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Dalton Trevisan à queima-roupa, ensaio da professora Berta Waldman, que leciona literatura na  usp, especialista em Dalton Trevisan e Nelson Rodrigues, este ensaio é sobre Dalton e foi publicado na revista Metáfora, SP
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Ensaio de especialista explica como é a poética do contista paranaense que descreve a agonia do ser humano diante dos limites de sua condição

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  • 1. Dalton à queima roupa “Para escrever o menor dos contos a vida inteira é curta” Dalton Trevisan Por Berta Waldman*O Anão e a ninfeta, o último livro do escritor curitibano Dalton Trevisan,confirma sua busca de redução da linguagem, que toma como alvo o haicai,as “ministórias”, a palavra descarnada. Mestre em descrever situaçõessignificativas, Trevisan já tinha praticado diferentes procedimentosformais, em sua obra, verticalizando o conto recortado em verso, propondopoemas, reduzindo o conto a “ministória”. Enquanto amplia as formas, crianovos ritmos. Diminui, em geral, a extensão dos contos e para isso a frase égolpeada, fragmenta-se, eliminam-se verbos, conjunções, pronomes,adjetivos, evita-se a subordinação e delineia-se a oração nominal comopredileta. Concomitante com essa redução, faz-se um recorte mais exigentedo universo de personagens que vai se acuando à periferia, emconsonância com a história presente do país, onde os desempregados,excluídos, marginais e sem perspectivas formam maioria cada vez maisvisível. Nascido em 1925, em Curitiba, Paraná, Dalton Trevisan é umescritor que não faz concessões: não dá entrevistas, não se deixafotografar, não conversa com leitores, não recebe prêmios, nem participade encontros de escritores. Sem contar os textos publicados em folhetosdistribuídos de mão em mão ou enviados pelo correio, seu primeiro livro éde 1959, Novelas nada exemplares. Antes dessa data participou ativamenteda organização da revista modernista curitibana Joaquim, cujo primeironúmero é de abril de 1946. Nela publicou vários textos. Contando hoje com
  • 2. uma vasta e significativa obra, Trevisan é um escritor programático eobsessivo que traça o itinerário de uma busca incessante, manifestada narepetição de situações, de personagens, de um tema que se multiplica emvoltas infindáveis. Até 1972 – ano de publicação de O rei da Terra - asnarrativas de Trevisan são mais extensas, porque ele mais investiga suamatéria literária do que enxuga sua linguagem, que, no entanto, sempre seinova, para dar relevo estético e histórico às coisas de seu tempo e lugar.Nesse sentido, a Curitiba que emerge dos seus contos, à maneira do queacontece com o Nordeste de Graciliano Ramos ou o sertão de GuimarãesRosa, é o próprio mundo, porque o mundo também é Curitiba no que temde grotesco e regressivo. Em outras palavras, a medida de um escritor,principalmente nos países periféricos como o Brasil, deriva, em grandeparte, de um tipo de agudeza – da agudeza para perceber que acomplexidade do mundo contemporâneo também se expressa aqui, e queuma representação artística eficaz dele contribui para a imagem correta doconjunto.A predominância dos textos curtos veio depois de 1974, com a publicaçãode O Pássaro de cinco asas. Mas continuam desfilando, na periferia daperiferia e sob um facho de luz crua, funcionários públicos, lojistas,prostitutas, donas de casa, domésticas, profissionais liberais, normalistas,trabalhadores da terra, drogados, religiosos, montando a cena ficcional deTrevisan como um universo sem saída, uma obra negativista, obra queexpõe o negativo, mas é construída segundo a melhor tradição literária nomapa da narrativa contemporânea .
  • 3. Box 1As falas das ruasO autor registra falas de grupos e as põe em circulação em seus livros.Variadas e facilmente identificadas pelo leitor, o autor as vai atualizando.Em obras mais recentes, ganha espaço o discurso do viciado em crack, docheirador de pó, do traficante. Esse discurso deslocado do real para a ficçãocompõe com breves pinceladas uma espécie de “quadro vivo” concentradono essencial, sem alçapões ilusionistas, nem jogos de luz enganadores.-O meu café da manhã é uma pedra. Se estou na pior, um baseado. Aí medá uma fominha desgracida. Vou chegando bem doidona: “Ei, tô comfome. Ei, galera,tô com fome.”Até descolar um rango.Ali no ponto de ônibus: “Ô tio, só pra inteirar a passagem? Valeu. Temcondição, ô tia? valeu.” Quando você vê, tá riquinha de moeda. Esse golpeé fatal.” ( Pico na veia, texto 2)Box 2.Na selva das cidadesA visão apocalíptica que emoldura o dia-a-dia das metrópoles modernastoma Curitiba como parâmetro, e é nela que o autor mostra o cotidianovivido como o pão que o diabo amassou. Assim, sua cidade natal, essagrande favela do primeiro mundo ( Pico na Veia, texto 18), funciona comouma espécie de “zona zero”, por onde transitam e para onde convergemvozes, interagem discursos, que prescindem de diálogos. Curitiba, nessesentido, é apresentada como um palco miniaturizado vazio de expectativaspositivas e ideologizadas, construídas para serem consumidas “aqui” e“agora”, no grande supermercado em que se transformou o espaço global.Pare na primeira esquina e conte os minutos de ser abordado por umpedinte, assediado por um vigarista e trombado por um pivete – se antesnão tiver a nuca partida ao meio pela machadinha do teu Raskolnikov.(Pico na Veia, texto 145)
  • 4. ******-Que cidade é essa? Nas praças o desfile de estátuas equestres- e nenhumcavaleiro. (234, texto 39) ******- Ai de tua Curitiba do primeiro mundo da propaganda. Em toda calçada alegião de meninos dormindo, cheirando cola, se trocando. Cada praça, umcemitério de elefantes. Eis o pivete que te assalta o bolso. Um mendigorastejante puxa o teu pé. Corre, a bicicleta te derruba no passeio. Para, eo carro te atropela na faixa de pedestre. Com a bênção do maioral que nospromete um trio elétrico e o céu também. (234, texto 75) *******Curitibaó maldito vaso de água podrefigo fervilhante de bichosó cedro retorcido de agulhashiena comedora de testículos quebrados (234, texto 87) *******Box 3Elogio da repetiçãoDalton Trevisan é apontado muitas vezes pela crítica como um autor que serepete, que conta sempre histórias terríveis de desencontro entre as pessoas.Ele aproveita essa deixa e escreve uma ministória, em que aresponsabilidade da repetição não é do artista e sim das pessoas que,segundo ele, são sempre iguais:-Ora, direis, ele se repete. Eu vos direi, no entanto, como poderia se cadapersonagem é baseado numa pessoa diferente? Se alguém se repete sãoelas, essas pessoas iguais, sempre as mesmas. Pô, destino próprio, históriaúnica, vida original – não há mais? (Pico na veia, texto 192)Box 4.
  • 5. Imprensa marromClichês de cartas inspiradas no Consultório Sentimental incluído emrevistas femininas e construções calcadas na imprensa marrom e emrelatórios policiais fazem parte das narrativas de Trevisan.Saudações.Dr. Antônio, desculpe a ousadia de escrever, ontem fiquei arrependida denão confessar a paixão que sinto, porque tive vergonha, vejo que o senhoré casado e pai de tantos filhos, acho que isso não tem importância, a gentesabe de tanta mulher casada gostando do homem de outra, quanto mais euque sou moça donzela, a diferença é que não sou correspondida. Venha namesma hora, eu espero no portão e mamãe não vai nos ver. Se o doutornão vier é sinal que não tem a mínima simpatia.Sem mais, sua criada obrigada, Ismênia.(...)Meu inesquecível AntônioNão seja traidor, não iluda um pobre coração, você me enganou e não vemmatar essa paixão, você é mesmo mau, não quer o meu amor (...), sei queestá com raiva de mim.O que te fiz, Antônio, que se tornou tão ingrato? A dona reclama oaluguel, não queria te incomodar. Passei o dia bem amolada, escrevo estacartinha com lágrimas nos olhos, as letras como estão borradas?Antônio, quero ser tua, inteirinha tua, e que seja meu também. Ismênia “Ismênia, moça donzela”, em Morte na praçaSub-box 4Mulheres vítimas de opressãoNoite de vinte e três de junho, Ritinha da Luz, dezesseis anos, solteira,prenda doméstica, ao sair do emprego, dirigiu-se à casa de sua irmãJulieta, atrás da Ponte Preta. Na linha do trem foi atacada por quatro oucinco indivíduos, aos quais se reuniram mais dois. Então violada por umde cada vez e abandonada entre as moitas. Seu choro atraiu um guardacivil, que a conduziu até a delegacia.A menina nunca tinha visto os homens, não sabia a que atribuir o assalto.Nem qual foi o primeiro, agarrada e derrubada, a cabeça coberta.Arrastada pelo chão, fortes dores nos seios e noutras partes. A fim de nãogritar por socorro, barbaramente espancada. Apresentou-se com saia deseda preta e blusa vermelha de malha, sujas de lama. No corpo além demuitas feridas, folha seca, grama e barro. A hora lá pelas dez ou onze.(...)
  • 6. Os tais a derrubaram do outro lado do muro. Fizeram o que bemquiseram, largada bastante ferida no seio e nas partes, até que o guarda-civil a encontrou, queixosa de frio e dor.(...) (O conto apresenta o relato detodos os estupradores e termina sem sugerir uma punição para o ato.) Oguarda-civil Leocádio, ao passar debaixo da Ponte preta, viu umanegrinha chorando”. “Debaixo da ponte preta”, em O vampiro de CuritibaBox 5O sexo sem amor dos infelizesA sexualidade tem como característica natural, ser, essencialmente, aexpressão das diferenças. Na obra de Trevisan, transformado em atividadepuramente mecânica, o sexo predica a ausência de um sujeito. Predica ovazio. Concentrado no essencial, sem alçapões ilusionistas nem jogos deluz enganadores, o autor mostra o amor como uma luta sexual. Não háfelicidade possível. Expressão da violência também no modo direto comque aborda sua matéria, a linguagem é incisiva, licenciosa, compacta, tem aprecisão de um tiro à queima roupa, que não prescinde de boa dose dehumor. É difícil, entretanto, sustentar o riso quando o leitor se dá conta deque o que se apresenta é um mundo sem sentido e sem saída em relação aoqual ele, leitor, quer estabelecer distância, mas é obrigado a se enxergarnele. Esse mundo calcado no negro, sem o anteparo de qualqueridealização ou promessa de redenção, provoca o leitor. A representaçãoformal do mundo degradado de Dalton Trevisan se faz através de umalinguagem rebaixada que o autor desgasta e explora com esmero e rigor,reduzindo-a ao mínimo, ao osso, faca no coração do leitor.
  • 7. João era casado com Maria e moravam em barraco de duas peças noJuvevê; a rua de lama, ele não queria que a dona molhasse os pezinhos. Odefeito de João ser bom demais – dava tudo o que ela pedia.Garçom do Buraco do Tatu, trabalhava até horas mortas; uma noitevoltou mais cedo, as duas filhas sozinhas, a menor com febre. João trouxeágua com açúcar e, assim que ela dormiu, foi espreitar na esquina. Mariachegava abraçada a outro homem, despedia-se com beijo na boca. Investiufurioso, correu o amante. De joelho a mulher anunciou o fruto do ventre.João era bom, era manso e Maria era única, para ele não havia outra;mudaram-se do Juvevê para o Boqueirão, onde nasceu a terceira filha.Chamavam-se novas Marias: da Luz, das Dores, da Graça. Com tantasMarias confiava João que a dona se emendasse. Não foi que a encontroude quimono atirando beijos para um sargento da polícia?“O senhor meu marido”, em A faca no coração O amor é uma faca no coração. Cada dia enterra mais fundo, que nãodeixe de sangrar. “Haicai”, em A faca no coraçãoBox 6Retrato da mesquinhez humanaUm dos contos mais conhecidos de Dalton Trevisan é “Uma vela paraDario”. Nele o autor ressalta a mesquinhez humana, a falta de solidariedadecom o próximo, o egoísmo em tal grau que causa um estranhamento noleitor. Esse estranhamento é uma forma de o autor provocar o leitor a olharcriticamente, sem idealização, para si e para o mundo. Aliás, a encenaçãoda violência na obra de Trevisan tem essa função.“Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobraa esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por elaescorrega, senta-se na calçada ainda úmida de chuva. Descansa na pedrao cachimbo.
  • 8. Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre aboca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco,diz que deve sofrer de ataque.Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou.O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos,Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca. (...)O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando afumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vêguarda-chuva ou cachimbo a seu lado. (...)Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado docadáver. Parece morto há muito tempo, quase o retrato de um mortodesbotado pela chuva.Fecharam-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario àespera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo semaliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas de chuva, que volta acair.” “Uma vela para Dario”, em Vinte contos menoresBox 7.Em busca da essênciaA medida aleatória dos textos (contos? haicais? poemas?) obedece a umprincípio rígido de corte. O autor corta no ponto a partir do qual o textoalcança sugerir ao leitor uma imagem, uma metáfora, independentementede sua extensão, da definição das personagens, da organização do espaço edo tempo, do enredo etc. Apenas numerados, os textos reforçam acomposição de um mundo alienado e indiferenciado. Lentamente, osnúmeros ganham espaço na ficção descarnada de Trevisan, que já os usouaté mesmo como título de obra . É o caso de 234.A indiferenciação dos sujeitos - também eles não nomeados (com exceçãode João e Maria – par sempre presente na ficção do autor), corre paralelaao sexo, uma engrenagem a mais na enorme máquina da alienação. O
  • 9. corpo, no texto, transforma-se em objeto mercável e dedica-se a distintasformas de associação sexual, todas abstratas, porque voltadas a umacombinatória erótica na qual o que conta são os mecanismos, o jogo depoder, tornando-se assim matéria abstrata, número, frase, cujo sentido seevapora. Longe de qualquer acordo amoroso possível entre pares, o autorreinstala a cada livro a “guerra conjugal”, onde o desencontro, a destruiçãodo outro, as taras e a violência sexual seguem o curso de um beco semsaída.Um vulto ao longe – será a tua alma gêmea?Ele se aproxima, um tipo qualquer.De perto é sim João, o Estripador. (Pico na veia, texto 23)Atento à violência fora da retórica desgastada na afirmação de um bemuniversal e abstrato, Trevisan mostra o mal inerente não ao homem, masancorado a uma história humana. Nela, a exclusão ocupa papel importante.Assim, repetir é um modo funcional de contar a repetição a que estamoscondenados. Na repetição, porém, o autor depura e lapida a palavra. Elesabe, como ninguém, que Um bom conto é pico certeiro na veia. (Pico naveia, texto 3)Os marginalizados da vidaDalton Trevisan traz a cena a própria voz dos marginalizados da vida epenetra em seus mais íntimos pensamentos. Ele expõe os meandros damente do vampiro que está em cada um de nós.“Ai, me dá vontade até de morrer. Veja, a boquinha dela está pedindobeijo - beijo de virgem é mordida de bicho cabeludo . Você grita vinte e
  • 10. quatro horas e desmaia feliz. É uma que molha o lábio com a ponta dalíngua para ficar mais excitante. Por que Deus fez da mulher o suspiro domoço e o sumidouro do velho? (...) Se não quer, por que exibe as graçasem vez de esconder? Hei de chupar a carótida de uma por uma. Até láenxugo os meus conhaques. Por causa de uma cadelinha como essa que aívai rebolando-se inteira. Quieto no meu canto, ela que começou. Ninguémdiga sou taradinho. No fundo de cada filho de família dorme um vampiro -não sinta gosto de sangue.” (O vampiro de Curitiba)*Berta Waldman é professora titular aposentada da Universidade de SãoPaulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Entresuas linhas de pesquisa está o estudo da obra de Dalton Trevisan, queresultou em sua tese de doutoramento, publicada em livro - Do Vampiro aoCafajeste – Uma Leitura da Obra de Dalton Trevisan - e, ainda, em aulas,orientações, conferências, além de artigos como Mínimo Múltiplo: doConto ao haicai de Dalton Trevisan, Pico na veia, entre outros.

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