Psicossomatica e Cancer

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trabalho apresentado no curso de Especializaçao em Psicossomàtica

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Psicossomatica e Cancer

  1. 1. UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS - UNISINOS UNIDADE ACADÊMICA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOSSOMÁTICA MARIAN FESTUGATO DE SOUZA CÂNCER: UMA VISÃO PSICOSSOMÁTICA PORTO ALEGRE 2009
  2. 2. UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS - UNISINOS UNIDADE ACADÊMICA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOSSOMÁTICA MARIAN FESTUGATO DE SOUZA CÂNCER: UMA VISÃO PSICOSSOMÁTICA Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para a obtenção do título de Especialista em Psicossomática pelo curso de Especialização em Psicossomática da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Orientador: Marisa Campio Müller PORTO ALEGRE 2009 2
  3. 3. Dedico este trabalho aos pacientes, que me ensinarama ver a vida em toda a sua plenitude, e viver o hoje,sem medo de ir à busca dos nossos sonhos. 3
  4. 4. AGRADECIMENTOS À minha querida orientadora, professora e, acima de tudo, amiga, MarisaCampio Müller, pela ajuda, pelo apoio e pelo ser humano maravilhoso que é. À minha mãe Ana Maria, pelo seu jeito todo especial de ser, semprebuscando me ajudar da melhor forma possível, especialmente alimentando aminha autoconfiança. À toda a minha família, a melhor família que alguém poderia desejar! À CliniOnco, por estes 5 anos de confiança, por acreditarem no meupotencial e confiarem no meu trabalho. Destaco um agradecimento especial àsqueridas Cristiane Bueno e Carla Mannino, amigas de “almoços terapêuticos”,trocas e confissões. Aos pacientes, por terem sido meus grandes mestres na escola da vida, efontes de inspiração para esta minha busca, e para meu modo de ver a vida erepensar valores. À “Turma do bem”, pelas conversas, pelas saídas depois da aula, eespecialmente pela amizade que se formou. Finalmente, mas não menos importante, ao meu amor Stefano, pelapaciência nos momentos de estresse, pelo companheirismo, pelo seu amorverdadeiro e por, mesmo à distância, estar sempre tão próximo! 4
  5. 5. “Podemos acreditar que tudo que a vida nos oferecerá no futuro érepetir o que fizemos ontem e hoje. Mas, se prestarmos atenção,vamos nos dar conta de que nenhum dia é igual a outro. Cadamanhã traz uma benção escondida; uma benção que só servepara esse dia e que não se pode guardar nem desaproveitar. Senão usamos este milagre hoje, ele vai se perder. Este milagreestá nos detalhes do cotidiano; é preciso viver cada minutoporque ali encontramos a saída de nossas confusões, a alegriade nossos bons momentos, a pista correta para a decisão quetomaremos. Nunca podemos deixar que cada dia pareça igual aoanterior porque todos os dias são diferentes, porque estamos emconstante processo de mudança”. (Paulo Coelho) 5
  6. 6. RESUMO O presente trabalho faz uma revisão bibliográfica acerca do Câncer e daPsicossomática, trazendo seus conceitos, histórias e mitos. Em seguida, buscafazer uma relação entre os temas, procurando trabalhos que demonstrem a visãodo câncer sob uma perspectiva Psicossomática, onde o homem é visto como umser biopsicossocial e espiritual, e a doença só pode ser compreendida a partirdesta visão mais ampla de sujeito. ABSTRACTThis work makes a literature review about Cancer and Psychosomatic, bringingtheir concepts, stories and myths. Then, is tries make a connection between theissues, looking for articles which could demonstrate the vision of cancer in aPsychosomatic perspective, where man is viewed as a biopsychosocial andspiritual being, and the disease can only be understood from this broader view ofsubject . RIASSUNTOQuesto lavoro fà una revisione della letteratura sul Cancro e Psicosomatica,portando i loro concetti, storie e miti. Poi, cerca di effettuare una connessione trale questioni, cercando articoli che possono dimostrare la visione del cancro in unaprospettiva psicosomatica, dove luomo è visto come un essere biopsicosociale edspirituale e la malattia può essere compresa solo da questa prospettiva più ampiadi soggetti . 6
  7. 7. SUMÁRIO1. INTRODUÇÃO.....................................................................................................81.1. OBJETIVO........................................................................................................91.2. METODOLOGIA..............................................................................................92. CÂNCER............................................................................................................102.1. ETIOLOGIA DA PALAVRA ............................................................................102.2. UM POUCO DA HISTÓRIA E ALGUNS MITOS.............................................102.3. DEFINIÇÕES..................................................................................................172.4. CÂNCER E FATORES DE RISCO.................................................................202.4.1. Fatores de risco ambientais .....................................................................202.4.2. Fatores de risco hereditários e genéticos...............................................212.5.CÂNCER E PREVENÇÃO...............................................................................232.5.1. Prevenção Primária...................................................................................232.5.2. Prevenção Secundária...............................................................................242.5.3. Prevenção Terciária...................................................................................243 PSICOSSOMÁTICA ..........................................................................................253.1. ETIOLOGIA E SIGNIFICADO DA PALAVRA ................................................253.2. UM POUCO DA HISTÓRIA DA PSICOSSOMÁTICA E SEUS CONCEITOS273.3. A PSICOSSOMÁTICA NO BRASIL................................................................383.4. A PSICO-ONCOLOGIA...................................................................................393.4.1. Etiologia da palavra e definições.............................................................393.4.2. Um pouco da história da Psico-Oncologia..............................................404. A RELAÇÃO ENTRE PSICOSSOMÁTICA E CÂNCER...................................435. CONSIDERAÇÕES FINAIS...............................................................................49REFERÊNCIAS.....................................................................................................51 7
  8. 8. 1. INTRODUÇÃO A relação entre corpo x mente e saúde x doença vem sendo alvo deestudos e suposições desde os tempos mais remotos. Desde a Grécia antiga,sabe-se da influência que os aspectos emocionais exercem sobre a saúde e adoença, e também o contrário, sendo impossível tratar do corpo sem pensar naalma. Sócrates (Cármides, APUD: Ramos, 1994, p.18), já colocava: “... assim como não é possível tentar a cura dos olhos sem a cabeça, nem a cabeça sem a do corpo, do mesmo modo não é possível tratar do corpo sem cuidar da alma, sendo essa a causa de desafiarem muitas doenças o tratamento dos médicos helenos, por desconhecerem estes o conjunto que importa ser tratado, pois não pode ir bem a parte quando vai mal o todo (...)”. Mais adiante, no entanto, com as novas descobertas nos campos daciência e da Medicina, surgiu, com Descartes, uma tendência à fragmentação. Odividir, para reduzir, e assim conhecer. Esta que era para ser uma prática deoutras áreas do conhecimento transferiu-se também para a Medicina, e o serhumano passou a ser visto como uma máquina. Instituiu-se a dicotomia corpo-mente, e ainda subdividiu-se o corpo em vários pedaços menores. Em se tratandode saúde/ doença, agora trata-se a doença, e não o doente. Porém, como tudoocorre em ciclos, acontece, de uns tempos para cá, um movimento que tende a“resgatar” aquela visão anterior de ser humano, como um ser uno, completo ecomplexo. Pode-se pensar que, a partir deste momento, começou a instituir-seuma nova mudança de paradigma. As teorias de Einstein, bem como, maisrecentemente, estudos na área da Psicossomática e da Psiconeuroimunologia,passam a comprovar a influência não apenas do meio sobre o ser humano, mas ainfluência que este (ser humano) exerce no meio, bem como a capacidade quecada um possui de agir e influenciar diretamente sobre seu próprio sistemaimunológico. Além disso, a visão do homem amplia-se, passando este a serconsiderado um ser biopsicossocial e espiritual. Entender o processo doadoecimento torna-se então algo muito mais complexo, e as doenças passam a 8
  9. 9. ser dotadas de um sentido. E, dentre todas as doenças, uma em especial vemdespertando o interesse de várias pesquisas, às quais buscam encontrar umarelação entre o seu surgimento, progressão e cura (ou morte) e fatores nãoapenas orgânicos, mas emocionais, sociais e culturais: o câncer. Seria ele umadoença Psicossomática? Considerado por muitos como “o grande mal desteséculo”, vem sendo estudado pelas mais diversas áreas do conhecimento, dentreelas uma relativamente nova, denominada de Psico-Oncologia. A relação entrePsico-Oncologia, Psicossomática e adoecimento (mais especificamente o câncer)é o tema sobre o qual se discorrerá no presente trabalho. 1.1. OBJETIVO Procurar mostrar a relação entre Câncer e Psicossomática, através de umarevisão da literatura, buscando livros e artigos de pesquisa que descrevam estarelação. 1.2. METODOLOGIA Este trabalho resulta de uma breve revisão bibliográfica de autoresreconhecidos na área da psicologia com relação à oncologia e aspectosemocionais envolvidos , bem como com referência a área da psicossomática.Foram consultados os bancos eletrônicos: LILACS, SCIELO e BIREME (1990 -2008) e literatura de autores clássicos da área. 9
  10. 10. 2. CÂNCER 2.1. ETIOLOGIA DA PALAVRA A palavra câncer tem origem latina e significa, literalmente, caranguejo.Tem esse nome, pois as células doentes atacam e se infiltram nas células sadiascomo se fossem os tentáculos de um caranguejo. Segundo a AAPC (Associaçãode Assistência e Prevenção do Câncer), foi justamente um grego, Hipócrates, quecunhou a palavra "câncer". O "pai da medicina", como é conhecido, viveu entre460 e 370 a.C. e usou os termos "carcinos" e "carcinoma" para descrever certostipos de tumores. Em grego, querem dizer "caranguejo", pelo aspecto do tumor,as projeções e vasos sanguíneos ao seu redor fazem lembrar as patas docrustáceo. 2.2. UM POUCO DA HISTÓRIA E ALGUNS MITOS Cada período histórico se caracteriza por uma doença que, em um modoparticular, influencia o imaginário coletivo. Nos tempos bíblicos, era a lepra queespalhava o terror e a perturbação. Na era medieval, era a peste, a “morte negra”,demônio incontível e devastador que segundo Deifruss-Katan (2009), apenas emFirenze “destruiu” 60.000 habitantes em um ano, servindo de inspiração para queGiovani Boccaccio escrevesse a célebre “Decameron”. No século XIX, invés, foiatuberculose, a “morte branca” que se tornou o símbolo do mal incurável. Já noséculo XX (e parece seguir agora, no século XXI 1 ), é o câncer a doença queevoca as angústias mais profundas. O câncer vem há tempos sendo identificado como “o mal”, ainda queexistam outras doenças crônicas graves, isto sem contar no fato de que, aindahoje, nas sociedades ocidentais, as mortes devido a doenças cardiovascularessuperam as causadas por tumores. Porém, a associação metafórica que evoca oconceito de câncer já fala por si:1 Observação minha 10
  11. 11. Essas (as neoplasias malignas) vem consideradas como o animal do qual herdam o nome, o caranguejo, como ser vivo noturno, geralmente invisível, que se move com um “movimento de crustáceo”, imprevisível. Assim como lagostins ou caranguejos são protegidos por uma carcaça, o são, segundo esta metáfora, também os “cânceres”, que se agarram, e permanecem com o olhar fixo, preparando tormentos sem fim e tendo como único propósito a morte da vítima. (Lockhart, 1977, in Meerwein, 1991, APUD: Tchuschke, 2008, p.03) A metáfora do caranguejo para definir a doença foi escolhida pela primeiravez por Galeno, o qual afirmou, segundo Bahnson (1997, APUD: Tschuschke,2008), ter observado que as mulheres com carcinoma mamário desenvolviamsobre o peito uma formação em formato de caranguejo. Além da metáfora, temos no decorrer da história, vários “momentos”relacionados ao câncer. Segundo Carvalho e Veit (2008), o câncer é uma doençaque desencadeia comportamentos peculiares. Sempre foi algo a ser escondidopor vir acompanhado de muitos estigmas, como a inevitabilidade da morte e asexplicações equivocadas a respeito de sua etiologia, que atribuíam a sua origemà promiscuidade sexual ou à falta de higiene e transmitiam a idéia de ser umaenfermidade contagiosa e repugnante. Ainda de acordo com os autores, o câncerpassou a ser visto da mesma forma que a lepra e a sífilis, distinguindo-se, noentanto, da tuberculose, que passou a ser vista como uma doença ligada àsensibilidade do espírito e tratada com um certo glamour. A medicina só começou a ter avanços significativos na Renascença, noséculo XV, quando floresceram por todos os lados cientistas e artistas,especialmente na Itália. Michelangelo, um desses artistas, teria retratado em suafamosa escultura "A Noite" (La Notte), uma mulher com câncer de mama. A teoriabaseia-se no aspecto disforme de seu seio, que, a considerar a habilidade doescultor, não foi casual.(AAPC, 2009) 22 Michelangelo, La notte, Cappella Medici, 1524. in: http://clf2000.splinder.com/archive/2005-02 11
  12. 12. Os cânceres, como os caranguejos, se insinuam com movimentosimprevisíveis em todas as direções, invisíveis, sorrateiros, semelhantes aprimitivos animais noturnos. Como o caranguejo, protegido pela sua carcaça, ocâncer é agressivo e inatingível; infringe dor e se prende tenazmente à sua vítima,para devorá-la e destruí-la até a sua morte. Segundo Dreifuss-Kattan (2009),Sontag coloca que, em 1798, o escritos alemão Novalis descreveu os tumorescomo “parasitas plenamente evoluídos, capazes de crescer, de serem gerados, degerarem, de haverem estruturas próprias de segregarem substâncias e de nutrirem-se”. Freud define seu câncer na cavidade oral como seu “monstro” (Schur,1972, APUD: Dreifuss- Kattan, 2009). Mais adiante, em um certo momento da história das doença, como colocaSontag (1984),o câncer passou também a simbolizar as emoções que não podiamser expressas, ficando reservada ao paciente de câncer a idéia da incapacidadede lidar adequadamente com as vicissitudes emocionais de sua vida, gerandomais um estigma. Tschuschke (1996, APUD:2008), traz que, na antiguidade, se acreditavaque o câncer era desencadeado pela “bile negra” ou pela “melancolia”, peladiscrepância no equilíbrio psíquico de um indivíduo. Hürny e Adler, 1991 (APUD: Tschuschke, 2008, p. 03 e 04), colocam queum tumor é percebido como uma “peste moderna”: Câncer não significa nada mais do que um duro golpe do destino, uma doença incomparável, inigualável, morte certa e não imprevista, mas um lento e atroz período de enfermidade. O câncer está sujeito a qualquer coisa de inquietante, desleal e maligno. Pode significar punição, culpa ou pecado, como também falta de eficiência, falta de valor e desprezo, ser um peso para os outros. Traz os sinais da lepra, da marginalidade, do isolamento, do estado de impotência e do desespero. Atualmente, o câncer segue sendo usado freqüentemente como metáforade comportamentos e condições sociais que significam destruição oudesintegração moral ou social, como em expressões como: “Os políticos são ocâncer do nosso país” (Carvalho e Veit, 2008). Mitos e verdades acerca do câncer seguem sendo questionados, como osobservados no site da AAPECAN (Associação de Apoio às Pessoas com Câncer).Segundo a associação, a própria palavra câncer ainda assusta muita gente, isto 12
  13. 13. porque ainda existem muitas idéias erradas sobre a doença e, infelizmente, amaioria das pessoas ainda pensa que câncer é sinônimo de morte. Até hoje háquem evite pronunciar a palavra “câncer” e atribui à doença alguns, digamos,apelidos. Portanto, parece-nos que própria palavra câncer já traz em si algunsmitos. Muitas vezes uma má interpretação de fatos relacionados ao câncer ouuma generalização de um caso isolado da doença assim como especulaçõesacabam por fazer com que idéias e até mesmo crenças se apresentem comoverdades. Dentre elas destacam-se as seguintes: • O Câncer é contagioso? Mito. Mesmo o câncer causado por vírus não é contagioso, ou seja, não passa de uma pessoa para a outra por contágio como ocorre com resfriados, por exemplo. No entanto, alguns vírus oncogênicos, isto é, capazes de produzir câncer, podem ser transmitidos através do contato sexual, de transfusões de sangue ou de seringas contaminadas utilizadas para injetar drogas. • Desenvolver um câncer é um castigo? Mito. Há várias causas para o câncer, sobretudo tabagismo, consumo exagerado de álcool, maus hábitos alimentares, sedentarismo que são os principais responsáveis pelos casos de câncer. • Pessoas na minha família tiveram câncer, terei também porque o câncer é hereditário? Mito. Em geral, o câncer não é hereditário. Há apenas alguns raros casos que são herdados, tal como o retinoblastoma, um tipo de câncer de olhos que ocorre em crianças. Entretanto, existem alguns fatores genéticos que tornam determinadas pessoas mais sensíveis à ação de carcinógenos, isto é, agentes que provocam o desenvolvimento de um câncer ou tumor maligno no organismo, o que explica por que algumas delas desenvolvem câncer e outras não, quando expostas a um mesmo carcinógeno ambiental. Mas, repetimos: o câncer não é comprovadamente hereditário. • Pessoas afro-descendentes não correm risco de ter câncer de pele? Mito. Qualquer pessoa pode ter câncer de pele, no entanto aquelas com maior concentração de melanina na pele, como as pessoas afro- descendentes, apresentam menor incidência de tumores de pele. Embora 13
  14. 14. seja raro, podem ter câncer de pele, principalmente na palma das mãos ouna planta dos pés. Por isso, todos devem proteger-se do sol usandochapéus e filtros solares adequados.• Charutos e cachimbos provocam menos câncer de pulmão que cigarros comuns?Mito. Tanto os cigarros como os charutos e fumo para cachimbosconsistem em folhas de tabaco secas, além de outras substâncias. Dentreaquelas já identificadas no tabaco e na sua fumaça, 43 sãocomprovadamente cancerígenas. Como há mais fumantes de cigarros doque de charutos e cachimbos, a ocorrência de câncer por cigarro é maior,no entanto charutos e cachimbos são igualmente perigosos.• O tabaco causa apenas câncer de pulmão?Mito. O hábito de fumar é a principal causa do câncer de pulmão, laringe,faringe, cavidade oral e esôfago. Também contribui para o surgimento docâncer de bexiga, pâncreas, útero, rim e estômago, além de algumasformas de leucemia.• Desodorante antiperspirante pode causar câncer de mama?Mito. De forma alguma. Esse é um boato que circula na Internet, mas nadatem de verdadeira. Na axila nem existem células mamárias. Não existempesquisas ou estudos que demonstrem haver qualquer ligação entre asduas coisas. O que pode acontecer é o entupimento de algumas glândulassudoríparas, mas isso não afeta a mama.• Um tumor pode ser causado por um trauma, por exemplo, uma pancada durante uma batida de automóvel?Mito. A batida pode formar um caroço, que, em exames rotineiros, seassemelha a um câncer, mas é benigno. Outra coisa comum é que, a partirdo choque, a preocupação da pessoa aumente e, através do toque maisfreqüente ou outro exame, ela descobre um nódulo que já estava presenteem seu corpo.• O câncer tem cura?Verdade. Embora a medicina indique, sempre, o tratamento individualizadoe cada paciente responda de uma maneira particular às terapias, o câncer 14
  15. 15. é curável, desde que diagnosticado precocemente e acompanhadocorretamente.• Andar muito de avião ou ficar sempre perto de antenas de celulares aumenta o risco de desenvolver câncer?Mito. Não há nenhuma comprovação científica de que radiação decelulares, microondas, aviões possa causar tumores. Telefones celularesemitem doses pequenas de radiação eletromagnética. Até o momento, osestudos feitos para determinar a relação dessa radiação com oaparecimento de câncer não mostraram nenhuma evidência de que issoocorra, mas o assunto permanece “em aberto” e mais pesquisas sãonecessárias para se chegar a uma conclusão. Convém ressaltar queradioatividade em altas concentrações representa riscos para desenvolverum câncer.• Alimentos cozidos em forno de microondas podem provocar câncer?Mito. As microondas não tornam o alimento radioativo, nem apresentamrisco de exposição à radiação desde que usadas de acordo com asinstruções. A exposição a altas doses de radiação por microondas podeocasionar queimaduras ou cataratas nos olhos, mas a pequena quantidadeque pode vazar de um forno caseiro não causa problemas.• O câncer de próstata causa diminuição de virilidade?Mito. O toque retal não afeta o desempenho sexual de quem é submetidoao exame. Se a doença for descoberta ainda no início, o tratamento nãoinfluenciará a atividade sexual do paciente. Portanto não haverá riscos deperda de apetite ou desempenho sexual.• Um paciente com câncer de próstata pode ter perda da masculinidade?Mito. A única alternativa médica possível para verificar se a próstata estánormal ou se há alterações é realizar o exame de toque retal (pois o reto éa via natural de acesso à próstata por ter sua parede ligada a esse órgão).O exame em nada influencia a orientação sexual do paciente.• A freqüência sexual interfere na ocorrência de câncer?Mito. Imaginar que uma vida sexual mais ou menos ativa influencia aocorrência da doença. Especialistas afirmam que não há relação algumaentre a freqüência sexual e o surgimento de câncer. Cabe aqui informar 15
  16. 16. que a atividade sexual não ajuda a proteger as mamas contra o câncer. O que pode protegê-las contra doenças mamárias é a gravidez e a lactação. • Se eu faço o auto-exame de mamas todos os meses não preciso fazer mamografia? Mito. Normalmente, se você fizer o auto-exame todos os meses e visitar seu médico anualmente, uma mamografia por ano é suficiente. Nem o auto-exame, nem o exame médico, nem a mamografia são eficientes sozinhos. Alguns cânceres de mama são detectados apenas com a mamografia. Outros são detectados apenas com exame médico, por esta razão, a American Cancer Society (ACS) recomenda a mamografia, junto com o auto exame e o exame físico feito por um profissional de saúde. • Amamentar protege o peito do câncer de mama? Verdade. Quando o bebê mama, as células mamárias ficam ocupadas com a produção de leite e se multiplicam menos, o que reduz o risco de contrair a doença. Certamente, com o tempo, muito ainda será desmistificado, e outros “mitos”surgirão. Cabe aqui salientar que algumas opiniões a respeito da carcinogêneseseguem similiares nos vários períodos históricos, como as afirmadas por Schwarz(1994, APUD: Tschuschke, 2008), de que a idéia de que a doença neoplásicafosse devido a um estresse psíquico mais ou menos excessivo que precedia amanifestação da doença, por exemplo. Na evolução das teorias explicativas sobre as causas psicossomáticas dos tumores, a multicausalidade física e psicológica se transforma em seguida em um modelo principalmente ligado ao estresse, para depois passar, na literatura dos últimos 50 anos, em um novo modelo, aquele da cancer prone personality... (Schwarz, 1994, APUD: Tschuschke, 2008, p. 05) Pensando em uma perspectiva histórica mais atual, Levenson e Bemis(2000), colocam que, na década de 50, testemunhou-se uma onda de interessena medicina psicossomática (sobre a qual discorreremos mais adiante) e napesquisa unindo fatores psicológicos, sociais e ambientais no surgimento eprogressão da doença. Uma das principais descobertas da época foi a associaçãoentre o fumo e o câncer de pulmão. Já na década de 60, traços de personalidade,conflitos e sentimentos foram examinados como possíveis contribuintes para oinício e a progressão de muitas doenças, incluindo o câncer. Também nesta 16
  17. 17. década, houve a associação entre o câncer e a exposição a determinadosambientes e toxinas ocupacionais. Além disso, se testemunhou o crescimento deexperimentos com animais na tentativa de melhor compreender os efeitos dosfatores psicológicos e comportamentais no câncer, controlando variáveis quepoderiam causar confusão. Já a década de 70, caracterizou-se por váriosavanços na imunologia e na neuroquímica, e a psiquiatria tornou-se maisenvolvida com as bases biológicas dos transtornos mentais. Foram demonstradasalgumas associações intrigantes entre determinados estados afetivos e o sistemaneuroendócrino. Mais adiante, nos anos 80, como colocou Holand (1989, APUD:Levenson e Bemis, 2000), tem-se as pesquisas na área da psiconeuroimunologia,que exploraram a relações entre a resposta imunológica e as variáveispsicossociais, assim como as implicações para a vulnerabilidade ao câncer e suaprogressão. 2.3. DEFINIÇÕES Câncer, segundo o INCA, é o nome dado a um conjunto de mais de 100doenças que têm em comum o crescimento desordenado (maligno) de célulasque invadem os tecidos e órgãos, podendo espalhar-se (metástase) para outrasregiões do corpo. Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muitoagressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores (acúmulo decélulas cancerosas) ou neoplasias malignas. Por outro lado, um tumor benignosignifica simplesmente uma massa localizada de células que se multiplicamvagarosamente e se assemelham ao seu tecido original, raramente constituindoum risco de vida. Salgado (2001) coloca que a classificação dos diversos tipos decâncer está relacionada com o local onde surge o tumor e segundo sua aparênciavista ao microscópio. Muitos tipos de câncer pertencem a um dos cinco grandesgrupos, a saber: • Carcinoma: se desenvolve em células que cobrem a superfície do corpo, a pele, nas glândulas mamárias ou em órgãos internos, como próstata, pulmões, estômago, intestino. 80 a 90% dos tipos de câncer pertencem a esta categoria. 17
  18. 18. • Mieloma: se desenvolve em um tipo especial de células localizadas na medula óssea, os plasmócitos.• Linfoma: se desenvolve nas células das glândulas do sistema imunológico. Os linfomas são subdivididos em Hodkings e Não- Hodkings. De acordo com a ABRALE (2009), O linfoma de Hodgkin foi assim chamado devido à descrição de vários casos em 1832 por Thomas Hodgkin, os quais foram reconhecidos como uma nova condição maligna que envolve os linfonodos. Foi aproximadamente 40 anos mais tarde que um novo conceito de linfoma (originalmente denominado linfossarcoma), diferente do linfoma de Hodgkin, foi proposto por Virchow, Conheim e Billroth, três proeminentes médicos do final do século XIX. Os pacientes com linfoma de Hodgkin, apresentam células características denominadas: células de Reed-Sternberg. Acerca do Linfoma Não-Hodking, tem-se que existem trinta ou mais subtipos específicos, mas para simplificar a classificação muitos oncologistas agrupam os vários subtipos de acordo com a velocidade média de crescimento e progressão do linfoma: muito lentamente (baixo grau) ou muito rapidamente (alto grau ou agressivo).• Sarcoma: se desenvolve no tecido conetivo, como nos ossos, tendões, cartilagem, gordura e músculos. Segundo o OncoGuia, o termo tem origem grega e significa "crescimento carnoso". Os tumores ósseos também são chamados de sarcomas, embora estejam em outra categoria devido às suas características clínicas, microscópicas e por terem um tipo de tratamento diferente. Os sarcomas de partes moles (partes moles são os tecidos moles do nosso organismo como músculos, tecidos fibrosos e adiposos, tecidos de suporte, gordura, sistema nervoso periférico, vasos sangüíneos e linfáticos) abrangem uma série de tipos de tumores. Alguns crescem lentamente e outros apresentam crescimento bem mais rápido.• Leucemia: se desenvolve nas células da medula óssea e sistema linfático que produze o sangue. È na verdade um grupo de doenças complexas e diferentes entre si que afetam a produção dos glóbulos brancos, como pode ser visto no site da ABRALE. 18
  19. 19. Simonton (1987) define a célula cancerosa como sendo fraca e confusa.Segundo ele, um câncer começa com uma célula que contém informaçõesgenéticas incorretas, tornando-se incapaz de cumprir as funções para as quais foidesignada. Isto pode ter ocorrido por diversos motivos, como exposição asubstâncias químicas, fatores externos, ou ainda porque, durante o processo dereprodução de bilhões de células, o corpo produzirá ocasionalmente umaimperfeita. Se esta célula reproduz outras células com a mesma construçãogenética incorreta, então um tumor começa a ser formado, composto de umamassa dessas células imperfeitas. O autor ainda salienta que, normalmente, as defesas do corpo e o sistemaimunitário reconhecem estas células e as destroem. No mínimo, o que acontece éque elas são cercadas, para que não se alastrem. No entanto, no caso de célulasmalignas, mudanças celulares suficientes acontecem para que elas possamreproduzir-se rapidamente e comecem a se introduzir no tecido adjacente.Enquanto no caso das células normais há uma espécie de “comunicação” entreelas para evitar que se reproduzam de maneira excessiva, as células malignassão desorganizadas o bastante e não reagem à comunicação das células vizinhase começam então a se reproduzir de maneira desordenada. As célulasdefeituosas, o tumor, podem então começar a bloquear o bom funcionamento dosórgãos do corpo, ou por aumentarem a ponto de exercer pressão física sobreoutros órgãos ou, ainda, por haverem substituído um número de célulassaudáveis em um órgão, impedindo-o assim de funcionar. 2.4. CÂNCER E FATORES DE RISCO O Câncer é considerado uma doença multifatorial, ou seja, cuja causa nãoé única. Existem vários fatores que podem ser considerados de risco, não sepodendo, no entanto, afirmar que tais fatores serão determinantes para odesenvolvimento da doença. Sabe-se que se uma pessoa estiver freqüentementeexposta a fatores de risco, ela tem maior chance de desenvolver câncer. Noentanto, muitas vezes pessoas que se expõem a um ou mais fatores de risco nãodesenvolvem câncer; enquanto outros, que nunca foram expostos, têm a doença. 19
  20. 20. Isso ocorre porque, como já citado anteriormente, há inúmeros fatores associadosao aparecimento de um tumor. Hürny (1996, APUD: Tschuschke, 2008) salientaque, na base do estado atual sobre as pesquisas sobre o câncer, a hipótese maisaceita acerca das causas do adoecimento é aquela de uma gênese multifatorial,na qual as influências ambientais (raios, vírus, agentes carcinogênicos), os fatorespsicossociais (estresse, comportamentos “errados”, os fatores imunológicos,endócrinos e genéticos, exercem uma ação interativa ou cumulativa segundo umamodalidade ainda desconhecida na sua totalidade. Segundo o Hospital do CâncerA. C. Camargo, fator de risco é qualquer coisa que aumente a chance de alguémter determinada doença. No caso do câncer, alguns podem ser evitados pelamudança de hábitos - deixar de fumar, beber moderadamente, usar filtro solar, teruma dieta equilibrada - outros não. Entre estes últimos, estão o histórico familiar ea idade - o risco de desenvolver câncer aumenta com a idade. Sendo assim, osfatores de risco podem ser das seguintes ordens: 2.4.1. Fatores de risco ambientais São aqueles presentes no ambiente, aos quais estamos expostos no nossodia-a-dia. Entende-se por ambiente, de acordo com o INCA, o meio em geral(água, terra e ar), o ambiente ocupacional (indústrias químicas e afins) o ambientede consumo (alimentos, medicamentos) o ambiente social e cultural (estilo ehábitos de vida). Assim, as mudanças provocadas no meio ambiente pelo própriohomem, os hábitos e o “estilo de vida” adotados pelas pessoas, podemdeterminar diferentes tipos de câncer. Alguns destes fatores, como nos lembraSalgado (2001), são específicos para o desenvolvimento de certos tipos de tumor,como a exposição ao sol sem proteção e o câncer de pele. Também há fatoresque são condição para vários tipos de tumor, como o tabagismo, que estádiretamente relacionado a tumores como pulmão, boca, esôfago, laringe, além dese relacionar indiretamente com cânceres como bexiga, rins, mama. Segundo oINCA 3 , o tabagismo é diretamente responsável por 30% das mortes por câncer,90% das mortes por câncer de pulmão, 25% das mortes por doença coronariana,85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica e 25% das mortes por 20
  21. 21. doença cerebrovascular. Outras doenças que também estão relacionadas ao usodo cigarro são aneurisma arterial, trombose vascular, úlcera do aparelhodigestivo, infecções respiratórias e impotência sexual no homem. Estima-se que,no Brasil, a cada ano, 200 mil pessoas morram precocemente devido às doençascausadas pelo tabagismo, número que não pára de aumentar. Também comofatores de risco ambientais temos o asbesto, benzina, formol e a própria poluição. 2.4.2. Fatores de risco hereditários e genéticos Hoje sabe-se que são raros os casos de cânceres que se devemexclusivamente a fatores hereditários, familiares e étnicos, apesar de o fatorgenético exercer um importante papel na oncogênese. O oncologista RafaelKaliks, do portal Onco Guia (2008), traz informações importantes a respeito darelação câncer/genética/hereditariedade, a saber: • Todo câncer é causado por uma alteração nos genes. Isto NÃO significa que seja hereditário. Isto apenas significa que esta alteração nos genes causou uma seqüência de eventos nas células de um órgão que acabou causando o aparecimento de um tumor maligno. A grande pergunta é se esta alteração nos genes ocorreu ao acaso (o que ocorre na grande maioria dos casos de câncer, especialmente quando o câncer ocorre em pacientes idosos) ou se foi herdada (ou seja, a alteração genética passou de pai (ou mãe) para filho (a)). • Na grande maioria dos casos de câncer, trata-se de uma alteração genética adquirida ao longo da vida pelo indivíduo doente. Raramente a alteração genética foi herdada. O indivíduo que adquiriu esta alteração genética ao longo da vida NÃO irá passar esta alteração para seus filhos. Apenas entre 5 e 10% de todos os casos de câncer são conseqüência de alteração genética hereditária, ou seja, transmissível de pai (mãe) para filho(a). • Nem todo individuo que herda uma predisposição genética irá desenvolver o câncer. Há inclusive alterações genéticas predisponentes que apenas raramente acabam desencadeando câncer.3 http://www.inca.gov.br/tabagismo/frameset.asp?item=faq 21
  22. 22. • Os tumores mais freqüentemente associados a alterações genéticas hereditárias são: câncer de mama, câncer de cólon (intestino grosso) e reto, câncer de ovário e câncer de tireóide. Dito isto, apenas uma minoria dos pacientes com câncer nestes órgãos tem uma alteração genética hereditária. Sobre a questão étnica, sabe-se que existe a prevalência de certostumores em determinadas raças, e certa “proteção” para outros tipos de tumores.Por exemplo, o índice de câncer de próstata é bastante elevado em negros, aopasso que o sarcoma de Ewing lhes é muito raro (INCA). Estudos do MDAnderson Cancer Center, do Texas, trazem que os tumores de ovário são maiscomuns nas mulheres do Nordeste Europeu ou de descendência judia, bem comosão mais comuns nos países industrializados. Já a AIRC (Associazione ItalianaPer la Ricerca sul cancro) coloca que os tumores de esôfago, por exemplo, sãobastante comuns na China e em Singapura. Portanto, são vários os fatores que contribuem para o desenvolvimento deum câncer, destacando-se, segundo o National Cancer Institute, o avançar daidade, o tabagismo, a exposição solar, a exposição à radiação, algumassubstâncias químicas, alguns vírus e bactérias, certos tipos de hormônios,histórico familiar de câncer, alcoolismo, má alimentação, falta de atividade física esobrepeso. Também alguns fatores relacionados a estresse, bem como aspectosemocionais vêm sendo estudados como fatores de risco para o adoecimento. Isto,no entanto, será discorrido em capítulo à parte. 2.5. CÂNCER E PREVENÇÃO A prevenção do câncer, segundo Kaliks e Giglio (2008), pode ser divididaem três tipos, primária, secundária e terciária, e tem por objetivo interferir nosfatores predisponentes ao desenvolvimento de um câncer ou detectarprecocemente o advento do câncer deles decorrente. Para falarmos acerca daprevenção relacionada ao câncer, é necessário, portanto, que se discorra acercados diversos tipos de prevenção, a saber: primária, secundária e terciária. 22
  23. 23. 2.5.1. Prevenção Primária Segundo Fernandes (2008), o conceito de prevenção primária é evitar queindivíduos saudáveis se tornem doentes, promovendo educação e condições quemelhorem a qualidade de saúde na vida das pessoas. Um bom exemplo deprevenção primária que podemos citar são as campanhas de vacinaçãorealizadas pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de evitar o surgimento dedoenças infecto-contagiosas que possam desenvolver uma epidemia napopulação em geral. Tudo começa com seus hábitos de vida, as atividadesfísicas, os bons relacionamentos, as realizações no âmbito social, religioso,profissional etc. Passa também por uma boa alimentação balanceada e variadade nutrientes, completando-se com a realização de tarefas agradáveis e contatoscom pessoas do seu convívio diário. Educar o indivíduo a praticar estas atividadesé promover prevenção primária. Mostrar para as pessoas os riscos a que estãoexpostas fazendo ou não determinadas atividades contribui também para umamelhor qualidade de saúde. Pensando especificamente na questão do câncer,sabe-se que a adoção de hábitos de vida saudáveis pode vir a dificultar osurgimento da doença, porém, ela sendo multifatorial, pode vir a ocorrer inclusiveem indivíduos considerados “cuidadosos”. A grande maioria dos tumores não seenquadraria em uma forma de prevenção dita primária, salvo, atualmente, ocâncer de colo de útero, que não apenas pode ser prevenido pelo exame dePapanicolau, como através da vacinação contra o HPV, um dos principaisagentes causadores deste tipo de tumor. Kaliks e Giglio (2008) referem-se àprevenção primária do câncer como as medidas gerais que podemos propor apessoas da população geral com o intuito de prevenir a exposição a fatores quepoderiam provocar o aparecimento de câncer. Dentre estes fatores, destacam otabagismo, o etilismo, a obesidade, a exposição ao sol e a proteção contrainfecções, dando destaque aqui à já citada anteriormente, vacina contra o HPV,principal agente causador de câncer de colo do útero. 2.5.2. Prevenção Secundária 23
  24. 24. De acordo com a Associação Brasileira do Câncer, a prevenção secundáriase baseia na detecção precoce e tratamento que contribuem significativamentepara o aumento dos índices de sobrevivência. Ela visa, conforme pode ser lido noespaço www.oncologistas.com, identificar lesões em fase pré-clínica emindivíduos assintomáticos, quando a doença é passível de cura. É, portanto, anível de prevenção secundária que temos as mamografias, ecografias, exames desangue e demais “preventivos”, cujo objetivo é a detecção precoce da doença, oque a torna mais passível de cura. De acordo com Kaliks e Giglio (2008), aimportância da prevenção secundária reside no fato de que a detecção precocepermite uma alta taxa de cura para a maioria das neoplasias. 2.5.3. Prevenção Terciária A prevenção terciária refere-se a uma prevenção de recaída, no caso, porexemplo, de alcoolismo ou drogadição ou, no caso do câncer, quando a doença jáestá instalada, na prevenção de recidiva ou metástases.Também relaciona-se àreabilitação. Meirelles (2008) coloca que a prevenção terciária corresponde àdetecção precoce de problemas de saúde em indivíduos presumivelmentedoentes, mas assintomáticos para a situação em estudo. Pretende-se, ainda, quehaja uma aplicação imediata de medidas apropriadas, com vista ao rápidorestabelecimento da saúde ou, pelo menos, um condicionamento favorável daevolução da situação, com cura e/ou redução das conseqüências maisimportantes da doença. Este nível de prevenção pressupõe o conhecimento dahistória natural da doença, a existência de um período de detecção precocesuficientemente longo (período pré-clínico ou assintomático) e facilmentedetectável, e que seja passível de tratamento que interrompa a evolução paraestádios mais graves. Assim, espera-se que haja diminuição da prevalência dadoença, essencialmente pela diminuição da duração da mesma. Dentre osexemplos, citam o rastreamento dos cânceres de colo do útero, da mama, dapróstata, do cólon e reto. Acerca deste tipo de prevenção, Kaliks e Giglio (2008)citam que a mesma consiste em medidas instituídas em pacientes que já têm umaneoplasia, visando evitar a deterioração clínica ou complicações específicas dotratamento. Destacam, também, que a prevenção terciária é essencialmente 24
  25. 25. estabelecida em função de falha das medidas de prevenção primária esecundária. Assim sendo, quando pensamos em prevenção do câncer, devemos levarem consideração os três níveis acima citados. 3. PSICOSSOMÁTICA 3.1. ETIOLOGIA E SIGNIFICADOS DA PALAVRA O termo surgiu a partir do século passado, quando Heindroth criou aexpressão psicossomática. (Mello Filho, 1992). Cerchiari (2000) nos traz que a expressão foi criada por Heindroth ao fazerreferência a insônia e a influência das paixões na tuberculose, epilepsia e câncer.Trombini e Baldroni (2004), trazem que, embora a palavra “psicossomática” serefira a conceitos muito antigos, encontrados em todas as culturas humanas, otermo psicossomático é de origem um tanto quanto recente. De acordo com osautores, Heindroth (1818) sentou a necessidade de unir o conceito de mente e decorpo para reagir à tendência exagerada à separação que estava se verificandona cultura científica da época, bastante influenciada pelo pensamento cartesiano.Pouco tempo depois, em 1822, Jacobi (APUD: Tombini e Bardoni, 2004), propôso termo somato-psíquico para indicar a influência de experiências corpóreas naatividade psíquica. Em ambos os casos, no entanto, um dos dois pólos doproblema sempre era privilegiado: o psíquico ou o somático. Com o passar dosanos, a palavra foi utilizada nos conceitos mais diversos, tendo assumido váriossignificados: * pode referir-se à convicção ou dúvida de que um distúrbio corpóreo tenhaorigem psicológica. Por muito tempo, usou-se o termo Doença Psicossomáticapara uma categoria de patologias médicas que acreditava-se ter uma causapsicológica que a distinguia de outras, cujas causas seriam unicamenteorgânicas. Assim, o termo tornou-se sinônimo de psicógeno. Um conceitosimplista, mas que, ainda hoje, é utilizado por muitos médicos e psicólogos.(Trombini e Baldroni, 2004) 25
  26. 26. * pode indicar a influência das emoções e do eestressee nos processocorpóreos. Neste caso, fala-se também de sintomas psicofisiológicos. Estuda-seos aspectos psicológicos em relação aos corpóreos e avalia-se com outros denatureza social ou ambiental, numa perspectiva multifatorial, embora ligada a umaconcepção causal linear; * pode voltar-se às influências que os processos corpóreos, sãos oupatológicos, podem ter na psique. Uma doença crônica, pro exemplo, podeinterferir na qualidade de vida e ocasionar o aparecimento de distúrbiosemocionais. O termo utilizado seria somatopsíquico; * pode indicar as condições químicas nas quais a função de um órgão oude um aparelho corpóreo é alterada, mas que não chega a caracterizar uma lesãoorgânica que justifique a sintomatologia. Fala-se de síndrome funcional oudistúrbio de somatização, presumindo de modo genérico que a condição sejaconseqüência de um sofrimento emocional ou do eestressee; * pode ser utilizado para definir um tipo particular de personalidade quepredispõe ao desenvolvimento de doenças: personalidade psicossomática, como,por exemplos, pacientes com características de alexia, que manifestamdificuldade para reconhecer e exprimir as próprias emoções em termospsicológicos, tendendo então a vivê-las no plano somático; * pode referir-se ao significado comunicativos que pode assumir umsintoma corpóreo, ou indicar uma modalidade de relação característica de umafamília, na qual um ou mais membros são predispostos a adoecer somaticamente(famílias psicossomáticas); * pode descrever uma modalidade de avaliação pela qual os problemashumanos são estudados, considerando-se diferentes níveis e sistemas biológicos,psicológicos, sociais e ambientais. O exemplo mais importante é o modelobiopsicossocial, proposto por George Engel. Lipowski (1984) coloca que o termo "psicossomática" implica diferentessentidos para diferentes pessoas e tem sido usado numa variedade de contextos,tais como: medicina psicossomática; movimento psicossomático; desordenspsicossomáticas; sintomas psicossomáticos; pacientes psicossomáticos. Segundoa autora, estes termos são raramente definidos por quem os usa, perpetuandosua ambigüidade. 26
  27. 27. Alexander (1989) traz que o termo “psicossomático” tem sido objeto demuita crítica, principalmente porque parece sugerir justamente o que o ponto devista psicossomático denta evitar: a dicotomia mente/corpo. Segundo o autor, otermo deve ser usado apenas para indicar um método de abordagem, tanto empesquisa quanto em terapia, ou seja, o uso simultâneo e coordenado de métodose conceitos somáticos (i.é, fisiológicos, anatômicos, farmacológicos, cirúrgicos edietéticos) de um lado, e métodos e conceitos psicológicos por outro lado. Hulak (2003) enfatiza uma distinção que considera indispensável entre aMedicina Psicossomática e a Psicossomática propriamente dita. De acordo com oautor, enquanto a Medicina Psicossomática diz respeito ao conjunto de açõesvoltadas para o atendimento de pacientes (semiologia, propedêutica, terapêuticae didática), a segunda tem como pertinência e território o ideário, a filosofia, ahumanística da Psicossomática e sua história e campo. Esta distinção torna-seimportante para caracterizar estas psicossomáticas nos dias atuais; apsicossomática hoje. 3.2. UM POUCO DA HISTÓRIA DA PSICOSSOMÁTICA E SEUS CONCEITOS Para discorrer um pouco sobre a história de Psicossomática, é necessárioque falemos, primeiramente, sobre o surgimento do “movimento” psicossomático,para mais adiante falarmos um pouco acerca de alguns profissionais quetornaram-se fundamentais para o seu desenvolvimento. Em Psicossomática Hoje (1992), Mello Filho nos faz uma breve descriçãoda história da Psicossomática. Segundo o autor, o termo psicossomática surgiu apartir do século XIX, como já descrito anteriormente. No entanto, o “movimentopsicossomático” só se consolidou em meados do século XX, com Alexander e aescola de Chicago. Hulak (2003) coloca que Heinroth cunhou a palavra ”psico-somática” (com hífen) e desenvolveu trabalhos sobre a saúde como um todo e decomo as emoções podem gerar doenças; na continuidade de sua obra cunha, em1828, o termo “somatopsíquico”. Já Tormbini e Baldoni (2001), colocam que otermo “somatopsíquico” foi, na verdade, proposto pelo médico organicista Jacobi, 27
  28. 28. em 1822, para indicar a influência das experiências corpóreas na atividadepsíquica. Contemporâneos de Heinroth, Heindorf, Gross e Benecke (APUD: Hulak,2003), também contribuíram para uma visão psicodinâmica da saúde e apsicoterapia proposta por Reil recebeu contribuições teóricas importantes. Alémdisso, Moreau De Tours afirmou que a interpretação dos sonhos era o caminhopara a compreensão das neuroses. Para Mello Filho (1992), a evolução da psicossomática ocorreu em fases. Aprimeira, denominada de fase inicial ou psicanalítica, sob a influência das teoriaspsicanalíticas, teve seu interesse voltado para os estudos da origem inconscientedas doenças, das teorias da regressão e dos ganhos secundários da doença. Asegunda, também chamada de fase intermediária, influenciada pelo modeloBehaviorista, valorizou as pesquisas tanto em homens como em animais,deixando assim grande legado aos estudos do estresse. A terceira fase,denominada de atual ou multidisciplinar, valorizou o social, a interação einterconexão entre os profissionais das várias áreas da saúde. A corrente Psicanalítica teve, como um dos principais representantes,Franz Alexander, cujas teorias baseavam-se em idéias bastante evoluídas, quelevavam em conta tanto aspectos filosóficos, psicológicos e sócias do problema,como dados mais modernos oferecidos pela medicina e pela psicofisiologia. Foi oprimeiro a enfrentar o problema da origem das doenças numa perspectivamultifatorial, acreditando que os fatores emocionais sempre desempenham umpapel importante, interagindo com outros elementos somáticos e ambientais numúnico processo. (Trombini e Baldroni, 2001). Antes dele, no entanto, não podemosdeixar de citar a contribuição deixada por Grodeck, psicanalista que desenvolveuuma teoria segundo a qual, como coloca Casetto (2006), o sintoma somático évisto como representante simbólico dos conflitos psíquicos. Segundo Groddeck(1923, APUD: Casetto, 2006), “A doença não provém do exterior, o próprio serhumano a produz; o homem só se serve do mundo exterior como instrumento para ficardoente, escolhendo em eu inesgotável arsenal de acessórios ora a espiroqueta da sífilis,ora uma casca de banana, depois uma bala de fuzil ou um resfriado”. E, como colocaHulak (2003), apesar da psicossomática não ter sido alvo de maior preocupaçãopara Freud, Georg Groddeck foi o pioneiro de uma psicossomática desvinculada 28
  29. 29. da psicanálise. Nascimento (s/ano) escreve que seu modo de proceder partia doprincípio de que as doenças do homem eram uma espécie de representaçãosimbólica de suas predisposições psicológicas. Groddeck rejeitava a distinçãoentre doenças psíquicas e orgânicas e procurava curar as pessoas em suaglobalidade (Trombini e Baldroni, 2001). Outro nome importante de ser lembradoé o de Ferenczi, que propôs, em 1926, uma nova categoria de neuroses, quechamou de neurose de órgão, com a qual teria encontrado a possibilidade depensar a origem psíquica de certas disfunções orgânicas (Casetto, 2006). Retornando para Alexander (1989), o mesmo coloca que teoricamente,cada doença é psicossomática, uma vez que fatores emocionais influenciamtodos os processos do corpo, através das vias nervosas e humorais. Quando osmédicos não conseguiam encontrar agentes infecciosos ou outras causas diretaspara uma determinada doença, Alexander levantava a hipótese de que fatorespsicológicos poderiam estar envolvidos. Segundo o seu modelo de conflitonuclear, a presença de determinados conflitos inconscientes podia levar àmanifestação de queixas físicas, sendo que cada doença física poderia sercompreendida como o resultado de um conflito psicológico fundamental ounuclear. Ele pensava, por exemplo, que pessoas com “personalidade reumática”tendiam a reprimir a raiva e seriam incapazes de expressar emoções, o que astornaria propensas a desenvolver artrite. Descreveu minuciosamente um grandenúmero de transtornos físicos possivelmente causados por conflitos psicológicos,ajudando a estabelecer assim os pilares da medicina psicossomática (Capitão eCarvalho, 2006) Trombini e Baldroni (2001), ao descreverem a teoria de Alexander, trazemque, para ele, a constituição hereditária, os traumas sofridos no parto ou depois, avulnerabilidade dos órgãos, as doenças anteriores, o tipo de cuidados recebidos,o clima familiar, as experiências afetivas, de trabalhos sociais, integradas com oambiente, são fatores a considerar em todas as doenças. Só seu conhecimentopode levar a se fazer um quadro completo da situação e a tomada de decisõesterapêuticas adequadas. Segundo Casetto (2006), a “escola de Chicago”, grupoliderado por Alexander, estudou basicamente sete patologias: asma brônquica,úlcera gástrica, artrite reumatóide, retocolite ulcerativa, dermatoses, tireotoxicose 29
  30. 30. e hipertensão essencial, procurando localizar, para cada uma delas, um conflitoespecífico. Ainda nesta corrente, tem-se a perspectiva Psicobiológica, representadaespecialmente por Helen Dunbar, que fundou, juntamente com Alexander, emChicago, a revista “Medicina Psicossomática”, que tornou-se uma referência parapublicações de artigos neste campo. Dunbar foi quem introduziu a palavra“psicossomática” na literatura científica dos Estados Unidos. Utilizando-se de umabateria de testes psicológicos, como questionários, testes de personalidade e deinteligência, Dunbar estudou grupos de pacientes atingidos pelas mesmaspatologias, chegando a identificar alguns aspectos de personalidade específicos eformulando o que ficou conhecido como “teoria da especificidade depersonalidade”. (Trombini e Baldroni, 2001). Müller (2008) nos lembra que amesma advogou a abordagem holística no cuidado dos pacientes e fez umacorrelação entre tipos psicológicos e doenças orgânicas. Seria importantesalientar que os dados coligidos por Dunbar e sua teoria da especificidade,embora tenham sido objeto de inúmeras críticas, especialmente por serem poucosatisfatórios ou limitados, abriram caminho a inúmeras outras pesquisas e aodesenvolvimento de modelos teóricos de grande importância para apsicossomática, dentre eles, estudos realizados no final dos anos 50 por MeyerFriedman e Raymond Rosenman. (Trombini e Baldroni, 2001). Enquanto nos Estados Unidos o interesse pela Psicossomática sedesenvolveu a partir da década de 30, na França, a partir dos anos 50, um grupode psicanalistas, liderados por Pierre Marty, ampliou de maneira significativa ateoria e a clínica psicossomática, introduzindo uma continuidade conceitual eclínica entre a abordagem médica e psicanalítica da sintomatologia, tantopsíquica quanto somática. O objetivo inicial desses teóricos era melhorcompreender as patologias somáticas cuja dinâmica não correspondiam aomodelo da conversão histérica, utilizando o conceito psicanalítico de neuroseatual. (Moura, 2009) Volich (1998) diz que gradualmente foi se desenvolvendo um corpo clínicoe teórico que considera a sintomatologia a partir de uma concepçãoessencialmente metapsicológica e, sobretudo, econômica. É uma tentativa de 30
  31. 31. compreender os destinos da excitação pulsional no organismo e suapossibilidades de descarga. Segundo Marty (1994) a patologia somática não conversiva é o resultadoda impossibilidade de elaboração da excitação através dos recursos psíquicos doindivíduo, em função de uma estruturação deficiente, no plano representativo eemocional, do aparelho mental. O modelo proposto por ele ressalta a idéia de quea um menor grau de atividade mental corresponde uma maior vulnerabilidadesomática. Em 1972, Pierre Marty funda o Instituto de Psicossomática de Paris.Partindo de concepções psicanalíticas, ele pensa a patologia somática comoresultado da impossibilidade de elaboração da excitação por meio de recursospsíquicos do indivíduo, em função de uma estruturação deficiente, no planorepresentativo e emocional do aparelho psíquico. (Capitão e Carvalho, 2006).Marty (1994) acredita que em grande número de pacientes que apresentam umasintomatologia somática não conversiva é possível constatar um empobrecimentoda capacidade de simbolização das demandas pulsionais e de sua elaboraçãoatravés da fantasia. O modelo proposto por Marty ressalta a idéia de que ummenor grau de atividade mental corresponde a uma maior vulnerabilidadesomática. Diante de um traumatismo, um indivíduo com uma atividade mentalpouco desenvolvida não teria recursos mentais suficientes para lidar com oexcesso de estimulação, e esta desorganização passaria a atingir as funçõessomáticas, menos evoluídas. Sua escola introduziu a noção de pensamentooperatório. Trombini e Baldoni (2001) colocam que, de certo modo, a importância doconceito de pensamento operatório não foi reconhecida até o começo dos anos1970, quando Peter Sifneos e John Nemiah, dois psicanalistas de Boston,mediante o estudo de transcrição literal dos colóquios com pacientes atingidos pormoléstias psicossomáticas clássicas, descobrem uma série de traços psicológicoscomuns que chamaram de alexia, que significa “falta de palavras para exprimiremoções”. As características destas pessoas lembram as descritas por Martypara o pensamento operatório: • dificuldade em reconhecer e exprimir as próprias emoções; 31
  32. 32. • incapacidade em distinguir com clareza os sentimentos das sensações corpóreas ligadas às atividades emocionais; • escassez de fantasia e de imaginação; • estilo cognitivo muito prático e pouco introspectivo, dirigido para o mundo físico e para a ação muito mais do que para o pensamento. Trata-se, portanto, de pessoas que aparentemente não têm uma vidainterior, com as quais o diálogo tende a ser sem emoções, pois faltam referênciasàs vivências, aos desejos e aos sentimentos. Tendem a recorrer à ação paraevitar problemas e conflitos e, quando se dirigem ao médico, limitam-se adescrever os sintomas físicos, como se não tivessem significado emocional. Outra abordagem é a Psicofisiológica, com os estudos iniciais de PAVLOVe CANNON, que por sinal foi o primeiro estudioso a interessar-se pelo estresseem seu aspecto psicossomático. De acordo com a perspectiva Neurofisiológica,Walter Cannon (1932, APUD: Nascimento, s/ano), apresentou o conceito dehomeostasia, a tendência dinâmica dos organismos manterem as diferenças, ouseja, a tendência ao equilíbrio, e o conceito de reação de emergência, o padrãode resposta “luta ou fuga”. Além deles, temos Harold Wolff e seu livro "Stress and Disease", ondeelaborou o conceito de estresse psicológico e mudanças na vida estressantescomo contribuição aos fatores causais das doenças. Müller e Silva (2007) destacam que uma importante contribuição para oavanço dos estudos sobre a interação mente-corpo foi dada por Hans Selye,através de ideais sobre a Sindrome Geral de Adaptação Também Engel, que desenvolveu um conceito unificado de saúde e doençao qual chamou de modelo biopsicossocial, é um dos precursores do que maisadiante iremos chamar de “Psicossomática Moderna”. Segundo Trombini eBaldroni (2001), a psicossomática moderna procura realmente seguir umaperspectiva biopsicossocial, conforme modelo originariamente proposto por Engel,no sentido de que se ocupa do estudo dos problemas humanos considerando as 32
  33. 33. relações não só entre os sistemas diversos (genético, anatômico, neurológico,endocrinológico, imunológico, psicológico, social), mas também entre níveisdiversos, do subcelular ao ambiental. Assim, uma doença pode resultar dainteração de muitos fatores que podem ser avaliados em vários planosrelacionados entre si. Engel, considerado um dos especialistas mais competentes em medicinaPsicossomática da segunda metade do séc. XIX, de acordo com Trombini eBaldroni (2001), em seus estudos sobre estresse, traz que as causas maisimportantes do estresse individual podem ser basicamente de três tipos: umaperda ou ameaça de perda; uma prejuízo ou ameaça de prejuízo; a frustração deuma necessidade. Outro autor interessante de ser lembrado é Lazarus, queutilizou o termo estresse psicológico para indicar, como citam Trombini e Baldroni(2001), a condição na qual a reação ao eestressee depende essencialmente davalorização subjetiva dada pelo indivíduo, como a pessoa constrói mentalmente ofato. (lembrando aqui que, no estresse físico, o estímulo age diretamente notecidos corpóreos e só secundariamente na atividade mental). Hulak (2003), descrevendo um pouco da história da Psicossomática, colocaque Ferenczi e posteriormente seus discípulos Franz Alexander e Michael Balintforam decisivos para a construção das bases teóricas e técnicas da medicinapsicossomática moderna. Também foram importantes as contribuições de FelixDeutsh, Discípulo de Freud que realizou pesquisas pioneiras estudando ainfluência dos fatores emocionais referentes aos distúrbios cardiovasculares,dermatológicos, respiratórios e gastrintestinais e que, assim como Groddeck,estendeu o conceito de conversão para além da histeria,considerando-a umprocesso normal que atua por toda a vida em todo ser humano. (APUD:Trombini eBaldroni, 2001) e Helen Deutsh. Nos Estados Unidos, a escola de Chicago(Alexander) a de Nova York (Dunbar) e a de Boston (Sifneos e Nemiah, quedesenvolveram o conceito de alexitimia, visto anteriormente), foram consolidandoa medicina psicossomática no após-guerra (fins de 1950, início de 1960) atravésda Associação Americana de Medicina Psicossomática e do International Collegeof Psychosomatic Medicine (ICPM), na Europa. Também a França vemcontribuindo com uma das escolas mais ricas, produtivas e criativas e de grandeinfluência atual, a escola psicossomática de Paris, fundada por Pierre Marty. 33
  34. 34. Merece também destaque, como um trabalho mais contemporâneo daMedicina Psicossomática, o desenvolvido por Joyce McDougall. McDougall apresenta um pensamento muito peculiar, diferente dasconhecidas três escolas de psicossomática e algumas outras vertentes vistasanteriormente como a Escola de Chicago, com Franz Alexander (1989),com foconos perfis de personalidade e definindo determinados tipos e classificações dealgumas doenças como psicossomáticas; Escola de Paris, como representantePierre Marty (1994), baseada no conceito de pensamento operatório, quandopaciente superinvestiria libidinalmente o que é concreto, como os sintomascorporais; a Escola de Boston com o conceito de Alexitimia, que alude àdificuldade dos pacientes conseguirem ler suas emoções e, por isso, expressá-laspelo corpo; como representantes John Nemiah e Peter Sifneos (1973). As duasúltimas relacionam a eclosão psicossomática com ausência de resposta afetiva,implicando uma forma de relação objetal marcada pela pobreza de investimentoslibidinais, apresentada na forma de dificuldades de ordem do afeto e dasimbolização. As três escolas consideram que os eventos psicossomáticos seriamcomuns a determinados tipos de pessoas e desconsideram a ocorrência defenômenos psicossomáticos passíveis de acontecer com qualquer pessoa. JáMcDougall (1982, apud Dias, 2007) afirma a necessidade de um entendimentopsicossomático da pessoa e de seu funcionamento total, não concordando emminimizar os fenômenos do adoecimento para fins de explicação. A autora afirmaque face à dor psíquica, às divisões internas, aos traumatismos universais epessoais que a vida inevitavelmente provoca, o homem é capaz de criar umaneurose, uma psicose, um escudo caracterial, uma perversão sexual, sonhos,obras de arte – e doenças psicossomáticas (McDougall, 1978/1989, apud Dias,2007). Um dos focos de McDougall foi investigar a possibilidade de análise depacientes com adoecimento orgânico; considerou que qualquer paciente, emqualquer momento, poderá apresentar um sintoma orgânico e que este poderá vira fazer parte do tratamento e das interpretações. A autora acredita que os problemas colocados pela somatização estão emuma encruzilhada de várias disciplinas, e que a pessoa não é pura estruturapsicológica. Nem pura estrutura orgânica. E que ninguém poderá contestar,principalmente sob a ótica da psicanálise, que os processos psíquicos se originam 34
  35. 35. e evoluem a partir de processos biológicos. Para a autora, o processopsicossomático é um delírio do corpo; é o corpo que enlouquece. A expressãopsicossomática trata da “regressão”*, mais primária e profunda do ser, tornando ocorpo um campo de batalha, em uma luta cujo sentido não fica exatamente claro,McDougall constatou que pessoas com tendência somatizante tendem a exigirdemais do corpo físico, ou mesmo ignorar sinais do corpo desamparado, como sefosse vítima de uma carência de investimento libidinal, ou não conseguisse serrepresentado enquanto objeto psíquico. Para ela, o papel da mãe é fundamentalpara a organização psicossomática da criança, que só poderá adquirir um corpo ese tornar consciente dos sinais que ele emite se apta a elaborar simbolicamente oque ocorre dentro da díade mãe-criança que futuramente deverá ser rompida. Peres (2005), em resenha escrita acerca da obra “ A Psicanálise no Divã” ,de Ruth Menahem (2001), destaca dois conceitos de grande relevância na obrade McDougall, a saber: “normopatia” e“desafetação”. Ambos foram cunhados apartir da descrição de distúrbios da economia afetiva – decorrentes, na maioriados casos, de desarmonias no vínculo com a figura materna – que fomentam aexclusão de representações associadas a sentimentos e emoções do aparelhopsíquico. Tais distúrbios, segundo a autora, não provocam restituições psicóticas,tais como delírios e alucinações, porém, engendram uma cisão entre a mente e ocorpo e favorecem a eclosão de doenças orgânicas. Para McDougall (1997, apud Capitão e Carvalho, 2006), o afeto não podeser concebido como acontecimento puramente mental ou físico. A emoção éessencialmente psicossomática, pois o fato de ejetar a parte psíquica de umaemoção permite à parte fisiológica exprimir-se como na primeira infância, o queleva a sua ressomatização. Aqueles que empregam continuamente a ação comodefesa contra a dor mental (quando a reflexão e a elaboração mental seriam maisadequadas) correm o risco de aumentar sua vulnerabilidade psicossomática.Determinados modos de funcionamento mental, como os pensamentos concretos,alexitímicos, objetos parciais, sentimentos de angústia persecutória adquiridosnos primeiros meses de vida, antes da aquisição da palavra, podem predispormais às eclosões psicossomáticas do que às soluções neuróticas, psicóticas ouperversas, pois as fantasias aterrorizantes, que poderiam tornar-se dizíveis, são 35
  36. 36. imediatamente apagadas do campo da consciência por mecanismos primitivos declivagem e de identificação projetiva, ficando desprovidas de sua verdadeiraimpregnação afetiva e de valor simbólico, o que obriga o psiquismo a emitir sinaisde sofrimento do tipo pré-simbólico, suscitando respostas somáticas e nãopsíquicas diante de uma angústia indizível (McDougall, 1996, apud Capitão eCarvalho, 2006). Sobre a linguagem do corpo, Mc Dougall (APUD:Dumas, 2004) coloca que adisfunção psicossomática, como resposta a conflitos de todos os tipos, pode serconcebida como um sintoma através do qual a psique procura, com meiosprimitivos e infraverbais, enviar mensagens que serão interpretadassomaticamente. Assim, em estados psicossomáticos, um órgão ou uma funçãocorporal, não perturbados por funções orgânicas, pode agir como se fossechamado a responder psiquicamente a uma situação conflituosa sentida comobiologicamente ameaçadora. O corpo é sentido sem distúrbios de naturezaorgânica pode agir como se tivesse chamado a reagir psiquicamente a umasituação conflituosa percebida como biologicamente ameaçadora. Segundo ela, ocorpo de um indivíduo pode, por exemplo, comportar-se como se procurasse selivrar de uma substância tóxica sem que ele tenha sido exposto a qualquerveneno (exemplo: a colite retal hemorrágica, a asma brônquica). (...) Fenômenossomáticos deste tipo são mensagens enviadas pela psique quando ela é colocadaem perigo pelo ressurgimento de acontecimentos dolorosos, culpabilizantes ouameaçadores, mas cuja representação é imediatamente ejetada doinconsciente.(...) Esses fenômenos pertencem a uma ordem pré-simbólica e sãouma resposta somatopsíquica que a psique dá em seus esforços para interromperas angústias (...); as experiências de ansiedade, mobilizadas durante um certotempo, não puderam originar uma representação mental verbal, isto é, umarepresentação da ordem do pensável. Mello Filho (2002) salienta que atualmente a visão psicossomática jáconquistou um espaço importante entre as práticas médicas, e dá como exemplodisto a atual definição de saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS),segundo a qual “saúde é um estado de completo bem estar físico, mental e social,e não apenas ausência de doença”. 36
  37. 37. Morin (2002, APUD: Müller e Silva, 2006), não apenas corrobora com estepensamento, mas vai além, afirmando que o homem está em relação com seuecossistema, suas influências e o influencia. Assim, segundo o autor, énecessário respeitar a singularidade do homem, levando em contasimultaneamente seus processos biológicos, sociológicos e culturais. Atualmente, como ressalta Vasconcellos (1998, APUD: Müller e Silva,2006), os segmentos mais avançados desse movimento da abordagempsicossomática exigem que o bem-estar não seja apenas biopsicossocial, masque abranja também as dimensões espiritual e ecológica. Por fim, não podemos esquecer, na contemporaneidade, da grandecontribuição que os avanços e estudos científicos deram à Psicossomática,especialmente os estudos na área da Psicofisiologia, e as descobertas nas áreasde Psicoimunologia, Psicoendocrinologia, e o que passou a se chamar, maisatualmente, de Psiconeuroendocrinoimunologia. Concluindo, saliento a questão trazida por Hulak (2003), de que, dosgregos aos dias de hoje, a psicossomática abrigou quatro correntes: apsicodinâmica, a biológica, a culturalista e a holística. A tendência holística divide-se entre as influências místicas e alternativas ea visão mais seguida de uma medicina global, integradora e interdisciplinar,revalorizando o papel de coordenação da psicossomática nas equipes de saúde ena comunidade. O princípio fundamental da filosofia holística é que a doença ocorre quando tensões emocionais, psicológicas ou espirituais se tornam excessivas, causando assim um enfraquecimento do corpo. Em outras palavras, o corpo reflete ou manifesta as lutas mais profundas da vida da pessoa. À medida que um indivíduo se mostra incapaz de lidar com as tensões emocionais, psicológicas ou espirituais, ele se torna receptivo ou susceptível aos vírus, às bactérias ou aos germes presentes na atmosfera. (Myss, 1997, p.25) Aos poucos a psicossomática marcha para configurar sua própriaterritorialidade; a psicossomática holística não só é transmissora de humanismo,mas, um agente de transformação social. (Hulak, 2003), Trombini e Baldoni (2001) destacam que a assunção de uma posiçãocomplexa em psicossomática permite o estudo do ser humano pela utilização de 37
  38. 38. uma rede de teorias e integrando pontos de vista diversos, tolerando suaseventuais contradições e diferenças. Isso, porém, não significa negar a validadeda orientação teórica de referência e tampouco considerar o modelo equivalente aoutro. Mesmo não existindo verdades definitivas e absolutas, existem situaçõesque se defrontam melhor mediante a adoção de uma perspectiva particular. Seria realmente absurdo pretender curar uma peritonite aguda, fazendo deitar-se o paciente no divã de um psicanalista. E quantas intervenções cirúrgicas foram realizadas inutilmente por não se ter avaliado o doente do ponto de vista psicológico!(Trombini e Baldroni, 2001, p.51). 3.3. A PSICOSSOMÁTICA NO BRASIL 4 O movimento Psicossomático no Brasil surgir na década de 40 - imbuído deuma missão de resgate conceitual da Escola Hipocrática, com um olhar quecontemple o ser humano como um todo. A Associação Brasileira de Medicina Psicossomática - ABMP - foi fundadaem 1965, com 147 membros, tendo como primeiro presidente Danilo Perestrello.Entre os anos de 1976 e 1984, houve uma grande expansão com a criação denúcleos regionais. Segundo a Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, o foco atualda Psicossomática no Brasil é voltado à abordagem multidisciplinar, compredomínio da interação disciplinar e de interconexões entre os váriosprofissionais da saúde, além de sociólogos e antropólogos que têm demonstradointeresse em prol da causa. Entendemos que o ser humano é composto por corpo e mente queinteragem num determinado espaço social, e essa interação é determinante emqualquer tipo de enfermidade que venha a lhe afetar. 3.4. A PSICO-ONCOLOGIA 3.4.1. Etiologia da palavra e definições4 Fonte: site ABMP 38
  39. 39. Psico-oncologia, Psicooncologia, oncopsicologia, oncologia psicossocial... designações diferentes e grafias diversas para a mesma idéia: a do melhor conhecimento teórico e técnico sobre o câncer, seus tratamentos, efeitos colaterais, seqüelas e, acima de tudo, sobre os cuidados com o paciente, seus familiares e seus cuidadores, sejam eles leigos ou profissionais. Assim inicia a apresentação do livro “Temas em Psico-Oncologia”, daSummus Editorial, organizado pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia,datado de 2008. Isto nos leva a compreender que, mais importante do que agrafia da palavra, é essencial que ela seja dotada de um sentido. A Psico-Oncologia é uma área de interface que busca estudar as duasdimensões psicológicas do câncer, sendo elas, segundo Holland (1989, apudAngerami- Camon 2000), o impacto do câncer na função psicológica do paciente,na sua família e nos profissionais de saúde que o cuidam, bem como o papel queas variáveis psicológicas e comportamentais possam ter no risco do câncer e nasobrevivência a este. Ela constitui-se em uma área do conhecimento da psicologia da saúde,aplicada aos cuidados com o paciente com câncer, sua família e os profissionaisenvolvidos no seu tratamento. (Veit e Carvalho, 2008) Jimmie Holland (1989, Apud Veit e Carvalho 2008), fundadora da IPOS(International Psycho-Oncology Society), define a Psico-Oncologia como umasubespecialidade da Oncologia, que procura estudar as duas dimensõespsicológicas presentes no diagnóstico do câncer: 1) o impacto do câncer nofuncionamento emocional do paciente, sua família e profissionais de saúdeenvolvidos em seu tratamento; 2) o papel das variáveis psicológicas ecomportamentais na incidência e na sobrevivência ao câncer. Embora seja uma área de atuação multidisciplinar, no Brasil, ela édesenvolvida principalmente por psicólogos. Assim, Gimenes (1994, apudAngerami 2000) definiu a Psico-Oncologia como a área de interface entre aPsicologia e a Oncologia, e que utiliza conhecimento educacional, profissional emetodológico provenientes da Psicologia da saúde para aplicá-lo: 1º) naassistência ao paciente oncológico, sua família e profissionais de Saúdeenvolvidos com a prevenção, o tratamento, a reabilitação e a fase terminal dadoença; 2º) na pesquisa e no estudo de variáveis psicológicas e sociais 39
  40. 40. relevantes para a compreensão da incidência, da recuperação e do tempo desobrevida após diagnóstico de câncer; 3º) na organização de serviços oncológicosque visem o atendimento integral ao paciente (físico e psicológico), enfatizandode modo especial à formação e o aprimoramento dos profissionais de Saúdeenvolvidos nas diferentes etapas do tratamento. 3.4.2. Um pouco da história da Psico-Oncologia A associação entre as doenças físicas e aspectos psicológicos existedesde a antigüidade, com Hipócrates, para quem a saúde era uma evidência deque o indivíduo havia atingido um estado de harmonia entre instâncias internas,assim como com o meio ambiente. (Veit e Carvalho, 2008). Também Sócrates lidava com a “inseparabilidade” do sujeito, como lê-seem Cármides (APUD: Ramos, 1994, p. 18): Assim como não é possível tentar a cura dos olhos sem a cabeça, nem a cabeça sem a do corpo, do mesmo modo não é possível tratar do corpo sem cuidar da alma, sendo essa a causa de desafiarem muitas doenças o tratamento dos médicos helenos, por desconhecerem estes o conjunto que importa ser tratado, pois não pode ir bem a parte quando vai mal o todo (...) Galeno, considerado, junto com Hipócrates, um dos pais da Medicinaocidental, chegou a observar que mulheres deprimidas tinham mais tendência adesenvolver câncer (Carvalho, 1998). Mais adiante, René Descartes estabeleceu um sistema dicotômico depensamento, onde o indivíduo é dividido em duas instâncias res cogitans e resextensa. Esta forma de ver o ser humano exerceu, segundo Veit e Carvalho(2008), grande influência no pensamento ocidental, sendo responsável pelosignificativo desenvolvimento das ciências, embora tenha dificultado a visão doser humano integral. Tal teoria acabou contribuindo muito para os avanços na área médica que,através de estudos, descobriu agentes etilógicos das doenças, e podedesenvolver vacinas e medicações. Este grande desenvolvimento científico e tecnológico, por fim, acabou poraproximar mente e corpo, descobrindo inter-relações entre esses dois elementos,e retomando, aos poucos, a visão do indivíduo como um todo. 40
  41. 41. A integração mente-corpo foi retomada por Freud, em seus Estudos sobreHisteria, demonstrando que acontecimentos psíquicos podem ser a causa dedoenças orgânicas. Essa retomada permitiu que fossem realizadas pesquisas quebuscaram as inter-relações entre os aspectos biológicos, psicológicos e sociais,dando origem ao modelo psicossocial na Medicina; assim, foram os trabalhos deFreud e Jung que proporcionaram o desenvolvimento da MedicinaPsicossomática. Em 1939, ocorreu à oficialização dessa área e, através dacontribuição de várias outras linhas teóricas, com pesquisas, estudos e ação, otermo Psicossomática foi conceituado como a inter-relação entre mente e corpo,na literatura científica atual. (Carvalho, apud Santos, 2005). E a Psico-oncologiasurgiu como uma vertente da Psicossomática. E como isto se deu, afinal? Segundo Viet e Carvalho (2008), gradualmente, no decorrer da práticamédica, foi-se percebendo que aspectos psicossociais estavam envolvidos naincidência, evolução e remissão do câncer. Assim, muitos médicos passaram a sepreocupar com os aspectos psicológicos presentes ao adoecimento por câncer.Então, psiquiatras começaram a ser chamados para atender pacientes em funçãodo diagnóstico e dos tratamentos, muitas vezes, assustadores. Além disso, àmedida que foi sendo reconhecido que a etiologia e o desenvolvimento do câncere a adesão aos tratamentos estavam associados a fatores psicológicos,comportamentais e sociais, tornou-se necessário desenvolver técnicas deabordagem psicológica na área da saúde que pudessem melhorar a qualidade devida dos pacientes e seus familiares e também garantissem sua participação ativaem todo o processo de tratamento. Dessa forma, a psicologia desenvolveu umcorpo de conhecimentos específicos- compreensão do paciente oncológico etécnicas de intervenção especiais, com conseqüente melhora da qualidade devida. De seu lado, o desenvolvimento da medicina levou a significativo aumentodo tempo de sobrevida, do número de sobreviventes e também à melhora daqualidade de vida. 41
  42. 42. 4. A RELAÇÃO ENTRE PSICOSSOMÁTICA e CÂNCER Embora, no percurso do presente trabalho, tenha havido uma tentativa deescrever sobre cada uma destas áreas em separado, em diversos momentosnota-se o quanto as mesmas andam juntas, podendo a Psicossomática serconsiderada como a “pioneira”, aquela da qual deriva-se a Psico-Oncologia, eabre-se o interesse pelo estudo da Psiconeuroimunologia, atualmente já chamadade Psiconeuroendocrinoimunologia. A relação destas com o câncer em si apareceem vários trabalhos e é defendida por muitos autores, porém, muitas pesquisasrealizadas na área recebem uma série de críticas, por serem falhas 42
  43. 43. metodologicamente. E é sobre estes “achados” que discorreremos no presentecapítulo. Seria importante salientar que o diagnóstico de uma doença neoplásicarepresenta para o paciente, segundo Tschuschke (2008), sempre um choque. Noentanto, aquela que por dezenas de anos foi quase que inevitavelmente,considerada como uma sentença de morte, hoje, cada vez mais, é vista comouma doença crônica, seja pelo número crescente de pacientes, seja por estar setornando uma patologia passível de cura. Tschuschke (2008) coloca que, nospróximos dez anos, a probabilidade de se ter um tumor no decorrer da vidapassará de 25% para 33 %, conforme afirmado pelo oncologista alemão VolkerDiehl (APUD: Tschuschke, 2008), o qual se baseou no aumento da expectativa devida da população. Em outras palavras, isto significa que um indivíduo deveráaprender a conviver com os riscos e comprometimentos causados pela doençapara poder manter a melhor qualidade de vida pelo maior tempo possível.Oconfronto contínuo com a ameaça de uma recidiva ou de uma piora requer umesforço notável por parte do paciente, bem como mudanças de vida, hábitos ecomportamentos. Visto como uma doença “assustadora”, repleta de mitos e lendas, o câncer,cada vez mais, é visto como uma doença multifatorial, cuja causa é um somatóriode fatores, incluindo, ali, também aspectos emocionais. Na evolução das teorias explicativas sobre as causas psicossomáticas dos tumores, a multicausalidade física e psicológica se transforma em seguida em um modelo principalmente ligado ao estresse, para depois passar, na literatura dos últimos 50 anos, em um novo modelo, aquele da cancer prone personality.. (Schwarz, 1994, APUD: Tschuschke, 2008, p. 05) Salgado (2001), em sua obra intitulada “A Biologia da Esperança”, traz aseguinte indagação: Seria o câncer uma doença psicossomática? Mais adiante,na tentativa de buscar uma resposta para esta indagação, a mesma coloca queAlexander diz que todas as doenças são psicossomáticas porque os fatoresemocionais influenciam os processos do corpo através das vias nervosas ehumorais. Freud (1895, APUD: Salgado, 2001), ao estudar as neuroses dehisteria, aborda o componente somático do sintoma e o entende como expressão 43
  44. 44. simbólica do conflito. Há uma escolha somática na conversão, onde um órgão ouo próprio corpo facilitaria a expressão da conflitiva inconsciente. Dethlefsen e Dahlke (1983) propõem uma leitura simbólica do câncer apartir de uma comparação feita com a realidade de nossa sociedade. O câncerentão é interpretado como uma expressão somática de conflitos sociais, ondepercebemos que o ser humano tem se comportado de forma semelhante à dotumor, cultivando o individualismo e o egoísmo como forma de sobrevivência,através da exploração sem limites do seu “hospedeiro”: o planeta Terra. Neste sentido, os autores chamam a atenção para o único órgão que não éatingido pelo câncer: o coração, que constitui psiquicamente o símbolo do amornão egoísta. Desta forma, um possível “antídoto” para esta doença seria umatransformação na concepção individualista de mundo, um entendimento sistêmicoda vida e uma transcendência do próprio ego, lembrando que transcender não éexcluir, mas ampliar. Simonton (1987) interessou-se em pesquisar o que levaria dois pacientes,com igual prognóstico, terem um desfecho diferente, ou seja, um morrer e o outrorecuperar a saúde. Questionando os pacientes que acabavam por recuperar asaúde, acabou chegando a um ponto comum entre todos: eles achavam quetinham uma certa influência sobre o curso da própria doença. Além disso, todostinham algo por que lutar, e uma posição positiva em relação à vida. Partindo dapremissa de que a diferença entre o paciente que recupera a saúde e aquele quenão o consegue reside em parte na sua atitude em relação à doença e àconvicção de que pode, de certa forma, ter uma influência sobre ela, pensouentão de que forma poderia ajudar os pacientes. Juntamente com StephanieSimonton, que trabalhava com aconselhamento de motivação, começou então autilizar com os pacientes técnicas como terapia de grupo, meditação, visualizaçãoe biofeedback. A partir de nossos estudos de biofeedback descobrimos que algumas técnicas possibilitavam às pessoas que as praticavam serem capazes de influenciar seus próprios processos internos, influenciando as batidas do coração e a pressão sangüínea. (Simonton, 1987, p. 17) Hürny, 1996, APUD Tschuschke, 2008) coloca que é altamente improvávelque o câncer possa ser provocado por um único fator. Com base no estado atualdas pesquisas, a hipótese mais creditada é aquela de uma gênese multifatorial, 44
  45. 45. na qual as influências ambientais (radiação, vírus, elementos carcinogênicos), osfatores psicossociais (estresse, comportamentos de risco), os fatoresimunológicos, endócrinos e genéticos exercem uma ação interativa ou cumulativade acordo com uma modalidade que ainda não é totalmente conhecida. Simonton (1987) parte da premissa de que uma doença não ésimplesmente um fato físico, mas um problema que diz respeito à pessoa comoum todo, incluindo não apenas o corpo, mas também as emoções e a mente. Oautor acredita que os estados emocional e mental têm uma função importantetanto no que diz respeito à suscetibilidade à doença, incluindo o câncer, como narecuperação de qualquer doença. Outra questão por ele sugerida é de que ocâncer surge como uma indicação de problemas existentes em outras áreas davida da pessoa, agravados ou compostos de uma série de estresses que surgemde 6 a 18 meses antes do aparecimento do câncer. O paciente canceroso,segundo Simonton (1987), reagiu a esses problemas e estresses com umprofundo sentimento de desistência e desesperança, o que, acredita o autor,dispara reações fisiológicas que suprimem as defesas naturais do corpo,tornando-o suscetível à produção de células anormais. Para Simonton (1987), na luta para recuperar a saúde, deve ser levado emconta o que está acontecendo não apenas no nível físico, mas também o que estáacontecendo no resto da vida do paciente. Ele salienta: “Se o sistema total integrado de mente, corpo e emoções, que constitui a pessoa como um todo, não está trabalhando para recuperar a saúde, então intervenções simplesmente físicas não darão o resultado desejado”. (Simonton, 1987, p.21) Pensando no câncer sob uma perspectiva Psicossomática, Sattman-Frese(1994), Levenson e Bemis (2000), Tschuschke (2008), citam estudo realizado porShekelle (1981), no qual mostra que pessoas que sofrem de depressão têm umrisco aumentado de vir a desenvolver câncer. O estudo, baseado em testespsicológicos realizados com 2020 pessoas, demonstrou que a depressão, mais doque outros fatores contribui para a ocorrência do câncer, sendo aqui a depressãoentendida como o resultado de dificuldades ou medo de identificar ou expressarsentimentos. O processo inconsciente de reprimir sentimentos conflitivos e queforam experienciados como difíceis de manejar e, requerem grandes quantidadesde energia, energia esta que, conseqüentemente, fica indisponível para outras 45

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