1 os cabeças de planilha

5,523
-1

Published on

Originais do livro "Os Cabeças de Planilha"

0 Comments
4 Likes
Statistics
Notes
  • Be the first to comment

No Downloads
Views
Total Views
5,523
On Slideshare
0
From Embeds
0
Number of Embeds
5
Actions
Shares
0
Downloads
207
Comments
0
Likes
4
Embeds 0
No embeds

No notes for slide

1 os cabeças de planilha

  1. 1. OS CABEÇAS DE PLANILHA 1/127 O Plano Real.doc Os Cabeças de PlanilhaPOR LUÍS NASSIF28/08/2006 21:08:09
  2. 2. Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 13 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS CABEÇAS DE PLANILHA 2/127 Deleted: 13OS CABEÇAS DE PLANILHA - ESTRUTURA 5 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 14 Luis Nassif 5/5/11 10:59INTRODUÇÃO 6 Deleted: 17 Luis Nassif 5/5/11 10:59“ENCILHAMENTO” E REAL: OPORTUNIDADES PERDIDAS 9 Deleted: 21 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS PERSONAGENS DA HISTÓRIA 10 Deleted: 18FERRAMENTAS DE PODER 10 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 21 Luis Nassif 5/5/11 10:59“CHUTANDO A PRÓPRIA ESCADA” 14 Deleted: 21 Luis Nassif 5/5/11 10:59O EXEMPLO AMERICANO 14 Deleted: 26O EXEMPLO INGLÊS 15 Luis Nassif 5/5/11 10:59O EXEMPLO DA ARGENTINA 18 Deleted: 24A RECEITA DO CRESCIMENTO 19 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 29OS NOVOS TEMPOS 22 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 29AS REVOLUÇÕES TECNOLÓGICAS 22 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 32A “HAUTE FINANCE” 22AS GRANDES BOLHAS ESPECULATIVAS 25 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 35 Luis Nassif 5/5/11 10:59A SEGUNDA FASE DO DESENVOLVIMENTO: A ABOLIÇÃO 27 Deleted: 38 Luis Nassif 5/5/11 10:59PROJETO DE PAÍS 30 Deleted: 38 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 38O PRIMEIRO ATO DO “ENCILHAMENTO” 31O SEGUNDO ATO DO ENCILHAMENTO 33 Luis Nassif 5/5/11 10:59O TERCEIRO ATO DO ENCILHAMENTO 36 Deleted: 39O QUARTO ATO DO ENCILHAMENTO 39 Luis Nassif 5/5/11 10:59A CRISE FISCAL E O ESMAGAMENTO DOS ESTADOS 40 Deleted: 42OS NEGÓCIOS DE RUI 40 Luis Nassif 5/5/11 10:59INTERESSES DIVERSOS 41 Deleted: 40O JOVEM GUSTAVO FRANCO 41 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 46 Luis Nassif 5/5/11 10:59A REDEMOCRATIZAÇÃO E O PLANO CRUZADO 43 Deleted: 45 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS NOVOS FINANCISTAS 46 Deleted: 46 Luis Nassif 5/5/11 10:59A NOVA ONDA DE GLOBALIZAÇÃO FINANCEIRA 47 Deleted: 46 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 46NIXON 47REAGAN 47 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 50AS REVOLUÇÕES TECNOLÓGICAS 47OS GRANDES MOVIMENTOS ESPECULATIVOS 48 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 47 Luis Nassif 5/5/11 10:59O BRASIL ENTRA NA ERA MODERNA 51 Deleted: 50 Luis Nassif 5/5/11 10:59O PROGRAMA QUE MUDOU O BRASIL 51 Deleted: 52A MICRO-ECONOMIA SE CASA COM A MACRO 53 Luis Nassif 5/5/11 10:59TANCREDO 54 Deleted: 5328/08/2006 21:08:09
  3. 3. Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 54 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS CABEÇAS DE PLANILHA 3/127 Deleted: 54 Luis Nassif 5/5/11 10:59AS IDÉIAS SE IMPÕEM 55 Deleted: 55OS PRIMEIROS MOVIMENTOS 56 Luis Nassif 5/5/11 10:59A SEGUNDA VERTENTE, DA QUALIDADE 57 Deleted: 59AS LIÇÕES DE MICHAEL PORTER 58 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 57COLLOR ENTRA EM CENA 60 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 60MUDANDO DE LUGAR 61 Luis Nassif 5/5/11 10:59O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 62 Deleted: 61ESCANTEIO 63 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 63 Luis Nassif 5/5/11 10:59AS IDÉIAS PRÉ-PLANO REAL 64 Deleted: 62 Luis Nassif 5/5/11 10:59COMO SE CONSOLIDAM HEGEMONIAS 68 Deleted: 67 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS PARAÍSOS FISCAIS E OS DOLEIROS 70 Deleted: 69A TROPICALIZAÇÃO DOS DÉFICITS GÊMEOS 73 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 74 Luis Nassif 5/5/11 10:59O PLANO REAL 76 Deleted: 72 Luis Nassif 5/5/11 10:59DIAGNÓSTICOS 76 Deleted: 74A PRIMEIRA ETAPA DO REAL 77 Luis Nassif 5/5/11 10:59AS REGRAS DE REMONETIZAÇÃO 78 Deleted: 75A APRECIAÇÃO DO REAL 79 Luis Nassif 5/5/11 10:59O FIM DOS SUPERÁVITS COMERCIAIS 81 Deleted: 76A NOVA INSTITUCIONALIDADE 81 Luis Nassif 5/5/11 10:59A GUERRA DE COMPRADOS E VENDIDOS 82 Deleted: 77A IRREVERSIBILIDADE DO MODELO 84 Luis Nassif 5/5/11 10:59O ABANDONO DOS ESTUDOS INICIAIS 85 Deleted: 79A NOVA CLASSE 86 Luis Nassif 5/5/11 10:59D.SEBASTIÃO E A REUNIÃO DE CARAJÁS 87 Deleted: 79LÁGRIMAS DEPOIS 89 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 80AS FERRAMENTAS FINANCEIRAS DOS ANOS 90 90 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 82OS GESTORES DE RECURSOS E A PRIVATIZAÇÃO 94 Luis Nassif 5/5/11 10:59AS INSTITUIÇÕES DA GLOBALIZAÇÃO 95 Deleted: 83AS AGÊNCIAS DE RISCO 96 Luis Nassif 5/5/11 10:59A MANIPULAÇÃO DAS ANÁLISES 99 Deleted: 84A LIÇÃO DE CASA E A TAXA DE RISCO 102 Luis Nassif 5/5/11 10:59A RETÓRICA DOS “JURISTAS” 102 Deleted: 85A FEIJOADA FINANCEIRA 103 Luis Nassif 5/5/11 10:59A LIÇÃO DE CASA E AS EXPECTATIVAS SUCESSIVAS 105 Deleted: 88“EM TODO LUGAR É ASSIM” 105 Luis Nassif 5/5/11 10:59O TODO PELA PARTE 107 Deleted: 87A FALÁCIA DOS “JURISTAS” ERROR! BOOKMARK NOT DEFINED. Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 92CABEÇA DE PLANILHA 109 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 93A PRIORIDADE ÚNICA ERROR! BOOKMARK NOT DEFINED. Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 94 Luis Nassif 5/5/11 10:59O ÚLTIMO VÔO DA GARÇA 110 Deleted: 9628/08/2006 Luis Nassif 5/5/11 10:59 21:08:09 Deleted: 99 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 100 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Luis Nassif 5/5/11 10:59
  4. 4. OS CABEÇAS DE PLANILHA 4/127O FETICHE DO SUPERÁVIT 110 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 111O NOVO BRASIL 113 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 109O NASCIMENTO DO NOVO CICLO 113O NEO-DESENVOLVIMENTISMO EM GESTAÇÃO 113 Luis Nassif 5/5/11 10:59A ERA VARGAS E A PERDA DE RUMO 114 Deleted: 111O POVO BRASILEIRO 115 Luis Nassif 5/5/11 10:59A DIPLOMACIA BRASILEIRA 116 Deleted: 111O PAPEL DA GRANDE EMPRESA 117 Luis Nassif 5/5/11 10:59A INOVAÇÃO COMO PARADIGMA 118 Deleted: 112PESQUISA E DESENVOLVIMENTO 119 Luis Nassif 5/5/11 10:59O INPI E AS PATENTES 120 Deleted: 113O ATIVO SOCIAL DO SUS 121 Luis Nassif 5/5/11 10:59O NOVO PLANEJAMENTO 121 Deleted: 114A INTEGRAÇÃO CONTINENTAL 122 Luis Nassif 5/5/11 10:59O INTERESSE NACIONAL 123 Deleted: 115O PAPEL DO ESTADO NACIONAL 124 Luis Nassif 5/5/11 10:59O VÔO DO FALCÃO 125 Deleted: 116É A POLÍTICA, ESTÚPIDO 126 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 117 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 118 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 118 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 119 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 120 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 121 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 122 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 123 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 12428/08/2006 21:08:09
  5. 5. OS CABEÇAS DE PLANILHA 5/127Os Cabeças de Planilha - EstruturaOs Cabeças de Planilha - EstruturaIntroduçãoAs etapas para o desenvolvimentoA primeira etapa do desenvolvimento: o caféA segunda etapa do desenvolvimento: a AboliçãoSituação internacional: grandes descobertas tecnológicas.Economia interna e monetização.Sistema financeiro internacional e as grandes bolhas especulativas.As mudanças financeiras EncilhamentoAs ferramentas de especulaçãoOs financistas do Encilhamento e o capital externoO governo Campos Salles.Movimento tenentista e a moratória de 1933.A redemocratização e o Plano Cruzado Os novos financistasOs "pirañas" financeiros.O plano Collor e os efeitos sobre a poupança.As primeiras privatizações.A entrada de Marcílio.Os preparativos do plano Real.A tese de Gustavo Franco.O plano RealAs ferramentas financeirasA reforma monetária e o PríncipeOs economistas financistas.O novo Brasil e o RealA inclusão de consumidores.Os saltos da economia.A situação mundial e a grande chance28/8/2006 21:08:09
  6. 6. OS CABEÇAS DE PLANILHA 6/127IntroduçãoIntroduçãoEm alguns momentos, na vida de uma nação, ocorrem terremotos políticos, geo-gráficos, que chacoalham estruturas sociais estratificadas, ampliam o mercado deconsumo e de cidadania e, se bem aproveitados, permitem saltos históricos no de-senvolvimento de um país.A rigor, esse processo ocorreu três vezes no Brasil.O primeiro, no final do século 19. A Abolição e a política de atração de imigrantescriaram a oportunidade para o grande salto de inclusão social e de ampliação domercado de consumo. Não houve políticas sociais de inclusão dos libertos; os imi-grantes não tiveram a posse da terra, demorando anos para acumular poupança erenovar os hábitos empresariais do país. Sem políticas de integração, em vez denovos cidadãos, se criou uma exclusão social que atravessou o século.A segunda grande oportunidade ocorreu no final dos anos 60. O processo de indus-trialização gerou rápida urbanização das cidades. Uma violenta seca no Nordesteprovocou enorme processo migratório. Mais uma vez, políticas de inclusão socialteriam parido uma nova sociedade, uma nova oferta de mão de obra especializada,um novo mercado consumidor. O regime militar nada fez. O resultado foi a deterio-ração dos serviços públicos e a criação das megalópoles, onde hoje em dia se con-centra a maior parte da miséria nacional. Depois, o esgotamento do “milagre” sedeu pela falta de um mercado interno vigoroso.Com o plano Real, teve-se a maior chance da história, maior que o pós-Abolição,maior que nos anos 70. As conquistas tecnológicas das últimas décadas esparrama-ram-se por todos os setores. O avanço da logística e das comunicações implodiu acadeia produtiva convencional das multinacionais. Elas passaram a distribuir suasfábricas pelo mundo e o Brasil seria o porto natural para os investimentos na Amé-rica do Sul.O fim da inflação, por sua vez, permitiu que milhões de brasileiros emergissem danoite para o dia para o mercado de consumo de forma indolor, sem movimentosmigratórios traumáticos, sem crises políticas desorganizadoras.A explosão de consumo dos meses iniciais do Real atraiu os olhos do mundo. Nofinal de 1994, havia projeções portentosas de crescimento da produção de bens deconsumo duráveis e não duráveis, atraindo a atenção das maiores empresas doplaneta.Por volta de 1994 fui entrevistado pela equipe de uma televisão finlandesa que pre-parava um especial sobre o Brasil. Estranhei o interesse de um país aparentementetão afastado do Brasil quanto a Finlândia. A resposta do jornalista foi que o Brasilera a bola da vez. “Vocês, a China, a Rússia e a Índia”. O conceito do BRICs come-çava a se consolidar.Dez anos depois visitei a China. O que assisti em Xangai e Pequim foi inesquecível,o parto de uma potência. Esses dez anos haviam sido fundamentais para moldar ofuturo da China. A lógica foi preparar uma espécie de projeto piloto de mercado,um mercado consumidor de 60 milhões de pessoas que serviam de chamariz inicialpara o capital internacional. E 1,2 bilhão de excluídos como mercado potencial. Àmedida que os investimentos iam sendo realizados, integravam-se mais chinesesao mercado de consumo, criando mais atrativos para novos investimentos.No Brasil, o sonho acabou em abril de 1995. Um profundo desequilíbrio nas contasexternas, intencionalmente provocado pela equipe do plano Real, impediu o país decontinuar crescendo. Com as contas externas em frangalhos, o Banco Central preci-sou aumentar as taxas de juros de forma explosiva. Houve um cavalo-de-pau naeconomia. Seguiu-se enorme processo de quebradeira do setor público e privado, ede crescimento exponencial da dívida pública.28/8/2006 21:08:09
  7. 7. OS CABEÇAS DE PLANILHA 7/127O país foi dividido em dois: o país dos dólares – que enriqueceu rapidamente apli-cando em títulos públicos – e o país do Real -- que foi sufocado, sem acesso a cré-dito, sem condições de rolar seus passivos, pagando cada vez mais impostos paragarantir a remuneração dos rentistas.Todos os alertas foram feitos já em 1994, mais ainda em 1995. Mas até 1999 semanteve intocada a política cambial. Depois, pelo segundo mandato de FernandoHenrique Cardoso e pelo primeiro mandato de Lula, o BC continuou aplicando asmais altas taxas de juros do planeta.Mês após mês houve um refluxo do mercado, com os novos cidadãos voltando denovo para o limbo, para a zona cinzenta do baixo consumo e da baixa cidadania.Ano após ano o foi sendo queimada a oportunidade histórica de dar um salto no seuprocesso de desenvolvimento. Da mesma maneira que no início da República, coma política econômica implementada por Rui Barbosa que resultou no episódio co-nhecido como o “Encilhamento” – pesado jogo especulativo, primeiro com ações,depois com câmbio, que matou por quatro décadas as oportunidades de crescimen-to da economia brasileira.A vida de um país é formada por janelas de oportunidades. Elas permitem saltos,avanços, que, depois, vão sendo consolidados ano a ano, até o próximo salto, apróxima janela de oportunidades.São esses momentos que colocam à prova a racionalidade das elites. A passagempara um novo paradigma exige a superação dos esquemas de poder tradicionais,exige discernimento na implantação dos novos centros de poder, para evitar que osnovos privilegiados imponham seus interesses sobre os interesses maiores de país.Se a acumulação de riqueza do período é canalizada para investimentos produtivos,o país se desenvolve; patina se fica rodando em falso, nos investimentos meramen-te especulativos.O que leva um governo, uma equipe de economistas presumivelmente preparados,a cometer erros bisonhos, facilmente detectáveis por seus contemporâneos, comofoi o caso da apreciação do Real em 1994, ou da remonetização selvagem de RuiBarbosa em 1890? O que os leva a ignorar todos os alertas?A intenção desse trabalho é demonstrar as incríveis semelhanças entre os doismomentos cruciais, talvez as duas maiores janelas de oportunidade que o país jáexperimentou: a reforma monetária de Rui Barbosa, no alvorecer da República, e oPlano Real, no final do século 20.1. Ambos os momentos foram precedidos por intensas mudanças tecnológicas nospaíses centrais que, depois de maduras, passam a buscar os países periféricos. Noséculo 19, as ferrovias, a iluminação a gás e outros avanços ligadas ao processo deurbanização que marcou o período. No século 20, a Internet, as telecomunicações,os novos aparelhos eletrônicos,a computação.2. Essas descobertas criam a oportunidade para grandes movimentos especulati-vos, que induzem o sistema financeiro internacional à criação de novas ferramentasfinanceiras de captação de poupança. A especulação se dá pelo fato de que, sabe-se que as novas invenções serão dominantes no novo mundo, mas não se consegueavaliar as vitoriosas e qual o prazo de consolidação e o ritmo de crescimento delas.Essa incerteza abre espaço para os grandes movimentos especulativos. No século19, foram conhecidas as bolhas em torno de ferrovias, navegação a vapor e outrosempreendimentos; no século 20, em torno da Internet, das telecomunicações.3. Nas duas épocas há uma aceleração dos fluxos de capitais no mundo. À medidaque os movimentos especulativos crescem, bolhas são criadas, explodem, outrassurgem. Quando os ciclos tecnológicos amadurecem nos países centrais, o grandecapital volta os olhos para as economias emergentes. Passa a interferir no próprioprocesso político desses países, em busca do melhor ambiente para o grande capi-tal, que é o da pax universal. Em meados do século 19 esse movimento é iniciado28/8/2006 21:08:09
  8. 8. OS CABEÇAS DE PLANILHA 8/127pelos Rotschilds de Londres, comandando a Pax Britânica; no século 20 o movimen-to começa com a desvinculação do dólar do ouro, no governo Nixon, em 1972, ace-lera-se com o fim da União Soviética, e é comandado basicamente pelo Citibank,seguido dos grandes bancos de investimento norte-americanos.4. Para que esse movimento seja maximizado, há a criação de uma ideologia dedefesa do livre fluxo de capitais, da interferência política nos países periféricos (pa-ra impedir a eclosão de guerra ou o não cumprimento de contratos), da cooptaçãode quadros técnicos, políticos e econômicos, como associados menores desse capi-tal. Esses quadros técnicos atuam especialmente em duas frentes: na regulamenta-ção da economia e na garantia de livre fluxo cambial.5. Tem-se uma paz duradoura no período, comandada pelo grande capital. A utopiafascina. Imagina-se que, à medida que os países centrais vão se desenvolvendo, oscustos vão se tornando elevados, e o capital transbordaria para países periféricosuniversalizando o desenvolvimento. Bastaria, portanto, um ambiente favorável aocapital financeiro, livre circulação de capitais, que o desenvolvimento viria por si só.Em meados do século 19, a teoria em voga era a das vantagens comparativas. Ca-da país deveria se fixar naquilo que deveria ser sua vocação histórica – um princí-pio que condenava os produtores de matérias primas a se manterem assim até ofinal dos tempos.No final do século 20, vingou a teoria do capital externo como provedor de poupan-ça para os países emergentes. Bastaria criar as condições adequadas à sua atração,que o desenvolvimento se produziria automaticamente.Em ambas as ocasiões os emergentes que seguiram o receituário clássico torna-ram-se reféns de crises cambiais freqüentes. No final do século 19 representadapela quebra do Banco Bahrings, que provocou uma forte crise cambial na Argenti-na, rebatendo imediatamente no Brasil. No final do século 20, com o Brasil afetadosucessivamente pelas crises do México, Ásia, Rússia até explodir o modelo cambialno início de 1999.6. Em ambos os períodos, há a ampliação do processo de industrialização. No sécu-lo 19, com o capital inglês transbordando e permitindo a industrialização tanto dosEUA quanto da Europa. No final do século 20 com a implosão da cadeia produtivadas grandes multinacionais, em um movimento de implantação de grandes unida-des em alguns países-chave, particularmente nos BRICs (Brasil, Rússia, Índia eChina).Mas, curiosamente, só crescem os países que não seguem as regras preconizadaspelas grandes potências. Quem se abre para o livre fluxo de capitais e de comércio,não consegue se desenvolver. Nos dois momentos já havia um conhecimento sis-tematizado sobre os passos dados por países que lograram alcançar o desenvolvi-mento. Mas esse conhecimento é sufocado pela atoarda ideológica dos que defendi-am o livre fluxo de capitais.7. Em ambos os momentos, o Brasil perde o bonde. No final do século 19 com oepisódio conhecido como o “Encilhamento”; no final do século 20, com a apreciaçãodo Real. Houve uma mesma lógica explicando os dois episódios e, em ambos osmomentos, crises cambiais que ajudam a precipitar o desastre.Nos dois episódios, o processo-chave a ser desvendado é o da “remonetização” daeconomia. Isto é, o processo de injeção de moeda na economia de forma maciça,processo de reforma monetária que se repete poucas vezes na história e que confe-re a seus formuladores poderes discricionários. Se utilizados com sabedoria e patri-otismo, mudam a face dos países; se se deixam prevalecer os interesses individu-ais, matam por gerações as chances de desenvolvimento.É isso o que procuraremos sintetizar no próximo capítulo.28/8/2006 21:08:09
  9. 9. OS CABEÇAS DE PLANILHA 9/127“Encilhamento” e Real: oportunidades perdidas“Encilhamento” e Real: oportunidades perdidasNo século 19 o fechamento econômico havia produzido, no Brasil, uma classe agrá-ria anacrônica; no final do século 20, uma classe industrial mal acostumada. Comesse movimento de abertura, com a economia mundial mergulhando em processosagudos de liberalização financeira, surge uma nova classe, internacionalizada, do-minando as últimas ferramentas financeiras. São os “financistas”, no século 19 re-presentada pelo Barão de Mauá, Conselheiro Mayrink, Conde de Figueiredo, Condede Leopoldina; no final do século 20, pelos bancos de investimento que surgem nosanos 80, como o PEBB, Garantia, Icatú, Pactual.Nos dois momentos, havia uma economia nacional que começava a se integrar aomundo, grande liquidez internacional, uma situação excepcional na economia mun-dial, e um paradoxo brasileiro: um enorme potencial a ser explorado no mercadointerno e uma poupança acumulada no período anterior, empoçada ou meramentepreocupada com ganhos especulativos por falta de um ambiente de negócios favo-rável.Externamente, havia um volume expressivo de capitais brasileiros no exterior --uma mistura de sub-faturamento das exportações, corrupção política, crime organi-zado e caixa dois—que florescia sob os ventos dos novos mecanismos financeiroscriados para alavancar as novas modalidades de negócios. No século 19, a poupan-ça liberada pela Lei Eusébio de Queiroz, que proibiu o tráfico negreiro; no século20, os enormes ganhos especulativos proporcionados pela inflação dos anos 80.Nos dois momentos, há uma confluência inédita de fatores, abrindo a possibilidadede notável expansão no mercado de consumo. No século passado com a Abolição ea política de importação de imigrantes cria-se um novo mercado interno com enor-me potencial. No final do século 20 com os milhões de brasileiros que ingressam nomercado de consumo nos primeiros meses do Real, abre-se a possibilidade de umenorme salto no mercado consumidor.Por outro lado, o crescimento dos países centrais provoca o transbordamento decapitais produtivos para países que privilegiam o mercado interno. No século 19,capitais ingleses ajudam na industrialização dos Estados Unidos; no século 20, capi-tais americanos se voltam para a Ásia e para a China.Em ambos os momentos, no Brasil, há a necessidade de uma remonetização da e-conomia, isto é, de uma política de aumento das emissões monetárias para atenderàs novas demandas da economia: no final do século 19, devido à mudança nas re-lações do campo, com a substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado;no Plano Real, com o fim da inflação e a substituição de uma moeda inflacionada (ocruzeiro) por uma nova moeda, o real.A nova etapa de desenvolvimento depende de movimentos prévios bem sucedidos.O primeiro, da criação de um ambiente favorável à realocação da poupança internae do investimento externo. O sucesso desse movimento depende de dois fatores:uma nova regulação, que prepare a economia para as novas formas de negócio in-ternacionais; e uma remonetização adequada, que canalize a poupança para a ati-vidade produtiva.Só que o controle sobre a remonetização confere um poder inédito aos seus condu-tores. Nos dois momentos – no “Encilhamento” e no Plano Real --, os interessesindividuais se sobrepuseram aos interesses de país. Em lugar do salto de cresci-mento, houve concentração de renda, rentismo desbragado, aumento geométricoda dívida pública e estagnação da economia.Essa é a chave para se entender os dois momentos: a remonetização, o poder con-ferido às autoridades econômicas e políticas para definir de que maneira o novo di-nheiro fluirá para a economia. É aí que se dá o pacto de poder e de dinheiro entre28/8/2006 21:08:09
  10. 10. OS CABEÇAS DE PLANILHA 10/127os novos grupos hegemônicos, os condutores da política econômica, o poder finan-ceiro e o poder político.Nos dois momentos os personagens são os mesmos. Mudam apenas os atores.Os personagens da históriaRentista – é o personagem passivo (ou não) da história. É o detentor do grandecapital nacional, que vai atrás de rentabilidade para ele. No século 19 eram ex-traficantes de escravos, comerciantes que enriqueceram com exportação de café oude algodão, políticos ou advogados com influência nas políticas públicas. Mantinhamseus recursos entesourados no país; os mais sofisticados, aplicavam na praça lon-drina. Nos anos 90, especuladores que enriqueceram na década de 80, com osgrandes movimentos agressivos do mercado de capitais e da dívida pública brasilei-ra, políticos ou funcionários públicos que enriqueceram com grandes golpes permi-tidos pelo processo inflacionário; empresários que venderam suas empresas e re-solveram viver de rendas. No final dos anos 80 há início um processo de internacio-nalização dessa poupança, com os recursos sendo depositados inicialmente embancos suíços e, depois, em paraísos fiscais preferencialmente do Caribe.Financista – são os donos de bancos de investimento que atuam para o grandecapital rentista, têm contato com o grande capital internacional, e aprenderam asnovas formas de engenharia financeira. No final do século 19 os nomes mais ilus-tres são o Conde de Figueiredo, o Conselheiro Mayrink, o Conde de Leopoldina. Nosanos 80, um conjunto amplo de corretoras que se transformam em bancos de in-vestimento. Dentre eles, os mais destacados são o PEBB, Garantia, Pactual, Icatu,Bozzano Simonsen. Nos anos 90 entram em cena o Opportunity, o Matrix, o BBA.Político – tem papel fundamental para definir o ambiente regulatório adequado aofinancista e ao rentista. Depende do rentista como financiador de eleições; do eco-nomista como formulador das bandeiras de campanha. No alvorecer da Republica,ante a alienação do Marechal Deodoro, a figura-chave é o primeiro Ministro da Fa-zenda republicano, Rui Barbosa. No Plano Real, ante a alienação de Itamar Franco,o Ministro da Fazenda e depois presidente Fernando Henrique Cardoso dá as cartas.Economista – o formulador de política econômica. É o peão, o sujeito que faz omeio campo entre os interesses dos financistas e dos políticos. Em geral, estudoufora ou tem conhecimento das últimas teorias econômicas, e das últimas práticasregulatórias. O conhecimento que traz de fora, em linha com o último pensamentoeconômico, ou com a ideologia dominante, fornece o discurso de que carece o polí-tico para se legitimar perante a opinião pública. Seu conhecimento técnico definiráo modelo regulatório ou de monetização que atenda aos interesses dos financistas edos rentistas. Ele cumpre seu papel no governo e se torna sócio menor dos finan-cistas. Foi o caso de Rui Barbosa, no “Encilhamento” e de praticamente todos oseconomistas que ajudaram na formulação do Plano Real.A “haute finance”—designação do economista Polanyi para o grande capital fi-nanceiro que começa a se organizar em meados do século 19, no primeiro grandeciclo de liberalização financeira e passa a intervir decididamente na vida das na-ções, visando criar o ambiente adequado para os negócios. Na primeira etapa, nofinal do século 19 o predomínio era dos bancos ingleses, capitaneados pelos Rots-child; na segunda, no final do século 20, da banca norte-americana, lierada peloCitibank.Ferramentas de poderHavia três ferramentas poderosas das quais se valeram os economistas brasileirospara exercer o poder e abrir caminho rumo à fortuna pessoal: a remonetização,permitindo a acumulação de renda nas mãos do grande capital, a regulação daeconomia, criando o espaço favorável para o desenvolvimento do grande capital, e28/8/2006 21:08:09
  11. 11. OS CABEÇAS DE PLANILHA 11/127a administração da dívida pública, como o grande lócus onde iria ocorrer atransferência de renda dos demais setores da economia para o capital rentista.No governo Deodoro, o movimento se dá em torno das grandes concessões ferrovi-árias, de serviços públicos ou de terras para colonização. No governo FHC, na pri-vatização e no crescimento descontrolado da dívida pública.Rui Barbosa viu na reforma monetária a possibilidade de beneficiar grupos específi-cos --e de ser beneficiado por eles. Beneficiou especialmente o Conselheiro Francis-co de Paula Mayrink e saiu do governo sócio de três mpresas dele.Do lado dos economistas do Plano Real, o processo foi semelhante. Eles surgem nobojo do Plano Cruzado, voltam com o Plano Real e implementam a troca de moe-das. Deparam-se, nesse trabalho, com o negócio do século: a reciclagem da pou-pança brasileira que, desde meados dos anos 80, se internacionalizara.Esses momentos permitem redesenhar o futuro não só econômico como político dospaíses. Defina-se por onde circulará o novo dinheiro e se definirá quem serão osnovos vitoriosos da economia.Se se decidisse remonetarizar pela não rolagem da dívida pública, por exemplo, ha-veria uma esplêndida redução do endividamento – que já havia sido bastante redu-zido pelo bloqueio de cruzados do Plano Collor.Decidiu-se pela remonetização através da captação externa de dólares, que aquieram adquiridos pelo Banco Central através da emissão de reais.Em todo processo de estabilização usando como âncora o câmbio, há a preocupa-ção em criar uma gordura, uma desvalorização cambial inicial que propicie fôlegopara a estabilização. Depois do início do plano, o câmbio tem que permanecer está-vel para sinalizar para a nova estrutura de preços, e permitir a importação de pro-dutos sujeitos a altas especulativas. Por isso a gordura inicial é essencial.A cada dia que passa, há uma inflação interna não inteiramente domada, que é re-passada para os preços dos produtos exportados. Sem possibilidade de compensarcom o câmbio, ocorre um encarecimento dos produtos internos vis-a-vis os produ-tos externos. Há uma redução das exportações, um aumento das importações, coma perspectiva de um estrangulamento cambial a médio prazo. Daí a necessidade dese criar uma gordura inicial no câmbio, para permitir uma folga que suporte o perí-odo de transição da estabilização.Com o Plano Real, em vez dessa precaução, tratou-se de apreciar o Real em 15%da noite para o dia. Não se tratava apenas de criar um garantia extra, ainda queexagerada contra a inflação. Sem oficialmente consultar ninguém da equipe, a e- Luis Nassif 18/7/06 23:31xemplo de Rui Barbosa quando anunciou os beneficiários de sua política monetária, Comment: Conferir dadoGustavo Franco tomou a decisão solitária de apreciar o câmbio em níveis irreais. Oúnico aplauso foi de Mário Henrique Simonsen, guru maior do grupo, e membro doConselho Internacional do Citibank.Em seguida, especialmente Edmar Bacha e Gustavo Franco, passaram a difundir anecessidade de criação de déficits em contas correntes, que permitisse atrair pou-pança externa, que ajudaria a complementar a poupança interna e a pavimentar ocaminho do crescimento. Tratava-se de um princípio econômico falso (cujos funda-mentos discutiremos mais adiante), mas que serviu de álibi para a apreciação cam-bial.No início do plano Real a balança comercial exibia um superávit anual de US$ 14bilhões. No segundo semestre de 1994, todas as imprudências foram cometidas pa-ra reverter esse quadro. Além da apreciação cambial, derrubaram-se tarifas de im-portação, facilitou-se até a importação pelo correio.Para que o modelo de remonetização via ingresso de capitais externos fosse bemsucedido, isto é, para que criasse uma nova elite financeira e política, havia a ne-28/8/2006 21:08:09
  12. 12. OS CABEÇAS DE PLANILHA 12/127cessidade de transformar o dólar em ativo escasso. Quanto mais escasso o dólar,maior a taxa de juros para atraí-lo.No final do ano, as contas externas estavam desequilibradas e tinha se alcançado oobjetivo de tornar o dólar um ativo raro, pelo qual o Tesouro chegou a pagar 45%ao ano.Quem dominava o circuito de captação de dólares passou a deter o poder. Quemnão dominava, quebrou. Com o golpe da apreciação, em poucos meses criou-seuma enorme dependência de dólares. Com essa manobra simples, aparentementeasséptica, estava definido o jogo, sem expor o flanco ao inimigo, como com RuiBarbosa, quando escolheu nominalmente os vencedores do jogo da remonetização.Quem comandou o movimento de atração de dólares foram os novos bancos de in-vestimento. A maior parte dos recursos externos captados era do grande capitalbrasileiro exportado nos anos anteriores. Em menos de um ano, a crise de inadim-plência quebrou a espinha dorsal da indústria e da agricultura.Em vez de esterilização da dívida pública, houve crescimento exponencial para re-munerar os fluxos de capitais externos. Foi nesse ambiente da dívida pública que seprocessa a maior transferência de renda da história.No Encilhamento e no Real houve especulação enriquecimento de poucos, concen-tração de renda e – pior – mataram-se as duas maiores janelas de oportunidadeque a história do país registrou.Politicamente, o processo tem um discurso legitimador, não explicitado, uma espé-cie de código tácito entre seus operadores. O país tem uma classe empresarial ana-crônica, um operariado despreparado, não tem quadros tecnológicos disponíveis?Simples, escolhe-se uma classe internacionalizada – os financistas – com experiên-cia em novos modelos de negócios, acesso ao grande capital interno-exportado einternacional, e lhes entregue as ferramentas para se transformar nos agentes demodernização. Na interpretação de San Tiago Dantas, Rui Barbosa teria tentado“libertar forças novas que substituíssem a estrutura agrária e feudal do Império”.Com o tempo, os interesses particulares se sobrepõem ao geral. Cria-se um proces-so econômico torto, adaptado aos interesses de grupos, supondo-se que o novomodelo colocará a economia em um círculo virtuoso, capaz de corrigir sozinha asconcessões iniciais. Depois, o projeto vai se entortando mais e mais, a sobrevivên-cia dos beneficiários passa a exigir novas gambiarras, que acabam por entortarmais o que torto está. Novos grupos de interesse se solidificam rapidamente sobreos alicerces tortos do modelo inicial.Os pontos centrais do fracasso são comuns a todos esses movimentos especulati-vos. Primeiro, o deslumbramento com a riqueza fácil, criando uma espécie de lassi-dão moral nos economistas, que passaram a subordinar todas as decisões de políti-ca econômica aos interesses imediatos do capital rentista.As demonstrações de novo-richismo no período não ficam atrás do ambiente descri-to pelo Visconde de Taunay em seu romance “O Encilhamento”. Todos da classemédia, alguns ex-funcionários públicos, um se torna piloto de corrida e criador decavalos, outro convida para degustação de vinhos em sua casa, através de colunassociais, todos, em algum momento, tornam-se sócios de bancos de investimento,seguindo o exemplo de Rui Barbosa.O segundo ponto, conseqüência do primeiro, foi a escolha dos financistas que co-mandaram o processo. Com os interesses pessoais se sobrepondo aos nacionais,levou quem se articulou melhor.O terceiro, a falta de um estadista para corrigir o errado. Não há como construiruma nação sem uma profunda profissão de pé nos seus habitantes, e sem raciona-lidade.. Napoleão e Caixas dormiam com seus soldados, Franklin Roosevelt celebra-va a força do americano comum. FHC nunca ocultou seu deslumbramento com ossalões e seu desprezo com sua missão de “comandar o atraso”. Esse temperamento28/8/2006 21:08:09
  13. 13. OS CABEÇAS DE PLANILHA 13/127explica a falta de vontade em corrigir as distorções e o fato do desenvolvimento in-terno jamais ter se tornado prioridade em seu governo.28/8/2006 21:08:09
  14. 14. OS CABEÇAS DE PLANILHA 14/127“Chutando a própria escada”“Chutando a própria escada”O exemplo americanoNo final do século 19, já havia uma consciência nacional sobre os modelos de de-senvolvimento bem sucedidos no mundo. Manoel Bonfim, o grande médico-psicólogo-historiador sergipano, autor do fundamental “América Latina, Males deOrigem” mostrava um claro diagnóstico sobre o processo de desenvolvimento dosEstados Unidos, Japão e Argentina.Em meados do século 19, o economista alemão Friedrich List havia escrito uma o-bra seminal, identificando o processo de desenvolvimento das nações, do momentoem que são constituídas ao momento em que se tornam hegemônicas, ou que seperdem pelo caminho.O grande exemplo da elite brasileira eram os Estados Unidos, embora a influênciabritânica persistisse até a década de 1930. De lá vinham as modas do mercado decapitais, da legislação tributária, o exemplo da independência. Havia um movimen-to irresistível de aproximação com os EUA, até como reação à influência britânica.Em 1792, o Secretário do Tesouro norte-americano, Hamilton, apresentou o “Re-port of Manufactures”, onde propunha a defesa das manufaturas norte-americanas,em reação ao protecionismo que havia na Europa.As tarifas iniciais foram insuficientes. Além disso, havia latente o conflito norte-sul.O norte, industrializado, demandava proteção; o sul, consumidor, reclamava do en-carecimento dos produtos. Mas em 1808, com a guerra explodindo, o comércio coma Europa foi interrompido. Em um ano o número de indústrias têxteis saltou de 8para 31 mil. Embora ainda tímida, a defesa tarifária logrou estimular a manufaturainterna.Com seu pragmatismo, os EUA queriam segurança, que as manufaturas viessem seinstalar perto dos agricultores, para prevenir o desabastecimento em caso de guer-ra.A discussão estava acesa quando, em 30 de julho de 1827, durante a ConvençãoNacional dos Protecionistas de Harrisburg, surge a voz poderosa de Friedrich List(1789-1846), economista alemão exilado de seu país por causa de suas idéias, quecontrariavam o pensamento dominante de Adam Smith e Ricardo, com sua teoriadas vantagens comparativas. Pela teoria, cada país deveria se fixar nos produtosem que pudesse obter vantagens claras. Dessas especializações sucessivas se teriaum mundo cosmopolita, integrado e mais eficiente.Adam Smith e J.B.Say diziam que, da mesma forma que a Polônia, os Estados Uni-dos estavam destinados à agricultura, aproveitando o que natureza lhe oferecera.List se insurgia contra esses conceitos. Na Alemanha, sua atuação foi decisiva paraa criação da união aduaneira dos estados alemães, início do futuro grande impérioalemão, e também para seu exílio, por seu estilo contundente de polemizar.Nos EUA, seu papel foi fundamental para consolidar os princípios defendidos porHamilton, conferindo-lhe consistência técnica. Publicou doze cartas no PhiladelphiaNational Journal, muitos anos depois, em 1841, juntadas no livro “Sistema Nacionalde Economia Política”.Pela primeira vez, eram sistematizadas experiências nacionais de desenvolvimentoe se rompia com um pensamento dogmático e esquematizante que se seguiu aolivro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith. A essa altura, Adam Smith, Quesnaise Ricardo iniciavam a construção da economia, como ciência. Os valores do livrecomércio eram cantados com ênfase, trazendo o ideal da universalização dos negó-cios e das nações.28/8/2006 21:08:09
  15. 15. OS CABEÇAS DE PLANILHA 15/127List partia da análise da realidade, das experiências históricas, para lançar as basesda nova Economia Política. No prefácio à primeira edição, descrevia a maneira comodesenvolveu sua metodologia. Ainda estavam vivos em sua memória os ganhos queFrança e Inglaterra haviam obtido com o livre comércio, a primeira abolindo as tari-fas alfandegárias internas, a segunda unificando três reinos na Grã-Bretanha. Por-que com outros países não ocorria esse ganho?O “insight” de List foi o de que os princípios de livre comércio de Adam Smith fun-cionavam maravilhosamente bem, mas só na hipótese de que todas as nações ob-servassem entre si os princípios de livre comércio em igualdade de condições.Para List, a teoria econômica levava em consideração apenas a humanidade comoum todo e os indivíduos. Mas entre o indivíduo e a humanidade havia as nações.Em um ponto qualquer do futuro, a humanidade chegaria na situação de que todasas nações convergiriam para uma única federação. Mas, enquanto esse ponto nãoavançasse, não se poderia considerar o livre comércio como uma saída – especial-mente para as nações mais fracas.O livre comércio entre duas nações civilizadas só poderia ser mutuamente benéficose ambas estivessem em um mesmo patamar de desenvolvimento industrial. Qual-quer nação que estivesse atrasada em relação a outra, do ponto de vista industrial,comercial e naval, mesmo possuindo meios materiais e humanos para se desenvol-ver, deveria, antes, aparelhar-se para entrar na livre concorrência com nações maisdesenvolvidas.Em 1840 List previa que em breve os EUA se tornariam o maior país do mundo. Arazão, segundo ele, é que, dotada de espírito pragmático, a elite norte-americananão se conformara com a teoria das vantagens comparativas.Se os EUA fossem seguir os ensinamentos de Adam Smith e apostar apenas em su-as vantagens agrícolas, dizia List, a população norte-americana teria se espalhadopor todo o país, se diluído, sem a menor possibilidade de se formar um mercadointerno forte, capaz de alavancar a industrialização.Ao contrário, com a Lei dos Têxteis, de Hamilton, os EUA passaram a proteger suaindústria nascente, a concentrar a população na costa Atlântica e a gerar massacrítica para iniciar a industrialização. Depois, uma política inteligente de distribuiçãode lotes a imigrantes ajudou na consolidação da moderna agricultura norte-americana, superando o modelo agrícola anacrônico do sul.Simultaneamente, grandes ferrovias passaram a integrar todo o país, permitindo aligação do Atlântico com o Pacífico, fugindo do controle severo que a Inglaterra e-xercia sobre o comércio marítimo do Atlântico. No final do século 19, os EUA jádespontavam como grande potência mundial, e era modelo para muitos brasileiroslúcidos, como o próprio Manoel Bonfim.O exemplo inglêsA estratégia inglesa servia de comprovação para as teses de List. A Inglaterra tor-nou-se a maior potência da época por ter evitado o erro de abrir seu mercado antesda hora. No início, a base de sua economia era vender lã de ovelhas em estadobruto para a Bélgica, onde eram tingidos e trabalhados. Sob o reinado de Carlos I eJaime I houve proteção à produção inglesa. Em breve, a indústria têxtil se consoli-dou, a Inglaterra passou a exportar tecidos finos, de valor agregado, e a importarpouquíssimo.Até Jaime I, as exportações de manufaturados de lã respondiam por 9/10 das ex-portações inglesas. Com a proteção à sua indústria, a Inglaterra conseguiu expulsaras exportações da Liga Hanseática para a Rússia, Suécia, Noruega e Dinamarca.Conseguiu lucros enormes no comércio com Orienta e as Índias Orientais e Ociden-tais. A indústria da lã estimulou a mineração do carvão que, por sua vez, deu ori-28/8/2006 21:08:09
  16. 16. OS CABEÇAS DE PLANILHA 16/127gem ao extenso comércio pesqueiro e à pesca, os dois últimos servindo de base àmontagem do poderia naval britânico, consolidado nas Leis de Navegação. Duramente criticadas por Adam Smith, as Leis de Nanegação davam exclusividadepara os navios ingleses no transporte de carvão e todo transporte comercial marí-timo.Outros setores de manufaturas foram protegidos. No reinado de Isabel, foram proi-bidas importações de artigos de metal e de couro, e foi incentivada a migração demineiros alemães e trabalhadores em metal (List, 33). Também proibiu a constru-ção de navios fora do pais e estimulou a vinda de trabalhadores especializados.Para concorrer com a pesca de arenque dos holandeses e com a pesca da baleiados moradores de Biscaia, Jaime I chegou a exortar os ingleses a aumentar o con-sumo de peixe. Finalmente, artesões protestantes expulsos da Bélgica e da Françaforam acolhidos pela Inglaterra e, em troca, lhe deram a excelência na manufaturade lã fina, na fabricação de chapéus, linho, vidro, papel, seda, relógios de parede ede pulso, manufatura metalúrgica.Em cada país europeu a Inglaterra foi buscar o que tinha de melhor. Depois, im-plantou sua própria manufatura, à custa de proteção alfandegária e estímulos dediversas naturezas. O aumento da marinha mercante permitiu a construção de umamarinha de guerra que ajudou a derrotar os holandeses.As conseqüências maiores das Leis de Navegação foram as seguintes (List, 34):1. A expansão do comércio inglês com todos os reinos nórdicos, Alemanha e Bélgi-ca, comércio do qual os ingleses haviam quase totalmente sido excluídos pelos ho-landeses até 1603. A lógica implacável dos ingleses era a de importar matériasprimas e exportar manufaturados.2. Expansão incalculável do comércio de contrabando com a Espanha e Portugal, ecom suas colônias das Índias Ocidentais.3. Aumento substancial da pesca de arenque e da baleia, atividades antes quasecompletamente monopolizadas pela Holanda.4. Conquista da mais importante colônia inglesa nas Índias Ocidentais, a Jamaica,em 1655, permitindo o controle sobre o comércio açucareiro na região.5. Conclusão do Tratado de Methuen (em 1703) com Portugal, que assegurou umavantagem inquestionável para a Inglaterra.List chamava particularmente a atenção para a maneira habilidosa como os inglesescasaram seus interesses em Portugal e na Índia. E produziu uma obra prima de sín-tese, mostrando as peças em jogo no Tratado de Methuen. Primeiro, a maneira co-mo a Inglaterra atuou em cima das condições dadas. Segundo, o que teria ocorridose tivesse seguido os ensinamentos de Adam Smith e Ricardo.Desde 1721, na abertura do Parlamento daquele ano, o rei Jorge I havia explicitadoa estratégia inglesa: “É evidente que nada contribui tanto para o bem-estar públicoquanto a exportação de produtos manufaturados e a importação de matéria-primado estrangeiro”. Mais do que uma teoria vaga, a Inglaterra montou sua estratégiaem cima desse princípio vital.Havia quatro blocos de países em jogo.A Inglaterra, com sua manufatura em expansão e o domínio do comércio do Atlân-tico, com as Índias Orientais e Ocidentais.Portugal tinha metais que interessavam a Inglaterra, e uma indústria de vinhos.A Índia tinha uma indústria têxtil poderosa, mais articulada que a inglesa, e outrasmanufaturas desenvolvidas. Mas tinha carência de ouro.A Inglaterra não queria importar manufaturas indianas, por serem mais competiti-vas que as suas. Mas havia demanda por produtos indianos em outros países da28/8/2006 21:08:09
  17. 17. OS CABEÇAS DE PLANILHA 17/127Europa que, por sua vez, produziam matérias primas que interessavam à Inglater-ra.O acordo com Portugal, firmado pelo embaixador britânico Paul Methuen previa osseguintes pontos:1. A Inglaterra permitiria a importação de vinhos portugueses com tarifas alfande-gárias equivalentes a 1/3 das tarifas de países concorrentes.2. Portugal consentiria em importar roupas e tecidos ingleses com taxas alfandegá-rias de 23%, mesma alíquota cobrada antes de 1684, quando Portugal se tornouprotecionista.Para o rei de Portugal, o acordo interessava pela possibilidade de aumento das re-ceitas alfandegárias. Da parte da nobreza portuguesa, havia aumento da renda peloaumento das exportações de vinhos. A rainha Ana da Inglaterra saudou Portugalcomo “seu mais antigo amigo e aliado”, “baseado no mesmo princípio pelo qual oSenado romano, antigamente, outorgava títulos aos governantes que cometiam aimprudência de estreitas relações comerciais com o império”, como lembra List(List, 47).Imediatamente após o acordo, houve uma inundação de manufaturas inglesas quepraticamente arrebentou com a indústria portuguesa. A Inglaterra recorreu a todosos expedientes, inclusive colocando produtos sub-faturados, para pagar menos ta-xas alfandegárias. Na outra ponta, levou toda prata e ouro de Portugal.O Oriente tinha uma manufatura avançada de lã e algodão. Se abrisse as importa-ções de lã e seda aos produtos da Índia, a manufatura inglesa teria sido liquidada.Não interessava à Inglaterra importar produtos de valor agregado. O que ela fezentão? Exportava suas manufaturas para Portugal e recebia o ouro e prata em pa-gamento. Com eles, adquiria os produtos do Oriente e vendia para o mercado eu-ropeu, mas na Inglaterra eles não entravam. Dos países europeus a quem vendiaos produtos indianos, os ingleses adquiriam matérias primas que serviram para a-limentar sua manufatura.Essa posição da Inglaterra foi insensata, indagava List? De acordo com os princípiosde Adam Smith e da Teoria dos Valores de J. B. Say, sim. Teria sido loucura fabri-car internamente produtos mais caros, e ceder aos países do continente os produ-tos mais baratos adquiridos da Índia. No entanto, a Inglaterra se transformou napotência hegemônica do período. Isso porque não estava interessada simplesmenteem adquirir artigos manufaturados de baixo custo e perecíveis, mas adquirir a “for-ça de produção”.Com essa estratégia, a Inglaterra conquistou um poder sem paralelo; os demaispaíses, que adquiriram manufaturas mais baratas, não se desenvolveram.List lembrava que no capítulo 6º de seu Livro 4º, Adam Smith criticava acerbamen-te o tratado. Alegava que os portugueses levavam uma vantagem decisiva, ao ex-portar vinhos a taxas alfandegárias inferiores a seus concorrentes.Enquanto isto, osingleses exportavam tecidos pagando taxas alfandegárias quase iguais a de seusconcorrentes.Os ingleses não auferiram nenhuma vantagem especial com o tratado, continuavaAdam Smith, pois eram obrigados e enviar para outros países grande parte do ouroque recebiam de Portugal, pelas exportações de seus tecidos. Nesses países, eramobrigados a trocar o ouro por produtos locais.Logo, teria sido muito mais vantajoso para a Inglaterra trocar diretamente seus te-cidos por produtos portugueses que necessitavam. Haveria uma única troca, emvez das duas, embutidas no acordo com Portugal.Essa lógica linear não correspondia aos fatos reais, bradava List. Antes, Portugalimportava grande parte dos artigos estrangeiros da França, Holanda, Alemanha eBélgica. A partir do Tratado, os ingleses passaram a comandar o mercado portu-28/8/2006 21:08:09
  18. 18. OS CABEÇAS DE PLANILHA 18/127guês para um produto manufaturado, de cuja matéria prima ela, Inglaterra, era au-to-suficiente.Além disso, o enorme superávit inglês provocou um desequilíbrio nas taxas decâmbio. A valorização da libra frente à moeda portuguesa fez com que os preçosdos produtos portugueses chegassem 50% mais baratos aos consumidores ingle-ses. Com isso, praticamente acabaram as exportações de vinhos franceses e ale-mães na Inglaterra.O ouro e prata de Portugal garantiram à Inglaterra acesso aos produtos indianos,com que inundaram a Europa, arruinando as manufaturas portuguesas. Todas ascolônias portuguesas, especialmente o Brasil, se transformaram em feudos ingle-ses.Era um jogo extraordinariamente complexo, sofisticado, fulminante, para caber a-penas nas regras gerais da nova ciência que surgia, a economia.Nas relações comerciais, a Inglaterra era impiedosa. Em todos os tratados comerci-ais concluídos pelos ingleses, havia a tendência de incluir a venda de seus produtosmanufaturados, oferecendo vantagens aparentes de troca por matéria prima e pro-dutos agrícolas. Em todos os casos, oferecia financiamentos e produtos mais bara-tos, visando destruir as manufaturas concorrentes. Além dos tratados, os inglesesse especializaram em fraudar a alfândega e em estimular o contrabando.Com o bloqueio continental de Napoleão, pela primeira vez as manufaturas alemãse francesas começaram a registrar progressos importantes e que se generalizaram.Com a volta da paz, a manufatura inglesa voltou, retomando a antiga primazia edestruindo as indústrias concorrentes.O exemplo da Argentina1De 1880 a 1910, em apenas vinte anos os argentinos transformaram um país qua-se selvagem, com um terço do território ocupado por índios, sem moeda própria,sem presença no comércio internacional na primeira potência a emergir do hemisfé-rio sul, um dos quatro maiores PIBs do mundo, o maior exportador de cereais doplaneta, o segundo maior exportador de carnes, após os Estados Unidos.Quando se consumou o processo de integração do país, até então dividido por guer-ras intermitentes entre as províncias, Buenos Aires se transformou em capital defato. A província de Buenos Aires mudou sua capital para La Plata, e as rendas daaduana passaram a ser nacionais. Sob a presidência de Juan Roca, criava-se umaNação e, tocando o projeto nacional, um Estado com receita própria, exército na-cional (assim como o nosso, que se profissionalizou na guerra do Paraguai). Calhou,nesse momento, o aparecimento de uma elite racional, com um projeto de país.A base do pensamento estratégico havia sido fornecida, anos antes, pelo advogadoJuan Bautista Alberdi, que defendia a imigração controlada. Haveria o estímulo aosimigrantes, a garantia de propriedade, de acesso aos bens públicos, inclusive doingresso no serviço público. Apenas não lhes facultava provisoriamente o direito deeleitor. A visão de Alberdi era a de que os imigrantes gradativamente inoculariam asociedade argentina com os valores do trabalho de seus países de origem e, apósalgumas décadas, com o país civilizado, haveria reformas políticas que completari-am o processo.Mais que isso, através da criação do Conselho Nacional da Educação em 1882, de-cidiu-se universalizar o ensino gratuito. Os pais eram obrigados a colocar os filhosna escola, as províncias mais pobres eram ajudadas pelo governo central.No plano econômico, teve início a grande “revolução dos Pampas”, a ocupação degrandes áreas, muitas quase desérticas, dominadas pelos índios, primeira tentativade agricultura organizada no país. O exército ia à frente abrindo espaço. Inovaçõestecnológicas garantiam os saltos de produtividade. A primeira foi a cerca, que per-28/8/2006 21:08:09
  19. 19. OS CABEÇAS DE PLANILHA 19/127mitiu confinar o gado e preservar a lavoura, transformando a região, ao mesmotempo, em produtora de carne e grãos. Outra foi o moinho de vento, importado daAustrália, que extraía água do subsolo, acabando com a dependência de rios ou la-gos, e ampliando as terras agricultáveis. Na mesma época, o campo começa a re-ceber as primeiras máquinas a vapor.Quando um francês inventou o frio artificial, e surgiram os primeiros navios frigorí-ficos, a Argentina explodiu como exportadora de carnes para a Europa. No início doséculo já era o maior exportador de cereais e o segundo maior exportador de car-nes do mundo, atrás dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, uma política protecio-nista racional ajudava a fortalecer a indústria de vinhos de Mendoza e a açucareirade Tucumã.As raízes ibéricas plantaram as sementes das crises posteriores que liquidaram comos sonhos de potência dos argentinos. As terras conquistadas ficaram nas mãos dostarratenientes –oficiais do exército que se apossaram delas e que, na maior parte,viviam do arrendamento aos imigrantes. Estratificou-se a propriedade da terra, ogrupo dos fundadores da nacionalidade envelheceu morreu, ficando elite predadora,enriquecida, deslumbrada pela rapidez com que tudo foi conquistado.Depois, em 1930 ocorreu o primeiro golpe de Estado. Mas as raízes plantadas na-queles curtos anos foram tão fortes que, mesmo passado do populismo mais des-bragado ao liberalismo mais irresponsável, a Argentina resistiu.A receita do crescimentoO tratado de List decifraria, de forma ampla e sistêmica, o espetáculo do desenvol-vimento. O desenvolvimento não podia se sustentar em uma perna só. De nada a-diantaria de uma boa manufatura, sem dispor de uma esquadra naval adequada.De nada adiantaria a esquadra sem um mercado interno que garantisse os princi-pais produtos.No caso da Liga Hanseática, durante séculos praticaram o que a nova ciência pre-conizava: compravam barato e vendiam barato. Quando os ingleses lograram fe-char os mercados para os mercadores da Liga, como não havia nem agriculturanem indústria manufatureira nativa suficientemente desenvolvida, o capital emi-grou para a Holanda e para a Inglaterra.Em seu tratado, List abordaria praticamente todos os pontos que, no final dos anos90, o Brasil começaria a estudar para tentar recuperar o caminho do desenvolvi-mento.Tudo começava por uma visão estratégica adequada, dizia List. Poder é mais im-portante que riqueza. O poder nacional é uma força dinâmica, que abre a porta pa-ra novos recursos produtivos. O poder precisa ser utilizado para gerar novas forçasde produção, e manter as existentes. Por poder, List definia a capacidade de umanação de defender sua produção, de impor regras comerciais, de dominar fluxos decomércio.Ponto central nas análises de List era o caráter nacional. Atribuía a enorme riquezada Inglaterra não apenas ao poder nacional e ao amor inato do inglês pelo ganhofinanceiro. Considerava fundamental o amor inato do povo à liberdade e à justiça, àenergia, ao caráter moral e religioso. Incluía nesse ambiente favorável a Constitui-ção do país, as instituições, a sabedoria e a força do governo e da aristocracia (List,39).Enquanto as liberdades civis atraiam para a Inglaterra capital e novos talentos, aEspanha perdeu todo seu ímpeto de grande potência, todos os elementos de gran-deza e prosperidade quando a Inquisição expulsou os judeus e os mouros, ao todo2 milhões de seus mais operosos e abastados habitantes. Fugiram eles e seu capi-tal.28/8/2006 21:08:09
  20. 20. OS CABEÇAS DE PLANILHA 20/127Com sua lei de patentes, a Inglaterra estimulou e atraiu o gênio inventivo mundial.E com suas liberdades civis atraiu grande quantidade de capital e de talentos no-vos.A História ensina que as artes e o comércio migram de uma cidade para outra, deum país para outro. Perseguidos e oprimidos em sua pátria refugiaram-se em cida-des e países que lhes asseguravam liberdade, proteção e apoio. Foi assim que asartes e o comércio migraram da Grécia e da ásia para a Itália; da Itália para a Ale-manha, Flandres e o Brabante; e dali para a Holanda e para a Inglaterra (List, 82).A partir da análise de várias experiências nacionais, Lizt sistematiza conhecimentossobre processos de desenvolvimento, dividindo-os em quatro etapas básicas.O primeiro salto, depois de formada a nação, é quando descobre um bem primá-rio de exportação, e começa a se relacionar com o mercado internacional. Emborahistoricamente o Brasil fosse um país exportador de mercadorias –pau-brasil, açú-car--, o controle da acumulação era português. O café foi o primeiro produto quepermitiu a exportação e a acumulação em mãos de empresários brasileiros.A partir dessa base exportadora, o país começa a importar e a entrar em contatocom bens e produtos dos seus parceiros comerciais. Aí se dá o segundo salto, queé o processo inicial de substituição de importações. Para se consolidar é fundamen-tal a proteção à indústria nascente através de tarifas, câmbio competitivo. E tam-bém a criação de condições para o fortalecimento de um mercado de consumo ini-cial, que sirva de alavanca para essa fase inicial da industrialização.Consolidada a segunda etapa, entra-se na terceira etapa, que é a abertura grada-tiva do mercado, para conferir competitividade à indústria nacional, evitando o a-comodamento pelo excesso de proteção.Completado o ciclo, ingressa-se na quarta etapa, que é a conquista do mercadointernacional, através de estratégias comerciais, controle de rotas comerciais.Tornando-se hegemônica, a economia torna-se liberal. Abrem-se os mercados nosquais é evidente a superioridade da nação, e exige-se contrapartida dos parceiroscomerciais menos competitivos. Apresenta-se o modelo liberal que o país passou aadotar quando entrou na quarta fase como se fosse adequado para países das fasesanteriores. E, aí, entra em ação e hegemonia cultural – a contrapartida natural àhegemonia econômica. O país hegemônico passa a propagar o ideário do liberalis-mo comercial. Seus centros de pensamento – universidades, instituições em geral,imprensa – passam a difundir como universais princípios adequados apenas à quar-ta etapa de desenvolvimento.O processo de desenvolvimento não se dá em torno de teorias rígidas. As teoriassão instrumentos de compreensão da realidade, subsídios para a implementação depolíticas econômicas. Mas o referencial máximo, para a definição das políticas eco-nômicas adequadas, é o da análise da realidade, o comportamento estratégico ten-do em vista a situação de momento.Uma política liberal, no início da industrialização, mata o processo. Da mesma ma-neira que uma política protecionista, na fase de maturidade econômica, provoca oacomodamento dos empresários e a perda de vitalidade.Quando o país da quarta fase preconiza suas práticas econômicas para os paísesdas fases anteriores, está procedendo ao que List chamava de “chutando a própriaescada”. Depois de escalarem as três etapas iniciais de desenvolvimento, tentamimpedir os países menos desenvolvidos de trilhar o mesmo caminho. Tentam imporas práticas que passaram a adotar depois de vitoriosos e, aí, o componente culturalideológico, a emulação das práticas dos países centrais, passam a ser ferramentasfulminantes.No seu livro, List repassava a história de inúmeras civilizações, de países ou cida-des-estado que ganharam enorme poder e influência, e acabaram afundando pornão terem conseguido articular adequadamente os interesses nacionais. A partir28/8/2006 21:08:09
  21. 21. OS CABEÇAS DE PLANILHA 21/127desses estudos, o centro de análises de List passou a ser a nacionalidade, como ointeresse intermediário entre o indivíduo e a humanidade inteira.Quando a Alemanha começou a discutir projetos nacionais, List deparou-se comenorme resistência de um conjunto de interesses que juntava de intelectuais ale-mães que haviam estudado na Inglaterra, importadores com interesses em produ-tos ingleses e, por baixo de tudo, a enorme influência ideológica do pensamentoinglês, àquela altura, potência hegemônica mundial. Narrava ele que “um exércitoincontável de correspondentes e escritores líderes, desde Hamburgo até Bremen,desde Leipzig até Frankfurt, saíram a campo para condenar os desejos absurdosdos manufatores alemães no sentido de estabelecer taxas alfandegárias protecio-nistas comuns”. A lógica de ataque se perpetuaria pelos tempos. List era acusadode ignorar princípios elementares de economia política, “tais como haviam sidoconsagrados pelas maiores autoridades científicas” (List, 4). Na época, era notória ainfluência do Ministério do Exterior inglês, com grossa verba destinada à defesa dosseus interesses comerciais.No minucioso levantamento que faz sobre países que se tornaram hegemônicos,List deixa lições preciosas. Assim como para as empresas, os países crescem apro-veitando janelas de oportunidade, que podem surgir em mudanças políticas inter-nas, em conjunturas internacionais favoráveis. O grande segredo do desenvolvi-mento é saber aproveitar essas brechas de oportunidades e criar modelos institu-cionais adequados, que permitam ao país o salto para a etapa seguinte. Essa dinâ-mica inicial vai desenvolvendo o país, de forma mais ou menos acelerada, até abrecha seguinte, que vai exigir novas soluções.O Brasil teve algumas janelas de oportunidade desde que se tornou nação. As duasmais relevantes guardam semelhanças extraordinárias entre si. A primeira, no finalda Monarquia e início da República, que resultou no “Encilhamento”, o grande mo-vimento especulativo que atrasa substancialmente o ingresso do país na segundafase. O segundo, o plano Real, que compromete o ritmo de ingresso do país na ter-ceira fase.28/8/2006 21:08:09
  22. 22. OS CABEÇAS DE PLANILHA 22/127 Os novos tempos Os novos temposPara completar o quadro de fatores que atuava sobre a economia internacional daépoca, e afetou diretamente o Brasil no período do “Encilhamento”, há a necessida-de de introduzir dois atores fundamentais da história: as grandes revoluções tecno-lógicas do século 19 e o aparecimento do grande capital financeiro, o chamado“haute capital”, montando a mais sofisticada estrutura de coordenação transnacio-nal que o mundo já testemunhara.’As revoluções tecnológicasAs revoluções tecnológicas não são lineares. Em geral, há uma primeira etapa demudança de paradigma. Depois, uma corrida frenética atrás das novas tecnologiasque, invariavelmente levam a movimentos especulativos e “crashes” sucessivos.Depois disso é que o mercado se assenta, a especulação sai de cena e dá espaçopara o período de consolidação.É uma disputa pesada entre o novo e o velho. Em geral há dos períodos distintos,cada qual durando algumas décadas. A primeira fase é o período em que a novaeconomia se consolida e avança sobre a economia já madura. A segunda é a do es-palhamento do novo paradigma vitorioso, renovando toda a economia. Luis Nassif 18/7/06 23:31Tabela 1: Uma paradigma tecno-economico para cada revolução tecnológica diferente, 1770 a 2000 (Perez 2000), citado por Comment: Levantar mais dadosMateus Cozer Revolução Tec- Instalação Ponto de Desenvolvimento nológica Virada Erupção Frenesi Sinergia Maturidade1° Revolução In- Final dos 1793-97 1798-1812 1813-1829 dustrial 1771-início 1780s e dos 1780s início dos 1790s2° Era do Vapor e 1829-1830s 1840s 1848-50 1850-1857 1857-1873 das Ferrovias3° Era do Aço, 1875-1884 1884-1893 1893-95 1895-1907 1908-1918 Eletricidade e Engenharia Pesada4° Era do Petró- 1908-1920 1920-1929 1929-43 1943-1959 1960-1974 leo, do Auto- móvel e da Produção em Massa5° Era da Infor- 1971-1987 1987-2001 2001-?? 20?? mação e Tele- comunicaçõesA “haute finance”É no bojo do financiamento dessas ondas tecnológicas que o capital financeiro ga-nha musculatura e se internacionaliza.28/8/2006 21:08:09
  23. 23. OS CABEÇAS DE PLANILHA 23/127Em um livro clássico escrito em 1940 – “A Grande Transformação” --, o economistaKarl Polanyi tentava sistematizar, pela primeira vez, a natureza do que ele denomi-nava de “haute finance”, o grande capital que emerge nas três últimas décadas doséculo 19.Essa “haute finance” teria papel relevante nos lances seguintes da política econômi-ca nacional, que resultariam no “Encilhamento”.A partir daí e nas três primeiras décadas do século 20, coube a “haute finance” sero elo entre a organização política e econômica do mundo, fornecendo os instrumen-tos para um sistema internacional de paz.É um período dominado pelos Rotschild. Eles não estavam submetidos a nenhumgoverno, lembrava Polanyi. O poder de firma consistia em ser o único elo suprana-cional entre o governo político e o esforço industrial em uma economia mundial emrápido crescimento (Polanyi, 25). Seu poder e independência decorriam das neces-sidades da época, que exigiam um agente soberano que tivesse a confiança tantodos governos nacionais quanto dos investidores internacionais.Para cumprir esse papel, a “haute finance” precisava buscar aliados nos bancos eno capital financeiro nacionais. Organizacionalmente, constatava Polanyi, a “hautefinance” foi o núcleo de uma das mais complexas instituições que a história do ho-mem já produziu. Além do centro internacional, em Londres, havia meia dúzia decentros nacionais gravitando em torno de seus bancos de emissões e bolsas de va-lores. “Os banqueiros internacionais financiavam não apenas governos e guerras, mas faziam investimentos externos na indústria, nos serviços públicos e ban- cos, bem como empréstimos a longo prazo para as corporações públicas e particulares fora do país”.Para garantir a segurança dos seus investimentos e empréstimos, a “haute finance”se preocupava bastante com as oscilações cambiais e com o equilíbrio orçamentáriodas nações. Os dois instrumentos de influência da City Londrina era o padrão ouroe o constitucionalismo. Eram as palavras de ordem para os países que aderiram ànova ordem internacional. “O padrão era controlado por uma infinidade de grupos nacionais e persona- lidades, cada um deles com seu tipo peculiar de prestígio e destaque, autori- dade e lealdade, sua capacidade de dinheiro e de contatos, de patronato e au- ra social” (Polanyi, 26)Apesar de apontado por Lenine como principal estimulador de guerras, ao grandecapital internacional interessava fundamentalmente a paz. Era tamanha a rede deinteresses entrelaçada por todo o mundo que, se a guerra poderia eventualmentebeneficiar alguns clientes maiores, desarrumava a vida de milhares de outros clien-tes.Em relação aos países, tinha duas posturas diferentes. Sabia reconhecer o exercíciodo poder das potências; e a dependência de capitais da periferia. Através do con-trole do crédito, acabam se transformando nos gestores de fato das políticas eco-nômicas dos países periféricos.Toda a política econômica era centrada em dois pontos: a solvência do país, paraquitar seus empréstimos; e a manutenção de moedas estáveis.O “padrão ouro” conferiu um poder excepcional aos países detentores de capitais.Como os países que aderiam ao padrão só poderiam emitir com lastro em ouro, acada crise cambial, do produto principal de exportação, eram obrigados a contrairdívidas com os bancos internacionais, para garantir a conversibilidade de suas mo-edas.28/8/2006 21:08:09
  24. 24. OS CABEÇAS DE PLANILHA 24/127Esse modelo acabava levando a crises financeiras periódicas, afetando vários paísesde periferia. No auge das crises cíclicas, os grandes bancos centrais em Londres,Paris e Berlim elevavam suas respectivas taxas de desconto, para evitar a saída deouro. Com isso, atraíam os capitais de curto prazo e se beneficiavam da queda dascotações dos produtos primários, devido à redução da liquidez internacional (Beluz-zo, in Fiori, 96). Esses movimentos de capitais, da periferia para o centro, lançavamos emergentes em crises terríveis, mas ajudavam a resolver as crises dos paísescentrais.Um dos mais famosos episódios especulativos da história, com o instrumento avenda a futuro, foi a "bolha" em torno das tulipas holandesas, Quando a especula-ção absorveu toda a produção foram criados negócios de venda futura de bulbos datulipa, processo iniciado em 1636. Terminou em um crack violento.A principal ferramenta que movimentaria a especulação até 1929 surgiu em mea-dos do século 19 nos Estados Unidos, Era o mecanismo da concessão de emprésti-mo, o chamado "call loans", recursos que os bancos comerciais repassam aos cor-retores, para que eles ofereçam à sua clientela. A garantia do empréstimo era acaução das ações dos tomadores. O "call" significava que o banco poderia chamar àliquidação do empréstimo a qualquer momento. O banco exigia uma "margem degarantia", emprestando apenas um percentual do valor dos títulos, de acordo comseu valor de mercado. Se as cotações caíssem, aumentava a dificuldade dos toma-dores, que era agravada pela redução automática do valor emprestado. Foi o pedi-do de garantias adicionais que acelerou o crack de 1929.O câmbio também permitia jogadas especulativas periódicas, com os grandes ban-cos “apostando” contra moedas fracas, ou no deságio dos títulos das dívidas dospaíses periféricos.A maneira de minimizar os riscos era o controle sobre as informações, a dependên-cia que os países tinham dos fluxos de capitais, e a capacidade de influenciar a opi-nião pública, criando uma ideologia pró livre cambismo.As próprias mudanças no capitalismo internacional permitiam que a industrializaçãoinglesa transbordasse para outros países, particularmente os Estados Unidos. Esseperíodo é caracterizado pelos seguintes eventos2:A consolidação das práticas de financiamento e de pagamentos internacionais sob aégide de um padrão monetário universal.A metamorfose do sistema de crédito, expressiva no aparecimento de bancos dedepósitos que ajustam suas funções e formas de operação à nova economia co-mandada pela indústria.A emergência de uma nova divisão social do trabalho, consubstanciada na crescen-te separação entre o departamento de meios de consumo e o departamento demeios de produção.A internacionalização capitalista sob a hegemonia inglesa “produz” a industrializa-ção dos EUA e da Europa e, simultaneamente, a periferia produtora de matériasprimas e alimentos.No final do século 19, quando a República ensaia os primeiros passos, já havia ummercado internacional de mercadorias funcionando em Londres, com suas cotaçõessendo acompanhadas diariamente por negociantes de todas as partes do mundo.De 1830 a 1870, um reduzido número de estados, todos europeus, dera início a umextraordinário ciclo de expansão do capitalismo financeiro. Esse ciclo se prolongaaté 1914, quando eclode a Primeira Guerra Mundial.Com o fim da Guerra da Secessão nos EUA, em 1860, o mundo passa por um pro-cesso inédito de transformações, preparando a nova etapa do desenvolvimentomundial. Os EUA já preparavam o salto para se tornar grande potência. Depois daguerra franco-prussiana, ocorrera a unificação da Alemanha; no Japão, aconteceraa Restauração Meiji. Depois da Guerra da Criméia ocorrem mudanças na Rússia28/8/2006 21:08:09
  25. 25. OS CABEÇAS DE PLANILHA 25/127também. É esse grupo de países, ao lado da França, e sob a liderança da Inglater-ra, constituem o núcleo duro do novo sistema global (Fiori, 41).Alguns países conseguiram aproveitar do excesso de capitais, da coordenação in-glesa e , com o chamado “déficit de atenção” da Inglaterra em relação às suas es-tratégias de desenvolvimento, nas décadas seguintes começavam a despontar co-mo novas potências.Depois de várias crises cambiais, o sistema financeiro internacional se estabilizaraem torno do “padrão ouro” e em uma estrutura hierárquica. No centro, ficava oBanco da Inglaterra. Num segundo grupo, os bancos da França e da Alemanha. Noterceiro, da Holanda, Áustria e Bélgica (Fiori, 65).A “haute finance” já havia fincado os olhos no país e montado sua rede de alianças,a partir do momento em que Mauá montou um banco em Londres e tentou se con-verter em banqueiro londrino para fugir à pressão política interna. Não conseguiu,foi derrotado, mas chamou a atenção da banca londrina para o grande potencialdaquele gigante adormecido.As grandes bolhas especulativasO potencial de riqueza fácil com mudanças monetárias e as bolhas especulativas jáeram de conhecimento geral quando Rui Barbosa deu início à política monetária quelevaria ao “Encilhamento”.O exemplo mais marcante foi o de John Law, nascido em 1671, filho de um ourivesabastado que emprestava dinheiro a juros, que chegou a Ministro das Finanças daFrança e montou uma companhia que detinha o monopólio do comércio do Vale doMississipi (ainda sob domínio francês), Índia, China e Pacífico Sul.Law mudou-se para Londres com 17 anos. Era mulherengo, jogador, e, depois dematar o pretendente a uma amante sua, teve que se refugiar na Europa continen-tal. Lá, tomou contato com os modelos de crédito do Banco de Amsterdan. Na faltade reservas em ouro, o banco recebia moedas dos comerciantes, que adquiriam emtroca crédito pelo seu valor, na forma de notas.Em uma época dominada pelo “padrão-ouro”, passou a defender que a quantidadede moeda em uma economia não deveria ser pautada pelas reservas em ouro oupelo saldo da balança comercial, mas pelas necessidades de troca internas da pró-pria economia. Defendia o papel-moeda e títulos lastreados em terras e impostos.Em 1715 o Duque de Orleans se tornou regente, após a morte de Luís 14. A Françapassava por uma crise portentosa que o novo Regente tentava resolver através darecunhagem de moedas e de uma desvalorização cambial de 20%.Amigo do Duque, Law apresentou um diagnóstico diferente. Em sua opinião, aFrança sofria de falta de moedas e de excesso de desvalorizações cambiais. Propu-nha o uso da moeda fiduciária e a criação de um banco emissor de títulos de créditolastreados em receitas de impostos e propriedades. O Estado ficaria com o mono-pólio de todas as atividades financeiras e fazendárias.Foi o início do Banque Generale, no ano seguinte, emitindo títulos resgatáveis emmoeda corrente. Como o país ainda sofria do pânico da desvalorização das moedasmetálicas, em pouco tempo a moeda fiduciária se impôs e os títulos passaram a sernegociados com ágio de 15% -- contra um deságio de 80% das moedas de ouro eprata. Percebendo o potencial do novo padrão monetário, Law criou uma compa-nhia na Luisiana, ainda uma colônia francesa, que deteria o monopólio do comérciono rio Mississipi. Prometia de que as terras gerariam riquezas em ouro , seda e a-gricultura.Apenas um ano depois de fundado, o banque Generale foi estatizado, tornou-se oBanque Royale, e o Regente ordenou a impressão de papel-moeda no equivalente a28/8/2006 21:08:09
  26. 26. OS CABEÇAS DE PLANILHA 26/127três vezes a dívida pública. Houve reação do Parlamento e Law terminou afastadodo Banque Generale.Ainda influente, a Companhia do Mississipi conseguiu em 1817 não apenas a con-firmação de seus direitos sobre o rio Mississipi mas também sobre as Índias Orien-tais, China e Pacífico Sul. Para financiar as operações, Law emitiu 50 mil ações aserem integralizadas em notas do Tesouro com 80% de deságio. Prometeu aos a-cionistas uma rentabilidade de 120% ao ano.Pequenos investidores correram em massa atrás do pote da fortuna, adquirindo op-ções de compra das ações. Excesso de papel-moeda, promessas de ganhos fantás-ticos, produziram uma corrida aos novos papéis, que tiveram uma demanda seisvezes superior à oferta. Em 15 meses os papéis de Law experimentaram uma valo-rização de 2.900%. Com esse sucesso, o passo seguinte foi a fusao do Banque Ro-yale com a Companhia do Mississipi, e Law nomeado novo Ministro das Finanças.Em 1720, não resistiu à primeira crise. Houve uma corrida contra a companhia,com os vendedores não exigindo moeda metálica. Law resistiu, deflagrando umaonda de desconfiança em relação ao papel-moeda. Para enfrentá-la o governo des-valorizou e limitou os saques de moeda metálica. A conseqüência foi uma explosãode contrabando de ouro para a Inglaterra e Holanda, paralisando o comércio. Ten-tou-se limitar a posse de moeda-metálica pelos indivíduos, além de se proibir acompra de jóias, prata e metais preciosos. O país quase foi engolido pela revoltapopular. No final do ano, o valor das ações da Companhia do Mississipi tinha caído98% em relação ao início do ano.Law foi demitido, a crise ajudou a preparar a Revolução Francesa e a palavra “ban-co” foi banida do dicionário financeiro francês, substituída pela “credit”. Mas seumodelo de enriquecimento fácil que montou passou a ser a ambição maior de mui-tos aventureiros por todo o mundo. E a pedra filosofal de sucessivas gerações definancistas passou a ser a suprema chance de montar uma reforma monetária comfinal bem sucedido, que lhes assegurasse o sucesso inicial de Law, sem arcar comos infortúnios posteriores.Com a internacionalização financeira, os movimentos especulativos tornar-se-iammais freqüentes.28/8/2006 21:08:09
  27. 27. OS CABEÇAS DE PLANILHA 27/127A segunda fase do desenvolvimento: a AboliçãoA segunda fase do desenvolvimento: a AboliçãoNa segunda metade da década de 1880, o Brasil tinha todas as condições de repetiro feito norte-americano. A economia estava prestes a explodir, a ultrapassar a faseda monocultura do café e começar a formar uma sociedade sofisticada, pronta paraentrar na segunda fase de List.As condições eram claras. Um primeiro ensaio de política industrial ocorreu com avinda de Dom João 6º ao Brasil. Além da abertura dos portos, criou a siderurgianacional e fundou o Banco do Brasil em 1808. Em 28 de anril de 1809 concedeudireitos aduaneiros às matérias primas consumidas pelas fábricas brasileiras, isen-tou de impostos a exportação de produtos manufaturados e passou a utilizar produ-tos brasileiros no fardamento das tropas (Moniz Bandeira, paper FGV).Fez mais, introduziu os primeiros conceitos de patente, garantindo privilégios por14 anos os inventores ou introdutores de novas máquinas, e garantiu 60.000 cru-zados às manufaturas com dificuldade, especialmente as de lã, algodão, ferro a a-ço. No arsenal da Marinha, construiu a fábrica de pólvora, a tipografia régia, bemcomo criou o Colégio Militar e o Naval.Em fins de 1809, o engenheiro Friedrich Ludwig Varnhagen chegou ao Rio de Janei-ro com a missão de estudar a possibilidade de construção de uma siderúrgica nomorro de Araçoiaba, perto de Sorocaba.Em 1812, com o apoio de Dom Manuel de Assis Mascarenhas Castelo Branco daCosta Lencastre, conde de Palma, Dom João 6º construiu outra usina siderúrgica, aFábrica Patriótica, perto de Congonhas do Campo. Ao mesmo terreno, começava aantiga tradição mineira de fabricação de ferro gusa, através de Manoel Ferreira deCâmar Bittencourt e Sá.Segundo Moniz Bandeira, a Inglaterra não queria a abertura dos portos no Brasil. Oque pedira fora apenas um porto exclusivo em Santa Catarina, que Dom João 6ºnão concedeu.Como não conseguisse o monopólio, os ingleses pressionaram-no para que firmasseo Tratado de 1810, concedendo às manufaturas inglesas uma tarifa preferencial de15% ad valoren, menor até que as de Pportugal, que eram de 16%, e de 24% paraas demais nações.O esforço por ver a Independência reconhecida, fez com que, no final da década de1820, o Brasil assinasse inúmeros tratados comerciais desiguais com a própria In-glaterra, França, Prússia, Áustria, Dinamarca, Países Baixos, a Liga Hanseática ecom os Estados Unidos. Esses tratados acabaram atrasando o processo de industri-alização interno.Apenas entre 1842 e 1844, quando os tratados expiraram, o Ministro da FazendaManuel Alves Branco deu início a uma política de proteção da indústria infante, ele-vando a tarifa de importação de 3 mil produtos, para uma faixa entre 20 a 60%.Esse período se estendeu de 1844 a 1876. Em 1877, já havia no Brasil fábricas deprodutos químicos, instrumentos óticos, calçados, chapéus, tecidos de lã e algodão.Em meados do século 19, o cônsul geral da França em Montevidéu chegou a cha-mar o Brasil de “Rússia Tropical”, que tinha a “vantagem da organização e da per-severança em meio dos Estados turbulentos e mal constituídos” da América do Sul.Em 1850, com a lei Eusébio de Queiroz, foi proibido o tráfico negreiro. A decisãoliberou volumes consideráveis de capital. Dessa conjuntura se aproveitou Irineu E-vangelista de Souza, o futuro Barão de Mauá, lançando as bases de um sistemabancário moderno. Com sua capacidade de aglutinar poupança, obter ganhos dearbitragem no câmbio e ter acesso a capitais ingleses, o Barão de Mauá traçara oroteiro do desenvolvimento.28/8/2006 21:08:09
  28. 28. OS CABEÇAS DE PLANILHA 28/127Começa a trabalhar muito cedo em uma casa comercial brasileira, transfere-se parauma importadora inglesa, aprende as novas teorias econômicas e financeiras. De-pois, descobre a possibilidade de atrair capital externo para empreendimentos nopaís.Monta um banco, com várias filiais pelo país e uma filial em Londres, e passa a cap-tar na praça londrina. Ao mesmo tempo, descobre rapidamente possibilidades e-normes de ganhos na arbitragem de câmbio, valendo-se do baixo fluxo de informa-ções no país. Ganhava meramente arbitrando as diferenças de câmbio entre as di-versas praças em que operava no país.Descobriu, também, os dois grandes modelos de negócio que atrairiam os grandescapitais na época: os serviços urbanos e as ferrovias integrando grandes distâncias.Com sua capacidade de mobilizar capitais montou a primeira indústria de base nopaís, o porto de Areia, ..... Depois, o serviço de iluminação a gás no Rio de Janeiro,companhias de navegação no Amazonas, bancos no Uruguai, Argentina.Mauá deixou lições indeléveis a todas as gerações posteriores. De um lado, mostrouo poder regenerador do capital bem aplicado, seu enorme poder transformadorquando controlado por pessoas com imaginação para novos negócios, controle so-bre os números, estratégias empresariais bem definidas.Mas a atuação de Mauá abriu os olhos de dois personagens que passariam a exer-cer um papel confuso no país, dali por diante. Primeiro, foi o dos grandes rentistas.Encurralado pelas ações de Pedro 2o, Mauá descobre um aspecto relevante da cul-tura estatal brasileira. Como empresário brasileiro, ele despertava ciúmes. Se setornasse empresário inglês, teria direito a privilégios.Quando começa a se mover por Londres, expondo seus negócios, desperta os ban-queiros ingleses para novas possibilidades para o país. Até então, os países emer-gentes eram uma boa fonte de lucros, mas apenas para o mercado de crédito.Quanto pior a situação do país, quanto maior o "risco país", maiores os juros pagospelos empréstimos.A atuação de Mauá mostrava, para o mercado londrino, as excepcionais possibilida-des abertas no mercado de investimento. O novo país tinha poupança acumulada, euma enorme demanda por novos modelos de negócio que se desenvolviam nos paí-ses centrais. De um lado, os melhoramentos urbanos, iluminação a gás, saneamen-to. De outro, as grandes obras de integração nacional, como as ferrovias.Quando Mauá se preparava para se associar ao banco britânico London and ......,foi derrubado por uma manobra conjunta do governo e da banca inglesa. Do ladode cá, recusaram a tratar como inglesa uma empresa que tivesse como sócio um Luis Nassif 18/7/06 23:31empresário brasileiro. Do lado de lá, aproveitou-se essa dificuldade para desman- Comment: O nome completo do bancochar a sociedade, e os candidatos a sócios entrarem no país competindo com Mauá,e dispondo de todos os favores do governo. Quando se deu o Encilhamento, essebanco tinha o controle sobre os movimentos cambiais do país, com claro poder demercado.A partir desse episódio, forma-se uma nova aliança, que irá marcar dali pela frentea economia brasileira, uma aliança tácita entre os grandes rentistas brasileiros e abanca internacional. O dinheiro saía do Brasil e ia para Londres. As empresas brasi-leiras montavam escritórios na cidade, depositavam os recursos nos bancos ingle-ses. Depois, esses recursos entravam no país através de empréstimos ao setor pú-blico ou de inversões em setores regulamentados, através de concessões com ga-rantia mínima de rentabilidade.O rentista brasileiro garantia a aprovação de leis favoráveis às concessões. Atuavanas duas pontas, como político e como investidor. O banco inglês garantia recursosadicionais e a jurisdição internacional sobre os empréstimos.28/8/2006 21:08:09

×