Brasilpandeir Oyy 1
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×

Like this? Share it with your network

Share

Brasilpandeir Oyy 1

  • 4,548 views
Uploaded on

Biografia de Pernambuco do Pandeiro

Biografia de Pernambuco do Pandeiro

  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Be the first to comment
    Be the first to like this
No Downloads

Views

Total Views
4,548
On Slideshare
4,539
From Embeds
9
Number of Embeds
1

Actions

Shares
Downloads
38
Comments
0
Likes
0

Embeds 9

http://colunistas.ig.com.br 9

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
    No notes for slide

Transcript

  • 1. BRASIL PANDEIRO A VIDA E OBRA DE PERNAMBUCO DO PANDEIRO INÁCIO SOBRINHO PINHEIRO EZALMONE MOREIRA DOS SANTOS
  • 2. DEDICATÓRIA “MEUS IRMÃOS EM ARMAS”: OS MÚSICOS QUE DIVIDIRAM O PALCO COMIGO
  • 3. SUMÁRIO 1ª. PARTE - FASE NORDESTINA 1. O MEU LUGAR 2. O ENCONTRO COM LAMPEÁO 3. Os VALORES E COSTUMES 4. A IDA PARA O RIO DE JANEIRO 2ª. PARTE – MINHA VIDA NO RIO DE JANEIRO 1. APRENDENDO A VIVER NO RIO DE JANEIRO. 2. O CONVÍVIO COM A ALTA MALANDRAGEM 3. O CONTATO COM A MÚSICA 4. MEU ENCONTRO COM O PANDEIRO 6. O BATISMO DE FOGO 7. O INICIO NO MUNDO MUSICAL Os programas de calouros O ponto dos músicos 8. PARTICIPAÇÃO NOS CONJUNTOS REGIONAS 9. O REGIONAL DE PERNAMBUCO DO PANDEIRO 10. A ENTRADA DE HERMETO PASCOAL NO REGIONAL 11. A CARREIRA INTERNACIONAL Excursão com Carmélia Alves A caravana Humberto Teixeira 12. O MUNDO MUSICAL DAS RÁDIOS E GRAVADORAS 3ª PARTE. MINHA VIDA EM BRASÍLIA O CONVITE DE JK O ABANDONO DE UM MÚSICO INTERNACIONAL NO CERRADO O TRABALHO NA CONSTRUÇÃO DA NOVA CAPITAL A PRISÃO PARTICIPAÇÃO NO MEIO MUSICAL EM BRASÍLIA A FUNDAÇÃO DO CLUBE DO CHORO A PARTICIPAÇÃO NO CONJUNTO DE WALDIR AZEVEDO MINHA CONVIVENCIA EM MINAS GERAIS O RETORNO A BRASÍLIA PEQUENA HOMENAGEM AOS MEUS “IRMÃOS DE ARMAS”.
  • 4. APRESENTAÇÃO ‘SERÁ FEITA POR HERMETO PASCOAL’
  • 5. BRASIL PANDEIRO Coração de sambista brasileiro Quando bate no pulmão Lembra a batida de um pandeiro. “Noel Rosa.”
  • 6. PRIMEIRA PARTE 1. O meu lugar. Maria Francisca. Assim chamava minha mãe, uma paraibana do sertão, legítima descendente de Severino Vitoriano de Souza Pinheiro, proprietário do Engenho São Tomé, de família tradicional que davam ordens e eram obedecidos por todos. Seus antepassados foram donos escravos e era o arrimo de muitas famílias que sobreviviam como empregados da Usina; a maioria agregados a um pedaço de chão cedido para plantar a meia parte. Uma mulher dona de suas vontades, personalidade forte e obediente sincera das suas intuições, engraçou-se logo com João Bezerra, da mesma família do Sargento que matou Lampião na tocaia de Angicos. Uma amizade proibida. A família Bezerra do lugar onde nasci era gente honesta, mas muito brigões. Arruaceiros nos forrós atiravam no candeeiro, furavam fole de concertina e botavam a barraca abaixo. Era um desespero quando alguém dessa família chegava às reuniões sociais de Lagoa da Roça. Meu pai era um homem bonito: cabelos cacheados, estatura mediana, tez morena e olhos verdes, o que certamente provocou o interesse por parte de minha mãe, Maria Francisca, a ponto de se romper com a família casar-se com ele. Tiveram 19 filhos e como conseqüência da desobediência, passou ser tratada como uma fotografia virada contra a parede, esquecida, banida e deserdada. Casamento naquela quadra era uma forma de manter o poder e a tradição da família, os Souzas não viam em João Bezerra essa possibilidade. A sua desobediência foi como uma sentença de morte. Sua família nunca a perdoou, nem aceitou seus filhos como herdeiros legítimos. Certa vez quando a fome apertou o cerco em Lagoa da Roça, coloquei um saco nas costas e fui pedir um adjutório para um tio materno, Antônio Pinheiro. Fui enxotado de sua casa como um cão pestilento jurado de tomar uma surra se tivesse a insolência de voltar outra vez lá. A sua falta de caridade cristã me impressionou que até hoje peço a Deus em
  • 7. minhas preces que o perdoe, por que eu mesmo até hoje nunca senti vontade em fazê-lo. Dona Maria Francisca não era mulher de andar com a cabeça baixa não! Encarou a situação e tocou a vida dentro de suas possibilidades. Abraçou a profissão de costureira amparada na fé em Padre Cícero. Fazia ternos, uniformes, vestidos, camisas, cobertas de chita e mortalhas; costurava toda sorte de roupas que os sertanejos precisassem. Tinha muita força. Virou rezadeira. Contra quebranto, mal olhado, espinhela caída e erisipela. Criança chegava obrando verde, e mãe reclamando que o “peste” quando dormia acordava avechado em solavancos e com batedeira. Isso era o suficiente para o diagnóstico perfeito: quebranto ou mal olhado. Caminhava medindo os passos para o fundo do quintal levando a criança e a mãe, com um ramo benzia, e terminava a unção com os olhos lacrimados, bocejando e reclamando que o menino estava “carregado”. Pedia à mãe que trouxesse a criança nos “dias fortes” quarta ou sexta-feira para um reparo, e prescrevia por cima, uma figa para o inocente usar como penduricalho no pescoço, por função de absorver essas maldades transmitidas sem querer por quem nasceu com a sina de olhar ruim. Ficou mais conhecida como Dona Maria Francisca parteira. Era aparadeira de mão cheia, a preferida de todas as gestantes da região. A parturiente só acalmava quando “Siá” Maria Francisca chegava. Assumia o comando. Com voz decidida clamava por trapos limpos, tesoura, faca fervidas e exigia aguardente e pólvora; se acaso a mulher perdesse as forças, era forçada a beber essa mistura para restabelecer-se. Não permitia manifestações de dor, não podia gemer de forma alguma, gritar estava fora de cogitação, mulher procedesse assim ganhava a fama de fraca. Eu imagino que inconscientemente ela percebia o inconveniente de desperdiçar energia à toa, sabia da necessidade de usar toda força no momento certo para retirar o bebê das entranhas. Assistiu muitas mulheres lutar até o fim. Parto no sertão era risco de vida, se a criança atravessasse, na maioria casos eram fatais, morria mãe e filho.
  • 8. Vivia fé e caridade no dia a dia, não medindo esforços para fazer o bem. Ajudou muita gente em 1932 durante o surto de varíola que ceifou muitas vidas no sertão paraibano. Eu mesmo fui parar na folha de bananeira, artifício muito usado para não “pregar” no lençol quando a varicela “bexiguenta” tomava conta do corpo todo. Como diz o sertanejo, “depois do coice a queda”, veio a febre bubônica, provocando imensa mortandade no local. Fazia de graça as mortalhas, preparava os corpos para serem enterrados, misturava com os doentes e para espanto de todos, não era contaminada. Explicava-se dizendo que era a fé no Padre Cícero Romão Batista, a razão de toda força e proteção que aquela bela sertaneja, que tinha a ternura de um beija-flor e a coragem de uma onça parida quando era para proteger os seus. Eu nasci dessa mulher em 1924, décimo – oitavo dos dezenove filhos seus. Nascido no município de Gravatás, região do agreste pernambucano. Naquela época quando a seca castigava o sertão, os que tinham oportunidade se refugiavam no Agreste, por isso que nasci no Pernambuco, na fazenda de Neco Porto, antigo prefeito de Caruaru. Fui batizado com o nome de Inácio Pinheiro Sobrinho, devido ser homônimo a um tio materno incorporaram o “sobrinho” para diferenciar nós dois. Com quatro meses de idade voltei para a Lagoa da Roça, lugarejo situado a 10 km de Campina Grande, no Estado da Paraíba. Por isso é que me considero um pernambucano de coração paraibano. Construi toda minha infância entre as dificuldades próprias de quem nasceu em uma região desassistida, cresci trabalhando e amadureci prematuramente sem deixar de ser um moleque levado e espirituoso. Ainda hoje, durante as noites quando o sono me abandona, recordo aqueles dias difíceis, as reminiscências anestesiadas por mais de 85 anos vividos me conduzem no tempo com uma boa intenção de felicidade. Imagino com o olhar e o sentimento daquela criança que vive ainda dentro de mim. As dificuldades de sertanejo pobre que me deram a força da superação. Caí várias vezes na vida, mas sempre dei a volta por cima, amparado pela experiência de quem fez um macabro vestibular para a vida. Criança que sobrevivesse naquelas condições naturalmente se transformaria em um homem determinado. Tenho a impressão que foi isso que
  • 9. me transformou em um homem otimista, como dizem na gíria popular, “prá cima”. Sempre gostei de “incendiar” as pessoas que estivessem ao meu redor, aprendi a ver o mundo como se fossem um palco, as pessoas atuando cumprindo o seu papel, e eu o encarregado de alegrá-los, talvez por isso seja que eu tenha me tornado um artista popular. Não conheci meu pai. Minha mãe o desobedeceu para seguir uma romaria para Juazeiro do Norte a fim de receber uma Benção de Padre Cícero. Era um sonho dela, já era tempo de pagar tanta graça que havia recebido, e aquela visita era uma forma de demonstrar gratidão. Para levar a cabo o seu intento, teve que passar por cima do filho mais velho e do marido para se ter com o beato. Assim que regressou foi violentamente agredida e teve que separar do marido que a abandonou com os últimos quatro filhos, os outros já haviam debandado em busca de melhores condições do que aquelas oferecidas pelo sertão paraibano na terceira década do século vinte. Comecei trabalhar aos quatro anos de idade, cortando capim, fazia os feixes e vendia na feira para alimentar os animais dos mercadores. Entre seis a sete anos já fazia a proeza de montar em animais bravios, caia muito, não sei quantas vezes machuquei. Mas mantinha sempre a determinação de domar aqueles animais chucros. E depois de domados vinha a parte que eu mais gostava: ensinar os animais marchar no ritmo certo, já possuía espírito de perfeccionista. Há três tipos de marcha; o “trotão”, quando o cavalo anda em solavancos, “thum, thum, thum, o “esquipador”, é um andar mais suave, que não castiga tanto os “bofes” do cavaleiro, e por último o “bacheiro”, cavalo marchador, cavalga no ritmo certo marcado, “pacatá, pacatá, pacatá, pacatá...”. Foi essa mania de corrigir os cavalos é quem me deu esse ritmo da “moléstia” que tenho no seu sangue. Uma criança no sertão virava adulto rápido, quatro a cinco anos já começava a ajudar no que podia. A luta para matar a fome era terrível e desqualificadora, não dependia somente da vontade e capacidade de trabalhar. Tinha que contar coma ajuda do sobrenatural, se não chovesse meus amigos, era certeza de miséria. Somente as pessoas de recursos conseguiam manter estoques de alimentos, o povo de um modo geral não conseguia. Na época de chuvas o que colhiam tinha que
  • 10. repartir com o proprietário das terras. Que ainda tirava da outra parte o pagamento para dívidas vencidas, normalmente alimentos adiantados que o sertanejo retirava antecipado para pagar dobrado. Quase todo povo tinha suas criações de terreiro, galinhas poedeiras, capão, frango, para o almoço no final de semana. O porco cevado era para o Natal e São João. Mas no dia a dia, alimentava-se predominantemente de favas, de jabá, ou carne do Ceará, muito seca e salgada. Também a carne de sol, um pouco mais úmida e macia. De verduras sómente o maxixe, quiabo, jerimum e macaxeira. Comer feijão era para pessoas de posses, o feijão de corda nem se fala. Leite, somente se criasse uma cabra, tínhamos uma. De vez em quando comíamos o “pão” do dia seguinte. Muito duro, mas, mais barato, em vez de jogar fora o padeiro vendia pela metade do preço para os mais necessitados. Naquele tempo o povo dava um duro danado e o resultado não aparecia, tinha que se valer da fé meus camaradas, e cada vez que o sofrimento aumentava, era a maior a certeza que havia uma força maior acima daquela aflição capaz de escrever um destino conforme cada qual merecesse. Um vizinho, que o tempo me fez esquecer o nome, jurava que já nascíamos escalados para sofrer devido às maldades que fizemos em existências anteriores. Que já tínhamos contas debitadas de vidas passadas e que nessa estávamos tendo a oportunidade de pagar. Tínhamos que ter fé e, sobretudo resignação, essa última eu nunca consegui desenvolver. A fé do sertanejo era muito grande, havia um respeito generalizado às coisas sagradas. Qualquer morador abria a porta da sua moradia em alta madrugada se alguém clamasse “bendito seja nosso senhor Jesus Cristo”! Dentro de casa respondia: ”para sempre seja louvado, tão bom senhor”! Em seguida a porta abria, para qualquer um. Nem o pior dos bandidos ousava quebrar esse acordo, pelo temor de cair sobre si a santa ira divina. E com isso ninguém se arriscava. Até o pior dos salteadores recolhia-se em oração, trazia orações presas em patuás, reza forte contra arma de fogo e arma branca, diziam que alguns tinham o corpo fechado e que só podiam ser atingidos com balas benzidas ou adaga virgem, sem uso.
  • 11. O povo vivia e divertia-se como podiam nas feiras e em forrós. A feira ainda é o mercado tradicional mercado onde se compra e vende-se de tudo: animais, carne, quitandas, cabrestos, arreios, rapadura, farinha, feijão, carne seca. Era o ponto dos tocadores afamados, alguns com fama de ter “pauta” com o maligno, para poder dominarem a concertina de oito baixos, conhecida por sanfona “pé de bode.” Instrumento difícil de ser tocados, devidos os poucos recursos que possui. Tem sómente oito baixos e um fole muito complicado de controlar, quando abre é uma nota e quando fecha é outra. Os sanfoneiros do nordeste iniciavam-se sempre por ela, por isso quando passavam para a de 80 ou 120 baixos a coisa aí ficava fácil. Os grandes do pé-de- bode do meu tempo nas imediações de Lagoa de Roça foram Pólino, Severino de Guiné, Zé Tempero e o Severino “Galeguinho do Fole” de Itabaiana, nada mais nada menos do que mestre Sivuca. Fui vê-los várias vezes, não sei se gostava mais da música ou do bolo de mandioca mole com café servido por uma cabocla bonita de nome Maria do Joá, quem Sivuca mais tarde lembrou-se de homenageá-la no baião “feira de mangaio” “Tinha uma vendinha no canto da rua Onde o mangaieiro ia se animar Tomar uma pitada com lambú assado, E olhar prá “Maria do Joá.” A presença de alguns sanfoneiros era sucesso garantido em qualquer forró e garantia do desempenho comercial da feira. Severino de Guiné era tratado como um desses astros de televisão de hoje. Aonde chegava os outros sanfoneiros mais novos iam vê-lo tocar, ficavam sem piscar os olhos em reverencia, silenciosos para aprender tudo que pudessem. Ali funcionava a pedagogia do talento e do esforço, que exclui e projeta. O próprio Sivuca em vida afirmava que aprendeu muito com “mestre” Severino de Guiné. E logo ele, uma das maiores expressões do acordeom que o mundo teve noticia. Os gênios aprendem com os menos favorecidos. Por isso é que são gênios. Sivuca, Hermeto Pascoal, eu, e outros tantos que fizeram carreira internacional, tivemos nesse ambiente o início de um aprendizado importante para uma consagração posterior. Evidentemente que todos nós continuamos estudando a
  • 12. fundo, mas o substrato cultural, a nossa base estrutural foi apreendida lá. É dela que propiciou o nosso estilo diferenciado e rico que temos, e, sobretudo a criatividade espetacular que caracteriza o músico nordestino, sobretudo os sanfoneiros. Eu botava mais sentido no triângulo e no zabumba, aquele tilingo lingo ligo extraído do ferro batido, com têmpera especial, encomendado aos melhores ferreiros me fascinava, não menos que a zabumba. Essa me tirava o juízo, mexia comigo nas entranhas. Feita de taboa de barrica, mais leve, ou então de baraúna, madeira preta que dá na caatinga, muito pesada, mas muito sonora. Cortava-se a árvore e tirava um pedaço assim de um trinta a quarenta centímetros, deixava no sol para secar, e depois ia tocando fogo do meio para a beirada, quando ficava somente um aro de uns dois centímetros de largura, estava pronto para ser vestido com um couro de bode molhado, a seguir era posto no sol inclemente para secar. Depois de secado couro era pregado tendo como suporte uma vara de jucá cozida, enrolava-se o restante com uma corda, até o couro ficar bem espichado. Para fazer o teste acendia-se um candeeiro e deixava-o no meio da sala, batia-se bem forte no centro da zabumba se o candeeiro apagasse estava aprovada. Eu não gosto da zabumba de baraúna, tem um som bom, mas o instrumento fica muito pesado e complica o desempenho de quem está tocando. Hoje pode dá- se o luxo de escolher, a tecnologia fez aparecer diversos materiais alternativos fazendo diminuir o peso do instrumento, mas naquele tempo não tinha para onde correr. Não me lembro de ver naquela época alguém usando o “bacalhau”, aquela vareta de bambu usada para fazer o contratempo. Essa invenção deu outra vida para o instrumento, Luís de Januario (mais tarde Gonzaga) foi quem popularizou a zabumba com o “bacalhau” por intermédio do grande Catamilho, virtuose desse instrumento trazido do norte pelo próprio Gonzaga. Aprendi tocar zabumba batendo em caixote, quando faltavam os maiorais. Era só dar uma chance lá estava eu, imitando os melhores do lugar. O ambiente de feira foi minha primeira escola com mestres informais e exigentes. Foi ali que tomei contato com essa variedade de ritmos que compõe a música nordestina: shotish, xaxado, baião, coco, choro, samba, embolada, maracatu, rojão, galope, os mais populares, agora se colocarmos os ritmos da Bahia e do Maranhão, Estados do
  • 13. nordeste com maior influência africana, precisaríamos de muitas páginas e tempo para pesquisar. A raiz dos nossos ritmos está na áfrica, nas diversas nações indígenas, e na musica árabe trazida pelos portugueses descendentes dos mouros que vieram com a colonização. O Brasil é um país muito rico em variedade musical, precisamos levar isso mais a sério, hoje é necessário ser músico pesquisador para conhecer esse rico patrimônio legado pelo próprio povo. Muito dos ritmos que ouvíamos naquele tempo nas feiras e nos forrós, estão em acelerado processo de extinção. Não tive professores, vim aprender a escrever quando mudei para o Rio de Janeiro, mas aprendi muito no sertão, e como o sertanejo além de ser um forte é um sábio. Aprender ler era para poucos, somente para os filhos de abastados que contratavam professores itinerantes, ou que mandavam os filhos para colégios de religiosos. Quando o governo mandava um professor para “desasnar” o povo, era preciso dividir a cartilha com mais cinco. Além disso, as famílias precisavam do trabalho dos filhos para sobreviver. Meus amigos preste bem atenção nesse baião ”Oricuri” de João do Vale: Oricurí madurou e é sinal, que arapuá já fez mel Catingueira fulorou lá no sertão vai cair chuva a granel Arapuá esperando oricurí madurecer Catingueira fulorando sertanejo esperando chover Lá no sertão, quase ninguém tem estudo um ou outro que lá aprendeu ler Mas tem homem capaz de fazer tudo, doutor! Que antecipa o que vai acontecer Catingueira fulora: vai chover andorinha voou: vai ter verão gavião se cantar: é estiada vai haver boa safra no sertão se o galo cantar fora de hora: é mulher dando fora, pode crer acauã se cantar perto de casa: é agouro, é alguém que vai morrer São segredos que o sertanejo sabe
  • 14. e não teve o prazer de aprender ler oricurí madurou e é sinal, que arapuá já fez mel... João do Vale explica com sabedoria o que é essa universidade sertaneja, cujo acesso é dado pela terrível prova de conseguir romper a infância com vida. 2. O Encontro com Lampião O meu sonho de menino era que quando crescesse entrar para o bando do Capitão Virgulino, o Lampião, para ser visto e respeitado como e um justiceiro do sertão. Essa vontade nasceu de uma desavença acontecida quando fazíamos “um quarto” para um vizinho que havia falecido. Nesses velórios havia a parte espiritual e religiosa, com um discurso exaltando as qualidades em vida do falecido, seguido de rezas e incelenças, lamento langoroso entoado diante do corpo inanimado. Mas havia o lado profano com folguedos para passar o tempo. A brincadeira que todos gostavam era o Gurufim, mas sempre terminava encrenca. O participante era questionado por quem conduzia o brinquedo a revelar um segredo íntimo, quase sempre, uma amizade inconfessa. Essa brincadeira envolveu meu cunhado, que era apelidado de “o coentro”. O puxador do gurufim perguntou para uma prima minha, muito safada por sinal: - Luzia, você esta doente? Você cura com que? Ela respondeu com coentro. Minha irmã viu-se humilhada devido a essa fulerice com o marido dela. Contou o caso para dona Maria Francisca que sentiu a honra da família abalada. A velha esperou um cavaleiro chegar munido de uma vara de jucá cozida, dessas que podia dobrar e colocar no bolso que a “bicha” não quebrava. Tomou a vara emprestada e disse para a Luzia: sua doença cura é com cipó de jucá, e sapecou um corretivo inesquecível na moça. A atingida, por sua vez, era um “chamego” do Sargento Feitosa, e suplicou a este que tomasse as dores por ela, por isso minha mãe foi presa e amarrada em um tronco como um bicho.
  • 15. Passei a noite toda chorando vendo aquela cena do Sargento batendo na porta com “coice fuzil”, invadindo a casa, dando ordem de prisão, e levando minha para o tronco. De manhã fui cedinho para a residência do Prefeito Medeiros, sentei- me no baldrame e comecei a chorar, até que saíram para fora para saber o motivo daquele pranto. Contei tudo para ele e a esposa muito sensibilizada, foi junto com o marido para a delegacia e ela mesma deu ordem para que soltasse minha mãe. Mas aquilo não foi suficiente, eu precisava vingar do “macaco” que fizera aquilo, e isso só era possível se entrasse no bando do Capitão Virgulino. Isso passou ser uma fixação para mim, até que um dia na feira Pocinhos, foi aquele disse me disse para tudo quanto foi canto, todo mundo assustado, a polícia correndo para o mato e os ricos enterrando objetos de valor. Era a notícia de que Lampião estava chegando no lugarejo. Mandou um aviso instantes antes por que sabia que os “macacos” não tinham peito para enfrentar seus homens e nem teriam tempo de pedir reforços. Era costume dele como um guerrilheiro astuto, evitar qualquer confronto desnecessário que envolvesse risco de vida de seus homens. Sua presença tomou conta das atenções, foi apropriando-se do lugar, até chegar um ponto que existia sómente a pessoa dele naquela praça. Quando começou dar ordens todos o obedeciam automaticamente. Exigiu que dessem de comer aos pobres, com voz determinada, imperativo, dizia que domingo era dia de nosso senhor, bom para fazer caridade aos mais necessitados. Os pobres sairam de lá munidos de mantas de carne, feijão e farinha. O Capitão ainda lembrou que se alguém no outro dia fizesse qualquer tido de ameaças para os beneficiados, iam ter com ele quando voltasse ali de novo. Nesse dia a fome sumiu de Pocinhos, o Capitão do Cangaço, a seu modo fez justiça social. Assisti tudo posicionado há uns vinte metros dele. Com ele havia mais dez cabras bem vestidos e bem armados. Calças de feitio matuto e blusão de mangas compridas. Chapéus de feltro outros de couro, no estilo de Napoleão Bonaparte. Alpercatas ferradas, feitas de sola macia e curtidas, cobriam todo o pé terminando em um orifício pelo qual saiam o dedo grande e o vizinho. O calcanhar ficava descoberto para facilitar os movimentos e poder correr sempre que fosse necessário.
  • 16. Suas armas eram a carabina “papo amarelo”, revólveres e a temida “parabelum”. Carregavam até 18 quilos de munição distribuídos em duas cartucheiras duplas atravessadas no peitoral e uma terceira amarrada na linha da cintura. Ter um “parabelo” era se sentir grande, capaz de fazer ostentação concreta de poder e respeito. Essa pistola, desenvolvida pelo alemão Georg Luger, entrou no Brasil no início do século passado em um cenário onde a ausência de justiça era a matriz de atitudes de desespero e revolta. Um ambiente onde o ser humano estava destruído moralmente e materialmente pela fome provocada pela tragédia da seca. O controle político estabelecido pelos coronéis da Guarda Nacional, o grave problema fundiário, a imensidão das caatingas, a possibilidade de fazer justiça experimentada pelos Cangaceiros, fermentava em um cadinho social de difícil compreensão pelo cidadão comum sem os recursos das letras. A junção destes fatores explica muito bem o cenário onde o instinto natural sobrepunha a civilidade, ambiente propício para o “parabelo” servir como instrumento de poder e status social. Potente, bela e precisa de morte, era a arma das odiadas volantes, dos coronéis, do Capitão Virgulino Ferreira e de seus comandados. Entretanto, havia por outro lado estava a condição humana, frágil e carente de cuidados. Ao lado das armas letais era conduzido com todo cuidado diversos tipos de remédios para primeiros socorros: água oxigenada, água boricada, iodo, pomadas, álcool, ácido fênico para combate a dor de dentes, algodão, gase e esparadrapo. A guaraína usada para combater a dor, a gripe e o resfriado. A vaidade era contemplada com a brilhantina Glostora, a loção Dirce e o tônico capilar Petrolina Minâncora. Carregavam jóias e dinheiro, anéis de brilhantes, fumo de corda, palha de milho para fazer cigarros, cachimbo de barro e fósforo. O equipamento do cangaceiro ficava estrategicamente acima da cintura, por que freqüentemente eles precisavam rastejar e correr. Quando as volantes estavam próximas, não podiam acender fogo temendo revelar o esconderijo. Ás vezes passava dias e dias sem beber água, tomando cachaça de ração, chupando rapadura e assando carne na ponta das facas.  
  • 17. No meu breve contato com o Capitão Virgulino vi algo de bom nele que não consigo até hoje desvencilhar da simpatia que me provocou. Carrego comigo essa visão favorável apreendida na minha memória naquele longínquo domingo de 1932, quando tinha apenas 8 anos de idade. Fui vivendo e aprendendo a razão da luta do Capitão, e pude saber que houve vários dele no mundo. Onde ocorre a exploração dos mais pobres aparece uma versão dele, como um espírito vingador que tira dos ricos para dar aos pobres. 3.OS VALORES E COSTUMES O culto a honra e a valentia faziam com que em todo lugar tivesse um valentão denominado “galo do lugar”. Geralmente essa coragem vinha amparada por família numerosa e parecida com ele. Era honesto e trabalhador, habilidoso no que fazia, mas quando bebia se transformava em um arruaceiro temerário. Era o caso de João Badoque, exímio amansador de animais, que cito em uma das minhas músicas. O povo sertanejo tem limites demarcados para provocações, um deles é a honra familiar, não bula com ela, é procurar morte certa. Sabe-se de muitos valentões que morreram nas mãos de pacatos cidadãos. João Badoque tinha esse grave defeito, não respeitava mulher casada, chegou a um forró e desrespeitou Clotilde, mulher companheira de um primo meu por nome de Manoel Pinheiro. Este piscou para ela ordenando que “dessa corda” para ver aonde ele chegaria. E o Badoque foi gostando, se engraçando, tomando coragem, começou a acariciar o cabelo dela e a falar impropérios. Quando menos esperava, levou um golpe de peixeira por baixo do sangrador, nem pediu água, morreu sem ter tempo sequer de colocar uma vela na sua mão. Manoel Pinheiro sabia que seria caçado igual a um bicho pela família do morto, mas como dizem no norte “a sorte anda com tem razão”, montou no seu cavalo e caiu no mundo e ninguém o encontrou. Depois de algum tempo, quando a poeira abaixou, mandou buscar Clotilde, contratou pessoas para conduzi-la debaixo do maior sigilo. Nunca mais em Campinote alguém soube mencionar o paradeiro dos dois, naquele tempo uma pessoa perseguida lá no norte, descia para o sul e se desterrava, em pouco tempo era riscada da memória e dada como morta.
  • 18. A igreja católica naquela quadra ditava as ordens no sertão, cuidava das almas e de outros interesses materiais menos nobres. Seus expoentes Padre Cícero e Frei Damião eram reverenciados como santos, e até hoje em todo nordeste, nas regiões onde falta a presença do Estado, lá estão eles a operar milagres e realizar curas. Para revigorar as esperanças no além os padres dos lugarejos convidavam os freis com suas missões itinerantes. Preparavam a paróquia para receber os religiosos e os romeiros que vinham de muitos lugares do sertão nordestino. O teor das Missões era verificar se os braços da Santa Igreja estavam estendidos de forma eficiente para abarcar as almas daquele mundo abandonado e sem lei. A pregação era estrategicamente preparada para assustar o aquele povo desassistido intelectualmente. Pintavam o inferno com cores assustadoras, mencionava tachos de água fervente, piscinas incandescentes e o cheiro sufocante de enxofre. As dores e o ranger de dentes eram exaltados. O sofrimento daquela pobre gente não poderia ser comparado com a eterna aflição que teria se acaso viessem a perder a salvação da alma. O final daquela retórica macabra era consumado com a formação de imensas filas de pessoas que julgavam ter se distanciado dos santos ofícios. O alvo preferido deste discurso era os casais que viviam sob o manto do pecado, amancebados. Geralmente formado por jovens que tinham quebrado as ordens do costume de casamentos combinados. Havia o costume dos pais acertarem antecipadamente o matrimônio dos filhos, ora voltado a cumprir interesse econômico ou para selar a amizade entre os dois chefes de família. Depois do combinado, mantinham a palavra dada, e isso naquela época era mais importante do que manter a própria vida, a quebra de compromisso significava desonra e descrédito. Se ocorresse a desventura de um amor proibido, o único meio de livrar desse acordo feito era fugir para viverem juntos dispensando as bênçãos da família e da igreja. Por isso os Padres diziam que estavam na companhia do diabo, e que ainda era tempo de reconciliarem com a igreja e com seus familiares. Se arrependessem, receberiam o infinito perdão de Deus com a interseção da Igreja na remissão dos pecados. Isso ocorrendo poderia realizar o casamento e providenciar o batismo dos filhos pagões. Essa era a única forma possível do perdão dos terríveis pecados da
  • 19. fornicação e da luxúria, considerado pelos sacerdotes iguais ou pior que o adultério. O ataque aos amancebados era, na realidade, um modo de manter a eficiência na arregimentação do rebanho pela lavradura do batistério, tido como documento mais importante do que o próprio registro civil, imposto após a proclamação da República. Eu estava na casa dos seis anos de idade quando fui abençoado em uma dessas missões por frei Damião. Ele era de pequena estatura e tinha um forte sotaque italianado. Até hoje me impressiono com que ele me disse, pondo a mão em minha cabeça afirmou que eu era dotado de enorme inteligência musical e que ainda iria ter muita fama nesse meio. Certa vez José Meneses, grande músico cearense, me falou também, que quando menino recebeu mesma profecia pela boca de Padre Cícero. Parece que os dois beatos tinham mesmo o poder de dar uma “espiadela” no livro da vida, escrito quando cada ser vivente vem cumprir uma missão nesse vale de dores. Havia nas igrejas um rigor quase ritualístico nos modos de como se compor para assistir as missas e participar da eucaristia. Mulher com roupa vermelha e decote pecaminoso estava proibida. Um marido certa vez autorizou a mulher ir à igreja do jeito que ela bem quisesse. Na ora da comunhão o padre perguntou em voz alta se ela era solteira, casada ou se era meretriz. Ela respondeu que era casada, e apontou para o marido, um jovem advogado temido por sua competência no domínio das leis, naquela época um advogado naquelas plagas recebia reverência digna das altas cortes. O padre não quis saber de encrencas com ele, deu a hóstia para a senhora e esqueceu-se estrategicamente do decoro eclesial. Quem mandava mesmo nos sertões era os coronéis, em Lagoa de Roça havia dois de prestígio: Coronel Adelaide e Olinto Coura. O governo fazia o que eles quisessem. O prefeito e o sargento estavam em suas mãos, e se porventura houvesse quebra de confiança eram destituídos ou transferidos dos cargos. O Coronel Coura era um tipo “populista”, distribuía cestas de alimentos para os pobres, e não deixava nenhum dos seus morrer a míngua. Por ser generoso era um homem de muitos compadres e afilhados, quase todos prontos para pegar em armas se ele ordenasse. Quando um de seus afilhados ia se casar, o pai sempre queria saber se
  • 20. o casamento era de gosto do compadre Olinto, se não fosse, certamente haveria dificuldades para o casamento prosseguir. Coronel Adelaide era do tipo truculento, homem duro e autoritário, forjado para dar ordens e ser obedecido. Se algum policial desafiasse suas ordens era pedido a sua transferência para Catolé do Rocha, considerado o cemitério de desobediente. Lá os Coronéis tratavam os soldados como reles serviçal. Certa vez um dos seus “protegidos”, que tinha um açougue na feira, foi injustamente agredido por uns policiais. O homem dentro da rua razão pegou um porrete e bateu nos três “macacos” que estava ameaçando-o. Pediram reforços e conseguiram com muita dificuldade desarmá-lo e prende-lo. Quando Coronel Adelaide ficou sabendo veio pessoalmente exigir que soltassem o seu “chegado” e deixou bem claro que da próxima vez, Catolé do Rocha era o destino deles. Havia muitos povoados em volta de Lagoa de Roça: Manguape, Guarabira, Pocinhos, Puxinanã e Brejo de Areias. Um jeito de o governo tentar manter a ordem nesses locais eram constituir uma espécie de preposto da lei. Um “cagoeta” oficializado denominado de Inspetor de Quarteirão. Ele podia prender amarrar e conduzir o transgressor das leis até o distrito policial em que havia sido sua consagração de autoridade. Recebia ordens dos Coronéis, do prefeito e do sargento. Recordo-me bem de dois deles, João dos Santos e Antônio Senhoria. Esse último morreu cheio de “bicheiras”, teve parte do corpo levado em vida. O compositor paraibano Rosil Cavalcante compôs um rojão que retrata a relação desse personagem no seio da comunidade onde vivia: Cabo Tenório (Rosil Cavalcanti) O cabo Tenório é o maior inspetor de quarteirão O cabo era bamba, disposto, o danado Bem considerado no seu batalhão Amigo do praça, do subtenente De toda patente, de quinto galão Zangado, era doido, um cabra valente Virava serpente, de punhal na mão Mas ficava manso e a briga acabava Se o povo gritasse lhe dando razão
  • 21. Lhe dissesse: Cabo Tenório, É o maior inspetor de quarteirão Viva seu cabo! Cabo Tenório, é o maior inspetor de quarteirão. Olha aqui, na casa de Tota fizeram um forró Tenório foi só, dançar e beber Os cabra de lá quiseram lhe bater Tenório gritou, vai ter confusão Balançou a mão, deu murro e bufete Tomou canivete, peixeira e facão Os brabos correram quem ficou presente Gritava contente no meio do salão e dizia Cabo Tenório é o maior inspetor de quarteirão. A religião do sertanejo era um catolicismo estilizado, influenciado com mitos indígenas e africanos. O povo nos domingos ia às missas. Nas sextas-feiras, considerado um dia forte, recorriam a benzedores sempre às escondidas dos sacerdotes da igreja. Conheci seu Severino da Xã, um homem de aparência tranqüila do tipo que não se assusta com notícia ruim. Além de benzedor era muito procurado como responsador. Diziam que tinha um livro de São Cipriano e era pautado com o “Trigueiro”. Responsar significa ter um dom espiritual para descobrir objetos achados, roubados ou desaparecidos. Revelar quem era o ladrão e onde ele se encontrava em determinado momento. Certa vez um filho de Maria Touro roubou uns cordões de ouro da própria mãe, e a culpa foi parar na minha pobre irmã Ciça. Meus irmãos mais velhos deram um castigo exemplar na moça com uma peça de couro. Mas como Ciça insistia que era inocente, minha mãe foi tirar suas dúvidas com seu Severino de Xã, ele responsou e afirmou que pudesse ficar tranqüila que a menina era mesmo inocente. E disse ainda, que em três dias o ladrão iria aparecer. Dentro desse período dado por seu Severino, a própria Maria Touro surpreendeu o filho devolvendo as jóias roubadas. Arrependida teve a hombridade de ir pedir perdão a minha irmã. Dona Maria Parteira ameaçou enxotá-la de casa com uma pisa de cipó de jucá, mas a própria Ciça interveio dizendo que a mulher estava com boas intenções revendo seu erro em acusá- la prematuramente, e que a situação tinha ficado bem resolvida. E pior tinha
  • 22. ficado para Maria Couro, em saber que seu filho Herculano era um ladrão. Não tinha dor pior do que essa não! Seu Severino da Xã não era de cobrar os serviços de seus dons, dizia que era dado por Deus, e por isso não era autorizado receber nada. Por isso recusou o pagamento oferecido, mas, sugeriu que receberia um agrado, um peru gordo ou um cabrito, se fosse consoante com a vontade da minha mãe, o que naturalmente foi atendido por ela sem que com isso pudéssemos esquecer o grande favor feito por ele. 3. A IDA PARA O RIO DE JANEIRO João Naval chegou em Lagoa de Roça em 1936, ninguém esperava por ele, chegou de sopetão. Tinha ido para o Rio de Janeiro em 1925 tentar a sorte no que desse certo. Entrou para a Marinha e virou um fuzileiro naval, um feito inimaginável para os nossos conterrâneos. Tinha saído como retirante e voltado como uma grande autoridade. Morávamos numa casa um pouco distante do lugarejo, isso fez com que João permanecesse um pouco na cidade, aproveitando para visitar nosso irmão José Preto, que era casado com uma moça filha de gente importante na cidade. Mal teve tempo para saudar o irmão e a porque de minuto a minuto tinha que dá atenção para um antigo conhecido curioso. Ele fez questão de chegar paramentado exibindo-se com orgulho a farda de fuzileiro naval chamada de garanço vermelho. Era um conjunto composto de calça azul marinho com listas azul e branco, paletó vermelho e boné branco. Uma vizinha nossa passando próximo à casa do velho Artur, vendo aquele jovem rapaz bem composto conversando desenvolto com todos quase teve um “vago”. Assim que se recompôs correu até a nós a fim de cobrar a “alvista”. Era um costume quando alguém sabia de uma boa noticia, ia avisar com antecedência ao interessado para receber um prêmio. A Dona Maria Francisca pagou satisfeita a alvista, combinaram uma dúzia de ovos; meia dúzia de galinha comum e meia de guiné. Ficou muito comovida com a notícia da vinda de João, já se passara longos onze anos ele estava chegando sendo alvo de bons comentários e admirações, tratado como gente
  • 23. importante. Soldados batendo continências, moças saindo para as ruas mais arrumadas. O filho de dona Maria Parteira tinha virado o centro de atenções, e ela gostou do que estava vendo, tocou na sua vaidade de mãe. João havia saltado do navio em Cabedelo proveniente do Rio de Janeiro, seguiu direto para João Pessoa. Lá tomou uma marinete em direção a Capina Grande, que fica praticamente encostada em Lagoa de Roça, veio de carona em um caminhão. Depois do reboliço que causou, com todos querendo vê-lo, saber das novidades do Rio de Janeiro, querendo saber o que ele tinha feito para subir tanto assim na vida. Se foi ajudado por algum político influente. No que ele rebatia de imediato, dizendo que somente Deus, em primeiro lugar o ajudou, e depois a fé em Padre Cícero do Juazeiro. Tudo esses imprevistos fez com que ele demorasse a chegar em casa. Quando cruzou o baldrame da porta já foi logo ordenando para que arrumássemos nossa bagagem, que no prazo de 15 dias iríamos com ele para o Rio de Janeiro. Minha mãe em vez de chorar, deu uma bronca nele por ter demorado a chegar em casa. – “Vice! Onde já se viu. Chega e demora desse tanto na rua menino.” Ele assustou-se comigo e foi dizendo: - Esse é o Inacinho? Como o peste cresceu. – Ah! Você vai virar gente, pode deixar comigo. A festa continuou naquele dia um entra e sai como nunca se viu, até o Sargento Feitosa teve a petulância de ir lá bater continência como irmãos em armas. O comentário era grande, o rapaz é um “troço” muito alto, pessoa muito importante. E como era de costume daquele lugarejo, ocasião como aquela não podia faltar um peru gordo para fazer um pirão. Foi um dia inesquecível para mim sempre me lembro daquele movimento. Enquanto preparávamos para a viagem João foi para o sertão adentro em busca de umas malacachetas, umas pedras brilhantes usadas como isolante de eletricidade. Queria levar algumas para vender no Rio de Janeiro, enquanto isso ordenou que ficássemos preparando para a viagem. Eu nunca havia calçado um sapato na minha vida, usava somente chinela de pataca cruzada, agora precisava de um. Ficamos sabendo que Firmino Julião tinha comprado um sapato para o filho dele com um número menor, muito apertado. Compramos o sapato, era muito bonito, desses bicolor, marrom e branco. O sapato entrou arrochado, mas serviu, de tanto contente que fiquei nem reclamei dos
  • 24. apertos. De roupa eu até que não vestia muito mal, minha mãe aproveitava toda sorte de retalhos que sobrava. Um comerciante de Campina Grande deixava umas peças de pano para ela vender conforme fosse costurando. Trazia mescla azul, gorgorão de várias cores e linho de coroá. Avisava com antecedência por meio do motorista da “Sopa”, apelido dado às “marinetes”, os dias em que viria ao povoado. Chegava com seu Ford Bigode, e fazia de imediato o acerto como havia combinado com as costureiras, a seguir mostrava as novidades que havia trazido, por fim, renovava os sortimentos de panos e aviamentos. Minha mãe tinha um cuidado especial com as mercadorias e com o dinheiro da parte dele. Além da antiga relação comercial mantida, tinha muita consideração por ele. Encomendava a ele coisas que não havia em Lagoa de Roça, principalmente remédios, ele fazia questão de dizer que não botava margem de lucro por que tinha amizade e consideração por ela. Ganhei três calças e três camisas. Estava bem composto. Com o coração e os pés apertados deixei Lagoa de Roça no início do mês de novembro de 1936. Eu, minha mãe, Maria, Luís e João. Fomos para João Pessoa e ficamos hospedados na casa de tia Santina. Ficamos lá oito dias esperando pelo navio Pará. O porto de Cabedelo fica situado bem próximo a capital, tanto que hoje faz parte da região metropolitana da capital paraibana. As instalações eram novinhas, o porto havia sido construído um ano atrás, em 1935. Achei engraçado o formato do lugar era uma ilhota de uns cinco quilômetros de largura por dezoito de comprimento, muito apropriado para a função portuária, segundo os ensinamentos do meu irmão João Naval, conhecedor do assunto. Viemos no navio Pará. Era um navio previsto para três classes de gente: a primeira para os grã-finos, a segunda para os remediados como nós e a terceira para os menos favorecidos. Eu não conhecia navio nem por fotografia, e agora estava dentro de um deles. Andava para todo canto, onde permitiam entrar eu entrava, me entusiasmei. Pedi licença para entrar nos compartimentos destinados às classes A e C. Lembro-me que no espaço destinado aos ricos havia lugares diferenciados, decorados com quadros bonitos, possuía um restaurante amplo com mesas cobertas com forros brancos bordados em várias tonalidades, um imponente salão de jogos, homens bem vestidos e mulheres cheirosas, parecendo até que não suavam nunca.
  • 25. Na outra classe vi passageiros empilhados como animais, empoleirados em redes, como se tecesse uma teia de aranha, no cruzar e entrecruzar de fios daquele tear bizarro, cuja matéria – prima assimilava à sorte daquele povo apegado aos sonhos irreais da capital da república. Sonhos simples próprios da dimensão das suas vidas. Encontrar um trabalho, arrumar um teto, e ter o necessário que a dignidade humana exige de um lar. Dentro da minha consciência de adolescente eu não saberia precisar o que esperar daquele mundo que estava descortinando, o que eu queria mesmo, era um lugar onde nunca mais haveria seca para não faltar comida, para mim isso já era o bilhete de entrada para o paraíso. Mas tarde é que vim perceber que aqueles pobres coitados tinham um destino: a construção civil. Carregar massa de cimento e cal nas costas e morar indignamente em casas de pensão. Longe dos seus, a solidão conduzia-os para o álcool como forma de responder aos insultos que recebiam daquela sociedade preconceituosa. Mais tarde sempre que ouvia o samba “Pedreiro Valdemar “de Wilson Baptista e Roberto Martins, relembrava daqueles conterrâneos do navio. “Vocês conhecem o pedreiro Valdemar “Faz tanta casa e não tem casa pra morar” Não vi o que comiam os pobres, não deixaram. Eu sei que a nossa era boa, quis repetir umas três vezes, e com o prato bem cheio. Mas, dona Maria Francisca não autorizava gula, e com um olhar circunspecto me desautorizou a vontade, sem, no entanto, impedir que eu pudesse matar a curiosidade de experimentar iguarias que eu desconhecia. Deixei de lado os pratos temperados com cebola. Nunca gostei de alho e cebola,, como disfarçado, fatiados em milímetros, por saber que são bons para evitar uma infinidade de moléstias. Chamavam-me de feiticeiro pelo meu confesso pavor ao cheiro do alho cru. Comida boa. Eu que fora criado em cima de lombo de animal chucro, não consegui domar o enjoou provocado pelo balanço do mar. No começo o gangorreado até que parecia divertido, mas, ia fazendo com que a comida tomasse o caminho de volta. Quando o Pará passou nos Abrolhos parecia um “sabugo” de milho no mar arredio. Deram-me limão para eu cheirar. Outros me ensinavam a fechar os olhos. Parecia que sómente
  • 26. eu sentia enjoou, os outros não. Quando o mar ficava calmo, aí eu aproveitava para andar no que era permitido. De noite observava aquela imensidão de céu estrelado, as estrelas movimentando, como se riscassem os céus, tinham outras que caiam no mar. De dia bisbilhotava, queria por tudo conhecer o navio por dentro, ver como funcionava, conhecer o maquinário que fazia aquele gigante se movimentar. Foi uma viagem e tanto, com o passar dos dias meu olhar aguçava na imensidão das águas, até que avistei como se saísse de dentro do mar, o nosso senhor de braços abertos. Até hoje aquela cena povoa minha memória, Cristo me recebendo como se quisesse me abraçar. Depois vi o um morro parecendo um pedaço de pão, meu irmão falou : -“ ta vendo, é o pão de açúcar. – “De açúcar!”Retruquei. Ele explicou que a gente podia subir lá em cima dentro de um bonde, que subia o morro deslizando por um fio. Fiquei imaginando como deveria ser isso. Tive que ir um dia lá para acreditar naquilo que tinha ouvido. Aquela imensidão de casas dispostas ao redor do mar e muitas outras que iam galgando o morro, confundindo com a vegetação verde deste, tudo muito bonito. Um novo ambiente aparecendo no meu olhar fustigado, me veio na cabeça, como irei enfrentar isso tudo? Me confortava na experiência dos meus irmãos que já estavam lá há mais de dez anos, tinha se dado bem, e com certeza saberiam como proceder. O navio atracou no cais do porto, eu desci, pisei o solo carioca com o pé direito, sentindo que ali era o meu novo lugar, com gente diferente, e um mundo novo para enfrentar. 2ª PARTE: O RIO DE JANEIRO 1. APRENDENDO A VIVER NO RIO DE JANEIRO. Descemos no cais do porto lá nosso irmão José Galego nos esperava, pegamos uma condução de aluguel e fomos para a casa dele. Ele era funcionário da prefeitura municipal fichado como gari. José era possuidor de um generoso espírito de provedor, de uma dedicação total a família, quando estávamos em Lagoa de Roça, todo mês chegava uma carta dele contando as novidades e enviando um pouco de dinheiro para minha mãe.
  • 27. Ficamos hospedados em sua casa por uns quinze dias prazo em que eles providenciaram um barraco alugado a Dona Esperança, no morro de São Carlos próximo ao Terreiro Grande. João morava por perto e era muito respeitado na área de modo que nossa integração na comunidade não foi difícil. O local era maravilhoso. Sei que é difícil de acreditar nos dias de hoje, onde os morros no Rio vivem em clima de guerra civil, mas naquela quadra reinava a camaradagem e a generosidade que tanto distingue o povo carioca. Convivemos muito bem com a família de João, Carminda sua esposa, era um ser humano de generosidade incomum, junto com sua mãe Leopoldina, conhecida como dona Dina, ensinaram para Maria e Minha mãe como sobreviver ali naquele novo local. Mostraram os caminhos mais seguros, os açougues e armazéns mais confiáveis, em suma, foram de uma dedicação incomum. As cunhadas de João Adélia e Dininha, minhas primeiras amigas naquele mundo desconhecido. Até hoje me lembro dessa gente com muita saudade, um tempo feliz por que foi uma época que vivemos bem, cheios de esperança com o que estaria por vir. Mesmo contrariando Carminda minha mãe começou a costurar, a velha não gostava de ficar parada e logo pediu a José que arrumasse uma máquina, daquelas movidas a mão, pois não se acostumara àquelas movidas a pedal. Quando souberam que havia uma costureira ali na área, choveu de serviços principalmente consertos, e foi aquele entra e sai de gente. A situação tornou-se quase insustentável quando resolveram que minha mãe era capaz de costurar fantasias para o carnaval. Umas mulheres foram o nosso barraco e no final da tarde minha velha já havia aprendido, e ela ainda brincou: “– É a mesma coisa de fazer mortalha!” Engraçado, que hoje eles usam essa expressão “mortalha” para denominar as abadas usadas pelos trios elétricos baianos. Aquilo era muito para uma senhora idosa meus irmãos e minhas cunhadas proibiram a velha de costurar, também pelo fato de que ela estava com um sério problema de catarata que acabou levando-a à cegueira no final da vida. A vida tece a linha de nossa existência e nos conduzem como se fosse um lance pensado estrategicamente. Imagine onde fui morar, no Morro de São Carlos, onde em 1928 o grande Ismael Silva havia fundado a “Deixa Falar” e patenteado uma batida nova para o samba que permitia facilmente diferenciá-lo do maxixe. Na
  • 28. subida do Morro de São Carlos reuniam-se com freqüência bambas com o próprio Ismael Silva, Bide, Marçal, Baiaco, Malvadeza Durão, Brancura e Mano Edgar – uma das regiões do Rio onde convivia a generosidade com transformações e transgressões judiciais. Os botequins situados na Rua Maia Lacerda, próximo a Praça Onze e da tradicional Zona do Mangue, era ponto de encontro da alta malandragem, alguns deles exímios sambistas. Vinham de Benfica, da Gamboa, da Providência e de Madureira. Ali era o cenário do meretrício e das rodas de carteado, vida noturna intensa que garantiu ao Estácio o título de Berço do Samba do Rio de Janeiro, aquele estilo diferente dolente, pausado e marcado por instrumentos de percussão. Não é fruto do acaso o fato da primeira escola de samba a “Deixa Falar”, ter nascido no bairro do Estácio de Sá, reduto de desocupados e trabalhadores informais, dedicados a jogatina e exploração de mulheres naqueles meados da década de 1930. Reuniam-se em botecos em culto a boemia e tudo que estivesse associado. Ali foi o berço da alta malandragem do samba, o berço de Sua Majestade Ismael Silva. Negro bonito, elegante no vestir, educadíssimo e bom de briga. Foi nesse local que a vida me colocou e que aos poucos iria me ensinar a conhecer os segredos e os personagens daquele palco. Inicialmente João me matriculou em um Colégio dos Integralistas, ele não era das fileiras do partido, embora fosse um simpatizante confesso das idéias de Plínio Salgado. O uniforme escolar era uma camisa verde com uma letra sigma estampada na manga. Naquela escola respirava o nacionalismo, cantavam diariamente o hino nacional seguido de um sonoro “anauê”, grito de guerra dos integralistas extraído da língua tupi que significa “você é meu irmão!”. Um professor era encarregado de fazer diariamente uma palestra sobre a filosofia do integralismo. O discurso era voltado para o crescimento e desenvolvimento do Brasil e a ajuda aos pobres. A essência daquilo tudo eu nunca consegui entender até hoje, parecia um teatro muito mal ensaiado com personagens folclóricas. Não fiquei muito naquela escola, só o suficiente para mal aprender ler e escrever. Voltei de imediato para a Universidade da Vida onde permaneço até hoje, aprendendo na observação
  • 29. e na companhia dos melhores, valendo-me da experiência dos outros para poder construir a minha. Vivendo e aprendendo a jogar. Dona esperança desocupou uma casa maior, de quatro dois quartos, sala e cozinha, situada próximo ao posto policial de frente a uma caixa d’água pública, aonde as mulheres vinham buscar água para suas rotinas diárias. Fomos morar lá, ficamos mais bem acomodados, próximo aquela coreografia do sobe e desce no morro, com as cabrochas equilibrando as latas d’água na cabeça. Isso certamente inspirou os compositores Luis Antonio e Oldemar Magalhães para compor o samba “Lata D’água na Cabeça”, lançado pela cantora Marlene. Lata d'água na cabeça Lá vai Maria Lá vai Maria Sobe o morro e não se cansa Pela mão Leva a criança Lá vai Maria Maria Lava a roupa Lá no alto Lutando pelo pão De cada dia Sonhando com a vida Do asfalto Que acaba Onde o morro principia A mensagem do samba acima diz tudo. A dura subida do morro, a luta pelo pão de cada dia e o sonho do asfalto. Com base nisso fui, que era também a minha realidade, fui a luta, comecei a trabalhar vendendo pastel, doce e amendoim. Vendia no campo de futebol próximo no largo do Estácio. Depois descia e pegava a Rua Pinto de Azevedo para chegar ao Mangue, local do baixo meretrício. Lá consegui vários fregueses entre cafetões e prostitutas, que sempre me pagavam na data combinada. Não corria risco de ser assaltado no valor em espécie, porém havia uma molecada terrível que era acostumada a tomar as quitandas e dar uma surra no vendedor. Aí Afonso, era o bamba daquela área, e com quem mais tarde ficou meu amigo, me aconselhou a andar sempre com um cabo de aço escondido sob a roupa.
  • 30. Ah! Eu tive que bater em muita gente para adquirir respeito e confiança naquelas imediações. Estávamos no mês de dezembro, com o natal aproximando, vida nova, costumes diferentes. Em Lagoa de Roça não estávamos acostumados com aquela profusão de trocas de presentes. Um malandro me garantiu que se eu deixasse um sapato na janela o Papai Noel colocaria um presente. Coloquei o meu bicolor de estimação, em vez de deixar um presente para mim o Papai Noel levou com ele meu único sapato. Fiquei chateado e a partir daí perdi totalmente a confiança e a crença em Papai Noel. Afonso passou ser uma espécie de manual de sobrevivência para mim, a apresentado o que havia de mais interessante naquelas paragens. Um dia me chamou para assistir uma briga de galos na casa de um senhor por nome de Benjamim. Era um lugar o ponto dos galistas do morro de São Carlos e adjacências. Gostei do ambiente e comecei a freqüentar com assiduidade, tanto que acabei conquistando a confiança de todos que freqüentavam aquela rinha. Fui conhecendo e compreendendo todas as manhas do ofício até me consagrar como tratador de galos de briga. Tratava o galo da mesma forma como se cuida de um atleta profissional. Os procedimentos têm que seguir a uma dura rotina diária. De manha começava o trabalho para o fortalecimento da musculatura das pernas e do aparelho respiratório, fazendo o galo pular sobre um tapete até ficar ofegante. A seguir refrescava-o com banho de água natural seguido de um banho de sol. Logo após, o galo entrava no passeador, um local de mais ou menos um metro e meio por oitenta centímetros, dotado de um piso de areia para complementar o reforço da musculatura, ficando lá geralmente das oito às onze da manha. Voltava novamente à gaiola, agora para tomar água e alimentar-se. Sua refeição normalmente acontecia por volta de uma da tarde, constituída a base de girassol, milho quebrado, aveia em casca e leite. Como suplemento, uma torta extra de tomate, agrião, couve e cenoura. Para desenvolver resistência, pílulas de robustez, as mesmas dadas para os pombos correios. É um treinamento, com as devidas
  • 31. proporções, semelhante ao de um lutador de boxe, o bicho é preparado para ter resistência na hora de assimilar os golpes e agressividade para reagir. As brigas de galos já estavam proibidas desde 1934, com a edição do Decreto Federal 24.645 que proíbiu realizar ou promover lutas entre animais da mesma espécie ou de espécies diferentes. Mas a paixão pelo galismo é tão grande que o pessoal nunca foi de respeitar esse decreto, volta e meia ficamos sabendo de batidas policiais e prisões em flagrante de cidadãos com alto prestígio econômico e político, que até a polícia fica sem jeito de conduzi-los para a delegacia. Para ser engraxate na Lapa tive que tomar umas aulas com o Lopes, um engraxate profissional morador no morro de São Carlos, que fez questão de me ensinar as manhas do ofício. Mas havia outra questão essencial: como sobreviver naquele ambiente visitado pelos maiorais da malandragem. A Lapa era uma autêntica academia de formar malandros, alguns com status de astros, como Miguelzinho, Edgard, Baiaco, Malvadeza Durão, Ataliba, Eduardinho, Camisa Preta e Meia-Noite. Para conviver ali a exigência era ser um deles, batizado e matriculado no assunto e coisa e tal. Conquistar na Lapa um ponto para trabalhar era correr riscos de levar uma surra inesquecível. Já havia sido avisado que iria para o local mais perigoso da cidade. Por isso fiz um diagnóstico da área para saber quais os pontos que já estavam ocupados, para então localizar um lugar aparentemente devoluto. Encontrei um, próximo de uma farmácia situada em frente à Travessa do Mosqueiro. Mas mesmo assim, com toda essa precaução estratégica de boa vizinhança, um moleque do morro dos cabritos que engraxava a uns trinta metros abaixo, não quis admitir pacificamente a concorrência; aí um garoto grandão, que eu não conhecia, tomou minhas dores, parecia ser muito respeitado na área, e ordenou que me deixassem em paz. Assim pude trabalhar ali tranqüilo, confiante no meu cabo de aço escondido dentro da caixa de engraxate. Ainda não possuía nenhum conhecimento sobre as personalidades do mundo folclórico da Lapa, mas de cara, engraxei os sapatos de algum deles. Lembro-me de Madame Satã, malandro que ficou conhecido no envolvimento da morte do
  • 32. compositor mineiro Geraldo Pereira. Do China da Lapa, esse não era um valentão, mas um jogador que sobrevivia do vício, certa vez ele reconheceu Noel Rosa passando com um violão debaixo do braço, no outro lado da rua, às dez horas dez da manha. Lembro-me dele dizer: - “ Nossa o Noel ainda está na rua, já ouviu falar dele menino? Ele é o maioral dos compositores”. Assim eu fui me criando naquele ambiente, conhecendo seus códigos, no entanto, sem ostentar valentia nem tampouco covardia. Sempre soube ouvir e por isso vez por outra recebia bons conselhos de desconhecidos que foram fundamentais para sobreviver naquele ambiente povoado por marginais, prostitutas, artistas e intelectuais. Gente muito boa por sinal! 2. O CONTATO COM A MÚSICA O Afonso me levou para assistir os ensaios no Bloco “Cada Ano Sai Melhor”, tive uma sensação de assombro com o que vi. O repicar dos tamborins, a marcação dos surdos, e as cuícas tirando um som que imitava gente gemendo sabe lá se de dor ou de alegria. Nem dormi o restante da noite, sensação igual aquela só quando ia às feiras ouvir Severino de Guiné, Pólino e o Galeguinho de Itabaiana. A música sempre me furtou as atenções, vendo aquilo eu não conseguia pensar em outra coisa, queria ser um deles dominando meu instrumento e ser o centro das atenções, sempre tive esse tipo de vaidade. Peço a Deus que me perdoe se isso for uma espécie de pecado inclemente. Depois do que vi, passei a gastar todo meu dinheiro de engraxate, para encontrar um bilhete premiado que valia um cavaquinho numa birosca de um português muito mal intencionado. Era um instrumento tosco, de cravelhas, e que depois tive o dissabor de constatar que era difícil de ser afinado e pior ainda, e de modo algum segurava a afinação. Minha irmã Maria percebeu que aquele negócio todo tinha um xaveco por detrás, resolveu ser mais esperta que o português, falsificou com todo cuidado o tal bilhete premiado. Comprou um envelope, abriu na frente do portuga, ele com mais atenção na beleza dela não percebeu a troca do comprovante. Mas, ainda simulou uma reação: “Oh! Raios me garantiram que o cavaquinho não sairia!”
  • 33. Ter aquele cavaquinho em minhas mãos foi um marco na minha vida, ele ali, à minha disposição. Não sei e nem quero comparar, mas emoção de tirar o som do seu primeiro instrumento, com ele assim, coladinho no peito, é como ver o primeiro sorriso dos filhos, são coisas que a gente cala nos recônditos da alma, e, com o passar do tempo, as lembranças dessas emoções retiram lágrimas dos olhos da gente com a maior facilidade. Naturalmente por terem sido vividas de uma experiência feliz. Lágrimas sem remorsos e, sobretudo humanas na sua mais digna expressão de sentir e de viver. Sou um homem feliz, por que fui conduzido pela sorte do meu talento musical. Fiz muita coisa nessa vida, sou um artesão habilidoso, mas nada se compara ao meu trabalho como músico. Minha paixão pelo palco é maior do que a minha paixão pela vida, por que sem ela não valeria a pena viver. Com o cavaquinho nas mãos no outro dia fui à casa do Nequinho, músico de respeito e meu vizinho. Vendo minha determinação me acolheu com entusiasmo. Os artistas de um modo geral sempre protegem as crianças talentosas. Dão aulas de graça, por que talvez vejam neles a sequência do que fazem. Ele de cara foi afirmando: - “Meu filho, tudo começa com o dó!”. E foi cantarolando aquela embolada folclórica de domínio público: “Segura o bode meu cumpade seu Mané o seu bode é tão malvado machucou minha muié.” Foi me ensinando e dizendo que prestasse atenção na pulsação da música, para eu sentisse o momento adequado de trocar a posição dos acordes. Para seu espanto toquei ali de prima, no calor da emoção, o Segura o Bode. Ele percebeu de imediato a minha capacidade de aprender, e ficou entusiasmado, disse que eu fosse lá todo dia, uma meia-hora depois que chegasse do colégio, para verificar como eu estava indo. No dia seguinte ordenou que eu fizesse o dó em outras casas, dizia que era um exercício muito bom, pois permitia dominar com maior desenvoltura o braço do instrumento.
  • 34. Depois fez o mesmo com a tonalidade de ré maior. Ensinou-me uma melodia com as notas ré, sol, si, ré. As mesmas notas da afinação padrão do cavaquinho para eu aprender afinar o cavaquinho fazendo associação com essa seqüência musical. Fazia questão de frisar que cavaquinho não era um pedaço do violão e que tinha sua afinação específica, e que eu deveria obedecer a esses princípios se quisesse levar em frente à carreira de instrumentista. Nequinho tinha ojeriza de ouvir cavaquinho afinado como violão ou bandolim, reagia como se tivesse sido insultado, para ele era uma espécie de humilhação ao instrumento. Cada instrumento tem sua identidade baseada em uma afinação característica. Ele era um tipo conservador, inimigo confesso das afinações alternativas. Cada dia que passava eu ficava mais entusiasmado com o aprendizado, fui descobrindo os segredos daquelas quatro cordas. Sentia-me importante aprender aquela linguagem entendida somente por músicos de respeito. Eram os relativos, tons vizinhos, cadência, notas falsas, melodia, harmonia, ritmo, tonalidades. Aquilo me fazia diferenciado dos demais garotos, era reconhecido e respeitado pelos mais velhos, que me considerava um deles. Ficava impaciente para descobrir coisas novas; uma forma mais eficiente de segurar a palheta para não deixá-la cair a toda hora, e, sobretudo, ter cuidado para aprimorar a qualidade do som extraído. Fiz amizade com um garoto por nome de Pedro, que foi percebendo me interesse por música, tratou logo de me colocar em contato o seu pai, Manoel do Violão, que fazia parte de um conjunto amador especializado em choro e samba. A cada primeiro sábado de mês, eles reunião-se na Rua Catumbi, na residência do saudoso professor Waldemar, pessoa muito querida no meio, compadre de Pixinguinha. O sarau era esperado com impaciência, devido o modo especial que o professor e a esposa recebiam os convidados. Além da hospitalidade havia uma feijoada que sómente os cariocas sabem fazer. Outras vezes serviam uma rabada com agrião e batata, meu Deus do céu, era uma coisa séria. Atraídos pelo ambiente e pela suculenta comida que o Professor Valdemar proporcionava vinham instrumentistas e aficionados de todas as plagas do Rio: clarinetistas, violonistas, flautistas, todos de altíssimo nível a ponto de me sentir acuado, quem era eu para tocar com aqueles mestres. Gentilmente pediam-me para
  • 35. eu tocar, como eu não me sentia seguro, preferia mesmo era ouvir e ir aprendendo importantes macetes que ou meus olhos e ouvidos capturavam. Foi lá que conheci seu Antônio Rodrigues, grande cavaquinista, trabalhava no Ministério do Trabalho. Ele usava uma afinação que não teve seguidores, mas era um troço bonito, dava um efeito diferente. Aí cheguei à conclusão que não devia ser tão intransigente em questão de afinação como havia ensinado meu primeiro professor. Passei a freqüentar a residência de seu Antônio na Rua do Lavradio. Ele era casado com dona Maria uma mulher muito doente, mas de uma educação que nunca vi outra igual, uma esposa extremosa, muito carinhosa comigo, gostava da minha presença, argumentava que eu ajudava a “prender” seu Antônio em casa. Nas aulas ele insistia para que eu dominasse as tonalidades, saber de cor os relativos. Na minha ignorância de inocente quis saber o significado do nome Relativo, ele sabiamente respondeu: “É que os tons precisam de solidariedade!” Uma vez descendo o morro de São Carlos fui interceptado por um negro bem vestido, terno branco, sapato branco e camisa azul. Estava na minha frente nada mais nada menos do que São Ismael Silva. Vendo-me com o cavaquinho debaixo do braço perguntou-me se eu conseguia acompanhar um samba e cantou aquele samba feito por ele com parceria de Noel Rosa: “Estou vivendo com você Num martírio sem igual Vou largar você de mão Com razão Para me livrar do mal. Supliquei humildemente Pra você se endireitar Mas agora, francamente Nosso amor vai se acabar. Vou embora afinal Você vai saber porque É pra me livrar do mal Que eu fujo de você.” Depois de ver meu esforço ele perguntou: -“Você é do norte?” Respondi que era. Ela emendou, de agora pra frente você será o garoto do norte. E tem mais uma coisa
  • 36. Você vai ficar bom nesse negócio aí. Anos mais tarde encontrei com ele em uma Rádio ele me olhou pensativo e foi logo perguntando. –“ Eu não te conheço? Você não é o garoto do norte? Trocou o cavaquinho pelo pandeiro, Por que?” 3. MEU ENCONTRO COM O PANDEIRO. Naquelas imediações do Largo do Estácio respirava-se o samba, as crianças já nasciam com o coração marcando o compasso dois por quatro. A vontade de ser ritmista ia tomando conta, até que um dia passei por cima do compromisso que tinha com o Nequinho e com o seu Antônio Rodrigues. Cheio de dúvidas me aborreci acabei trocando o cavaquinho por dois casais de canários bons de briga. Mas depois de alguns dias comecei a ficar angustiado por ter desfeito do cavaquinho, Ia engraxar e voltava triste, abatido. Para aliviar um pouco aquilo tudo, passei a freqüentar a casa do Manoel da Cuíca, ponto de encontro de reuniões musicais, como o pessoal do conjunto Turma Animada, e dois pandeiristas que se destacavam: Valdemar e Russo Sapateiro. Tinham estilos completamente diferentes. O Valdemar era uma cópia do Jacob Palmieri e do Russo do Pandeiro que tocavam com as platinelas sem abafamento, de tal forma que quase não se ouvia o som do couro. Ainda muito influenciado pelo samba amaxixado. O outro era o Russo Sapateiro, que não possuía semelhança musical alguma com o xará. Ele tinha a malemolência da Turma do Estácio e passei a observá-lo minuciosamente. Mas havia um problema sério, eu não possuía um pandeiro, passei a improvisar em pratos ou qualquer outra coisa que assemelhasse a um pandeiro. Fui indo até que um dia meu irmão, Antônio Fogueteiro, vendo minhas estripulias de sambista doméstico, aconselhou-me como era conseguir um pandeiro. Ele me aconselhou ir até a barbearia de Joaquim Pinheiro nas imediações do Campo de Santana, próximo do Túnel João Ricardo que dá passagem para o cais do porto. Naqueles tempos haviam os fregueses de caderneta, e vez por outra ficavam dívidas em aberto, aí depois de algum tempo do vencimento da obrigação as partes entravam em acordo, como forma de honrar o compromisso o devedor botava à disposição do credor um objeto de valor como pagamento. O barbeiro
  • 37. Joaquim havia recebido um pandeiro como pagamento de dívida, e estava sendo usado como peça de decoração. Dependurado, empoeirado e sem uso. Seu Joaquim era desses barbeiros que usava um bigode bem aparado, separado ao meio como aquele ator americano do filme “ E O Vento Levou”, Clarke Gable. Muito gentil, quis saber o que eu queria, e de prontidão foi pegando uma cadeira e subiu para apanhar o pandeiro, fez uma ligeira limpeza com um espanador e colocou-o em minhas mãos. Aí o espírito do Russo sapateiro manifestou em mim, fiz tudo que havia aprendido observando por vários meses como ele tocava. Seu Joaquim Pinheiro não resistiu aquilo aquilo e me deu o pandeiro de presente. Agora que eu estava “armado” fazia questão de ir todos os dias dos ensaios. Percebi que o Russo Sapateiro tocava com as pontas dos dedos e não dava tapas no pandeiro. Chegava em casa, treinava, treinava. Não gostava daquele barulho deselegante das platinelas, sentia que perturbava mais do que agradava a quem ouvia. Fui experimentando abafadores, isso acabou virando uma obsessão em minha vida artística, experimentei de tudo e nunca ficava satisfeito, até que um dia, depois de consagrado, descobri o plástico, esse sim, tem a capacidade de colocar o som das platinelas no lugar que ele merece, lado a lado com o som do couro, igual a uma dupla de violões bem afinados, onde um respeita as funções do outro. Com essa preocupação toda e treinando muito, logo chamei a atenção dos próprios músicos. Ouvi elogios repetidos e incentivadores dos pandeiristas Adolfinho e Valdemar. Esse último chegou até a afirmar que estava com vergonha dele mesmo. Havia passado lá em casa e me ouviu treinando no quarto, disse que não acreditou no que ouviu. – “Esse menino não tem a metade de nossa idade e já esta fazendo isso, imagine só quando crescer, não vai ter para ninguém!” Começaram a me aconselhar a ir a algum programa de rádio para mostrar meu talento. Eu nem tinha noção do que falavam treinava muito porque, parecia que havia uma voz lá de dentro de mim ordenando a continuar trabalhando em busca da perfeição. Minha fama começou a circular de boca em boca até que o Roberto do conjunto Turma Animada pediu que eu fosse assistir os ensaios deles. Era um conjunto semi- profissional, todos tinham suas profissões, mas quase todo mês ganhavam um dinheirinho tocando normalmente em reuniões sociais. O Roberto tocava violão.
  • 38. Nequinho, meu professor, cavaquinho. Sete Camisas no pandeiro. Osmar no bandolim e Suquinho tocava ganzá e cantava, diga-se de passagem, grande cantor, não sei como não se consagrou no Rádio. Eu tinha catorze anos, parecia ter um pouco mais, porque andava sempre bem alinhado para parecer mais velho e ostentar respeito. Cheguei no local onde ensaiavam, me aboletei em uma cadeira distante uns cinco metros mais ou menos, e fiquei prestando atenção no bom desempenho do grupo. Quase no final do ensaio Roberto ordenou a Sete Camisas que me passasse o pandeiro. Quando comecei a tocar Dona Regina, mãe de Roberto chegou da cozinha toda assustada: - “Mas é o Inacinho, não acredito! Você tem que ir a Rádio meu filho, complementando o assombro dela com meu desempenho. Não tinha palavras mais doces ao ouvido de um músico iniciante do que essas: “Você tem que ir tocar na rádio!” Isso significava o reconhecimento de sua comunidade. Tocar na rádio significava a transposição da sua Aldeia, era viajar pelos ares e ser conhecido no país todo e naturalmente ser reconhecido financeiramente. Mas antes de chegar na rádio tive uma experiência muito interessante. 4. O BATISMO DE FOGO. O Sete Camisas, pandeirista oficial do grupo, não pode continuar no conjunto por problemas particulares, aí o Roberto pediu autorização a minha mãe para que eu tocasse com eles. Como o pessoal do conjunto pertencia à comunidade local e eram benquistos por todos, Dona Maria Francisca não teve dúvidas em autorizar que eu participasse do grupo. Meu entusiasmo era tanto que isso pesou muito na decisão dela. O Roberto foi um grande incentivador, confiando na minha capacidade me levou para tocar na gafieira Flor do Abacate. Fomos a pé, passando pela Glória, foi quando ele me contou o que estava planejando. É que lá passava um flautista que adorava derrubar tudo quanto é pandeirista, mas nós apostamos que ele não vai poder com você.
  • 39. Chegamos à casa onde o Álvaro Sandin em sua homenagem, compôs aquele antológico homônimo, gravado magistralmente pelo Jacob do Bandolim. A Flor Do Abacate ficava em um prédio bonito com gente elegante dançando. Mulheres cheirosas e bem vestidas deslizavam em um piso liso e escorregadio compondo pares de dançarinos magistrais. Tudo aquilo ali era novo para mim. Meio assustado, mas com um pandeiro novo que minha irmã tinha me presenteado, com estojo de madeira e tudo, fiquei sentado esperando a nossa vez de tocar. Depois de uma meia-hora que estávamos tocando entrou um negro alto, vestindo um terno branco de linho S120, chapéu de aba larga e sapato bicolor. Muito elegante mesmo. Trazia uma flauta debaixo do braço no estilo de Pixinguinha. E foi logo me observando: - “Tem cara nova hoje!” Era o especialista em desmoralizar pandeirista, começava tocando lento e ia aumentando o andamento, aumentando até que o pandeirista desistia, e isso era a glória para ele. Era aclamado como campeão como se musica fosse uma competição de pugilato. O aprendizado informal da música acaba produzindo pessoas com esse tido de comportamento. Nunca vi grandes músicos agirem dessa forma. Abel Ferreira, Pixinguinha, Waldir Azevedo nunca tiveram atitudes semelhante a esta. Pelo menos eu não vi e nunca tive notícia. O tal do Tião da Flauta ficou de lado bebendo umas cervejas, no intervalo e ele chegou e comentou com o Roberto, esse menino tem uma batida diferente, segura. Meu amigo concordou, mas evitou entrar em qualquer tipo de detalhe. Para não ficar deselegante apenas comentou que eu estava muito verde ainda, mas que prometia. Aí o flautista ficou animado em me desafiar. Assim que começou tocar de novo, ele no final da segunda música foi olhando para mim dizendo: -” Tem cara nova aqui hoje!” Subiu no palco e foi dizendo para que eu segurasse o “Urubu Malandro”. O Urubu é um choro predileto dos flautistas virtuoses. É uma obrigação de todo flautista de valor tocá-lo. Ele começou, só eu e ele fomos aumentando a velocidade, eu segurando. Quando estava muito rápido eu usei de uma malandragem, criada ali na hora, que nenhum ritmista carioca poderia imaginar. Meti a batida do frevo, que é muito mais folgada para o bandeirista, e exige muito mais do solista, e fui puxando, fui puxando, até que
  • 40. a flauta só fazia piu, piu... acelerei mais ainda, ele parou. “- Roberto, hoje eu encontrei um, que maravilha de garoto você encontrou.” Pegou a minha mão direita e repetiu aquele gesto que os juízes fazem quando um pugilista vence uma luta. Juro que fiquei com vergonha, aquele homem que dez minutos atrás era um falador arrogante, agora queria a todo custo prostrar-se em meus pés. Hoje, esse recurso de trocar o choro ou samba pelo frevo, é uma alternativa muito usada por pandeiristas que sabem das coisas, quando solistas de alma circense querem tocar em alta rotação. Vejam por exemplo o que está acontecendo hoje com as escolas de samba, pelo fato de possuir um tempo determinado para cumprir seu percurso, o diretor de bateria impõe um ritmo frenético, aí, sem querer o samba vira frevo. Acho que quem usou isso pela primeira vez de forma consciente fui eu naquela demanda com o saudoso Tião da Flauta. Chegando em casa comecei a pensar onde tinha buscado aquilo. Ai lembrei-me que lá no norte eu acompanhava sanfoneiros batendo caixote, imitando zabumba. Dali em diante comecei a relembrar tudo aquilo, a mistura do rojão, do baião, xaxado, frevo, maracatu, samba e choro, acabou constituindo o meu jeito de tocar pandeiro, a meu jeito, sempre com a pontinha dos dedos. Salve o Russo Sapateiro, que Deus o tenha em glória. Depois daquele confronto, meu tratamento na comunidade onde vivia passou a ser outro, minha fama espalhou como fogo que sobe morro acima. Aí vieram as tapinhas nas costas, pandeiristas dos outros grupos exigindo que eu desse uma canja. Passei ser anunciado como o Inacinho do pandeiro. Nas rodas na casa do Professor Valdemar ninguém mais queria botar a mão no pandeiro. “Sem querer, ouvia aqueles músicos experientes dizendo: -” Esse menino tem uma cadência diferente, dá muita firmeza e enriquece o solo!” Aquilo tudo acabou me tornando um adulto precoce, aos catorze anos comecei a ser comparado com os grandes do instrumento. Jacob Palmieri, Russo do Pandeiro, João da Baiana e Popeye. E sempre ouvindo: “Já deixou para trás!” Confesso que dos três eu gostava mais do Popeye, mais da minha geração. Mas hoje, depois de tanto, tempo curvo a cabeça para os três primeiros, que tiveram a primazia de introduzir o instrumento definitivamente no cenário profissional.
  • 41. O Russo era paulistano, mas, ainda criança mudou-se para o Rio de Janeiro. E dizem que tocou em um casamento de sua irmã com Benedito Lacerda, a partir daí fundaram o conjunto Gente do Morro, que seria no futuro o regional de Benedito Lacerda. Foi para os Estados Unidos com a Carmem Miranda, trabalhou em muitos filmes e teve conjunto por lá. Além de virtuose do pandeiro foi um excelente compositor com vários sucessos registrados. Muita gente que hoje tem sucesso internacional como ritmista, principalmente pandeiristas, deveria trazer permanentemente uma fotografia dele na carteira, ele foi um bandeirante do pandeiro, um verdadeiro rompedor de fronteiras. O João Da Baiana trazia aquela coisa da África, não era só pandeirista, tocava vários instrumentos de percussão, e conhecia muito aqueles pontos de macumba, ele era do candomblé e sabia de muitos segredos em termos de ritmos ligados aos rituais fechados. Era muito ligado ao Pixinguinha participou de diversas gravações tocando, além do pandeiro, garfo e faca. Compositor de prestígio. Em ralação ao Jacob Palmieri, não tenho muito conhecimento, só sei que era o pandeirista de confiança de Pixinguinha nos Oito Batutas, isso dispensa quaisquer dúvidas a respeito de sua competência técnica. Deixo aqui, como uma homenagem particular, o registro desses três instrumentistas com os quais me comparavam, e que mais tarde tornaram-se meus irmãos em armas. E faço questão de salientar a importância que tiveram para a memória da cultura nacional. ................................................................................................................................. PROGRAMAS DE CALOURO . Depois de 1940 entre os programas de radio de maior prestígio era "O Trem da Alegria", comando por Heber de Boscoli, por Yara Sales e o grande copositor Lamartine Babo, "O Trio do Osso", assim denominado devido ao fato de que todos os seus componentes serem magros. Foi um programa de enorme popularidade naquela época em todo o Brasil. Um outro programa que marcou época foi o do grande apresentador César de Alencar. Vejam só, seu sucesso foi tanto que para
  • 42. assistir seu programa tinha que adquirir os ingressos para o auditório antecipadamente com até duas semanas de antecedência. Também vale a pena ressaltar o programa do Renato Murce e sua assistente “Miss Mary”, o nome do programa era Papel Carbono, ia ao ar aos domingos de noite na Radio Nacional na década de 1940. Murce era casado com Eliane, a musa dos filmes da Atlântida. No Papel Carbono os calouros tinham que imitar um astro que estivesse em evidencia, e pode-se dizer cem cerimônias que o programa foi um verdadeiro celeiro de astros: Doris Monteiro, Alaíde Costa, Ângela Maria, Élen de Lima, Claudete Soares, Ivon Curi, Ademilde Fonseca, entre outros. Os programas de auditório era o ponto forte das Rádios, e a Rádio Nacional comandava os maiores deles. Os grandes programas desta época dignos de nota são: "A Hora do Pato", mais tarde denominado "Aí vem o Pato", da Rádio Nacional; "Pescando Estrelas", da Rádio Clube, apresentado por Renato Amaral e o famoso "Buzina do Chacrinha", também da Rádio Clube. O Programa César de Alencar, que em um dos seus aniversários levou ao Maracananzinho quase vinte mil pessoas em 1955. Vale lembrar ainda lembrarmos os nomes de Haroldo Barbosa, que trabalhou nas Rádios Nacional, Tupy e Mayrink Veiga, fazendo sucesso com os programas "Um Milhão de Melodias", "Calouros da Orquestra", o Fernando Lobo, pai do compositor Edu Lobo, um grande produtor de programas, sendo responsável pela produção de vários programas da Nacional. O Ari Barroso afirmava categoricamente que o seu programa não tinha a finalidade de procurar estrelas. E se assim fosse, não permitiria a apresentação de candidatos destituídos de condições técnicas. No programa em que dirigia qualquer um tinha o direito de se apresentar para fazer o que quisesse desde que fizesse formalmente a inscrição. Embora muitos ex-calouros acabariam se transformando em autênticos astros do firmamento musical nacional. Uma das razões aventadas para explicar o sucesso obtido era ter passado pelo crivo de Ari Barroso. Ele era muito exigente e entendia do assunto. Se o candidato mostrasse virtude tinha tudo com ele.
  • 43. O clímax do programa era a pitada de humor e a irreverência em que o Ari era mestre. Ficava nervoso quando alguém insinuava que ele humilhava os calouros. Afirmava que não ridicularizava os calouros e justificava com o número cada vez mais elevado de inscrições que cresciam assustadoramente para o seu programa, mas por outro lado, não podia impedir que os “ridículos de nascensa”, segundo ele se constituísses na nora humorística di programa. Incentivaram-me a ir aos programas de calouro, fui no Papel Carbono. Eu e o João, um flautista que no momento não me recordo do sobrenome. Isso era por volta de 1938. Ele com sua flauta de bambu imitava o Benedito Lacerda e eu o Russo do Pandeiro. Fizemos a inscrição com aquele famoso tema para flauta e pandeiro – o Urubu Malandro. O grande solista de violão Dilermando Reis que era o chefe do conjunto regional me disse nos ensaios: - hoje não vai ter pra ninguém!.   Voltamos para o morro e ensaiamos o que pudemos, vestimos a melhor roupa, com sapato engraxado e tudo mais. Fomos para a cidade por volta de 19 horas por que o programa começava às 20 em ponto. No palco estava o Renato Murce e Miss Mary, Recebemos uma salva de palmas, mas mesmo assim não foi o suficiente para espantar o medo. Os nossos concorrentes pareciam mais nervosos. O primeiro com um violão tenor imitando Claudionor Cruz, e o segundo imitando Jacob do bandolim. No final levamos o primeiro lugar e o Renato Murce, fora do ar, me falou em particular: - olha garoto o Russo tem que tomar cuidado com você, esse pandeiro que você toca não faz barulho, é tudo muito equilibrado. Voltamos para o morro e a vizinhança veio em peso dar tapinhas nas costas, aquelas congratulações de praxe, alguns prevendo um futuro cheio de glamour e dinheiro fácil. Depois do sucesso no Renato Murce, fiquei sabendo que o programa A Hora do Pato estava acumulado, e dessa fez eu fui sozinho. Naquele programa eu teria que desafiar um grande astro, e esse astro que eu iria desafiar não era nada menos do que Luís Americano do Rego. Tio Luís, como passei a chamá-lo posteriormente, foi também um clarinetista e saxofonista extraordinário, compositor inspirado de valsas e choros, talvez o melhor para clarineta. Além das gravações como solista, participou de milhares gravações, sobretudo acompanhando os grandes cantores e
  • 44. cantoras da década de 1930 e 1940 o som de sua clarineta e de seu sax-tenor é inconfundível, marcante. Ao ouvirmos essas gravações, percebemos sem muita dificuldades os momentos em que surgem as intervenções maravilhosas de Luís Americano.   Pois bem, o prêmio interessante me encorajou e fui armado de um pandeiro devidamente colocado no estojo, quando entrei na no recinto onde estava sendo feito os ensaios, o Índio do cavaquinho me perguntou: - o que você veio fazer aqui? O Tio Luis quando viu logo me deu um sorriso irradiando bondade, e disse: - vamos dar uma passadinha. Quis saber onde eu morava, e pediu para que o Índio se juntasse a nós. Eu já tinha escutado o “Passeando Pelas Arábias”, e como eu era um assíduo espectador de filmes em série. Enquanto Tio Luís fazia aquela clássica introdução, eu batia o pandeiro com o cotovelo e com a mão imitava uma Naja. Ele gostou muito, e fez questão de dizer que eu era um prodígio, e iria fazer questão que eu ganhasse o prêmio. Na hora da apresentação fizeram toda aquela pompa, e, diziam assim: o garotinho do norte, Inacinho, que veio desafiar Luis Americano. Eu fui muito bem vstido com um terno de linho caroá. Tio Luís me recebeu com aquela gaitada gostosa que só ele sabia dar no clarinete. E o resultado não deu outro ganhei o primeiro lugar, naturalmente com todo envolvimento daquele monstro sagrado da música instrumental brasileira, e que depois fui muito amigo, era acima de tudo um grande conselheiro para os mais novos que estavam começando.   5. O INICIO NO MUNDO PROFISSIONAL DA MÚSICA Depois quando terminaram toda aquela euforia, as pessoas querendo saber onde eu morava, Tio Luis me chamou de lado e me disse: você já está pronto meu filho, já pode vir para o ponto dos músicos. O ponto era assim dividido de um lado junto ao Teatro João Caetano, era o ponto dos músicos de orquestra, e no Teatro Carlos Gomes o ponto de músicos de conjunto regional. O ponto era uma espécie de mercado de trabalho, formavam-se conjuntos ali, em cima da hora, até pequenas orquestras eram criadas no calor do improviso. .
  • 45. Fui para o ponto e n primeiro dia tive a sorte de conhecer um dos maiores violonistas que esse país já teve, e que não tem o nome divulgado como o seu grande talento musical merecia. Trata-se de Arlindo Ferreira, e que devido o seu gosto pelo cachimbo, passou ser conhecido como Arlindo Cachimbo. Era mineiro, formou uma das melhores duplas de violões que o cenário artístico já conheceu com Djalma Ferreira, o lendário Bola Sete no regional do Claudionor Cruz, e depois, foi o violonista de confiança de Abel Ferreira por muitos anos. Era do mesmo nível do Meira e do Dino, que por sinal era seu amigo e compadre. Era um mineiro muito calado e sistemático, quando a Aracy cantava aquele samba do Mulato Calado do Wilson Baptista: “vocês estão vendo Aquele mulato calado Com o seu chapéu de lado Já matou um Já matou um..” Ela cantava e apontava para ele. Ele depois reclamava com ela dizendo que o povo ia pensar que ele era um assassino. Um grande artista. Meu amigo acima de tudo. E. perfeito para um regional. Acervo Sérgio Prata /1970
  • 46. Da esquerda para a direita: Arlindo Cachimbo, Canhoto, Sílvio Caldas, Meira, Niquinho e Gilson. A foto é da década de 70. O Arlindo Ferreira me convidou então para tocar com ele no Circo DUDU, que estava instalado na Praça da Bandeira. Iríamos acompanhar a cantora Aracy de Almeida, o Jorge Veiga e o Gilberto Alves. Quando fiquei sabendo que iria acompanhar a grande Aracy de Almeida de quem eu particularmente era fã, me deu um calafrio, mas uma certeza que estava no caminho certo e com a pessoa certa. Eu sempre gostei dela, por que sua voz era um instrumento de ritmo, o jeito que ela dividia, não tinha para ninguém, por isso que ela era chamada de “O Samba em Pessoa”. Seguramente a maior interprete de Noel Rosa, e que por sinal, era sua cantora preferida. Tinha o gênio forte e um repertório interminável de palavrões. Ela gostou muito do meu novo jeito de tocar o instrumento, e saiu fazendo propaganda para todo mundo: “viram o garotinho que o Arlindo descobriu, toca pandeiro com surdina.” Daí para frente ordenou ao Arlindo Ferreira que seria eu o
  • 47. seu pandeirista, e não queria saber mais daquele “pitilingu pitilingu “ que os pandeiristas até então faziam. “E tamos conversados!” Outra pessoa de enorme importância na minha carreira musical foi Vicente de Paula Jose Soares - o Pinguim. Conheci-o em uma casa na rua Andre Cavalcante onde ele dava uma “canja”,, juntamente com o grande ritmista Luna. Fiquei impressionado como ele tocava o cavaquinho, um estilo completamente diferenciado. Fazia o centro puxando os violões. E era bom também no segundo violão. É outro instrumentista esquecido nesses pais sem memória. Outro dia atrás conversando com meu amigo Voltaire7Cordas, ele me afirmou que ia assistir o programa do meu regional na Rádio Mauá para ver o Pinguim tocar, agora, um elogio vindo do Voltaire pesa. Passamos a nos encontrar com freqüência no morro Santo Antonio onde eu morava, ele ia lá freqüentemente jogar futebol. Assim soube por seu intermédio que havia uma vaga no regional do Benedito César de Faria, pai do compositor Paulinho da Viola, eu iria substituir temporariamente o pandeirista Afonso. O regional do César só tinha fera olha só a formação Fernando Boninha no primeiro violão, César no segundo, Piguim no cavaquinho, eu no pandeiro, e nada mais nada menos do que Jacob Bittencourt no bandolim. Um time de divisão especial. Quero aqui ressaltar a qualidade desse violonista que ninguém lembra mais, o Boninha, era um violonista de um talento incomum, um gênio no melhor sentido da palavra. Falar do Jacob e do César seria chover no molhado. Mas quero ressaltar aqui a grande amizade que mantive com o César durante toda a minha vida, um homem muito fino e educado. Amizade que estendeu à sua família por meio do Paulinho, que tive a honra de acompanhá-lo em shows realizados em Brasília. Toquei trinta dias, o Jacob queria ficasse definitivamente, mas eu jamais iria tomar o lugar de um “irmão em armas”, o Afonso voltou, e logo também o conjunto de César deixou de tocar na Rádio Ipanema que acabou sendo fechada por problemas políticos. Estávamos na época da segunda grande guerra mundial, e segundo comentaram, seus proprietários tinham ligação com os Nazistas e o governo de Vargas fechou aquela emissora tirando-a do ar ar.definitivamente.
  • 48. Eu não estava mais indo no ponto dos músicos, estava tocando na “orquestra de folga”, era uma orquestra organizada para cobrir as folgas dos músicos nos “dancings”. Minha irmâ Maria trabalhava na Samba Dancing e conseguiu uma vaga para mim. Tocava das 20hs até 2 da manha, e nos sábados ate as 4 da madrugada. Passei a ser sondado para tocar em conjuntos que formavam no calor da ocasião. Muito comum naquela época, organizado para abrilhantar uma festa particular, aniversários, ou comemorações que requeriam a presença de um conjunto regional. 6. MINHA PARTICIPAÇÃO NOS CONJUNTOS REGIONAIS Com o início das gravações elétricas em 1927 e o advento das rádios na década de 1930 com o subseqüente surgimento dos programas de rádio bancados pela veiculação da propaganda paga, isso proporcionou a criação de um novo mercado para a atuação dos músicos. O gênero musical da época que enquadrava nas exigências comerciais era o samba. Surgiu assim a necessidade de uma modalidade de conjunto que fizesse o acompanhamento dos cantores profissionais e dos calouros que se aventuravam em busca do caminho da glória artística. Os músicos oriundos do choro eram mestres no acompanhamento “de ouvido”; uma bem-vinda praticidade, pois não necessitavam de arranjos escritos, bastando saber o tom da música e acertar a introdução, além de um inegável virtuosismo quando se tratava de apresentar o seu repertório de choro, fizeram dos regionais a instrumentação musical ideal para a radiofonia brasileira, ainda em formação. Os conjuntos regionais demonstravam a condição sócia econômica do país por meio dos instrumentos utilizados de fácil aquisição. No solo, uma flauta de madeira feita de ébano, bandolim ou clarinete, emprestado das bandas de músicas, dando a introdução para os cantores; na harmonização, um cavaquinho e dois violões fazendo frases musicais "em terças" alinhavados pelo ritmo de um pandeiro de atuação discreta, indicava qual seria o formato a
  • 49. seguir. Depois do advento do violão de sete cordas passou-se a utilizá-lo, valorizando ainda mais o contraponto das cordas. Na época em que atuei como musico profissional no Rio de Janeiro, lembro dos regionais do Benedito Lacerda, que posteriormente se transformou no regional do Canhoto. O regional de Claudionor Cruz que rivalizava com o do Benedito Lacerda nas gravações. Tinha o do Dante Santoro, do Rogério Guimarães, do César Moreno e do César Faria e o meu. Desses todos só não toquei no do Dante Santoro e do César Moreno Minha consolidação como músico de regional aconteceu quando fiz parte do conjunto de Claudionor Cruz. O Arlindo comentou a meu respeito e ele, foi conferir vendo meu desempenho no Samba Dancing, na orquestra de Folga do Maestro Guilherme. Assim que terminou uma seleção, no intervalo ele me procurou e fez o convite, afirmando que eu tinha sido recomendado pelo Cachimbo, e que ele tinha gostado muito, me propôs um contrato e eu aceitei de imediato. O regional de Claudionor era um ninho de cobras alem do Arlindo, tinha o clarinetista Antonio de Souza, O Bola Sete como segundo violão, o Claudionor no violão tenor. Entrando depois eu, e o clarinetista e saxofonista Abel Ferreira. O CLAUDIONOR CRUZ, era mineiro de Paraíbuna, apareceu formando uma dupla com Zé Gonçalves, o Zé da Zilda. Tocava cavaquinho, mas seu instrumento de devoção era o violão tenor. Um dos maiores compositores da musica brasileira, teve diversos parceiros, porém o mais freqüente foi Pedro Caetano, com quem produziu verdadeiras jóias musicais. Era um homem do coração bom .muito honesto com os músicos.. A dupla de violões, era covardia, Arlindo e Bola Sete. Esse último arrisco a afirmar sem ter medo, foi um dos maiores músicos que passou no planeta, não era desse mundo. Se eu tivesse que apontar cinco dos melhores músicos que vi em toda minha carreira, com certeza o de Andrade estaria na lista. Um fato marcante que presenciei, foi um dia que Luis Americano chamou-o para a lousa para discutirem teoria musical. Ele saiu de lá, o procurou imediatamente o Antônio de Souza, que o
  • 50. ensinou teoria musical. Aí ele voltou e chamou Tio Luis para a lousa, aí Luis Americano respondeu que tinha provocado ele, por que sabia do seu valor, e que agora ele era um musico completo. Assisti ele fazer misérias com o Garoto nos estúdios da Radio Nacional, uma glória que pouca gente teve. Mas o mundo musical para o Djalma era muito vasto, era um pesquisador nato, não ficou só no estilo do regional, ouvia de tudo, era fissurado pelas orquestras de Jazz. Foi influenciado pelo Pereira Filho a tocar violão elétrico, e ai, passou para guitarra elétrica, passou a tocar Jazz e ai acabou parando de tocar em regionais. Criou o “Bola Sete e seu Conjunto”, que tinha como cantora a também compositora Dolores Duran. Apresentavam- se nas boates Drink e Vogue -esta, a mais famosa casa noturna da época, consumida pouco depois por um incêndio. Na década de 1950 formou uma orquestra que percorreu a América Latina e a Espanha, mudou-se definitivamente para os Estados Unidos em 1959. Chegando lá gravou alguns choros causando verdadeiro espanto no meio musical americano, a partir daí ninguém mais segurou Bola Sete. Antes de me transferir para Brasília encontrei com ele No Rio, queria por tudo me levar com ele para os Estados Unidos, aí nunca mais nos vimos. Veio a falecer como um astro musical nos dois maiores celeiros de músicos do mundo. O regional do Claudionor tinha outro monstro sagrado, do mesmo nível do Bola Sete, o clarinetista Abel Ferreira. Tocar com os dois foi o maior presente que a vida me deu. Além de tudo Abel era um ser humano formidável, capaz de criar condições favoráveis em situações complicadas, sua própria vida atesta o que estou mencionando. Foi um autodidata em seu instrumento. Impedido pela própria família, sua educação musical foi feito às escondidas na pequena cidade mineira de Coromandel. Aprendeu teoria musical sozinho através de um método musical dos anos 20 chamado “Artinha”. No clarinete só teve um professor, de nome Hipácio Gomes, que mais tarde comentou: “Esparramei os dedos do menino no instrumento”. O contato com o saxofone veio aos 15 anos. Aprendeu sozinho,
  • 51. tinha ouvido absoluto, e muito esforço. Escrevia música e tinha domínio da teoria musical, fazia arranjo e não passava vergonha em um piano. Tinha uma relação fantástica com o público, sabia tocar para agradar. Antes de começar chegava no meu ouvido e dizia: “Pernambuco, qual é o santo do dia,hoje?”Queria que eu desse um palpite sobre o ritmo que mais agradaria, choro, baião, valsa ou samba. Abel inicialmente teve a seguinte trajetória musical: tocou em Uberaba com o violonista e compositor João Tomé, depois foi para São Paulo tocar no Regional do Pinheirinho, se transferiu para o Rio para tocar no Cassino da Urca. Foi na gravação de “Levanta José”, da dupla e casal Zé e Zilda,quando ele chamou a atenção do Claudionor pelo jeito inovador que soprava o clarinete, totalmente diferente de tudo que havia no ambiente musical, aí o capitão que não era bobo nem nado, decidiu a integrá-lo definitivamente no conjunto. O conjunto cresceu muito, suas introduções eram uma coisa de outro mundo, provocava o Arlindo e o Bola Sete que respondiam a altura. Seu estilo novo provocou e gerou ciúmes no Luís Americano, que até então reinava absoluto. Vendo o novo colorido das interpretações que Abel dava nas composições dele, deixava-o furioso e ele nos procurava e dizia com aquele sotaque de sergipano: “Fala prá aquele outro, prá não tocar minhas músicas assim, por que ele não é meu parceiro!” Mas Abel era um fã confesso do Tio Luis e dizia pra todos que ele fora sua grande influência, ao saber disso, ele começou a tecer elogios ao Abel. Ficaram grandes amigos. É bom salientar que Abel Ferreira visitava Luis Americano todos os dias quando este esteve hospitalizado. Antes de falecer, ele pediu a Abel que gravasse a valsa “Lágrima” de sua autoria, e ainda não cansava de pedir desculpas pelos comentários que fez. O Regional do Claudionor revezava na preferência dos grandes artistas com o do Benedito Lacerda e depois o do Canhoto. O Chico Alves e o Herivelto Martins preferiam o nosso. Exigentes como só, não deixavam passar nada. Francisco Alves era um homem muito sistemático, e queria saber quem é que
  • 52. iria acompanhá-lo. Se fizéssemos um acorde ou um baixo trocado, ele percebia na hora. Mas, era um cantor que quando cantava era aquele silencio, por que sua voz impunha respeito. Tive um pequeno problema com o Chico Alves. Certa vez me viu tocando ganzá e botou na cabeça que eu devia deixar o pandeiro e tocar o ganzá numa das gravações. Se fosse hoje, não teria problema, pois temos recursos para gravar instrumento por instrumento. Mas naquela época era tudo junto. Fiquei contrariado e quis ir embora, aí o Felisberto Martins, que era diretor da gravadora me conteve. Foi bom, por que naquela época brigar com o Rei da Voz, era fechar todas as portas possíveis. O homem tinha um prestígio que sinceramente, nunca vi em minha trajetória artística tanta competência e popularidade juntas, O Herivelto era do mesmo jeito, tanto é que ele e o Chico foram grades amigos. Se davam bem nas exigências. Mas uma coisa eu gostaria de ressaltar aqui, é sobre essa minissérie que fizeram aí sobre ele, está tudo errado. Colocaram-no como um vilão. Um mulherengo conquistador, e o coitado não tinha sequer dotes físicos para atrair o mulherio, era baixinho e atarracado. Contudo, um homem correto acima de tudo, falo com base, por que convivi com ele, com Dalva e suas irmãs, tiveram problemas que todos os casais tem, agora como eram figuras públicas, duas estrelas, qualquer coisas que ela fazia ou que Dalva gravasse era uma espécie de “resposta”, acabaram sendo vítimas de uma exploração exagerada para o caso, como a minissérie fez também. Em meados da década de 1940, a Globo dispensou as grandes orquestras, ficando sómente com uma típica e o conjunto regional. Afastou o Claudionor da direção, que estava envolvido também com outro grupo musical, “ As Três Pequenas do Barulho”, entregando o comando a Abel Ferreira. Havia um ritmista de uma das orquestras desfeitas com contrato em vigência com a Globo, a direção da emissora obrigou o Abel, que, diga-se de passagem, não era dono do conjunto, a integrá-lo no grupo. Mas Ferreira me garantiu: “quando o contrato do homem vencer, você volta.
  • 53. Com a saída do Claudionor das Organizações Globo, encerrou-se um capítulo das historias dos regionais. O Regional de Claudionor Cruz figura entre os melhores Regionais que passou pela era de ouro do rádio brasileiro. O do Benedito Lacerda e o do Canhoto, que na realidade era um só, quando Benedito saiu do conjunto, a liderança passou para o Canhoto que incorporou o Orlando Silveira e o Altamiro Carrilho. O Capitão em entrevista concedida fez questão de salientar que das varias formações do grupo a melhor foi a que participei, com Arlindo, Bola – Sete, Abel Ferreira, Claudionor e Pernambuco. E ainda disse que depois viramos todos astros de primeira grandeza. Além de sua habilidade incomum para liderar, era um coração bondoso, um professor de musica que deixou vários discípulos, dentre eles o bandolinista e violonista (tenor) Pedro Amorim, baluarte da Escola Portátil de música, onde desenvolve excelente trabalho com Luciana Rabelo e Maurício Carrilho. Fica aqui registrado um pouco da história desse grande brasileiro consagrado como compositor, mas que foi acima de tudo meu amigo. Claudionor Cruz recebeu uma proposta do regional da Rádio Inconfidência de Belo Horizonte, quis que eu fosse com ele. Minha filha Sulimar havia nascido e aí era preciso ter um emprego fixo, pois a presença de uma criança em casa exige responsabilidade, precisamos saber com o que contar na hora de imprevistos. Fui com ele para Minas e chegando lá tive uma experiência que guardo comigo até hoje. O pandeirista do regional da Inconfidência ficou com medo de perder o emprego, dizendo que tocava tendo a mim como exemplo. Eu o acalmei dizendo que estava lá de passagem, e que não permitiria que ninguém o demitisse, por minha causa. Virou um grande amigo, me deu grande apoio na capital mineira enquanto estive por lá, e se a direção da Inconfidência o demitisse, estaria fazendo uma tremenda besteira pois era um excelente instrumentista que sobreviveria em qualquer centro musical do país. Em menos de um mês minha esposa me telegrafou dizendo para voltar imediatamente, por que o Arlindo havia dito que havia uma vaga no Regional do Canhoto e no do Rogério Guimarães. Voltei imediatamente, fiquei sabendo que o Gilson estava tocando nos dois ao mesmo tempo. Mas como o Gilson era meu “irmão”, continuamos revezando nos dois regionais, e a razão era por que tocar no conjunto do Canhoto dava prestigio, e no do Rogério Guimarães
  • 54. dava prestígio financeiro, por que o homem era abastado, volta e meia socorria até as Rádios. Músico dele não passava aperto. O Gilson era um grande músico, um pandeirista excepcional, nem o Rogério e nem o Canhoto importava que nós revezássemos, até que um dia houve um mal entendido entre eu e o Dino. Alguém disse a ele que eu havia comentado que ele não tinha casa própria e que morava de favor. Isso mexeu com os brios dele, e com razão! Quis saber quem havia dito essa inverdade, mas o Dino como homem de valor que sempre foi não quis alcagoetar. Olha que pressionei o “Boi” por mais de um cinqüenta anos e ele não abriu o bico. Mas aquilo me deixou muito contrariado, e por minha reação, Dino sabia que eu poderia fazer uma besteira e tratou de evitar, escondendo a vida toda quem disse isso. Esse incidente acabou fazendo com que eu optasse de vez pelo regional do Rogério Guimarães. Mas não perdi minha relação com o Canhoto, que sempre me chamava para apresentações especiais, meu conterrâneo Meira e o próprio Gilson, que quando tinha um imprevisto ia atrás de mim, dizendo que confiava no meu taco. O Gilson foi um verdadeiro “irmão em armas”. Para falar um pouco dos músicos do regional do Canhoto é preciso começar com o Benedito Lacerda, por que ai me reporta aos dos dois resumidamente, que na realidade possuem a mesma história: O Benedito Lacerda a meu ver foi quem definiu o conjunto regional típico de acompanhamento de cantores de Rádio. Em 1930 ele começou com o Gente do Morro, onde já contava com Russo do Pandeiro e Waldiro Tramontano, o Canhoto, no cavaquinho, membros da formação seguinte do então Regional de Benedito Lacerda, que incorporau a famosa dupla de violões, Nei Orestes e Carlos Lenine. Em 1937 o regional já tinha sua formação definitiva com Popeye no Pandeiro, Dino e Meira nos violões, passando a formar com Canhoto o mais famoso e estável trio de cordas que se tem noticias, tocaram por mais 50 anos juntos. Benedito Lacerda era um virtuose na flauta, incomparável, pode ter flautista por com técnica mais apurada, mas é bom lembrar que ele criou o estilo, e até hoje é imitado. O próprio Altamiro Carrilho no inicio da carreira, quando havia algum imprevisto, era contratado para substituí-lo, por que tocava igualzinho a ele.
  • 55. Era um compositor formidável, teve inúmeros parceiros e amealhou uma centena de sucessos. Da esquerda para a direita: Popeye (pandeiro), Dino 7 cordas, Benedito Lacerda, Canhoto (cavaco) e Meira (violão) – arquivo Sérgio Prata. Muitos especialistas consideram o duo formado por ele e Pixinguinha, como o cume da musica popular brasileira de todos os tempos. Aliás, é uma história que existem algumas controvérsias, e muitas delas ofende a moral de Benedito. Pouca gente sabe que Benedito tornou-se parceiro de varias musicas do Pixinguinha por imposição do próprio Alfredo Vianna. Benedito quitou com dinheiro do próprio bolso uma hipoteca da casa de Pixinguinha e propôs formar o duo para ajudá-lo a sair daquela crise financeira. Pixinguinha como forma de agradecê-lo, e recompensá-lo deu o que tinha para dar, as parcerias em vários choros imortais. Foi um dos poucos músicos que soube administrar sua carreira, e por saber ganhar dinheiro em um meio que quase ninguém sabe, foi por isso taxado de mercenário, e que roubava parcerias. Eu vou dizer para vocês, meus amigos, àquelas introduções que ele bolava, às vezes no improviso, me faz acreditar que ele não precisava comprar sambas de ninguém.
  • 56. Era um chefe de regional exigentíssimo, ensaiava muito, e tudo tinha que sair perfeito. Era duro com os músicos para trabalhar com ele além de talento tinha que ter caráter. O conjunto dele virou uma referencia um modelo para todo regional que quisesse ser bem sucedido. Benedito Lacerda morreu cedo, com 55 anos vítima de um câncer, mas foi sem dúvida um dos maiores expoentes da música brasileira de todos os tempos. WALDIRO TRAMONTANO - CANHOTO Mestre do acompanhamento tocava o cavaquinho com as cordas invertidas, tinha uma capacidade de harmonização incomum. Assumiu a direção do regional quando Benedito Lacerda saiu do conjunto em 1951. Passando então o conjunto chamar regional do Canhoto. Ele incorporou o paulista Orlando Silveira, com seu acordeom, e Altamiro Carrilho na flauta. O regional teve outros flautistas como Carlos Poyares, mas manteve os outros elementos durante toda a existência do conjunto, por isso é que conseguiam um entrosamento incomum. A influencia de Canhoto foi tamanha que podemos dizer que ele ao lado de Pingüim, de Jonas Pereira da Silva, e do Xixa, criou uma escola de “centristas” Mas a influência dele é preponderante, podem ver que muitos cavaquinistas dextros usam a palhetada de baixo pra cima tentando imitá-lo. Sabia liderar sem ser agressivo. Não bebia bebidas alcoólicas e era perfeccionista, gostava de ensaia exaustivamente Faleceu em 1987, deixando muitas saudades em todos nós. JAYME FLORENCE – O MEIRA. O meu conterrâneo. Veio junto com Luperce Miranda para o Rio de Janeiro em 1928. No ano de 1937, substituiu o violonista Carlos Lentine no Conjunto Regional de Benedito Lacerda, no qual, com Dino (7 cordas), formou uma das mais bem sucedidas e duradouras duplas de violonistas da música popular brasileira. Com o Regional de Benedito Lacerda, acompanhou grandes cantores em gravações e apresentações. As gravações do Dilermando Reis é ele o harmonizador, que aqui para nós, injustamente não aparece nos discos. Foi um professor bem sucedido entre seus alunos podemos pontuar o Rafael Rabelo e o Baden Powel, só para vocês terem a idéia do valor desse homem. Era um homem de fina educação, fala uns três idiomas fluentemente, era rodeado de amigos. Fazia uma reunião toda semana em sua casa e Jacob do
  • 57. Bandolim e Pixinguinha eram visitas freqüentes, ocasião em que jogava no “fogo”os seus melhores pupilos. Foi um compositor brilhante, não de paradas de sucesso, mas de qualidade superior, compunha linhas melódicas impressionantes. Seu parceiro mais freqüente, foi o letrista Augusto Mesquita e Dino. Sua interprete favorita era a personalíssima Isaurinha Garcia. Aliás, nós músicos sempre adoramos ela, uma cantora fora dos padrões. Cantava com o coração nas cordas vocais. E fora do palco era uma boa amiga sempre com um repertório de palavrões a disposição. Ela cantou Molambo, Aperto de Mão e mais outras composições do Meira. HORONDINO JOSÉ DA SILVA – DINO7CORDAS. Muita gente me pede para escalar o regional de todos os tempos, posso dizer com franqueza que para os outros instrumentos seria uma briga seria, e até sem sentido. Seria um desespero para mim escolher um seis cordas entre Arlindo Ferreira, Bola Sete, Meira e Damásio? Na Flauta, Altamiro, Pixinguinha ou Benedito Lacerda? No Cavaquinho, Canhoto, Pingüim, Xixa, Jonas ou Luciana Rabelo? No pandeiro, Jorginho, Gilberto, Pernambuco ou Celsinho Silva? Mas tem quatro instrumentos que esses não tem para ninguém, o bandolim para o Jacob, o cavaquinho solo para Waldir Azevedo, o clarinete para Abel Ferreira e o Sete Cordas para Horondino Silva. Esses são unanimidades incontestáveis, embora tivéssemos bandolinistas formidáveis como Luperce Miranda; clarinetista de um naipe de Luis Americano; Sete cordas como Voltaire, Rafael Rabelo e Darly Louzada. Ocorre que esses quatro foram gênios da raça. È bom até sublinhar que o Rafael Rabelo e o Bola Sete tiveram um desenvolvimento assombroso nos seus instrumentos, porém fora do estilo regional. Mas dentre todos esses que citei o Dino merece um destaque especial, pela grande amizade que particularmente tenho com o Voltaire, acompanhamos o Silvio Caldas várias vezes, tenho certeza que ele mesmo assina em baixo, o
  • 58. que estou dizendo, cansei de ouvi-lo dizer o Dino é o professor de todos nós. Ele mandou em 1954 o Silvestre da DoSouto, fazer um violão com um sétima corda. O Tute e o China, irmão do Pixinguinha, tocavam violão de sete cordas, que mandaram fazer depois que viu com uns ciganos. Mas foi o Dino que criou a escola, imitando os contrapontos que o Pixinguinha fazia no sax. Ele tocou com o velho Pixinga no regional do Benedito Lacerda e aprendeu lá as manhas. Meira (violão), Orlando Silveira (acordeom), Dino 7 Cordas, Gilson de Freitas (pandeiro), Canhoto (cavaquinho) e Altamiro Carrilho (flauta). O Brasil tem hoje em cada cidade um virtuose no sete cordas, mas a meu ver, todos deveriam pagar Royalties ao Dino. O Jacob do Bandolim afirmava que ele era o maior compositor de “baixos” do mundo. As levadas, as “baixarias”, terminações de frases, que hoje todos fazem, noventa por cento foi criada pelo “Boi”. Foi Silvio Caldas que colocou esse apelido nele, depois que passou a usar a sétima corda no violão, um som grave lembrava um berro de um boi. Dino vem de uma família de uma família dvou dizer os que foram e são meus amigos próximos. O Lino, o Tico-Tico, o Jorginho que talvez seja o pandeirista de mais alta técnica que o choro produziu, o Celsinho Silva, filho do Jorginho, que herdou o talento do pai, e pode figurar sem nenhuma modéstia na galeria
  • 59. dos grandes pandeiristas de todos os tempos. E por último o Netinho, que vem mostrando serviço, toca com o Zé da Velha e o Silvério Pontes, e já se destaca como a revelação do pandeiro. Salve a família Silva, a música brasileira deve muito a ela, e eu aqui do meu canto fico muito orgulhoso, por que eles dizem por ai que aprenderam muito comigo, o que me deixa muito orgulhoso, em saber que o pouco que fiz, esta projetado em tão boas mãos. ................................................................................................................................ 7. O REGIONAL DE PERNAMBU 8. CO DO PANDEIRO 1. Gravou em dupla Cardosinho no cavaco com afinação de bandolim - 1950 Brasileirinho estourou fazíamos sucesso Falamos com Felisberto Martins que interressou se dispois a falar com Ms Moore diretor geral da Odeom. Gravamos primeiro no selo elite da odeom. Do outro lado gravamos um pout purri de baião, o segundo disco gravamos na pela odeom grvamos o choro Juriti de Raul Silva e outro lado o baião sentimentoo de minha autoria e de cardosinho. A dupla acabou devido incompatibilidade profissional. A Casa Neno loja de eletro eletrônico mantinha o programa PR-Neno em diversas emissora, onde ficou mais tempo na Mauá. Era um programa de auditório, fazia uma mescla de cantores famosos e cantores iniantes como Claudete Soares e Barbara Martins. Dos cantores famosos tinha o Roberto Luna, Noite Ilustrada, Alcides Gerardi, Roberto Silva, era chamado de o cantor dos trabalhadores.
  • 60. Um dos irmãos Neno me viu em um programa com Cardosinho, me convidou para organizar um conjunto para acompanhar os programas da casa neno. A primeira formação era o Cardosinho, Arlindo Ferreira e Eu O conjunto era formado – eu, Freitas violão, darli Louzada violão, pingüim no cavaquinho e Toninho no acordeon. Fui fazer um progra da Neno na radio Mauá, antiga radio Ipanema, a convite doutor Alberto Mannes. Voce tem compromisso alem da Neno, eu disse que não. Freitas ja havia tocado no conjunto Os Tocantins, eles já havia acabado o conjunto, fazia o primeiro violão. Darli Louzada um dos maiores músicos que o Brasil já conheceu dominava todos instrumentos de cordas. Freqüentador assíduo dos programas de calouros acumulados pegava os primeiro lugar e Pinguim. Maninho era um acordeonista regular. Paulistinha, durou dois meses, caga sebo em vez de juriti – deficiência técnica. Depois o hidelbrando muito talentoso, depois o pai tirou-o para estudar - Antonio Eugenio - Toninho era de Santos Dumont, conheci em barra mansa tocando piano eu estava na companhia de Zé Gonzaga, quando ele pegou o acordeon me aproximei e propuz que ele mudasse para o rio – parentes na rua Mem de Sá, ficava próximo da radio Mauá, da escola do orlando Silveira. Venceu o contrto do joça o Abel ferreira me convidou para o seu regional que trabalhava na radio Globo – Araujo, Arlindo,José Menezes, Amaro no contrabaixo, Abel e Eu. Professor Antonio de Sousa, musica de orquestra sinfonica – Flauta. Matias Rosa de acordeão, acordeão de botão. Uma vez na festa de NS da Penha, havia uns seis conjunto tocando, já me haviam, falado do Jorge Pitu, eu havia dispensado o Milton devido incompatibilidade de estilo, ele era “muito moderno” misturava chiclete com banana, então fui lá para observa-lo, ele estava Orlando cego do trobone de pisto e maninho na flata, tocava nas escola de dança. Depois chegou o zuza, um grande imitador do Benedito Lacerda. Ai percebi que ele era bom demais, eu disse a primeira vez que tiver uma chance eu vou leva-lo. Peguei o endereço na Penha, quando fui procura-lo ele estava na Figueira de melo em
  • 61. bonssucesso...entrei nos botecos e fui procurando encontrei uma mulher debaixo de um pé de Jamelão, encontreio vestido de cuecas bebendo umas cervejas, vim atrás de vc para que esteja as seis horas na radio Mauá. Pegue sua melhor roupa. Estou trabalahndo numa fabrica de papelão. Quatro horas ele já estava esperando. Não tinha violão. No regional o instrumento era meu. O Freitas cearense alegre logo chegou, apresentei o Jorge, que no inicio não levou muito a sério o Jorge. Não queria levar o violão,,,vai ter que entrar aqui sem beber,,dizia eu só bebo pura. Disse ele esta acostumado a tocar sozinho, passou uns 20 dias o cara desenvolveu, o Freitas me chamou o cara é diferente,,,o pinguim logo percebeu. O cara não imita ninguém é tão bom quanto o Dino e o Darly. Ouvindo o programa do Ary barroso, calouros do Ary, apareceu o bandolinista Jacozinho que ganhou o premio conquistando o primeiro lugar. Gostei e comentei com Freitas, que o conhecia e sabia onde morava, morava em marachal Hermes, pele dica que deu fui nos botecos procurei os endereços até encontrar o Jacozinho.disse que era o Pernambuco ele veio correndo, tenho um amigo o Freitas. A troca do nome Josevandro Pires de Carvalho, eu botei Evandro e seu bandolim, o próprio Jacó me parabenizou. Logo em seguida entrou o Artur Ataide não ficou muito tempo no conjunto....fiquei sabendo por meio do Freitas de um Flautista capixaba me disse que Carlos Poyares estava tocando no Regional de Mauricio de Oliveira. Já havia conhecido poyares em 1945, fui com Manoel Barcelos em vitoria comandando a caravana da tupy com um cast excepcional acompanhado pelo regional do Rogerio Guimarães do qual eu fazia parte, em um parque de diversão, ficamos cinco dias em vitoria, ele era conhecido como “Pixinguinha” apelido segundo ele dado pela cantora Horacina Correia, fiz amizade com ele. Anos depois seu irmão sargento Iran disse que ele queria vir para o rio, avisou ao Freitas, comunicamos com ele, ele se predipos, comprei uma passagem no
  • 62. aeroporto santos dumunt, na semana seguinte já estava entrosado com o Evandro e o Toninho. Fomos para São Paulo a convite de Paulo machado de carvalho – 1952, por sugestão de carmelia Alves, me viu tocando na boate meninão com carmelia Alves, eu, Menezes, e Nascimento chamado de Jimmy Lester marido de carmelia que tocava contra baixo. Me convidou a fazer uma temporada na Record. Antonio rago – regional dirigido por um pandeirista Santana – tinha um regional na radio bandeirantes, disse o que??? vai La pra ver...quando viu pela TV o que fazíamos.... Os cantores queriam cantar acompanhados por nós, mas Paulo |Machado de Carvalho proibiu O Toninho foi seduzido pelo esmeraldino Sales a ficar no regional do Rago, que tinham perdido o Oralndo Silveira,que tinha sido convencido pelo Luis Gonzaga a ir para o Rio. Convidei hildebrando do acordeom, Reginaldo Caçulinha tocava cavaquinho estudava piano e acordeoan com orlando Silveira com três meses já estava muito bom, ficou uns oito meses, virou um virtuose, tinha treze anos, saiu...muito bom Entrou Edinho muito bom Zé neto que tocava Arlindo facão, chefe do conjunto, onde tocava toco- preto, Loró- Furou dos funcionários da tupy, que tinha me convidadado ( Rogerio Guimarães) eu não quis furar a grave, como eu era sindicalizado. 9. HERMETO PASCOAL NO REGIONAL DE PERNAMBUCO Tenho um irmÕ QUE TOCA DEZ VEZ MAIS QUE EU TOCA NA RADIO DIFUSORA DE CARUARU
  • 63. ESTA INDA PRA RADIO JORNAL DO COMERCIO DE RECIFE PARA O LUGAR DO GAUCHO, QUE NO FUTURO PASSOU A CHAMAR PITY THOMAS. O ACORDIONISTA EDINHO TEVE UMA DESAVENÇA COM O ABELARDO CHACRINHA, TELEVISÃO NÃO PAGAVA CACHÊ AI PROCUREI O HERMETO PASCHOAL, QUE EU JÁ TINHA CONHECIDO EM PERNAMBUCO FUI APRESENTADO PELO MARIO BABÃO,JAZZ BAND OS ACADEMICOS, AQUI TEM UM ACORDISTA ELE A PRIMEIRA VAGA QUE TIVER NO CONJUNTO VENHO TE BUSCAR JÁ ESTAVA NA RADIO TABAJARA A CARTA CHEGOU EM RECIFE ELES MANDARAM PARA JOAO PESSOA ELE RECEBEU A CARTA ABRIU ESTAVA O TELEGRAMA “HERMETO VENHA QUE O LUGAR É SEU” POYARES HAVIA VOLTADO PARA ESPIRITO SANTO POR SAUDADE DA SEHORA DELE MANUEL GOMES FLAUTISTA, TINHA PROCURADO EM TODOS OS LUGARES, F TINHA UM IRMÃO NO CORPO DE BOMBEIRO ME DEU TODO ATENÇAO, ELE ESTAVA MORANDO NA CASA DELE, TOCOU MUITO TEMPO COM O MANUEL, UM IMPROVIZADOR, MUITO HUMILDE, VC VAI FAZER UM TERNO AMANHA. CHAMA AYR MOREIRA CHAMA DR PAULO NUNES VIEIRA, GOSTA DO CUIDADO VIOLÃO ESFREGAVA AS MÃOS COM UM LAPIS NA MÃO E DIZIA ESSA COISA NÃO É DESSE MUNDO ME PEDIREM ATÉ POR FAVOR O COMENTARIO COMEÇOU NO PONTO O ORLANDO SILVEIRA OUVIU ME ENCONTROU NO PONTO VC AGORA ESTA COM UM COLEGA QUE FAZ INVEJA EM MUITA GENTE FIQUEI ENCANTADO COM A HARMONIZAÇÃO 10. A ALTA MALANDRAGEM Tive a oportunidade de conhecer a alta malandragem da Lapa. O malandro não era Eram ótimos dançarinos, sedutores, conquistavam as mulheres e botavam-nas na
  • 64. prostituição, era sustentados por elas ou pelo vício do jogo. Os mais famosos era o Meia – Noite, andava sempre com um chapéu de aba arga Botavam pra trabalhar na prostituição MAIA NOITE – ALTO, chapéu de aba larga, bonito, vivia de kaften, era respeitado , nos cabarés, quando chegava a orquesta parava, tina uma psitola se não parasse.....não brigava na mão. O dono politicamente não gostava que a policia intervinha pegava mal para o cabaret. Edgard, forte, mal encarado, chapéu, secretario do meia noite, ficava como guarda noite. Tabariz, Novo México, o porteiro era chamado de Boi, parecia um paredão, sabia conversar, e tinha força. MIGUELZINHO – Calmo, educado, tranqüilo, se era provocado, procurava evitar a briga, amigo de crianças. Antes de morrer se transformou em guarda portuário, conheci em 1938, quando fazia os encontros quando a Truma animada do morro de Santo Antonio, tocava numa roda de choro e samba no boteco Passatempo esquina da rua Rezende com Lavradio. Botava todo mundo em silencio. Dona Hosana que tinha casa de reuniões, na rua do lavradio, freqüentada por todos os malandros que vivia de cafetinagem, volta e meia saia um briga de dois malandros, iam para o meio da rua, sempre na mão. Camarão, Toninho, Mario Maluco. Tinha filhos e filhas todos respeitados, as filhas se casaram com gente de bem. Campo de Santana ou na praça onze,,,sem armas. Blindado e mergulhão, dois estivadores, duas montanhas, paraibano e cearensa, os cavalarias faziam um fuxico , e botavam os dois para brigar, brigavam, começa na lapa e terminava na gloria, o mergulhão derrubou um cavalariça... Miguelzinho – o maior capoeira da lapa, os malandros escolhiam...uma dançava no clube fenianos, quando um policial da policia especial foi recusado por uma dama. Começou a desacatar um pacato diretor do clube de um bofetão, chamou miguelzinho, procurou conversar, foi levando ela para escadaria, deu uma cabeçada, e ele desceu de cara na escadaria... Foi para o quartel e veio o reforço, e perguntou cadê o cara, ai prendeu todo mundo, outro dia toda dia com a boca da calça amarrada, tinham dado purgante , e botaram eles para limpar o morro na enxada....perto de um tiro ao alvo onde eu trabalhava, um deles foi La tomar água, me um telefone de um parente general, ai o general e mandou soltou. Foi só um que me bateu.....
  • 65. Comandante Queirós escreveu um bilhete e entregou para o velho Canuto, miguelzinho foi, chegando lá. É esse mesmo, conta a historia, miguelzinho contou tudo e não foi isso mesmo, naquele clube indescente,,,,clube dos fenianos ficava na rua Evaristo da Veiga. Chamou um gaucho e um catarinense e foi para o campo de basquete, e fazia uns bicos na cantina do seu Elídio(forte andava com uma camisa de meia para mostrar a couraça) irmão do domingos (Bangu), Médio (flamengo) e do Ladislau(botafogo) da Guia, célebres jogadores de futebol. Contaram para ELidio que iria haver um pega, eu tinha passagem livre, entrei e assisti,,,,pegaram o produto da amazonas(borralha), mas não precisa de dois homens. Me chamou pra isso... Miguel usava um chinelo charlot, qdo chegou no pátio, estava com uma calça curta, camisa de seda, tirou , uma ponta da borracha, pegou e derrotou... Comandante o senhor desmoraliza seus soldados, poderia ter dado um tiro....’’se existe uma serra tem outras serras’’ A morte do Miguelzinho – Gravatinha, no morro de Santo Cristo perto do Morro da Favela. Nelson gonçalves nocauteou miguelzinho .................................................................................................................................. Quando prenderam o Prestes ( largo da carioca – frente pra cidade e as costas para o morro) ....vc é comunista Dizia eu sou A batiam nele de soco, ouvi ele responder umas três vezes, depois passava por lá, tinha assistido três comícios, em mangueira, na lapa, no catete) O xadrez ficava encostado na rua do morro, que era possível ver o movimento.... 11. CARREIRA INTERNACIONAL AS VIAGENS PARA A ARGENTINA E URUGUAI ACOMPANHANDO A CANTORA CARMELIA ALVES CHIQUINHO MENESES E NASCIMENTO, MARIDO DE CARMÉLIA. EU TOCAVA ZABUMBA E PANDEIRO
  • 66. ELA CANTAVA SAMBA E BAIÃO, E TOCAVA UM AFOXE DENTRO DOS CONFORME CHIQUINHO – ROMEU SEIBEL – GAUCHO – UM DOS MELHORES MUSICOS QUE VI JOSE MENEZES – RADAMÉS DIZIA QUE ERAMOS O TRIO MAIS ENTROSADO QUE ELE TIMHA VISTO MENEZES NÃO FOI PARA O URUGUAI, O PAINISTA ROBERTO INGLES PEDIU A NASCIMENTO PARA EU GRAVAR COM ELE NA TELEVISÃO BELGRANO, ELE NÃO AUTORIZOU MENEZES INTERCEDEU A MEU FAVOR, E NÃO QUIS SEGU IR PARA O URUGUAI ATUAVAMOS EM TRES BOATES POR NOITE CARMELIA CA NTANDO O TRIO EU SOZINHO FAZENDO MALABARISMO LEMBRAVA DOS CONSELHOS DO JOÃO DA BAHIANA TINHA LUGAR QUE AGRADÁVAMOS MAIS, O CRONICA ARGENTINA DIZIA O TRIO PESA UM KILO. TOCAVAMOS EM TRES BOATES – BOATE GONGO – NA AVENIDA CÓRDOBA – E NA TV BELGRANO – RFECEBI PROPOSTAS DO DONODA BOATE PARA AGUENTAR O ROJÃO CUIDAVA DO PREPARO FISICO, REMAVA E NADAVA MUITO, TREINAVA BOXE NA POLICIA ESPECIAL. NO URUGUAI FIAMOS UNS TRINTA DIAS NO URUGUAI, CARM´LEA TEVE QUE MANDAR BUSCAR A DONA ADA, MULHER DE CHIQUINHO QUE ESTÁVAM PRATICAMENTE EM LUA. MULHER DE FINO TRATO E EDUCAÇÃO ESMERADA, DIGNA DE CHIQUINHO QUE TAMBEM ERA UM CAVALHEIRO. O REGIONAL FICAVA SOB A DIREÇÃO DE JORGE CHARUTO, NO PANDEIRO MEU SUBSTITUTO ERA O MINEIRINHO ERA MEU SUBTITUTO DE CONFIANÇA. EM 1955 TOQUEI AO LADO DE LOUIS ARMSTRONG NA BOATE DO HOTEL SERRADOR, FIZ UM QUADRO DE MALABARISMO COM A AQUARELA DO BRASIL, DEU
  • 67. UMA GARAFA DE CACHAÇA ELE DISSE VERRY GOOD,TOMOU QUASE MEIA GARRAFA, QUASE DESMANCHOU O PISTON NA HORA DO SHOW TOQUEI COM CARMELIA EM HAMBURGO NA ALEMANHA, 1956, AINDA PUDE PERCEBER OS SINAIS DA GUERRA; LUIS GAÚCHO – ACORDEON – DUILIO – DE GUITARRA E CAVAQUINHO – ERA DE SÃO PAULO VEIO PARA O RIO PARA TOCAR COM O ALTAMIRO LUGAR DE COMIDA RUIM, CHOPP COM CHUCRUTE ENCONTREI COM O FILHO DO DONO GALERIA PAULISTA QUE ESTAVA ESTUDANDO NA ALEMANHA, ME RECONHECEU, ME CONVIDOU PARA UNS BIFES, DE CAVALO, ESTAVAMOSNO TEATRO SAINT PAULI JÁ EXISTIA O BRASILEIRINHO – DUILIO SOLANDO E O GAUCHO HARMONIZANDO; PASSAMOS PELA FRANÇA A CARMÉLIA NÃO QUIS APRESENTAR NO MOULAN ROUGE. Trabalhamos no NORTE DE PORTUGAL, UMA REVISTA PORTUGUESA SEXO ILUSTRADO, FEZ UMA REPORTAGEM COM FOTOS DE VÁRIOS ANGULOS. FICAMOS UM ANO E MEIO EM PORTUGAL, SEM VIR AO BRASIL. VIM PARA O BRASIL NO NAVIO VERA CRUZ, DE TERCEIRA, O COMANDANTE TOCAVA CAVAQUINHO. (LUIS LAVIA GUERRA – O GAUCHO.) FIZ UM SHOW NO TEATRO DO NAVIO, O CAMANDANTE QUERIA ME COLOCAR NA PRIMEIRA CLASSE 12. CARAVANA OFICIAL DA MPB HUMBERTO TEIXEIRA, ME DISSE EM HAMBURGO, QUE IRIA ASSUMIR UMA CADEIRA DE DEP FEDERAL, FAZER UMA VOLTA AO MUNDO SIVUCA ABEL FERREIRA GUIO DE MORAES DIMAS NA BATERIA TRIO IRAKTAN ENSAIAR DOIS MESES NA RADIO MEC COMEÇAOS EM LONDRES, QUEM FOI FLORA ROBSON, ATRIZ DO FILME MORRO DOS VENTOS UIVANTES, FICOU ENTUSIAMADA COM O BRASILEIRINHO.
  • 68. APRESNTAMOS NO OLIMPIA, COM EDITH DE PIAFF.. E UM GRANDE ELENCO. ERA TRINTA DIAS TRABALHOS MAIS QUINZE DIAS. SIVUCA FOI MEU COMPANHEIRO VOU PAGAR A DIFERENÇA, FICAVA CONTANDO MOEDAS A NOITE INTEIRA, RATO BRANCO, GATO RUÇO. PIAFF FICAVA ATRAS DAS CORTINHAS PARA ASSISTIR O SHOW, FICAVA AGRITANDO BRAVO, BRAVO, BRAVO FICAMOS UM MES NA BÉLGICA NO PAVILHÃO DO BRASIL NA FEIRA INTERNACIONAL DE BRUXELAS. COMO O TRIO IRAKTAN TINHA TREMENDO SUCESSO EM PORTUGAL FIZEMOS UMA TEMPORADA EM PORTUGAL UMA TEMPORADA DE 45 DIAS NO CINE SÃO LUIS, COM COBERTURA DE RADIO, JORNAL E TELEVISÃO. 12.PESSOAS INFLUENTES NA FASE CARIOCA: 1 – MAESTRO GUIO DE MORAES. OS MUSICOS NÃO QUERIAM TOCAR AO ARRANJOS DELE, ULTRA MODERNO, TOCAVA, GUITARRA, E CAVAQUINHO E PIANO, UMA MUSICALIDADE COMO COMPOSITOR INCOMUM, (MEU BODOCÓ)...PERNAMBUCANO QUE NEM EU, GRANDALHÂO, SER IRMÃO BOLINHA UM VIRTUOSE, TOCAVA NO CONJUNTO ESCOLA DE RITMO ( GUIO DE MORAES, EDGARD NA BATERIA, EBÉR GUIMAR~ES, PEDROCA NO PISTON, ALONSO NO CONTRA – BAIXO FOI PRESIDENTE DA ORDEM DOS MUSICOS DO DF, MENESES NA GUITARRA, ABEL FERREIRA – DEPOIS QUE RATINHO MORREU PASSOU TOCAR SAX SOPRANO). 2 – SEVERINO ARAÚJO:] PERNAMBUCANO DE LIMOEIRO, TERRA DE CHICO HERACLITO, FORMOU A ORQUESTRA TABAJARA EM JOÃO NA RADIO TABAJARA, COM OSIRMÃOS, ZÉ BODEGA – SAZ TENOR, JOSÉ MANUAL – TROBONE, JAYME NO CLARINETE E SAX ALTO, PLINIO PISTONISTA E BATERISTA, MAIOR ORQUESTRA QUE VI NA MINHA VIDA, BOTOU O TOMMY DORSEY PRA CORRER EM 1944 O ASSIS CHATEUBRIAND TROUXE-O , FOI DITO PELO PROPRIO DORSEY A CAPACIDADE DE SEVERINO COMO ARRANJADOR. TOCAVA PROFISSIONALMENTE EM ORQUESTRA, MAS SEMPRE PREFERI REGIONAL. SEMPRE O PROCURAVA PARA FAZER ARRANJOS.
  • 69. 3 – RADAMÉS GNATALLI: VC FALA MUITO DO PERRONE, BATERRISTA PRA CINEMA, MAS PRECISA VER O PERNAMBUCO, ELE VIU EU, GAROTO, CHIQUINHO, E MENEZES, O TRIO MAIS ENTROSADO QUE JÁ VI. 4 – ELEAZAR DE CARVALHO GRANDE MAESTRO, PROCUROU COM ZACCARIAS UM RITIMISTA FUI INDICADO, FUI TOCAR NO MUNICIPAL, FUI APALUDIDO , FUI O PRIMEIRO PANDEIRISTA A TOCAR NO MUNICIPAL COM ORQUESTRA SINFONICA FUI TOCAR DOIS CHOROS- PERNAMBUCO DO PANDEIRO E BARRÃO DAS CAB ROCHAS. 5- FRANCISCO MIGNONE “FUI CONVIDADO PARA TOCAR ‘canta Brasil” com a orquestra da globo, ele tocava somente musicas clássica. 6 – MAESTRO GAÓ. Na baixa do sapateiro. 7 - GAROTO FUI CONVIDADO PARA GRVAR COM GAROTO, EXIGIU EU OU RISADINHA, O MARTINS DECIDIU EM MEU FAVOR, GRAVEI SÃO PAULO QUATROCENTÃO FALEI QUE ELE IA FICAR RICO COM ELA...ERA DESPECEBIDO ESQUECIA DE PEGAR DINHEIRO PRA TAXI, GAROTO ERA CASADO COM UMA MULATA E FOI MUITO DISCRIMINADA NOS ESTADOS, O PINGO ( ARREGIMENTADOR) TINHA MUITO INTIMIDADE COM GAROTO – MORTE COM OVERDOSE, ERA UM SUJEITO UNGIDO POR DEUS, MUITO HUMILDE (Mussampeiro e cristancho = Dilermando reis), o garoto compunha ninguem... 8 – Baden Powell Cria do Meira, já muito jovem, assustava todo mundo, tentei colocar um apelido nele de mogli, o menino lobo, gravei com ele na continental, onde tinha um técnico fabuloso , um mulatão forte, um gênio na técnica o Lourival Reis. 10 – Silvio Caldas. Poldra – parceira – esquipadora – ritimista – converso com ela Armazém de seu Matias Donato
  • 70. Vi e ouvi um gramofone Silvio caldas e o regional do luis americano Deu cordas, baiano, rancho fundo, musica do inferno Acompanhei-o pelo regional de Claudionor no copacabana palace, em várias gravações. O canhoto chamava-o de titio, passei chamar também, ele gostava que chamasse. A interpretação incomparável, nas serestas, acompanhado por Nei Orestes e Carlos Lentine que morreu na Argentina com uma pneumonia galopante, Meira entrou no lugar e depois Dino entrou no lugar de Lentine e Canhoto. 11 – Orlando Silva- brincava com ele, um pandeiro com surdina pra tocar com o filho da dona balbinha. Pernambuco vc é um poeta...vicio de morfina...Amigo Leal 12 – Chico Alves – queria que eu tocasse ganzá, exigente nas gravações, só gravava o que ele gostasse, tinha personalidade, nasceu na rua da prainha no bairro da gamboa no meio da alta da malandragem bem encostado no Pedro segundo. Foi padrinho de muitos cantores, incluisive de orlando silva Pediu ao erivelto pra fazer um samba de “agradecimento:” DEPOIS QUE VC ESTA NO APOGEU Esqueceu o maior amigo seu Mais se vc fracassar Podes me procurar Que o pouquinho que eu tenho Chega também pra vc A vida tem duas escadas Uma escada e a outra que desce Quem esta em cima De quem em baixo se esquece Cuidado amigo Que o destino é bem cruel Essa vida é um teatro Cada qual tem seu papel. Encomendado pra erivelto e marino pinto O Chico ficou numa situação muito desconcertante na relação do erivelto e Dalva, por que era amigo dos dois,e com certeza sofreu muito com aquela situação. 12 - Alcides Gerardi
  • 71. Era pra ser o padrinho da minha filha, não por que separou da Baiana, esteve comigo nas minhas horas mais difíceis, ele o João Tomé, quando sai da cadeia ela veio até Brasília , João Tomé colocou dinheiro debaixo da toalha. Ele me livrou de ir pra Italia, levei uma meia dúzia de cubanos, sargento Lima, você é um músico que precisa ficar aqui....fui La jurar a bandeira e adeus ao Coló ( saindo da jogada) 13 – Lupiscinio Rodrigues Foi um amor a primeira vista, chamávamos de Lu. Era muito bajulado quando chegava no rio, tudo que fazia era sucesso, muito boa praça. Tem composições como cigano uma gravação magistral do meu amigo Moreira da Silva que teve oportunidade de mostrar que era um interprete fenomenal, acompanhado pelo regional de Claudionor . Lu era simples gostava de se relacionar com músicos, vinha para assistir as gravações, gostava muito de tomar um uísque de marca balantines 14 – Nelson Cavaquinho: Historia do cavalo que o Cartola conta nelson no buraco quente. Formou uma dupla perfeita com o Guilherme de Brito. MUITO humide, vendia musica, tocava bem cavaquinho, tocava violão com dois dedos, uma harmonização e frases melódicas inovadoras. Convivi com ele e tocava m um boteco onde eu morava na Penha, ele me chamava quando eu passava. Uma vez passava na rua cuba encontrei Nelson em um botequim, ai falei pra ele que iria ser considerado somente depois de sua morte. Guilherme era um cara serio não gostava de vender musica. Só vão te dar valor quando voce morrer, ai o Nelson escreveu o “Depois Que eu Me Chamar Saudade” fui o incentivador de acordo com o depoimento de Mario Alves ex integrante do trio nagô. Bebia muito e não caia 3ª PARTE. MINHA VIDA EM BRASÍLIA 1. O CONVITE DE JK Tocava com muitos políticos Getulio Vargas (ABEL, MENEZES) TOCAMOS EM SÃO BORJA em 1943 ONDE ABEL TOCOU EM PRIMEIRA AUDIÇÃO “UMA NOITE EM SÃO BORJA”, O grupo foi organizado pela própria radio nacional, dirigido por Abel ferreira Um show dançante A alta política brasileira.
  • 72. Toquei profissionalmente na campanha do Brigadeiro Eduardo Gomes, e pedido do radialista Carlos Frias locutor da radio nacional, que era o chefe da caravana do brigadeiro, embora sempre fui um simpatizante da esquerda, o conjunto era formado por mim e o violonista Temistócles Araújo, chegando nas cidades procurávamos músicos na s cidades que podiam tocar conosco. MIRO em Uberlândia, musico queme deu a inspirancia pra compor meu grande sucesso que foi o baião Delirando, Em Uberaba, João Tomé, recomendado por Abel Ferreria, que por sinal era um grande músico, um dos melhores músicos que conheci, que depois tornou-se meu grande amigo em Brasília. ADEMILDE – PERNAMBUQUINHO VAI DORMIR – PAULO BOB QUE IMITAVA BOB NELSON Fui várias vezes tocar na casa de Tenório Cavalcante em Caxias. Tenórioo era apaixonado por choro e quando havia festa em sua casa mandava um recado pelo Paulo Nunes, então diretor da Radio Mauá, e sempre fomos bem acolhidos por ele. Juscelino qdo assumiu o governo de minas fomos propriamente inaugurar a casa do baile na Pampulha, local de reunião social de JK Carmelia Alves, rainha do baião, ( que país é esse), com um conjunto formado por Chiquinho, Meneses, eu, e Nascimento. JK GOSTOU MUITO das minhas exibições Ma ocasião de caravana Humberto Teixeira, encontrei de novo com JK que me reconheceu de prontidão Depois que voltei da Europa que voltei da Europa sempre me chamava, na residência das laranjeiras, iam lá com freqüência a mimm, erivelto, grande Otelo, Sergio Cabral um grande, ou talvez o maior divulgador da musica brasileira. Ele me dispensou de tocar o “peixe vivo” pode tocar o que vocês quiserem, já estava de saco cheio do peixe vivo, já agüentava mais, onde ele ia tinha que escutar o peixe vivo. Juscelino não era bobo pediu que tocasse
  • 73. Pixinguixinha. Numa ocasião uma das filhas de JK perguntou se o Hermeto era o Sivuca, ele era chucro, fechou a cara e disse eu sou o Hermeto Pascoal. Tocava nos aniversários das filhas, foi quando já tínhamos intimidade ele me convidou para ir para Brasília, seu pedido é uma ordem. Ele ordenou a Mario Pires a minha transferência da Radio para Radio Nacional. Fiz o convite para os membros do regional. O ubiratam era telefonista na aeronáutica não se predispôs a vir, coloquei Gaspar no cavaquinho, e restante todos gostaram da idéia, por que o Juscelino prometeu um emprego para todos os músicos fora da musica. Eu trouxe um conjunto com a seguinte formação Jorge charuto, darly, Manoel, Gaspar, o Hermeto tinha um contrato com o Copinha na Copacabana palace assim que terminasse ele viria. Chegando aqui o senhor Adelchi Ziler, antigo diretor da radio inconfidência de belo horizonte, que passou ser o diretor geral da radio nacional de Brasília, ( meu cunhado, o saudoso Fernando Salsides, era técnico de som da radio nacional do Rio, passou quatro meses em Brasília montando o instrumental técnico da radio nacional, o disco que ele usava para testar o som da radio era No Meu Brasil Era Assim, disco do regional de Pernambuco do pandeiro, gravado na Copacabana, em 1952, e que depois, Miudinho antigo músico de Luis Gonzaga, e que passou a ser discotecário daquela emissora, me afirmou que aquele disco tinha sumido e ele encontrou com o carimbo de entrada no acervo adulterado) Fui procura-lo, vim de ônibus, demoramos 2 dias para chegar aqui, Brasília era um imenso canteiro de obras, muita poeira e nenhum conforto Fui direto pra radio nacional, fiquei esperando três horas ate que ele chegou, dizendo assim, Pernambuco, seu conjunto é muito caro, era pra ter um alojamento, ele disse atualmente isso é impossível, Paulo Nunes já havia me dito que o Ziller é enrolado. Não propôs nenhuma contra proposta, minha salvação foi o Sergio aluno do meu cunhado, ele me ofereceu um apartamento onde ele estava, numa invasãonão tinha condição de moradia apesar da boa vontade do Sergio, ficamos dormindo no chão, eu tinha trazido seis cobertores, uns quatro
  • 74. dias...um policia da GEB ouviu a gente ensaiar bateram na porta, um sargento que conhecia o Darli. Sargento Murilo afroxou a guarda e pudemos colocar camas colchões e lençóis, tirado do acampamento do banco do Brasil, permitido pelo dr. Geraldo Carneiro, ( Já o conhecia na rádio Mauá, fui procurar, vendo naquela situação). O pessoal do conjunto tinha saído tomar umas e outras e depois jantar no gtb (TINHA UM BARATO DE UM CARO), era um restaurante popular que tinha duas categorias, comia quase de graça...ficava(? 513 OU 514) tinha DOIS COMODOS. QUANDO CHEGARAM ASSUSTARAM COM OS MÓVEIS. EU TINHA TRAZIDO UM DINHEIRO QUE GANHARA NA EXCURSÃO QUE FIZ COM OS BRASILEIROS NA EUROPA, E BANQUEI O SUSTENTO DO CONJUNTO. JOSE AUGUSTO DA CRUZ VITÓRIA, RESPONSÁVEL PELA DIVISÃO PATRIMONIAL DO NOVA CAP, SABENDO QUE EU ESTAVA NA 310, ME DEU UMA BRONCA POR QUE EU NÃO O PROCUREI, VOU FALAR COM DR ERNESTO SILVA, PRESIDENTE DA NOVACAP, E TENHO CERTEZA QUE ELE VAI RESOLVER SEU PROBLEMA. ERNESTO ORDENOU QUE LEVASSE TODOS E DESSE O CARGO CONFORME A CONDIÇÃO DE CADA UM. E NOMEOU TODOS OS MEBROS DO CONJUNTO COMO FISCAIS, ERA O QUE JUSCelino tinha prometido. ((((((o ziler não teve mais contato comigo, a radio tinha dois conjuntos de joão tomé e os ceguinhos, gilson (piano), valter (bateria) , china(acodeon), joão tomé (guitarra), e os não cegos pedroca (pistão) e alagoano (conta baixo). e uma orquestra dirigida por kolman, que tocava anteriormente na pampulha, e lá fez amizade com dona sara e juscelino e tocava as músicas que dona sara gostava com seu sax tenor muito quadrado por sinal. vi que não tinha espaço para mim na radio nacional.))))))))
  • 75. ai fomos morar no do ré mi, era um alojamento para funcionarios qualificados e visitantes, a origem do nome foi devido que seus primeiros hospedes foi uma orquestra que fez uma apresentação publica. era tudo de madeira , mas muito bem feito, tinha dez blocos cada um com vinte suites muito confortáveis. havia uma cantina muito especial com comida muito bem feita e barata. ficamos morando de maio a julho, tocamos na cantina mas carioca no cerrado não fica contente, e resolveram ir embora, muito contrariados, e imploraram que eu fosse juntos. eram músicos que tinham espaço em qualquer lugar e voltaram para o rio, embora careciam de uma liderança forte por que boa parte dos músicos daquela época as vezes bebiam muito e não se preocupavam profissionalmente. o jorge voltou arrumaram um emprego pra ele no gama como vigia de obra, ele apareceu certa vez me pedindo um violão emprestado, emprestei e perdi o contato, ai ele entrou de vez no alcoolismo, morreu e foi enterrado como indigente. o darli tinha bons contatos e era multi instrumentista, segui sua carreira, sendo levado pela cirrose hepática. o gaspar não tive mais notícias, não se firmou no cenario profissional musical. não voltei por que se voltasse eu me sentiria um derrotado, e acreditava no sonho de brasília, ali era o futuro para minha família, já havia tocado nos melhores lugares do pais, já tinha uma carreira profissional, liderava um conjunto de sucesso, mas não tinha conseguido um segurança financeira para dar aos meus dois filhos uma vida digna, por isso abri mão dos palcos e enfrentei a poeira dos cerrados. parei de ser musico e abracei a carreira de fiscal de edificações tomando conta do relógio de ponto, trabalhando como fiscal, até 1961 houve a eleição de 1961, mudou o comando de todos os cargos de confiança. fúlvio machado ficou no lugar de josé augusto, me entrevistou e gostou da minha maneira de proceder e me tornou um homem de sua inteira confiança, me nomeando como chefe da segurança do do re mi.
  • 76. foi dizendo eu já sei que as irregularidades daqui é um nojo, e vi que você tem experiência com comando, eu quero moralizar isso. as ordens, não deixar ninguém namorando dentro de carro não permitir orgias dentro das suítes havia um rapaz, filho de general e sobrinho de embaixador, que tinha uma conduta que contrariava o padrão moral que o dr. fulvio machado queria estabelecer no do re mi, andava nu corredor dizando palavras de baixo calão, humilhando na calada da noite as pessoas de bem que moravam naquele recinto. ele estava mantendo relações sexuais com uma professora que morava no bloco, dentro de uma kombi, falei para ele as ordens que tinha recebido, mas ele disse que ele mesmo fazia as ordens e que esse dr, fúlvio não tinha nenhuma autoridade pra ele. no outro dia fui falar com dr. fulvio e ele me pediu por escrito, e passava volta e meia por la, mas não pegava ninguém em flagrante. os próprios moradores do do re mi, queixaram da conduta do rapaz para o dr. fúlvio,no entanto, ninguém tomou nenhuma providencia, deixando que a ordem ficasse exclusivamente sob minha responsabilidade. dias depois dois moradores do bloco, me advertiram que havia alguém que iria quebrar a minha cara. já que as autoridades superiores a mim não tomavam providencias, eu fui até uma delegacia de policia, conduzida pelo delegado paes leme, ficando registrado em livro, mas mesmo assim ninguém tomou nenhuma atitude. passava na kombi e me provocava, por diversas vezes , até que uma noite o vigia do bloco que morava a namorada dele foi me avisar que ele estava no bloco da namorada dele. ai fui de encontro a ele. ele partiu pra cima de mim , um homem com mais 1,80, e dizendo ofensas que recuso a dizer aqui, como fiscal de ordem eu tinha que andar armado, e fiz uso da arma para me defender. depois de três dias me apresentei por livre e expontanea vontade na delegacia da vila planalto, onde já havia feito a queixa. quando me apresentei o escrivão cléber, meu vizinho, inclui a queixa que eu havia registrado, e que me ajudou muito. o delgado paes leme quando soube que soube que havia entregado disse-me: “gostei da sua hombridade”, e não quis fechar a porta da cela, só fechou depois que entrou outros presos. o dr. paes leme fez uma investigação exemplar chegando a dizer que: “no do re mi só encontrei irregularidades e desmoralizações!”
  • 77. um jornal da época, que hoje não existe mais, publicou uma série de artigos assinado por um jornalista casado com uma prima do dito cujo, em que me colocou como um chefe de gang e um pistoleiro frio. e continuou durante semanas e semanas com artigos caluniosos, inclusive fazendo uma reconstituição absulutamente mentirosa, na tentativa de me desmoralizar e em conseqüência provocar uma condenação injusta. esses artigos caíram nas mãos de paulo nunes, meu antigo diretor da radio mauá,que imediatamente do rio para brasília, procurou o jornalista que publicou aquelas inverdades e disse a ele para parar com aquilo, sou um homem de confiança de jk, e você sabe que mesmo ele fora do poder ainda manda em brasília. paulo nunes avisou a jk que imediatemente ordeou que procurasse o dr. edson guimarães tolentino, irmão de dona risoleta neves, e sua esposa dra, sara tolentino, que fizeram toda minha defesa sem cobrar um tostão sequer. dias foram se passando passei um ano e meio no presídio e na véspera do julgamento esse mesmo jornalista, fez um artigo fazendo uma espécie de retratação. no julgamento o promotor entrou me acusando dizendo, eu conheço o acusado, ele esteve em minha terra, piauí, e o conheci tocando, gosto dele, sou fã dele, mas tem um detalhe, por detrás dessa barba pode ser um castrino. ai o dr. edson replicou dizendo que jesus usava barba, e o promotor retirou imediatamente o que disse. o resultado foi 6 a 1. o promotor abriu mão da réplica, e não entrou com recurso dando o caso por encerrado. esperei cinco dias na prisão para pegar o alvará de soltura. convivencia na prisão na delegacia da vila planalto fiquei por duas semanas, sendo transferido para o presidio da velha cap, no depósito de presos. um galpão onde os presos ficavam amontoados, chegando a dormir dois no mesmo beliche, e muitos dormiam no chão. como eu era muito querido e o chefe de policia me conheceu em são paulo, coronel jayme santos, me conheceu em são paulo na record, , avisou que iria me visitar na prisão isso influenciou a construção de um novo deposito de presos na torre. no deposito da velha tinha um chefão por nome “marujinho”, eu o conheci garoto na penha circular. quando eu cheguei no presidio com o pandeiro, ele me recebeu,
  • 78. relembrando os locais onde tinhamos encontrado. esse aqui me conheceu garoto e logo arranjou uma cama para mim. na primeira noite , no frio de julho me botaram numa solitaria sem cobertor e nem nada, no meio da noite, haraldo que era musico, trabalhava nalavanderia, me levou uma toalha para eu cobrir. quando eu fui transferido para a torre, o marujinho, mandou um bilhete para o catarina, “trate bem ele ai por que ele é um dos nossos”. ele não gosta que bula nas coisas dele,,,eu recebia muito doces e distribuia com todos, doces cigarros. depois voltei para a velha já com um novo barracão de madeira com grade dividido em cubículos, colocavam até quinze pessoas em cada. tinha um banheiro (frio) e quinze beliches. era um ambiente asseado. o catarinha foi junto, mas lá a liderança dele se restringiu ao cubiculo que estava encerrado. a turma de presidiarios em acordo com o diretor do presidio elegia um chefe, que dava ordens, manter limpeza nos banheiros. faziamos café de forma cladestina, o fogo era feito com um “pirulito”, feito com paginas de revistas...os guardas nas guritas sentiam o cheiro do café e vinham conferir. mantinhamos um olheiro que com um espelho controlave quem vinha. o ‘mata sete” era quem fazia esse controle. fui eleito chefe do meu cubiculo, não aceitava espancamentos nos novos hospedes do cubículo, mas permitia banhos frios a meia noite, sem direito a se enxugar. um dia a comida estava muito ruim, reclamaram para melhorar a comida, mas as providencias não foram tomadas. havia os pagadores, servia a comida, se revestiam de autoridade e não serviam direito.deram um banho daquela comida no gigante, veio a patrulha prenderam todos sem direito de banho de sol por uma semana. motim, o ferreira , o carcerreiro, (quis ser meu compadre) disse o pernambuco tem moral com eles, eu davacigarros, doces, ouvia muito eles. não adianta o choque, a única alternativa é colocar o pernambuco para conversar com os chefes. negociou com o tenetente que se predispôs a resolver pessoalmente o que os presos reivindicavam, e resolveu. no dia seguinte a comida melhorou. que fiz no presidio havia no meu cubiculo um detento, por nome maurolourenço, que havia participado de uma brincadeira de roleta russa, e nessa brincadeira houve uma morte, e ele foi preso, pessoa muito jovem, muito boa pessoa, e tocava violão muito bem, ai, nós
  • 79. formamos uma dupla inicialmente, ensinei o mata sete a tocar pandeiro, e o baiano protógenes a fazer ritmo numa lata de goiabada de 20 quilos. o mata sete ficou um pandeirista extraordinarios, e o protogenes um batuqueiro da melhor qualidade. o nome do conjunto era “os companheiros”, tocavamos durante as visitas, o protogenes cantava muito bem os sambas da bahia. logo após apareceu um barbeiro por nome barbosinha, baiano tambem, e o ferreirinha sabendo que ele era musico, colocou em nossa sela. ai formamos um time de primeira, por que ele era um excelente acompanhador, e formou uma dupla com o mauro olha lá, quase igual ao que eu tinha no regional. me veio a inspiração para fazer uma musica, lamento do encarcerado: seu doutor não queira ver como dói o coração de um homem encarcerrado a vossa disposição passa horas, passam dias e passam meses esperando a sua vez sem ter uma decisão se é condenado ou não mas o promotor cumprindo o seu dever.. mas é de coração continuar um chefe de familia as grades de uma prisão.. o cozinheiro miguel carioca que era do do ´re mi, foi transferido para o palacio da alvorada, quando quadros assumiu a presidencia, com a renuncia de janio, goulart assume a presidencia, o miguel fez amisade com dona maria tereza, e disse a ela que eu estava preso, e que tinha feito uma musica lamento de um encarverrado, ela levantou informações minhas, e viu que eu era bem relacionado com os presos e autoridaes. ela tinha sido aluna do claudionor cruz, e ele falou sobre minha pessoa, ela veio me visitar e nos organizamos uma recepção pra ela. nesse dia o tenente joaquim barbosa, conseguiu alguns artistas da radio nacional de brasilia, e nós fizemos o acompanhamento. cantou o mata sete e o protogenes.
  • 80. dona maria tereza dispensou o aparato de segurança pessoal, e tivemos um show com uma plateia composta por presidiarios com um respeito á musica e aos artistas, que nunca vi em lugar nenhum, comovendo ate a primeira dama que saiu de lá emocionada. do conjunto o barbosinha , o protogenes, e o mauro lourenço, logo sairam do em liberdade, o mata sete conseguiu a “liberdade” apelando para o “doutor” arame, e nunca mais soube dele. recebi a visita de dona julimar buzaid, então, presidente da ordem dos músicos de brasilia, juntamente com sua companheira de instrumento, a pianista e professora neuza frança, foram levar solidariedade de companheiras de profissão. e no dia do julgamento estiveram presentes, me mandou um cartão pelo sargento murilo que dizia o seguinte “ não posso ficar até o final do julgamento, mas, fé em deus e pé na tábua...” recebi a visita da minha comadre leopoldina pinheiro, a dina, esposa do grande violonista henrique xavier pinheiro, pai de criação do compositor gonzaguinha. ela enfrentou de onibus a travessia de dois dias para vir rio de janeiro a brasilia para me visitar, o xavier pinheiro já havia falecido. dina era uma mulher de uma dignidade exemplar, um exemplo de pessoa humana, não é a toa que gonzaguinha homenageou-a com esse samba exemplar que transcrevo abaixo em homenagem a minha querida comadre. josé gonzaga, veio exclusivamente para me visitar. o zé era um acordeonista formidavel, que o próprio luiz dizia que era o melhor músico da familia. lembro das suas palavras de conforto, me dizendo que eu iria ser absolvido. tocamos muito juntos, e ficou uma grande amizade entre nós a ponto dele ter tido esse gesto de carinho comigo. a vida depois da prisão
  • 81. assumi o meu antigo emprego como fiscal de ponto, sendo reconduzido para o cargo de condutor dos empenhos da nova cap, leva para os ministerios e palacio da alvorada. as vezes eu tinha dez empenhos para entregar e não havia como pegar a condução, e como no periodo da ditadura, os militares usavam de uma forma trunculenta para relacionar, as vezes eu ficava tres horas esperando ser atendido. cheguei a discutir seriamente com um coronel, havia ficado mais de tres horas, e exigi que ele me respeitasse. daí, fui afastado, me mandarm procurar uma lotação, daí fui para secretaria de serviços publicos, trabalhando com fiscalização de rua, bancas de revista, taxi , onibus. trabalhei uns cinco anos e requeri aposentadoria proporcional. mas na época não requeri meu tempo de servidor na radio mauá, e poderia ter sido aposentado integralmente. a musica em brasilia assim que sai da prisão continuei sem tocar fiquei um bom tempo sem tocas profissionalmente, embora sempre pagando a ordem dos musicos e o inss. tocava cavaquinho em rodas de amigos nos bares da cidade. o josé agusto da cruz vitoria, então. dono de uma casa de pizza com musica ao vivo chamda de amarelinho, me procurou dizendo que o bide da faluta tinha sido transferido para brasil. já havia mudao para cá o eli do cavaco. o proprio eli chamou o tó, um piauiense, um veolinista esforçado, pontual embora caresse de talento, ai posteriormente decobrimos o dudu, era bandolinista e tocava violão meuito bm, por que já estava saendo instrido peloanena de castro. me procurou um contabaixista, cearense, por nome de dedé, me disse que tocava violão tambem, fez um teste o eli gostou muito. , achou melhor do que os dois. nessa mesma época trasnferiu-se para brasilia um grande musico, funcionario do itamarati, bandolinista referendado pelo jacb do bandolim, chegando logo veio me procurar, tratava-se de cincinato.
  • 82. todos os sabados passamos a reunir na casa do jornalista raimundo de brito, muito bom no centro de cavaquinho. era aprofundado em teoria musical. paasou ser ponto de musicos, lá iam os fracos e os fortes no instrumento. mudou-se para brasilia o economista e professor univesitario da unb, celso cruz, musico sem muita experiencia com regional,mas muito bom instrumentista, fã de luis americano, era um cavalheiro acima de tudo. ele estava indo para os estados unidos, e ele é quem teve a primeira idéia de montar umclube do choro em brasilia. montamos um conjunto com a seguinte formação: cincinato no bandolim,bide na flauta, celso cruz no clarinete, eli no cavaquinho, violão no violão de seis cordas, eu de pandeiro e zélia nunes. fui chamado pelo proprietario do barril, o bar mais frequentado da galeria dos estados. tocávamos amadoristicamente. ali frequentava constantemente o dr. francisco de assis, o lendário six do cavaco, grande benemérito do choro. avena de castro, bené que trabalhava como contínuo no itamaraty, reforçou o grupo com seu violão de sete cordas. o barril comoceu a receber uma lotação jamais vista em brasilia. o italiano que era dono me disse com arrogãncia: “não gosto da musica de voces, gosto sim do publico que voces trazem, imediatamente reportei ao grupo, ai ninguem voltou mais lá. conclamei o pessoal para levantar acampamento, o six sugeriu transferir-mos para o beirute. ai passamos a tocar em muitos lugares indicados pelo six. onde ele determinava nós iamos. aí pensei em motar um conjunto de músicos profissionais. o celso cruz era amigo do josué sacca, e este havia trazido para o gilberto salamão uma casa noturna de são paulo chamada “a fina flor do smaba”, me convidou para organizar a parte musical. criei um conjunto que tocava samba e choro, com passistas masculinos e femininos. marrom tocava tamborim e reco-reco, zé pretinho no surdo, eu de pandeiro. pinheiro no violão de seis cordas, mandei buscar o indio no rio para tocar cavaquinho. meses
  • 83. depois mandei vir o carlos caçula um dos melhores sete cordas que havia no rio. o issa, mandou fazer um uniforme que parecia mais um conjunto tipico mexicano, ai não concordei , e pedi para fazer um uniforme com camisas listradas, chapéu de palheta e sapato e calças brancas. o zé pretinho era considerado o “gogó” de sola pois cantava horas e horas sem parar, com um rpertorio quilometrico. o indio revesava nos solos de cavaquinho. a boate esgotava os ingressos, e ali frequentava a sociedade classe a de brasilia. trbalhamos lá durante tres anos, o issa vendeu para o soarez, e voltou para o chile. ah! ioio oi iaia o samba não acabou só mudou de lugar venham todos meus amigos venham para o lado de cá por que o samba não acabou só mudou de lugar se vc não é de samba venha nos visitar que na roda de bamba alguem pode nos ensinar. o soarez quis mandar me bmandou avisar que eu poderia levar uma surra devido essa musica me indispus com o soarez, resolvi sair, por que discordamos na forma dele fazer o pagamento (atrasava). me propus a sair, ele não discordou. mas quando ele viu que eu irialevar oconjunto comigo ele se deseperou. queria voltar atrz mas não teve jeito, a diretoria do casarão ficarão entusiasmado com minha ida para aquela casa. lá procurei melhorar cada vez mais o conjunto. contratei tio joão para o trobone, tio dos grandes vioonistas gêneos, os virtuoses valter e valdir silva, contratei tambem aquino para o clarinete e luizinho no sax tenox, e mais duas passistas.
  • 84. os cartazes exibiam o nome de pernambuco do pandeiro, seus batuqueiros e suas passistas. e casa lotava nas sextas e sábado, era preciso colocar uma segurança muito forte, por senão o publico invadia, esse sucesso durou dois anos, meu conjunto revesava com o do chico doido. tive uma discussão com o presidente da associção qiue comandava o casarão, recindi o contato, que tinha assinado por tempo indeterminado. no final da noite fiz uma despedida emocionada, e disse que estava indo para o clube dos previdenciario. o diretor artistico do previdenciario era walcir...... de quem depois me torne um grande amigo. e mantenho essa amizade até hoje. ele foi umdiretor artistico muito competente e criativo. ele dominou por completo as noites de brasilia. tive que melhorar mais ainda o conjunto. contratei o patp preto para a bateria, e um moço que prometia muito como violonista, e que no futuro acabou se tronando um astro nacional do sete cordas, alencar soares, o eli voltou como cavaquinista, nilo no sax soprano, luizinho na sax tenor, aquino no clarinete e tio joão no trobone, tinha os cantores, dália e ciro. um diretor por nome de waldir dizia que qualquer conjunto fazia sucesso ali, segundo ele não era a múscica mas a estrtura do lugar que fazia sucesso, ai resolvi sair, e resolvi prar de vez tocar a noite para as pessoas dançarem, na realidade nunca gostei de tocar pra gente dançar, tocava profissionalmente, mas não por gosto. ( 1975??)) nessa época o genro de waldir azevedo foi transferido para bbrasilia, era ltado no banco do brasil. ele era muito apegado aos netos, e resolveu vir tambem. numa das reuniões na casa do professor raimundo ele apareceu por la atras de mim, ele queria que eu montasse um conjunto pra ele. já havia gravado com ele no rio e feito muitos shows com ele. eu disse para ele que tinha um grupo de samba, somente o eli e o alencar era que podia participar. ai sugeri o valerio que já tocava com em dupla com o alencar. ele inicialmente rejeitou temporariamente o nome do eli, e mandou que fosse os dois violões. o valdir não combinou profissionalmente com o valerio e ai me pediu sugestão de outrs violonistas, ai, que surgiu o nome do violonista e compositor
  • 85. hamiltom costa, e o dudu, era muito esforçado. ele gostou dos dois, e ai, me pediu que mandasse o eli procura-lo e meu compadre valdecir para o pandeiro. o dudu não pode permanecer por que era funcionário na assembléia legislativa, e não podia acompnhar profissionalmente o conjunto. sugeriu o valtinho , muito bom violonista. fizeram vários apresentações com essa formação, hamiltom costa, valtinho, eli e valdecir. o valtinho voltou para curvelo e sugeri o nome do josé carlos, que havia vindo do rio com o dr. veloso. quando valdir ouviu o carlinhos ele ficou impressionado com o estilo do carlinhos tocar ele insistia para que eu tocasse com ele, mas tambem tinha meus compromissos, trouxe o risadinha por recomendação minha, e fez somente um show em manuas, ai então assumi como membro efetivo do conjunto. gravei tres discos com ele, dois no brasil e um na alemanha.. em 1976 valdir teve um convite do governo da alemanha para um show na cidade de dusseldorf. na formação do grupo que iria valdir me perguntou se era interessante integrar no grupo o rafael rabelo, e o rafael estava comendo a bola, naquela época, mas por respeito ao carlinhos que era membro efetivo do conjunto, seria desleal deixa-lo e o valdir concordou comigo. mas com certeza se o rafael tivesse ido certamente teria feito um enorme sucesso. foi conosco o violonista sebatião tapajós, que era um nome muito conhecido na europa., que foi convidado tambem pelo governo alemão. a temporada foi coroada com êxito fizemos muito suceeso. quando tocamos o brasileirinho os alemães pederam a frieza e até ensaiaram uns passinhos de samba. fomos aplaudidos de pé varias vezes. ficaram admirados pela rapidez com que gravamos o disco em apenas dois dias. valdir azevedo tinha feito um choro muito bonito, e ele havia me pedido para batizar o choro, antes da gravação o choro estava sem nome, e ele me pressionou, ai fui na coxia e tomei uma dose reforçada de wiskey e veio o nome “lamentos de um cavaquinho”, ele gostou tanto que colocou o nome tambem no long play. esse
  • 86. musica teve um arranjo do hamilton costa e outro do carlinhos, tão bons que tivemos duvidas em saber qual ficou melhor. foi na alemanha que coloquei que criei o apelido de “bom bril” para o carlinhos. um pouco pela “juba” que ele usava e tambem por que o homem era de mil e uma utilidade, um músico perfeito para regional, um dos melhores que trabalhei em toda minha carreira, e alem disso um homem dotado de um coração e uma educação sem igual, um cavalheiro fino. sempre paciente com os musicos menos experientes, convivi com ele por muitos anos e nunca ouvi ele proferir qualquer comentario depreciativo para algum colega de instrumento. hamiltom costa, cultivamos uma amizade fraterna por mais de 50 anos, um compositor extremamente talentoso, as musicas contrastes e paisagem tem que estar em qualquer repertorio de choro. embora já tenha falecido, mas guardo comigo as melhores recordações, pelo seu talento inquestionável como musico, mas sobretudo pelo sua grandeza de caráter. que deus o tenha em gloria. eli do cavaco, sabia mais o reprtorio de valdir, do que o proprio valdir, funcionava como uma especie de arquivo vivo,.muito bom nos solos e genial nos centros. figura humana sem defeitos por sua humildade propria dos espiritos evoluídos. inicialmente preterido pelo valdir, após minha insitencia foi integrado no grupo e posteriormente ouvi valdir fazer varios elogios á sua caacidade como musico. por fim, waldir azevedo, conhecemonos praticamente na adolescencia no rio, eu o garoto do norte e ele o guri do violão tenor. e a medida que fomos afirmando no cenário da musica profissioal essa amizade foi se consolidando muito mais. tinha interia confiança nos meus palpites e quase sempre botava-os em execução. solista igual a ele ainda esta por vir ainda, ele exigia que eu ficasse proximo a ele, e por isso tive a oportunidade de ver coisas assombrosas que ele vazia no instrumento. tenho uma enorme saudade dele. também pelo seu jeito humano e sincero de levar a vida, fizemos um compromisso de que quem moreese primeiro o outro teria que tocar no enterro, eu cumpri o compromisso, com os olhos cheio de lagrimas e o coração despedaçado, tocando com o eli, e o carilhos a musica pedacinhos do céu
  • 87. enquanto o seu caixão descia., naquela tarde bonita de brasilia, com um céu azulado como se quisesse imitar a beleza do choro que ele criou com tanta inspiração. o modo que valdir executava o cavaquinho era único, sómente dele, os efeitos que ele tirava naquele pequeno instrumento acustico não tinha pra ninguem. tenho plena convicção, pelo que vi valdir fazer, que ele não era desse mundo, as vezes até me atrapalhava tocar, por que eu me emocionava, deus fez sómente ele e jogou a fórmula fora. depois da inauguração de brasilia os principais artistas , como orlando silva, paulinho da viola, moreira da silva, ademilde fonseca, alcione, dominguinhos, sivuca, abel ferreira e zé da velha sivério pontes e muitos outros que não me vem na memória nesse exato momento. passaram a se apresentar por aqui. apresentavam na aabb, iate club, no hotel nacional e tambem no teatro nacional. mas, quem me deu mais trabalho foi o “titio” silvio caldas, ele trazia sómente o cavaquinista, e juiz de direito, walmar amorim, e o célebre violonista de sete cordas, o voltaire muniz, um dos melhores sete cordas que o choro já produziu, voltaire era tambem musico responsável pelos arranjos do grande flautista altamiro carrilho. ele junto com o dino, darly lousada e jorge charuto, foram os melhores que vi. silvio caldas me incumbia de organizar a parte musical, ai alem de mim, participava um menino que hoje é uma referencia musical em brasília, o evandro barcelos, mutiinstrumentista, e que nessas ocasiões tocava um violão de seis cordas. mas eu particularmaente prefiro-o tocando cavaquinho, é seguramente a palhetada mais educada que já ouvi, um músico completo e um grande amigo. o clube do choro as reuniões aconteciam na casa do profeesor raimundo de brito, que era um anfitrião que advinhava o que o convidados queriam. nos sabados o numero de pessoas passavam de vinte. o nivel dos musicos foram subindo, e de volta e meia recebiamos visitantes ilustres como jacob do bandolim e valdir azevedo. ali começou
  • 88. a funcionar como uma verdadeira escola, pois ali frequentava avena de castro, hamiltom costa, e, os musicos menos experientes iam lá para aprender. foi em uma dessas reuniões que o clarinetista e professor celso cruz teve a ideia de fundarmos um clube do choro. um fâ confesso de luis americano. gostei do sopro dele e fiz a ele um elogio sincero. foi quando ele me disse que tinha uma ideia de fundar o club, mas que estava indo para os estados unidos para fazer um curso de doutorado em economia pela universidade de brasília, e quando voltasse iriamos colocar a idéia em prática. ele ficou la por dois anos e volta e meia comunicava comigo, assim que ele chegou me procurou, cuidou de ir ao rio de janeiro atras dos estatutos de um clube simlar que lá já existia. em pouco tempo ele providenciou toda a documentação necessaria para a fundação do clube. ele cedeu sua propria casa como sede provisória. e ai começamos a procurar as pessoas que tivessem interesse em participar daquela agrmiação. os primeiros membros foram o dudu do violão, eli do cavaco, bide da flauta, cincinato no bandolim, celso cruz, nosso primeiro presidente, no clarinete, o alencar 7cordas, o vilonista valério, o trombonista tio joão, e os ainda adolescentes evandro barcelos, augusto contreiras, chico do cavaco e o josé de assis, que apelidei de “zé tranquilo” começou a frequentar as reuniões a professora odete, eximia falutista, ela com seu filho carlinhos passaram a participar com frequencia das reuniões. procurou-nos expontaneamente para frequentar as reuniçoes o saxofonista nilo. e os sempre presentes dr, assis e hamiltom costa que tambem tocava conta-baixo. o coronel edgardo , o pinheiro do sete cordas. o geraldo esposo da odete, não tocava nada, mas era um apreciador formidavel, e gentilmente cedeu o apartamento deles, que era mais amplo do que a casa do celso, para realizarmos as reuniões e até mesmo ensaiar. tinha visto um rapaz tocar o “doce de coco” na tupi com o tio dele. gostei muito da execução dele, um dia quando menos esperava chegou na reunião apresentado
  • 89. pelo valerio e o alencar. o celso cruz apresentou-o para todos como o bandolinista henrique filho, que o interpelou dizendo que gostava que o chamasse de reco do bandolim, um apelido que ele ganhou no exercito. foi muito bem recebido, todos gostaram dele. e passou a revesar com o cincinato, que as vezes, por motivos profissionais, não frequentavam nossas reuniões. os ritmistas que frequentavam as nossas rodas era o vasconcelos, meu compadre valdecir, eu, e o walcir com o seu afoxê presenteado por mim. depois veio o miudinho que havia tocado zabumba com o luiz gonzaga. e passou a tocar surdo conosco. éramos quatro percussionistas e em pouco tempo ficamos muito entrosados. a primeira apresentação do clube do choro, já com ata lavrada, foi no auditoria da universidade de brasilia. celso cruz era um homem muito respeitado no ambiente educacional, e se encarregou de arranjar locais para apresentações, noemalmente vinculado ao aspecto cultural. apresentavamos preferencialente em auditórios do c olegios e faculdades daqui de brasilia. o celso cruz um dia me chamou em particular e notei logo que ele estava muito emocionado e com os olhos rasos dàgua , foi me dizendo que estava voltando definitivamente para o rio de janeiro, e me incumbiu a mim, ao bide e ao avena de castro, para não deixar o clube perecer. que tínhamos que procurar uma sede definitiva para o clube. a despedida de celso cruz foi muito emocionante, por que estávamos perdendo uma pessoa insubistituivel, pelo espirito de abenegado, e dedicação impar que manteve enquanto presidiu a agremiação. a ultima apresentação do celso cruz como clarinetista do grupo foi no teatro galpãozinho. eu e o bide normalmente terminavamos o show com o “urubu”, mas naquele dia, tinha programado com o eli para fechar o espetáculo com o brasileirinho. fizemos uma performance que eu mesmo imaginei, e foi um sucesso medonho. estava no teatro nada mais e nada menos do que o valdir azevedo e sua esposa dona olinda, que ao ver aquela ovação saiu de sua cadeira subiu no palco proferindo um discurso emocionado, dizendo que naquele momento se considerava como um compositor ralizado.
  • 90. com a ida do professor celso cruz para o rio, nõs ficamos acéfalos, por que ele tinha um espirito de organização e muito prestigio na capital federal, além do mais era um grande orador e que sabia extrair prestígio para todos nós. eu tinha um grande amigo aqui o arquiteto evandro pinto, que nas horas de folga empunhava bem um violão, e por diversas vezes saimos por ai, ele, eu, e o cincinato. eu sempre discutindo a respeito do futuro do clube, até que um dia ele falou para mim: “vou resolver a situação de voces.” ele preparou uma festa na casa dele e levou o então governador elmo cerejo, e de antemão fez uma propaganda antecipada do urubu que eu e o bide fazíamos. o governador ficou emocionado, quando o grupo se apresentou. e fizemos questão de levar uma turma de categoria. e entre um choro e outro,o evandro encontrou a brecha que precisava. e inteligentemente foi dizendo ao governador que nós estavamos a ameaçados de extinguir aquele grupo por que não tinhamos uma sede. ele prontamente cedeu a pista de dança do centro de convenções para nosso sede definitiva. aí depois, tomaram conta do processo de trasnferencia o avena de castro que era o presidente do clube, o walcir e o antonio licio, que cuidaram de organizar toda documentação. o local era um projeto de oscar niemeyer, que precisava sofrer algumas modificações, mas ficamos agradecidos ao governador, por que a partir daí tinhamos um teto para nos abrigar. diante daquele espaço vazio ficamos desesperados, sem nada, sem nenhuma estrutura, ai o avena de castro, tomou a seguinte decisão: vamos entregar isso para o nilo e o pernambuc0, para acharem uma solução. eu conhecia o diretor de patrimonio da aabb, o tarquinio, passei para ele a situação e ele imediatamente me ofereceu 30 mesas com suas respectivas cadeiras, que estavam em um depósito empoeiradas. mas em bom estado de conservação levamos para o clube e providencie um pintor para que desse uma demão de tinta. ojoaqinzinho, sõcio do hotel das nações, nos presenteou com duas mesas de recepçao e uma duzia de cadeiras em bom estado de conservação. havia um problema serio de infiltração de agua, quando chovia alagava tudo. aí, fui atras do vicente que era encarregado de construção do empresário venancio, ele se propos
  • 91. imediatamente a nos ajudar, indo la pessoalmente para comandar as obras, forneceu todo o material necessario para aquela reforma, retirando as infiltrações e consertando as janelas do prédio, que não ofereciam a minima segurança. como agradecimento, demos a ele uma carteira de sócio benemérito. combinamos eu,o valcir e o nilo, eu ficava tomando conta do restaurante, e o valcir do bar. ele logo providenciou quatro garçons. aí, surgiu um novo problema, não tinhamos fogão e nem geladeira. aí abri mão de dois passarinhos de estimação que eu tinha, troquei-os por uma geladeira e um fogão industrial, acompanhado de oito panelas. tivemos uma dificuldade enorme para colocar o fogão dentro da cozinha, foi precisoquebar as peredes para acomodá-lo devidamente. contratei dona maria baiana, uma especialista em sarapatel e carne de sol. no sabado serviamos sarapatel e no domingo carne de sol , feijão de corda e manteiga de garrafa. ainda havia um aperetivo denominado de “bete-bate”, uma formula que eu trouxe do norte, em ia maracuja, mel e cachaça, dois coposera suficiente para derrubar qualquer um, tinha que tomas com conta gotas, por que senão a noite acabava rapido. já estava tudo pronto para a inauguração, publicamos na imprensa a data , porém não tinhamos microfones, tivemos que fazer um show acustico. foi tanta gente que o walcir desesperou com o movimento, e teve resolveu arrumar um freezer para acondicionar mais cervejas. a índia esposa do bide, a dalmira, minha primeira esposa, e a maria, companheira do nilo, todas deram um excelente contribuição. o clube pegou de vez, passou ser um atrativo para os finais de semana em brasilia. ai o avena passou a presidencia para o advogado francisco de assis, o six. mas o clube não foi dirigido de forma profissional, e u me vi sobrecarregado, com a doença da minha esposa tive que afastar. mas, percebi que o clube estava entrando em decadencia financeira. assumiu a presidencia, o henrique filho, que desde então, optou por uma visão empresarial e de mercado, através do prestigio que possui nos órgaõs federais conseguiu excelentes patrocínios. transformou o clube em uma casa de espetáculos
  • 92. onde atuam os melhores artistas da música instrumental do país, não necessariamente de choro, mas de uma qualidade indiscutivel. paralelamente ao clube, funciona a escola de choro rafael rabelo, que tem sido um celeiro de bons intrumentistas. por ela já passaram musicos da estirpe de um hamiltom de holanda e rogério caetano, que foram professores enquanto cursavam faculdade de musica na unversidade de brasilia. não tem como negar que a administração do reco, por mais que eu não concorde com algumas de suas atitudes, foi responsavel pelo sucesso que o clube tem no brasil como todo. isso ninguem pode tirar o mérito dele. sinto muito feliz por ter dado uma pequena contribuição para o sucesso dessa instituição, vejo-o como um filho querido que eu ajudei a crescer. muito daquelas pessoas já não estão entre nós mais. mas, a instituição está ai e cada vez que vou la, em cada objeto que vejo me faz lembrar dos companheros que ajudaram , naqueles tempos dificeis a plantar aquela sementinha, que hoje virou essa arvore frondosa que é orgulho de todos os brasilienses ligados ào meio musical. ........................................................................................................................................ minha ida para minas na minha convicencia no clube do choro fiz muitos amigos, dentre eles o casal gilberto e zaida. com a falecimento de minha primeira esposa, após ter vivido um periodo doloroso da minha existência, conheci a paraibana maria de lurdes que se tornou minha segunda mulher,. permnacemos junto por seis anos, e dessa relaçao nasceu juliana a quem ofereci para gilberto e zaida para batiza-la, tornando então meus compadres.. gilberto estava se aposentando e queria ir para uma cidade pequena em busca de uma melhor qualidade de vida, em razão até de sua origem interiorana. vendou sua propriedade em brasilia e mudou para a cidade de veríssimo no trinagulo mineiro, cidade próxima a uberaba., comprando lá uma chacara e passou me convidar ccom frequencia para ir visita-lo. fui, e gostei muito do lugar. nesse período, meu segundo casamento se desfêz, ai resolvi mudar para uberaba, chegando lá aluguei uma casa no bairro da abadia. em pouco tempo todoas pessoas ligadas à musicas passaram a
  • 93. me visitar. la conheci o nivaldo do violão, biguá do cavaquinho, e pouco tempo estávamos com um conjunto afinadinho, pronto para tocar nas rodas de samba e de choro. conheci lá uma figura interessantíssima, o odontólogo osmar baroni, um baluarte na defesa da musica brasileira no triangulo mineiro, líder do conjunto choro cultura, onde era também pandeirista do grupo. passei a ter uma participação especial nas apresentaçõea do conjunto , fazendo o papel de mestre de cerimônias, onde apresentava o grupo e contava histórias dos músicos que trabalhei e convivi. passei a participar de um programa na televisão com o apresentador luiz gonzaga, ele me entrevistava para queeu contasse a minha convivencia musical no rio de janeiro e em brasilia para os seus expectadores. o choro cultura nessa época contava com os seguintes musicos. osmar baroni no pandeiro, adolfo no bandolim, reinaldo de vito na sete cordas, talinho no cavaquinho, chumbinho no acordeão, álvaro no sax tenor. e o cantor ivan. o baroni me pedia orientações sobre a condução do conjunto, e as vezes dividia o palco ele nas apresentações. voltei para brasilia, ai conheci um garoto muito esperto e fiz amizade com ele, ele apresentou sua mãe que havia ficado viúva há uns tres anos, a minha atual espeosa lidia caldas, que convive há quase há mais de vinte anos comigo, assumi tres dos seus quatro filhos, antonio, bruno, fernada e suely, que sempre me tratam hoje como pai, e eu gosto deles como meus filhos. depois de vender uma casa em brasilia comprei uma chacara e um pequeno sítio em verissimo, sob a orientação do meu compadre gilberto. mas, não deixei de comparecer nas reuniões musicais realizadas em uberaba. as apresentaçoes do choro cultura e as “remandiolas” que havia em todos os finais de semana, no bar da ladeira e depois no surubim. um dia, já morando em veríssimo, apareceu um senhor por nome de joão com um adlescente magro com um cavaquinho debaixo do braço, tocou o “vê se gosta” logo percebi que se tratava de um um jovem com talento excepcional, mas que precisava de uns retoques. e em pouco tempo ele assumiu o lugar do talinho no choro cultura, e logo o trângulo mineiro ficou pequeno para ele, passou a fazer apresentações em
  • 94. toda parte. hoje é conhecido iem todo brasil, trata-se do cavaqunista fausto reis, um dos grandes vistuoses do cavaquinho que temos. receber no bb o collor mandou fechar o bb em verissimo encontrei a prof eraides adelmo leão sabia que eu era filiado no partido dos trabalhadoes passamos reunir na casa da ex vereadora lena tinha um a casa ampla passamos a reunir la eu relações publica e o meu filho antonio fernandes o presidente. a lena como secretaria, muito entusiasmada comecei a contar minha vivencia de esquerda e começou a atrair muita gente para as reuniões eu tinha entrado em verissimo com um alto prestigio me julgava importante para a cidade os fazendeiros reacionarios descobriram as nossas reuniçoes eles reagiram violentamente] comecei a ser ameaçado medo de reforma agraria qualificaram com defensor de baderneiro a primeria ameaça: ou para de agitar, ou então, vamos botar fgo na casa dele, falaram para o compadre gilberto diga a eles que pelo menos dois sobem comigo, ou mais esfriaram um pouco tinha umas vacas no sitio mandaram jogar lixo nos meus pastos para as vacas comerem lixo chamei o addvogado marcos vinicius e ofereci minhas vacas vendi todas eu não vendia leite ,daca para a população carente tinha nove vacas, tirava 60 litros não gosta de esgotar completamntr as vacas
  • 95. molharam os mourões com gazolina e atearam fogo resolvi vender o sitio, minha chacará estava alugada para um protetico daquela cidade, logo a seguir vendi o sitio umamigo meu de coromandel o paulo amaral me ofereceu uma casa em uberaba na rua da abadia no sitoi plantei muitas arvores frutiferas tive que ir na justiça para voltar a minha casa, voltei pra la fizuma completa reforma mandei fazer uma faixa enorme morei perto da delegacia falei com o largento montei o comitê do partido em casa derrubaram o muro ai mandei fazer de alambrado perdemos a eleição eles afrouxaram a perseguição troquei a casa por uma no centro de uberaba, 10 por 20 pedi uma volta seu lito de 20 mil reais, ficou por 10 mil reinaldo, a reforma seria salgar carne podre só foi o fernado para uberaba, sueli voltou para brasilia e bruno para são luis morei em uberaba, participando ativamente do ambiente cultural da quela cidade, onde sou muito considerado. adoeci, comecei a perder peso, descobriram um enorme tumor no figado que por sorte era benigno., fui operado, sulimar, recuperei-me plenamente. COMECEI A FREQUENTAR AS RODAS DE CHORO
  • 96.