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Pinho, l. c. a problematização ético política no último foucault (kalagatos, fortaleza, 2012)
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Pinho, l. c. a problematização ético política no último foucault (kalagatos, fortaleza, 2012) Pinho, l. c. a problematização ético política no último foucault (kalagatos, fortaleza, 2012) Document Transcript

  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012111LUIZ CELSO PINHO *Recebido em ago. 2012Aprovado em out. 2012A PROBLEMATIZAÇÃO ÉTICO-POLÍTICA NO ÚLTIMO FOUCAULTRESUMOO chamado “retorno aos gregos” dos últimos ditos e escritosde Foucault envolve um conjunto de pesquisas histórico-filosóficas sobre as mais diversas doutrinas, escolas e autoresque problematizam a conduta individual na antiguidadegreco-romana e nos primórdios da cultura cristã. Seu intuitoconsiste basicamente em extrair elementos que retratem oque ele denomina de “artes de existência”, “tecnologias desi”, “práticas de si”, em suma, uma “estética da existência”.Nosso objetivo reside em assinalar que o projetofoucaultiano de pensar, cultivar e avaliar a vida a partir deuma perspectiva eminentemente artística obedece a umimperativo não apenas ético como também político.PALAVRAS-CHAVEPensamento antigo. Vida. Estética da existência. Ética.Política.* Professor Adjunto IV do DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA DA UFRRJ.Líder do LABORATÓRIO DE INVESTIGAÇÕES HISTÓRICO-FILOSÓFICASMICHEL FOUCAULT (UFRRJ) do CNPq. Integrante do GT daANPOF FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA DE EXPRESSÃO FRANCESA (UERJ)e do LABORATÓRIO DE FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA DA UFRJ. Lecionoe pesquiso os seguintes temas a partir das obras de MichelFoucault e Friedrich Nietzsche: GENEALOGIA DAS CIÊNCIASHUMANAS, FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA, ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA.
  • 112PINHO,LUIZCELSO.APROBLEMATIZAÇÃOÉTICO-POLÍTICANOÚLTIMOFOUCAULT.P.111-127.ABSTRACTThe so-called “return to the Greeks” in the last sayingsand writings of Foucault involves a set of historicaland philosophical researches on the most diversedoctrines, schools and authors that question theindividual conduct in Greco-Roman antiquity and earlyChristian culture. His purpose consists basically ofextracting elements that portray what he denominatesthe “arts of existence”, “technologies of self”, “practicesof the self”, in short, an “aesthetics of existence”. Ouraim is to point out that the Foucauldian’s project ofthinking, cultivating and valuing the life from aneminently artistic perspective obeys not only an ethicalbut also a political imperative.KEYWORDSAncient Thought. Life. Aesthetics of Existence. Ethics.Politics.
  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012113I. UMA PONTE ENTRE O PENSAMENTO ANTIGO E O PRESENTENos derradeiros cursos no Colégio de França – Ahermenêutica do sujeito (1982), O governo de si edos outros (1983) e A coragem da verdade (1984) –,Michel Foucault desenvolve uma série de investigaçõeshistórico-filosóficas sobre os mais diversos sistemas depensamento num período que abrange a Grécia Antiga,o Império Romano e os três primeiros séculos da EraCristã. É nesse sentido que proliferam referências aolegado de cunho socrático-platônico, epicurista,estoico, cínico, pitagórico, neoplatônico, entre outros.Seu intuito consiste em realizar um estudo ao mesmotempo descritivo e comparativo de como se deu aelaboração de modalidades de “relação consigo” nasquais o indivíduo é levado a exercer sobre si umgoverno de forma voluntária e singular.Parte do material produzido nessas pesquisasculminou na publicação quase que simultânea de Ouso dos prazeres (maio de 1984) e O cuidado de si(junho de 1984). O primeiro ressalta que, para osgregos, saber governar a si mesmo era a garantia deque o indivíduo não se tornaria escravo de seusdesejos, ao mesmo tempo que o habilitava adesempenhar adequadamente tanto atividadesdomésticas quanto aquelas relativas à administraçãoda cidade. Diferente do mau tirano, que não conseguedominar suas próprias paixões, almeja-se “a imagempositiva do chefe que é capaz de exercer um estritopoder sobre ele mesmo na autoridade que ele exercesobre os outros; seu domínio de si modera seu domínio
  • 114PINHO,LUIZCELSO.APROBLEMATIZAÇÃOÉTICO-POLÍTICANOÚLTIMOFOUCAULT.P.111-127.sobre o outro”.1Foucault também ressalta que a culturagrega não se caracterizava por erigir princípios moraisconstritivos e de alcance universal, como ocorrerá, maisadiante, com o advento do cristianismo, já que “asexigências de uma austeridade não estavam organizadasem uma moral unificada, coerente, autoritária e impostado mesmo modo para todos”.2Grupos restritosestabeleciam critérios pessoais no intuito de “dar à suaexistência a forma mais bela e mais realizada possível”.3A obra seguinte, que se detém no período romano,defende que houve uma intensificação desse interesseem si mesmo. Tal acontecimento, entretanto, nada tem aver com o ato de “voltar-se para si [repli sur soi]”,4cujoresultado seria o fortalecimento de uma condutaindividualista. Trata-se, antes, de um movimento deintensificação da “relação consigo”, através de exercícios,meditações,provasdepensamento,examedeconsciência,controle das representações, no qual se almeja descobrir“o que se é, o que se faz e o que se é capaz de fazer”.5Demodo análogo aos gregos, esse tipo de preocupação “sóconcerne aos grupos sociais, muito limitados em número,queeramportadoresdeculturaeparaosquaisumatechnetou biou [“arte da existência”] poderia ter um sentido euma realidade”.61Foucault, M. L’usage des plaisirs, p. 110.2Ib., p. 31.3Ib., p. 323.4Foucault, M. Le souci de soi, p. 97.5Ib., p. 94.6Ib., p. 63. Esses grupos surgem da necessidade de aadministração romana utilizar uma aristocracia de serviço, uma“managerial aristocracy” (cf. Foucault, M. Le souci de si, p. 116).
  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012115Mas pelo menos duas modificações vãogradualmente se consolidando. Em primeiro lugar, areflexão sobre o uso dos prazeres não está mais referidaao domínio de si e dos outros. Dentro da políticacentralizada do Império Romano, o exercício de umcargo decorre de um “ato de vontade pessoal”,independente de a origem habilitar o exercício de cargospúblicos. Estamos nos referindo a um período onde,exceto pelo príncipe, “o poder é exercido no interior deuma rede onde se ocupa uma posição intermediária[charnière]”, na qual se é, “de certo modo, governante egovernado”.7Outra mudança se verifica no surgimentode um ideal de conjugalidade recíproca que independeda “autoridade estatutária do esposo” e do “governoracional da propriedade”. Foucault considera que acultura de si dos romanos desempenha um papelambíguo, pois “exige ainda e sempre que o indivíduo sesujeite a uma arte de vida que define os critérios estéticose éticos da existência; mas essa arte se refere cada vezmais a princípios universais de natureza e de razão, aosquais todos devem se dobrar do mesmo modo, qualquerque seja o seu estatuto”.8Os cristãos,9por sua vez, se caracterizam, deacordo com a problematização foucaultiana dascondutas, por redirecionar antigos temores a respeitoda saúde do corpo em geral para o desejo7Ib., p. 121.8Ib., p. 93.9Inúmeras menções são feitas ao cristianismo emO uso dos prazerese O cuidado de si. Se bem que um volume específico sobre oassunto– Asconfissõesdacarne[Lesaveuxdelachair]–permaneçainédito.
  • 116PINHO,LUIZCELSO.APROBLEMATIZAÇÃOÉTICO-POLÍTICANOÚLTIMOFOUCAULT.P.111-127.especificamente, que passa a ser tido como a“manifestação de uma potência surda, ágil e temívelque é tanto mais necessário decifrar quanto é capazde se emboscar sob outras formas que não a dos atossexuais”.10A obediência à lei divina, ou à autoridadereligiosa, requer uma hermenêutica purificadora dosmais obscuros pensamentos na qual o indivíduo élevado a renunciar a si mesmo. Manter a integridadecorpórea assegura a salvação da alma e a vida eterna.Deste modo, o indivíduo deve “saber precisamente oque é o próprio de seus desejos, dos movimentosparticulares que o conduzem ao ato sexual, das escolhasque ele faz, das formas dos atos que comete ou dosmodos de prazer que ele experimenta”.11Tem-se, assim,uma modalidade de “relação consigo” calcada nadecifração e na purificação.O propalado “retorno”12ao pensamento antigotem uma significação bem precisa nas análisesfoucaultianas: realizar uma história do modo como osindivíduos são levados a se constituir como sujeitos deuma conduta moral, tendo como objetivo maior a10Foucault, M. L’usage des plaisirs, p. 56-7.11Foucault, M. Le souci de soi, p. 191.12A rigor, desde o primeiro curso no Colégio de França – Liçõessobre a vontade de saber (1971) – há tanto uma extensa eminuciosa abordagem contrapondo um modelo nietzschianode conhecimento aos modelos platônico e aristotélico quantoum exame original de Édipo (que será retomado em diversasocasiões). A novidade dos cursos de 1982, 1983 e 1984 residenas sucessivas análises de discursos – filosóficos, médicos ou“edificantes” – voltados para a problematização da vidacotidiana entre os séculos IV a.C e III d.C.
  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012117necessidade de se autotransformar, de modelar a simesmo. O privilégio da noção de Estética da Existênciaretrata justamente essa dimensão artística – e nãonormativa – do trabalho ético em relação a si mesmo.É preciso salientar também que o projetofoucaultiano de subordinar o modo como se vive a umdenominador estético não reside na “imitação” de umaera grandiosa – no caso, a antiguidade greco-romana.Apesar de o passado lhe servir de referência, ressaltamosque sua relevância está ancorada na possibilidade derepensar o presente, de acrescentar novos contornos aoque somos atualmente. Foucault localiza essa diretrizestética em diversos momentos da cultura ocidental.Destacamos seu interesse pelos seguintes autores: JacobBurckhardt (1818-1897), autor de A cultura doRenascimento na Itália [DIE KULTUR DER RENAISSANCE IN ITALIEN,1860]; Charles Baudelaire (1821-1867) e seus escritosO pintor da vida moderna [Le peintre de la vie moderne,1863] e “Do heroísmo da vida moderna” [“De l’heroïsmede la vie moderne”, 1845]; Walter Benjamin (1892-1940) e seu artigo “Sobre alguns temas em Baudelaire”[“Über einige Motive bei Baudelaire”, 1939]; Jan(1907-1977) e os seminários reunidos sob otítulo Platão e a Europa [Platon et l’Europe: seminaireprive du semestre d’ été 1973]; Stephen Greenblatt(1943), que publicou Auto-modelagem no Renascimento:de More a Shakespeare [Renaissance Self-Fashioning:From More to Shakespeare, 1980].Tais registros – que perpassam a Grécia, a épocarenascentista e o início da Modernidade – têm comofio condutor a elaboração de um estilo admirável de
  • 118PINHO,LUIZCELSO.APROBLEMATIZAÇÃOÉTICO-POLÍTICANOÚLTIMOFOUCAULT.P.111-127.vida, ou seja, a busca de “um princípio de estilizaçãoda conduta para aqueles que querem dar à suaexistência a forma mais bela e mais realizadapossível”.13A problematização ética a partir dopensamento antigo não constitui, pois, um fim em simesmo. Daí Foucault não se limitar a dar conta do quevem a ser o Estoicismo ou o Epicurismo em seuselementos doutrinários mais significativos, porexemplo. Seu intento, como veremos, reside emestabelecer uma ponte entre o momento “atual” – maisexatamente, a Era Moderna – e a antiguidade greco-romana, tomando como referência a ideia de que “omesmo conselho dado pela moral antiga podedesempenhar um papel diferente num estilo de moralcontemporâneo”.14II. O TRABALHO INCESSANTE DO ETHOS FILOSÓFICOAo associar suas pesquisas histórico-filosóficasdos anos 80 às rubricas “ontologia do presente”,“ontologia da atualidade”, “ontologia de nós mesmos”,“ontologia crítica de nós mesmos”, “ontologia históricade nós mesmos”, consideramos que Foucault pretendedestacar o imperativo de examinarmos o quanto antesaquilo que nos leva a falar, pensar e agir do modocomo atualmente falamos, pensamos e agimos. Essadiretriz remete essencialmente a todo um conjunto deprovas práticas, exercícios ou treinamentos que“permitem aos indivíduos efetuarem, através deles13Foucault, M. Le souci de soi, p. 323.14Foucault, M. Le retour de la morale, p. 701.
  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012119mesmos, certo número de operações sobre seu corpo,sua alma, seus pensamentos, suas condutas”,15e queterão efeito direto na forma como conduzem suas vidas.É nesse sentido que Foucault discorre sobre pelo menoscinco modalidades de “tecnologias de si”: “transformara existência numa espécie de exercício permanente[sem] jamais relaxar”; realizar meditações, leituras,anotações “sobre livros ou conversações”; ficar atento“à saúde, ao regime, às indisposições e a todas asperturbações que podem circular entre corpo e alma”;“tornar-se capaz de passar sem o supérfluo [...],submeter-se ao exame de consciência [...] [e nortear-se pelo que depende de uma] escolha livre e racional”;“não apenas se contentar com o que se é [...] comotambém ‘gostar’ de si mesmo”.16O ethos filosófico que leva Foucault a repensaro presente envolve um combate interno incessante quenão almeja extirpar alguma parte de si no intuito deatingir um estado de pureza, como na moral cristã. Aconcepção de que se faz necessário realizar um“trabalho” (askesis) cotidiano encontra-se norteada porcritérios acima de tudo estéticos, de modo que “a ênfase[na atividade ética] é dada, então, às formas dasrelações consigo, aos procedimentos e às técnicas pelasquais [elas] são elaboradas, aos exercícios pelos quaiso próprio sujeito se dá como objeto a conhecer e àspráticas que permitem transformar seu próprio modode ser”.1715Foucault, M. Sexualité et solitude, p. 171.16Foucault, M. Le souci de soi, p. 63-92.17Foucault, M. L’usage des plaisirs, p. 30.
  • 120PINHO,LUIZCELSO.APROBLEMATIZAÇÃOÉTICO-POLÍTICANOÚLTIMOFOUCAULT.P.111-127.Essa problemática, cuja fonte inspiradora maiorreside em Pierre Hadot (helenista e autor de Exercíciosespirituais e filosofia antiga), será utilizada para alémde seu alcance originário. Segundo Hadot, ela designadois campos filosóficos distintos, pois enquanto “afilosofia antiga propõe ao homem uma arte de viver; afilosofia moderna, ao contrário, se apresenta antes detudo como a construção de uma linguagem técnicareservada a especialistas”.18Tal concepção é marcanteno caso dos estoicos, para quem “a filosofia não consisteno ensino de uma teoria abstrata”.19Daí se poderafirmar que “a filosofia, na época helenística e romana,se apresenta, pois, como um modo de vida, como umaarte de viver, como uma maneira de ser”.20No entanto, Foucault elabora uma concepçãoprópria do que vem a ser essas “tecnologias de si”: eletranspõe a problematização dos prazeres entre osantigos para a modernidade através da noção deestilística da existência. Não há duvida que compartilhacom a cultura greco-romana do imperativo de elaborar“um modo de viver no qual a moral não diz respeitonem à conformidade a um código de comportamentonem a um trabalho de purificação, mas a certas formas,ou melhor, a certos princípios formais gerais no usodos prazeres, na distribuição que deles se faz, noslimites que se obedece, na hierarquia que se respeita”.21Em suma, trata-se de promover uma estilização da18Hadot, P. Exercices spirituels et philosophie antique, p. 300.19Ib., p. 20.20Ib., p. 295, grifos meus.21Foucault, M. L’usage des plaisirs, p. 120-1.
  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012121conduta de modo a escapar de todo e qualquer “padrãouniversal de comportamento”, no qual “homens emulheres [são reduzidos] a um modo de existênciaem harmonia com um denominador mínimo comum”.22Atualmente, o termo estilo remete ao universo damoda: um modo próprio ou elegante de se vestir. Deacordo com Veyne, essa palavra, dentro do contextofoucaultiano, “deve ser entendida no sentido dos gregos,para quem um artista era, antes de tudo, um artesão; euma obra de arte, uma obra. A moral grega sucumbiucompletamente, e Foucault julgava também tantoindesejável quanto impossível ressuscitá-la; mas umdetalhe dessa moral, a saber, a ideia de um trabalho de sisobre si, lhe parecia possível adquirir um sentido atual,do mesmo modo que essas colunas de templos pagãos,que vemos, às vezes, reutilizadas nos edifícios maisrecentes”.23Aqui, não se pode deixar de ignorar,esbarramos numa dificuldade pedagógica, pois “Foucaultjamais especificou quais regras poderiam ser seguidas eem qual situação”24no contexto em que vivemos.Cabe destacar, ainda, que o Si de Foucault nãoremete a um sujeito originário. Desde sua fasearqueológica, ele já havia demonstrado que o homemnão é mais antigo foco de preocupação da culturaOcidental. Para recordar palavras que se tornaramcélebres nos anos 60, o homem é apenas um rosto deareia na beira do mar, passada a primeira onda, nada22Bernauer, J.; Mahon, M. The Ethics of Michel Foucault, p. 153.23Veyne, P. Le dernier Foucault et sa morale, p. 939.24Huijer, M. The Aesthetics of Existence in the Work of MichelFoucault, p. 76.
  • 122PINHO,LUIZCELSO.APROBLEMATIZAÇÃOÉTICO-POLÍTICANOÚLTIMOFOUCAULT.P.111-127.restará. Foucault não quer salvar o homem de simesmo, muito menos redescobrir a humanidade quehabita suas mais recônditas profundezas. Não se trata,em suma, de humanizar as relações entre os indivíduos.Certamente, a leitura que realiza da obra deNietzsche o leva a diagnosticar a “morte do homem”,seu caráter transitório e efêmero, numa interpretaçãoinquietante do evolucionismo darwinista. Aliás, comosalienta Deleuze, “Foucault não cessa de submeter ainterioridade a uma crítica radical” nas três etapas desua obra; logo, não é correto afirmar que ele “descobreo sujeito em O uso dos prazeres. Na verdade, já o haviadefinido como uma derivada, uma função derivada doenunciado [em A arqueologia do saber]”.25Foucaultsempre esteve interessado nas condições históricas desurgimento do homem na rede de saberes damodernidade. A principal diferença dele em relação aosdiscursos humanistas e antropológicos reside na apostade que na Era Moderna o sujeito deixa de ocupar o lugarde fundamento prometido pelo racionalismo cartesiano.III. ÉTICA E POLÍTICA: AS DUAS FACES DA MESMA MOEDADesde o final dos anos 70, Foucault já começaa estabelecer um vínculo entre existência artística eatividade política. Nos referimos ao prefácio à ediçãoestadunidense de O antiédipo: capitalismo eesquizofrenia, de Gilles Deleuze e Felix Guattari, quandoindica que a referida obra pode ser lida como “ummanual”, “um guia” para a “arte de viver”, cujas25Deleuze, G. Foucault, p. 103.
  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012123diretrizes seriam as seguintes: livrar-se “de toda formade paranoia unitária e totalizante”; fomentar “a ação, opensamento e os desejos por proliferação, justaposiçãoe disjunção, e não por subdivisão e hierarquizaçãopiramidal”; preferir “o que é positivo e múltiplo, adiferença à uniformidade, o fluxo às unidades, osagenciamentos móveis aos sistemas”; “não supor que atristeza é necessária para se tornar militante, mesmoque a coisa que se combate seja abominável”; utilizar“a prática política como um intensificador dopensamento”; buscar “desindividualizar-se”; jamais “seapaixon[ar] pelo poder”.26Nos anos seguintes, a “estética da existência”dos antigos é convertida num trabalho voltado para anecessidade de o indivíduo reinventar a si mesmo. Eisso ocorre na medida em que permanecemos “nasfronteiras” de nós mesmos, ou seja, quando temos a“possibilidade de não mais ser, fazer ou pensar o quenós somos, fazemos ou pensamos”.27O que importa étransformar nossas vidas numa espécie de obra de arte– eis o princípio que norteia o pensamento ético doúltimo Foucault. Nesse momento é marcante aimportância atribuída a “velhas práticas”, inclusive bemanteriores a Sócrates e Platão, que “transformam omodo de ser do sujeito, que o modificam [...], que oqualificam transfigurando-o”.28Trata-se ao mesmo tempo de desenvolver umestilo, como o faz um artista, e de nos tornarmos26Foucault, M. Préface, p. 135-6.27Foucault, M. Qu’est-ce que les Lumières?, p. 574.28Foucault, M. L’herméneutique du sujet, p. 46.
  • 124PINHO,LUIZCELSO.APROBLEMATIZAÇÃOÉTICO-POLÍTICANOÚLTIMOFOUCAULT.P.111-127.admiráveis aos olhos daqueles que nos rodeiam. Daí anecessidade de se distinguir “liberdade” de “liberação”,pois uma coisa é a necessidade moderna de “liberar asexualidade ou o desejo”; outra, reside na “práticarefletida da liberdade”:29a primeira, como atesta agenealogia do poder nos anos 70, faz parte daengrenagem confessional dos dispositivos de controle,vigilância e normalização; a segunda, por sua vez,implica, acima de tudo, uma problematização ética queenvolve o próprio indivíduo e os que se relacionamcom ele. Nesse sentido, o “governo de si” e o “governodos outros” não apenas se requerem mutualmente, mastambém constituem as duas faces da mesma moeda.Desde a primeira aula do curso A hermenêuticado sujeito, Foucault salienta que “não se pode governaros outros, não se pode transformar seus privilégios [decidadão] em ação política sobre os outros [...] se nãose cuida de si mesmo”.30Esse é o requisito indispensávelpara que um indivíduo fique habilitado a se encarregardos negócios públicos. No Império Romano tal preceitocontinua válido na medida em que a figura do Príncipedeve tanto estabelecer “consigo uma relação adequadaque garanta sua virtude” quanto se tornar um“governante que se encarregue e cuide não apenas desi mesmo, mas também dos outros”.31Ora, para queisso efetivamente ocorra, torna-se essencial adotar oque, em termos foucaultianos, significa “dizer29Foucault, M. L’éthique du souci de soi comme pratique de laliberté, p. 710-1.30Foucault, M. L’herméneutique du sujet, p. 37-8.31Foucault, M. Le gouvernement de soi et des autres, p. 46-7.
  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012125verdadeiro” [parresia], pois só quem se mostra capazde “falar a verdade [está apto] para dirigir a cidade”.32É nesse sentido que o ethos filosófico defendido porFoucault nos seus últimos cursos no Colégio de Françainsiste no vínculo entre verdade, atividade política eética.33Essa superposição estratégica entre discursoverdadeiro, arte de governar e conduta individual semostrará crucial para a compreensão de um projetoético-político que toma como matriz o uso corajoso dapalavra – momento derradeiro do pensamentofoucaultiano.32Ib., p. 144.33Cf. Foucault, M. Le courage de la vérité, p. 64.
  • 126PINHO,LUIZCELSO.APROBLEMATIZAÇÃOÉTICO-POLÍTICANOÚLTIMOFOUCAULT.P.111-127.IV. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASBERNAUER, James; MAHON, Michael. The Ethics ofMichel Foucault. In: GUTTING, G. (Ed.). The CambridgeCompanion to Foucault. Cambridge; New York:Cambridge University Press, 1994, p. 141-158.DELEUZE, Gilles. Foucault. Paris: Minuit, 1986.FOUCAULT, Michel. L’usage des plaisirs (Histoire de lasexualité, t. II). Paris: Gallimard: 1984 (Coleção Tel,edição de bolso).______ . Le souci de soi (Histoire de la sexualité, t. III).Paris: Gallimard: 1984 (Coleção Tel, edição de bolso).______ . Leçons sur la volonté de savoir. (Cours auCollège de France: 1970-1971). Edição organizada porDaniel Defert. Paris: Gallimard-Seuil, 2011.______ . L’herméneutique du sujet (Cours au Collège deFrance: 1981-1982). Edição organizada por FrédéricGros. Paris: Gallimard-Seuil, 2001.______ . Le gouvernement de soi et des autres (Cours auCollège de France: 1982-1983). Edição organizada porFrédéric Gros. Paris: Gallimard-Seuil, 2008.______ . Le courage de la vérité. Le gouvernement desoi et des autres, II (Cours au Collège de France: 1984).Edição organizada por Frédéric Gros. Paris: Gallimard-Seuil, 2009.______.Préface[aAnti-Œdipus:CapitalismandSchizophrenia.NovaYork:VikingPress,1977,p.xi-xiv].In: ______ . Dits etécrits. (1976-1979), III, Paris: Gallimard, 1994, p. 131-136.
  • KalagatosKalagatosKalagatosKalagatosKalagatos-REVISTADEFILOSOFIA.FORTALEZA,CE,V.9N.18,VERÃO2012127______ . Sexualité et solitude (conferência). In: _____.Dits et écrits. (1980-1988), IV, Paris: Gallimard, 1994,p. 168-178.______ . Qu’est-ce que les Lumières? (ensaio, segundaversão). In: ______ . Dits et écrits (1980-1988), IV,Paris: Gallimard, 1994, p. 562-578.______ . L’éthique du souci de soi comme pratique de laliberté (entrevista a H. Becker, R. Fornet-Betancourt, A.Gomez-Müller). In: ______ . Dits et écrits, (1980-1988),IV, Paris: Gallimard, 1994, p. 708-729.HADOT, Pierre. Exercices spirituels et philosophieantique. 2ª ed. revista e aumentada. Prefácio de ArnoldI. Davidson. Paris: Albin Michel, 2002.HUIJER, Marli. The Aesthetics of Existence in the Workof Michel Foucault. Philosophy and Social Criticism, v.25, n. 2, 1999, p. 61-85.VEYNE, Paul. Le dernier Foucault et sa morale. Critique,n. 471-472, agosto-setembro de 1986, p. 933-941.