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Senso comum Marilena Chauí
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Senso comum Marilena Chauí

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Análise do quociente de racionalidade dos raciocínios e das falácias do senso comum

Análise do quociente de racionalidade dos raciocínios e das falácias do senso comum

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  • 1. A atitude científica*Marilena ChauíO senso comumO Sol é menor do que a Terra. Quem duvidarádisso se, diariamente, vemos um pequenocírculo avermelhado percorrer o céu, indo deleste para oeste?O Sol se move em torno da Terra, quepermanece imóvel. Quem duvidará disso, sediariamente vemos o Sol nascer, percorrer océu e se pôr? A aurora não é o seu começo e ocrepúsculo, seu fim?As cores existem em si mesmas. Quemduvidará disso, se passamos a vida vendorosas vermelhas, amarelas e brancas, o azuldo céu, o verde das árvores, o alaranjado dalaranja e da tangerina?Cada gênero e espécie de animal já surgiramtais como os conhecemos. Alguém poderiaimaginar um peixe tornar-se réptil ou umpássaro? Para os que são religiosos, os livrossagrados não ensinam que a divindade crioude uma só vez todos os animais, num só dia?A família é uma realidade natural criada pelaNatureza para garantir a sobrevivênciahumana e para atender à afetividade naturaldos humanos, que sentem a necessidade deviver juntos. Quem duvidará disso, se vemos,no mundo inteiro, no passado e no presente,a família existindo naturalmente e sendo acélula primeira da sociedade?A raça é uma realidade natural ou biológicaproduzida pela diferença dos climas, daalimentação, da geografia e da reproduçãosexual. Quem duvidará disso, se vemos que osafricanos são negros, os asiáticos sãoamarelos de olhos puxados, os índios sãovermelhos e os europeus, brancos? Se formosreligiosos, saberemos que os negrosdescendem de Caim, marcado por Deus, e deCam, o filho desobediente de Noé.Certezas como essas formam nossa vida e osenso comum de nossa sociedade, transmitidode geração em geração, e, muitas vezes,transformando-se em crença religiosa, emdoutrina inquestionável.A astronomia, porém, demonstra que o Sol émuitas vezes maior do que a Terra e, desdeCopérnico, que é a Terra que se move emtorno dele. A física óptica demonstra que as
  • 2. cores são ondas luminosas de comprimentosdiferentes, obtidas pela refração e reflexão,ou decomposição, da luz branca. A biologiademonstra que os gêneros e as espécies deanimais se formaram lentamente, no curso demilhões de anos, a partir de modificações demicroorganismos extremamente simples.Historiadores e antropólogos mostram que oque entendemos por família (pai, mãe, filhos;esposa, marido, irmãos) é uma instituiçãosocial recentíssima – data do século XV – eprópria da Europa ocidental, não existindo naAntiguidade, nem nas sociedades africanas,asiáticas e americanas pré-colombianas.Mostram também que não é um fato natural,mas uma criação sociocultural, exigida porcondições históricas determinadas.Sociólogos e antropólogos mostram que aidéia de raça também é recente – data doséculo XVIII -, sendo usada por pensadoresque procuravam uma explicação para asdiferenças físicas e culturais entre oseuropeus e os povos conhecidos a partir doséculo XIV, com as viagens de Marco Pólo, edo século XV, com as grandes navegações e asdescobertas de continentes ultramarinos.Ao que parece, há uma grande diferençaentre nossas certezas cotidianas e oconhecimento científico. Como e por que elaexiste?Características do senso comumUm breve exame de nossos saberes cotidianose do senso comum de nossa sociedade revelaque possuem algumas características que lhessão próprias:. são subjetivos, isto é, exprimemsentimentos e opiniões individuais e degrupos, variando de uma pessoa para outra,ou de um grupo para outro, dependendo dascondições em que vivemos. Assim, porexemplo, se eu for artista, verei a beleza daárvore; se eu for marceneira, a qualidade damadeira; se estiver passeando sob o Sol, asombra para descansar; se for bóia-fria, osfrutos que devo colher para ganhar o meu dia.Se eu for hindu, uma vaca será sagrada paramim; se for dona de um frigorífico, estareiinteressada na qualidade e na quantidade decarne que poderei vender;. são qualitativos, isto é, as coisas sãojulgadas por nós como grandes ou pequenas,doces ou azedas, pesadas ou leves, novas ouvelhas, belas ou feias, quentes ou frias, úteisou inúteis, desejáveis ou indesejáveis,coloridas ou sem cor, com sabor, odor,próximas ou distantes, etc.;
  • 3. . são heterogêneos, isto é, referem-se a fatosque julgamos diferentes, porque ospercebemos como diversos entre si. Porexemplo, um corpo que cai e uma pena queflutua no ar são acontecimentos diferentes;sonhar com água é diferente de sonhar comuma escada, etc.;. são individualizadores por seremqualitativos e heterogêneos, isto é, cadacoisa ou cada fato nos aparece como umindivíduo ou como um ser autônomo: a seda émacia, a pedra é rugosa, o algodão é áspero,o mel é doce, o fogo é quente, o mármore éfrio, a madeira é dura, etc.;. mas também são generalizadores, poistendem a reunir numa só opinião ou numa sóidéia coisas e fatos julgados semelhantes:falamos dos animais, das plantas, dos sereshumanos, dos astros, dos gatos, das mulheres,das crianças, das esculturas, das pinturas, dasbebidas, dos remédios, etc.;. em decorrência das generalizações, tendema estabelecer relações de causa e efeito entreas coisas ou entre os fatos: “onde há fumaça,há fogo“; “quem tudo quer, tudo perde“;“dize-me com quem andas e te direi quemés“; a posição dos astros determina o destinodas pessoas; mulher menstruada não devetomar banho frio; ingerir sal quando se temtontura é bom para a pressão; mulherassanhada quem ser estuprada; menino de ruaé delinqüente, etc.;. não se surpreendem e nem se admiram coma regularidade, constância, repetição ediferença das coisas, mas, ao contrário, aadmiração e o espanto se dirigem para o queé imaginado como único, extraordinário,maravilhoso ou miraculoso. Justamente porisso, em nossa sociedade, a propaganda e amoda estão sempre inventando o“extraordinário“, o “nunca visto“;. pelo mesmo motivo e não porcompreenderem o que seja investigaçãocientífica, tendem a identificá-la com amagia, considerando que ambas lidam com omisterioso, o oculto, o incompreensível. Essaimagem da ciência como magia aparece, porexemplo, no cinema, quando os filmesmostram os laboratórios científicos repletosde objetos incompreensíveis, com luzes queacendem e apagam, tubos de onde saemfumaças coloridas, exatamente como sãomostradas as cavernas ocultas dos magos.Essa mesma identificação entre ciência emagia aparece num programa da televisãobrasileira, o Fantástico, que, como o nomeindica, mostra aos telespectadores resultadoscientíficos como se fossem espantosa obra de
  • 4. magia, assim como exibem magos ocultistascomo se fossem cientistas;. costumam projetar nas coisas ou no mundosentimentos de angústia e de medo diante dodesconhecido. Assim, durante a Idade Média,as pessoas viam o demônio em toda a parte e,hoje, enxergam discos voadores no espaço;. por serem subjetivos, generalizadores,expressões de sentimentos de medo eangústia, e de incompreensão quanto aotrabalho científico, nossas certezas cotidianase o senso comum de nossa sociedade ou denosso grupo social cristalizam-se empreconceitos com os quais passamos ainterpretar toda a realidade que nos cerca etodos os acontecimentos.A atitude científicaO que distingue a atitude científica da atitudecostumeira ou do senso comum? Antes dequalquer coisa, a ciência desconfia daveracidade de nossas certezas, de nossaadesão imediata às coisas, da ausência decrítica e da falta de curiosidade. Por isso, alionde vemos coisas, fatos e acontecimentos, aatitude científica vê problemas e obstáculos,aparências que precisam ser explicadas e, emcertos casos, afastadas.Sob quase todos os aspectos, podemos dizerque o conhecimento científico opõe-se pontopor ponto às características do senso comum:. é objetivo, isto é, procura as estruturasuniversais e necessárias das coisasinvestigadas;. é quantitativo, isto é, busca medidas,padrões, critérios de comparação e avaliaçãopara coisas que parecem ser diferentes.Assim, por exemplo, as diferenças de cor sãoexplicadas por diferenças de um mesmopadrão ou critério de medida, o comprimentodas ondas luminosas; as diferenças deintensidade dos sons, pelo comprimento dasondas sonoras; as diferenças de tamanho,pelas diferenças de perspectiva e de ângulosde visão, etc.;. é homogêneo, isto é, busca as leis gerais defuncionamento dos fenômenos, que são asmesmas para fatos que nos parecemdiferentes. Por exemplo, a lei universal dagravitação demonstra que a queda de umapedra e a flutuação de uma pluma obedecemà mesma lei de atração e repulsão no interiordo campo gravitacional; a estrela da manhã ea estrela da tarde são o mesmo planeta,Vênus, visto em posições diferentes comrelação ao Sol, em decorrência do movimento
  • 5. da Terra; sonhar com água e com uma escadaé ter o mesmo tipo de sonho, qual seja, arealização dos desejos sexuais reprimidos,etc.;. é generalizador, pois reúneindividualidades, percebidas como diferentes,sob as mesmas leis, os mesmos padrões oucritérios de medida, mostrando que possuema mesma estrutura. Assim, por exemplo, aquímica mostra que a enorme variedade decorpos se reduz a um número limitado decorpos simples que se combinam de maneirasvariadas, de modo que o número deelementos é infinitamente menor do que avariedade empírica dos compostos;. são diferenciadores, pois não reúnem nemgeneralizam por semelhanças aparentes, masdistinguem os que parecem iguais, desde queobedeçam a estruturas diferentes.Lembremos aqui um exemplo que usamos nocapítulo sobre a linguagem, quandomostramos que a palavra queijo parece ser amesma coisa que a palavra inglesa cheese e apalavra francesa fromage, quando, narealidade, são muito diferentes, porque sereferem a estruturas alimentares diferentes;. só estabelecem relações causais depois deinvestigar a natureza ou estrutura do fatoestudado e suas relações com outrossemelhantes ou diferentes. Assim, porexemplo, um corpo não cai porque é pesado,mas o peso de um corpo depende do campogravitacional onde se encontra – é por issoque, nas naves espaciais, onde a gravidade éigual a zero, todos os corpos flutuam,independentemente do peso ou do tamanho;um corpo tem uma certa cor não porque écolorido, mas porque, dependendo de suacomposição química e física, reflete a luz deuma determinada maneira, etc.;. surpreende-se com a regularidade, aconstância, a freqüência, a repetição e adiferença das coisas e procura mostrar que omaravilhoso, o extraordinário ou o–milagroso– é um caso particular do que éregular, normal, freqüente. Um eclipse, umterremoto, um furacão, embora excepcionais,obedecem às leis da física. Procura, assim,apresentar explicações racionais, claras,simples e verdadeiras para os fatos, opondo-se ao espetacular, ao mágico e ao fantástico;. distingue-se da magia. A magia admite umaparticipação ou simpatia secreta entre coisasdiferentes, que agem umas sobre as outraspor meio de qualidades ocultas e considera opsiquismo humano uma força capaz de ligar-se a psiquismos superiores (planetários,astrais, angélicos, demoníacos) para provocar
  • 6. efeitos inesperados nas coisas e nas pessoas.A atitude científica, ao contrário, opera umdesencantamento ou desenfeitiçamento domundo, mostrando que nele não agem forçassecretas, mas causas e relações racionais quepodem ser conhecidas e que taisconhecimentos podem ser transmitidos atodos;. afirma que, pelo conhecimento, o homempode libertar-se do medo e das superstições,deixando de projetá-los no mundo e nosoutros;. procura renovar-se e modificar-secontinuamente, evitando a transformação dasteorias em doutrinas, e destas empreconceitos sociais. O fato científico resultade um trabalho paciente e lento deinvestigação e de pesquisa racional, aberto amudanças, não sendo nem um mistérioincompreensível nem uma doutrina geralsobre o mundo.Os fatos ou objetos científicos não são dadosempíricos espontâneos de nossa experiênciacotidiana, mas são construídos pelo trabalhoda investigação científica. Esta é um conjuntode atividades intelectuais, experimentais etécnicas, realizadas com base em métodosque permitem e garantem:. separar os elementos subjetivos e objetivosde um fenômeno;. construir o fenômeno como um objeto doconhecimento, controlável, verificável,interpretável e capaz de ser retificado ecorrigido por novas elaborações;. demonstrar e provar os resultados obtidosdurante a investigação, graças ao rigor dasrelações definidas entre os fatos estudados; ademonstração deve ser feita não só paraverificar a validade dos resultados obtidos,mas também para prever racionalmentenovos fatos como efeitos dos já estudados;. relacionar com outros fatos um fato isolado,integrando-o numa explicação racionalunificada, pois somente essa integraçãotransforma o fenômeno em objeto científico,isto é, em fato explicado por uma teoria;. formular uma teoria geral sobre o conjuntodos fenômenos observados e dos fatosinvestigados, isto é, formular um conjuntosistemático de conceitos que expliquem einterpretem as causas e os efeitos, asrelações de dependência, identidade ediferença entre todos os objetos queconstituem o campo investigado.
  • 7. Delimitar ou definir os fatos a investigar,separando-os de outros semelhantes oudiferentes; estabelecer os procedimentosmetodológicos para observação,experimentação e verificação dos fatos;construir instrumentos técnicos e condiçõesde laboratório específicas para a pesquisa;elaborar um conjunto sistemático deconceitos que formem a teoria geral dosfenômenos estudados, que controlem e guiemo andamento da pesquisa, além de ampliá-lacom novas investigações, e permitam aprevisão de fatos novos a partir dos jáconhecidos: esses são os pré-requisitos para aconstituição de uma ciência e as exigênciasda própria ciência.A ciência distingue-se do senso comum porqueeste é uma opinião baseada em hábitos,preconceitos, tradições cristalizadas,enquanto a primeira baseia-se em pesquisas,investigações metódicas e sistemáticas e naexigência de que as teorias sejaminternamente coerentes e digam a verdadesobre a realidade. A ciência é conhecimentoque resulta de um trabalho racional.O que é uma teoria científica?É um sistema ordenado e coerente deproposições ou enunciados baseados em umpequeno número de princípios, cujafinalidade é descrever, explicar e prever domodo mais completo possível um conjunto defenômenos, oferecendo suas leis necessárias.A teoria científica permite que umamultiplicidade empírica de fatosaparentemente muito diferentes sejamcompreendidos como semelhantes esubmetidos às mesmas leis; e, vice-versa,permite compreender por que fatosaparentemente semelhantes são diferentes esubmetidos a leis diferentes.* In: Convite à Filosofia, de Marilena Chauí,Ed. Ática, São Paulo, 2000, Unidade 7, Asciências, Capítulo 1Fonte:http://geocities.yahoo.com.br/mcrost02/convite_a_filosofia_31.htm

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