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Tipos e momentos de memoria
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Tipos e momentos de memoria

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  1. Tipos ou sistemas de memória Memória Excepcional – Exemplo de Amnésia Anterógrada. No filme americano Amnésia (“Memento”) , dirigido por Cristopher Nolan, Leonard, o personagem principal, se recorda de tudo que aconteceu em sua vida até a noite do ataque no qual sua mulher foi morta e ele sofreu golpes na cabeça que o deixaram com danos cerebrais. Desde então, ele não consegue reter suas memórias. MEMÓRIA E REPRESENTAÇÃO DO CONHECIMENTOAinda não sabemos exactamente quantos sistemas de memória existem e comodevem ser designados. No entanto, algumas ideias gerais parecem estar assentes.Sabemos que a memória depende de alterações nos neurónios e nas suas ligações.Sabemos, também, que os sistemas de memória já identificados dependem deestruturas específicas do cérebro, de mecanismos próprios de codificação, deestratégias e de regras internas.Um número de telefone pode apagar-se facilmente da nossa mente, mas umarecordação da infância pode manter-se para sempre. Assim se manifestam doisgrandes tipos de memória, a breve, designada por memória de curto prazo, e aduradoura, designada por memória de longo prazo.A memória de curto prazo envolve os processos que retêm a informaçãotemporariamente até ser esquecida ou guardada num armazém de longo prazotornando-se potencialmente permanente.Apresenta duas componentes, a memória imediata e a de trabalho. A memóriaimediata retém a informação quando é recebida, tornando-se o centro da nossaatenção em determinado momento. Ocupa o pensamento durante mais ou menos 30 1
  2. segundos e tem capacidade para mais ou menos sete ou oito itens. Mas este tempopode alargar-se se o conteúdo for repetido. Lembremo-nos de quando éramospequenos e a nossa mãe nos pedia que fôssemos comprar alguma coisa. Íamos pelarua fora a repetir mentalmente ou a cantarolar «cinco pães, um pacote de leite, umquilo de limões e o jornal». Esta é a memória de trabalho.A memória de trabalho é uma espécie de lista de compras que é esquecida malacabamos de a utilizar. Da mesma forma, um número de telefone é passível de sermantido na memória durante um pequeno período de tempo, utilizando a mesmaestratégia. E para isso até o decompomos em conjunto de dois ou três elementos. Emvez de repetirmos tudo de seguida 214295637, utilizamos três grupos de algarismos214 295 637. Agora imagine-se alguém que tinha no seu atendedor de chamadas aseguinte mensagem: «Acabou de ligar para o duzentos e vinte e oito milhões, cento ecinquenta e três mil, novecentos e quarenta e dois. Deixe a sua mensagem após osinal ou, no caso de ter urgência, ligue para o novecentos e trinta e três milhões,setecentos e vinte e um mil, e sessenta». Seria extremamente difícil não sócompreender o número como retê-lo.A memória imediata e de trabalho operam em paralelo e são os dois componentesprincipais da memória de curto prazo. Mas existem outros que se manifestamposteriormente até ao estabelecimento de uma memória estável. Permitem manter ainformação de minutos a uma hora ou mesmo mais, bem para além do momento emque ela está a ser activamente retida. Por exemplo, "amanhã não me posso esquecerde levar o livro para emprestar à Ana". Após a tarefa cumprida, no dia seguinte, amemória desaparece.A memória de longo prazo envolve os processos que retêm recordações comoepisódios da nossa vida, rostos de pessoas conhecidas ou conceitos.Tanto a memória de curto prazo como a de longo prazo provocam alterações naestrutura e nas ligações das células nervosas. As mesmas ligações entre neuróniospodem participar nos dois tipos de armazenamento. Existe um mecanismo semelhantea um "transformador molecular" que converte a memória de curto prazo em memóriade longo prazo.Na memória de longo prazo podemos identificar dois subsistemas diferentes, amemória declarativa e a memória não declarativa. Elas dependem de sistemascerebrais diferentes.A memória não declarativa, também chamada implícita ou "sem registo», é umamemória automática e reflexa, que guarda as Informações de "saber como fazer ascoisas". As experiências são convertidas em processos que alteram a natureza doorganismo e as suas competências.Não é uma recordação, mas uma alteração de comportamento, tal como esquiar, lerum mapa ou andar de bicicleta. É inconsciente embora possa ser acompanhada dealgumas recordações, «espera lá, como é que costumo fazer isto?». Podemosaprender a fazer qualquer coisa e a seguir lembrarmo-nos de alguns elementos damesma como, por exemplo, imaginarmo-nos a executá-Ia. No entanto, a capacidadede desempenhar a competência parece ser independente de recordações conscientes.A memória não declarativa envolve processos de aprendizagem simples e reflexoscomo hábitos e condicionamentos. Por exemplo, quando aprendemos a andar debicicleta é provável prestarmos muita atenção às manobras da roda da frente, àposição do guiador e ao acto de pedalar, primeiro com o pé esquerdo e depois com o 2
  3. direito. Mas quando adquirimos prática, o acto de andar de bicicleta é guardado comomemória não declarativa, conduzimos e pedalamos automaticamente. Não énecessário evocar conscientemente que é preciso pressionar os pedais com o pédireito e depois com o esquerdo. Estas memórias mantêm-se intactas durante anos oudécadas.A memória não declarativa permite-nos conservar procedimentos para actuarmos nomundo. À medida que vamos crescendo, aprendemos a dizer «por favor» e«obrigado», a lavar os dentes antes de irmos para a cama e a executar uma série deoutros comportamentos que resultam da prática. Adquirimos muitos desses hábitosnos primeiros anos de vida sem qualquer esforço óbvio e quase sem repararmos quea aprendizagem está a decorrer. Por exemplo, quando aprendemos a ler, passamoscom hesitação de palavra para palavra mas, depois de alguma prática, conseguimosler rapidamente, movimentando os olhos para um ponto diferente quatro vezes porsegundo, compreendendo mais de trezentas palavras por minuto.A memória declarativa, também chamada explícita ou «com registo», é uma memóriaconsciente do passado, um conjunto de Informações sobre pessoas, lugares,situações, acontecimentos ou factos, que guarda informações do «saber que». É a elaque habitualmente nos referimos quando usamos o termo «memória». É uma memóriaconsciente do nome da nossa avó, do primeiro rei de Portugal, dos planetas dosistema solar, da conversa desta manhã.Lembremo-nos do nome de um dos nossos amigos. Lembremo-nos do rosto dessapessoa, do som da sua voz e da maneira de falar. Depois, lembremo-nos de umacontecimento particular em que tenha participado, uma conversa importante, umaviagem ou uma festa especial. Estamos a recriar o episódio, na nossa imaginação,deslocando-nos para o contexto, espacial e temporal, em que aconteceu. Parecesurpreendente a facilidade com que evocamos a cena e o que se passou.Curiosamente, ao realizarmos um exercício deste tipo não precisamos de treino nemde instruções. Recordar de forma vivida o passado é algo que todos fazemosdiariamente, sem grande esforço. A memória declarativa é a memória de todos osconhecimentos que podem ser «declarados» sob a forma de proposições verbais oude imagens mentais. Ela é imperfeita, passível de inexactidões e de distorções, mastambém pode ser fiel, especialmente quando guarda conhecimentos gerais sobre omundo. Podemos confundir o nome de uma pessoa ou uma data de aniversário, masnão confundimos um elefante com uma baleia.Muitas actividades requerem os três tipos de memória. Vejamos o jogo do ténis.Conhecer as regras ou quantos sets são precisos para ganhar uma partida envolve amemória semântica. Lembrar o lado que foi o último a servir, requer a memóriaepisódica. Saber lançar a bola ou fazer um serviço envolve a memória não declarativa.Processos básicos de memória (Momentos essenciais) • Recepção e codificação da informação • Armazenamento da informação • Recuperação da informação • Esquecimento da informaçãoO matemático John Griffith estimou que, num tempo médio de vida, uma pessoaarmazena o equivalente a quinhentas vezes mais informação do que aquela que se 3
  4. pode encontrar em todos os volumes da Enciclopédia Britânica. John von Newmann,um dos pais dos computadores, calculou que, em média, as recordaçõesmemorizadas durante toda a vida humana deveriam atingir 2,8 x 1020 unidadeselementares de informação. Correspondentes a vinte e oito milhares de milhão de bitse cerca de trezentos milhões de gigabites. Haverá espaço no nosso cérebro para esteincrível volume de recordações? Em termos teóricos, o nosso cérebro não está malequipado, cem mil milhões de neurónios, cada um dos quais com centenas oumilhares de possíveis contactos nervosos com outros neurónios, constitui uma redenervosa de notável potência. A capacidade da memória humana depende deoperações muito complexas.A primeira operação de tratamento da informação é a recepção e codificação.À medida que chega, a informação sensorial é codificada de forma a poder sercomunicada ao cérebro.Podem ser utilizados vários códigos. Por exemplo, pensemos na frase "Hoje está sol".Se codificarmos o som das palavras, tal como foram ditas, estamos a usar um códigoacústico e a informação é representada na memória como uma sequência de sons. Secodificarmos a imagem das letras, tal como estão organizadas em signos, estamos ausar um código visual e a informação é representada na memória como uma imagem.Finalmente, se codificarmos o facto "estar sol", estamos a usar um código semântico,e a informação é representada na nossa memória pelo seu significado. O tipo decódigo usado pode influenciar o que é lembrado.Quando a codificação envolve bastante trabalho, ou seja, quando a informação éprocessada a um nível profundo, lembramo-nos dela mais facilmente.Quando estamos a estudar um assunto, quanto mais gostarmos dele, quanto maisnecessidade, desejo ou curiosidade tivermos, quanto mais nos implicarmos nessatarefa, melhor será a sua aprendizagem. Mesmo quando a memória de qualquer factopareceu não exigir esforço, o processo não é assim automático. Determinadassituações ou factos são recordados porque nos interessam realmente, mesmo semtermos consciência disso. Lembramo-nos porque desencadeamos espontaneamenteoperações de codificação profundas e elaboradas. Se não estivermos a fazer umesforço deliberado, são os nossos interesses e preferências que direccionam aatenção e influenciam a quantidade e a qualidade da codificação.O segundo processo é o armazenamento. Trata-se da manutenção dainformação ao longo do tempo, muitas vezes durante muito tempo. 4
  5. Recordar umas férias da infância depende da capacidade de armazenamento danossa memória. De que forma é que a informação codificada se mantém na memória?Não existe um sítio específico no cérebro onde se arrumam as recordações. Noentanto, a informação não está espalhada por todo o lado. Ainda não é possívellocalizar os pontos onde a representação de um determinado objecto estáarmazenada. Mas as novas técnicas de recolha de imagens cerebrais têm mostradoque várias regiões cerebrais estão envolvidas no registo de um único acontecimento, eque cada região contribui de forma diferente para o todo. As alterações no cérebro,resultado da codificação e do registo da experiência, produzem traços mnésicostambém chamados engramas.A informação nova vai modificar um conjunto complexo de processos bioquímicos ecada informação, engrama, é representada por uma configuração particular daactividade nervosa. Num primeiro momento, o engrama é dinâmico e produzem-semudanças nas ligações neuronais. Depois, torna-se estrutural, permanente, e capazde reproduzir a actividade nervosa necessária à actualização da informação. Por isso,a memória não se estabelece num momento. Pelo contrário, leva um tempoconsiderável a desenvolver a sua forma permanente. O processo de fixação requervárias etapas e até estar completo, a memória mantém-se vulnerável a perturbações.Grande parte deste processo completa-se durante as primeiras horas deaprendizagem. Mas a estabilização estende-se muito para além deste ponto e envolvealterações contínuas na organização da memória de longo prazo.O terceiro processo é a recuperação. Ocorre quando localizamos a informaçãona memória e a trazemos à consciência.Recuperar informações armazenadas, como um endereço ou um número de telefone,é normalmente tão rápido e fácil que parece automático. Só quando tentamos recordaroutros tipos de informação, tal como a resposta a uma pergunta que conhecemos masque não conseguimos evocar, tomamos consciência do processo de busca. Oprocesso de recuperação inclui a evocação e o reconhecimento. Quando não somoscapazes de nos lembrar do nome de alguém, mas sabemos que conhecemos aquelacara, está em jogo este processo. Analisamos o estímulo, a cara, e procuramos namemória o nome que lhe está associado. Primeiro temos que saber se conhecemos acara ou não, reconhecimento, e depois procuramos o tal nome, evocação. Quandoestamos a responder a itens de escolha múltipla, estamos perante informação queidentificamos e comparamos com a que temos guardada. É uma tarefa dereconhecimento.A recuperação é ajudada por pistas, as alternativas. Quando estamos a responder aitens de resposta aberta, temos que procurar a informação necessária, a partir deestímulos gerais. É uma tarefa de evocação. Temos de recuperar a informação semmuita ajuda. O reconhecimento tende a ser mais fácil do que a evocação. 5
  6. E como a nossa memória não é um gravador de som nem de imagem, os erros podemintroduzir-se em qualquer momento, durante a codificação, o armazenamento ou arecuperação. Não sabemos ainda se o cérebro tem limites para armazenarinformação. Mas sabemos que algumas situações, como a fadiga ou o aborrecimento,podem dificultar todo este processo. A última operação que falta neste esquema é oesquecimento e dele nos ocuparemos a seguir.Memória e esquecimento Esquecimento Florbela Espanca Esse de quem eu era e era meu, Que foi um sonho e foi realidade, Que me vestiu a alma de saudade, Para sempre de mim desapareceu. Tudo em redor então escureceu, E foi longínqua toda a claridade! Ceguei... tacteio sombras... que ansiedade! Apalpo cinzas porque tudo ardeu! Descem em mim poentes de Novembro... A sombra dos meus olhos, a escurecer... Veste de roxo e negro os crisântemos... E desse que era eu meu já me não lembro... Ah! a doce agonia de esquecer A lembrar doidamente o que esquecemos...!Texto extraído do livro "Sonetos", Bertrand Brasil - Rio de Janeiro, 2002, pág. 181. 6
  7. O esquecimento é uma condição da memóriaOs mais velhos têm frequentemente a sensação de que a sua memória está aabarrotar de recordações e que às vezes é difícil lembrarem-se daquilo que é útil edeixar de lado aquilo que, pelo contrário, parece "inútil". Mas independentemente daidade, a maior parte das pessoas considera que a sua memória não funciona tal comogostariam.O esquecimento é normalmente sentido como uma espécie de "patologia" damemória. Porém, todas as pessoas, dia após dia, sabem o seu nome, fazem o jantar,lêem, entram no seu carro e conduzem no meio do trânsito travando, acelerando,accionando as mudanças, sem acusarem qualquer problema de memória.O esquecimento é a incapacidade, provisória ou definitiva, de acederconscientemente a uma informação adquirida ou a uma experiência vivida nopassado mais imediato ou mais longínquo.No dia seguinte a vermos um filme conseguimos contar o argumento e a acção deforma detalhada. No entanto, um ano mais tarde, não nos lembramos senão de umesboço do filme e talvez de fragmentos de algumas cenas.À primeira vista, o esquecimento parece ser uma desvantagem. Não seria melhorrecordar tudo o que lemos, nunca nos esquecermos de onde deixámos as chaves ouos óculos, guardarmos todas as situações que consideramos importantes? Estaquestão não tem ainda uma resposta clara, mas parece que, sem esquecimento, anossa capacidade de adaptação estaria seriamente ameaçada. O esquecimento éconsequência do funcionamento da memória e, longe de ser uma limitação, é umanecessidade. Os sistemas cognitivos artificiais não esquecem nada, o que significaque não são capazes de modificar significativamente a informação em função da suaexperiência do mundo. Podemos compreender este facto se analisarmos o que sepassa com pessoas que não conseguem esquecer.Uma pergunta que parece importante é «Esquecemos realmente a informação,ela desaparece do nosso cérebro, ou perdemos a capacidade de nos lembrardela?»O esquecimento repressivo (motivação inconsciente)As amnésias psicopatológicas foram identificadas no fim do século XIX, tendo sidoFreud um dos investigadores que se interessaram por este assunto. Elas 7
  8. manifestam--se como um esquecimento defensivo. A pessoa evita a recordaçãoconsciente de um acontecimento doloroso do passado, exercendo, inconscientemente,uma repressão sobre memórias penosas. Freud considerava que situações, porexemplo da infância,que nos tenham perturbado e produzido angústia podem ser «recalcadas», guardadasde forma a dificilmente termos acesso a elas. O esquecimento destas situações seriapsicologicamente motivado. Existe um mecanismo de defesa, o recalcamento, que nosprotege de recordar factos que podem ser emocionalmente muito perturbadores. Estasmemórias seriam guardadas no inconsciente por serem demasiado ameaçadoras selembradas.O esquecimento provocadoEste tipo de esquecimento pode ser consequência da ingestão de medicação, dedrogas ou de álcool. Uma das personagens de Shakespeare, Lady Macbeth, queprecisa de agir em segredo, decide recorrer às bem conhecidas propriedades doálcool, e afirma: «De tal forma hei-de embrutecer os camareiros no vinho, que neles, amemória guardiã do cérebro, será fumo, e a sede da razão, um simples alambique». Oálcool, como é sabido, não reduz apenas o tempo de reacção, o sentido crítico, aansiedade, mas age também sobre a memória. E Shakespeare que, ao que parece, seembriagava frequentemente, observa que o vinho pode alterar a memória por umbreve período de tempo. Uma ingestão continuada de álcool em grandes quantidadestem consequências bem conhecidas de perda de concentração, problemas deequilíbrio e deficiente sentido de coordenação. Começa por destruir células do fígadoe de partes do cérebro e pode conduzir a uma forma de amnésia grave e irreversível,conhecida como Síndrome de Korsakoff, devida à falta de tiamina, uma vitamina docomplexo B, que no alcoólico não é suficientemente absorvida.DepressãoAlzheimerIntoxicaçõesAVCO efeito de drogas que criamdependência é complexo e, em geral,prejudicial para a memória. Existemfármacos que penetram nas células docérebro para tratar várias doenças como aepilepsia, a doença de Parkinson ouestados depressivos. Tomados nas dosesrecomendadas, não afectam a memóriade modo grave. A excepção são oschamados «tranquilizantes», que podemprovocar esquecimento ou mesmoamnésia quando tomados sem vigilância médica ou em doses excessivas. Toda amedicação eficaz tem inevitavelmente efeitos colaterais. As vantagens têm de serconfrontadas com os riscos e isso só o médico pode avaliar. 8
  9. O esquecimento provocado também pode ser consequência de doenças e lesõescerebrais. Traumatismos, doenças do foro neurológico, acidentes vascularescerebrais, tumores ou intervenções cirúrgicas, podem produzir lesões directas nosuporte material da memória, quer dizer, no cérebro. Por exemplo, a doença deAlzheimer é uma degradação mental progressiva, que ocorre normalmente empessoas de idade avançada. Os primeiros sintomas são distúrbios da memória que setornam progressivamente mais graves até à incapacidade de se reconhecer a sipróprio. Nestes doentes, a memória autobiográfica parece ser a mais afectada. Osestados de stress e de depressão, ou os choques emocionais fortes também podemcausar amnésias.O esquecimento regressivoCom a idade, muitas pessoas podem manifestar dificuldades de memória quer ao nívelde aprendizagens novas, que na evocação de nomes de pessoas conhecidas ou deacontecimentos recentes. Estas perturbações são muito diferentes das referidasanteriormente, mesmo se resultarem da degenerescência progressiva dos tecidoscelulares cerebrais devida à idade. No entanto, com o aumento da esperança de vida,os progressos da medicina, a vontade das pessoas mais velhas de continuarem atrabalhar e a assumir responsabilidades sociais, os efeitos negativos da senescênciasão diminuídos. As investigações mostram que a capacidade da memória imediatamuda relativamente pouco com a idade, mas as tarefas de atenção partilhada ou amemória de trabalho são mais afectadas. É importante salientar que isto depende daocupação da pessoa e das capacidades cognitivas que continua ou não a exercer.O esquecimento vulgar (interferência de novas aprendizagens) • Inibição proactiva – Deterioração dos conteúdos mnésicos provocada pela interferência de recordações passadas. • Inibição rectroactiva – Deterioração dos conteúdos mnésicos provocada pela interferência de novas informações.Pode acontecer que a memória esteja lá e nós não a consigamos evocar por falta depistas. Mas também pode acontecer que os traços mnésicos não passem para amemória de longo prazo pela capacidade limitada desta memória ou porque não foramtransferidos. O carácter sucessivo de actividades mais ou menos similares efectuadaspela pessoa pode ser responsável pelo esquecimento. Mas, hoje em dia, aquilo que ainvestigação demonstra como sendo mais provável é que, como as experiênciasnovas implicam sempre a reorganização das representações da memória, ou seja, doscircuitos da informação nas redes de neurónios, os nossos registos da experiênciavão-se alterando, enfraquecendo e modificando, produzindo-se neste processo oesquecimento. As memórias não declarativas tendem a ser mais estáveis do que asdeclarativas. 9
  10. Memória, memórias A memória permite-nos saber quem somos Somos quem somos porque conseguimos lembrar-nosdaquilo em que pensamos. Cada pensamento que temos, cada palavra que dizemos,cada acção que levamos a cabo, na verdade, o sentido de nós mesmos e o sentido deligação com outros, deve-se à nossa memória, à capacidade de o nosso cérebroregistar e armazenar as nossas experiências. A memória é a cola que aglutina anossa vida mental, a base que sustenta a nossa história pessoal e que possibilita ocrescimento e a mudança ao longo da vida. Quando se perde a memória perde-se acapacidade de recriar o nosso passado e, em consequência, perde-se a nossa ligaçãoconnosco próprios e com os outros. Adaptado de L. Squire e E. Kandel, Memória. Da mente às moléculas, 2002A identidade pessoalJá sabemos que à medida que vamos adquirindo informação o nosso cérebro semodifica. Uma vez que todos somos educados em ambientes de certo modo diferentese temos experiências também diferentes, a arquitectura do cérebro de cada um de nósé alterada de forma única. Mesmo os gémeos idênticos, que partilham os mesmosgenes, não têm cérebros iguais, pois também eles têm experiências de vida algodiferentes. É evidente que cada um de nós tem um conjunto de estruturas cerebrais eum padrão comum de ligações entre os neurónios baseados no esquema da nossaespécie. Este esquema básico do cérebro humano é igual para todos os indivíduos.Mas os pormenores do esquema variam de pessoa para pessoa. Por isso, cada umde nós é único, como única é a experiência de vida registada na memória.A maior parte daquilo que sabemos sobre o mundo não existe na nossa mente ànascença, sendo adquirido através da experiência e guardado na memória. Somosquem somos, em grande parte, devido ao que aprendemos e lembramos. Quandorecordamos, utilizamos uma representação de nós próprios para nós próprios e paraaqueles que nos rodeiam.Somos a forma como nos representamos nas nossas memórias, a forma comonos definimos como pessoas e como membros de grupos através das nossasmemórias, a forma como ordenamos e estruturamos as ideias nas nossasmemórias e a forma como transmitimos essas memórias a outros. Somosaquilo de que nos lembramos. A perda da memória conduz à perda dosentimento de si, à perda da nossa história de vida e à perda de vínculos comoutros seres humanos. 10
  11. Assim, a memória permite ordenar e dar sentido às recordações significativas de umavida. A memória organiza o processo contínuo de construção da nossa identidade,através do qual nos tornámos únicos, do ponto de vista biológico e cultural. O nossoprocesso de construção não tem fim. É sempre um processo de reconstrução.Quando somos crianças, esperamos que os pais e os avós nos falem de como éramosem bebés, nos contem histórias acerca de nós, nos digam quem somos. As históriascontadas às crianças contribuem para lhes dizer quem são elas e quem são os outros,o que é o mundo, de onde vem e para onde poderá ir. A criança, quando pede ao avôpara lhe contar uma história, procura não só a dimensão fantástica que o contoencerra, como também a sua própria identidade.Fotografar as crianças é fazer-se historiador da sua infância e preparar-lhes um legadode imagens e de memórias do que foram. O álbum de retratos de uma família exprimeuma recordação social. As imagens do passado, dispostas por ordem cronológica,evocam os acontecimentos importantes. São também factores de relação porque vãobuscar ao passado a confirmação da sua unidade presente. É por isso que não hánada que estabeleça mais a confiança do que um álbum de família. Todas asaventuras singulares da recordação individual se esbatem e o passado comumemerge. A memória é um mosaico em que se alternam imagens e interpretações darealidade, factos e opiniões, significados e valores, sentido do passado e antecipaçãodo futuro. Nesta perspectiva, a memória dos mais velhos serve de ponte entre opassado e o futuro, assegura a continuidade histórica e, não menos importante, leva-nos a reflectir acerca do significado individual e colectivo das recordações.A memória socialA capacidade de evocação e de reconstrução de episódios do passado é importantenão apenas para cada um de nós como para a colectividade. Histórias e memóriasindividuais e colectivas estão intimamente relacionadas.Por isso, a memória não é apenas um registo da experiência pessoal. Os sereshumanos têm capacidade para comunicar aos outros o que aprenderam. Ao fazê-lo,criam culturas que podem ser transmitidas de geração em geração. A memória éestruturada pela linguagem, pela observação, por ideias assumidas colectivamente epor experiências partilhadas com os outros. Tudo isto constrói a memória social.A memória social guarda acontecimentos e experiências passadas, reais ouimaginárias. Com efeito, a experiência passada, recordada, e as imagenspartilhadas do passado histórico são recordações importantes para aconstituição dos grupos sociais no presente.A memória não se divide em dois compartimentos um pessoal e outro social. Algumasdas nossas recordações parecem na verdade ser mais privadas e pessoais do queoutras. No entanto, esta distinção entre memória pessoal e memória social é relativa.As nossas recordações estão misturadas e têm ao mesmo tempo um aspectosocial e outro pessoal.A nossa memória estrutura-se em identidades de grupo. 11
  12. Recordamos a nossa infância como membros da família, o nosso bairro comomembros da comunidade local, a nossa vida profissional em função da organizaçãoem que estamos inseridos, e assim por diante. Estas recordações são essencialmentememórias de grupo e a memória de uma pessoa só existe na medida em que essapessoa é um produto único de determinada relação de grupos.As recordações que partilhamos com outros são aquelas que são relevantes nocontexto de um certo grupo social, quer seja estruturado e duradouro (família, porexemplo) ou informal e temporário (um grupo de amigos que frequenta a mesmaescola). Os grupos sociais constroem as suas próprias imagens do mundo criandouma versão própria do passado. Na verdade, as nossas recordações pessoais e até aforma como as recordamos são na sua origem, sociais. A memória é um processocomplexo que inclui tudo, desde uma sensação mental altamente privada eespontânea, até uma solene cerimónia pública.A memória colectiva é o que fica da vivência dos grupos, ou o que estes fazem dopassado. Nas sociedades sem escrita há especialistas da memória, «homens-memória», narradores e contadores de histórias. Também antigamente se veneravamos velhos porque eles eram guardiães da memória, com prestígio e úteis àcomunidade. A memória traduz-se num «comportamento narrativo» com uma funçãosocial, porque é uma comunicação ao outro na ausência desse acontecimento.(Sugestão de leitura: “Cão velho entre flores” de Baptista-Bastos)A memória, paradoxalmente, tem um carácter transitório. Podemos imaginá-Ia comoum lugar onde se guardam objectos de valor, adquiridos durante uma vida de árduotrabalho. Mas tratam-se de objectos que não sobrevivem à morte da pessoa e que nãopodem ser deixados em herança. Para nos defendermos deste carácter transitórioinerente à mortalidade da memória, desenvolvemos memórias artificiais. A prótesemais antiga é a escrita, na Antiguidade, sobre tábuas de argila ou de cera e sobrepapiro, na Idade Média sobre pergaminho e pele e, mais tarde, sobre papel. Sobreestas superfícies podiam traçar-se desenhos de todo o tipo, caracteres, planos,retratos, mapas. O aparecimento da fotografia, em 1839, proporcionou uma memóriaartificial que se aperfeiçoou rapidamente e que oferecia a possibilidade de registarimagens em movimento. A conservação do som" um sonho durante séculos, tornou-serealidade graças ao fonógrafo de Edison patenteado em 1877. Hoje em dia, dispomosde numerosas memórias externas para gravar o que registam a vista e o ouvido,cassetes, vídeos, CD, memórias de computador, hologramas. Agora, a imagem e osom podem deslocar-se no tempo, são repetíveis, reproduzíveis, numa escala queparecia impensável há 50 anos.A amnésia não é só uma perturbação individual. A falta ou perda de memória colectivados povos e das nações, voluntária ou involuntária, pode produzir perturbações gravesna identidade colectiva. As recordações podem ser manipuladas, consciente ouinconscientemente, pelos interesses, desejos ou censura. Na história da humanidade,a memória colectiva várias vezes foi posta em causa em lutas pelo poder. Apoderar-seda memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações dos grupos ou dosindivíduos que dominaram e dominam as sociedades. Os esquecimentos e ossilêncios da história são reveladores desses mecanismos de manipulação da memóriacolectiva. Por isso a memória colectiva é também um instrumento e um objectivo depoder. Em determinados momentos, a memória social foi alterada, falsificando-searquivos, textos de História e até material fotográfico. 12
  13. Há um slogan que diz «Quem controla o passado, controla o futuro; quemcontrola o presente, controla o futuro». (Sugestão de leitura: 1984, G. Orwell)As recordações familiares, as histórias de um determinado lugar, de uma família, deconhecimentos não oficiais, não institucionalizados, representam a consciênciacolectiva não só de uma pessoa, através da sua experiência pessoal como de gruposinteiros, de famílias, de comunidades. Esta memória pode contrapor-se a umconhecimento privatizado e monopolizado por grupos que desejam defenderinteresses próprios. A memória procura salvar o passado apenas para dar sentido aopresente e construir o futuro. Por isso, a memória colectiva de servir para libertar e nãopara escravizar os homens. 13

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