apenas para aqueles queIsrael de Deus. n i o temem a Deus e n2o compreendem que A doutrina de Calvino encontra-se so- a propria culpa de Adio, assim concebida,bretudo na Institui@o da religiiio cristi, da inscreve-se em um admiravel e superior de-qual publicou numerosas ediqoes a partir de signio providencial.1536, em latim e em francis. Segundo Max Weber, foi da posiq5o Como Lutero, Calvino tinha a convic- protestante que derivou o espirito do capi-q5o de que a salvaqiio esti somente na Pala- t a l i s m ~ Corn efeito, Lutero foi o primeiro .vra de Deus, revelada na Sagrada Escritura. que traduziu o conceit0 de "trabalho" pel0Qualquer representaqao de Deus que n5o termo "beruf", que significa voca@o no sen-derive da Biblia, mas sim da sabedoria hu- tido de profissiio, limitando-o, porim, asmana, t um v5o produto de fantasia, mero ? atividades agricolas e artesanais. 0 s calvi-idolo. A inteligincia e a vontade humana nistas o estenderam a todas as atividadesforam irreparavelmente comprometidas pel0 produtoras da riqueza. E mais: viram napecado de Adso, de modo que a inteligin- produq5o de riquezas e no sucesso a-ela li-cia deforma o verdadeiro e a vontade tende gado quase que um sinal tangivel preci-para o mal. samente da predestinaqgo e, portanto, um Mais precisamente, explica Calvino, o notivel incentivo a o empenho profissional.pecado original reduziu e enfraqueceu (ain- "i:"" "Qq
  • 97. V. O u t r o s te6Iogos da Reforma e figuras ligadas a0 movimento protestante Entre os discipulos de Lutero foi importante Filipe Melanchton (1497-1560), que poremtentou uma especie de mediagao entre as posi$6esda teoiogia luterana e a tradicional. Fortes tintas racionalistas se encontram em Miguel Servet (1511-1553), que pijs em discusslo a divindade de Cristo. Lelio Socino (1525-1562) e, sobretudo, o sobrinho Fausto outras figuras Socino (1539-1604) interpretaram os dogmas cristlos em chave ligadas claramente etica e racionalista, portanto em antitese em relat;tio ao movimento a luferanos e calvinistas. protestante 0 aspecto mistico do pensamento da Reforma protestan- +§ 1 te foi levado as extremas conseqtidncias por Sebastiao Franck (1499-1542/3), por Valentim Weigel (1533-1588) e por Jakob Bdhme (1575-1624), o qua1 terS grandes infludncias sobre os pensadores ro- J n t k r p r e t e s importantes tisbona, onde as partes em causa (luteranos, calvinistas e catolicos) niio aceitaram as ba- do movimento p r o t e s t a n t e ses do acordo por ele proposto. Uma forte coloraq50 racionalista pode ser encontrada em Miguel Servet (1511- Entre os discipulos de Lutero destaca- 1553), que, em sua obra 0 s erros da Trin-se com certa importincia Filipe Melanchton dade (1531), p6s em discussiio o dogma(1497-1560), o qual, porim, atenuou pou- trinitario e, conseqiientemente, a divindadeco a pouco certas asperezas do mestre e ten- de Cristo, que, para ele, foi homem que setou uma espCcie de mediaqiio entre as posi- aproximou extraordinariamente de Deus eq6es da teologia luterana e a posiqiio catolica que os homens devem procurar imitar. Foitradicional. A obra que lhe deu fama intitu- condenado h morte por Calvino, que niiola-se Loci communes (que conttm exposi- tolerava qualquer forma de dissensiio emq6es sintiticas dos fundamentos teologicos), questiio de dogma.publicada em 1521 e viirias vezes reeditada, TambCm dignos de menq5o foram Leliocom variantes sempre mais acentuadamen- Socino (1525-1562)e, sobretudo, seu sobri-te moderadas. nho Fausto Socino (1539-1604), que, asila- Melanchton procurou corrigir Lutero do na Polhia, fundou uma seita religiosaem trts pontos basicos: denominada "irmiios poloneses". Para 1)sustentou a tese de que a fC tem papel Socino, ao contrario do que sustentavam osessencial na salvaq50, mas que, com sua obra, outros reformadores, o homem pode "mere-o homem "colabora" com ela, funcionando cer" a graqa, porque C livre. A Escritura i aassim quase como concausa da salvaqiio; unica fonte atraves da qual conhecemos a 2) esforqou-se por revalorizar a tradi- Deus, mas a inteligcncia do homem deve seqiio, a fim de acabar com os dissidios teol6- exercer precisamente na obra de interpreta-gicos que a doutrina do livre-exame desen- $20 dos textos sagrados. E cada um C inteira-cadeara; mente livre nessa interpretaqiio. Socino ten- 3) pareceu dar certo espaqo h liberda- de a uma interpretaqiio em bases clarmentede, embora exiguo, como tambtm censurou Cticas e racionalistas dos dogmas, em widen-seu mestre pel0 carater despotico, rigidez e te antitese com o irracionalismo de fundobelicosidade. dos luteranos e dos calvinistas. Seus hibeis designios de reconciliaqiio 0 aspecto mistico proprio do pensa-dos cristiios dissiparam-se em 1541, em Ra- mento da Reforma protestante, porim, C
  • 98. 80 Primeira parte - 0+ I M M ~ C L M ~ S M ~ O e a RenascenGalevado as ultimas conseqiihcias por Sebas- As idCias de Bohme niio podem ser resumi-tiso Franck (1499-1542/3), cujos Parado- das, pois G Oexpress50 de uma experihciax o s tornaram-se celebres (1534/35), por mistica intensamente vivida e sofrida. Tra-Valentim Weigel (1533-1588), cujas obras ta-se de verdadeiras "alucinag6es metafi-so circularam depois de sua morte, e por sicas", como ja disse alguim.Jakob Bohme (1575-1624), do qua1 se tor- As obras de Bohme foram muitissimonaram famosos sobretudo estes dois escri- criticadas, mas, talvez devido h sua opg5otos: A aurora nascente (1612)e 0 s tr& prin- de vida simples (viveu exercendo a humil-cipios da natureza divina (1619). de profiss5o de artes5o), Bohme n5o foi Este ultimo pensador, sobretudo, iria perseguido, mas substancialmente tole-influenciar pensadores da Cpoca romsntica. rado. VI. Comtra-reforma 0termo "Contra-reforma", cunhado no Setecentos, indica hoje propriamente: a) o aspect0 doutrinal express0 na condenagao dos erros do Protestantismo e na formulagao positiva do dogma catolico; b) o conjunto das medidas restritivas e constritivas, como a instituiqao da InquisigZio romana em 1542 e a compilagao do lndice dos livros proibidos. A "Reforma catolica" designa o complexo movimento dirigi- Aspectos do a regenerar a lgreja dentro de s i mesma, que tem rakes j%no doutrinais fim da ldade Media e que depois s desdobra no decorrer da era e da Contra- reforma renascentista: manifesta-se tambdm na forma peculiar de e da Reforma militiincia vivaz, sobretudo a propugnada por Indcio de Loyola e ca tolica pela Companhia de Jesus por ele fundada (oficialmente reconhe- +§I cida pela lgreja em 1540). A ligagao entre "Reforma catolica" e "Contra-reforma" estd na fun@ocen- tral do papado interiormente renovado, sancionada solenemente durante o Con- cilio de Trento (realizado com vhrias interrupgdes, de 1545 a 1563. o ~oncilio As decisdes do Concilio, aldm disso, solicitaram ulteriormente a de Trento retomada da Escoldstica, cujo florescimento mais notdvel ocor- e a retomada reu na Espanha com Francisco Suarez (1548-1617), que com sua da Escoldstica ontologia nao deixou de influenciar o pensamento moderno, par- -+ 2 2-3 ticularmente Wolff. 0 s conceitos no caso dos conceitos de Humanismo e Re- nascimento. Essa observagiio vale tambem historiogr6ficos para o conceit0 de "Contra-reforma". d e "Contra-veforma" 0 termo "Contra-reforma" foi cunha- e d e "Reforma catblica" do em 1776 por Piitter (jurista de G~tinga), e teve logo muito sucesso. Esth implicita no termo uma conotagiio 0 s conceitos historiogrificos siio ex- negativa ("contra" = "anti"), ou seja, a idCiatremamente complexes e, no mais das vezes, de conservag5o e reag50, como que um re-S ~ gerados por uma sCrie de causas dificeis O trocesso em relagiio 5s posig6es da Refor-de determinar, como vimos, por exemplo, ma protestante. Mas os estudos feitos sobre
  • 99. plo, a instituiqio da Inquisjq20 romana em 1542 e a compilaqio do lndex dos livros INDEX proibidos. (Sobre este ultimo ponto, deve- se recordar que a imprensa tornara-se o LIBRORVM mais formidavel instrumento de difusio das idCias dos protestantes, dai a contramedida PROHIBITORVM do Index.) ALEXANDRI V I L Pontificis Maximi A conexio entre a "Reforma catolica" iufsu editus. e a "Contra-reforma" esti na funqio cen- tral do papado que, renovado internamen- te, torna-se promotor da Contra-reforma em suas diversas manifestaqoes. Concluindo, diremos, com H. Jedin (que C o historiador que estudou mais pro- funda e amplamente este problema), que "Reforma catolica" e "Contra-reforma" de- vem ser bem distintas, justamente para bem entender suas estreitas ligaqoes: "A Refor- ma catdlica e a reflex20 sobre si mesma re- alizada pela Igreja, tendo em vista o ideal de vida catolica que pode ser alcan~ado atra- ves de uma renova@o interna; a Contra- Reforma e a auto-afirma@io da Igreja nu luta contra o brotestantismo. A Reforma catoli- ca baseia-se na auto-reforma de seus mem- Frontispicio do index d m livros proihidos. bros na tardia Idade Midia; ela cresceu sob o estimulo da apostasia e chegou i vitoria pela conquista do papado, a organizaqio e a concretizacio do Concilio de Trento: C aesse movimento, que foi bastante amplo e alma da Igreja retomada em seu vigor, aoarticulado, levaram pouco a pouco a des- passo que a Contra-reforma C o seu corpo.cobrir a existhcia de um complexo movi- A Reforma catdlica armazenou as for~as quemento (que se manifestou de varios modos), depois foram descarregadas nu Contra-re-voltado para a regeneraqio da Igreja no in- forma. E o ponto em que ambas se interligamterior dela mesma, movimento que tem suas e o papado. A ruptura religiosa subtraiu araizes no fim da Idade MCdia e que depois Igreja forqas preciosas, aniquilando-as, masse desdobra ao longo da Cpoca renascen- tambCm despertou aquelas forqas que aindatista. existiam, aumentando-as e fazendo com que A esse process0 de renova@o no inte- lutassem at6 o fim. Ela foi um mal, mas umrior da Igreja foi dado o nome de "Reforma ma1 do qua1 tambim nasceu algo de positi-cat61ican,termo hoje acolhido de mod0 qua- vo. Nos dois conceitos de Reforma catoli-se uninime. As conclus6es a que se chegou ca e de Contra-reforma estio incluidosindicam que aquele complexo fen6meno que tambCm os efeitos que a elas se seguiram."se chama "Contra-reforma" n i o teria sidopossivel sem a existhcia de tais forqas deregeneraqio pr6prias da catolicidade. A Contra-reforma tem um aspect0 dou-trinario, que se expressa na condenaqio doserros do protestantismo e na formulaqiopositiva do dogma catolico. Mas tambim A Igreja catolica conta at6 hoje vinte ese manifesta numa forma peculiar de viva mi- um concilios, do Concilio de NicCia, em 325,litsncia, sobretudo a propugnada por Inacio ao Vaticano 11, de 1962 a 1965. Entretodosde Loyola e pela Companhia de Jesus por esses concilios, o de Trento (que foi o dCci-ele fundada (e reconhecida oficialmente pela mo nono), realizado de 1545 a 1563,k cer-Igreja em 1540). A Contra-reforma mani- tamente um dos mais importantes, sendofestou-se tambim sob a forma de medidas talvez aquele que goza de maior notorieda-restritivas e constritivas, como, por exem- de, embora niio tenha sido o mais numero-
  • 100. 82 Primeira parte - 6 tlumanismo e n Renascencaso nem o mais faustoso, e ainda que sua pro- diante de uma reviravolta que, na historiapria duraqso tenha de ser redimensionada da Igreja, tem o mesmo significado que asdrasticamente, considerando-se o numero descobertas de CopCrnico e Galileu tim parados anos de interrupq50 (de 1548 a 1551 e, a imagem do mundo elaborada pelas cicn-depois, de 1552 a 1561). Com efeito, a sua cias naturais."importiincia na historia da Igreja e do cato- No que se refere ao primeiro ponto quelicismo foi muito grande e a sua eficacia mencionamos, que aqui C o que interessabastante notavel. mais, deve-se notar o que segue. A importiincia desse concilio esta no 0 s documentos do concilio usam defato de que ele termos e conceitos tomistas e escolasticos a ) tomou clara posiqio doutrinaria com parcimGnia e cautela e, corno foi bemacerca das teses dos protestantes e notado por diversos intirpretes atentos, o b) promoveu a renovaq50 da discipli- metro com que se medem as coisas C o da fena da Igreja, t5o invocada pelos crist5os da Igreja e n i o o de Escolas teologicas par-ha muito tempo, dando precisas indicaqoes ticulares.sobre a formagio e o comportamento do Responde-se sobretudo as questoes declero. fundo suscitadas pelos protestantes, ou seja, Deve-se destacar tambCm que, no Con- a justifica@o pela fi,a questio das obras, acilio de Trento, a Igreja readquire a plena predestina@o e, corn grande amplitude, aconsciincia de ser Igreja de "cuidado com as quest50 dos sacramentos, que os protestan-almas" e de missio, propondo-se a si mes- tes tendiam a reduzir somente ao batismo ema corno objetivo precis0 o seguinte: "Sa- 2 eucaristia (em especial, reafirmam a dou-/ U S animarum suprema lex esto" ("a lei su- trina da transubstanciaq50 eucaristica, se-prema devera ser a salvaqiio das almas"). gundo a qua1 a substiincia do p5o e do vi-Esta t uma reviravolta historica basilar, que nho se transforma em carne e sangue deJedin analisa do seguinte modo: "Estamos Cristo; Lutero, a o invts, falava de consubs- Ticiano, "0 Concilio de Trenton, conservado e m Paris no Museu d o Louvre. Este concilio (1 545-1 56.3) marca a mais significatiua uirada da lgreja nos tempos modernos.
  • 101. 83 Capitulo quinto - $ Renascenca e a Religi60 Purticular de ulna e s t u m p represe~ta~zdoa cidude de Trento, onde se realizou o Corzcilio que nzarcou pura a Igreja u reconquista da plena consci&cid de ser "curu de alwm".tanciaqiio, o que implicava a permanincia foi expoente ilustre Tomas de Vio (1468-do piio e do vinho, mesmo realizando-se a 1533), mais conhecido sob o nome de car-presenla de Cristo, a o passo que Zwinglio deal Caietano.e Calvino tendiam a uma interpretaqiio sim- Caietano, alias, foi o primeiro que in-bolica da Eucaristia), bem como reafirmam troduziu como texto-base de teologia, aoo valor da tradi@o. invts das tradicionais Senten~asde Pedro Lombardo, a Summa Theologica de santo Tomas, que, posteriormente, se tornaria o ponto de refercncia tanto para os domini- canos como para os jesuitas. Recorde-se tambtm que, a o longo do stculo XVII, os comentirios a Aristoteles foram substitui- dos pelos Cursus philosophici, amplamente inspirados no tomismo e destinados a ter Lutero foi duro adversario niio apenas ampla difusio e repercussiio.de Aristoteles, mas tambtm do pensamento 0 florescimento mais notavel dessatomista e escolastico em geral. As raz6es siio "segunda escoliistica" ocorreu na Espanha,bem evidentes: as tentativas de conciliagiio pais no qual tanto os debates humanistasentre a ft e a razio, entre a natureza e a como os religiosos chegaram de forma ate-gra-la e entre o humano e o divino estavam nuada e que, portanto, apresentava condi-em antitese com seu pensamento de fundo, @es particularmente favoraveis para isso. 0que pressupunha a existincia de uma sepa- maior expoente da "segunda escol~stica" foiraqiio categorica entre esses polos. Mas Francisco Suarez (1548-1617), denominadotambtm t evidente que as decisoes do Con- doctor eximius, do qual ficaram famosas so-cilio de Trento deveriam estimular uma re- bretudo as seguintes obras: Disputationestomada do pensamento escolastico, do qual, metaphysicae (1 597) e De legibus (1612).alias, houvera uma revivescincia a o longo A ontologia de Suarez n i o deixou de in-do stculo XV e no inicio do stculo XVI (is- fluenciar o pensamento moderno, especial-to 6, ja antes do pr6prio concilio), e do qual mente o de Wolff.
  • 102. 84 Primeira parte - 8tlumanismo e a Renascen~a ele n6o sobe medir. 0 s6bio so sabe se refu- giar nos clClssicos, para aprender apenas suas sutilezas verbais; o outro, ao inv&s, lanpndo- se temerariamente aos riscos, recolhe - ou me engano? - frutos de prud6ncia. Homero tam- b&m viu isso, embora ceqo, onde diz que "o destino doma tarnbbm um e s t ~ l t o " . ~ Existem de fato do~s obst6culos que, mais o alogio da loucura que os outros, se op6em b aquisi~dodo co- nhecimento do mundo, e s6o a vergonha, que ofusca a intelighcia, e a t~m~dez, exagera que 0 sscrito ds Erosrno csrtarnenta rnois os perigos, desviando assim da q b o . Ora, h6 lido, a do ponto ds visto ortistico o rnais Feliz urn espl&ndido modo de se libertar de uma e (6 urno obro-prirno srn ssu g&naro), Q o Elo- outra: possuir urn gr6ozinho de loucura. Poucos gro do loucura. s6o os homens que conseguem entender que R "loucuro" da qua folo Erosrno ossa- ndo estar sempre a se envergonhar e estar malho-sa, am carto santido, 2, socrdtico "iro- prontos para tudo ousar produz infinitas outras nio" qua sob divsrsos m6scaras 6, o seu vantagens. Mas h6 quem cr6 ssr preferivel a rnodo, rsvaladoro c b varcloda. Estas vdrias tudo aquela espbcie de prud6ncia que se ad- rndscoros constitusrn urno gamo rnulticolorido quire com o reto juizo das coisas, ouv~ bem, de que voi ds urn sxtrarno nagotivo, qua p6a grqa, quanto longe estejam aqueles que v6o am avid&nc~o ports plor do homsrn, oo sx- o recomendando a si mesmos sob este aspecto. trarno positivo do fb am Cr~sto no loucuro e E primeiro lugar, sabe-se que, corno os m do cruz. Silenos de nlcibiad~s,~ todas as coisas huma- R "loucuro arosrniono, srn rnuitos pon- " nas t&m duos faces, completamente diferentes tos do livro, rosga os vQusa tira as rndscoros uma do outro, de modo que oquilo que b pri- sob os quois os podarosos do rnundo sa as- meira vista & morte, olhando bem mais para condsrn s os rnostro corno otorss qus srn seu dentro, se apresenta corno vida, e ao contr6rio intirno sao fraquantarnenta bam difarantss a vida se revel0 morte, o belo feio, a opul6ncia dos parsonogens qua parsonificom: mas - a n6o & sendo mis&r~a, m6 fama torna-se 910- a nisto r a i d s a toconta poasio do obro -, oo ria, a cultura se descobre ignorhcia, a robustez fozer isso, Erosrno foz cornpraandar o senti- fraqueza, a nobrezo ignobilidade, a alegrio tris- do do csno, do cornbdio rscitodo, dos oto- teza, as boas condi(6es escondem a desgra- ras a da suas rndscoros, s da olgurn modo (a, a amizade a ~n~mizade, rem&dio salutar um convida o ocsitor (ou rnostro corno ocaitor) vos acarreta dano; em uma palavra, se obres a as coisos ossirn corno sbo, comprssndsndo caixa ai encontrar6s de repente o oposto com- sxatornanta sau sentido. pleto do externo. E justomants d a t e rnodo a "loucuro" Parece-vos que eu me exprima demas~a- arosrniono ss torno ravalodoro da "vardoda". do filosoficamente? Pois bem, para ser mois cla- ra. falarei francamente. Quem, do rei, n6o pen- sa que & um senhor poderoso e riquiss~mo? Todavia, se o espirito dele n6o est6 provido1 . 0 verdadeiro juizo 6 "loucum" de bons dotes, se n60 h6 coisa que Ihe baste. Depois de ter re~vindicado para mim a & paup&rrimo, evidentemente. Se depois tem@ria de forte e suscitadora de atividade, que a alma escravizada a muitos vicios, & um es-dirieis se eu Fizesse o mesmo para a prud6n- cravo, um desprezivel escrovo. Do mesmocia? Objetareis: tanto faz p6r junto o fog0 com modo se poderia Filosofar sobre as outrasa agua! Mas eu ndo desesperaria de conse- qualidades, mas basta o quanto foi dito cornogui-lo, por pouco que prosslgals, corno antes, exemplo.a dar-ms ouvido atento. "Com qua proposito ~sto?", dir6 alguhm. E, para comepr, o que & a prud&ncia se- Ouvi onde quero chegar. Se alguhm, enquantondo a pr6tica da vida? E a quem pode melhorcompetir a honra de tal atribui(60, ao sdbio, os atores representom um drama, tentasse ar- .qua, um pouco por vergonha, um pouco por ti-midez, ndo ousa tomar nenhuma iniciativa, ou A "loucuro" folo em prlmalro pessoo.entdo 00 galhofeiro, que nada consegue im- Womaro, liiodo, livro XVII, v 32.pedir de agir? Ndo ser6 certamente o pudor a 3Alude13 comporo$50 entre Socrotes e os Slenos fe~tofrear este; ele n6o o tam; e nem o pengo, que por Rlc~biodas Aonquete de Plotdo. no
  • 103. 85 IIi Capitdo quinto - A RenascenFa e a Religi60rancor-lhesa rn6scar0, para mostr6-10s aos ex- char urn olho algurna vez, junto com toda a irnen-pactadores com seus rostos verdadeiros e na- sa multiddo dos homens, ou antdo cometer d~s-turais, ndo arruinaria toda a representqdo?Ndo parates, humanamente. Isso, porhrn, dirdo, se-mereceria ser expulso do teatro a vassouradas, ria aglr como pessoa sem bom senso. Ndo ocomo um doido? Sem dljvida, por obra sua to- negaria, contanto que de outro lado ndo se con-das as coisas tomariam novo aspecto, e quern ceda que tal 6 a vida, a combdia da vida, queantes era mulher, agora seria homem, quem h6 recitamos.pouco era jovem, logo depois, velho, quem era Erasmo.rei pouco antes, se revelaria improvisamente Elog~o loucura. cap. XXIX. daum tratante, quem antes era deus, apareceriade repente um pobre homem. Mas [...I 6 licito 2 . 0 s filosofos e a "loucura"destruir este engano? Ndo se desmontaria todoo drama? Pois 6 justamente esta ilusdo, este Sobre suas pegadas avancam os fil6so-truque que mant6m presos os expectadores. fos, que incutem reverhncia com o rnanto e corn[...I E a vida humana, que mais 6 sendo urna a barba. Proclamam ser apenas eles os depo-combdia? Nesta os atores saem em pljblico, es- s1t6riosda sabedoria, enquanto todos os ou-condendo-se um sob urna m6scar0, outro sob tros rnortais seriam sombras que esvoaGamoutra, e coda urn faz sua parts, at6 que o dire- aqui a ali.tor os fa2 sair de cena. frequentemente, po- Doce, na verdade, 6 o delirio que os pos-rbm, a0 mesmo hornem d6 ordem de represen- sui! E sua rnente erigem inumerdveis rnundos, mtar-se sob outro revestimento, de rnodo que medindo quass a fio de prumo o sol, as estre-quern antes representaro o rei vestido de pirr- las, a lua, os planetas, explicarn a origem dospurcl, agora representa o escravo esfarrapado. raos, dos ventos, dos eclipses e de todos osToda a vida ndo tem nenhuma consisti;ncia; mas, outros fendmenos inexplic6veis do natureza, epor outro lado, esta cornhdia ndo pode ser re- jamais hesitam, corno se fossern os confiden-presentada d s outro modo. tes secretos do supremo regulador do univer- Ora, se algum sabichdo, caido do cbu, se so, ou entdo nos viessem trazer as noticias daspusesse de repents a gritar: "Oh, este senhor, reunides dos deuses. Mas a natureza cqoaque todos adrniram corno urn deus, um podero- deles e da suas elucubrag.des.Com efeito, slesso, ndo 6 sequer urn hornern, pois se deixa gui- ndo conhecem nada com certeza. Prova maisor pelas paixdes como um animal; ndo 6 rnais que suficiente disso 6 o fato de que, entre osqua um escravo do pior esptcie, porque est6 filosofos, a respeito de todo questdo nascemsubmetido espontanearnente a tantos patrdes polhrnicas interrnln6veis. Eles n60 sabem nada,vergonhosos!"; ou entdo, se a outro que cho- mas afirmam saber tudo; ndo conhcscem a sirasse a morte do p i , ordenasse: "Ri enfim; teu mesmos, por vezes ndo conseguem perceberpoi justamente agora cornqa a viver; 6 esta os buracos ou as pedras qua lhes aparecern bvida que vivemos que 6 morte, nada rnais que frente, ou porque a maioria deles 6 cega oumorte"; ou a urn terceiro, que se vangloria da porque sempre est6o nas nuvens. Todav~a, pro-propria origem, dirigisse o titulo de ignobil bas- clarnarn corn orgulho ver bern as idbias, os uni-tardo, acrescentando-lheque est6 bem longe versais, as formas separadas, as mat6rias-de possuir a virtude, e que 6 esta a unica fon- primas, CIS quididades. a hec~eidade,~ todoste da verdadeira nobreza; se, portanto, este coisas tdo sutis, que nem Linceur5 creio, nelass6b1ofalosse do mesmo modo de todas as ou- conseguiria penetrar com o olhar.tras coisas, que rnais fazer sendo rnostrar a Seu desprezo pelas pessoas comuns satodos que 6 um insensato, um louco a ser amar- manifesto sobretudo quando amontoam, umrado? sobre o outro, tridngulos, quadrados, circunfe- Rssim como ndo existe idiotice rnaior do rhncias e outras figuras geom6tricas e as con-que urna sabedoria moportuna, tamb6m n60 h6 fundern at6 fazer dalas um labirinto; al6m dis-maior irnprudhncia do que uma prudhncia so, eles, clispondo as letras como sobre umdestrutiva. Faz muito rnal quem ndo se adapta xadrez de opera@es militares e continuamenteaos tempos e bs circunst8ncias, quern ndo olha renovando sua ordern uma vez depois da ou-o avesso do pano, quem, esquecido das re- tra, jogarn areia nos olhos dos cr6dulos.gras dos gregos b mesa - ou bebe, ou retira-te E ndo faltam em sua fileira indlvidu6s que-, pretendesse que a comhdia ndo seja rnais at6 sdo capazes, interrogando os astros, decombdia. Ro contr6rio. 6 proprio do homem ver-dadeiramente prudente, pelo fato de sermosmortais, n6o aspirar a urna sabedoria superior SBO termos coracteristicosdo flosof~a escol6stico.ao proprio destino. € precis0 reslgnar-se ou fe- 5Personngemmitol6g1co. farnoso pelo ogudez do olhor.
  • 104. predizer o futuro e, prometendo milagres ainda ria ter-se subst~tuido urna mulher. ao diabo, a amaiores do que os da magia, encontram, feli- um asno, a uma abobora, a uma pedra? E dezes deles!, quem acredita. que modo uma abobora teria podido falar, fa- Erasrno, zer milagres e ser posta no cruz? Qual consa- Elogio da loucuro, cap. 11 1.gra~do teria operado Sdo Pedro, se tivesse celebrado a fun~bo momsnto em que Cristo no estava pregado M cruz?Poder-se-iaafirmar que3. 0 s te61ogos e a "loucura" naquele mssmo instante subsist~sse Cristo em Dos teologos, a0 contr6ri0, seria melhor o estado humano? Depois da ressurreicbo serdn6o falar, poro evtor remover u brejo lodoso permitido comer e beber? Pois desde agora j6 m como o de Comorina ou de tocar urna erva mal- se preocupam com a fome e a sede futuras.cheirosa. Pois esta b uma r a p de homens ex- Depois, dispdem de urna infinidade de traordinariamente carrancuda e irritdvsl, e eu sutilezas, muito mais sutis que as preceden- temo que atlrem sobre mim Bs centenas as fi- tes, sobre no~des, relo@es, formalidade, qui- leiras de suas conclusdes e n6o me constran- didade, heceidade; coisas todas que ningubmjam a recitar o mea culpa, ou que, na falta disso, conseguiria captar com o olhar, a menos que ndo me proclamem simplesmente de inf~tado fosse um I~nceu d~v~sasse nas trevas mais e 0th por heresia. Com efeito, este 6 o raio de que densas aquilo que de fato ndo exlste.se valem habitualmente para inspirar terror em Acrescentai agora a estas certas mdximosquem lhes & antipdtico. t6o porodoxois que aqueles famosos or6culos < fato qua n60 existem outros homens dos Estoicos, chamados de paradoxos, dianteque menos prazerosamente reconheqxn os destas parecem vulgaridadss boas para pia-beneficios de mim recebidos, mas eles tam- da: por exsmplo, que & falta mais lave matarbbm t&m para comigo muitos motivos de re- mil homens do que coser uma so vez as sand6conhecimento. lias de um pobre em um dia de domingo, ou 0 amor proprio os torna felizes a ponto entdo que se deve deixar perecer o mundo in-de lhes parecer habitar o sbtimo cbu: do alto teiro com tudo o que nele existe, em vez deolham smbaixo todos os outros mortais, como pronunciar uma so mentirinha, por mais Ieve quese fossem animais qua rastejam no chdo, e seja. [...Iquase chegam a deles ter compaixbo. A seu AIbm disso, sdo infinitos os caminhos pe- redor t&m um conjunto infinito de defini@es ma- 1 s quais os Escol6sticos tornam ainda mais sutis 0gistrais, de conclusdes, de corol6rios, de pro- aquelas infinitesimais sutilezas: em suma, seria posi@es explicitas e implicitas, t&m d disposi- mais f6cil escapar de um labirinto do que dos$30 tal exuberBncia de subterf6gios, que nem emaranhados dos Realistas, Nominalistas,a rede de Vulcano6 com suas malhas poderia Tomistas, Rlbertistas. Ockam~stas, Escotistas, e impedir de safar-se por entre seus "d~stingo". nbo acenu a todas as escolas, mas apenas Bs Com estes eles cortam todo no com tal facilida- principais. de que nem a machadinha de dois gumes de E todas estas escolas erudiq3o e abstru- mTenedo7 poderia fazer melhor, e infinito b o fer- sidade estdo na ordem do dia e eu penso quevilhar dos tsrmos que inventam na hora, e dos os proprios ap6stolos teriam necessidade do estranhos voc6bulos que usam. socorro de outro Espir~to Santo, caso fossem Rlhm disso, deleitam-se em explicar com forpdos a cruzar armas com esta nova estirpe prazer os misteriosos arcanos da rdigido, ou de teologos. seja, o modo da cria@o e a ordenasdo do uni- Erasrno, verso, os canais por meio dos quais a mancha Elog~o loucura, cap. 11. da 11 do pecado original se espalhou sobre os des- cendentes, o modo, a medida e o 6timo em 4. A fslicidade celeste qua Cristo se formou no seio da Virgem, e a 6 uma forma de "loucura" razbo do fato de que na Eucaristia os acidentes subsistem sem a subst6ncia corporea. Tal coisa se tornard mais evidente se de- Estes, porbm, sdo argumentos abusivos. monstrar logo, conforme prometi, que o decan- Rtualmente as questdes consideradas dignas tado pr&m~o supremo ndo & mais qua uma es- de teologos grandes e iluminados, como os pbcie de loucura. Considerai em primeiro lugar chamam, sdo outras e quando nelas se em- batem, ent6o sdo todo ouvidos. Cis algumas. b H6 um instante precis0 na gera~do divina? Exis- juntos a rnulher Vhus aconstruida palo daus para enredor 6Refer&nc~o rede Marta. tsm em Cristo mais filia<das?6 possivel a pro- Na ~lho Tenedo era la1 G pr6t1ca dacap~ta@o de a de posi(6o "Deus pai odela o Filho"? Deus pode- quem apresentavn Falso acusa<do.
  • 105. que Platdo sonhou 0190 de semelhante, quan- Ihor, n6o se perde, mas se aperfeicoa. Quem,do escreveu8que o furor dos amantes C o mais portanto, saboreia antecipadamente na terra adocs de todos. Com efeito, quem ama arden- alegria do cCu (sorte concedida a bem poucos)temente n60 viva mais em si mesmo mas na- est6 sujeito a manifesta<6es muito semelhan-quele que ama, e quanto mais se afasta de SI tes d loucura: pronuncia palavras sern nexo ndomesmo, para transferir-se inteiro no outro, mais ao modo dos homens, mas emitindo palavrasgoza. Ora, quando a alma se dedica a vagar inconscientemente; em seguida muda a ex-fora do corpo, sern mais se ssrvir normalmente press60 do rosto sern interrupq30,ora vivaz, orados proprios org6os, isso & furor, sern dirvida, abatido, ora a chorar, depois a rir, a suspirar,e pode-seafirm6-lo com raz6o. De outro modo, em suma, est6 completamente fora de si. Quan-o que significaria aquilo que comumente se do depois volta a si mssmo, diz que n60 sabediz: "n6o est6 em si mesmo", "cai em ti mesmo" onde tenha estado, se no corpo ou fora do cor-ou entdo "voltou a si"? E quanto mais o amor & po, se desperto ou a dormir, nem se lembra doperfeito, tanto maior e mais delicioso 6 este que ssntiu ou viu ou disse ou fez, a n60 serfuror. como em uma nbvoa e em sonho: sabe apenas Qual ser6 ent6o aquela vida celeste, d ter estado no dpice da bem-aventuran<a,du-qua1 anelam com tanto ardor os espiritos r d - rants todo o tempo em que se encontrava foragiosos? Evidentemente o espirito absorverd o dos sentidos. E lamenta-sepor ter voltado a sicorpo, como vitorioso e mais forte. E assim o mesmo e ndo desejarin outra coisa sen60 es-far6 tanto mais facilmente pois j6 antes, duran- tar cont~nuamente louco com tal tipo de loucu-te a vida, o purificou e enfraqueceu portal trans- ra. E ndo se trata mais do qua uma Ieve pre-f o r m ~ @ em seguida, de modo admiravel, ~; gustaq6o da bem-aventuranp futura!esse espirito serd absorwdo pala mente su-prema, que C sob infinitos aspectos mais po- Erosmo,derosa; desse modo o homem estard todo fora Clog10 do lowuro, cap. WII.de si e ssr6 feliz apenas pelo fato que, postofora de si mesmo, experimentarc5 algo de ine-f6vel daquele sumo bem que tudo atra e raptapara SI. 6 fato que tal felicidade nos tocard de mo-do perfeito apenas quando as almas, reentran-do em posse dos corpos de antes, receberemo dom da imortalidade. Mas tambhm, desdeque a vida dos homens religiosos ndo t mais :que rneditqbo daquela celeste e como qua umasombra dela, por consequ&nciaalguma vez eles provam desde agora, aqui na terra, um gosto ecomo que urn perfume daquele pr&mio. Trata-se de uma gotinha minuscula em compara~docom aquela fonte de bem-aventuranp eterna; todav~a, infinitamentesuperior a todos os pra- 6zeres do corpo, mesmo que fossem colocadosjuntos todos os gozos de todos os mortals, poisem muito as coisas espirituais ultrapassam ascorpor~as, invisiveis as visiveis. as E isto, se v&, quando o Profeta9promete: "0olho n6o viu, o ouvido n6o ouv~u nem che- gou a0 cora<dodo homem o que Deus prepa- rou para quem o ama". Esta & aquela parte de loucura que, com a possagem para vida me- Erasmo de Rotterdam em uma incisdo que remonta a 1526, . do cebbre pintor Albrecht Diirer.
  • 106. Primeira parte - O t I u 1 ~ a n i s ~ 1 0a R e n a s c e n c a e 2. Uma reta H em Cristo 6 uma riqueza superabundante Por isso, razoavelmsnte, a unica obra, a irn~ca ocupa<dode todo cristdo deveria ser esta: compenetrar-sebem da palavra e de Cristo, exer- citar e reforqr tal f& continuamente,pois nenhu- 0 primado da H em Cristo ma outra obra pode tornar algu&m cristdo. Cris- sobre as obras to, em Jo 6,285. diz aos judsus, que Ihe pediam o que dever~am fazer para realizar obras divinas e cristds: "Esta 6 a irnica obra dw~na, que vos 0principal dos pontos Fundomsntois do creiais naquele que Deus enviou", que Deus Pal tsologio ds lutsro Q qus o homsm sa solvo tambhm apenas isso ordenou. Por isso, uma reta pela fC e ndo pelas obras. E outros tsr- m f& em Cristo & riqueza superabundante, pois ela mos, o possibilidode ds solvogdo ssM com- traz consigo toda felicidade e tira toda infelicl- platomants no fQ, umo v m qus o homem 8 dads, como escreve Sdo Marcos no f~m 6,16):(1 crloturo fsito do nodo, e como to1 nodo poda "Quemcr6 e rmebeu o batismo ser6 salvo; quem fozsr poro se tornor "novo crioturo: ou ssjo, ndo cr6, ser6 condenado". Por isso o profeta poro rsalizor o rsnoscimanto ssp~ritual rsque- Isaias (1 0.22) contemplou a rlqueza desta f& e rido pel0 Evongelho. disse: "Deus far6 uma breve aval~a<do sobre a Evidsntsmsnts, lutsro ndo nag0 qus terra, e esta avalia<do, como um diluvio, far6 hojo bbros boos: suo ofirmogdo ds que o transbordar a justisa"; isso sign~fica a f&, em qua fd p o r s justifica ssm os obros significo,subs- ~ que se resume o cumprimento de todos os man- toncialmente, qus os obros ndo podem ter damentos, justificar6 superabundantemente to- por si o Fungdo salvifica qua trodicionolmsn- dos aqueles que a possusm, de modo que elas ts otribuia-sa o slos. de nada mais necessitardo para serjustos e pios. levando ssto tesa ds sxtramos conse- Rssim diz Sdo Paulo em R 10: "Que se creia de m qu&ncios, lutero ndo corrigia opanas os obu- cora<do, isto & o que torna justo e pio". sos e os sxcsssos opostos ds um modo ds entsndsr s ds proticor os "obras",mos otin- gia os pr6prios fundamantos do doutrino cris- 3. So a H,sem nenhuma obra, td, corn todo uma sQrisd s conssqu&nciosda torna justos, livres e salvos gravs irnportdncio. Como sucede entdo que a f& sozinha pos- so tornar-nosjustos e sem nenhuma obra dar- nos tdo superabundante riqueza, enquanto nos sdo prescritos na Escritura tantas leis, manda-1. A alma pode deixar tudo, mentos, obras, estados e comportamentos? mas 1160 a palavra de Deus Rqui & preciso observar corn dilighncia e rater decisivamenteque somente a f& sem nenhuma Nem no c&u nem no terra a a h a tem ou- obra torna justos, livres e salvos, como melhortra coisa, na qua1 viver e ser justa, livre, cristd, ouviremos a seguir. E & preciso saber que todafora do Santo Evangelho, a palavra de Deus a Sagrada Escr~tura divide-se em duos ssp&-pregada por Cristo. Com efeito, ale proprio diz cies de palavras, as quais sdo os mandamentosam Jo 1 1.25: "Eu sou a vida e a ressurrei@o; ou leis de Deus e as garantias ou promessas.quem cr6 em mim, vive eternamente"; da mes- 0 s mandamentos nos ensinam e prescrevemma forma 14.6: "Eu sou o caminho, a verdade mais esp&cies de boas obras, mas estas ndoe a vida". E ainda em Mateus 4.4: "0homem sdo, pelo fato de sersm mandadas, ainda rea-ndo vive apenas de pBo, mas de todas as lizadas. Certamente os mandamentos nos diri-palavras qua saem do boca de Deus". Deve- gem; contudo, ndo nos ajudam; eles nos ensi-mos, portanto, estar convictos de que a alma nam aquilo que se deve fazer, mas ndo nospode deixar qualquer coisa, mas ndo a pala- ddo nenhuma forp para efetiv6-lo. Eles, por-vra de Deus, e que sem a palavra de Deus tanto, sdo ordenados apenas para este fim, quenenhuma coisa a ajuda. Ro contrdrio, quando o homem tenha como neles constatar bpropriatem a palavra de Deus, ela de mais nada ne- incapacidode para o bem e aprenda a perdercessita; encontra nisso apagamento, alimen- a esperan~a si proprio de [...I.to, alegria, paz, luz, intelecto, justip, verda- Ora, estas palavras, como todas as dede, sabedor~a,liberdade e exuberdncia de Deus, sdo santas, verdade~ras, justas, pacifi-todo bem. cas, livres e ricas de todo bem. Por lsso a alma
  • 107. daquele que a elas se at&m com reta f&, une- 1. Apenas o Espirito de Dsus opera tudo,se a Deus tdo totalmente, que todas as virtu- o homsm n60 opera nadades da palavra se tornam tambtm proprias da N6s, corn efeito, afirmamos e sustenta-alma, e assim, mediante a f&, a alma pela pa- mos que Deus, quando opera fora da gracplavra de Deus torna-se santa, justa, veraz, pa- do Espirito, opsra tudo em todos, tarnbhm nosc i f i c ~ livre e rica de todo bem, verdadeira filha , impios. Ele, corno criou sozinho todas as coi-de Deus como d~z Jo6o em 1,12: "Ele con- Sdo sas, tamb&m sozinho as move, as imp& e ar-cadeu poder tornar-se filhos de Deus a todos rasta no movimento de sua onipothncia, queaqueles que crhem em seu nome". elas ndo podem evitar nem mudar, mas qus Tudo ~sso permite compreender facilmente necessariamente.continuam, obedecendo, codapor que a f& tern u poder tdo grande e nenhu- m uma segundo a propria natureza que Ihe foima boa obra pode igua16-la.Nenhuma boa obra dado por Deus: dessa forma, todas as criatu-com efeto & tdo ligada B palavra de Deus como ras, tamb&m as impias, sdo colaboradoras dea f&; nenhuma boa obra pode estar na alma. Deus. E, por outro lado, aqueles sobre os quaismas no alma reinam somsnts a palavra s a f&. Deus age corn Espirito de graga, aquelss queQualh a palavra, assim se torna tambhm a alma ole justificou em seu Reino, sdo igualmente porgragas a ela: assim como o ferro se torna verme- ele impelidos s movidos; e eles, corno suasIho como o fogo, depois da mi60 com ale. Por- novas criaturas, o seguem a corn ele coops-tanto, nos verificamos que o F basto poro um b ram, ou melhor, como diz Paulo, sdo por elecristdo s qua sls ndo tsm necessidods ds ns- conduz~dos.nhumo obro poro ser justo; s se ndo tsm mois Ndo &, por&m, disso que agora devsmosnscsssiclods de nanhumo obro, sntdo sls esM falar. Ndo discutimos corn efsito sobre aquilocsrtomsnte desvinculodo ds todos os mondo- que podemos por efeito da a@o de Deus, masmentos s ds todos os Isis; s se GIG sstd dss- daquilo qu,e nos homens podemos, isto 6 , sevinculodo, b csrtomsnte livrs. Esto C sxotomants nos, criados do nada, podemos, tambbm na-o libsrdods crist8, o F somsnts, o quo1 compor- b quele movimento gsral da onipothncia divina,to n8o qus nos possomos permanacsr ociosos fazer ou tentar alguma coisa para nos prepa-ou Fozsr o ma/, mos que ndo tsnhamos nacess~- rormos para ser nova criatura do espirito. dads ds nenhumo obro poro chegor 2, justifica- R isso deveriamos responder, e n6o diva-gio s 2, bem-avsnturon<o. gar sobre outras coisas. E sobre o ponto em M. lutaro, questdo assim respondsmos: como o homsm, A libardad~ crist6o. do antes de ser criado homem, nada faz ou tenta para se tornar criatura, e, depois que foi feito ou criado, nada faz ou tsnta para psrmanecsr criatura, mas ambas as coisas ocorrem unica- Sobre o servo-arbitrio mente pela vontade da onipotente virtude e bondade de Deus, que nos cria e conserva ssm nenhuma participagdo nossa (por outro lado Deus ndo opera em nos totalmente sem nos, E 0servo-arbitrio, sscrito sm pl6mico m enquanto nos criou e conservoujustamente para dlreta contro 0livre-arbitriods Erosmo de Roffsr- o fim de operar em nos e de fazer-nos cooperar dom, smergem ds modo sspciol os comp- com ale, tanto sa isso acontece fora de seu rei- nsntss pssimistos do pensomento ds lutsro. no, pela sua onipotente agdo universal, como Rqui o relormodor ofirmo, com sfsito, dentro de seu reino pela virtude particular de qua o livre-orbitriopods Fozer olgo openos seu espirito); assim, dizemos qus o homem, an- am rslogdo 2,s at~vidodss noturois, como co- tes de ser renovado em nova criatura do rsino mar, bsbsr, geror, govsrnor, mas para o rss- do Espir~to, nada faz e nada tenta para se pre- to sls pods opsnos pacor. TombCm foro do parar para tal reaova~do para aquele reino, e grog0 ds Dsus, o homem permonacs ssm- e tamb6m depois de seu renascimento nada pre sob o onipot&nc~o Dsus, o quo1 Foz, ds faz, nada tenta para permanecer naquele rei- movs e dsstroi tudo nale sm um curso ne- no, mas uma e outra coisa em nos produzem- cessdrio e inFoIivs1. Oro, o groqo consists se apenas pelo Espir~to, sem a nos? par- qua openos no Cristo crucificodo: portonto, ss ticipagdo nos cria de novo e, depois ds ter-nos tsmos F no Cristo que rsd~miu homens b os assim recriados, nos conserva, como d~z tarn- com ssu songus, dsvemos tombbm rsconha- b&m o apostolo Tiago (1 ,18): Ele de sua von- car qua em coso divsrso o homsm tsr-ss-io tade nos gerou com o verbo de seu poder, para complatomsnte perdido. que f6ssernos as primicias de suas criaturas. (E aqui fala das criaturas renovadas).
  • 108. Primeira parte - O H M M I ~ Me a Renascenqa ~SM~O 0 Espirito, pordm, n6o opera sem nos,pois nos recriou e conservou justamente pa-ra o firn de operar em nos e fazer-nos coope-rar com ele. Assim, mediante nossa coope-ra@o, prega, ajuda os pobres, consola osaflitos. Mas nisso qua1 p a r k cabe ao livre-arbitrio? 0qua Ihe resta sen60 nada? Exata-mente nada. Deus predestinou alguns homens 6 salva@o,2. Ter F em Cristo significo reconhecer L outros i danastio i que o homsm, com o pecado, estava totalmsnte perdido Pode-sa dizer que Colvino Q rnois p a - s~misto sobre o homem do que lutero, po- Aqu~ terminarei este livrinho, disposto, se rem, em certo sentdo, mois otlmisto em re-for necasscirio, a tratar a quest60 mais am- lagdo o Deus.plamente, embora eu pense ter largamente 0 s estudiosos htr tempo ~ndicororn bemsatisfeito todo homem pio, qua queira reco- os diferengos, solientondo qus se o texto-nhecer a verdade sem ter tornado partido. Com bosa emblsmtrtico poro lutero Q Moteus 9,P:efeito, se cremos qua a verdade seja que Deus "0s teus pecodos te sdo psrdoodos", porosabe com preced&ncia tudo e tudo prd-orde- Colv~no Poulo no Carta aos Romanos 8,3 1: Qna a que, portnnto, n6o pode falir nem sofrer 5e Deus estd conosco, quem estord contraobstClculo em sua prescihcia e predestinac60 nos?"e que, por fim, nada pode acontecer a n6o ser Sou livro, Institui@o do religido crist6,por seu querer, corno a propria raz6o deve ad- publicodo em 7 536, teve enorma sucesso emitir, dai deduzimos, nlsso confortados igual- dele forom logo feitos numsrosos edig6es.mente pela raz60, qua n6o pode de fato ha- Mols que umo reconstrugdo doutrinol siste-ver livre-arbitrio nem em homem nem em anjo rnat~co pensomanto cristdo, o Institui<do donem em nenhuma criatura. Pois, se cremos qua pretende sar umo opresantogdo dos textosSatancis is o principe do mundo e que eterna- teologicos corn bosa nos quois Q precis0 en-mente ins~dia combate com todas as for~as e frentar o reformo do Igrejo.o reino de Cristo, de modo a n60 deixar os R possogem que reportornos apresen-homens por ele feitos escravos a n6o ser quan- to o ponto fundomento1 do teolog~o Col-dedo delas seja expulso pela virtude div~na do vlno sobre o predestina@o. Esto 6, poroEspirito, de novo aparece claramente que o Colvino, a eterno decisdo com o qua1 Deus livre-arbitrio n6o pode existir. Igualmente, se deterrninou aquilo que de codo um dos ho-cremos que o pecado original nos corrompeu, mens ole pretendia fozsr. Portonto, ssgun-de modo tal a ponto de opor sua repugn6ncia do Colvmo, Deus ndo crio todos os homensao bem, gravissimo obst6culo tambdm para em umo condigdo de iguol grou, mas uns or-aqueles que sdo impelidos pelo Espirito, d evi- denodos B donogdo, outros poro o viclo eter-d e n t ~ no homem privado de Espirito nada que no. Portonto, o predestlnogdo do homem Q opermanece que possa voltar-se para o bem, firn sagundo o quo1 ele foi criodo. Buscor os mas tudo est6 voltado para o mal. Por f~m, se roz6ss desso decisdo de Deus Q ~mpossivel, os judeus, que tendiam 6 justica com todas as pois o couso 6 suo vontode, e nodo se pode for~as,cairam na injustip, enquanto os pa- pensor corno mois equdnime e rnelhor do que gdos, que tendiam d impiedade, chegaram d suo vontade.justip por graga dlvina e inesperadamente. mais uma vez 6 manifesto, pelas proprias obras e pela experi&ncia,que o homem sem a g r q a n6o pode querer a n6o ser o rnal. Enfim, se 1. A d d @ o e a prsdestina@io cremos que Cristo redimiu os homens com seu operada por Reus sangue, somos for<ados a reconhecer que o 0pacto de g r a p n6o 6 pregado a todos homem estava intsiramente perdido; do con- de modo igual, e mesmo onde se pr&ga ele tr6r10,devemos supor que Cristo d supdrfluo n6o d receb~do todos do mesmo modo; tal por ou redentor do parte mais v ~ de nos, o que l diversidade revela o admir6vel segredo do pla- seria blasfemo e sacrilego. no de Deus: indubitavelmente esta diversida- M . lutero, de deriva do fato de que ass~m agrada. Se Ihe 0servo-orbitr~o d evidente que por vontade de Deus a salva-
  • 109. 560 & oferecida a uns enquanto outros dela sdo mos, 6 melhor diferir a solugdo de cada umaexcluidos, disso nascem grandas e graves ques- delas no ordem em que se apresentar.tbas que nd0 se podem resolver a ndo ser en- for ora desejo fazer compreender a to-sinando aos crentes o significado da elei@o s dos que nbo devemos buscar as coisas que Deusdo predestinasdo de Deus. quis esconder, e ndo devemos descurar as que Muitos consideram a questdo bastante ele manifestou, por medo de qua, de um lado,tortuosa, pois ndo admitem que Deus predestine nos condene por demas~ada curiosidads e, doalguns 6 salvasdo e outros b morte. Mas a outro, por ingrotiddo. 6 otima a afirmasdo detrata<dodo problema demonstrar6 que sua falta santo Rgostinho, que podemos seguir a Escri-de bom senso e de dlscernlmento os pbe em tura com seguransa pois ela condescsnde comsituasdo inextric6vel. Rl&mdisso, na obscurida- nossa fraqueza, como faz a mde com seu behi:de que os espanta, veremos quanto tal ensi- quando quer ensin6-lo a a n d ~ r . ~namento ndo so seja irtil, mas tambhm docs e Quanto 6queles que sdo tdo timidos ousaboroso pelos frutos que dele derivam. circunspectos que quereriam abolir inteiramen- te a predestina<do para ndo perturbar as al- mas d&beis, sob qua1 veste, vos peso, masca-2. As dificuldadss que a doutrina rardo seu orgulho, visto que indiretamente da predestina~80 Ievanta acusam Deus de estulta Isviandads, como se Reconheso que os maus e os blasfema- ndo tivesse previsto o perigo a0 qua1 tais inso-dores logo encontram, no argumento da predes- lentes pensam remediar com sabedoria?tinasdo, do que acusar, sofismar, ladror ou ca- Portanto, quem torna odiosa a doutrina dasoar. Contudo, se tem&ssemos sua arrogdncia, predest~nasdo, denigra ou abertamente fala ma1d~veriamos calar os pontos prlncipais de nos- de Deus, como se inadvertidamente tivesseso f&, e ndo um dos que est6 isento da conta- deixado escapar aquilo que so pode prejudi-minasdo de suas blasfi:mias. Urn espirito rebel- car a Igreja.de perseverar6 em sua insol&ncia ouvindo dizerque em uma so ess&ncia de Deus h6 tr&s pes- 3. C m a prrdrstina@o Deus osoas, ou entdo que Deus previu, criando o ho- estabrlrcr aquilomem, aquilo que Ihe devia acontecer. Da mes- qus qusr fazer dr cada homemma forma, esses maus ndo conterdo seu riso,quando se lhes disser que o mundo foi criado Quem quiser considerar-se homem temen-apenas h6 clnco mil anos, e perguntardo como te a Deus, n60 ousar6 negar a predestinqbo,o poder de Deus permaneceu assim tdo lon- por meio do qua1 Deus atribuiu a uns a salva-gomente ocioso. 560 e a outros a condenqdo sterna; muitos, Deveriamos talvez, para evitar semelhan- ao contrdrio, a envolvem em variadas cavila-tes sacril&gios, deixar de falar do divindade <bas,em particular aqueles que a querem fun-de Cristo e do Espirito Santo? Deveriamos calar damsntar sobre sua presci&ncia.a respeito da criasdo do mundo? Ao contr6rio. Digamos que ele previ: todas as colsas ea verdade de Deus 6 tdo poderosa, sobre es- tambbm as disp6e; mas dizer que Deus esco-tes e sobre outros pontos, que ndo tame a ma- Ihe ou rejeita enquanto previ: isto ou aqudo,ledic&ncia dos iniquos. Tamb&m santo Agosti- significa confundir tudo. Quando atribuimos umanho o indica muito claramente no livrinho que presci&ncia a Deus, queremos dizer que todasintitulou: 0dom da persavaronp Com efeito, as coisas sempre foram e permanecem eterna-vemos que os falsos apostolos, difamando e mente compreendidas em seu olhar, de modocasoando do ensinamento de sdo Paulo, ndo que em seu conhecimento nada 6 futuro ouconseguiram obter que ele disso se envergo- passado, mas toda coisa Ihe & presente, e denhasse. tal forma presente que ndo a imagina como por 0 fato de que alguns pensem que toda meio de alguma aparhcia, assim como as coi-esta discussdo & perigosa tambbm entre os sas que temos no memoria como que escorremcrentes, enquanto 6 contr6ria bs exortasbes, diante de nossos olhos por meio da imagina-abala a f&, perturba os cora<bes e os abate, & $60, mas as vi: e olha em sua verdade,.comouma afirmqdo frivola. Santo Rgostinho ndo es- se estivessem diante de seu rosto. Rfirmamosconde que casoavam dele por estes mesmos que tal presci&ncia se estende sobre o rnundomotivos, enquanto pregava demasiado livre- inteiro e sobre todas as criaturas.mente a predestlna<do,mas ale refutou f6cil esuficientementeessas objq6es. Quanto a nos,uma vez que se objetam muitas e variadas Cf Rgost~nho. dono perseverontm XV-XX Deabsurdidades contra a doutrina qua ensinare- "f. Rgost~nho. Genes, od IltteromV. 3-6. De
  • 110. Prirneira parte - O tiumanismo e a Renascenca Definimos predestinasdo como o decreto <do: "€laescolheu para nos a nossa heranp, aeterno de Deus, por meio do qua1 estabeleceu gloria de Jaco, por ele am ad^".^aquilo que queria fazer de cada homem. Com Com e f ~ i t oatribuem a este amor gratuito ,efeito, n8o os cria todos na mesma condi$do, toda a gloria de que Deus os havia dotado,mas ordena uns 6 vida eterna, outros a eterna ndo so porque sabiam bem qua esta ndo foracondenaq30. Assim, com base no fim para o providenciadaa ales por algum mbrito, mas quequa1 o homem foi criado, dizemos qua 6 pre- nem o santo patriarca Jaco tivera em si tal po-destinado a vida ou a morte. der de modo a conquistar, para si e para seus sucessores, tdo aka prerrogativa. E, para des-4. Testemunhos deprsendidos truir e abater com maior vigor todo orgulho, re- dos tsxtos biblicos cords freqijentemente aos judeus que de fato ndo mereceram a honra a eles Feita por Deus, Ora, Deus deu testemunho de sua predes- visto qua sdo um povo cabep dura e r e b e l d ~ . ~tinasdo ndo so em cada pessoa, mas em toda a Por vezes os profetas se referem a elei@o tam-descend6ncia de AbraBo, que p6s corno exem- bBm para fazer com qua os hebreus se enver-plo do fato de que c a b a ele ordenar conforma gonhem de seu oprobno, porque b por sua in-seu agrado qua1 deve ser a condi@o de cada gratiddo que miseravelmante dela decairam.povo. "Quando o Soberano dividia as nq6es". E todo caso, aqueles que querem ligar mdiz Moisbs, "e seprava os filhos de Addo, es- a elei<dode Deus 6 dignidade dos homens oucolheu como sua por~do heransa o povo de de aos mQritosde suas obras, respondam a isto: AIsrc~el".~elei~do evidente: na pessoa de Q quando v&em que uma so estirpe 6 preferida aAbrado, como em um tronco completamente scxo todo o resto do mundo, e ouvem da boca dee motto, um povo 6 escolhido e separado dos Deus que ele ndo foi movido por nenhum moti-outros, que sdo rejeitados. Ndo se revela a cau- vo a ser mais inclinado para urn rebanho pe-sa disso, mas MoisQsacaba com todo motivo queno e desprezado, depois mau e parverso.de g16ria. indicando aos sucessores que toda do que para os outros, eles o acusardo porquea dignidade deles consiste no amor gratuito de Ihe agradou estabelecer tal exemplo de suaDeus. Com efeito, el@ esta explica@ode sua d6 misericordia?Com todos os murmljrios e oposi-redenq3o: Deus amou seus pais e escolheu sua @es dales, n60 impedirdo com certeza suadsscend6ncia, depois dele^.^ obra; e jogando seu despeito contra o cbu como Fala de modo mais explicito em outra pos- pedras, ndo atingirdo nem FerirZlo de modo al-sagem, dizendo: "Ndo & porque &reis mais nu- gum sua justi<a, mas tudo recair6 sobre suamerosos do que outros povos que Deus se cabep.comprouve em vos para vos escolhar, mas por- J. Calvino,que vos a m ~ u " . ~ odvert6ncia ele a repete Esta do Inst~tu~@o religiBo crist6.v6rias vezes: "Cis, o c&u e a terra pertencem aoSenhor, ao teu Deus; todavia, ele amou teuspais, se comprouve com eles e te escolheu por-que descendes dele^".^ E em outro lugar orde- 3DeuteronBm~o 3 . 8 ~ ~ . 2na-lhesmanter-sepuros em sqntidade, pois sdo 41dern4,31escolhidos como povo que the pertence de 51dem 7.3. Oldem 10.14.mod0 particular. E outra passagem ainda, in- m Idem 23.5.dica que Deus os protqe porque os ama7Tam- 8Salmo 47.5.b&m os crentes o reconhecem com um so cora- gDeuteronBm~o9.6.
  • 111. j/laquiaveI - I. N i c o I a ~ Com Maquiavel (1469-1527) a pesquisa politica se destaca do pensamento especulativo, etico e religioso, assumindo como cinon metodologico a espe- cificidade do proprio objeto, o qua1 deve ser estudado autonomamente, sem ser condicionado por principios validos em outros campos. Para a posi@o maquia- veliana, centrada sobre o principio da cido entre "ser" e "dever ser", sSo impor- tantes os seguintes aspectos: a) o realism0politico, baseado sobre o principio de que e precis0 permanecer na verdade efetiva da coisa, sem se perder na busca de como a coisa "deveria" ser; b) a virtude do principe; c) a relag30 entre "virtude" (liberdade) e "sorte": a "virtu- Aspectos de" e em geral, para Maquiavel, "habilidade natural", e a "virtu- principais dewpolitica do principe ti um complexo de forsa, astucia e capa- do pensamento cidade de dominar a situasiio: esta virtude sabe contrapor-se a de Maquiavel sorte, mesmo que, no melhor dos casos, pela metade as coisas -r § 1-5 humanas dependem quase sempre da sorte; d ) a volta aos principios da republica romana, fundada sobre a liberdade e sobre os bons costumes: e este o ideal politico de Maquiavel, enquanto o principe por ele descrito e apenas uma necessidade do momento historico. o conceit0 de autonomia que ilustramos an- teriormente. A mudanqa brusca de direq5o que en- Com Nicolau Maquiavel(1469-1527) contramos nas reflexoes de Maquiavel, eminicia-se nova ipoca do pensamento politi- comparaqao com os humanistas anterio-co: com efeito, a investigaqiio politica, com res, certamente se explica em larga medidaele, tende a afastar-se do pensamento espe- pela nova realidade politica que se criaraculativo, Ctico e religioso, assumindo como em Floren~a na Italia, mas tambim pres- eciinon metodologico o principio da especifi- supde grande crise dos valores morais quecidade do seu proprio objeto, que deve ser comeqava a grassar. Ela n50 apenas de-estudado (podemos dizer com uma expres- monstrava a divisso entre "ser" (as coisass5o telesiana) iuxta propria principia, ou como elas efetivamente s5o) e "dever ser"seja, de mod0 authnomo, sem ser condicio- (as coisas como deveriam ser para se con-nado por principios validos em outros iim- formarem aos valores morais), mas tam-bitos, mas que s6 indebitamente poderiam bim elevava essa divisio a principio e a co-ser impostos h investigaqiio politica. A po- locava como base da nova vis5o dos fatossi@o de Maquiavel pode tambCm ser resu- politicos.mida com a formula "a politica para a poli- 0 s pontos sobre os quais devemos fi-tics", que expressa sintCtica e plasticamente xar a atenq5o siio os seguintes:
  • 112. 94 Primeira parte - 0t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c a a ) o realismo politico, ao qual esta li- temido e a tomar as medidas necessariasgada forte vertente do pessimismo antropo- para tornar-se temivel. Claro, o ideal paralogico; um principe seria o de ser ao mesmo tempo b) o novo conceito de "virtude" do prin- amado e temido. Mas essas duas coisas s i ocipe, que deve governar eficazmente o Esta- muito dificeis de serem conciliadas e, as-do e deve saber resistir a "sorte"; sim, o principe deve fazer a escolha mais c) a relaqio diniimica entre liberdade e funcional para o govern0 eficaz do Estado.sorte; e, por fim, d ) a tematica do "retorno aos princi-pios", como condiqgo de regenera~50 re- enovaqiio da vida politica. fi "virtude" do principe 0 s dotes do principe, que emergem muito bem desse quadro, sHo chamados por Maquiavel de "virtudes". Obviamen- N o que se refere ao realismo politico, te, a "virtude" politica de Maquiavel nadai basico o capitulo XV de 0 Principe (escri- tem a ver com a "virtude" em sentido cris-to em 1513, mas publicado somente em 1531, t5o. Ele usa o termo retomado da antigacinco anos apos a morte do autor), que dis- acepqio grega de arete, ou seja, a virtudecute o principio de que 6 necessario se ater como habilidade entendida naturalmen-A "verdade efetiva das coisas", sern se per- te. Alias, trata-se da arete grega como erader na busca de como as coisas "deveriam" concebida antes da espiritualizaqio queser; trata-se, em suma, da separaq5o entre Socrates, Plat50 e Aristoteles nela reali-"ser" e "dever ser". Maquiavel, portanto, zaram, transformando-a em "razHo". Emchega i s seguintes conclus6es: "[ ...I ele [o particular, ela recorda o conceito de are-principe] esta longe tanto de como se vive e te cultivado especialmente por alguns so-de como se deveria viver, pois aquele que fistas.deixa aquilo que se faz por aquilo que se Nos humanistas, esse conceito apa-deveria fazer, aprende antes a trabalhar em rece varias vezes, mas Maquiavel o levapro1 da propria ruina do que de sua conser- as extremas conseqiitncias, entendendo avaqgo, porque um homem, que queira em "virtude" como forqa, vontade, habilida-todo lugar parecer bom, atrai ruina entre de, astucia, capacidade de dominar a si-tantos que nHo s5o bons. Dai e necessario tua@o.que urn principe, desejoso de conservar-se,aprenda os meios de poder nrZo ser bom e afazer ou niio uso disso, conforme as neces-sidades" . Liberdade e "sorte" Maquiavel chega a t i a dizer que o so-berano pode se encontrar em situaqHo de terde a ~ l i c a r mitodos extremamente cruiis edesumanos. Quando s5o necessaries remi- E essa virtude sabe se contrapor a "sor-dios extremos para males extremos, ele deve ten. Assim, com Maquiavel, retorna o temaadotar tais remCdios extrernos e, de qual- do contraste entre "liberdade" e "sorte", tHoquer forma, evitar o meio-termo, que C o car0 aos humanistas. Muitos consideramcaminho do cornpromisso, que de nada ser- que o destino seja a raz5o dos acontecimen-ve; ao contrario, C sempre e somente de ex- tos e que, portanto, i inutil se esforqar paratremo dano. impor-lhe uma barreira, sendo melhor dei- Essas consideraq6es est5o ligadas a xar-se guiar por ele.uma visgo pessimista do homem. Segundo Maquiavel confessa ter sentido a ten-Maquiavel, em si mesmo, o homem n5o 6 taqso de acomodar-se a essa opini56.bom nem mau, mas, de fato, tende a ser mau. Sua soluqiio, porim, i a seguinte: meta-Conseqiientemente, o politico n5o deve con- de das coisas humanas dependem da sorte, afiar no aspecto positivo do homem, e sim outra metade da virtude e da liberdade. Eleconstatar seu aspecto negativo e agir em con- escreve: "NHo por acaso, mas para que o nos-seqiihcia disso. Assim, n5o hesitar5 em ser so livre-arbitrio n5o desapareqa, julgo poder
  • 113. ser verdade que a sorte seja arbitra de meta- 0" r e t o r n o aos principios"de de nossas aqoes, mas que, tambCm, eladeixe a n6s governar a outra metade, ouquase." 0 ideal politico de Maquiavel, porCm, E com uma imagem que se tornou nZo C o principe por ele descrito, que C mui-muito famosa (tipico reflex0 da mentali- to mais uma necessidade do momento his-dade da Cpoca), depois de mencionar po- t o r i c ~mas sim o da republica romana, ba- ,derosos exemplos de forqa e virtude que seada na liberdade e nos bons costumes, e,barraram o curso dos acontecimentos, portanto, um "retorno aos principios".Maquiavel escreve: "[ ...I porque a sorte C Descrevendo essa republica, ele pare-mulher. E, querendo mante-la sob domi- ce flexionar em novo sentido o seu proprionio, C necessirio bater-lhe e espanci-la. 0 conceit0 de "virtude", particularmenteque se v C que ela deixa-se mais vencer E quando discute a antiga quest50 de se opor estes (= os temperamentos impetuo- povo romano foi mais favorecido pela sor-sos) do que por aqueles que procedem fria- te do que pela virtude na conquista do seumente. E sempre, como mulher, C amiga impCrio. EntZo responde, sem sombra dedos jovens, porque s5o menos,respeitosos, duvida, pela demonstraqZo de que "maismais ferozes e a dominam com mais au- p6de a virtude d o que a sorte para que elesdicia. " conquistassem aquele imperio".
  • 114. - 11. G ~ i c c i a r d ie Botero -. ~i Uma ordem de ideias analoga a de Maquiavel sobre a natureza do homem, sobre a virtude, a sorte e a vida politica, encontra-se em Francisco Guicciardini (1483-1540), o qual, porem, mais do que na dimensao historica, Guicciardini e sensivel a esfera do "particular", dos interesses do individuo singular. Botero De Maquiavel foi tambem extraida a no@o de "raz%ode e a "razdo Estado", a respeito da qua1 e particularmente importante a obra de Estado" de Joao Botero (1533 aproximadamente - 1617) intitulada Da +§ 7 razao de Estado, na qua1 esta viva a exighcia de valores morais e religiosos. A natureza do howem, A doutrina de Maquiavel foi resumida por ele na formula "0s fins justificam os a sorte e a vida politics e m meios", formula que, se n i o faz justiqa i efe- Guicciardini e Botero tiva estatura do pensamento do autor de 0 Principe, no entanto explicita uma das li@es que a Cpoca moderna extraiu desta obra. Uma ordem de idCias analoga 2 de Ma- TambCm de Maquiavel deriva a noqsoquiavel sobre a natureza do homem, a virtu- de "razio de Estado".de, a sorte e a vida politica pode ser encontra- Uma rica literatura, constituida de obrasda em Francisco Guicciardini (1483-1540), de virios gheros e variada consist&ncia, flo-particularmente em suas Recordagdes poli- resceu em torno desses aspectos do pensa-ticas e civis (concluidas em 1530).Todavia, mento de Maquiavel, destacando-se a obramais que h dimensso historica, Guicciardini de Jose Botero (aproximadamente 1533-parece sensivel 2 dimensio do "particular". 1617)intitulada Sobre a raziio de Estado, que Dois de seus pensamentos ficaram mui- visa a temperar o cru realism0 maquiavClicoto conhecidos. mediante efetiva referencia a incidhcia dos Em um deles expressa trcs desejos: valores morais e religiosos. 1)viver em uma republica bem ordenada; 2) ver a Italia liberta dos barbaros; 3) ver o mundo liberto da tirania dospadres. No outro, com poucas pinceladas, traqaum esplendidoauto-retrato espiritual: "Eu nsosei a quem desgostem mais que a mim a ambi-qio, a avareza e a indokncia dos padres: por-que cada um desses vicios, em si, ja C odioso;porque cada um e todos juntos pouco con-vem a quem faz profissso de vida ligada a Deus;porque, ainda, sgo vicios tso contraries quenso podem estar juntos sen50 em um sujeitomuito estranho. Nso obstante, o contato quetive com muitos pontifices levou-me, por mi-nha conta particular, a amar a sua grandeza.Se n i o fosse esse respeito, teria amado Mar-tinho Lutero como a mim mesmo, d o paralibertar-me das leis impostas pela religiiio cris-tii, no modo como d interpretada e comumenteentendida, mas para ver essa caterva de cele-rados reduzida aos devidos temzos, isto b, paraque ficasse sem vicios ou sem autoridade. "
  • 115. A obra que deu fama imortal ao ingliis Tomds Morus (1478-1535) 6 Utopia, titulo aue indica uma dimenstio do e s ~ i r i t o humano aue, Dor meio da representa- $20 mais ou menosimagindria daguilo que n3o e, representa A razso e as leis aquilo 9ue deveria ser ou como o homem gostaria que a realida- de natureza de foSSe. na base 0 s principios basilares que re de "Utopia" de Tomas Morus pies: basta seguir a sB razBo e + 5 1-2 res, que esttio em perfeita ha tar os males que afligem a socr miragem"; o rio de Utopia chama-se Anidro (do grego anydros = privado de agua), ou seja, um rio que niio C rio de agua, mas rio sem igua; ja o principe chama-se Ademo (formadopor um alfa privativo e demos, que Tomas Morus nasceu em Londres em significa "povo"), que significa o chefe que1478. Foi amigo e discipulo de Erasmo e niio tem povo. Trata-se, evidentemente, dehumanista de estilo elegante. Participou ati- jogos lingiiisticos que visam a reforgar a ten-vamente da vida politica, exercendo altos siio entre o real e o irreal e, portanto, o ideal,cargos. Firme em sua fC catolica, recusou-se do qua1 a Utopia 6 expressiio.a reconhecer Henrique VIII como chefe daInreia. sendo por isso condenado a morte em
  • 116. 98 Primeira parte - O tlumanismo e a Renasrenca A fonte em que Morus bebeu foi, na- 0 s habitantes de Utopia siio pacifistas,turalmente, Platiio, com amplas infiltraq6es seguem prazeres sadios, admitem cultos di-de doutrinas estoicas, tomistas e erasmianas. ferentes, honram a Deus de diferentes mo-Na contraluz esti a Inglaterra, com sua his- dos e sabem se compreender e se aceitar re-toria, suas tradiq6es e seus dramas sociais ciprocamente nessas diversidades.de entiio (a reestruturaqiio do sistema agri- Por fim, os habitantes de Utopia elimi-cola, que privava de terra e trabalho grande nam, com a aboliqiio do dinheiro e de seuquantidade de camponeses; as lutas religio- uso, todas as calamidades que a avidez dosas e a intolerincia; a insaciavel sede de ri- mesmo produz entre os homens. E em umaquezas). das piginas conclusivas Morus p6e em pri- meiro plano este belissimo pensamento em forma de paradoxo: seria tiio mais facil pro- curar-se o de que viver, caso niio o impedis- se justamente a busca do dinheiro, que nas morais e sociais intengoes de quem o inventou teria devido servir-nos precisamente para o fim de em que se inspivam agilizar a vida, quando na realidade ocorre o habitantes de Utopia s exatamente o contrario. 0 s principios basilares que regem o re-lato (que C imaginado como narrado porRafael Itlodeo, que, tendo participado de umadas viagens de Amtrico Vespucio, teria vistoa ilha de Utopia) siio muito simples. Morus TOHIOAM AAE M K * NGLI Eestava profundamente convencido (influen-ciado nisso pelo otimismo humanista) de quebastaria seguir a sii raziio e as mais elemen-tares leis da natureza, que est5o em perfeitaharmonia com a raZ50, para acabar com osmales que afligem a sociedade. Utopia niio apresentava urn programasocial a ser realizado, e sim principios desti-nados a terem funqiio normativa que, comhabeis jogos de alusoes, apresentavam osmales da Cpoca e indicavam os critCrios comos quais deveriam ser curados. AlCm disso, em Utopia todos os cida-diios siio iguais entre si. Desaparecem as di-ferenqas de renda, desaparecendo entiio asdiferengas de status social. E mais: os habi-tantes de Utopia se substituem de mod0equilibrado nos trabalhos da agricultura edo artesanato, de mod0 que niio renasqam,em virtude da divisiio do trabalho, tambCmas divis6es sociais. 0 trabalho n5o C massacrante e niiodura toda a jornada (como durava naquelaCpoca), e sim seis horas diirias, para deixar dl S Z N Y I s(~,yliir ~ 1 ~ 1 1 c L I S leis tla tl~I/rnrc,iii ~ ~ Z 11 0espago ao lazer e a outras atividades. C ~ I I ( > Em Utopia tambCm existem sacerdo-tes dedicados ao culto e um lugar especial C /ILULI 0 . ~ / i t r ~ t s os t t Y o s o IS^, irchiicvz i u l i o ~ ~ I ~ C C I C ~ I I ZC, S L L . c~lirrz11zi7r rt~irles C I C 1f71gcr11 ~ o ~ ~ i c ~ d i ~ i l ( ~ . Igarantido aos "literatos", ou seja, iqueles t~l2dO l h O / ~ d OC / ~ P ~ ~ J C ; ~ ~ , ~ 0que, nascendo com dotes e inclinaq6es es- c-i~r~c-clLznlr~r I J I ~ L J ; Q L I C LJI~ , ~ ) r o d u z ir L Ipeciais, pretendem dedicar-se ao estudo. rrrtrc os / I ( I I ~ Z L ~ I I S .
  • 117. 99 Capitulo sexto - Rehasce~~a e a Politica --- .- IV. Sean Bodin - - = . , a : e a soberania absoluta do Cstado Em seus Seis livros sobre a Republica, Jean Bodin (1 529130-1596) sustenta que o verdadeiro fundamento do Estado e a soberania, que mantem unidos os vdrios membros sociais, ligando-os como que em um so corpo. Uma soberania forte e absoluta se obtem instaurando a US- N~ ., de Bodin b tiqa e fazendo apelo a razao. 0 absolutismo tem por isso limites a soberania objetivos precisos nas normas eticas, nas leis de natureza e nas como leis divinas: a soberania que nao respeitasse estas leis seria uma fundamento tirania. do Estado lmportante e tambem a justificaqio de Bodin da tolerdncia 4 5 1 religiosa: uma vez que existe um fundamento natural que e co- mum a todas as religiGes, seria entao possivel um acordo religioso geral, mesmo sem sacrificar as diferenqas proprias das religi8es positivas. duos um unico corpo perfeito, que C preci- samente o Estado". Por "soberania" Bodin entende poder absoluto e perpktuo, proprio de todo tip0 de Estado. Tal soberania se exerce sobretudo no dar leis aos suditos sem o seu consentimento. Distante tanto dos excessos do realis- Como j i dissemos, o absolutismo demo de Maquiavel como do utopismo de Mo- Bodin tem limites objetivos precisos nasrus, surgiu tambCm Jean Bodin (152911530- normas Cticas (a justiga), nas leis da nature-1596),corn seus Seis livros sobre a Republica. za e nas leis divinas - e esses limites consti- Para existir o Estado, C precis0 uma tuem tambCm sua forqa. A soberania queforte soberania, que mantenha unidos os n i o respeitasse essas leis n i o seria sobera-virios membros sociais, ligando-os como em nia, e sim tirania.um s6 corpo. Mas essa forte soberania n i o TambCm se destaca o escrito de Bodinse obtim com os mCtodos recomendados por intitulado Colloquium heptaplomeres ("co-Maquiavel, que pecam por imoralismo e por loquio entre sete pessoas"), que tern por tema eateismo, e sim instaurando a justi~a recor- a tolerincia religiosa e C imaginado desen-rendo i razio. i volver-se em Veneza entre sete seguidores de Eis a cClebre definiqio de Estado dada religioes diferentes: 1) um catolico, 2) umpor Bodin: "Por Estado se entende o gover- seguidor de Lutero, 3) um seguidor de Cal-no justo, que se exerce com poder soberano vino, 4) um judeu, 5) um maometano, 6) umsobre diversas familias e em tudo aquilo que pagio e 7) um defensor da religiio natural.elas tCm em comum entre sin; "[ ...I o Esta- A tese da obra C a de que (como sus-do ja n i o seri tal sem aquele poder sobera- tentara o humanismo florentino) existe umno que mantCm unidos todos os membros e fundamento natural que 6 comum a todaspartes dele, fazendo de todas as familias e as religioes. Com essa base comum, seriade todos os circulos um s6 corpo. [...I Em possivel um acordo religioso geral, sem sa-suma, a soberania e o verdadeiro fundamen- crificar as diferengas (ou seja, aquele plus)to, o ponto cardeal sobre o qual se apdia pr6prias das religioes positivas.toda a estrutura do Estado e do qual depen- Havendo, portanto, esse f u n d h e n t odem todas as magistraturas, leis e normas. natural implicit0 nas diferentes religioes,Ela C o unico lago e o unico vinculo que faz aquilo que as une revela-se mais forte dode familias, corporagGes, colegiados e indivi- que aquilo que as separa.
  • 118. IV. +Iugo Grotius ea fuodac6o do jusnaturalismo * 0 holandCs Hugo Grotius (1583-1645), com o escrito De jure belli acpacis (1625), p6e as solidas bases do jusnaturalismo, isto $ da teoria do direito natural. 0 direito natural, que regula a ccmviv&ncia humana, funda-se sobre a razao e sobre a nature- za, que coincidem entre si: o direito natural espelha portanto a racionalidade, que 4 o prbprio critkrio corn o qua1 Deus criou o mundo. 1,, Gvoti~s 0 direito internacional baseia-se na1 identidade de natureza entre os homens. e a teoria do direito ~atMval Portanto, os tratados internacionais t6m valor mesmo quando estipulados por ho- Entre os ultimos lustros do Quinhentos mens de confissiies diferentes, ja que o fatoe as primeiras dCcadas do Seiscentos formou- de pertencer a fCs diversas n i o modifica a natureza humana.se e se consolidou a teoria do direito natural, 0 objetivo da puniqio para as infraqoespor obra do italiano AlbCrico Gentili (1552-1608) no escrito De iure belli (1588)e, sobre- aos direitos deve ser corretivo: n i o se pune quem errou porque errou, mas para que n i otudo, do holandcs Hugo Grotius (Huigde Groot, erre mais (no futuro). E a puniqio deve ser,1583-1645) no escrito De jure belli ac pacis ao mesmo tempo, proporcional tanto inatu-(1625, reeditado com ampliagties em 1646). reza do err0 como B convenihcia e iutilida- Ainda se podem sentir as raizes huma- de que se pretende tirar da propria puniqio.nistas de Grotius, mas ele ja esti encami-nhado na estrada que levari ao modern0racionalismo, ainda que so a tenha percor-rid0 em parte. 0 s fundamentos da convivhcia doshomens s i o a raziio e a natureza, que coin-cidem entre si. 0 "direito natural", que re-gula a convivtncia humana, possui esse fun-damento racional-natural. Todavia, notemos a consisthcia onto-logica que Grocio da ao direito natural: estese revela t i o estivel e alicerqado que o pro-prio Deus n i o poderia muda-lo. Isso signi-fica que o direito natural reflete a raciona-lidade, que C o proprio critirio com que Deuscriou o mundo e que, como tal, Deus n i opoderia alterar, a n i o ser se contradizendo,o que C impensavel. Diferente d o direito natural C o "di-reito civil", que depende das decisiies doshomens, e que C promulgado pelo podercivil. Este tem como objetivo a utilidade eC sustentado pel0 consentimento dos ci-dadios. A vida, a dignidade da pessoa e a pro-priedade pertencem ao iimbito dos direitosnaturais.
  • 119. 101 ,(d Capitdo sexto - A Renascenqa e 4 Politics rendo sobre as que sdo verdadairas, digo que todos os homens, quando se Fala disso, e prin- cipalmente os principes, para serem postos rnais altos, sbo dotados de algumas destas quali- dades que lhes acarretam casoada ou elogio. Tanto isto i; verdade, que urn & considerado liberal, outro misero (usando um termo toscano, A necessidade porque ovoro em nossa lingua & ainda aquele de "ir diretarnante que por ropino deseja ter, misero charnomos 6 verdade detivo da coisa" aquele que se abstkm dernasiado de usar o que & seu); urn 6 considerado doador, outro rapaz; um cruel, outro piedoso; um desleal, ou- 0trecho d tirodo do cop. XVdo Princi- tro fiel; um efeminado e pusil8nime, outro feroz pe (YI respeito das coisos pelos quo~s os e animoso; um humano, outro soberbo: um las- homens, e espsciolmsnte os Principes, sdo civo, outro casto; um integro, outro astuto; um slogiodos ou vituperodos>. severo, outro condescendente; um grave, outro Com este copitulo comego o p o r k mois leviano; um religioso, outro incr&dulo, e assim mteressonte e originol do trotodo, no quo1 por diante. E sei que coda um confessarc5 que Moquiovel indico os quolidodes, osvirtudes, seria coisa laudabilissima encontrar um princi- que sdo necess6rios o um princlpe poro de- pe que tivesse todas as qualidades acima, as senvolver suo obro de mod0 eficisnte. qua sbo consideradas boas: todavia, porque Notavel, e justomente Fomosa, d o de- n6o se podem tar, nem inteiramente observar, clorag6o moquioveliono do princ@ioreolisto pelas condiq3es humanas que ndo o permitem, ssgundo o quo1 tonto em politico como no Ihe k necessdrio ser tdo prudente, que saiba pansomanto politico d precis0 ir diretomente fugir da inf6mia das que Ihe ameo<amo esta- d verdade efetiva do coiso, ssm perder-ss do, e das que Ihe impedem pracaver-se, se pos- nos fontosios vds de filosofos e morolistos; sivel; contudo, n60 podendo, & possivel com o o@stivo Bfetivo ", em particulor, d criagdo menos respeito deixar passar. E tambkm nbo de Moquiovel e, como diz Tomoseo, slgnifi- tema de incorrer na fama dos vicios sem os quais co "mgis do que real; isto 6, o verdode, aldm ele dificilmente possa salvor o estado; porque, de em si, tombdm em seus eFeitos". se considerarmos bem tudo, poderc5 encontror alguma coisa que parecer6 virtude, e seguln- do-a seria sua ruina, e alguma outra que pare- Resta agora ver quais devam ser os mo- cerc5 vicio, e seguindo-a conseguir6 sua segu-dos e governos de um principe com suditos ou ranco e bem-estar.com os amigos. E, corno sei que muitos escre- N. Maquiavsl.veram sobre isso, duvido, escrevando ainda eu, 0principonbo ser tido como presunsoso, partindo, princi-palmente ao d~sputar esta matkria, das ordensdos outros. Contudo, como & meu intento es-crevar coisa util para quem a entende, pare-ceu-me mais conveniente ir direto 6 verdade A sorte i 6rbitraefetiva do coisa, e ndo tanto 6 imag~na@o dela. da metade de nossas agksE muitos se imaginarorn republicas e principa-dos que jamais foram vistos ou conhecidos comoexistentes de fato; porque ele est6 tbo sepa- No cop. XXV do Principe ("0 quonto orado do como se vive, e de como se deveria destino pode nos coisos humonas, s de queviver, que aquele que deixa aquilo que se faz modo se lhes deve r~sistir") obordo-se umpor aquilo que se deveria fazer, aprende mais temo muto coro oos Humonlstos, o do relo-sua ruina do que sua preserva~60: porque um gdo antre "liberdode" e sorte", temo cujahornam, que queira fazer em todos os lugares solydo tem um popel central tombdm noprofissdo de bom, atral ruinas entre tantos que pensomento politico de Moquiovel. Ppro ondo sdo bons. Dai ser necess6rio a urn princi- Secretdrio florentino os ocontecimentos his-pe, querendo manta-se, aprender a poder ser toricos sdo determlnodos metode por umondo bom, e us6-lo ou nbo conforme a necessi- Forgo que tronscende o homem (e qus GIGdade. designo com o termo sort@> matode por e Deixando, portanto, para trc5s as coisas vontode e obro do homam.imaginadas a respeito de urn principe, e discor-
  • 120. E ndo me 6 desconhecido como muitos ti- tem 6 sua frente, isto 6 , glorias e riquezas, pro-veram e t&m a opinido de que as coisas do cederem ds modo diverso: um com respeito,mundo sejam de to1 rnodo governadas pela outro corn impeto; um pela viohcia, outro comsorte e por Deus, que os homens com sua pru- arte; um com paci&ncia,outro com o seu contrci-disncia ndo as possam corrigir; ao contrbrio, ndo rio: e coda um com estes diversos modos o podet&m nenhum rem&dio.E, por isso, poderiam jul- alcanqx. V&-se ainda duos (coisas) respecti-gar qua ndo devessem suar muito nas coisas, vas: um a l c a n p seu designio, o outro ndo; emas deixar-se governar pela sorte. Esta opi- do mesma forma duas (coisas) prosperaremnido & mais crida em nossos tempos pela gran- corn dois diversos e ~ t u d o sum com respeito e ,~de varia(80 das coisas que foram vistas e se o outro com impeto: o que ndo prov&m de ou-v&em todo dia, fora de qualquer conjectura hu- tra coisa a ndo ser da qualidads dos temposmana. Pensando nisso alguma vez, estou de que se conformam ou ndo com o procedimentoalgum modo inclinado b opinido deles. Ainda deles. Daqui nasce aquilo qua eu disse, quemais, para que nosso livre-arbitrio ndo seja duas (coisas), operando diversamente, produ-apagado, julgo poder ser verdadeiro que a zam o mesmo efeito; e outras duas, igualmen-sorte seja 6rbitra da metade de nossas a@es, te operando, uma se conduz a seu fim e a outramas que tambhm ela nos deixe governar a ou- ndo. Disto ainda depende a varia~do bem: dotra metade, ou q u a s ~Assernelho a sorte a .~ porque, se um se governa com respeitoe paci&n-um desses rios perigosos que, quando se iram, cia, os tempos e as coisas giram de rnodo quealagam os lugares planos, arruinam as 6rvores seu govern0 seja bom, e vai prosperando; mas,e 0s edificios, arrastam3 desta parte terreno, se os tempos e as coisas mudam, arruina, por-poem em outra: coda um foge de sua presen- que o modo de proceder ndo muda. Tambbm<a, coda um cede a seu impeto, sem poder de ndo se encontra homem tdo prudante, que sai-nenhum modo r ~ s i s t i rEmbora sejam assim, .~ ba acomodar-sea isso; com efeito, porque ndoresta a possibilidada, porbm, que os homens, se pode desviar daquilo a que a natureza onos tempos tranqijilos, possam tomar provid&n- inclina, tamb&m porque, tendo algubm semprecias corn defesas e diques, de modo que, nos prosperado caminhando por um caminho, ndoenchentes, ou os rios correriam por um canal, se pode persuadi-lo a usar outro. Todavia, oou seu impeto ndo seria nem licencioso5 nem homem de respeito, quando & tempo de usar odanoso. Da mesma forma interv6m a sorte: ela impeto, ela ndo o sabe fazer; dai arruina-se:mostra sua pot&ncia onde ndo h6 virtude que com efeito, se se mudasse de natureza com osIhe resista, e portanto dirige seus impetos onde tempos e com as coisas, a sorte ndo muda-sabe que ndo estdo feitos os diques e defesas ria. [...Ique a contenham. E se considerardes a Itcilia, Concluo, portanto, qua, variando a sorte,que & a sede destas varia@es e a que lhes e permanecendo os homens em seus modosdeu o movimento, vereis que ela & um campo obstinados, sdo felizes enquanto concordamsem diques e sem nenhuma defesa; que, se juntos, e, quando discordam, sdo infelizes. Jul-ela fosse defendida por conveniente virtude. go bem isso, que seja rnelhor ser impetuoso docomo a M a g n ~ ,Espanha e a Franp, ou esta a ~ que respeitoso, porque a sorte & senhora; e 6cheia ndo teria feito as grandes variapzs que necessdrio, querendo monte-la submissa, bat&-fez, ou ndo teria vindo. E quero que isso baste la e feri-la. Vemos qua ela se deixa vencer maissobre o que disse quanto a opor-se b sorte em por estes do qua por aqueles que procedemuniversais. friamente. Todavia, como mulher, & sempre Todavia, restringindo-me mais a particu- amiga dos jovens, porque eles sdo rnenos de tares, digo como se v& este principe hoje felici- respeito, sdo rnais ferozes, e a comandam com tar7 e amanhd arruinar-se, sem t&-lo visto mu- mais aud6cia. dar natureza ou qualquer qualidade: o que creio N. Maqu~avd, que nasca, primeiro, das causas sobre as quais 0prhcipe. longammte falamos, isto 6, que tal principe que se apoia inteiramente no sorte arruina-se, as- Afad~gor-se. sirn como ela varia. Creio, ainda, que seja feliz gAprox~modom~nte. aquele que cornbina o modo de seu proceder 31avom. com as qualidades dos tempos; e da mesma 40bstacular. SDasragulodo. forma seja infeliz aquele com cujo proceder os 6Alemanho. tempos discordarn. Porque se v& os homens, Prosperar. nos coisas que os induzem ao fim, que coda um duns apl~cqbes dlvarsos
  • 121. CapituIo sktimo do pensamento renascentista: ., A I. Ilatlzreza, ci2ncia e arte e m Leonardo Em Leonardo (1452-1519) e muito forte a ideia neoplat6nica do paralelismo entre microcosmo e macrocosmo, e ela Ihe serve particularmente como legitima~lro da ordem mecanicista de toda a natureza; esta ordem, que deri- va de Deus e e necessdria, e interpretada do melhor mod0 pelo pensamento matematico, que investiga de mod0 eficaz as forqas da Vinci: e as leis imanentes aos fen6menos. o mecanicismo, 0 conhecimento e o saber t@m duas fontes: a experiencia a) a experikncia, entendida como construto em que v@m e a s progressivamente a confluir artes mecanicas e artes liberais, como "cogi*ac&s a geometria ou a perspectiva; mentais" b) as cogitaqdes mentais, que descobrem discursivamente, + 3 1-3 para alem da experi@ncia, razdes pelas quais ocorrem os fen& as menos da natureza. Leonardo procura portanto a via intermediaria entre razao e experiencia que tende a conhecer a lei que regula os fendmenos, e com isso antecipa o "m&odo resolutivo" de Galileu e da ciencia moderna. Vida e obras Em 1482 foi para Milio, junto a Ludo- vico, o Mouro, 16 permanecendo at6 1499, vale dizer, at6 a queda de Ludovico. Em Milio, escreveu varios Tratados e desenvol- Conhecido e admirado em todo o mun- veu atividades de engenharia. Nesse perio-do por suas obras-primas artisticas, Leonardo do se concluiu a sua maturidade artistica.da Vinci C conhecido de um pddico tam- Depois de estadas em Miintua, VenezabCm mais amplo por seus desenhos mara- e Florenga, Leonardo entrou a servigo devilhosos e seus projetos tCcnicos, cheios de CCsar B6rgia em 1502, na qualidade de ar-intuig6es fulgurantes, mas n i o C t i o conhe- quiteto e engenheiro militar.cido por seu pensamento filos6fico. Com a queda de Valentino, seu prote- Leonardo nasceu em Vinci, em Valdar- tor, em 1503 Leonardo foi novamente parano, em 1542, e freqiientou as primeiras le- Florenga, dedicando-se aos estudos de ana-tras em Florenga. Entrou para o ate12 de tomia e empenhando-se na solu@o dos pro-Verrocchio em 1470, o que constituiu expe- blemas relativos ao v60, que o levafiam I?r i h c i a fundamental para sua formagio. construgio de uma miquina para voar. AEstudou matematica e perspectiva; interes- Mona Lisa 6 desse periodo.sou-se por anatomia e botiinica; enfrentou Em 1506 volta a Milio, a servigo doproblemas de geologia; fez projetos mecii- rei da Franqa. Corn a volta dos Sforza paranicos e de arquitetura. Milio, em 1512, ele se transfere para Roma,
  • 122. 104 Primeira parte - 8t l u m a n i s m o e aR e ~ a s c e n ~ a culos e armadura da carne, o mundo tem as pedras, sustentaculos da terra." Como se vt, essa idCia neoplat8nica do paralelismo entre microcosmo e macrocosmo tem em Leonar- do, contudo, um aspecto diferente da con- cepfiio mistico-animista do neoplatonismo: alias, serve a Leonardo como legitimaqgo da ordem mecanicista de toda a natureza. Essa ordem deriva de Deus, sendo preci- samente uma ordem necessaria e mecinica. Leonardo niio nega a alma, que desenvolve sua funqiio "na composi@o dos corpos ani- mados". Entretanto, deixa os incontrolaveis discursos sobre ela para a "mente dos frades, que, por inspira@o, sabem todos os segredos". N5o hi, portanto, um saber que valha por inspiraqiio. E tambim n50 C saber o de todos os que se respaldam na pura e simples autoridade dos antigos. Esses repetidores da tradi~iiosiio "trombetas e recitadores das obras alheias". Como tambim niio 6 saber o dos magos, dos alquimistas e de todos os "procuradores de ouro", pois estes falam de invenq6es fantasticas e de explicaq6es que apelam para causas espirituais.1 eotzardo (14 52-1 Sf 9)for u m dos maroves urtrstase urna d m mentes unruersars du Renascenpr.Este t seu ctlehre auto-retrato,cotzsevvado e m Turrm n o Palazzo Reale.desta vez a serviqo de Leiio X. Finalmente,em 1516, transfere-se para a Franqa, na qua-lidade de pintor, engenheiro e arquiteto. Morreu em 2 de maio de 15 19 em Am-boise, no castelo de Cloux, h6spede de Fran-cisco I. 2 Ih ordern rneca~icista da n a t ~ r e z a Leonardo n5o C homem da Renascenqaapenas por ser pensador "universal", isto C,niio especialista, mas tambCm porque, porexemplo, pode-se observar nele alguns tra-qos de neoplatonismo, como quando ele de-lineia o paralelismo entre o h o m e m e o uni-verso: "0homem i considerado pelos antigoscomo um mundo menor. E certo que o usodesse nome esta bem colocado, ja que, comoo homem C composto de terra, agua, ar efogo, esse corpo C semelhante A terra; assimcomo o homem tem em si os ossos, sustenti-
  • 123. Para Leonardo, C o pensamento mate- Em suma: "a natureza esta cheia dematico que projeta, ou melhor, interpreta a infinitas razoes aue nunca estiveram sobordem mecinica e necessaria de toda a na- experitncia"; "todo o nosso conhecimen-tureza: "A necessidade C mestra e tutora da to comeqa a partir do sentido"; "0s senti-natureza; a necessidade 6 tema e inventora dos G O terrenos, mas a razio esta fora de-da natureza, sendo seu freio e norma eter- l e ~quando contempla". E "aqueles que se ,na." Leonardo, portanto, elimina dos fen& enamoram de pratica sem ciencia s i o comomenos naturais -mecinicos e materiais - o timoneiro que entra no navio sem lemea intervenqio de forgas e poderes animistas, ou bussola, nunca tendo certeza para on-misticos e espirituais, para concentrar-se de vai".sobre forqas e leis imanentes a eles. E Leonardo prossegue: "A ciincia C o capitio, a pratica os soldados." E quando se tem ciencia das coisas, entao, por um lado, essa ciincia termina "em conhecida expe- riincia", isto 6, as teorias s i o confirmadas, e, por outro lado, permite todas aquelas re- alizaqoes tecnol6gicas que Leonardo proje- ta com suas "miiquinas". Qua1 6, portanto, a id6ia de experiin- Como os estudiosos justamente salien-cia e de saber em Leonardo? taram, Leonardo procura a via intermedii- Contrapondo-se a figura d o "douto" ria entre razio e experihcia que tende a co-de sua ipoca, Leonardo gostava de se defi- nhecer a lei que regula os fenbmenos, e que,nir como "homem sem letras". Mas ele ha- de qualquer modo, ainda que de formavia freqiientado a oficina de Verrocchio, esboqada e parcial, antecipa o "mitodo reso-onde praticara muitas "artes mecinicas". E lutivo" de Galileu e da ciencia moderna. doexatamente a pritica das "artes mechicas" qual falaremos mais adiante. ;,aprendidas em certos ateliis vinha fazendoemergir gradualmente um conceit0 de ex-periincia que n i o era mais a empiria desar-ticulada dos praticantes das diversas artesnem o discurso puro e simples dos especia-listas das artes liberais, privados de qual-quer contato com operagoes, inspeqoes eaplicaq6es no mundo da natureza. A experidncia que se realizava nas ofi-cinas, como a de Verrocchio, era precisa-mente um elemento para o qual vinham con-fluindo progressivamente as artes mecinicase liberais, como a geometria ou a perspecti-va. Conseqiientemente, Leonardo se revol-ta contra aqueles que consideram que o"senso" - ou seja, a sensaqio ou a obser-vagio - seja um obstaculo para a "fisica esutil cogitaqio mental". Por outro lado, Leonardo tinha a con-vicqio de que "nenhuma investigaqio huma-na pode-se considerar verdadeira ciencia sen i o passar pelas demonstraq6esmatematicas". N5o basta a observaqio nua e crua. E,na natureza, existem "infinitas raz6esn que"nunca estiveram sob experitncia". Emsuma, os fen6menos da natureza so podemser compreendidos sob a condiqao de quelhes descubramos as razoes. E essa desco-berta i obra de discurso, de cogita~iio men-tal: C a razio que demonstra por que "talexperiincia C forqada de tal mod0 a operar".
  • 124. 11. Bernardino L k i o : a investigaq&o da natureza segundo seus prbprios principios Em sua obra-prima De rerum natura iuxta propria principia, BernardinoTelesio (1509-1588) opera uma das mais avanqadas tentativas de p6r a fisica nocaminho de uma rigorosa pesquisa autcinoma, desligada tanto a) dos interesses e dos pressupostos da tradiq80 hermetico-plathica, como b) dos A fisica telesiana pressupostos da metafisica aristotelica. Telesio n8o nega nem um +§2 Deus transcendente nem uma alma supra-sensivel, mas p6e um e outra tematicamente fora da pesquisa fisica, e estabelece assima autonomia da natureza e de seus principios e, por conseguinte, a autonomia dapesquisa destes principios. Alem disso, a fisica construida por Telesio e qualitativa;todavia, ele entrev@ tambem a perspectiva quantitativa, mas, n8o podendo de-senvolv0-la, augura que outros o possam fazer. Na concepqao da natureza, Telesio se remete ao hilozoismo e ao pan- psiquismo prk-socratico, segundo o qua1 tudo e vivo. Como fundamento da natu- reza, que em sua essencia e vitalidade e sensibilidade, ha tr@s osprincjpios principios: dois principios agentes incorporeos, o quente e o frio, da natureza e uma massa corporeal que sob a aqao dos principios agentes as- e o nespiritow sume diferentes disposiqdes; os dois principios agentes pervadem no hornern todo corpo, s contrastam e se percebem reciprocamente, e dis- e -+ 3 3-4 so deriva que todos os entes, tanto os complexos como os sim- ples, sentem a relac80 reciproca. 0 animal se distingue das coisas porque ha nele o "espirito produzido pelo semen", uma substdncia corporea tenuissima incluida no corpo como no proprio revestimento. No homem, depois, alem do "espirito", ha ainda uma especie de alma divina e imortal, que porem n8o serve para explicar os aspectos naturais do homem, mas apenas os aspectos que transcendem sua naturalidade: em vista do conhecimento, com efeito, o senso e o "espirito" sao mais criveis do que a raz8o e a alma, porque aquilo que e apreendido pelos sentidos n8o tem mais necessidade de ser ulteriormente pesquisado. Telesio admite o Deus biblico e regedor do mundo, de cuja atividade criado- ra dependem a "natureza" e o destino do homem; ele simplesmente nega que s e deva recorrer a Deus na pesquisa fisica. Deus infunde a mens superaddita, isto e, a alma intelectiva, que e imortal: ela esta unida 0 hornern e a mens ao corpo e especialmente ao "espirito" natural, como forma dele. superaddita, Com o "espirito" o homem conhece e apetece as coisas que se ou seia, a a,rna referem a sua conservaq80 natural; com a mens superaddita co- intelectiva, nhece e tende as coisas divinas, que se referem a sua salvaq80 dada por Deus eterna. 0 homem deve procurar n8o sucumbir com sua mens a s +§ 5 forqas do espirito material, mas mant@-la pura e torna-la seme- lhante a seu criador. Vida e obras nio Telksio, que era homem de lefras. Se- guiu o tio a Miliio e depois a Roma, onde, em 1527, foi aprisionado pela soldadesca, Bernardino TelCsio nasceu em 1509 em por ocasiiio do conhecido "saque de Ro-Cosenza. Num primeiro momento, recebeu man, sendo libertado pela intervengiio de umsolida educagiio humanista de seu tio Ant& conterrbeo, ap6s dois meses de prisiio.
  • 125. 1 Capitulo setimo - Vertices e resultados c o ~ c l u s i u o s o pensamefito venascentista d Foi entiio para Pidua, onde ainda eram 0 s primeiros dois livros do De rerumbem vivos os debates sobre Aristoteles, e natura foram publicados em 1565, aposonde estudou filosofia e cihcias naturais muitas incertezas e n5o sem antes ter con-(talvez, em especial, a medicina), forman- sultado em BrCscia o maior exDoente dodo-se em 1535. aristotelismo na epoca, Vincenzo Maggi. 0 Depois de formado, irrequieto, TelCsio resultado positivo do confront0 com Maggi,andou por varias cidades da Italia. Parece que por muitos aspectos devia ser conside-que, durante alguns anos, retirou-se, para rado como o adversario ideal, convenceumeditar em solidiio, em um mosteiro de TelCsio da oportunidade da publica@o. Masmonges beneditinos (alguns pensam que esse a obra inteira. em nove livros. so viu a luzmosteiro pode ter sido o de Seminara). em 1586. em iirtude das dificujdades finan- Posteriormente, de 1544 a 1553, TelC- ceiras do nosso filosofo.sio foi hospede dos Carafa, duques de No- As outras obras de Telisio siio margi-cera. Nesse periodo, lanqou os fundamentos nais, limitando-se a explicaq5o de alguns fe-e delineou a estrutura do seu sistema, redi- ntimenos naturais (Sobre os terremotos, So-gindo um primeiro esboqo da sua obra-pri- bre os cometas, Sobre os vapores, Sobre oma De rerum natura iuxta propria principia. raio etc.). A partir de 1553, TelCsio se estabele- Foi notivel a fama alcanqada pel0 fi-ceu em Cosenza, onde permaneceu at6 1563. losofo, tendo inicio antes mesmo da publi-Passou depois por Roma e Nipoles, mas ca@o de suas obras. A Academia Cosen-retornou varias vezes a Cosenza, onde mor- tina, da qual ele foi membro, tornou-se oreu em 1588. mais ativo centro de difusiio do telesianis- mo. Amigos poderosos e influentes prote- geram-no dos ataques dos aristotClicos, em- bora n5o tenham faltado os debates e as f.novidade d a fisica telesiana 0 sentido e o valor do pensamento te- lesiano mudam completamente, conforme a perspectiva com base na qual ele 6 visto e interpretado. Conseqiientemente, tambCm varia o tip0 de exposiqiio que se pode fazer desse pensamento. Se o olharmos assumindo como pars- metro a revoluqiio cientifica que Galileu ope- raria, entiio as conclusdes niio podem ser outras que as extraidas por Patrizi (embora baseando-se em outros elementos), isto C, que o telesianismo "parece ser mais uma metafisica do que uma fisica", contraria- mente i s suas intenqdes declaradas. No entanto, se o olharmos pela otica do seu tempo, o pensamento de Telesio re- vela-se efetivamente uma das tentativas mais radicais e avanqadas de encaminhar a fisica pela senda de uma rigorosa pesquisa aut6-Bernardino Teltkio (aqui em uma estampa antiga,procurou fundar u m tigo de pesquisa fisica noma, desligando-se de dois tipos de pres-inteiramente diferente em rela@o a aristotelica, supostos metafisicos: a ) dos pressupostosantecipando nus exigincias, dos magos renascentistas ligados a tradiqiioembora niio nos resultados, hermttico-plathica; b) dos pressupostos daalgumas instLincias da fisica moderna. metafisica aristotClica.
  • 126. Primeira parte - O tlumanismo e n R e n a s c e n c n a ) Sobre o primeiro ponto, deve-se su-blinhar n5o apenas o fato de que estiio au-sentes do De rerum natura os interesses epressupostos magico-hermkticos, mas tam-bCm o fato de aue TelCsio diz com todas asletras, numa evidente alus50, que em sua TelCsio reconstruiu os principios de suaobra ningutm encontrara nihil divinum e fisica em base sensistica, convencido de quenihil admiratione dignum ("nada de di- o "sentido" revela a realidade da nature-vino" e "nada de extraordinarion).Entre- za, sendo a propria natureza, em sua essen-tanto, como veremos, Telisio continua a cia, vitalidade e sensibilidade. Nessa con-ter em comum com as doutrinas magicas cepg5o vitalista da natureza, Telksio se referea convicg50 de que, na natureza, tudo esth ao hilozoismo e ao pan-psiquismo prC-so-vivo. critico, segundo os quais tudo esta vivo, com b) Sobre o segundo ponto, devemos coloragaes at6 mesmo j6nicas (recordandorelevar o que segue. Aristoteles (com os pe- sobretudo o esquema de interpretagiio daripatiticos) considerava a fisica como co- realidade que fora proposto por Anaxi-nhecimento teorktico daquele genero parti- menes). Seus modelos, portanto, niio s5ocular de ser ou de substiincia que esta sujeito tanto os neoplat6nicos, e sim os fisicos maisa movimento. Para o Estagirita, os quadros antigos.da metafisica (ciincia do ser ou da substiin- Ora, o "sentido" nos revela que o "quen-cia em geral) k seus principios constituiam ten e o "frio" G O principios fundamentais.os pressupostos necessirios para fundamen- 0 primeiro tem agiio dilatadora, faz as coi-tar a fisica. A consideragiio da substiincia sas serem leves e p6e-nas em movimento. Jasensivel, portanto, desembocava necessa- o segundo produz condensag50 e, portanto,riamente na consideragiio da substincia su- torna as coisas pesadas e tende a imobili-ma-sensivel. e o estudo da substiincia move1 za-las.terminava com a demonstracio metafisica 0 sol C quente por excelencia e a terrada substiincia imovel. C fria. Mas o sol, como tudo aquilo que arde, Telksio realizou um corte claro em re- n i o C so calor, assim como a terra tambimlag50 a essa posig5o. N5o nega um Deus niio coincide com o frio. Quente e frio s i otranscendente nem uma alma supra-sensi- incorporeos e, portanto, tim necessidade devel (corno veremos melhor mais adiante), massa corporea a qua1 aderir. Portanto, con-mas tematicamente coloca ambos fora da clui TelCsio, deve-se sem duvida p6r na basepesquisa fisica, estabelecendo assima auto- dos entes tris principios: dois principiosnomia da natureza e dos seus principios e, agentes, o quente e o frio, e uma massaconseqiientemente, a autonomia da pesqui- corp6rea, que sob a aqio de principios agen- sa desses principios. Desse modo, TelCsio tes assume diferentes disposig6es. Se assim realiza aquilo que foi chamado "redugio n5o fosse, os entes n i o poderiam se trans- naturalista", precisamente proclamando a formar uns nos outros, impossibilitando autonomia da natureza. aquela unidade que, ao contrario, existe efe- Nesse sentido, pode-se dizer que, em- tivamente na natureza. bora com bases que eram inadequadas, co- Assim, cai por terra a fisica dos quatro mo veremos. TelCsio fez valer uma instiincia elementos, bem como a concepqiio geral das (a autonomia da pesquisa fisica) destinada coisas como sin010 de matCria e forma, sus- a revelar-se muito fecunda. tentada pelos peripateticos: os elementos Mas ainda ha um ponto que merece derivam dos principios descritos, como tam- ser destacado. bCm todas as formas das coisas. Como veremos, TelCsio construiu uma 0 s dois principios agentes perpassam fisica qualitativa. Entretanto, entreviu a pers- todo corpo, contrastando-se, expulsando-se pectiva quantitativa, embora tenha dito que e se substituindo mutuamente nos corpos, e n5o podia desenvolvi-la, augurando que tendo a faculdade de se perceberem recipro- outros pudessem faze-lo, para que, destaca camente. Essa faculdade que cada ;m deles ele, os homens possam se tornar n i o ape- tem de perceber suas proprias ag6es e pai- nas "scientes", mas tambCm "potentes". x6es e as conex6es que apresentam com as Trata-se de dois temas que, como veremos, do outro da lugar a sensag6es agradaveis em se tornariam centrais, respectivamente, em relag50 aquilo que C afim e que favorece a Galileu e em Bacon. i] z sua propria conservagiio, e a sensag6es de-
  • 127. 109 CdphLl0 setim0 - VLrtices e resultados conclusivos d o pensamento renascentistasagradaveis no caso contrario. Assim, con- tos que transcendem sua naturalidade, dosclui Telisio, "todos os entes sentem a rela- quais falaremos adiante.qiio reciproca" . Em suas varias formas, o conhecimen- Entio, como i que s6 os animais pos- to se explica mediante o "espirito", sendo,suem orgiios sensoriais? 0 s animais s i o en- precisamente, a percepqio das sensaqoes,tes complexos e os orgiios sensoriais desem- mudanqas e movimentos que as coisas pro-penham o papel de vias de acesso das forqas duzem sobre ele. Em outros termos: o quenteexternas a substiincia que sente. Ja as coisas e o frio produzidos pelas coisas, que agemsimples, precisamente porque siio tais, sen- sobre o organism0 por contato, provocamtem diretamente. aqoes de movimento, de dilataqso e de res- A fisica de Telisio, portanto, i uma fi- triqio sobre o "espirito", e desse mod0 rea-sica baseada nas "qualidades" elementares liza-se a percepqio, que i consciCncia dado quente e do frio. Mas, nesse quadro, co- modificaqiio.mo ja observamos, ele compreende que po- A intelighcia nasce da sensaqio, maisderia ser de notivel vantagem para sua con- precisamente da semelhanqa que constata-cepqio uma investigaqio ulterior voltada mos entre as coisas percebidas, das quaispara determinar a "quantidade" de calor conservamos a lembranqa, e a extensio pornecessiria para produzir os varios fen6me- analogia a outras coisas, que atualmente niionos. E i precisamente essa investigaqio ~ercebemos.Por exemplo, quando vemos"quantitativa" que ele afirma niio ter podi- um homem jovem, a intelighcia nos diz quedo realizar, desejando deixi-la como tarefa ele envelheceri. Esse "envelhecimento" niiopara outros que viessem depois dele. C percebido por nos, j i que ainda esti por vir, niio podendo portanto produzir qual- quer sensaqio em nos; no entanto, nos po- demos "entend&lo" justamente com o au- 0howew xilio da experihcia passada e da semelhanqa cow0 realidade natural daquilo que ja percebemos com aquilo que percebemos agora, ou seja, por analogia. Telisio declara expressamente que n i o Considerado como realidade natural, despreza em absoluto a razio; ao contra-o homem i explicavel como todas as outras rio, diz que se deve de~ositar confianqa nelarealidades naturais. "quase como nos sentidos". Mas o sentido 0 s organismos animais eram explica- i mais crivel do que a razio, pel0 motivo dedos por Aristoteles em funqiio da "alma que aquilo que i apreendido pelos sentidossensitiva". Telisio, naturalmente, n i o pode n i o tem mais necessidade de ser ulterior-mais abrigar tal tese, mas tem necessidade mente investigado.de introduzir algo capaz de diferenciar o Para Telisio, a propria matematica ianimal das coisas restantes. Por isso, recorre fundada no sentido, nas similitudes e nasiquilo que ele chama de "espirito produzi- analogias, do mod0 ja explicado.do pela semente" (spirituse semine eductus).A terminologia (de origem estoica) se refe-re provavelmente a tradiqiio midica antiga(que Telisio conhecia muito bem). 0 "es- A woral naturalpirito", substincia corporea muito h u e ,esti incluido no corpo, como no seu pro-prio revestimento e no seu proprio 6rgio. A vida moral do homem, pel0 menosConseqiientemente, o "espirito" explica num primeiro nivel, t a m b i m pode sertudo aquilo que Aristoteles explicava com explicada com base nos principios naturais.a alma sensitiva (recorde-se a analoga con- Para o homem, como para todo ser, ocepqio do "espirito" de Ficino, no qual, bem i a sua propria autoconserva@o, as-porim, cumpria uma funqio totalmente di- sim como o ma1 i o seu dano ou a sua des-ferente). truiqiio. 0 prazer e a dor entram nesse jogo Telisio logo percebeu que, alim d o de conservaqiio e destruiqio. E prazeroso"espirito", ha no homem algo mais, "uma aquilo que agrada ao "espirito", e agradaespicie de alma divina e imortal", que, po- ao "espirito" aquilo que o vivifica, consti-rim, n i o serve para explicar os aspectos tuindo portanto uma forqa favoravel. E do-naturais do homem, mas somente os aspec- loroso aquilo que abate e prostra o "espiri-
  • 128. 110 Primeira parte - 8+ I C . W ~ M I S M ? O e aRe~nscrn~nto", e abate o "espirito" aquilo que Ihe i de Telisio 6 o Deus biblico, criador e regen-nocivo. Assim, o prazer i "a sensaqiio da te do mundo. E i precisamente de sua ativi-conservaqiio", ao passo que a dor e "a sen- dade criadora que depende aquela "nature-saqiio da destruiqiio" . za" estruturada do mod0 como vimos, bern 0 prazer e a dor, portanto, tim um como o destino superior dos homens emprecis0 objetivo funcional. Desse modo, o relaqiio a todos os outros seres, como agoraprazer niio pode ser o fim ultimo que perse- veremos.guimos, mas sim o meio que nos facilita al- A "mens superaddita", isto C a alma ,canqar esse fim, o qual, como ja dissemos, C intelectiva, que e imortal, C infundida noa autoconservaqiio. Em geral, tudo aquilo homem por Deus. A alma esta unida ao cor-que o homem deseja esta em funqiio dessa po e, especialmente, ao "espirito" natural,conservaqiio. como forma dele. Entendidas do ponto de vista natura- Por meio do espirito o homem conhe-lista, as pr6prias virtudes siio praticadas e ce e apetece as coisas que se referem a suaexercidas em funqiio desse mesmo objetivo, conservaqiio natural; ja com a mens super-ou seja, para que facilitem a conservaqiio e addita, ele conhece as coisas divinas e tendeo aperfeiqoamento do "espirito". para elas, que niio dizem respeito 2 sua sau- de natural, mas sim a eterna. Assim, exis- tem no homem dois apetites e dois intelectos. Por isso, ele esti em condiqoes de entender niio somente o bern sensivel, mas tambim o e a alma bern eterno, bern como de quer4-lo (e isto i ente C O ~ O suppa-sensivel o livre-arbitrio). Conseqiientemente, o ho- mem deve procurar niio sucumbir com sua "mente" as forqas do "espirito" material, Como ja observamos, Telisio operou mas sim manti-la pura e torna-la semelhan-a "reduqiio naturalista" na sua pesquisa fi- te ao seu criador. Em suma, essa "mente"sica e na reconstruqiio da realidade natural, concerne a atividade religiosa do homem emas ficou bern distante de dar a tal "redu- assinala a sua especificidade em toda a or-qiio" uma valincia metafisica geral. Ele ad- dem do real.mite um Deus criador e acima da natureza; 0 s intirpretes viram freqiientemente,o que ele nega, simplesmente, i que se deva nessas doutrinas de Telisio, algumas con-recorrer a ele na investigaqiio fisica. cessoes indibitas (talvez feitas pro bono pa- Alias, a esse proposito, i interessante cis, para evitar complicaqoes), ou, de todonotar o fato de que Telesio, que normalmen- modo, teses em contraste com o seu "natu-te censura Aristoteles por ser excessivamente ralism~". realidade, porem, niio i assim. Nametafisico em fisica, objeta-lhe precisamen- Quando muito, seria verdade precisamentete o oposto no que se refere ao Motor Imo- o oposto. A sua originalidade esta exatamen-vel. E completamente inadequada uma con- te na tentativa de estabelecer uma distinqiiocepqiio de Deus reduzido a funqiio motriz, clara de imbitos de investigaqiio, sem que aao modo aristotklico. Telesio chega a escre- distingiio implique exclusiio. Embora comver que, a esse respeito, Aristoteles "parece todos os seus limites, tambim nesse sentidodigno niio apenas de criticas, mas tambim Telisio apresenta analogias com Galileu,de abominaqiio". A moqiio do ciu podia que, precisamente, distinguirh de modo pa-muito bern ser atribuida a propria natureza radigmatic~ ciincia e religiiio, atribuindo ado ciu, sem chamar Deus em causa daquele primeira a funqiio de mostrar c o m o vai omodo. Ademais, i inconcebivel o fato de ceu (com suas leis especificas), e segundaAristoteles negar ao seu Deus a providincia a tarefa de mostrar como se vai a0 C&U (cren-em relaqiio aos homens. Em suma: o Deus do e agindo em conformidade com a f6).
  • 129. III. Giovdano Bruno: universo infinito e "herbico fuvov" Nascido em Nola em 1548, Giordano Bruno entrou muito jovem no conven-to de Sao Domingos em Napoles, onde foi ordenado sacerdote em 1572. Acusadoem 1576 de heresia e de homicidio, deixou o habito e iniciouuma fase de peregrina~6es pela Europa, ate que em 1591 voltou A vidapara a Italia, aceitando o convite do nobre veneziano Joao Mo- e os escritoscenigo, que desejava dele aprender a mnemotecnica. Mocenigo, maisimportantesporem, denunciou-o ao Santo Oficio; comey;ouent%o process0 de Giordano opor heresia que s concluiu com a condena@o a morte na fo- Bruno egueira, executada em Roma dia 7 de fevereiro de 1600: ate o fim, +5Bruno n%orenegou seu credo filosofico-religioso. Entre suas numerosas obras, a mais importantes sao: De umbris idearum s(1 582), Da causa, do princfpio e do uno (1584), Do infinito, do univeno e dosmundos (1584), Circulaga"~ besta triunfante (1584), Dos heroicos furores (15851, daDo minimo (1591), Das mtjnadas (1591), De immenso et innumerabilibus (1591). Bruno 4 sem duvida o filosofo renascentista mais complexo; com sua visa0vitalista e magics, de fato nao antecipa as descobertas cientificas do s4cufo se-guinte, mas e possivel encontrar em seu pensamento surpreen-dentes antecipa~iaes Spinoza e dos Romdnticos, sobretudo do o carater dejovem Schelling. magico- A marca que distingue seu pensamento e de car6ter magi- hermetic0co-hermetico, e este n%o pode ser entendido como uma especie da f h o f i ade gnose renascentista, mensagem de salva@o neoplato- $:yyOnicamente marcada pelo tip0 de religiosidade "egipcia" prdpriados escritos herm4ticos: o "egipcianismo" aqui 4 uma experidn-cia teurgica e extdtica que leva ao Uno dos Neoplatdnicos, C; a "boa religi3o"destruida pelo Cristianismo, a qua1 e preciso voltar e da qua1 Bruno s sente o eprofeta, investido precisamente da miss%o fazd-la reviver. de Ele, portanto, n%opodia estar de acordo nem com os catolicos nem com osprotestantes, e por fin nao s pode dizer sequer crist80, porque acabou pondo eem duvida a divindade de Cristo e os dogmas fundamentais do Cristianismo: seuescopo era o de ele pritiprio fundar nova religiso. * A visa0 que Bruno tem do universo 6 de tipo copernicano, baseada sobre aconcep@oheliocdntrica e sobre a infinitude do cosmo, ligada a magia astral e aoculto solar. Acima de tudo esta uma Causa ou Principio supremo (o Uno plotinianoreinferpretado em chave renascentista), que Bruno chama demente sobre as coisas, da qua1 tudo o mais deriva, mas que nos A visdopermanece incognoscivel; o universo inteiro, que e uno, infinito de Brunoe imcivel, constitui o efeito deste primeiro Principio, mas pelo do universo:conhecimento dele n8o s pode remontar ao conhecimento de -0 heroic0 esua Causa. furor" Do Principio supremo deriva o lntelecto universal, entendi- + § 4-6do ccrmo mente nas coisas, como faculdade da Alma universal daqua1 brotam todas as formas dindmicas imanentes a materia: a Alma do mandoest6 em toda coisa, e na Alma esta presente o lnteledo universal, fonte perene deformas que continuamente s renovam. A infinitude do universo C acompanhada epela existdncia de mundos infinitos semelhantes ao nosso, cam outros planetas eoutras estrelas; em particular, ele 4 "infinito" el ao mesmo tempo, "esferiforme",
  • 130. 112 Primeira parte - O t l w n a n i ~ m ~ R e n a s c r n c a e a conforme uma fdrmula de derivac;%o hermBtica e cusaniana: o universo 6 uma esfera que tem seu centro em todo lugar e a circunferencia em nenhum lugar; e infinita 6 tambitm a vida, porque infinitos individuos vivem em nbs, como em todas a coisas compostas: nada s aniquila, e por isso o morrer e apenas mutac;%o s e acidental, enquanto aquilo que muda permanece eterno. A contemplac;%oe transforma assim em uma forma de "eudeusamento", de s heroic0 furor, que B anseio de ser uno com a coisa ansiada: a Divindade, a verdade ansiada, estci em nds mesmos, e quando descobrimos isso, tornamo-nos anseio de nossos prdprios pensamentos; no &picedo "herdic0 furor", o homem v& inteira- mente o Tudo, porque se assimilou a esse Tudo. 1 Vida e o b ~ a s do Ficino em suas lig6es (as doutrinas ma- gico-hermtticas). Em 1585 retornou a Paris, mas logo percebeu que nZo gozava mais da protegiio Giordano Bruno nasceu em Nola, em do rei e teve de fugir, depois de um desen-1548. Seu nome de batismo era Filipe, o contro com os aristotClicos.nome de Giordano lhe foi dado quando, ain- Desta vez escolheu a Alemanha lute-da muito jovem, ingressou no convent0 de rana. Em 1586 estabeleceu-se em Witten-SZo Domingos, em Napoles, onde foi orde- berg, onde elogiou publicamente o lutera-nado sacerdote em 1572. nismo. Mas tambem ai nZo permaneceu por Seu espirito rebelde ja se manifestou muito tempo. Em 1588 tentou obter os fa-quando ainda era estudante, e em 1567 foi vores do imperador Rodolfo I1 de Asburgo,instaurado um processo contra ele, que de- na Austria, mas sem sucesso. Retornou en-pois foi suspenso. Mais grave foi o processo de 1576, ins-taurado, mais do que pelas suspeitas de he-resia que havia suscitado, pela suspeita deque lhe coubesse a responsabilidade pel0assassinio de um confrade que o havia de-nunciado. Na realidade, a suspeita era in-fundada. Mas a situagiio complicou-se a talponto que Bruno, que nesse meio tempofugira para Roma, chegou a pensar em lar-gar o hibito, e refugiou-se no norte do pais(Gsnova, Noli, Savona, Turim e Veneza) efinalmente na Suiga, em Genebra, onde fre-qiientou ambientes calvinistas. Mas logo serebelaria tambCm contra os teologos calvi-,nistas. A partir de 1579, Bruno viveu na Fran-qa, primeiro em Tolosa, por dois anos, e apartir de 1581 em Paris, onde conseguiuatrair a atenqiio de Henrique 111, do qua1teve protegso e apoio. Em 1583 foi para a Inglaterra, acom-panhando o embaixador franc& e vivendosobretudo em Londres. Esteve durante umperiod0 tambCm em Oxford, onde, porCm,logo entrou em choque com os docentes dauniversidade (que ele considerava "pedan-tes"). Documentos vindos recentemente i iluz demonstram, entre outras coisas, que osdoutos locais o contestaram por ter plagia-
  • 131. Capitulo sdtirno - VCrtices e resultados conclusivos d o pensamento rrnascrntistatiio a Alemanha, onde, em 1589, em Helms- cautelosamente iniciara, procurando man-tadt, inscreveu-se na comunidade luterana, ter-se dentro dos limites da ortodoxia cris-da qual foi expulso depois de apenas um ano. ta, mas que ele tratou de levar as ultimas Em 1590, foi para Frankfurt, onde pu- conseqiihcias. E mais: o pensamento bru-blicou a trilogia dos seus grandes poemas niano pode ser entendido como urna espC-latinos. Quando ai estava, recebeu urn con- cie de gnose renascentista, urna mensagemvite, por livreiros, do nobre veneziano Joiio de salvaqio moldada no tip0 de religiosida-Mocenigo, para transferir-se a Veneza. Ele de "egipcia", como precisamente pretendiadesejava aprender a mnemoticnica, da qual ser a mensagem dos escritos hermiticos. 0Bruno era mestre. Imprevidentemente, acei- seu neoplatonismo serve de base e de moldu-tou o convite e voltou a Italia em 1591. ra conceitual para essa visio religiosa, do- No mesmo ano, Mocenigo denuncia- brando-se continuamente i s suas exiggncias.va Bruno a o Santo Oficio. Em 1592 come- Esta i a documentadissima tese apre-qou em Veneza o processo contra Bruno, que sentada recentemente por F. A. Yates quese concluiu com a sua retrataqiio. desejamos enfocar brevemente, porque re- Em 1593, o filosofo foi transferido para solve muitos problemas de interpretaqio daRoma, sendo submetido a novo processo. obra de Bruno. A filosofia de Bruno - es-Depois de extenuantes tentativas de con- creve Yates - "e fundamentalmente hermi-vencc-lo a retratar-se de algumas de suas tica [...I, ele era mago hermitico do tip0 maisteses, chegou-se a urna ruptura final, com radical, com urna espCcie de missiio magi-sua condenaqio a morte na fogueira, sen- co-religiosa [. ..] ".tenqa que foi executada no Campo dei Fiori, Portanto, conclui Yates, "[ ...I toda aem 7 de fevereiro de 1600. tentativa ficiniana de construir urna theo- Giordano Bruno n i o renegou seu cre- logia platonica crists, com seus prisci theo-do filosofico-religioso, morrendo para teste- logi e magi e com o seu platonismo cristiio,munha-lo. Sao muito numerosas as obras furtivamente permeado de alguns elemen-de Giordano Bruno. Dentre elas, merecem tos magicos, era menos do que nada aosparticular atenqio: a comidia o Candeeiro olhos de Giordano Bruno, que, aceitando(1582),o De umbris idearum (1582),a Ceia plena e despreconceituosamente a religiiiodas Cinzas (1584),Sobre a causa, principio magica egipcia do Asclepius (e desprezandoe uno (1584), Sobre o infinito, universo e os presumidos prenuncios do cristianismomundos (1584), o Despacho da fera triun- contidos no Corpus Hermeticum), conside-fante (1584), Sobre os herdicos furores rou a religiao magica egipcia como urna(1585), D e minimo (1591), D e monade experigncia teurgica e extatica genuinamente(1591) e D e immenso et innumerabilibus neoplathica, como urna elevaqiio em dire-(1591). fa0 ao Uno. E assim era de fato, ja que o egipcianismo hermitico nada mais era do que o egipcianismo interpretado por neo- plat6nicos da antiguidade tardia. Entretan- 2 A caracteristica to, o problema da interpretaqiio de Bruno de fundo do pensamento niio se resolve reduzindo-o a mero conti- nuador desse tip0 de neoplatonismo e con- de Bvuno siderando-o um simples seguidor de um cul- t o misteriosofico egipcio, porque ele certamente foi influenciado pelas idCias pro- Para entender a mensagem de um fi16- duzidas por Ficino e por Pico, com toda asofo i precis0 captar o fulcro do seu pensa- sua forga psicologica, suas associaq6es caba-mento, a fonte dos seus conceitos e o espiri- listicas e cristss, o seu sincretismo de diver-to que Ihe da vida. N o caso de Giordano sas posiqoes filosoficas e religiosas, antigasBruno, onde estiio esse fulcro, essa fonte e ou medievais, e com sua magia".essa alma? Conseqiientemente, i claro que Bruno 0 s estudos mais recentes conseguiram niio podia estar de acordo com os catolicoslanqar luz sobre a questio: a marca que dis- nem com os protestantes (em ultima i n s t h -tingue o pensamento bruniano i de carater cia, niio pode ser considerado sequer cris-m6gico-hermitico. Bruno se coloca na tri- tio, pois acabou pondo em duvida a divin-Iha dos magos-filosofos renascentistas, le- dade de Cristo e os dogmas fundamentaisvando muito adiante o discurso que Ficino do cristianismo) e que os apoios que busca-
  • 132. Primeira parte - 0+IL~M?UM~SM?O r n Renascen~ava, ora de urna parte ora de outra, eram sol ideal que i o intelecto. As "sombras dasapenas apoios taticos para realizar a pro- idCias7niio siio as coisas sensiveis, mas mui-pria reforma. E precisamente por isso C que to mais (no context0 bruniano) as "imagensele provocou violentas reaqties em todos os magicas" que refletem as idCias da menteambientes nos auais ensinou. Bruno niio divina e das quais as coisas sensiveis siiopodia seguir nenhuma seita, porque seu ob- copias. Imprimindo na mente essas "imagensjetivo era o de fundar ele proprio urna nova magicas", obtCm-se entiio como que um re-religiiio. flexo do universo inteiro na mente, adqui- E, no entanto, estava ebrio de Deus rindo-se desse mod0 niio apenas urna poten-(para usar urna expressiio que Novalis usou cializagiio maravilhosa da memoria, masa respeito de Spinoza) e o infinito foi o seu tambim fortalecimento da capacidade ope-principio e o seu fim (como podemos dizer rativa do homem em geral.com outra exmess50 de Schleiermacher em A obra apresenta urna strie de relaqdesrelaciio a S ~ i n o z a )Mas trata-se de um "di- . de imagens, com base nas quais Bruno or-v i n 2 e de ; m "iifinito" de carater neopa- ganiza o sistema da memoria e, como Ficinogiio, que o aparato conceitual do neopla- jii comeqara a fazer, da fundamentos ploti-tonismo, feito renascer por Nicolau de Cusa nianos A sua construqiio.e por Ficino, prestava-se a expressar de mo- 0 Bruno parisiense, portanto, com essado quase perteito. obra dedicada propriamente a Henrique 111, se apresenta como expoente e renovador da tradiqiio magico-hermitica inaugurada por Ficino, mas em sentido muito mais radical, ou seja, no sentido de que niio Ihe interessa mais a conciliaqiio ficiniana dessa doutrina e arte ~?&~ico-hevm&tica com a dogmitica cristii, decidido que esta- va a trilhar at6 as ultimas conseqiicncias esse caminho. As primeiras obras brunianas siio de-dicadas a mnemoticnica, destacando-se en-tre elas a De umbris idearum, elaborada emParis e dedicada a Henrique 111. Mas a suapropria mnemotecnica ju apresenta fortescolora$es magico-hermeticas. A arte da memoria era muito antiga.0 s oradores romanos, particularmente, re- Depois do period0 na Franqa, a etapacomendavam, para a memorizaqiio dos mais significativa da carreira de Bruno foiseus discursos, que se associasse a estrutu- sua estada na Inglaterra, onde elaborou era e a sucessiio dos conceitos e argumenta- publicou os "dialogos italianos7, que cons-qdes a favor dos mesmos a um edificio e a tituem suas obras-primas.sucessiio das partes de um edificio. Na Ida- Antes de falar do seu conteudo (dode MCdia, Raimundo Lulio ja havia desen- qua1 os posteriores poemas latinos, compos-volvido a mnemotCcnica, niio so procuran- tos e publicados na Alemanha, constituemdo definir normas destinadas a favorecer apenas o desenvolvimento e aprofunda-a memorizaqao, identificando urna preci- mento), C bom identificar com que roupa-sa escansiio das regras da mente, mas tam- gem Bruno se apresentou aos ingleses, par-bCm procurando identificar a coordena- ticularmente aos doutos da Universidade$50 dessas regras da mente com a estrutura de Oxford. Documentos que so vieram a luzdo real. no Novecentos nos informam sobre os te- Na Renascen~a, mnemottcnica renas- a mas tratados por Bruno em Oxford e sobreceu, alcanqando seu ponto culminante com as realties que teve dos seus ouvintes. EleGiordano Bruno. exp6s uma viszo copernicana do universo, Alim disso, no De umbris idearum, centrada na concep@o heliocintrica e naBruno vincula-se expressamente a Hermes infinitude do cosmo, vinculando-o a magiaTrismegisto, convencido de que a religiiio astral e ao culto solar tal como havia sido"egipcia" era melhor do que a cristii, en- proposto por Ficino, a tal ponto que um dosquanto C religiiio da mente, que se realiza doutos "achou que tanto a primeira comosuperando o culto ao sol, imagem visivel do a segunda liqiio haviam sido extraidas, quase
  • 133. Capitdo setimo - V&vtices e resultados conclusivos d o pensamento renasrentistapalavra por palavra, das obras de Marsilio Por isso, C compreensivel que, nesseFicino" (em particular da obra De vita contexto, Deus e natureza, forma e mati-coelitus comparanda). Criou-se um esciin- ria, ato e potencia acabem por coincidir, adalo, que obrigou Bruno a despedir-se ra- ponto de Bruno escrever: "Dai, n5o C dificilpidamente dos "pedantes gramaticos" de ou grave, em ultima instiincia, aceitar que,Oxford, que nada haviam entendido de sua segundo a substiincia, tudo C uno, como tal-mensagem. vez tenha entendido ParmEnides, tratado A imagem que ele queria transmitir de ignobilmente por Aristoteles. "si mesmo, portanto, era a do mago renas-centista, de alguCm que propunha a novareligi50 "egipcia" da revelaq50 hermetica,o culto do deus in rebus, o deus que esta fi infinitude do L d opresente nas coisas. e o significado impresso No Despacho o "egipcianismo" 6 apre-sentado at6 mesmo como tematica, ao pas- por Brunoso que o "sapientissimo Mercurio Egipcio", 2 revoIuG2;ocopernicanaou seja, Hermes Trismegisto, C apresentadocomo fonte de sabedoria. E essa vis5o do"deus nas coisas" esta expressamente liga- A partir desta concepq50 bruniana oda a magia, entendida como sabedoria pro- infinito se torna, como ja dissemos, a mar-veniente do "sol inteligivel", que C revelada ca emblematica da concepq50 bruniana.a o mundo ora em menor ora em maior me- Com efeito, para Bruno, se a Causa ou odida. Principio primeiro C infinito, tambCm o efei- 0 "egipcianismo" de Bruno C uma for- to deve ser infinito.ma de religi5o paganizante, com base na Com base nisso, Bruno sustenta n5oqual ele pretendia fundar a reforma moral apenas a infinitude do mundo em geral, masuniversal. tamb6m (retomando a idCia de Epicuro e de Mas quais s5o seus fundamentos filo- LucrCcio) a infinitude no sentido da exis-soficos? tincia de mundos infinitos semelhantes ao Acima de tudo Bruno admite uma nosso, com outros planetas e outras estre-"causa" ou um "principio supremo", a o las: "e isso se charna universo infinito, noqual ele chama tambCm de "mente sobre as qual ha inumeraveis mundos".coisas", da qual deriva todo o restante, mas Infinita tambCm C a vida, porque infi-que permanece incognoscivel para nos. Todo nitos individuos vivem em nos, assim comoo universo C efeito desse primeiro principio; em todas as coisas compostas. 0 morrer n5omas n5o se pode remontar do conhecimen- C morrer, porque "nada se aniquila". Assim,to dos efeitos ao conhecimento da causa, o morrer C apenas uma mudanqa acidental,como n5o se pode remontar da vis5o de uma ao passo que aquilo que muda permaneceestatua i visiio do escultor que a fez. Esse eterno.principio outra coisa n5o C do que o Uno Mas, entso, por que existe essa muta-plotiniano revisitado por urn renascentista. @o? Por que a matiria particular procura Assim como em Plotino o Intelecto de- sempre outra forma? Sera que procura ou-riva do supremo Principio, analogamente, tro ser? De mod0 bastante engenhoso, Bru-Bruno tambCm fala de um Intelecto univer- no responde que a m u t a ~ 5 o n50 procurasal, mas o entende, de mod0 mais marcada- "outro ser" (pois tudo j6 existe desde sem-mente imanentista, como mente nas coisas pre), e sim "outro modo de ser". E nissoe precisamente como faculdade da Alma reside precisamente a diferen~a entre o uni-universal, da qual brotam todas as formas verso e as coisas singulares do universo:que s5o imanentes a matiria, constituindo "aquele abrange todo o ser e todos os mo-corn ela um todo indissoluvel. dos de ser; estas, cada qual tem todo o ser, As formas s5o a estrutura diniimica da mas n5o todos os modos de ser".matiria, "que v5o e vim, cessam e se reno- Assim, Bruno pode dizer que o univer-vam", precisamente porque tudo C anima- SO C "esferiforme" e, ao mesmo tempo, "in-do, tudo esta vivo. A alma do mundo esta finito". 0 conceit0 de Deus como "esferaem cada coisa. E na alma esta presente o que tem o centro em toda parte e a circun-intelecto universal, fonte perene de formas ferincia em nenhum lugar", que apareceuque continuamente se renovam. pela primeira vez em tratado hermktico e
  • 134. - I6 - PRmeim parte - 0tlumonismo e n Rennscensn que foi tornado cClebre por Nicolau de Cusa, necer todas as "fantasticas muralhas" dos serve admiravelmente a Bruno; C precisa- cCus, tornando-os sem limites rum0 ao in- mente com essa base que ele opera a conci- finito. liaqio j i referida. Deus C todo infinito e totalmente in- finito, pprque C todo em tudo e totalmen- te tambem em toda parte d o todo. Como efeito derivado de Deus, o universo C todo infinito, mas n20 totalmente infinito, por- que e todo em tudo, mas n i o totalmente Na visio bruniana, a "contempla~io" em todas as suas partes (ou, de todo mo- plotiniana e o tornar-se uno com o Todo do, n i o pode ser infinito no mod0 como tornam-se "heroico furor". Deus 6, sendo causa de tudo em todas as TambCm para Bruno trata-se de per- partes). correr novamente, em elevaqio cognoscitiva, Estamos agora em condiq8es de enten- ou seja, voltando sobre os proprios passos, der as raz6es da entusiastica aceitaqio da aquela descida que do principio levou ao revoluqio copernicana por Giordano Bru- principiado. Mas, em Bruno, a contempla- no. Com efeito, o heliocentrismo a ) har- qio se transforma em uma forma de "divi- monizava-se perfeitamente com sua gnose nizaqio", que C furor de amor, anseio de ser hermitica, que atribuia a o sol (simbolo do uma so coisa com o objeto anelado, trans- intelecto) um significado inteiramente par- formando desse mod0 o ixtase plotiniano ticular, e b) permitia-lhe romper a visio es- em experiincia rnagica. (Ficino j i denomi- treita dos aristotClicos, que sustentava a nara furor divino o amor que leva o homem finitude do universo, e assim fazia desva- a "endeusar-sen ). 0 ponto central do escrito Sobre os he- roicos furores, que C uma de suas obras-pri- mas, explica que o proprio sentido dos "fu- rores heroicos" esta no mito do caqador Action, que viu Diana no banho e, de caqa- dor, foi transformado em cervo, isto C, em uma caqa selvagem, sendo devorado por seus GIORDA: cies. Diana C o simbolo da divindade ima- N O BRVNO nente da natureza e ActCon simboliza o inte- 3yolano. lecto, voltado para a caqa i verdade e i bele- DE G C H E R O I C 1 za divina; ja os mastins e galgos de ActCon FVRORf. simbolizam as voliqoes (0s primeiros, que s i o mais fortes), e os pensamentos (0s segundos, que s i o mais velozes). ActCon, portanto, foi convertido naqui- lo que procurava (caqa)e seus proprios c5es (pensamentos e voliq6es) o devoram. Por q u i ? Porque a uerdade procurada esta em nos mesmos e, quando descobrimos isso, PARIGI, ApprcCTo AntonioB,~tf, tornamo-nos anseio de nossos proprios pen- k d n n o . I 5 8f. samentos e compreendemos que "tendo ja contraida em si a divindade, n i o era preci- so procura-la fora de sin. Por isso Bruno conclui: "Desse modo, os cies, pensamentos de coisas divinas, de- voram Action, tornando-o morto para o vulgo, para a multidio, liberto das amar- Na obra-prima de Bruno Dos heroicos furores ras dos sentidos perturbados, livrewdocar- esta presente o mito do ca~ador Action, que depois de ter uisto Diana cere carnal da matiria; n5o vendo mais sua foi transformado em ceruo Diana como que atravCs de cortinas e ja- e dilacerudo por seus ciies. nelas, mas, tendo posto por terra as mura- Acteon simboliza o intelecto dirigido lhas, C agora todo olhos para o aspect0 de a caCa da uerdade e da beleza diuina. todo o horizonte." N o ponto culminante
  • 135. 117 - Capit2410 ~etZm0 Vbrtices e resultados ronclusivos d o pensamento renascentistado "heroic0 furor", o homem v@tudo in- mente tenha entendido o sentido cientificoteiramente todo, porque assimilou-se a esse daquela doutrina. Niio 6 possivel destacar o aspect0 mate- matizante de muitos escritos brunianos, pois a matemitica bruniana C aritmologia pita- gorizante, sendo portanto metafisica. Em suma, com sua visiio vitalista e magica, Bruno niio C pensador "moderno", no sentido de que n i o antecipa as descober- Bruno C certamente um dos filosofos tas do sCculo seguinte, que nascem em ba-mais dificeis de entender. E, no imbito da ses totalmente diferentes.filosofia renascentista, certamente C o mais Entretanto, Bruno antecipa de modocomplexo. Dai as exegeses tiio diversas que surpreendente certas posiqoes de Spinoza e,sobre ele foram propostas. sobretudo, dos romsnticos. A embriaguez N o estado atual dos estudos, porCm, de Deus e do infinito propria desses fil6so-muitas conclus6es a que se chegara no pas- fos ja esth presente em muitas piginas desado devem ser revistas. Bruno. Schelling C o pensador que mostrara N i o parece possivel fazer dele um pre- (pelo menos em uma fase do seu pensamen-cursor da revoluqiio do pensamento moder- to) as mais fortes afinidades de opqio comno, no sentido em que operara a revoluqiio o nosso filosofo. E uma das obras schellin-cientifica, porque seus interesses eram de guianas mais belas e sugestivas intitular-se-natureza completamente diferente: magico- a precisamente Bruno.religiosos e metafisicos. Em seu conjunto, a obra de Bruno A defesa que ele fez da revoluqio marca um dos pontos culminantes da Re-copernicana fundamenta-se em bases total- nascensa e, a o mesmo tempo, um dos re-mente diferentes daquelas em que se basea- sultados conclusivos mais significativosra CopCrnico, tanto que alguns chegaram desse period0 irrepetivel do pensamentoat6 a levantar duvidas de que Bruno real- ocidental. <;rordztzoBrum) &ante do trrl~utzaldo Santo Oficro (releuo do tnorzumerzto u Bruno, Roma). -
  • 136. 118 Primeira parte - O t l u m a n i s m o e a Renascenca / Deus / / Uno todo e totalmente infinito , em toda sua parte, Principio supremo I e Causa incognoscivel do Todo: Mente acima das coisas Intelecto universal For~a divina, faculdade da Alma d o mundo , Mente nas coisas / , I I o tornar-se-uno do homem com o Todo C HEROICO FUROR, endeusamento (iguala@o corn a Divindade), Pnsia de ser-uno com a coisa ansiada que culmina na assimila@o do homem ao Todo todas as formas (as estruturas dinimicas perenemente em renovaqiio) da matiria Universe uno, imovel, esferiforme, todo, mas n2o totalmente infinito: contCm inumeraveis mundos infinitos, mas em toda sua parte C finito
  • 137. 119 Capitdo setimo - VLrtices e resultados ronclusivos d o pensamento renasrentista IV. TOM?& Campanella: magia naturaIis~?o, e anseio de reforma universal Nascido em Stilo, na Calabria, em 1568, e entrando com 15 anos na Ordemdos Dominicanos, Tomas Campanella foi dominado por uma dnsia de reformauniversal, certo de ter uma missao a realizar. Sua vida aventurosa pode-se dividirem quatro periodos: 1) a juventude, constelada de processes por heresia e prati- A vidacas magicas, ate o insucesso da revolta poiitica por ele organiza- e os textosda contra a Espanha (1599); mais importantes 2) o longo cativeiro em Napoles (1599-1626), durante o qua1 + 3 1fingiu-se louco para livrar-se da fogueira; 3) a reabilitaqSo romana (1626-1634), tanto que teve 21 disposi~ao palhcio odo Santo Oficio; 4) as grandes honras na Fran~a, onde fruiu dos favores de Richelieu. Morreuem 1639. Entre suas obras, lembramos: A cidade do sol (1602), a Teologia em 30 livros(1613-24), a Metafisica em 18 livros (publicada em latim em Paris, em 1638). 0 novo significado que Campanella confere ao conhecer telesiano 6 expres-so pela palavra "sabedoria", feita derivar de "sabor"; o sabor 4 a revelar;rio detudo o que ha de mais intimo na coisa pela uniao com a propriacoisa; alem disso, sabe-se aquilo que se P: viver 6 um crescer no o sentidoser e no saber, e este mudar 6 tambem de certo mod0 morrer: da "sabedoria"apenas mudar-se em Deus e vida eterna. e as tr6s Toda coisa e constituida pela potencia de ser, do saber de primalidadesser, do amor de ser; estas 580 as tr@s primalidades do ser, que tem do serigual dignidade, ordem e origem, e d o uma imanente a outra. + 9 2 ~Nas coisas finitas, existem tambem as tr@s primalidades do n 7 - c0ser; Deus e ao inves, Potencia suprema, Sabedoria suprema, Amor supremo, e a ,cria~80 repete portanto, em diferentes niveis, o esquema trinitdrio. 0 conhecimento de si e prerrogativa nao do homem, mas de todas as coisas,que sao todas vivas e animadas: todas as coisas d o de fato dotadas de uma sapientiaindita ou inata, que e um sensus sui, um auto-sentir-se; mas enquanto nas coisasordinarias o sensus sui permanece prevalentemente escondido (sensus abditus),no homem ele pode chegar a niveis not6veis de consciencia, e em Deus se desdo-bra por fim em toda a sua perfei~ao. 0 conhecimento do outro diverso de si mesmo e, ao contrd- A naturezario, uma sapientia illata, isto e, adquirida em contato com as eoconhecimentooutras coisas, e todas as coisas falam e comunicam entre si ime- -+§ 3diatamente, porque tudo esta em tudo. Alem da alma-espirito,no homem ha a mente incorpdrea e divina, que tem a capacidade de conhecer,assimilando a si mesma ao inteligivel que estS nas coisas, os modos e as formassegundo as quais Deus as criou. A arte magical de que Campanella foi apaixonado cultor, tem tr@s forlnas: 1) divina, que Deus concede aos profetas e aos santos; 2) natural, que se serve das propriedades ativas e passivas das coisas naturaispara produzir efeitos maravilhosos; 3) demoniaca, que se serve dos espiritos malignos e deve ser condenada.
  • 138. Desse modo, Campanella inclui na magia todas as artes, as inven~des as e descobertas, mas esta em todo caso convict0 de que a maior a@o magica huma- na consiste em dar leis aos homens. A Cidade do sol representa assim a suma das aspiracbes de Campanella: d6 voz a sua insia A magia de reforma do mundo e de libertaqao dos males que o afligem, fazendo uso dos poderosos instrumentos da magia e da astro- 5-6 do EiZade logia. + A vida e as obvas obras com forqa irrefreavel, como urn vul- ciio em erupqiio. Submetido a torturas e muitas vezes preso, escapou da condenaqiio A morte fin- 0 pensamento renascentista se conclui gindo perfeitamente estar louco. Foi por issocom Tomas Campanella. que niio acabou na fogueira, como Bruno, Nascido em Stilo, na Calibira, em 1568, e, depois de ter passado quase a metade deCampanella ingressou na ordem dos domi- sua vida na priszo, conseguiu lentamentenicanos aos quinze anos (seu nome de batis- readquirir credibilidade, que reconstituiumo era Giandomenico, mudado para Tomas com incansavel fadiga cotidiana. Por fim,em homenagem a santo Tomis de Aquino inesperados triunfos na Franqa coroaramquando ingressou no convento). sua turbulenta existsncia. Ele se assemelha a Bruno em muitos Siio quatro os periodos que se podemaspectos. Mago e astrologo, dominado por distinguir nessa vida verdadeiramente ro-grande anseio de reforma universal, convic- mancesca: 1) o da juventude, que se con-to de que tinha uma miss50 a cumprir, infa- cluiu com a falsncia de uma revolta politicatigavel em sua obra, extraordinariamente organizada por ele contra a Espanha; 2) oculto e capaz de escrever e reescrever suas do longuissimo encarceramento em Napo- les; 3 ) o da reabilitaqiio romana; 4) o das grandes homenagens francesas. Percorreremos brevemente essas eta- pas, bastante significativas. 1) 0 period0 da juventude foi muito aventuroso. Insatisfeito com o aristotelismo e o tomismo, leu varios filosofos (tanto an- tigos como modernos) e escritos orientais. A indisci~linados rnosteiros dominicanos meridionais permitiu-lhe freqiientar em Nipoles o cultor de rnagia Giambattista Della Porta. Em 1591, sofreu um primeiro process0 por heresia e priticas magicas. Fi- cou poucos meses na prisiio e, ao sair, ao invks de retornar aos mosteiros de sua pro- vincia, contrariando o que lhe fora ordena- do, partiu para Padua, onde, entre outros, conheceu Galileu. Seguiram-se trcs outros processos: um em Padua (1592) e dois em Roma (1596 e 1597). Por fim, foi obrigado a retornar aTomas Campanella (1568-1 6 39) Stilo, com a proibiqiio de pregar e confessarfoi a ultima das grandes figuras e com a funqiio de esclarecer a ortodoxiade pensadores renascentistas. dos seus escritos.Tentou fundrr metafiszca, teologra, magra e utopra.F o l reahllrtado, depors de longos anos de prrsao, Mas seus anseios de renovaciio. os so- > ,quarrdo o pensamento europeu nhos de reformas religiosas e politicas e asestaua 16 dlreczonado visBes de tip0 messiiinico, exaltadas por suaspara camrnhos totalmente tfzferentes rfos scws. concepq6es astrologicas, levaram-no a tra-
  • 139. 121 Capitdo setzmo - VCrtices e ~ e s u l t a d o s conclusivos d o pensamento renascrntistam a r e pregar uma revolta contra a Espanha, em dezoito livros (dos quais Campanella fezque deveria constituir o inicio de seu gran- nada menos do que cinco redaqties, dasdioso projeto. PorCm, em 1559, traido por quais possuimos a latina, publicada emdois c o n ~ ~ i r a d o r eCampanella foi preso, s, 1638, em Paris), e a Teologia, em trinta li-encarcerado e condenado 21 morte. vros (1613-1624). 2 ) Inicia-se assim o segundo periodo. Encarcerado durante os melhores anosComo ja observamos, Campanella salvou- de sua vida, Campanella niio p6de criar dis-se da morte com uma habil simulaqiio de cipulos. E quando, na Franga, passou a go-loucura, que soube sustentar com heroica zar do reconhecimento que antes Ihe forafirmeza diante dos testes de confirmagiio negado, ja era muito tarde para isso, poismais duros e cruiis. A condenaqiio a morte seu pensamento j6 era fruto fora de esta-foi transformada em prisiio perpktua. Sua giio. Descartes dominava entiio a cena inte-prisiio, que durou nada menos que vinte e lectual e as vanguardas estavam com ele.sete anos, inicialmente foi durissima, masdepois tornou-se pouco a pouco toleravel,at6 tornar-se quase formal. Campanella po-dia escrever seus livros, trocar correspon-dEncia e at6 receber visitas. 3 ) Em 1626, o rei da Espanha mandouliberta-lo, mas sua liberdade durou muito e o vepensamentopouco, porque o nuncio apostolico mandou do sensismo telesiano~rendG-lo novo, transferindo-o para Ro- dema, nos carceres do Santo Oficio. Mas aquia sorte de Campanella mudou radicalmen- Campanella comeqou sendo telesiano,te, em virtude da proteqiio de Urbano VIII, mas logo a seu proprio modo. Para ele, atanto que, em vez do carcere, Campanella mensagem de TelCsio significa, atravis dosteve a sua disposiqiio nada menos que o pa- sentidos, um contato direto com a nature-lacio do Santo Oficio. za, unica fonte de conhecimento, e, portan- Enquanto esteve preso em Nipoles, seus to, ruptura com a cultura livresca.designios politicos se haviam orientado para A Carta a D o m Ant6nio Quarengo, dea Espanha, considerada como a potEncia que 1607, muito bela e justamente famosa, con-teria condigties de realizar a sonhada "refor- tCm como que um manifesto, que nos mos-ma universal" (dai a sua libertaqiio). Mas, tra algumas das idiias programiticas essen-em Roma, Campanella tornou-se filofran- ciais de Campanella. Assim, vamos destacarces. Por essa raziio, tendo sido descoberta, dois trechos mais importantes.em Napoles, uma conjura contra os espanhois "Eis, portanto, o meu filosofar, diver-em 1634, organizada por um discipulo de so em relaqiio ao de Pico; eu aprendo mais Campanella, o nosso filosofo foi injustamente com a anatomia de uma formiga ou de umaconsiderado co-responsavel, tendo por isso erva (sem falar na do mundo, admirabilis- de fugir para Paris, sob a proteqiio do em- sima) do que com todos os livros que foram baixador franc&. escritos do principio do sCculo at6 hoje, de- 4 ) A partir de 1634, Campanella viveu pois que aprendi a filosofar e a ler o livro de momentos de gloria em Paris, admirado e Deus, em cujo modelo corrijo os livros hu- reverenciado por muitos doutos e nobres. manos, inabilmente copiados ao bel-prazer 0 rei Luis XI11 concedeu-lhe otima c8ngrua e niio segundo o que esta no universo, livro e ele chegou a gozar dos favores do pode- original. E isso fez-me ler todos os autores rosissimo Richelieu. 0 seu falecimento ocor- com facilidade e guarda-10s na memoria, da reu em 1639, enquanto procurava em viio qua1 grande dom me fez o Altissimo, mas manter a morte distante. com suas artes muito mais ainda ensinando-me a julga-10s magico-astrologicas. com o modelo do seu original". Entre os seus numerosos escritos, re- "Eu o [Pico] consider0 um grande ho- cordamos: Philosophia sensibus demons- mem mais por aquilo que deveria fazer do trata (1591), D o sentido das coisas e da que pel0 que fez. Se bem que creio niio ape- magia (1604),Apologia pro Galileu (1616, nas nele, mas tambim em qualquer outro publicada em 1622), Epilogo magno (1604- g&nioque me seja testemunha daquilo que 1609),A Cidade d o so1 (1602),o Atheismus se aprende na escola da natureza e da arte, triumphatus (1 I),a imponente Metafisica, 63 enquanto harmonizam com a primeira a
  • 140. .. . . . 122 Primeira parte - 0t l ~ r n a n i s r n ~a R e n a s c e n c a e [AD D l VVM Y E T R V M ~ Em suas reflex6es sobre o conhecimento, que se encontram no primeiro livro da Me- ATHEISMVS TRIVMPHATVS tafisica, Campanella apresenta uma refuta- Seu qiio do ceticismo, baseando-se na autocons- REDVCTIO AD RELIGIONEM cicncia, muito considerada postumamente PER S C I E N T I A R V M V E R I T A T E S . pelos intCrpretes, que nela encontraram sur- F. T H O M X C A M P A N E L L d STYLENSIS preendentes analogias com a teoria tornada ORDINIS PRAEDICATORVM. cClebre por Descartes no Discurso sobre o metodo, que C de 1637, ao passo que a Meta- C O N T R A ANTICHRlSTl ANISMVM ACHITOPHF,LLISTlCVM . fisica de Campanella, como ja dissemos, foi Sexu Tomi Pars Prima. publicada em Paris um ano depois, mas ja havia sido elaborada alguns anos antes. A descoberta cartesiana (de que fala- remos mais longamente adiante) teria sido entiio antecipada por Campanella? As analogias com Descartes existem, mas mostram-se movidas por exigzncias di- ferentes e, sobretudo, se inserem em uma vi- siio metafisica pan-psiquista geral da reali- dade, que chega, inclusive, a se opor i de Descartes. Para Campanella, o conhecimento de si niio 6 prerrogativa do homem enquanto pensamento, mas de todas as coisas, que siio (todas elas, sem exceqiio) vivas e animadas. Frontispicio da primeira edi~ao Com efeito, para ele, todas as coisas siio do theismu us triumphatus, de Tomas Campanella. dotadas de uma "sapientia indita" ou ina- ta, pela qua1 sabem que existem e que estiio ligadas a seu proprio ser ("amam" seu pro- IdCia e o Verbo, da qua1 dependem. Mas, prio ser). Esse autoconhecimento C urn "sen- quando os homens falam como opinantes sus sui ", um auto-sentir-se. das escolas humanas, considero-os iguais e 0 conhecimento que toda coisa tem do sem sequelas, pois santo Agostinho e Lactiin- que C diferente de si C "sapientia illata", isto cio negaram os antipodas com argumentos C, aquela que se adquire no contato com as e por opiniiio, mas um marinheiro os tornou outras coisas. Cada coisa C modificada pela mentirosos ao testemunhar de visu (...)." outra e de certa forma se transforma, "alie- Filosofar, portanto, i aprender a ler "o nando-sen na outra. Quem sente niio sente livro de Deus", a criaqiio, de visu e direta- o calor, mas a si mesmo modificado pelo mente, ou melhor, como ele proprio diz, por calor; niio percebe a cor, mas, por assim di- tactum intrinsecum, tornando-se urn so com zer, a si mesmo colorido. as coisas. A conscihcia "inata" que toda coisa 0 s estudiosos realqaram freqiiente- tem de si C ofuscada pel0 conhecimento que mente o fato de que o novo significado que se acrescenta (superaddita), de mod0 que a au- Campanella confere ao conhecimento, en- toconscihcia (consequentemente) se trans- tendido sensisticamente, C simbolicamente forma quase em um sensus abditus, ou seja, express0 pela interpretaqiio que ele dii da "oculto" dos conhecimentos que sobrevem. palavra "sapihcia", que derivaria de "sa- Nas coisas, o sensus sui permanece predo- born (sapore em italiano) ("dos sabores que minantemente oculto; no homem, pode al- o gosto saboreia"). canqar niveis notiveis de consciCncia; em 0 gosto implica um tornar-se intimo Deus, se desdobra em toda a sua perfeiqiio. das coisas, pois o sabor C a revelaqiio de tudo AlCm da alma-espirito, devemos destacar o que ha de mais intimo na coisa, atraves que Campanella tambCm reconhece no ho- da uniiio com essa coisa. mem a mente incorporea e divina. TelCsio j4
  • 141. 123 Capitulo sttimo - V C r t i c e s e r e s u l t a d o s concl~zsivos o p e n s a m e n t o r e n a s c e n t i s t a do havia feito. Mas Cam~anella confere a men- Obviamente, pode-se falar tambCm dete um papel de importhcia-muitomaior, tan- "primalidades do n5o-ser", que s5o a "im-to que chega atC mesmo, segundo as doutri- potincia", a "insipiincia" e o "odio". Elasnas neoplathicas, a atribuir-lhe a capacidade constituem as coisas finitas, enquanto todade conhecer, assimilando-se ao inteligivel que coisa finita C potincia, mas n i o de tudo aqui-h i nas coisas, os modos e as formas (as idCias lo que C possivel; conhece, mas n5o conheceeternas) segundo os quais Deus as criou. tudo aquilo que C cognoscivel; ama e, ao Nessa doutrina ha um ponto que, por mesmo tempo, odeia.sua originalidade, merece particular relevo. Deus, por seu turno, C Potincia supre-0 conhecimento 6, ao mesmo tempo, perda ma, Sapiincia suprema e Amor supremo.e aquisiqio: C aquisi@o precisamente atra- Assim, em diferentes niveis, a cria@o re-vCs da perda. Ser C saber. Sabe-se aquilo que Pete o esquema trinitario. Trata-se de urna dou-se C (e aquilo que se faz): "Quem C tudo sabe trina de ginese agostiniana, que Campanel-tudo; quem C pouco, sabe pouco." Conhe- la amplia em sentido pan-psiquista.cendo, nos nos "alienamos", dilatamos nos-so ser. Eis um dos textos mais simificativos: ""[ ...I todos os cognoscentes s50 alienados doseu proprio ser, como se acabassem na lou-cura e na morte; nos estamos no reino damorte." Este tip0 de morte, porCm, em certosentido, C como o da sFmente que, justamen- Ainda urna vez partindo de Telisio ete morrendo, cresce. E um crescer no ser. E de sua doutrina da animaq5o universal dasCampanella prossegue: "E o aprender e o coisas, Campanella vai muito mais alCm,conhecer. sendo transformar-se na natureza n50 apenas se movendo na diresio concei-do cognoscivel, s5o tambCm urna espCcie de tual dos neoplat6nicos, mas a ela mesclan-morte; so o transformar-se em Deus C vida do visoes nascidas de sua vivida e densaeterna, porque n5o se perde o ser no infinito fantasia, formulando desse mod0 urnamar do ser, mas se magnifica". doutrina animistico-magica levada ao ex- tremo. Segundo Campanella, as coisas falam e se comunicam entre si diretamente. En- P metafisica viando os seus raios, as estrelas comunicam ,I. "seus conhecimentos". Ademais, os metais campanelliana: e as pedras "se nutrem e crescem, mudando a s t r s s " p r i m a l i d a d e s " d o ser o solo onde inicialmente nascem com a aju- da do sol, bem como as ervas em licor, que puxam para si pelas suas veias, onde os dia- Entendido como o entende Campa- mantes crescem em pirsmides e os cristaisnella, o conhecimento C revelador da estru- em figura cubica (...)".tura das coisas, de sua "essenciasio", como Para ele, ha plantas cujos frutos tor-diz nosso filosofo. Toda coisa C constituida nam-se passaros."pela potBncia de ser, pelo saber de ser e Ha urna "gerag50 espontinea" de to-pel0 amor de ser". dos os viventes, inclusive dos superiores, Essas s5o as "primalidades do ser", porque tudo est6 em tudo e, portanto, tudoque, de certo modo, correspondem hquilo pode derivar de tudo.que eram os transcendentais na ontologia No que se refere h arte magica, Cam-medieval. panella nela distingue tris formas: 1)a divi- A medida que pode ser, todo ente 1)C nu; 2) a natural; 3) a demoniaca."potincia" de ser; 2) alCm disso, tudo aqui- A primeira C a que Deus concede aoslo que pode ser "sabe" tambCm que C 3) e, ; profetas e santos.se sabe que C, "ama" seu proprio ser. Isso A ultima C a que se vale da arte dosprova-se pel0 fato de que, se n i o soubesse espiritos malignos, sendo condenada porque C, n i o fugiria daquilo que o prejudica e Campanella.destroi. A segunda, a natural, "6 arte pratica As tr&s "primalidades" s i o iguais em que se serve das propriedades ativas e passi-dignidade, ordem e origem: urna "imane", vas das coisas naturais para produzir efei-ou seja, esta presente na outra e vice-versa. tos maravilhosos e insolitos, dos quais, no
  • 142. 124 Primeira parte - 0t l u m a n i s m ~ a Renascenca emais das vezes, se ignoram a causa e o mod0 dos no espiritual e no temporal". 0 s princi-de provoca-10s ( ...)". pes que o assistem chamam-se Pon, Sin e Nessa linha, Campanella amplia em Mor, que significam "Potencia, Sapicncia esentido pan-magistico a magia natural, a Amor" (ou seja, representam as "prima-ponto de nela inserir todas as artes, inven- lidades" do ser), cada qua1 desenvolvendoqdes e descobertas, como a invenqi o da im- funqdes adequadas ao seu nome.prensa e da polvora, entre outras. Todos os circulos de muralhas cont&m 0 s proprios oradores e poetas en- inscriq6es, apresentando representaq6es pre-tram na relaqio dos magos: "sio magos se- cisas tanto no interior como externamente,gundos". de mod0 a fixar todas as imagens-simbolos Mas, conclui Campanella, "a maior aqio de todas as coisas e dos acontecimentos domagica do homem i dar leis aos homens". mundo. Na parte externa do ultimo circulo figuram "todos os inventores das leis, das cihcias e das armas" e, alCm disso, "em lugar de muita honra estavam Jesus Cristo fi "Cidade do Sol e os doze apostolos [..Iy. Nessa cidade, todos os bens siio co- muns (corno na Republics de Platiio). As virtudes, alCm disso, ostentam a vi- Desse modo, estamos agora em condi- t6ria sobre os vicios, tanto que s i o magis-qdes de compreender a "Cidade do Sol" e trados que presidem as virtudes e levam osseu significado: ela representa a soma das seus nomes.aspiraqdes de Campanella e verbaliza seus Por essas caracteristicas, pode-se veranseios de reforma do mundo e de liberta- que se trata de urna "cidade magican (e os dos males que o afligem, fazendo uso estudiosos apresentaram inclusive um mo-dos poderosos instrumentos da magia e da delo, em urna conhe~idaobra de magiaastrologia. Assim, t como que um cadinho intitulada Picatrix). E urna cidade cons-de motivos no aual estio contidas todas as truida de mod0 a captar toda a influenciaaspiraqdes da Renascenqa. benifica dos astros em todos os seus parti- Eis, entio, urna breve descriqio da ci- culares.dade do sol. Mas est6 presente tambim todo o cri- A cidade ergue-se sobre um vale que sol sincretista renascentista. Jii falamos so-domina vasta planicie, sendo dividida em bre a influencia de Platio. Mas, alim dis-"sete grandes circulos, denominados com o so, como diz Campanella, os habitantes danome dos sete planetas, entrando de um para cidade "louvam Ptolomeu e admiramo outro atravks de quatro estradas e quatro Copirnico" e (corno jii sabemos) %O ini-portas, situadas nos quatro respectivos i n - migos de Aristoteles, chamando-o de pe-gulos do mundo". Acima do vale, surge um dante".templo redondo, sem muralhas em torno, A filosofia que eles professam, natu-mas "situado sobre colunas grossas e bas- ralmente, C a de Campanella. Sua expecta-tante belas". A cupula tem urna cupula me- tiva messiinica i muito forte: "Acreditamnor, com urna espiral que "pende sobre o ser verdadeiro aquilo que disse Cristo sobrealtar", que esta no centro. os sinais das estrelas, do sol e da lua, que Sobre o altar, "nada mais h i do que niio parecem verdadeiros para os tolos, masum mapa-mundi bem grande, onde esta pin- que virio, como o ladrio A noite, no fimtad0 todo o c h , alCm de outro, onde est6 a das coisas. Por isso, esperam a renovaq20terra. No ciu da cupula estiio todas as maio- do seculo e talvez o fim."res estrelas do cCu. tendo inscritos os seusnomes e as virtudes aue tern sobre as coisasterrenas, com tres versos para cada urna (...),havendo sempre sete liimpadas acesas, comos nomes dos sete planetas". A cidade C dirigida por um principe-sacerdote chamado Sol, que Campanella As avaliaqdes do pensamento de Cam-indica nos manuscritos com o sinal astrol6- panella siio muito contrastantes. N i o segico, especificando que "em nossa lingua pode dizer que suas obras sejam conhecidasdizemos Metafisico". Ele i o "chefe de to- e estudadas a fundo como mereceriam.
  • 143. AlCm de sua tumultuada vida, isso tam- 0 ultimo period0 de sua vida, a fasebCm deriva do fato de que nosso filosofo, parisiense, C emblemitica. Foi homenagea-como j dissemos, representa em parte um i do por aqueles que estavam voltados parafruto que amadurecei fora de Cpoca. o passado e para o presente imediato, mas foi desprezado ou ate mesmo rejeitado por aqueles que olhavam para o futuro. 0 teologo Mersenne (1588-1648), que o encontrou e conversou longamente com ele, escreveu categoricamente: " [ ...I ele n5o pode nos ensinar nada em materia de ciin- cia." Descartes n2o quis receber a visita de Campanella na Holanda, a ele proposta por Mersenne, respondendo que tudo o que sa- bia dele ja era suficiente para fazi-lo dese- jar nada mais saber. Com efeito, Campanella era um sobre- vivente: a ultima das grandes figuras renas- centistas. Um homem que viveu sua vida sob o signo de um destino de miss50 e de total renovagiio, como ele proprio propunha sig- nificativamente neste soneto: "Nasci para debelar tris males extremos: tiranias, sofismas, hipocrisias, pel0 que me conform0 com toda a har- monia Potincia, Sabedoria e Amor que me ensi- nou Timis. Esses principios s5o verdadeiros e supremos da grande filosofia descoberta, remedio contra a trina mentira sob a qual, 6 mundo, chorando tremes.
  • 144. 126 Primeira parte - O t l u m o n i s m a e a Renascenca &y&&@qQ*Wt&. : .. .i i * CAMPANELLA OS FUNDAMENTOS DA METAF~ICA Deus i / Ente por esshcia, de mod0 eminentissimo: 1 1. PotBncia suprema / 2. Sabedoria suprema 3. Amor supremo - As trSs Primalidades divinas Da superabundiincia divina emana o Amor que i causa do Bem, e das idiias eternas de Deus deriva assim 1 , _, o ente criado (essenciado), i constituido intrinsecamente de: 1. potincia de ser i 2. saber de ser 3. amor de ser - - - as tr2s primalidades imanentes uma na outra 1 F 0 homem. Toda coisa C animada e. al&mda aha-espirito segundo o pr6prio grau de ser, possui: (substincia corporea sutilissima), a ) conhecimento de si: sapientia indita tambim possui ("inata": sensus mi) a mente incorporea e diuina, capaz de assimilar-se ao inteligivel I b) conhecimento das outras coisas: 1 sapientia illata (addita) que existe nas coisas Com efeito, enquanto nas outras coisas o sensus sui permanece prevalentemente escondido (sensus abditus), o homem pode chegar a conhecer a si mesmo e as outras coisas segundo as idCias mediante as quais Deus criou o universo
  • 145. Capitdo setimo - V&rtices e resultados conclusivos do pensamento renascentista riamos dizer multo bem que tal parte & igual a seu todo. E isto se prova com o zero ou nada, isto 6 , a dhcima figura do aritmhtica, pela qua1 se figura um 0 para esse nada; o qual, posto depois da unidade, Ihe far6 dizer dez, e se pu- sera dois depois de tal unidade, dir6 cem, e assim infinitamente crescer6 sempre dez vezes o numero onde ele for acrescentado; e ele em si ndo vale mais que nada, e todos os nadas leonordo foi grondksirno ortista e pen- do universo sdo iguais a um so nada quanto a sodor sm sentido univsrsol. €Is rsprssento sua substBncia e valor. Nenhuma investigagbo portonto, ds modo emblemdtico, o homem humana pods-se dizer verdadeira ci&ncia, se universal do Rsnoscenp ela n6o passar pelas demonstragdes matemn- Como psnsodor, laonordo n60 0 siste- ticas; e se disseres que as cl&ncias,qua princi- mdtico: seus codernos s6o fragmsntdrios s piam e terminam na mente, t&m verdade, isto frsqusntements desorgonizodos, mos con- n60 se concede, mas se nega por muitas ra- t&mpensomentos recorrsntes de notdvsl im- zdes; a0 contr6ri0, em tais discursos mentais portdncio a prC-intuig6esgsniais. ndo ocorre experi&ncia, sem a qua1 nada d6 Ss as carocteristicos definitivas do certeza de si. ci8ncio moderno n8o @st60 nala oinda ple- nornente desenvolvidos, C porCm inagd- 2. A utilidade da ci8ncia em geral, vel qus olgumos destos coroctsrktico~ fun- e da pintura em particular dornsntois porspm dslinaor-se oo msnos sm nivel embriondrio e, por vezes, j d de A ci&ncia & mais util quando seu fruto & modo bostonte cloro, como os ssguintes mais comunic6vel e, ao contr6ri0, menos util possagsns mostrom. quando d menos comunic6vel. A pintura tem seu fim comunic6vel a todas as geraq3es do univer- so, porque seu fim 6 sujeito da virtude visiva, e ndo passa pelo ouvido ao sentido comum do mesmo modo como passa pelo ver. Esta, por- Ci&ncia diz-se o discurso mental que tem tanto, ndo tem necessidade de intbrpretes deorigem de seus principios Ijltimos, dos quais em diversas linguas, como o t&m as letras, e logonatureza nenhuma outra coisa se pode encon- satisfez a esp&cie humana, de forma ndo dife-trar que seja parte dessa cihncia, como na quan- rente como sdo feitas as coisas produzidas pelatidade continua, isto 6, a cl&ncio de geometria, natureza. En6o openas a esphcia humana, masa qual, comepndo pela superficie dos corpos, os outros animais, como se manifestou em umadescobre-se como tendo origem na linha, ter- pintura representada por um pai de familia, namo desta superficie; e com isto ndo permane- qua1 eram acariciados os filhinhos beb&s, quecemos satisfeitos, porque conhecemos que a ainda estavam enfaixados, e da mesma for-linha tem seu termo no ponto, e que o ponto & ma o faziam o c6o e a goto do mesma casa,aqu~lo qua1 nenhuma outra coisa pode ser do um espet6culo tal que era coisa maravilhosamenor. 0 ponto, portanto, & o primeiro princi- de se ver.pio do geometria; e nenhuma outra coisa pode R pintura represento no sentho com moisexlstir na natureza ou na msnte humana que vsrdade s certsza as obras da natureza, do quepossa dar inicio ao ponto. Porque se falares as palavras ou as letras, mas as letras repre-qua o contato feito sobre uma superficie por sentam com mais verdade as palavras ao sen-uma ultimo acuidade da ponta da caneta & a tido, do que a p~ntura. Mas dizemos que & maiscria~do ponto, lsto n60 & verdadeiro; dire- do admirClvel a ci&nciaque representa as obras damos, porhm, que tal contato & uma superficie natureza, do que a que representa as obras doque c~rcunda seu melo, e nesse meio est6 a operodor, isto 8 , as obras dos homens, que sdoresid&ncia do ponto, e tal ponto ndo & do ma- as palavras, como a poesia, e semelhantes, quet&ria dessa superficie, nem de, nem todos os passom pela lingua humana.pontos do universo sdo em pot&ncia ainda queestivessem unidos, nem, dado que se pudes- 3. Ciincias mec6nicas e ci8ncias n60 mec6nicassem unir, comportariam parte alguma de umasuperficie. E dado que imaginasses um todo Dizem ser mecBnica a cognigdo parturidacomo compost0 de mil pontos, aqui, dividindo pela exper~&ncia, ser cientifica a que nasce ealguma parte dessa quantidade de mil, pode- e termina na mente, e ser sem1mec6nicaa
  • 146. Prirneira parte - 0 t l u m a n i s m o e a Renascencaque nasce do ci&ncia e termina na OPGTQ<~O quantidade descontinua e continua. Rqui ndomanual. Todavia, parece-me que sejam vds se arguir6 que duas vezes tr&s seja mais oue cheias de erros as ci&ncias que ndo nas- menos seis, nem que um tridngulo tenha seusceram da expsriBncia, mde de toda certeza, e 6ngulos menores do qua dois 6ngulos retos,que ndo terminam em experi6ncia conhecida, mas com eterno sil&ncio permanece eliminadaisto 6, que sua origem, ou meio, ou fim, ndo toda argui~do,e com paz sdo fruidas pelospassam por nqnhum dos cinco sentidos. E se seus devotos, o que ndo o podem fazer asduvidamos da certeza de coda coisa que mentirosas ci&ncias mentais. E se disseres quepassa pelos sentidos, com muito maior razdo tais ci&ncias verdadeiras e conhecidos s60devemos duvidar das coisas rebeldes a es- esphcies de mecdnicas, apesar de so pode-ses sentidos, como a aus&ncia de Deus e rem terminar manualmente, direi o mesmo deda alma e coisas semelhantes, pelas quais todas as artes que passam pelas mdos dossempre se disputa e briga. E verdadeiramen- escritores, que s6o esp6cie de desenho, rnem-te ocorre qua sempre onde falta a razdo su- bro da pintura; e a astrologia e as outras pas-prem os gritos, o que ndo acontece nas coisas sam pelas opsra<bes manuais, mas primeirocertas. sdo mentais como a pintura, que prlmelro exis- Por ISSO, diremos que onde se grita ndo te na mente de seu especulador, e ndo podeh6 verdadeira ci&ncia, porque a verdade tem chegar a sua psrfei~do sem a opera@o ma-um so termo que, ao ser publicado, o litigio nual; essa pintura, do quol seus cientificos epermanece para sempre destruido, e se o li- verdadeiros principios primeiro colocam o quetigio ressurge, ela B ci&ncia mentirosa e con- Q corpo sombrio, e o que Q sombra primitiva eFusa, e nBo certeza renascida. Mas as ci&n- som6ra derivativa, e o que 6 lume, ~sto , tre- 6cias verdadeiras sdo as qug a esperanp fez vas, luz, cor, corpo, figura, lugar, rsmo@o, pro-penetrar pelos sentidos e silenciam a lingua ximidade, movimento e repouso, os quais ape-dos litigantes, e que ndo alimentam de so- nas s60 compreendidos pela mente semnhos seus investigadores, mas sempre pro- operqdo manual; e esta ssr6 a c~&ncia da cedem sucessivamente sobre os primeiros p~ntura, que permanece na mente dos que averdadeiros e conhecidos principios e com contemplam, da qua1 nasce depois a opera-verdadeiras sequ&ncias at6 o fim, como ve- $10, muito mais digna do que a predita con- mos nas primsiras matem6ticas, isto 6, nu- templa<do ou ci&ncia. mero e msdida, chamodas oritm6tica s geo- Leonardo da V i m . metrla, que tratam com sumo verdade do Trotado do pmtura. I. § 1 , 3. 29. s II. § 77 Leonardo da Vzncr, estudos sohre a durqiio du per~cp+ao vrsud, dtzca, prospectrcu ( d o Cod~cc Atlcint~co). Leonardo se servza habrtuul~nente de ulna escvzturu "rnvcrtrda ", rsto e, da dzreztu para LI esquerdu, e apenas esporadzcamerztc a ein sum notas en~ontravzos escrrtuva "drrc~tiz ". A explzcaCdomurs f i c ~ iest~i fato no de que ele era curzhoto, mas na reulzdude este inodo hrz~2rro LSC vltuiil d~ correspondla a seu carater esqz4z110e s o h r r o , atento para defender-se de curzosrdudes ~tzdrscrc~tus A o espelho seus textos se lienz, salvo dzficctldades mznrmas, como qualquer outro manuscurto.
  • 147. 12 Capitdo setirno - Vkrtices do e resultados con~lusivos pensamento renascentista dos quais vemos que o mundo & constituido, atribuiram ndo a grandeza e posi~60, u se q ~ v& que obtiveram, nem a dignidade e as for- Gas, das quais vemos que sdo dotados, mas aquelas das quais teriam devido ser dotados conforme os ditames de sua razdo. Ou seja, nBo era necess6rio que os homens satisfizes- A noturszo sem a si mesmos e ensoberbecessem at6 o dsvs ssr sxplicoda ponto de atribuir (corno que antecipando a na- segundo seus principios tureza e afetando ndo so a sabedoria mas tam- b6m a pot&ncia de Deus) as coisas as pro- priedades qua eles ndo tinham visto qua eram Nests trscho, tirado do Pro&mio do De a elas inerentes, e qua, oo contrbrio, deviam rerum natura iuxta propria principia, Tsldsio ser absolutamente tiradas das coisas. Nos, por- ilustro o "outonomio"do fkico sm relogdo a que nBo tivemos tanta confiansa em nos mes- todo outro pasqu~so ndo se otsnho oos qus mos, s uma vez que somos dotados de um principios peculiores do noturszo, mos pro- engenho mais lento e de um dnimo mais d6- cure ultrapossd-10sporo indwiduor principios bil, e porque somos amantes e cultores de urna tronscendentss. No reol~dods,el@ndo sabedoria completamente humana (a qua1 n a p o sxist&ncio do tronscsndante, mos certamente sempre deve parecer que tenha coloco tudo oquilo que estt, ligodo oo chegado a0 6pice de suas possibilidades,caso tronscendente Fora da pesquisa fis~cado tenha conseguido perceber as coisas que o natureza. sentido manifestou e as que se podem ex- R sstruturo do mundo, e o grondezo e trair do semelhan<acom as coisas percebidas naturszo dos corpos qua els contbm, ndo com o sentido), nos nos propusemos a dsve ssr pssquisodo com o rozdo obstroto, pesquisar apenas o mundo e suas singulares como o Fizsrom os ontigos, mos dsve ser cop- partes e as paixbes, ag3es, opera@es e as- todo com os sentldos s tirodo dos proprios pectos das partes e das coisos nele contidas. coisos. Cada uma delas, com efeito, se corretamente observada, manifastar6 a propria grandeza, e coda uma delas sua propr~a indole, f o r ~ a e Rqueles que antes de nos pesquisoram natureza.a estrutura de nosso mundo a a natureza das Rssim, se parecer que nada de div~no ecoisas nele contidas, fizeram-no certamente que seja digno de adm1raq5o que seja tam- ecom longas vigilias e grandes fodigas, mas inu- b6m demasiado agudo se encontra em nos-tilmente, como parece. 0 que, com efeito, esta sos escritos, eles por&m ndo contrastardo denatureza pode ter revelado a eles, cujos dis- fato com as coisas ou consigo; isto 6, segui-cursos, sem excluir nenhum, ndo concordam e mos o sentido e a natureza, e nada mais; acontrclstclm com as coisas e tamb6m com si mes- natureza que, concordando sempre consigo,mos? E podemos afirmar que isto assim acon- age e opera sempre as mesmas coisas e doteceu justamente porque, tendo tido talvez de- mesmo modo. Todavia, se 0190 daquilo quemasiada conf~anp si mesmos, depois de em afirmamos ndo estivesse de acordo com aster pesquisado as coisas e suas forqx, ndo sagrodas escrituras ou com os decretos do igre-atribuiram a elas, como era necess6ri0, a gran- ja catolica, afirmamos e dsclaramos formalmen-deza, indole e faculdade de que agora se v& te que ndo deve ser mant~do, mas deve serque sdo dotadas; mas, quase d~sputando e inteiramente rejeitado. A elas, com efeito, devecompetindo com Deus em sabedoria, tendo ou- estar posposto ndo so qualquer raciocinio hu-sado pesquisar com a razBo as causas e prin- mano, mas tamb6m o proprio sentido; e se nBocipios do propno mundo, e crendo e querendo concorda com elas, at6 o sentido deve ser re-crer que haviam encontrado estas coisas que negado.ndo encontraram, construiram para si um mun- 0. TeI&s~o,do conforme seu arbitrio. Portanto, aos corpos, De rerum natura iuxto propria principia.
  • 148. Prirneira parte - 0 t l ~ m a n i s m o a R e n a s ~ e n ~ a e ndo & terminado nern termin6vel. Ndo & forma, porque ndo informa nern figura outro, admitido que 6 tudo, 6 m6ximo. & uno, & universo. Ndo & mensur6vel nem medida. Ndo se compreende, porque ndo 6 maior do que ele mesmo. Ndo & compreendido, porque nd0 & menor do que ele mesmo. Ndo se nivela, porque ndo & outro e Unidode e infinitude outro, mas uno e o mesmo. Sendo o mesmo e do univsrso uno, ndo tem ser e ser; e porque ndo tem ser e ser, ndo tem parte e parte; e pelo fato de ndo Entrs os didlogos itolionos ds Bruno, ter parte e parts, ndo 6 composto. Este & termo os mois lidos e os mois importantss 580 os de mod0 que ndo 6 termo, & talmente forma cinco qua comp6sm o Da causa, principio e que ndo 6 forma, e de talmente mathria que uno ( 1 584).R possogsm oqui rsportodo 6 ndo & matbria, & de tal modo alma que ndo 6 t~racla dldlogo V, sm qus Bruno sxalto o do alma: porque 6 o todo ~ndiferentemente, po-e unidode puro, onds todos os dstsrmina- r6m 6 uno, o universo & uno. <Gas, oo inhnito, psrdsm significodo, por- qua coinc~dsm Uno. Couso, Principio s no 2. A unidade do cosmo em sun infinitude Uno constitusm poro Bruno umo trindods em grandeza a temporalidads meromsnts concsituol, pois o Uno Q princi- Neste certamente ndo & maior a altura do pi0 s couso. que o comprimento e a profundidada; de onde, por certa semelhan<a se chama, mas ndo 6 , esfera. Na esfera o comprimento, a largura e a1. 0 universo, uno e infinito, profundidade sGo a mama coisa porque t&m o 6 imovel, inalteravel, mesmo termo; mas, no universo, 8 a mesma comp8e e resolve em si colsa a largura, o comprimento e a profundida- todas as dihrencia@es e oposig8es de, porque da mesma forma ndo t&m termo e 0 universo &, portanto, uno, infinito, imo- sdo ~nfinitas. ndo t&m meio, quadrantee e Sevel. Una, digo, & a possibilidade absoluta, uno outras medidas, se ndo h6 medida, ndo h6 tam-o ato, una a forma ou alma, una a mathria ou b&m parte proportional, nern absolutamentecorpo, una a coisa, uno o ente, uno o m6ximo e uma parte que se diferencie do todo. Porque,otimo; o qua1 ndo deve poder ser compreendi- se quiseres d i m parts do infinito, 6 precis0 diz&-do; e por isso & infind6vel e intsrmindvel, e por- la infmito; se 6 infinito, concorre em um ser comtanto infinito e interminado e, por consequ&n- o todo: o universo, portanto, & uno, infinito, im-cia, imovel. Este ndo se move localmente, partivel. E se no infinito ndo se encontra d~fe-porque ndo h6 coisa fora de si para onde se renp, como da todo e parte, e como de outrotransportar, admitido que seja o todo. Ndo se e outro, certamente o infinito b uno. Sob a com-gera; porque ndo existe outro ser que ele pos- preens60 do infinito ndo exists parte maior esa desejar ou esperar, admitido que tenhaQtodo parte menor, porque propor@o do infinito n6oo ser. Ndo se corrompe; porque ndo exlste ou- se coaduna mais uma parte o quanto se queiratra coisa no qua1 se muds, adm~tido que ele maior que outra o quanto se queira menor; po-seja toda coisa. Ndo pode diminuir ou crescer, r&m, na infinita dura~do ndo difere a hora doadmitido que 6 infin~to; qua1 como ndo se dia, o dia do ano, o ano do s&culo, o s6culo do aopode acrescentor, tambhm b aquele do qua1 momento; porque os momentos e as horas ndondo se pode subtrair, pelo fato de que o ~nfini- sdo mais que os s6culos. e ndo t&m menor pro-to n60 tam partes proporcion6veis. Ndo 6 alte- por(do aqueles do que estes em rela@o 6 eter-r6vel em outra disposigio, porque ndo tem ex- nidade. Da mesma forma no imenso ndo & di-terior, do qua1 sofra e pelo qua1 venha a ser ferente o palmo do sst6di0, o est6dio3 daafetado. W m de qua, para compreender to- para sang^;^ porque 6 proporgio do imensiddodas as contrariedades em seu ser em unidade ndo se coaduna mais para as parasangas doe conven~&ncia, nenhuma inclina@o possa ter epara outro e novo ser, ou tambhm para outro eoutro modo de ser, ndo pode ser sujeito demuta~do segundo qualidode nenhuma, nern Tanho-se presenta que, aqul. Bruno ndo Falo do Rbso-porque nele toda coisa est6 de acordo. Ndo & "pode ter contrdrio ou diverso, que o altere, luto, ou seja, da Daus, mos do cosmo como Imagam da Deus. quadronte Q matode do matoda. 3Estad~o med~dn a 185 metros. Q dmatbria, porque ndo & figurado nern figur6ve1, 4Pamsango Q med~dode 3.000 metros.
  • 149. Capitdo setimo - VLrtices e resultados conrlusivos do pensamento renascentistaque para os palmos. Portanto, infinitas horas gar, e que a circunfer8ncia ndo @st6 parte emndo sdo mais qua infinitos s&culos, e infinitos nenhuma por ser diferente do centro, ou entdopalmos ndo sdo de maior nljmero que infinitas que a circunferhcia est6 em todo lugar, mas oparasangas. h proporsdo, semelhansa, unido centro ndo se encontra enquanto & difsrentee identidade do infinito ndo mais te aproximas dela. Cis como ndo & impossivel, mas necess6-pelo fato de ser homem e ndo formiga, uma rio, que o otimo, maxima, incompreensivel &estrela e ndo um homem; porque bquele ser tudo, est6 para tudo, estd em tudo, porque,ndo mais te avizinhas por ser sol, lua, e ndo um como simples s indivisivel, pode ssr tudo, serhomem ou uma formiga; e, todavia, no infinito para tudo, ser em tudo. E assim ndo foi dito deestas coisas sdo indiferentes. E o que digo des- forrna vd qua Jupiter enche todas as coisas,tas, entendo de todas as outras coisas que sub- habita todas as partss do universo, & centrosistem particularmente. daquiio qua tern o ser, uno sm tudo a pel0 qua1 uno & tudo. 0 qual, ssndo todas as coisas e3. No cosmo uno-infinito compreendendo todo o ssr em si, tambhm faz 1-160se dikrenciam ato e pot8ncia, com que toda coisa esteja em toda coisa. e portanto nern ponto e linha, superficie e corpo 5. 0 cosmo uno-infinito 6 "multimodo multiirnico" Ora, se todas estas coisas particulares no e uno em substenciainfinito ndo sdo outro e outro, ndo sdo diferen-tes, ndo 5.60 espbcie, por necessdria consequ- Dir-me-eis, porbm: entdo por que as coi-&ncia ndo sdo nirmero; portanto, o universo 6 sas se mudam, a matbria particular se for~a paraainda uno imovel. E isto porque compreenda outras formas? Raspondo-vosque ndo & muta-tudo, e ndo sofre outro e outro ser, e ndo com- <do que procura outro ser, mas outro modo deporta consigo nem em si muta@o nenhuma; por ser. E esta & a diferenp entre o universo e asconssqij6ncia. 6 tudo aquilo qua pode ser; e coisas do universo: porque aquele compreen-nele (corno eu disse outro dia) o ato ndo & di- de todo o ser e todos os modos de ser, estasferente do pothcia. Se do pothcia ndo & di- cada uma tem todo o ser, mas ndo todos osferente o ato, 8 necessdrio que nela o ponto, a modos de ser; e ndo pode atualmente ter to-linha, a superficie e o corpo nbo se diferen- das as circunstdncias e acidentes, porque mui-ciem: porque assim tal linha d superficis, assim tas formas sdo incompossiveis em um mesmocomo a linha, movendo-se, pode ssr superfi- sujelto, ou por serem contrdrias ou por perten-cie; assim, aquela superficie movida 6 feita cor- cer a espbcies diversas; assim como ndo podepo, porque a superficie pode mover-se e, com haver um masmo suposto individual sob aciden- <seu fluxo, pode tornar-se corpo. necessdrio, tes de covalo e homem, sob dimensdss de urnaportanto, que o ponto no infinito nd0 se difs- planta e um animal. RI&mdisso, ale compreen-rencie do corpo, porque o ponto, desl~zando da todo o ser totalmente, porque extra e alhmdo ser ponto, se torna linha; deslizando do ser o infinito ser ndo h coisa que exista, ndo tendolinha, se torna superficie; deslizando do ser su- extra nem al&m; destas, portanto, cada umaperficie, ss torna corpo; o ponto, portanto, por- compreende todo o ser, mas ndo totalmente.que 6 em pothncia o ser corpo, ndo difere do porque al&m de cada uma h6 infinitas outras.ser corpo onde a potencia e o ato sdo urna Entendeis, porbm, que tudo est6 em tudo, masmesma coisa. n60 totalmente e do mesma forma em cada urn. Entendeis como toda coisa & una, mas ndo do mesma forma.4. Tudo esta em tudo e neste sentido tudo 6 uno 6. Todas as coisas est6o no universo 0 individuo ndo & diferente, portanto, do e o universo em todas as coisasdividuo, o simplicissimo do infmito, o centro docircunfer6ncia.Dai por qua o infinto & tudo aqui- Ndo Falha, porhm, quem diz ser uno o ente,lo que pode ser, & imovel; porque nele tudo 6 a substdncia e a ess&ncia; o qual, como infini-indiferente, & uno; e porque tem toda a gran- to e ~nterminado, tanto segundo a substdnciadeza e perfei~do se possa ter alhm e akm, que quanto segundo a durqdo quanto segundo a& m6ximo e otimo imenso. Se o ponto n6o dife- grandeza quanto segundo o vigor, ndo tem ra-re do corpo, o centro da circunfer&ncia, o finito zdo de principio nern ds principiado; porque,do infinito, o m6ximo do minimo, seguramente concorrendo toda coisa em unidade e identida-podemos afirmar que o universo & todo centro, de, digo mesmo ser, vem a ter razdo absolutaou que o centro do unlverso est6 em todo lu- e n60 respectiva. No uno infinito, imovel, que &
  • 150. a substdncia, que 6 o ente, se ai se encontra amultid60, o numero, qua, por ser modo e d o simbolo do divindods prssants no no-multiformidads do ente, a qua1 vem a denomi- turszo, snquonto Rctton simbolizo o ints-nor coisa por coisa, nem por isso faz que o en- lscto qus sstd sm c o p do vsrdods s dote seja mais que uno, mas multimodo e beleza divino; os mostins e os golgos, pormultiforme e multifigurado. Porhm, profunda- fim, s6o simbolos dos voli@es s dos psn-mente considerando com os fil6soFos naturals, somsntos.deixando os Iogicos em suas fantasias, perce- R transforma@io de Rctton em cocabemos que tudo o que F z diferen~a numero a e (noquilo qus procurova), e o foto da ser& puro acidente, & pura figura, & pura complei- dsvorodo por saus c6as (pansomentos s~ 6 oToda produq30, de qualquer tipo seja, 6 . voli@ss), significa que a vsrdads procu-uma altera@o, permanecendo a substdncia rodo estd em nos mesmos, e quondo dss-sempre a mssma; porque ndo & mais qua una, cobrimos isso tornomo-nos dsssjo ds nos-uno ente divino, imortal. lsto p8da ser entsndi- sos proprios pensomentos, pslo foto de vsrmos tudo s nos ossimilormos o sssedo por Pittigoras, que ndo tame a morte, masespera a mutac6o. Puderam-noentender todos I tudoos Filosofos, chamados vulgarrnente de fis~cos,que nado dizem gerar-se segundo a substdn-cia nem corromper-se, se n8o quisermos de- TANSCIO. Rssim se descreve o discurso donominar desse modo a alteraq30. lsto FOI en- amor heroico, por tender ao proprio objeto, quetendido por Salomdo, que diz "ndo hover coisa B o sumo bem, e o heroico intelecto que procu-nova sob o sol, mas aquilo que Q j6 ex~stiu ra unir-se ao proprio objeto, que & o verdadei-antes".Vedes entdo como todas as coisas es- ro primeiro ou a verdade absoluta. Ora, no pri-too no universo, e o universo est6 em todas meiro discurso apresenta toda a soma disso eas coisas; nos nele, ele em nos; e assim tudo a intenc$io, cuja ordem 6 descrita em cinco ou-concorre em perfeita unidade. Cis como n6o tros que seguern. Diz entao:devemos atormentar o espirito, eis como n60& coisa pela qua1 devamos nos espantar. Por- Rs selvas os mastins e galgos soltaque esta unidade 6 unica e estdvel, e sernpre o jovem Actbon, quando o destinoperrnanece; este uno & eterno; todo semblan- apresenta-lhe o dljbio e incauto caminho,te, toda face, toda outra coisa & vacuidade, & nos pegadas de Feras selvagens.como nada, o melhor, 6 nada tudo aquilo que w Cis entre as 6guas o mais belo busto e faceest6 fora deste uno. que ver possa o mortal e o divino, em purpura, alabastro e our0 fino G. Bruno, Da causo, princbio s uno. v&, e o grande ca~ador torna caGa. se 0cervo, que em espessos lugares dirigia os mais ligeiros passos, C raptado e por sews muitos e grandes c6es devorado. Estendo-lhemeus pensamentos como nobre presa, e ales, voltando-se, devoram-me com ferozes e cruhis mordidas. E Bruno, o "contamplo~do" o m a RctGon significa o intelecto aplicado b cap htnosls, isto t , o tornar-se um corn o Uno do sabedoria divina, 6 apreensho do beleza di- dos Nsoplot6n1cos. tornom-ss "heroico fu- vina. Ele solto os mostins s os golgos. Estes sdo ror, omor hsroico, qus sign~fico tornar-se o os mois velozes, aqueles, os mais fortes. C m o um com o objeto amado, "sndsusor-ss". efeito, a opercqao do mtelecto precede a ope- Ficino jd denominoro "furor divino" o omor ra<do do vontade; mas esta & mais vigorosa e que leva o homam o sndeusor-se, e Bru- eficaz do que aquela; ao intelecto humano 6 mais no, no obro justomsnts intitulodo Dos heroi- am6vel do que compreensivel a bondade e a cos furores, Isvo to1 idtio as sxtrGmos con- beleza divina, mas o amor & aquilo que move e sequ&ncios. impele o intelecto bquilo que o precede, como R possogem que tronscrsvsmos, e qus lanterns. As selvos, lugares incultos e sol1t6rios. sm carto ssntido contdm o matdforo sm- visitados e perscrutados por pouquissimos e, blamdtico do obro, intsrprsto o mlto ds todavia, onde ndo estao impressas as pegadas Rctton, o copdor qua viu Diono s, como de muitos homens. 0 jovsm, pouco esperto e conssqu&ncio, foi tronsformodo de copdor prbtico, como aquele cuja vida 6 breve e inst6- am cogo s diloc~rado saus c6as. Diono por vel o furor, no dfibio comlnho da incerta e am- C bigua razao e afeto desenhado na letra de
  • 151. Capitulo setimo - Vcrtices e resultados conclusivos do pensamento renascentistaPit6goras, onde se v& rnais espmhoso, inculto e por tanta beleza, torna-se presa, v&-seconver-desert0 o direito e 6rduo carninho, e por onde tido naquilo que procurova; e percebeu que doseste solta os galgos e mastins nos pegodas de cdes de seus pensarnentos ele memo vern aF~ros salvogsns, que sdo as esp&cies ~ntel~gi-ser a desejada presa, porque tendo j6 encon-veis dos conceltos ideals; que sdo ocultas, per- trado a divindade em si rnesmo, ndo era rnaisseguidas por poucos, visitadas por rarissimos, e necess6rio procur6-la fora de si.que ndo se oferecern a todos os que as procu-ram. €is entre os dguos, isto 6, espelho das no CICADA.Portanto, bern se diz que o relnosemelhangas, nos obras onde reluz a efic6c1a do de Deus est6 em nos,3e que a d~vindade habl-bondade e esplendor divino, cujas obras sBo ta em nos por meio do intelecto e da vontadesign~ficadas pelo sujeito das 6guas superiores transformados.e ~nfer~ores, estdo sob e sobre o firrnamen- queto; v& o mois belo busto e Foce, isto 6,pot&ncia TANSILIO.Exatarnente. Eis, portanto, cornoe operagdo externa qus verposso, por h6bito e Rctbon, posto corno presa de seus cdes, per-ato de conternpla<doe aplicqdo de mente mor- seguido por seus proprios pensarnentos, corretal e d~v~na, algurn homern ou deus. de e dirige os novos possos; renova-se para pro- ceder divinarnente e rnais og~lmente, &, corn isto CICADA. Creio que ndo faga cornparagdo, rnaior facilidade e corn energio rnais eficaz, amas ponha corno no rnesrno g&nero a apreen- lugores mois espsssos, aos desertos, B regidosdo divina e hurnana quanto ao rnodo de corn- de coisas incornpreensiveis; oquele que era u mpreender, que & diversissimo, mas quanto ao hornern vulgar e cornum, torna-se raro e heroi-sujeito, que 6 o rnesrno. co, tern costumes e conceitos roros, e experi- rnenta urna vida extraordin6ria. Rqui o devo- TRNSI~O.Exatamente. DIZ em purpuro, rom seus mutos e grondes c6es: aqul terminaolobastro e ouro, porque aqu~lo que na figura sua v~da segundo o rnundo louco, sensual, cegode corporal beleza & vermelho, bronco e louro, e fant6st1c0, cornega a viver intelectualrnente: ena divindade significa a pirrpura do divina po- vive urna vida de deuses, nutre-sede ambrosiat&ncia vigorosa, o our0 da sabedoria div~na, o e ernbriaga-se de n&ctar.alabastro da beleza divina, na contemplagdo G~ordano Bruno,da qua1 os pitagoricos, caldeus, plat6nicos e Dos hero~cos furores.outros, do rnelhor rnodo que podern, procurarnse elevar. V& o gronde cogodor: compreendeu,o quanto B possivel; e se tornou c o p : este ca-p d o r andava para prender e se torna presa.por causa da operagdo do mtelecto corn a qua1converte em si as coisas apreendidas. CICADA. Entendo, porque ele forrna as es-phciss inteligiveis a seu rnodo e as proporcio-na conforme sua capacidade, porque sdo rece-bidas segundo o rnodo de quern as recebe. A doutrina do conhecimento Tfl~siuo. esta caga E [&I pela operaq3o davontade, por ato do qua1 ele se converte no R doutrino componelliono do conhsci-objeto. mento & fundomentodo sobre o estruturo prl- mdr~o ente. 0 ponto de portido desto do CICADA. Entendo; porque o arnor transfor- doutrlno & o dirvida, cujo supero@o dd-sama e converte na colsa amada. TANSILIO.Bem sabes que o intelecto apre-ende as coisas inteligivelmente, isto 6 ,confor- R letrn emblemdt~co Ptdgoros, a quo1 Bruno olude. de i o V, tropdo oss~m./,ou ; sap, com o t r q o d~raito olto nome seu r n ~ d oe ~ vontade persegue as COI- ;a quose vert~col portonto, ~ndicondo drdua oscens80, e e, osas naturalmente, ou seja, segundo a razdo corn com o t r q o esquerdo mu~tolnclinndo a quose plono a.a qua1 estdo em 8 1 .Desse rnodo. Rct&on, com portonto, indicondo o vio fdc~l.aqueles pensamentos, aqueles cdes que pro- "run0 olude oqu~ pr~ncip~o Escoldsticos, segun- oo dos do o quo1 aqu~lo se raceba cognosc~t~vomente, qua Q race-curavam fora de si o bem, o sabedoria, a bele- b~do conformando-se oo receptor: "qu~dquldraclpltur adza, a fera selvagem, e no rnodo pelo qua1 che- modum recipentls recip~tu?.gou 2.1 presenga dela, raptado para fora de si 3Cf,Lucos 17.21
  • 152. Primeira parte - 0 t l ~ m a n i s m o a R e n a s c e n c a e numerosos objetos e, portanto, nos transferi- rodicolmenta palo autoconsci6ncia qua, por mos quase no ser do outro, uma vsz que o ser suo vaz, Q fundomsntodo sobre o astrutu- passivos e ser mudados C tornar-se outro; a rolidode do saber am todo ante. alma, portanto, cai no esquecimento e no 19- R alma tam um conhecimsnto inato de norencia de si porque 6 sempre sacudida pe- si masmo, o notitia indita ("sobedorio ina- las forqx do alto. to? qua, porQm, Q psrturbado a ofuscoda 0 acrescentamento do ser alheio, mdlti- pelo complaxo ds conhacimentos provenian- plo e veemente, com o proprio e ljnico ser pro- tas do sxtarior (as notitioe superadditae), duz nos entes uma evidente ignor6ncia de si transmutondo-se, ossim, am notitia abdita mesmos e permite apenas um saber escondi- (kobadorio escondido I>). do sobre si mesmo; [todavia, permanece sem- 0homam, qua pode olconpr olto ni- pre verdadeiro que] toda alma conhece a si vel de outoconsci$ncia, estd am grau de mesma com um conhecimento inato. coptar o verdade dos coisos openas quon- do sa ossimilo o alos poro antend&-los como 580, isto 8, como cousodos pala cihn- 3. Conhecimrnto e vsrdads cia de Daus. 0 conhecar 6, em suo com- R ci6ncia de Deus 6 causa das coisas; a plaxidoda, sar", a Q oo masmo tempo con- nossa, ao contrdrio, C causada; 6 causa nos . quisto a perdo. limites clas coisas excogitadas por nos. Como a verdade & dodo pelo conhecimen- to adequado entre as coisas e a alma sen- siente-inteligente, e como tal conhecimento parte das coisas, criadas e existentes e dispos- R alma conhece a si mesma com um co- tas pelo sumo Criador no modo com que devemnhecimento de presencialidade, e ndo com um ser conhecidas, deduzimos que os slgnificadosconhecimsnto objetivo, exceto sobre o plano das coisas devem ser assumidos das propriasreflaxo. € certissimo primeiro principio que so- coisas da experi&ncia, e que devem ser deter-mos e podemos, sabemos e queremos; depols, minados como sdo, e de modo nenhum segun-em segundo lugar, C certo que somos alguma do o qua a nossa razdo dita.coisa e ndo tudo, e que podemos conhecer algu- R verdade & a propria entidade da coisa,ma coisa, e ndo tudo e ndo totalmente. Depois, como ela &, e ndo como nos a imaginamos.quando do conhecimento de presencialidade Todas as coisas dizem-severdadeiras enquan-se procede aos particulares por um conhe- to se adequam ao intelecto divino, do qua1 re-cimento objetivo comec;a a incerteza, pelo fato cebem o ser; enquanto no verdada se adequamde que a alma se torna alienada, por causa a nosso intelecto, ndo sdo ditas verdadeiros,dos objetos, do conhecimsnto de si, e os obje- mas produzem em nos a verdade; nos, porbm,tos nd0 se revelam totalmente e distintamente, somos verdadeiros se conhecemos a coisa comomas parcialmente e confusamente. E, na ver- ela 6.dads, nos podemos, sabemos e queremos o 0intelecto humano ndo meda as colsas,outro porque podemos, sabemos e queremos das quais ndo & o autor; mas & medido pelasa nos mesmos. coisas, e & verdadeiro quando se assim~laa A sabedoria inere o nos pelo Autor da elas para entend&-lascomo elas s6o; e ndo denatureza, e & dado como a pot&ncia e o amor outra forrna.de ser; a ci&ncia, ao contrdrio, adquire-se aci-dentalmente atrav&s da sabedoria enquan- 4. Conhecimsnto r srrto olha os entes que exteriormente estdo dian-te de nos. Rfirmamos que a sabedoria pertence ao 0que conhecemos & minima parte diante proprio ser das coisas, e que uma coisa & sen-daquilo que ignoramos, mas saber lsto & sumotida e conhecida porque & a proprla naturezasabedoria para nos, e ela nos convida e nos cognoscente. Uma vez que a sensa(8o 6 assi-impele a aceitar o ensinamento de Deus. rnllqdo e que todo conhecimento ocorre palo fato de que a propr~a natureza cognoscente se torna o proprio conhecldo, conhecer & ser;2. "Notitia indita" r "notitia abdita" portanto, qualquer ente, se C multas coisas, 0 conhecimento de si mesrno & ~mpedi- conhece muitas coisas; se 6 poucas, conhecedo pelo conhecimento do outro; com efeito, poucas.somos gerados entre entes contrdrios, e so- 0 conhecimento sensit~vo,imag~nativo,mos passivos diante do color e do frio e da intelectivo e memorativo consists no fato de
  • 153. Capitdo setimo - V&rtices e resultados conclusivos do pensamento renascentistaque o cognoscente Q ou se torna o ser doconhecido. Portanto, real e Fundamentalmen-te conhecer 6 ser; Formalmente, por&m, se dis- n estrutura metafisicatinguem, porque o conhecer & o ser enquan- da realidadeto julgado. R metofkico ds Torn& Cornpanello sa apresento como s i n t ~ s a pensomen- do5. Aquisigtio e perda no conhecer to ds sonto Rgostinho e do da sonto To- 0valor do saber pode ser apreciado pelo rn&. Do tradigdo tomisto Componsllo re-fato de qua quanto mais sabernos, tanto mais torno o conceito de "ente" corno concsitosomos; portanto, quem C tudo, sabe tudo, e I fundamento1 paro psnsor o reolidode;quem 6 pouco, sobe pouco. rnos, urno vez que prstende fozer srnargir Sabemos apenas poucas coisas, e parci- j d nests conceito iniciol a idhio prima doalmente e imperFeitamente.[Todavia] como tor- cristianisrno, isto d, a iddla do Trindods, slenar-se muitas outras coisas por meio da passi- tambhm ss rernsts b filosofia ogostiniono,vidade da sxperihcia & o mesmo que dilator a quo1individua no hornem o triods posse,o proprio ser, isto &, tornar-se de um muitos, o nosse, vella, corno reflsxo do rnistdriosaber & coisa divina, mesmo no passivtdade trinitdrio.da exneri&ncia. I Carnpansllo sntends, portonto, o con- Conhecer e amar a si mesmo G em todo ceito de ente corno sstruturodo sagundo umaente um ato ou opera<doprimordial incessan- dioldtica interno ds trhs ospectos: pot&ncia,te. Portanto, quando o objeto move a mente sabedoria, amor, qus constituern as pi-rnovendo o espirito corporeo, ao qua1 a msnte malidodes, isto Q, os ospectos primeirk-estd unida mediante a primariedode, a ope- sirnos, do reol.r a @ ~ mente & modificada; e, enquanto daantes senti0 e amava a SI mesma essencial-mente, agora sente e ama a si acidental-mente. Com efetto, a mente & mudada actden- 1. Ser e existir ern relagiio ao entetalmente pelos objetos, os quais n8o tolhema operocdo, mas a modiFicam com aquela Dizemos que todas as coisas conv&m nopassividade; daqui provCm que a faculdade comunissimo termo de ente.cognoscitiva julga o objeto de modo a conhe- 0ente ndo pode ser definido, mas se pre-c&-lo, conhecendo ndo o objeto em si, mas c i s ~ si como aquilo que tem o ser ou aquilo porconhecendo a si proprto rnudada, por rneio que 6.da faculdade imaginativa, no objeto. A men- 0ante da experi&ncia C aquele que caite, portanto, sembre conhece a si-mesma,mas por primeiro no conhecer, e & conhecido denem sempre conhece a si mesma como mu- rnaneira confusa. No verdade, a sabedoria hu-dado. E Deus, portanto, que ndo 6 passivo m mana nbo 6 construtora da realidade, e tam-diante de nenhum objeto exterior nem ocasio- bbm ndo & Interno nas coisas, de modo a po-nalmente nem causdmente, ndo se veriFica dar conhec&-laa priori e do proprio tntarior;uma pausa no conhecer, no ver-se e no amar- & Fato que a real~dade age sobre o sujeitose; ele est6 sempre em ato no conhecimento que conhece, e este, percebendo seu ser,de si mesmo e, por meio de si, do outro. Nos, chega em segu~da saber seu significado. 0 aporbm, embora conhe<amos sempre a nos termo ente 6, portanto, o primeiro indlcs domesmos otualmente, somos mudados pelos primeiro conhecimento confuso; tomado no-objetos; portanto, parecemos soFrer pausas minalmente, significa a ess&ncia das coisas,no conhecimento de nos mesmos e somos rap- enquanto, tomado verbalmente, indica o atotados no realidade diferente de nos. de ser. [CISque entdo] todos os cognoscentes Dizemos "existir"a respeito daquelos coi-sdo alienados do proprio ser, como se termi- sas que, Fora da causa, estdo em outras e comnassem no loucura e no rnorte; nos estamos outros, como que sustentados pela For~a deno reino da morte. Estamos de Fato em uma alguma coisa.terra estrangeira, alienados de nos mesrnos; € claro que o ente como tal ndo existe;anelamos uma p6tria e nossa sede 6 junto de ele simplesmente "&", e tal "6"d dele ditoDeus. de modo essencial, e ndo existenc~al. Aqui- lo que simplesmente 6, causa de todas as & T. Componsllo. exist6ncias; existir 6 , com efeito, posterior Textos. ao sar.
  • 154. Primeira parte - 8t l u m a n i s m o e a R e n a s c e n c a2. A estrutura primalitiiria do ente outra. R sabedoria, que emana da potknc~a, nela imane: do mesma forma, tamb6m o amor R "essencia@o" 6 a constitui~do ente do imane em uma e em outra, das quais procede.intrinseca, simplicissima, primeira, por toticipa- A pothncia, a sabedoria, o amor, enquan-560 e n6o por participa@o. 0 ente 6 es- to essenciam, n6o sda tr6s coisas nem trhs en-senciado em primeiro lugar pela pothncia de tes, mas trhs momentos ontologicos da mesmaser, pela sabsdoria de ser, pelo amor de ser. realidode. [Portanto,] a sabedoria, a pothncia Estas primalidades esssnciam todo ente. e o amor sdo um principio unltdrio na a@o;Com efeito, todo ente, podendo ser, tem a po- podem d~zer-se unalidades3do uno.thncia de ser. Rquilo que pode ser, sabe ser; [Rs trks primalidades constituem o dina-se n6o percebesse ser, ndo amaria a si mesmo mismo ou] a opera<docomo ato interno Bs COI-e ndo fugiria do inimigo que o destroi, e ndo sas; as opera@es metafisicas sdo o posss, oseguiria o ante que o conserva, como o fazem nosse, e o vella.todos os entes. 0 saber emana do poder: osentes amam aquilo que sabem; portanto, to- T. Campansllo, T~xtos.dos os entes amam ser sempre e em todo lu-gar. 0 amor flui antecipadamente do sabedo-ria e do potkncla. Q "Tot~c~par" tarmo companallmo para ~nd~carco-a cada uma das primal,dades imaneQa astrvtural~dadedas tr&s pr~mal~dndes ente a do propr~o do ante; ale sa opda a "partic~par", que implco dar~va$io aoutra da qua1 procede. Ndo tem precedhnciade tempo, nem de dignidade, nem de ordem, imanentamas apenas de origem, enquanto uma vem da 3Coracterist~cns const~tut~vas unit~lr~os Erontrspicro da segunda edrp?o da ctlehre obra de Bernardrno Teltszo " D e rerum nutura luxta proprru prrncrpra", irnpressa e m Napoles e m 1587. Retrato de Tomus Campanella, (rncrsao sobre cohre), obra de Nzcolas de I,armess~n, que remonta a 1670.E s t i tza obra Academic des sclences et des arts (Bruxelas, 1682), de I. Bullart.
  • 155. GgneseCaracteristicas essenciaisDesenvolvimento na epoca moderna "Mas, senhor S/inp/cio, v~hde razo"es, vossas com ou de Ansfofe/es, e niTo com texfos e futeis aufon: dades, porgue nossos discursos se d2o acerca do mundo sensivel na"o sobre um mundo de papeL " Galileu Galilei 7 .,] na"o/hventohipofeses. Comefeifo, fudo aqui- e /O que se deduz dos fendmenos deve ser chama- do hipofese. Eas hipoteses, tanto mefahisicas como hisicas, seja de quahdades ocu/tas ou mecdnicas, n20 encontram nenhum /ugar na f7osof/h expen: menfa/ " Isaac Newton nafureza e as /e/sda nafureza estavam ocu/fas H na noife. Deus disse: h p s e Newton! E fudo for- nou-se /uz " Alexander Pope
  • 156. Capitulo oitavoOrigens e traqos gerais da revoluqiio cientificaCapitulo nonoA revoluqiio cientifica e a tradiqiio magico-hermkticaCapitulo dtcimoDe Capirnico a KeplerCapitulo dtcimo primeiro0 drama de Galileu e a fundaqiio da citncia modernaCapitulo dCcimo segundoSistema do mundo, metodologia e filosofiana obra de Isaac NewtonCapitulo dtcimo terceiroAs citncias da vida, as Academias e as Sociedades cientificas 249
  • 157. Capit~lo oitavo 0 periodo que vai de 1543, ano da publicaglo do De revolutionibus deNicolau Copernico, ate 1687, ano da publicaglo de Philosophiae naturalis princi-pia mathernatica de Isaac Newton, e geralmente indicado como periodo da "revo-lug80 cientifica". A revolug~o cientifica e um grandioso movi-mento de ideias que, a partir da obra de Copernico e Kepler, A revoluqdoadquire no Seiscentos suas caracteristicas qualificativas na obra cientifica:de Galileu, encontra seus filosofos - em aspectos diferentes - em de CopernicoBacon e Descartes, e exprime sua mais madura configuraglo na a bkwtonimagem newtoniana do universo-relogio. Nos anos que inter-correm entre Copernico e Newton muda a imagem do universo,mas mudam tambem a ideias sobre a cihcia, sobre o trabalho cientifico e as sinstituig6es cientificas, sobre a relag6es entre ciencia e sociedade e entre saber scientifico e fe religiosa. Copernico desloca a terra - e com a terra o homem - do ~ l ~ ~ ~ t e r r acentro do Universo. A terra n l o 6 mais o lugar privilegiado da do centrecriag%o, lugar designado por Deus a um homem concebido como o do universeo ponto mais nobre e mais elevado da criaglo. + 5 1.2 Muda a imagem do mundo, muda a imagem do homem,muda lentamente a imagem da ciencia. A cigncia n l o sera mais A cienciaa intuiglo privilegiada do mago ou astrologo singular nem o ndo e maiscomentario ao filosofo ou ao medico que disse "a verdade"; urn discursoa ciencia n l o sera mais um discurso sobre "o mundo de pa- sobrepel", mas sera um discurso sobre o mundo da natureza; um Odiscurso dirigido a obtenglo de proposig6es verdadeiras, ex- $ [ ~ ~ 1"perimentalmente e portanto publicamente controlaveis sobreos fatos. 0 trago mais caracteristico da ciencia moderna e a ideia de metodo, e maisespecificamente de metodo hipotetico-dedutivo. Tornam-se necessarias hipote-ses como tentativas de solugao de problemas; hipoteses das quaisse deduzem conseqiihcias experimentais publicamente contro- AindependenciaIaveis. 6 a ideia de ciencia metodologicamente controiada e pu- da cienciablicamente controlavel que, de um lado, exige as novas insti- em relacdotuiqbes - sedes de discuss6es, confrontos e controles - como as a filosofjaacademias e os laboratorios, e de outro funda a autonomia da e a feciencia em relaglo a fe; dai o desencontro com a lgreja e o "caso + §Galileu". A ciencia A revoluglo cientifica leva a rejeiglo das pretensdes hdagaessencialistas da filosofia aristotelica. A ciencia galileana ndoasubst;inciae pos-galileana n l o indaga sobre a substdncia, e sim sobre fUnq,-,a funqiio. -+ 3 1.5
  • 158. 0 pressuposto A rejei@odo essencialismo aristotelico n%o significa que o filosofico: process0 da revolu@ocientifica seja privado de pressupostos fi- o Deus que losoficos. Basta aqui recordar que o tema neoplatiinico de um geometriza Deus que geometriza e que cria um mundo, imprimindo nele -+§ 1.6 uma ordem matematica e geometrical e uma idPia que atravessa a pesquisa de Copernico, a de Kepler e a de Galileu. A tradiq50 Dentro do processo que leva a ci6ncia moderna a histo- mdgica e a hermetica riografia mais atualizada p6s em relevo a importante presenGa 4 2 1.7 da tradic;%omagica e da hermetica. E todo caso, a forma@o de novo tipo de saber - pllblico, controlBvel, mprogressivo e fruto de colabora@o-, que para validar-se necessita dg continuocontrole da prdxis, isto el da experi@ncia, requer novo tip0 de douto; o novo douto n%o nem o mago, nem o astrologo, nem o professor medieval e Novo tipo comentador de textos antigos; o novo douto e o cientista expe- de saber rimental moderno, que usa instrumentos sempre mais precisos, e nova figura e que consegue fundir a "teoria" com a "tecnica"; e o pesquisa- de "douto" -+ 3 1 .I 1 dor que conwlida teorias com experimentos realizados por meio de operaq6es instrumentais com e sobre objetos. A ciPncia Sustentou-se que a ciCncia moderna teria nascido corn os moderna: artesaos e depois teria sido retomada pelos cientistas. a reaproximaq50 Uma segunda tese afirma, ao contriirio, que a ciCncia foi entre tecnica feita justamente pelos cientistas. e saber A pergunta "quem criou a ciCncia?", a resposta mais plausi- + 3 11.2 vel P a de Koire: foram os cientistas que criararn a cigncia, mas esta s desenvolveu porque encontrou uma base tecnolcjgica de e maquinas e instrumentos. 0 s traqos A ciiincia e obra dos cientistas, e a ciCncia experimental mais salientes encontra confirmar;%o por meio dos experimentos. da ciPncia A revolug%o cientifica e nova forma de saber, diferente do moderna saber religioso, astrol6gico e tecnico-artesanal. 0 "cientista" nao -3 5 11.3 e mais o douto que sabe o latim, mas pertence a uma sociedade cientifica, a uma academia. A fun@o 0 nexo entre teoria e pratica, entre saber e tecnica propi- cognoscitiva cia um feniimeno ulterior que acompanha o nascimento e o de- dos instrurnentos senvolvimento da ciencia moderna, isto el do crescimenta da cientificos instrumentac;%o. -+ § 11.4 No decorrer da revolu@ocientifica os instrumentos entram com fun@o cognoscitiva dentro da cihcia: a revolug;%o cientifi- ca sanciona a legalidade dos instrumentos cientificos.
  • 159. 141 Capitulo oztavo - Orige~s tra~os e gerais d a revoluc&o cientifica I. j revoIuG2io cientifica: o que muda com ela C o m o a imagem A transiqiio de um paradigma em crise para um novo [...I 6 uma reconstruqiio do campo do u n i v e r s o m u d a sobre novas bases [...I. 0 pr6prio Cop6rnic0, no prefacio ao De revolutionibus, escrevia que a tradiqiio astron6mica que havia her- 0 periodo de tempo que vai mais ou dado terminara por simplesmente criar ummenos da data de publicaqiio do De revolu- monstro. Desde o inicio do sCc. XVI, ostionibus de Nicolau CopCrnico, isto 6, de melhores astr6nomos da Europa em nume-1543, B obrdde Isaac Newton, Philosopbiae ro sempre crescente reconheciam que onaturalis principia matbematica, publicada paradigma da astronomia niio conseguirapela primeira vez em 1687, hoje C comu- resolver seus problemas tradicionais. Estemente apontado como o periodo da "revo- reconhecimento preparou o terreno sobre oluqiio cientifica". Trata-se de um poderoso qua1 foi possivel a CopCrnico abandonar omovimento de idCias que adquire no sCculo paradigma ptolemaico e elaborar um novo".XVII suas caracteristicas determinantes na Elemento detonador desse process0 deobra de Galileu, que encontra seus filosofos idCias foi certamente a "revoluqiio astron6-- em aspectos diferentes - nas idCias de mica", que teve seus representantes maisBacon e Descartes e que depois encontrara prestigiosos em Copirnico, Tycho Brahe,a sua expressiio clhssica na imagem newto- Kepler e Galileu, e que iria confluir para aniana do universo concebido como maqui- "fisica classican de Newton. Nesse perio-na, ou seja, como um relogio. do, portanto, muda a imagem do mundo. 0 epistemologo Thomas Kuhn em A Peqa por pega, trabalhosa, mas progressi-estrutura das reuolup5es cientificas escreve:" 0 s exemplos mais evidentes de revoluq6escientificas s5o os famosos e~is6dios de- dosenvolvimento cientifico que ja no passadoforam frequentemente indicados como re-voluq6es [...]: reviravoltas fundamentais dodesenvolvimento cientifico ligadas aos no-mes de CopCrnico, de Newton, de Lavoisiere de Einstein. Esses etisodios mostram emque consistem todas as revoluq6es cientifi-cas. mais claramente do aue muitos outrosepisodios, ao menos quanto ao que se refe-re ii historia das cihcias fisicas. Toda revoluqiio tornou necessario oabandon0 por parte da comunidade de umateoria cientifica uma vez honrada, em favorde outra, incompativel com ela; produziu,consequentemente, uma mudanga dos pro-blemas a propor B pesquisa cientifica e doscritirios segundo os quais a profissiio esta-belecia o que se deveria considerar comoproblema admissivel ou como sua soluqiiolegitima [...I. Quando os paradigmas mu-dam, o proprio mundo toma novas direq6es.Mas o fato ainda mais importante C que,durante as revoluc6es. os cientistas Gem > 2 CracBvia, em uma incis20 tiradacoisas novas e diversas tambim quando do Liber Chronicarum (Nuremberg, 149.3).olham com os instrumentos tradicionais nas Copernico estudou na cdebre universidadedireq6es em que haviam olhado antes [...I. desta cidade.
  • 160. 142 Segunda parte - A revoIus~oc~entifisa Esta imagem que representa o sistemu de Copdrnico d tirada de Andre Cellari, Harmonia macroc6smica, 1660. A reuolu@o copernicana, de carater ustroncirnico, tomou-se uma especie de emblema da reuolu@o cientifica em geral.vamente, caem por terra os pilares da cos- pio de inircia; Newton, corn sua teoriamologia aristotilico-ptolemaica: assim, por gravitacional, unificaria a fisica de Galileuexemplo, Copirnico coloca o sol no centro com a de Kepler; com efeito, do ponto dedo mundo, ao invis da terra; Tycho Brahe, vista da mechica de Newton, pode-se di-mesmo sendo anticopernicano, elimina as zer que as teorias de Galileu e de Kepleresferas materiais que, na velha cosmologia, constituem boas aproximaq6es a certos re-teriam arrastado os planetas com seu movi- sultados particulares obtidos por Newton.mento, e substitui a idiia de orbe (ou esfe- Entretanto, durante os cento e cinqiien-ra) material pela moderna idiia de 6rbita; ta anos que decorrem entre Copirnico eKepler apresenta uma sistematizaqso mate- Newton, nso 6 apenas a imagem do mundomatica do sistema copernicano e realiza a que se transforma. Vinculada a essa trans-revolucioniria passagem do movimento cir- formagso, esta a mudanga - que tambkmcular ("natural" e "perfeito", na velha cos- foi lenta e tortuosa, mas decisiva -das idti-mologia) para o movimento eliptico dos as sobre o homem, sobre a cidncia, sobre oplanetas; Galileu mostra a falsidade da dis- homem de cidncia, sobre o trabalho cienti-tingso entre fisica terrestre e fisica celeste, fico e as institui~6es cientificas, sobre as re-fazendo ver que a lua k da mesma natureza la~oes entre cidncia e sociedade, entre cidn-que a terra e, entre outras coisas, cria novos cia e filosofia e entre saber cientifico e fefundamentos corn a formulaqso do princi- religiosa.
  • 161. 143 Capitulo oitavo - Origens e t r a ~ o s gerais d a revoluc80 cienfif~ca t e r r a n&o & mais explicitar com clareza absoluta -niio C mais a intuiqiio privilegiada do mago ou astrolo- o centro d o universo: go iluminado, individualmente, nem o co- conseqG&ncias filosbficas mentario a um filosofo (Aristoteles) que dis- desta "descoberta" se "a" verdade e toda a verdade, isto C, n5o 6 mais um discurso sobre "o mundo de pa- pel", mas sim investiga~iio discurso sobre e Copernico desloca a terra do centro do o mundo da natureza.universo e, com ela, o homem. A terra niio Essa imagem de ciincia niio surge todaC mais o centro do universo, mas um corpo pronta, de uma vez, mas emerge progres-celeste como os outros; ela, precisamente, sivamente de um tumultuado cadinho deniio C mais aquele centro do universo cria- conceps6es e idiias em que se entrelaqam edo por Deus em fungi50 de um homem con- entrecruzam misticismo, hermetismo, astro-cebido como o ponto mais alto da criaqiio, logia, magia e, sobretudo, tematicas da fi-em funqiio do qua1 estaria todo o universo. losofia neoplat6nica. Trata-se de um pro- E se a terra niio C mais o lugar privile- cesso verdadeiramente complexo, que, comogiado da criaqiio e se ela niio C diferente dos diziamos, encontra seu resultado mais cla-outros corpos celestes, entiio niio poderia ro na funda@o galileana d o metodo cienti-haver outros homens tambCm em outros fico e, portanto, na autonomia da ciinciaplanetas? E, ocorrendo isso, como poderia em relaqiio as proposiq6es de ft e as con-resistir a verdade da narraqiio biblica sobre c e p ~ o e filosoficas. 0 discurso qualifica-se sa descendincia de todos os homens de Adso enquanto tal porque -como disse Galileue Eva? E como i que Deus, que desceu nesta -procede com base nas "experiincias sen-terra para redimir os homens, poderia ter satas" e nas "demonstraqoes necessarias".redimido outros eventuais homens? AKexperiincia"de Galileu C o "experimen; Essas interrogaqoes ja se haviam pro- to". A ciBncia e ciincia experimental. Eposto com a descoberta dos "selvagens" da atravCs do experiment0 que os cientistasAmCrica, descoberta que, alCm de levar a tendem a obter proposip5es verdadeirasmudanqas politicas e econijmicas, tambim sobre o mundo, ou melhor, proposiqdesproporia inevit5veis questoes religiosas e an-tropoldgicas a cultura ocidental, colocando-a diante da "experiincia da diversidade". Equando Bruno rompe os limites do mundo,tornando o universo infinito, o pensamentoocidental encontrou-se na premtncia de bus-car nova morada para Deus. f cigncia torna-se saber experimental Mudando a imagem do mundo, mudatambCm a imagem do homem. Mas tam-bCm, progressivamente, muda a imagem dacitncia. A revoluqiio cientifica niio consiste so-mente em adquirir teorias novas e diferen-tes das anteriores sobre o universo astron6-mico, sobre a dinimica, sobre o corpo Copermco ( 1 473-1 543)humano ou, talvez, sobre a composiqiio da e u m dos representantes ~ U I prestlgtosos Sterra. du "reuolu@io ustroizdmrcu": e h afirma que a terra niio d mats o centro d o unwerso, Ao mesmo tempo, a revoluqiio cienti- mas urn corpo celeste como o s outros;fica C revoluqiio da idCia de saber e de citn- cat, portanto, a teorra da terracia. A cihcia - e esse 5 o resultado da re- consrderadu centro d o unlverso crlado por Deusvoluqiio cientifica, resultado que Galileu iria em f u n ~ a odo homem.
  • 162. 144 Segunda parte - $ r e v o I u G ~ o cientificasempre vais verdadeiras, mais amplas e po- mesmo. 0 saber de Aristoteles C "pseudo-derosas, e publicamente controlaveis sobre filosofia" e a Escritura niio tem a funqiio deos fatos. nos informar sobre o mundo, mas C palavra de salvaq5o que apresenta um sentido para a vida dos homens. I f cigncia n60 & saber de ess&ncias 0 traco mais caracteristico desse fen6-meno aue C a cizncia moderna resume-seprecisakente no metodo, que, por um lado,exige imagina~iio criatividade de hipote- e Juntamente com a cosmologia aristo- tClica, a revolu~20 cientifica leva a rejeiq2oses e, por outro lado, o controle publico das categorias, dos principios e das preten-dessas imaginagdes. Em sua esshcia, a c i h - sdes essencialistas da filosofia aristotilica.cia 6,publica - e o C por questdes de mCto-do. E a idtia de cihcia metodologicamen- 0 antigo saber pretendia ser saber de ess8n-te regulada e publicamente controliivel que cias, ciCncia feita de teorias e conceitos defi-exige as novas instituiqdes cientificas, como nitivos. Mas o processo da revoluq50 cien- tifica confluira para a idCia de Galileu, queas academias, os laboratories, os contatos afirma que buscar as esshcias C empresainternacionais (basta pensar em todos os impossivel e v5.epistolarios importantes). E t com base no mitodo experimen- A cihcia, portanto, assim como ela se configura ao fim do longo processo da re-tal que se funda a autonomia da ci8ncia: voluq5o cientifica, niio estii mais voltadaesta encontra suas verdades independente- para a esshcia ou substincia das coisas e dosmente da filosofia e da ft. Mas tal indepen- fenGmenos, mas para a qualidade das coi-dcncia niio tarda a se transformar em con- sas e dos acontecimentos de mod0 objetivof r o n t ~ que, no "caso Galileu", torna-se , e, portanto, sendo comprovaveis e quan-tragCdia. tificiveis publicamente. N5o C mais o que, Quando CopCrnico tornou publico o mas o como; n5o i mais a substiincia, masseu De revolutionibus, o teologo luterano sim a fun@io, que a citncia galileana e p6s-Andri Osiander apressou-se em escrever galileana passaria a indagar.um Prefacio sustentando sue a teoria co-pernicaka - contraria a ~ ~ s r n o l o gconti- iada na Biblia - niio deve ser consideradacomo descri@o verdadeira do mundo, mas Press~~ostos filosbficosmuito mais como instrumento para fazerprevis6es. da cizncia moderna Esta seria tambCm a idiia sustentadapel0 cardeal Belarmino em rela~iio defesa ado copernicanismo realizada por Galileu. Se o processo da revoluqiio cientifica CLutero, Melanchton e Calvino iriam se opor tambCm um processo de rejeiqiio da filoso-duramente 5 concepqiio copernicana. E a fia aristotilica, niio devemos em absolutoIgreja catolica processou duas vezes Galileu, pensar que ele careqa de pressupostos filo-que seria condenado e forqado a abjuraqiio. sdficos. 0 s artifices da revoluq2o cientifica,Entre outras coisas, estamos diante de um de varios modos, tambCm estiveram ligadosconfront0 entre dois mundos, entre dois ao passado, referindo-se, por exemplo, amodos de ver a realidade, entre duas ma- Arquimedes e Galeno.neiras de conceber a ci2ncia e a verdade. Para A mistica do sol, tanto hermktica comoCopCrnico, Kepler e Galileu, a nova teoria neoplat6nica, por exemplo, domina a obraastron6mica n2o e mera suposi@o mate- de Coptrnico e a de Kepler, podendo sermatica nem simples instrumento de calcu- encontrada na de Harvey. E o grande temalo, embora util para melhorar a feitura do neoplat6nico do Deus que geometriza e que,calendario, mas sim uma descri@o verda- criando o mundo, cria-o imprimindo neledeira da realidade, obtida atravis de um mi- uma ordem matematica e geomitrica que otodo que niio esmola garantias fora de si pesquisador deve procurar, C um tema que
  • 163. 145 Capitulo oitavo - Orisens e tracos gerais d a r e v o l ~ l ~ irientifica ioatravessa grande parte da revoluqiio cienti- remos, tinha seus mCritos) niio tanto porfica, como a pesquisa de CopCrnico, de Ke- desertar a experihcia, mas muito mais porpler ou de Galileu. &-la traido, corrompendo as fontes da cicn- cia e despojando a mente dos homens. E, da mesma forma, os astrologos reagiram violentamente ao "novo sistema do mun- do". Com as descobertas de Galileu, o mun- do tornou-se maior, e a quantidade de cor- pos celestes fez-se muito mais numerosa, de mod0 imprevisto e de maneira conside- Assim, podemos dizer com certa cau- ravel. Esse fato convulsionava os funda-tela que o Neoplatonismo constitui a "fi- mentos da astrologia. E os astrologos se re-losofia" da revolu~iiocientifica. De todo belaram.modo. ele r e ~ r e s e n t acertamente o Dres- A proposito do assunto, eis trechos desu~osto metafisico do eixo da revoluciio uma carta d o mecenas napolitano G. B.cientifica, vale dizer, da revoluqiio astro- Manso, amigo de Porta, a Paulo Beni, leitornBmica. Entretanto, as coisas siio ainda de grego no estudio de Padua, que o puseramais complexas do que aquilo que expu- a par das incriveis descobertas feitas porsemos at6 agora. Com efeito, a historio- Galileu com a luneta: "[ ...I escreverei tam-~ r a f i arecente e mais atualizada destacou bim de uma aspera querela, que me foi fei-:om abundhcia de dados a relevante me- ta por todos os astrologos e por grande par-senqa da tradiqiio migica e hermitic; no te dos mCdicos, os quais entendem queinterior do processo que levou a cicncia mo- foram acrescentados tantos novos planetasderna. aos primeiros ja conhecidos que lhes parece Naturalmente, houve aqueles que, co- que, necessariamente, isso arruine a astro-mo Bacon ou Robert Boyle, criticaram a ma- logia e derrube grande parte da medicina,gia e a alquimia com toda a dureza possi- ja que a distribuiqiio das casas do zodiaco,vel, ou aqueles que, como Pierre Bayle, as dignidades essenciais dos signos, a quali-investiram contra as superstiq6es da astro- dade das naturezas das estrelas fixas, a or-logia. Mas, em todos os casos, a magia, a dem das interpretaqdes, o govern0 da idadealquimia e a astrologia siio ingredientes ati- dos homens, os meses da formaqiio do em-vos do processo que foi a revoluqiio cienti- briiio, as raz6es dos dias criticos, bem como fica. Como tambCm o foi a tradiqiio hermC- centenas e milhares de outras coisas quetica, isto C, aquela tradiqiio que, referindo-se dependem do numero setenario dos plane- a Hermes Trismegisto (recordamos que o tas, seriam todos destruidos desde seus fun- Corpus Hermeticurn fora traduzido por d a m e n t ~ ~ . " realidade, a progressiva Na Marsilio Ficino), tinha como principios fun- afirmaqiio da visiio copernicana do mundo damentais o paralelismo entre o macro- reduzira sempre mais o espaqo da astrolo- cosmo e o microcosmo, a simpatia c6smica gia. Mas ela teve de lutar tambern contra a e a concepqiio do universo como um ser astrologia. vivo. Dizemos tudo isso para mostrar que N o curso da revoluqiio cientifica, al- a cisncia moderna, autBnoma em relaqiio guns temas e ideias magicos e hermtticos, a fe, publica nos controles, regulada por devido ao context0 cultural diferente em clue um mCtodo, corrigivel e em progresso, com vivem ou revivem, se tornariam funcionais uma linguagem especifica e clara e com suas para a ggnese e o desenvolvimento da cisn- instituiqdes tipicas, foi resultado de um cia moderna. Mas isso nem sempre era pos- longo e tortuoso processo em que se entre- sivel ou nem sempre ocorreu. Em suma, a laqam a mistica neoplatBnica, a tradiqiio revoluqiio cientifica avanqou por um mar de hermCtica, a magia, a alquimia e a astro- idCias que nem sempre ou nem sempre com- logia. ~letamente mostraram-se funcionais ao de- Em suma, a revoluqiio cientifica niio senvolvimento da citncia moderna. Assim, foi marcha triunfal. E quando relaciona- por exemplo, enquanto CopCrnico se refe- mos e pesquisamos seus fil6es "racionais", ria i autoridade de Hermes Trismegisto niio devemos deixar de atentar tambem (alCm da autoridade dos neoplat6nicos) para para as eventuais contrapartidas misticas, legitimar seu heliocentrismo, ja Bacon cen- magicas, hermeticas e ocultistas desses sura Paracelso (que, no entanto, como ve- fil6es.
  • 164. 14 Segunda parte - A reuoIui~o iientifica- 11. $ formaG&o de novo tip0 de sabev, - que requev a uni&o de ciSncia e tkcnica fi revoIuC&o c i e n t i f i c a douto freqiientemente opera fora (se n i o at6 mesmo contra) das velhas instituiq6es do c r i a o cientista saber, como as universidades. Antes do period0 de que estamos tra- tando, as artes liberais (o trabalho intelec- tual) eram distintas das artes mechicas. 0 resultado do processo cultural que Estas eram "baixas" e "vis"; implicando opassou a ser denominado "revoluqio cien- trabalho manual e o contato com a mate-tifica" foi uma nova imagem do mundo que, ria, identificavam-se com o trabalho servil.entre outras coisas, prop& problemas reli- As artes meciinicas eram consideradas in-giosos e antropologicos n i o indiferentes. Ao dignas de um homem livre. Mas, no proces-mesmo tempo, representou a proposta de so da revoluqio cientifica, essa separaqionova imagem da ciincia: aut6noma, publi- foi superada: a experiincia do novo cientis-ca, controlavel e progressiva. ta 6 o experimento - e o experimento exi- Mas a revoluqio cientifica foi, preci- ge uma strie de operaq6es e medidas.samente, um processo: um processo que, Assim, fundem-se numa so coisa o no-para ser compreendido, deve ser dissecado vo saber e a uniio entre teoria e pratica, queem todos os seus comDonentes. inclusive a freqiientemente resulta na cooperaqio en-tradiqiio hermCtica, a alquimia, a astrologia tre cientistas, por um lado, e tCcnicos e ar-ou a magia, posteriormente abandonadas tesios superiores (engenheiros, artistas, hi-pela ciincia moderna, mas que, bem ou mal, draulicos, arquitetos etc.), por outro. Foi ainfluiram sobre sua ginese ou, pel0 menos, pr6pria idtia do saber experimental, publi-sobre seu desenvolvimento inicial. E preci- camente controlavel, que mudou o status dasso, contudo, ir mais alCm, j i que outra ca- artes mechicas.racteristica fundamental da revolucio cien-tifica t a formaciio de um saber -a ciincia.precisamente - que, ao contririo do sabermedieval, reune teoria e pratica, ciincia e A revoluG&o c i e n t i f i c a :tecnica, dando assim origem a um novo tip0 f u s ~ d a t&cvica o COM? o s a b e rde "douto", bem diferente do filosofo me-dieval, do humanista, do mago, do astrolo-go, ou tambtm do artesio ou do artista da Sustentou-se que a ciincia moderna,Renascenca. isto 6, o saber de carater publico, coopera- Esse =nova tip0 de douto gerado pelarevoluqio cientifica, precisamente, n i o 6 tivo e progressivo teria nascido primeiro com os artesios superiores (navegantes, en-mais o mago ou o astrologo possuidor de genheiros de fortificaq6es, tCcnicos das ofi-um saber privado ou de iniciados, nem o cinas de artilharia, agrimensores, arquitetos,professor universitario comentador e inter- artistas etc.) para depois influir na transfor-prete dos textos do passado, e sim o cientis- maqio das artes liberais.ta fautor de nova forma de saber, publico, Contra esta tese se disse que a ciinciacontroliivel e progressivo, isto C, de uma n i o foi feita pelos artesiios e pelos engenhei-forma de saber que, para ser validado, ne- ros, mas justamente pelos cientistas, porcessita do continuo controle da praxis, da Calileu, Kepler, Descartes etc. Esti t a teseexperiincia. A revolu@o cientifica cria o do historiador da ciincia A. Koyrt, o qua1cientista experimental moderno, cuja expe- sustentou que a nova balistica n i o foi in-riincia e o experimento, tornado sempre ventada por operarios e artilheiros, mas con-mais rigoroso por novos instrumentos de tra eles, e que Calileu n i o aprendeu sua pro-medida, cada vez mais precisos. E o novo fissio das pessoas que trabalhavam nos
  • 165. Capitulo oitavo - Origens e t r a ~ o s gerais d a revoluGdo cientificaarsenais e nos canteiros de obras de Veneza, Mas ela surgiu e se desenvolveu tambemmas que, ao contrario, ele a ensinou a eles. porque encontrou toda uma base tecnolo-E. de fato. niio foram os tCcnicos do arsenal gica, toda uma sCrie de maquinas e instru-que criaram o principio de inircia. mentos que constituiam quase que uma ba- Claro, Galileu ia ao arsenal e, como se natural de testes, oferecendo tCcnicas deele proprio diz, o coloquio com os ticnicos comprovaqiio e talvez at6 propondo novos,do arsenal "muitas vezes ajudou-me na in- profundos e fecundos problemas. Galileuvestigaqiio da raziio de efeitos niio apenas niio aprendeu a dinimica com os ticnicosmaravilhosos. mas tambCm r e c h d i t o s e do arsenal, assim corno, mais tarde, Darwinquase imprevistos". As ttcnicas, os acha- niio aprendera a teoria da evoluqiio com osdos e os processos presentes no arsenal aju- criadores de animais. Mas, da mesma for-daram a reflexiio tedrica de Galileu. E pro- ma como Darwin falava com os criadores,puseram novos problemas para ela: "E tambim Galileu visitava o arsenal. E esseverdade que, por vezes, at6 deixou-me con- fato niio C de somenos importincia. 0 tCc-fuso e desesperado de saber como penetrar nico C aquele que sabe que e7 amiude, sabee seguir aquilo que, longe de toda opiniiio tambCm como. Mas C o cientista que sabeminha, o sentido demonstra-me ser verda- por que. Em nossos dias, um eletricista sabedeiro." muitas coisas sobre as aplicaq6es da corrente Foram os oculistas que descobriram o elCtrica e sabe como implantar um sistema,fato de que duas lentes, dispostas de mod0 mas que eletricista conhece por que a cor-adequado, aproximam as coisas distantes, rente funciona do mod0 como funciona oumas niio foram os oculistas que descobri- sabe alguma coisa sobre a natureza da luz?ram por que as lentes funcionam assim. Eniio foi nem mesmo Galileu. Para isso. foiprecis0 Kepler: foi ele quem compreendeuas leis de funcionamento das lentes. Como fi cizncia ~ o d e r n atambCm niio foram os tCcnicos que escava- r&ne teoria e p k t i c avam p o ~ o s compreenderam por que a queagua das bombas niio subia alCm dos dezmetros e trinta e seis centimetros. Foi ~ r e c i - Em seus Discursos acerca de duas no-so Torricelli para demonstrar que a altura vas cizncias, Galileu escreve: "Parece-me quemaxima de trinta e quatro pis (= 10,36 a pratica freqiiente do vosso famoso arsenal,metros) para a coluna dagua no interior do senhores venezianos, p6e um amplo campocilindro revela simplesmente a press50 total de filosofar aos intelectos especulativos,da atmosfera sobre a superficie do pr6prio particularmente aquela parte que envolve aPOSO. mecinica, B medida que, aqui, toda sorte de E quantos eximios navegantes n i o ti- instrumentos e maquinas C posta em movi-veram de lutar contra as altas e baixas ma- mento por grande numero de artifices, entrerks? E, no entanto, so com Newton chegou- os quais, pelas observaqdes feitas por seus an-se a uma boa teoria das marks (embora tecessores e por aquelas que, por sua propriaKepler ja a houvesse roqado; note-se, po- percepqiio, sem cessar eles proprios conti-rCm, que Galileu dera-lhe explicaqio equi- nuam fazendo, forqosamente encontramosvocada). Eis, portanto, duas teses sobre o alguns muito peritos e de finissirno discur-fato da reaproxima@o entre tLcnica e sa- SO." E entre estes "homens muito peritos e deber. entre artes5o e intelectual. fen6meno finisismo discurso" devemos lembrar tam-tipico da revoluqiio cientifica. Pois bem, nos bCm Brunelleschi, Ghiberti, Piero della Fran-pensamos que essa aproximagiio, at6 mes- cesca, Leonardo, Cellini; como tambCm Leonmo a fusiio da tCcnica com o saber, consti- Battista Alberti, Valturio de Rimini (autortuem a propria ciihcia moderna. Uma c i h - de urn livro sobre maquinas militares), Bi-cia que se baseia no experimento, por si ringuccio (autor de uma Pirotecnia) etc.mesma, exige as tecnicas de comprova@o, A cihcia C obra dos cientistas. A ciEn-as operaq6es manuais e instrumentais que cia experimental convalida-se atravCs dosservem para controlar uma teoria, sendo as- experimentos. Estes se realizam mediantesim saber unido B tecnologia. tCcnicas de teste resultantes de operaq6es Mas, entiio, quem criou a citncia? A res- manuais e instrumentais com e sobre osposta mais plausivel parece-nos a de KoyrC: objetos. A revoluqiio cientifica 6 precisamen-foram os cientistas que criaram a cihcia. te aquele processo historic0 do qua1 decor-
  • 166. 14 Segunda parte - A V ~ V O I U cieniificv ~~Ore a ciincia experimental, vale dizer, urna cia moderna acom~anham-se subito cres-