Almanaque Carlos Drummond de Andrade

2,288 views
2,066 views

Published on

Suas crônicas e poemas são pequenas intervenções na vida brasileira e mundial, numa tarefa sutil de salvamento do humano onde quer que ele se refugie, sinalizando o perigo iminente de sua destruição terminal.

Published in: Education
0 Comments
1 Like
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total views
2,288
On SlideShare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
1
Actions
Shares
0
Downloads
80
Comments
0
Likes
1
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

Almanaque Carlos Drummond de Andrade

  1. 1. desvãos que nós nun explorado. Por baixo cima da copa, aqui, a nos os seus lares. M depressa e não púnh casa grande. Sabíam muitos anos, que ali e primos; em tal qua naquele outro meu a morte, uma perna ba eleições sangrentas nós circulávamos liv do ar coalhado de lem familiares, de pesada memórias dos coron antigas, dos vestidos festas do comendad Com a mesma incon TESTEMUNHO DA EXPERIÊNCIA HUMANA DR U M M O N D DRUMMOND, rosa gens | ana crelia dias | Manoel santana | Martha alkimin _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 1 04/07/11 16:39
  2. 2. FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL Presidente Jorge Alfredo Streit Diretor Executivo de Desenvolvimento Social Éder Marcelo de Melo Diretor Executivo de Gestão de Pessoas, Controladoria e Logística Dênis Corrêa Gerente de Educação e Cultura Marcos Fadanelli Ramos Assessoria técnica Juliana Mary M. Ganimi Fontes ASSOCIAÇÃO DE AMIGOS DA CASA DE RUI BARBOSA Presidente João Maurício de Araújo Vice-Presidente Irapoan Cavalcanti Diretor-tesoureiro João Aguiar Sobrinho Diretora Secretária Maria Augusta FUNDAÇÃO CASA DE RUI BARBOSA Presidente José Almino de Alencar e Silva Neto Diretora Executiva Rosalina Maria Fernandes Gouveia Diretora do Centro de Pesquisa Rachel Teixeira Valença Diretora do Centro de Memória e Informação Ana Maria Pessoa dos Santos Coordenador-Geral de Planejamento e Administração Carlos Renato Costa Marinho Chefe do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira Eduardo Coelho PETROBRAS Presidente José Sergio Gabrielli de Azevedo Diretor de Comunicação Wilson Santarosa Gerente de Patrocínio Eliane Costa Gerente de Patrocínio Cultural Tais Wohlmulth Reis PRODUTORA CULTURAL Abravideo Concepção e Texto Ana Crelia Dias Manoel Santana Martha Alkimin Rosa Gens Coordenação Geral Elizabete Braga Pesquisa Histórica João Camillo Penna Assistente de Pesquisa Mariana Quadros Pesquisa Histórica e Iconográfica Silvana Jeha Pesquisa Iconográfica Ana Crelia Dias Elizabete Braga Martha Alkimin Manoel Santana Rosa Gens Imagens de Arquivo Arquivo-Museu de Literatura Brasileira - FCRB Arquivo Nacional Arquivo Público Mineiro Biblioteca José e Guita Mindlin Casa de Lucio Costa Fundação Biblioteca Nacional Fundação Casa de Rui Barbosa Fundação Getulio Vargas Instituto de Estudos Brasileiros - USP Instituto Moreira Salles Jornal do Brasil Museu de Arte Moderna - RJ Museu de Valores do Banco Central Museu Histórico Abílio Barreto Secretaria de Turismo de Itabira Digitalização e tratamento de imagens Trio Studio Fundação Casa de Rui Barbosa Revisão de Textos Cely Curado Ana Paula Belchor Projeto Gráfico Ruth Freihof | Passaredo Design Christiane Krämer Supervisão Geral Ruy Godinho Imagem da capa e 4ª capa: Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB D795 Gens, Rosa. Drummond, testemunho da experiência humana / Rosa Gens.... [et al.]. – Brasília : Abravideo, 2011. 104 p. : il. ISBN 978-85-61467-10-4 1. Andrade, Carlos Drummond de. 2. Poeta brasileiro. 3. Almanaque. I. Gens, Rosa. II. Título. CDD B869.6 Catalogação na fonte: Carolina Perdigão CRB1-1898 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 2 04/07/11 16:39
  3. 3. Origem....................................................................................................................8 Leituras de infância e juventude............................................................................13 Aluno: Carlos Drummond de Andrade.................................................................19 Crônica da vida......................................................................................................23 “Itabira é apenas um retrato na parede...”...............................................................24 Percurso de vida, no Brasil.....................................................................................32 Belo Horizonte......................................................................................................34 O Modernismo......................................................................................................38 “No meio do caminho”...........................................................................................42 Rio de Janeiro.......................................................................................................48 Viver a cidade.......................................................................................................52 Percursos no mundo..............................................................................................56 Olhadores de anúncios..........................................................................................58 O sentimento do mundo.......................................................................................61 Remetente: Carlos Drummond de Andrade.........................................................64 Carlos Drummond de Andrade e o Estado Novo.................................................67 Máquinas de escrever............................................................................................68 Um Palácio...........................................................................................................70 Drummond arquivista...........................................................................................72 Em tempos de chumbo.........................................................................................74 Música, maestro!...................................................................................................76 Amigo ouvinte!.....................................................................................................78 Brasília: “A cidade inventada”................................................................................80 O Sabadoyle.........................................................................................................84 A última crônica...................................................................................................86 Sabores e nostalgias..............................................................................................88 As várias faces da moeda brasileira........................................................................90 O que é um cometa?.............................................................................................92 E agora, Drummond?...........................................................................................95 Vida em imagens..................................................................................................98 Elucidações.........................................................................................................100 Referências bibliográficas....................................................................................102 sumário _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 3 04/07/11 16:39
  4. 4. Eu passava na Avenida quase meia-noite. FoinoRio Foi no Rio Havia a promessa do mar Foi no Rio Foi no Rio Foi no Rio Foi no Rio FoinoRio Foi no Rio voluptuosidade errante do calo milpresentesdavidaaoshomensindiferentes, O mar batia em meu peito, já não batia no cais. ebondestilintavam, autos abertos correndo caminho do mar meucoraçãobateuforte,meusolhosinúteischoraram. quemeucoraçãobateuforte,meusolhosinúteischoraram. O grande pão de mel suspenso entre mar e céu insinua os prazeres da cidade. Aboca,opaladar, Eu passava na Avenida quase meia-noite. Aboca,opaladar, Eu passava na Avenida quase meia-noite. serpenteialáembaixo.Osolnascente O grande pão de mel suspenso entre mar e céu serpenteialáembaixo.Osolnascente O grande pão de mel suspenso entre mar e céu eosolcadentevestemdepúrpura aformarígida.Nuvensciganas aodescer, Consciência mais leve do que asa faz-se, desfaz-se, faz-se uma incorpórea face de elipses, psius milpresentesdavidaaoshomensindiferentes, de elipses, psius milpresentesdavidaaoshomensindiferentes, ei,pessoal:furtarjabuticaba. autos abertos correndo caminho do mar ei,pessoal:furtarjabuticaba. autos abertos correndo caminho do mar Jabuticabachupa-senopé. Afinal, Afinal, O grande pão de mel suspenso entre mar e céu Afinal, O grande pão de mel suspenso entre mar e céu queéandrade?Andradeéárvore O mar batia em meu peito, já não batia no cais. queéandrade?Andradeéárvore O mar batia em meu peito, já não batia no cais. Masquedizerdopoeta igarapéribeirãoriocorredeira andrade é morro povoado faz-se, desfaz-se, faz-se povoado faz-se, desfaz-se, faz-se povoado povoado ilha numaprovaescolar? Que ele é meio pateta enãosaberimar? autos abertos correndo caminho do mar uma pedra e, estacando, uma pedra e, estacando, Muito riso escarninho Muito riso escarninho o foi logo cercando? Atrásdogrupo-escolarficamasjabuticabeiras. udar, a gente estuda. Mas depois, Nacidadetoda Na cidade toda de ferro De cacos, de buracos resumo de existido. Ofurtoexaure-senoatodefurtar. Asferradurasbatemcomosinos. o foi logo cercando? Asferradurasbatemcomosinos. o foi logo cercando? no pico do Cauê. Mas as coisas findas, Mas as coisas findas, muito mais que lindas, Jabuticabachupa-senopé. muito mais que lindas, Jabuticabachupa-senopé. muito mais que linda tornam-seins àpalmadamão. apelodonão. apelodonão. Consciência mais leve do que asa apelodonão. Consciência mais leve do que asa apelodonão. abafandoocalor apelo do não. Ascoisastangíveis Mas as coisas findas, Ascoisastangíveis Mas as coisas findas, As coisas tangíveis As coisas tangíveis de folhas alternas flores pálidas Nadapodeoolvido contraosemsentido deixaconfundido estecoraçãoeste coraçãoeste coração estecoração estecoração este coração Tem as cores da vida e o sigilo da sombra. Amaroperdido assume formas inéditas de transparência. meu amor. deixaconfundido O mar batia em meu peito, já não batia no cais. deixaconfundido O mar batia em meu peito, já não batia no cais. deixaconfundido meu amor. meu amor. meu amor. acidadesoueu sou eu a cidade É montanha ou aparição crepuscular. essasficarão. Muito riso escarninho essasficarão. Muito riso escarninho Ascoisastangíveis Ascoisastangíveis essas ficarão. _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 4 04/07/11 16:39
  5. 5. Aruaacabou,quedeasárvores?acidadesoueu atramadossentidos serpenteialáembaixo.Osolnascente eosolcadentevestemdepúrpura aodescer, Afinal, povoado acando, so escarninho Aruaacabou,quedeasárvores?acidadesoueu so escarninho Aruaacabou,quedeasárvores?acidadesoueu Atrásdogrupo-escolarficamasjabuticabeiras. os, de buracos s coisas findas, findas, mais que lindas, aodescer, mais que lindas, aodescer, apelo do não. apelodonão. sas tangíveis contraosemsentidoestecoração este coração Acadahora,desintegra-se,recompõe-se, apresentaçÃo O Projeto Memória, em sua 13.ª edição, rende homenagem ao escritor Carlos Drummond de Andrade, poeta máximo de nosso país. No intuito de torná-lo conhecido de um público cada vez maior, apresenta um perfil menos visível de sua obra, o de cronista, que se revela entrelaçado ao de poeta. Ele viveu de 1902 a 1987. Quase todo o século XX transparece em sua obra, já que o poeta experimentou o longo tempo e tratou de colocar atos, fatos e reflexões no vigor de sua escrita. Sua atividade de composição literária foi contínua e intensa, e sua produção cronística se estende por mais de sessenta anos (1921–1984). Ao focalizar mo- mentos dessa produção, este almanaque se abre para o Brasil, e, em larga medida, para o mundo, permitindo a interpretação de aconteci- mentos a partir da perspectiva do escritor, que se torna reveladora de elementos por vezes pouco nítidos no percurso brasileiro. O testemu- nho do autor convida a partilhar a memória drummondiana, revisitar seus lugares, confrontá-los com o presente, possibilitando percepção crítica diversa e movimentos de pensar dinâmicos e aprofundados. Retraçar caminhos percorridos por Drummond, entender o impacto da pedra, visitar paisagens do Brasil, compreender o mundo e os mun- dos revelados pelo poeta são os desafios que este almanaque propõe. Nosso olhar de leitor persegue o do poeta, assim como desejamos que o do leitor o siga, nessas “notícias humanas”, em que se obser- vam grandes reflexões de cunho existencial e pequenas minúcias do cotidiano. Nelas, está presente a preocupação com o humano, que se afigura em estado de perigo, aliada à tentativa de salvamento — do humano e da poesia. Resgatamos, em nosso percurso de escrita, traços característicos dos almanaques do início do século XX. Neste, que ora apresentamos, há matéria recreativa, humorística, científica, literária e informativa. Sua construção empreendeu-se em várias direções, o que permite, tam- bém, modos de leitura variados. O leitor pode seguir a linha da obra drummondiana, ou deixar-se levar por outras, que dela derivaram. Que possa, assim, à maneira dos antigos almanaques, o favor do público facilitar a nossa tarefa, recebendo com entusiasmo esta publicação e fazendo os textos de Carlos Drummond de Andrade circularem intensamente. 5 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 5 04/07/11 16:39
  6. 6. _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 6 04/07/11 16:39
  7. 7. Que lembrança darei ao país que me deu tudo que lembro e sei, tudo quanto senti? “Legado”. Carlos Drummond de Andrade, Claro enigma 7 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 7 04/07/11 16:39
  8. 8. origem O nome Carlos tem origem germânica e significa “homem”. Remete ao imperador Carlos Magno (séculos VIII e IX). DRUMMOND O sobrenome Drummond tem origem escocesa. Em céltico, significa “costas”, ligando-se ao naufrágio da frota comanda- da pelo Príncipe Maurício, descendente de Átila, o Rei dos Hunos. Foi ele o primeiro a se chamar Drummond. Drum — violen- ta, grande, e onde — onda. O poeta descende da família Carvalho Drummond, de linhagem da Ilha da Ma- deira. O tronco de Itabira apresenta grande ramificação na Zona do Carmo. O sobrenome Andrade é geográfico, lo- cativo, originário. É bastante comum no Brasil. SIGNO: ESCORPIÃO O horóscopo revela que a personalidade de Escorpião é a essência do Mistério. Regente: Água Elemento: Marte Nasceram também em 1902: Lúcio Cos- ta, arquiteto (27/02) | Sérgio Buarque de Holanda, historiador, crítico da literatura e jornalista (11/07) | Juscelino Kubitschek, médico e político (12/09). Assinatura de Carlos Magno | Ilustração Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Foi o nono filho de Carlos de Paula Andrade, fazendeiro, e Julieta Augusta Drummond de Andrade. 8 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 8 04/07/11 16:39
  9. 9. queme brincam ITABIRA a Estudar, a gente estuda. Mas depois, Asfe muito mais que lindas, esteco Am de es queme brincam ITABIRA Estudar, a gente estuda. Mas depois, Asfe muito mais que lindas, esteco Am de es Penumbra Cone de sombra ou Umbra LUA TERRA SOL Aconteceu, em 31 de outubro de 1902, dia de São Quintino, um eclipse do sol. Drummond criança, em montagem de foto feita por ele mesmo | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB 9 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 9 04/07/11 16:39
  10. 10. ANDRADE NO DICIONÁRIO Afinal que é andrade? Andrade é árvore de folhas alternas flores pálidas hermafroditas de semente grande andrade é córrego é arroio é riacho igarapé ribeirão rio corredeira andrade é morro povoado ilha perdidos na geografia, no sangue. Carlos Drummond de Andrade, Boitempo Vai, Carlos! ser gauche na vida. CARLOS Drummond, na estrofe inicial do poema que abre o seu primeiro livro, Alguma poesia (1930), apresenta Carlos, espécie de máscara que ao mesmo tempo ilumina e oculta a identidade do poeta: Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. “Poema de sete faces” 10 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 10 04/07/11 16:39
  11. 11. De cacos, de buracos de hiatos e de vácuos de elipses, psius faz-se, desfaz-se, faz-se uma incorpórea face, resumo de existido. “(In) Memória”. Drummond, Boitempo A palavra gauche é francesa e significa “es- querdo”. No poema, leva a pensar em deslocado desajeitado estranho esquisito fora do eixo e, aliada a “um anjo torto”, “desses que vivem na sombra”, articula a gênese do escritor: co- locar-se como diferente, perceber-se diferente e, de um ângulo inusitado, possibilitar variadas visões. Foto de família. Drummond aos 8 anos | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB 11 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 11 04/07/11 16:39
  12. 12. Eu passava na Avenida quase meia-noite. FoinoRio Foi no Rio Havia a promessa do mar FoinoRio FoinoRio Foi no Rio Foi no Rio Foi no Rio Foi no Rio FoinoRio Foi no Rio voluptuosidade errante do calo milpresentesdavidaaoshomensindiferentes, Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis. O mar batia em meu peito, já não batia no cais. abafandoocalor ebondestilintavam, quesopravanovento Aruaacabou,quedeasárvores?acidadesoueu autos abertos correndo caminho do mar autosabertoscorrendocaminhodomar meucoraçãobateuforte,meusolhosinúteischoraram. quemeucoraçãobateuforte,meusolhosinúteischoraram. que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram. quemeucoraçãobateuforte,meusolhosinúteischoraram. O grande pão de mel suspenso entre mar e céu insinua os prazeres da cidade. Aboca,opaladar, atramadossentidos serpenteialáembaixo.Osolnascente serpenteialáembaixo.Osolnascente serpenteialáembaixo.Osolnascente eosolcadentevestemdepúrpura aformarígida.Nuvensciganas aformarígida.Nuvensciganas brincamdesubtraí-la. ITABIRA BELO HORIZONTE RIO DE JANEIRO aodescer, aodescer, voltodemãosvaziasparacasa. Consciência mais leve do que asa faz-se, desfaz-se, faz-se uma incorpórea face dehiatosedevácuos de elipses, psius ei,pessoal:furtarjabuticaba. Jabuticabachupa-senopé. Afinal, Afinal, Afinal, queéandrade?Andradeéárvore hermafroditas Masquedizerdopoeta igarapéribeirãoriocorredeira andrade é morro povoado povoado povoado ilha numaprovaescolar? Que ele é meio pateta enãosaberimar? autos abertos correndo caminho do mar uma pedra e, estacando, umapedrae,estacando, uma pedra e, estacando, Muito riso escarninho Muito riso escarninho o foi logo cercando? Atrásdogrupo-escolarficamasjabuticabeiras. Atrásdogrupo-escolarficamasjabuticabeiras. Atrás do grupo-escolar ficam as jabuticabeiras. Estudar, a gente estuda. Mas depois, Estudar, a gente estuda. Mas depois, Nacidadetodadeferro Na cidade toda de ferro De cacos, de buracos resumo de existido. Ofurtoexaure-senoatodefurtar. Cada um de nós tem seu pedaço Asferradurasbatemcomosinos. As ferraduras batem como sinos. no pico do Cauê. Masascoisasfindas, Consciência mais leve do que asa Mas as coisas findas, Mas as coisas findas, muito mais que lindas, muito mais que lindas, tornam-seinsensíveis àpalmadamão. apelodonão. apelodonão. apelo do não. apelodonão. apelodonão. abafandoocalor apelo do não. apelo do não. apelodonão. Ascoisastangíveis As coisas tangíveis As coisas tangíveis de folhas alternas flores pálidas Nadapodeoolvido contraosemsentido deixaconfundido estecoração este coraçãoeste coração estecoração estecoração este coração Tem as cores da vida e o sigilo da sombra. Amaroperdido Acadahora,desintegra-se,recompõe-se, assume formas inéditas de transparência. meu amor. meuamor. deixaconfundido deixaconfundido meu amor. meu amor. meu amor. meu amor. acidadesoueu sou eu a cidade sou eu a cidade soueuacidade O grande pão de mel suspenso entre mar e céu É montanha ou aparição crepuscular. essasficarão. essas ficarão. Ascoisastangíveis Ascoisastangíveis essas ficarão. hermafroditas Assim como Drummond, faça você também o trajeto de Itabira até o Rio de Janeiro, sem deixar de passar antes por Belo Horizonte. Elucidação do labirinto| Veja pág. 100 Labirinto 12 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 12 04/07/11 16:39
  13. 13. Leituras de infância e juventude O livro Carlos Magno e os doze pares de França circulou no Brasil, no século XIX, e deixou marcas em nossa literatura popular. O folclorista e pesquisador cultural Luís da Câmara Cascudo o apon- tou como um dos livros mais populares do Brasil. É um livro do povo, mesmo, que motivou muitas reescrituras, principalmente na literatura de cordel, e aparece em festas populares, como as cava- lhadas, que tomam por base torneios medievais e batalhas entre cristãos e mouros. Carlos Drummond de Andrade afirma: “li a História de Carlos Magno e dos Doze Pares de França, em edição de capa vermelha da Livraria Garnier, que percorria o Brasil de Sul a Norte, e me lem- bro que não me interessou muito. Os heróis de espavento nunca foram o meu fraco.” “Leituras de garoto”, Tempo, vida, poesia. O encanto da ilha, ou Robinson Crusoé, de Daniel Defoe O livro do escritor inglês data de 1719 e sua trama continua cati- vando leitores. A história do náufrago que chega a uma ilha e deve, pouco a pouco, criar nela condições de vida reveste-se de interesse, atraindo a atenção para como se pode sobreviver. A grande aventu- ra da obra é a da própria sobrevivência: como se alimentar, como se vestir, como se abrigar, à custa de engenho e trabalho. E Robinson é um solitário, embora a ele se junte, mais tarde, seu companheiro Sexta-feira. A experiência de Carlos Drummond de Andrade, me- nino tímido e provinciano, filho de fazendeiro, se soma à extraor- dinária aventura marítima vivida em tempos antigos pelo náufrago Robinson Crusoé. As duas dão forma a um campo de ação, que, a partir da obra Sentimento de mundo até Novos poemas, será povoado de maneira notável pela poesia. 13 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 13 04/07/11 16:39
  14. 14. Leituras da meninice Drummond rememora, em crônica: A primeira reminiscência de sentido literá- rio, que me acode, não é propriamente de um texto de literatura, em verso ou prosa, mas de um personagem de romance. Não do romance em si, mas da figura projetada por ele. Porque o texto não era bem texto, era uma coleção de legendas a uma coleção de figuras, na versão infantil do Robinson Crusoé, de Defoe, na revista O Tico-Tico, publicação da maior importância na formação intelectual das crianças do começo deste século. Creio que lhe devo minha primeira emoção literária, pois quando Robinson conseguiu se mandar da ilha, senti um nó na garganta: eu queria que ele continuasse lá o resto da vida, solitário e dominador... Emoção produzida por uma per- sonagem literária, um mito. — Mas você é o tipo de caramujo, puxa! Ainda fedelho, e já sonhava com ilhas desertas. — Não era bem a solidão da ilha que me en- cantava no Robinson, era talvez, inconscien- temente, a sugestão poética. Páginas dos fascículos As aventuras de Robinson Crusoé, em O Tico-Tico | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 14 04/07/11 16:39
  15. 15. E enfatiza no poema “Infância”, de Alguma poesia: Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a comprida história de Robinson Crusoé, Comprida história que não acaba mais. Para concluir: E eu que não sabia que minha história Era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Capa dos fascículos As aventuras de Robinson Crusoé, em O Tico-Tico | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin 15 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 15 04/07/11 16:39
  16. 16. O Tico-Tico era a única revista dedicada às crianças brasileiras e lhes dava tudo: histórias, adivinhações, prêmios de dez mil réis, lições de coisas, páginas de armar e principalmente de aventuras. Carlos Drummond de Andrade Revista O Tico-Tico, 1941 | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin Uma das leituras de Drummond na in- fância foi a revista O Tico-Tico, que circulou no Brasil de 1905 a 1977. Era um periódico para crianças, inspirado em um suplemento jornalístico lançado em 1905 na França, por Henri Gautier, intitulado La Semaine de Su- zette, e destinado a meninas de 8 a 14 anos. A publicação brasileira não se restringia às me- ninas — tinha, entre seus leitores, crianças e adultos de ambos os sexos. Obras traduzidas e adaptadas para a revis- ta: As aventuras de Tom Sawyer, A ilha do te- souro, Dom Quixote, Robinson Crusoé. Personagens famosos em O Tico-Tico: Reco-Reco, Bolão e Azeitona Revista O Tico-Tico 16 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 16 04/07/11 16:39
  17. 17. Livro histórico sobre o centenário de O Tico-Tico, 2005 | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin Almanaque O Tico-Tico, 1958 | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin Seções da revista: histórias infanto-juvenis, cartas dos leitores com fotos e desenhos, curiosida- des, adivinhas, informações científicas, artísticas, cívicas etc. 17 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 17 04/07/11 16:39
  18. 18. Escrever para crianças? O público infantil conhece as crônicas drummondianas especial- mente por meio dos livros didáticos. O poeta, entretanto, resistia, quando questionado sobre se fazia literatura infantil. O gênero Literatura Infantil tem a meu ver existência duvidosa. Ha- verá música infantil? Pintura infantil? A partir de que ponto uma obra literária deixa de ser alimento para a alma de uma criança ou um jovem e se dirige ao espírito do adulto? Qual o bom livro para crianças que não seja lido com interesse pelo homem feito? [...] Observados alguns cuida- dos de linguagem e decência, a distinção preconceituosa se desfaz. Será a criança um ser à parte? Ou será a Literatura Infantil algo de mutilado, de reduzido, de desvitalizado — porque coisa primária, fabricada na persu- asão de que a imitação da infância é a própria infância? Drummond, Confissões de Minas Andersen [...] talvez seja leitura mais para homens do que para meninos: estes têm o maravilhoso em si, [...] enquanto aqueles fabricam o maravi- lhoso, já não acreditam nele, e têm de refugiar-se nas mais ingênuas ficções. Drummond, “O velho Andersen” – 5 de abril de 1955 História de dois amores, 1985 | Marcella Azal/Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB O Elefante, 1983 | Marcella Azal/Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB 18 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 18 04/07/11 16:39
  19. 19. Carlos Drummond de Andrade inicia seus estudos oficialmente em 1910, com pouco mais de sete anos — ingressa no Grupo Escolar Doutor Carvalho Brito onde inicia seu curso primário. Alunos do Grupo Escolar Doutor Carvalho Brito | Secretaria de Turismo de Itabira/Museu de Itabira Aluno: Carlos Drummond de Andrade 19 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 19 04/07/11 16:39
  20. 20. “Aula de francês de Mestre Emílio. Itabira, 191... “ Legenda de Drummond | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte | Arquivo Público Mineiro 20 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 20 04/07/11 16:39
  21. 21. Em 1916, torna-se aluno do Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte. Em 1918, ingressa, como aluno interno, no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo (RJ), escola fun- dada por padres jesuítas italianos no ano de 1886. Curiosamente, é no ano — 1918 — que Drummond tem seu primeiro poema publicado pelo irmão Altivo no único número do jornalzinho Maio. O poeta tinha 15 anos então e utilizou o pseudônimo WIMPL. Em 1919, o poeta é expulso dessa escola por “insubordinação mental”, depois de um incidente com o professor de Português. Em 1923, ingressa na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte, curso que conclui ao final do ano de 1925. FRUTA-FURTO Atrás do grupo-escolar ficam as jabuticabeiras. Estudar, a gente estuda. Mas depois, ei pessoal: furtar jabuticaba. Jabuticaba chupa-se no pé. O furto exaure-se no ato de furtar. Consciência mais leve do que asa ao descer, volto de mãos vazias para casa. Drummond, Boitempo Onda Uma onda veio, mansamente, espreguiçar-se na praia, numa carícia dolente... Parecia o corpo de uma mulher... Era imensamente triste. Foi rolando sobre a areia, rolando... Perto havia uma árvore onde folhas secas punham olheiras... A onda beijou-a longamente, num beijo de gaze, de espumas. A árvore, então, derramou duas lágrimas verdes que a onda levou... Reproduzido por José Condé em “Confidências do itabirano”, Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 05 set. 1948. Segunda seção, p. 8 21 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 21 04/07/11 16:39
  22. 22. Colégio Anchieta, Nova Friburgo | Manoel Santana Boletim do aluno Carlos Drummond de Andrade | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB Drummond formado em odontologia | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB 22 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 22 04/07/11 16:39
  23. 23. Carlos Drummond de Andrade casou-se, em 1925, com Dolores Dutra de Moraes, com quem teve dois filhos: Carlos Flávio, em março de 1927, falecido meia hora depois de nas- cer; e Maria Julieta, nascida em 4 de março de 1928. A filha se tornaria, nas palavras do poeta, a pessoa a quem mais amou na vida, grande companheira, inclusive na carreira literária. Dedicamos este espaço a você,leitor,para que aqui sejam regis- trados acontecimentos da sua história, à moda de Drummond. CrÔniCa da Vida Dolores e Drummond | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB Maria Julieta e Drummond | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB 23 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 23 04/07/11 16:39
  24. 24. “Itabira é apenas um retrato na parede...” Em muitos dos seus escritos,Drummond faz referências às suas origens itabiranas: AMÉRICA [...] Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração. Nessa rua passam meus pais, meus tios, a preta que me criou. Passa também uma escola — o mapa —, o mundo de todas as cores. Sei que há países roxos, ilhas brancas, promontórios azuis. A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-se em amarelo, em vermelho, em preto, no fundo cinza da infância. América, muitas vezes viajei nas tuas tintas. Sempre me perdia, não era fácil voltar. O navio estava na sala. Como rodava!   [...] As cores foram murchando, ficou apenas o tom escuro, no mundo escuro. Uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra. Nessa rua passam chineses, índios, negros, mexicanos, turcos, uruguaios. Seus passos urgentes ressoam na pedra, ressoam em mim. Pisado por todos, como sorrir, pedir que sejam felizes? Sou apenas uma rua na cidadezinha de Minas humilde caminho da América. [...] Drummond, A rosa do povo24 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 24 04/07/11 16:39
  25. 25. Imagem atual de Itabira | Iugo Koyama/Editora Abril/Conteúdo Expresso Vista parcial de Itabira | Secretaria de Turismo de Itabira/Museu de Itabira A presença de Drummond na Itabira atual: Nome de rua, da Fundação Cultural da Cidade entre outras referências. Hoje, os habitantes se referem a Itabira como a Cidade da Poesia. A presença de Itabira na obra de Drummond: A cidade é um motivo recorrente na obra do autor — a cidadezinha de ferro que se confundirá, a partir do livro Sentimento do mundo, com o caráter seco e mineral do poeta, infenso ao que na vida é porosidade e comunicação. 25 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 25 04/07/11 16:39
  26. 26. Litografia antiga de Itabira | Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais - FAPEMIG O nome “Itabira” tem sua origem na língua tupi, tendo como significado “árvore de pedra” ou “pedra que brilha”, (ita=pedra e bira=árvore, que brilha). No dia 9 de outubro de 1848, através da Lei Provincial nº 374, a Vila de Itabira do Mato Dentro foi elevada à categoria de ci- dade. ita pedra luzente pedra empinada pedra pontuda pedra falante pedra pesante por toda a vida bira candeia seca sono em decúbito tempo e desgaste sem confidência paina de ferro viva vivida pedra mais nada Drummond, Boitempo PEDRA NATAL ITABIRA26 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 26 04/07/11 16:39
  27. 27. ENTRADA - ADA + E+S - CO + MU - VELOPE + TRE - A + EIRAS - ETA + TAR. - BO + AR - AS - SO + I - NTE +VAGAR. UM UM - IMBO + ORRO - CA + I DEV + - ULHA +AR. - VA + M - ACO + RO - RAL + I DEVAGAR... - ´ Z + S - SSOURA + GAR.+ DE + S - O + AM. - OURO + TA - OLÃO - DA ETA... Drummond - ÃO + EU - Z + US. - SUPER - A + EIRAS Elucidação da Carta enigmatica| Veja pág. 100 CARTA ENIGMATICA 27 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 27 04/07/11 16:39
  28. 28. Itabira, Cauê e ferro Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê. Na cidade toda de ferro as ferraduras batem como sinos. ”Itabira” (série Lanterna mágica). Drummond, Alguma poesia O Pico do Cauê O pico do Cauê era uma formação geológica elevada, um mor- ro, que tinha, em sua composição rochosa, alto grau ferrífero. Essa característica é comum a toda a área do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais denominada Formação Cauê. O pico foi inteiramente demolido pela mineração da Vale (antiga Cia. Vale do Rio Doce — CVRD). Em seu lugar, resta uma cratera, onde existiu o pico. Pro- cesso idêntico ocorreu também com o Morro da Conceição, outra referência da cidade — que vive sérios problemas socioambientais por causa da indústria extrativa a céu aberto em sua região urbana, que se estende por uma área de aproximadamente 15 quilômetros. O pico do Cauê é uma forte referência simbólica, constitutiva da iden- tidade da cidade. Mas o alcance das operações de Cauê é também inter- nacional. A história do complexo minerador de Itabira é diretamente relacionada ao Japão. A modernização das minas e da ferrovia Vitória — Minas, além da construção do porto de Tubarão, foram viabilizadas pelas exportações de minério resultantes dos acordos Brasil (através da CVRD) — Japão. Nelson Brissac et al Se a vida passasse depressa, a estrada de ferro já teria posto os seus tri- lhos na orla da cidade; à sombra do Cauê, uma usina imensa reuniria dez mil operários, congregados em cinquenta sindicatos, e alguma coisa como Detroit, Chicago, substituiria o ingênuo traçado das ruas do Corte, do Bongue, dos Monjolos. Mas para que tanta pressa? Tudo virá a seu tempo, e se não fora agora, como não foi em 1898, quando o padre Júlio Engrácia dizia ironicamente que ‘depois que pelos diversos estudos ficou a esperança que passará na cidade uma via férrea, tem havido animação em construir: ao menos houve esta vantagem’ — algum dia há de ser, e tudo estará bem. Drummond, “Vila de Utopia”, Confissões de Minas Imagem do poeta-cronista com área do Cauê minerada ao fundo | Rogério Reis/Pulsar Imagens 28 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 28 04/07/11 16:39
  29. 29. O pico do Cauê na paisagem de Itabira e nas paisagens drummondianas | Secretaria de Turismo de Itabira/Museu de Itabira O pico do Cauê já não se alteia Mas no coração da gente ele resiste Drummond, José & Outros 29 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 29 04/07/11 16:39
  30. 30. O poeta-cronista lamentou, em muitas situações, a total demolição do pico do Cauê. Não sou Napoleão, mas tenho de subir à pedra do Arpoador para divisar, nas nuvens, qualquer coisa parecida com as montanhas de Minas. Fernando, diretor, acha que a cena será de grande efeito. Mas não é fácil ver o pico do Cauê, já demolido na realidade, erguer-se sobranceiro no céu. Drummond, O observador no escritório O pico do Cauê está presente nas imagens de Itabira construídas pelo escritor. Temos, nelas, o con- finamento geográfico por causa das montanhas, o destino duro do ferro, mas, também, a solidez e a força da pedra. Há, ainda, além disso, e especialmente em Boitempo, textos a respeito do abismo entre a eternidade que a montanha fazia vislumbrar e a destruição depois realizada com o avanço da indústria sobre a paisagem. A MONTANHA PULVERIZADA Chego à sacada e vejo a minha serra, a serra de meu pai e meu avô, de todos os Andrades que passaram e passarão, a serra que não passa. [...] Esta manhã acordo e não a encontro. Britada em bilhões de lascas deslizando em correia transportadora entupindo 150 vagões no trem-monstro de 5 locomotivas — o trem maior do mundo, tomem nota — foge minha serra, vai deixando no meu corpo e na paisagem mísero pó de ferro, e este não passa. Drummond, Boitempo a transformação da paisagem 30 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 30 04/07/11 16:39
  31. 31. Alguns anos vivi em Itabira. Principalmente nasci em Itabira. Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas. E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação. Drummond, Sentimento do Mundo E você? Tem o ferro presente em seu cotidiano? Quanto de ferro está encarnado em você? O ferro moldou Itabira e seus habitantes, a experiência humana de homens, mulheres e crianças das serras mineiras. Há, em sua região, uma riqueza tão forte que marque a vida dos seus conterrâneos? Descreva-a e represente-a, fotografe e monte suas memórias a respeito. Em “Confidência do itabirano”, o escritor também faz referência ao ferro, elemento presente na sua memória e na vida, nas paisagens que espelham um modo de progresso tecnológico, científico e cul- tural. 31 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 31 04/07/11 16:39
  32. 32. perCurso de Vida, no brasil MEMÓRIA Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do não. As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão. Drummond, Claro enigma Carta Portulano | O Tesouro dos Mapas A Cartografia na Formação do Brasil / Banco Santos _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 32 04/07/11 16:39
  33. 33. SÃO PAULO SÃO PAULO MINAS GERAIS BELO HORIZONTE RIO DE JANEIRO ITABIRA ESPÍRITO SANTO RIO DE JANEIRO NOVA FRIBURGO VITÓRIA O escritor faz esse percurso em dois momentos: a pri- meira vez em 1916 para o Colégio Arnaldo e, em 1920, com a família. Retorna, mais de uma vez, a Itabira. Primeiro, quando recebe aulas particulares antes de mudar-se para Nova Friburgo. Em outro momento, ao ser professor e, depois, quando tenta a vida na fazenda, por breves períodos. Muda-se como aluno do Colégio Anchieta, Nova Fri- burgo 1918–1919, de onde volta após expulsão por “in- subordinação mental”. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1934, onde vive até sua morte, em 1987. 33 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 33 04/07/11 16:39
  34. 34. Belo Horizonte Em 1916, Drummond tem 14 anos. Nesse ano, estuda em Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo, da Congregação do Verbo Divino. Em 1919, muda-se com a família para a capital de Minas Gerais. Nela, vive até 1926, quando, já casado, regressa a Itabira para tentar a vida de fazendeiro. Em menos de um ano, regressaria a Belo Ho- rizonte, onde fica até 1934, quando se muda para o Rio de Janeiro. A cidade é símbolo de modernidade, cidade-capital planejada, ar- quitetada segundo o ideário moderno. Quando chegamos ao colégio, em 1916, a cidade teria apenas cinquenta mil habitantes, com uma confeitaria na rua principal, e outra na avenida que cortava essa rua. Alguns cafés completavam o equipamento urbano em matéria de casas públicas de consumação e conversa, não falando no espantoso número de botequins, consolo de pobre. As ruas do centro eram ocupadas pelo comércio de armarinho, ainda na forma tradicional do salão dividido em dois: fregueses de um lado, dono e caixeiros de outro; alfaiates, joalherias de uma só porta, agências de loteria que eram ao mesmo tempo pontos de venda de jornais do Rio e ostentavam cadeiras de engraxate. Um comércio miúdo, para a clientela de funcionários estaduais, estudantes, gente do interior que vinha visitar a capital e com pouco se deslumbrava. Drummond, O sorvete Vista parcial da rua da Bahia no cru- zamento com avenida Afonso Pena. Em segundo plano, a esquerda vê-se o edifício do Bar do Ponto. Este edifí- cio abrigou o Congresso Provisório da Cidade, no inicio do século XX e, pos- teriormente, estabelecimentos comer- ciais. O Bar do Ponto tem esse nome porque ficava em frente ao ponto ini- cial e final dos bondes que percorriam a cidade | Acervo do Museu Histórico Abílio Barreto 34 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 34 04/07/11 16:39
  35. 35. A vida literária na Belo Horizonte dos anos 1920 se forma na rua da Bahia, no coração da cidade, onde a rapaziada se reúne, com sonhos de mudança e atitude vanguardista. Na rua, destaca-se o Bar do Ponto, referenciado pelo poeta e por seus compa- nheiros de geração, imortalizado em seus escritos. Uma literatura moderna é pensada na esquina da rua Bahia com Afonso Pena, pelo grupo de in- telectuais formado por Abgar Renault, Aníbal Machado, Emílio Moura, João Alphonsus, Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade. As paisagens de Belo Horizonte hoje são outras. Pouco restou dos prédios e locais pelos quais o po- eta passava nos anos 1920. A Livraria Alves, outro ponto de encontro do grupo modernista, já não existe mais. Situava-se na rua da Bahia, 1055. LIVRARIA ALVES Primeira livraria, rua da Bahia. A carne de Jesus, por Almáquio Diniz (não leiam! obra excomungada pela Igreja) rutila no aquário da vitrina. Terror visual na tarde de domingo. Volto para o colégio. O título sacrílego relampeja na consciência. Livraria, lugar de danação, lugar de descoberta. Um dia, quando? Vou entrar naquela casa, vou comprar um livro mais terrível que o de Almáquio e nele me perder –– e me encontrar. Drummond, Boitempo Imagem atual da rua Bahia | Fernando Goes 35 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 35 04/07/11 16:39
  36. 36. Drummond passeia pelas ruas de Belo Horizonte nos anos 1920 | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB 36 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 36 04/07/11 16:39
  37. 37. Vista aérea de Belo Horizonte | Acervo do Museu Histórico Abílio Barreto Sua mudança para Belo Horizonte deu-se em 1919, tendo morado em diversas pensões, no Hotel Avenida, no Internacional e na rua Silva Jardim, nos números 117 e 127. Esta a casa que frequentei só, com Alberto Campos, com Emílio Moura, para visitar o poeta. Era uma simpática edificação, defronte à igreja da Floresta, pintada de óleo verde, com entrada central, escada de degraus de mármore dando no “diminuto alpendre” cujas paredes ostentavam, como era moda em Minas, afrescos (o do pescador que ornava o prédio do Carlos foi-se, conforme verifiquei em romaria de saudade feita com Ângelo Osvaldo a 16 de dezembro de 1976). Esse al- pendre dava para as portas de serventia do domicílio e à direita, para a do quarto independente habitado pelo poeta. Em cima deste quarto, telhado de duas águas fazendo chalé, simétrico ao do lado oposto do imóvel. Os dois ligados pela cobertura da parte central.Tudo isto desapareceu, sendo substituído pela desgraciosa laje de concreto que deu ao edifício, que era gentil, aspecto de caixote. Mas estão lá o mesmo portão de serralheria, os degraus de mármore, a porta onde entrávamos com vinte anos, para conversar sobre tudo que nos vinha à cabeça, para resolver os problemas da terra, planejar arrasamentos, redigir manifestos, delinear depredações, salvar o mundo mundo vasto mundo do poema do próprio maistre de céans. [...] Não posso esquecer certo dia de fossa (naquele tempo era mais bonito: dizia-se blues) em que o Carlos e eu não nos julgamos nem à altura da casa e que fomos debateblaterar sentados na terra frouxa e ciscada do galinheiro cheio de titica, de aragens finas e peninhas esvo- açando. [...] Nós tínhamos vontade de nos matar, de matar. Não sei se o Carlos lembra certo poema. Merda de galinha sobre a nossa vida. Constantemente. Incessantemente. Pedro Nava, Beira-Mar 37 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 37 04/07/11 16:39
  38. 38. Em 1924, uma caravana modernista de São Paulo, que incluía Mário de Andrade, Oswald de Andrade, seu filho, Nonê, Tarsila do Amaral e o poeta franco-suíço Blaise Cendrars, aporta em Belo Ho- rizonte. Drummond e seus amigos Pedro Nava, Martins de Almei- da, João Alphonsus e Emílio Moura, todos jovens mineiros escri- tores que se iniciavam nas atividades literárias, acorrem ao Grande Hotel, onde estava hospedada a trupe paulistana. Assim relata Drummond o episódio: “Uma tarde, em 1924, tive- mos notícia de que no Grande Hotel se hospedava uma caravana modernista de São Paulo. [...] Assistimos ao final de jantar (minei- ros e precavidos, já tínhamos jantado). Depois, saímos todos, rua da Bahia abaixo, em direção à avenida Afonso Pena. Conversa genera- lizada e alegre, com Oswald em sua natural desenvoltura, Cendrars expandindo sua curiosidade de francês interessado em tudo, prin- cipalmente em captar a cor local da vida mineira. No desenvolver desse multidiálogo sem rumo, foi-se logo revelando, para mim e meus companheiros, a personalidade de Mário. Mesmo brincando, ele inspirava uma confiança intelectual que Oswald, muito mais bri- lhante e imprevisto, seria incapaz de despertar.” O encontro é de grande importância para os jovens, que iniciam assíduas correspondências com Mário de Andrade,as quais se esten- dem pelos próximos anos. Para os paulistas, a “viagem de descoberta do Brasil” significava injetar profundidade histórica à reflexão sobre a modernidade que o movimento modernista de 1922 encarnava. Para os mineiros, os paulistas vieram lhes fazer descobrir Minas, uma vez que eles só tinham olhos para a Europa. Para os paulistas, Minas lhes mostra o Brasil. O MODERNISMO 38 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 38 04/07/11 16:39
  39. 39. Estrada de Ferro Central do Brasil, de Tarsila do Amaral, 1924 39 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 39 04/07/11 16:39
  40. 40. Mário de Andrade em sua casa na rua Lopes Chaves. São Paulo, início da década de 1940 | Acervo Iconographia Murilo Mendes, 1995 | Folhapress alguns retratos de uma geração Cândido Portinari, 1938 | Fundação Getulio Vargas - CPDOC Oswald de Andrade, 1926 | Acervo Iconographia 40 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 40 04/07/11 16:39
  41. 41. Antonio Candido, 1946 | Acervo Iconographia Anita Malfatti, 1912 | Acervo Iconographia Otto Maria Carpeaux, 1959 | Folhapress Tarsila do Amaral e “Morro da favela”, 1925 | Acervo Iconographia 41 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 41 04/07/11 16:39
  42. 42. Antes da publicação de seu primeiro livro de poemas, Alguma poesia, em 1930, Drummond publica vários dos po- emas que depois integrariam seu primeiro volume de poesias em revistas que desdobram a lição do modernismo de 1922. Estética, Rio Janeiro, abril, 1925 | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin Revista do Brasil, Rio de Janeiro, dez. 1926 | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin Verde, Cataguazes-MG, 1927 | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin Capa da 1ª edição de Alguma poesia, 1930 | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin Ao lado: Revista de Antropofagia, São Paulo, julho, 1928 | Lucia Loeb/Biblioteca José e Guita Mindlin 42 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 42 04/07/11 16:39
  43. 43. No meio do caminho tinha um poema que causou muito burburinho na vida literária brasileira, mesmo em tempos de ruptura de padrões modernistas. Não se pode negar que, hoje, é o poema mais conhecido de Drummond. “No meio do caminho” 43 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 43 04/07/11 16:39
  44. 44. Mário de Andrade, em carta a Drummond (1924 ou 1925): “O ‘No meio do caminho’ é formidável. É mais forte exemplo que conheço, mais bem frisado, mais psicológico de cansaço intelectual.” Ainda Mário, em carta de 1926: “Acho isso formidável. Me irrita e me ilumina. É símbolo.” Cyro dos Anjos, em Minas Gerais, 1930: “Nesse poema pode-se medir a força transmissora de sentimento na poesia moderna. Poema breve, sem nenhuma palavra bonita. Mas como se exprime nele com riqueza de cores, um drama interior e como se comunica toda a sua potencialidade emocional. Uma pedra no meio do caminho. O leitor também a teve, do contrário não compraria um livro de versos. E esse leitor é que pode avaliar a insistência daquela lembrança obsedante da pedra no meio do caminho.” Henri, em Monitor Campista, 1943: “Também eu não compreendo, e creio que muita gente, a tal história da ‘pedra no caminho’. Diabo! Encontrei uma pedra no caminho, a pedra estava no caminho. Afinal de contas que é isso? Versos? Não. Não pode ser. Deve ser pilhéria do sr. Carlos Drummond. Decididamente é pilhéria.” Flávio Brandt, em Diário de Notícias, 1944: “Antigamente as pedras serviam para serem atiradas nos maus poetas; hoje os versejadores modernistas as encontram pelo meio dos caminhos, desviam-se das mesmas para não tropeçarem e fazem um poema impresso para que Charge retratando CDA, por Alvarus | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB “No meio do caminho” nas vozes da crítica: Na página anterior, encontra-se o poema mais conhecido de Car- los Drummond de Andrade, “No meio do caminho”. O poema, es- crito ao final de 1924, foi publicado em julho de 1928, na Revista de Antropofagia, e provocou reações dos mais diversos tons por parte da crítica. A Revista de Antropofagia circulou em 1928 e 1929, sob a respon- sabilidade de Oswald de Andrade e um grupo de amigos, tais como Antônio de Alcântara Machado e Raul Bopp. Sua concepção gráfica foi inovadora, e, aliada à retórica de ruptura, pretendia resgatar as matrizes brasileiras recalcadas, sem deixar de lado o progresso da contemporaneidade. 44 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 44 04/07/11 16:39
  45. 45. o público saiba que o poeta viu uma pedra no meio do caminho, o que constitui para os vates das musas de elefantíases um fato inédito e um tema poético de rara beleza. Ou estou doido ou vocês estão errados.” Oscar Queiroz, em Gazeta de Notícias, 1948: “O soneto é a mais in- teressante forma da poesia clássica, infinitamente acima das aviltantes tolices com as quais o bloco de pedra na cabeça e não no caminho como dizem por aí, de pedra na cabeça e na mão que apedreja o Belo, pretende desmoralizar e anular as nossas sagradas tradições artísticas, o que me parece caso de cadeia, porque não é justo nem admissível a impunidade de tão monstruosos crimes!” Davi Arrigucci, em Coração partido, 2002: “O poemeto constitui, portanto, não só a pedra de escândalo modernista que marcou a inau- guração do universo poético de Drummond, pelo rebaixamento ines- perado, irônico e contundente da poesia ao terra-a-terra mais trivial, mas a meditação básica e simbólica do poeta sobre o ato criador, cujo caráter problemático vem aí expresso curto e grosso como um desaforo para quem podia esperar do poético só mistério e elevação.” Caricatura de Augusto Rodrigues, 1943. O rei Vítor Manuel, da Itália, é a “pedra no caminho” dos aliados na Segunda Guerra Mundial | Augusto Rodrigues _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 45 04/07/11 16:39
  46. 46. É com ironia que Carlos Drummond de Andrade con- clui sua “Autobiografia para uma revista”: “[...] sou o autor confesso de certo poema, insignificante em si, mas que a partir de 1928 vem escandalizando meu tempo, e serve até hoje para dividir no Brasil as pessoas em duas categorias mentais.” De tudo quanto foi meu passo caprichoso na vida, restará, pois o resto se esfuma, uma pedra que havia em meio do caminho. “Legado”. Drummond, Claro Enigma Esta composição de Francisco Mignone foi apresentada em primeira audição na Escola Nacional de Música, pela cantora Nair Duarte Nunes, em agosto de 1938 | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB e na voz do autor: DADOS BIOGRÁFICOS Mas que dizer do poeta numa prova escolar? Que ele é meio pateta e não sabe rimar? [...] Que encontrou no caminho uma pedra e, estacando, muito riso escarninho o foi logo cercando? Drummond, Viola de bolso 46 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 46 04/07/11 16:39
  47. 47. Versão hebraica do poema “No meio do caminho”, por Hamilton Nogueira, 1964 | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB Crie a sua versão do poema de Carlos Drummond de Andrade. um poema pelo mundo... AZ ÚT KÖZEPÉN Az út közepén volt egy kö egy kö volt az út közepén volt egy kö az út közepén egy kö volt. Soha nem falejtem el ezt az eseményt amig csak fáradt retinám él. Soha nem falejtem, hogy az út közepén volt egy kö egy kö volt az út közepén az út közepén egy kö volt. Em húngaro, por Paulo Rónai, 1930 47 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 47 04/07/11 16:39
  48. 48. rio de janeiro a casa de um itabirense muito carioca Carlos Drummond de Andrade viveu a maior parte da sua vida no Rio de Janeiro, de 1934 a 1987, ou seja, 53 dos seus 85 anos. Por todo esse tempo, foi um observador atento dos hábitos e das mudanças que marcaram a vida da Cidade Maravilhosa.Viveu em Copacabana, passando por três endereços, e deu lugar a muitas referências ao Rio de Janeiro em suas crônicas e na poesia. De 1934 a 1941, viveu na rua Princesa Isabel, em uma casa de vila; depois, de 1941 a 1962, em uma casa na rua Joaquim Nabuco; e, finalmente, em um apartamento na rua Conselheiro Lafaiete. CORAÇÃO NUMEROSO Foi no Rio. Eu passava na avenida quase meia-noite. Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis. Havia a promessa do mar e bondes tilintavam, abafando o calor que soprava no vento e o vento vinha de Minas. [...] Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas autos abertos correndo caminho do mar voluptuosidade errante do calor mil presentes da vida aos homens indiferentes, que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram. O mar batia em meu peito, já não batia no cais. A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu a cidade sou eu sou eu a cidade meu amor. Drummond, Alguma poesia 48 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 48 04/07/11 16:39
  49. 49. Copacabana, algumas construções e Prédio do Hotel Copacabana Palace ao centro | Domingos Kaiser/Arquivo G. Ermakoff Praia de Copacabana, com prédios e casario ao fundo | Arquivo Nacional Bonde, centro da cidade do Rio de Janeiro, Cinelândia | Aristogiton Malta/Arquivo G. Ermakoff _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 49 04/07/11 16:39
  50. 50. Panorâmica do Rio de Janeiro, vista pela Enseada de Botafogo| Marcella Azal Observador ambivalente de um camarote recuado da história brasileira e mundial, Drummond não cessa de apontar-lhe os problemas “crônicos”. A atualidade dos textos de Drummond referentes às questões urbanas e sociais da cidade do Rio de Janeiro permanece.Temas como os transportes, a especulação imobiliária e a faveli- zação estão registrados e refletidos em sua escrita. Exemplos: 1. Favelização no Rio de Janeiro (“Crônica de Janeiro”, Versiprosa, “Capítulo do Gênesis” e “O ladrão”, A bolsa e a vida, “O telhado”, Caminhos de João Brandão); 2. População pobre no Rio de Janeiro (“Debaixo da ponte” e “Areia branca”, A bolsa e a vida); 3. Mudança da capital para Brasília (“Destino: Brasília” e “Canção do fico”, Versiprosa). São temas constantes das crônicas os moradores ilustres com que Carlos Drummond de An- drade conviveu e dialogou no Rio de Janeiro (Vinicius, Cartola, Ferreira Gullar). Nas crônicas, Drummond tratará, com sua elegância e fineza habituais, de pro- blemas comezinhos e grandes como a falta de água e a especulação imobiliária no Rio de Janeiro, os acidentes comuns da vida urbana, a sobrevivência das culturas indígenas, as igrejas de escravos no período colonial mineiro, a nobreza do samba de Cartola. Pequenas intervenções na vida brasileira e mundial, numa tarefa sutil de salvamento do humano onde quer que ele se refugie, sinalizando o perigo iminente de sua destruição terminal. 1951 — Janeiro, 22 — Tarde de chuva fina, no centro. Junto à Livraria, observo mi- nuciosamente as ruínas do tempo, que me sorriem. Para não sofrer com o espetáculo, prefiro fechar os olhos. Eles, porém, inspecionam por conta própria, máquina fotográfica a funcio- nar independente de mim. Chove no passado, chove na memória. O tempo é o mais cruel dos escultores, e trabalha no barro. Drummond, O observador no escritório 50 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 50 04/07/11 16:39
  51. 51. Rio: ontem, hoje, amanhã PÃO DE AÇÚCAR O grande pão de mel suspenso entre mar e céu insinua os prazeres da cidade. A boca, o paladar, a trama dos sentidos serpenteia lá embaixo. O sol nascente e o sol cadente vestem de púrpura a forma rígida. Nuvens ciganas brincam de subtraí-la. A cada hora, desintegra-se, recompõe-se, assume formas inéditas de transparência. Tem as cores da vida e o sigilo da sombra. É montanha ou aparição crepuscular. Drummond, Poesia errante Praia A céu aberto reúnem-se em congresso os corpos que a manhã torna esculpidos, ao entardecer envoltos de doçura. Aqui pousam morenas redondezas entregues à delícia de existir ao calor da onda glauca, sem problemas. Existir, simplesmente — a vida é cor, é curva adolescente, é surfe e papo. O mar, irmão. O cão namora o peixe? A barraca levada pelo vento? A obrigação tediosa postergada? Deixa fluir o tempo! O tempo é nada. Drummond, Poesia errante 51 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 51 04/07/11 16:39
  52. 52. Percursos drummondianos — maneiras de percorrer o mundo urbano, viver a cidade Todas as cidades que fui conhecendo mais tarde suscita- ram uma composição poética, ou um trecho, e quando eu não vi a cidade confessei puerilmente: Não falo porque nunca fui lá (caso da Bahia). Depoimento apresentado ao Jornal de Letras, mar. 1955, p. 16 As referências à cidade nos textos de Carlos Drum- mond de Andrade são muito frequentes, seja por tra- tarem de fatos e situações cotidianas, dessas que se pode acompanhar na rua, seja por explicitarem mu- danças e transformações, ou, ainda, por se referirem a hábitos e costumes tipicamente urbanos. A poesia de Drummond é majoritariamente urbana. A vida no interior é ainda vida na cidade, na pequena cidade ameaçada pelos domínios dos grandes centros (a especulação imobiliária, os objetivos dos lucros das grandes empresas mineradoras). Estamos no âmbito do “tempo presente”, no momento em que a cidade está em perigo. Viver a cidade Drummond pelas ruas do Rio de Janeiro | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 52 04/07/11 16:39
  53. 53. RUAS Por que ruas tão largas? Por que ruas tão retas? Meu passo torto foi regulado pelos becos tortos de onde venho. Não sei andar na vastidão simétrica implacável. Cidade grande é isso? Cidades são passagens sinuosas de esconde-esconde em que as casas aparecem-desaparecem quando bem entendem   e todo mundo acha normal. Aqui tudo é exposto evidente cintilante. Aqui obrigam-me a nascer de novo, desarmado. Drummond, Boitempo 53 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 53 04/07/11 16:39
  54. 54. Descreva ou rabisque mapas de seus trajetos pela cidade ou área rural onde você vive. Quais os lugares preferidos, quais histórias são recordadas neles? As cenas e imagens urbanas com e do Carlos Drummond de Andrade — Itabira, Belo Ho- rixonte, Rio de Janeiro — são os principais exemplos desse “olhar e experimentar” a cidade, e, a partir deles, podemos reco- nhecer sua sensibilidade para com as questões urbanas em crônicas e poesias. Ex.: Registrando as mudanças no morro da Catacumba (Arqui- vo Agência O Globo); o poeta na feira do livro na praça (Cinelân- dia, RJ), na rua, em passeios. 54 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 54 04/07/11 16:39
  55. 55. […] É feia. Mas é realmente uma flor. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura. Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se. Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. “A Flor e a náusea”. Drummond, A rosa do povo Admitirá que segredos iguais se cultivam na grande cidade e, mes- mo, que uma cidade, exclusão feita de prédios, veículos, objetos e outros símbolos imediatos, não é mais que a conjugação de inúmeros segredos dessa ordem, idênticos e incomunicáveis entre si, e pressentidos somente por poesia ou amor, que é poesia sem necessidade de verso. “Segredos”. Drummond, Passeios na ilha BELO HORIZONTE Debaixo de cada árvore faço minha cama, em cada ramo dependuro meu paletó. Lirismo. Pelos jardins Versailles ingenuidade de velocípedes. Drummond, Alguma poesia Cotidiano de Drummond no Rio de Janeiro | Alair Gomes/Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB 55 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 55 04/07/11 16:39
  56. 56. ARGENTINA BRASIL Carlos Drummond de Andrade tinha conhecimento aprofundado da língua france- sa, tanto que traduziu diversas obras de autores im- portantes daquela cultura. Esse domínio do idioma pelo poeta nos revela o quanto é possível conhecer de outros mundos por meio da língua e da cultura de seus povos. Esse domínio do francês indica tam- bém o quanto o idioma era valorizado no início do século XX, resultado da influência de importantes pensadores e romancistas franceses que marcam até hoje o mundo literário e filosófico, bem como di- versas áreas do conhecimento contemporâneo. Os autores traduzidos são Balzac, Molière e Proust. Exemplo: 1943 — Thérèse Desqueyroux, de Fran- çois Mauriac, sob o título de Uma gota de veneno; 1947 — Les Liaisons dangereuses, de Choderlos de Laclos, sob o título de As relações perigosas; 1954 — Les Paysans, de Balzac; 1956 — Albertine Dis- parue, de Marcel Proust; 1960 — Oiseaux-mouches ornithorynques Du Brésil, de Descourtilz; 1962 — L’Oiseau bleu, de Maurice Maeterlinck; 1962 — Les Forurberies de Scapin, de Moliére — encenada no Tablado; 1963 — Sult (Fome), de Knut Hamsum. perCursos no mundo 56 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 56 04/07/11 16:39
  57. 57. ESCALA 800 1 600 km0 ESPANHA FRANÇA Carlos Drummond de Andrade fez também traduções de autores de língua espanhola para o português, o que nos revela o conhecimento apurado do idioma, bem como de elementos da cultura hispânica. Esse universo da língua espanhola está muito presente nos países latinoame- ricanos vizinhos do Brasil, além da própria Espanha, na Europa, e outros países do mundo. Exemplo: 1958 — Doña Rosita la Soltera, de Frederico García Lorca, como (tradução e encenação). Único país visitado por Drummond em viagem de motivação familiar, por ocasião do nasci- mento dos netos na Argentina. _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 57 04/07/11 16:39
  58. 58. Olhadores de anúncios Drummond mostrou-se um observador atento. A crônica “Olhador de anúncio” traz uma perspectiva muito bem-humo- rada sobre as propagandas e os artifícios de que elas se utiliza- vam para seduzir o consumidor. Olhador de anúncio Eis que se aproxima o inverno, pelo menos nas revistas, cheias de anúncios de cobertores, de lãs e malhas. O que é desenvolvimento! Em outros tempos, se o indivíduo sentia frio, passava na loja e adquiria os seus agasalhos. Hoje são os agasalhos que lhe batem à porta, em belas mensagens coloridas. Mas sempre é bom tomar conhecimento das mensagens publici- tárias. É o mundo visto através da arte de vender. “As lojas fazem tudo por amor”. Já sabemos que esse tudo é muito relativo. “Em nossas vitrinas a japona é irresistível”. Então, precavidos, não passaremos adiante das vitrinas. E essa outra mensagem, é mesmo, de alta pru- dência:“Aprenda a ver com os dois olhos”. Precisamos deles para nave- gar na maré de surrealismo que cobre outro setor da publicidade: “Na liquidação nacional, a casa tritura preços”. Os preços virando pó, num país inteiramente líquido: vejam a força da imagem. [...] A bossa dos anúncios prova o contrário. E ao vender-nos qualquer mercadoria, eles nos dão de presente “algo mais”, que é produto da imaginação e tem serventia, as coisas concretas, que também de pão abstrato se nu- tre o homem. Drummond, Prosa seleta VOCÊ SABIA? Até o início do século XX, os anúncios publicitários impressos em periódicos perpetuavam a tradição do uso de caricaturas, assinadas por renomados ilustradores — Raul Pederneiras e Di Cavalcanti fizeram trabalhos desse tipo. Revista Autosport, 1912 Alguns produtos, como remédios e cigarros, que hoje têm restrição de di- vulgação comercial, cir- culavam em anúncios da mesma forma que outros produtos. 58 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 58 04/07/11 16:39
  59. 59. Realidade, 1966 O Cruzeiro, 1928 A partir dos anos 1920, a impressão em cores tornou-se mais comum, devido à evolução dos equipamentos gráficos. A partir da década de 1970, a exposição do corpo, especial- mente da mulher, torna-se co- mum nos anúncios. A década de 1950 inaugura um novo mercado a ser vendido nos anúncios: o dos automóveis e dos aparelhos de TV. O Cruzeiro, 1938 Seleções, 1958 59 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 59 04/07/11 16:39
  60. 60. EU, ETIQUETA Em minha calça está grudado um nome que não é meu de batismo ou de cartório um nome... estranho. Meu blusão traz lembrete de bebida que jamais pus na boca, nesta vida. Em minha camiseta, a marca de cigarro Que não fumo, até hoje não fumei. [...] Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, minha gravata e cinto e escova e pente, meu copo, minha xícara, minha toalha de banho e sabonete, meu isso, meu aquilo, desde a cabeça ao bico dos sapatos, são mensagens, letras falantes, gritos visuais, ordens de uso, abuso, reincidência costume, hábito, premência, indispensabilidade, e fazem de mim homem-anúncio itinerante, escravo da matéria anunciada. [...] eu que antes era e me sabia tão diverso de outros, tão mim mesmo, ser pensante, sentinte e solidário com outros seres diversos e conscientes de sua humana, invencível condição. Agora sou anúncio, ora vulgar ora bizarro, em língua nacional ou em qualquer língua (qualquer principalmente). E nisto me comparo, tiro glória de minha anulação. [...] Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher, minhas idiossincrasias tão pessoais, tão minhas que no rosto se espelhavam, [...] Por me ostentar assim, tão orgulhoso de ser não eu, mas artigo industrial, peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente. Drummond, Corpo O Cruzeiro 60 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 60 04/07/11 16:39
  61. 61. Drummond assistiu às duas grandes guerras mundiais: a primeira, de 1914, que se estendeu até 1918; e a segunda, que foi de 1939 a 1945. A angústia dos confrontos foi tema de muitos dos escritos drummondianos. O sentimento do mundo Soldados russos no campo de batalha em fevereiro de 1943 | Pictorial Parade/Getty Images Sentimento do mundo Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo, mas estou cheio de escravos, minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. Quando me levantar, o céu estará morto e saqueado, eu mesmo estarei morto, morto meu desejo, morto o pântano sem acordes. [...] Drummond, Sentimento do mundo 61 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 61 04/07/11 16:39
  62. 62. A ONU A função da Organização das Nações Unidas, criada com o fim de esta- belecer cooperação entre os países e evitar novos conflitos, é lembrada por Drummond na crônica “A ONU, essa desconhecida”: Uma vez que fora da ONU não haverá solução para os problemas de convivência entre as nações, agravando-se a fúria dos grupos econômicos que se digladiam, e que, tanto como indivíduos tanto como povo, precisamos ter uma visão clara do mundo, levemos a ONU às escolas. [...] Não instilemos nos meninos e adolescentes a chamada ‘insônia internacional’. Expliquemos-lhes, com a maior simplicidade e verdade, o que é, o que vale, o que pode ainda valer para o bem de todos a ONU. As primeiras gerações formadas pela república deram-se muito bem com uma disciplina singela, a instrução moral e cívica, que nunca degenerou em propaganda pessoal dos governantes. Dentro dela caberia essa informação aos pequenos: — Não devemos desanimar. A guerra pode ser evitada; pelo menos é nossa obrigação fazer tudo por evitá-la; e na ONU está a esperança. (09/02/1954) Na crônica escrita por ocasião da morte de Lasar Segall, fala do horror da guerra e do trabalho do pintor: Navio de emigrantes, Pogrom, Campo de concentração, Êxodo, Guerra não precisam ser citadas para documentar a humanidade de Segall. Mas esses retratos do nosso tempo honram o pintor sobretudo porque este, submisso às exigências mais es- tritas da arte, e com a brandura peculiar a seus meios, induziu mais à misericórdia do que ao ódio. O horror dos espetáculos não foi atenuado, e até punge mais, porque o artista o velou sob tons surdos, monótonos, quase indiferentes. Em outra crônica (WRI), cita uma declaração da associação War Resister’s International: A guerra é um crime contra a humanidade.Estamos decididos a negar apoio a qualquer espécie de guerra e a trabalhar pela abolição de todas as causas de guerra. (01/06/1958) 62 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 62 04/07/11 16:39
  63. 63. Pogrom, Lasar Segall, 1937, pintura a óleo com areia sobre tela, 184 x 150cm | Acervo do Museu Lasar Segall-IBRAM/ MinC Navio de emigrantes, Lasar Segall, 1939/41, pintura a óleo com areia sobre tela, 230 x 275cm | Acervo do Museu Lasar Segall-IBRAM/ MinC _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 63 04/07/11 16:40
  64. 64. Antes da existência dos e-mails,o hábito de se comunicar por intermédio de cartas era muito comum. Drummond foi grande praticante dessa forma de comunicação — o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa, registra mais de 1.830 correspondências, de famosos e desconhecidos. Em meio a todo esse acervo, há cartas de cunho político, pessoal e literário, sem contar as cartas de leitores. A verdade é que sempre me revoltei contra uma das mentiras convencionais deste país: a de que o brasileiro não escreve, não gosta de escrever carta. Como não gosta? Não faz outra coisa senão escrevê-las. “Mania de escrever carta”. Drummond, 17/03/1970 Nas cartas que escrevo, costuma insinuar-se o rascunho da grande carta (grande? ou con- terá só duas linhas?), mas bem sei que não adianta rascunhar o que não pode ser previsto e menos ainda planejado. “O projeto de carta”. Drummond, 07/01/1976 Cartão postal enviado a Drummond, por Jorge Amado, de Sevilha, em julho de 1978 | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB Remetente: Carlos Drummond de Andrade 64 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 64 04/07/11 16:40
  65. 65. Para: Gustavo Capanema 4 agosto de 1930 Meu querido Capanema [...] Demorei um pouco a mandar o seu famoso álbum. As razões, você já sabe: a minha incurável incapacidade epistolar, que me inibia de escrever duas linhas afetuosas acompanhando o tal e também a incurável falta de honestidade dos nossos poetas, que nunca fazem aquilo que prometem... Para: Mário de Andrade Itabira, 3 março 1926 Mario querido, Pronto. Estou em Itabira com armas e bagagem. Andei oito léguas no lombo do burro, debaixo de chuva e com atoleiros medonhos. Desconfio que sou herói. Meu endereço é Itabira do Mato Dentro, estado de Minas. [...] De: Mario de Andrade São Paulo, 10 de março de 1926 Carlos do coração, Um abraço. Agora você está em Itabira do Mato Dentro. Precisa trabalhar, hein, Carlos. [...] Não quero absolutamente que você se perca aí e abandone as coisas de pensamento pra que tem um certo jeito e que fazem parte do destino de você, tenho a certeza. De: João Cabral de Melo Neto 17 de janeiro de 1942 Se lhe desagradar a opinião dos jornais e revistas, não publique para eles; publique para o povo. Mas o povo não lê poesia... Quem disse? Não dão ao povo poesia. Ele, por sua vez, ignora os poetas. [...] Para: João Cabral de Melo Neto 5 de janeiro de 1950 “[...] sabe que em matéria de correspondência eu sou como a mula velha e incorrigível.” De: Antonio Candido 15de agosto 1987 Meu caro, muito caro Drummond: Confesso a dificuldade em escrever a propósito dessa inversão terrível da ordem natural que é a partida dos filhos antes dos pais [...] Um ser de alta qualidade, cuja falta há de ser insuportável para a mãe e o pai. A ambos o abraço mais afetuoso e solidário de Gilda e do honestidade dos nossos poetas, que nunca fazem aquilo que prometem... sabe que em matéria de correspondência eu sou como a mula velha e incorrigível.” _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 65 04/07/11 16:40
  66. 66. _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 66 04/07/11 16:40
  67. 67. Ao mesmo tempo Drummond foi Chefe de Gabinete do Ministro Gustavo Capanema, em pleno Estado Novo, e mostrava-se muito engajado nas causas sociais. Com a sua saída do gabinete de Capanema,no entanto,firmando-se nele o desejo de “militar contra o ditador” Getúlio Vargas, sua par- ticipação jornalística se adensa, dando-se aí a significativa passagem da crônica literária ao comentário cada vez mais interventivo nos fatos cotidianos. Menos de um mês depois de deixar o Ministério da Educação e Saúde, ele é sondado por Paulo Bittencourt, diretor do Correio da Manhã. Drummond assim menciona o fato em seu diário: “Junto à colaboração literária, pretende fazer de mim jornalista político: edi- torial e tópicos.” Sua reação, no entanto, é ambivalente: “Meio ator- doado, procuro sentir-me na pele de editorialista, mas falta alguma coisa na minha vontade de atuar politicamente: falta precisamente a vontade, a garra, a paixão; é uma atitude intelectual, contra a minha natureza. Veremos.” O convite não se materializa. Mas, menos de um mês depois, em 1.° de maio, ele aceita partici- par do Conselho Diretor de O popular, convertido adiante em Tribu- na Popular, com compromisso de escrever com grande regularidade. Apesar do entusiasmo inicial, a sua participação dura muito pouco, pouco menos de dois meses. Em 22 de junho, ele comunica a reso- lução de deixar o comitê da direção do jornal. Quando começa a es- crever crônicas três vezes por semana no Correio da Manhã, em 1954, portanto, não mais como jornalista “bissexto”, ele ainda trabalhava na “burocracia”, junto com Rodrigo M. F. de Andrade, como chefe da Seção de História,na Divisão de Estudos e Tombamento do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), posto que assumira ainda em 1945 e do qual se aposentará em 1962. Poema “Quando” (1945). Inédito em livro, mas preservado no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB Carlos Drummond de Andrade e o Estado Novo 67 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 67 04/07/11 16:40
  68. 68. MÁQUINAS DE ESCREVER 1714 Pellegrino Turri constrói máquina de escrever para sua ami- ga, a Condessa Fantoni, que era cega (Itália). 1870 “Bola de escrever”, do pastor dinamarquês Malling Hansen. 1873 E. Remington and Sons, fabricantes de armas, compraram os direitos de fabricação da máquina de escrever em 1872. 1874 Máquina de escrever Scholes&Gliden (Estados Unidos). Seu principal criador, Chistopher L. Scholes, era jornalista, poe- ta e, por vezes, inventor. 1895 Underwood – modelo de máquina de escrever que foi segui- do ao longo do século XX. 1900 É inventada a máquina de escrever portátil. 1920 É inventada a máquina de escrever elétrica. 1930 A IBM lança a máquina Eletronate. 1964 A IBM Seletic permite vislumbrar o que será um processador de texto. 1985 A Microsoft lança o Word 1.0, primeira versão do processador de texto mais popular atualmente. Carlos Drummond de Andrade escreveu seus textos a mão e a máquina. Em “Nota Social”, podemos verificar o sistema de criação do escritor. Dolores observa Drummond em sua máquina de escrever | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB Página 69: Datiloscrito do poema “Nota Social” de 1923, publicado em 1930 em Alguma poesia, com intervenções de Mário de Andrade | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/ FCRB 68 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 68 04/07/11 16:40
  69. 69. _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 69 04/07/11 16:40
  70. 70. um paláCio Drummond entre os pilotis do palácio | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/ FCRB Projeto de Le Corbusier (1936) | Marcella Azal/Acervo Iphan Domingo, 23 de junho de 194... Meu caro Carlos, Para não transmitir ao nosso amigo Capanema impressões intei- ramente levianas a respeito dos projetos submetidos ao exame da Co- missão julgadora do Concurso aberto para o Edifício do M.E., Manuel Bandeira e eu recorremos a um arquiteto de talento e digno de forte con- fiança. Rodrigo de Melo Franco de Andrade Nos anos 1930, o Governo Federal constrói ministérios e mo- numentos no Rio de Janeiro, apostando em uma nova face para a cidade. O Ministro Gustavo Capanema faz parte desse esforço renovador e abre, em abril de 1935, concurso de anteprojetos para o prédio que irá abrigar o Ministério da Educação e Saúde. O projeto vencedor do concurso, de Archimedes Memória, tinha cara de passado: prédio neogrego com motivos da flora e fauna ama- zônica, calcado na arte marajoara. Os artistas modernos não se con- formam com a escolha e pressionam Capanema para deixar de lado o concurso.Deste grupo fazia parte Carlos Drummond de Andrade. O ministro Gustavo Capanema convida Lúcio Costa, Afonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Maia, Ernandes Vasconcelos e Oscar Niemeyer para projetar o prédio do ministério. Lúcio Costa, por sua vez, chama Le Corbusier para prestar consultoria. Os cro- quis do arquiteto franco-suíço servem de base ao projeto, com uma série de modificações propostas por Oscar Niemeyer. Orgulho da arquitetura nacional, marca do moderno no Brasil, o Palácio Capa- nema, como hoje é conhecido, tornou-se um marco da arquitetura brasileira e internacional. 70 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 70 04/07/11 16:40
  71. 71. Drummond ocupa uma das salas desse prédio em 1944, como chefe de gabinete de Gustavo Capa- nema, e volta a ele para trabalhar no Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), convidado por Rodrigo Melo Franco de Andrade. Seu cargo era o de chefe da Seção de História, na Divisão de Estudos e Tombamentos, mas, na verdade, foi durante quase 20 anos chefe do arquivo. A ele se dedicou com cuidado, precisão e inventividade. Palácio Gustavo Capanema | Ricardo Azouri/Pulsar imagen | Marcel Gautherot/Fundação Getulio Vargas - CPDOC Jardim suspenso criado pelo paisagista Roberto Burle-Marx | Ricardo Azouri/Pulsar imagens Azulejos de Cândido Portinari. O prédio tem também painéis de Guignard, Pancetti, e esculturas de Bruno Giorgi | Ricardo Azouri/Pulsar imagens À esquerda no detalhe: Quebra-sol (brise-soleil) na fachada norte, que permite a entrada de luminosidade, e não o ofuscamento Maquete do Palácio Gustavo Capanema | Max Rosenfeld/Fundação Getulio Vargas - CPDOC | Ricardo Azouri/Pulsar imagen Pilotis em escala monumental, que parecem deixar o prédio flutuando: Praça, que permite a passagem de pedestres sem entraves 71 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 71 04/07/11 16:40
  72. 72. drummond arQuiVista Objetos do Museu Carlos Drummond de Andrade apresentou uma tendência a apontar acontecimentos, fazer listas, rotular experiências, classifi- cando o mundo para tentar compreendê-lo a partir do seu olhar. Tratou de pensar o mundo ordenando-o (ou desordenando-o) por exercícios de sensibilidade. A criação de um museu de literatura coaduna-se a essa tendência arquivista do autor, manifestada na maneira como organizava suas fotos, cartas, textos, desenhos. Drummond a apresenta como sonho e fantasia, em crônica publicada no Jornal do Brasil em 11 de julho de 1972. Velha fantasia deste colunista –– e digo fantasia porque continua dor- mindo no porão da irrealidade –– é a criação de um museu de literatura. Temos museus de arte, história, ciências naturais, carpologia, caça e pesca, anatomia, patologia, imprensa, folclore, teatro, imagem e som, moedas, armas, índio, república... de literatura não temos [...] Drummond, Jornal do Brasil, 11 de julho de 1972 Desde 28 de dezembro de 1972 a Fundação Casa de Rui Barbo- sa abriga em sua sede, situada à rua São Clemente, 134, Botafogo, Rio de Janeiro, o Arquivo-Museu de Literatura Brasileira. Inicial- mente foi dirigido por Plínio Doyle e no momento reúne acervos de escritores como Clarice Lispector, Manuel Bandeira e o próprio Drummond, além de um acervo museológico que reúne cerca de 1.200 peças de natureza diversa: canetas, medalhas, móveis, peças de indumentária... Os guardados estão em ordem, graças a ele, que não tem fama de or- ganizado, enquanto eu, o arquivista profissional, sinto que por mim a arrumação jamais se faria. Sem tristeza os tiramos da arca, miramo-los, notamos este ou aquele pormenor que ficou precioso considerado de perto e de depois, voltamos a depositá-los onde dormiam. Sem tristeza. Até com a miúda, reflexiva alegria dos proprietários de velhas lembranças. “O amigo que chega de longe”. Drummond, 1˚ de março de 1968 Máquina de escrever de Clarice Lispector Toca-discos de Cornélio Pena Poltrona de Manuel Bandeira | Arquivo-Museu de Literatura Brasileira/ FCRB 72 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 72 04/07/11 16:40
  73. 73. 1 2 15 16 18 22 23 3 8 9 4 24 20 21 17 6 25 26 27 28 10 11 19 12 13 14 7 5 Complete os pontos e descubra a caricatura de Drummond feita por ele mesmo. Elucidação de Completar pontos| Veja pág.100 completar pontos 73 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 73 04/07/11 16:40
  74. 74. A cantora Nara Leão participou do show Opinião, em 1965, com João do Vale e Zé Kéti, tempo em que começa uma série de atribulações que ela vem a ter com o Governo Militar | Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press Em tempos de chumbo Na obra Versiprosa, há uma série de poemas em que Drum- mond faz uma espécie de “revista” dos acontecimentos do mês ou da semana. Nesse livro, composto por crônicas em verso, o poema é mais “colado ao fato” do que nas crônicas em prosa, que tendem à transfiguração do acontecimento, ao fantasioso. Além disso, em Versiprosa, Drummond realiza algumas peti- ções em verso. É importante observar também que o último poema em que Drummond faz “revistas” dos fatos é datado de outubro de 1966 (há poemas publicados até em junho de 1970). Duran- te o período de chumbo da ditadura, os textos de Versiprosa tornam-se menos “factuais” ou “realistas”, por falta de expres- são melhor. Começam a surgir textos de reflexão a respeito da condição humana. APELO Meu honrado Marechal dirigente da nação, venho fazer-lhe um apelo: não prenda Nara Leão. Soube que a Guerra, por conta, lhe quer dar uma lição. Vai enquadrá-la –– esta é forte no artigo tal... não sei não. A menina disse coisas de causar estremeção? Pois a voz de uma garota abala a Revolução? [...] De música precisamos, para pegar no rojão, para viver e sorrir, que não está mole não. Nara é pássaro, sabia? E nem adianta prisão para a voz que, pelos ares, espalha sua canção. Meu ilustre Marechal dirigente da Nação, não deixe, nem de brinquedo, que prendam Nara Leão. Drummond, Versiprosa Trechos do poema “Apelo”, em que o poeta intervém a favor da cantora Nara Leão 74 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 74 04/07/11 16:40
  75. 75. Elucidação do Jogo dos sete erros| Veja pág. 101 JOGO DOS SETE ERROS Em 1970, houve uma campanha ufanista, deflagrada pelo governo militar, que visava a ligar futebol e a imagem de um Brasil vitorioso em todas as áreas. Após a conquista da Copa do Mundo, o cartu- nista Jaguar lançou a seguinte imagem, ligada a trecho do poema “José”, de Drummond. Esta ilustração que fiz para os versos de Carlos Drummond de Andrade quase provocou a prisão do poeta. Tive um trabalho danado para convencer o general da Censura que publiquei o desenho sem pedir a autorização do autor. Jaguar 75 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 75 06/07/11 10:56
  76. 76. Carlos Drummond foi grande apreciador de mú- sica. Esse era um assunto muito frequente em suas crônicas e também nas conversas com os amigos, especialmente com Mário de Andrade. Estima-se que existam mais de cem peças compostas a partir de poemas de Drummond. A respeito de um caso de suspeita de plágio, que envolvia Villa-Lobos, acusado de copiar indevida- mente uma composição de Catulo, Drummond escreveu uma crônica em que deixou clara sua pro- funda admiração pelo músico brasileiro: Villa-Lobos é realmente um excelso ladrão. Sua obra monumental, furtou-a do Brasil, do sentimento, da graça rítmica, do arrepio interior de nossa gente; de- pois, furtou para nós a admiração do mundo. “O sono da música”. Drummond, 13 de janeiro de 1954 Em outra crônica, cita a carta que recebera de Bandeira, que dizia que Villa-Lobos musicara seu poema “Cantiga de viúvo”: “O Villa, que anda numa fase folclórica, está escrevendo uma série de serestas sobre versos nossos. [...] A ‘Cantiga de vi- úvo’ também está feita e ficou deliciosa. [...] Não me lembro se caí duro de espanto ou se pulei de felicidade.[...] Em 1934,o compositor me concede outra honra: musicara o meu poema ‘José’[...].” “Villa-Lobos numa sala”. Drummond, 11 de novembro de 1962 músiCa, maestro! O compositor Belchior lançou, em 2003, um livro, acompanhado de dois CDs, em que musicou 31 poemas de Carlos Drummond. O livro trazia 31 caricaturas do poeta feitos por Belchior 76 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 76 04/07/11 16:40
  77. 77. Alguns poemas de Drummond que já foram musicados: “Cantiga de viúvo” — 1925, Villa-Lobos. “Quero me casar” — 1931, Frutuoso Viana. “Quadrilha” e “No meio do caminho” — 1938, Francisco Mignone. “José” e “Viagem na família” — 1944, Villa-Lobos. Composição do pernambucano Lourenço da Fonseca Barbosa, o Capiba, sobre poema “Memória” | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB 77 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 77 04/07/11 16:40
  78. 78. Amigo ouvinte! Em 1961, Drummond colabora no programa Quadrante da Rádio Ministério da Educação, instituído por Murilo Miranda. O ator Paulo Autran comenta o sucesso do programa Quadrante: “[...] os cronistas eram a nata da inteligência do Rio de Janeiro. Era Carlos Drummond, Cecília Meireles, Dinah Silveira de Quei- roz, enfim, um para cada dia da semana. Então era um programa privilegiadíssimo. Durava no máximo cinco minutos, que era o tem- po de leitura de uma crônica. Ia ao ar às oito horas da noite, e era repetido no dia seguinte, ao meio-dia. Era um dos programas de maior audiência [...].” Cartaz programa de rádio Quadrante, 1961 Você sabia? A radiodifusão sonora chegou ao Brasil em 1922, ano do centená- rio da Independência. No dia 7 de setembro daquele ano, o discurso do então presidente Epitácio Pessoa foi transmitido ao grande pú- blico. Até a década de 1930, o rádio expandiu-se por todo o País, levan- do ao povo música e informação. 78 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 78 04/07/11 16:40
  79. 79. Drummond em estúdio, gravando poemas | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 79 04/07/11 16:40
  80. 80. Brasília: “a cidade inventada” 80 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 80 04/07/11 16:40
  81. 81. “Era um rabisco e pulsava.” Essas fo- ram as palavras de Carlos Drummond de Andrade depois de ler o relatório es- crito e desenhado por Lúcio Costa para criação da cidade de Brasília. Croquis feito por Lúcio Costa, em 1956, com esboço do traçado urbano da capital federal | Acervo Casa de Lúcio Costa _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 81 06/07/11 10:52
  82. 82. Carlos Drummond de Andrade trabalhava com Lúcio Costa no Ministério da Educação e a ele coube a tarefa de ler o projeto: “Peguei da folha e tive entre os dedos nada menos que a cidade de Brasília, inexistente e completa, como um germe contém e resume a vida de um homem, uma árvore, uma civilização.” Parte do projeto-piloto da cidade de Brasília | Acervo Casa de Lúcio Costa 82 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 82 04/07/11 16:40
  83. 83. Manuscrito de parte do projeto urbanístico feito por Lúcio Costa | Acervo Casa de Lúcio Costa MáQuina de Escrever: O manuscrito do Lúcio foi levado a uma firma da rua da Quitanda, no Rio de Janeiro, com a orientação de que fosse datilografado em espaço 2 e se fizessem duas cópias. Ortografia: A correção do português foi feita por Drummond. Não houve mudança de estílo, tampouco erros. Lúcio escrevia em português antigo: punha “h” onde já não havia; escrevia “summaria” em vez de sumária “prompta” no lugar de pronta. _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 83 04/07/11 16:40
  84. 84. Em 1964, Drummond começou a frequentar a casa de Plí- nio Doyle, um respeitável bibliófilo, a fim de fazer consulta à biblioteca para a escrita de suas colunas no jornal. Aos poucos, essas visitas tiveram público ampliado, e assim formou-se uma das maiores confrarias literárias de que se tem notícia até hoje. Oficialmente, as reuniões duraram, com poucas interrupções, 34 anos (1964-1998). O nome, registrado em ata no ano de 1974, foi dado por Raul Bopp, que assim o definiu: “reunião aos sábados na casa de um cidadão chamado Plínio Doyle.” Falava-se, sobretudo, de literatura e artes, mas o horizonte de assuntos era amplo, des- de que não se tratasse de política e religião. Na biblioteca de Plínio Doyle, Novembro 1972: Da esquerda para a direita, sentados: Joaquim Inojosa, Prudente de Morais, Cândido Mota Filho, Carlos Drummond de Andrade, Raul Bopp, Pedro Nava; em pé: Fernando Monteiro, Gilberto Mendonça Teles, Raul Lima, Alphonsus de Guimarães Filho, Mário da Silva Brito, Álvaro Cotrim (Alvarus), Paulo Berger, Plínio Doyle, Péricles Madureira de Pinho | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB O Sabadoyle 84 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 84 04/07/11 16:40
  85. 85. Alguns depoimentos sobre o Sabadoyle: Ata em comemoração aos vin- te anos de Sabadoyle, escrita por Drummond: [...] Os vinte anos decorridos após aquela primeira conversa dividida entre a voluptuosidade da página impressa e as doçuras do Natal, são outros tantos vividos por Plínio Doyle no esforço de manter aceso um ideal de confraternização à margem de todos os motivos de ten- são e incompatibilidade ideológica. Nesse esforço, contou com a ines- timável cooperação de Esmeralda, inesquecível companheira de toda a vida, e conta com a de Sonia, fi- lha que prolonga, no sentimento e na vontade, os dons espirituais do casal. Pela saudade, vivem conosco, ainda, os companheiros desapare- cidos. Aqui estamos pois todos reu- nidos como uns poucos o estiveram em tarde esperançosa de dezembro de 1964: com a mesma alma aber- ta e o mesmo fervor de espírito e de coração. Sabadoyle I Uma ata é obrigatória em tudo quanto é sessão. Por isso, quando a pediram eu não pude dizer não. Juntei algumas palavras ao estilo de um tabelião. Se não faço o que me pedem fico de cara na mão! Na casa do Plínio Doyle só há uma obrigação: cafezinho e um bate-papo de sua predileção. Quando é hora de ir-se embora trocam-se apertos de mão. De acordo com o estatuto fica encerrada a sessão. Raul Bopp, 1974 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 85 04/07/11 16:40
  86. 86. Depois de mais de seis décadas de jornalismo, em 1984, às vésperas de completar 82 anos,o poeta decide encerrar sua atividade de cronista. Em carta ao presidente do Jornal do Brasil, Drummond afirma: “Sin- to que é hora de descansar e também de ceder espaço a outros que começam ou que estão em fase de desenvolvimento de carreira.” CIAO Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou: — Sobre o que pretende escrever? — Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível. O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fa- zer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices. [...] E é por admitir esta noção de velho consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário. Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo. “Ciao”. Última crônica do poeta. Jornal do Brasil, 29 de setembro de 1984 “Ciao”, despedida do poeta | Arquivo/CPDOC JB Carlos Drummond de Andrade | Arquivo Carlos Drummond de Andrade - AMLB/FCRB a última CrÔniCa 86 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 86 04/07/11 16:40
  87. 87. ETERNO - PALAVRAS NO MAR - INVENTÁRIO - CANÇÃO AMIGA - A FLOR E A NÁUSEA - O MEDO - POEMA DE SETE FACES - NO MEIO DO CAMINHO - TRISTEZA NO CÉU - SEGREDO - LAGOA - NOTURNO MINEIRO - INFÂNCIA - CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO - O ENIGMA - ITABIRA Encontre nesta cruzadinha 16 poemas do poeta itabirano: CRUZADINHA DE POEMAS E C 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 Elucidação das Palavras cruzadas| Veja pág. 101 CRUZADINHA DE POEMAS Encontre nesta cruzadinha 16 títulos do poeta itabirano. _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 87 06/07/11 10:57
  88. 88. Sabores e nostalgias MEMÓRIA DO PALADAR, NOSTALGIA DA INFÂNCIA A memória do paladar recompõe com precisão instantânea, através daquilo que comemos quando meninos, o menino que fomos. O cronista, se fosse escrever um livro de memórias, daria nele a maior importância à mesa de família, na cidade do interior onde nasceu e passou a meninice. “O céu da boca”. Drummond, A bolsa e a vida Algumas linhas apenas, para situar no tempo as refeições. Acordar às sete (com aquele frio de montanha) e café com leite; almoço às nove, lanche às doze (chamava-se café do meio-dia e era um novo café com leite). Esses cafés eram forrados a biscoito de polvilho, pão de queijo, bolo de feijão que ardia na boca, de tão apimentado, rosca, ou queca (nacionalização do cake inglês). Coisas diversas, que meninos de tabuleiro à cabeça iam vendendo de porta em porta –– e que se adquiriam um pouco por serem gostosas, enquanto o pão de trigo da cidade era geralmente ruim, e outro pouco para ajudar as viúvas ou velhas parentes pobres que as fabricavam. “O céu da boca”. Drummond, A bolsa e a vida PARA TODOS OS GOSTOS “A culinária brasileira é rica e inventiva. O cardápio indígena, as comidas africanas e a culinária portuguesa formam a sua base, retocada pela influência do gosto alimentar de outros países, como a França e a Itália.” Câmara Cascudo, em História da alimentação no Brasil, revela que os mineiros têm uma “queda par- ticular para a arte de confeiteiro”, sendo mestres na arte de confeccionar doces. Passa o tabuleiro de quitanda: é pão-de-queijo é rosca é brevidade é broa de fubá é bolo de feijão é tudo que é gostoso e eu vou comprar eu vou comer o dia inteiro a vida inteira o sortimento deste tabuleiro. Drummond, Boitempo 88 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 88 04/07/11 16:40
  89. 89. BROA DE FUBÁ CREMOSA Ingredientes: 4 ovos 1 copo de fubá (200 g) 1 copo (200 g) de queijo ralado (canastra, meia-cura) 1/2 copo de coco ralado (mais ou menos 50 g) 1 copo de açúcar (200 g) 1 copo de óleo de soja (200 ml) 1 copo de leite frio (200 ml) 1/2 colher de chá de sal 3 colheres de sopa de farinha de trigo 1 colher de sopa bem cheia de fermento em pó Açúcar refinado e canela em pó para polvilhar a gosto. No liquidificador, bater os ovos com óleo, leite, farinha de trigo, açúcar e sal.Virar numa bacia e acrescentar o queijo e o coco ralado, e o fubá, previa- mente misturados. Por último, acrescentar a colher bem cheia de fermento em pó. Despeje tudo num tabuleiro retangular médio untado e enfarinhado. Assar por 30 a 40 minutos em forno pré-aquecido. Misture o açúcar refinado com a canela em pó e polvilhe em cima da broa antes de servir. Receita do blog Mineiras, uai! BREVIDADE DE MAISENA Ingredientes: 1 ½ xícara de açúcar; 3 colheres de manteiga; 2 xícaras mal cheias de maisena; 1 ½ colherinha de canela; 3 ovos. Modo de fazer: Misture a manteiga com o açúcar. Bata os ovos inteiros e misture na massa. Ponha a maisena e asse em forminhas de papel. Receita do livro Dona Benta: comer bem, publicado em 1940. Em 2010, ele chegou à 78.ª edição Pudim de leite Batam seis ovos com meio kilo de açúcar e tirem de uma garrafa de leite o bastante para desmanchar duas colheres de maizena. Fervam o resto do leite e depois de fervido, ainda quente, juntem os ovos batidos com açúcar e, por último, a maizena desmanchada. Passem a massa pela peneira e perfumem com baunilha. Untem uma forma com açúcar queimado , deitem a massa e cozinhem em banho-maria. Deixem esfriar completamente. Se houver gelo, coloquem a forma no meio dele. Almanaque d’O PAIZ, 1910. p.V-VI CONVERSA DE MORANGO [...] Hoje eles (os morangos, claro que não me refiro aos lá- bios) vêm em cestinhas de ta- quara ou de lâminas finas de madeira, dizem até que já bo- tam assim da rama, acondicio- nados em cestinhas maiores ou menores, conforme a intenção do vendedor e as posses do con- sumidor, são apartamento de morango, né? Uns maiores, ou- tros menores, como acontece com a gente, ai morangos! O ácido sabor cortado pela branca mo- leza do creme Chantilly, e essa agora, quando que morango brasileiro de hábitos silvestres podia imaginar que seria mis- turado a essa francesice, edul- corado e sucre vanillé e todas as milongias conotativas que o nome desperta: fôret, château, porcelaine, dentelles... Drummond, crônica de 10 de junho de 1971 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 89 04/07/11 16:40
  90. 90. A partir de 01/11/1942 — Cruzeiro (Cr$) A partir de 13/12/1967 — Cruzeiro Novo (NCr$) A partir de 15/05/1970 — Cruzeiro (Cr$) As várias faces da moeda brasileira Até 1942 — Réis | Museu de Valores do Banco Central do Brasil Nos 85 anos de vida de nos- so poeta, o dinheiro brasileiro sofreu variações não só quanto à sua valorização, mas também quanto à sua nomenclatura. Veja: 90 _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 90 04/07/11 16:40
  91. 91. A partir de 16/01/89 — Cruzado Novo (NCz$) Homenagem Póstuma A partir de 28/02/1986 — Cruzado (Cz$) Você sabia? Há duas moedas comemorativas do centenário de nascimento de Carlos Drummond de Andrade. A de prata tem valor facial de R$ 2,00. A de ouro, de R$ 20,00. Compare: O livro Alguma poesia, em 2010, foi comprado a R$ 29,90. Se fosse em cruzado novo, custaria Se fosse em cruzado, seria Se fosse em cruzeiro, seriam gastos Para resolver esse problema, procure auxílio de uma tabela de conver- são de moedas antigas, que pode ser encontrada em muitos sites, dentre eles o do Banco Central do Brasil. O endereço é www.bcb.gov.br. | Museu de Valores do Banco Central do Brasil _AF AlmanaqueCDA Miolo.indd 91 04/07/11 16:40
  92. 92. Corpo menor do sistema solar que orbita em torno do Sol. Deles, há registros muito antigos, como, por exemplo, o feito pelos chine- ses, em 240 a.C. É invisível, exceto quando próximo do Sol. O núcleo do cometa, ao aproximar-se do Sol, dá origem à cabeleira e à cauda. O NOME HALLEY O cometa recebeu o nome de Edmund Halley (1656-1742), as- trônomo inglês que aplicou as leis de Newton do movimento para traçar com precisÀÿ

×