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  • 1. O Instituto Votorantim apóia essa causa. E quer ver muitos jovens fazendo sucesso na capa. ano1–número3–novembro2005ano1–número3–novembro2005ano1–número3–novembro2005ano1–número3–novembro2005ano1–número3–novembro2005 ARTE&CULTURAONDAJOVEMnúmero3–novembro2005número3–novembro2005número3–novembro2005número3–novembro2005número3–novembro2005 ARTE & CULTURAARTE & CULTURA Como as manifestações artísticas e culturais promovem o desenvolvimento pessoal e social dos jovens brasileiros Como as manifestações artísticas e culturais promovem o desenvolvimento pessoal e social dos jovens brasileiros
  • 2. 50% das escolas públicas não têm professores de arte Cerca de 1% do PIB brasileiro MAIS DE 80% DAS CIDADES BRASILEIRAS NÃO TÊM Cada R$ 1 milhão investido na área cultural é gerado pela cultura MUSEUS, TEATRO, SALA DE CINEMA gera 160 postos de trabalho sonar Platéia do Master Crews, no Centro Cultural Aiti-Ken (Brasil/Japão), em São Paulo FOTOS:PENNAPREARO Onda Jovem 02-07(nº3) OK 10/20/05, 8:41 PM2
  • 3. Educadores usam teatro, artes plásticas e música em O grupo Afro Reggae, do Rio, tira jovens do A CULTURA HIP HOP SE ORGANIZA CADA VEZ MAIS NAS As políticas públicas estão priorizando as ações coletivas e São Paulo, João Pessoa e Manaus pág. 14 tráfico e já é quase auto-sustentável pág. 22 PERIFERIAS DAS CIDADES BRASILEIRAS PÁG. 60 profissionalizantes pág. 64 A B.Girl Wal, da equipe GBCR, do Rio de Janeiro, na festa King of the Circle, em Sorocaba (SP) Onda Jovem 02-07(nº3) OK 10/20/05, 8:41 PM3
  • 4. âncoras “A arte na educação, como expressão pessoal e como produção cultural, é um instrumento para a identificação social e o desenvolvimento individual.” Ana Mae Barbosa, professora da Universidade de São Paulo, especialista em ensino da arte “A criatividade é uma habilidade de sobrevivência, um recurso precioso, especialmente neste momento da história humana, marcado por instabilidades.” Eunice Soriano de Alencar, professora da Universidade Católica de Brasília, autora do livro “Criatividades Múltiplas” “A ligação com a cultura me transformou em uma pessoa melhor, mais aberta aos problemas do mundo.” William da Silva Mota, 20 anos, músico do Projeto Charanga, em São Paulo “Nossa cultura tem valores que merecem ser preservados.” Délio Firmo Alves, índio da etnia Desano, de São Gabriel da Cachoeira (AM) “Hoje, os jovens têm mais autonomia para construir seu acervo cultural.” Paulo César Rodrigues Carrano, do Observatório da Juventude da Universidade Federal Fluminense BRUNOGARCIA Onda Jovem 02-07(nº3) OK 10/20/05, 8:41 PM4
  • 5. “É incrível, mas o cinema e o teatro me deram mais responsabilidade que o próprio serviço militar.” Leandro Firmino da Hora, ator, vice-presidente da ONG Nós do Cinema “Tem muita gente que não considera a arte uma profissão e não topa pagar o valor que ela merece. Pedem muitas apresentações gratuitas.” Ana Lucia da Silva Campos, 16 anos, estuda artes circences no Circo Lahetô, em Goiânia (GO) “O planejamento de um desenho cultural brasileiro deveria ter como premissa a heterogeneidade e a diversidade culturais, que constituem a marca de nossa nacionalidade.” Tião Rocha, antropólogo e fundador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, em Minas Gerais “A cultura abre os horizontes das pessoas, faz com que elas conheçam outros mundos, aprendam a se expressar e a reivindicar seus direitos.” Nadia Barbosa Accioly, 19 anos, estuda poesia no Cria, em Salvador “A peça clássica “Opus 26”, de Max Bruch, é pura adrenalina, igual à de pichar em cima do viaduto ou no alto do prédio.” L. F. A. C. , 17 anos, ex-pichador, toca violino no Projeto Guri, em São Paulo DEISELANELIMA RISONALDOCRUZ Onda Jovem 02-07(nº3) OK 10/20/05, 8:41 PM5
  • 6. expediente ano 1 – número 3 novembro 2005/fevereiro 2006 Um projeto de comunicação apoiado pelo Instituto Votoratim Projeto editorial e realização Fátima Falcão e Marcelo Nonato Olhar Cidadão – Estratégias para o Desenvolvimento Humano www.olharcidadao.com.br Direção editorial Josiane Lopes – MTb 2913/12/13 Secretaria editorial Lélia Chacon Projeto gráfico Artur Lescher e Ricardo van Steen (Tempo Design) Colaboradores texto: Ana Mae Barbosa, Aydano André Motta, Cecília Dourado, Daniela Rocha, Ferreira Gullar, Flávia Oliveira, Iara Biderman, Jane Soares, Leonardo Brant, Karina Yamamoto, Katia Canton, Leusa Araujo, Marco Roza, Ricardo Rizzo, Ruth Cardoso, Tião Rocha, Yuri Vasconcelos foto: Anderson Oliveira, Andréa Agraiz, Andréa de Valentim,AntônioLima,ArnaldoCarv alho,Augusto Pessoa, Beatriz Assumpção, Bruno Garcia, Celso Pacheco,DavilymDourado,FranciscoAndradeNeto, FranciscoCampos,GustavoLourenção,Gyancarlo Braga, Henk Nieman, Isaiaz Medeiros, Kátia Lombardi,MárciaZoet,MarcosFernandes,Mayko Pereira, Paulo Gonçalves da Silva, Penna Prearo, Ratão Diniz, Rodrigo Castro, Viviane Pereira ilustração:FlávioCastellan,GrupoDragãodaGra- vura, Gustavo Rates, Jotapê, Rodolfo Herrera Capa: grafite de rua fotografado por Henk Nieman Apoio editorial: Vinicius Precioso (Instituto Votorantim) Revisão: Eugênio Vinci de Moraes Diagramação Silvina Gattone Liutkevicius D’Lippi Editorial Fotolito D’Lippi Editorial Impressão Gráfica Sag Como entrar em contato com Onda Jovem: E-mail: ondajovem@olharcidadao.com.br Endereço: Rua Dr. Neto de Araújo, 320 - conj. 403, São Paulo, CEP 04111 001. Tel. 55 11 5083-2250 e 55 11 5579-4464 www.ondajovem.com.br um portal para quem quer saber de juventude Agradecimentos: Andi – Agência de Notícias dos Direitos da Infância e da Adolescência ONDA JOVEM SUGERE PLANOS DE AULA Os educadores que já usam o conteúdo de Onda Jovem para subsidiar seu trabalho com jovens agoracontamtambémcomosPlanosdeAuladisponibilizadosnaseçãoSaladoPro- fessor, no site da revista (www.ondajovem.com.br). Os Planos de Aula são sugestões – for- muladas por pedagogos exclusivamente para o site – de como dinamizar com os jovens as análises e discussões de reportagens e ensaios publicados pela revista. A primeira edição, que abordou o tema Projeto de Vida – e cuja íntegra permanece acessível no site – gerou dois Planos: um que explora a relação entre Mídia e Projeto de Vida, a partir de texto do psiquiatra Jairo Bouer, e outro sobre Trabalho e Projeto de Vida, baseado em ensaio de An- tonio Carlos Gomes da Costa, discutindo os princípios do empreendedorismo. Na segunda edição, que tem o Traba- lho como tema, estarão disponíveis quatro Planos de Aula, baseados em textos sobre vocação, valores do trabalho, as novas formas de ocupação e a relação entre tempo e traba- lho. Ainda na Sala do Professor, podem-se conhecer as pro- postas de trabalho de educadores, na seção Mestres, e tam- bém fazer contato e trocar informações, na seção Colegas. 08 18 14 DANIELLEJAIMESSADRAQUESANTOSMARCOSFERNANDES/AGÊNCIALUZBRUNOGARCIA 22 ARNALDOCARVALHO Onda Jovem 02-07(nº3) OK 10/20/05, 8:42 PM6
  • 7. 8 - Navegantes A relação juvenil com a arte e a cultura, segundo os jovens 14 - Mestres Três educadores fazem da arte a sua ferramenta pedagógica 18 - Banco de Práticas O futuro e o passado inspiram quatro iniciativas culturais 22 - Caminho das Pedras Como o Grupo Cultural Afro Reggae, do Rio, disputa jovens com o tráfico 26 - Horizonte Global O MuseoVivo coloca jovens chilenos em contato com sua cultura ancestral 28 - Sextante Ferreira Gullar responde: para que serve a arte? 30 -90 Graus Arte&Cultura e Sociedade: como se forma a identidade cultural 34 - 180 Graus Arte&Cultura e Educação: os desafios da escola formal para o ensino da arte 38 - 270 Graus Arte&Cultura e Mercado: as relações entre produção cultural e desenvolvimento econômico 42 - 360 Graus Arte&Cultura e Contexto: como entender a arte contemporânea 46 - Sem Bússola O poder de inclusão da arte passa pelas formas de comunicação que ela oferece 52 - O Sujeito da Frase O ator Leandro Firmino da Hora explica por que “a arte nos torna responsáveis” 56 - Ciência Criatividade: a juventude é mesmo um período de muita criação e flexibilidade 60 - Luneta 1 Hip Hop: os elementos da forma de expressão que conquistou a juventude brasileira 64 - Luneta 2 Artesanato: a força social e econômica da arte feita com as mãos 68 - .Gov.com A tendência das políticas culturais juvenis é investir em ações comunitárias 72 - Chat de Revista Quatro jovens discutem o efeito da arte e das manifestações em suas vidas Sonar 02 Pistas do todo e de algumas partes da situação do jovem Âncoras 04 Uma coleção de conceitos sobre arte&cultura Links 76 Notícias sobre juventude e sobre o terceiro setor Fato Positivo 78 A mentalidade do ensino da arte no Brasil está evoluindo Cartas 80 A palavra do leitor Navegando 82 A poesia de Ricardo Rizzo 28é o número de projetos com jovens que você verá nesta edição Onda Jovem 02-07(nº3) OK 10/20/05, 8:42 PM7
  • 8. navegantes OPÇÃO: ARTE Etexto_ Jane Soares MÁRCIAZOET Onda Jovem 08-13 (nº3) 10/20/05, 8:46 PM8
  • 9. 9 Jovens descobrem no envolvimento com as manifestações artísticas e culturais uma forma de ampliar horizontes e transformar a realidade Guilherme é bailarino em Londrina (PR). Délio e Márcio lutam para res- gatar e preservar a cultura dos índios do Amazonas e dos caboclos do Mato Grosso do Sul. Márcia participa de um grupo folclórico em Canoas (RS). Nadia faz poemas em Salvador (BA) e Tatiana grafita os muros abando- nados de São Paulo (SP). Tiago é ator no Rio de Janeiro e Kelly, agente cul- tural em Belo Horizonte (MG). William faz parte de uma banda que cultiva ritmos brasileiros, em São Paulo. Re- presentantes de realidades diversas, esses jovens se envolveram com a arte e as manifestações culturais por diferentes motivos, mas experimen- tam, todos, os efeitos transformado- res das opções que fizeram e enca- ram com otimismo as dificuldades de exercê-las. Passaram de consumido- res a produtores de bens culturais, num movimento muito característi- co da juventude, época de revelação de tendências e interesses pessoais, e também de descobertas do mun- do e dos valores dos grupos, a rede fundamental pela qual ecoam seus gostos, gestos, atitudes. A pesquisa Perfil da Juventude Bra- sileira, realizada no fim de 2003 pelo Projeto Juventude, com 3.500 entre- vistados em 198 municípios, detecta esse envolvimento dos jovens com a cultura. Entre os assuntos que mais interessam a esse público, a cultura e o lazer vêm em terceiro lugar, com 27% das indicações, atrás apenas da educação e o emprego. Dos assuntos que gostam de discutir,46%dosentrevistadosindicaramasdrogas;45%, a sexualidade; 43%, os esportes; e 34%, as artes. O le- vantamento mostra ainda que 15% participam de gru- pos de jovens. Entre as atividades desenvolvidas neles, as mais importantes são as religiosas e as musicais. A relação entre grupos e cultura é direta. O professor Paulo César Rodrigues Carrano, do Observatório da Ju- ventude da Universidade Federal Fluminense, explica que os grupos permitem aos jovens realizar um exercí- cio de mão dupla entre a cultura que herdaram e a que constroem. “Hoje, os jovens têm mais autonomia para construir seu acervo cultural”, diz. Para ele, é impor- tante que as diferentes manifestações culturais sejam valorizadas. “É preciso evitar o dualismo entre bom e mau para que se possa entender essas manifestações.” Transformação cidadã “A cultura abre os horizontes das pessoas, faz com que elas conheçam outros mundos, aprendam a se ex- pressar e a reivindicar seus direitos”, diz Nadia Barbosa Accioly, 19 anos, estudante do ensino médio, que faz parte do grupo de poesia do Cria, Centro de Referência IntegraldoAdolescente,deSalvador.Seuobjetivojáestá definido: ser atriz e professora de teatro. Antes de che- gar ao Cria, ela participou de um grupo de teatro de rua no Liceu de Artes e Ofícios. Com uma irmã e outros jovens do bairro de Nova Brasília, onde mora, Nadia está estruturando também um trabalho social na escola es- tadual, com foco na saúde. É uma forma de repassar os conhecimentos obtidos. “A necessidade de passar a experiência adquirida adiante é um traço muito forte entre os jovens ligados TATIANA GARRIDO, 24 ANOS é artista visual e grafiteira CULTURA a movimentos culturais”, observa a psicanalista e atriz Maria Eugênia Milet, coordenadora do Projeto Cria. Segundo ela, os integrantes das ca- madas mais pobres, até por terem pouco acesso aos bens culturais tra- dicionais, criam sua própria cultura: “Quando têm oportunidade de pas- sar por um processo de aprendiza- do, eles deixam de ser pessoas leva- das pela maré e tornam-se cidadãos, agentes de transformação de suas comunidades”.PauloCarranoconcor- da. “A cultura da escassez gera criatividade até para superar a pró- pria escassez, como acontece com o rap e o hip hop, que podem ser en- tendidos como uma forma de parti- cipação política.” Onda Jovem 08-13 (nº3) 10/20/05, 8:46 PM9
  • 10. rais. “Assim, eles começam a enxergar a vida de uma perspectiva mais ampla, pois têm contato com outras realidades, conseguem construir uma nova identida- de, aumentar sua auto-estima e adquirir instrumentos para mudar sua realidade”, diz. O efeito é multiplicador. Tanto Kelly quanto Nadia ci- tam seus próprios exemplos. Elas se transformaram em referências positivas importantes em suas comunida- des. “Outros jovens me procuram para saber como po- dem participar de movimentos”, conta Nadia. navegantes KELLY CHRISTIAN LOUIZE DA SILVA, 23 ANOS é agente cultural em Belo Horizonte e se envolveu com o setor por causa do hip hop DÉLIO FIRMO ALVES, 21 ANOS índio da etnia amazônica Desano, luta pela preservação da memória indígena Foi assim com Kelly Christian Loui- ze da Silva, 23 anos, residente no bairro de Teresópolis, em Betim, re- gião metropolitana de Belo Horizon- te. Ela trabalha com movimentos cul- turais há cinco anos, desde que co- meçou a freqüentar o hip hop e foi convidada a integrar um projeto de formação de agentes culturais. Kelly destaca a importância de os jovens participarem de movimentos cultu- PROJETO CRIA ÁREA DE ATUAÇÃO CAPITAL E TRÊS CIDADES DA REGIÃO METROPOLITANA DE SALVADOR, 15 CIDADES NO INTERIOR DO ESTADO, ALÉM DE CONVÊNIO COM PROJETOS DE PIPA (CE), NÁPOLES (ITÁLIA) E MOÇAMBIQUE PROPOSTA Programa de educação para a cidadania centrado no teatro e na poesia JOVENS ATENDIDOS 96 APOIO UNICEF, CESE, FUNDAÇÃO MACARTHUR, AVINA, COFIC, INSTITUTO CREDICARD, FUNDAÇÃO FORD, WORLD CHILDHOOD FOUNDATION CONTATO Rua Gregório de Matos, 21 – 40025-060 – Pelourinho – Salvador (BA) – tel.: 71/3322-1334 – www.criando.org.br – e-mail: cria@criando.org.br PARASABERMAIS SOBRE PROJETO CHARANGA, DA ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA DESPERTAR ÁREA DE ATUAÇÃO ZONA SUL DE SÃO PAULO PROPOSTA Oferecer cursos profissionalizantes, de capacitação e geração de renda JOVENS ATENDIDOS 146 CONTATO Rua Antonio Machado Sobrinho, s/n. – 04416-170 – Cidade Adhemar – São Paulo (SP) – tel.: 11/5621-0901 – e-mail: asscomdespertar@uol.com.br PARASABERMAIS SOBRE Vocação e sustento A transformação pessoal diante da descoberta de um talento artístico é fato. E gera desafios. Guilherme Floriano Silva, 15 anos, nunca tinha visto um espetáculo de balé clássico antes de conhecer a Fundação Cul- tura Artística de Londrina. Morando com a madrinha em Alexandre Urba- no, bairro de classe média baixa da cidade, o garoto fazia parte da Guar- da Mirim. Sua expectativa era se pre- parar para conseguir um emprego e ajudar a família. Como gostava de dançar,umdeseusprofessoresoen- caminhouparaaFundação.Foiades- coberta de um mundo inteiramente novo. Com apenas quatro meses de aula, fez sua estréia no palco. “Ape- sar do medo de errar, foi uma emo- ção muito forte”, conta. Deixou a Guarda Mirim, certo de que seu des- tino profissional está ligado à dança. Cursando a 8ª série, treina sete ho- ras por dia, na esperança de conquis- tar uma vaga no Balé de Londrina e, NADIA ACCIOLY, 19 ANOS é aluna do ensino médio, estuda poesia em Salvador e quer ser atriz e professora de teatro MÁRCIA ALMEIDA, 23 ANOS é administradora de empresas e integra um grupo de preservação das tradições gaúchas, em Canoas PARASABERMAIS SOBREPARASABERMAIS SOBRE FUNDAÇÃO CULTURA ARTÍSTICA DE LONDRINA ÁREA DE ATUAÇÃO LONDRINA (PR) PROPOSTA Criação de um curso regular e profissionalizante de dança, com duração de oito anos. Nos últimos cinco anos, em parceria com a Secretaria de Cultura, criou a Rede de Cidadania, que faz iniciação à dança em cinco bairros da cidade para identificar talentos JOVENS ATENDIDOS 600 APOIO PREFEITURA MUNICIPAL DE LONDRINA CONTATO Rua Souza Naves, 2.380 – 86015-430 – Londrina (PR) – tel.: 43/3342-2362 – e-mail: funcart@funcart.art.br PROGRAMA NÓS DO MORRO ÁREA DE ATUAÇÃO MORRO DO VIDIGAL, NO RIO DE JANEIRO PROPOSTA Formar atores para o teatro e o cinema JOVENS ATENDIDOS 300 APOIO PETROBRAS CONTATO Rua Dr. Olinto de Magalhães, 54 – 22450-250 – Vidigal – Rio de Janeiro (RJ) – tel.: 21/3874-9411 – www.nosdomorro.com.br – e-mail contato@nosdomorro.com.br Onda Jovem 08-13 (nº3) 10/20/05, 8:46 PM10
  • 11. 11 KÁTIALOMBARDI ANDRÉAAGRAIZFRANCISCOANDRADENETO RISONALDOCRUZ Estudos apontam a grande importância que os jovens conferem aos temas culturais. Na relação com o grupo, eles fazem um exercício de mão dupla entre a cultura que herdam e a que constroem Onda Jovem 08-13 (nº3) 10/20/05, 8:46 PM11
  • 12. quem sabe, no futuro, ganhar uma bolsa para estudar fora do país. “Que- ro me profissionalizar, passar o que aprendi para outras pessoas e ganhar dinheiro para ajudar minha família fazendo o que gosto”, sonha. Meta semelhante tem o paulistano WilliamdaSilvaMota,20anos.Elequer ganhar a vida como músico, tocando instrumentosdepercussãoeensinan- do. Com o 2º grau concluído, ele en- frenta, porém, a resistência da famí- lia,queopressionaparaconseguirum emprego formal. Mas não se dá por vencido.Participadeumcoraledeum grupo de dança do Projeto Charanga, naAssociaçãoComunitáriaDespertar, em Americanópolis, bairro periférico na zona sul de São Paulo. Nos fins de semana, trabalha como assistente de discotecário e de palco. William afir- ma ter se encontrado no Charanga, idealizadopelomúsicoMaurícioAlves, da banda Mestre Ambrósio, e que tra- locando sua arte nos muros da cida- de. “É uma forma de causar impacto, de mudar a visão das pessoas em re- lação ao ambiente em que vivem, de alegrar a cidade”, diz Tatiana, que criou, com o marido e um amigo, a Grafiteria, uma galeria para expor as obras dos artistas urbanos. Memória e tradição Mas o resgate das culturas tradicio- naisdedeterminadasregiõestambém é fator que tem motivado muitos jo- vens. Foi o que aconteceu com Márcia Almeida, uma administradora de em- presas de 23 anos, residente em Por- to Alegre (RS), e Márcio Roberto da Sil- va Oliveira, 23 anos, professor de Físi- ca que mora em Campo Grande (MS). QuandosemudoudeSantaCatarina para Porto Alegre para trabalhar em uma empresa argentina de equipa- mentos hidráulicos, Márcia ingressou no Grupo Folclórico Tropeiros da Tra- navegantes balha com vários ritmos brasileiros. “A ligação com a cul- turametransformouemumapessoamelhor,maisaber- ta aos problemas do mundo”, conta. Renovação democrática A socióloga Maria Virgínia de Freitas, integrante do Conselho Nacional da Juventude, destaca a importân- cia dos movimentos populares culturais para definir a identidade de seus participantes e o seu lugar no mun- do. Ela defende a criação de espaços mais democráti- cos para que os jovens possam se afirmar não só como consumidores de cultura, mas como criadores de bens culturais, que possibilitem o autoconhecimento e a va- lorização pessoal. Maria Virgínia destaca a grande re- novação que está ocorrendo nas periferias, com a mul- tiplicação de estações de rádios livres, dos grafiteiros e da criação de fanzines. Tatiana Garrido, 24 anos, faz parte desse grupo. Ela sempre gostou de desenhar. Tanto que fez um curso técnico de desenho para comunicação. Ainda na esco- la, juntou-se a um grupo de grafiteiros do bairro do Tatuapé, bairro de classe média na zona leste de São Paulo. Não parou mais. Agora, mesmo pilotando sua própria empresa de comunicação visual, continua co- ISAIAZMEDEIROS CELSOPACHECO Faltam espaços mais democráticos para que a juventude possa se afirmar não só como consumidora, mas como criadora de bens culturais, que possibilitem o autoconhecimento e a valorização pessoal Faltam espaços mais democráticos para que a juventude possa se afirmar não só como consumidora, mas como criadora de bens culturais, que possibilitem o autoconhecimento e a valorização pessoal Onda Jovem 08-13 (nº3) 10/20/05, 8:47 PM12
  • 13. 13 “Minha paixão pelo teatro começou quando fui assistir a uma peça na qual meu irmão trabalhava, no grupo Nós do Morro, do Vidigal, no Rio de Janeiro. Era um garoti- nho. Fiquei deslumbrado com as luzes, o texto, a movi- mentação dos atores e resolvi fazer parte do projeto. Na primeira vez que subi em um palco, chorei de emoção com os aplausos do público. Eles são o melhor prêmio que um ator pode desejar. Depois de nove anos de dedicação, os resultados começam a aparecer. Faço parte do elenco do Nós do Morro e já atuei em peças como “Eles contra Eles”, “Sonhos de uma Noite de Verão”. Também participei da novela “Da Cor do Pecado”, da TV Globo, na qual fiz o papel de um menino de rua que era engraxate. Agora, estou escalado para atuar na novela “Belíssima”, inclusive gravando cenas na Grécia. A cada trabalho, a emoção se renova, reafirmando minha certeza de que, sem arte, a vida não é nada. Quero fazer faculdade de Cinema e ensinar a outros jovens, para que eles possam ter as oportunidades que eu tive e para que possam fazer um trabalho que não é apenas uma forma de ganhar dinheiro, mas que é pura paixão.” OFUTUROÉAGORA TIAGO MARTINS, 16 ANOS é ator no Rio de Janeiro, do Grupo Nós do Morro dição,deCanoas.“Conheceraculturadenossopovonos faz entender o significado de nossos valores”, diz ela. Márcio, por seu lado, se considera um grande consumi- dor de cultura alternativa. Trabalhando em sua tese de mestrado na área de eletroquímica, ele é também dan- çarino do grupo Sarandi Pantaneiro, que tem por objeti- voresgatarepreservaramúsicaeadançadoMatoGros- so do Sul. Márcio participa ainda do movimento Negras Raízes,querecentementeeditouumlivroreunindopoe- mas de poetas negros. “Resgatar a cultura é vital para não perdermos nossa identidade como povo”, diz. EssetambéméoentendimentodejovensíndiosdeSão Gabriel da Cachoeira, na Amazônia, onde 90% dos 35 mil habitantes são descendentes de várias etnias indígenas. Délio Firmo Alves, de 21 anos, da etnia Desano, estudante do curso técnico de Enfermagem, lembra que, ao entrar em contato com os índios, os missionários brancos impu- seram sua cultura. Assim, costumes, tradições, a própria línguaforamesquecidos.“Comisso,osíndiostambémper- deram seus valores, sua identidade.” A nova geração de- senvolveesforçospararesgatarmitos,música,dança,cos- tumes, linguagem das diferentes etnias e luta pela criação de centros de cultura indígena. “Nossa cultura tem valores que merecem ser preservados”, diz. GUILHERME FLORIANO DA SILVA, 15 ANOS estudante da 8ª série e aluno de balé em Londrina, treina sete horas por dia para ser bailarino profissional MÁRCIO ROBERTO DA SILVA OLIVEIRA, 23 ANOS é professor de Física em Campo Grande, onde participa de um grupo de música e dança típicas do Pantanal WILLIAM MOTTA, 20 ANOS é percussionista e quer viver de música em São Paulo, mas enfrenta a resistência da família BRUNOGARCIA RATÃODINIZ/IMAGENSDOPOVO Onda Jovem 08-13 (nº3) 10/20/05, 8:47 PM13
  • 14. por_Marco RozaNa Amazônia, jovens ajudam a pre- servar a floresta aprendendo música e fabricando instrumentos musicais. Na Paraíba, a estamparia e a serigra- fia elevam a auto-estima de meninos e meninas, e, em São Paulo, o teatro reduz a discriminação entre estudan- tes. Mestres nessas artes, três edu- cadores usam seu talento para mos- trar que a expressão artística ajuda a transformar os jovens em cidadãos capazes de reconhecer os outros, a si mesmos e de assumir seus sonhos. Mostram que a arte faz pensar, edu- ca, inclui. E que não por acaso ela se torna ferramenta cada vez mais va- lorizada na educação. Para o músico e luthier Rubens Go- mes, que trabalha na região amazô- nica desde a década de 80, só há sal- vação para a floresta se salvarmos, ao mesmo tempo, os jovens que lá vivem. Motivado por essa idéia, há sete anos ele criou a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia (Oela), no bairro de Zumbi, em Manaus, unindo a arte e a preservação ambiental. “Transformei minhas habilidades ar- tísticas em um meio para estimular o uso racional dos recursos naturais”, diz. Na Oela, ensina música e profissionaliza jovens inte- grantes de uma população em que 60% estão desem- pregados, 94% têm no máximo o primeiro grau e mais de 15% dos que têm acima de 10 anos nunca estuda- ram. “As populações vivem abandonadas à própria sor- te. No Zumbi, os jovens se organizavam em galeras e se matavam uns aos outros”, conta Gomes. Sintonia com a floresta A Oela oferece alternativa. Os jovens são capacita- dos a transformar recursos naturais em bens. Além das aulas de música, cursam informática e participam de grupos de discussão sobre assuntos como sexualida- de, violência e drogas. Recebem educação ambiental, discutindo, por exemplo, o manejo indiscriminado das espécies em extinção. Como o pau-brasil, insubstituível para o arco de violino; o mogno, usado para a confec- ção de braços de violões clássicos; e o jacarandá da Bahia,a“Daubergianigra”,queéreferênciamundialpara as laterais e fundos de violões e muito valorizado no mestres exterior. “A partir desse aprendizado, os jovens são envolvidos com a arte da manufatura de instrumentos mu- sicais de alta qualidade e se abre para eles uma alternativa de vida em sintonia com a conservação da flores- ta”, diz Gomes. O projeto está indo além de Manaus. “Nas regiões ribeirinhas, en- sinamos aos jovens o processamen- to da madeira e a marchetaria, que já é uma tradição na região.” A principal população beneficiada fica em Boa Vista do Ramos, no baixo Amazonas, a 18 horas de barco de Manaus. As madeiras são todas certificadas e as comunidades estão montando enti- dades que permitam encaminhar a produção até para o exterior. Comu- nidades com jovens que, segundo Gomes, antes “viviam de costas para a floresta”. PELA ARTE A EDUCAÇÃO mestres Onda Jovem 14-17 (nº3) 10/20/05, 8:47 PM14
  • 15. 15 COM A MÚSICA, AS ARTES VISUAIS E O TEATRO, TRÊS EDUCADORES INDICAM AOS JOVENS NOVOS CAMINHOS PARA O DESENVOLVIMENTO PESSOAL E SOCIAL AUGUSTOPESSOA A professora universitária Lívia Marques implantou projetos de arte-educação na Casa Pequeno Davi, em João Pessoa (PB) Onda Jovem 14-17 (nº3) 10/20/05, 8:48 PM15
  • 16. Foco na auto-estima Em João Pessoa, o maior desafio de Lívia Marques Carvalho é lidar com o sentimento de desvalia que toma conta da juventude atendida na Casa Pequeno Davi e na Casa Menina Mulher. Ela diz que só depois que os jovens se integram é que se percebem como pessoas. Eles se motivam e são devolvidos ao mercado, geralmente de- sempregados, quando completam 18 anos. O que se torna mais um desafio. “Ensinamos a pescar, mas para dar certo o rio tem de ter peixe”, observa. Lívia é professora de Artes Visuais na Universidade da Paraíba, em João Pessoa. Nas proximidades do Ter- minal Rodoviário da cidade fica o bairro Baixo Roger. A população infantil e adolescente vive espalhada pelas ruas. Em 1985, os padres da Irmandade São Vicente de Paulo criaram a Casa Pequeno Davi. Em 1989, quando se decidiu trabalhar com atividades ar- tísticas, Lívia foi fisgada para o pro- jeto. “Não consegui sair mais”, diz a atual dirigente. “Aproveitamosoenvolvimentocom a arte, que não tem isso de certo ou errado, para ajudar os jovens de baixa renda a aprender o que é a auto-esti- ma”, explica. Os jovens aprendem es- tamparia,impressãodecamisetasem serigrafia, fazer bijuterias e cangas, queaentidadecolocaàvenda.“Ofoco deles, na rua, é a subsistência. Pela arte,percebemquepodemsecolocar no que fazem, ganham confiança e descobrem que são cidadãos.” Ligado ao mesmo projeto está a Casa Menina Mulher, inaugurada em 1998. “Queremos que as meninas aprendam a gostar de si mesmas e aentenderosriscosdoambienteem que vivem”, diz a professora. Além do aprendizado artístico, elas discu- tem saúde e higiene, sexualidade, drogas, violência e gravidez. SegundoLívia,omaisanimadoréver os garotos e garotas conseguirem completar o ensino médio. “Trata-se deumesforçoexcepcionaldoadoles- cente da região, que enfrenta a falta deestímuloeapressãodafamíliapara a busca de renda no mercado infor- mal”, orgulha-se a educadora. Integração pelo teatro A arte é poderosa também para mudar visões de mundo e combater a discriminação. Com essa certeza, a paulistanaPatríciaTeixeira,professo- ra do ensino médio, criou o Teatro da Inclusão. Tudo começou em 1999, a partir de contato que teve com alu- nos com necessidades especiais, na Escola Estadual Benjamin Constant. “Eles viviam em pequenos guetos, eram discriminados e discriminavam os demais alunos”, diz. Formada em Educação Artística e pós-graduanda CASA DO PEQUENO DAVI E CASA MENINA MULHER ÁREA DE ATUAÇÃO JOÃO PESSOA (PB) PROPOSTA Contribuir para a promoção dos direitos da criança e do adolescente em situação de risco social por meio de ações de educação integral JOVENS ATENDIDOS 300 crianças e jovens entre 7 e 17 anos APOIO UNICEF, IRLAND AID, IRISH BANK (DA IRLANDA), EMPRESA SKN, FRANK DER LINDERE CORDAID, UNIVERSAL CONCERN (DA HOLANDA), CSCF (DO GOVERNO DA GRÃ-BRETANHA), COMUNIDADE LUTHERANA (ALEMANHA), EUROPEAN COMMUNITY CONCERN (UNIÃO EUROPÉIA), SECRETARIA DE EDUCAÇÃO MUNICIPAL, SECRETARIA DO TRABALHO E DE PROMOÇÃO SOCIAL DE JOÃO PESSOA CONTATO Rua João Ramalho, 195 – 58020-200 – João Pessoa (PB) – tel.: 83/3241-526 – www.pequenodavi.org.br PARASABERMAIS SOBRE NEYMENDES O músico Ruben Gomes criou a Oela, uma oficina-escola de instrumentos musicais que ensina a preservar a floresta, em Manaus (AM) Onda Jovem 14-17 (nº3) 10/20/05, 8:48 PM16
  • 17. 17 OFICINA ESCOLA DE LUTHERIA DA AMAZÔNIA ÁREA DE ATUAÇÃO AMAZONAS, PARÁ, AMAPÁ, ACRE E RORAIMA PROPOSTA Promoção do uso racional dos recursos naturais para a geração de ocupação e renda com o intuito de combate à pobreza, por meio da lutheria e da machetaria JOVENS ATENDIDOS EM MANAUS, 592 por semestre APOIO ASHOKA EMPREENDORES SOCIAIS, UNESCO (CRIANÇA ESPERANÇA), ICCO (INSTITUIÇÃO ECLESIÁSTICA DA HOLANDA), PRO-MANEJO/IBAMA/MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, CORREIOS CONTATO Rua 22, Quadra O, Casa número 8, conjunto São Cristóvão – 69084-580 – Bairro do Zumbi 2 – Manaus (AM) – tels.: 92/3644-5449 e 92/3638-2667 – www.oela.org.br TEATRO DA INCLUSÃO ÁREA DE ATUAÇÃO ESCOLAS PÚBLICAS ESTADUAIS DE SÃO PAULO PROPOSTA Trabalhar com jovens o tema das diferenças JOVENS ATENDIDOS 100 estudantes de ensino médio APOIO JFA ENGENHARIA (EVENTUAL). EM BUSCA DE APOIO PERMANENTE CONTATO Rua Pelotas, 523, apto. 103 – 04012-002 – Vila Mariana – São Paulo (SP) – tel.: 11/9742-1553 – e-mail: astropaty@ig.com.br.; Escola Estadual Maestro Fabiano Lozano – tels.: 11/5549-6006 e 11/5082-2206 PARASABERMAIS SOBREPARASABERMAIS SOBRE tato com seus personagens internos, percebem a si mesmos e o outro como pessoas completas. O teatro os faz responder, principalmente, com atitudes”, diz. Patrícia já envolveu mais de 100 jovens em suas pe- ças, apesar das dificuldades para manter o projeto. “Às vezesensaiamosnoparquedoIbirapuera”,conta.Neste semestre, o esforço é para apresentar a peça “Esconde- rijo de Judeus”. Na preparação da turma, contou com amigos voluntários. Um professor de história ajudou a dar contexto às leituras que os alunos fizeram do “Diário de Anne Frank”, garota judia que se escondeu com a família durante a Segunda Guerra Mundial e que inspira a peça. Outro amigo apresentou aos jovens um seminá- rio sobre a cultura judaica. Patrícia fez um laboratório cênico sobre as relações de poder. “Vivemos pequenos holocaustos todos os dias e é importante discutir o res- peito às diferenças, o direito à permanência das pes- soas no mesmo mundo em que vivemos”, diz. O tema tem especial pertinência para a adolescência e a juventude, segundo a professora. É quando as dife- renças entre gerações e entre os próprios companhei- ros começam a ser mais notadas e os jovens precisam de orientação para lidar com elas de forma positiva. “O trunfo do teatro é levar os jovens a vivenciar experiên- cias. O resultado é surpreendente”, diz Patrícia, referin- do-se a uma de suas grandes recompensas, que veio na forma de conclusão de uma estudante sem deficiência visual,durantediscussõessobrepreconceito:“Euaprendi a ver o que os olhos não podem ver”. A professora de ensino médio Patrícia Teixeira fundou o Teatro da Inclusão para discutir preconceitos com os alunos de São Paulo (SP) DAVILYMDOURADO em Psicologia Analítica, na PUC de São Paulo, ela decidiu usar as artes cênicas para incluir jovens cegos nas atividades escolares. A experiência deu tão certo que, em 2000, Patrícia a levou, num tra- balho voluntário, para a Escola Es- tadual Caetano de Campos. Aprovei- tou o teatro disponível na escola e iniciou o projeto Teatro da Inclusão, com a peça “Retratos de Gerações”, que ela escreveu. “Discutir as dife- renças promove a inclusão. Três jo- vens cegos atuaram. O trabalho eli- minou as diferenças de visão, pois, no palco, os alunos entram em con- Onda Jovem 14-17 (nº3) 10/20/05, 8:48 PM17
  • 18. banco de práticas por_Flávia Oliveira QUATRO PROJETOS SE IDENTIFICAM POR PERPETUAR O PASSADO E DAR SENTIDO AO FUTURO GUSTAVOLOURENÇÃOARNALDOCARVALHOAUGUSTOPESSOAANDRÉADEVALENTIM ENCONTROS CULTURAIS A cultura é o fim e o meio desses projetos sociais, seja para perpetuar experiências seculares de lugarejos ou dar sentido ao futuro de crianças e jovens de cidades grandes. E foi quase por acaso que seus mentores embarcaram na idéia de que tambores, brinquedos, jongo, histórias seriam capazes de mudar a vida de jovens. O maestro Flávio Pi- menta, por exemplo, tinha decidido trocar o Brasil por uma vida no exterior. A três meses da partida, se flagrou obser- vando adolescentes nadando em poças d’água sujas nos arredores de sua casa, no bairro do Morumbi, em São Pau- lo. Resolveu agir. Convidou os jovens à sua casa, apresen- tou-os à música. Desistiu da viagem, convocou amigos, estruturou e deu à luz a Associação Meninos do Morumbi, que hoje envolve 4 mil crianças e jovens. Macau Góes era colecionadora de brinquedos e encan- tou-se com a obra de artesãos do Recife quando visitava uma feira da Fundação Joaquim Nabuco. Consultora da ONG Artesanato Solidário, aproximou jovens do programa, dando o pontapé inicial para a fundação da Associação BrinquedosPopularesdoRecife,quejáqualificouumacen- tena de artesãos. Noutro improviso do destino, Paulo Dias, da Associação CulturalCachuera,deSãoPaulo,conheceuacomunidadede jongueiros do bairro Jardim Tamandaré, na periferia de Guaratinguetá. Em parceria com a TV Cultura, produziu o fil- me “Feiticeiros da Palavra – O Jongo do Tamandaré” e apre- sentou o grupo ao país. Daí veio a criação da Associação JongueiradeGuaratinguetá,quelevaosjovensaseenvolve- rem com a dança e a música deixadas pelos escravos. O casal Alemberg Quindis e Rosiane Limaverde estava determinado a preservar a herança cultural dos Kariri, tri- bo indígena que batizou um pedaço do Ceará, o Vale do Cariri. Em Nova Olinda, abrigaram os artefatos pré-históri- cos recuperados na região. Apresentavam o tesouro a tu- ristas, quando foram surpreendidos por meninos da vizi- nhança com os textos na ponta da língua. Assim expan- diu-se a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, que capacita jovens em várias áreas. Conheça melhor os frutos desses encontros: Onda Jovem 18 -21 (nº3) 10/20/05, 8:49 PM18
  • 19. 19 Foi da aproximação com a Associação Cultural Cachuera que Lúcia Maria de Oliveira, jongueira por nas- cimento, enfermeira por profissão, deu início ao Proje- to Bem-te-vi, no Jardim Tamandaré, na periferia de Guaratinguetá, em São Paulo. A idéia é perpetuar o jongo, uma tradição na comunidade, entre as crianças e jovens, que recebem os ensinamentos dos adultos e idosos. Lúcia gosta de dizer que tem o jongo no san- gue, porque é neta do velho Antonio Henrique, que trou- Guaratinguetá, SP Projeto Bem-te-vi da Associação de Jongo do Tamandaré O projeto começou com meia dúzia de garotos, um maestro e uma professora de dança. Quase uma déca- da depois, são 4 mil, e uma lista de espera com 2 mil nomes. A Associação Meninos do Morumbi atende a crianças e adolescentes interessados em experimentar o gosto de “poder ser o que quiserem”, como diz o fun- dador Flávio Pimenta. “A música se mostrou uma exce- lente armadilha para atrair os jovens”, brinca. O alvo ini- cial do projeto eram comunidades populares, mas hoje não é exclusivo de alunos pobres – eles ocupam 70% Recife, PE Formação de jovens artesãos no Projeto Brinquedos Populares do Recife O projeto que inicialmente se restringia à preservação antropológicadosíndiosKariritransformou-senumains- tituição dedicada também à formação profissional dos jovens da região. A Fundação Casa Grande oferece hoje a 70 jovens qualificação em quatro áreas: memória, co- municação, arte e turismo. O primeiro programa tem como foco o resgate da memória da pré-história do ser- tão, por meio da mitologia e da arqueologia: forma re- cepcionistas, guias de campo e relações-públicas para atuar na instituição e nos sítios arqueológicos da região. Nova Olinda, CE Fundação Casa Grande Memorial do Homem Kariri Desde os anos 80, a Fundação Joaquim Nabuco man- tinha contato com um grupo de oito artesãos que fa- ziam brinquedos populares na Região Metropolitana de Recife. As peças acabaram descobertas pelo Artesanato Solidário, que propôs a criação do projeto Brinquedos Populares do Recife. Iniciado em março de 2004, o pro- grama é multiplicativo: “Os mestres repassam seus co- nhecimentos aos jovens e, com isso, é possível preser- var técnicas populares de produção de brinquedos”, ex- plica Julio Ledo, gerente regional do Artesanato Solidá- São Paulo, SP Associação Meninos do Morumbi >> >> >> >> Onda Jovem 18 -21 (nº3) 10/20/05, 8:49 PM19
  • 20. A oficina de comunicação apresenta aos alunos as técnicas de elaboração de programas de rádio, TV e trabalhos de editoração. A rádio comunitária já protocolou no Ministério das Comuni- cações um pedido para transformá-la em emissora educativa. O braço das artes tem laboratório de teatro, cine- rio. O projeto capacitou primeiro oito mestres, que aprenderam a melhorar a apresentação e a qualidade de suas criações,elaborarplanilhasdecustos, entender o mercado consumidor, ao lado de aulas de cidadania e relações interpessoais. Em contrapartida, eles deveriam destinar 10% da renda de das vagas. Cumprida a condição de cursar o ensino regular, eles podem escolher entre artes (balé, dança, es- cultura, fotografia, moda, teatro), mú- sica (bateria, canto, percussão, cava- co) e esportes (capoeira, futsal, jiu- jitsu), mas são obrigatoriamente apre- sentados ao inglês e à informática. A xe a música e a dança dos negros es- cravos para a região. Um filme, pro- duzido por Paulo Dias e apresentado Brasil afora, foi o estopim de uma sé- rie de convites para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro e alimentou a necessidade de profissio- nalização do grupo e levou à criação do Bem-te-vi, que hoje conta com 40 >> >> >> >> Onda Jovem 18 -21 (nº3) 10/20/05, 8:49 PM20
  • 21. 21 ASSOCIAÇÃO JONGUEIRA DE GUARATINGUETÁ ÁREA DE ATUAÇÃO GUARATINGUETÁ (SP) PROPOSTA Repassar a crianças e jovens os ensinamentos do jongo e reforçar neles a importância da educação formal regular NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 40 pessoas, incluindo também os idosos APOIO SECRETARIA DE CULTURA DE GUARATINGUETÁ, PREFEITURA MUNICIPAL E ASSOCIAÇÃO CACHUERA DE SÃO PAULO CONTATOS Rua Tamandaré, 661, Fundos – Jardim Tamandaré – Guaratinguetá – SP – Tel.: 12/3133-3408 para fazer em suas casas suítes para abrigar turistas. Por R$ 40 diários, o visitante tem pernoite, café, almoço e jantar. “Todo o projeto funciona com pedagogia própria: os jovens mais ex- perientes repassam os conhecimen- tosaosmaisnovos”,ensinaAlemberg, o mestre. toda peça vendida a um fundo para custearalegalizaçãodaassociaçãode artesãos e compartilhar seus conhe- cimentos em Oficinas do Saber, com turmas de até 20 alunos escolhidos entre os residentes na Vila Esperan- ça, comunidade pobre do Recife. Os artesãos foram remunerados pelas entidade acaba influenciando na esco- lha da carreira deles, como conta a ex- aluna, agora monitora, Luciana Fernan- des, de 20 anos: “Entrei com 14 anos. Aprendi capoeira, jiu-jitsu e percussão. Decidi seguir na música. Se não tivesse passado por aqui, nem imaginaria essa vida”. Das oficinas culturais foi criado o participantes. “Queremos ensinar o jongo às crianças e aos jovens, mas também reforçar neles o quanto a educação é importante. Vamos pre- servar o passado e estimular o futu- ro dos meninos”, planeja Lúcia, de 50 anos, mãe de Hebert e Erica, avó de Cauê. Os jongueiros do Tamandaré recebem apoio da prefeitura e da Se- ma e escola de música, na qual se co- meçacomabandadelataeseguecom grupos cover e instrumental. O labora- tório de turismo funciona em parceria comacooperativadepaiseamigosda Casa Grande. Os pais dos alunos man- têm a loja de souvenirs da Fundação e a cantina, além de serem orientados horas de aula e, dentre os 100 jovens quejáreceberamaqualificação,vários já produzem brinquedos para vender e três, de tão talentosos, integram a Associação. Estão sendo orientados a criar sua série de produtos, tal como aconteceu com os mestres de quem eles aprenderam. grupo artístico Meninos do Morumbi. Desde 1996, foram mais de 500 apre- sentações.AbandajáseexibiucomIvete Sangalo, Lulu Santos e os grupos Cida- de Negra e Olodum. A ousadia de mis- turaroeruditoeopopularnumespetá- culo com o pianista clássico Marcelo Bratke conquistou cidades européias. cretaria de Cultura de Guaratinguetá. No ano passado, participaram da or- ganização de três oficinas de vídeo dirigidas aos jovens da comunidade. Durante boa parte deste 2005, dedi- caram-seaorganizarlegalmenteaas- sociação. Agora, buscam um terreno para instalar a sede do projeto e sair seduzindo futuros jongueiros. FUNDAÇÃO CASA GRANDE – MEMORIAL DO HOMEM KARIRI ÁREA DE ATUAÇÃO NOVA OLINDA (CE) PROPOSTA Oferecer qualificação profissional a crianças e jovens sertanejos por meio de atividades de resgate da memória local, arte, comunicação e turismo NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 70 APOIO INTERAMERICAN FOUNDATION CONTATOS Rua Jeremias Pereira, 444 – Centro – Nova Olinda (CE) – Tel.: 85/3546-1333 – casagrande@baydejc.com.br BRINQUEDOS POPULARES DO RECIFE ÁREA DE ATUAÇÃO GRANDE RECIFE (PE) PROPOSTA Qualificar artesãos e incentivá-los a repassar seus conhecimentos a jovens de comunidades pobres por meio das Oficinas do Saber NÚMERO DE JOVENS BENEFICIADOS 100 APOIO FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO, MINISTÉRIOS DA EDUCAÇÃO E DA INTEGRAÇÃO REGIONAL, ARTESANATO SOLIDÁRIO (ARTESOL) E SEBRAE CONTATOS Rua Alves Guimarães, 436 – Pinheiros – São Paulo (SP) – Tel.: 19/3246-2888 – www.artesol.org.br ASSOCIAÇÃO MENINOS DO MORUMBI ÁREA DE ATUAÇÃO BAIRROS DA REGIÃO SUDOESTE DA CAPITAL PAULISTA E MUNICÍPIOS VIZINHOS, COMO TABOÃO DA SERRA, ITAPECERICA DA SERRA E EMBU PROPOSTA Oferecer cursos de artes, música, dança, esportes, informática e língua estrangeira a crianças e adolescentes, dos 5 aos 18 anos, reforçando a importância da formação escolar regular NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 4 mil APOIO PREFEITURA DE SÃO PAULO, CÂMARA DE COMÉRCIO ELETRÔNICO, PÃO DE AÇÚCAR, CULTURA INGLESA, BRITISH AIRWAYS, HP, LAUREUS SPORTS, BIT COMPANY, SADIA, ENTRE OUTROS CONTATOS Rua José Jamarelli, 485 – Morumbi – São Paulo (SP) – Tel.: 11/3722-1664 – www.meninosdomorumbi.org.br PARASABERMAIS SOBREPARASABERMAIS SOBREPARASABERMAIS SOBRE PARASABERMAIS SOBRE Onda Jovem 18 -21 (nº3) 10/20/05, 8:49 PM21
  • 22. PERTO DE SE TORNAR AUTO-SUSTENTÁVEL, O GRUPO CULTURAL AFRO REGGAE ENSINA QUE COERÊNCIA É FUNDAMENTAL PARA TIRAR JOVENS DO TRÁFICO CARIOCA Dia desses, um e-mail aterrissou na caixa-postal sempre congestionada de José Junior, o coordenador-executivo do Grupo Cultural Afro Reggae, no Rio de Janeiro. No título, uma solitária palavra: Resgate. O texto: “A sogra dele está superfeliz que o mesmo saiu do tráfico e veio nos pedir que fizéssemos o currículo dele, pois a filha dela e o filho também fizeram currículo no Afro Reggae e tiveram a sorte de arrumar emprego muito rápido. Ela falou que ele tem diploma de ascensorista”, escreveu Vitor Onofre, coordenador do Núcleo de Vigário Geral e, assim como Junior, um dirigente, ou “puro-sangue”, no dialeto da organização. Ele previa nova deserção no exército do tráfico de drogas carioca – que se consumou logo no dia seguinte. Menos um traficante, mais uma vitória – mera rotina, no surpreendente tra- balho que o Afro Reggae desenvolve, a partir da disseminação da cultura afro, em comunidades populares do Rio de Janeiro há 12 anos. A salvação de jovens decididos a viver (e morrer) na guerra das favelas materializa-se, sobretudo, na formação cultural e artística que pavimenta a construção de cidadania. As vagas nas oficinas são disputadas pelos moradores de Vigário Geral, Pa- rada de Lucas (favelas cujos traficantes sustentam uma guerra há inacreditáveis 22 anos), e Cantagalo, áreas onde o Afro Reggae mantém nú- cleos. Hoje, são ao todo 60 projetos culturais, outras três unidades em siste- ma de parceria, nove bandas, uma trupe de teatro e duas de circo, na ONG que conta com 176 funcionários (incluindo bolsistas e estagiários) e está bem perto de se tornar auto-sustentável. Oalicercedetamanhosucessochama-secoerência.OAfroReggaetemcomo fundamento inegociável não aceitar patrocínios da indústria do tabaco e de fá- bricas de bebidas. Sem álcool, cigarros nem drogas. “E os puros-sangues tam- bém não fumam nem bebem, muito menos usam drogas”, diz o coordenador. Nascido na dor A luta contra a violência é a gênese do Afro Reggae. Em janeiro de 1993, Junior era um produtor iniciante de bailesfunk,quandooritmofoibanidodacidade,porcausa do arrastão na Praia do Arpoador (como se chamou o conflitoentreganguesdeVigárioGeraleParadadeLucas, que se enfrentaram na areia famosa do canto de Ipanema). Ele trocou de ritmo e começou a promover festas de reggae – “a contragosto”, como lembra. Um par de bailes bem-sucedidos depois, Junior en- xergou no gênero a possibilidade de promover a cultu- ra afro, seu projeto de vida. Criou, com três amigos, o jornal “Afro Reggae Notícias”, para difundir essas e ou- tras manifestações. Em agosto daquele ano, o Rio foi sacudido pela chacina de Vigário Geral, na qual 21 mo- radores da favela foram assassinados por um bando de policiais militares. “Senti que tínhamos de fazer algo por lá”, relembra Júnior, carioca, 37 anos. Um mês de- pois do massacre, eles entraram na favela, para “fazer alguma coisa, de um jeito meio kamikaze”, como des- creve o “arrastão do bem”, do bloco afro Tafaraogi, que tomou as ruas da comunidade. O passo seguinte foi instalar no morro o Núcleo Comu- nitário de Cultura, com as primeiras oficinas: dança, per- cussão, reciclagem de lixo, futebol e capoeira. Os 12 ins- trumentoslevadospelogrupoeramdisputadosatapapor jovens que enxergavam horizonte onde a olho nu havia apenas diversão. “Ninguém pensava em ser artista, mas RESGATE PELO REGGAE caminho das pedras Onda Jovem 22-29 (nº3) 10/20/05, 8:50 PM22
  • 23. 23 por_Aydano André Motta fotos_Rodrigo Castro 23 Jovem diante de cartaz com os princípios do grupo Afro Reggae: a música é o meio de atração para um amplo trabalho de conscientização Onda Jovem 22-29 (nº3) 10/20/05, 8:50 PM23
  • 24. apenas em ter perspectiva”, confirma Altair Martins, 24 anos, nascido em Vigário, formado na turma 01 e hoje co- ordenador de operacionalização do Afro. Ele cresceu em meio a paredes furadas à bala e vizinhos assassinados, e agora é emblema – “puro-sangue”, ajuda a salvar outros, ao som de funk, reggae, soul e hip hop. Da salada de ritmos nasceu o filhote mais famoso, a banda AfroReggae, aclamada Brasil afora e no exterior. Os padrinhos, Junior lembra orgulhosamente, são Cae- tanoVelosoeReginaCasé,queconheceramogrupodois anos depois e foram os primeiros a incentivar os jovens da favela a conquistar o mundo com sua música. Em1997,foiinauguradonacomunidadeoCentroCultu- ral Afro Reggae Vigário Legal, para melhorar, num espaço bem estruturado, a formação cultural e artística dos jovens moradores. “Uma fábrica de sonhos”, resume Junior. De lá, eles escapam do tráfico e do subemprego e se transfor- mamemmultiplicadoresdapazedaintegraçãosocial.Hoje, existemoutrosoitogruposmusicais:BandaMakalaMúsica e Dança, Afro Lata e Afro Samba, além dos subgrupos Afro Mangue, Tribo Negra, Akoni, Kitôto e uma banda de rock ainda sem nome, exclusivamente de meninas. Na trilha da autonomia O sucesso artístico deixa a ONG a um passo de se sustentar, com a renda dos shows e da venda de pro- RECUSAR PATROCÍNIO DE CIGARRO E BEBIDA, MESMO ESTANDO SEM DINHEIRO, FOI UMA DAS FORMAS DO AFRO REGGAE TRADUZIR PARA AS COMUNIDADES A FORÇA DE SEUS VALORES Aprendizes descansam junto dos instrumentos; abaixo, garota com tambor; na página oposta, garotas ensaiam coreografia; um jovem percussionista e rapazes durante ensaio de uma das bandas: apresentações e venda de CDs são fonte de renda do grupo Onda Jovem 22-29 (nº3) 10/20/05, 8:51 PM24
  • 25. 25tréguas em guerras a que a polícia apenas assiste, impotente e derrotada. A interferência em batalhas sangrentas inspirou-se em outro projeto social, o Rompendo Fronteiras, que desde 2001 busca levar o trabalho social onde ele é necessário, independentemente de conflitos. Em Parada de Lucas, as armas são cursos básicos de informática. No Cantagalo-Pavão-Pavãozinho, a isca é a linguagem do circo – malabares, trapézio, acrobacias. De lá saíram dois meninos para o Ringling Bros., o maior circo de picadeiro do mundo. O prestígio do Afro Reggae também se estende a endereços antes exclusi- vos da elite. O Prêmio Orilaxé, entregue a personalidades que contribuíram com a divulgação e promoção da cultura afro, teve como palco, em 2005, o Canecão, a mais famosa casa de shows do Rio. Com a presença do ministro da Cultura, Gilberto Gil, um público diferente ocupou a platéia para aplaudir iniciativas incríveis, como o Juventude e Polícia, espetáculo de dança em par- ceria com a Polícia Militar de Minas Gerais. Isso mesmo: PMs fardados dan- çando com jovens do Afro, num espetáculo de inesperada harmonia. As histórias do Afro Reggae chegam agora ao cinema, em cinco documentários que devem ser lançados em breve. O primeiro a ficar pronto foi o americano “Favela Rising”, premiado em três mostras. A produção conta a história de Anderson Sá, sobrevivente da chacina de Vigário Geral, que per- deu parentes na carnificina, tentou ser traficante, foi baleado, chegou a ficar paraplégico mas se recuperou, e hoje é mais um “puro-sangue”. “Temos a cultura do perdedor que deu certo. Sabemos como é o fracasso”, diz Junior. “Queremos preparar as pessoas para ter poder. A sociedade brasilei- ra tinha outro destino para elas. Isso precisa mudar.” E assim vai-se alterando a triste ordem das coisas na desigualdade brasileira. No ritmo do Afro Reggae. dutos como CDs e camisetas. Sem perder a coerência mesmo nas tempestades mais pesadas. “Quatro anos atrás, recusamos um cachê de R$ 40 mil para tocar em um festival patrocinado por uma empresa de tabaco”, relembra Junior, orgulhoso. “Estávamos com quatro meses de salários atrasados, mas resistimos.” Para sair do buraco financeiro, muita conversa em busca de outros parceiros e todo o pragmatismo possí- vel no dia-a-dia. O Afro Reggae hoje supera em prestí- gio o tráfico de drogas, antigo sinônimo de poder e pros- peridade nas comunidades populares. O fenômeno ex- plica-se, entre outras razões, pelo trabalho junto à mídia. “A TV Globo é muito importante para nós. Podemos apa- recer lá sem ter o rosto desfocado. E nos shows faze- mos saudações a favelas independentemente das fac- ções que as dominam”, ensina ele. Masnabatalhaquenuncatermina,popularidadeéape- nasumaarma.“Nessemomento,nocaos,oqueresolveé emprego. Educação só não basta”, diz Junior, citando o exemplo de um gerente do tráfico que o abordou, meses atrás. “Se tiver uma oportunidade, eu saio agora”, avisou. Teve. Novo desfalque no exército das drogas. Ultrapassando fronteiras O prestígio levou Júnior e outros sete “puros-sangues” a formar um comitê de mediação de conflitos que ator- mentam os milhões de moradores honestos das favelas do Rio. O acesso privilegiado permite a eles negociar GRUPO CULTURAL AFRO REGGAE ÁREA DE ATUAÇÃO COMUNIDADES POPULARES DO RIO DE JANEIRO, ENTRE ELAS VIGÁRIO GERAL, PARADA DE LUCAS E CANTAGALO, EM PROJETOS PRÓPRIOS, E OUTRAS EM PARCERIA PROPOSTA Desviar jovens do caminho do narcotráfico e do subemprego por meio da inclusão e justiça social. Como ferramentas, a arte, a cultura afro-brasileira e a educação JOVENS ATENDIDOS 972 APOIO AVINA, FUNDAÇÃO FORD, FUNDAÇÃO KELLOG, HP, INSTITUTO CREDICARD, INSTITUTO DESIDERATA, SUPERMERCADOS EXTRA, PREFEITURA DO RIO, REDE GLOBO E SESC-RIO CONTATO Av. marechal Câmara, 350/703 – Centro – 20020-080 – Rio de Janeiro (RJ) – Tel.: 21/2532-0171 – www.afroreggae.org.br PARASABERMAIS SOBRE 25 Onda Jovem 22-29 (nº3) 10/20/05, 8:51 PM25
  • 26. horizonte global por_Cecília Dourado ilustração_Jotapê DIÁLOGOS DE ERAS Onda Jovem 22-29 (nº3) 10/20/05, 8:51 PM26
  • 27. 27 O MuseoVivo promove conexões virtuais, geográficas e de idéias para que os jovens chilenos conheçam melhor sua cultura ancestral O que um homem que viveu há 3 mil anos pode ter a dizer a um jovem que mora numa cidade moderna? O que um habitante das míticas e re- motas ilhas de Chiloé, no sul do Chi- le, tem a dar para um jovem que vive na capital, Santiago? Para responder a essas e outras indagações, a Fun- dação MuseoVivo propõe o diálogo social e cultural entre diversas gera- ções, etnias, comunidades e culturas do Chile. Essa fusão de elementos culturais diversos já começa nos pró- prios meios utilizados pela organiza- ção para propagar seu trabalho: ou- tros museus e espaços, da internet a praças públicas e bibliotecas ao re- dor de fogueiras indígenas. A fundação desenvolve uma série de atividades dinâmicas por meio de conexões virtuais, geográficas e de idéias, diz sua fundadora e diretora, a psicóloga Margarita Ovalle. Inicial- mente, ela pensava em fazer “um museucomconteúdosvirtuaisvivos”, mas logo se deu conta de que não havia necessidade de mais um mu- seu. “Os museus já existiam, mas fal- tava ocupá-los com vida”, diz. Pres- cindindo então de um espaço físico fixo, ela decidiu reunir um acervo “da- quilo que é importante para uma so- ciedade” e levar “esses tesouros ao conhecimento público de diversas formas”. Pós-graduada em Antropologia, Ovalle parte do prin- cípio de que o jovem, principalmente, deve ter contato com culturas múltiplas, em particular com aquelas que contribuíram para a formação da identidade de seu país ou região. Na época da globalização, é preciso ter cons- ciência da riqueza cultural local para avançar, rumo ao futuro, munido de identidade, dignidade e auto-esti- ma: “O conhecimento e a convivência com diversos modos de vida resultam na tolerância e no enriqueci- mento cultural”, observa. Espaços de interação A fundação promove exposições e conferências em “museusaliados”emantématividadesemescolaseuni- versidades, estações de metrô, praças e ruas. Os “proje- tos artísticos e lúdicos”, por exemplo, buscam atrair jo- vens para a diversidade cultural com a criação de jogos em espaços públicos. É o caso da instalação, em par- ques,de“quebra-cabeçasgigantes”–estruturasde1,80 m de altura formadas por quatro cubos de madeira so- brepostos, que lembram totens, mas que são móveis. As faces dos cubos são pintadas com figuras mitológi- cas e históricas do Chile. A idéia é que, ao manipulá-los, a população, sobretudo crianças e jovens, tenha uma experiência lúdica com a sua própria história e mitos. Outro projeto é o das “fogontecas”, iniciadas em 2003 nas ilhas de Chiloé. “Fogon” é uma construção tradicional indígena: casa pequena, de madeira e, às vezes, teto de palha, onde as pessoas se reúnem para contar histórias ao redor de uma fogueira. A MuseoVivo criou as “fogontecas” – mistura de “fogon” com bibli- oteca. Nesses espaços – que já são cinco, alguns dos FUNDAÇÃO MUSEOVIVO REGIÃO DE ATUAÇÃO CHILE, ESPECIALMENTE EM CHILOÉ E SANTIAGO PROPOSTA Enriquecer a identidade cultural por meio da interação de etnias, visões de mundo e modos de vida diferentes, num ambiente de respeito; criar diálogo entre diferentes gerações e culturas JOVENS ATENDIDOS 1.800 por ano, nas comunidades, e outros milhares pela internet APOIO JOSEPH CAMPBELL FOUNDATION, AVINA, DEPARTAMENTO DO LIVRO E CULTURA, EMPRESAS CHILENAS CONTATO Tels.: 56 02/2286427 e 56 09/2272647 – www.museovivo.cl – info@museovivo.cl; movallev@hotmail.com PARASABERMAIS SOBRE S quais substituem fogueiras por aquecedores –, as pessoas podem retirar livros, e jovens e velhos fazem rodas de conversas. A idéia é resga- tar a bagagem ancestral chilena, não no sentido de tentar inutilmente de- ter o tempo, mas de perceber a “ri- queza que existe numa cultura que corre o risco de extinção e, assim, chegar ao futuro com referências multiculturais”, diz Ovalle. Segundo a psicóloga, os resultados têm sido animadores. Os jovens se in- teressampeloqueosmaisvelhostêm a dizer e descobrem uma grande ri- queza cultural no meio de comunida- des pobres. As gerações passaram a se encontrar também em outros eventos, como as festas populares. Na comunidade de Coldita, em Chiloé, osmoradoreseditamumboletim,que é encartado na “Revista MuseoVivo”, publicada com apoio do Departamen- to do Livro e Cultura. “A postura dos jovens que trabalham na publicação mudou”, conta. “Eles se tornaram mais seguros e confiantes.” ParaOvalle,oencorajamentododiá- logo entre culturas é útil e desejável para toda a América Latina e seria fácil repetiraexperiênciachilenaemoutros países, “porque estamos trabalhando com a essência do humano”. Onda Jovem 22-29 (nº3) 10/20/05, 8:51 PM27
  • 28. SEXTANTE A REFLEXÃO DO ARTISTA SOBRE A SERVENTIA DA ARTE DESCREVE COM APARENTE SIMPLICIDADE O ENCANTAMENTO DA MAIS ENIGMÁTICA PRODUÇÃO HUMANA E SEU EFEITO SOBRE O MUNDO Confesso que, espontaneamente, nunca me coloquei esta questão: para que serve a arte? Desde meni- no, quando vi as primeiras estampas coloridas no colégio (que estavam muito longe de serem obras de arte) deixei-me encantar por elas a ponto de querer copiá-las ou fazer alguma coisa parecida. Não foi diferente minha reação quando li o primeiro conto, o primeiro poemaeviaprimeirapeçateatral.Não se tratava de nenhum Shakespeare, de nenhum Sófocles, mas fiquei en- cantadocomaquilo.Possodeduzirdaí que a arte me pareceu tacitamente necessária. Por que iria eu indagar para que serviria ela, se desde o pri- meiro momento me tocou, me deu prazer? Mas se, pelo contrário, ao ver um quadro ou ao ler um poema, eles me deixassem indiferente, seria natural que perguntasse para que serviam, por que razão os haviam feito. Então, se o que estou dizendo tem lógica, devo ad- mitir que quem faz esse tipo de pergunta o faz por não ser tocado pela obra de arte. E, se é este o caso, cabe perguntar se a razão dessa incomunicabilidade se deve à pessoa ou à obra. Por exemplo, se você entra numa sala de exposições e o que vê são alguns fragmentos de carvão colocados no chão formando círculos ou um pedaço de papelão de dois metros de altura amarrotado tendo ao lado uma garrafa vazia, pode você manter-se indiferente àquilo e se perguntar o que levou alguém a fazê-lo. E talvez conclua que aquilo não é arte ou, se é arte, não tem razão de ser, ao menos para você. Na verdade, a arte – em si – não serve para nada. Claro, a arte dos vitrais servia para acentuar atmosfera mística das igrejas e os afrescos as decoravam como também aos palácios. Mas não residia nesta função a razão fundamental dessas obras e, sim, na sua capaci- dade de deslumbrar e comover as pessoas. Portanto, se me perguntam para que serve a arte, respondo: para tornar o mundo mais belo, mais comovente e mais humano. SEXTANTE A BELEZA DO HUMANO, NADA MAIS por_Ferreira Gullar ilustração_Flávio Castellan Ferreira Gullar, um dos maiores poetas brasileiros, nascido no Maranhão (1930), é também cronista, ensaísta, teatrólogo e crítico de arte. É autor de livros de poesia como “Dentro da Noite Veloz”, “Poema Sujo” e “Na Vertigem do Dia”, e de ensaios como “Vanguarda e Subdesenvolvimento” e “Argumentação Contra a Morte da Arte” Flávio Castellan, 27 anos, é artista plástico e integra o elenco do ateliê paulistano Espaço Coringa Onda Jovem 22-29 (nº3) 10/20/05, 8:51 PM28
  • 29. 29 Onda Jovem 22-29 (nº3) 10/20/05, 8:51 PM29
  • 30. TODOS TÊM CULTURA E TRATA-SE DE UM BEM UNIVERSAL PORQUE É A REDE DE RELAÇÕES QUE DEFINE O DESENHO DE UMA COMUNIDADE por_Tião Rocha ARTE&CULTURA E SOCIEDADE AS TRAMAS 90º entresi,constroemdesenhos,padrões, símbolos e valores do grupo humano que aí vive e que podemos conceituar de Cultura. Encontramos os indicadores so- ciais em qualquer comunidade – rica ou pobre, urbana ou rural. No entan- to, eles só se tornam um indicador cultural quando, em contato com ou- tros indicadores, produzem um novo desenho, uma teia de relações dinâ- micas, novas tramas e padrões de convivência, gerando novos valores ou sendo influenciados pelos valores universais presentes na comunidade. A cultura, este desenho, trama ou padrão dinâmico e interrelacional, é algo humano e social, público e visível, masàsvezesmicroscópico.Podemos, dentro de uma macrotrama, perceber microdesenhos simbólicos e repletos de significantes, como nas festas po- pulares e de rua ou nos “rituais da or- dem”quesimbolizamemantêmosis- tema político. E é nesse mar de tra- DA IDENTIDADE Todo e qualquer ser humano tem cultura. Esta é uma das poucas “verdades” da Antropologia. Apesar disso, muita gente ainda pensa que alguns seres humanos não têm cultura. Uma minoria crê, firmemente, que sua cultura é superior à dos outros. Outros, por se julgarem superiores, resolveram eliminar e subjugar os diferen- tes, tratando-os como inferiores. E uma grande maio- ria acostumou-se a pensar que não tem cultura algu- ma, ficando à mercê das elites ditas “cultas”. Outro equívoco que rodeia a cultura é quanto ao uso que se faz do conceito. As definições variam do extre- mamente amplo (“cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza” ou “cultura é toda maneira de pensar, agir e sentir dos homens”) ao extremamente específico (“cultura é erudição”). Com o uso indiscriminado ou interesseiro, a palavra cultura tornou- se expressão esvaziada. Foi o que nos levou a construir um novo conceito, que fosse ao mesmo tempo operacional, palpável, mensurável, observável, ético e correto. Para isso, buscamos outra contribuição da Antropolo- gia: em toda e qualquer comunidade humana existem e interagem diversos componentes substantivos (que nós denominamos“indicadoressociais”)quepodemseriden- tificados,medidoseobservadoseque,quandointeragem Nesta página, trançado de palha de carnaúba, de Parnaíba, no Piauí; na página oposta, uma aplicação “Relógio”, renda feita em São Sebastião, em Alagoas: a produção de bens pode ser um indicador cultural de uma comunidade Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:52 PM30
  • 31. 31 Tião Rocha é antropólogo, educador e folclorista. Foi professor da PUC-MG, da Universidade Federal de Ouro Preto e membro do Conselho Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais. É presidente do CPCD – Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, que fundou em 1984, em Minas Gerais mas, micro e macroscópicas, que na- vegamos durante nossa vida. A seguir, comentamos esses indi- cadores. As formas organizativas – Incluem a família, a vizinhança, os amigos, o gru- po de oração, os companheiros de fu- tebol, o pessoal do pagode, as coma- dresdaesquina,osmeninosdapelada, a galera do funk etc. Esse indicador é fundamental para o moderno conceito de “capital social”. Estudos demons- tram que quanto mais espaços ou oportunidades de convivência social forem oferecidos aos habitantes de uma comunidade, mais formas e pos- sibilidadesdeparticipaçãoestarãosen- dogeradas,ampliandoosespaçoseos momentos de protagonismo social e o acúmulo de capital social. Nossa experiência nos autoriza afir- mar que onde não há oferta de for- mas organizativas em quantidade (e por isso há poucas oportunidades de FOTOS:MARCELOGUARNIERI/ARTESANATOSOLIDÁRIO Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:52 PM31
  • 32. 90º OS INDICADORES SOCIAIS SE TORNAM CULTURAIS QUANDO AFETAM A TRAMA DE RELAÇÕES E VALORES DOS GRUPOS. ONDE OS ESPAÇOS DE INTERAÇÃO SÃO POUCOS, O TEMPO DE MUDANÇA TAMBÉM É LENTO “O talento da periferia não pode ser descartado. É isso que os jovens do Jardim Rosana querem mostrar. Fazemos parte do Jovens Urbanos, um projeto em parceria com o Cenpec, Itaú Cultural e organizações de base das zonas Norte e Sul da capital de São Paulo. Descobrimos, em ativida- des com os moradores da região, que tínhamos muita história para contar. Nossa gente escreve livros, faz poesia, jornalzinho, música, tem lembranças ricas da vida no bairro que precisam ser conhecidas e ficar registradas. Tomamos então a iniciativa de criar a Rádio Busão e uma biblioteca. Estamos buscando a doação de um ônibus para tornar esses projetos itinerantes. Queremos divulgar nossa produção cultural no próprio bairro e também levar para outros bairros e até outros estados. Queremos promover novos talentos. Acredito que valorizar a própria cultura cria um caminho diferente de identidade para os jovens, eleva a auto-estima, cria reflexos para um futuro melhor. O pessoal da periferia tem criatividade e precisa ter esperança nela, não pode ter vergonha de mostrar o que sabe fazer.” AMANDA VIEIRA CAVALCANTI, 18 ANOS, participante do projeto Rádio Busão, que integra o programa Jovens Urbanos MARCOSFERNANDES/AGÊNCIALUZ participação e de protagonismo), o tempo de resposta aos problemas é muito lento. O tempo de rotinas au- menta e o tempo de desejos e desa- fios decresce. A lentidão é observada na falta de vontade e ambição das pessoas, principalmente dos jovens, na baixa estima social da coletivida- de, no comodismo e atraso em rela- ção a outras comunidades. Isso explica por que as jovens do “sertão das gerais”, aos 17 ou 18 anos, começam a ficar “desespera- das” porque ainda não se casaram, “porque já passaram da época”. É que, na percepção delas, o tempo de juventude e de sonho já se realizou. Elas vivem em cidades que não têm cinema, grupo de teatro, biblioteca, festas populares, locadora de vídeos, grupos de jovens, coral ou banca de jornais. Não acontece nada nos fins de semana e muito menos no meio da semana. O mundo externo entra filtrado pela tela da TV ou pelas on- das do rádio. Por isso a maioria tem na própria TV (ou rádio) o seu instru- mento de formação de “capital so- cial”, ou seja, há um crescente pro- cesso de terceirização do desejo e ali- enação da vontade, gerando a não- participação e o não-protagonismo. Asformasdofazer –Sãoasrespos- tas produzidas pelos homens às múl- tiplas necessidades humanas. Uma respostabem-sucedidasignificaincor- poração de um resultado. Assim sur- ge o “uso” que, de caráter pessoal, passa a ser um “hábito” ao tornar-se Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:52 PM32
  • 33. 33 de domínio de um grupo maior. A prá- tica de um hábito cria o “costume”, uma das marcas de uma coletividade. A permanência do costume no tempo cria a “tradição”, marca registrada do fazer e do saber fazer de uma comu- nidade ou de um povo. Esse processo de acumulações sucessivas, sistemáticas e sempre atualizadas (porque contemporâ- neas), constitui a base da produção do conhecimento, seja de cunho ci- entífico (porque usa métodos para a compreensão de variados objetos), seja de caráter tecnológico (porque produz materiais, soluções e técnicas facilitadoras), seja de essência artís- tica (porque atende a valores estéti- cos, sentimentais e não-tangíveis da humanidade, por meio de música, teatro, poesia, pintura etc.). Os sistemas de decisão – Referem- seaopolítico,àautoridade,àliderança, aos poderes de decisão – macro e microinstitucionais e não instituciona- lizados.Aparecemostensiva(comonos caso das lideranças políticas, jurídicas, militares etc.) ou subliminarmente, comonoambientefamiliar,emquepai e mãe têm poderes de decisão. As relações de produção – Trata- se do econômico, do mundo do tra- balho, das forças produtivas – quem produz o que e para quem – de um grupo social. É observável nas formas convencionais de relações de produ- ção e de trabalho, assalariadas ou formais, e em todas as esferas da rede produtiva e reprodutiva de bens e serviços, remunerados ou não. O meio ambiente – Ou o contexto, o entorno, o ecoló- gico. O homem é produtor e produto, processo e resul- tadodomeioondevive,parteintegrantedoecossistema. Considerar o meio ambiente como um indicador social é compreendê-lo além de sua face meramente física e natural, como um elemento substantivo na constituição das expressões simbólicas, relações e processos huma- nos que serão o pano de fundo sobre o qual se construi- rá o desenho cultural de uma comunidade. A memória – Refere-se ao passado, à origem. Todos nós recebemos, desde o nascimento, uma carga de in- formações sobre o nosso passado recente ou remoto, guardado pela história ou pelo inconsciente coletivo ou pela tradição familiar. A memória de um grupo social se expressa em seus rituais sacros e profanos, repletos de elementos simbólicos perpetuadores dos vínculos e das matrizes geradoras desta comunidade. Avisãodemundo–Éoreligioso,ofilosófico,odepois,o futuro, o sonho. É movido pela idéia do porvir que o ho- mem investe seu tempo e energia para aprender, domi- nar,transformareseapropriardomundoàsuavolta.Existe uma ligação entre a memória e a visão de mundo: quanto maispudermosvoltarnopassadoenamemória,maislon- ge poderemos chegar em direção ao futuro, ao estabele- cermos links e passagens de força, equilíbrio e coerência entre o ontem e o amanhã. Mas é preciso cuidado para nãoseficarpresoaopassado.Quemnãoconsegueligá-lo de forma coerente ao seu presente, não consegue cons- truir uma perspectiva de futuro de seu próprio mundo. Com esses indicadores construímos o “nosso” mo- delo de Cultura: esta rede e trama de relações que for- ma um padrão ou um desenho definidor da identidade da comunidade ou grupo social. E podemos pensar em processo cultural como a interação e as dinâmicas que afetam o padrão ou desenho. Assim, entendemos que um “projeto de desenvolvimento” (de qualquer natureza) é uma ação-inter- venção planejada no desenho cultu- ral (e suas relações) de uma comuni- dade. O planejamento de um desenho cultural brasileiro – seja local, regio- nal ou nacional –, que constitui o cerne das propostas e políticas de de- senvolvimento, deveria ter então como premissa e ênfase a heteroge- neidade e a diversidade culturais, que de fato constituem a marca de nossa nacionalidade, o caráter de nosso país e sua verdade histórica. Percebê-las em seus microcosmos – escola, família e comunidade – tor- na-se uma das tarefas dos educado- res. Canalizá-las para construções pedagógicas que favoreçam novos processos de apropriação de conhe- cimentos, geradores de “oportunida- des-e-de-opções”, pode ser o princi- pal trabalho da escola. Esta é, cremos nós, a finalidade da cultura: ser instrumento eficaz do co- nhecimento,possibilitandoleiturasmais densas, mais ricas, mais sábias, mais abrangentes e mais humanas da nos- sa “travessia”, nessa busca permanen- te e vocação natural para ser feliz. Aplicação “Espinha de Peixe”, renda feita em São Sebastião (AL) Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:52 PM33
  • 34. 180º ARTE&CULTURA E EDUCAÇÃO A ARTE-EDUCAÇÃO ESTIMULA O DESENVOLVIMENTO CULTURAL E COGNITIVO, MAS AS AMARRAS DA ESCOLA FORMAL LIMITAM O PRAZER NECESSÁRIO À APRENDIZAGEM por_Ana Mae Barbosa fotos_Henk Nieman No Brasil, muitas das ONGs que têm obtido sucesso naaçãocomosexcluídos,esquecidosoudesprivilegiados da sociedade estão trabalhando com arte e até vêm en- sinando às escolas formais a lição da arte como cami- nho para recuperar o que há de humano no ser humano. Entretanto, um problema está se criando. As ONGs, sem compromisso com a camisa-de-força representa- dapelocurrículo,desenvolvemnosparticipantesforado sistema escolar a capacidade de aprender, levando-os a descobrir suas habilidades e a ter alegria com as desco- bertas.Enfim,recuperamcriançasejovensparadevolvê- las a uma escola cujo maior valor é hoje a obediência a um currículo nacional e aos instrumentos de controle do Estado – os testes e exames –, como manda o credo neoliberal, e não o estímulo para aprender a aprender. As chances de essas crianças e esses jovens serem rejeitados pela escola e voltar à rua, que é muito mais atraente, são muitas. O desejo de aprender é análogo ao desejo ficcional. Por meio da arte, o sujeito, tanto nas relações com o inconsciente como nas relações com o outro, põe em jogo a ficção e a narrativa de si mesmo. Nisto reside o prazer da arte. Sem a experiência do prazer da arte, por parte de professores (ou mediadores) e alunos, nenhuma teoria de arte-educação será reconstrutora. LIÇÕES DE LIBERDADE Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM34
  • 35. 35 Desenvolvimento cognitivo No Modernismo, falava-se em arte na educação para o desenvolvimento da sensibilidade, mas poucos ten- taram conceituar esta sensibilidade, deixando-se do- minar pela “lamúria psicologizante” e pelo sentimenta- lismo. Hoje, principalmente, se aspira influir positiva- mente no desenvolvimento cultural e cognitivo dos es- tudantespormeiodoensino/aprendizagemdaarte.Não podemos entender a cultura de um país sem conhecer sua produção artística. A arte, como uma linguagem aguçadora dos sentidos, transmite significados que não podem ser veiculados por nenhuma outra linguagem, como a discursiva ou a científica. Dentre os gêneros artísticos, os visuais, tendo a imagem como matéria- prima, tornam possível também a visualização de quem somos, onde estamos e como sentimos. A arte na educação, como expressão pessoal e como produção cultural, é um importante instrumento para a identificação social e o desenvolvimento individual. Por meio da arte, é possível desenvolver a percepção e a imaginação para apreender a realidade do meio am- biente,desenvolveracapacidadecrítica,permitindoana- lisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada. O conceito de criatividade também se ampliou. Para a educação modernista, dentre os processos mentais en- volvidos na criação, a originalidade era o mais valorizado – daí o apego do Modernismo à idéia de vanguarda. Nos dias de hoje, a flexibilidade e a elaboração são os fatores da criatividade mais ambicionados pela educação. Em Nova York, nos anos 80, uma pesquisa com de- linqüentes juvenis concluiu que eles tinham a capaci- dade de elaboração muito pouco desenvolvida. Era, dos fatores criadores, o menos desenvolvido entre os jovens em conflito com a lei. Tinham muita dificulda- de em reelaborar o seu meio ambiente para melhor adaptá-lo aos seus desejos e necessidades. Essa in- capacidade freqüentemente gerava violência. Envol- vida em projetos artísticos, a grande maioria deles foi capaz de sobrepujar suas limitações conjunturais e reconstruir suas vidas. Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM35
  • 36. 180º Desafios na escola Desconstruir para reconstruir, se- lecionar, reelaborar, partir do conhe- cido e modificá-lo de acordo com o contexto e a necessidade, são pro- cessos criadores desenvolvidos pelo fazer e ver arte, fundamentais para a sobrevivência no mundo cotidiano. E muitos projetos com crianças e jo- vens, no Brasil, estão mostrando esse poder da “ordem oculta da arte”. Há muito educador, herói anô- nimo no Brasil, se dedicando às suas comunidades. O trabalho de arte nas comunida- des vem confirmando que arte não é apenas uma mercadoria, como que- rem os capitalistas, nem quadro para pendurar na parede, como dizem com menosprezo os preconceituosos que acham que arte é um luxo sem o qual um país endividado como o nosso pode passar. Essa é a desculpa que escolas estão dando para retirar as disciplinas de Arte do ensino médio no Estado de São Paulo. A idéia é co- locar Computação no lugar da Arte. Por que não, em vez disso, arte por meio do computador? Outra estratégia para burlar a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (que exige arte no currículo) é deixar Arte para os professores de Litera- tura ensinarem, com a manipuladora desculpa da interdisciplinaridade. Sim, literatura é arte, mas não de- senvolve as linguagens visuais, so- noras e gestuais. “Participo há pouco mais de dois anos do projeto Dança Comunidade, desenvolvido pelo coreógrafo Ivaldo Bertazzo, em São Paulo. Não aprendo só a arte da dança, mas coisas que vou usar para o resto da vida. O trabalho com o corpo inclui, por exemplo, aulas de fisioterapia, música, percussão rítmica, artes circences e de origami - que é importante pois é uma arte introspectiva, que faz surgir o que está dentro de você assim como na dança. A gente também participa de reuniões com médicos, que falam sobre saúde, e de grupos de reflexão, com psicólogo, assistente social e pedagogo, onde se conversa sobre a vida pessoal e as atividades do projeto. Isso deixa a cabeça mais aberta para se expressar e receber críticas. Enfim, o que ganho no projeto é ouro em pó, e procuro agarrar tudo. Estou sempre aprendendo sobre culturas diferentes e percebo que isso torna a gente mais versátil. A gente se dá conta de que a arte não está só no palco, mas em tudo. Ela é importante para sentir o conhecimento. Se tivesse mais arte na escola, seria mais legal. Do jeito que é o ensino hoje, você só vê aluno com sono e professor desestimulado. A arte devia fazer parte de todo aprendizado.” CESAR DIAS CIQUEIRA, 16 ANOS, é bailarino, estudante do 2º ano do ensino médio e integrante do projeto Dança Comunidade (www.ivaldobertazzo.com.br) MAYKOPEREIRA POR MEIO DA ARTE É POSSÍVEL DESENVOLVER A PERCEPÇÃO, A IMAGINAÇÃO, A CAPACIDADE CRÍTICA E A CRIATIVIDADE, PARA MUDAR A REALIDADE Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM36
  • 37. 37 Democracia e marketing É por essas e outras que as ONGs, com muito menos dinheiro do que os governos vêm gastando em Educação, conseguem educar melhor e combater muito mais eficien- tementeaexclusãoeaviolência.Sobretudoquandonãose trata de marketing empresarial, mas de projeto comunitá- rio mesmo, em que os participantes têm poder de decisão. É muito importante democratizar o poder nos proje- tos sociais. Que direito temos nós de decidir o que é mais importante para uma comunidade, se não fazemos par- te dela? Dar voz aos oprimidos deveria ser o primeiro mandamento dos projetos ditos sociais. Decidir sem ouvir, o governo já faz continuamente. Para compensar, o poder do terceiro setor deveria ser mais dialogal. Há também artistas ditos voluntários (mas algumas vezes com gordas verbas de terceiros), que apenas ex- ploram os participantes, fazendo-os trabalharem de gra- ça em projetos totalmente definidos e controlados pe- los próprios artistas. Muitas vezes, apesar das boas in- tenções, porque não sabem lidar com comunidade ou com aprendizagem de arte, voluntários e artistas acres- centam mais um nível de exploração aos já tão explora- dos. É necessário conhecer e analisar o processo de tra- balho em comunidade para avaliar e julgar sua proprie- dade. Nos trabalhos desenvolvidos por Rachel Mason na Inglaterra e no programa Quietude da Terra, do Projeto Axé, de Salvador, por exemplo, os artistas trabalharam assistidos por arte-educadores, o que garantiu um pro- cesso realmente educacional a favor da inclusão. Lidar com os excluídos, levando-os a se verem como pessoas plenas, apesar da exclusão, não é tarefa fácil. Qualquer deslize potencializa a exclusão. O cineasta Sergio Bianchi, em entrevista acerca de seu último filme, “Quanto Vale ou É por Quilo?”, que enfoca o “marketing social”, lembrava que está se criando uma nova escravidão: a escravidão comandada pelo chama- do terceiro setor que só quer propaganda. Realmente, para muitas organizações que desen- volvem “trabalho social”, o marketing da empresa vem em primeiro lugar. Outrasinstituiçõessóapóiamecono- micamente projetos que possam se auto-sustentaremdeterminadoprazo. Mas há práticas sociais, como o Majê Molê, grupo de dança da periferia po- bredoRecife,quenuncapoderãosefi- nanciar,anãoserquesecomercializem, o que resulta sempre em exclusão dos menos dotados e talentosos, que tam- bém muito necessitam do contato reconstrutor com a arte. Mas, apesar de algumas vezes sub- metidoaumcertomarketingsangues- suga, o movimento de arte para a re- construção social vem demonstrando a necessidade da arte para todos os seres humanos, por mais inumanas que tenham sido as condições que a vida lhes impôs. Ana Mae Barbosa é professora da Universidade de São Paulo, pioneira dos estudos de arte-educação no Brasil e autora de vários livros sobre o tema. Dirigiu o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo em 1987 e elaborou a proposta de arte- educação apoiada no tripé: ver arte, contextualizar o que se vê, e fazer Sem a experiência do prazer da arte, por parte de educadores e alunos, nenhuma teoria de arte-educação será reconstrutora Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM37
  • 38. 270º ARTE&CULTURA E MERCADO A INCORPORAÇÃO DE ELEMENTOS DA ECONOMIA DE MERCADO PARA ALAVANCAR AS CULTURAS LOCAIS É LEGÍTIMA. OS RISCOS SÃO A MERCANTILIZAÇÃO E O PODER CONCENTRADOR DAS GRANDES INDÚSTRIAS CULTURAIS por_Leonardo Brant fotos_Henk Nieman É válido pensar que a atividade cultural é essencial- mente econômica. Ou até imaginar que o pensamento econômico, em si, parte de processos culturais. Discor- do da dicotomia entre cultura e economia. Contesto, porém, qualquer argumento que insira a cultura numa dinâmica meramente mercadológica e economicista, avaliando-a pelo número, pelo indicador, pelos empre- gos e pela pujança da sua cadeia produtiva. A globalização tem nos mostrado que o crescimento desenfreado da atividade cultural traz efeitos nem sem- prefavoráveisparaasculturaslocais.ORelatóriodoPNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de 2004, intitulado “A Liberdade Cultural no Mundo Di- versificado”trazoseguinte:“Ocomérciomundialdebens culturais – cinema, fotografia, rádio e televisão, material impresso, literatura, música e artes visuais - quadrupli- cou, passando de 95 bilhões de dólares em 1980 para mais de 380 bilhões em 1998”. Mas faz a ressalva: “na indústriacinematográfica,asproduçõesdosEstadosUni- dos representam, normalmente, cer- ca de 85% das audiências de cinema em todo o mundo”. O documento da ONU também nos alerta para a excessiva concentração do dinheiro provindo das indústrias culturais. Se, por um lado, tememos seu efeito nas culturas locais, por ou- tro, observamos um enorme poten- cial alavancador dessas culturas. Daí a minha empolgação com o desafio, também de origem, de acreditar que os elementos da economia de mer- cado são passíveis de incorporação por toda uma gama de produtores culturais e artistas, trazendo possi- bilidades reais de auto-sustenta- bilidade. E, por que não dizer, de transformação social. O NEGÓCIO DA CULTURA Peças da exposição 100 latas, com intervenções de vários artistas em latas de spray e que inaugurou a Grafiteria, espaço dedicado à arte de rua, em São Paulo: há novidades nas prateleiras do mercado cultural Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM38
  • 39. 39 Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM39
  • 40. 270º Estava prevista para o mês de ou- tubro a 33ª Conferência Geral da Unesco, ocasião em que seria pro- mulgada uma Convenção Internacio- nal sobre diversidade cultural. Costu- mo apelidá-la de “Protocolo de Kyoto da Cultura”, dada a sua importância nesse cenário de riqueza e desigual- dade. O documento traz uma série de recomendações aos países-mem- bros, no sentido da adoção de políti- cas próprias para a cultura, bem como a outros organismos interna- cionais, como Organização Mundial do Comércio e demais órgãos das Na- ções Unidas. Não podemos nos esquivar diante da mais evidente – e trágica – cone- xão entre cultura e economia, senão a da intencional transformação de hábitos e costumes culturais em di- nâmicasmeramentemercadológicas. “Pesquisas de mercado identificaram uma ‘elite mundial’, uma classe mé- dia mundial que segue o mesmo esti- lodeconsumoeprefere‘marcasmun- diais’. O mais impressionante são os ‘adolescentesmundiais’,quehabitam um ‘espaço mundial’, com uma única cultura pop mundial, absorvendo os mesmos vídeos e a mesma música e proporcionando um mercado enorme para tênis, t-shirts e jeans de marca”, reflete ainda o relatório do PNUD. E esse não é um único viés da “mercantilização” da cultura. Naomi Klein, autora do excelente “No Logo”, trazalgumasindagaçõesarespeitode processo de apropriação da cultura pelomundocorporativo.Ofocoéopa- trocínio. “Embora nem sempre seja a PESQUISAS MOSTRAM QUE NO BRASIL A RELAÇÃO ENTRE INVESTIMENTO E VAGAS GERADAS NA ÁREA É MUITO GRANDE E A OFERTA CULTURAL, MUITO PEQUENA “Sempre gostei de música e um professor me encaminhou ao Instituto Criar de TV e Cinema, em São Paulo, para fazer uma oficina de audiovisual. Foi um ano de curso, que terminou em junho, e uma superexperiência, porque me envolvi com as outras oficinas, aprendendo um pouco de câmera, computação gráfica, iluminação, edição. Além do aprendizado técnico, tive aulas de inglês, história do cinema, criatividade e expressão e sobre os meios de comunicação. Eu era leigo em tudo isso, hoje tenho conhecimentos e uma visão bem mais crítica. Quero unir música e cinema. A participa- ção nesse projeto está me abrindo as portas para o mercado de trabalho, mas principalmente abrindo minha cabeça para valorizar a produção cultural brasileira. Virei monitor de áudio no projeto e, com os monitores de outras oficinas, estamos criando uma produtora do Instituto Criar e também um núcleo jovem para levar nossas experiências para outras instituições sociais. Serão novas idéias, novos olhares, novos talentos e cabeças pensando, e tudo isso só pode enriquecer a arte e ser bom para o Brasil.” GUILHERME RAMOS DE SOUZA, 18 ANOS, é estudante do 3º ano do ensino médio e monitor no Instituto Criar de TV e Cinema (www.institutocriar.org) BEATRIZASSUMPÇÃO Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM40
  • 41. 41 intenção original, o efeito do “branding”avançadoéempurraracul- tura que a hospeda para o fundo do palco e fazer da marca a estrela. Isso não é patrocinar cultura, é ser cultura. E por que não deveria ser assim? Se asmarcasnãosãoprodutos,mascon- ceitos,atitudes,valoreseexperiências, por que também não podem ser cul- tura? Esse projeto tem sido tão bem- sucedido que os limites entre patroci- nadores corporativos e a cultura pa- trocinada desaparecem completa- mente.” Esse processo consolida a “coisificação do ser e a humanização das coisas”, segundo o antropólogo italiano Massimo Canevacci, autor do livro “Culturas Extremas”. A International Network for Cultural Diversity(www.incd.net)promoveessa pauta junto aos associados em mais de 50 países. Trabalha pelo desenvol- vimento cultural local em face do pro- cesso de homogeneização da cultura, impetrado sobretudo pela voracidade dos conglomerados globais da indús- tria cultural. Fruto desse trabalho de pesquisa e discussão e pressão junto a organismos internacionais como Unesco, OMC e demais células do sis- tema ONU, está a criação no Brasil do Instituto Diversidade Cultural (www. diversidadecultural.org.br)eapublica- çãodolivro“DiversidadeCultural”,lan- çadorecentementepelaeditoraEscri- turas, em parceria com o Instituto Pensarte.Atônicageraldapublicação, que traz 17 textos de especialistas internacionais, volta-se para a análise e a proposição de mecanismos inter- nacionais que auxiliem a salvaguarda dessas culturas, tanto quanto sua promoção nos am- bientes internos. Pesquisa da Fundação João Pinheiro, publicada em 1998 pelo Ministério da Cultura, aponta que 1% do PIB brasileiro seria gerado pela cultura. A cada 1 milhão de reais investido, teríamos 160 postos de trabalho. A re- lação emprego/investimento seria a melhor do Brasil, mesmo em comparação com a indústria automotiva e de tecnologia. Num país em que o desafio de geração de trabalho e renda para os jovens em idade de ingres- sar no mercado de trabalho é enorme, isso poderia sig- nificar um grande potencial. Dados de uma pesquisa realizada pelo IBGE em 1999 demonstram, por outro lado, a ausência da oferta cul- tural no Brasil: 82% dos municípios brasileiros não pos- suíam museus, 84,5% não tinham teatro, 92% não ti- nham sequer uma sala de cinema e cerca de 20% não tinham bibliotecas públicas. Mesmo aqueles municípios que contavam com bibliotecas, 69% deles possuíam apenas uma e, nos municípios com até 20 mil habitan- tes, 935 não tinham nenhuma. Nos municípios com até 5 mil habitantes, a presença de livrarias e lojas que vendem discos, fitas e CDs era muito rara, com percentuais de 13,6% e 5,6%, respec- tivamente. E em termos de território brasileiro, dos 5.506 municípios pesquisados, 65% não possuíam esse comércio. Nos municípios com mais de 50 mil habitan- tes, 90% tinham esse tipo de loja e, como já era de se esperar, todos os grandes centros urbanos possuíam esse gênero de comércio, com destaque para a Região Sul, onde em 60% dos municípios se identificaram li- vrarias e em 40% lojas de discos, fitas e CDs. Esses dados apontam para um estrangulamento da capacidade econômica, com uma grande concentração nos grandes centros, que obviamente não é capaz de absorver a grande miríade criativa da cultura brasileira. Por outro lado, mostra a oportunidade de se investir num mercado promissor e necessário para a própria valorização das manifestações culturais locais e para o desenvolvimento de nossas crianças e jovens. Nesse caso, bom negócio para o Brasil. Leonardo Brant é presidente da Brant Associados e do Instituto Diversidade Cultural, autor dos livros “Mercado Cultural, Políticas Culturais”, vol.1 (org.) e “Diversidade Cultural” (org.) Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM41
  • 42. 360º ARTE&CULTURA E CONTEXTO A PULSAÇÃO DO NOSSO TEMPO por_Katia Canton Já dizia o crítico brasileiro Mario Pedrosa que “arte é o exercício experimental da liberdade”. Eis uma ótima de- finição, sobretudo se entendermos que o conceito de liberdadedependedeumcontextoparasedefinir.Oque é considerado um ato ou um pensamento de liberdade em um determinado momento histórico não o é neces- sariamente em outro. Em se tratando de arte, então, é importante que prestemos atenção nos sinais dos tem- pos e em seus significados. Bem, e qual é o significado da arte? Para começar, po- demosdizerqueelaprovoca,instiga,estimulanossossen- tidos, de forma a descondicioná-los, isto é, a retirá-los de umaordempreestabelecida,sugerindoampliadaspossibi- lidadesdeviveredeseorganizarnomundo.Comoescreve o poeta Manoel de Barros: “Para apalpar as intimidades do mundoéprecisosaber:/a)queoesplendordamanhãnão se abre com faca / b) o modo como as violetas preparam o dia para morrer / c) por que é que as borboletas de tarjas vermelha têm devoção por túmulos / d) se o homem que toca de tarde sua existência num fagote tem salvação (...) Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios (...) / As A ARTE CONTEMPORÂNEA SUPERA AS DIVISÕES DO MODERNISMO E REFLETE O ESPÍRITO DE NOSSA ÉPOCA, OCUPADA COM AS QUESTÕES DA IDENTIDADE: O CORPO, O AFETO, A MEMÓRIA Katia Canton é PhD em Artes pela Universidade de Nova York, docente e curadora de arte do Museu de Arte Contemporânea, da Universidade de São Paulo, autora de vários livros, entre eles “Retrato da Arte Moderna” coisas não querem mais ser vistas por / pessoas razoáveis:/ Elas desejam ser olhadasdeazul—/quenemumacrian- ça que você olha de ave”. Aarteensinajustamenteadesapren- derosprincípiosdoóbvioqueéatribuí- doaosobjetos,àscoisas.Elaparecees- miuçar o funcionamento das coisas da vida, desafiando-as, criando para elas novaspossibilidades.Elapedeumolhar curioso, livre de “pré-conceitos”, mas cheiodeatenção.Osjovensjátêmessa disponibilidade, mas é preciso estimu- larseuconvíviocomarteparafacilitare aprimorar essa percepção. Agora, ao mesmo tempo em que se nutre da subjetividade, há outra im- portante parcela da compreensão da arte que é constituída de conheci- mento objetivo, envolvendo a histó- ria - da arte e dos homens -, para que, Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM42
  • 43. 43 com esse material, se possa estabe- lecer um grande número de relações. Para contar essa história, a arte pre- cisa ser plena de verdade, refletindo o espírito do tempo, com a visão, o pensamento e o sentimento das pes- soas em seus momentos. Parece complicado? Pois pensar na arte como um conhecimento vivo, um tecido onde se costuram diariamente fios que compõem a vida, é uma forma deentenderporquerazãoamaneirade encará-la também se modifica no de- correr dos contextos sócio-históricos. É maisquedesejável,então,queosjovens seacostumemapensartambémsobre a arte de seu próprio tempo. Arte moderna e vanguardas De modo geral, podemos afirmar que a arte moderna, que se iniciou a partir da segunda metade do século 19 e abarcou todo o século 20, teve como mola propulsora o conceito de vanguarda. E o que isso significa? O termo vem do francês “avant-garde”, que quer di- zer “à frente da guarda”. É um termo de guerra, que pressupõe duas idéias básicas: a de se estar “à fren- te”, isto é, de fazer algo novo, e a de “guarda”, que se liga à luta, à ruptura. Eram esses os desejos dos artis- tas modernos. As bases de todos os movimentos que eles criaram, independente de suas singularidades, estão ligadas às noções de novo e de ruptura. Buscando criar obras cada vez mais inovadoras e que pudessem romper com a ordem vigente é que os artistas modernos elaboraram seus movimentos. Afinal de con- tas,essesartistaspertenceramaumaeratremendamente Espécimes da Flora, um óleo sobre tela e napa, obra da artista plástica brasileira Adriana Varejão Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM43
  • 44. intensa,que,norastrodaRevoluçãoIn- dustrial, urbanizou cidades, promoveu espantosas inovações tecnológicas, mas também produziu duas guerras mundiais, além da Revolução Russa, queacabaramporsepararomundoem blocos capitalista e socialista. Era pre- ciso que a arte se tornasse tão inova- dora e radical quanto a própria vida. Uma das invenções do século 19 e queteveumimpactofenomenalsobre a arte foi a fotografia. Ela liberou os ar- tistas, até então incumbidos de regis- trar em suas telas pessoas, paisagens efatoshistóricosparaaposteridade.A fotografiapoderiacumpriressafunção, dando ao artista mais liberdade para criar, pesquisas e experimentar. No Modernismo, diversos projetos uniamartistasemdiferentesmovimen- tos, muitas vezes endossados por ma- nifestos – textos que os explicavam e validavam.Aopçãopelonovomanifes- tou-se de maneiras muito diversas e particulares, ampliando enormemente aspossibilidadesartísticasqueosécu- lo 20 trouxe para o mundo ocidental. No Impressionismo, por exemplo, os artistas queriam se liberar da re- presentaçãorealistaecheiaderegras impostas pelas academias de belas- artes. No Cubismo, a fragmentação das imagens projetava simbolica- mente a própria fragmentação do mundo da industrialização. Na arte abstrata, procurava-se uma síntese que transcendesse uma realidade de guerras,destruiçõesedesigualdades. Oqueosuniaeraumposicionamen- to diante das mudanças trazidas pela sociedade industrial. Impressionismo, Pós-Impressionismo, Fauvismo, Ex- pressionismo, Simbolismo, Cubismo, Futurismo,Surrealismo,Minimalismo... todos buscavam liberdade e autono- mia para a obra de arte. “Com 15 anos, eu não sabia nada de música. Gostava só de rock e tinha vontade de tocar violão. Aí minha mãe me falou de um curso de música. Era o projeto Acordes Pão de Açúcar. Como o curso era de instrumentos de corda, me interessei, mas não tinha violão, só violino, viola, violoncelo e contrabaixo. Para começar, eu tinha de ver uma apresentação da orquestra do projeto. Por ser orquestra, a minha expectativa era que o programa seria chato, coisa erudita. Mas gostei e vi que com aqueles instrumentos eles também tocavam música popular. Comecei aí a aprender que segregar música, ou qualquer outra arte, é uma bobagem. Escolhi aprender violino e não deixei de gostar de rock, agora entendo mais. Hoje toco na orquestra do Acordes, formada por 40 músicos, e também dou aula no projeto. O Acordes me abriu um horizonte cultural, não só na música. A gente tem contato com história, outras línguas e culturas. Encontrei também um horizonte profissional. Estudo música na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, e estou em vias de acertar um intercâmbio cultural para estudar em uma universidade na Polônia.” MATHEUS FRANZ CANADA, 21 ANOS, estudante de música e integrante do projeto Acordes, do Instituto Pão de Açúcar (www.paodeacucar.com.br) CESARCIQUEIRA A ARTE DESAFIA O ÓBVIO E SUA COMPREENSÃO EXIGE UM OLHAR CURIOSO, ATENTO E SEM PRECONCEITOS. OS JOVENS JÁ TÊM ESSA DISPONIBILIDADE, MAS PRECISAM DE CONHECIMENTO PARA APRIMORÁ-LA Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:53 PM44
  • 45. 45 A cena contemporânea Com o passar do tempo, no entan- to,aartemodernasofreuumdesgas- te. Por um lado, ela tornou-se tão ex- perimentalqueacabouporafastar-se do público, que passou a achar suas manifestações cada vez mais estra- nhas e de difícil compreensão. Isso aconteceu particularmente a partir dos anos 60 e 70, em Nova York, para onde se transferiu a vanguarda artís- tica dos centros europeus depois da SegundaGuerra,eondeváriasnoções modernas foram radicalizadas. No movimento minimalista, criado ali, o lema era “Menos é Mais”; a arte não deveria ter autoria, nem passa- do ou futuro, apenas a ação do mo- mento presente. “O que se vê é o que se tem”, diziam os minimalistas. “Não há nada por trás das formas.” Emmeioaisso,aspessoassentiam faltadehistóriasedapossibilidadede serem arrebatadas de emoção pelas obras de arte. Por outro lado, a noção donovo,fundamentalparaavanguar- da, também se tornou algo imprová- vel, sobretudo num mundo repleto de informações e estímulos. Com a mudança global que se deli- neiaapartirdosanos80,torna-semais gritante ainda a necessidade de uma modificação no conceito de arte. Mais do que isso: torna-se necessário que a arte se modifique para sobreviver. E é aí que sai de cena a arte moderna e sobe ao palco a contemporânea. Para começar, a organização prévia do mundo entre capitalismo e socialismo entra em colapso com o fim do regime socialista soviético e a queda do muro de Berlim (1989). As novas realidades políticas provocam um fluxo geográfico internacional, fazendo com que os desloca- mentos humanos instaurem uma nova noção de identi- dade e de nacionalidade. A virtualização produz uma profunda modificação na maneira como as pessoas se relacionam. A relação tem- poeespaço,queantesobedeciaaumaproporcionalidade, agora é instável. Se os estímulos de informação proliferam sem limites temporaisouespaciais,tornando-semuitasvezesexces- sivos,amemóriatorna-seumbemmaior.Paraocientista russo e Prêmio Nobel, Ilya Prigogine, “o fim da humanida- de seria uma sociedade que perdeu sua memória”. Prigogineapontaparaumavalorizaçãocadavezmaiorda memória como um bem ao qual muitas pessoas terão pouco acesso num futuro em que tudo é descartável. A importância dada à moda, às aparências e à “atitu- de”, aliada a uma tecnologia sofisticada de cirurgias, implantes, aparelhos de ginástica e substâncias quími- cas, além das possibilidades genéticas que se abrem com os seqüenciamentos cromossômicos, fazem do corpo um campo de experimentações futurísticas. A busca pela originalidade, que caracterizava a vanguar- da modernista do século 20, é substituída pela atitude de busca de reconhecimento, de celebridade. Transfe- re-se o alvo das preocupações da produção para o pro- dutor, da obra para o autor. Tanta coisa acontece rápida e simultaneamente que afeta nossa capacidade de lidar com a memória, a afetividade, o corpo, a identidade, enfim. Esses, então, passam a ser os grandes assuntos a serem tratados pelos artistas contemporâneos, espécies de radares de seu próprio momento histórico. A arte abstrata conti- nua a existir, mas é na figuração, nas narrativas, nas imagens ligadas à própria história de vida do artista e às micropolíticas referentes ao mundo em que vive que está o grande foco da arte contemporânea. Se fosse convidada a reformular o ensino da arte no momento contemporâneo, eu substituiria o estudo dos movimentos que caracterizaram a era moderna por es- sesgrandestemasqueacompanhamaproduçãoeopen- samento dos artistas contemporâneos, permitindo que a arte continue a fazer sentido e a ecoar nossa essência. Trabalhando nos sintomas desse cenário,grandesnomesinternacionais parecem confirmar essa tendência. CindyShermanfotografa-seassumin- do identidades variadas. A francesa LouiseBourgeois,commaisde80anos de idade, é uma das mais radicais ar- tistas da atualidade, construindo uni- versos escultóricos que mesclam au- tobiografia e erotismo. O norte-ameri- cano Mathew Barney cria em seus fil- mes uma mitologia miscigenada, mis- turando tempos e espaços. NoBrasil,AdrianaVarejãopintafacha- das de azulejaria portuguesa sangran- do como se em carne viva, criando um potente comentário sobre a história colonial e seus rastros de sofrimento. Ernesto Neto constrói com náilon, es- puma e enchimentos, verdadeiras me- táforas de nossos órgãos e peles. Emmeioamúltiplaspossibilidadesde usosdemateriais,espaçosetempos,a arte contemporânea não separa a rua eomuseu.OcoreógrafoIvaldoBertazzo mesclatradiçõesétnicasmilenarescom o gestual urbano de crianças e jovens de favelas brasileiras. O músico Naná Vasconcelos utiliza com precisão sons do corpo e voz de milhares de pessoas e afirma que Vila-Lobos é um “genuíno músico popular, já que consegue fazer ecoarossonsdopovo,aindaquedefor- ma sinfônica”. Felizmente, a arte contemporânea temaliberdadedeapontarsuasheran- çasesuahistóriasemprecisariraograu zero da originalidade e está cada vez mais infiltrada nas peles da vida. Assim ela permanece pulsando. 45 Onda Jovem 30-45 (nº3) 10/20/05, 8:54 PM45
  • 46. sem bússola OUTRAS LEITURAS Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:54 PM46
  • 47. 47 MENSAGENS CIFRADAS DA JUVENTUDE, AS PICHAÇÕES LEVANTAM QUESTÕES SOBRE O PODER DE INCLUSÃO E OS LIMITES DA ARTE URBANA por _ Iara Biderman Decifra-me ou devoro-te. No alto dos prédios e via- dutos, nas fachadas das casas e nos muros das gran- des cidades, principalmente, as frases desconexas e letras indecifráveis repetem o desafio da esfinge. Que mensagens são essas, que nos joga na cara perguntas ainda sem respostas consensuais: sinais de deteriora- ção urbana ou arte de rua? Para o fotógrafo profissional Iatã Canabrava, é co- municação visual popular. Convidado para fazer um tra- balho sobre as intervenções visuais urbanas - picha- ções, grafites, anúncios, faixas -, Canabrava chamou jovens fotógrafos e grafiteiros para realizarem juntos uma leitura da cidade. O resultado foi a exposição “Spray - Tatuagens Urbanas”, que ficou à mostra na sede do Instituto GTech, em São Paulo, em meados deste ano, como “uma reflexão, nem a favor, nem con- tra, sobre essa demarcação visual do espaço urbano”, segundo o fotógrafo. Mas é difícil não ser “contra ou a favor” nessa questão. “A cidade é o suporte para a pichação e o grafite, e muita gente não gosta. Muitas vezes, é a situação de um outro agredindo diretamente algo que é seu”, diz Daniel Fernandes, o Badah, educador de oficinas do Instituto Gtech. A busca desesperada por qualquer espaço de ex- pressão leva os excluídos da arte e da cultura a marcar território de forma ostensiva, por vezes agressiva. “Se ti- vessem outras oportunidades de atividades culturais, os pichadorestalvezescolhessemoutrasformasdeexpres- são. Poderia ser o grafite, mas poderia ser qualquer outra coisa”, acredita Badah. BADAH Para L. F. A. C., 17, a escolha foi ou- tra.Ogarotoera“invocado”,bastavaal- guém olhar torto para ele partir para a briga.“Minhamãeviviapreocupada.Eu andava com uma turma de gente mais velha,‘meachava’.Vivianarua,eramui- to rap e pinga com groselha. Subia em carro, escalava muro e pichava em uns lugaresincríveis”,conta.Oquedeu“um rumo”paraL.F.,segundosuaspróprias palavras, foi o encontro com a música clássica. Há quatro anos, participa do ProjetoGuri,etocaviolinonaorquestra doprojeto,quesurgiunoâmbitodogo- verno do Estado e hoje é uma organi- zaçãosocialnaáreadeculturaquepro- move inclusão por meio do ensino co- letivo da música. A foto de uma construção pichada em rua de São Paulo integrou uma mostra em que fotógrafos e grafiteiros fizeram uma leitura visual da cidade Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM47
  • 48. A escolha de L.F. não significou um rompimento com o rap e a “turma do piche”, mas, hoje, o ajuda a ter uma reflexão mais elaborada sobre esse tipo de manifestação. “Quem vê de fora acha que é vandalismo. Nada a ver. A gente está mostrando o que sente, mas não estão entendendo. Estamos dizendo: ‘olhem, estamos aqui!’”, conta, acrescentando que, an- tes de tocar na orquestra, pichava porque não era notado. “Agora, toco violino e sou notado, me aplaudem.” Mensagem para poucos Para o antropólogo Alexandre Bar- bosa Pereira, autor da tese “De Rolê pela Cidade – os Pichadores de São Paulo”, a lógica do pichador é ser re- conhecido e ganhar notoriedade den- tro do grupo. “A mensagem, em ge- ral, não é para a população, é para eles mesmos.” Dentro dessa lógica, quan- to mais arriscado for o local ou a situa- ção da pichação, mais status o autor ganha dentro dos grupos. É uma for- ma de ser conhecido e valorizado por turmas que circulam por todas as par- tes da cidade, algo difícil de aconte- cer se não for por meio da interven- ção gráfica no espaço público ou na propriedade privada. “Alguns, em cer- tos momentos, até admitem que é vandalismo. Outros defendem como uma forma de expressão. E há os que consideram como um protesto políti- co. Em geral, o pessoal mais politizado é o ligado aos movimentos do hip hop”, diz Pereira. O psiquiatra Auro Danny Lescher encontrou no hip hop o sangue bom que faz bater forte o coração do Pro- jeto Quixote. Ligado ao departamen- to de psiquiatria da Unifesp (Universi- dade Federal de São Paulo), o Quixote busca criar al- ternativas para crianças e jovens em situação de risco social. “Mas é preciso oferecer uma alternativa de so- ciabilidadesuficientementecriativaeinteressante.Não dá para ficar apenas fazendo vaso com palito de fós- foro. Tem de ser hip hop na veia”, receita Lescher. Movimento iniciado nos Estados Unidos na década de 60 e que se disseminou pelos centros urbanos bra- sileiros no início dos anos 80, o hip hop inclui manifes- tações artísticas como música (rap), dança (breake) e também o grafite, que se torna recurso contra a ex- clusão. “A opção entre uma arma e uma latinha de tin- ta é questão de oportunidade”, acredita Lescher. O Quixote amplia essas oportunidades criando, por exemplo, eventos que unem manifestação de cidada- nia com grafite. Como uma grande grafitagem reali- zada no Carandiru. A pintura do ex-complexo presidiá- rio foi feita simultaneamente pelos jovens reunidos pelo Quixote, do lado de fora, e os internos do presí- dio, de dentro. “É a arte comunicando dois mundos”, analisa Lescher. Também canaliza possibilidades ofe- recendo formação e oportunidade de geração de ren- da por meio do Quixote Spray Arte. Ali, jovens desen- volvem técnicas de grafite e podem ganhar dinheiro com sua arte, oferecendo produtos como oficinas de grafite, pinturas decorativas ou de divulgação em fa- chadas e camisetas grafitadas. A formação possibilita que muito pichador se descubra como artista. “Todo pichador quer ser grafiteiro um dia; e quase todo grafiteiro já foi um pichador”, diz Lescher. Rampas de acesso Wagner,dosPigmeus,ou“Wag...”,seunomedeguerra e de muros, faz intervenções urbanas há pelo menos dez anos: “Picho desde os 15”, conta, com o orgulho de quem se autodenomina “escritor de rua”. Ele acredita que se todos os pichadores pudessem fazer algum tipo de curso, pelo menos 50% mostrariam “que são artis- tas mesmo. Todo pichador vira grafiteiro no final”. Wagner, que já foi motoboy e hoje está desempre- gado, vive no limite entre a arte e a ilegalidade. Já es- capou por pouco de levar tiros quando pichava casas alheias e já foi entrevistado por jornalistas dinamar- queses, encantados com o desenho sofisticado das É PRECISO CRIAR RAMPAS DE ACESSO PARA QUEM ESTÁ EXCLUÍDO PODER ENTRAR PELA PORTA DA ARTE E DA CULTURA. QUEM VIVE EM SITUAÇÃO DE RISCO SOCIAL TAMBÉM TEM NECESSIDADES ESPECIAIS letras que picha. Ele organiza even- tos para transformar vielas deterio- radas do bairro periférico de Capão Redondo, onde mora, em “museus a céu aberto”. Os Pigmeus – “a galera” de pichadores de Wagner – organi- zam esses eventos por conta própria, chamando pichadores de várias regi- ões e buscando patrocínio na comu- nidade. O plano de Wagner é trans- formar os Pigmeus em uma ONG para formar e apoiar artistas de rua. O que o ex-motoboy quer, na defini- ção mais elaborada do psiquiatra Auro Lescher, é criar rampas de acesso para quem está excluído poder entrar pela portadaarteedacultura.“Assimcomo é necessário construir rampas de Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM48
  • 49. 49 acesso físicas para o portador de ne- cessidadesespeciaispoderchegarade- terminadolocal,éprecisoconstruirram- pas de acesso que envolvem relações humanas. Quem vive em situação de risco social também tem necessidades especiais”, diz Lescher. Decertaforma,aAssociaçãoRodrigo Mendes surgiu como uma união dos sentidosliteralemetafóricodoconcei- to exposto por Lescher. Aos 19 anos, depois de ser baleado durante um as- salto, Rodrigo entrou para o grupo de portadoresdenecessidadesespeciais esubiuarampadaartequaseporaca- so. “Comecei a fazer reabilitação motoraeencontreiumartista,queme propôs um trabalhocompintura.Nun- ca tinha feito antes, fui sem nenhuma pretensão, mas logo tomei gosto pela coisa. Ao ver os resultados positivos da arte, tive a idéia de ampliar essa possibilidade para um público maior”, conta Rodrigo. A Associação Rodrigo Mendes foi instituída em 1994 como uma escola voltada aos deficientes físicos, com a proposta de usar a arte como ferra- menta de acesso à cultura. Mas, em 1996, Rodrigo decidiu que a escola deveria ser inclusiva: aberta a defi- cientes ou não, de diferentes origens e idades. “As experiências de segre- gaçãonãoderamcerto.Aarte,porsua amplitude, pode agregar a todos.” A inserção na arte e na cultura vem junto com a possibilidade de suprir uma necessidade bastante especial para boa parte dos alunos da asso- ciação: gerar renda. Além de os alu- nos aprenderem a transitar com pro- priedade na história e nos conceitos da arte, a Associação Rodrigo Mendes tem parcerias com empresas para a FOTOS:DIVULGAÇÃO/PROJETOQUIXOTE Fotos de grafitagem no complexo presidiário do Carandiru, com interferências realizada por integrantes do Projeto Quixote Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM49
  • 50. VISTO COMO VÂNDALO OU COMO AUTOR DE UMA FORMA PRÓPRIA DE EXPRESSÃO, O PICHADOR É UM JOVEM QUE ACABA VIRANDO GRAFITEIRO PROJETO QUIXOTE ÁREA DE ATUAÇÃO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO PROPOSTA Atendimento de crianças e adolescentes em situação de risco social por meio de oficinas lúdicas e artísticas, formação de multiplicadores e pesquisa científica para ampliar e aprofundar a compreensão da realidade vivida por sua população-alvo JOVENS ATENDIDOS 3.000 APOIO PROJETO PETROBRÁS FOME ZERO E UNIFESP (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO) CONTATO Rua Prof. Francisco de Castro, 92 – Vila Clementino – 04020-050 – São Paulo (SP). Tel.: 11/5572-8433 – e-mail:quixoteunifesp@uol.com.br PARASABERMAIS SOBRE PROJETO GURI ÁREA DE ATUAÇÃO ESTADO DE SÃO PAULO PROPOSTA Inclusão social e cidadania através do ensino coletivo da música JOVENS ATENDIDOS Aproximadamente 25 mil APOIO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO CONTATO marketing@projetoguri.org.br PARASABERMAIS SOBRE venda de produtos, como linhas de material escolar, porcelanas, cosméticos e brindes ilustrados com pin- turas dos alunos. Questão de sobrevivência Poder viver de sua arte, comercializá-la, é um dos grandesdilemasdospichadoresegrafiteiros.Ninguém querserenderaomercadoouaosinteressesdopoder público – que às vezes oferece muros a serem deco- radoseomaterialnecessário,semremuneração–mas todo mundo quer e precisa de grana. Até para com- prar a tinta. O pichador Wagner imagina uma solução “institucional” para o que os órgãos públicos e a maio- ria da população consideram um problema: “As prefei- turas cadastram todos os pichadores, dão um curso, e registramcomoartistasderua.Então,elespodemdei- xar a cidade mais bonita, todos ganham”, sonha. Mas logoquestionaaeficáciadessasuaidéia:“Temumefei- to colateral. Ninguém vai se contentar em grafitar só onde querem que seja pintado. Está na alma da picha- ção e do grafite ser ilegal. E é muito bom fazer algo arriscado”, diz ele, que tem atração especial por esca- lar prédios e pintar letras de cabeça para baixo nas al- turasmaisimprováveis.“Éumaadrenalinamuitoboa.” O surpreendente, para o garoto L. F., do Projeto Guri, foi descobrir em outras formas de expressão artísti- ca uma adrenalina tão poderosa quanto a vertigem da pichação ilegal: “Tem uma peça clássica que, só de ouvir, fico tremendo. É o “Opus 26”, do composi- tor alemão Max Bruch. Pura adrenalina, igual à de pi- char em cima do viaduto ou no alto do prédio”. Letras típicas de pichação pintadas, isoladamente , sobre azulejos aplicados num muro: novas possibilidades de leituras HENKNIEMAN Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM50
  • 51. 51 “A pauta ficou martelando na minha cabeça. Eu tinha algumas idéias esparsas e muitas dúvidas. O que é arte? Qual a diferença entre pichação e grafite? Minhas referências só aumentavam as contradições. Meus amigos grafiteiros, há vinte e muitos anos, justificavam suas ações: bem-nascidos, estavam levando a arte das galerias para as ruas. E a pichação, naquele finzinho dos anos 70, não era nem queria ser arte. Eram do tipo “abaixo a ditadura”, salvo uma ou outra poesia indepen- dente. O que eu não sabia é que, naquela época, já começava a pulsar nas periferias um movimento artístico-cultural que viria a utilizar o piche e o grafite de novas maneiras. Demarcar território e gritar “eu existo” são algumas delas. O caminho natural foi percorri- do: ir da periferia ao centro, para ganhar o máximo de visibilidade – às vezes, com o máximo de ilegibilidade, invertendo o jogo da exclusão. Os incluídos não participam da leitura significativa dessa escrita. Portanto, para essa reportagem, era preciso ir atrás dos grafiteiros e pichadores de hoje. Fui a um encontro deles me sentindo um ET. Mas não tive dificuldade para estabelecer contato – adoram falar do que fazem. Todos se apresen- tam como grafiteiros e só depois de alguma conversa é que assumem que também fazem pichações. Quando perguntei o porquê, a resposta foi: ‘Porque pichador vai preso, grafiteiro não.’ Mas os protagonistas das intervenções visuais urbanas não oferecem explicações claras sobre as diferenças entre pichação e grafite. Talvez não precisem, mesmo. O negócio deles é ‘se expressar’ – de forma torta ou consciente, como agressão ou transgressão.” VIDA DE REPÓRTER IARA BIDERMAN, 44 ANOS, é jornalista há 22 anos BEATRIZASSUMPÇÃO PARASABERMAIS SOBRE ASSOCIAÇÃO RODRIGO MENDES REGIÃO DE ATUAÇÃO GRANDE SÃO PAULO PROPOSTA Possibilitar que o indivíduo desfrute dos benefícios de conviver com a arte, comprometida em garantir o acesso de pessoas portadoras de deficiência e/ou de baixa renda a seus programas JOVENS ATENDIDOS 101 APOIO TILIBRA, D PASCHOAL E BAUDUCCO CONTATO Rua Tenente Aviador Mota Lima, 85 – Vila Caxingui – São Paulo (SP) – CEP 05517-030 – Tels.: 011/3726-4468 e 3726-8418 – e-mail: arm@arm.org.br Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM51
  • 52. o sujeito da frase “A ARTE NOS TORNA O ator Leandro Firmino da Hora diz que não é a obrigação mas o desejo de fazer que aumenta nosso compromisso RESPONSÁVEIS” AE Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM52
  • 53. 53 por_Cristiane Ballerini foto_Deise Lane Lima O artista, que estreou no papel do traficante Zé Pequeno, no filme “Cidade de Deus”, diz que a arte mudou o roteiro de sua vida e pode transformar muitas outras histórias O ator também é vice-presidente da NósdoCinema,organizaçãoqueaten- de a 60 jovens, criada a partir da ofi- cina de atores de “Cidade de Deus” e cujo nome se inspira no Nós do Mor- ro, um pioneiro grupo de teatro do morro do Vidigal. “Infelizmente, a moçada está desacreditada de si, da vida. Nos cursos de cinema, eles es- crevem roteiros, representam, colo- cam suas idéias na tela. Isso tem um poder e tanto para elevar a auto-esti- ma”, diz Leandro, que continua circu- lando de ônibus pelo Rio e se man- tém fiel às origens: “Só quem vive em comunidade sabe do que estou falan- do. A vida é dura, existe a pobreza, a violência, mas as pessoas se ajudam o tempo todo. Tem sempre um clima de festa e solidariedade no ar”. A seguir, o ator fala de sua trajetória. Onda Jovem: Como você se tornou ator? Leandro: Se eu disser que sonhava em estar na tela do cinema desde criança, é mentira. Nunca planejei se- guir esse caminho. Prestei serviço militar e fiquei um ano no Exército. Quando saí, me arrependi. Pensava que devia entrar para a Aeronáutica e seguir carreira. Acho que ainda não tinha despertado de verdade para uma profissão. Queria mesmo era ter um emprego, estabilidade. AE PARASABERMAIS SOBRE NÓS DO CINEMA ÁREA DE ATUAÇÃO COMUNIDADES POBRES DO RIO DE JANEIRO NAS OFICINAS PERMANENTES DE CINEMA. VÁRIAS CIDADES DO PAÍS E EXTERIOR NOS PROJETOS QUE ENVOLVEM EXIBIÇÃO DE FILMES E DEBATES PROPOSTA Possibilitar novas perspectivas profissionais e pessoais a jovens de baixa renda por meio do cinema e outras expressões audiovisuais JOVENS ATENDIDOS cerca de 60 jovens por ano, nas oficinas permanentes APOIO FURNAS, LUMIÈRE, GRUPO LUNDI, FIRJAN, KLABIN, MIRAMAX FILMES, DILER & ASSOCIADOS, O2 FILMES, GLOBO FILMES, URCA FILMES, VIDEOFILMES, TV ZERO, CDI CONTATO Rua Voluntários da Pátria, 53/2º andar – 20000-000 – Rio de Janeiro (RJ) – tel.: 21/2226-0668 – www.nosdocinema.org.br Ele cresceu na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, e até os 15 anos não saía de casa desacompanhado. Seus pais tinham tanto medo da proximidade com o tráfico de drogas que nem brincar na rua era permitido a ele e seus três irmãos.”Por isso, até hoje não sei soltar pipa”, lamenta Leandro Firmino da Hora. Ironicamente, foi na peledeumviolentotraficantequeorapaztímido,defala mansa, se tornou ator, e de sucesso. O papel de Zé Pe- queno, no filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles (2001), foi parar nas mãos de Leandro aos 20 anos, de- pois de um teste que só fez por insistência de um ami- go: “Eu pensava em seguir a carreira militar. Queria um emprego seguro, mas descobri na arte um caminho de realização”. O êxito mundial do filme – quatro indicações aoOscar – projetouogaroto,quenãoparoumais.Atuou em curtas e no longa “Cafundó”, de Paulo Betti e Clóvis Bueno, e co-dirigiu o filme “Um Crime Quase Prefeito”. Na tevê, participou de “Cidade dos Homens” e “Carga Pesada”, e no teatro atuou em “Woyzeck”. Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM53
  • 54. VocêcresceunaCidadedeDeus,umacomunidadecomo muitas outras, onde os pais procuram manter os filhos afastados da influência do tráfico de drogas. Fazer o papel de Zé Pequeno deu a você uma visão mais clara sobre as razões que levam esses jovens ao crime? Atéos15anos,eunãosaíadecasadesacompanhado. Era sempre com o pai ou a mãe. Era da escola para casa, da casa para a escola. Dessas brincadeiras de menino, só sei mesmo jogar bolinha de gude. Nunca soltei uma pipanarua,tamanhoomedodaminhafamília.Hoje,agra- deço a meus pais por me protegerem. Numa comunida- de carente há poucas perspectivas para o jovem e mui- tos apelos para os caminhos errados. Às vezes, os pais são alcoólatras ou dependentes químicos. Não há diver- são, escola boa, trabalho. Mas acho que já está melhor do que na minha infância. Hoje, há vários projetos so- ciais que trazem alternativas para crianças e jovens. Muitos desses projetos trabalham com arte, caso do Nós do Cinema. Não há o risco de se criar uma ilusão entre os jovens de que todos se tor- narão artistas profissionais? É importante tomar cuidado com isso. O Nós do Cinema, por exemplo, tem uma filosofia de trabalho baca- na. Nosso objetivo não é dar um cur- so para o cara virar cineasta. É claro que tem gente que vai trabalhar na área, é contratada por produtoras, tevês. Mas o mais importante é me- lhorar a auto-estima de nossos alu- nos e trazer outras perspectivas. Ou- tro dia, depois de um ano no Nós, um rapaz decidiu que queria ser profes- sor de Geografia e foi atrás desse so- nho. O trabalho com arte não precisa ser um fim em si. A arte desperta muitas possibilidades e pode estar li- gada à qualquer atividade. Por que a arte interfere de maneira tão positiva na vida das pessoas? A arte pode mudar radicalmente a vida de alguém. Fazendo cinema, por exemplo, a pessoa tem possibilidade de falar de si, avaliar vários assuntos por ângulos diferentes e também co- locar suas idéias em prática. Quando alguém vê na tela o roteiro que escre- veu, cenas que dirigiu ou nas quais atuou, é maravilhoso. Isso tem o po- der de mostrar para a própria pessoa sua capacidade de realização. E para a sua vida, qual é a importân- cia da arte? É incrível, mas o cinema e o teatro me deram mais responsabilidade que opróprioserviçomilitar.Quandoteobri- gamafazeralgumacoisa,nãotemim- portância. Agora, quando o seu desejo está naquilo que você faz, sua respon- sabilidadeaumenta.Aartetambémme fezprestarmaisatençãoàscoisasque acontecem a meu redor, ajudou a en- tender melhor as pessoas e a me en- tender melhor com elas. Sou tímido, “O trabalho com arte não precisa ser um fim em si. A arte desperta muitas possibilidades e pode estar ligada à qualquer atividade” Mas vida de ator nem sempre é es- tável... É verdade. Mas a vida militar é dura. Você é obrigado a seguir or- dens, ser pontual e nem sempre eu conseguia. Um dia, o Diogo, meu vi- zinho e praticamente um irmão, anunciou que estava rolando um teste para atores na associação de moradores. Nada a ver, pensei. Mas ele insistiu e acabei indo. Fui esco- lhido para a oficina de atores do “Ci- dade de Deus”. As cenas eram cria- das com ajuda dos preparadores de atores Gutti Fraga e Fátima Toledo. Era um mundo novo pra mim e to- mei gosto. Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM54
  • 55. 55 Vice-presidente da ONG Nós do Cinema e já lançando seu primeiro filme como co-diretor, Leandro acredita que o ensino das técnicas de audiovisual nas escolas ajudaria no processo de aprendizagem tamente dava aula de interpretação. Mesmo assim, foi uma sorte pegar essa época boa. Hoje em dia, não vejo esse empenho da escola pública. O Nós do Cinema tornou-se ONG há apenas dois anos. Já deu tempo para corrigir possíveis erros de percurso? Ainda estamos aprendendo e, pelo jeito, vamos apren- dersempre.Noinício,nãoestávamoschegandoemquem maisprecisava.Existemmuitasorganizaçõesqueacabam sótrabalhandocomjovensquetêmumaboabase:estru- tura familiar forte, oportunidades em outros projetos e escola. Aí é muito fácil. Hoje, temos um departamento socioeducativo preparado para chegar, durante a seleção para os cursos, na moçada em situação de risco. Já con- seguimoscriarperspectivasparameninosque,nopassa- do,tiveramenvolvimentocomotráficooupassagempela polícia. Mas é claro que a gente não vence sempre. Antes de ser ator você tinha oportu- nidade de ir ao cinema, shows, tea- tro, exposições? Meuspaiscurtemmuitamúsica,es- pecialmente samba de roda, black e soul music. Cresci ouvindo James Brown,BezerradaSilva,Dicró.Nocine- ma, só ia mesmo com meu pai, umas duas vezes por ano. Hoje, apesar de algumaspromoçõesparadaracessoà população pobre, como a temporada de teatro a R$ 1,00, a cultura ainda é para a elite. No fim de semana, um in- gresso de cinema custa R$ 18,00. Quem ganha pouco e tem filhos não pode gastar isso para ver um filme. “Cidade de Deus” gerou polêmica e alguns moradores declararam que o filme fazia um retrato prejudicial à comunidade. O filme teve impacto negativo ou positivo para a Cidade de Deus real? De um jeito ou de outro, o filme contribuiu para que a sociedade co- meçasse a pensar sobre esse gran- de problema que é o domínio do trá- fico em algumas comunidades. Con- tou a história da Cidade de Deus, mas podia ser a história da Rocinha, do Cantagalo e outras comunidades po- bres do país. O filme foi um soco para a elite acordar e perceber que a coi- sa existe e está cada vez mais próxi- ma. Com o filme, surgiram vários pro- jetos sociais na Cidade de Deus, como a cooperativa de cinema Boca de Filme. Isso é o mais importante: fazer algo que tem um impacto po- sitivo na vida das pessoas. mas já fui muito pior. Às vezes, ficava perdido nas ruas, procurando um en- dereçofeitomalucoporquetinhaver- gonhadepedirinformação.Podeima- ginar isso?! Ser ator me obrigou a fa- lar com as pessoas. Essepapeldesempenhadopororga- nizações em projetos sociais por meio da arte e cultura não deveria sertambémdaescolapública?Como foi sua experiência como aluno? Falta vontade aos governos. Uma coisa, por exemplo, que ajudaria muito nos processos de aprendiza- gem seria incluir aulas de técnicas de audiovisual. Eu tive sorte. Estu- dei no Ciep (projeto educacional de Darci Ribeiro no governo Brizola, no Rio, 1982-1986). Ficava o dia todo na escola, tinha aulas de capoeira, de interpretação. Fazia bagunça na aula da professora Marília, que jus- Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM55
  • 56. ciência A HORA DO NOVO Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM56
  • 57. 57 PESQUISAS CIENTÍFICAS INDICAM QUE O CÉREBRO DO JOVEM TEM CARACTERÍSTICAS QUE O LEVAM A SER MAIS CRIATIVO, MAS O ESTÍMULO EXTERNO É ESSENCIAL PARA DESENVOLVÊ-LO por_Karina Yamamoto ilustração_Gustavo Rates É um enigma que acompanha a neurociência desde seus primórdios, por volta do século 18. De onde sur- gem as idéias? A criatividade é um dom? Poucas são as certezas, mas, aos poucos, alguma luz começa a surgir no fim do túnel. Uma das lâmpadas que se acen- deram clareia a base biológica dessa característica humana: num estudo recente, surgiram alguns esbo- ços de como funciona o cérebro de pessoas inovado- ras. Associadas a outras pesquisas sobre o comporta- mento cerebral e sobre a importância dos fatores ex- ternos no desenvolvimento humano, essas informa- ções vão traçando um caminho que permite afirmar que a juventude tem, sim, uma relação direta com a criatividade e é, portanto, uma época da vida em que o tema merece toda atenção. A psicóloga americana Shelly Carson e seus colegas Jordan Peterson e Kathleen Smith descobriram que pessoas criativas tendem a apresentar índices mais altos de dopamina - um neurotransmissor geralmente associado à sensação de prazer. Algumas evidências indicam que essa substância, ao atuar na região entre os hemisférios cerebrais (mesolímbica), estimularia a percepção, deixando a pessoa mais sensível ao novo e a novas formas de ver o mundo. Em outras palavras, quer dizer que uma quantidade mais generosa de in- formação fica acessível no nível da consciência. Dotados de mais mate- rial, esses indivíduos encontram mais e novas soluções para os problemas que se apresentam. Por outro lado, já se sabe também que o cérebro humano se organiza para descartar as informações irrelevantes – e não para guardar aquelas que nos são caras e impor- tantes. Essa característica se chama inibição latente. Ela nos impede de desperdiçar nossa capacidade de atenção com o que não é útil. Por isso o ser humano tende a categorizar todas as informações que absorve. Uma vez que classificamos certo es- tímulo–dequalquernatureza–como não-importante para a nossa sobre- vivência, ele deixa de chamar nossa atenção. É um efeito que se prolon- ga: é mais difícil voltar a prestar aten- ção naquele mesmo dado numa ou- tra ocasião. “Nós poderíamos nos tor- nar confusos se tivéssemos de gas- Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM57
  • 58. A CRIATIVIDADE SE RELACIONA COM A QUANTIDADE DE INFORMAÇÕES DISPONÍVEIS. O PROCESSO NATURAL DO CÉREBRO DE DESCARTAR CONTEÚDOS É MAIS INTENSO NO ADULTO DO QUE NO JOVEM, QUE TAMBÉM POR ISSO PARECE LIDAR MELHOR COM NOVIDADES E MUDANÇAS tar nosso tempo em tudo que nossos olhos vêem e nossos ouvidos escutam”, diz Carson. E mais: estu- dos sugerem que a inibição latente aumenta com a idade. O que indicaria que a mente mais jovem está mais propensa a manter uma maior quantidade de informação disponível no nível consciente. Isso talvez explique por que os jovens parecem ser mais dispos- tos a absorver novidades e lidar com mudanças. Outro esforço dos cientistas tem sido dissecar a anatomia do pensamento criativo. Nessa direção, foi importante a descoberta do americano Roger Sperry, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1981. Ele descobriu que os hemisférios do cérebro dividem tarefas entre si. Os aspectos da comunicação ficam por conta do lado esquerdo enquanto o lado oposto é responsável pelo material não-verbal, além de noções de espaço e posição do próprio corpo. Com base nes- sa teoria, conhecida entre fisiologistas como “split brain” (ou “divisão cerebral”), outros estudos segui- ram além. Descobriu-se que o hemisfério esquerdo trabalha de maneira lógica, analítica, racional e se vol- ta para os detalhes. Já o lado direito é mais intuitivo e concatena as idéias – ali se processam as articula- ções de pensamentos. O hemisfério esquerdo proces- sa as cores de um quadro, as letras impressas num livro, os sons que chegam aos ouvidos. Mas é o lado direito que confere sentido a tudo aquilo – é a resi- dência da curiosidade, do prazer de experimentar, da coragem de correr riscos, da flexibilidade intelectual, do pensamento metafórico e do senso artístico. Cenário propício Em termos biológicos, todos nós nascemos prontos para produzir grandes idéias. No entanto, nossa traje- tória criativa é influenciada por uma porção de outros fatores. As palavras- chave são: motivação – que depende dos interesses individuais; habilidade – que pode ser adquirida com treino; e ambiente estimulante. No último item entramosnoterritóriodoseducadores. É importante que o adolescente e o jovem encontrem espaços favoráveis para exercitar sua capacidade de criar. “O papel dos pais e professores é pro- mover a independência e a auto- confiança,respeitandoaformadepen- sar da criança ou jovem”, diz a psicólo- ga Eunice Soriano de Alencar, da Uni- versidade Católica de Brasília, auto- ra do livro “Criatividades Múltiplas”. Os trabalhos da psicóloga america- na Ellen Winner, professora do Boston College,nosEstadosUnidos,endossam o argumento. Ela faz parte do Projeto Zero – um grupo de pesquisa que bus- ca compreender o processo de apren- dizado, elaboração e criatividade no ensinodasartesedasciências.Winner defende uma forte presença das artes visuais como fonte de estímulo para o desenvolvimento do hemisfério criati- vo do cérebro. “Se o ensino for levado a sério, percebemos que nossos alu- nos aprendem a enxergar, gerar ima- gensmentais,correrriscoseapensar”, diz a pesquisadora. Essa estratégia, além de adubar as idéias, ainda ofere- ce novas possibilidades de leitura de mundo – e aí não importa a idade do indivíduo. Para a diretora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP), Elza Ajzenberg, os museus deveriam fazer parte do nosso cotidiano. E nem sempre é pre- ciso se preparar para o encontro com trabalhos de grandes artistas. O im- Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:55 PM58
  • 59. 59 portante é desarmar o espírito, sabendo que, quando se trata da expressão hu- mana, sempre há várias interpretações possíveis. Quanto mais obras lhe forem familiares, mais repertório o observador vai adquirir e, assim, melhor será seu re- lacionamento com as obras e mais sen- sibilizado ele ficará em relação à mani- festação artística. E isso vale para todas elas: a música, o teatro, o cinema, a lite- ratura etc. Para facilitar a construção desse cami- nho, a equipe do MAC-USP está implan- tando um projeto de arte-educação que pretende ajudar a contextualizar as obras, os Roteiros de Visitas. Essa preo- cupação didática das instituições de arte, aliás, vem crescendo no Brasil, e já há vá- rias iniciativas relevantes, principalmen- tenasgrandescidades.Éimportanteper- correr esse tipo de trilha facilitadora, pois o conhecimento da arte se assemelha à nossa apropriação de linguagem. Quan- to mais vocabulário nós tivermos, mais ricos ficam a compreensão e os textos que produzimos. Freqüentador de mu- seus, o publicitário brasiliense Eduardo Vieira, de 23 anos, é conhecido por levar cada idéia às últimas possibilidades. “Leio até bula de remédio, estou sempre atrás de mais informação”, diz. Ele mesmo não se acha especialmente inventivo – a opi- nião é dos colegas de trabalho. Arte de viver Adquirirrepertórioeseabriraonovonão é útil apenas para nosso enriquecimento cultural.Tambémvalemparavivermelhor. “Precisamos ter capacidade de nos adap- tar à realidade”, diz o psicoterapeuta Rubens de Aguiar Maciel, pesquisador da Faculdade de Saúde Pública da Universi- dade de São Paulo. Uma pessoa mais fle- xível tende a adquirir novos padrões de comportamentos, a encontrar novas saídas para os ve- lhos problemas. Mais uma vez, o papel dos adultos que convivemcomoadolescenteeojoveméessencial.Essa é uma fase em que rapazes e moças estão se opondo aos modelos que conhecem e buscando novas formas devivereentenderomundo.“Éimportantequeosadul- tos consigam ser o saco de pancadas e o porto seguro ao mesmo tempo”, diz Maciel. Compreensão e disposi- ção para o diálogo são essenciais. O músico paulistano Sidney Lissoni vive isso na pele todos os dias. Ele é professor de Educação Artística e Música na rede estadual de ensino. “Tenho de me colo- car no lugar dos alunos para conseguir me comunicar”, diz. Foi assim, buscando facilitar a comunicação com seusalunos,queoeducadorsepropôsumatarefacom- plicada: ensinar um jeito simples de ler partituras. De- talhe:paracriançascegas.Abusandodasuacriatividade, ele criou o que registrou como Escrita Musical Lissoni, método utilizado também com seus alunos sem ne- cessidades especiais. “Tudo que serve para o portador dedeficiênciavisual,tambémserveparaovidente”,diz. Além de músico, Lissoni foi radialista, estuda neurolin- güística e é técnico de precisão. Como explicar tanta curiosidade?“Semprefuimuitoestimuladopelosmeus pais”, conta. Para Eunice Alencar, “a criatividade é uma habilida- de de sobrevivência para este milênio”. Por isso, vale mesmo a pena investir nela, cultivando valores como flexibilidade, persistência, autoconfiança e abertura a novas experiências. “É um recurso precioso que pre- cisa ser mais bem aproveitado, especialmente nesse momento da história humana, marcado por instabili- dades, incertezas e fortes pressões competitivas.” Época, enfim, de grandes mudanças. Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:56 PM59
  • 60. A VOZ DAS RUAS luneta 1 hip hop O B.Boy Igor, da equipe Street Son, faz um “Top Rock” no evento Master Crews: momento de estrelato Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:56 PM60
  • 61. 61 A juventude tem muitas vozes e quer que elas sejam ouvidas. Uma dessas vozes, cada vez mais articulada, é a do hip hop, um movimento sociocultural com forte sentimento libertário e que reúne várias manifestações artísticas. Criado nos anos 70 por jovens negros e hispânicos dos bairros pobres de Nova York, de lá se espalhou pelo mundo. O termo foi cunhado pelo DJ Afrika Bambaataa, fundador da organização Zulu Nation, e é uma referência ao movimento de quadris dos participantes das festas e dos encontros musi- cais – “hip”, em inglês, quer dizer balançar e “hop”, quadris. No Brasil, ele chegou no fim da década de 80, por obra da indústria fonográfica, e não parou de crescer. Se no início, em solo norte-americano, esteve envolvido algumas vezes com episódios de violência, hoje está presente, com as cores locais, em quase todo o país, firmando-se como uma legítima alternativa de expressão, especialmente para os jovens das periferias, privados de ofertas culturais e perspectivas profissionais. “O hip hop é uma cultura de rua que dá voz à juventude que vive em guetos e favelas, à margem da sociedade”, diz Wilson Roberto Levy, vice-coordena- dor da organização não-governamental Zulu Nation Brasil. Sua popularidade se deve ao fato de o hip hop, cujas raízes remontam ao movimento ”black power” (poder negro), ser altamente organizado e estar arraigado nas experiências do dia-a-dia desses jovens. É um movimento de auto-afirma- ção, marcado pela crítica à exclusão social e à desigualdade racial. “Ao entrar para o movimento hip hop, os jovens passam a ver o mundo de forma dife- rente. Para nós, é preciso nos afastarmos das coisas negativas, como dro- gas, crimes e violência. Isso só traz destruição para o nosso povo”, diz Levy, de 52 anos, que também atua na Casa do Hip Hop, mantida pela Prefeitura de Diadema, na Grande São Paulo. A instituição é uma referência nacional e internacional no universo hip hop. Elementos e posses O movimento hip hop, cujas expressões artísticas mais conhecidas são o rap (iniciais de ritmo e poesia, em inglês) e o break (a dança quebrada), se apóia em quatro alicerces, também chamados de elementos: o DJ, que traz a música para dançar; o B.Boy (ou dançarino); o MC, mestre de cerimônia, que dialoga com os que dançam; e o grafiteiro, que expressa a ideologia do hip hop por meio das artes plásticas. “Esses quatro elementos apontam para a mesma direção. O hip hop quer que o jovem marginalizado tenha consciência da sua situação e busque a libertação dessa opressão”, diz a ativista e rapper Áurea DejaVu, de 21 anos, integrante do Coletivo Hip Hop Chama, de Belo Horizonte. Os grupos do hip hop, também conhecidos como pos- ses,nãoparamdecrescer.Algunsdelessãotãoorganiza- dos que até já viraram ONGs, como a própria Zulu, o Movi- mento Hip Hop Organizado do Brasil, conhecido pela sigla MH2O,eaCentralÚnicadasFavelas(Cufa),entidadesque trabalham em prol da valorização dessa cultura. Com sua capacidadedegeraridentificaçãoesensibilizarseusadep- tos, essa cultura é também uma importante ferramenta de arte e educação. A Casa do Hip Hop, por exemplo, trabalha unindo cul- tura e cidadania. Inaugurada em julho de 1999, a insti- tuição atende mensalmente cerca de 400 jovens, que buscam formação cultural e querem conhecer a fundo a cultura hip hop. Para isso, são promovidas oficinas de três a seis meses de duração, que usam a difusão da linguagem dos quatro elementos. Além do viés cultural, as oficinas estimulam a descoberta de valores como a cidadania. Como diz o dançarino de break Marcelinho Back Spin, professor da instituição, “o hip hop faz senti- do somente se ele consegue agregar outras coisas im- portantes, como a noção de respeito, cidadania, refle- xão e educação”. No Rio de Janeiro, uma das instituições mais ativas no universo hip hop é a Central Única de Favelas (Cufa), uma ONG que procura difundir, por meio da linguagem pró- pria desta cultura, a conscientização dos moradores das comunidades carentes, elevando sua auto-estima. Pre- sente em diversos morros e favelas cariocas (Acari, Ja- caré e Cidade de Deus, entre outras), a Cufa promove atividades nas áreas da educação, cidadania e desen- volvimento humano. Seus cursos capacitam os jovens para atuar como DJs, grafiteiros, operadores de áudio, cantores e dançarinos. NASCIDA NOS ESTADOS UNIDOS, A CULTURA HIP HOP GANHOU TONS LOCAIS E VEM SE TORNANDO UM DOS PRINCIPAIS MEIOS DE EXPRESSÃO DA JUVENTUDE BRASILEIRA por_Yuri Vasconcelos foto_Penna Prearo Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:56 PM61
  • 62. Em parceria com a Produtora Hutúz, a Cufa promove anualmente um impor- tante encontro dos vários segmentos da cultura hip hop. O Festival Hutúz, como échamado,éumagrandefestaqueabrangediversasformasdeexpressãoartís- tica do movimento e outros elementos, como o basquete de rua e a batalha musicaldeDJs.Criadoem2000,oHutúzincluifestivalderap,mostradecinema, debates e desfile de moda, e condecora os melhores artistas de hip hop do país em diversas categorias, desde Álbum do Ano até Destaque na Área Social. Neste ano, o Hutúz está marcado para o fim de novembro, no Rio de Janeiro. Cultura empreendedora Além de ser uma forma de expressão artística socialmente engajada, a cultura hip hop tem outras facetas. Ela também pode servir de apoio ao empreendedorismo e à geração de emprego e renda, ou como prefere dizer o rapper cearense Poeta Urbano, do MH2O do Brasil, “ser um instrumento de geração de oportunidades de sobrevivência”. A organização, um dos maiores grupos de hip hop do Brasil, com sede no Ceará e 6 mil membros em todo o país, criou o projeto Mercado Alternativo, que tem como finalidade gerar ren- da para os integrantes do movimento. PARA SEUS ADMIRADORES, A ARTE PRODUZIDA NO HIP HOP TEM UM SENTIDO SOCIAL E UM PODER TRANSFORMADOR MOVIMENTO H2O DO BRASIL ÁREA DE ATUAÇÃO CEARÁ, BAHIA, RIO GRANDE DO NORTE, PARANÁ, DISTRITO FEDERAL, SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO PROPOSTA Utilizar os elementos do hip hop para gerar inclusão socioeconômica de jovens e pressionar o Estado para criar políticas públicas de apoio a esse público NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 1.200 APOIO MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, MINISTÉRIO DA CULTURA E ASHOKA EMPREENDEDORES SOCIAIS CONTATO Avenida B, 740, 2ª. Etapa, Conjunto Ceará – Fortaleza (CE) – Tel.: 85/3489-3410 – mh2odobrasil@terra.com.br PARASABERMAIS SOBRE CASA DO HIP HOP DE DIADEMA ÁREA DE ATUAÇÃO DIADEMA (SP). PROPOSTA Promover formação cultural e de conhecimento da cultura hip hop e despertar na juventude valores como cidadania, respeito e auto-estima NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 400 por mês APOIO PREFEITURA MUNICIPAL DE DIADEMA CONTATO Rua 24 de Maio, 38 – Jardim Canhema – Diadema (SP) – Tel.: 11/4075-3792 PARASABERMAIS SOBRE CENTRAL ÚNICA DAS FAVELAS (CUFA) ÁREA DE ATUAÇÃO RIO DE JANEIRO. PROPOSTA Elevar a auto-estima e conscientizar moradores de comunidades carentes por meio de atividades que usam como forma de expressão o hip hop NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 800 APOIO UNESCO, GOVERNO FEDERAL, PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, REDE GLOBO, INSTITUTO LUCIANO HUCK, PETROBRAS, ELETROBRÁS, CONSULADO AMERICANO, CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL, MTV, FUNDAÇÃO FORD, RITS E MINISTÉRIO DOS ESPORTES CONTATO Rua Carvalho de Sousa, 137, Bloco 4, sala 111 – Madureira – Rio de Janeiro (RJ) – tels.: 21/2458-8035 e 21/3015-7113 – e-mail: flaviacaetano.madureira.rio@cufa.org.br PARASABERMAIS SOBREAo lado, as garotas do B.Girls, no Brasileiro Individual de B.Girls, em Sorocaba e o MC Gallo, de A Trupe, em encontro de MC‘S na Casa do Hip Hop de Diadema (SP): uma cultura com o poder de agregar os jovens Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:56 PM62
  • 63. 63 Com apoio do Programa Primeiro Emprego, do Ministério do Trabalho, o MH2O lançou uma incubadora nacional de empresas de hip hop em três es- tados (São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná) e no Distrito Federal. “Aprendemos na prática uma lição perversa: num país capitalista como o nosso, é impossí- vel falar de inclusão social sem falar de inclusão econômica”, diz Poeta, que tem 28 anos. “Por isso, decidimos criar o Mercado Alternativo, um projeto cujo modelo econômico inclui a propriedade coletiva, a auto-gestão e a fabri- cação de produtos socialmente responsáveis.” Em cada uma das regiões escolhidas, o MH2O está incubando seis empre- sas: uma produtora de vídeo, um estúdio de gravação e distribuidora fonográfica, um centro de produção e estilo, com três ateliês integrados (serigrafia, aerografia e grafite, ateliê de bijuteria e adereço e de design à base de grafite), uma produtora de eventos, uma empresa de confecção e uma loja padronizada para escoar a produção. “Em breve, as 24 empresas, de propriedade coletiva, serão unidas em rede. Estamos confiantes no proje- to, mas ainda temos muitas dificuldades para lidar com questões econômi- cas, técnicas e de gestão”, diz o rapper cearense. Abaixo, o DJ King, no encontro Hip Hop de Rua, no bairro de Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo: a arte cria canais de comunicação entre a periferia e o centro É por tudo isso que, para a rapper mineira Áurea DeJavu, “a arte produzida no hip hop tem um sentido social e um poder transformador. Ela dá uma nova pers- pectiva aos jovens que vivem em condições marginali- zadas”. Para o cearense, trata-se da melhor expressão cultural da juventude nos últimos anos. “É um marco histórico na cultura mundial”, diz o Poeta Urbano. Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:56 PM63
  • 64. luneta 2 artesanato FEITO À MÃO Porrão de Irará (BA) e, na página oposta, pote de Água Branca (AL): a valorização do artesanato requer educação do consumidor FOTOS:MARCELOGUARNIERI/ARTESANATOSOLIDÁRIO Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:56 PM64
  • 65. 65 Convidada a escrever sobre essa conexão tão inspiradora e sempre discu- tida, que é a da arte, cultura e cidadania, considerei apropriado e atual incitar a reflexão, não sobre arte num sentido geral, mas sobre artesanato e sua possibilidade de fomentar toda a riqueza de identidades culturais Brasil afo- ra e seu potencial como gerador de renda para artesãos pobres do país. A experiência do Artesanato Solidário – programa social criado em 1998 no âmbito da Comunidade Solidária e desde 2002 uma organização da socieda- de civil, sempre com o objetivo de geração de trabalho e renda por meio da revitalização do artesanato de tradição – leva-nos a discutir cotidianamente, nas esferas interna e pública, a necessidade de co-relacionar artesanato, desenvolvimento local e cultura. Não é de hoje a constatação de que a produção do artesanato de tradição é indissociável de seu contexto cultural, tampouco é assunto para círculos restritos ou especializados. A idéia do artesanato como bem cultural pode desencadear a reflexão sobre o papel da cultura nas esferas econômica e política, por exemplo. Pensando assim, podemos destacar três aspectos da relação entre arte- sanato e cultura: Cultura como modo de vida Este primeiro aspecto tem forte conteúdo antropológico: o artesanato de tradição faz parte do modo de vida das pessoas que o produzem, e se orga- niza a partir de relações de gênero, com base em valores e conhecimentos sobre a manutenção da vida, de regras que norteiam comportamentos na esfera pública e privada etc. Ele se orienta por padrões estéticos próprios e é transmitido espontaneamente, de geração a geração. A existência desse artesanato – em suas diversas técnicas e matérias-primas – e o seu reconhecimento como expressão da cultura são o ponto de partida de projetosvoltadosparaoresgatedasformastradicionaisdesuaexpressãoepara a sua revitalização como um patrimônio comum daquela comunidade. Pararesgatarerevitalizardeformacompartilhadaosaber-fazerartesanal,pro- movem-sealgunsdiálogos,outrocas.Duassãofundamentais:aprimeiraéaque serealizaentreosprópriosartesãos,pormeiodeumasérieplanejadadeoficinas com o objetivo de incentivar a transmissão do saber-fazer dos mestres aos mais jovens; desenvolver a organização do trabalho; estimular a formação de associa- ções ou cooperativas; e incentivar formas de liderança e de gestão associativa. A segunda troca acontece entre os artesãos e seus produtos, por meio de oficinas de aprimoramento do produto e de formação de preço. A IDÉIA DO ARTESANATO COMO BEM CULTURAL PODE DESENCADEAR A REFLEXÃO SOBRE O PAPEL DA CULTURA TAMBÉM NAS ESFERAS ECONÔMICA E POLÍTICA texto _ Ruth Cardoso Ruth Cardoso é doutora em Antropologia, professora da Universidade de São Paulo, fundadora e presidente da organização não-governamental Comunitas, que coordena programas como Alfabetização Solidária, Capacitação Solidária e Artesanato Solidário Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:56 PM65
  • 66. É claro que não se defende, em nome da manuten- ção das tradições, a preservação de condições de vida injustas.Trabalha-se,istosim,paraqueosartesãosme- lhorem suas vidas, superem suas carências materiais, aumentem suas rendas com a venda de produtos. Ações que promovem o desenvolvimento da auto- estima dos artesãos e que fortalecem seus sentimen- tos de pertença a um grupo ou a uma comunidade cer- tamente estão alinhadas com a tão desgastada, mas nem sempre entendida, relação entre artesanato e identidade cultural. Cultura para consumo O segundo aspecto a se considerar refere-se à rela- ção do artesanato com o mercado consumidor. Como o objetivo é gerar trabalho e renda, é funda- mental que os produtos de artesanato cheguem ao mercado – e com qualidade e preços que garantam a sustentabilidade do negócio. Mas para chegar lá o produto não pode perder sua história, aquilo que o torna distinto, único. Na relação do artesanato e cultura para consumo, é fundamental sensibilizar o mercado para os produtos culturais. Comumente se diz que o artesanato deve-se adequar ao mercado (e pergunto: que mercado? Quais mercados?).Nãoseriaocasopensarquaseinversamen- te, ou seja, adequar o mercado ao artesanato? Assim, torna-se possível ampliar os usos do produto do artesanato, que variam em razão de sua trajetória como mercadoria nos diferentes segmentos consumi- dores da sociedade. Um pote feito originalmente para armazenar água na cozinha conquista o hall de entra- da, a sala de estar ou a biblioteca da família, agora como objeto decorativo. Acredito que quando falamos de expansão do mer- cado, cultura e consumo, temos que vislumbrar a pos- sibilidade de um pote vir a ocupar o lugar de destaque nas prateleiras das lojas ou o canto em nossa casa que mais o ressaltar. Orgulho de nossas raízes, de nossos artesãos, de nossa brasilidade. Cultura como recurso Terceiro aspecto: cultura como recurso, isto é, o ar- tesanato de tradição como patrimônio da coletividade, para afirmação e construção de identidade. Trata-se de uma idéia que vem sendo aplicada (e muito disseminada) para a melhoria social e econômi- ca, ou seja, para que a cultura aumente sua participa- ção em nossa era de envolvimento político decadente e de conflitos na esfera da cidadania. Vários pensado- res da cultura hoje (Young, Rifkin, Iúdice) vêm chaman- do atenção para isso. Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:57 PM66
  • 67. 67 O ESTÍMULO À AUTO-ESTIMA DOS ARTESÃOS E SUA COMUNIDADE ESTÁ ALINHADO COM A TÃO DESGASTADA, MAS NEM SEMPRE ENTENDIDA, RELAÇÃO ENTRE ARTESANATO E IDENTIDADE CULTURAL Por sua vez, agências multilaterais como o Banco Mundial, União Européia, Banco Interamericano de Desenvolvimento, também têm incluído a cultura como catalisadora do desenvolvimento humano. Como transformar esse patrimônio – conceito que vem se alargando, se expandindo, desde Mário de Andrade, passando por Aloísio Magalhães – em desenvolvimento social? Como traduzir, se estivermos de acordo, essas orien- taçõesgeraisparanossosprojetoslocaisdedesenvolvimento,cujopontodepar- tida é o artesanato de tradição? Ao promover e estimular trocas ou diálogos entre os artesãos, o que se busca oferecer são condições para que o artesanato, expressão da cultura da comunidade, se torne um ativo para o fortalecimento da identidade do grupo e para o surgimento de novos atores coletivos, de novas formas de participação. Só precisamos torná-lo menos árduo e menos excludente para os artesãos brasileiros. Por fim, a confirmação de que estamos no caminho certo, nas palavras passadas, presentes e futuras de Aloísio Magalhães: “A política paternalista de dizer que o artesanato deve permanecer como tal é uma política errada; culturalmente é impositiva porque somos nós, de um nível cultural, que apre- ciamos aquele objeto pelas suas características, gostaríamos que ele ficasse ali. Então, é uma coisa insuportável, errada e de certo modo totalitária, você impor a uma coletividade, a um grupo, que permaneça naquele ponto. O re- médio, a coisa que se oferece, é a idéia de que ele repita mais. Que passe a ter mais benefício através da repetição reiterada e monótona daquele mo- mento da trajetória. E isso é inadequado porque você corta o fio da trajetória, o fio da invenção, da evolução da invenção, para que ele permaneça parado no tempo. O caminho, a meu ver, não é esse; o caminho é identificar isso, ver o nível de complexidade em que está, qual é o desenho do próximo passo e dar o estímulo para que ele dê esse passo”. Acima, maracas e cuias decoradas de Santarém (PA), e baú de couro de Juazeiro do Norte (CE); na página oposta, troncos coloridos de Juazeiro do Norte: artesanato de tradição é patrimônio da coletividade Onda Jovem 46-67 (nº3) 10/20/05, 8:57 PM67
  • 68. por_Daniela Rocha ilustração_Grupo Dragão da Gravura .gov/.com.gov/.com O PODER DE MULTIPLICAR Colagem de obras dos quatro integrantes do Grupo Dragão da Gravura Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:57 PM68
  • 69. 69 A TENDÊNCIA DAS POLÍTICAS CULTURAIS PARA A JUVENTUDE É As políticas culturais voltadas para a juventude es- tão mudando seu foco. Em vez de buscar estimular um artista ou a realização de uma obra, elas estão priorizando o número de pessoas envolvidas, numa perspectiva coletiva, e buscando resultados amplos junto às parcelas da sociedade com pouco acesso a bens culturais. Há uma crescente percepção das ativi- dades do setor como estratégicas em relação à juven- tude , tanto por seu apelo mobilizador como pelo seu potencial econômico. Mas, segundo especialistas, ain- da há um longo caminho a percorrer em relação à qua- lificação e profissionalização na área. No âmbito do governo federal, o atual carro-chefe no setoréoprogramaCulturaViva,lançadopeloMinistérioda Cultura (MinC) no ano passado. A idéia é fortalecer ações culturais já existentes em comunidades populares, quilombolas e indígenas, que visem a promoção da inclu- são social e cidadania, da formação para o trabalho e do princípio da economia solidária. “A cultura passa a ser um elemento agregador, em conjunto com a assistência so- cial e a educação. A profissionalização dessas ações gera inclusãopormeiodacultura”,dizoassessordasecretaria executiva do MinC, Alfredo Manevy, de 28 anos. Ele é o representante do ministério junto ao Conse- lho Nacional de Juventude, formado em agosto deste ano.“Ajuventudeéumsegmentoestratégico,quetem duasdimensões:aderisco,queexigeaçõesparaevitar que jovens se envolvam com o tráfico de drogas, por exemplo; e a de ação, que busca construir políticas em que a juventude seja protagonista em sua capacidade de reciclagem de valores”, diz. O Conselho, no entanto, aindaestáelaborandoumapolíticaparaajuventudeem todos os setores, inclusive o cultural. Mas a tendência, segundoManevy,émanteralinhadofortalecimentode ações preexistentes. “A cultura precisa ser entendida comofundamentalagentededesenvolvimento,comim- pacto direto e indireto na economia do país, sobretudo se pensarmos nas possibilidades que ela abre na gera- ção de emprego para os jovens”, diz. SegundoCélioTurino,secretáriodeProgramasePro- jetos Culturais do Ministério da Cultura, o Cultura Viva – que neste ano recebe R$ 31 milhões – tem como obje- tivo de fundo restabelecer o vínculo do jovem com a comunidade e sedimentar uma rede de Pontos de Cul- tura, locais onde são desenvolvidos diversos projetos e INVESTIR NAS INICIATIVAS COMUNITÁRIAS, VINCULADAS À GERAÇÃO DE RENDA E À INCLUSÃO DIGITAL Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:58 PM69
  • 70. que já somam 250 em todo o país. Um desses projetos é o Agente Cultu- ra Viva, convênio com o Ministério do Trabalho e Emprego que fornece 50 bolsas de 150,00 reais mensais durante seis meses para capacitação de jovens em áreas como grafite, hip hop, desenho animado etc. Outra inici- ativa é a Cultura Digital, convênio com o Ministério das Comunicações que viabiliza a conexão à internet nos Pontos e a distribuição de um kit multimídia, com dois computadores, câmera de vídeo, ilha de edição e estúdio básico, para produções audiovisuais. Para participar do programa, as instituições, com no mínimo dois anos de atuação, se candidatam junto ao ministério. Um exemplo de Ponto de Cultura é o Centro de Referência Hip Hop, na periferia de Teresina (PI), onde os jovens ganharam computadores do Banco do Brasil, que esta- vam ociosos, e montaram três telecentros em uma escola abandonada. O espaço é aberto à comunidade, com oficinas de hip hop, música, serigrafiaegrafite.Maisde30jovens,entre16e28anos,são“oficineiros”, e uma cooperativa presta serviços de serigrafia e grafite. “Temos biblio- teca,saladeleituraefazemosreforçoescolarparacrianças,comoficinas para contar histórias”, diz Gil BV, 25 anos, gestor do projeto. Abrindo portões Outro exemplo de política cultural multiplicadora é o do Centro de Cultura da Universidade Federal de Minas Gerais. Muito antes de ser um A PERCEPÇÃO DE QUE O SETOR CULTURAL É ESTRATÉGICO NAS POLÍTICAS Ponto de Cultura, o espaço de participação social na área de cultura já existia e foi uma ação inédita a abertura dos portões da universidade para a comunidade. Criado há 15 anos como centro de exposições, hoje é um pólo gerador, com uma série de projetos em parceria com prefei- turas, governo federal e entidades da sociedade civil. O objetivo é atuar na democratização do conhecimento, na ampliação do acesso aos meios de produção cultural e na formação de um público produtor e multiplicador de cultura. A ação levou para dentro do campus grupos culturais da Grande Belo Horizonte, e lançou-se para fora, capa- citando professores da rede pública urbana e de aldeias indígenas. Criou- se um Centro de Convergência de Novas Mídias, que coordena a Rede.Lê – Rede de Inclusão e Letramento Digital, com 18 telecentros no estado. “Trata-se de uma experiência de produção conjunta, com professo- res da UFMG na coordenação de trabalhos que reúnem estudantes de graduação e pós-graduação e alunos do ensino médio e professores de escolas da periferia”, diz a diretora do Centro, a historiadora Regina He- lena Alves da Silva. Ali, são realizados encontros para fomentar a gera- ção de políticas públicas para a juventude, incluindo questões como o trabalho e a geração de renda, e a ação dos agentes culturais em seus bairros. “O papel da universidade é gerar conhecimento. O Centro Cultu- ral concentra um grande grupo multidisciplinar que abre espaço para a produção coletiva de professores e alunos e para a pesquisa, por exem- Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:58 PM70
  • 71. 71 plo, para entender redes sociais e culturais urbanas”, diz a diretora. A instituição atinge todos os públicos, mas a professora Regina Helena estima que cerca de 25 mil jovens estejam envolvidos nas atividades do centro. Cultura e gestão O analista da Célula de Negócios em Turismo, Artesanato e Cultura do Sebrae de São Paulo, Arlindo de Lima Júnior, concorda que a área cultural pode ser estratégica como campo de ação de um público jo- vem, mas lembra que, do ponto de vista do mercado, o pré-requisito para o sucesso é ter qualificação. Para isso é preciso uma postura de empreendedor. No entanto, a idéia da cultura como negócio ainda não está sedimentada no Brasil. “O conceito de cultura como gerado- ra de emprego e renda não é abordado com seriedade e como priori- dade nem pelo governo, nem por empresários que poderiam se tor- nar parceiros e patrocinadores e se beneficiar da cultura e ações cul- turais como valor agregado a sua empresa ou produto”, diz o analista. O Sebrae propõe o empreendedorismo cultural, um modelo próprio de gestão e de organização no setor, que inclui, por exemplo, o traba- lho em parcerias estratégicas em vez de ações isoladas. Mesmo as- sim, segundo Lima Júnior, ainda são poucos os que conhecem e valo- rizam essa postura na área cultural. “Uma das maiores dificuldades é levar agentes e produtores culturais a perceber a necessidade de bus- car maior profissionalização.” Para ele, enquanto os profissionais da área não entenderem a necessidade de uma maior capacitação e a importância de se estudar o perfil das possíveis empresas patrocina- doras antes de enviar seus projetos, a obtenção de apoios tende a ser lenta. “Além disso, é preciso se apresentar ao mercado com trabalhos de qualidade e excelência”, diz. Na área de educação, o Sebrae oferece cursos rápidos, como Inves- timento em Cultura (16 horas de duração) e Mercado Cultural (20 ho- ras de duração). Além disso, apóia algumas iniciativas de fomentação cultural, voltadas inclusive ao público juvenil, como a Associação Bra- sileira de Música Independente, a Rede de Agentes Culturais (RAC) e a LIBRE (Associação Brasileira de Editoras). A de maior destaque é a RAC, hoje organizada na Associação Paulista de Empreendedores Cul- turais (APEC). “É um movimento livre, que promove assembléias men- sais, com objetivo de fortalecer as redes de contato que possam au- xiliar os agentes a viabilizar seus projetos.” Os agentes cadastrados são 2.400. A intenção é reunir uma gama de profissionais que já es- tão no mercado, que estão entrando ou que querem ampliar contatos para trocar experiências e gerar oportunidades, explica Lima Júnior. “Essa é nossa estratégia: ações coletivas com foco no desenvolvi- mento de projetos.” PÚBLICAS JUVENIS ESTÁ CRESCENDO, MAS AINDA HÁ MUITO QUE AVANÇAR Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:58 PM71
  • 72. GYANCARLOBRAGA A ARTE ANA LUCIA DA SILVA CAMPOS, 16 Estudante da 8ª série, curte hip hop e faz artes circenses em Goiânia (GO) THALLES DE AGUIAR, 20 Carioca, estuda Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro e é baterista DAYANA SILVA GOMES, 20 É atriz, formada pela Escola de Artes Cênicas do Maranhão FAGNER MONTEIRO, 18 Paulista de Ribeirão Pires, é ator e músico dedicado ao resgate da cultura popular chat de revista QUATRO JOVENS CONVERSAM SOBRE OS REFLEXOS DAS MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS EM SUAS VIDAS NOSSA DE CADA DIA Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:58 PM72
  • 73. 73 FRANCISCOCAMPOS Ocontatocomaarteeasmanifestaçõesculturaispode selimitaraoentretenimentoelazerouiralém:servircomo instrumento de expressão social e construção da identi- dade, ajudar a promover inclusão social, denunciar uma realidade, resgatar uma tradição, sensibilizar para um aprendizado, e pode até se transformar em profissão. Nasaladebate-papodeOndaJovem,nestaedição,qua- tro jovens trocaram idéias sobre essas questões: RaimundoFagnerMonteiroMartins,18anos,paulistade RibeirãoPires,atoremúsicodedicadoaoresgatedacul- tura popular e participante da Arca, uma associação de artistas; Ana Lucia da Silva Campos, 16 anos, de Goiânia (GO),estudanteda8ª série,apreciadoradehiphopeen- tusiasta das artes circenses como participante do proje- to Arte, Circo e Cidadania na Escola de Circo Lahetô; DayanaRobertaSilvaGomes,deSãoLuiz,recém-forma- da na Escola de Artes Cênicas do Maranhão e integrante da Rede Sou de Atitude, o núcleo jovem da ONG Agência de Notícias da Infância Matraca; e o carioca Thalles Car- valho Giangiarulo Rocha de Aguiar, 20 anos, que cursa FísicanaUniversidadedoEstadodoRiodeJaneiro(UERJ), estuda alemão, pratica aikido (uma arte marcial), toca bateria e gosta de todo tipo de música, menos pagode. Onda Jovem propôs as perguntas iniciais e depois os jo- vens fizeram as suas. A seguir, nosso “chat de revista”. PAULOGONÇALVESDASILVA ANDERSONDEOLIVEIRADASILVA/IMAGEMDOPOVO Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:58 PM73
  • 74. “A arte amplia a minha visão de mundo” ANA LÚCIA CAMPOS Onda Jovem: O que é arte para você? THALLES: Acho que arte é uma forma de trans- mitir a outras pessoas o que sentimos e como ve- mosarealidadeemquevivemos.Alémdisso,aarte pode ser um meio de inclusão social e também de extravasar sentimentos represados. FAGNER: Arte é botar para fora aquilo que senti- mos por meio de for- mas, movimentos e sons. DAIANA: É a arte de transformar pequenas coisas em grandes for- mas de expressão. Acho que essa arte de fazer a arte vai além dos limites humanos. ANA LUCIA: Para mim, arte é aquilo que dá liberdade ao ser huma- no de ir além do pensamento. A arte tem a capa- cidade de oferecer lazer e interação e dessa for- ma envolver todas as classes sociais. Qual é o contato que você tem com a arte no seu dia-a-dia e como ela afeta sua vida? DAIANA: Participo constante- mente de seminários e oficinas de várias manifestações culturais. Façodançacontemporâneaeado- roestarnumpalco.Tambémgosto deleredevercomédias,suspenses e dramas no cinema. Esses conta- toscomaartemeajudamadesen- volverhabilidades,demonstrarsen- timentos,usarminhacriatividadee ter sempre um novo olhar para as situações do dia-a-dia. THALLES: Eu tenho contato diretamente com a música. Toco bateria e meu irmão é baixista. Já toquei em várias bandas. Essa relação com a mú- sica foi a responsável por muitas amizades. Além disso,desdepequenoeugostomuitodedesenhar, a ponto de ter chegado a pensar em fazer disso uma profissão. FAGNER:Meucontatocomaarteépormeiodocinema,doteatro,damúsicaeda dança, mas tenho um interesse mais aprofundado no resgate da cultura popular. Nessa área, desenvolvo um trabalho de pesquisa com um grupo chamado Toadas a Trovadas. ANALUCIA:Anteseutinhacontatoapenascomhiphop,QuadrilhaeFoliadeReis, mas agora estou ganhando conhecimentos em artes circenses e também participo de um espetáculo chamado “Nascimento do Mundo”. Tudo isso amplia minha visão de mundo, um modo diferente de ver e avaliar situações. DAIANA THALLES ANA LUCIA Sem arte, como seria o mundo para você? THALLES: Acho que seria um tanto quanto chato. A arte é a minha principal fonte de entretenimento, com o cinema, teatro, exposições, shows e muito mais. E, como já disse, fiz grandes amigos por meio da música. FAGNER:Aartefaztodaadiferençanaminhavida.Aartenosfazveromundode outra forma. Sem a arte, meu mundo seria uma coisa mecânica. DAIANA: Eu acho que o mundo seria muito chato, a expressão seria a mesma para todos. ANA LUCIA: Sem a arte eu não teria oportunidade de conhecer pessoas, lugares, ter experiências e situações de criação e participação na vida da minha cidade. Vejo que as meninas da minha idade que não viveram as experiências com arte que eu vivi não ampliaram seu mundo, muitas ficam só trabalhando de empregada doméstica ou babá. Como você vê a situação das manifestações culturais no Brasil, tanto para quem se envolve como artista quanto para quem só aprecia, como espectador? FAGNER: Há uma valorização um pouco maior da arte, principalmente da cultura popular, mais ainda é pouco. Alguns artistas se fecham, se dirigem a um público que já possui uma vivência com arte, quando o interessante seria que eles levassem seu trabalho às pessoas que não têm acesso a essa arte. ANA LUCIA: As manifestações artísticas brasileiras são muito importantes para a formação da identidade cultural dos jovens e por isso precisam ser mais valoriza- Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:58 PM74
  • 75. 75 ARCA ÁREA DE ATUAÇÃO GRANDE ABC/SÃO PAULO PROPOSTA Facilitar a inclusão no mercado trabalho NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 75 jovens APOIO AGÊNCIA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DO GRANDE ABC, PRIMEIRO EMPREGO, MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO CONTATO Rua Gotardo Botacin, 383, C 4 – Estância Noblesse – Ribeirão Pires (SP) – Tel.: 11/4823-2748 – arcarte@bol.com.br PARASABERMAIS SOBRE REDE SOU DE ATITUDE-MATRACA ÁREA DE ATUAÇÃO SÃO LUÍS (MA) PROPOSTA Monitorar políticas públicas do governo federal e mobilizar a mídia para ter uma nova perspectiva de crianças, adolescentes e jovens NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS Não há um número específico. A demanda é grande, abrangendo palestras e oficinas em escolas APOIO COORDENADORIA ECUMÊNICA DE SERVIÇOS (CESE) CONTATO jovens@matraca.org.br PARASABERMAIS SOBRE CIRCO LAHETÔ (ESCOLA DE CIRCO DE GOIÂNIA)/PROJETO ARTE, CIRCO E CIDADANIA ÁREA DE ATUAÇÃO ZONA LESTE DA CIDADE DE GOIÂNIA (GO) PROPOSTA Atuar com crianças e adolescentes em situação de risco, utilizando a arte circense como principal ferramenta pedagógica, para formar e informar, visando a formação humana e a capacitação de novos artistas NÚMERO DE JOVENS ATENDIDOS 120 crianças e adolescentes APOIO SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE GOIÂNIA (LEI DE INCENTIVO À CULTURA MUNICIPAL), FACULDADE CAMBURY, FUMDEC – FUNDO MUNICIPAL DE DESENVOLVIMENTO COMUNITÁRIO, FUNDAÇÃO PRÓ-CERRADO, CMS – SCITECH CONTATO Rua 72, esquina com Av H – Parque da Criança – Jardim Goiás – Goiânia (GO) – Tel.: 62/3281-3301 – circolaheto@yahoo.com.br PARASABERMAIS SOBRE das.Elassãocadavezmaisraras,pelomenosaquiemGoiânia. A gente quase não vê bonequeiros, repentistas e teatro de rua. Tem muita gente, também, que não considera a arte uma profissão e não topa pagar o valor que ela merece. As pessoas pedem muitas apresentações gratuitas. THALLES: A arte em geral é pouco incentivada e difundida. Quem perde é o povo, que deixa de adquirir cultura, e o artista, que não tem condições de crescer no seu trabalho. Por isso, que medidas vocês acham que o governo pode tomar para in- centivar a arte? DAIANA: Primeiro, acho que nós, jovens, temos de mostrar oquequeremos,paraogovernoelaborareexecutarprogramas que atendam às expectativas da juventude. Esse processo po- deria ser feito por meio de discussões de grupo, laboratórios, oficinas,pesquisas,apoioaprojetosexperimentais.Alémdisso, o governo precisa intensificar e estimular a arte na escola, para possibilitar a expressão e a descoberta de novos talentos, fo- mentando o protagonismo infanto-juvenil nas artes. ANALUCIA:Ogovernodeveriaaprovarleisdeapoioaosgru- pos que fazem cultura e criar políticas de incentivo à arte que permitam o acesso das pessoas de baixa renda. FAGNER: É preciso que o governo incentive programas de arte-educação e de resgate cultural, além de oferecer estímu- los às empresas para que patrocinem projetos artísticos. Outra responsabilidadedopoderpúblicoéfazercomqueaverbades- tinada à cultura seja bem aplicada, beneficiando a arte e não alguns poucos artistas. Porque a arte, eu acredito, é um meio de fazer inclusão social. Vocês concordam? THALLES: Para mim, a arte é uma das melhores formas de inclusão social, e trabalhos com essa finalidade deveriam ser mais incentivados. ANALUCIA:Achoquequantomaisumasociedadetemcon- tato com a arte, mais ela se valoriza e dá valor a suas manifes- tações culturais. A arte promove o desenvolvimento humano e, conseqüentemente, um maior engajamento das pessoas com a vida comunitária. DAIANA:Aartecomoengajamentosocialémuitoimportan- te,poistrabalhatodasasrelaçõespessoaiseinterpessoais,pro- move a cidadania, a eqüidade social, o conhecimento e a dis- cussão da realidade. Por isso é que as diversas manifestações “A arte é um meio de fazer inclusão social” RAIMUNDO FAGNER FAGNER artísticas precisam ser mais valorizadas e principalmente o artista, que ainda é visto com preconceito, como quem não tem nada para fazer. Vocês acham que um artista consegue viver só da arte como profissão? THALLES: É possível viver somente da arte, mas acho que a pessoatemdecontarumpoucocomasortetambém.Otalen- to por si só não é decisivo. ANA LUCIA: Nosso grupo no circo Lahetô vive da arte. Mas se a sociedade valorizasse mais a arte e o artista, não seria preciso “ralar” tanto para manter um grupo. É difícil. Por outro lado, acredito que o artista, assim como qualquer outro profis- sional, tem de conquistar o respeito dos outros. FAGNER: Concordo. Acho que é possível sim o artista viver dasuaarte.Bastaeleacreditarnoquefazecorreratrásdoseu espaço. Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:58 PM75
  • 76. INSTITUTO BACCARELLI: CONCERTOS DA PERIFERIA Um dos cinco melhores espaços de ensino de música no mundo come- ça a ser construído agora em novembro em São Paulo, com conclusão prevista para daqui a um ano. Será um equipamento cultural de 6 mil m2 , com uma sala de concerto com 600 lugares, 12 camarins, 36 salas de estudo individual, 4 salas de estudo em grupo, sala de informática e bibli- oteca, entre outras áreas de convivência. O projeto acústico está sendo desenvolvido pela mesma equipe responsável pela acústica da Sala São Paulo, espaço da Orquestra Sinfônica de São Paulo. Mas a elite cultural que costuma freqüentar a Sala São Paulo, na Estação Júlio Prestes, terá de ir à periferia para usufruir os espetáculos musicais no novo espaço – em Heliópolis, na Zona Sul da capital. A oportunidade sem precedentes de formar músicos e também públi- co para música acontece exatamente nessa comunidade carente, com 120 mil moradores sem acesso a qualquer entretenimento cultural. Em Heliópolis, o Instituto Baccarelli instalará sua nova sede, a escola de mú- sica com capacidade e estrutura para atender 2.500 alunos por ano. “Será a primeira no Brasil a ser pensada e planejada com essa finalidade”, diz Edilson Venturelli, maestro e vice-presidente do Instituto que, desde 1996, promove o desenvolvimento pessoal e social de crianças e adolescentes de famílias de baixa renda por meio de manifestações artísticas. Links 1 O maestro Zubin Mehta rege os jovens músicos do Instituto Baccarelli Com a parceria de empresas privadas (como a Companhia Brasileira de Alumínio, do grupo Vo- torantim, Fundação Volkswagen, Banco Volks- wagen e Petrobras) e com o apoio do Ministério da Cultura, o Instituto Baccarelli realiza os proje- tos Coral da Gente, Encantar na Escola, Orques- tra do Amanhã e Sinfônica Heliópolis, benefici- ando 550 crianças e jovens entre 7 e 21 anos. Eles fazem constantes apresentações em casas culturais de São Paulo. “Costumo dizer aos alu- nos que eles podem pertencer a uma classe eco- nômica desfavorecida, mas hoje pertencem à eli- te cultural do país”, conta Venturelli. Sinfônica Heliópolis regida pelo maestro Silvio Baccarelli FOTOS:DIVULGAÇÃO COM ZUBIN META Os jovens músicos do Instituto Baccarelli também fazem parte agora de um restrito cír- culo de músicos regidos pelo famoso maestro indiano Zubin Mehta, regente da Filarmônica deIsrael.DepassagemporSãoPaulo,emagos- to, Zubin Mehta visitou o Instituto e regeu a SinfônicaHeliópolis.Umjovemnocontrabaixo, mesmo instrumento tocado por Metha, cha- mou a atenção. Era Adriano Costa Chaves, 17 anos, há pouco mais de dois anos no Instituto. Ele foi convidado pelo maestro indiano a estu- dar na Academia da Filarmônica de Israel no próximo ano. “Eu não esperava essa oportuni- dade. Foi uma bênção. Agora estou me prepa- rando para aproveitá-la da melhor forma pos- sível. Comecei a ter aulas de hebraico, vou es- tudar inglês e me aperfeiçoar mais no contrabaixo”, diz Adriano, que está concluindo o ensino médio, numa escola pública, e já se dedica à música 8 horas por dia – esforço que teve uma bela recompensa. Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/24/05, 3:04 PM76
  • 77. 77 CULTURA ATRAI AÇÕES SOCIAIS 3 O número de empresas que investem em programas sociais no Brasil é crescente. A última Pesquisa sobre Ação Social, de 2004, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamen- to, abrange 4 mil empresas com projetos voltados para diversas áreas nas regiões Sudeste e Nordeste. Sabe-se que a maioria desses projetos, como comprova a pesqui- sa, ainda está voltada para atividades de assistência so- cial e alimentação, mas a boa notícia é que, em certos nichos da cidadania empresarial, áreas como cultura e educação têm liderado as preferências dos investimen- O elenco de jovens talentos que colaboram com a produção de Onda Jovem não pára de crescer. Nes- ta edição, juntam-se ao time fotógrafos e ilustrado- res do Rio de Janeiro e de São Paulo. A carioca Deise Lane Lima, de 22 anos, foi a encarregada das fotos do ator Leandro Firmino da Hora, na seção O Sujeito da Frase (pág. 52). Deise começou a fotografar aos 15 anos, depois de um curso no Centro de Ação So- cial da Maré, e hoje faz parte da equipe de fotógra- fos do Viva Favela, portal na internet da ONG Viva Rio. Já o desenhista Jotapê, 19 anos, criou a ilustra- ção da matéria Horizonte Global (pág. 26). Tatuador, ele integra o elenco da galeria Choque Cultural, pio- neira entre os espaços paulistanos dedicados à pro- dução da arte de rua. A REDE SE AMPLIA2 tos sociais. É o que mostra o censo do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), feito em 2004 com 71 associados MOMOMOMOMOMO FOTOS:DIVULGAÇÃO/INSTITUTOARTENAESCOLA que compõem uma rede considerada de referência no investimento social privado. Na lista de suas priorida- des para investir recursos com fins sociais, Cultura e Artes ocupam o segundo lugar, com 54% das preferên- cias, atrás apenas de educação, com 87%. Crianças, ado- lescentes e portadores de necessidades especiais são o público beneficiado por 73% dos projetos em arte e cultura, envolvendo oficinas culturais, produção literá- ria, teatral ou de audiovisual, atividades de dança e mú- sica, além da manutenção de espaços culturais, doação de material, concessão de bolsas e restauração de cons- truções históricas. Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:59 PM77
  • 78. FatoPositivo DE ACESSÓRIO O ensino da arte está começando a colher os frutos de uma mudança de mentalidade: em vez de ser trata- da nas escolas como “momento cultural” ou atividade lúdica para “alívio das tensões”, a arte reincorpora a sua importância como disciplina do conhecimento, ampliadora de consciência e capaz de promover mu- danças no mundo. “Ainda que estes novos ares não tenham chegado ainda àquela melhoria desejada na sala de aula, é possível dizer que o pior estágio da edu- cação artística, aquele da folha mimeografada para colorir, está ficando no passado”, afirma Evelyn Iochpe, com o conhecimento de causa de quem fundou e há 15 anos preside o Instituto Arte na Escola, a maior re- ferência nacional na capacitação e qualificação de pro- fessores de arte da rede pública. De fato, no fim dos anos 80, o ob- jetivo da aula de arte era fazer o es- tudante feliz. Essa arte esvaziada de seu conteúdo foi “um efeito danoso das chamadas décadas da livre ex- pressão”, diz Evelyn, referindo-se ao fenômeno das Escolinhas de Arte dos anos 60 e 70. Para completar o qua- dro, a disciplina nem sequer era obri- gatória no currículo escolar. Mas uma pesquisa, realizada em 1989 pela Fundação Iochpe para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, revelava descontentamento por parte dos professores. Eles que- A ESSENCIAL por_Leusa Araujo Arte-educadora desenvolve atividade com jovem: qualificação DIVULGAÇÃO/INSTITUTOARTENAESCOLA Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:59 PM78
  • 79. 79 INSTITUTO ARTE NA ESCOLA ÁREA DE ATUAÇÃO 24 ESTADOS E DISTRITO FEDERAL PROPOSTA Incentivar e qualificar o ensino da arte do Brasil JOVENS ATENDIDOS O instituto atende a 20 mil professores, cuja ação atinge 4 milhões de alunos das redes públicas, do infantil ao ensino médio AGENTES E EDUCADORES ENVOLVIDOS 230, entre professores, bolsistas, estagiários e voluntários universitários que atuam nos 55 Pólos da Rede Arte na Escola PATROCÍNIO FUNDAÇÃO IOCHPE, BNDES, BR PETROBRAS E BANCO BRADESCO, POR MEIO DA LEI DE INCENTIVO À CULTURA DO MINISTÉRIO DA CULTURA CONTATO Alameda Tietê, 618, Casa 3 – Cerqueira César - São Paulo (SP) – Tel. 11/3060-8388 – www.artenaescola.org.br PARASABERMAIS SOBRE A TRAJETÓRIA DO PROJETO ARTE NA ESCOLA INDICA QUE HÁ UMA NOVA MENTALIDADE NO ENSINO DE ARTE NO PAÍS DESCOBERTAS E SURPRESAS Hoje, os números da Rede Arte na Escola são expressivos: mais de 4 milhões de alunos da rede pública, do ensino infantil, fundamental e médio, são atendidos por 20 mil professores, capacitados pelos 55 pólos universitários. Entre eles, o jovem Richard Maus, bolsista do Pólo da Universidade Federal do Paraná. Violonista, 22 anos, estudante de música na Universida- de, que atua no projeto “Quarteto de Cordas: uma experiência educativa”, em que músicos entram na sala de aula para ministrar conteúdos peculiares aos instrumentos de corda e arco. “É a minha descoberta da música como disciplina didática”, resume Richard, que nunca teve aula de música na escola. Para quem ainda tem dúvidas sobre a importância desse aprendizado, o resultado de um longo trabalho de 20 anos, realizado pelo sociólogo da educação Aaron Benavot em 63 paí- ses, mostrou, para surpresa dos próprios pesquisadores, que é o bom ensino das artes e das ciências que resulta na obtenção de índices econômicos maiores para os países em desen- volvimento – e não o ensino da matemática e da língua, como se buscava comprovar. Mas a fundadora do Arte na Escola não se surpreendeu. “Nós já sabíamos que o ensino da arte melhora a cognição de forma geral e que não se trata de perfumaria para ricos, como muitas vezes foi tratado”. riam mais acesso ao conhecimento sobre história da arte e concordavam que era preciso partir da obra de arte para realizar o seu trabalho educacional em sala de aula. Capacitar esses professores, numa aliança com as universidades públicas, tornou-se um desafio. O projeto Arte na Escola surgiu, então, como o articulador de uma rede de educação continuada entre as universidades – o lugar certo para produzir o repertório cultural necessá- rio para que novas metodologias de ensino, como a abordagem triangular de Ana Mae Barbosa (ver, contextualizar e fazer arte), fossem aplicadas, principalmente nas artes visuais. O passo seguinte foi a criação e a avaliação de materiais didáticos que falassem a língua do professor: milhares de vídeos, kits educacionais com reprodução de obras pertencentes aos museus brasileiros, CDs, DVDs e outros materiais de apoio à visitação de museus, salões e bienais foram desenvolvidos. “Tudo para iluminar a construção da obra de arte”, explica Evelyn, para quem somente a imagem de segunda mão na sala de aula não basta: “É preciso o contato com a arte dos museus e galerias, no seu original”. Avesso Quase uma década depois de se tornar obrigatório no país, o ensino de arte ainda não chegou à metade das escolas. A obrigatoriedade foi uma conquista garantida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de dezembro de 1996. Mas, na prática, isto ainda não acontece plenamente. “A estimativa do próprio Ministério da Educação é de que 50% das escolas estejam sem o curso regular de arte por falta de professores”, diz Evelyn Iochpe. Para reverter esse quadro, o MEC precisa formar novos docentes - por meio de consórcios com as universidades e de cursos à distância - até 2007. A meta, entretanto, não deverá se cumprir nesse espaço de tempo. “Não há vagas suficientes nas universidades e nem formas de custeio que dêem conta de todos os professores leigos que precisam ser capacitados,” avalia Evelyn. Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:59 PM79
  • 80. Cartas DIVERSAS JUVENTUDES Nós, que lidamos diretamente comopúblicojovem,necessitamos de fato de um canal, como Onda Jovem, capaz de mostrar as várias caras da juventude. Parabéns pela iniciativa e que o empreendimento de vocês seja um sucesso. Benedito Maria, São Luís, MA Ajuventudeestáprecisandoexa- tamente disso, de uma publicação séria e enriquecedora como Onda Jovem. Ida Virgínia Comarin, por e-mail Onda Jovem é um espaço não só para jovens de baixa renda e sem instrução divulgarem suas idéias, sua indigna- ção e suas aspirações por uma vida melhor, mas também para jovens como eu, lutadores, com nível superior, mas que aindanãoconseguiramumaposiçãodignanestemundo.Criei umaassociaçãoambientalistachamadaAUPEC-VP,Associa- ção dos Amigos e Usuários do Parque Ecológico de Vila Pru- dente,eparticipodaAPREV,AssociaçãodeProfissionaisRes- gatando Vidas, dando cursos de inglês. Além disso, escrevo crônicas e faço artesanato em papel reciclado. Kleber Pedroso, São Paulo, SP Parabéns pelo excelente trabalho. A publicação aborda as temáticas voltadas para a juventude de uma forma ex- traordinária, interativa e principalmente atrativa. Ionara Silva, por e-mail Receber Onda Jovem é mais que um presente para nós que estamos à frente da elaboração de políticas públicas para a juventude. É de grande importância compreender e conhecer a realidades desse nosso imenso Brasil, cheio de sonhos e esperanças juvenis. Nilton Bispo, assessor de Juventude, Prefeitura de Embu, SP Acho de suma importância uma revista que fala sobre os jovens, pois trabalho com esse público como assisten- te social na Vila Brasilândia e adjacências. Atuo em uma associação como educadora de noções de cidadania, ori- entação sexual, prevenção contra o abuso de vícios e dro- gas, liberdade de escolha com responsabilidade e ética. Ivone S. Garcia, São Paulo, SP Onda Jovem me interessou muitíssi- mo. Sou assistente social e a revista pode me capacitar e informar para uma melhorintervençãocidadãeprofissional. Ieda, por e-mail Somos uma ONG que atua na forma- ção e capacitação de jovens e adoles- centes por meio da educação empre- endedora. Onda Jovem poderá contri- buir com nosso trabalho. Manoel Gouvêa, diretor da Escola de Empreendedores, São Paulo, SP PROJETO DE VIDA E TRABALHO Recebicomimensoprazeranotíciade Onda Jovem. O primeiro número, Proje- to de Vida, trata de um tema muito im- portante para nossa instituição de ensi- no. Vai ajudar nossa equipe a entender e lidar melhor com o público jovem no Grupo de Projetos Sociais. Renata Hespanhol, Universidade de Ribeirão Preto - UNAERP, São Paulo, SP FAÇA CONTATO Envie cartas ou e-mails para esta seção com nome completo, endereço e telefone. ONDA JOVEM se reserva o direito de resumir e editar os textos. Endereço: Rua Dr. Neto de Araújo, 320, conjunto 403, CEP 04111-001, São Paulo, SP. E-mail: ondajovem@olharcidadao.com.br. Nós, do Consórcio Social da Juventude da Grande Teresina, gostamos muito de Onda Jovem. Narcizo Chagas, Assistente de Inserção no Mercado de Trabalho, Teresina, PI Gostaria de receber Onda Jovem. Trabalho no Progra- ma Voluntários da OSCIP Comunitas – Parcerias para o Desenvolvimento Solidário. Adelaide Barbosa Fonseca Espero receber Onda Jovem. Sou presidente da ONG Desenvolvimento com Justiça Social – DJS (www.djs. org.br). Trabalhamos e incentivamos o protagonismo ju- venil por meio da educação em direitos humanos. Borny Cristiano, São Paulo, SP Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:59 PM80
  • 81. 81 Agradecemos a menção de nosso Pro- gramaemsuarevistasobre“ANovaForça do Trabalho”, aproveitando para dar-lhes os parabéns pelo belo trabalho editorial. Carlos H. Sampaio, Programa Iniciativa Jovem/Dialog/Shell Recebemos os exemplares “Projeto deVida”e“AnovaForçadoTrabalho”da revistaOnda Jovem.Atualmente,aFun- daçãoAbrinqestáimplantandomaisdois projetos de apoio ao jovem: o primeiro diz respeito à discussão do projeto de vida dentro das escolas que desenvol- vem educação de jovens e adultos e ou- tro sobre empreendedorismo juvenil e microcrédito. As duas publicações vie- ram ao encontro dos nossos desafios e têm contribuído muito com o desenvol- vimento de nosso trabalho. Só temos a agradecer e parabenizá-los. Márcia Quintino e Maria do Carmo Krehan, Programa Prêmio Criança e Multiprojetos, Fundação Abrinq, São Paulo, SP Onda Jovem despertou meu interes- se. Trabalho no Centro Pastoral Santa Fé, na região noroeste de São Paulo (Perus), com adolescentes em um Pro- jeto de Formação de Lideranças Juve- nis, por meio de atividades esportivas, de artesanato, reforço escolar e dese- nho, entre outras. Luciana Mizinski, São Paulo, SP Para o trabalho que realizamos, Onda Jovem é de extrema importância. Atuo como assistente social na ONG Centro de Convivência Menina Mulher, que atende meninas de 7 a 18 anos em si- tuação de vulnerabilidade. Katia Cristina Novak, Curitiba, PR PARCEIRA NA EDUCAÇÃO Nós, da ONG Plugados na Educação, tivemos a imensa boa sorte de receber Onda Jovem. Nossa missão é promo- ver a cultura de paz e o aprimoramen- to ético, cultural e pedagógico em es- colas públicas estaduais e municipais de Minas Gerais e São Paulo. César Sousa Reis, Plugados na Educação Queremos receber Onda Jovem. Estamos iniciando um trabalho de conscientização, reintegração e auto-estima dos jovens de uma escola pública em Belo Horizonte. Fa- zemos parte do Projeto Sempre Um Ato, que em breve se tornará associação. Karla Danitza, Belo Horizonte, MG Parabéns por Onda Jovem. Sou professora da rede es- tadual de ensino, coordenadora pedagógica do Centro Educacional e Social da Consolata (CESC) e assessora da Pastoral da Juventude de Roraima. Conheci a revista por meio do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescen- te de Roraima e me interessei muito, pois também estou concluindo o Curso de Especialização em Juventude, na Unisinos – RS. Vanilsa Pereira de Souza, Boa Vista, RR Como professora universitária e atuante em trabalhos sociais com juventude, apreciei muito a revista. Esther Alves de Sousa, por e-mail Sou bibliotecária, no Colégio Marista Palmas, e traba- lhamos com grupos de jovens que atuam em ações so- ciais e solidárias na cidade de Palmas e região. Onda Jo- vem será de grande valia para nós. Anair Ribeiro Quintanilha Souza, Palmas, TO Gostaríamos de ter Onda Jovem em nosso acervo. Faculdade Paulista de Serviço Social, São Paulo, SP Por meio de pesquisadores da juventude, fiquei saben- do da revista, que interessa muito a quem atua, como eu, na área de educação e juventude. Gilmar Staub, São Miguel do Oeste, SC Onda Jovem é muito interessante e pertinente para nós, do Lar das Crianças da Congregação Israelita Paulista (CIP). Gostaríamos de receber os exemplares. Maitá Figueiredo, São Paulo, SP Parabéns pela iniciativa da revista. Sou diretor da ONG AssociaçãoCrescer,quetemajuventudecomopúblicoalvo. Pe. Evando Batista de Morais, Contagem, MG Nós, Religiosas Concepcionistas Missionárias do Ensino, somos uma entidade religiosa católica que trabalha com educação de jovens. Gostaríamos de receber Onda Jovem. Edenilson Coelho, Sede Provincial, São Paulo, SP Na entidade Lua Nova, atendemos jovens mães e seus filhos. Adoramos Onda Jovem, especialmente a segunda edição, sobre Trabalho, que está muito relacionada com nossa missão e ações. Mirthes e Raquel Barros, por e-mail Nós, da Girassolidário (Agência da Rede Andi Brasil), achamos Onda Jovem de excelente qualidade. Antonio Sardinha, Mato Grosso do Sul Gostei muito das reportagens de Onda Jovem. Marcia Wada, A Cor da Letra, por e-mail SITE ONDA JOVEM Gostei demais de ter descoberto o site Onda Jovem. Vocês capricharam nos textos. Parabéns. Sou psicóloga, trabalho com prevenção à AIDS com jo- vens e gostaria de colaborar com vocês. Ana Luiza, psicóloga, por e-mail Nós, da Comunidade Transformar, gostaríamos de cumprimentá-los pela iniciativa da revista e do site Onda Jo- vem, muito bons, bem feitos e de exce- lente qualidade. É material importante para nosso Grupo de Estudos e como informação qualificada para esta ONG, que concluiu recentemente um proces- so de reestruturação e está iniciando uma nova fase com a implementação de projetos que, na sua maioria, têm o público jovem como destinatário. Washington de Bessa Barbosa Júnior, Ribeirão Preto, SP Parabéns, Onda Jovem, pela bela ini- ciativa, projeto gráfico e editorial. Assim como vocês, o InterCidadania comunica soluçõesembuscadeummundomelhor. Equipe InterCidadania, por e-mail Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:59 PM81
  • 82. Navegando Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 8:59 PM82
  • 83. 83 Foi um artista visual que revelou a poesia ao mineiro Ricardo Rizzo, de 24 anos. Quando tinha 13 anos, uma bolsa de iniciação artística ofereci- da pela sua escola, em Juiz de Fora (MG), levou-o às leituras visuais do artista plástico Arlindo Daibert sobre as obras de Guimarães Rosa e Mário de Andrade. “Eu fiquei apaixonado pela literatura”, diz Rizzo. A paixão, como tantas, gerou o escritor. Já estudante de Direito, em 2002 publicou o livro “Cavalo Marinho e outros poemas” (Editora Nankin/Funalfa Edições). Em 2004, ganhou o prêmio Cidade Belo Horizonte com o livro ainda inédito “Ao Sul da Esfera”, que inclui os poemas desta página. Atualmente, Rizzo faz mestrado em Ciência Política na Universidade de São Paulo, mas sem se afastar da literatura: pesquisa os escritos políticos de José Alencar e é editor da revista literária “Jandira” (Funalfa Edições). POR OBRA DA ARTE poemas_Ricardo Rizzo ilustração_Rodolfo Herrera TARSILA De meia em meia hora meu coração de baleia se derrama sobre os cafezais Noite, chão, terra cheia outros mil corações de baleia respondem iguais não minto a quem me odeia. DESCONFORTO Se ficarmos muito quietos podemos dormir. Respirar pelo nariz malgrado o compacto olor de albume. Consentir que o sujeito ao lado resmungue uma ou duas queixas torcendo-se na poltrona ruidosamente. É um bonito trecho de Brasil que atravessamos neste ônibus neste fevereiro e não podia mesmo ser diferente. Para onde quer que se olhe, desta ou daquela janela, a fuzilaria descansa. A democracia avança com seus dentes-de-leite. Onda Jovem 68-82 (nº3) 10/20/05, 9:00 PM83
  • 84. O Instituto Votorantim apóia essa causa. E quer ver muitos jovens fazendo sucesso na capa. ano1–número3–novembro2005ano1–número3–novembro2005ano1–número3–novembro2005ano1–número3–novembro2005ano1–número3–novembro2005 ARTE&CULTURAONDAJOVEMnúmero3–novembro2005número3–novembro2005número3–novembro2005número3–novembro2005número3–novembro2005 ARTE & CULTURAARTE & CULTURA Como as manifestações artísticas e culturais promovem o desenvolvimento pessoal e social dos jovens brasileiros Como as manifestações artísticas e culturais promovem o desenvolvimento pessoal e social dos jovens brasileiros

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