1 os cabeças de planilha
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

1 os cabeças de planilha

on

  • 4,665 views

Originais do livro "Os Cabeças de Planilha"

Originais do livro "Os Cabeças de Planilha"

Statistics

Views

Total Views
4,665
Views on SlideShare
4,664
Embed Views
1

Actions

Likes
2
Downloads
144
Comments
0

1 Embed 1

http://192.168.33.10 1

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

1 os cabeças de planilha 1 os cabeças de planilha Document Transcript

  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 1/127 O Plano Real.doc Os Cabeças de PlanilhaPOR LUÍS NASSIF28/08/2006 21:08:09
  • Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 13 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS CABEÇAS DE PLANILHA 2/127 Deleted: 13OS CABEÇAS DE PLANILHA - ESTRUTURA 5 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 14 Luis Nassif 5/5/11 10:59INTRODUÇÃO 6 Deleted: 17 Luis Nassif 5/5/11 10:59“ENCILHAMENTO” E REAL: OPORTUNIDADES PERDIDAS 9 Deleted: 21 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS PERSONAGENS DA HISTÓRIA 10 Deleted: 18FERRAMENTAS DE PODER 10 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 21 Luis Nassif 5/5/11 10:59“CHUTANDO A PRÓPRIA ESCADA” 14 Deleted: 21 Luis Nassif 5/5/11 10:59O EXEMPLO AMERICANO 14 Deleted: 26O EXEMPLO INGLÊS 15 Luis Nassif 5/5/11 10:59O EXEMPLO DA ARGENTINA 18 Deleted: 24A RECEITA DO CRESCIMENTO 19 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 29OS NOVOS TEMPOS 22 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 29AS REVOLUÇÕES TECNOLÓGICAS 22 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 32A “HAUTE FINANCE” 22AS GRANDES BOLHAS ESPECULATIVAS 25 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 35 Luis Nassif 5/5/11 10:59A SEGUNDA FASE DO DESENVOLVIMENTO: A ABOLIÇÃO 27 Deleted: 38 Luis Nassif 5/5/11 10:59PROJETO DE PAÍS 30 Deleted: 38 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 38O PRIMEIRO ATO DO “ENCILHAMENTO” 31O SEGUNDO ATO DO ENCILHAMENTO 33 Luis Nassif 5/5/11 10:59O TERCEIRO ATO DO ENCILHAMENTO 36 Deleted: 39O QUARTO ATO DO ENCILHAMENTO 39 Luis Nassif 5/5/11 10:59A CRISE FISCAL E O ESMAGAMENTO DOS ESTADOS 40 Deleted: 42OS NEGÓCIOS DE RUI 40 Luis Nassif 5/5/11 10:59INTERESSES DIVERSOS 41 Deleted: 40O JOVEM GUSTAVO FRANCO 41 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 46 Luis Nassif 5/5/11 10:59A REDEMOCRATIZAÇÃO E O PLANO CRUZADO 43 Deleted: 45 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS NOVOS FINANCISTAS 46 Deleted: 46 Luis Nassif 5/5/11 10:59A NOVA ONDA DE GLOBALIZAÇÃO FINANCEIRA 47 Deleted: 46 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 46NIXON 47REAGAN 47 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 50AS REVOLUÇÕES TECNOLÓGICAS 47OS GRANDES MOVIMENTOS ESPECULATIVOS 48 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 47 Luis Nassif 5/5/11 10:59O BRASIL ENTRA NA ERA MODERNA 51 Deleted: 50 Luis Nassif 5/5/11 10:59O PROGRAMA QUE MUDOU O BRASIL 51 Deleted: 52A MICRO-ECONOMIA SE CASA COM A MACRO 53 Luis Nassif 5/5/11 10:59TANCREDO 54 Deleted: 5328/08/2006 21:08:09
  • Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 54 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS CABEÇAS DE PLANILHA 3/127 Deleted: 54 Luis Nassif 5/5/11 10:59AS IDÉIAS SE IMPÕEM 55 Deleted: 55OS PRIMEIROS MOVIMENTOS 56 Luis Nassif 5/5/11 10:59A SEGUNDA VERTENTE, DA QUALIDADE 57 Deleted: 59AS LIÇÕES DE MICHAEL PORTER 58 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 57COLLOR ENTRA EM CENA 60 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 60MUDANDO DE LUGAR 61 Luis Nassif 5/5/11 10:59O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 62 Deleted: 61ESCANTEIO 63 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 63 Luis Nassif 5/5/11 10:59AS IDÉIAS PRÉ-PLANO REAL 64 Deleted: 62 Luis Nassif 5/5/11 10:59COMO SE CONSOLIDAM HEGEMONIAS 68 Deleted: 67 Luis Nassif 5/5/11 10:59OS PARAÍSOS FISCAIS E OS DOLEIROS 70 Deleted: 69A TROPICALIZAÇÃO DOS DÉFICITS GÊMEOS 73 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 74 Luis Nassif 5/5/11 10:59O PLANO REAL 76 Deleted: 72 Luis Nassif 5/5/11 10:59DIAGNÓSTICOS 76 Deleted: 74A PRIMEIRA ETAPA DO REAL 77 Luis Nassif 5/5/11 10:59AS REGRAS DE REMONETIZAÇÃO 78 Deleted: 75A APRECIAÇÃO DO REAL 79 Luis Nassif 5/5/11 10:59O FIM DOS SUPERÁVITS COMERCIAIS 81 Deleted: 76A NOVA INSTITUCIONALIDADE 81 Luis Nassif 5/5/11 10:59A GUERRA DE COMPRADOS E VENDIDOS 82 Deleted: 77A IRREVERSIBILIDADE DO MODELO 84 Luis Nassif 5/5/11 10:59O ABANDONO DOS ESTUDOS INICIAIS 85 Deleted: 79A NOVA CLASSE 86 Luis Nassif 5/5/11 10:59D.SEBASTIÃO E A REUNIÃO DE CARAJÁS 87 Deleted: 79LÁGRIMAS DEPOIS 89 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 80AS FERRAMENTAS FINANCEIRAS DOS ANOS 90 90 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 82OS GESTORES DE RECURSOS E A PRIVATIZAÇÃO 94 Luis Nassif 5/5/11 10:59AS INSTITUIÇÕES DA GLOBALIZAÇÃO 95 Deleted: 83AS AGÊNCIAS DE RISCO 96 Luis Nassif 5/5/11 10:59A MANIPULAÇÃO DAS ANÁLISES 99 Deleted: 84A LIÇÃO DE CASA E A TAXA DE RISCO 102 Luis Nassif 5/5/11 10:59A RETÓRICA DOS “JURISTAS” 102 Deleted: 85A FEIJOADA FINANCEIRA 103 Luis Nassif 5/5/11 10:59A LIÇÃO DE CASA E AS EXPECTATIVAS SUCESSIVAS 105 Deleted: 88“EM TODO LUGAR É ASSIM” 105 Luis Nassif 5/5/11 10:59O TODO PELA PARTE 107 Deleted: 87A FALÁCIA DOS “JURISTAS” ERROR! BOOKMARK NOT DEFINED. Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 92CABEÇA DE PLANILHA 109 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 93A PRIORIDADE ÚNICA ERROR! BOOKMARK NOT DEFINED. Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 94 Luis Nassif 5/5/11 10:59O ÚLTIMO VÔO DA GARÇA 110 Deleted: 9628/08/2006 Luis Nassif 5/5/11 10:59 21:08:09 Deleted: 99 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 100 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Luis Nassif 5/5/11 10:59
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 4/127O FETICHE DO SUPERÁVIT 110 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 111O NOVO BRASIL 113 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 109O NASCIMENTO DO NOVO CICLO 113O NEO-DESENVOLVIMENTISMO EM GESTAÇÃO 113 Luis Nassif 5/5/11 10:59A ERA VARGAS E A PERDA DE RUMO 114 Deleted: 111O POVO BRASILEIRO 115 Luis Nassif 5/5/11 10:59A DIPLOMACIA BRASILEIRA 116 Deleted: 111O PAPEL DA GRANDE EMPRESA 117 Luis Nassif 5/5/11 10:59A INOVAÇÃO COMO PARADIGMA 118 Deleted: 112PESQUISA E DESENVOLVIMENTO 119 Luis Nassif 5/5/11 10:59O INPI E AS PATENTES 120 Deleted: 113O ATIVO SOCIAL DO SUS 121 Luis Nassif 5/5/11 10:59O NOVO PLANEJAMENTO 121 Deleted: 114A INTEGRAÇÃO CONTINENTAL 122 Luis Nassif 5/5/11 10:59O INTERESSE NACIONAL 123 Deleted: 115O PAPEL DO ESTADO NACIONAL 124 Luis Nassif 5/5/11 10:59O VÔO DO FALCÃO 125 Deleted: 116É A POLÍTICA, ESTÚPIDO 126 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 117 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 118 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 118 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 119 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 120 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 121 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 122 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 123 Luis Nassif 5/5/11 10:59 Deleted: 12428/08/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 5/127Os Cabeças de Planilha - EstruturaOs Cabeças de Planilha - EstruturaIntroduçãoAs etapas para o desenvolvimentoA primeira etapa do desenvolvimento: o caféA segunda etapa do desenvolvimento: a AboliçãoSituação internacional: grandes descobertas tecnológicas.Economia interna e monetização.Sistema financeiro internacional e as grandes bolhas especulativas.As mudanças financeiras EncilhamentoAs ferramentas de especulaçãoOs financistas do Encilhamento e o capital externoO governo Campos Salles.Movimento tenentista e a moratória de 1933.A redemocratização e o Plano Cruzado Os novos financistasOs "pirañas" financeiros.O plano Collor e os efeitos sobre a poupança.As primeiras privatizações.A entrada de Marcílio.Os preparativos do plano Real.A tese de Gustavo Franco.O plano RealAs ferramentas financeirasA reforma monetária e o PríncipeOs economistas financistas.O novo Brasil e o RealA inclusão de consumidores.Os saltos da economia.A situação mundial e a grande chance28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 6/127IntroduçãoIntroduçãoEm alguns momentos, na vida de uma nação, ocorrem terremotos políticos, geo-gráficos, que chacoalham estruturas sociais estratificadas, ampliam o mercado deconsumo e de cidadania e, se bem aproveitados, permitem saltos históricos no de-senvolvimento de um país.A rigor, esse processo ocorreu três vezes no Brasil.O primeiro, no final do século 19. A Abolição e a política de atração de imigrantescriaram a oportunidade para o grande salto de inclusão social e de ampliação domercado de consumo. Não houve políticas sociais de inclusão dos libertos; os imi-grantes não tiveram a posse da terra, demorando anos para acumular poupança erenovar os hábitos empresariais do país. Sem políticas de integração, em vez denovos cidadãos, se criou uma exclusão social que atravessou o século.A segunda grande oportunidade ocorreu no final dos anos 60. O processo de indus-trialização gerou rápida urbanização das cidades. Uma violenta seca no Nordesteprovocou enorme processo migratório. Mais uma vez, políticas de inclusão socialteriam parido uma nova sociedade, uma nova oferta de mão de obra especializada,um novo mercado consumidor. O regime militar nada fez. O resultado foi a deterio-ração dos serviços públicos e a criação das megalópoles, onde hoje em dia se con-centra a maior parte da miséria nacional. Depois, o esgotamento do “milagre” sedeu pela falta de um mercado interno vigoroso.Com o plano Real, teve-se a maior chance da história, maior que o pós-Abolição,maior que nos anos 70. As conquistas tecnológicas das últimas décadas esparrama-ram-se por todos os setores. O avanço da logística e das comunicações implodiu acadeia produtiva convencional das multinacionais. Elas passaram a distribuir suasfábricas pelo mundo e o Brasil seria o porto natural para os investimentos na Amé-rica do Sul.O fim da inflação, por sua vez, permitiu que milhões de brasileiros emergissem danoite para o dia para o mercado de consumo de forma indolor, sem movimentosmigratórios traumáticos, sem crises políticas desorganizadoras.A explosão de consumo dos meses iniciais do Real atraiu os olhos do mundo. Nofinal de 1994, havia projeções portentosas de crescimento da produção de bens deconsumo duráveis e não duráveis, atraindo a atenção das maiores empresas doplaneta.Por volta de 1994 fui entrevistado pela equipe de uma televisão finlandesa que pre-parava um especial sobre o Brasil. Estranhei o interesse de um país aparentementetão afastado do Brasil quanto a Finlândia. A resposta do jornalista foi que o Brasilera a bola da vez. “Vocês, a China, a Rússia e a Índia”. O conceito do BRICs come-çava a se consolidar.Dez anos depois visitei a China. O que assisti em Xangai e Pequim foi inesquecível,o parto de uma potência. Esses dez anos haviam sido fundamentais para moldar ofuturo da China. A lógica foi preparar uma espécie de projeto piloto de mercado,um mercado consumidor de 60 milhões de pessoas que serviam de chamariz inicialpara o capital internacional. E 1,2 bilhão de excluídos como mercado potencial. Àmedida que os investimentos iam sendo realizados, integravam-se mais chinesesao mercado de consumo, criando mais atrativos para novos investimentos.No Brasil, o sonho acabou em abril de 1995. Um profundo desequilíbrio nas contasexternas, intencionalmente provocado pela equipe do plano Real, impediu o país decontinuar crescendo. Com as contas externas em frangalhos, o Banco Central preci-sou aumentar as taxas de juros de forma explosiva. Houve um cavalo-de-pau naeconomia. Seguiu-se enorme processo de quebradeira do setor público e privado, ede crescimento exponencial da dívida pública.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 7/127O país foi dividido em dois: o país dos dólares – que enriqueceu rapidamente apli-cando em títulos públicos – e o país do Real -- que foi sufocado, sem acesso a cré-dito, sem condições de rolar seus passivos, pagando cada vez mais impostos paragarantir a remuneração dos rentistas.Todos os alertas foram feitos já em 1994, mais ainda em 1995. Mas até 1999 semanteve intocada a política cambial. Depois, pelo segundo mandato de FernandoHenrique Cardoso e pelo primeiro mandato de Lula, o BC continuou aplicando asmais altas taxas de juros do planeta.Mês após mês houve um refluxo do mercado, com os novos cidadãos voltando denovo para o limbo, para a zona cinzenta do baixo consumo e da baixa cidadania.Ano após ano o foi sendo queimada a oportunidade histórica de dar um salto no seuprocesso de desenvolvimento. Da mesma maneira que no início da República, coma política econômica implementada por Rui Barbosa que resultou no episódio co-nhecido como o “Encilhamento” – pesado jogo especulativo, primeiro com ações,depois com câmbio, que matou por quatro décadas as oportunidades de crescimen-to da economia brasileira.A vida de um país é formada por janelas de oportunidades. Elas permitem saltos,avanços, que, depois, vão sendo consolidados ano a ano, até o próximo salto, apróxima janela de oportunidades.São esses momentos que colocam à prova a racionalidade das elites. A passagempara um novo paradigma exige a superação dos esquemas de poder tradicionais,exige discernimento na implantação dos novos centros de poder, para evitar que osnovos privilegiados imponham seus interesses sobre os interesses maiores de país.Se a acumulação de riqueza do período é canalizada para investimentos produtivos,o país se desenvolve; patina se fica rodando em falso, nos investimentos meramen-te especulativos.O que leva um governo, uma equipe de economistas presumivelmente preparados,a cometer erros bisonhos, facilmente detectáveis por seus contemporâneos, comofoi o caso da apreciação do Real em 1994, ou da remonetização selvagem de RuiBarbosa em 1890? O que os leva a ignorar todos os alertas?A intenção desse trabalho é demonstrar as incríveis semelhanças entre os doismomentos cruciais, talvez as duas maiores janelas de oportunidade que o país jáexperimentou: a reforma monetária de Rui Barbosa, no alvorecer da República, e oPlano Real, no final do século 20.1. Ambos os momentos foram precedidos por intensas mudanças tecnológicas nospaíses centrais que, depois de maduras, passam a buscar os países periféricos. Noséculo 19, as ferrovias, a iluminação a gás e outros avanços ligadas ao processo deurbanização que marcou o período. No século 20, a Internet, as telecomunicações,os novos aparelhos eletrônicos,a computação.2. Essas descobertas criam a oportunidade para grandes movimentos especulati-vos, que induzem o sistema financeiro internacional à criação de novas ferramentasfinanceiras de captação de poupança. A especulação se dá pelo fato de que, sabe-se que as novas invenções serão dominantes no novo mundo, mas não se consegueavaliar as vitoriosas e qual o prazo de consolidação e o ritmo de crescimento delas.Essa incerteza abre espaço para os grandes movimentos especulativos. No século19, foram conhecidas as bolhas em torno de ferrovias, navegação a vapor e outrosempreendimentos; no século 20, em torno da Internet, das telecomunicações.3. Nas duas épocas há uma aceleração dos fluxos de capitais no mundo. À medidaque os movimentos especulativos crescem, bolhas são criadas, explodem, outrassurgem. Quando os ciclos tecnológicos amadurecem nos países centrais, o grandecapital volta os olhos para as economias emergentes. Passa a interferir no próprioprocesso político desses países, em busca do melhor ambiente para o grande capi-tal, que é o da pax universal. Em meados do século 19 esse movimento é iniciado28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 8/127pelos Rotschilds de Londres, comandando a Pax Britânica; no século 20 o movimen-to começa com a desvinculação do dólar do ouro, no governo Nixon, em 1972, ace-lera-se com o fim da União Soviética, e é comandado basicamente pelo Citibank,seguido dos grandes bancos de investimento norte-americanos.4. Para que esse movimento seja maximizado, há a criação de uma ideologia dedefesa do livre fluxo de capitais, da interferência política nos países periféricos (pa-ra impedir a eclosão de guerra ou o não cumprimento de contratos), da cooptaçãode quadros técnicos, políticos e econômicos, como associados menores desse capi-tal. Esses quadros técnicos atuam especialmente em duas frentes: na regulamenta-ção da economia e na garantia de livre fluxo cambial.5. Tem-se uma paz duradoura no período, comandada pelo grande capital. A utopiafascina. Imagina-se que, à medida que os países centrais vão se desenvolvendo, oscustos vão se tornando elevados, e o capital transbordaria para países periféricosuniversalizando o desenvolvimento. Bastaria, portanto, um ambiente favorável aocapital financeiro, livre circulação de capitais, que o desenvolvimento viria por si só.Em meados do século 19, a teoria em voga era a das vantagens comparativas. Ca-da país deveria se fixar naquilo que deveria ser sua vocação histórica – um princí-pio que condenava os produtores de matérias primas a se manterem assim até ofinal dos tempos.No final do século 20, vingou a teoria do capital externo como provedor de poupan-ça para os países emergentes. Bastaria criar as condições adequadas à sua atração,que o desenvolvimento se produziria automaticamente.Em ambas as ocasiões os emergentes que seguiram o receituário clássico torna-ram-se reféns de crises cambiais freqüentes. No final do século 19 representadapela quebra do Banco Bahrings, que provocou uma forte crise cambial na Argenti-na, rebatendo imediatamente no Brasil. No final do século 20, com o Brasil afetadosucessivamente pelas crises do México, Ásia, Rússia até explodir o modelo cambialno início de 1999.6. Em ambos os períodos, há a ampliação do processo de industrialização. No sécu-lo 19, com o capital inglês transbordando e permitindo a industrialização tanto dosEUA quanto da Europa. No final do século 20 com a implosão da cadeia produtivadas grandes multinacionais, em um movimento de implantação de grandes unida-des em alguns países-chave, particularmente nos BRICs (Brasil, Rússia, Índia eChina).Mas, curiosamente, só crescem os países que não seguem as regras preconizadaspelas grandes potências. Quem se abre para o livre fluxo de capitais e de comércio,não consegue se desenvolver. Nos dois momentos já havia um conhecimento sis-tematizado sobre os passos dados por países que lograram alcançar o desenvolvi-mento. Mas esse conhecimento é sufocado pela atoarda ideológica dos que defendi-am o livre fluxo de capitais.7. Em ambos os momentos, o Brasil perde o bonde. No final do século 19 com oepisódio conhecido como o “Encilhamento”; no final do século 20, com a apreciaçãodo Real. Houve uma mesma lógica explicando os dois episódios e, em ambos osmomentos, crises cambiais que ajudam a precipitar o desastre.Nos dois episódios, o processo-chave a ser desvendado é o da “remonetização” daeconomia. Isto é, o processo de injeção de moeda na economia de forma maciça,processo de reforma monetária que se repete poucas vezes na história e que confe-re a seus formuladores poderes discricionários. Se utilizados com sabedoria e patri-otismo, mudam a face dos países; se se deixam prevalecer os interesses individu-ais, matam por gerações as chances de desenvolvimento.É isso o que procuraremos sintetizar no próximo capítulo.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 9/127“Encilhamento” e Real: oportunidades perdidas“Encilhamento” e Real: oportunidades perdidasNo século 19 o fechamento econômico havia produzido, no Brasil, uma classe agrá-ria anacrônica; no final do século 20, uma classe industrial mal acostumada. Comesse movimento de abertura, com a economia mundial mergulhando em processosagudos de liberalização financeira, surge uma nova classe, internacionalizada, do-minando as últimas ferramentas financeiras. São os “financistas”, no século 19 re-presentada pelo Barão de Mauá, Conselheiro Mayrink, Conde de Figueiredo, Condede Leopoldina; no final do século 20, pelos bancos de investimento que surgem nosanos 80, como o PEBB, Garantia, Icatú, Pactual.Nos dois momentos, havia uma economia nacional que começava a se integrar aomundo, grande liquidez internacional, uma situação excepcional na economia mun-dial, e um paradoxo brasileiro: um enorme potencial a ser explorado no mercadointerno e uma poupança acumulada no período anterior, empoçada ou meramentepreocupada com ganhos especulativos por falta de um ambiente de negócios favo-rável.Externamente, havia um volume expressivo de capitais brasileiros no exterior --uma mistura de sub-faturamento das exportações, corrupção política, crime organi-zado e caixa dois—que florescia sob os ventos dos novos mecanismos financeiroscriados para alavancar as novas modalidades de negócios. No século 19, a poupan-ça liberada pela Lei Eusébio de Queiroz, que proibiu o tráfico negreiro; no século20, os enormes ganhos especulativos proporcionados pela inflação dos anos 80.Nos dois momentos, há uma confluência inédita de fatores, abrindo a possibilidadede notável expansão no mercado de consumo. No século passado com a Abolição ea política de importação de imigrantes cria-se um novo mercado interno com enor-me potencial. No final do século 20 com os milhões de brasileiros que ingressam nomercado de consumo nos primeiros meses do Real, abre-se a possibilidade de umenorme salto no mercado consumidor.Por outro lado, o crescimento dos países centrais provoca o transbordamento decapitais produtivos para países que privilegiam o mercado interno. No século 19,capitais ingleses ajudam na industrialização dos Estados Unidos; no século 20, capi-tais americanos se voltam para a Ásia e para a China.Em ambos os momentos, no Brasil, há a necessidade de uma remonetização da e-conomia, isto é, de uma política de aumento das emissões monetárias para atenderàs novas demandas da economia: no final do século 19, devido à mudança nas re-lações do campo, com a substituição do trabalho escravo pelo trabalho assalariado;no Plano Real, com o fim da inflação e a substituição de uma moeda inflacionada (ocruzeiro) por uma nova moeda, o real.A nova etapa de desenvolvimento depende de movimentos prévios bem sucedidos.O primeiro, da criação de um ambiente favorável à realocação da poupança internae do investimento externo. O sucesso desse movimento depende de dois fatores:uma nova regulação, que prepare a economia para as novas formas de negócio in-ternacionais; e uma remonetização adequada, que canalize a poupança para a ati-vidade produtiva.Só que o controle sobre a remonetização confere um poder inédito aos seus condu-tores. Nos dois momentos – no “Encilhamento” e no Plano Real --, os interessesindividuais se sobrepuseram aos interesses de país. Em lugar do salto de cresci-mento, houve concentração de renda, rentismo desbragado, aumento geométricoda dívida pública e estagnação da economia.Essa é a chave para se entender os dois momentos: a remonetização, o poder con-ferido às autoridades econômicas e políticas para definir de que maneira o novo di-nheiro fluirá para a economia. É aí que se dá o pacto de poder e de dinheiro entre28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 10/127os novos grupos hegemônicos, os condutores da política econômica, o poder finan-ceiro e o poder político.Nos dois momentos os personagens são os mesmos. Mudam apenas os atores.Os personagens da históriaRentista – é o personagem passivo (ou não) da história. É o detentor do grandecapital nacional, que vai atrás de rentabilidade para ele. No século 19 eram ex-traficantes de escravos, comerciantes que enriqueceram com exportação de café oude algodão, políticos ou advogados com influência nas políticas públicas. Mantinhamseus recursos entesourados no país; os mais sofisticados, aplicavam na praça lon-drina. Nos anos 90, especuladores que enriqueceram na década de 80, com osgrandes movimentos agressivos do mercado de capitais e da dívida pública brasilei-ra, políticos ou funcionários públicos que enriqueceram com grandes golpes permi-tidos pelo processo inflacionário; empresários que venderam suas empresas e re-solveram viver de rendas. No final dos anos 80 há início um processo de internacio-nalização dessa poupança, com os recursos sendo depositados inicialmente embancos suíços e, depois, em paraísos fiscais preferencialmente do Caribe.Financista – são os donos de bancos de investimento que atuam para o grandecapital rentista, têm contato com o grande capital internacional, e aprenderam asnovas formas de engenharia financeira. No final do século 19 os nomes mais ilus-tres são o Conde de Figueiredo, o Conselheiro Mayrink, o Conde de Leopoldina. Nosanos 80, um conjunto amplo de corretoras que se transformam em bancos de in-vestimento. Dentre eles, os mais destacados são o PEBB, Garantia, Pactual, Icatu,Bozzano Simonsen. Nos anos 90 entram em cena o Opportunity, o Matrix, o BBA.Político – tem papel fundamental para definir o ambiente regulatório adequado aofinancista e ao rentista. Depende do rentista como financiador de eleições; do eco-nomista como formulador das bandeiras de campanha. No alvorecer da Republica,ante a alienação do Marechal Deodoro, a figura-chave é o primeiro Ministro da Fa-zenda republicano, Rui Barbosa. No Plano Real, ante a alienação de Itamar Franco,o Ministro da Fazenda e depois presidente Fernando Henrique Cardoso dá as cartas.Economista – o formulador de política econômica. É o peão, o sujeito que faz omeio campo entre os interesses dos financistas e dos políticos. Em geral, estudoufora ou tem conhecimento das últimas teorias econômicas, e das últimas práticasregulatórias. O conhecimento que traz de fora, em linha com o último pensamentoeconômico, ou com a ideologia dominante, fornece o discurso de que carece o polí-tico para se legitimar perante a opinião pública. Seu conhecimento técnico definiráo modelo regulatório ou de monetização que atenda aos interesses dos financistas edos rentistas. Ele cumpre seu papel no governo e se torna sócio menor dos finan-cistas. Foi o caso de Rui Barbosa, no “Encilhamento” e de praticamente todos oseconomistas que ajudaram na formulação do Plano Real.A “haute finance”—designação do economista Polanyi para o grande capital fi-nanceiro que começa a se organizar em meados do século 19, no primeiro grandeciclo de liberalização financeira e passa a intervir decididamente na vida das na-ções, visando criar o ambiente adequado para os negócios. Na primeira etapa, nofinal do século 19 o predomínio era dos bancos ingleses, capitaneados pelos Rots-child; na segunda, no final do século 20, da banca norte-americana, lierada peloCitibank.Ferramentas de poderHavia três ferramentas poderosas das quais se valeram os economistas brasileirospara exercer o poder e abrir caminho rumo à fortuna pessoal: a remonetização,permitindo a acumulação de renda nas mãos do grande capital, a regulação daeconomia, criando o espaço favorável para o desenvolvimento do grande capital, e28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 11/127a administração da dívida pública, como o grande lócus onde iria ocorrer atransferência de renda dos demais setores da economia para o capital rentista.No governo Deodoro, o movimento se dá em torno das grandes concessões ferrovi-árias, de serviços públicos ou de terras para colonização. No governo FHC, na pri-vatização e no crescimento descontrolado da dívida pública.Rui Barbosa viu na reforma monetária a possibilidade de beneficiar grupos específi-cos --e de ser beneficiado por eles. Beneficiou especialmente o Conselheiro Francis-co de Paula Mayrink e saiu do governo sócio de três mpresas dele.Do lado dos economistas do Plano Real, o processo foi semelhante. Eles surgem nobojo do Plano Cruzado, voltam com o Plano Real e implementam a troca de moe-das. Deparam-se, nesse trabalho, com o negócio do século: a reciclagem da pou-pança brasileira que, desde meados dos anos 80, se internacionalizara.Esses momentos permitem redesenhar o futuro não só econômico como político dospaíses. Defina-se por onde circulará o novo dinheiro e se definirá quem serão osnovos vitoriosos da economia.Se se decidisse remonetarizar pela não rolagem da dívida pública, por exemplo, ha-veria uma esplêndida redução do endividamento – que já havia sido bastante redu-zido pelo bloqueio de cruzados do Plano Collor.Decidiu-se pela remonetização através da captação externa de dólares, que aquieram adquiridos pelo Banco Central através da emissão de reais.Em todo processo de estabilização usando como âncora o câmbio, há a preocupa-ção em criar uma gordura, uma desvalorização cambial inicial que propicie fôlegopara a estabilização. Depois do início do plano, o câmbio tem que permanecer está-vel para sinalizar para a nova estrutura de preços, e permitir a importação de pro-dutos sujeitos a altas especulativas. Por isso a gordura inicial é essencial.A cada dia que passa, há uma inflação interna não inteiramente domada, que é re-passada para os preços dos produtos exportados. Sem possibilidade de compensarcom o câmbio, ocorre um encarecimento dos produtos internos vis-a-vis os produ-tos externos. Há uma redução das exportações, um aumento das importações, coma perspectiva de um estrangulamento cambial a médio prazo. Daí a necessidade dese criar uma gordura inicial no câmbio, para permitir uma folga que suporte o perí-odo de transição da estabilização.Com o Plano Real, em vez dessa precaução, tratou-se de apreciar o Real em 15%da noite para o dia. Não se tratava apenas de criar um garantia extra, ainda queexagerada contra a inflação. Sem oficialmente consultar ninguém da equipe, a e- Luis Nassif 18/7/06 23:31xemplo de Rui Barbosa quando anunciou os beneficiários de sua política monetária, Comment: Conferir dadoGustavo Franco tomou a decisão solitária de apreciar o câmbio em níveis irreais. Oúnico aplauso foi de Mário Henrique Simonsen, guru maior do grupo, e membro doConselho Internacional do Citibank.Em seguida, especialmente Edmar Bacha e Gustavo Franco, passaram a difundir anecessidade de criação de déficits em contas correntes, que permitisse atrair pou-pança externa, que ajudaria a complementar a poupança interna e a pavimentar ocaminho do crescimento. Tratava-se de um princípio econômico falso (cujos funda-mentos discutiremos mais adiante), mas que serviu de álibi para a apreciação cam-bial.No início do plano Real a balança comercial exibia um superávit anual de US$ 14bilhões. No segundo semestre de 1994, todas as imprudências foram cometidas pa-ra reverter esse quadro. Além da apreciação cambial, derrubaram-se tarifas de im-portação, facilitou-se até a importação pelo correio.Para que o modelo de remonetização via ingresso de capitais externos fosse bemsucedido, isto é, para que criasse uma nova elite financeira e política, havia a ne-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 12/127cessidade de transformar o dólar em ativo escasso. Quanto mais escasso o dólar,maior a taxa de juros para atraí-lo.No final do ano, as contas externas estavam desequilibradas e tinha se alcançado oobjetivo de tornar o dólar um ativo raro, pelo qual o Tesouro chegou a pagar 45%ao ano.Quem dominava o circuito de captação de dólares passou a deter o poder. Quemnão dominava, quebrou. Com o golpe da apreciação, em poucos meses criou-seuma enorme dependência de dólares. Com essa manobra simples, aparentementeasséptica, estava definido o jogo, sem expor o flanco ao inimigo, como com RuiBarbosa, quando escolheu nominalmente os vencedores do jogo da remonetização.Quem comandou o movimento de atração de dólares foram os novos bancos de in-vestimento. A maior parte dos recursos externos captados era do grande capitalbrasileiro exportado nos anos anteriores. Em menos de um ano, a crise de inadim-plência quebrou a espinha dorsal da indústria e da agricultura.Em vez de esterilização da dívida pública, houve crescimento exponencial para re-munerar os fluxos de capitais externos. Foi nesse ambiente da dívida pública que seprocessa a maior transferência de renda da história.No Encilhamento e no Real houve especulação enriquecimento de poucos, concen-tração de renda e – pior – mataram-se as duas maiores janelas de oportunidadeque a história do país registrou.Politicamente, o processo tem um discurso legitimador, não explicitado, uma espé-cie de código tácito entre seus operadores. O país tem uma classe empresarial ana-crônica, um operariado despreparado, não tem quadros tecnológicos disponíveis?Simples, escolhe-se uma classe internacionalizada – os financistas – com experiên-cia em novos modelos de negócios, acesso ao grande capital interno-exportado einternacional, e lhes entregue as ferramentas para se transformar nos agentes demodernização. Na interpretação de San Tiago Dantas, Rui Barbosa teria tentado“libertar forças novas que substituíssem a estrutura agrária e feudal do Império”.Com o tempo, os interesses particulares se sobrepõem ao geral. Cria-se um proces-so econômico torto, adaptado aos interesses de grupos, supondo-se que o novomodelo colocará a economia em um círculo virtuoso, capaz de corrigir sozinha asconcessões iniciais. Depois, o projeto vai se entortando mais e mais, a sobrevivên-cia dos beneficiários passa a exigir novas gambiarras, que acabam por entortarmais o que torto está. Novos grupos de interesse se solidificam rapidamente sobreos alicerces tortos do modelo inicial.Os pontos centrais do fracasso são comuns a todos esses movimentos especulati-vos. Primeiro, o deslumbramento com a riqueza fácil, criando uma espécie de lassi-dão moral nos economistas, que passaram a subordinar todas as decisões de políti-ca econômica aos interesses imediatos do capital rentista.As demonstrações de novo-richismo no período não ficam atrás do ambiente descri-to pelo Visconde de Taunay em seu romance “O Encilhamento”. Todos da classemédia, alguns ex-funcionários públicos, um se torna piloto de corrida e criador decavalos, outro convida para degustação de vinhos em sua casa, através de colunassociais, todos, em algum momento, tornam-se sócios de bancos de investimento,seguindo o exemplo de Rui Barbosa.O segundo ponto, conseqüência do primeiro, foi a escolha dos financistas que co-mandaram o processo. Com os interesses pessoais se sobrepondo aos nacionais,levou quem se articulou melhor.O terceiro, a falta de um estadista para corrigir o errado. Não há como construiruma nação sem uma profunda profissão de pé nos seus habitantes, e sem raciona-lidade.. Napoleão e Caixas dormiam com seus soldados, Franklin Roosevelt celebra-va a força do americano comum. FHC nunca ocultou seu deslumbramento com ossalões e seu desprezo com sua missão de “comandar o atraso”. Esse temperamento28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 13/127explica a falta de vontade em corrigir as distorções e o fato do desenvolvimento in-terno jamais ter se tornado prioridade em seu governo.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 14/127“Chutando a própria escada”“Chutando a própria escada”O exemplo americanoNo final do século 19, já havia uma consciência nacional sobre os modelos de de-senvolvimento bem sucedidos no mundo. Manoel Bonfim, o grande médico-psicólogo-historiador sergipano, autor do fundamental “América Latina, Males deOrigem” mostrava um claro diagnóstico sobre o processo de desenvolvimento dosEstados Unidos, Japão e Argentina.Em meados do século 19, o economista alemão Friedrich List havia escrito uma o-bra seminal, identificando o processo de desenvolvimento das nações, do momentoem que são constituídas ao momento em que se tornam hegemônicas, ou que seperdem pelo caminho.O grande exemplo da elite brasileira eram os Estados Unidos, embora a influênciabritânica persistisse até a década de 1930. De lá vinham as modas do mercado decapitais, da legislação tributária, o exemplo da independência. Havia um movimen-to irresistível de aproximação com os EUA, até como reação à influência britânica.Em 1792, o Secretário do Tesouro norte-americano, Hamilton, apresentou o “Re-port of Manufactures”, onde propunha a defesa das manufaturas norte-americanas,em reação ao protecionismo que havia na Europa.As tarifas iniciais foram insuficientes. Além disso, havia latente o conflito norte-sul.O norte, industrializado, demandava proteção; o sul, consumidor, reclamava do en-carecimento dos produtos. Mas em 1808, com a guerra explodindo, o comércio coma Europa foi interrompido. Em um ano o número de indústrias têxteis saltou de 8para 31 mil. Embora ainda tímida, a defesa tarifária logrou estimular a manufaturainterna.Com seu pragmatismo, os EUA queriam segurança, que as manufaturas viessem seinstalar perto dos agricultores, para prevenir o desabastecimento em caso de guer-ra.A discussão estava acesa quando, em 30 de julho de 1827, durante a ConvençãoNacional dos Protecionistas de Harrisburg, surge a voz poderosa de Friedrich List(1789-1846), economista alemão exilado de seu país por causa de suas idéias, quecontrariavam o pensamento dominante de Adam Smith e Ricardo, com sua teoriadas vantagens comparativas. Pela teoria, cada país deveria se fixar nos produtosem que pudesse obter vantagens claras. Dessas especializações sucessivas se teriaum mundo cosmopolita, integrado e mais eficiente.Adam Smith e J.B.Say diziam que, da mesma forma que a Polônia, os Estados Uni-dos estavam destinados à agricultura, aproveitando o que natureza lhe oferecera.List se insurgia contra esses conceitos. Na Alemanha, sua atuação foi decisiva paraa criação da união aduaneira dos estados alemães, início do futuro grande impérioalemão, e também para seu exílio, por seu estilo contundente de polemizar.Nos EUA, seu papel foi fundamental para consolidar os princípios defendidos porHamilton, conferindo-lhe consistência técnica. Publicou doze cartas no PhiladelphiaNational Journal, muitos anos depois, em 1841, juntadas no livro “Sistema Nacionalde Economia Política”.Pela primeira vez, eram sistematizadas experiências nacionais de desenvolvimentoe se rompia com um pensamento dogmático e esquematizante que se seguiu aolivro “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith. A essa altura, Adam Smith, Quesnaise Ricardo iniciavam a construção da economia, como ciência. Os valores do livrecomércio eram cantados com ênfase, trazendo o ideal da universalização dos negó-cios e das nações.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 15/127List partia da análise da realidade, das experiências históricas, para lançar as basesda nova Economia Política. No prefácio à primeira edição, descrevia a maneira comodesenvolveu sua metodologia. Ainda estavam vivos em sua memória os ganhos queFrança e Inglaterra haviam obtido com o livre comércio, a primeira abolindo as tari-fas alfandegárias internas, a segunda unificando três reinos na Grã-Bretanha. Por-que com outros países não ocorria esse ganho?O “insight” de List foi o de que os princípios de livre comércio de Adam Smith fun-cionavam maravilhosamente bem, mas só na hipótese de que todas as nações ob-servassem entre si os princípios de livre comércio em igualdade de condições.Para List, a teoria econômica levava em consideração apenas a humanidade comoum todo e os indivíduos. Mas entre o indivíduo e a humanidade havia as nações.Em um ponto qualquer do futuro, a humanidade chegaria na situação de que todasas nações convergiriam para uma única federação. Mas, enquanto esse ponto nãoavançasse, não se poderia considerar o livre comércio como uma saída – especial-mente para as nações mais fracas.O livre comércio entre duas nações civilizadas só poderia ser mutuamente benéficose ambas estivessem em um mesmo patamar de desenvolvimento industrial. Qual-quer nação que estivesse atrasada em relação a outra, do ponto de vista industrial,comercial e naval, mesmo possuindo meios materiais e humanos para se desenvol-ver, deveria, antes, aparelhar-se para entrar na livre concorrência com nações maisdesenvolvidas.Em 1840 List previa que em breve os EUA se tornariam o maior país do mundo. Arazão, segundo ele, é que, dotada de espírito pragmático, a elite norte-americananão se conformara com a teoria das vantagens comparativas.Se os EUA fossem seguir os ensinamentos de Adam Smith e apostar apenas em su-as vantagens agrícolas, dizia List, a população norte-americana teria se espalhadopor todo o país, se diluído, sem a menor possibilidade de se formar um mercadointerno forte, capaz de alavancar a industrialização.Ao contrário, com a Lei dos Têxteis, de Hamilton, os EUA passaram a proteger suaindústria nascente, a concentrar a população na costa Atlântica e a gerar massacrítica para iniciar a industrialização. Depois, uma política inteligente de distribuiçãode lotes a imigrantes ajudou na consolidação da moderna agricultura norte-americana, superando o modelo agrícola anacrônico do sul.Simultaneamente, grandes ferrovias passaram a integrar todo o país, permitindo aligação do Atlântico com o Pacífico, fugindo do controle severo que a Inglaterra e-xercia sobre o comércio marítimo do Atlântico. No final do século 19, os EUA jádespontavam como grande potência mundial, e era modelo para muitos brasileiroslúcidos, como o próprio Manoel Bonfim.O exemplo inglêsA estratégia inglesa servia de comprovação para as teses de List. A Inglaterra tor-nou-se a maior potência da época por ter evitado o erro de abrir seu mercado antesda hora. No início, a base de sua economia era vender lã de ovelhas em estadobruto para a Bélgica, onde eram tingidos e trabalhados. Sob o reinado de Carlos I eJaime I houve proteção à produção inglesa. Em breve, a indústria têxtil se consoli-dou, a Inglaterra passou a exportar tecidos finos, de valor agregado, e a importarpouquíssimo.Até Jaime I, as exportações de manufaturados de lã respondiam por 9/10 das ex-portações inglesas. Com a proteção à sua indústria, a Inglaterra conseguiu expulsaras exportações da Liga Hanseática para a Rússia, Suécia, Noruega e Dinamarca.Conseguiu lucros enormes no comércio com Orienta e as Índias Orientais e Ociden-tais. A indústria da lã estimulou a mineração do carvão que, por sua vez, deu ori-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 16/127gem ao extenso comércio pesqueiro e à pesca, os dois últimos servindo de base àmontagem do poderia naval britânico, consolidado nas Leis de Navegação. Duramente criticadas por Adam Smith, as Leis de Nanegação davam exclusividadepara os navios ingleses no transporte de carvão e todo transporte comercial marí-timo.Outros setores de manufaturas foram protegidos. No reinado de Isabel, foram proi-bidas importações de artigos de metal e de couro, e foi incentivada a migração demineiros alemães e trabalhadores em metal (List, 33). Também proibiu a constru-ção de navios fora do pais e estimulou a vinda de trabalhadores especializados.Para concorrer com a pesca de arenque dos holandeses e com a pesca da baleiados moradores de Biscaia, Jaime I chegou a exortar os ingleses a aumentar o con-sumo de peixe. Finalmente, artesões protestantes expulsos da Bélgica e da Françaforam acolhidos pela Inglaterra e, em troca, lhe deram a excelência na manufaturade lã fina, na fabricação de chapéus, linho, vidro, papel, seda, relógios de parede ede pulso, manufatura metalúrgica.Em cada país europeu a Inglaterra foi buscar o que tinha de melhor. Depois, im-plantou sua própria manufatura, à custa de proteção alfandegária e estímulos dediversas naturezas. O aumento da marinha mercante permitiu a construção de umamarinha de guerra que ajudou a derrotar os holandeses.As conseqüências maiores das Leis de Navegação foram as seguintes (List, 34):1. A expansão do comércio inglês com todos os reinos nórdicos, Alemanha e Bélgi-ca, comércio do qual os ingleses haviam quase totalmente sido excluídos pelos ho-landeses até 1603. A lógica implacável dos ingleses era a de importar matériasprimas e exportar manufaturados.2. Expansão incalculável do comércio de contrabando com a Espanha e Portugal, ecom suas colônias das Índias Ocidentais.3. Aumento substancial da pesca de arenque e da baleia, atividades antes quasecompletamente monopolizadas pela Holanda.4. Conquista da mais importante colônia inglesa nas Índias Ocidentais, a Jamaica,em 1655, permitindo o controle sobre o comércio açucareiro na região.5. Conclusão do Tratado de Methuen (em 1703) com Portugal, que assegurou umavantagem inquestionável para a Inglaterra.List chamava particularmente a atenção para a maneira habilidosa como os inglesescasaram seus interesses em Portugal e na Índia. E produziu uma obra prima de sín-tese, mostrando as peças em jogo no Tratado de Methuen. Primeiro, a maneira co-mo a Inglaterra atuou em cima das condições dadas. Segundo, o que teria ocorridose tivesse seguido os ensinamentos de Adam Smith e Ricardo.Desde 1721, na abertura do Parlamento daquele ano, o rei Jorge I havia explicitadoa estratégia inglesa: “É evidente que nada contribui tanto para o bem-estar públicoquanto a exportação de produtos manufaturados e a importação de matéria-primado estrangeiro”. Mais do que uma teoria vaga, a Inglaterra montou sua estratégiaem cima desse princípio vital.Havia quatro blocos de países em jogo.A Inglaterra, com sua manufatura em expansão e o domínio do comércio do Atlân-tico, com as Índias Orientais e Ocidentais.Portugal tinha metais que interessavam a Inglaterra, e uma indústria de vinhos.A Índia tinha uma indústria têxtil poderosa, mais articulada que a inglesa, e outrasmanufaturas desenvolvidas. Mas tinha carência de ouro.A Inglaterra não queria importar manufaturas indianas, por serem mais competiti-vas que as suas. Mas havia demanda por produtos indianos em outros países da28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 17/127Europa que, por sua vez, produziam matérias primas que interessavam à Inglater-ra.O acordo com Portugal, firmado pelo embaixador britânico Paul Methuen previa osseguintes pontos:1. A Inglaterra permitiria a importação de vinhos portugueses com tarifas alfande-gárias equivalentes a 1/3 das tarifas de países concorrentes.2. Portugal consentiria em importar roupas e tecidos ingleses com taxas alfandegá-rias de 23%, mesma alíquota cobrada antes de 1684, quando Portugal se tornouprotecionista.Para o rei de Portugal, o acordo interessava pela possibilidade de aumento das re-ceitas alfandegárias. Da parte da nobreza portuguesa, havia aumento da renda peloaumento das exportações de vinhos. A rainha Ana da Inglaterra saudou Portugalcomo “seu mais antigo amigo e aliado”, “baseado no mesmo princípio pelo qual oSenado romano, antigamente, outorgava títulos aos governantes que cometiam aimprudência de estreitas relações comerciais com o império”, como lembra List(List, 47).Imediatamente após o acordo, houve uma inundação de manufaturas inglesas quepraticamente arrebentou com a indústria portuguesa. A Inglaterra recorreu a todosos expedientes, inclusive colocando produtos sub-faturados, para pagar menos ta-xas alfandegárias. Na outra ponta, levou toda prata e ouro de Portugal.O Oriente tinha uma manufatura avançada de lã e algodão. Se abrisse as importa-ções de lã e seda aos produtos da Índia, a manufatura inglesa teria sido liquidada.Não interessava à Inglaterra importar produtos de valor agregado. O que ela fezentão? Exportava suas manufaturas para Portugal e recebia o ouro e prata em pa-gamento. Com eles, adquiria os produtos do Oriente e vendia para o mercado eu-ropeu, mas na Inglaterra eles não entravam. Dos países europeus a quem vendiaos produtos indianos, os ingleses adquiriam matérias primas que serviram para a-limentar sua manufatura.Essa posição da Inglaterra foi insensata, indagava List? De acordo com os princípiosde Adam Smith e da Teoria dos Valores de J. B. Say, sim. Teria sido loucura fabri-car internamente produtos mais caros, e ceder aos países do continente os produ-tos mais baratos adquiridos da Índia. No entanto, a Inglaterra se transformou napotência hegemônica do período. Isso porque não estava interessada simplesmenteem adquirir artigos manufaturados de baixo custo e perecíveis, mas adquirir a “for-ça de produção”.Com essa estratégia, a Inglaterra conquistou um poder sem paralelo; os demaispaíses, que adquiriram manufaturas mais baratas, não se desenvolveram.List lembrava que no capítulo 6º de seu Livro 4º, Adam Smith criticava acerbamen-te o tratado. Alegava que os portugueses levavam uma vantagem decisiva, ao ex-portar vinhos a taxas alfandegárias inferiores a seus concorrentes.Enquanto isto, osingleses exportavam tecidos pagando taxas alfandegárias quase iguais a de seusconcorrentes.Os ingleses não auferiram nenhuma vantagem especial com o tratado, continuavaAdam Smith, pois eram obrigados e enviar para outros países grande parte do ouroque recebiam de Portugal, pelas exportações de seus tecidos. Nesses países, eramobrigados a trocar o ouro por produtos locais.Logo, teria sido muito mais vantajoso para a Inglaterra trocar diretamente seus te-cidos por produtos portugueses que necessitavam. Haveria uma única troca, emvez das duas, embutidas no acordo com Portugal.Essa lógica linear não correspondia aos fatos reais, bradava List. Antes, Portugalimportava grande parte dos artigos estrangeiros da França, Holanda, Alemanha eBélgica. A partir do Tratado, os ingleses passaram a comandar o mercado portu-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 18/127guês para um produto manufaturado, de cuja matéria prima ela, Inglaterra, era au-to-suficiente.Além disso, o enorme superávit inglês provocou um desequilíbrio nas taxas decâmbio. A valorização da libra frente à moeda portuguesa fez com que os preçosdos produtos portugueses chegassem 50% mais baratos aos consumidores ingle-ses. Com isso, praticamente acabaram as exportações de vinhos franceses e ale-mães na Inglaterra.O ouro e prata de Portugal garantiram à Inglaterra acesso aos produtos indianos,com que inundaram a Europa, arruinando as manufaturas portuguesas. Todas ascolônias portuguesas, especialmente o Brasil, se transformaram em feudos ingle-ses.Era um jogo extraordinariamente complexo, sofisticado, fulminante, para caber a-penas nas regras gerais da nova ciência que surgia, a economia.Nas relações comerciais, a Inglaterra era impiedosa. Em todos os tratados comerci-ais concluídos pelos ingleses, havia a tendência de incluir a venda de seus produtosmanufaturados, oferecendo vantagens aparentes de troca por matéria prima e pro-dutos agrícolas. Em todos os casos, oferecia financiamentos e produtos mais bara-tos, visando destruir as manufaturas concorrentes. Além dos tratados, os inglesesse especializaram em fraudar a alfândega e em estimular o contrabando.Com o bloqueio continental de Napoleão, pela primeira vez as manufaturas alemãse francesas começaram a registrar progressos importantes e que se generalizaram.Com a volta da paz, a manufatura inglesa voltou, retomando a antiga primazia edestruindo as indústrias concorrentes.O exemplo da Argentina1De 1880 a 1910, em apenas vinte anos os argentinos transformaram um país qua-se selvagem, com um terço do território ocupado por índios, sem moeda própria,sem presença no comércio internacional na primeira potência a emergir do hemisfé-rio sul, um dos quatro maiores PIBs do mundo, o maior exportador de cereais doplaneta, o segundo maior exportador de carnes, após os Estados Unidos.Quando se consumou o processo de integração do país, até então dividido por guer-ras intermitentes entre as províncias, Buenos Aires se transformou em capital defato. A província de Buenos Aires mudou sua capital para La Plata, e as rendas daaduana passaram a ser nacionais. Sob a presidência de Juan Roca, criava-se umaNação e, tocando o projeto nacional, um Estado com receita própria, exército na-cional (assim como o nosso, que se profissionalizou na guerra do Paraguai). Calhou,nesse momento, o aparecimento de uma elite racional, com um projeto de país.A base do pensamento estratégico havia sido fornecida, anos antes, pelo advogadoJuan Bautista Alberdi, que defendia a imigração controlada. Haveria o estímulo aosimigrantes, a garantia de propriedade, de acesso aos bens públicos, inclusive doingresso no serviço público. Apenas não lhes facultava provisoriamente o direito deeleitor. A visão de Alberdi era a de que os imigrantes gradativamente inoculariam asociedade argentina com os valores do trabalho de seus países de origem e, apósalgumas décadas, com o país civilizado, haveria reformas políticas que completari-am o processo.Mais que isso, através da criação do Conselho Nacional da Educação em 1882, de-cidiu-se universalizar o ensino gratuito. Os pais eram obrigados a colocar os filhosna escola, as províncias mais pobres eram ajudadas pelo governo central.No plano econômico, teve início a grande “revolução dos Pampas”, a ocupação degrandes áreas, muitas quase desérticas, dominadas pelos índios, primeira tentativade agricultura organizada no país. O exército ia à frente abrindo espaço. Inovaçõestecnológicas garantiam os saltos de produtividade. A primeira foi a cerca, que per-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 19/127mitiu confinar o gado e preservar a lavoura, transformando a região, ao mesmotempo, em produtora de carne e grãos. Outra foi o moinho de vento, importado daAustrália, que extraía água do subsolo, acabando com a dependência de rios ou la-gos, e ampliando as terras agricultáveis. Na mesma época, o campo começa a re-ceber as primeiras máquinas a vapor.Quando um francês inventou o frio artificial, e surgiram os primeiros navios frigorí-ficos, a Argentina explodiu como exportadora de carnes para a Europa. No início doséculo já era o maior exportador de cereais e o segundo maior exportador de car-nes do mundo, atrás dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, uma política protecio-nista racional ajudava a fortalecer a indústria de vinhos de Mendoza e a açucareirade Tucumã.As raízes ibéricas plantaram as sementes das crises posteriores que liquidaram comos sonhos de potência dos argentinos. As terras conquistadas ficaram nas mãos dostarratenientes –oficiais do exército que se apossaram delas e que, na maior parte,viviam do arrendamento aos imigrantes. Estratificou-se a propriedade da terra, ogrupo dos fundadores da nacionalidade envelheceu morreu, ficando elite predadora,enriquecida, deslumbrada pela rapidez com que tudo foi conquistado.Depois, em 1930 ocorreu o primeiro golpe de Estado. Mas as raízes plantadas na-queles curtos anos foram tão fortes que, mesmo passado do populismo mais des-bragado ao liberalismo mais irresponsável, a Argentina resistiu.A receita do crescimentoO tratado de List decifraria, de forma ampla e sistêmica, o espetáculo do desenvol-vimento. O desenvolvimento não podia se sustentar em uma perna só. De nada a-diantaria de uma boa manufatura, sem dispor de uma esquadra naval adequada.De nada adiantaria a esquadra sem um mercado interno que garantisse os princi-pais produtos.No caso da Liga Hanseática, durante séculos praticaram o que a nova ciência pre-conizava: compravam barato e vendiam barato. Quando os ingleses lograram fe-char os mercados para os mercadores da Liga, como não havia nem agriculturanem indústria manufatureira nativa suficientemente desenvolvida, o capital emi-grou para a Holanda e para a Inglaterra.Em seu tratado, List abordaria praticamente todos os pontos que, no final dos anos90, o Brasil começaria a estudar para tentar recuperar o caminho do desenvolvi-mento.Tudo começava por uma visão estratégica adequada, dizia List. Poder é mais im-portante que riqueza. O poder nacional é uma força dinâmica, que abre a porta pa-ra novos recursos produtivos. O poder precisa ser utilizado para gerar novas forçasde produção, e manter as existentes. Por poder, List definia a capacidade de umanação de defender sua produção, de impor regras comerciais, de dominar fluxos decomércio.Ponto central nas análises de List era o caráter nacional. Atribuía a enorme riquezada Inglaterra não apenas ao poder nacional e ao amor inato do inglês pelo ganhofinanceiro. Considerava fundamental o amor inato do povo à liberdade e à justiça, àenergia, ao caráter moral e religioso. Incluía nesse ambiente favorável a Constitui-ção do país, as instituições, a sabedoria e a força do governo e da aristocracia (List,39).Enquanto as liberdades civis atraiam para a Inglaterra capital e novos talentos, aEspanha perdeu todo seu ímpeto de grande potência, todos os elementos de gran-deza e prosperidade quando a Inquisição expulsou os judeus e os mouros, ao todo2 milhões de seus mais operosos e abastados habitantes. Fugiram eles e seu capi-tal.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 20/127Com sua lei de patentes, a Inglaterra estimulou e atraiu o gênio inventivo mundial.E com suas liberdades civis atraiu grande quantidade de capital e de talentos no-vos.A História ensina que as artes e o comércio migram de uma cidade para outra, deum país para outro. Perseguidos e oprimidos em sua pátria refugiaram-se em cida-des e países que lhes asseguravam liberdade, proteção e apoio. Foi assim que asartes e o comércio migraram da Grécia e da ásia para a Itália; da Itália para a Ale-manha, Flandres e o Brabante; e dali para a Holanda e para a Inglaterra (List, 82).A partir da análise de várias experiências nacionais, Lizt sistematiza conhecimentossobre processos de desenvolvimento, dividindo-os em quatro etapas básicas.O primeiro salto, depois de formada a nação, é quando descobre um bem primá-rio de exportação, e começa a se relacionar com o mercado internacional. Emborahistoricamente o Brasil fosse um país exportador de mercadorias –pau-brasil, açú-car--, o controle da acumulação era português. O café foi o primeiro produto quepermitiu a exportação e a acumulação em mãos de empresários brasileiros.A partir dessa base exportadora, o país começa a importar e a entrar em contatocom bens e produtos dos seus parceiros comerciais. Aí se dá o segundo salto, queé o processo inicial de substituição de importações. Para se consolidar é fundamen-tal a proteção à indústria nascente através de tarifas, câmbio competitivo. E tam-bém a criação de condições para o fortalecimento de um mercado de consumo ini-cial, que sirva de alavanca para essa fase inicial da industrialização.Consolidada a segunda etapa, entra-se na terceira etapa, que é a abertura grada-tiva do mercado, para conferir competitividade à indústria nacional, evitando o a-comodamento pelo excesso de proteção.Completado o ciclo, ingressa-se na quarta etapa, que é a conquista do mercadointernacional, através de estratégias comerciais, controle de rotas comerciais.Tornando-se hegemônica, a economia torna-se liberal. Abrem-se os mercados nosquais é evidente a superioridade da nação, e exige-se contrapartida dos parceiroscomerciais menos competitivos. Apresenta-se o modelo liberal que o país passou aadotar quando entrou na quarta fase como se fosse adequado para países das fasesanteriores. E, aí, entra em ação e hegemonia cultural – a contrapartida natural àhegemonia econômica. O país hegemônico passa a propagar o ideário do liberalis-mo comercial. Seus centros de pensamento – universidades, instituições em geral,imprensa – passam a difundir como universais princípios adequados apenas à quar-ta etapa de desenvolvimento.O processo de desenvolvimento não se dá em torno de teorias rígidas. As teoriassão instrumentos de compreensão da realidade, subsídios para a implementação depolíticas econômicas. Mas o referencial máximo, para a definição das políticas eco-nômicas adequadas, é o da análise da realidade, o comportamento estratégico ten-do em vista a situação de momento.Uma política liberal, no início da industrialização, mata o processo. Da mesma ma-neira que uma política protecionista, na fase de maturidade econômica, provoca oacomodamento dos empresários e a perda de vitalidade.Quando o país da quarta fase preconiza suas práticas econômicas para os paísesdas fases anteriores, está procedendo ao que List chamava de “chutando a própriaescada”. Depois de escalarem as três etapas iniciais de desenvolvimento, tentamimpedir os países menos desenvolvidos de trilhar o mesmo caminho. Tentam imporas práticas que passaram a adotar depois de vitoriosos e, aí, o componente culturalideológico, a emulação das práticas dos países centrais, passam a ser ferramentasfulminantes.No seu livro, List repassava a história de inúmeras civilizações, de países ou cida-des-estado que ganharam enorme poder e influência, e acabaram afundando pornão terem conseguido articular adequadamente os interesses nacionais. A partir28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 21/127desses estudos, o centro de análises de List passou a ser a nacionalidade, como ointeresse intermediário entre o indivíduo e a humanidade inteira.Quando a Alemanha começou a discutir projetos nacionais, List deparou-se comenorme resistência de um conjunto de interesses que juntava de intelectuais ale-mães que haviam estudado na Inglaterra, importadores com interesses em produ-tos ingleses e, por baixo de tudo, a enorme influência ideológica do pensamentoinglês, àquela altura, potência hegemônica mundial. Narrava ele que “um exércitoincontável de correspondentes e escritores líderes, desde Hamburgo até Bremen,desde Leipzig até Frankfurt, saíram a campo para condenar os desejos absurdosdos manufatores alemães no sentido de estabelecer taxas alfandegárias protecio-nistas comuns”. A lógica de ataque se perpetuaria pelos tempos. List era acusadode ignorar princípios elementares de economia política, “tais como haviam sidoconsagrados pelas maiores autoridades científicas” (List, 4). Na época, era notória ainfluência do Ministério do Exterior inglês, com grossa verba destinada à defesa dosseus interesses comerciais.No minucioso levantamento que faz sobre países que se tornaram hegemônicos,List deixa lições preciosas. Assim como para as empresas, os países crescem apro-veitando janelas de oportunidade, que podem surgir em mudanças políticas inter-nas, em conjunturas internacionais favoráveis. O grande segredo do desenvolvi-mento é saber aproveitar essas brechas de oportunidades e criar modelos institu-cionais adequados, que permitam ao país o salto para a etapa seguinte. Essa dinâ-mica inicial vai desenvolvendo o país, de forma mais ou menos acelerada, até abrecha seguinte, que vai exigir novas soluções.O Brasil teve algumas janelas de oportunidade desde que se tornou nação. As duasmais relevantes guardam semelhanças extraordinárias entre si. A primeira, no finalda Monarquia e início da República, que resultou no “Encilhamento”, o grande mo-vimento especulativo que atrasa substancialmente o ingresso do país na segundafase. O segundo, o plano Real, que compromete o ritmo de ingresso do país na ter-ceira fase.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 22/127 Os novos tempos Os novos temposPara completar o quadro de fatores que atuava sobre a economia internacional daépoca, e afetou diretamente o Brasil no período do “Encilhamento”, há a necessida-de de introduzir dois atores fundamentais da história: as grandes revoluções tecno-lógicas do século 19 e o aparecimento do grande capital financeiro, o chamado“haute capital”, montando a mais sofisticada estrutura de coordenação transnacio-nal que o mundo já testemunhara.’As revoluções tecnológicasAs revoluções tecnológicas não são lineares. Em geral, há uma primeira etapa demudança de paradigma. Depois, uma corrida frenética atrás das novas tecnologiasque, invariavelmente levam a movimentos especulativos e “crashes” sucessivos.Depois disso é que o mercado se assenta, a especulação sai de cena e dá espaçopara o período de consolidação.É uma disputa pesada entre o novo e o velho. Em geral há dos períodos distintos,cada qual durando algumas décadas. A primeira fase é o período em que a novaeconomia se consolida e avança sobre a economia já madura. A segunda é a do es-palhamento do novo paradigma vitorioso, renovando toda a economia. Luis Nassif 18/7/06 23:31Tabela 1: Uma paradigma tecno-economico para cada revolução tecnológica diferente, 1770 a 2000 (Perez 2000), citado por Comment: Levantar mais dadosMateus Cozer Revolução Tec- Instalação Ponto de Desenvolvimento nológica Virada Erupção Frenesi Sinergia Maturidade1° Revolução In- Final dos 1793-97 1798-1812 1813-1829 dustrial 1771-início 1780s e dos 1780s início dos 1790s2° Era do Vapor e 1829-1830s 1840s 1848-50 1850-1857 1857-1873 das Ferrovias3° Era do Aço, 1875-1884 1884-1893 1893-95 1895-1907 1908-1918 Eletricidade e Engenharia Pesada4° Era do Petró- 1908-1920 1920-1929 1929-43 1943-1959 1960-1974 leo, do Auto- móvel e da Produção em Massa5° Era da Infor- 1971-1987 1987-2001 2001-?? 20?? mação e Tele- comunicaçõesA “haute finance”É no bojo do financiamento dessas ondas tecnológicas que o capital financeiro ga-nha musculatura e se internacionaliza.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 23/127Em um livro clássico escrito em 1940 – “A Grande Transformação” --, o economistaKarl Polanyi tentava sistematizar, pela primeira vez, a natureza do que ele denomi-nava de “haute finance”, o grande capital que emerge nas três últimas décadas doséculo 19.Essa “haute finance” teria papel relevante nos lances seguintes da política econômi-ca nacional, que resultariam no “Encilhamento”.A partir daí e nas três primeiras décadas do século 20, coube a “haute finance” sero elo entre a organização política e econômica do mundo, fornecendo os instrumen-tos para um sistema internacional de paz.É um período dominado pelos Rotschild. Eles não estavam submetidos a nenhumgoverno, lembrava Polanyi. O poder de firma consistia em ser o único elo suprana-cional entre o governo político e o esforço industrial em uma economia mundial emrápido crescimento (Polanyi, 25). Seu poder e independência decorriam das neces-sidades da época, que exigiam um agente soberano que tivesse a confiança tantodos governos nacionais quanto dos investidores internacionais.Para cumprir esse papel, a “haute finance” precisava buscar aliados nos bancos eno capital financeiro nacionais. Organizacionalmente, constatava Polanyi, a “hautefinance” foi o núcleo de uma das mais complexas instituições que a história do ho-mem já produziu. Além do centro internacional, em Londres, havia meia dúzia decentros nacionais gravitando em torno de seus bancos de emissões e bolsas de va-lores. “Os banqueiros internacionais financiavam não apenas governos e guerras, mas faziam investimentos externos na indústria, nos serviços públicos e ban- cos, bem como empréstimos a longo prazo para as corporações públicas e particulares fora do país”.Para garantir a segurança dos seus investimentos e empréstimos, a “haute finance”se preocupava bastante com as oscilações cambiais e com o equilíbrio orçamentáriodas nações. Os dois instrumentos de influência da City Londrina era o padrão ouroe o constitucionalismo. Eram as palavras de ordem para os países que aderiram ànova ordem internacional. “O padrão era controlado por uma infinidade de grupos nacionais e persona- lidades, cada um deles com seu tipo peculiar de prestígio e destaque, autori- dade e lealdade, sua capacidade de dinheiro e de contatos, de patronato e au- ra social” (Polanyi, 26)Apesar de apontado por Lenine como principal estimulador de guerras, ao grandecapital internacional interessava fundamentalmente a paz. Era tamanha a rede deinteresses entrelaçada por todo o mundo que, se a guerra poderia eventualmentebeneficiar alguns clientes maiores, desarrumava a vida de milhares de outros clien-tes.Em relação aos países, tinha duas posturas diferentes. Sabia reconhecer o exercíciodo poder das potências; e a dependência de capitais da periferia. Através do con-trole do crédito, acabam se transformando nos gestores de fato das políticas eco-nômicas dos países periféricos.Toda a política econômica era centrada em dois pontos: a solvência do país, paraquitar seus empréstimos; e a manutenção de moedas estáveis.O “padrão ouro” conferiu um poder excepcional aos países detentores de capitais.Como os países que aderiam ao padrão só poderiam emitir com lastro em ouro, acada crise cambial, do produto principal de exportação, eram obrigados a contrairdívidas com os bancos internacionais, para garantir a conversibilidade de suas mo-edas.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 24/127Esse modelo acabava levando a crises financeiras periódicas, afetando vários paísesde periferia. No auge das crises cíclicas, os grandes bancos centrais em Londres,Paris e Berlim elevavam suas respectivas taxas de desconto, para evitar a saída deouro. Com isso, atraíam os capitais de curto prazo e se beneficiavam da queda dascotações dos produtos primários, devido à redução da liquidez internacional (Beluz-zo, in Fiori, 96). Esses movimentos de capitais, da periferia para o centro, lançavamos emergentes em crises terríveis, mas ajudavam a resolver as crises dos paísescentrais.Um dos mais famosos episódios especulativos da história, com o instrumento avenda a futuro, foi a "bolha" em torno das tulipas holandesas, Quando a especula-ção absorveu toda a produção foram criados negócios de venda futura de bulbos datulipa, processo iniciado em 1636. Terminou em um crack violento.A principal ferramenta que movimentaria a especulação até 1929 surgiu em mea-dos do século 19 nos Estados Unidos, Era o mecanismo da concessão de emprésti-mo, o chamado "call loans", recursos que os bancos comerciais repassam aos cor-retores, para que eles ofereçam à sua clientela. A garantia do empréstimo era acaução das ações dos tomadores. O "call" significava que o banco poderia chamar àliquidação do empréstimo a qualquer momento. O banco exigia uma "margem degarantia", emprestando apenas um percentual do valor dos títulos, de acordo comseu valor de mercado. Se as cotações caíssem, aumentava a dificuldade dos toma-dores, que era agravada pela redução automática do valor emprestado. Foi o pedi-do de garantias adicionais que acelerou o crack de 1929.O câmbio também permitia jogadas especulativas periódicas, com os grandes ban-cos “apostando” contra moedas fracas, ou no deságio dos títulos das dívidas dospaíses periféricos.A maneira de minimizar os riscos era o controle sobre as informações, a dependên-cia que os países tinham dos fluxos de capitais, e a capacidade de influenciar a opi-nião pública, criando uma ideologia pró livre cambismo.As próprias mudanças no capitalismo internacional permitiam que a industrializaçãoinglesa transbordasse para outros países, particularmente os Estados Unidos. Esseperíodo é caracterizado pelos seguintes eventos2:A consolidação das práticas de financiamento e de pagamentos internacionais sob aégide de um padrão monetário universal.A metamorfose do sistema de crédito, expressiva no aparecimento de bancos dedepósitos que ajustam suas funções e formas de operação à nova economia co-mandada pela indústria.A emergência de uma nova divisão social do trabalho, consubstanciada na crescen-te separação entre o departamento de meios de consumo e o departamento demeios de produção.A internacionalização capitalista sob a hegemonia inglesa “produz” a industrializa-ção dos EUA e da Europa e, simultaneamente, a periferia produtora de matériasprimas e alimentos.No final do século 19, quando a República ensaia os primeiros passos, já havia ummercado internacional de mercadorias funcionando em Londres, com suas cotaçõessendo acompanhadas diariamente por negociantes de todas as partes do mundo.De 1830 a 1870, um reduzido número de estados, todos europeus, dera início a umextraordinário ciclo de expansão do capitalismo financeiro. Esse ciclo se prolongaaté 1914, quando eclode a Primeira Guerra Mundial.Com o fim da Guerra da Secessão nos EUA, em 1860, o mundo passa por um pro-cesso inédito de transformações, preparando a nova etapa do desenvolvimentomundial. Os EUA já preparavam o salto para se tornar grande potência. Depois daguerra franco-prussiana, ocorrera a unificação da Alemanha; no Japão, aconteceraa Restauração Meiji. Depois da Guerra da Criméia ocorrem mudanças na Rússia28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 25/127também. É esse grupo de países, ao lado da França, e sob a liderança da Inglater-ra, constituem o núcleo duro do novo sistema global (Fiori, 41).Alguns países conseguiram aproveitar do excesso de capitais, da coordenação in-glesa e , com o chamado “déficit de atenção” da Inglaterra em relação às suas es-tratégias de desenvolvimento, nas décadas seguintes começavam a despontar co-mo novas potências.Depois de várias crises cambiais, o sistema financeiro internacional se estabilizaraem torno do “padrão ouro” e em uma estrutura hierárquica. No centro, ficava oBanco da Inglaterra. Num segundo grupo, os bancos da França e da Alemanha. Noterceiro, da Holanda, Áustria e Bélgica (Fiori, 65).A “haute finance” já havia fincado os olhos no país e montado sua rede de alianças,a partir do momento em que Mauá montou um banco em Londres e tentou se con-verter em banqueiro londrino para fugir à pressão política interna. Não conseguiu,foi derrotado, mas chamou a atenção da banca londrina para o grande potencialdaquele gigante adormecido.As grandes bolhas especulativasO potencial de riqueza fácil com mudanças monetárias e as bolhas especulativas jáeram de conhecimento geral quando Rui Barbosa deu início à política monetária quelevaria ao “Encilhamento”.O exemplo mais marcante foi o de John Law, nascido em 1671, filho de um ourivesabastado que emprestava dinheiro a juros, que chegou a Ministro das Finanças daFrança e montou uma companhia que detinha o monopólio do comércio do Vale doMississipi (ainda sob domínio francês), Índia, China e Pacífico Sul.Law mudou-se para Londres com 17 anos. Era mulherengo, jogador, e, depois dematar o pretendente a uma amante sua, teve que se refugiar na Europa continen-tal. Lá, tomou contato com os modelos de crédito do Banco de Amsterdan. Na faltade reservas em ouro, o banco recebia moedas dos comerciantes, que adquiriam emtroca crédito pelo seu valor, na forma de notas.Em uma época dominada pelo “padrão-ouro”, passou a defender que a quantidadede moeda em uma economia não deveria ser pautada pelas reservas em ouro oupelo saldo da balança comercial, mas pelas necessidades de troca internas da pró-pria economia. Defendia o papel-moeda e títulos lastreados em terras e impostos.Em 1715 o Duque de Orleans se tornou regente, após a morte de Luís 14. A Françapassava por uma crise portentosa que o novo Regente tentava resolver através darecunhagem de moedas e de uma desvalorização cambial de 20%.Amigo do Duque, Law apresentou um diagnóstico diferente. Em sua opinião, aFrança sofria de falta de moedas e de excesso de desvalorizações cambiais. Propu-nha o uso da moeda fiduciária e a criação de um banco emissor de títulos de créditolastreados em receitas de impostos e propriedades. O Estado ficaria com o mono-pólio de todas as atividades financeiras e fazendárias.Foi o início do Banque Generale, no ano seguinte, emitindo títulos resgatáveis emmoeda corrente. Como o país ainda sofria do pânico da desvalorização das moedasmetálicas, em pouco tempo a moeda fiduciária se impôs e os títulos passaram a sernegociados com ágio de 15% -- contra um deságio de 80% das moedas de ouro eprata. Percebendo o potencial do novo padrão monetário, Law criou uma compa-nhia na Luisiana, ainda uma colônia francesa, que deteria o monopólio do comérciono rio Mississipi. Prometia de que as terras gerariam riquezas em ouro , seda e a-gricultura.Apenas um ano depois de fundado, o banque Generale foi estatizado, tornou-se oBanque Royale, e o Regente ordenou a impressão de papel-moeda no equivalente a28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 26/127três vezes a dívida pública. Houve reação do Parlamento e Law terminou afastadodo Banque Generale.Ainda influente, a Companhia do Mississipi conseguiu em 1817 não apenas a con-firmação de seus direitos sobre o rio Mississipi mas também sobre as Índias Orien-tais, China e Pacífico Sul. Para financiar as operações, Law emitiu 50 mil ações aserem integralizadas em notas do Tesouro com 80% de deságio. Prometeu aos a-cionistas uma rentabilidade de 120% ao ano.Pequenos investidores correram em massa atrás do pote da fortuna, adquirindo op-ções de compra das ações. Excesso de papel-moeda, promessas de ganhos fantás-ticos, produziram uma corrida aos novos papéis, que tiveram uma demanda seisvezes superior à oferta. Em 15 meses os papéis de Law experimentaram uma valo-rização de 2.900%. Com esse sucesso, o passo seguinte foi a fusao do Banque Ro-yale com a Companhia do Mississipi, e Law nomeado novo Ministro das Finanças.Em 1720, não resistiu à primeira crise. Houve uma corrida contra a companhia,com os vendedores não exigindo moeda metálica. Law resistiu, deflagrando umaonda de desconfiança em relação ao papel-moeda. Para enfrentá-la o governo des-valorizou e limitou os saques de moeda metálica. A conseqüência foi uma explosãode contrabando de ouro para a Inglaterra e Holanda, paralisando o comércio. Ten-tou-se limitar a posse de moeda-metálica pelos indivíduos, além de se proibir acompra de jóias, prata e metais preciosos. O país quase foi engolido pela revoltapopular. No final do ano, o valor das ações da Companhia do Mississipi tinha caído98% em relação ao início do ano.Law foi demitido, a crise ajudou a preparar a Revolução Francesa e a palavra “ban-co” foi banida do dicionário financeiro francês, substituída pela “credit”. Mas seumodelo de enriquecimento fácil que montou passou a ser a ambição maior de mui-tos aventureiros por todo o mundo. E a pedra filosofal de sucessivas gerações definancistas passou a ser a suprema chance de montar uma reforma monetária comfinal bem sucedido, que lhes assegurasse o sucesso inicial de Law, sem arcar comos infortúnios posteriores.Com a internacionalização financeira, os movimentos especulativos tornar-se-iammais freqüentes.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 27/127A segunda fase do desenvolvimento: a AboliçãoA segunda fase do desenvolvimento: a AboliçãoNa segunda metade da década de 1880, o Brasil tinha todas as condições de repetiro feito norte-americano. A economia estava prestes a explodir, a ultrapassar a faseda monocultura do café e começar a formar uma sociedade sofisticada, pronta paraentrar na segunda fase de List.As condições eram claras. Um primeiro ensaio de política industrial ocorreu com avinda de Dom João 6º ao Brasil. Além da abertura dos portos, criou a siderurgianacional e fundou o Banco do Brasil em 1808. Em 28 de anril de 1809 concedeudireitos aduaneiros às matérias primas consumidas pelas fábricas brasileiras, isen-tou de impostos a exportação de produtos manufaturados e passou a utilizar produ-tos brasileiros no fardamento das tropas (Moniz Bandeira, paper FGV).Fez mais, introduziu os primeiros conceitos de patente, garantindo privilégios por14 anos os inventores ou introdutores de novas máquinas, e garantiu 60.000 cru-zados às manufaturas com dificuldade, especialmente as de lã, algodão, ferro a a-ço. No arsenal da Marinha, construiu a fábrica de pólvora, a tipografia régia, bemcomo criou o Colégio Militar e o Naval.Em fins de 1809, o engenheiro Friedrich Ludwig Varnhagen chegou ao Rio de Janei-ro com a missão de estudar a possibilidade de construção de uma siderúrgica nomorro de Araçoiaba, perto de Sorocaba.Em 1812, com o apoio de Dom Manuel de Assis Mascarenhas Castelo Branco daCosta Lencastre, conde de Palma, Dom João 6º construiu outra usina siderúrgica, aFábrica Patriótica, perto de Congonhas do Campo. Ao mesmo terreno, começava aantiga tradição mineira de fabricação de ferro gusa, através de Manoel Ferreira deCâmar Bittencourt e Sá.Segundo Moniz Bandeira, a Inglaterra não queria a abertura dos portos no Brasil. Oque pedira fora apenas um porto exclusivo em Santa Catarina, que Dom João 6ºnão concedeu.Como não conseguisse o monopólio, os ingleses pressionaram-no para que firmasseo Tratado de 1810, concedendo às manufaturas inglesas uma tarifa preferencial de15% ad valoren, menor até que as de Pportugal, que eram de 16%, e de 24% paraas demais nações.O esforço por ver a Independência reconhecida, fez com que, no final da década de1820, o Brasil assinasse inúmeros tratados comerciais desiguais com a própria In-glaterra, França, Prússia, Áustria, Dinamarca, Países Baixos, a Liga Hanseática ecom os Estados Unidos. Esses tratados acabaram atrasando o processo de industri-alização interno.Apenas entre 1842 e 1844, quando os tratados expiraram, o Ministro da FazendaManuel Alves Branco deu início a uma política de proteção da indústria infante, ele-vando a tarifa de importação de 3 mil produtos, para uma faixa entre 20 a 60%.Esse período se estendeu de 1844 a 1876. Em 1877, já havia no Brasil fábricas deprodutos químicos, instrumentos óticos, calçados, chapéus, tecidos de lã e algodão.Em meados do século 19, o cônsul geral da França em Montevidéu chegou a cha-mar o Brasil de “Rússia Tropical”, que tinha a “vantagem da organização e da per-severança em meio dos Estados turbulentos e mal constituídos” da América do Sul.Em 1850, com a lei Eusébio de Queiroz, foi proibido o tráfico negreiro. A decisãoliberou volumes consideráveis de capital. Dessa conjuntura se aproveitou Irineu E-vangelista de Souza, o futuro Barão de Mauá, lançando as bases de um sistemabancário moderno. Com sua capacidade de aglutinar poupança, obter ganhos dearbitragem no câmbio e ter acesso a capitais ingleses, o Barão de Mauá traçara oroteiro do desenvolvimento.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 28/127Começa a trabalhar muito cedo em uma casa comercial brasileira, transfere-se parauma importadora inglesa, aprende as novas teorias econômicas e financeiras. De-pois, descobre a possibilidade de atrair capital externo para empreendimentos nopaís.Monta um banco, com várias filiais pelo país e uma filial em Londres, e passa a cap-tar na praça londrina. Ao mesmo tempo, descobre rapidamente possibilidades e-normes de ganhos na arbitragem de câmbio, valendo-se do baixo fluxo de informa-ções no país. Ganhava meramente arbitrando as diferenças de câmbio entre as di-versas praças em que operava no país.Descobriu, também, os dois grandes modelos de negócio que atrairiam os grandescapitais na época: os serviços urbanos e as ferrovias integrando grandes distâncias.Com sua capacidade de mobilizar capitais montou a primeira indústria de base nopaís, o porto de Areia, ..... Depois, o serviço de iluminação a gás no Rio de Janeiro,companhias de navegação no Amazonas, bancos no Uruguai, Argentina.Mauá deixou lições indeléveis a todas as gerações posteriores. De um lado, mostrouo poder regenerador do capital bem aplicado, seu enorme poder transformadorquando controlado por pessoas com imaginação para novos negócios, controle so-bre os números, estratégias empresariais bem definidas.Mas a atuação de Mauá abriu os olhos de dois personagens que passariam a exer-cer um papel confuso no país, dali por diante. Primeiro, foi o dos grandes rentistas.Encurralado pelas ações de Pedro 2o, Mauá descobre um aspecto relevante da cul-tura estatal brasileira. Como empresário brasileiro, ele despertava ciúmes. Se setornasse empresário inglês, teria direito a privilégios.Quando começa a se mover por Londres, expondo seus negócios, desperta os ban-queiros ingleses para novas possibilidades para o país. Até então, os países emer-gentes eram uma boa fonte de lucros, mas apenas para o mercado de crédito.Quanto pior a situação do país, quanto maior o "risco país", maiores os juros pagospelos empréstimos.A atuação de Mauá mostrava, para o mercado londrino, as excepcionais possibilida-des abertas no mercado de investimento. O novo país tinha poupança acumulada, euma enorme demanda por novos modelos de negócio que se desenvolviam nos paí-ses centrais. De um lado, os melhoramentos urbanos, iluminação a gás, saneamen-to. De outro, as grandes obras de integração nacional, como as ferrovias.Quando Mauá se preparava para se associar ao banco britânico London and ......,foi derrubado por uma manobra conjunta do governo e da banca inglesa. Do ladode cá, recusaram a tratar como inglesa uma empresa que tivesse como sócio um Luis Nassif 18/7/06 23:31empresário brasileiro. Do lado de lá, aproveitou-se essa dificuldade para desman- Comment: O nome completo do bancochar a sociedade, e os candidatos a sócios entrarem no país competindo com Mauá,e dispondo de todos os favores do governo. Quando se deu o Encilhamento, essebanco tinha o controle sobre os movimentos cambiais do país, com claro poder demercado.A partir desse episódio, forma-se uma nova aliança, que irá marcar dali pela frentea economia brasileira, uma aliança tácita entre os grandes rentistas brasileiros e abanca internacional. O dinheiro saía do Brasil e ia para Londres. As empresas brasi-leiras montavam escritórios na cidade, depositavam os recursos nos bancos ingle-ses. Depois, esses recursos entravam no país através de empréstimos ao setor pú-blico ou de inversões em setores regulamentados, através de concessões com ga-rantia mínima de rentabilidade.O rentista brasileiro garantia a aprovação de leis favoráveis às concessões. Atuavanas duas pontas, como político e como investidor. O banco inglês garantia recursosadicionais e a jurisdição internacional sobre os empréstimos.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 29/127Esse movimento estava completamente maduro em 1890, quando a República foiproclamada, e irá explicar dali para frente as enormes dificuldades que sucessivosgovernos encontrariam para controlar os fluxos de capital e o câmbio.Os fatores que levaram à Abolição da Escravatura jogavam a economia em umaespiral de dinamismo sem paralelo na história. De um lado, a vinda de imigrantesfortalecia sobremaneira o mercado interno. Era uma nova cultura, de trabalho, depoupança, irrigando o campo e desdobrando-se para a cidade. Havia uma legião delibertos, que veio se formando após a Lei do Ventre Livre, em 1850, alguns poucoscidadãos de sucesso, bem sucedidos, e uma legião disponível para ser integrada.Libertos e imigrantes criavam a possibilidade de uma revolução no mercado de con-sumo, na oferta de mão de obra, na cidadania e no emprendedorismo, sacudindo oacomodamento da sociedade patriarcal brasileira, onde prevalecia o instituto da he-rança e do compadrio e o consumo conspícuo.Nos Estados Unidos, a doação de pequenos lotes de terras a imigrantes tinha per-mitido a colonização rápida do país e a criação de um enorme mercado de consu-mo.Internamente, no plano político, a Abolição provocara um racha nos interesses dacafeicultura, entre a moderna, instalada em São Paulo, e a arcaica, basicamenteocupando as terras esgotadas do Vale do Paraíba.Do lado da poupança interna, já a Lei Eusébio de Queiroz, de 1850 (que proibiria otráfico de escravos) liberara o capital investido na compra de escravos. Havia e-norme poupança empoçada, guardada debaixo do colchão tanto dos fazendeirosquanto da classe média urbana. Externamente, havia capital brasileiro, cujo mon-tante é impossível estimar, mas certamente abundante depositado em bancos in-gleses, em uma provável mistura de capital legalmente exportado, contrabando,corrupção política e subfaturamento de exportações.Havia também os financistas, brasileiros mais internacionalizados que se aproxima-ram da praça londrina estabelecendo relações de colaboração, parceria ou socieda-de com capitalistas ingleses, com grandes financistas, como os Rotschilds, a ban-queiros de menor expressão.Nos anos anteriores, esses capitais financeiros já haviam sido investidos em estra-das de ferro em São Paulo, na modernização do porto de Santos, permitindo ogrande salto da cafeicultura paulista.O Barão de Mauá comandara esse processo, introduzindo na realidade agrária dopaís o conhecimento sobre as formas contemporâneas de organização do capital,assim como sobre as estratégias financeiras para ganhar dinheiro com as arbitra-gens cambiais e de taxas de juros.Internacionalmente, as grandes descobertas tecnológicas do século 19 entravamem fase de maturação, abrindo espaço para uma ampla remodelação dos negócios.Dali para frente, a dinâmica da economia mundial --e de países que completavam aprimeira fase, como o Brasil-- seria conduzida pelas novas tecnologias, pelas estra-das de ferro, pelos serviços desenvolvidos para a urbanização, como saneamento,água, energia elétrica, pela substituição de importação de bens de consumo e, de-pois de criada a base, pela implantação da indústria de baseOs novos modelos de negócio, com novas tecnologias e novas formas de organiza-ção do capital, iriam se impor sobre a ordem anterior, agrária, semi-feudal. Da ra-pidez e da maneira como se procedesse a esse movimento de superação, depende-ria o sucesso do Brasil nas décadas seguintes.Do ponto de vista das condições potenciais, o Brasil estava pronto para entrar nasegunda fase de desenvolvimento estudada por List.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 30/127Projeto de paísProjeto de paísUm projeto de país implicaria em ações óbvias, quase todas discutidas e defendidaspelas poucas vozes racionais que enxergavam o futuro, ou conseguiam colocá-loacima dos interesses imediatos.Do lado dos libertos, havia a necessidade de políticas públicas de inclusão social.Era necessário investimento federal em educação e saúde, treinamento profissional,complementando os escassos recursos dos estados.Do lados dos imigrantes, era repetir o modelo norte-americano, de doação de pe-quenas glebas de terras, permitindo o rápido povoamento do interior. Dentre osimigrantes, havia toda uma geração de artesões, com condições de acelerar o inci-piente processo de industrialização e substituição de importações.Em 1878, 22.423 imigrantes desembarcaram no Brasil; em 1887, 54.990; em1889, mais de 160 mil. Eram portugueses de Lisboa, italianos de Nápoles, Gênova,pessoal de Ansver, Hamburgo, da Alsácia e do Tirol.São Paulo criou uma Lei provincial em 29 de março de 1884 com o objetivo de es-timulara a migração. Foi constituída uma sociedade promotora presidida por Marti-nho Prado Júnior, que foi à Europa em 1887 para estimular a migração. São Pauloabriu uma hospedaria com capacidade para 4 mil pessoas, para receber os imigran-tes. Outras foram abertas na Ilha das Flores, no Rio, em Macaé, Juiz de Fora.Em 1889, tinham-se belgas em Piquete e Canas, italianos e alemães em RibeirãoPreto, italianos em Cascalho, portugueses em Nova Louzã, italianos em Santa Veri-diana, italianos e alemães por todo o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.(O Brasil, 113)Trabalhando esses dois públicos, se teria a garantia de sustentabilidade do cresci-mento econômico, com a ampliação da oferta de mão de obra, de novos empreen-dimentos, e do mercado interno.A infra-estrutura poderia ser atendida com uma regulação firme, que permitisse aatração de capitais internos e externos para as concessões ferroviárias e para osserviços urbanos, aproveitando a grande expansão da revolução industrial, trans-bordando as indústrias dos países centrais para os perfiéricos, e a abundância docapitalismo. Com a integração ferroviária, os imigrantes poderiam se espalhar pelopaís, ajudando na sua ocupação e em um padrão de desenvolvimento similar aomilagre da Califórnia.O empreendedorismo poderia ser estimulado pela criação de um sistema ordenadode bancos que ajudassem a irrigar a economia central e a regional com crédito a-bundante e barato. Havia a necessidade da modernização da legislação bancária,melhorando a apresentação de garantias, de maneira a destravar a oferta de crédi-to, e a implantação de um sistema competitivo no modelo de concessões existente.Finalmente, a atividade interna de substituição de importações e de implantação denovos empreendimentos de infra-estrutura teria que ser defendida com um câmbiocompetitivo, de baixa volatilidade, e com tarifas de importação adequadas.Era este o quadro que se apresentava em meados da década de 1880, nos esterto-res da Monarquia, no alvorecer da República. Ao contrário do início do século, na-quele final de século havia no tabuleiro todas as peças que permitiriam ao país sal-tar para a segunda etapa de desenvolvimento. Já havia conhecimento acumuladopara se proceder ao salto para a segunda etapa de Lizt, da substituição de importa-ções.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 31/127O primeiro ato do “Encilhamento”No primeiro ato, sob o Visconde de Ouro Preto, último Ministro da Fazenda da Mo-narquia, é regulamentada a nova Lei Bancária.O nó central a ser rompido era o da dificuldade de prover crédito à lavoura, em umperíodo em que o ingresso de imigrantes e os libertos demandavam mais moeda.Havia Cada vez que havia safra, o dinheiro sumia da praça do Rio. Depois voltava,deixando o campo sem recursos.A Lei Bancária foi aprovada em 24 de novembro de 1888, com o intuito de criarbancos que pudessem apoiar a agricultura, padecendo da falta de capital de girocom a Abolição. Em janeiro foi criado um primeiro regulamento permitindo aosbancos emitir sobre base metálica. Ou seja, o banco acumulava determinado valorem ouro e podia emitir moedas conversíveis tendo esse lastro como garantia. Ostitulares da moeda poderiam ir até o banco e trocá-la por ouro a qualquer momen-to, observada a paridade de 27 pences por mil réis. Mas não havia nenhum meca-nismo que protegesse os bancos contra oscilações cambiais. Como as moedas eramconversíveis, se o câmbio caísse abaixo da paridade, os titulares de moedas sim-plesmente as trocariam por ouro, ganhando a diferença. Esse risco fez com que ne-nhum banco se aventurasse a ser emissor.Em 5 de janeiro, João Alfredo havia promulgado o decreto no. 10.144, regulamen-tando o funcionamento dos bancos de emissão: aqueles com direito a emitir títulos.Em 6 de julho de 1889 Ouro Preto revogou o decreto, mas manteve a principal van-tagem, que era a permissão para os bancos poderem emitir até o triplo de seu las-tro metálico. O principal beneficiário das medidas foi seu banqueiro de confiança,Francisco de Figueiredo, que recebeu o título de Visconde em 1879 e de Conde a-penas quinze dias antes da Proclamação da República3.Em 6 de setembro, através do decreto 10.336 Ouro Preto estabeleceu normas parao resgate de papel-moeda. E, logo, ajudou a colocar lenha na fogueira da Bolsa deValores do Rio de Janeiro. Lá, a especulação começara a crescer em 1886, mas seacelerou de agosto a outubro de 1889, por conta dos novos bancos. Os jornais a-nunciavam que os bancos beneficiados gozariam de um “capital gratuito que emmuito aumentaria o lucro a dividir pelos acionistas”Havia um furor para organizar bancos (Franco, 90). Em setembro o movimento daBolsa atingiu 131 mil contos, dos quais 66 mil contos eram de ações de bancos. De13 de maio a 15 de novembro, formaram-se novas companhias com capital total de402 mil contos, 324 mil dos quais eram de novos bancos.A enorme liquidez veio acompanhada da introdução de modernos mecanismos fi-nanceiros convivendo com os tradicionais, aumentando sua capacidade de alavan-cagem. Entre os novos mecanismos destacaram-se as ações e debêntures, alvo decorridas especulativas após alterações na Lei das Sociedades Anônimas. Entre osinstrumentos tradicionais, pontificavam as cambiais (direitos de saque no exterior),as notas promissórias, as Letras Hipotecárias. Já os Títulos da Dívida Pública perde-ram expressão, depois que passaram a ser utilizados como lastro para as emis-sões4. A redução na colocação dos papéis públicos acabou abrindo espaço para aexpansão dos títulos privados.Uma das ferramentas que surgiram no século 19 foi a alavancagem, o contrato decompra e venda para liquidação futura. Esse instituto já constava do direito roma-no. Ocorre quando o vendedor ainda não tem o produto para entregar e o compra-dor não tem o dinheiro para pagar. Pactua-se, então, um contrato futuro, negocia-do em câmaras de compensação (Ney Carvalho, 56).A especulação começou com os papéis dos novos bancos mas em breve, esparra-mou-se por outros setores. Frequentemente o Tesouro era obrigado a interferir napraça, controlando a liquidez a um custo alto.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 32/127O Visconde de Ouro Preto decidiu, então, pela criação de um grande banco que pu-desse atuar como agente regulador do mercado. Em 19 de setembro de 1889, comcapital de 90 mil contos foi criado o Banco Nacional do Brasil, a partir do Banco In-ternacional, do Conde de Figueiredo. No dia 28 daquele mês foram aprovados osestatutos do Banco Nacional do Brasil, conferindo-lhe o poder de emitir bilhetes aoportador conversíveis em ouro à vista. Figueiredo era apontado como um dos “trêsreis da rua do Ouvidor”, ao lado do Conselheiro Mayrink e Henry Lowndes, Condede Leopoldina, e autor dos maiores golpes do Encilhamento. Dentre os três, era oque possuía maior ascendência sobre o Visconde de Ouro Preto, embora os dois ou-tros também fossem personagens influentes do Império.O Interamericano tinha sido o banco brasileiro que mais operava em negócios cam-biais. O Conde tinha experiência com negócios em café, dois sócios ingleses, Willi- Luis Nassif 18/7/06 23:31am H. Holman e Edward Herman, uma sucursal em Londres e estreitas ligações Comment: Interamericano ou Internacio-com o Banco de Paris e dos Países Baixos, que se dispôs a entrar com 2/3 do capi- nal?tal do banco.Com o apoio francês, depois de constituído o Banco Nacional do Brasil teria umfundo metálico (reservas de ouro) da ordem de 9,9 milhões de libras e seria o de-positário das reservas metálicas do Tesouro do Brasil. Sua missão seria articular aparidade do câmbio, isto é, impedir que o câmbio oscilasse acima ou abaixo da pa-ridade acertada.Os estatutos do Banco Nacional também lhe conferiam o direito de negociar em-préstimos e pagar juros e amortização em nome do Tesouro. Tinha também a ga-rantia de suspensão da conversibilidade de suas notas, se a taxa de câmbio desces-se significativamente abaixo do par. Com a mono-emissao, o Banco Nacional assu-miria o monopólio da moeda.No dia 2 de outubro, primeiro dia útil após a aprovação do estatuto, assinou-se ocontrato que rezava que os bilhetes do banco seriam trocados à vista por moedasde ouro, ao câmbio de 27, “salvo os casos de guerra, revolução, crise financeira oupolítica”. Pelo acordo, o Tesouro abstinha-se de emitir durante o período de exis-tência do Banco Nacional.Tinha-se um verdadeiro Banco Central privado, emprestador de última instância,agente do Tesouro e regulador da liquidez. Com a estabilização cambial trazida peloBanco Nacional, em poucos meses surgiram diversos pequenos bancos emissores,todos em torno da voracidade especulativa que começava a dominar cada vez maisa Bolsa de Valores.A proposta do banco único monoemissor tinha um grande adversário: Rui Barbosa,atuando brilhantemente na imprensa carioca. Dono de enorme erudição, Rui se va-lia de um truque retórico que viraria padrão brasileiro dali por diante. Cada idéiacontrária ele rebatia com o argumento de que em nenhum lugar do mundo era as-sim; cada idéia que defendia, usava o argumento de que em todo país civilizado,assim se procedia.A idéia de uma instituição destinada especialmente ao resgate de papel-moeda eravista como Rui como “produto de nosso gênio indígena” (Magalhães Jr.,61). Era o“polvo financeiro”, como tratou o banco em outro artigo. “Para qualificar a mons-truosidade de tais favores, basta recordar que não há memória deles, até hoje, nahistória dos bancos”.No mesmo dia em que recebeu a concessão de Ouro Preto, o Ministro da Agricultu-ra Lourenço de Albuquerque – dependente de Ouro Preto --, através do decreto10.372 presenteou o ainda Visconde de Figueiredo com concessões exageradas,entre as quais:1) construção de uma grande bacia abrigada no porto do Rio de Janeiro para a pro-teção de navios;28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 33/1272) um sistema de cais, dentro dessa baía, onde navios de todo o tamanho possamatracar, e providos com guindastes hidráulicos e elevadores, trilhos e desvios deestrada de ferro, etc.;3) armazéns e alpendres para o depósito de mercadorias;4) uma estrada de ferro comunicante com a de D. Pedro II (hoje Central do Brasil);5) uma área contígua às docas, para a construção de edifícios destinados ao co-mércio e ao porto, etc.Através de sua coluna no “Diário de Notícias”, Rui Barbosa continuava reagindo. "Esse curso forçado (o poder de não resgatar a moeda, isto é, de não entre- gar o ouro correspondente à emissão), que o contrato de 2 de outubro asse- gura ao Banco Nacional para qualquer ocorrência de crise, nunca o obteve o Banco de França senão duas vezes, ambas sob a pressão de grandes subver- sões nacionais”.Na época, o Banco da França sofrera com as corridas provocadas por John Law.A idéia de "armar o curso forçado vistosamente como figura de proa de uma institu-ição destinada especialmente ao resgate do papel-moeda, é o produto do nosso gê-nio indígena, cujas honras pertencem exclusivamente ao Visconde de Ouro Preto",vociferava Rui.A 4, no artigo "Monopólios sobre monopólios", diz: "O contrato de 2 de outubropropõe-se evidentemente a dar ao Banco Nacional, em termos contrários à lei, àciência, à praxe de todas as nações, a soberania do crédito em nosso mercado. O-ra, os perigos de conferir a um estabelecimento particular esse ascendente de in-comparável energia sobre a existência das sociedades modernas, encontram amplalição na experiência do passado".Ouro Preto se viu tão acuado que acabou assinando decretos estendendo a faculda-de de emitir ao Banco do Comércio do Rio de Janeiro e ao Banco de São Paulo5. Aemissão também deveria ser sobre base metálica – isto é, tendo moedas de ourocomo lastro.A farra durou até o dia 15 de novembro, quando sobreveio a Proclamação da Repú-blica, o Visconde de Ouro Preto foi substituído pelo próprio Rui Barbosa no Ministé-rio da Fazenda. Menos de um mês depois, Rui apresentava uma proposta de criaçãode banco único de curso forçado. Apenas trocava o beneficiário: em vez do Condede Figueiredo, seria o Conselheiro Francisco de Paula Mayrink.O segundo ato do EncilhamentoCom a Proclamação da República seguiu-se um período de incertezas. O câmbiocomeçou a ceder. Como havia 17 mil contos de moedas conversíveis na praça, po-deria haver um terremoto financeiro.Em fins de novembro, o Banco de Paris e dos Países Baixos tirou o time de campo,e não aceitou os saques do Nacional, do Conde de Figueiredo, como intermediáriodos empréstimos a Minas Gerais e Pernambuco.Naquele momento, o Nacional tinha apenas 28 mil contos de fundo metálico parauma emissão conversível de 17.410 contos. Sem condições de segurar o câmbio, oTesouro acabou recorrendo ao Banco do Brasil. Mesmo assim, em princípio de de-zembro não havia sinais de que o Banco do Brasil conseguiria administrar o câmbio.Vendo que a queda do câmbio era imediata, o Banco Nacional solicitou ao Ministroa suspensão da conversibilidade de suas notas. Rui Barbosa recusou. Com isso, ocâmbio caiu durante dezembro, com ele a emissão em circulação do Banco Nacio-nal.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 34/127Em vez de ajuda, o Nacional recebeu a sentença de morte, um decreto de Rui Bar-bosa, de 27 de dezembro, dando três meses de prazo para os bancos de emissãosobre base metálica completarem suas emissões até o limite autorizado, sob penade perda da concessão. As emissões deveriam ser a 27 pence por mil réis. Como ataxa de câmbio estava a 24 ½ pence, ninguém iria se aventurar a isso. Com essedecreto, Rui destruiu o sistema de Ouro Preto, e preparou na surdina para colocar oseu sistema em vigor.Em janeiro de 1890, Rui Barbosa apresentou seu projeto de reforma bancária, to-talmente inspirada nas idéias do Conselheiro Mayrink. O decreto autorizava a cria-ção de bancos emissores com bilhetes lastreados em títulos da Dívida Pública.Depois da campanha ferrenha contra a reforma monetária de Ouro Preto, contra osprivilégios de bancos emissores privados, contra o curso forçado, onze dias após aProclamação da República, Rui Barbosa, o novo Ministro da Fazenda, colocava emprática tudo o que criticara antes. Havia apenas uma diferença em relação ao mo-delo Ouro Preto: o dono do modelo, agora, era ele próprio, Rui Barbosa.De 26 de novembro a 8 de dezembro Rui concedeu o direito de emitir ao BancoMercantil de Santos, ao Banco de Crédito Real do Brasil, ao Banco do Brasil, aoBanco Comercial do Rio de Janeiro, ao Banco Mercantil da Bahia, ao Banco de Per-nambuco e ao Banco do Comércio, ao Banco Comercial Pelotense, ao Banco da Ba-hia.Criando vários bancos emissores, Rui destruiu os privilégios conferidos ao Conde deFigueiredo. Mas a intenção era reconstituir o privilégio para seus próprios aliados.Apenas doze dias depois do novo Ministério tomar posse, Rui convoca uma reuniãode financistas no seu gabinete, no edifício do Tesouro Nacional. Entre eles, estava oConselheiro Francisco de Paula Mayrink, que se tornaria o banqueiro de Rui Barbo-sa.O encontro foi descrito em reportagem de capa de “O País”, edição de 28 de no-vembro: "Depois do Sr. Ministro da Fazenda expor os motivos da reunião, o Sr.Conselheiro Mayrink indicou como providência mais acertada e pronta a que pres-creve a lei de 1885, autorizando o governo a emprestar aos bancos, sob caução deapólices gerais e bilhetes do Tesouro, indicados na mesma lei. Essa. indicação foiapoiada pelos banqueiros presentes e parece que será a do governo". E a Repúblicasequer completara um mês de existência.Rui não lhes concedia o curso forçado a seco, mas através de um estratagema. Osbancos poderiam emitir tendo como lastro títulos públicos. E só fariam a conversãodos bilhetes por ouro se o câmbio permanecesse na paridade de 27 pences por umano, hipótese absolutamente improvávelNo Brasil daquele tempo, “quantidades incalculáveis do meio circulante se imobili-zam em acumulações particulares”, dizia Rui. “e somas enormes dormem empoça-das, estagnadas, esquecidas”.Na época havia uma profunda discussão sobre política monetária entre duas corren-tes inglesas, a Currency School e a Banking School. Rui Barbosa defendia que, empaíses com elevado propensão ao entesouramento, havia a necessidade de uma Luis Nassif 18/7/06 23:31maior quantidade de base monetária para fazer circular o mesmo volume de tran- Comment: O que dizia uma e outrasações. Com isso justificava a autorização para a criação de bancos emissores demoedas inconversíveis.Assim como em tantos episódios cinzentos da história do Brasil, o projeto de RuiBarbosa apresentava uma proposta legitimadora para um conjunto de privilégiosespantosamente amplos.A parte legítima seria a de utilizar o poder de emissão dos bancos para amortizar adívida pública. O Governo Provisório havia nomeado uma Comissão de Oficiais Su-periores para estudar a melhor maneira de eliminar a dívida pública brasileira. Opresidente da Comissão era um coronel republicano, Cândido José da Costa, que28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 35/127convocou o banqueiro Francisco de Paula Maryrink para apresentar suas sugestões.O coronel Cândido se tornaria o intermediário, que permitiria a Mayrink se aproxi-mar de Rui e se tornar o grande condestável da curta e turbulenta fase do Encilha-mento. (Magalhães Jr.,62)O modelo proposto era o seguinte:1. Os bancos poderiam adquirir os títulos da dívida pública no mercado, abaixo dopar (isto é, com desconto). Mas, para efeito de emissão, seria considerado o valorde face do título. Com isso, os bancos ganhavam a diferença. O lastro poderia serconstituído gradativamente, à medida que houvesse novas emissões.2. No início das operações, os bancos deveriam reduzir em 2% os juros das apóli-ces que constituíam o lastro – caindo de 5% para 3% ao ano. Depois, a cada anoreduziriam em 0,5% a taxa de juros, até zerar ao cabo de seis anos. Adicionalmen-te, os bancos se comprometeriam a constituir um fundo, com uma cota não inferiora 10% dos lucros brutos, para futuro resgate das apólices do lastro. Com isso, aremonetização ajudaria a liquidar a dívida pública.3. As compensações eram amplas. Os bancos emissores teriam direito a terras de-volutas do governo, de graça, podendo colonizá-las e vendê-las, assim como criarestabelecimentos industriais. Teriam preferência nas concorrências públicas paraconstrução de obras públicas, exploração de minas, colonização e migração. Os es-tabelecimentos industriais que fundassem teriam isenção de todos os impostos.Também poderiam operar com desconto, câmbio, hipotecas, penhor, negociar comterras (Magalhães Jr.,61).4. Para contentar a lavoura, o Tesouro também garantiria juros de letras hipotecá-rias emitidas como contrapartidas aos empréstimos agrícolas.Só que, em vez de um ambiente competitivo, definia três bancos monopolistas, umpara cada região do país. O da região Centro teria sede no Rio de Janeiro e 200 milcontos de limite à expansão monetária. O da Região Norte teria sede na Bahia e150 mil contos de limite de emissão. O da região Sul seria sediado em Porto Alegre,com 100 mil contos de limite de emissão.O decreto de Rui foi assinado na chamada calada da noite, no dia 17 de janeiro. Osdemais ministros só souberam de sua existência pelos jornais do dia seguinte. Ob-viamente, explodiu uma crise ministerial. Era um escândalo de grandes proporçõesem qualquer tempo e em qualquer circunstância política. Conferiam-se benefíciosextraordinários a pessoas escolhidas solitariamente pelo Ministro da Fazenda, semsequer o Presidente da República ter sido consultado.No dia seguinte ao da publicação do decreto, Rui convocou o Conselheiro Franciscode Paula Mayrink para ser o responsável pelo banco emissor do Centro. O banco deMayrink foi autorizado a funcionar por decreto de 29 de janeiro. No dia 5 de feve-reiro o novo banco incorporou o Banco dos Estados Unidos do Brasil. Em 24 de fe-vereiro o novo banco começava a operar. Luis Nassif 19/7/06 18:34 Comment: Que banco era esse?Rui alegava que a transparência do processo poderia comprometê-lo, que as medi-das exigiam sigilo. Era total sua ascendência sobre Deodoro, que em decreto de 31de dezembro o nomeara “vice-chefe do governo provisório”.Três dias depois do decreto promulgado, houve uma reunião ministerial. No decor-rer dela, o Ministro da Agricultura, o gaúcho Demétrio Ribeiro reportou o óbvio. Quea incorporação do banco emissor do Centro pelo Conselheiro Mayrink configuravaum “verdadeiro privilégio e monopólio”; que, de tão poderosos, os novos bancosiriam administrar o Estado. Deodoro interrompeu a reunião.Houve uma segunda reunião, no dia 30 de janeiro, com o Ministério todo contrárioà proposta de Rui. Com o impasse criado, alguns ministros propõem a demissãocoletiva do Ministério. Não, Rui, para quem a decisão dependia do chefe de estado.O pacote de Rui avançava até em assuntos jurídicos, alterando as condições da e-xecução judicial.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 36/127Para evitar um pedido de demissão de Deodoro, os ministros resolvem aceitar aproposta de Rui Barbosa. Apenas Demétrio Ribeiro resiste. Insiste que o novo ban-co irá ferir as liberdades bancárias, absorverá todas as estradas de ferro, impediráo crescimento dos pequenos capitalistas e que traria necessariamente a queda docâmbio.Os impasses começam a ser resolvidos com concessões variadas. Contrário à lei,Campos Salles arranca um banco emissor para São Paulo. Lembra que “esse banco,poderoso por causa da zona, vai ser uma potência até em política. Veja-se o queacontece com os bancos criados pelo Visconde de Ouro Preto, os quais lhes deramganho de causa nas eleições. Imagine-se que os recursos para toda a atividade de-pendem do chefe do banco, e conclua-se daí a sua influência” (Franco, 112). Rui dizconcordar com a proposta.Rui Barbosa minimizou os riscos do câmbio, da exata maneira com que Franco fariaquase cem anos depois: “Se o câmbio desce, é que está demonstrando que a situa-ção econômica do país não permite manter-se essa taxa naturalmente acima dos23”. Ribeiro insistiu: “Mas nosso dever é preocupar-nos seriamente com os prejuí-zos que nos possam trazer o fluxo de câmbio”.Nada consegue. Resta a Demétrio o consolo proporcionado por Benjamin Constant:o de constar suas ressalvas em ata, e “mais tarde, caso seja infeliz o resultado dobanco, aparecerão elas com brilho para o nome de S. Excia”. Nem isso a histórialhe permitiu.Na saída da reunião, já de madrugada, Demétrio desabafou com Aristides Lobo eCampos Salles: “Esse banco é pior que um cancro (...) além de expor-nos à maldi-ção pública, vai ser a ruína completa da pátria”.De nada adiantaram o bom senso, a visão sólida de Demétrio perto da erudição de-senfreada de Rui. No dia 31, em carta a um amigo, Benjamin Constant diria que“diante da brilhante defesa de Rui, justificando a sua reforma, e da pálida acusaçãode Demétrio, não pude deixar de aceitar o decreto de 17, e aplaudir o seu autor,cuja capacidade sempre apreciei”.O país dos bacharéis e dos cabeças de planilha lograra se impor sobre o bom sensode quem conseguia enxergar o futuro sem as lentes das formulações abstratas.O malfeito foi feito sem nenhuma preocupação em analisar os desdobramentos doato. O fantasma de John Law foi imediatamente lembrado pelo jornalista francêsMax Leclerc, correspondente do “Journal des Débats”. “Na França, onde tiveram origem muitas idéias, boas ou más, que desde en- tão se irradiaram pelo mundo, as pessoas de alguma memória não se esque- cerão de dizer: mas isto dá idéia de coisa já vista. Sem remontar mais longe do que o ano de 1718, não havia, então, um certo sr. Law, que pretendia co- locar as duas margens do Mississipi em ações? E não é verdade que esse grande homem saiu-se mal? É duvidoso, portanto, que a rua do Ouvidor se torne a rua Quincampoix do Rio”.O terceiro ato do EncilhamentoEm fins de fevereiro entrou em funcionamento o Banco dos Estados Unidos do Bra-sil (BEUB). De cara, espocaram reações contra os privilégios conferidos aos bancosemissores.Pior: o BEUB nasceu sob suspeita de uma fraude, de falsificação de seu capital. Es-sa suspeita surgiu em correspondência de 25 de janeiro de 1890, de Capistrano deAbreu ao Barão do Rio Branco. O BEUB colocara um milhão de ações na praça. Tu-do foi colocado no primeiro dia, mas –observava Capistrano—só Mayrink tinha fica-do com 600 mil ações. Ou seja, 60% do capital não encontrou tomador (Magalhães28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 37/127Jr.,67). Tempos depois, já no governo Floriano Peixoto, o Ministro da Fazenda Ser-zedelo Corrêa, constatou que a integralização do capital foi mero jogo de contas.Explodiam de imediato reações contra os privilégios conferidos ao Conselheiro Ma-yrink. Um grupo de empresários, liderado por Paulo de Frontim, preparou um abai-xo assinado e o levou a Deodoro. Cercado por todos os lados, Rui escreve uma car-ta a Deodoro em 8 de março de 1890. Nele, lembra Deodoro que o Banco Nacional,do Conde Figueiredo, tinha um contrato “inconstitucional e monstruoso no governoimperial”, todos esperavam que ele, Rui, rescindisse, mas não o fez. Portanto, Fi-gueiredo lhe devia um favor. “Todavia isso não queria dizer que a sua situação fi-casse definitivamente regularizada, nem que o Governo Provisório houvesse re-nunciado ao direito, ou talvez antes o dever de encaminhá-la, e dar-lhe situaçãocompatível com os nossos compromissos oposicionistas”. E dava o xeque em Deo-doro: “O Banco Nacional já ousa levar os seus emissários até a presença do chefedo Estado e conta abalar-me a confiança dele. Para que eu prossiga, pois, é essen-cial saber eu definitivamente se o meu velho chefe, a quem pertence a minha dedi-cação e a minha vida, mantém para comigo o pacto da confiança absoluta e dá-me,na luta contra esse inimigo, a autoridade ilimitada de que eu preciso a bem do Go-verno, da República e da pátria. Nesta hipótese estou pronto para tudo e irei com ochefe glorioso da revolução até o extremo limite do sacrifício, sem me importaremhostilidades, quaisquer que forem. Mas, não sendo assim, o cálice é amargo de-mais, e a minha posição não será dignamente sustentável”.Deodoro cedeu, como cederia nas nove vezes restantes em que Rui o pressionoucom pedidos de demissão.No segundo semestre de 1889 diversos bancos tinham gastado suas reservas im-portando ouro e, com as modificações introduzidas por Rui, tinham sido prejudica-dos em sua capacidade de emitir moeda. Esses bancos tinham até o final de marçopara fazer suas emissões, sob pena de perder as concessões. Assim, Rui foi sendopressionado a autorizar a emissão com base nas reservas metálicas, em regime deinconversibilidade.As pressões vinham acompanhadas de uma imensa atoarda na imprensa, atingindoum Ministro da Fazenda moralmente fragilizado pelas concessões escandalosas con-feridas ao Conselheiro Mayrink. No dia 6 de março Rui Barbosa foi até Deodoro eexigiu a autorização para os demais bancos poderem emitir até o dobro de 20 milcontos em espécies metálicas, que seriam depositadas no Tesouro em regime deinconversibilidade. Condicionava sua permanência no Ministério à aprovação dopleito por Deodoro.O Marechal assinou o decreto. Mas, antes de ser publicado, Rui Barbosa recebeuorientação de Matta Machado (homem de Mayrink) para modificações no decreto,que foram feitas e enviadas a Deodoro, depois de inutilizado o primeiro decreto.Pelo novo decreto, de número 273, de 7 de março, o Banco Nacional e o Banco doBrasil poderiam emitir até o dobro da quantia de 25 mil contos, da quantia que es-ses bancos depositassem em moeda metálica no Tesouro. As moedas só seriamconversíveis se o câmbio se mantivesse acima do par por mais de um ano. Nomesmo decreto, reduzia-se para 50 mil contos o direito de emissão do BEUB, doConselheiro Mayrink.O que parecia ser uma redução dos privilégios do BEUB ficou claro em agosto,quando o banco foi autorizado a emitir os outros 50 mil contos sobre a base metáli-ca – agora muito mais vantajosa do que sobre títulos públicos, porque se autoriza-va emissão sobre o dobro do valor das reservas– com as mesmas vantagens con-feridas ao Banco do Brasil e ao Banco Nacional em março. Mais uma vez, o Ministé-rio não foi consultado. Mais uma vez explodiram acusações contra Rui. Cesário Al-vim, o novo Ministro do Interior – que substituíra Aristides Lobo, que se demitiu noepisódio de 17 de janeiro – fez o mesmo alerta de seu antecessor: seria um desas-tre. Rui defendia a proposta com o argumento de que, se não houvesse aumentoda liquidez, haveria uma crise sem precedentes na praça. Cesário Alvim rebatia que28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 38/127dois bancos emissores, o do Brasil e o Nacional, não tinham completado sua emis-são, o que significava que não havia problemas de liquidez.O decreto n.° 700ª, de 29 de agosto, dava ao Banco dos Estados Unidos do Brasil odireito de fazer nova emissão até o dobro de 25 mil contos, que depositaria no Te-souro. Rui vencera declarando que "sem essa medida justa, inadiável, imprescindí-vel, não poderia continuar no seu cargo".Pouco depois, para superar as pressões, patrocinou a fusão do BEUB com o Nacio-nal, do Conde de Figueiredo, resultando no Banco da República, dando a gestão aoConselheiro Mayrink. O novo banco emitiria o triplo do seu lastro ouro e faria o res-gate do papel-moeda, duas terças partes gratuitamente e a outra contra apólicesde 4%. Agora se copiava integralmente o sistema bolado pelo Visconde Ouro Pretopara beneficiar o Conde de Figueiredo (Magalhães Jr.,75). Rui fez questão de no-mear conhecidos, Felício dos Santos, Rodolfo de Abreu, Almeida Pernambuco, SilvioRomero para o banco.Àquela altura, com os negócios completos, jogava-se para o lado as metas de redu-ção da dívida pública.Para complicar a história, houve uma jogada especulativa na Argentina que provo-cou a quebra do Banco Berhings, com conseqüências inevitáveis sobre o câmbiobrasileiro.No início de 1891, já rico, tendo saído do governo para dirigir companhias, filhas doEncilhamento e do Conselheiro Mayrink, Rui lamentaria as decisões tomadas. Senão tivesse sido pressionado, diria ele, metade da dívida pública teria sido resgata-da. Quase cem anos depois, sócio de bancos, rico e realizado, o economista EdmarBacha, um dos pais do Real, também se lamentaria da falta de força política parareduzir a dívida interna.As conseqüências foram dramáticas. Primeiro, ampliou de forma drástica a capaci-dade dos bancos de emitirem. Segundo, como as emissões sobre as bases metáli-cas passaram a ser inconversíveis, deu enorme poder aos bancos para atuar nomercado de câmbio, utilizando suas reservas ainda não aproveitadas como lastropara a emissão de títulos.No caso do encilhamento, os golpes foram montados em cima de emissões primá-rias de ações. O comprador pagava 10% do valor da emissão. A empresa era lan-çada. Quando necessitava de mais capital, procedia a novas chamadas. Se o inves-tidor não subscrevesse a nova chamada, perdia direito ao que já havia pago. Nãohavia mercado secundário, com a negociação dos papéis em bolsa.Além disso, as ações eram negociadas por seu valor nominal. Se uma empresa iamal, não havia queda na cotação dos seus papéis -- o que permitiria ao investidorreduzir seu prejuízo, vendendo o papel com desconto. Na hora de novas emissões,as empresas não tinham como reduzir o valor das ações, que estavam amarradasao valor nominal dos vencimentos. Resultava disso o encalhe dos lançamentos pos-teriores, inviabilizando as empresas e dando prejuízo integral aos acionistas.Embora não houvesse um mercado secundário formal, e teoricamente as ações cor-respondentes à primeira emissão não poderiam ser negociadas, criou-se uma gam-biarra, Usava-se uma "procuração em causa própria", que permitia a transferênciada propriedade sobre as ações, sem e necessidade de assinatura no livro de regis-tro de ações da companhia.Os Mendes de Almeida criaram os certificados de depósito, chamados de "war-rants", permitindo a circulação de títulos nominativos como se fossem ao portador,"mediante comissão insignificante" (Carvalho, 161).De janeiro a abril, tal como Demétrio havia previsto, houve intensa desvalorizaçãocambial, de cerca de 25%, seguida da volta da inflação. De uma taxa negativa de16,1% em 1887, a inflação chegou a alcançar 84,9% em 1891, quando a especula-ção atingiu o seu auge6.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 39/127Deodoro cobrou explicações de Rui. Sua resposta foi a de que o câmbio estavasubmetido a uma especulação do Banco Nacional, mas que não poderia durar muitotempo. A intenção dos especuladores seria a de enfraquecer o governo de Deodoro,mas não conseguiriam atingir seu intento. O Ministério aceitou as explicações.Na verdade, tinha havido volume considerável de vendas de cambiais a descobertoantes da safra. Os tomadores dos papéis passaram a atuar para forçar a baixa docâmbio. No momento da liquidação, quem tinha vendido a descoberto foi obrigadoa ir a mercado adquirir cambiais a preços muito mais elevados. A corrida dos com-pradores a descoberto deflagrou um jogo especulativo pesado, em que as somasjogadas eram sucessivamente mais elevadas7Com a dinheirama inundando a economia, com as reservas de ouro dos bancos po-dendo influenciar o mercado de câmbio, o movimento especulativo em torno daBolsa de Valores atingiu seu ápice.Após a especulação com ações, seguiu-se uma muito mais ampla, sofisticada e in-tensa com o câmbio, em geral pouco estudada. Principalmente após a quebra doBharing, especulando com câmbio na Argentina.A desorganização financeira abria espaço para toda sorte de jogadas cambiais. Essejogo consistia em vender ou comprar saques no exterior sem cobertura cambial. Sódepois que chegavam as mercadorias e eram vendidas os importadores tinham osrecursos necessários para as liquidações cambiais8.O quarto ato do EncilhamentoNo período de 1876 a 1886 houve um aumento de 1,067% nas transações na Bolsade Valores e de 231% no número de companhias com títulos cotadas em pre-gão.ram 53 empresas, entre as quais 16 bancos, 11 companhias de seguro, 2 defiação e tecidos, 21 de transportes e 3 de serviços públicos.A partir de 1889 o aumento de transações é de 84% em 1889, 98% em 1890 e45% em 1891. Em 1890 já eram 114 empresas listadas em Bolsa, das quais 43bancos, 7 companhias de seguro, 10 de fiação e tecidos, 3 de alimentos e bebidas,22 de transportes, 8 de serviços públicos, 2 de extração mineral, 3 de comércio, 5de construção civil, uma de construção naval, 3 de recreação e esportes, 2 de colo-nização e cinco de setores não identificados9.As grandes especulações bursátis promovidas por Rui Barbosa deixaram para se-gundo plano sua ação no campo da dívida pública. Desde a Independência, o endi-vidamento público sempre fora uma fonte de ganhos consideráveis para os bancos.Assim como hoje, a taxa de juros refletia o risco Brasil. Quanto pior o país, maioresas taxas.Quando candidato à presidência, na Campanha Civilista, Rui fizera um manifestocom dezoito itens sobre atos que “não farei”. Um deles era: "Não empenharei a ga-rantia federal em empréstimos internos ou externos, contraídos por Estados oumunicipalidades" (Magalhães Jr.,122).No Ministério da Fazenda de Deodoro, além do Encilhamento, Rui escancarou asportas para o endividamento de estados e municípios. Em 14 de agosto de 1890,pouco antes de se reunir o Congresso Constituinte, Rui se antecipou e fez Deodoroaprovar um decreto pelo qual o governo federal iria garantir qualquer empréstimoaos estados até o limite de 50 mil contos. A intenção seria favorecer dois interme-diários ligados a um grupo de banqueiros ingleses, liderados pela firma Louis Cohen& Sons.Eram João Pereira da Silva Monteiro e Alberto José Pimentel Hargreaves, que arti-cularam essa medida com Rui. Cinco dias depois do decreto ser publicado, um tele-grama da empresa Louis Cohen & Sons dava início ao processo de endividamentodos Estados.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 40/127O contrato definia as obrigações dos Estados. Os juros seriam de 5% ao ano sobreo capital nominal emprestado e seriam pagos por um fundo cumulativo de amorti-zação de 1%. Para garantir o pagamento, os Estados dariam como garantiam, porlei especial, “as rendas precisas, provenientes da exportação e importação, ouquaisquer outras e que correspondessem aos compromissos contraídos”. O Tesourogarantiria qualquer inadimplência.A crise fiscal e o esmagamento dos estadosOs negócios de RuiQuando deixou o governo, no bojo de uma renúncia coletiva do Ministério Deodoro,Rui foi presenteado por Mayrink e outros banqueiros com um palacete em Laranjei-ras. Segundo relatou seu cunhado Carlos Viana Bandeiras, foi sua mãe (sogra deRui) quem o convenceu a não aceitar o presente, porque tal coisa “não cheiravabem”.A ficha de Deodoro só caiu mais tarde quando Rui vendeu a Quinta do Caju, depropriedade da União, sem consultar o presidente e por um preço considerado irri-sório. A venda foi anulada, Rui pediu demissão pela nona vez, Deodoro recusou pe-la última vez.Quando saiu do Ministério, Rui já era um homem rico, participando de três empre-sas criadas no Encilhamento. Ainda se tornou presidente da Estrada de Ferro Goiáse Mato Grosso e do Banco Impulsor. Entre fevereiro e maio de 1891, em plena a-gonia do Encilhamento, o banco patrocinou cinco novos lançamentos no mercado.Com o cunhado Carlos Viana Bandeira, o Carlito, e o Conselheiro Mayrink, aindaparticipou da fundação de um tal Banco Vitalício do Brasil que, como quase todosos empreendimentos de Mayrink, era subcapitalizado, com a subscrição constituídapor notas promissórias. O banco acabou sendo fechado antes que explodisse o es-cândalo.O prestígio angariado no Ministério ainda permitiu que se tornasse membro do con-selho de meia dúzia de empresas (Carvalho, 137). Depois de enriquecer, os atoresdo Encilhamento buscavam status social, prestígio político, refinamento cultural.Pouco após a renúncia coletiva do Ministério de Deodoro, surgiram duas das últimasempresas do Encilhamento: a Companhia Estrada de Ferro Goiás-Mato Grosso e aCompanhia Fomento Industrial e Agrícola do Mato Grosso.A primeira foi autorizada por Francisco Glicério, colega de ministério de Rui, cominúmeros privilégios, rentabilidade assegurada. A segunda teve como objetivo colo-nizar os 40 quilômetros de terras ao redor da ferrovia. Provavelmente, tudo foi ar-ranjado pelo seu patrono, Conselheiro Mayrink, que também colocou Rui na presi-dência da Companhia Frigorífica e Pastoril Brasileira.Fora os negócios em que se meteu seu cunhado. Foi ele quem conseguiu para Rui oposto de consultor jurídico da Light and Power Co. Ltd. E também envolveu o cu-nhado em inúmeros escândalos, como a fundação do Banco Vitalício do Brasil, colo-cando Rui como presidente. O banco tinha como capital apenas uma promissória deMayrink a Carlito.Em suas memórias, Carlito confessava que "Minhas atividades em torno da Bolsa proporcionavam-me resultados que me faziam nadar em dinheiro. Os sucessos eram expostos na nossa roda como tacadas. De quando em quando, uma de 20, 30. de 50 contos. Vez por outra, uma de 100 ou mais. Agora, sim, apresentava-me como um capitalista. En- chi-me de boas roupas, calçados, chapéus e bengalas".Nessa época, em que Rui foi Ministro, o cunhado tinha apenas 20 anos10.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 41/127As relações de Rui com o capital financeiro internacional ficariam mais claras aindanas reuniões de Haia –onde consolidou seu prestígio. O diplomata argentino LuizMaria Drago defendeu uma posição que impedia países credores de usar da forçapara conseguir receber seus créditos de países endividados. A América Latina empeso votou a favor da proposta. O único voto contrário foi de Rui (Gonçalves, 118).Em 1993, dois anos depois de deixar o governo, Rui estava suficientemente ricopara comprar o palacete neoclássico na rua São Clemente, bairro do Botafogo, quepertencera ao Barão da Lagoa.Interesses diversosOs chamados interesses da cafeicultura não podiam ser entendidos de forma ho-mogênea. A cadeia do café tinha duas etapas: a interna e a externa. A interna eracomposta pelo plantador de café, pelo financiador (casa comissária, bancos) atéchegar ao exportador. A partir daí, havia uma outra dinâmica, que era o circuitopercorrido pelos dólares (ou libras) até os bancos internacionais.O que impôs a agenda “liberal” (de livre fluxo de capitais) na Primeira Repúblicaforam os interesses rentistas da última etapa da cadeia do café, a quem interessa-va câmbio livre e juros altos. Esse modelo enreda a economia do café em crises su-cessivas, levando, aí sim –pelo poder político do cafeicultor—, à gambiarra das polí-ticas de sustentação de preço que quebram as contas públicas.Como se deu tal sobrevida a uma política que liquidava com a incipiente produçãoindustrial local, mantinha o país na estagnação e submetia o principal setor produ-tivo –a cafeicultura— à espada de Dâmocles de crises sucessivas?O jovem Gustavo FrancoO Brasil começava a ingressar na segunda era da internacionalização do capital, noinício dos anos 80, quando o jovem Gustavo Franco terminou sua monografia, quese tornou vencedora do prestigiado Prêmio BNDES. O tema era justamente o Enci-lhamento.Qualquer um que limitasse sua leitura do período à monografia de Gustavo, nãoteria dúvidas sobre as razões do fracasso a política monetária de Rui Barbosa. Pri-meiro, o escândalo político provocado pela decisão solitária de Rui Barbosa, de es-colher o vencedor do jogo. Depois, pela complacência de Rui com os abusos come-tidos pelo Encilhamento, e suas sucessivas tentativas de salvar o Conselheiro Ma-yrink das estripulias em que se metera.O poder político da monetização era evidente na fala de Campos Salles, sobre o e-norme poder de que dispunha o Conde de Figueiredo, no curto espaço de tempo emque seu banco ganhou os poderes de emissor de moeda.A retórica utilizada para a implementação do modelo monetário de Rui era compe-tentemente dissecada. A promessa (não cumprida) de acabar com a dívida pública,a retórica do “em todo lugar é assim”, a capacidade de Rui de enrolar Deodoro oracom um linguajar técnico fora da compreensão do presidente, ora com pedidos dedemissão, ora com citações selecionadas sobre o que ocorria em outros países.Sua grande indagação, durante todo o livro, era saber o que faltou para Rui Barbo-sa ter vencido o jogo, e os financistas terem avançado em sua missão de coordenaro desenvolvimento brasileiro.Para Gustavo, Mayrink era um empreendedor à altura de Mauá. O plano de Rui eraperfeito. Só falhara ao não dispor de um grande Banco Central para controlar asrepercussões cambiais da quebra do Bharing.A formação de Franco explicaria seu fascínio pelo jogo monetário e cambial, e pelasperspectivas que abria para o grande jogo do poder político.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 42/127Seu pai é Gustavo Arinos, um amazonense que deixou uma cidade distante para secandidatar em um concurso do Banco do Brasil, venceu e ajudou na montagem doplano cambial que permitiu ao Brasil enfrentar a escassez de divisas da SegundaGuerra.Depois, descoberta por Alzira Vargas, tornou-se assessor pessoal de Vargas. Dis-creto, leal, tornou-se especialista nas intrigas palacianas. Sabia, como ninguém,que o poder, nas burocracias, residia na capacidade de organizar idéias e preparardecretos.Quando Vargas caiu a primeira vez, Guilherme foi um dos dois servidores leais queacompanharam o ditador ao seu exílio, em uma casa de fazenda sem luz elétrica. Ooutro era Gregório Fortunado, o Anjo Negro.Anos mais tarde, associou-se à recém fundada Corretora Garantia, de Jorge PauloLehmann, que o ajudou a administrar a caixinha política do então governador doRio Marcelo Alencar, seu parente. Terminou com 1% da corretora, depois BancoGarantia, o suficiente para torná-lo rico.Não era o dinheiro que o entusiasmava, mas o jogo político, a capacidade de mudaro país, de participar dos jogos de poder. E essa paixão ele transmitiu ao filho Gus-tavo. Não apenas transmitiu como conferiu-lhe a responsabilidade futura de ser umator político relevante.É essa formação que explicava, ao lado de conhecimentos teóricos sobre políticamonetária e câmbio, o deslumbramento com o poder mágico da moeda no jogo po-lítico de um país e com a a extraordinária capacidade de Rui de transformar conhe-cimento técnico em poder político, em desenvolver argumentos legitimadores paraocultar privilégios intoleráveis.Enquanto o jovem Gustavo completava seus estudos, o país iniciava o longo ciclode mudanças, que começa com o fim do Regime Militar e desemboca no Plano Real.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 43/127A Redemocratização e o Plano CruzadoA Redemocratização e o Plano CruzadoA volta do poder aos civis deu-se aos solavancos. A campanha pelas eleições dire-tas não prosperou, por receio das próprias lideranças civis. Em um pleito indireto,Tancredo Neves, político antigo, respeitado, ex-Ministro de Vargas, de Jango, ven-ceu as eleições tendo como vice José Sarney, egresso da Arena, partido do gover-no. Tinha início a Nova República, mas enfrentando um quadro econômico bemmais complexo que a bonança encontrada por Deodoro e Rui Barbosa na Proclama-ção.A inflação já era o grande problema nacional. No início da década de 80, o aumentodas taxas de juros internacionais e do preço do petróleo havia varrido a economiabrasileira como um vendaval. Ao mesmo tempo, em 1979 assumia a presidência ogeneral João Baptista Figueiredo, despreparado, açoitado de um lado pela crise in-ternacional, de outro pelo esgarçamento político do seu governo.No começo de 1980, Delfim Netto assumiu o Ministério da Fazenda, com um pro-blema adicional, a aprovação da nova lei salarial instituindo reajustes semestrais desalários. Para acomodar as pressões, Delfim preparou um pacote econômico, queconsistia em uma maxidesvalorização, seguida de um congelamento da correçãomonetária e do câmbio. Seis meses depois a maxi havia sido comida pela inflação.O congelamento da correção monetária provocou uma onda de saques na poupançaajudando a botar mais lenha na fogueira da inflação. A apreciação do câmbio, maisos custos adicionais do petróleo e dos juros levam o país à moratória em 1982. Em1983, com outra maxidesvalorização Delfim conseguiu equilibrar as contas exter-nas, ainda que à custa de uma elevação substancial da inflação que, por sua vez,ajudou a equilibrar as contas externas e permitiu ao país começar a acumular supe-rávits comerciais expressivos.Quando Sarney assumiu, as contas externas e internas estavam em ordem, a eco-nomia começava a se recuperar da recessão de 1982. O desafio era a inflação. Énesse momento que surgem os economistas do Cruzado.Desde o início dos anos 80 o tema da inflação inercial atraía a atenção dos econo-mistas brasileiros. Estudiosos como Luiz Carlos Bresser Pereira, Yoshiaki Nakano,da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Adroaldo Moura da Silva, da Faculdadede Economia da USP, Chico Lopes, da FGV do Rio, começavam a se aprofundar notema. No exterior, os estudos foram levados adiante por Pérsio Arida e André LaraRezende.Até aquele início dos anos 80, o pensamento econômico acadêmico se dividia emduas escolas. À esquerda, os economistas ligados à Unicamp, entre os quais LuizGonzaga Belluzzo, João Manuel, Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, herdei-ros da tradição estruturalista de Celso Furtado. À direita, um grupo de economistasmonetaristas, formados na Universidade de Chicago, como Paulo Guedes, PauloRabello de Castro, discípulos de Roberto Campos, reunidos em torno da FundaçãoGetúlio Vargas, no Rio de Janeiro, na qual Chico Lopes e o jovem economista PauloNogueira Baptista Júnior eram vozes dissidentes.No começo da década, a Faculdade de Economia da PUC-Rio começou a montar seucírculo de economistas. Contratou Edmar Bacha, Pedro Malan, Chico Lopes, PérsioArida e André Lara entre outros, aos quais se somava o sólido conhecimento de e-conometria de Dionísio Dias Carneiro e o conhecimento histórico de Marcelo de Pai-va Abreu. O primeiro livro, que sinaliza o lançamento do Departamento de Econo-mia, propunha uma revisão no papel do Estado, mas ainda lhe conferindo um papelbastante ativo. Luis Nassif 18/7/06 23:31Todos tinham em comum o fato de não serem ligados à ditadura. Naquele momen- Comment: Mais detalhes do livroto, compunham a enorme frente que se montava para ocupar o poder.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 44/127O mais preparado deles, Chico Lopes, era filho de Lucas Lopes, figura central doPlano de Metas de Juscelino Kubistcheck, e mais brilhante professor da FGV, daqual saiu por conflitos internos. Pedro Malan notabilizara-se pela atividade sindical.Era funcionário público ligado ao IPEA.Bacha tinha vindo de Minas, passara pelo IPEA e, nos anos 70, escrevera uma uto-pia a quatro mãos com Roberto Mangabeira Unger, professor de Harvard. Depois,se notabilizara pelo estudo dos chamados "déficits gêmeos" e por ter cunhado aexpressão Belíndia para definir o Brasil, mistura de Bélgica e Índia. Em determinadomomento dos anos 80 ganhou sua consagração, a partir de um elogio de MárioHenrique Simonsen, reputando-o seu sucessor no pensamento econômico brasilei-ro.André Lara Rezende era filho de Otto Lara Rezende, cronista mineiro, jornalistarespeitado nos ambientes intelectuais do Rio de Janeiro. Pérsio Arida, filho de umcomerciante paulista de origem libanesa, guerrilheiro precoce que foi preso antesdos vinte anos e desistiu da militância. Eram considerados os dois mais brilhantesdo grupo.Depois de um início de governo conturbado, Sarney demitiu o Ministro da FazendaFrancisco Dornelles, que havia sido indicado por Tancredo. Em seu lugar nomeou oentão presidente do BNDES Dílson Funaro, industrial paulista dono de uma fábricade brinquedos, a Trol. Funaro indicou para a presidência do Banco Central FernãoBracher, grande especialista em câmbio. Foi em torno dele que se juntaram os fu-turos economistas do Real.De família tradicional de São Paulo, ex-militante da Ação Popular nos anos 50, dire-tor do Bradesco, Bracher era respeitado pela seriedade e apuro intelectual que odistinguia dos demais banqueiros da época.Havia sido diretor do Banco Central no governo Geisel, tendo como presidente Pau-lo Lyra. Estava como diretor do Banco da Bahia, quando este foi adquirido peloBradesco. Tornou-se vice-presidente da Área Internacional do Bradesco, até serconvocado para assumir a presidência do Banco Central, quando o primeiro Ministroda Fazenda de Sarney, Francisco Dornelles caiu.Àquela altura, os estudos sobre inflação inercial tinham avançado bastante. Funaroassumiu levando consigo economistas ligados à Unicamp, liderados por Luiz Gonza-ga de Mello Belluzo e João Manuel Cardoso de Mello. Bracher levou Pérsio e Andrécomo diretores do Banco Central, Chico Lopes como assessor. Um terceiro grupo seformou em torno de João Sayad, indicado pelo governador paulista Franco Montoro,de quem havia sido Secretário. Começaram ali a preparar o Plano Cruzado.A idéia central do plano é que o componente maior da inflação era inercial. Os pre-ços subiam hoje porque tinham subido antes. Subiam em relação ao valor da moe-da, mas tinham pouca variação entre si. Ou seja, uma laranja poderia dobrar depreço em determinado período, mas mantinha o mesmo valor em relação a um li-mão.A idéia central do plano consistia, portanto, em eliminar o elemento inercial. Isso sedaria através de uma troca de moedas, e de um processo conduzido de conversãodos preços da moeda antiga para a nova moeda, especialmente dos contratos. Emrelação à conversão, o plano trabalhava com o conceito de fluxo e de estoque. Flu-xos (no caso contratos continuados,) eram convertidos pela média; estoques, pelopico. Havia ainda um vetor para impedir que resíduos da inflação da antiga moedacontaminassem a nova.Seguia-se um congelamento de preços e de câmbio por determinado tempo, neces-sário para que a população se acostumasse com a nova moeda. Decidiu-se final-mente, que a conversão dos salários também seria feita pela média, mas com umacréscimo de 8%, para tornar o plano mais palatável.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 45/127As condições da economia na época não recomendavam a adoção do plano. Emplanos dessa natureza, com âncora cambial e de congelamento de preços, há a ne-cessidade de um comércio exterior atuante, que permitisse a importação de bensem setores pressionados pela demanda interna. O comércio exterior brasileiro erapraticamente inexistente.Havia a necessidade de uma política cambial flexível, que absorvesse os choques dedemanda. A política cambial brasileira era indexada e, depois do Cruzado, foi con-gelada. Mas todo o congelamento – de câmbio, de preços e contratos – tinha datacerta para terminar: assim que o Cruzado completasse um ano.Havia a necessidade de instrumentos consistentes de política monetária, que permi-tissem estender o prazo das aplicações e melhorar a eficácia da política de juros. Oopen market no Brasil era constituído de títulos públicos de curtíssimo prazo, pelosquais se pagavam taxas astronômicas de juros -- plena liquidez com plena rentabi-lidade.Finalmente, as empresas não estavam preparadas para operar em regime de esta-bilidade. Não havia programas de qualidade, não havia gestão moderna, nem par-cerias. E os Cruzados não tinham a menor idéia sobre os efeitos da estabilização naliquidez da economia, na remonetização, nos ganhos salariais, na balança comerci-al.Mesmo assim, tocou-se o plano. Fim da inflação, câmbio apreciado, salários aumen-tando, desestímulo à poupança provocaram uma explosão de vendas e uma pres-são incontrolável sobre os preços. E não se tinha nem como aliviar do lado das im-portações, nem do lado dos juros. O plano explodiu antes de completar o primeiroano.Pouco antes de sua explosão houve uma reunião em Carajás, onde compareceramtodos os economistas do Cruzado, dos "inercialistas" como André e Pérsio, aos "es-truturalistas" ligados a Funaro, e o grupo de João Sayad, egresso da USP e ligadoao governador paulista André Franco Montoro.Na reunião, não houve consenso sobre o que fazer para salvar o plano. A rigor, nãotinha salvação. Não havia saída indolor do congelamento, as pressões de preçoseram incontroláveis. Alguns dos economistas sugeriram aumento de juros, outros acriação de novos impostos. Qualquer que fosse a receita, não tinha como evitar aexplosão dos preços, assim que se iniciasse a contagem regressiva para o fim docongelamento.A saída foi a pior possível, através do Cruzado Dois, que impunha enorme reajusteno preço da gasolina. Seguiu-se uma temporada de superinflação que prosseguiráaté o final do governo Sarney.Para chegar ao final do governo, Sarney teve que apelar para mais dois planos eco-nômicos. Um, o chamado plano Bresser --implementado pelo novo Ministro da Fa-zenda Luiz Carlos Bresser Pereira. O outro, o plano Verão, implementado por Maíl-son da Nóbrega, funcionário de carreira do Banco do Brasil, secretário executivo daFazenda, que assumiu o Ministério após a saída de Bresser e a recusa de AndréaCalabi em assumir o posto.O Cruzado tinha sido um completo fracasso. Mas mostrou enorme eficácia política.Antes que acabasse, ajudou a eleger 23 governadores do PMDB. E, junto à mídia,consolidou-se a versão de que seu fracasso fora devido a a uma suposta indecisão Luis Nassif 18/7/06 23:31de Sarney de acatar as recomendações dos Cruzados na reunião de Carajás. Para Comment: Conferir número de governa-alimentar essa lenda, em muito contribuiu o sebastianismo intrínseco na cultura doresbrasileira, de se aguardar sempre um salvador.Muitas coisas explicavam esse encantamento com o Cruzado. Mal entrando na de-mocracia, a opinião pública experimentava dois desencantos, com o regime militar,que terminara, e com os primeiros ensaios da democracia que nascia. Havia umadesconfiança enorme em relação a políticos, a interesses corporativos. Os econo-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 46/127mistas representavam a suposta visão técnica, neutra, técnicos isentos acima dosinteresses e paixões da política.Os novos financistasA ligação dos novos economistas com o mercado começou antes mesmo de termi-nar o governo Sarney. Àquela altura, a falta de regulação e de transparência permi-tiram a criação de dois movimentos especulativos intensos.O primeiro, foi a quitação antecipada de dívida externa. Com a moratória decretadapor Dílson Funaro em fins de 1986, os títulos da dívida brasileira, a soberana e dasestatais, desabaram. O negócio consistia em adquirir essas dívidas no exterior com70 a 80% de desconto, depois revendê-la para as estatais com 30% de desconto.Os lucros eram excepcionais. Não se tratava de uma novidade. Nos anos 30 e 40muita riqueza foi construída dessa maneira, com compra desagiada da dívida e in-formações privilegiadas.A segunda brecha foi uma autorização do Ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega,para a conversão de dívida externa em cruzeiros, pelo valor de face. Foi uma es-bórnia que ajudou a alimentar a inflação e foi uma das responsáveis pelo fato da Luis Nassif 18/7/06 23:31inflação ter superado os 50% nos últimos meses do governo Sarney. Comment: Conferir se foi Maílson. E como foiOs novos financistas brasileiros tinham acompanhado atentamente os primeirosmovimentos de liberalização na América Latina, a experiência chilena com os “Chi-cago’s boys”. Pinochet se valera deles para abrir a economia e iniciar o processo deprivatização.Valendo-se de sua influência, os economistas montaram modelos de privatizaçãoque permitiram a vários deles assumir o controle de grandes estatais chilenas, re-presentando fundos de investimento externo, ou participando com parcela ínfimade capital.Quando se deu conta de seus exageros, Pinochet mandou prender alguns, e foi cu-nhado o apelido de “pirañas financeras” para o personagem que, nos tempos deRui, era chamado de financista.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 47/127A nova onda de globalização financeiraA nova onda de globalização financeiraEnquanto a jovem Nova República se debatia com a própria ausência de institucio-nalidade, a partir dos anos 70 a economia mundial começava a viver uma nova rea-lidade. O grande pêndulo das idéias econômicas hegemônicas começa a se inverter,a se afastar dos princípios moribundos de Bretton Woods e a buscar de novo a ple-na liberardade de movimento dos fluxos financeiros. A partir da decisão do presi-dente americano Richard Nixon, de desvincular o dólar do padrao ouro, em 1972,voltava-se ao panorama que sacudiu o mundo nas três últimas décadas do século19.Os anos 80 foi um período de fortes movimentos especulativos criados pelas novasmodalidades de operações financeiras e pela descoberta de novos ativos, capaz deatrair a excepcional liquidez internacional.NixonReaganAs revoluções tecnológicasCom a consolidação dos grandes complexos eletroeletrônicos, a economia interna-cional sofre uma profunda inflexão, uma revolução abrindo janelas de oportunidadepara novos países.Algumas dessas tendências começam a surgir nos anos 80 e ganham vigor nos a-nos 90 (Luciano Coutinho,http://www.perseuabramo.org.br/td/td16/td16_economia.htm).• A emergência do complexo-eletrônico como principal complexo industrial e comoepicentro da inovação;• O aprofundamento da automação industrial integrada e flexível sob comando decomputadores;• A revolução correlata nos processos de trabalho, nas relações de trabalho e nosrequerimentos educacionais;• A revolução nas formas de organização e de gestão empresarial, com o avançodas redes-de-cooperação intra e inter- empresas;• A globalização das relações financeiras e dos mercados de capitais, acompanhadade notável interpenetração patrimonial entre as grandes burguesias capitalistas;• A emergência de novas formas de concorrência entre grupos de empresas oligo-polistas, através de alianças tecnológicas;• O aguçamento da competição mundial, através da construção deliberada de com-petitividade, como resultado de estratégias conjuntas entre Estado e setor privado.As novas tecnologias lograram ganhos de produtividade fantásticos. A indústriamoderna entrou na era da mecânica de precisão, da robótica, a explosão das cadei-as produtivas das empresas, graças ao controle permitido pela informatização e pe-la Internet. As compras de insumos passaram a ser feitas automaticamente, graçasà interligação das redes de computador pelas diversas cadeias produtivas.No plano gerencial, as novas revoluções levaram o conceito de competitividade aníveis jamais vistos, com os programas de qualidade total, as metas de erro zero,28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 48/127as grandes fusões visando conquistar escala, e o novo mundo que se desenvolviaem torno das conquistas da microeletrônica.Os Grandes Movimentos EspeculativosA partir do final da paridade dólar-ouro, o mercado começa a desenvolver diversasferramentas de "hedge", como derivativos, opções e outras formas, que permitiamalavancar lances no mercado. A tecnologia teve papel essencial, através da telemá-tica permitindo a integração das diversas bolsas internacionais.Foi o início de um período que mesclou bolhas especulativas com grandes escânda-los corporativos. Em 1982 explodiu a moratória do México, seguida da do Brasil.Nos anos seguintes, o mundo testemunharia o “crash” da Bolsa de Nova York em1987, a crise do mercado imoliário norte-americano, a crise bancária japonesa.O mais famoso escândalo do período foi o dos "junk bonds", movimento encerradocom a quebra do Banco Drexel Burnham e a prisão de seu proprietário Michael Mil-ken, por uso de informações privilegiadas.No final da década explodiu nova bolha especulativa em Tóquio, depois de quaseuma década de especulação na Bolsa local (Carvalho, 64). Houve denúncias de en-volvimento da máfia japonesa, demissão do presidente da Nomura Securities, mai-or corretora do Japão, e envolvimento de quase todos os grandes bancos japonesescom a especulação. Essa crise custou mais de uma década de estagnação da eco-nomia japonesa.Os déficits gêmeos americanos aumentavam expressivamente a liquidez mundial,levando à emissão quase descontrolada de dólares. Por sua vez, o frenético ritmode mudanças tecnológicas, de um lado, a instabilidade cambial do outro, levaramos capitais a se concentrar `cada vez mais no curto prazo, através das novas fer-ramentas financeiras que foram sendo desenvolvidas.O mercado brasileiro começou a descobrir a jogatina mundial ainda no começo dosanos 80, com a Corretora Tieppo, de São Paulo, que passou a captar recursos degrandes investidores paulistas para aplicar no mercado internacional -- apesar daproibição da evasão de divisas. A corretora criou, sua contabilidade paralela (queidentificava os investidores que aplicavam no exterior), acabou desaparecendo semque houvesse punição. Ficou apenas o prejuízo.Nos anos seguintes, a especulação em bolsa aumentou substancialmente. O regimemilitar ia por água abaixo, e, após o Cruzado, a inflação parecia incontrolável. Sur-giram novas corretoras, agressivas que, em seguida, se transformaram em bancosde investimento, após uma medida do Banco Central flexibilizando o sistema decartas patentes. Luis Nassif 18/7/06 23:31Essas corretoras eram integradas por economistas e tesoureiros formados no exte- Comment: Quando foirior, dominando as novas ferramentas e a matemática da arbitragem de taxas. A-tuavam em duas frentes principais. A mais relevante era no mercado de taxas, deapostas feitas em torno de índices de inflação e de indexadores divulgados pela Re-ceita, pelo BC e por instituições privadas, como a Fundação Getúlio Vargas do Riode Janeiro. Tornou-se folclórica a capacidade estatisticamente impossível dessesgrupos acertarem todas as taxas e projeções.A segunda frente era no mercado de ações, mas preferencialmente utilizando omercado futuro. A Bolsa de Valores era dominada por grandes especuladores, quese valiam de informações privilegiadas e de poder de fogo. Investidores como NagiNahas, Mathias Machline, Léo Kriss, se digladiavam no mercado, enquanto os novosbancos iam comendo pelas bordas, sempre atuando com o uso intensivo da mate-mática para ganhar na arbitragem.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 49/127O ganho fácil proporcionado pelas operações de mercado aberto e de arbitragem detaxas atraiu também grandes grupos industriais, que se juntaram na constituiçãode corretoras para operar com seus caixas.Essa fase terminou com o crack da Bolsa em 1989, que acabou levando à quebrada Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, e marcou o fim dos mega-investidores daépoca, consagrando os novos bancos como os donos da liquidez.Pouco tempo depois veio o Plano Collor, o bloqueio de cruzados. Nos meses seguin-tes, teve início uma pesada onda de exportação de capitais através de doleiros e domercado de dólar-cabo --pelo qual, as ordens de transferência eram dadas via tele-fone ou fax.Dos grupos que explodiram nessa época, os destaques maiores foram o Icatu, oGarantia e o Pactual, ao lado do PEBB, Bozzano Simonsen. Os três primeiros acaba-ram sendo apelidados de IGP -- uma ironia com a sigla do Índice Geral de Preçosda FGV, um dos principais índices em torno dos quais se montavam as apostas noperíodo e onde havia suspeita reiterada de vazamento de informações.O Garantia era de Jorge Paulo Lehman, filho de suíços e ex-campeão brasileiro detênis amador. Depois de ter amargado uma falência algum tempo antes, Lehman sereerguera e passara a trabalhar o banco com afinco, investindo em novos talentos eimplantando o sistema de participação em resultados que viria a ser imitado pelosseus concorrentes. Como as previsões de inflação e os movimentos macroeconômi-cos tinham influência decisiva nos resultados do banco, um dos sócios era o eco-nomista Cláudio Haddad, formado em Chicago.O Pactual foi formado por um dissidente do Garantia, Luiz Cezar Fernandes, tendocomo economista outro egresso de Chicago, Paulo Guedes.O Icatu era da família Almeida Braga. O dono, Braguinha, português competente,montou uma grande seguradora, a Atlântica Boavista. Em determinada época, as-sociou-se ao Bradesco. Quando o casamento acabou, Braga montou o Icatu e levoupara dirigi-lo o jovem PhD recém formado, Daniel Dantas, que trabalhava no Bra-desco. Daniel Dantas se destacaria, desde cedo, por práticas pouco convencionais,como uma proximidade perigosa com gestores de fundos de pensão.O referencial intelectual máximo desse grupo era o ex-Ministro Mário Henrique Si-monsen, conselheiro mundial do Citigroup. Foi ele quem apresentou Daniel Dantasao mercado e aos economistas do Cruzado, quando Bracher ainda presidia o BancoCentral.No final do governo Sarney, Dantas já se associara ao Citigroup e conseguira adqui-rir ações da Telebrás por menos de um dólar a ação. O jogo financeiro dos anos 90já estava plenamente delineado.Ao final do governo, o ex-Ministro João Sayad tinha se associado ao ManufacturesHannover -- banco que perdeu o bonde da conversão por descuido dos sócios ante-riores. Com a flexibilização das cartas patentes bancárias, Bracher comprou umacarta patente do Banco Econômico e a manteve até sair do governo, quando se as-sociou ao Credistantalt da Áustria na criação do banco BBA-Credistantalt. Um dos Bera de Bracher, outro de Beltrán Martinez (ex-executivo do Bradesco) e o A de Ari-da, que acabou recusando a sociedade. Luiz Carlos Mendonça de Barros montou umbanco agressivo, com capitais de grandes grupos privados nacionais, e acabou que-brando a cara no crack da Bolsa em 1989. André e Pérsio acabaram indo trabalharno Unibanco. De certo modo, representavam a face civilizada da financeirização daeconomia.Os desarranjos da economia levavam, de um lado, a grandes oportunidades de ga-nho. De outro, induzia o grande capital brasileiro a se dolarizar. Esse processo dedolarização, de expatriação de capital atingiu seu auge depois do bloqueio de Cru-zados no plano Collor.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 50/127Em trabalho de 1992, Gustavo Franco já comprovava o fenômeno da dolarização dapoupança financeira. Estudos sobre as taxas do câmbio "black" demonstravam queas variáveis sazonais (dólar para turismo) tinham perdido relevância no períodoposterior a 1985. O que passava a contar eram as variáveis macroeconômicas, co-mo taxa de câmbio oficial, o diferencial de juros e as avaliações sobre o déficit pú-blico."Dificilmente esta mudança pode deixar de se associar ao crescimento de importân-cia do "black", ao fim da década de 80, como veículo de fugas de capital, ou de in-vestimentos de carteira da parte de residentes", constatava Franco. Estudos de No-vaes, em 1990, indicavam que em 1989 o "black" estaria movimentando algo entreUS$30 milhões e US$45 milhões diários. Não entrava na conta o "câmbio-turismo",criado em janeiro de 1989, que movimentava US$18 milhões diários1. A conclusãode Franco era óbvia: "o "black" cresce de importância ao final dos anos 80, em fun-ção do notável crescimento das fugas de capital do Brasil".“O ponto importante a destacar diz respeito às conseqüências dessa mudança, ouseja, do notável aumento da dolarização da riqueza financeira no Brasil. O ponto devista deste ensaio é que disto resultou uma importante mudança qualitativa do re-gime cambial brasileiro: evoluiu-se de um sistema de câmbio administrado e mer-cado paralelo marginal para um sistema de câmbio dual, onde boa parte das tran-sações da conta capital tem lugar no "black".Deve-se notar que a extensão dos movimentos de currency substitution está limi-tada "estruturalmente" pois, no caso de uma moeda não conversível como a nossa,somente se pode obter dólares: (i) ou de não residentes através de manipulaçõesde transações do balanço de pagamentos, tais como subfaturamento de exporta-ções; (ii) ou de residentes detentores de dólares que aceitam vendê-los em funçãode suas expectativas de desvalorização e diferenciais de taxas de retorno. Note-seque, neste último caso, trata-se de transações entre residentes, ou seja, fora dobalanço de pagamentos do país3, mas de impacto significativo sobre a taxa decâmbio.Na monografia sobre o “Encilhamento”, Gustavo não tinha conseguido entender al-guns movimentos não captados pelas contas do balanço de pagamentos. Agora,tendo a realidade à mão, entendia que os movimentos financeiros, mesmo sendoatravés do “black” já tinham impacto significativo sobre a taxa de câmbio.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 51/127O Brasil entra na era modernaO Brasil entra na era modernaA rigor não se poderia afirmar que a nova economia mundial fosse, em princípio,prejudicial aos países emergentes. Assim como no final do século 19, abria enormepossibilidade para que países com visão estratégica e vontade política pudessem seprevalecer dos novos ventos e serem os novos vitoriosos do modelo, assim como oJapão, Alemanha e Estados Unidos no final do século 19. Quem não decifrasse aesfinge, seria devorado, como foi o Brasil do início do século 20.O Brasil entrou na era moderna por duas portas, uma execrada pela chamada direi-ta, outra pela chamada esquerda. A primeira foi a Constituição de 1988, a segunda,a eleição de Fernando Collor de Mello em 1989.Criou-se, no senso comum, a idéia de que a Constituição foi anacrônica, ao permitirconcessões, como estabilidade a 5 mil funcionários indicados no governo anterior.Ou permitir benesses com a Previdência.A Constituição Cidadã -- como era chamada -- foi muito mais que isso. Ao lado dedefeitos, permitiu avanços fundamentais, como a consolidação dos direitos do con-sumidor, através do Código de Defesa do Consumidor. Esse instrumento tornou osconsumidores cada vez mais exigentes, constituindo-se em um enorme poder depressão para a modernização das empresas e dos produtos. Consagrou a defesa domeio ambiente, através do Código de Defesa do Meio Ambiente. Instituiu um novofederalismo, repassando para estados e municípios verbas que, antes, eram distri-buídas subjetivamente pelo executivo. Vinculou recursos para educação e saúde,permitindo a consolidação de uma rede básica universal, embora precária.Pouco antes da Constituição, em 1985 um grupo de técnicos do BNDES, lideradospelo economista Júlio Mourão, apresentara o mais consistente programa de moder-nização da economia brasileira.E, nesse ponto, é importante uma pausa para se voltar a Friedrick List, e as etapasque ele identificou na formação das nações emergentes. Remando contra a maré deAdam Smith, List propunha uma forte intervenção do Estado na fase inicial de con-solidação de uma nova economia.O Brasil já completara o segundo ciclo de Lizt, a substituição de importações. Preci-sava agora ingressar no terceiro, a abertura gradativa da economia, permitindo àsempresas nacionais experimentatr a competição e ganhar experiência internacional.O Brasil estava prestes a entrar na terceira onda, e os estudos do norte-americanoMichael Porter teriam papel decisivo na criação de uma nova consciência de desen-volvimento.O programa que mudou o BrasilPoucas vezes na história do país um episódio revelou tão profundamente o podertransformador das idéias e foi tão elucidativo acerca dos malefícios que as igreji-nhas acadêmicas e a politização da discussão econômica causaram ao país, do queo que ocorreu com a teoria da "integração competitiva", desenvolvida no âmbito doBNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Era o primeiropasso consistente para preparar a economia para a terceira etapa preconizada porFriedrick List – quando o país, completada sua industrialização, começa a se abrirpara o exterior, visando ganhar competitividade e montar parcerias estratégicas.Pai da "integração", o economista Júlio Mourão começou a formular suas idéias apartir de 1983, quando assumiu o Departamento de Planejamento do BNDES.Formado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, com mestrado de engenha-ria de produção pela Coppe-UFRJ (mais tarde, com pós-graduação pela Unicamp),28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 52/127Mourão entrou no banco em abril de 1966 e seu primeiro local de trabalho foi namesma sala de Ignácio Rangel, que se tornaria a partir dali seu guru.Há muito Rangel era considerado o mais criativo economista brasileiro. Em fins de1979, surpreendera os setores ortodoxos de esquerda (que o veneravam) prevendoo esgotamento financeiro do Estado e a necessidade de substituí-lo por capital pri-vado nos investimentos em infra-estrutura.Logo depois de assumir o cargo, no início de 1984, Mourão decidiu trabalhar noprimeiro Cenário Decenal para o banco. A política do BNDES, na ocasião, incorriaem um equívoco central. Ainda se achava que a saída da recessão dependia exclu-sivamente de investimentos públicos. Já que o Estado estava quebrado, a recessãoseria de longo prazo. Logo, seria preciso que o BNDES amparasse um núcleo deempresas nacionais, que ele próprio ajudara a construir no período anterior, atéque passasse o período difícil. A partir dessa premissa, os investimentos do bancoconcentravam-se exclusivamente no financiamento de obras de infra-estrutura deretorno problemático (quase todas tornaram-se inadimplentes), e em operações-hospital, com financiamento para saneamento financeiro de empresas privadas.Para assessorar na organização foi contratado Eduardo Marques, da Comissão Na-cional de Energia Nuclear. Foi Marques quem convenceu Mourão a utilizar o concei-to de Cenário, utilizando o método de Michel Godet, economista francês de quemfora aluno, que trabalhava na identificação de estratégias que permitissem atuar demaneira positiva na busca do cenário adequado –em vez de se limitar a olhar pas-sivamente o horizonte.O primeiro passo foi incumbir o engenheiro Luiz Paulo Velloso Lucaz, dos quadrostécnicos do BNDES, de trabalhar nas projeções para a balança comercial daqueleano. Os resultados foram surpreendentes.Desde os anos 50, o país esbarrava em estrangulamentos no balanço de pagamen-tos. Bastava crescer para ocorrerem problemas cambiais. No início de 1984, emplena crise da dívida externa, Mourão sustentava que o Brasil já fizera sua travessi-a. Naquele ano, de acordo com os levantamentos de Velloso Lucaz, seria possívelum superávit comercial superior a US$ 12 bilhões e crescimento positivo do PIB.Com base nessas previsões, o Cenário trabalhava com duas alternativas. A primei-ra, era de continuidade do ajustamento acertado com o FMI, com todos os ingredi-entes recessivos envolvidos. A segunda, otimista, era a da retomada do desenvol-vimento, possível em função das mudanças estruturais ocorridas.Com o primeiro Cenário, mudou a ótica, pois lá se demonstrava ser possível a re-tomada do crescimento sem pressionar o balanço de pagamentos. Previa-se, alémdisso, que a retomada começaria pelo consumo, não mais pelos investimentos pú-blicos.Haveria melhoria dos salários, graças à recuperação das exportações, aumentaria oconsumo e, em função disso, os empresários privados passariam a investir nova-mente, inaugurando um novo ciclo de crescimento. Pela primeira vez, as exporta-ções eram claramente colocadas como o motor do crescimento econômico.Com base nessas conclusões, propunha apoio maior para a modernização de em-presas de ponta do setor privado, acabando com a história do banco definir os seto-res a serem beneficiados.As conclusões do trabalho foram apresentadas em um seminário histórico, que ti-nha como mentor Júlio Mourão, como organizador o diplomata Rubens Ricupero, evisava, no fundo, tentar responder à angústia dos setores técnicos do banco com oesvaziamento de suas funções.A ditadura se esboroava e era questão de tempo para que a oposição conquistasseo poder. Com o esfacelamento do mito Delfim Netto, o debate econômico, ampla-mente politizado, passava a ser dominado pela escola da Unicamp, apadrinhadapelo presidente do PMDB, Ulisses Guimarães.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 53/127O país estava em meio a uma recessão tenebrosa. Mas a primeira versão do Cená-rio Decenal, surpreendia o mundo acadêmico e econômico ao prever crescimentoeconômico e expressivo superávit comercial em 1984. Foi o ano em que, de fato, osuperávit comercial passou pela primeira vez a estrondosa marca dos US$ 10 bi-lhões, e que o PIB cresceu, depois de anos de recessão.Na imprensa, as teses do BNDES foram encampadas solitariamente pelo jornalistaAloisio Biondi. Enquanto o fechamento do ano ainda não confirmara o acerto dessasteses, tanto os técnicos do banco, quanto o próprio Aloisio, acabaram alvos de umacampanha virulenta da parte dos então economistas de oposição.O trabalho constatava que já ocorrera as mudanças estruturais na balança comer-cial brasileira, fruto da maturação dos investimentos efetuados no âmbito do 2ºPlano Nacional de Desenvolvimento.Reforçado pelos dados do Cenário, o seminário de maio de 1984 decretava a o fimdo ciclo conhecido como de substituição das importações e propunha um novo pa-radigma para a política industrial brasileira.As empresas tinham que ser instadas a prospectar novas tecnologias no mundo,tinham que ser expostas à competição com o exterior, e os setores mais dinâmicossobressairiam por si só. Acabava com a história de eleger um setor preferencial ecumulá-lo de proteção. Às instituições públicas competiria o papel de coordenar asempresas a melhor se integrar nesse novo cenário.A micro-economia se casa com a macroMas não se ficava apenas no cenário estratégico. Simultaneamente, outras empre-sas públicas – especialmente a Petrobrás e a Eletrobrás – passavam a trabalhar nacontrapartida micro-econômica do plano.Na segunda metade dos anos 80 a Petrobrás deu início a um programa inédito dedesenvolvimento de fornecedores. A equipe encarregada do programa era supervi-sionada por José Paulo Silveira e tinha, na área de suprimentos, o jovem engenhei-ro Antonio Maciel Neto. Provavelmente foi o primeiro programa em larga escala atrabalhar com o conceito de qualidade total.Os primeiro passos foram dados em 1975, quando a Petrobrás iniciou uma reestru-turação interna e começou elevar os níveis de requisitos de qualidade com relaçãoaos fornecedores, o que fazia com que no mercado acontecesse o seguinte: a em-presa que era fornecedora da Petrobrás utilizava o certificado como um aval. Comoela atendia à Petrobrás servia como certificação pra atender a qualquer outroA Petrobrás tinha cinco níveis de qualificação de fornecedores de acordo com os re-quisitos de qualidade. Em meados de 1975, ela cortou os dois níveis de baixo, au-mentando as exigências.No início, essa preocupação estava restrita aos setores gerenciais da Petrobrás.Com a descoberta da Bacia de Campos, a necessidade de segurança na exploraçãodos campos fez com que o programa se convertesse em meta de toda a diretoria.Silveira tornou-se superintendente do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento, deonde coordenou o programa de capacitação em águas profundas, que acaboutransformando a Petrobrás na maior especialista mundial da matéria. Enquanto is-to, Maciel assumia a chefia da Divisão de Planejamento Estratégico da Petrobrás de1988 a 1990, conquistando a visão macroeconômica que faltava para fechar a e-quação da produtividade.Nos dois grupos, o guru maior era Michael Porter. No mundo moderno, não haviamais espaço para um país desenvolver-se como se fosse uma ilha. Cada país teriaque se abrir e encontrar seu espaço em um novo mundo, internacionalizado e com-petitivo.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 54/127Foi por volta de 1985, que esse grupo de técnicos juntou suas visões micro e macro–as teses da reestruturação competitiva da Petrobrás com as da integração compe-titiva do BNDES e iniciou trabalhos em conjunto.Para o BNDES eram gritantes as diferenças entre o que o trabalho da Petrobrásjunto a seus fornecedores e a reserva e mercado da informática – defendida pelogrupo da Unicamp.É cinqüenta vezes mais difícil tirar petróleo das profundezas do que fabricar micro-computadores, pensavam. Enquanto o Brasil desenvolvera uma tecnologia ímparem águas profundas, graças à coordenação dos engenheiros da Petrobrás, a políticade informática era um fracasso que comprometia o desenvolvimento de todos osdemais setores da vida nacional.Mas as idéias encontravam resistência até internamente. Técnicos da Eletrobrás eda Petrobrás que participaram da revisão do Cenário recusaram-se a assinar o do-cumento final, que propunha abertura da economia, privatização e desregulamen-tação. Isolado da academia e da burocracia pública, Mourão pôs-se a viajar peloBrasil e pelo mundo, defendendo suas idéias, deixando marcas indeléveis por ondepassou.No dia 25 de julho daquele ano, a revista "IstoÉ" divulgou documento sigiloso dobanco –porque crítico da política de ajustamento conduzida por Delfim Netto. O tí-tulo do artigo era "Sem mudanças, o Brasil acaba", em que reproduzia na íntegra oprimeiro "Cenário para a Economia Brasileira".Depois de suas palestras, o BIRD e o Banco Mundial mudaram sua concepção emrelação à crise brasileira e passaram a oferecer financiamentos não mais condicio-nados a práticas recessivas, mas à modernização institucional e à abertura do mer-cado.Teve início, então, o trabalho de conquistar a opinião pública. O primeiro grandemomento foi em um programa "Roda Viva", da TV Cultura de São Paulo, onde o en-trevistado foi Velloso Lucas. Nos dias anteriores, Maciel havia feito uma prévia comele, tentando checar todas as perguntas que seriam feitas. Só não tinham comoresponder à seguinte provocação: "É uma piada achar que a indústria automobilís-tica vai investir com a abertura do mercado", formulada por um dos entrevistado-res. A resposta viria quatro anos depois.Sua pregação junto a setores do governo permitiu os primeiros ensaios de abertu-ra, ainda no governo Sarney. E foram seus discípulos que comandaram a aberturano governo Collor.TancredoNa ocasião, o candidato a Presidência da República Tancredo Neves começava apreparar seu programa de governo. A Copag –órgão incumbido da tarefa– era che-fiada pelo economista José Serra. Mas a parte de política industrial estava a cargodos unicampistas.Na ocasião a discussão econômica estava dividida entre os unicampistas, paraquem a única saída seria a moratória da dívida; e os mercadistas, reunidos em tor-no da Fundação Getúlio vargas (FGV) que viam o único caminho na recessão.O grupo do BNDES procurou Tancredo, acreditando dispor de uma visão alternativa.Dizia ser possível crescer e, ao mesmo tempo, pagar a dívida. A pedra de toque se-ria transformar em programa de governo as teses "integração competitiva" – termoprovavelmente cunhado por Maria da Conceição Tavares, em um dos artigos emque desancou as idéias.O candidato morreu sem se saber se comprara ou não as idéias. E o grupo voltounovamente ao seu trabalho no banco.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 55/127Em 1985, Dilson Funaro assumiu a presidência do BNDES e levou consigo o econo-mista Carlos Lessa, radicalmente contra as conclusões do Plano Decenal, alegandoser planos da ditadura. Passou sua gestão praticando um misto de assistencialismocom financiamento de pequenas obras, mas, mesmo assim, não teve condições po-líticas de esvaziar a bandeira interna dos "integracionistas".Funaro virou ministro, não demonstrou maior inclinação pelos estudos, na verdadeseguia certo pensamento empresarial paulista, ainda muito impregnado do prote-cionismo à indústria nacional.O Cenário realmente confirmou-se. 1985 e 1986 registraram crescimentos substan-ciais na massa salarial, processo interrompido pelo período negro dos pacotes mo-netários.Logo depois veio o Plano Cruzado inaugurando a era dos pacotes. Nos anos seguin-tes, enquanto o futuro era forjado por engenheiros, com visão do mundo real, odebate econômico perdia-se numa discussão estéril sobre troca de moedas.As idéias se impõemNa segunda revisão do Cenário Decenal do BNDES, preparada diretamente por JúlioMourão, trabalhava-se basicamente com dois cenários para a década. O primeiro,otimista, previa a vitória das teses da integração competitiva; o segundo, mais pes-simista, trabalhava com a hipótese de fechamento da economia.Em pleno 1987, com o país perdido pelos descaminhos de José Sarney, a terceirarevisão do Cenário já aceitava como vencedora a tese da "integração". O que pode-ria atrapalhar o novo modelo seria apenas a "inércia corporativista", em que cadaagente econômico jogasse para si e Deus contra todos.Concluía que só se conseguiria o cenário otimista se os agentes econômicos fossemconvencidos da necessidade de coordenar e conversar sobre esforços conjuntos. Aidéia das câmaras setoriais começou a surgir, de forma embrionária.Com o primeiro Cenário, mudou a ótica, pois lá se demonstrava ser possível a re-tomada do crescimento sem pressionar o balanço de pagamentos.O Plano Estratégico do BNDES 1987/1990, teve como objetivo básico preparar obanco para interferir na operacionalização de suas idéias. Para tanto, foi fundamen-tal a gestão do empresário Márcio Fortes e seu secretário geral Sérgio Besserman.Assumindo a presidência, Fortes comprou integralmente as idéias e colocou emprática a estratégia do grupo, além de promover uma ampla reestruturação na or-ganização.Privatizaram-se 14 empresas que consumiam energias dos técnicos, equacionou-seseu passivo e em fins de 1989 o banco estava pronto para voar, para interferir dire-tamente na política econômica do país e implantar os princípios da "integraçãocompetitiva", desenvolvidos por seus técnicos.De seu lado, o vice-presidente Bruno Nardini, industrial paulista, também aderira àsteses do grupo e passara a promover reuniões com outros setores da administraçãopública, visando estabelecer uma política ordenada em direção à abertura.Participavam dos estudos Heloísa Camargo (do Conselho de Política Aduaneira), Er-nesto Carrara (da Secretaria de Desenvolvimento Industrial), Namir Salek (todo-poderoso diretor da Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil), Mauro Arru-da (pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial) e Ozires Silva, pela Fiesp. Etambém a nata do pensamento industrialista da Fiesp, com Paulo Cunha, Paulo Vil-lares, Eugênio Staub, Cláudio Bardella entre outros empresários que, mais tarde,criariam o Iedi (Instituto de Estudos e Desenvolvimento Industrial).28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 56/127Os primeiros movimentosAinda que de maneira difusa, as idéias da abertura econômica haviam começado aganhar espaço no final do governo Figueiredo. Em todas as pontas do processo a-pareciam as idéias fundamentais de Júlio Mourão, o técnico do BNDES pai da "inte-gração competitiva".Em 1984, provavelmente por conta desses contatos, o Banco Mundial passou a ne-gociar com o país empréstimos de comércio, destinado a atividades setoriais parapaíses em crise. Um desses empréstimos era para reformas no comércio exterior. Obanco já fora convencido por Mourão de que a abertura da economia brasileira aju-daria o Brasil a exportar mais –ao contrário do que dizia, por exemplo, a escola daUnicamp.Quem coordenou os estudos iniciais foi João Baptista Abreu, então assessor de Del-fim Netto na Secretaria de Estudos Técnicos e um dos interlocutores contumazes deMourão.Quando começou o governo Sarney, foi para a Conselho de Política Aduaneira o e-conomista José Tavares de Araújo Filho que, embora de formação de esquerda or-todoxa, evoluiu para as novas idéias de abertura.Tavares entrou com Funaro no governo, mas perdeu espaço no grupo de Funaroquando passou a abraçar a idéia da abertura controlada da economia.Quando Bresser chegou, começou a prestigiar seu trabalho. O principal formuladoreconômico da equipe, Yoshiaki Nakano, comprou as teses da abertura e tornou-sepropagandista eficiente, expondo objetivamente a necessidade de abrir a economianuma reunião com o presidente da República, presentes Bresser e Maílson, secretá-rio-geral do ministério.Tiveram início no âmbito do governo os primeiros estudos sobre a nova política in-dustrial, coordenados por Antônio José Antunes, também de formação de esquerda,João Baptista e Heloísa Camargo, do Conselho de Política Aduaneira, que passarama se reunir sistematicamente com Mourão.O primeiro trabalho que se montou, por volta de 1988, foi a câmara setorial da in-dústria têxtil. Idéia era sentar todos segmentos da cadeia têxtil, inclusive bens decapital, para negociar início da abertura.Por volta de maio de 1988 começaram a sair as primeiras medidas de liberalização.O então ministro da Indústria e Comércio, José Hugo Castello Branco, surpreenden-temente –para uma pessoa com sua história e passado político– teve papel impor-tante nesse processo, assumindo a ferro e fogo as novas idéias e abafando as resis-tências do Conselho de Desenvolvimento Industrial e da Cacex.Em junho de 1988 ocorreu a primeira rodada de redução tarifária. Foram elimina-das todas as tarifas redundantes e os regimes especiais de importação. A tarifamédia caiu de 85% para 50%.Em 1989, com a segunda rodada, iniciou-se a redução do Anexo C – lista de produ-tos cuja importação era proibida. A lista foi reduzida de 3.000 para 500 itens. A i-déia era um processo gradativo, como tudo que marcou o governo Sarney.Naquele ano, os técnicos da "integração" apresentaram suas propostas para osquatro candidatos a presidente. Usando um termo de engenharia, ofereciam uma"solução robusta" – isto é, que teria espaço como programa de governo indepen-dentemente da linha ideológica do vencedor das eleições.O único a comprar a idéia foi Fernando Collor de Mello.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 57/127A segunda vertente, da qualidadeO início de um programa sistemático de qualidade teve duas vertentes, ambas nogoverno Figueiredo. Uma, o programa de capacitação no no bojo do acordo nuclearcom a Alemanha. Do lado brasileiro, o encarregado foi o Ministro de Ciências e Tec-nologia José Israel Vargas.Havia a assistência técnica da TÜV, da Renânia e Westfalia, responsáveis pelo de-senvolvimento da qualidade na indústria alemã. Esses programas nasceram no sé-culo 18, quando as caldeiras começaram a explodir.A metodologia de qualidade fazia parte do acordo para a construção dos reatores.Pela primeira vez se tinha um Conselho da Qualidade do IBQN (Instituto Brasileirode Qualidade Industrial), e composto por associações do setor privado, como a AB-DIB (Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Indústria de Base), ABINEE(Associação Brasileira da Indústria Eletro-Eletrônica), a ABEME (Associação Brasilei-ra de Engenharia de Montagens). Do lado do governo, o Instituto Nacional de Tec-nologia e a Secretaria de Tecnologia Industrial.Até então havia dificuldades na definição de normas. As empresas achavam que ogoverno poderia impor normas exageradas que encarecessem os projetos; e o go-verno não confiava no setor privado, porque achava sua visão imediatista.O presidente tinha de ser um nome nacional. Por conselho do professor AlbertoPereira de Castro, Vargas passou quatro horas tentando convencer Amaro LanariJúnior, antigo professor de metalurgia da Politécnica e que havia acabado de deixara presidência da Usiminas.Amaro só toparia se houvesse alguém grande competência na área propriamentetécnica. Havia na STI um grupo de normalização e qualidade com alguns engenhei-ros mas que tinham um conceito de norma técnica extremamente ditatorial. Nor-mas técnicas devem ser objeto de consenso no setor, devem ser voluntárias. Essegrupo queria passar normas goela abaixo na ABNT (Associação Brasileira de Nor-mas Técnicas).Israel Vargas acabou encontrando um técnico competente, doutor em metalurgiapelo MIT, José Guilherme Lameira Bittencourt, que assumiu o cargo de diretor téc-nico do IBQN. No início, ele deveria atuar quase que só na qualidade nuclear, por-que o setor nuclear exigia o mais alto nível de confiabilidade, de controle de quali-dade. Posteriormente a IBQN ampliou sua atividade para outros setoresÀquela altura se negociava um primeiro financiamento de ciência com o BIRD, quede fato foi o segundo do mundo financiado pelo Banco Mundial. Foi o primeiroPADCT (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico).Quando Vargas assumiu a STI, convenceu o Banco Mundial que não era possívelgerar o impacto na indústria se não fosse tratado o programa de tecnologia indus-trial básica, com apoio à ABNT, ao INMETRO, INPI e os laboratórios credenciadospara realização de medidas, mas a inspeção era sempre dos inspetores que passa-vam por um treinamento do IBQNO INMETRO havia sido implantado por lei de 1979. Seu projeto foi feito numa licita-ção internacional. A Dinamarca construiu o Instituto de Acústica. As máquinas tér-micas vieram dos Estados Unidos. O padrão do metro foi resultado de uma coope-ração com a Alemanha.Mas antes disso, Vargas convenceu Sérgio Quintella, presidente da Internacional deEngenharia, a assumir o cargo de presidente da ABNT, para melhorar a qualidadeda representação.Posteriormente ao IBQN, foram criados mais três institutos que cuidavam da quali-dade industrial, com intenso programa de treinamento nacional no exterior28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 58/127Foi criada também Fundação Brasileira da Qualidade e Produtividade e três institui-ções foram treinadas no exterior nessa área. O IBQN foi principalmente para Ale-manha e Inglaterra. A Fundação Cristiano Otoni para o Japão, liderada pelo profes-sor Vicente Falconi, professor de metalurgia com doutorado nos EUA. Em São Pauloa Fundação Vanzolini mandou o pessoal para ser treinado nos EUAO Padct tinha três pernas: o presidente do CNPQ, a STI e o Ministério da Educação,e um fundo, o INT (Fundo Nacional de Tecnologia Industrial).Nesse meio tempo surgiu a ISO 9000. Implantado o INMETRO, tentou-se um acor-do com o PPB (o INMETRO da Alemanha) e com o National Bureau Standard, quecopiou os alemães. A Alemanha foi pioneira, com o instituto criado por Helmut Holtze pela Siemens.O programa foi interrompido quando o presidente João Baptista Figueiredo aderiu àcandidatura Maluf, provocando a demissão de Vargas e do Ministro da Indústria edo Comércio Camilo Penna.Seguiu-se um período confuso, com muita mudança nos ministérios e nenhumacontinuidade, até que assumiu a presidência Fernando Collor.O físico José Goldemberg foi nomeado Secretário de Ciência e Tecnologia. Como elenão tinha nenhum departamento voltado para a tecnologia, com exceção do CNPQ,a conselho de Vargas aproveitou toda a equipe da STI.O país estava maduro para entrar na era da qualidade.As lições de Michael PorterEm 1986, uma ampla pesquisa comandada por Michael Porter para o governo ame-ricano --visando entender as razões do milagre japonês-- transformou-se em divi-sor de águas nos estudos de políticas industriais no mundo e converteu-o no maiorespecialista mundial em estratégias competitivas.No Brasil, ajudou a reafirmar os princípios da teoria da "integração competitiva" --desenvolvidos pioneiramente por técnicos do BNDES em 1984--, e se tornou a bí-blia dos técnicos brasileiros que comandaram o processo de abertura da economianos anos 90.No fundo, o levantamento de Porter vinha comprovar o acerto dos estudos de Lizt,quase 150 anos antes.1) Apesar da globalização da economia, as fronteiras nacionais continuam sendoelementos importantes de desenvolvimento tecnológico. Era papel dos governosnacionais ajudarem a gerar ambientes econômicos competitivos.2) País que depender exclusivamente de insumos (matérias primas abundantes esalários baixos) para ser bem sucedido está fadado ao fracasso. Passada a fase ini-cial, sempre haverá um país mais atrasado, e com salários mais baixos, para rou-bar-lhe o mercado.3) A característica atual das multinacionais consiste em eleger determinados paísespara localizar as bases domésticas de cada um de seus produtos. É aí que se loca-lizam os empregos melhores remunerados e a melhor base tecnológica. Um dos de-safios dos estados nacionais será tentar atrair o maior número de bases domésticasdas multi.4) Cada vez mais, o importante na definição das vantagens competitivas não são osinsumos. Insumos genéricos (estradas, telecomunicações) podem atrapalhar, seforem de má qualidade, mas não se constituem em vantagem comparativa, já quetodos os países tendem a competir na melhoria da qualidade desses insumos. Oque faz diferença são insumos especializados. Não apenas o trabalhador, mas oPhD. Não apenas o porto, mas equipamentos especializados para famílias de produ-tos.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 59/1275) Mesmo que se importem insumos e equipamentos, tem que se lutar para queesses equipamentos sejam fabricados internamente ou, ao menos, haja escritóriose técnicos do fornecedor, para obrigá-lo a se integrar ao processo de inovação.6) Todo projeto de política industrial deve visar formar grupos de fabricantes, emtodas as etapas da produção. Só assim se obtém massa crítica de insumos e equi-pamentos para acelerar a inovação.7) É recomendado que esses grupos se concentrem em uma mesma região, e cadaregião encontre sua própria vocação, sem artificialismos. Onde existe concentração,cria-se infra-estrutura especializada que ajuda a reforçar os grupos.8) O Japão só prosperou em setores de alta competitividade. Quando as empresasjaponesas uniram-se para criar um novo tipo de televisão, foi um fracasso. Daí anecessidade de fortes práticas anti-trustes.9) As empresas têm que cobrar eficiência dos serviços públicos e saber explicar cla-ramente suas necessidades ao governo. Na Itália, nas áreas com empresas volta-das para o exterior, os serviços telefônicos são muito melhores do que nas demais,porque se cobrou mais.10) O principal papel do governo é se converter em comprador exigente dos produ-tos nacionais.Em uma entrevista que me deu, nos anos 90, terminava com com um recado gené-rico, mas que caia como uma luva para a política econômica atual: "O que de piorpode acontecer a empresas e países é tomar medidas tópicas, respondendo a exi-gências de curto prazo, sem dispor de um plano estratégico de longo prazo".28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 60/127Collor entra em cenaCollor entra em cenaAinda no Bolo de Noiva, a falta de experiência operacional acabou afastando o gru-po da PUC-RJ da condução dos trabalhos de abertura do governo Collor.A equipe econômica de Fernando Collor chegou imbuída das idéias de abertura daeconomia. Mas, num primeiro momento, acabou pendendo para as teses da PUC-Rio, radicalmente liberais, que rezavam que governo não deveria se imiscuir emquestões de política industrial.Gustavo Franco e Winston Fristch, ambos da PUC, poderiam ter comandado o pro-cesso de abertura, mas acabaram batendo de frente com o mundo real. Não conse-guiram atender às solicitações de Ibrahim Eris e Antonio Kandir, da equipe de Zélia,para que avançassem além do conceitual e propusessem medidas concretas, comexposição de motivos, minutas de portarias etc.A tecnocracia esclarecida resolveu a questão, com Heloísa Camargo detalhando apolítica inicial de abertura das importações.Os primeiros dias do governo Collor foram decididamente desfavoráveis aos "inte-gracionistas". Luis Octavio da Motta Veiga assumiu a presidência da Petrobrás edemitiu toda a equipe que participara do programa de tecnologia em águas profun-das. A equipe do BNDES não só foi derrotada em sua pretensão de indicar o colegaNildemar Secches para a presidência, como o presidente indicado, economista daPUC Eduardo Modiano, acabaria encostando os técnicos e praticamente proibido obanco de pensar nos dois anos seguintes.Júlio Mourão, o principal teórico da "integração", e o próprio Secches foram convi-dados a assumir a Secretaria de Planejamento do Ministério da Economia, mas re-cusaram.Coube ao economista João Maia (que depois se desgastaria articulando benefíciospara a Sade Engenharia) trazer seu ex-colega de "partidão" Luiz Paulo Velloso Lu-cas, membro de relevo dos "integracionistas" como seu vice no Departamento deAbastecimento e Preços.Quinze dias depois de iniciado o governo, o economista Marcelo Abreu, também daPUC, pediu demissão do cargo de Secretário Nacional de Economia. João Maia as-sumiu a secretaria e indicou Luiz Paulo Velloso para diretor do Departamento deIndústria e Comércio. Velloso levou Antônio Maciel como seu vice. Os "integracio-nistas" chegavam ao poder.Depois de seis anos, as idéias do BNDES conseguiam superar a pesada barreira im-posta pela academia e o grupo "integracionista" estava pronto para mudar o Brasil.Com cem dias de governo, foi apresentado o plano de abertura da economia, o "Di-retrizes Gerais da Política Econômica e de Comércio Exterior", preparado por eles.O anúncio foi no dia 26 de junho de 1990 – uma data a ser registrada nos futuroslivros de história. Era um trabalho de engenheiros, com data, prazos e cronogra-mas.1) Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade, como instrumento de políticaindustrial e comércio exterior. Através do programa reconhecia-se a questão micro(de capacitação das empresas) como instrumento fundamental na reestruturaçãocompetitiva;2) Fim da reserva da informática, tornando o computador mais acessível ao conjun-to das empresas nacionais;3) Revisão do Código de Propriedade Industrial (que ainda não saiu do papel);4) Cronograma de redução de tarifas de 36 mil itens, em 36 meses;28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 61/1275) Privatização como instrumento de política industrial –idéia que não foi posta emprática por Eduardo Modiano, o responsável pela tarefa.Para que o programa não fosse tolhido pela falta de continuidade, todos os docu-mentos tinham capítulo especial dedicado ao seu gerenciamento. Foi nessa defini-ção que surgiu a idéia da constituição das câmaras setoriais.Além disso, fugiu-se de um outro vício do serviço público, que era a montagem decomissões burocratizadas. Decidiu-se, de um lado, que o programa não teria orça-mento próprio nem estrutura burocrática. De outro, que no médio prazo seriam cri-ados instrumentos permanentes de execução, a salvo de interferências do governo.A idéia foi imediatamente comprada pelo então presidente Fernando Collor, que, apartir de certo momento, passou a coordenar pessoalmente as reuniões do grupo.Anunciava-se em 90 dias a nova Lei de Informática, em 180 dias, o Plano Brasileirode Qualidade e Produtividade, em quatro anos, a redução ano a ano das tarifas deimportação.O anúncio do plano garantiu 11 dias de cobertura intensiva nos jornais e ajudou amudar as expectativas em relação ao governo, num momento em que a inflaçãocomeçava a voltar.Mudando de lugarEm outubro, João Maia demitiu-se da Secretaria Nacional de Economia, para assu-mir cargo na Sade Engenharia –empresa beneficiada por Zélia. Em seu lugar assu-miu Edgard Pereira, da Unicamp. Antônio Maciel foi indicado para seu sub, amplian-do a margem de manobra dos "integracionistas".Com a queda de Zélia, a troca de governo trouxe dois elementos valiosos. Numaponta, o novo ministro da Economia Marcílio Marques Moreira, partidário de solu-ções gradativas para as questões econômicas. Do outro, a nova secretária Nacionalde Economia, Dorothéa Werneck, que manteve Maciel como sub, trouxe para oprograma a classe trabalhadora e uma exposição na mídia que os "integracionis-tas", não-vinculados a grupos políticos, jamais tiveram.O coroamento desse processo foi a Câmara Setorial da Indústria Automobilística,em reunião em que a equipe econômica precisou decidir sobre a redução dos tribu-tos. Havia grande resistência interna, de pessoas ainda impregnadas da visão fisca-lista da economia.Fernando Collor assumiu a presidência com uma intuição clara sobre o que preten-dia com o país, mas com uma tática de confronto que o levou a colidir com inúme-ros setores. Um dos mais atacados foi justamente a indústria automobilística, quepassou a ser alvo de campanhas sistemáticas contra as "carroças".A virada foi provocada por um documento preparado pelo subsecretário de PolíticaEconômica, Antônio Maciel, que a secretaria Dorothéa Werneck apresentou em umareunião da equipe econômica, que aprovou a redução dos tributos do setor. O pró-prio Collor leu o documento e concordou em parar de atacar o setor automobilísti-co.O documento intitulava-se "Setor Automotivo: Situação Atual e Alternativa Estraté-gica". Era de 9 de março de 1992.Inicialmente lembrava se que o setor experimentou nos últimos anos conflito gene-ralizado e permanente entre todos os atores. "Os trabalhadores fazem manifesta-ções, diminuem a produtividade e recorrem às greves. Os empresários aumentamos preços de forma absurda. O governo aumenta a carga tributária e ameaça comredução de alíquotas dos impostos de importação. A imprensa joga lenha na foguei-ra, estampando o conflito nas primeiras páginas", dizia ele.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 62/127O resultado da guerra era a falta de investimentos, a defasagem tecnológica naprodução e a ausência de novos modelos.Depois, listava aspectos negativos e positivos do setor.Na seqüência, propunha a substituição do conflito generalizado e permanente poruma alternativa estratégica que "conduza à parceria pela competitividade em todasas direções, privilegiando as as relações trabalhistas e comerciais no longo prazo,buscando obstinadamente a cooperação entre todos os elos da cadeia produtiva ecolocando o consumidor como referência fundamental para todas as decisões".O papel dos governos federal e estaduais seria reduzir as alíquotas do IPI e doICMS, como forma de incentivar a redução de preços, entre outras providências.Ao empresário caberia o compromisso de evitar aumentos de preços, buscandomaior volume de produção com margens menores, garantir a arrecadação commais vendas, empenhar-se na construção de relações cooperativas com o trabalho,comprometer-se com o PBQP (Plano Brasileiro de Qualidade e Produtividade) e em-penhar-se para viabilizar aumento real de salários ao longo do tempo.Aos trabalhadores pedia-se compromisso com o PBQP, melhoria no relacionamentocom o capital, evitando conflitos e, em particular, as greves.Foi esse cenário previamente preparado, de indução ao entendimento, que permitiuo aparecimento político de Vicentinho. Nem antes, nem depois, Vicentinho conse-guiu repetir a performance da câmara setorial da indústria automobilística, quandosurpreendeu o país com uma visão de estadista.Terminada a exposição, o presidente do Banco Central, Francisco Gros, provavel-mente o mais influente homem da equipe de Marcílio, declarou-se convencido. Aredução foi aprovada, consagrando a câmara setorial.O Código de Defesa do ConsumidorO Código de Defesa do Consumidor foi essencial para impulsionar os programas dequalidade. Falava-se muito nos brinquedos que vinham do Paraguai e não havianenhum controle sobre os problemas decorrentes desse tipo de mercadoria. Mas dequem era a responsabilidade?O Código veio regular uma série de instancias, envolvendo não só a iniciativa priva-da, mas também o governo no seu papel de educar e assegurar os direitos mínimosdo cidadão.Surgiram as redes de Procons no país, o Ministério da Justiça teve de se organizarpra isso. O mote “foco no cliente” tornou-se prioritário.Então se passou a discutir a educação, a sensibilização das pessoas para a qualida-de, começaram a surgir cartilhas para sensibilizar donas de casa, começou a surgirtambém a preparação técnica com relação as normas existentes no Brasil para as-segurar que os produtos tivesse requisitos mínimos de produção, para diminuir odesperdício brutal que permanecia em muitos setores.Então surgiram a ISO 9001, 9002, nas suas categorias procurando dar uma abran-gência para o escopo desse processo, para garantir a conformidade dos padrõesexigidos ou contratados entre o produtor, o fornecedor e o clienteAo mesmo tempo veio a necessidade de se ter um aumento de produtividade com aredução de custos, justamente para combater o desperdício e o retrabalho.Nessa época se levantaram índices de não conformidade, de falta de qualidade, dedesperdício, de refugo de materiais que era uma coisa assombrosa na indústria. Epor conta disso se começou a falar muito na normalização e na certificaçãoA indústria foi se organizando para o controle da qualidade, criando departamentossó para cuidar dos refugos. Com a nova consciência estimulando o controle, a de-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 63/127volução de produtos com defeito, se começou a falar em padrão de qualidade, emzero defeito.Quatro anos depois de ter sido anunciado, enfrentando desconfianças dos macro-economistas, resistências de setores protegidos por um mercado fechado, e de tersido erroneamente confundido como "neoliberalismo", a estratégia da "integraçãocompetitiva" da economia brasileira na economia internacional, já podia ser reco-nhecida como o mais importante e decisivo conjunto de programas desenvolvimen-tistas implantados do país desde o Plano de Metas de JK.A importância do “programa da integração competitiva” não podia ser medida pormetas quantitativas. Devia ser entendida no âmbito das limitações decorrentes deum período politicamente traumático.Mesmo assim, em apenas quatro anos mudou a face da economia brasileira. Alémde ter proporcionado avanços substanciais na estrutura industrial –decretando o fimda reserva de mercado de informática, por exemplo –logrou mudar a mentalidadeempresarial brasileira.A partir desse programa, os conceitos de produtividade e qualidade passaram a tervida própria. As empresas modernas começaram a explorar suas próprias energiase capacidade de reação, abandonando décadas de dependência das ações de Esta-do.EscanteioEnquanto suas idéias se tornavam vencedoras, Mourão viveu no governo Collor seuperíodo de maior ostracismo.Não aceitou nenhum cargo no governo. O novo presidente do BNDES, Eduardo Mo-diano, da PUC-RJ, não só não ignorava sua importância, como a temia. Tanto quedemitiu-o da Superintendência de Planejamento sem ter tido a coragem de comuni-car-lhe pessoalmente, desmanchou sua equipe e praticamente proibiu o debate in-terno sobre suas idéias.Só o procurou tempos depois, quando o secretário de Assuntos Especiais, EliezerBaptista, resolveu preparar o macro-planejamento do país –uma idéia esplendorosaque, infelizmente, não resistiu ao impeachment de Collor– e convocou Mourão parasua equipe.Com medo de perder poderes, Modiano chamou Mourão e comunicou-lhe que, co-mo o financiamento do projeto seria bancado pelo BNDES, ele iria para lá, mas naqualidade de representante do banco.O último presidente do banco a conviver com Mourão foi Pérsio Arida, “pai” do Cru-zado e do Real. Mourão estava prestes a se aposentar. Pérsio encontrou-o no ele-vador, disse que precisava falar com ele, e morreu por aí.Não poderia haver nada mais simbólico de uma era irracional. De um lado, o inte-lectual nacionalmente conhecido, estrela maior da elite acadêmica engajada, quedispôs de todas as facilidades do mundo para exercitar seus experimentos – porqueos experimentos interessavam eleitoralmente aos donos do poder. Do outro, o ser-vidor público, que enfrentou o mundo armado apenas de suas convicções e do pro-pósito de desenvolver o país.Se perguntar hoje, a quem assistiu o encontro, qual dos dois mudou o país com su-as idéias, ninguém acreditaria que foi o técnico humilde, que se preparava para so-licitar sua aposentadoria.Daqui a alguns anos, quem se debruçar sobre esses tempos loucos não conseguiráentender como tantos puderam ser tão cegos e irracionais, tão sem critério duran-tes tantos anos.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 64/127As idéias Pré-Plano RealAs idéias Pré-Plano RealEm fins de 1993, o país estava pronto para o grande salto de modernização. Assementes plantadas desde o início dos anos 80 já tinham criado massa crítica dediagnósticos e de visão de futuro. O “impeachment” foi um acidente de percurso,que não chegou a atrasar a consolidação das novas idéias. Era apenas questão detempo aguardar o final do governo transitório de Itamar e torcer por um novo pre-sidente que colocasse em prática os novos diagnósticos e propostas.Embora a economia ainda patinasse, 1994 começou com esperança de que ItamarFranco refreasse seu estilo de biruta de aeroporto e começasse a dar passos maissólidos. A CPI do Orçamento criara expectativas fundadas de que interesses estrati-ficados no setor público começassem a ser desmontados. Os fundos de pensão es-tatais começavam a ser enquadrados. A abertura iniciada por Fernando Collor co-meçava a surtir seus efeitos e os escritos de Michael Porter forneciam informaçõespara novas políticas de planejamento que ajudassem a completar o processo demodernização.A politização do tema ainda tornava difícil no país a conceituação da palavra mo-dernidade. Os críticos de esquerda transformaram tudo o que se referia a moderni-dade em manifestação de “neoliberalismo”.Mas, nos últimos anos, a modernização do pensamento brasileiro produzira trans-formações relevantes no poder público e nas empresas. Os novos valores levanta-dos passaram a ser a busca de soluções individuais, fora do guarda-chuva paterna-lista do Estado, a exaltação da produtividade e da qualidade, de ambientes compe-titivos, da inovação em todos os níveis. E, principalmente, a mudança fundamentalno enfoque das empresas, passando a privilegiar a figura do consumidor. Em quepesem desastres monumentais – como a reforma administrativa conduzida por JoãoSantana – Collor havia conseguido cortar sucessivos nós que paralisavam a econo-mia brasileira, ajudado pelas mudanças trazidas pela Constituição de 1988.1) Mudanças no comércio exterior, acabando com a parafernália burocrática, epermitindo a mais empresas o acesso a mercados e fornecedores internacionais.2) Fim de todas as reservas de mercado, especialmente a da informática.3) Abertura gradual e previsível da economia, induzindo as empresas nacionais a setornarem mais competitivas.4) Mudanças na política cambial, acabando com o sufoco histórico das crises cambi-ais.5) Lançamento do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade e Produtivida-de, que tomou de assalto corações e mentes do setor produtivo, apontando o cami-nho que deveria percorrer para competir com os importados.6) Interrupção do paternalismo do BNDES.7) Fim da ciranda financeira, com o bloqueio de cruzados e com o lançamento dofundão, levando as empresas a perceberem que a única segurança de que dispu-nham era na sua atividade específica.8) Lançamento do Código de Defesa do Consumidor.9) Reinserção do Brasil no mercado internacional de capitais, com o levantamentoda moratória e a reaproximação com o Japão.Até Collor, havia uma inibição geral em pensar o Brasil. Cada , proposta nova es-barrava na ausência de condições políticas, cada idéia inovadora, na perda do hábi-to de pensar o novo. Foi sua falta de limites que demonstrou que não havia mudan-ça impossível, desde que houvesse vontade política e clareza de idéias.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 65/127Todo mundo sabia da necessidade de mudar a política de pré-fixações de câmbio.Quem tinha a coragem de botar o guizo no gato? A renovação da indústria automo-bilística era peça central da recuperação industrial do país. Quem se habilitaria adesmontar o sistema de privilégios fundado em reserva de mercado e cartelização?Não dá para banalizar a importância desse rompimento.As primeiras experiências das Câmaras Setoriais significaram uma notável mudançade paradigma. Substituía-se a cultura do conflito pela da cooperação. O adversárionão era a montadora, o fornecedor ou o sindicato: era a outra cadeia produtiva,nacional e, principalmente, as que rondavam o mercado brasileiro, aguardando oprimeiro sinal para entrar.A estratégia da Câmara Setorial da Indústria Automobilística havia sido longamentematurada. Consistia em viabilizar a venda interna de veículos populares modernos,através da redução de tributos, criando uma escala mínima de produção. Com aescala garantida, buscava estimular novos investimentos no setor, visando moder-nizar as linhas de montagem. O passo final seria a busca do mercado externo, con-solidando a posição da indústria automobilística brasileira no âmbito mundial, comofornecedora de modelos populares.A indústria automobilística recuperou rentabilidade e capacidade de atrair investi-mentos da matriz. Os trabalhadores garantiram emprego e salário. O poder públicoteve ganho de arrecadação, mesmo reduzindo nominalmente as alíquotas de tribu-tos do setor. O consumidor passou a ter à sua disposição carros a preços mais a-cessíveis. E a economia como um todo ganhou um fôlego adicional, com o PIB in-dustrial crescendo 11%, em grande parte devido à recuperação do setor.Tinha-se a comprovação da eficácia de novas formas de atuação do governo, nãomais conduzindo autarquicamente a economia, mas atuando como agente articula-dor das forças produtivas.O ímpeto reformista não ficava por aí. Passou-se a discutir, uma nova política regi-onal, com a reestruturação do dos fundos e organismos regionais --tipo Finor e Su-dene (do nordeste), Finam e Sudam (da Amazônia), e Codesvaf (do Vale do SãoFrancisco).A idéia básica era substituí-la por um novo modelo, que ajudasse a estimular ochamado ambiente econômico --de acordo com o figurino preconizado pelos mo-dernos estudos de política regional. Em vez de dinheiro a fundo perdido para em-presas, investir em obras de infra-estrutura que atraíssem capital privado. A basedessa mudança eram estudos do senador cearense Beni Veras sobre a região.O tiro de partida desse programa havia sido o seminário "Bases para um Pacto Polí-tico e Econômico", ocorrido no início de 1994, que juntou pessoal da Seplan, da Fa-zenda, do BNDES, líderes políticos regionais --como o governador cearense CiroGomes, o deputado Roberto Freire e o senador Beni Veras-- e empresários interes-sados na região.Durante o seminário, foram identificadas diversas áreas com potencial econômico --como o Cerrado baiano, os vales do Jaguaribe (Ceará), do Gurguéia (Piauí), do Açú(Rio Grande do Norte), o Médio e Baixo São Francisco.Os investimentos em infra-estrutura demandariam US$ 1 bilhão --a serem financia-dos pelo BNDES. Pelos cálculos apresentados pelo banco, já no primeiro ano permi-tiriam uma renda anual de US$ 900 milhões, e geração de 350 mil empregos dire-tos.Como Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso lograra domar o perfil irre-quieto de Itamar, e consolidar um grupo renovador em torno dele, comprometidocom o projeto de reforma do Estado.Havia também um grupo atuando no âmbito da reforma do Estado, composto pelogeneral Romildo Cainhim, Ministro-chefe da Secretaria da Administração Federal, e28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 66/127os Ministros Alexis Stepanenko, do Planejamento, Sérgio Cutolo, da Previdência eHenrique Santillo, da Saúde.O apoio de Fernando Henrique era a seu modo. Apoio tácito a quem quisesse fazer.Quem não quisesse, o problema não era dele.A reforma do Estado brasileiro --tal como imaginada pelo pessoal da Secretaria daAdministração Federal (SAF) e do Ministério do Planejamento (Seplan)—tinha duaspernas. De um lado, o aprofundamento da descentralização, através da criação deuma Câmara Setorial (já aprovada pelo presidente) para negociar transferência deatribuições para estados e municípios. De outro, a reorganização do serviço público,passando, primeiro, pelo enquadramento dos salários dos servidores públicos dostrês poderes.Esse processo seria conduzido por uma comissão especial, de onze membros, coor-denada pelo Ministro-Chefe da Secretaria de Administração Federal (SAF), RomildoCainhim --o Executivo, o Legislativo e o Judiciário com dois representantes cada, oMinistério Público Federal e o Tribunal de Contas, um, e mais três representantesde sindicatos ligados aos três poderes.O grupo teria 90 dias de prazo para apresentar suas conclusões. O primeiro passoconsistiria em hierarquizar todas as funções, dentro de cada órgão, definir um tetoe uma base igual para os salários dos três poderes.Com bases nesses valores mínimo e máximo seria criada uma Tabela Salarial, ajei-tando nesse intervalo todos os demais salários. Não poderia ter implementação i-mediata, por problemas legais com redução de salários e restrições orçamentárias,mas acenava para o novo caminho.Já a descentralização seria tratada por organismos tipo Câmaras Setoriais --com apresença dos ministros interessados, de prefeitos e governadores. A idéia inicialseria colocar todos os projetos de descentralização dentro de uma mesma medidaprovisória. Significaria extinguir os Ministérios assistencialistas --tipo Bem Estar So-cial e Integração Regional--, transferir os fundos regionais para o Ministério da In-dústria e do Comércio. A extinção do INAMPS, conduzida por seu presidente, depu-tado Carlos Mosconi, foi um marco nessa caminhada.Em 22 de janeiro daquele ano, minha coluna tentava traduzir esse estado de espíri-to:“A luta está apenas se iniciando --e será árdua. Falta desmontar o aparato empre-sarial que corrompeu o Estado. Depois do exemplo do Congresso, o país aguardaagora que o Judiciário, o Ministério Público, a estrutura sindical, as Universidades,as corporações públicas e privadas, as corporações de profissionais liberais, Estadose municípios, espanem a poeira, e dêem sua contribuição efetiva aos novos tem-pos, iniciando sua própria modernização. Nossos mortos já podem descansar empaz. Não serão mais alvo de apelos desesperados de uma Nação agonizante. Serãoboas lembranças a impulsionar um país que começa a encontrar seu caminho”.Até o deputado Antonio Delfim Netto abrira mão de seu pessimismo militante e pu-blicara pela gráfica da Câmara o trabalho "Brasil, Melhor do que Parece", pela pri-meira vez com uma visão francamente otimista do processo.Admitia, claramente, os resultados concretos obtidos pela abertura da economia epelos programas oficiais de produtividade e competitividade --que começavam acriar um pólo de discussão alternativo à cantilena de câmbio, moeda, e receita fis-cal. E apontava os seguintes fatores de otimismo:* Abertura da economia.O restabelecimento de relações financeiras com a comunidade internacional, a libe-ralização do comércio, com o aumento expressivo das importações, que acirrou onível de concorrência interna, fazendo com que o nível tecnológico da economiabrasileira passasse a incorporar as novas exigências mundiais.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 67/127Até algum tempo atrás, muitos analistas limitavam-se a relacionar os problemasque a abertura gerou para as empresas brasileiras, sem contabilizar o potencial decriatividade e inovação, liberados pela necessidade.* Privatização.Apesar do processo "um pouco lento", as privatizações ocorridas, e as 66 por ocor-rer, são da maior importância, assim como a privatização futura dos serviços públi-cos sujeitos ao regime de concessão.* Papel do Supremo Tribunal Federal.Na qualidade de primeiro grande autor de “pacotes” da economia, o deputado davaa mão à palmatória, e taxava de revolucionário o novo papel do STF --que impôslimites legais à atuação do executivo, devolvendo a previsibilidade e a proteção aoscontratos, nos moldes das sociedades desenvolvidas, ao ordenar o desbloqueio decruzados.* Revisão constitucional.Delfim apostava que a revisão permitiria aperfeiçoar e consolidar o quadro institu-cional brasileiro, ajustando-o ainda mais à nova realidade mundial, de integração ecompetição. Principalmente com o possível fim dos monopólios, a flexibilização daseguridade social e a descentralização da saúde.* Legislação Trabalhista.A flexibilização da legislação, em discussão, permitiria a construção de uma relaçãomais flexível e construtiva entre trabalhadores e empresas, restringindo-se a justiçado trabalho às relações de direito entre eles.* Lado real.O processo de terceirização permitiu o aparecimento de uma nova geração de pe-quenas e médias empresas, criadoras de talento empresarial.O fim da ditadura das empreiteiras, com a CPI, e o combate aos cartéis privados,acenavam com a oportunidade de florescer mais rapidamente as novas pequenas emédias empresas, renovando a vida empresarial nacional.* Questão fiscal.Delfim atribuía os problemas fiscais à inação de Brasília, não a questões estruturais.Enfim, a economia já havia ingressado em uma nova fase, onde pontificam algunsprincípios fundamentais e sem retorno. Eram eles:1) Não se admitia mais protecionismo a empresas ou setores, créditos subsidiadosou outra forma de proteção setorial.2) A abertura era irreversível e deveria ser encarada como instrumento de aumentoda competição interna e de aprimoramento da produção nacional.3) Para a consolidação da abertura seria fundamental a criação de um ambienteeconômico competitivo.O objetivo final desse jogo seria fortalecer o modelo industrial brasileiro --não des-truí-lo.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 68/127Como se consolidam hegemoniasComo se consolidam hegemoniasDepois que Richard Nixon liquidou com a sincronização cambial prevista no acordode Breton Woods, o mundo mergulharia novamente em uma espiral financeira se-melhante ao do fim da Pax Britânica.Desde a morte de John Kennedy, a hegemonia civilizadora dos Estados Unidos, he-rança de Franklin Delano Roosevelt e de Nelson Rockefeller, dera lugar ao jogo bru-to da guerra fria. O modelo keynesiano do pós-guerra entrara em colapso. Um novomodelo monetário se impunha, com novos jogadores.Breton Woods consagrou uma nova articulação cambial, com uma espécie de câm-bio fixo, não mais em torno do ouro mas do dólar, que passou a ser a moeda dereserva mundial. No final dos anos 60, o sistema parecia sólido e funcional. As prin-cipais moedas internacionais, como o marco, a libra e o franco, entre outras, torna-ram-se plenamente conversíveis, inclusive para transações privadas, e não apenasentre os Bancos Centrais.Os BCs mundiais tinham o direito de trocar os dólares de suas reservas por ouro naReserva Federal de Nova York. O ouro ficava depositado em Nova York, mas credi-tado para o país que o adquiriu.Com a estabilização do padrão dólar, os bancos norte-americanos puderam oferecerempréstimos maciços para a reconstrução da economia européia – financiando aaquisição de bens norte-americanos.Os altos déficits norte-americanos, no entanto, começaram a incomodar os euro-peus. O jornalista Jean-Jacques Servan-Schreiber escreveu “Desafio Americano”,um best seller da época, alertando para os riscos dos americanos comprarem todosos ativos franceses.Em 1965, o presidente francês Charles De Gaulle insurgiu-se contra o que conside-rava “privilégio exorbitante” do dólar americano. O grande conselheiro de De Gaulleera o financista Jacques Rueff, nascido em 1896, indicado por De Gaulle para presi-dir o conselho de peritos incumbido de preparar o plano de reconstrução econômicado país na 5ª República.Ambos sustentavam que os EUA se valiam do dólar – que havia se tornado a princi-pal moeda de reserva do regime de câmbio fixado negociado em Breton Woods –para poder abusar dos déficits e bancar as aventuras militares como a do Vietnã. AFrança se insurgia contra o dólar e tentou revitalizar o padrão-ouro, ao mesmotempo em que os países europeus começavam a discutir a união monetária capazde fazer frente ao dólar.Aí começou um jogo de alto risco. Em vez de aplicar suas reservas em títulos doTesouro Americano, os Bancos Centrais europeus, puxados pelo Banco de França, edepois, pelo Banco da Inglaterra, começaram a exigir a entrega de ouro da ReservaFederal, em quantidades enormes.Foi quando De Gaulle propôs a volta do padrão ouro, aconselhado por Jacques Ru-effe, mas tendo contra si a opinião do Ministro das Finanças e do Banco de França.Houve reação acerba dos EUA, sustentando que uma desvalorização do dólar emtorno de 100% desestabilizaria todo o sistema de comércio mundial. Argumentavaque o maior beneficiário, depois da África do Sul, seria a União Soviética, o segundomaior produtor mundial de ouro.Os argumentos caíram no vazio. De Gaulle ordenou a conversão de US$ 300 mi-lhões de uma só tacada e, depois disso, a França passou a trocar mensalmenteseus dólares por ouro.Em junho de 1967, De Gaulle aplicou novo golpe ao modelo, ao retirar a França dopool de dez países que, através de acordo celebrado em 1963, se comprometiam asustentar a paridade cambial celebrada em Breton Woods. Em apenas seis meses,28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 69/127de outubro de 1967 até a desvalorização da libra em abril de 1968, os membros doconsórcio foram obrigados a vender US$ 3,5 bilhões em ouro, par segurar os espe-culadores. Os EUA perderam 20% de suas reservas.Em março de 1968 o pool de países foi dissolvido, seguindo período de extrema vo-latilidade cambial. Pouco tempo depois, a economia americana submergiu em umagrande recessão. O FED afrouxou a política monetária, para estimular a economia,mas expôs o dólar a ataques especulativos pesados.Em 1970 a fuga de capitais dos EUA atingiu cifra de US$ 6,5 bilhões; em 1971, deUS$ 20 bilhões. Com a fuga os EUA ficaram tecnicamente quebrados: se todos osBCs cismassem em resgatar seu ouro, não haveria ouro para todos. Em agosto de1971, o Tesouro americano recebeu um relatório dos serviços de inteligência aler-tando para uma ofensiva dos Bancos da França e da Inglaterra sobre o que restoudas reservas americanas.Em 15 de agosto de 1971, Nixon anunciou que a Reserva Federal dos EUA não maishonraria suas obrigações, contraídas no âmbito do tratado de Breton Woods, detrocar dólares por ouro.Em 1973, a livre flutuação ocupou o espaço do cambio fixo de Breton Woods, inau-gurando o que Rueff apelidou de “era do papel impresso”. (Wilson Carvalho, O No-vo Papel dos Estados Nacionais em Época de Globalização Crescente;http://www.asip.org.ar/es/seminarios/int031/ponencias/04_e.html).Nos anos 70, com os dois choques de petróleo, surgiriam os primeiros novos atoresdo jogo, sheiks árabes, com estupenda liquidez reciclando seus dólares através dapraça financeira de Nova York.Com a livre flutuação do câmbio, com a aprovação dos Estados Unidos os três paí-ses derrotados na Segunda Guerra passam a trabalhar com câmbio superdesvalori-zado: a Alemanha, com o dólar a 4,2 marcos; o Japão, com o dólar a 360 ienes e aItália, com o dólar a 2 mil liras. São eles que vão comandar o desenvolvimento nosanos 80, os derrotados da guerra crescendo mais do que os vitoriosos.Esse primeiro round de valorização do dólar prossegue até 1985, quando os EUdesvalorizam pela primeira vez sua moeda. Na esteira da valorização, havia ocorri-do um intenso processo de desindustrialização nos EUA e de crescimento vigorosonos países que desvalorizaram suas moedas.No final da década começava a se firmar um mercado de eurodólares. Nos anos 80,surgem os japoneses, surfando na explosão da sua economia e aproveitando o bre-ve momento antes da valorização do iene jogar a economia japonesa em recessão,ajudando a constituir a bolha imobiliária nos Estados Unidos.Em 1985, com o Acordo do Plaza, e em 1987 com o Acordo do Louvre, criam-semecanismos de coordenação entre os bancos centrais para evitar os grandes mo-vimentos especulativos cambiais. O Acordo definia limites para as oscilações do dó-lar e para a apreciação do marco e do iene, obrigando os bancos centrais a intervi-rem cO Acordo do Louvre estabeleceu limites para as oscilações do dólar (e, conseqüen-temente, para a apreciação relativa do marco e do iene) levando os bancos centraisa ampliar substancialmente o volume e a freqüência das operações de estabilizaçãocambial. De outro lado, providenciou-se à cobertura do "gap" de financiamento dosdois déficits americanos através da aquisição de títulos públicos de longo prazo doTesouro dos EUA, pelos bancos centrais dos parceiros superavitários. É relevanteassinalar que, apesar do recrudescimento da incerteza e da desaceleração do nívelde crescimento mundial em 1987, com elevação das taxas de juros em vários paí-ses, os fluxos de acumulação produtiva não esmoreceram nas principais economiasavançadas.Mas não eram apenas países e potentados que entravam nesse jogo. Nos anos 80 ocrime organizado se consolidaria como uma grande potência financeira, com o cres-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 70/127cimento exponencial do narcortráfico, ancorado nos esquemas colombianos, e otráfico de armas e de pessoas.Assolados por crises intermitentes dos países emergentes, o grande capital nacionaltambém se dolarizou, buscando nadar nos fluxos financeiros internacionais.Assim como no final do século 19, misturavam-se em um mesmo ambiente o gran-de capital legalizado, caixa dois, dinheiro de corrupção política, investidores emer-gentes, crime organizado.Para permitir a convivência desses vários tipos de capital em um mesmo ambiente,recorreram-se a ferramentas jurídicas e à legislação mais permissiva dos paraísosfiscais.Os paraísos fiscais e os doleirosEssa expansão desmedida da liquidez internacional levou ao florescimento das em-presas “offshores” – isto é, instaladas fora de seu país de origem, para melhor sebeneficiar dos mecanismos financeiros internacionais.Os paraísos fiscais foram se especializando. Curaçao, por exemplo, é muito bemvista porque esta sob soberania de um País da União Européia. É muita usada paraemissão de bônus em euros, as conhecidas “offshores” N.V. (sociedade anônimaem holandês). Já Bahamas e Panamá cheiram mal, apesar do IRS ter acordos dedisclosure (abertura de informações) com muitos paises do Caribe.Já as européias são melhores reputadas, porque têm a supervisão de paises consi-derados sérios e que são aderentes a todos os tratados sobre lavagem de dinheiro.É esse o caso da Suíça e do LuxemburgoAs “offshores” têm mais ou menos uma especialização por país. Cayman é muitousada para superfaturar e subfaturar ou operações de comércio exterior e permitirgrandes jogadas financeiras. A Petrobrás tem bilionárias operações em Cayman.Usa a ilha como base para aluguel e leasing de plataformas. Bermudas, sob sobe-rania britânica, é usada quase exclusivamente para seguros e resseguros.Ilhas Virgens Britânicas (BVI, no jargão de advogados) é muito usada para titularpatrimônio no Brasil, participações em empresas e propriedade de imóveis. Com apouca capacidade da Receita em seguir dezenas de milhares de “offshores” combens no país e a indiferença do BC sobre o assunto, grande parte das mansões demilionários no Brasil está em nome de uma BVI. A razão principal é que o inquilino-dono não tem recursos declarados para fazer aquela casa (e também a de praia e ade campo), mas sua “off-shore” tem, dinheiro exportado antes. Também há outrasrazões: proteger de penhoras e arrestos e da voracidade das ex-mulheres.Esse jogo internacional passou a se dividir, inicialmente, em duas áreas de especia-lização. A primeira, a dos dutos que transportava o dinheiro para os gestores derecursos – aí entrando casas de câmbio, doleiros e esquemas variados, que serãodetalhados mais adiante. A segunda, a dos gestores de recursos.Com o tempo, e com a impunidade, muitos gestores passaram a administrar dire-tamente a lavagem de dinheiro. Foi o caso do escritório do Credit Suisse no Brasil(não confundir com a filial) e mesmo com as operações do Banco Pactual, que setransformou no maior banco de investimentos do país, graças à competência técni-ca e à falta de limites na área de captação.No início dos anos 90, Samuel Huntington passa a empregar o conceito de primacy(primazia), que passa a ser correntemente utilizada na comunidade estratégica dosEUA e que ganharia feições mais claras no governo Clinton, sob o nome de “Doutri-na Clinton”.Segundo a citação de Huntington, em 1993:28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 71/127 “É errôneo pensar que a principal razão pela qual os Estados buscam a prima- zia internacional consiste em capacitar-se para vencer guerras e que, portan- to, se uma guerra é improvável, a primazia não é importante. Os Estados buscam a primazia para manter a sua segurança, promover seus interesses e conformar o ambiente internacional de forma a refletir os interesses e valores deles. Ela é desejável não fundamentalmente para obter vitória em uma guer- ra, mas para alcançar os objetivos do Estado sem recurso a ela. A primazia é, pois, uma alternativa à guerra”Na mesma época, começa a ser utilizado o conceito de “unipolaridade”, em contra-posição à bipolaridade que marcou a Guerra Fria.Em fevereiro de 2000, a futura Assessora para Assuntos Internacionais de GeorgeW. Bush escrevia um trabalho mostrando o desconforto dos EUA com o final daGuerra Fria:“Os Estados Unidos encontravam extremas dificuldades para definir seus ‘interessesnacionais’ diante da ausência do poderio soviético”, dizia ela, em artigo publicadopara a futura plataforma de política externa do futuro governo de George W. Bush.(...) O “interesse nacional” não se alterou profundamente desde meados do séculopassado. O que, sim, passou a necessitar de reformulação foi a rationale para asações pertinentes”.A fórmula de Clinton para conciliar os interesses particulares dos EUA com os inte-resses universais, consistiu em ampliar a doutrina de segurança militar. Além dadoutrina da segurança nacional, enfatizava a “revitalização da economia america-na”, e a promoção da democracia no exterior. Segundo esses princípios, haveriaum jogo global de ganhos mútuos.“A nova fórmula para conciliar o “particular” (o interesse) e o “universal” (a adesãoou a aquiescência legitimadoras) amplia a doutrina de segurança nacional para a-lém da esfera militar. A este objetivo (principal instrumento anterior da “conten-ção”, mas agora também modificado), acrescentam-se “a revitalização da economiaamericana” e a promoção da “democracia no exterior”. Os objetivos são correlacio-nados teoricamente e, o que é mais importante, envolvem um jogo global de ga-nhos mútuos. É necessário citar: Nações seguras tendem a apoiar o comércio livree a manter estruturas democráticas. Nações de mercados livres com economias emcrescimento e vínculos de comércio aberto tendem a sentir-se seguras e trabalharpara a liberdade. E Estados democráticos não tendem a ameaçar nossos interesses,inclinando-se a cooperar com os Estados Unidos e a promover o livre comércio e odesenvolvimento sustentado. Esses objetivos são alcançáveis desde que esteja as-segurado que a América permanecerá envolvida no mundo e com a ampliação dacomunidade de nações seguras, de livre mercado e democráticas (idem)” (Guima-rães, 4).Para que todos ganhem, é necessária a abertura econômica e a primazia do paíslíder. Para Huntington, “a primazia não objetiva a guerra, mas a evitá-la”.É em cima dessa estratégia que começam a ser moldadas as novas teorias econô-micas, destinadas a reduzir as resistências à Primazia, que vinha substituir a Dou-trina da Contenção da Guerra Fria. A criação de blocos econômicos, a consolidaçãoda OMC (Organização Mundial do Comércio), a ampliação do alcance da Lei de Pa-tentes, tudo visava impedir o desenvolvimento de estratégias nacionais autônomas,mesmo para países que historicamente tinham nos déficits em conta corrente oprincipal empecilho o para o desenvolvimento.Repetia-se, em quase tudo, a estratégia britânica do início do século 20.Toda a fundamentação teórica para justificar a criação de déficits em conta corren-te, e depois sustentar a manutenção daquele modelo torto, partia da teoria dos“déficits gêmeos”, difundida pelo Subsecretário do Tesouro norte-americano La-wrence Summers.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 72/127Defendia ele que a única maneira de um país emergente crescer seria se financian-do com capital externo. A exemplo da financeirização do século 19, havia uma re-ceita do bolo simples para os governos nacionais. A eles competia apenas zelar pelasegurança jurídica, melhoria dos “fundamentos” (isto é, da solvência das dívidasinterna e externa), para que esse capital fosse atraído e trouxesse o desenvolvi-mento.Caso o país acumulasse grandes superávits comerciais, a receita consistia em per-mitir a apreciação da sua moeda, reduzir os superávits para abrir espaço para o in-gresso do capital financeiro. Esse capital financeiro seria o abre alas do processo dedesenvolvimento, assumindo o papel de líder da nova etpa de investimento.Completava com a teoria dos “déficits gêmeos”, destinada a reduzir as resistênciasdaqueles que temiam a criação de déficits comerciais – já que os desequilíbrios co-merciais sempre foram obstáculos ao desenvolvimento dos emergentes. Dizia eleque um país só tinha passivos externos para suprir a falta de poupança interna.Portanto, bastaria resolver a questão fiscal para, automaticamente, se equacionar aquestão externa.Era uma teoria exclusivamente norte-americana, a contrapartida teórica ao que seconvencionou chamar de “Doutrina Clinton”, que de 1993 a 2000 procura definirum novo posicionamento estratégico para os EUA, depois do final da Guerra Fria11.Até então, a diplomacia americana havia se caracterizado pela “doutrina da conten-ção”, destinada a brecar a expansão soviética no mundo.Em 1998, na banca americana, 8 entre 10 banqueiros achavam a questão fiscalmais relevante que a questão externa. Na banca européia, 8 entre 10 consideravamque o nó eram as contas externas.Essa mudança de diagnóstico começou a ocorrer ainda na gestão Marcílio MarquesMoreira como Ministro da Fazenda do governo Collor. O principal conceito passou aser o fiscal: os países passam a depender mais agudamente de recursos externosquando não há poupança interna suficiente para financiar o excesso de demandainterno. Este era o mote inicial que, depois, tomou conta do mercado. Em geral a-tribuía-se esse excesso de consumo ao déficit público, que acabava absorvendo apoupança disponível, obrigando o setor privado a se financiar lá fora.No fundo, ocorria o mesmo movimento estratégico de um país hegemônico – os Es-tados Unidos – repetindo o movimento britânico “chutando a própria escada” des-crito por Friedrick List.A hegemonia não se dá apenas no campo econômico, mas no intelectual, nas for-mulações econômicas. A potência torna-se modelo, um núcleo que atrai cérebrosda periferia. Por hegemônico, recorre a estratégias bem elaboradas, capazes de le-gitimar, junto aos países periféricos, ações que favoreçam a manutenção da hege-monia.No final dos anos 80, os EUA já haviam se conformado com a perda da hegemoniaindustrial. A crise do setor automobilístico, das siderúrgicas, o crescimento da pe-netração de produtos japoneses provocara uma mudança estratégica no país. Nãoseria mais possível acompanhar a competitividade das novas potências industriais.Sua vocação – definida pela doutrina Clinton -- seria ampliar sua presença financei-ra e na área de serviços. As multinacionais americanas comandariam o globalizaçãoeconômica instalando fábricas em economias mais competitivas; o mercado finan-ceiro norte-americano comandaria a globalização financeira, depois que as novasteorias se impusessem sobre os países emergentes.Havia uma lógica férrea amarrando as novas teorias à nova etapa da hegemonianorte-americana, à Pax americana.Primeiro, ao estimular o aumento de facilidades para a entrada e permanência docapital financeiro nos países periféricos.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 73/127Segundo, ao propor a abertura comercial indiscriminada e a apreciação do câmbio.Ao mesmo tempo em que se criavam facilidades para o capital financeiro, se tiravaa competitividade das economias nacionais pela apreciação do câmbio, reduzindo apressão sobre a balança comercial e a produção interna norte-americana.Terceiro, ao defender que o papel dos países periféricos seria apenas o de garantira solvência do Estado (reduzindo o risco de calote), desregulamentar e privatizar aeconomia. Ao mesmo tempo anulava qualquer tentativa de montagem de estraté-gias de desenvolvimento autônomo, e se abrir um enorme mercado onde aportar osnotáveis excedentes financeiros internacionais, em uma época de liquidez gigantes-ca.Analisados individualmente, muitos dos princípios defendidos eram legítimos. O Es-tado brasileiro havia chegado a um tamanho indefensável. O fechamento da eco-nomia produzira reservas de mercado e ineficiência. O desafio consistia em separar,na teoria que começava a se universalizar, a parte que interessava ao país, descar-tando as que pudessem prejudicá-lo, definir a dosagem correta de abertura, de a-preciação cambial, os limites da privatização.Mas não havia senso crítico suficiente para fazer a separação.A tropicalização dos déficits gêmeosNo início dos anos 90, muitos economistas já repetiam a máxima de que o país nãodeveria mais pensar em contar com o câmbio para ganhar competitividade. Os no-vos tempos exigiam câmbio apreciado para abrir espaço para a entrada da poupan-ça externa, que levaria ao desenvolvimento. Varriam para baixo do tapete décadasde crises cambiais abortando qualquer tentativa de crescimento sustentado, e pas-savam a girar em torno de loucas teorias, sem relação de causalidade. Resolvida aquestão fiscal, os problemas externos seriam automaticamente resolvidos, era obordão.Para os espíritos mais argutos, havia furos óbvios na teoria da abertura financeira edos déficits gêmeos, especialmente devido ao fato do país não possuir uma moedaconversível. Com isso, criava-se um monstrengo desconjuntado, ilógico como umcruzamento de beija-flor com pterodáctilo.Era o seguinte o roteiro de entrada dos dólares no país:Passo 1 – o investidor trazia os dólares para o Brasil e vendia, atraído pela dife-rença entre as taxas de juros internas e as externas. Trocando os dólares por moe-da nacional, ele podia aplicar nas taxas de juros internas. Com muito dólar entran-do ocorria uma apreciação da moeda nacional (que passava a valer mais), encare-cendo os produtos brasileiros no exterior e prejudicando as exportações.Passo 2 – o Banco Central era obrigado a comprar o excesso de dólares, e a cons-tituir reservas cambiais expressivas, para impedir uma super-apreciação do Real.Para comprar os dólares, o BC emitia moeda local.Passo 3 – o excesso de moedas na economia provocava especulação com ativosreais, pressionando a inflação. Para abortar esse movimento, o BC vendia títulosda dívida pública no mercado, enxugando as moedas emitidas, mas aumentando oendividamento.Passo 4 – a cada mês que passava, o BC era obrigado a remunerar os títulos pú-blicos por um muito superior ao que conseguia de remuneração por suas reservasem dólares. O resultado era o duplo aumento da dívida interna: pela colocação depapéis (para enxugar o excesso de moeda) e pelo diferencial de taxas de juros).Mesmo assim, como a entrada de dólares era excessiva, ocorria uma apreciação damoeda interna.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 74/127Passo 5 – com a apreciação cambial, as exportações perdiam ímpeto, havia umaredução no superávit comercial e o país passava a depender dos fluxos financeirospara fechar suas contas externas.Era uma rematada imprudência, mas defendida por muitos economistas de merca-do com uma lógica torta, obtusa, mas de plena aceitação pela imprensa especiali-zada. Segundo ela, esse capital volátil funcionaria como uma espécie de batedor dapolítica econômica. Cada passo mal interpretado serviria de álibi para que saísse dopaís, pressionando as cotações do dólar. Mas se ganhasse confiança, através docapital especulativo viria o capital de investimento. E aí se completaria o círculo vir-tuoso.A teoria não diferenciava capitais especulativos de curto prazo de capitais de longoprazo. Vendia o peixe de que havia a necessidade de permitir a entrada do capitalespeculativo, que funcionaria como um “batedor” para a entrada do capital de longoprazo. Era uma tese torta, como se as multinacionais, o capital de longo prazo, nãoconhecessem o Brasil desde o século passado. Como se uma IBM, uma Ford, comdécadas de operação no Brasil, precisassem de um J.P.Morgan de batedor, para sa-ber em que terreno estavam pisando. A própria crise do México, em dezembro de1994, prenúncio de outras graves crises cambiais, demonstrava que os dois tiposde capitais eram, frequentemente, incompatíveis. A dependência de capitais de cur-to prazo era um fator de risco que inibia o ingresso de capital de investimento. Ouseja, para o capital de investimento, o capital especulativo estava mais para índiodo que para batedor.Além disso, não se avaliava corretamente o impacto da liberalização cambial sobreas contas públicas, devido ao diferencial entre as taxas de juros interna e externa eà necessidade de emitir títulos da dívida para enxugar os reais emitidos para acompra de dólares.Também não levava em conta o efeito-substituição dos dólares que entravam. Emvez de vir se somar à poupança interna, o que ocorria era a substituição da pou-pança interna pelo mecanismo descrito no item anterior. O investidor trazia US$100 milhões. O BC adquiria esse total e entregava para ele o correspondente emreais. No momento seguinte, enxugava o montante equivalente em reais ou com acolocação de títulos públicos (o que aumentava a dívida interna) ou pelo aumentodo compulsório dos bancos.Em lugar de suplementar a poupança interna, o investimento externo provoca umefeito-substituição sobre o crédito interno e um aumento no endividamento público.O Brasil do dólar acabava subtraindo recursos do Brasil que toma crédito em reais –que paga juros mais altos e impostos mais altos para compensar o aumento da dí-vida pública.Finalmente, era falsa como uma nota de três reais a idéia de que bastaria equilibraras contas internas, para as externas automaticamente se ajustarem.Quando os dólares entram no país, o BC emite reais para comprá-los (e mantê-losnas reservas), depois vende títulos públicos para enxugar esses reais adicionais domercado. Ou seja, os dólares que entram no país, e vão engordar as reservas,transformam-se em dívida pública.Se o governo começasse a gerar superávits fiscais, ele teria reais em caixa, com osquais iria resgatar parte dos seus títulos ou pagar os juros em reais. Aí o investidorestrangeiro receberia os reais, mas teria que ir ao mercado adquirir os dólares pararemeter ao seu país de origem. Só que, para isso, teria que haver dólares no país.E os superávits fiscais geravam excedentes de reais, não de dólares.Também era falsa a idéia de que o investimento externo era função do aumentodos déficits fiscais, e que viriam para ajudar a financiar a dívida pública em reais.Os dólares que entravam geravam, como contrapartida, mais dívida pública.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 75/127Na verdade, o investimento externo só tinha papel decisivo para o desenvolvimentoquando o crescimento provocava desequilíbrios nas contas externas. Foi assim nosgovernos Vargas, JK, Jânio e Castello. O país passava a importar mais, a comprarequipamentos, e não possuía divisas em volume suficiente. Nessa circunstância, oinvestimento externo tinha papel crucial para assegurar o crescimento da economi-a.Mesmo com todas essas conseqüências óbvias, a partir dos anos 90, o pensamentocabeça-de-planilha desandou. Não se tratava mais de combater desequilíbrios ex-ternos decorrentes do excesso de aquecimento de economia, mas de buscar inten-cionalmente o desequilíbrio, a fim de abrir espaço para o investimento externo, queviria suprir a necessidade de poupança do país.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 76/127O Plano RealO Plano RealDe agosto de 1993 até algum tempo após o Real, a equipe econômica discutiu asprincipais implicações do plano de estabilização sobre a economia. Das discussõesemergiram os seguintes diagnósticos, relatados por Maria Clara do Prado em seulivro “A Real História do Real”:Excesso de liquidez: sabia-se que haveria grande fluxo de dólares entrando nopaís após a estabilização. Em agosto de 1993, um “paper” de Gustavo Franco pro-punha que o excesso de liquidez fosse combatido atuando-se diretamente sobre ascaptações de dólares, “através dos recolhimentos compulsórios sobre captação ex-terna, sobre contas bancárias em dólares para exportadores, fundos de investimen-to em dólar para captação de papéis no exterior e, no limite, fechamento parcial daconta de capitais” (Maria Clara, 139). Bacha defendia que a remonetização seriaapenas através da conversão em reais dos dólares colocados pelo governo no exte-rior.Sobrevalorização cambial: No mesmo “paper” Gustavo Franco alertava para orisco da sobrevalorização cambial provocada pela inflação inercial. Promulgado oPlano, o câmbio ficaria parado e haveria uma inflação inercial interna que provoca-ria uma valorização do Real.Controle de capitais: embora já apresentasse uma proposta de taxa de juros in-terna que embutisse o risco Brasil no exterior, Edmar Bacha defendia controlestemporários sobre o capital externo, “para evitar a inconsistência de uma políticade juros elevada com um câmbio fixo”. Era claríssimo para a equipe o efeito conju-gado de taxa interna de juros elevada e fluxo de capital financeiro. O dólar entraria,o investidor lucraria por alguns meses, depois embolsaria os juros e iria embora.Gustavo Franco e Pedro Malan também defenderam, em algum momento, medidasdessa natureza.Custo das reservas cambiais – um relatório do Banco Mundial, de 1994, mencio-nado por Gustavo Franco em um de seus “papers”, demonstrava claramente o cus-to da manutenção das reservas no período 92-94, 0,45% do PIB, em média. Ecomprovava que o aumento da dívida pública no período fora proporcional ao au-mento das reservas cambiais, sugerindo uma relação de causalidade entre ambosos movimentos. Havia a preocupação de diminuir o tamanho das reservas e o ex-cesso de dólares na economia.Dívida Pública – todo programa de remonetização permite a redução drástica dadívida pública, à medida que se pode trocar moedas por títulos da dívida. No iníciodo Plano, a equipe discutiu a possibilidade de injetar dólares na economia, recolherreais e quitar dívida pública, permitindo que a remonetização beneficiasse a socie-dade como um todo (Maria Clara, 257). Por sua vez, Edmar Bacha defendia um re-dutor de 20% na dívida mobiliária interna e a possibilidade de troca por ações doprograma de privatização, seguindo sugestão de Pérsio Arida, baseada, em parte,no Plano K.DiagnósticosAs condições internacionais eram favoráveis. Com o avanço da logística e das co-municações, teve início a implosão das formas tradicionais de produção. As grandesmultinacionais passaram a alocar unidades em todo o mundo, buscando países commercado interno e/ou vantagens competitivas.No início do plano Real, a economia conseguia crescer a 5,5% ao ano sem déficitem conta corrente, carga tributária representava apenas 26% do PIB, a dívida pú-blica era de R$ 30 bilhões.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 77/127O mero final da inflação já havia provocado uma revolução no país. Naquele ano de1994, Brasil e China se tornaram as grandes estrelas do mercado internacional.A China havia criado uma região para experimentar o novo modelo de mercado, emsubstituição ao modelo comunista que vigorava. Mostrou um mercado real de 80milhões de consumidores e um mercado potencial de mais de um bilhão.Em menor escala, essas condições estavam presentes no Brasil. Da noite para odia, dezenas de milhões de pessoas saíram da linha da miséria para a do consumocom o mero fim da inflação.No final de 1994, as previsões de aumento nas vendas de automóveis, eletrodo-mésticos, bens de consumo não durável, alimentos, incendiava a imaginação das Luis Nassif 18/7/06 23:31multinacionais. Todas as peças do jogo de xadrez estavam no tabuleiro. Faltava a- Comment: Levantar númerospenas uma remonetização bem feita, uma operação competente no período detransição para a estabilidade, para evitar a volta da inflação e permitir ao país re-cuperar definitivamente sua vocação desenvolvimentista.A remonetização era um jogo de xadrez com inúmeras possibilidades. Os economis-tas do Real poderiam ter escolhido o caminho da chamada monetização da dívidapública. No vencimento, em vez de títulos o investidor receberia reais. A divida se-ria monetizada, desapareceria, e o mercado teria que se organizar para reciclar osrecursos, abrindo espaço para investimentos na atividade real.Na época, havia propostas de privatização com investimentos internos por meio deencontro de contas com os fundos sociais (FGTS, FAT, Pis-Pasep), o chamado PlanoK, uma idéia do empresário Paulo Britto e do economista Paulo Rabello de Castro.Era uma proposta que casava as preocupações com a legitimação social da privati-zação, com um modelo moderno de mercado e com o acerto dos passivos públicos.A idéia seria, inicialmente, reconhecer os principais passivos da União, estados emunicípios com os fundos sociais – FGTS, FAT e outros. Depois, criar um título de-nominado de Obrigação Social do Tesouro, lastreado nas transferências constitucio-nais e em outros ativos de estados e municípios, que seriam utilizadas para quitarseus passivos com os fundos sociais. Finalmente, permitir que, voluntariamente,trabalhadores pudessem trocar sua aposentadoria ou seus direitos ao FGTS por es-sas Obrigações. Elas seriam depositadas em fundos especialmente criados paraparticipar da privatização.Ao final do processo, haveria modernas empresas públicas de capital aberto, ummercado de capitais robusto e se teria começado a equacionar alguns dos grandespassivos públicos, como o da Previdência Social. Se trocariam direitos do velho pordireitos no novo modelo.A primeira etapa do RealFoi esse o ambiente encontrado pelos economistas do Real, quando começaram apreparar sua obra. O plano foi anunciado antecipadamente, em 1993, com a cria-ção da URV (o indexador que deveria vigorar por seis meses, até se transformar noReal). Bastou o anúncio para todo o processo interno se reformas ser paralisado. Oplano tinha que ser acelerado tendo em vista, principalmente, as eleições do anoseguinte.E aí se entram em algumas definições que, a exemplo da política monetária de RuiBarbosa, foram pouco analisadas até hoje.Há três maneiras de avaliar o Plano Real: a primeira, a troca de moedas em si, quelevou ao fim da inflação inercial; a segunda, a maneira como ocorreu a remonetiza-ção da economia, isto é, como o governo planejou injetar a nova moeda na econo-mia; a terceira, a maneira como se encararam os ajustes necessários para a corre-ção de rumos. Em geral, as análises tendem tratar os três processos como elemen-tos indissociáveis de um mesmo todo. Não são.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 78/127Na troca de moedas, havia várias maneiras de se definir a remonetização. O segre-do do novo modelo de país, que seria desenhado dali em diante, estava na remone-tização, em como o governo definisse a maneira como a nova moeda revascularia osistema econômico.A primeira etapa do Real consistiu em quatro movimentos, todos guardando amesma lógica entre si, de transferir o controle das políticas monetária e fiscal parao exterior e beneficiar os novos banqueiros de negócio. A idéia básica é que, crian-do uma dependência do capital externo, ela passaria a balizar todas as decisões depolítica monetária e fiscal. Qualquer tentativa de sair da linha provocaria fugas decapital, que colocariam qualquer governo de joelhos.Foram eles: 1. Regras de monetização, transferindo o controle da liquidez para os detento- res de ativos dolarizados, ao mesmo tempo em que se criavam barreiras ca- da vez maiores para o acesso a crédito em reais. 2. Montagem de uma estratégia de flutuação cambial para tirar outros agentes do controle da liquidez do sistema: os exportadores, pela destruição dos su- perávits comerciais; os bancos comerciais, pela não explicitação das regras de flutuação. 3. Mudanças institucionais para que todos os órgãos de controle da moeda (Conselho Monetário Nacional e o recém-criado ......) ficassem subordinado unicamente à representação do mercado. 4. Criação do ambiente de negócios favorável para que a liquidez proporciona- da aos ativos dolarizados se transformasse em riqueza, através de opera- ções no mercado futuro de dólares.As regras de remonetizaçãoAo longo dos preparativos para o Plano Real, houve muitas discussões, mas nãouma explicitação de como seriam as políticas monetária e cambial depois de lança-da a nova moeda.Desde o início, André Lara Rezende tornou-se defensor intransigente da remoneti-zação com poupança externa. Na gestão de Fernando Henrique na Fazenda na Fa-zenda concordou em completar o processo de renegociação da dívida externa. Ali,ampliou os contatos com banqueiros internacionais. Nas discussões internas, che-gou a defender o “currency board” (o sistema adotado por Domingo Cavallo, se-gundo o qual o governo só poderia emitir moedas nacionais se lastreadas em dóla-res) (FHC, 173). Mesmo depois da URV na rua, insistiu no tema. Com o “currencyboard”, o controle da liquidez seria totalmente transferido para quem dispusesse deacesso a dólares. Só o dólar adquirido pelo Banco Central poderia ser trocado porreais.O “currency board” não colou por ser extremamente rígido. Mas, na definição dasregras de monetização, decidiu-se lastrear a base monetária do país nas reservasinternacionais. Ao mesmo tempo, o BC estabeleceria exigências cada vez maioresde recolhimentos compulsórios, “travando a captação e, principalmente, as opera-ções de crédito no sistema bancário”, conforme explicitado por Gustavo em seu li-vro sobre o Real.Numa ponta, amarrava a emissão às reservas cambiais. A política monetária eratransferida ao detentor de dólares. A emissão de reais era ilimitada para quem dis-punha de dólares, mas não existia para quem só tinha acesso aos reais. O dinheiroentrava pela porta de dólares, mas antes que se convertessem em crédito, era su-gado pelos recolhimentos compulsórios do BC.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 79/127Com essa definição, dava-se o primeiro passo para transferir o controle da liquidezpara os detentores de dólares.A rigor, havia três grupos beneficiários: os exportadores, devido aos altos superá-vits comerciais; os bancos comerciais, com seus parceiros internacionais podendoprovê-los de linhas de financiamento em dólares; e para os novos banqueiros deinvestimento, que poderiam reciclar a poupança brasileira dolarizada.O segundo passo foi com a apreciação do real, expulsando dos dois primeiros gru-pos da fase inicial da remonetização.A apreciação do realNa tarde do dia 31, quando houve o lançamento do plano, o próprio Ministro da Fa-zenda afiançava, em declarações públicas, que o câmbio seria fixado na proporçãode um dólar por real. Não havia motivo algum para Ricupero fazer uma declaraçãoque seria desmentida no dia seguinte pelo Banco Central.A receita de remonetização do Real, com a apreciação da moeda, foi uma surpresaquase tão grande, e muito menos perceptível, do que o bloqueio de Cruzados deCollor. Inclusive para o próprio Ministro da Fazenda.Só na antevéspera do lançamento do Real a equipe ficou sabendo, por GustavoFranco, que o câmbio de partida seria de 92 centavos de real o dólar. O próprio A-rida considerou a cotação exagerada, porque a tendência seria ocorrer mais apreci-ação.Às 16 horas do dia 29 de junho, encerrado o mercado de câmbio com um leilão decompra de dólares, o Banco Central comprou dólares a 95 centavos de real. Ascompras de câmbio são liquidadas dois dias úteis depois. No dia 5 de julho, eramfeitas as primeiras emissões da nova moeda. No dia seguinte, a mesa de operaçõesdo BC recebeu nova instrução para comprar dólares no equivalente a R$ 16 mi-lhões, derrubando cotação para 93 centavos de real. “A indicação era muito clara: a taxa de câmbio seria flexibilizada para baixo. Na verdade, começava ali uma nova fase na política cambial brasileira”,conforme escreveria Franco posteriormente (Franco, 57).Na verdade, Gustavo Franco não consultou ninguém, nem Ricupero, nem Pedro Ma-lan nem seus companheiros de Real. Foi uma decisão solitária, segundo ele, desti-nada a demover as apostas do mercado contra o real.Segundo o próprio Gustavo, houve dois tipos de interpretação iniciais para aquelaatitude imprudente do BC. A primeira, é que seria um expediente transitório do BC,para barrar operações de arbitragem de taxas na passagem do Real, entre as taxasde juros do overnight e as taxas de desvalorização cambial, devido à diferença deprazos de liquidação. A segunda, é que seria uma tentativa de restringir a entradade capitais, na medida em que a apreciação geraria um fato de instabilidade, à me-dida que o dólar poderia se apreciar novamente e chegar a um real.Para Gustavo, o jogo era outro. No primeiro semestre o BC havia adquirido US$ 2,5bi mensalmente, resultando em expansão monetária de US$ 15,1 bi e um custo ex-traordinário de manutenção das reservas cambiais. Logo, pela sua ótica, a taxa decâmbio do primeiro semestre estaria fora do ponto de equilíbrio. Na avaliação sobreo programa, que escreveu no final de 1994, Franco sustentava que o ponto maisrelevante da política cambial foi ter dado autonomia à política monetária, permitin-do desenvolver uma “âncora monetária”.Mas como assim, se a taxa de juros passou a ser conduzida pela necessidade deatrair dólares para fechar as contas externas? Além disso, quem condiciona a emis-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 80/127são de reais ao aumento das reservas cambiais obviamente não está preocupadocom o seu nível ou o seu custo fiscal. É evidente que a “bonança cambial” não foienfrentada.Para alguns analistas, o BC não conseguiu segurar os dólares unicamente devido aofato de que a enxurrada era incontrolável. Não era fato. Em julho de 2006, em umapolêmica com colegas da PUC-RJ, e em depoimento para mim, Gustavo Franco des-denhava os acadêmicos que não tinham noção sobre o poder de fogo do BC.A única medida tomada foi aplicar alíquotas diferenciadas de impostos para cadamodalidade de entrada de capital. Unificaram-se todas as entradas de capital dearbitragem nos Fundos de Renda Fixa – Capital Estrangeiro (criados pela Resolução2.034/2003 do CMN), que passaram a ser tributados em 5% na entrada. Todas asdemais entradas de empréstimo de médio e longo prazo, não diretamente associa-dos ao financiamento do comércio exterior, seriam tributados em 3%. Era uma ma-neira de estender o prazo de permanência do capital. Posteriormente, essas alíquo-tas foram aumentadas para 9 e 7%.Os dólares comerciais foram expulsos pela apreciação do Real. Depois de todas ascríticas feitas ao custo de acumulação de reservas do primeiro semestre de 1994,constituídas por dólares do saldo comercial, liquidava-se com o saldo comercial econtinuava-se o mesmo jogo, só que com dólares financeiros, muito mais voláteis,com um custo de captação muito mais elevado.Os bancos comerciais foram expulsos pela falta de garantias explícitas de que seriamantida a paridade de um dólar por real. Por suas características, não podiam cor-rer o risco de descasamento entre captação e aplicação.Com essas medidas, sobraram apenas os banqueiros de investimento e os fundosagressivos, formados ao longo dos anos 80. E, quando o dólar tornou-se um ativoescasso (com o fim dos superávits comerciais), a taxa de juros da economia passoua ser fixada levando em conta as taxas internacionais, mais o custo Brasil, mais orisco cambial.Em fins de 1994, as reservas cambiais estavam em US$ 40 bi. No seu diagnósticodesse quadro pré-Real, Franco anotaria o crescimento da dívida interna era damesma magnitude do crescimento das reservas. E traçava o seguinte círculo viciosode uma economia com muitos dólares: “A esterilização do acúmulo de reservas pressionava os juros internos, o que ampliava o diferencial de juros e produzia mais entrada de capital e acumula- ção de reservas. Além disso, os recursos externos não se materializavam em investimento”.Essa crítica ao período pré-Real se encaixava como uma luva ao período do Real.Com a diferença que os dólares foram substituídos: em vez de dólares do superávitcomercial, capitais gafanhoto, de curto prazo.Havia a consciência do risco do “overshooting” (excesso de apreciação cambial), edo risco da “Dutch Disease” (fenômeno ocorrido na Holanda, no qual o excesso dedólares, pela descoberta e exportação de gás levou à desindustrialização da eco-nomia), e também o risco de se criar um grande déficit em conta corrente de difícilsustentabilidade em médio prazo, como ocorrera com o México (Franco, 62). Ora,se havia todos esses riscos, e se tudo havia sido previsto com antecipação, porquenão se tratou de evitá-los?Segundo Franco, “o Real sustou o círculo vicioso, ao simplesmente identificar a ‘bonança cam- bial’ como um problema e ao programar, para seu enfrentamento, uma estra- tégia composta de diversos elementos” (Franco, 61).28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 81/127É evidente que não sustou. No final do ano o montante de reservas era praticamen-te o mesmo e, nos anos seguintes, o BC foi obrigado a aumentar substancialmenteas reservas, com taxas de juros recordes, para conseguir fechar as contas externase impedir uma apreciação ainda maior do Real.O fim dos superávits comerciaisO segundo elemento da estratégia foi ampliar desmedidamente as importações, re-tirando todas as restrições, tarifárias e não tarifárias. O terceiro, remover obstácu-los a investimento no exterior, criando os Fundos de Investimento no Exterior (Re-solução 2.486 de 30.09.1994), admitindo papéis do Tesouro em sua carteira.Em meados de outubro a equipe econômica acreditava haver super-oferta de dóla-res. “Todavia, no final do ano, o surpreendente crescimento das importações e as conseqüências da crise mexicana trariam a impressão oposta” (Franco, 64).Houvesse o mínimo de acompanhamento da realidade, se saberia que há uma defa-sagem de tempo entre a abertura às importações e da conta capital e seu início e-fetivo. É o período em que os importadores aprendem a trabalhar os novos merca-dos, a identificar os produtos demandados, a convencer a rede varejista a colocaros produtos. Depois que aprendessem a importar, com o câmbio tão apreciado, se-ria uma enxurrada como a que se viu. Do lado da conta capital, é o período em queos investidores ganham confiança no novo modelo e, depois de um período de tes-te, começam a desovar dólares, especialmente quando a diferença de taxas de ju-ros era tão expressiva quanto no período.Mas não havia interesse. No dia 26 de setembro de 1994, com as preocupaçõescom o câmbio começando a dominar os debates internos do governo, Franco insis-tia que era preciso olhar não para o superávit comercial, mas para o que ele cha-mava de “superávit externo estrutural”, em que entrava a balança comercial maisos investimentos externos. Em sua opinião, o déficit na balança comercial deveriase estender por mais dois ou três anos (Maria Clara, 370). Qual a razão? Para ele,“não seria nada de mais se o déficit da conta corrente chegasse a 2% do PIB”.Àquela altura, Pérsio brigava em vão pela regulamentação do Fundo de Amortiza-ção da Dívida Mobiliária, que permitiria a privatização com dívida pública. A idéiajamais saiu do papel. Naquela semana teve uma briga monumental, quando Francoafirmou que a taxa de câmbio de equilíbrio seria de 77 centavos de real o dólar. “Não dá, você está maluco, esse processo de valorização tem que parar, te- mos que voltar para 90 ou 95” (Maria Clara, 390).Em meados de outubro, com a eleição decidida, o investimento externo começou aentrar aos borbotões. E os importadores, com os motores aquecidos, começavam acomprar loucamente, aproveitando o câmbio favorável e o mercado interno aqueci-do.A nova institucionalidadeA nova política monetária delineada pelo Real havia sido apresentada na MP no.542 de 30 de junho de 1994, com três pontos principais.Mudava a composição do CMN e criava a COMOC (Comissão de Moeda e Crédito),para tirar a influência de qualquer voz discordante em relação ao novo regime mo-netário-cambial. O argumento era “despolitizar” o CMN. A nova composição teria oMinistro da Fazenda, do Planejamento e o presidente do BC. Foram retirados minis-tros de várias pastas, presidentes de bancos federais e representantes de empresase trabalhadores, pois sua presença “distorce o caráter de instituição pública do28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 82/127Conselho, pois envolve partes interessadas em decisões onde deve prevalecer ex-clusivamente o interesse público e o compromisso com a estabilidade da moeda”.A guerra de comprados e vendidosHistoriadores e economistas tendem a analisar isoladamente dois fenômenos dagestão de Rui Barbosa na Fazenda: sua política monetária e o Encilhamento, que foio movimento especulativo ocorrido na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. No má-ximo, estabelecem relações de causalidade, como se a especulação fosse resultadode erros não intencionais cometidos por Rui. Alguns economistas, como Celso Fur-tado, tendem a considerar o Encilhamento como um movimento independente dapolítica monetária expansionista de Rui.O que fazem é analisar os grandes agregados, comparar um terreno que vai serirrigado com a água utilizada na irrigação, independentemente de como se dará airrigação. Se aspergir por igual a água no terreno, o resultado será um; se passar aágua por um cano e focalizar o jato em um ponto único, o resultado será um desas-treAs ligações de Rui com o Conselheiro Mayrink, as benesses concedidas, a falta deintervenção no movimento especulativo, cujos desdobramentos eram previsíveispara qualquer analista da época, são um indício de que remonetização e Encilha-mento faziam parte de um mesmo modelo de fortalecer grupos econômicos aliados,ainda que em detrimento da economia.Em toda a história do país, projetos de poder passavam pela constituição de alian-ças políticas, mas, fundamentalmente, pelo fortalecimento dos empresários aliados.Eles se constituíam em uma das âncoras para assegurar o fortalecimento do presi-dente no cargo, mas, também, a manutenção de aliados influentes nos períodosfora do governo. O Visconde de Ouro Preto tinha o Conde de Figueiredo; Rui apos-tava no Conselheiro Mayrink; Getúlio Vargas tinha o Conde Matarazzo, Euvaldo Lo-di, Valentim Bouças; JK tinha os empreiteiros mineiros; Geisel tinha os empresáriosda indústria de base, mais os próximos, Paulo Egydio Martins, Shigeaki Ueki, RaphRozenberg; Sarney tinha Mathias Machline. Em sua pretensão de criar uma baseauto-sustentável de poder, Collor investiu nos inacreditáveis irmãos Martinez, daCNT, em Wagner Canhedo, da Vasp. Um dos pilares dos vinte anos de poder doPSDB, era as alianças com os novos grupos que surgiriam na área de telecomunica-ções e nas privatizações em geral, mas, principalmente, os novos grupos financei-ros.Para que a remonetização ajudasse a criar os super-grupos da próxima etapa, tinhaque ser combinada com um ambiente que ajudasse a transformar a liquidez em ri-queza. O poder de emissão garante uma vantagem extraordinária para seu deten-tor. Mas, dentro da atividade normal de emprestar, o processo de acumulação élento. Daí a importância de se ter um ambiente favorável a apostas especulativas,onde a liquidez poderia ser multiplicada várias vezes em riqueza. Todas as benes-ses concedidas a Mayrink, todos os problemas enfrentados por ele, que obrigavamRui a mais concessões, estavam diretamente ligados às jogadas especulativas doEncilhamento.Em pleno final de século 20 seria impossível distribuir privilégios individuais, comofizera Rui Barbosa. O caminho consistia em definir todo um setor: os novos ban-queiros de negócios que surgiram nos anos 80.A maneira escolhida para premia-los foi um primor, uma obra prima, talvez o maiornegócio do século 20, uma aventura quase tão grandiosa quanto as façanhas deJohn Law, o aventureiro que criou o Banco da França e comprou a Luisiana antes dequebrar.Por trás da vã teoria, havia uma férrea lógica negocial, que ficaria claro em poucosmeses para os observadores mais atilados. Não para a maioria da mídia e da cha-mada opinião pública.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 83/127Ao começar o Real, foi anunciado que o dólar poderia cair o quanto fosse, mas, sese valorizasse, não poderia valer mais do que um real. Os especuladores podiamtrazer dólares à vontade e aplicar em títulos do Tesouro. O risco era limitado a umreal. Com a diferença entre as taxas de juros interna e externa, os especuladorespodiam apostar em um dólar de até 85 centavos, com riscos mínimos de perda, nocaso de desvalorização do real.Para manter uma aposta tão elevada, havia um batedor privilegiado, o pequenoBanco Matrix, criado com capital de R$ 16 milhões, por um grupo de operadores domercado tendo, entre seus sócios, André Lara Rezende, que continuava a participarintensamente das discussões sobre o real. Em pouco tempo tornou-se administra-dor de uma carteira de fundos de mais de US$ 500 milhões. Jamais um investidorestrangeiro iria colocar seu dinheiro em um banco recém-criado, pequeno, por me-lhor que fosse a reputação de seus gestores. O dinheiro era da Avenida Paulista,mesmo. E o lucro monumental, de mais de R$ 140 milhões declarados no primeiroano, de R$ 500 milhões segundo rumores que correram na época, se devia à certe-za de André – na qualidade de um dos formuladores do plano – de que a equipeeconômica não permitiria nenhum movimento brusco do câmbio que pudesse pena-lizar os investidores externos.É por aí que se entenderá melhor a enorme resistência a se corrigir o câmbio,mesmo após as eleições e a crise do México. Na verdade, o mercado se dividira emdois grupos: os “comprados” (que apostavam na manutenção da apreciação docâmbio) e os “vendidos” (que apostavam na desvalorização do real). As instituiçõespróximas à equipe econômica estavam esmagadoramente na ponta dos “compra-dos”. Rumores do mercado davam conta de que o Matrix teria US$ 1 bilhão aplica-do na ponta “comprada”. Qualquer desvalorização brusca do Real quebraria a cor-rente.O afluxo de dólares foi tão grande que seu valor baixou imediatamente para 85centavos de real. O investidor trazia os dólares, vendia a 85 centavos de real, rece-bia uma remuneração que chegou a 45% líquidos ao ano e o máximo de perda queteria seria de 17%, se o dólar batesse no teto de um real. Ou seja, na pior das hi-póteses, teria uma remuneração garantida de mais de 20%.Em seu livro, Franco explica uma a uma as medidas, menos a essencial: porque selastreou a emissão às reservas cambiais e se permitiu a apreciação do câmbio?Também não havia nenhuma explicação plausível para se buscar déficit nas contascorrentes a qualquer preço – conforme diversas manifestações de Edmar Bacha edos demais economistas do Real na época.No dia que em se anunciou o primeiro balanço de pagamentos deficitário, houvecomemoração da equipe econômica, palavras esfuziantes de Bacha na FIESP e naENAEX (Encontro Nacional dos Exportadores), dizendo que o déficit não podia serde apenas US$ 4 b i, mas deveria ser de US$ 8 bi. Para quê? Para abrir espaço paraque a poupança externa pudesse entrar e ajudar a aumentar o investimento inter-no.Ora, a natureza dos fundos que ingressavam no país era mais que conhecida. Eramfundos avaliados permanentemente, buscando o máximo de rentabilidade com li-quidez. O sistema de avaliação de risco, por parte das agências de rating, tornavaesses capitais muito mais suscetíveis a situações de risco, passando a exigir mobili-dade absoluta. Como pretender que viessem financiar a infra-estrutura, o desen-volvimento, ou que se tornassem os “batedores” que antecediam o investimento delongo prazo?No plano político, a apreciação do câmbio trazia vantagens adicionais. Primeiro,passava a sensação de riqueza provisória aos consumidores, facilitando as eleiçõesno final do ano. Segundo, justificava as taxas de juros elevadas, para conter a in-flação de demanda.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 84/127Mas não bastava. Era evidente que, ao permitir o livre fluxo de capitais com o dife-rencial de juros existente, se criaria uma valorização do real que tornaria o planoinsustentável a médio prazo.O caminho racional seria mudar o rumo da remonetização, impedir a entrada docapital especulativo, o capital gafanhoto. Mas significaria interromper a indústria daarbitragem, o maior negócio lícito da história do país.Durante todo o segundo semestre de 1994, os economistas do Real se empenha-ram em ampliar desmedidamente as importações, supondo que com déficits comer-ciais – isto é, com mais dólares saindo do que entrando pela porta da balança co-mercial – se manteria o espaço para o capital especulativo. É difícil entender tantoempenho em gerar déficits comerciais, a ponto de se comemorar o primeiro deles,se não se incluir nessas análises o gigantesco cabo de esquadra que ocorria naBMF, em torno dos “comprados” e “vendidos”.A irreversibilidade do modeloTodos os atos dos condutores da política econômica iam na direção de assegurar airreversibilidade das taxas de câmbio. No dia 31 de dezembro, último dia antes damudança de governo, foram feitos vários leilões de títulos públicos, com a coloca-ção Notas do Tesouro Nacional de longo prazo com correção cambial. As de prazode três meses pagaram 15,20% ao ano mais correção cambial. As de seis mesessaíram com taxa de rentabilidade de 16,09% ao ano.Naquela mesma semana, o BC anunciou venda de dólar no mercado flutuante,quando a cotação aproximava-se de R$ 0,860 (Folha). Por aqueles dias, a crise doMéxico havia provocado um prejuízo de R$ 125 milhões somente com as baixas dosdias 21 e 22 de dezembro.Em dezembro, uma leva de pequenos bancos havia quebrado por ter apostado naponta errada, da desvalorização do real.Em dezembro, Pérsio Arida – que nunca abriu mão do rigor técnico até sair do go-verno -- e José Serra tentavam convencer o presidente eleito Fernando HenriqueCardoso a mudar o câmbio. Lara Rezende, mais uma vez, seria o grande obstáculo.Serra alertou-o para o risco de um déficit comercial elevado. E ele: “Mas as moder-nas teorias sustentam que o que importa é analisar as contas correntes como umtodo”. Serra não entendeu nada. Teorias do começo do século já diziam isso. Quala razão de tamanha superficialidade na análise?Apenas no final do primeiro governo FHC, quando já havia vendido sua posição noMatrix, é que André mudou sua posição. Junto com o ex-sócio Luiz Carlos Mendon-ça de Barros poderiam ter se constituído a grande dupla a mudar a política cambial,não fosse o episódio do grampo no BNDES.Apoiado pelo futuro Ministro do Planejamento José Serra, Arida defendia uma cor-reção ampla, Gustavo uma correção modesta. Uma correção ampla resolveria o nódas contas externas, mas penalizaria o capital especulativo. E todas as decisões deGustavo passavam por um constrangimento: não poderiam prejudicar o capital fi-nanceiro. Com esse obstáculo, os grandes problemas criados na partida do Real e-ram tratados com gambiarras, que entortavam cada vez mais o que torto estava.Recriava-se a saga de Rui Barbosa, tomando medidas casuísticas para corrigir osproblemas criados pelo seu protegido, Conselheiro Mayrink.No final do ano, a crise do México impediu qualquer correção. Em abril de 1995,tentou-se uma segunda vez corrigir o câmbio. Declarações desencontradas de Gus-tavo Franco, diretor do BC, provocaram uma corrida que apavorou o mercado, pro-vocou a evasão de US$ 8 bilhões e praticamente imobilizou o governo FHC.A partir dali, o quadro se tornou irreversível. Arida saiu do governo, considerandoque já tinha dado sua cota de sacrifício para o país e resolveu cuidar da vida. Gus-tavo permaneceu com sua bandeira de sustentação do câmbio a qualquer preço.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 85/127Em lugar de uma correção radical no câmbio, decidiu por uma banda cambial quepermitisse ao dólar desvalorizar a 8% ao ano. Imediatamente a taxa de arbitragemda economia subiu 8% ao ano.Mantinha-se a mesma lógica financeira de beneficiar os detentores de dólares. Ocorreto seria a correção de uma só vez. Haveria prejuízo para os “comprados”,mas, corrigido o desequilíbrio, as exportações recuperariam o fôlego, a volatilidadedo câmbio se reduziria expressivamente e, superado o impacto inicial sobre os pre-ços, as taxas de juros poderiam se aproximar dos patamares internacionais abrindoespaço para a retomada do crescimento.Em vez disso, a decisão de Gustavo terminou vencedora: criar uma banda cambialde 8% ao ano. A arbitragem se dava entre o custo da captação no exterior (taxabásica dos EUA mais risco Brasil mais alguns pontos para prevenir volatilidade Luis Nassif 27/8/06 22:27cambial). Com a introdução da banda, imediatamente a taxa de arbitragem passou Comment: Levantar dados na BMF sobrea ser a soma da taxa básica americana, mais risco Brasil, mais 8% ao ano da banda taxas de juros e câmbio nessa ocasiãocambial. Para manter dólares no país, a taxa básica do BC deveria ser no mínimomuito superior ao novo teto.Nunca se ganhou tanto dinheiro fácil quanto dali para diante. Nos anos seguintes,não havia mais política monetária e cambial autônomas. Todos os passos eram mo-nitorados pelas agências de risco, pelo receio do movimento manada dos capitaisespeculativos. Qualquer declaração de autoridades contra o modelo provocava mo-vimentos de saída de capitais, declarações terroristas de economistas e operadores,obrigando o recalcitrante a recuar.A cada dia que passava, mais piorava a situação das contas externas, da dívida pú-blica. Mas o modelo ia ganhando vida através do desenvolvimento de uma retóricade criação de expectativas sucessivas.O abandono dos estudos iniciaisPolítica econômica não é apenas teoria. Há uma infinidade de caminhos a serempercorridos, de alternativas a serem escolhidas, como se demonstrou no próprioprocesso prévio de discussão do Real. O chamado interesse nacional, por vezes, porser apenas a expressão dos interesses de alguns grupos. Mas há posições que nãocomportam dúvidas.Voltemos às preocupações iniciais, para uma avaliação das conseqüências reais dasmedidas adotadas:Excesso de liquidez: Quando começa o Plano, aprecia-se o real e deixa-se a contacapital completamente aberta, com taxas de entrada insuficientes para conter a en-xurrada de dólares a partir de setembro de 1994. Os dólares entram aos borbotões.Sobrevalorização cambial: Começa o Real com Gustavo tomando solitariamentea decisão de jogar o dólar para 93 centavos de real.Controle de capitais: Deixaram-se entrar dólares sem limites pela conta capital.Ainda no período de Rubens Ricupero como Ministro da Fazenda, as discussões a-tingiram um nonsense inédito. Para evitar a apreciação do real, os economistas di-ziam que havia a necessidade de se reduzir a entrada de dólares. Mas julgavamque as restrições à entrada de dólares afetariam a credibilidade externa do plano.Se o objetivo era o de estimular os déficits em conta corrente, para reduzir a en-trada de dólares, teria que se deixar aberta a conta de capital para a entrada deinvestimento externo capaz de financiar o déficit (Maria Clara, 260). Era de umnonsense absoluto. Liquidava-se com o que consideravam excesso de dólares pro-vocado pelos superávits comerciais, e permitia-se uma tempestade de dólares tra-zidos pela conta capital.Seria porque, com isso, entraria a poupança externa capaz de complementar apoupança interna e financiar o desenvolvimento, como dizia Bacha? Seria possível a28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 86/127um economista do seu nível não saber do efeito-substituição da entrada de dólares,do impacto sobre a dívida pública, do fato de que não complementaria poupançainterna, mas simplesmente a substituiria, como aliás devidamente diagnosticadonos trabalhos prévios sobre o nível das reservas cambiais? É evidente que não. Noentanto, apenas dez anos depois, quando os jornais o procuraram para um balançodo Real, Bacha reconheceu que, daqui para frente, se teria que encontrar um meiode atrair capitais externos que fossem para investimento, porque aqueles do iníciodo Real não cumpriram essa função.Custo das reservas cambiais – Quando começou o plano, as reservas cambiaischegavam a US$ 38 bilhões; a dívida mobiliária federal em poder do público emUS$ 27 bilhões. Ou seja, mesmo depois de constatar de maneira clara a objetivaque o excesso de dólares no país tinha um custo fiscal, utilizava-se o álibi da dívidainterna para justificar a captação de poupança externa (cuja entrada acarretavaaumento da dívida interna). Em outros documentos, alertavam para o custo fiscalde atrair dólares. Era uma torvelinho tão disparatado que passava a impressão deque era intencional, para não se deixar antever os próximos passos.Dívida Pública – Esquece-se completamente a dívida pública, de tal maneira quemeses depois o efeito da monetização sobre ela foi quase nulo. Todo o ganho daredução da dívida interna, que poderia ter sido do país como um todo, se converteem transferência de renda para os detentores da liquidez. Maria Clara descrevia as-sim o pensamento dos economistas do Real: “Quando o déficit do governo cresce, é sinal de que o setor público gasta mais do que arrecada e, deste modo, está gerando despoupança. O governo preci- sa ir buscar recursos em algum lugar, par financiar o déficit, internamente ou externamente. Foi buscar a poupança externa”.Não tinha lógica. Se a entrada de dólares aumentava a liquidez da economia, se oBC era obrigado a emitir reais para comprar os dólares, e, depois, títulos para en-xugar o excesso de reais, a entrada de dólares aumentava a dívida pública, em vezde diminuí-la. Era o mesmo quadro denunciado por Franco sobre a política cambialpré-Plano Real: a um aumento das reservas cambiais correspondia um aumento dadívida mobiliária em poder do público para enxugar o excesso de reais em circula-ção.Eram todos muitos preparados e havia muitas discussões e pontos de vista paraque fossem atropelados pelo óbvio. Uma das lições que se aprende, em relação apolíticas econômicas, é que não existe a burrice reiterada. Sempre haverá umaexplicação para o erro óbvio ou reiterado, em geral ligada a interesses que nãopodem ser explicitados.A nova classeOs economistas do Real se dividiam em relação à visão e instrumentalização doplano. Pérsio Arida era eminentemente técnico, via o plano como uma revanche doCruzado e se preocupava com sua consistência. André Lara Rezende via o planocomo uma forma de ascensão social. Depois de enriquecer com o real, realizou so-nhos adolescentes de comprar carros de corrida e cavalos de corrida – que trans-portou de avião para Londres, quando resolveu passar uma temporada por lá.Gustavo Franco era o ideólogo, sem o domínio técnico de Pérsio e André, ainda semprática suficiente de mercado – que ele passaria a dominar em pouco tempo -- mascom um conhecimento aprofundado de história econômica do Brasil, e com a pre-tensão de moldar o país. Todos seus passos tinham como objetivo um novo mode-lo, de sepultar, varrer do mapa a estrutura industrial moldada no período de prote-cionismo e impor o primado do capital financeiro, com o voluntarismo que caracte-riza todo jovem acadêmico quando no poder.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 87/127Os demais exerciam papéis secundários. Bacha, com sua senhoridade, mediava osembates. Winston Fristch deveria desempenhar funções operacionais, mas acabouse enroscando na falta de prática com a gestão diária. De Pedro Malan, não há re-gistro sobre opiniões que tenha manifestado ao longo dos meses em que se foramdefinidos os princípios do novo plano.Gustavo e André tinham plena consciência do poder fantástico da remonetização.Em sua monografia sobre o Encilhamento, Gustavo enfatizara as falas de CamposSalles nas reuniões ministeriais de Deodoro, mostrando como a concessão do poderde emissão a alguns bancos – ainda no final do Império – conferiu a seus proprietá-rios, além de riqueza, enorme poder político. Mostrava claramente como Rui Barbo-sa tornou-se crítico exacerbado da política monetária anterior e, depois que assu-miu o Ministério, desmontou a anterior e montou uma nova, beneficiando gruposaliados. Todo esse know how seria utilizado na montagem do Real.De Rui, Gustavo aprendeu técnicas de especialista, de apontar em uma direção en-quanto caminhava para outra. Da mesma maneira que Rui prometia utilizar a mo-netização para liquidar com a dívida interna, enquanto a utilizava para transferirriqueza e poder para os aliados. Com o pai, Guilherme Arinos, aprendeu manhas eartimanhas do poder. Em toda discussão interna, não ganhava quem tivesse razão,mas quem organizasse suas propostas na forma exigida, decreto, portaria ou proje-to de lei.No seu período pós-Real, André ganhou experiência com as sutilezas do mercadofinanceiro. Por sua vez, Gustavo tinha como guru Natan Blanche, ex-garimpeiro,que se tornou sócio do Banco Cindam e presidente da ANORO (Associação Nacionaldo Ouro). Natan era próximo a José Sarney. Ainda no seu governo se aproximou dajovem tecnocracia que ascendia, como Gustavo Loyolla, Emílio Garófalo, Maílson daNóbrega, Luiz Antonio e outros. Seu estilo paternal, amigo leal mesmo, acabouconquistando-os a todos, tornando-o uma liderança expressiva por conta das suasrelações pessoais.Fundamentalmente intuitivo, Natan foi das primeiras pessoas do mercado a perce-ber a importância da definição de uma ideologia de mercado que ajudasse em seusplanos de abertura cambial. Em sua gestão na ANORO, contratou Mário HenriqueSimonsen como consultor e espécie de porta-voz da Associação. E participou dire-tamente de todas as discussões que levariam à liberalização cambial brasileira, doperíodo Sarney até o início do Real. Mais tarde montaria a consultoria Tendências,que teria enorme influência na formação do senso comum da imprensa financeira,no período pós-Real.Tornou-se “fonte” de jornalistas para temas como déficit público e outras matériasque estavam longe da sua formação. Mas tinha uma enorme intuição de jogadorpara o mercado cambial e de ouro. Era capaz de indicar a tendência do mercado emcima das explicações mais estapafúrdias. Mas quase sempre acertava.D.Sebastião e a reunião de CarajásAssim como no “Encilhamento”, começava-se a reforma monetária com a promessade ganho na redução da dívida pública. Acenava-se com a redução do superávitcomercial, no Banco Central vendendo dólares no mercado e, com os reais recolhi-dos, recomprando títulos da dívida mobiliária, “trazendo para os cofres públicos epara a sociedade os benefícios do processo de remonetização” (Maria Clara, 257).Parecia uma declaração de Rui Barbosa para legitimar a sua reforma monetária.O resultado final foi que o Real não conseguiu alongar o prazo de vencimentos dadívida pública, não logrou reduzi-la. Pelo contrário, ao manter o sistema de “rola-gem automática” do overnight, o BC permitiu que todo dinheiro que saísse retor-nasse ao over.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 88/127 “A frustração de Bacha é que nunca houve governo disposto a encarar a ques- tão de frente”, segundo Maria Clara. Minha frustração (de Rui Barbosa) Luis Nassif 27/8/06 22:27 Comment: Levantar declaração de RuiUm governo que trocara a moeda, desindexara a economia, apreciara o Real até olimite da irresponsabilidade, aumentara as taxas de juros em níveis recordes, inter-viera no Banespa –banco do estado de seu maior aliado político—não tinha forçaspara acabar com a roleta da dívida pública. E Bacha ficou muito frustrado...Ambos, ele e Rui, saíram e se tornaram sócios de setores beneficiados pelo modeloA famosa reunião de Carajás, em junho de 1986, foi sem nunca ter sido. Poucossabem do que se tratou na reunião. Mas firmou-se no imaginário popular a crençade que a reunião poderia ter salvado o Cruzado.Depois dela, criou-se uma multidão de neo-sebastianistas --basicamente lotados naimprensa-- acreditando piamente que a salvação do país estaria nas mãos de umeconomista yuppie, descendo diretamente de Carajás, em seu Porsche de corrida,para preparar a revanche do Cruzado.A grande maldição dos anos 80 não foi Sarney, nem a classe política Foi a superfi-cialidade dos pacotes econômicos e a mística que envolveu os pacoteiros.Era enorme bobagem enquadrar todos os planos de estabilização na categoria deneoliberais --como pretendia parte da esquerda. Ou supor que tudo o que dói, cura--como acreditam alguns basbaques da mídia, que fariam melhor em entregar suasoperações de safena nas mãos de um estripador de frangos.Há planos que, mesmo não sendo de estabilização, fazem países avançar. Há pla-nos de estabilização que consolidam avanços. E planos que perpetuam a desorgani-zação na economia. Todos fazem doer.Com todas as imprudências cometidas na área cambial, o segundo governo Vargasdoeu, mas ajudou a lançar as obras de infra-estrutura que prepararam o grandesalto de industrialização dos anos 50. Mesmo com sua crônica irresponsabilidadeorçamentária, o governo JK mudou a agenda do país. E doeu depois.Com todo componente autoritário, o período 64-66 permitiu à dupla Campos-Bulhões fazer doer, mas também lançar o mais bem sucedido programa de estabili-zação da história. Apesar do sacrifício inicial imposto aos mais pobres, as reformaschilenas ajudaram a viabilizar um país.Em todos esses casos, havia como pano de fundo um projeto claro de país, e abusca de saídas para pontos que realmente contam na construção da economia: acriação de mecanismos de financiamento, a consolidação do mercado de capitais, areorganização da política de comércio exterior, a viabilização de investimentos eminfra-estrutura, a racionalização dos tributos etc.Mas o quê a tecnologia dos pacotes e seus profetas agregaram ao país e ao estudoda economia em quinze anos de experimentalismo? Nada.Quando se preparou a troca de moedas do real, todas as avaliações indicavam quetinha-se o melhor conjunto de circunstâncias favoráveis na economia para um pla-no de estabilização.1) Maior nível de reservas cambiais da história --possível apenas depois que o eco-nomista Ibrahim Éris reformulou a política cambial brasileira.2) Uma economia aberta e superavitária --a partir da reestruturação do comércioexterior, e de um programa de abertura planejada da economia.3) Uma economia desregulamentada --depois do fim da reserva de mercados e deum sem-número de restrições à livre competição.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 89/1274) Empresas brasileiras reestruturadas e ingressando firmemente em projetos demodernização --processo iniciado com o Plano Brasileiro de Qualidade e Produtivi-dade (PBQP) e com as Câmaras Setoriais.5) Programas de investimento em quase todos os setores --assegurados pela ma-nutenção das regras do jogo por quatro anos.6) Relativo consenso sobre reformas fundamentais.7) Equacionamento da dívida interna, ainda que à custa da violência do bloqueiodos cruzados.Com toda essa enorme agenda, em vinte anos tudo o que os gurus do Real haviamlogrado produzir foram estudos recorrentes sobre troca de moedas --a parte maisespetaculosa e superficial de um plano.Com apenas 18 meses com a economia de volta às suas mãos, e apenas com suacapacidade de brincar de fliperama com as políticas monetária e cambial, tinha-se:1) O país em nova crise cambial;2) a volta de alíquotas super-protecionistas em muitos setores;3) crescimento exponencial da dívida interna, comprometendo o futuro ajuste fis-cal;4) e uma multidão de empreendedores arrependidos até a medula dos ossos porterem apostado no país e programado investimentos.Todo o ouro de Carajás não conseguiria pagar o que custou ao país a reunião de1986.Lágrimas depoisO que ocorreu em maio de 1995 era perfeitamente previsível para quem tivesseolhos para ver, para os que se acostumaram a analisar a economia como um pro-cesso dinâmico. Já estavam no ar as seguintes conseqüências óbvias, mas que sómostrariam sua face perversa nos anos seguintes (Nassif, 29/05/95)1) Empresas pequenas e médias, menos capitalizadas, rodariam, jogando no mer-cado um exército de desempregados --donos de pequenos negócios e funcionários.2) Grandes empresas reduziriam sua produção, aumentando o número de desem-pregados. Mas preservariam lucros porque, sendo líquidas, compensariam seu pre-juízo operacional com aplicações financeiras.3) Pelo simples exercício de trazer dinheiro lá de fora e aplicar em inexplicáveis4,5% ao mês, os bancos de negócios repetiriam os extraordinários lucros do anoanterior.4) Todo o lucro do setor capitalizado da economia seria bancado pelo Estado, à cus-ta do aumento exponencial da dívida interna. Tudo o que se arrecadasse com avenda de estatais não seria suficiente para bancar o mero crescimento da dívidainterna, em função desses juros.5) Com a queda da atividade econômica, em pouco tempo as receitas tributáriasiriam despencar.Enquanto isto começava a ser criado no país um imenso mercado paralelo, juntan-do poupança dolarizada, caixa dois, caixinha política, dinheiro do narcotráfico, tudosob o respaldo da liberalização cambial sem controles imposta pelo Banco Central, edo discurso que começou a tomar conta do mercado financeiro e, a partir dele, pelojornalismo econômico em geral.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 90/127As ferramentas financeiras dos anos 90As ferramentas financeiras dos anos 90A teoria econômica era apenas a ferramenta de retórica para permitir a formaçãodo ambiente de negócios que se queria. O que importava era o mundo real, ondese materializavam as intenções e objetivos das medidas econômicas.Com a liberalização cambial, ocorreu um notável fluxo de investimentos brasileirospara o exterior. Em seu período de presidente do BC, Gustavo Franco procurou, detodas as maneiras, estimular esse livre fluxo financeiro, tanto através de investi-mento registrado como pelas CC-5, cuja flexibilização provocou a evasão de US$139 bilhões entre 1996 e 1999, sem comprovação da origem no país (dados do Mi-nistério Público do Paraná).Até 31 de dezembro de 2001, outros US$ 69,6 bilhões de dólares das reservascambiais brasileiras foram expatriadas legalmente, de acordo com o primeiro le-vantamento efetuado pelo Banco Central, em 2001, valor quase três vezes superiorao superávit comercial de 2003.Qual a utilidade para o país? Em 2003 o Brasil assinou um acordo oneroso com oFMI apenas para um reforço de US$ 14 bilhões nas reservas cambiais.Um segundo levantamento do BC, fechado em 31 de dezembro de 2002, mostra-vam para US$ 72,3 bilhões de ativos totais no exterior, US$ 54,4 bilhões (75,4%do total) eram representados por investimentos diretos, o item mais nebuloso dasremessas.A decomposição por destino do levantamento de 2001, preparada pelo consultorAndré Araújo, era impressionante. • Do total de US$69,6 bilhões em 31/12/2003, US$18,9 bilhões estavam em investimentos financeiros (bancos, fundos mútuos e títulos negociáveis) e US$50,7 bilhões em investimentos diretos em pessoas jurídicas. • Nas empresas receptoras onde o investidor brasileiro tem pelo menos 10% do capital estavam US$ 43,6 bilhões. • Desse total, nada menos que US$34 bilhões foram para paraísos fiscais, US$ 14,785 bilhões para Cayman, US$ 8,148 bilhões para Ilhas Virgens Britâni- cas, US$ 5,954 bilhões para Bahamas, US$ 1,048 bilhões para Ilha da Ma- deira e US$ 990 milhões para Bermudas. • Dos investimentos para países que não são paraísos fiscais, foram US$ 1,657 bilhões para a Espanha, US$ 1,625 bilhões para a Argentina, US$ 1,401 bilhões para os Estados Unidos e US$697 milhões para Portugal, US$4,215 bilhões para outros países. • Total desse sub-grupo de empresas, que tudo indica serem controladas pe- lo remetente, US$43,641 bilhões, isto é, foram remessas do investidor para si própria disfarçado em empresas off-shore, que todos sabemos serem sim- ples ficções legais.Mas se se considerar, já para 2002, os cômputos consolidados da Secretaria da Re-ceita Federal, nada menos do que US$44,9 bilhões dos investimentos brasileiros noexterior estão em paraísos fiscais.Pelos dados levantados, se poderia considerar que as empresas brasileiras eram,até 2001, grandes investidores internacionais, com empresas multinacionais atuan-do em todo o mundo. Afinal, lembrava André, nenhum país estrangeiro tinha indivi-dualmente US$ 69,6 bilhões investidos no Brasil. É um valor formidável, digno daAlemanha ou da Inglaterra para toda a América Latina.Mas quais são os investimentos brasileiros no exterior? Com algumas exceções degrandes empresas da economia produtiva com operações no exterior, como Voto-rantim, Ambev e Gerdau, os investimentos brasileiros no exterior são basicamente28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 91/127operações financeiras, arquiteturas para beneficio fiscal e para dar roupagem decapital estrangeiro a capital nacional. Grande parte desse investimento volta aoBrasil como empréstimo de um credor estrangeiro a empresas nacionais, distorcen-do notavelmente as estatísticas do setor externo, contra os interesses nacionais.Nos EUA, esse tipo de manobra seria imediatamente coibida. O IRS (Internal Re-venue Service, a Receita local) analisa a lógica contábil-financeira de cada remes-sa, proíbe remessas com sentido exclusivamente fiscal, exige declaração juramen-tada do investidor sobre a real destinação do investimento (Formulário IRS FormW9-Request forTaxpayer Identification and Certification). Se esse formulário nãofor preenchido, haverá taxação na fonte dos resultados produzidos por esse inves-timento, na ordem de 31%.Mas o sentido geral do IRS é de não permitir manobras para fins de disfarce. E essefoi o eixo principal dos investimentos brasileiros no exterior, estimulado principal-mente na gestão Gustavo Franco.Nenhum país, mesmo o que imprime a moeda reserva do mundo, se descuida daexportação de capital. Se não há justificativa econômica para uma operação de ex-portação de capitais, a intenção é de mera lavagem de dinheiro, algo que se tornourotineiro no país pós-Real.A ferramenta jurídica que permitiu esse jogo foram os fundos “offshore”, criadosem paraísos fiscais para acobertar ou operações especializadas ou operações delavagem de dinheiro.O dinheiro de seus controladores passou a ser blindado juridicamente através dacriação de duas figuras: o gestor ("limited partner") e o investidor ("general part-ner").Muitas vezes são colocados testas-de-ferro nas "limited partners", assumindo asresponsabilidades civis e criminais, deixando as empresas livres do controle da SECe de outros organismos de fiscalização. Foi dessa maneira que grandes instituiçõescomo o Citibank conseguiram colocar dinheiro em fundos de investimento em “pri-vate equity” e entregar a gestão a gestores de fachada, e participaram de opera-ções controversas em muitos países emergentes.A salvo das estruturas de fiscalização dos Estados nacionais, quebraram-se as bar-reiras entre as atividades legais e o crime organizado. Foram criados fundos atrásde retornos expressivos, maiores do que os das atividades convencionais, que pas-saram a atuar por meio de empresas de fachada, alguns servindo de biombo para odinheiro do crime organizado, outros para golpes contra as próprias corporações.Donos da liquidez internacional, passaram a conviver no mesmo ambiente os sheiksárabes ainda sentados em petrodólares, a dinastia Bush, as Enron da vida, os em-presários italianos tipo Sergio Cragnotti, os grandes bancos internacionais, dinheirodo narcotráfico, dinheiro da corrupção política, mercado negro da venda de jogado-res, golpes corporativos etc.O Brasil passou a ocupar papel relevante como arena desse tipo de negócio. A pri-vatização sem um ambiente regulado, a facilidade das contas CC5 e CC4, a derra-ma fiscal e o florescimento de atividades clandestinas, culminando com o absurdoda autorização para o funcionamento dos bingos e videopôquer, tudo isso criou ocampo que hoje explode na atual crise política que fere o centro do poder institu-cional brasileiro, com o episódio Waldomiro Diniz.No episódio da CPI dos Precatórios, apesar do boicote dos parlamentares, deu paradesvendar parte do intenso jogo de transferência de fundos comandado por dolei-ros.Na época, havia intenso movimento de contrabandistas em Foz do Iguaçu, movi-mento provocado pela apreciação do câmbio. Sob o argumento de que esse movi-mento poderia influenciar o dólar paralelo, Gustavo Franco autorizou algumas insti-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 92/127tuições a receberem depósitos em dinheiro vivo e remeter para o exterior, entreelas o Banestado e a corretora Araucária.Montou-se, então, um duto de tamanho incalculável para transferência de recursos.A corretora-mãe dos doleiros, na época, era a Split, que operava da seguinte ma-neira, conforme descrevi em coluna da época:1) Por seu laranja, a IBF, a Split mandava reais para a conta de Carmen AlonsoJaviel, na agência do Banco do Brasil em Foz do Iguaçu.Dona Carmen era uma laranja, pessoa que ganhava de US$ 600 a US$ 1.000mensais para emprestar seu nome, CIC e RG para a Split. É de honrada família dedoleiros paraguaios. Entre os cinco irmãos, há dois ou três que passaram do nívelde laranjas para o de doleiros, como Benício Alonso de Godoi.2) D. Carmen retirava os reais e transferia para o Paraguai. Era uma operaçãocomplexa, devido à quantidade de dinheiro envolvido. Segundo a CPI, pelas contasde D. Carmen passaram R$ 123 milhões, transferidos da agência paulista do Beron(o Banco do Estado de Rondônia). Provavelmente, D. Carmen e seus irmãos aluga-vam carros-fortes para levar a carga até o outro lado.3) No Paraguai, o dinheiro era depositado em um banco correspondente -- isto é,autorizado a vender reais para os bancos brasileiros credenciados em Foz do Igua-çu.4) O banco paraguaio depositava os reais, pagava uma parte em dinheiro vivo e aoutra na conta da Split no exterior.5) Agora, entrava-se na peça que faltava: a conta Rolex.Até meados dos anos 90, quase todos os doleiros da América Latina operavam comdois pequenos bancos nos EUA: o Piano Banking (controlado pela Casa Piano, doRio de Janeiro) e o M.T.B. Banking. O Piano quebrou. Sobrou o M.T.B.Para operar o dinheiro, o M.T.B. precisava de uma conta em um banco que tenha acompensação. É o mesmo procedimento das DTVMs (distribuidoras) brasileiras. Au-torizadas a operar pelo Banco Central, elas abrem contas no Banco do Brasil parafazer seu movimento bancário.O M.T.B. abriu sua conta no Chemical Bank de Nova York. E, depois, uma série desubcontas, cada qual de um doleiro da América Latina. A subconta da Split é a Ro-lex.Tendo a conta lá, a Split vendia e comprava seus dólares por meio de procedimen-tos bancários simples. Quando comprava dólares, o vendedor depositava o dinheirona sua conta. Para vender os dólares, transferia para a conta do comprador, atra-vés de três procedimentos usuais: ou por fax, ou por cheque, ou telefonando para oChemical.O Chemical registrava os três procedimentos. Cheques e fax eram arquivados; or-dens verbais gravadas, para que ficassem documentadas, e exigia-se que o clientedissesse a senha.Quando denunciei essa operação, o BC mudou o procedimento. Proibiu o depósitoem dinheiro vivo, mas permitiu a manutenção dos bancos correspondentes. Basta-va, então, qualquer agência bancária enviar recursos para a conta dos correspon-dentes, para se retomar o mesmo curso.Captados os reais por uma conta CC-5, geralmente em nome de uma “off-shore”,por sua vez representada legalmente no País por um “laranja”, compravam-se comos reais na conta os dólares físicos ou cabo. A vantagem do esquema de fronteiraé que tudo se fazia sob a capa do comércio das cidades fronteiriças, cujo movimen-to legitimo é misturado ao financeiro puro vindo do Brasil.As operações de remessa eram geralmente giradas via cabo através de casas espe-cializadas de Nova York. A maior delas era o MTB Bank, anteriormente a casa de28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 93/127câmbio Manfra, Tordella & Brooks, uma organização especializada em operar commoedas e corretoras do Cone Sul da América do Sul.Quando se falavam em contas no Chase como receptora de transferências, na rea-lidade era simples depositário. Essas contas eram manejadas pelo MTB da seguinteforma: a mesa do Brasil ou do Paraguai tinha uma off-shore própria que mantinha aconta-mãe no MTB. Sob esse guarda chuva abriam-se sub-contas para os doleirosvarejistas clientes da mesa grande.Por exemplo, sob a conta Paradise Trade and Finance Co. que representava umagrande mesa de Assunção, existia a sub-conta Siboney, de um doleiro de São Pau-lo que operava com a mesa de Assunção. Com isso as entradas e saídas eram dire-cionada para a conta e a sub-conta com precisão. O dono da conta conhecia o titu-lar da sub-conta e respondia por ele. Para usar a conta-mãe, o titular da sub-contase comprometia a um certo mínimo de negócios com o dono da conta.As quebras nesse mercado ocorrem pelo mecanismo da confiança absoluta que opreside. As remessas são vias transferência de conta a conta e todos os dias asmesas grandes e pequenas correm riscos se a outra ponta não honrar os compro-missos, o que é raro, mas ocorre de quando em quando.Já as grandes quebras são por outro motivo. Como existe um float considerável en-tre a ordem de transferência e a liquidação efetiva, o grande operador tem sempreà mão grandes saldos. A tentação de especular com esses recursos de terceiros le-vava essas casas à operações alavancadas de alto risco no mercado de títulos e-mergentes ou de câmbio futuro e as vezes eles quebram a cara e vão a lona. Foi oque aconteceu com outras grandes casas, ainda maiores do que o MTB, como Deak,Pereira & Co. e Piano Internacional Financial Corp., esta com raízes na tradicionalCasa Piano, de Buenos Aires, que nas décadas de 50 a 70 foi a maior operadora doCone Sul. A quebra da Piano fez investidores brasileiros perderem mais de 100 mi-lhões de dólares.Esse era o circuito de varejo. O circuito master era outro. Uma operação de re-compra de bônus de emissão privada com desconto de 60%, comum no mercado,rendia uma fuga de US$ 30 milhões para uma emissão de US$ 50 milhões. Fazia-seisso sob o olhar complacente do BC que sabia perfeitamente que a emissão de US$50 milhões podia ser liquidada por US$ 20 milhões, já que eram dados de mercado.Mesmo assim, permitia remessa no vencimento do integral dos US$ 50 milhões,bem como dos respectivos juros, legalizando a fuga do deságio, que nem precisavaser lavado.Confira-se, então, que a livre circulação de dólares, mesmo através de mecanismosclandestinos, tornou-se uma opção ideológica, que provocou a desmobilização detodo o sistema de fiscalização do Banco Central.Os integrantes desse mercado não necessitavam de doleiros, de subterfúgios nemdo mercado marginal. Podiam utilizar um JP Morgan ou um Republic para montar aestrutura e operar a movimentação de fundos. Não precisava do Cambio Guarany,arriscado e oneroso.O circuito de doleiros -- que é o usava as CC-5 tipo Banestado --, fazia de tudo comtodos. Existem remessas pequenas, médias e grandes. Existe dinheiro não legal,mas legitimo e também dinheiro de crimes. É claro que o dinheiro da política e dacorrupção utiliza esse circuito, por ser um canal onde não se pedem explicações deorigem.É também um circuito só de transferência, não de administração de recursos.Uma vez fora do País, a moeda conversível é aplicada em outros bancos e países.Os menos sofisticados usam os bancos com vínculos com o Brasil, como o Delta, oPine, o Safra National, o Espírito Santo, todos com grandes operações em Miami.Em Nova York o maior depositário de fundos brasileiros era o Republic NationalBank of New York, controlado por um brasileiro, Edmond Safra e bem longe, em28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 94/127segundo lugar, o Commercial Bank of New York, do filho do banqueiro de São Paulo(hoje ex-banqueiro), Edmundo Safdié. Ambos foram vendidos e seguramente partede seus depósitos migrou para outros bancos, principalmente para o Safra NationalBank of New York, hoje com quase US$ 10 bilhões de depósitos e para o portuguêsBanco Espírito Santo, que tem uma grande operação em Miami.Com o clima anti-terrorismo em todo o mundo, diminuiu consideravelmente o nívelde segurança de dinheiro de origem não legal em todos os grandes países. Os a-cordos de cooperação fiscal e policial têm diminuído a proteção desses recursos. Agrande industria de private banking, que administra a nível mundial US$ 3 trilhõesde dinheiro provindo de fuga de capitais está em processo de grandes mudanças.Os gestores de recursos e a privatizaçãoDepois que o dinheiro chegava ao gestor, entrava-se na segunda parte do circuito:como obter rentabilidade elevada.A sofisticação do mercado financeiro nos anos 80 permitia um estoque inesgotávelde operações de engenharia financeira. Com toda sorte de ativos disponível, sendocolocados no circuito, ampliou-se o grande jogo da “arbitragem”, que consistia emjogar com diferenças de taxas de rentabilidade, com operações cruzadas, permitin-do “arbitrar” ganhos nos diferenciais de rentabilidade.Ainda no governo Collor, percebeu-se que uma das maneiras de ganhar com a pri-vatização estava na definição das moedas a serem utilizadas. Permitiu-se o uso depapéis micados, como papéis da Siderbrás, Títulos da Dívida Agrária, entre outros.Grandes fortunas foram feitas na época, com as instituições que souberam anteci-padamente da decisão e adquiriram os papéis no fundo do poço.Outra das ferramentas utilizadas na privatização foi uma forma torta de calcular opreço das estatais privatizadas, através do método de fluxo de caixa descontado.Por ele, primeiro estimava-se quanto seria o fluxo de caixa da empresa durante de-terminado período – em geral dez anos. Depois, trazia-se a valor presente de acor-do com determinada taxa de desconto. Quanto maior a taxa de desconto, menor ovalor a ser obtido.Por exemplo:Imagine um investimento que rende dividendos de R$ 1.000,00 ao ano.Se a taxa de desconto for de 10% ao ano (ou seja, o quanto o investidor estimaganhar), o valor inicial da aplicação será de R$ 6.145,00. Ou seja, este é o valorque precisa ser investido, para se receber R$ 1.000,00 ao ano, com a taxa de re-torno de 10% ao ano durante dez anos.Se a taxa de retorno aumentar para 15% (isto é, se o investidor insistir em receber15% de rendimentos), o valor inicial da aplicação cairá para R$ 5.019,00O cálculo da TIR em operações de aquisição é mais complexo, porque deve levarem conta também o valor de revenda do ativo no final do prazo. E se a presunção éde uma elevação gradativa dos resultados, também haverá uma valorização grada-tiva do valor de revenda.Mesmo sem levar em conta o valor de revenda, o exemplo mostra como a manipu-lação da taxa de desconto era suficiente para reduzir o valor das empresas. Muitasvezes se consideravam fatores pontuais para desvalorizar os ativos, como ocorreuna privatização da Ultrafértil, ainda no governo Itamar, que se tomou como perma-nente um momento provisório de queda nos preços, por conta de uma super-ofertade produtos russos no mercado mundial.Nas privatizações iniciais, utilizavam-se os seguintes estratagemas para reduzir ovalor das empresas privatizadas:28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 95/127Manipulava-se a TIR. Na privatização da Ultrafértil, por exemplo, utilizou-se umataxa de desconto que levava em conta o risco Brasil no exterior (país em morató-ria), mais um adicional relativo ao setor. Em geral, quanto maior a volatilidade dosetor, maior a taxa de desconto. Não havia razão para utilizar taxas de descontointernacionais porque a empresa gerava cruzados, os participantes do leilão erambrasileiros utilizando para a compra capitais brasileiros.No cálculo do fluxo de caixa, não se consideravam os ganhos que a empresa obte-ria com a mera reestruturação. O preço era fixado levando em conta a situação daempresa do momento, e não seu valor potencial, ou seja, o quanto poderia gerarsem as amarras do setor público.Outra das ferramentas muito utilizadas na privatização brasileira foram os “projectsfinances”, operações estruturadas em que se adquiriam empresas com financia-mento, confiando que a rentabilidade do investimento permitisse bancar o paga-mento O BNDES financiava os compradores. Com o lucro dos negócios, eles paga-vam os financiamentos tomados. Era ótimo para os compradores, péssimo para asempresas, expostas a uma brutal política de distribuição de dividendos (em vez dereaplicação de lucros) para permitir aos controladores pagar pelos financiamentostomados.Mas o país perdeu anos por conta desses interesses. Quebrou-se a petroquímica emdezenas de empresas menores, que levaram anos para se consolidar novamente.Matou-se a possibilidade de uma siderúrgica nacional de dimensão global. Princi-palmente, obteve-se pela privatização muito menos do que se poderia ter obtido seo modelo fosse das empresas públicas com fundos sociais.O pano de fundo do modelo era esse. O grande capital saía e entrava do país atra-vés dos esquemas de doleiros, voltava na forma de fundos, no qual os cotistas nãoeram identificados, e permitia aos gestores o controle de companhias vendidas a-través de modelagens financeiras que exigiam pouquíssimo capital.Por baixo desse jogo de interesses pairava a vã teoria, como se fosse algo neutro,limpo, científico.As instituições da globalizaçãoNão bastava apenas a teoria econômica adequada. A venda de uma ideologia é pro-cesso mais sofisticado, que não prescinde de toda uma organização para a dissemi-nação de conceitos. Obviamente, as bolsas de estudo em universidades americanasmais fechadas com esse pensamento financeiro foram um instrumento relevante deformação de consensos.Mas o grande agente de disseminação dos conceitos foram os grandes bancos deinvestimento, através de seus departamentos econômicos.No Brasil, apenas em meados dos anos 90 as instituições financeiras passaram amontar departamentos econômicos e a distribuir avaliações econômico-políticas vi-sando, de um lado, informar seus clientes mas, acima de tudo, terem influência so-bre os rumos da política econômica.Historicamente, foram dois bancos americanos – o Citibank e o Chase--, ambos fi-lhos do mesmo tronco dos Rockefeller, os primeiros a perceber a importância dedefinir linhas ideológicas de apoio ao mercado, a exemplo dos Rotschild no século10.No pós-guerra, o Citibank já contratara os melhores economistas ortodoxos dosEUA e, através de sua carta econômica, tornara-se um arauto do anti-keynesianismo. Os Boletins de agosto de 1948, outubro de 1949 e dezembro de1949 viraram peças antológicas de ataques ao keynesianismo, muito antes do apa-recimento de Milton Friedmann (André, 562). A velha luta entre o internacionalismo28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 96/127financeiro e as estratégias nacionais começou no dia seguinte ao tratado de BrettonWoods.No começo dos anos 60, o diretor do Boletim Econômico do Citi era Sam Nakaga-ma, aluno de Friedman em Chicago. Depois, saiu do Citi e se ligou à Argus Resear-ch, consultoria econômica que promoveu a conferência de lançamento do moneta-rismo no Hotel Arizona Baltimore, em novembro de 1969 (André, 563).O Boletim chegou a ter 300 mil exemplares. Nos anos 60, sob a presidência de Ge-orges Moore, quando ainda se chamava The First National City Bank of New York,foi o grande patrocinador de Friedman.Seu departamento econômico tinha 80 economistas, dos quais 50 de primeira linha.Vieram dali os ensinamentos para os demais bancos de investimento, não apenasamericanos, mas de todo o mundo.Nas últimas décadas do século 20, o Citi passou a desempenhar a mesma influênciapolítica sobre os países devedores que os Rostchild.Nos anos 80, foi o articulador do Comitê de Credores, que cuidou da dívida externabrasileira. Nos anos 90, tornou-se o principal padrinho do governo Carlos Menen, edo Plano de Conversibilidade de Domingo Cavallo. Sua influência foi grande na re-forma constitucional que permitiu o segundo mandato a Menen –o chamado “Pactode Olivos”. Na época, o apoio que Menen recebeu do presidente do Citi John Reedfoi tão explícito que mereceu uma censura pública do Diretor-Gerente do FMI Mi-chael Camdessus: “Eu nunca usaria os mesmos conceitos de Reed, se eu fosse umgrande banqueiro internacional” (André, 564).O Citi teve papel central não apenas nos empréstimos, mas em todo processo deprivatização da Argentina, usando como moedas créditos desvalorizados, da mesmaforma que as “moedas podres” da privatização brasileira, através da CEI, uma hol-ding com valor de mercado de US$ 1,5 bilhão, tendo como testa-de-ferro o grupoBanco República, de Raul Moneta.No Brasil, no final dos anos 80, o Citi já havia adquirido papéis da Telebrás – a hol-ding estatal do setor de telecomunicações – por menos de um dólar a ação. Seuparceiro nas aventuras brasileiras era o executivo Daniel Dantas que logo depoismontaria o grupo Opportunity, com apoio total do Citibank, e se embrenharia namais nebulosa aventura empresarial do Brasil moderno.Seguindo o modelo Citi, os bancos tornavam-se os maiores empregadores de eco-nomistas da economia. Para integrar seus departamentos econômicos, havia a ne-cessidade do economista se especializar no seu estilo de análise e em sua visão demundo. E fazia-se isso com fé cega e faca amolada, graças aos modelos de partici-pação em resultados, que faziam de cada economista não apenas um funcionários,mas um irmão de fé.O circuito de influência começava em Nova York, com os departamentos econômi-cos desses grandes bancos americanos. Aqui, as novas idéias eram reproduzidas,primeiro, através das filiais dos bancos novaiorquinos, depois dos europeus. Final-mente, através dos bancos nacionais montando seus próprios departamentos eco-nômicos.A partir dos departamentos econômicos, as novas idéias batiam no jornalismo fi-nanceiro, que passava a repetir os mesmos conceitos. Havia uma homogeneidadenotável entre as coberturas financeiras da imprensa americana, brasileira, argenti-na e espanhola no período.As Agências de RiscoUma segunda instituição relevante foram as agências de risco, essas sim atuandocomo “batedoras” no processo de globalização financeira, como agentes coordena-doras de expectativas e do chamado “efeito-manada”.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 97/127A exemplo da financeirização do fim do século 19 e início do século 20, o jogo con-sistia em identificar, em nível global, ativos baratos e ativos caros. Os capitais maisagressivos iam à frente, adquiriam ativos baratos – por tal se entendendo empre-sas, setores ou países --, depois promoviam rodadas para difundir o ativo. A conse-qüência era o chamado “efeito-manada”, uma corrida em direção ao ativo que pro-vocava sua valorização, permitindo ao fundo agressivo vender na alta e pular atrásde outro ativo não valorizado.Especializadas em análises de balanço, em geral essas empresas não tinham famili-aridade com processos econômicos, ainda mais em países emergentes. Pior: parafuncionar como agentes articuladores de expectativas e atender às demandas desua clientela, tinham que padronizar suas análises, em torno de clichês que permi-tissem aos seus assinantes disparar ordens de ompcra ou venda.Principal usuário das análises das agências de risco, o operador de mercado age deforma binária a qualquer informação ou análise: “compro ou vendo”. Os melhorestrabalham com horizontes de três meses; a manada, com horizontes de uma se-mana.A euforia que tomou conta dos mercados internacionais na época não permitia mui-ta sofisticação. Assim, as agências passaram a atuar com manuais únicos para to-dos os países.Uma economia a plena carga tende a exibir déficits externos (devido ao aumentodas importações e redução das exportações). Um ajuste fiscal ajuda a reduzir o ní-vel de atividade, induzindo as contas externas ao equilíbrio. Portanto, ajuste fiscalpode ser virtuoso para economias a plena carga.Já para uma economia em processo recessivo, aumento de impostos significa apro-fundamento de recessão e queda na arrecadação tributária, devido à queda da ati-vidade econômica. Ajuste fiscal em economia recessiva é veneno na veia.Para as agências, bastava um país qualquer promover aumento da carga fiscal, in-dependentemente das suas características, para ser bem avaliado. Era como na pi-ada: Rosenberg, Goldenberg, iceberg, tudo é a mesma coisa e ajudou a afundar oTitanic.A Argentina podia estar se exaurindo em recessão profunda. Bastava o anúncio deum novo pacote fiscal, para as agências acenarem com melhoria do seu “rating”, eos mercados elevarem as cotações dos seu papéis. Por poucos dias, é claro, à espe-ra do próximo pacote. E isso durou até a véspera da explosão do sistema de “cur-rency board” argentino.O uso mecânico do manual dos “déficits gêmeos” se sobrepôs a qualquer veleidadede análises políticas ou econômicas. As contas internas estão equilibradas? Melho-re-se o “rating”, mesmo que as contas externas estejam em pedaços e a situaçãopolítica interna à beira de uma catástrofe.Havia elementos estruturais de mais fácil avaliação. Quando foi aprovada a Lei deResponsabilidade Fiscal (LRF), por exemplo, a Standard & Poors deu perspectivapositiva para o país. Quando se tratava de analisar ou definir políticas sustentáveis,havia a necessidade de um entendimento dos mecanismos macro-econômicos. E,aí, essas agências comportavam-se como manada, cometendo análises no mínimodiscutíveis.Até a crise da Rússia, a dívida pública e a necessidade de financiamento externobrasileiros eram crescentes. No entanto, só depois da eclosão da crise russa as a-gências atentaram para o fato e rebaixaram o “rating” do Brasil.Depois que o Brasil mudou a política cambial em janeiro de 1999 --e não houve ocaos que muitos previam--, um analista arguto já saberia que a conversibilidadeargentina estava com os dias contados (porque sustentada pelo desequilíbrio nocâmbio brasileiro, permitindo o aumento das exportações argentinas). E que o Bra-sil caminhava para uma situação mais confortável no campo fiscal e externo. No28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 98/127entanto, durante muito tempo depois, o risco Argentina permaneceu abaixo do ris-co Brasil.No momento em que até o FMI admitia que a única saída para a Argentina era aflutuação cambial, os analistas da Standard & Poors teimavam que a saída para aArgentina era o equilíbrio fiscal e a dolarização. Bastaria a dolarização para todos osproblemas estarem resolvidos. Essa posição da Standard & Poors foi mantida atéuma semana antes da implosão do “currency board” – a política monetária e cam-bial argentina.Depois dos erros de avaliação em relação à Argentina, David T. Beers, presidenteda Standard & Poor’s para a América Latina, voltou ao Brasil para tentar esclareceros critérios de avaliação da economia pela empresa.Sua preocupação, nas conversas que teve, foi explicar que o papel de uma agênciade risco é analisar a solvência dos países e empresas – não necessariamente o queé melhor ou pior para o país e seu povo.Mas tomemos a explicação de Mr. Beers ao pé da letra. Suponha um investidor derisco. Ele traz seu capital em dólares, aplica por aqui e gera receita em reais. De-pois, tem que converter os reais em dólares para remeter para a matriz.Quando o real se desvaloriza o que ocorre com seus investimentos? Primeiro, reduzo o valor da remessa dos lucros e dividendos, porque terão que ser convertidos porum dólar mais caro. Depois, deprecia todos seus ativos no Brasil, porque tambémserão convertidos em dólares pela paridade do fechamento do balanço.Logo, volatilidade do câmbio é um enorme fator de risco para ele.Agora avalie-se a situação brasileira, à luz das eleições de 2002. De repente, criou-se um clima catastrofista no mercado internacional que levou até ao corte de linhasde financiamento comerciais. Sem oferta de dólar, o câmbio explodiu. O investidordireto teve enormes prejuízos com a desvalorização cambial, e seu risco foi propor-cional à vulnerabilidade externa brasileira. Em cima do risco-Brasil entrou o risco-manada – a possibilidade dos bancos cortarem suas linhas de crédito do Brasil,mesmo aqueles que acreditavam que Lula não iria botar lenha na fogueira, mas pornão saberem se os demais bancos sabiam disso. É risco para iraquiano nenhum co-locar defeito.Se o país fosse menos vulnerável, tivesse menos necessidade de dólares, obvia-mente o efeito-eleições provocaria muito menor volatilidade no câmbio, porque ha-veria fluxo estável garantido de dólares.A desvalorização cambial, ao permitir o aparecimento de um enorme superávit eaumentar a oferta de dólares no país por conta da melhoria das contas externas,melhorou ou piorou a percepção sobre o país por parte do investidor direto? É óbvioque melhorou.No entanto, quando se indagava de Mr. Beers qual a importância que dava à redu-ção da vulnerabilidade externa, que é função da melhoria do superávit comercial edo balanço de pagamentos que é função do dólar, o que ele dizia? Que contas ex-ternas não tem importância, o importante é apenas o superávit fiscal do governo. Enão havia santo que o demovesse dessa posição.Quando se cobrava uma definição dele sobre superávit comercial, limitava-se a di-zer que as economias que se abriram completamente ao fluxo financeiro interna-cional estão crescendo mais que o Brasil. Nem adiantava argumentar que, nelas, aproporção comércio exterior/PIB é muito maior que no Brasil, sujeitando a econo-mia a muito menor volatilidade no câmbio.Naqueles anos de bolhas e esbórnia, as agências de risco eram muito mais propa-gandistas da liberdade de capitais do que analistas de risco. E foram elas os “bate-dores” que saíram na frente indicando ao capital financeiro o risco de empresas epaíses.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 99/127A manipulação das análisesConsultor político de algumas instituições estrangeiras, o cientista político Alexan-dre de Barros admitiu, na época, que já fora vítima da ditadura dos “traders” –oshomens que operam no mercado. Algumas de suas avaliações foram aceitas pelopresidente da instituição, mas que recomendou que não as divulgasse, porque cer-tamente iriam provocar resistências nos seus “traders” --atrapalhando suas posi-ções no mercado.Esse é o dilema que provocava a crise de auto-conhecimento, que vitimava o mun-do todo. O meio acadêmico ainda não havia formulado diagnósticos precisos sobrea crise internacional. O exercício do diagnóstico e do prognóstico ficava, então, nasmãos de analistas ligados aos grandes bancos de negócios, que não eram parteneutra do processo. Suas análises eram utilizadas como argumento de venda deprodutos financeiros, e também como instrumento do jogo de mercado dos seus“traders” – para quem o mundo é uma ilha dividida entre comprados e vendidos.Em março de 2000, trinta dias antes da bolha da Nasdaq, foi divulgado relatório doGoldman Sachs recomendando a compra de ações da Microsoft, às vésperas do jul-gamento da ação de abuso de poder, e com seu valor de mercado batendo em ina-creditáveis US$ 400 bilhões.A análise -completamente estapafúrdia, como se revelaria poucas semanas depois-destinava-se apenas a aquecer o mercado para que investidores pudessem desovarseus papéis da Microsoft sem provocar queda das cotações.Apenas no início de 2001 a imprensa norte-americana abriu os olhos para a irres-ponsabilidade e a manipulação que grassou no mercado, a partir de muitos analis-tas de bancos de investimento.Em janeiro, no artigo ‘Como tantos avaliaram de forma tão equivocada?‘, de autoriade Gretchen Morgenson, o New York Times, começou a botar o dedo em uma feridaque há anos maculava os mercados, penalizando investidores e iludindo a opiniãopública: a manipulação exercida por grande parte desses analistas, que se torna-ram instrumentos ativos de manipulação de mercados em favor de seus emprega-dores.A forma mais evidente de manipulação de mercado é o ‘insider information‘ -a in-formação privilegiada, disponível para apenas parte dos investidores. Tanto aquicomo nos EUA já existe uma legislação clara a respeito.Uma segunda forma de manipulação é a ‘espuma‘ -a divulgação de notícias nãoconfirmadas com o intuito de manter as cotações artificialmente elevadas. Nos Es-tados Unidos essa forma de atuação também é reprimida. O órgão regulador exigea publicação de confirmações ou desmentidos em forma de ‘fato relevante‘. No Bra-sil, tem-se jogado pesadamente na disseminação de ‘espumas‘ com a CVM compor-tando-se passivamente.A terceira forma de manipulação é a mais complicada. É a disseminação de análisesequivocadas, facilitada pela falta de parâmetros para analisar tanto o desempenhode empresas da nova economia como de economias emergentes. Na economia tra-dicional as companhias já têm histórico de desempenho. Assim, os erros de análisesão percebidos na hora. Na nova só se percebem os erros depois de consumados osprejuízos.Há uma maneira óbvia de tratar da questão: quem erra não merece crédito e não émais ouvido. Esse controle de qualidade não existe na mídia brasileira. Os jornaispodem se esmerar em programas de qualidade, mas não existe nenhum ‘rating‘ defontes. A fonte pode dar o palpite que quiser, cometer o erro que cometer, quebrarempresas e pessoas que acreditem nela, porque nada lhes será cobrado.Suas opiniões passaram a ter peso significativo na decisão sobre bilhões e bilhõesde dólares colocados em fundos, sob a guarda de suas instituições.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 100/127É sobre os ombros desse profissional, estressado pela própria pressão do dia-a-dia,sem distanciamento para uma análise mais fria da crise, e sendo responsabilizadospor decisões que poderiam significar prejuízo pesado para seus empregadores, querepousava esse processo maluco de formação de consensos sobre a economiamundial.É só conferir o analista do Deutsche que previu o calote brasileiro, logo após a criseda Rússia. No dia anterior, suas análises sobre a Rússia haviam infringido prejuízosmonumentais ao seu banco. Um sujeito desses, atormentado pelo erro que certa-mente lhe custará a carreira, cometeu análises nas quais a imprensa mundial foi sebasear para formar juízo sobre o Brasil.Era o ambiente ideal para o exercício da unanimidade burra. Ninguém podia ousaruma visão diferenciada, porque idéias precisavam ser estandartizadas para que asavaliações resultassem em decisões de compra e de venda. Para resolver a exposi-ção do Brasil ao risco era necessário obter supéravit fiscal (em ambiente recessivo),aumentar os juros (mesmo inviabilizando a dívida interna), aprovar as reformas,seja lá o que isso significasse.A análise do risco, uma ciência que moveu mundos e produziu o capitalismo mo-derno, entrou em crise. A instabilidade tornou-se tão acentuada, que os profissio-nais do risco passaram a se esconder atrás do manto protetor da unanimidade. Setodos se afogassem, ótimo, porque pelo menos ninguém será individualmente res-ponsabilizado pelos erros coletivos.Criaram-se, então, verdades absolutas que, dia após dia, eram desmentidas pelosfatos, agravando a situação nacional, e não sendo rebatidas, pelo medo de investircontra a unanimidade.A cada ataque especulativo, fugia-se da saída óbvia de propor a redução da exposi-ção da economia ao capital especulativo. Em vez disso, repetia-se à exaustão que asaída consistia em ampliar cada vez mais as vantagens, reduzir cada vez mais aslimitações, aumentar cada vez mais os juros.A tática adotada em outubro do ano passado pelo Banco Central foi um primor des-se exercício da retórica da repetição. Os juros foram jogados nas alturas, o nível de Luis Nassif 18/7/06 23:31reservas foi mantido, mas com capital cada vez mais volátil. Segurou-se por 10 Comment: Quando mesmo?meses a crise, e para que? Para ter-se, dez meses depois, uma economia mais fra-gilizada, uma dívida interna ainda maior, mais inadimplência e recessão. Não seavançou um milímetro sequer na redução das fragilidades macro-econômicas. Cri-ou-se uma tática de curto prazo que, dez meses depois, legou uma economia maisfrágil e endividada.Esse jogo de responder aos clichês do mercado já vinha de 1994. Vinte dias antesda crise do México, os analistas do Morgan Stanley –em seminário no Banco Cen-tral, no Rio de Janeiro—apresentavam o México como o de menor risco na AméricaLatina; e o Brasil como o maior risco. Um mês depois da queda, o México era o paísde maior risco e o Brasil era um risco menor.E porque isso? Simplesmente para não colocar em risco os investimentos que jáhaviam sido feitos pelo banco para constituir uma clientela para papéis mexicanos.O investimento de vendas tem que ser preservado até a véspera do estouro, paraser maximizado.Além disso, as análises serviam de freio para qualquer tentativa de ir contra as li-nhas mestras do que o mercado considerava uma política virtuosa. Quando Lulacomeçou a crescer nas pesquisas eleitorais de 2002, por exemplo, Gustavo Francodeu uma declaração óbvia, porém mesmo assim chocante: “Não tem perigo, porqueo mercado não deixa”. Não que Lula soubesse efetivamente o que fazer.Mas no dia 23 de outubro de 2002, em pleno processo eleitoral, o analista da Salo-mon Smith-Barney (ligada ao Citigroup), José Garcia-Cantera, distribuía um docu-mento para sua clientela sobre os planos do PT, caso Lula fosse eleito.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 101/127Dizia estar de posse de um documento interno do partido, onde não se descartariaa possibilidade de mudar a regulação do setor para forçar os bancos a reduzir seus“spreads”. Recomendava que os bancos não deveriam apostar no médio prazo noBrasil, em função do risco de reestruturação da dívida pública, risco de uma grandeintervenção federal no setor e risco de uma economia estagnada.Por alguns detalhes do documento, percebia-se que Garcia-Cantera se baseara emuma reunião da equipe de Lula com a Febraban (Federação Brasileira Bancos), on-de em nenhum momento essas hipóteses foram aventadas, segundo outros partici-pantes do encontro.O que levaria um analista a conclusões dessa natureza, sem nenhum embasamentona realidade? Pior: baseando-se em uma reunião na qual estava presente o mundobancário brasileiro, sem que nenhum outro bancário tivesse entendido a conversada maneira relatada?A forma de entender esse jogo é recorrer ao “fator Jack Grubman”, o ex-analista detelecomunicações da Salomon Smith Barney, divisão do Citicorp, acusado de termanipulado análises para beneficiar operações do banco.No dia 13 de abril de 2002, sob o título “O terremoto que se avizinha”, antecipeiaqui o que poderia acontecer com o Citibank. “Não se menospreze o trabalho inici-ado por procuradores de Nova York contra bancos de investimentos nova-iorquinos,acusados de manipular o boom ocorrido na Nasdaq. Pode-se estar entrando em pe-ríodo de turbulência maior do que aquele provocado pela revelação das operaçõesda Enron”.Apenas no início de 2001 a imprensa norte-americana abriu os olhos para a irres-ponsabilidade e a manipulação que grassou no mercado, a partir de muitos analis-tas de bancos de investimento.Em janeiro, no artigo ‘Como tantos avaliaram de forma tão equivocada?‘, de autoriade Gretchen Morgenson, o New York Times, começou a botar o dedo em uma feridaque há anos maculava os mercados, penalizando investidores e iludindo a opiniãopública: a manipulação exercida por grande parte desses analistas, que se torna-ram instrumentos ativos de manipulação de mercados em favor de seus emprega-dores.Em março de 2000, trinta dias antes da bolha da Nasdaq, foi divulgado relatório doGoldman Sachs recomendando a compra de ações da Microsoft, às vésperas do jul-gamento da ação de abuso de poder, e com seu valor de mercado batendo em ina-creditáveis US$ 400 bilhões.A análise -completamente estapafúrdia, como se revelaria poucas semanas depois-destinava-se apenas a aquecer o mercado para que investidores pudessem desovarseus papéis da Microsoft sem provocar queda das cotações.Naquela semana, o colunista Ben White, do Washington Post escreveu artigo com otítulo “Crise ética desafia reputação de Weill, o líder do Citi”, publicado na segunda-feira em “O Estado de S.Paulo”.Dizia ele: “Enquanto se esforçava para transformar o Citigroup Inc. na maior e mais lu- crativa empresa de serviços financeiros dos Estados Unidos, Sanford Weill a- judou a criar um tipo de Wall Street no qual os componentes chaves do finan- ciamento moderno trabalhavam juntos, sob o mesmo teto. Agora, o Citicorp e seu líder estão presos na investigação desse novo mundo”. “A questão é se os íntimos relacionamentos entre os analistas de ações e va- lores, os banqueiros de investimento e outros atores financeiros criaram con- flitos que encorajaram companhias a enganar investidores e dar vantagens a grande clientes (...)”28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 102/127Na semana anterior, o Wall Street Journal divulgou e-mails de Grubman dizendo termelhorado a avaliação da ATT para fortalecer a luta de Weill contra John Reed, co-presidente executivo do Citigroup, o grupo resultante da fusão entre a Travelers, deWeill, e o Citicorp.A lição de casa e a taxa de riscoQuanto maior a dificuldade de uma economia, maior a taxa de risco, maior a remu-neração do capital. A estratégia básica desse capital gafanhoto consistia em buscareconomias vulneráveis e tratar de minimizar os riscos através de dois expedientes.O primeiro, era prolongar o máximo possível a agonia do paciente. O segundo,contar com a ajuda da cavalaria americana – o FMI – quando a economia explodis-se.O primeiro expediente era fácil de quantificar.Suponha que a taxa de juros americana estivesse em 4% ao ano; a brasileira em25% ao ano. Ao final de um ano, US$ 1.000,00 aplicado no EUA estariam valendoUS$ 1.040,00; no Brasil (sem correção cambial), em R$ 1.250,00. Nesse quadro, orendimento de um ano no Brasil suportaria um calote de 20%. Ou uma correçãocambial de 20%.Em dois anos com esse diferencial, o investimento no Brasil poderia perder até 44%de seu valor – e ainda assim ficaria similar ao investimento nos EUA. Com quatroanos, o investimento no Brasil já teria permitido recuperar o principal acrescido de9% a mais do que o investimento nos EUA. Ou seja, quanto mais prolongasse a a-gonia, maior a rentabilidade do investimento, e menor o risco do investidor exter-no.Aí, vinha a segunda rede de proteção. Quando o país estava prestes a explodir, a-certava-se um acordo com o FMI. O dinheiro injetado servia para o capital especu-lativo sair do país sem risco.Vamos às contas:Suponha que o investidor tenha R$ 1.000,00 aplicados no Brasil, com o dólar cota-do a R$ 1,00. Na saída, troca esses R$ 1.000,00 por US$ 1.000,00.Quando há o efeito-manada, porém, a saída simultânea de muitos investidorespressiona o dólar. Suponha que o real sofra uma desvalorização de 20% e US$1,00 passe a valer R$ 1,20. Com R$ 1.000,00 o investidor só conseguirá adquirirUS$ 833,33.No momento da corrida, como o que antecedeu a explosão do câmbio em janeirode 1999, todo o dinheiro emprestado pelo FMI foi empregado pelo governo brasilei-ro para assegurar a saída tranqüila dos investidores externos. De outubro de 1998a janeiro de 1999, saíram do país US$ ...... bilhões, a um câmbio de R$ ........, ga-rantido pelo empréstimo do FMI.Depois que esse capital estava a salvo, veio a explosão cambial, o dólar passou avaler R$ ....... Os empréstimos do FMI encareceram na mesma proporção. Mas, aí,a conta já era do governo brasileiro.A retórica dos “juristas”Para dar sustentação máxima ao quadro de instabilidade econômica, o mercado de-senvolveu retóricas, clichês, alguns de fundo esotérico, outros de uma inconsistên-cia tão primária que assustava, mas eram suficientes para provocar o efeito-manada especialmente na mídia.Esses economistas se denominavam de “juristas”, por acreditar na função saneado-ra dos juros, em qualquer circunstância – conforme me disse certa vez Gustavo Lo-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 103/127yolla, ex-presidente do Banco Central. Em geral, eram economistas que achavamque o país inteiro era uma variável onde a única constante é a taxa de juros alta.Daqui a 50 anos, os historiadores se debruçarão sobre essa escola, com a curiosi-dade de antropólogos, e identificarão nela vestígios de uma ciência pré-colombiana,que vicejou tardiamente. Foi uma quase ciência, porque quase conseguiu, a seumodo (e com bastante inovação), atender a dois princípios necessários para qualifi-car um pensamento científico:1) sistematizou um conjunto de fenômenos econômicos que se aplicavam aos seusprincípios (invertendo esse cartesianismo pouco criativo que marcou a ciência oci-dental, de partir dos fenômenos para chegar aos princípios);2) suas experiências e análises produziram um padrão constante de resultados:sempre erram. Sendo constante, o padrão é de grande valia. Basta ouvir suas pre-visões e apostar na previsão oposta, para acertar.Durante certo período, as alegações para manter a política monetária beiravam acaricatura. Suas máximas eram as seguintes:Primeira máxima - "Em qualquer nível de atividade econômica, de inflação e dereservas, os juros sempre estarão defasados em 20%."Segunda máxima - "Se a inflação é baixa, a taxa de juros tem de ser alta paracompensar a desvalorização cambial. Se a desvalorização cambial é baixa, a taxade juros tem de ser alta para compensar a inflação. Se não existe nem inflaçãonem desvalorização cambial, a taxa de juros tem de ser alta por alguma razão quenão me ocorre no momento."Terceira máxima - "Se as reservas cambiais estão baixas, a taxa de juros tem deser alta para que os dólares entrem. Se as reservas cambiais estão elevadas, a ta-xa de juros tem de ser alta para que os dólares não saiam."Quarta máxima - "Se tem corrida contra o real, a taxa de juros tem de ser altapara contê-la. Se não tem corrida contra o real, a taxa tem de ser alta porque émelhor prevenir do que remediar."Quinta máxima - "Os culpados pelos problemas causados por uma política de ta-xas de juros permanentemente altas são os adeptos da fracassomania, que criamexpectativas negativas, alertando para os problemas causados pela política de ta-xas de juros permanentemente altas."Sexta máxima - "Se a política de taxa de juros alta quebrar o país, o problema écom outro departamento. O meu só cuida dos juros."Sétima máxima - "A culpa de uma política econômica que depende de uma metainviável para ser bem-sucedida é da meta inviável, não de quem considerou a metaviável."Oitava máxima - "Política de juros conservadora é aquela que conserva o paísquebrado."Nona máxima - "Todo gasto público não destinado a pagamento de juros é, pordefinição, iníquo."Décima máxima - "Administrador público corajoso é o que tem coragem de cortaro leite das criancinhas para garantir os juros da minha clientela."Décima primeira máxima - "Toda previsão econômica é absolutamente corretaaté nossa próxima retificação semanal."A feijoada financeiraUm capítulo à parte na implantação desse modelo foi a retórica “cabeça-de-planilha”, a maneira como iam sendo construídos argumentos, que se transforma-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 104/127vam em clichês, que eram desmentidos pelos fatos e ressurgiam logo em seguida,em uma repetição infindável, que atropelava a lógica.Desde cedo, o modelo econômico se mostrava inconsistente. Defendia a melhoriados fundamentos da economia através de aumento dos impostos e do corte de gas-tos públicos. Mas todo ganho era insuficiente para compensar o aumento da dívidadevido aos juros.Prometia crescimento, mas exigia juros altos e tributação elevada. Garantia atraçãode investimentos externos, mas só conseguia atrair capital especulativo de curtoprazo, fazendo arbitragem entre juros e câmbio.Como podia um país que seguia rigorosamente a receita do FMI e do mercado con-tinuar com altas taxas de risco, altas taxas de juros, com a desconfiança dos credo-res? A resposta era óbvia: o modelo aumentava a vulnerabilidade da economia àdívida interna e externa, devido à política de câmbio, que provocava déficits nascontas correntes, e de juros, elevados para atrair dólares necessários para fecharas contas.Como a questão virou tabu, teve início uma ginástica mental fantástica que, dia a-pós dia, tinha que encontrar explicações para a ausência de resultados. Criou-seassim um manual de explicações esotéricas que ajudava a fechar as colunas finan-ceirasO dólar subiu porque a Lei de Falências não foi aprovada, ou porque se demoroupara aprovar a reforma da Previdência. Não havia teto para os salários do setor pú-blico. Criaram-se teto e sub-teto, mas isso foi uma derrota do governo, uma con-cessão, por isso o dólar subiu. Se não fosse isso, era o boné do MST que Lula colo-cou na cabeça que explicava a alta do dólar.Ouvir a explicação do analista de mercado sobre as razões imponderáveis dos mo-vimentos diários do dólar tornou-se uma mesmice insuportável, uma repetição deslogans que afrontam a lógica, mas são aceitos pela força da repetição, transfor-mando qualquer economista de planilha em “pensador”.Diversos comentaristas, muitos colunistas financeiros, passaram a fazer uso dosslogans e, a partir daí, a compor raciocínios sem relações causais, um bricabraquea partir de peças sem relações causais, sem entender o modelo complexo de fun-cionamento de uma economia.À medida que o modelo foi se revelando disfuncional, começaram a pipocar pro-blemas em todas as pontas. Nada funcionava, os objetivos de atração de investi-mentos e promoção de desenvolvimento não eram alcançados. Mas se tratava dejustificar cada ponto isoladamente, encontrando uma explicação para cada ponto deseu não funcionamento.Outro sofisma era a comparação entre o custo das diversas crises cambiais. Mos-tram-se dados da crise russa, coreana e argentina e constatam que nosso BC foiextremamente eficiente porque o custo por aqui foi inferior.O México viveu a crise do assassinato de um candidato a presidente da República eo fim de décadas de controle de um partido político sobre o país. A Rússia sofreu odesmonte de um império que existia desde a segunda década do século. A Argenti-na, as loucuras da lei de conversibilidade. Querer atribuir o menor custo da crisebrasileira às virtudes da política monetária é o mesmo que comparar antigripal comantibiótico.O ponto relevante é que, depois da primeira crise cambial, todos esses países alte-raram sua política econômica, deixaram o câmbio em patamar competitivo, passa-ram a gerar superávits comerciais crescentes, aumentaram as reservas cambiais ereduziram a dependência de capital volátil. Não houve mais crises cambiais. En-quanto isto, em quatro anos o Brasil conviveu com duas crises cambiais gravíssi-mas, várias menores e não conseguiu recuperar as condições de crescimento.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 105/127A lição de casa e as expectativas sucessivasEm todo começo de ano, acenava-se com perspectiva de crescimento, desde quecumpridas certas exigências, em geral ligadas ao corte de despesas da Previdência,na área social. Toda a conta baseava-se no conceito do déficit primário (aquele noqual não entram o serviço da dívida e a amortização). Não se tocava na questãodos juros. Apenas nos últimos anos começou a haver um questionamento maiorsobre a taxa de juros, quando os grandes bancos comerciais passaram a constiutuirseus próprios departamentos econômicos e a perceber que a concessão de créditoera a sua vocação, além de ser extremamente rentável, e que poderia ser compro-metida pelo nível da taxa básica de juros.À medida que o ano ia passando, as expectativas de crescimento iram se reduzin-do. No final do ano, se atribuía o não-crescimento ao não cumprimento das liçõesde casa. E se insistia que, se abandonasse a terapia proposta, todo o sacrifício feitoaté ali seria desperdiçado.“Em todo lugar é assim”Rui Barbosa era um mestre na retórica do “em todo lugar é assim”. Não raras ve-zes, se valia desse estratagema para defender uma posição e, logo depois, outraposição completamente oposta.Nos anos do Real, a retórica foi utilizada em muitas ocasiões:1. O câmbio e o mercadoCada vez que se pedia ao BC para evitar volatilidade do dólar ou valorização do re-al, a resposta era que o mercado é quem determina o nível do câmbio, porque “emtodo lugar é assim”.Vamos às análises do professor Yoshiaki Nakano, tomando como base estudos doFMI, feito com números até março de 2001. Segundo esses estudos do FMI, há doisanos o mundo poderia ser dividido em quatro grandes blocos, classificados segundoa intensidade de atuação no câmbio.a - No primeiro bloco, 47 países, praticamente todos desenvolvidos, nos quais aintervenção no mercado de câmbio visava “moderar a taxa de variação e evitar flu-tuações indevidas das moedas locais”. As intervenções são mais amenas apenasporque esses países não sofrem de vulnerabilidade externa, tem sistema financeiroestruturado e grande parte da dívida em moeda nacional.b - Em 33 países, sobretudo os em desenvolvimento, a intervenção detectada eraativa e a flutuação administrada, mas sem regras fixas ou trajetórias pré-definidaspara a taxa de câmbio. São países sem liquidez, com o câmbio exposto a meia dú-zia de operações articuladas. O Brasil entra aqui. Nestes países, ao contrário doprimeiro grupo, o controle de capitais também é arma eficaz contra a volatilidadecambial. O Chile é um caso clássico. No começo da década de 90, 80% dos ingres-sos de recursos no país eram de curto prazo. No final da década, quando a quaren-tena já era prática estabelecida, 80% eram investimentos produtivos.c – No meio do caminho entre a taxa fixa de câmbio e alguma flutuação, o FMI ca-tegorizou os países com “regime intermediário de câmbio”, como o regime de ban-das e reajustes pré-fixados.d – No extremo do controle cambial, estava um pequeno número de países com“currency board” e dolarização, como Bulgária, Estônia, Lituânia, Equador e Argen-tina (na época).2. O pensamento único do Banco Central28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 106/127O Banco Central não poderia pode permitir que integrassem o corpo técnico do CO-POM economistas não comprometidos com as metas inflacionárias, porque em todolugar é assim.No corpo técnico do FED (o Banco Central norte-americano) havia representantesde várias escolas acadêmicas. O charmain Alan Greenspan era da New York Univer-sity. O vice Roger W. Ferguson, Jr. da Harvard University. Edward M. Gramlich, daYale University. Susan Schmidt Bies, da Northwestern University. Mark W. Olson,do Saint Olaf College. Ben S. Bernanke, Ph.D do - Massachusetts Institute of Tech-nology. Donald L. Kohn, da University of Michigan3. Em nenhum lugar do mundo se baixa juros por decretoToda a estrutura de taxas de juros de uma economia de mercado é iniciada pelataxa básica de juros, baixada por decreto pela Autoridade Monetária. Além disso, oBC interfere nas taxas através de compulsório dos bancos, dos limites de alavanca-gem no mercado futuro. O mercado financeiro é basicamente regulado em qualquereconomia moderna.Nos EUA, o FED conseguiu reduzir a taxa básica de juros para 1% ao ano. E todasas demais taxas vieram atrás. E foi um ato de vontade política.4. No Brasil, as taxas de juros são altas devido à incerteza provocada por morató-rias anteriores.Não bate. O investidor não é moralista. A Argentina quebrou. Quando se consumouo calote, e recuperou sua capacidade de pagamento, o investidor voltou. A Rússiaaplicou um calote maior do que o Brasil dos anos 80. Resolveu sua questão de en-dividamento, melhoraram as avaliações das agências de rating.5. A única preocupação do Banco Central deve ser com a inflação.Nos Estados Unidos, desde o início do novo século já havia consenso de que umaatuação estreita, como a que está em vigor no Banco Central Europeu. Hoje, a eco-nomia européia definha porque o BCE está mais preocupado com sua meta de infla-ção do que em promover a recuperação econômica.6. A liberdade de fluxo dos capitais de curto prazo é condição necessária para a en-trada do capital de investimento.Não havia lógica. Se um país depende de capitais de curto prazo, significa que estávulnerável, exposto a crises cambiais ao primeiro sinal de saída desse capital. Ocapital de investimento vem para ficar muitos anos. Se percebe que a economiaestá sujeita aos capitais especulativos, não entra. O capital de investimento entrana forma de dólares, é convertido em reais, fatura em reais e, depois, é novamenteconvertido em dólares para ser remetido na forma de lucros e dividendos. Se o dó-lar se desvaloriza, para efeitos de contabilidade todo o estoque de capital de inves-timento se desvaloriza na mesma proporção. Os luros gerados em reais tambémserão menores, quando calculados em dólares. Portanto, o capital de investimentofoge do capital especulativo.7. O investimento não entra por causa da incerteza jurídica.A própria situação da China, sem nenhuma tradição, sem instituições jurídicas oci-dentais, mostra que o potencial de desenvolvimento é um elemento maior do queas próprias incertezas jurídicas. Mas, por aqui, na impossibilidade de incluir jurosnas suas avaliações, economistas passaram a bater na tal “incerteza jurisdicional” –um palavrão do qual Bacha se jactava de ter criado. A demora em regulamentar asPPPs (Parcerias Público-Privadas) foi outro argumento utilizado para explicar a de-morar na entrada do investimento externo. Multinacionais atuam no setor de bensduráveis, semiduráveis, serviços, transportes e infra-estrutura. Preferem muitomais setores não regulados que os regulados. Se não entrava nem em setores nãoregulados, como justificar o não ingresso pela falta de regulação?28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 107/1278. A violência urbana é que impede uma melhor percepção sobre o país.Naquele que talvez seja a obra-prima do pensamento cabeça-de-planilha, em arti-go no “Valor” o economista Fábio Giambiagi – um notável especialista em destrin-char números --, abordava a questão da “demanda por magia” pela mídia (a mídiaque propõe a mudança do modelo, não a que acreditou que bastava abrir paracrescer), garatindo que “o Brasil não tem um problema de modelo econômico”.Sustentava que “o que o país tem - e isso afeta a percepção da população, especi-almente nos grandes centros urbanos - é um grave problema de falta de seguran-ça”. Algo a ver com a falta de verbas para segurança, assim como para saúde, edu-cação, tecnologia? Claro que não, já que o modelo é virtuoso. “A solução passa poratacar o problema da impunidade e ter um sistema que aumente a probabilidade deo indivíduo: a) ser preso; b) ser condenado a uma pena elevada; e c) ficar de fatona prisão”. Para resolver esse problema provavelmente bastará um aditivo na leiordenando que o criminoso se considere proibido de fugir quando faltar gasolinapara o camburão. Ou que, na falta de recursos para penitenciárias, aceite se hos-pedar na casa do Giambiagi.9. Todo ajuste fiscal com corte de despesas é virtuoso.O então Secretário de Política Econômica Marcos Lisboa dizia que o ajuste fiscal de2003 era virtuoso porque ocorria com corte de despesas, e não aumento de impos-tos. As despesas cortadas foram em educação, saúde, tecnologia, infra-estrutura, ena boca do caixa, através de contingenciamento, desarticulando todo o planeja-mento de gastos do governo. Como são despesas essenciais, além de seu conteúdofundamentalmente anti-social, criam-se passivos nessas áreas que terão que sercobertos com muito mais recursos no futuro e mais atraso no presente.10. Todo país que tem câmbio flexível não enfrentará mais problemas com a vulne-rabilidade externa.A conquista do mercado externo não é ação automática, como uma mesa de câm-bio que troca de posição em segundos. Ganhar mercado demanda tempo, investi-mento, persistência para expulsar concorrentes, para convencer os importadores deque haverá continuidade nas vendas. Quando o real se valoriza a ponto da exporta-ção ficar gravosa (dar prejuízo), parte dos exportadores desiste do mercado exter-no. Se, mais à frente, o câmbio se desvalorizar de novo, o retorno não é automáti-co. Será uma luta nova para recuperar o mercado, só que muito mais difícil, porqueo exportador ficou estigmatizado pela não continuidade das suas vendas e será du-plamente cauteloso, depois de perdido todo o investimento no esforço anterior..O que esse jogo de slogans pretende é que o mercado-fim (a economia real, queexige câmbio favorável e estável) se adapte ao mercado-meio (o financeiro). NosEstados Unidos seria motivo de piadas pretender que o mercado estável, de longoprazo, tenha que se adaptar ao mercado volátil. Mas esse tipo de argumento eraaceito sem nenhum questionamento.O todo pela parteOutra arma retórica era tomar o todo pela parte, ou não relativizar as informaçõesutilizadas no raciocínio. Uma das Atas do Copom justificava a manutenção da taxade juros inalterada porque tinha havido dissídios em que os reajustes se basearamna inflação passada, ou seja, voltou-se com a indexação. Assim, só isso! Bastavaafirmar que houve dissídios indexados para se encontrar a justificativa para a ma-nutenção dos juros.A edição de segunda-feira seguinte da “Folha” dimensionaria de maneira competen-te o tamanho da encrenca. O percentual de reajustes indexados tinha sido baixo e amassa de salários estava caindo. Devidamente dimensionado, o álibi não existia.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 108/127Um dos grandes avanços do pensamento moderno foi a visão multidisciplinar (holís-tica), a integração de vários conhecimentos para uma melhor diagnóstico do pro-blema.Não se trata mais de uma tendência restrita à física (onde começou) ou à medicina(ou tem obtido avanços importantes). Os modernos métodos gerenciais incorporamessa visão, impedindo que uma empresa seja conduzida apenas segundo a ótica dofinanceiro, ou da produção.Sistema que mais influencia a vida dos brasileiros, a política econômica continuasendo conduzida pela ótica dos especialistas, sem a presença de um maestro quepossa compatibilizar as várias visões e estabelecer os objetivos a serem alcança-dos.Prova disso é a dependência da política econômica de dois tipos de especialistas: o“jurista” (defensor da política monetária como centro de toda política econômica) edo “fiscalista” (que considera a arrecadação fiscal como objetivo maior de toda polí-tica tributária).Por influir em todos os aspectos da vida nacional, política monetária deveria ser a-nalisada de uma ótica interdisciplinar, com vários especialistas de diversas áreasanalisando suas consequências sobre a economia como um todo.É significativa desse estilo especialista a entrevista do então diretor do Banco Cen-tral, Francisco Lopes –principal guardião da política monetária--, à repórter SuelyCaldas, no “Estadão”.Lopes dizia que os efeitos dos juros altos não eram tão perniciosos assim porqueestavam fora do torniquete: a) as empresas com acesso a financiamentos do BancoNacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), b) as empresas comacesso a capital externo e c.) as empresas com folga de caixa (que podem aplicarsuas sobras). Nos três casos, grandes empresas ou altamente capitalizadas.Depois, minimizava os efeitos sobre o emprego. Juros altos reduzem a atividadeeconômica, mas o desemprego é fruto da reestruturação da economia, como se re-dução da atividade econômica fosse neutro em relação à geração de empregos.Um dos elementos centrais na competitividade é o crédito. Se a política monetáriabeneficia amplamente a grande empresa (intensiva em capital) em detrimento dapequena (intensiva em emprego) como pretender que ela seja neutra em relaçãoao nível de emprego?28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 109/127Cabeça de planilhaCabeça de planilhaA “herança maldita” de FHC consistiu não apenas na enorme vulnerabilidade exter-na legada, mas na assunção, pelo governo Lula, do que de mais superficial e autis-ta a análise econômica brasileira produziu nas últimas décadas. Manteve-se omesmo pensamento que quebrou o país a partir de 1995, na gestão Gustavo Fran-co, e não logrou reduzir em um centavo de dólar a vulnerabilidade externa na ges-tão Armínio Fraga-Ilan Goldfajn.Como se explica essa marcha continuada da insensatez, essa insistência reiteradano desastre?Tomemos o sistema de “metas inflacionárias”, base teórica desse modelo.Na política econômica, é fundamental a boa sinalização para as expectativas dosagentes econômicos. Quando o BC aumenta ou reduz os juros, quanto mais rápidafor a adesão do agente aos sinais da política monetária, mais eficaz será a política.Aí vem o economista de planilha do BC –o sujeito que monta o “modelito”—, defineum objetivo (a meta de inflação) e correlações entre ele e a taxa de juros básica daeconomia. Não existe ciência nisso, nem perspectiva histórica de estabilidade parapermitir definir o nível ótimo de correlação. Por isso, é um jogo de tentativa-e-erro.Aqui, virou o bezerro sagrado.Definido o modelo, cada departamento econômico de instituição monta a sua plani-lha. E sua competência consiste em acertar os resultados da planilha do BC, para“adivinhar” os próximos passos dos juros.Quando o modelo é colocado em marcha, cria uma corrente de apoio que nada tema ver com sua consistência. Não se trata de analisar se o nível dos juros e câmbioestá correto para o equilíbrio da economia, mas se reflete a planilha do Ilan. Porqueos analistas de mercado ganham dinheiro quando acertam o resultado da planilhado Ilan, e perdem quando erram.Qualquer tentativa de se fugir do modelo, mesmo estando ele flagrantemente erra-do, cria esse coro de unanimidade contra mudanças. Mas o que está em jogo não ése a política é adequada ou não à economia, mas se segue ou não o que foi defini-do na planilha do Ilan. Criado o coro, o próprio BC termina refém da planilha do I-lan. E quem é o Ilan? Um economista de visão ampla, conhecedor dos meandros,das características da economia brasileira, como foram Campos, Bulhões, Simon-sen? Não. O Ilan é um especialista na planilha do Ilan.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 110/127O último vôo da garçaO último vôo da garçaTentou-se montar uma política de financiamento à pesquisa, o superávit primárionão deixou. Quando se tentou revitalizar a marinha mercante, o superávit primárioimpediu. O dinheiro das estradas, o superávit primário consumiu. O crédito interno,o superávit primário absorveu. As despesas com saúde, o superávit primário co-meu.Quando se pensa em qualquer política pró-ativa, Lula se vira para o interlocutor eresmunga: “Mexe com o superávit primário?” Se mexer, não sai.Nas últimas semanas, procurei fazer um pequeno inventário dos avanços que o paísreal conquistou nos últimos anos, apesar do pensamento cabeça-de-planilha.Transformar o potencial em real demanda romper com o nó górdio da dívida.Conforme descrevi na semana passada, há um ponto em comum entre a estagna-ção da Monarquia, a falta de rumo da Velha República e o rentismo da Nova Repú-blica (entendido o período que se prolonga da redemocratização até o final do go-verno Lula). Trata-se do monopólio do crédito.Cria-se o ambiente propício para que grupos internos se associem à banca interna-cional, captem a taxas baratas para aplicar, internamente, a taxas caras. Não setrata do movimento virtuoso de aplicar em atividades produtivas, mas de mera-mente arbitrar taxas.O monopólio do crédito é transferido para a banca internacional. Ganha quem temacesso ao crédito externo; paga a conta quem fica restrito à moeda interna, pelastaxas de juros pagas, pelos impostos cobrados e pelas despesas públicas cortadas.A transferência da riqueza se dá através desse mecanismo perverso de internacio-nalizar as aplicações na dívida pública e rola-la a taxas exorbitantes.Pais desse modelo, os cabeças-de-planilha são tão antigos quanto o diabo. Aliadosdos escravagistas, flanaram pela monarquia impedindo o Barão de Mauá de espa-lhar crédito barato pelo país. Depois transformaram os cafeicultores em rentistas,ensinando Campos Salles a destruir as políticas públicas para preservar os créditosem libra. Quebraram o país do Cruzado, quebraram o país do Real. Mas cumpriramsua missão de enriquecer os rentistas e desmoralizar princípios de trabalho, produ-ção, projeto de país e solidariedade nacional.A vantagem é que esses processos não têm como se perpetuar. Encerram-se em sipróprios, quando a dívida pública assume uma dinâmica própria e se torna não fi-nanciável. Aí se dá a ruptura, que pode ser através de três caminhos: crise social epolítica, super-inflação ou tentativa de saída organizada da armadilha da dívida.Para a última alternativa, passam-se pelas seguintes etapas: 1) Tomada de consci-ência sobre o esgotamento do modelo rentista. 2) Montagem de um projeto alter-nativo que permita unir o país em torno das novas idéias. 3) Articulação de umpacto político capaz de dar sustentabilidade ao novo modelo. 4) Montagem da en-genharia financeira capaz de refinanciar a dívida sem comprometer o desenvolvi-mento. 5) Coragem política para o tiro de largada.No momento, o governo Lula e o país estão começando a sair da primeira etapa.Sobre as demais, falamos outro dia.O fetiche do superávitVamos retomar o tema da ditadura do superávit primário, levantado nas últimascolunas, a partir do noticiário recente dos jornais.Segundo estudos da economista Érica Amorim –mencionados ontem em ó Globo”—apenas a decisão de manter a taxa Selic em 16% ao ano, contra a previsão de che-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 111/127gar em 13% no final do ano, significará R$ 15 bilhões a mais de custo da dívida es-te ano --R$ 3 bi a mais que todo investimento público previsto.O Brasil gastará este ano US$ 9 bilhões com pagamento de frete a companhias es-trangeiras. Exportações não estão sendo concretizadas por falta de navios. A saídaproposta foi a criação de um Fundo de Aval, no valor de R$ 600 milhões. Sendo deaval, provavelmente nem seria utilizado. Mas como haveria um impacto contábilnas contas públicas, não saiu, por veto da Fazenda e do Tesouro. Criam-se passivosreais por conta de uma miragem contábil.Pouco se fala do déficit nominal (que inclui superávit primário menos a conta dejuros), porque aí se exporia o núcleo central do déficit brasileiro: juros elevados. Háduas justificativas para a manutenção das taxas elevadas, ambas sem relação entresi, mas repetidas, em esquema de revezamento, pelos mesmos teóricos.A primeira é que os juros são elevados por conta do tamanho da dívida e do riscoBrasil. Se a dívida interna é financiada em reais, qual a razão para se utilizar comoreferência o risco Brasil, que é parâmetro apenas para a atração de dólares?A segunda é a incrível “teoria da jabuticaba”, segundo a qual, as grandes empresascostumam comparar taxas longas de juros com expectativas de inflação. Se a dife-rença for inferior a 8% ao ano, eles reajustam preços.Teorias são formulações abstratas, hipóteses que necessitam de comprovaçõesempíricas para se comprovar corretas ou não. Não existe comprovação dessa teori-a. Os preços continuam sendo reajustados quando há demanda e contidos quandohá competição. De 1995 para cá todos os soluços inflacionários tiveram por causaprincipal a desvalorização do câmbio.O que se quer é fugir do ponto focal: porque o câmbio se desvaloriza, mesmoquando o país equilibra suas contas externas? Porque se deixou aberta a porteirapara o livre fluxo de capitais, para o ganho fácil da arbitragem, de trazer dinheirobarato e aplicar em taxas elevadas. Se o FED ameaça aumentar os juros dos EUA,os dólares saem do Brasil provocando uma desvalorização cambial. Aí o Copomaumenta os juros para combater os efeitos inflacionários, voltam os dólares e ocâmbio se aprecia de novo, recriando a dependência.Essa lógica do cachorro-comendo-o-próprio-rabo foi dissecada alguns anos atráspelo economista Rubem Almonacid, já falecido. Hoje em dia, o paradoxo de Almo-nacid tornou-se referência. E será alavanca fundamental para se quebrar as últimasbarreiras da irracionalidade, impondo o controle ao capital volátil, e acabando coma internacionalização do financiamento da dívida pública brasileira.O desafio é saber a maneira como será operacionalizado..28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 112/1271 O livro “Os Argentinos”, de Félix Luna2 Beluzzo, CartaCapital 07/12/20053 Magalhães Jr4 “História do Rio de Janeiro”, 4585 Magalhães Jr.6 “História....”7 “História do Rio”, 2018 “História do Rio”, 4599 “História do Rio”, 45910 Raimundo Magalhães Jr11 “A política externa dos Estados Unidos : da primazia ao extremismo”, de CésarGuimarães do Instituto de Estudos Avançados da USP.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 113/127O Novo BrasilO Novo BrasilO nascimento do novo cicloO país já iniciou um novo ciclo de pensamento estratégico. A exemplo das duasprimeiras décadas do século 20, nos últimos vinte anos houve um vácuo no pensa-mento estratégico brasileiro. Está-se agora, naquela fase intermediária, em que onovo está sendo plasmado e o velho ainda não foi enterrado.Nos jornais, ainda há o predomínio dos mesmos cabeças-de-planilha que ocuparamo espaço de formulação econômica nos últimos dez anos. Não têm mais nada a di-zer. O modelo proposto em julho de 1994 –que partia do pressuposto de que a faltade poupança interna seria resolvida com a plena abertura financeira, em detrimentoda busca de saldos comerciais— esgotou-se seis meses depois de adotado. Mas cri-ou interesses, toda essa imensa legião de consultores, tesoureiros, operadores quepassaram a lucrar em cima da mera arbitragem de taxas.Morto, o modelo foi preservado esses anos todos graças a um altíssimo índice deignorância que marcou a discussão pública, fundado em clichês, na recomendaçãomonocórdica de “boas práticas”, no tratamento das conseqüências pela impossibili-dade de admitir os erros de fundo.Com o esgotamento do discurso, os papagaios retornaram para o segundo planos eos autores originais do modelo voltam a ocupar a cena, tentando dar uma sobrevi-da impossível. Não se consegue avançar além de uma sucessão de propostas tópi-cas, sem conseguir uma resposta para a armadilha original do modelo: como resol-ver o nó de uma dívida pública impagável.Enquanto a mídia continua a repetir os clichês, há um movimento nervoso, inces-sante, das melhores cabeças do país trabalhando em vários centros de pensamen-to, concordando nas críticas ao modelo, discutindo saídas para poder convergir naspropostas para o próximo tempo do jogo.Nesse exercício, é importante identificar as diversas camadas de pensamento que,somadas, permitirão entender o todo. Na base de tudo, no plano que leva décadas,às vezes séculos para ser implementado, está o pensamento estratégico. Precisaser suficientemente complexo para entender os diversos ângulos da formação dopaís e do mundo; e suficientemente simples e objetivo para conquistar adesões.Esse tipo de pensamento tem que levar em consideração aspectos econômicos, ge-opolíticos, diplomáticos, antropológicos.Numa segunda camada entra o desafio político, a maneira de juntar forças em tor-no das idéias traçadas, de tal maneira que se consiga romper a inércia secular bra-sileira, na qual a política tem sido a arte de administrar pressões –e quem pressio-na são os poderes existentes, o velho, quase sempre em detrimento do novo, o queainda está por nascer.Finalmente, em um terceiro nível entram os conhecimentos setoriais, a maneira deadaptar a política científico-tecnológica, a regulação micro-econômica, a política in-dustrial e as políticas macro-econômicas.Vamos tentar sintetizar um pouco o conjunto de idéias que estão começando a to-mar corpo para permitir a virada do jogo num ponto qualquer do futuro.O neo-desenvolvimentismo em gestaçãoO novo pensamento estratégico brasileiro em gestação poderia ser chamado deneo-desenvolvimentismo. De certo modo é uma soma dos estudos sobre a integra-ção competitiva, desenvolvidos em meados dos anos 80 no âmbito do BNDES (Ban-co Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social); da visão estratégica da Esco-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 114/127la Superior de Guerra, re-elaborada nos anos 90; e da nova postura do Itamaraty,plasmada a partir da segunda metade dos anos 90 e aprofundada nos últimos 18meses e da visão de mercado consolidada nos anos 90.Na economia, segue o pensamento do alemão Friedrick List e do norte-americanoHamilton que no século 19 estudaram profundamente as raízes do desenvolvimen-to. List cunhou a expressão “chutando a escada”, em que demonstrava que os paí-ses hegemônicos desenvolviam determinadas práticas para conquistar o centro.Depois, “chutavam a escada”, demonizando as mesmas práticas que adotaram paraimpedir que outros países viessem ameaçar sua hegemonia. Isso se dava atravésdo predomínio cultural, da atração de cérebros dos países colonizados e do seuconvencimento sobre as “boas práticas” que deveriam adotar (não é coincidênciaqualquer semelhança com a “lição de casa” ou “em todo lugar é assim”, praticadospor nossos cabeças de planilha).As relações de dominação se estabelecem na relação centro-periferia. E o palco doembate é o controle do comércio. Centro é centro porque está no centro das rela-ções comerciais.Os EUA eram periféricos no século 19. Sua estratégia para enfrentar o predomínioinglês no Atlântico consistia em integrar as rotas continentais dos dois oceanos.Não deu certo a primeira experiência de integração, com navios a vapor. Acertaramcom as ferrovias transcontinentais e entraram no centro das relações comerciais.O neo-desenvolvimentismo em marcha não é a favor do fechamento da economia,é do aumento das exportações. Contra o conceito de globalização (entendido comointegração dos mercados financeiros) contrapõe o da mundialização (a integraçãocomercial e diplomática do país no jogo mundial). Não é a favor do protecionismodos anos 80, nem no neoliberalismo dos anos 90, mas julga que a competição deveser um meio de impedir o acomodamento. E que o Estado tem que ser um agenteativo da promoção das empresas brasileiras.Aposta na criação de grandes empresas nacionais e na integração com a Américado Sul. É contra a especulação financeira, mas não contra os bancos. Acha que éfundamental mecanismos que canalizem para investimentos produtivos a enormeacumulação financeira dos bancos nos últimos dez anos.A era Vargas e a perda de rumoO ciclo em que se encontra o Brasil de hoje guarda enorme semelhança com os a-nos 20 do século passado. Desde o Império o país se dividiu em dois setores: comacesso ao mercado internacional e aqueles ligados ao mercado interno. Os primei-ros sempre ganharam com a arbitragem de taxas: captavam dólares (ou libras) eaplicavam internamente, ou em taxas elevadas ou em ativos baratos. O créditosempre foi elemento essencial nesse jogo imobilizador. A chave do crescimentoconsistia em mudanças que carreassem o capital especulativo para o setor produti-vo.No Império a resistência à democratização do crédito e à redução dos juros vinhados escravagistas que detinham o monopólio do acesso ao mercado financeiro in-ternacional.O café criou uma nova classe com acesso à moeda externa. Muda-se o modelo e,sem projeto de país, faz-se a República e instaura-se a hiperinflação. Os políticos eos rentistas se valem de “financistas” –economistas formados fora do país que ti-nham a “lição de casa”, que consistia meramente em equilibrar o orçamento, nãoimportando de que modo. Não se cortam favores de aliados, mas se corta na saú-de; evita-se mexer nos interesses dos credores externos, porque não interessava ànova classe, mas se corta na educação; não se avança sobre o empreguismo naárea pública, mas se corta em infra-estrutura. E não se cuida de dirigir o lucro doscafeicultores para a atividade produtiva.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 115/127Essa inércia explode nos anos 20 com o movimento tenentista, que precede e en-gendra o nascimento da era Vargas --que vai de 1930, quando Getúlio Vargas tomao poder, até 1980.Ela foi montada sobre um tripé: a industrialização, a urbanização e a integraçãoterritorial. Cada vez que uma dessas pernas estivesse ameaçada, o Estado se fariapresente. Cria-se o código de águas dando poder de regulação ao Estado e ocorre asubstituição de importações. O dinheiro acumulado pelo café deixa de ser rentistapara virar capital industrial. E o país cresce como nunca cresceu.Em 1980 o país dispunha de uma indústria de base e de equipamentos pujante esedenta por projetos, mérito de Geisel. Mas tinha pela frente uma crise externa deproporções gigantescas, culpa de Geisel. E um estado descomunal, obra de Geisel.O grande salto consistiria na privatização organizada e em investimentos em infra-estrutura que consolidariam a indústria. Toda a energia do período foi imobilizadapela crise da dívida, pela agonia do regime militar e pelo despreparo de sucessivosgovernos.O país se industrializou, mas não virou sociedade industrial --aquela na qual todasas pessoas participam do usufruto dos bens da indústria. A cidade tem que ser olocus do trabalho e do bem estar. Se não é, é porque o país não urbanizou. A inte-gração se limitou a aproximação com o sul do continente e a África –muito maispelas vantagens logísticas.Nos anos 80 moldou-se a nova classe que, com o Real, passa a viver da arbitragementre dólar e real –com a mesma resistência a mudança dos escravagistas e cafei-cultores. Segue- o grande vazio similar ao das duas primeiras décadas do século.Agora, retoma-se leito do rio em outras bases.O povo brasileiroMais visionário dos brasileiros do seu tempo, estudioso que primeiro e melhor in-terpretou o enigma brasileiro do século 20, Manuel Bonfim foi o primeiro a destruiras teorias raciais –segundo as quais o Brasil não se completava porque a misturaproduzira uma raça inferior.No clássico “América Latina, Males de Origem”, identifica as grandes forças e pro-cessos que marcariam a glória e a desgraça brasileira no século 20. O maior ativoque o país dispunha era a qualidade do seu povo, concluía ele. A mistura de raçasgerara um povo afável, criativo, que facilmente assimilava os de fora, que amalga-mara um conjunto de características que garantira a integridade do território nacio-nal.Enquanto o povo fizera a Abolição, a elite promovera a Guerra do Paraguai. Os líri-cos cantavam os valores nacionais, a elite saqueava o Tesouro. Bonfim apenas ti-nha dúvidas se era o momento de se escancarar o país à imigração. Queria que aidéia de povo brasileiro estivesse mais consolidada, para o país assimilar os imi-grantes sem o risco de se criar guetos raciais.O povo ainda era melhor do que supunha Bonfim. No decorrer do século 20, levasde imigrantes de todas as raças aportaram ao país e se tornaram brasileiros desdeo embarque. Assimilara, enriqueceram e civilizaram a mistura racial brasileira.Em pleno século 21, na era da globalização, o povo brasileiro emerge como o gran-de ator internacional de que o país dispõe. Analistas internacionais, sociólogos bra-sileiros como Roberto da Matta, aprofundaram estudos sobre essa característica demediação que faz do povo brasileiro único no mundo, sem conflitos raciais, sempreconceitos, sem racismo –apesar da decisão racista de se criar as cotas universi-tárias.Quando completar a internacionalização das economias, o brasileiro será o povomediador por excelência. O que significará isso na prática?28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 116/127No campo diplomático, suas características –de alegria, simplicidade, espontanei-dade—deverão alavancar o mais integrador e democrático estilo diplomático que omundo já presenciou. O jogo de futebol no Haiti é um marco dessa nova etapa,dando cor, vida, visibilidade ao papel de mediação que historicamente o Itamaratydesempenhou no mundo.No campo da diplomacia comercial, as grandes empresas brasileiras deverão se va-ler desses valores culturais, e da enorme variedade de comunidades de imigrantesque vivem no país para abrir mercados e países para seus produtos.Na economia, a palavra de ordem será a cooperação, o grande movimento sinérgi-co entre grandes e pequenos, estado, universidade, entidades empresariais, tercei-ro setor, às vezes caótico, sempre estimulante, inspirado nas grandes festas nacio-nais e nos grandes espetáculos esportivos. Aí se em um dos pilares em torno doqual se irão construir as novas relações sociais e econômicas no país. O povo seráprotagonista principal de qualquer novo projeto nacional que se pretenda legítimo.E não se trata mais da velha retórica para ganhar votos. A promoção do povo é im-perativo de ordem política e econômica.A diplomacia brasileiraO neo-desenvolvimentismo brasileiro tem forte componente diplomático e geopolíti-co. Na verdade, o pensamento estratégico no Brasil vem evoluindo desde o Impé-rio. Na época, a consolidação do país estava centrada no Prata. Até a Revolução de30, na América do Sul.A grande transformação começa a ocorrer agora, com os primeiros ensaios do go-verno Fernando Henrique Cardoso, aprofundados no governo Lula, de uma atuaçãodiplomática centrada no mundo.Para consolidar seu papel de interlocutor global, o grande desafio geopolítico brasi-leiro é a integração da América do Sul, transformando a região em um mega-país,nos moldes da União Européia.Será a maneira de ganhar escala, conseguir unir o Atlântico ao Pacífico e se inserirno comércio internacional com vantagens comparativas consistentes. De certo mo-do, repetindo a saga americana do século 19.As negociações comerciais em torno do Mercosul estarão sempre sujeitas a fricções.A integração física, não.A América do Sul tem sete espaços de tráfego consistente, ambientes capazes degerar negócios e dinamismo:1) O litoral Atlântico,2) O Planalto brasileiro,3) a bacia do Prata,4) a bacia Amazônica,5) o litoral do Pacífico,6) a Cordilheira dos Andes e7) o Orenoco-Caribe. Mas a Amazônia só se transformará em um centro onde searticulam ações de produção se se integrar com seus vizinhos do continente.O desafio estratégico consiste na montagem da estrutura para unir esses espaçospor redes de energia elétrica, logística de acesso e comunicação. 2/3 da América doSul não são dotadas das três coisas. Unido, o continente sul-americano seria auto-suficiente em quase todas as matérias primas essenciais.O movimento de integração começou imperceptivelmente há alguns anos, quandoMinistros do Planejamento do Mercosul começaram a se reunir para pensar na inte-28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 117/127gração física do continente. Depois, a idéia evoluiu quando se percebeu que o BN-DES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) poderia se associarao CAF (Cooperação Andina de Fomento), ganhando escala e capacidade de capta-ção.Está na agenda a reestruturação da ALIDE (Associação Latino-americana das Insti-tuições de Fomento Econômico) para que trabalhem em conjunto, em co-financiamento das obras de infra-estrutura necessárias. Juntará BNDES, BNB, BASAe BDMG, do Brasil, bancos de desenvolvimento da Argentina, Chile, entre outros.O Convênio de Crédito Recíproco (CCR) é visto como a grande ferramenta de inte-gração comercial -- uma espécie de câmara de compensação, permitindo aos paísesda região negociarem com suas próprias moedas. Quando o dólar deixar de arbitraras negociações comerciais, haverá enorme avanço no comércio da América do Sul.Um dos grandes desafios será sustentar o conceito de grande empresa nacional oulatino-americana em um contexto de globalização.O papel da grande empresaVocação de estadista, apaixonado pela América Latina, herdeiro do mais importantesobrenome da história do moderno capitalismo norte-americano, Nelson Rockefellervia apenas uma saída para o continente: criar uma classe média esclarecida. Sem-pre alimentou dúvidas fundadas sobre a capacidade da elite do continente em co-mandar processos de modernização.A industrialização brasileira da era Vargas foi fincada na criação de grandes gruposnacionais orbitando em torno do Estado. Nos anos 80, esses grupos foram benefici-ários e estimuladores do fechamento da economia, que drenou a competitividadebrasileira.Com as possibilidades abertas pela privatização, Fernando Henrique Cardoso reci-clou, e entregou a liderança do processo a uma nova classe, dos rentistas, forma-dos nos anos 80 em cima dos lucros proporcionados pelo mercado financeiro. Eraum pessoal internacionalizado, sem os ranços que caracterizava a velha FIESP dosanos 80. Apoderando-se do poder, foram beneficiários e estimuladores da aberturafinanceira que esmagou a competitividade interna.O novo pacto do desenvolvimento brasileiro não pode se escudar apenas na grandeempresa.Há empresas que surgiram ou cresceram no período, ganhando a vocação da inter-nacionalização. Mas a Ambev foi absorvida pela Interbrew, CSN quase absorvidapela Corus. Dentro de algum tempo, provavelmente a base de operação da Gerdau,da Vale e outras mais será algum país central. Poderão continuar sob controle debrasileiros, mas a lógica será cada vez mais internacional.Uma das maneiras de manter seu caráter nacional será torná-las aliadas e atoresda diplomacia empresarial –a conjugação dos seus interesses com os interesses di-plomáticos e econômicos do país.Mesmo assim, elas não poderão se constituir na âncora do desenvolvimento, comofoi no período anterior, mesmo porque o modelo varguista, se criou grandes gruposnacionais, não logrou criar uma economia intrinsecamente competitiva. Em parteporque o processo foi interrompido, em parte porque o modelo não previa a irradia-ção da modernização para fora das grandes empresas.No novo quadro que se desenha, o papel da grande empresa terá que ser mais am-plo. O país será competitivo dependendo de sua competitividade sistêmica. E eladepende da expansão da educação, gestão e inovação para o conjunto da socieda-de. Quando se analisam os modelos italiano, chinês e coreano, se percebe que oprocesso de desenvolvimento exige que a inovação transborde das universidades e28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 118/127das grandes empresas para pequenas e micro empresas, para arranjos produtivos,para pequenas empresas de base tecnológica.Caberá tanto às grandes empresas nacionais como às filiais de multinacionais se-rem agentes de disseminação de conhecimento para seu universo de fornecedores,no seu entorno, entre sua clientela. E também se constituir em pontas de lança dacolocação da produção da pequena e média empresa no exterior.Mesmo porque, o grande ativo de que dispõe o país para enfrentar a mundializaçãochama-se povo brasileiro.A inovação como paradigmaOs anos 90 consolidaram novos paradigmas na articulação entre universidade, ins-titutos, agências financiadoras e empresas para a busca de inovação. O conceito deinovação ganha força, como complemento indispensável à pesquisa, e define-secom maior clareza o papel de cada agente.À universidade cabe formar quadros e prospectar as chamadas fronteiras do conhe-cimento. Aos institutos, pesquisar. Às empresas, inovar. Às agências de financia-mento, ser as indutoras para o novo modelo.Constata-se, pela primeira vez, que a abundante produção de “papers” por parte depesquisadores brasileiros acabava apropriada por países de cultura mais pragmáti-ca. O pesquisador passa a ser valorizado também por sua capacidade de gerar ino-vação e patente.A partir dos trabalhos pioneiros da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa) deSão Paulo), chega-se ao diagnóstico de que a melhor maneira de criar e disseminara inovação é através da presença dos pesquisadores nas empresas.Começa-se a romper o pesado monopólio das universidades e instituições de pes-quisa sobre os financiamentos públicos para pesquisa e os recursos passam a sermais focados no cliente: as empresas. Criam-se os fundos setoriais e montam-seorganizações incumbidas de promover a difusão do conceito de inovação e o meiocampo entre pesquisador e empresa.Além disso, há o reconhecimento da importância do papel do Estado no financia-mento da inovação, com recursos a fundo perdido, com financiamento e com seupoder de compra.Está-se falando de sementes plantadas nos últimos anos, de diagnósticos duramen-te maturados, em um longo e penoso debate nacional. Entre o diagnóstico e o re-sultado, tem a construção.O novo modelo de ciência e tecnologia, montado no segundo governo FernandoHenrique Cardoso, quase foi destruído na gestão Roberto Amaral. Agora, começa areconstrução. A Lei de Inovação está no Congresso, depois de uma ampla discussãoque permitiu a inclusão de dois conceitos relevantes: o uso do poder de compra doEstado, e o acesso de empresas a bolsas de pesquisa, para a contratação de pes-quisadores.Há uma tecnologia que pode ser produzida de forma descentralizada, como as fer-ramentas de software. Mas há uma tecnologia que demanda investimentos pesa-dos.Para ir à frente, existem dois pilares a serem construídos. O primeiro, a mobilizaçãode recursos públicos para financiamento e investimento. Essa perna está comple-tamente paralisada pela obsessão em manter déficits públicos elevados. Fundos se-toriais estão sendo contingenciados, assim como recursos para infra-estrutura eoutras áreas cruciais.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 119/127O pensamento cabeça-de-planilha está tentando dinamitar essas pontes acabandocom toda a vinculação orçamentária. Não irá conseguir. Mas vem conseguindo háanos interromper todo o fluxo de recursos para áreas fundamentais.O segundo pilar é a existência de empresas brasileiras com fôlego para bancar odesenvolvimento. O país consegue inovar, e bem, em siderurgia, petroquímica, ce-lulose e no agro-negócios. Mas quem vai bancar o desenvolvimento em janelas deoportunidades que se abrem, como os fármacos provenientes da biodiversidadebrasileira, ou a nanotecnologia?Sobre isso iremos falar mais à frente.Pesquisa e desenvolvimentoHoje em dia a área farmacêutica está na fronteira do conhecimento. E, dentro deuma visão estratégica de longo prazo, abre-se enorme janela de oportunidade parao Brasil.Nos anos 90, a indústria farmacêutica mundial investiu na química combinatória(infinitas combinações em cima de uma molécula). Nos últimos dez anos foramgastos US$ 880 milhões para um único produto que deu certo. No ano passado,não se obteve um resultado concreto sequer.Esse método passou a ser questionado em favor da biodiversidade, o tipo de pes-quisa em que a natureza faz a seleção inicial da molécula. E aí entram vantagenscomparativas relevantes do Brasil.Tem-se a biodiversidade brasileira. Na Universidade, existe uma pesquisa feita diu-turnamente em laboratórios de nível internacional. Já existe um Sistema Nacionalde Inovação, um excelente sistema de pós-graduação em quase todas as áreas es-tratégicas.Nos últimos dez anos, só a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado deSão Paulo) investiu R $ 400 milhões, e formou 1.400 doutores nas áreas biomédicae biológica.Existem dois problemas centrais a serem superados. O primeiro, de ordem cultural.Nos países avançados, a geração de conhecimento é universal; a aplicação é nacio-nal. O Brasil ainda não saiu da primeira fase, de sair distribuindo conhecimento co-mo se fosse o primo rico do mundo.Baseada na experiência norte-americana, a Fapesp criou o modelo CEPID (Centrode Pesquisa, Inovação e Difusão), para fazer o meio campo entre o pesquisador e aempresa. Foram analisadas 120 propostas de criação de CPIDS setoriais e aprova-das 20. Cabe a cada CEPID prospectar pesquisas, obter financiamento junto à pró-pria Fapesp, orientar o pesquisador, inclusive no campo jurídico e contratual, colo-ca-lo em contato com empresas interessadas no desenvolvimento.O segundo desafio é como criar a grande empresa nacional nessas áreas de ponta.Recentemente o CAT (Centro de Toxinologia Aplicada), um dos CEPIDs, conseguiujuntar três empresas brasileiras -- Biolab, Biossintética e União Química—no con-sórcio Coinfar. Pelo modelo, as empresas ficam com 40% da titularidade da paten-te, o pesquisador líder com outros 10% e a Fapesp com 50%. Já foram depositadas6 patentes, e mais 3 já inscritas para serem depositadas.Existe o risco de não dar em nada, mas existe a possibilidade de se tornar um pro-duto farmacêutico internacional. A dificuldade é a falta de empresas brasileiras defôlego. O próprio BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)está tentando induzir a uma fusão entre essas empresas para ganhar massa crítica.Mesmo assim, o setor tem poucas empresas, que acabaram se acomodando na rotade menor risco dos genéricos.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 120/127O desafio consiste em juntar elementos, induzir a entrada de novos investidores, eprospectar parceiros internacionais, especialmente empresas de grandes países-baleia, como China, Índia e Rússia ou empresas médias dos países centrais.De qualquer modo, as peças do jogo estão à mão. Só falta começar a jogar.O INPI e as patentesDos anos 60 para cá, o país implementou eficiente política de formação de mestrese doutores. Ë enorme a quantidade de PhDs e de pesquisas produzidas. Falta trans-forma-las em riqueza. Entre a pesquisa e o produto, há um tripé essencial: a pa-tente, a metrologia (definindo normas e padrões) e o financiamento.Montar um modelo azeitado nessa área é ponto essencial para se começar a pensarna inserção do país na tecnologia de ponta.E aí aparecem os gargalos. Comecemos pela patente. O órgão de registros de mar-cas e patentes do país é o INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial). Foicriado em 1970, como autarquia. Hoje é ligado ao MDIC (Ministério de Desenvolvi-mento, Indústria e Comércio).Em 1996 o Brasil aderiu ao acordo internacional de patentes, o TRIPs (Treaty onTrade Related Aspects of Intellectual Property Rights). Em função dele, foi publica-da lei que estabelece que o INPI deveria ter autonomia para contratar e pagar seusfuncionários com recursos da própria autarquia. O superávit primário não deixa.Hoje em dia o pesquisador ou empresa entra com pedido de patente ou registro demarca, paga antecipadamente e tem que esperar até seis a sete anos para obtê-la.Em 1994, o INPI recebia entre 45 e 55 mil pedidos de marca e 10 mil de patentespor ano. Tinha cerca de 80 examinadores de marca e 130 de patentes que não da-vam conta do recado. Em 2000, o número de examinadores de marcas caiu para42, e o número de marcas a serem examinadas explodiu para 110 mil. O númerode examinadores de patentes caiu para 88, o número de pedidos subiu para 23 mil.O USPTO (o INPI dos EUA) tem 11mil funcionários.Desde a sua fundação, em 1970, o INPI realizou apenas três concursos públicos. Osfuncionários contratados saem ou por motivo de morte ou para não morrerem defome. Para um cargo que exige, no mínimo, mestrado, o salário é de R$ 2 mil. Nofinal de 2003, o INPI fechou três delegacias regionais, de Santa Catarina, Bahia ePernambuco. Restaram apenas 6.Ao assumir o cargo, o Ministro Luiz Furlan autorizou o órgão a contratar mais 108novos servidores, dos quais 32 examinadores de patentes e 16 de marcas. E con-cordou com a contratação de mais 450 servidores nos próximos 2 anos. Tambémestá sendo fechado acordo com o Escritório Europeu de Patentes, para acessar seusistema de busca de patentes, um banco de dados com mais de 100 milhões de do-cumentos.Mas é pouco. Recentemente foi indicado para o cargo o diplomata Roberto Jaguari-be, conceituado, é fato, mas dividindo as atribuições com as de Secretaria de Tec-nologia Industrial do MDIC.O INPI exige dedicação integral, valorização do corpo de funcionários, garantia decontinuidade administrativa. Nos primeiros 14 anos de vida, o INPI teve 4 presiden-tes. Nos últimos 20 anos, teve 14 presidentes.Além da agilidade maior interna, há outros desafios fundamentais para a produçãode tecnologia. Um deles, o custo da patente internacional, que pode chegar a US$100 mil. O outro, a falta de empresas brasileiras que possam bancar o desenvolvi-mento de produtos de ponta. Sobre isso, falo amanhã.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 121/127O ativo social do SUSA nova visão de país que se pretende, cuja construção se iniciará nos próximos a-nos para vigorar pelo próximo século, pressupõe o exercício permanente da solida-riedade. Há consenso, à direita e à esquerda, que a inclusão social permite não a-penas criar uma sociedade mais justa, como incrementar o capital social e, com e-feito dinamizador sobre outros setores da sociedade.E, aí, o grande ativo de que o país dispõe é o Sistema Único de Saúde (SUS), au-têntica obra coletiva, que surgiu dos estudos de sanitaristas nos anos 60.Desde 1990 o SUS vem sendo socialmente construído em um movimento incremen-tal lento. Primeiro, começou-se a transferir recursos para estados e municípios. De-pois, se criaram as condições para uma gestão tripartite, de municípios, estados eUnião. Com o fim do INAMPS, consolidou-se o federalismo, através da instituição da“gestão plena”, dando aos municípios habilitados a condição de gerirem suas ver-bas, sob supervisão do Ministério da Saúde.No entanto, a crise fiscal do Estado acabou gerando dois SUS, como lembra o mé-dico mineiro Eugênio Villaça Mendes, principal especialista do setor. O constitucio-nal propõe a universalização do sistema. O real subdividiu o sistema em três: o pú-blico, destinado a 140 milhões de brasileiros, o Sistema de Atenção Médica Suple-mentar, de planos de saúde, destinado a 38 milhões de brasileiros, e o Sistema deDesembolso Direto, ao qual recorrem os brasileiros, ricos e pobres, para a compradireta de serviços.Ao se segregar os pobres no SUS, colocou-se o modelo em xeque. Com a desorga-nização social e baixa vocalização política de seus usuários, o sistema público ten-de, sempre, a ser sub-financiado e a ofertar serviços de menor qualidade.O gasto sanitário total per capita do Brasil, em 2001, foi de US$ 222, contra US$603 do Uruguai e US$ 679 da Argentina. Em 2001, o gasto sanitário público doBrasil em relação ao gasto sanitário total foi de 41,6%. As evidências internacionaismostram que, nos sistemas públicos universais, essa relação deve ser superior a70%., diz Villaça.É pouco dinheiro e mal gasto. Se bem gasto, continuaria pouco. Em vez de se de-fender dinheiro bem gasto e suficiente, propõe-se a eficiência como álibi para redu-zir recursos.Três movimentos conspiram para destruir o SUS. O primeiro, foi ter jogado nascostas das seguradoras atender inclusive a população de baixa renda. Segregou-seo cliente do SUS, desviou-se o foco das críticas e jogou-se o modelo da universali-zação no limbo. Há uma (justa) chiadeira nacional contra reajustes de seguradoras,mas quase nenhuma reação em relação ao desmonte do SUS.Agora, se cria a Farmácia Popular, que rompe com um dos principais paradigmas doSUS –a oferta remédio gratuito à população atendida. Finalmente, há as tentativasde desvinculação orçamentária, que terminariam por destruir o modelo de rede so-cial, dentro do álibi da “focalização”.O SUS é fundamental para o desenho do novo país. Mas sua manutenção passa pe-lo modelo monetário e fiscal. E aí se começa a entrar no fulcro da questão, temadas próximas colunas.O novo planejamentoÉ interessante acompanhar os primeiros ensaios no Núcleo de Assuntos Estratégi-cos da Presidência da República, especialmente a metodologia de planejamentoque está sendo desenvolvida pelo coronel Oliva e que consta do documento “A Me-todologia da Gestão Estratégica do NAE”.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 122/127Antes dele, recorreu-se ao setor privado, à indefectível Booz Allen --que já haviaregistrado rotundo fracasso quando contratada para tocar parte do projeto "Brasilem Ação", no primeiro governo FHC, e a reorganização do Departamento de Pro-moção Comercial do Itamaraty. O conhecimento interno no país, na atualidade, es-tá muito à frente desse tipo de consultoria fast-food, que se limita a trazer manuaisdesenvolvidos para situações e circunstâncias diferentes, sem capacidade de adap-tá-los a novas situações. Vendem (e caro) grife, não resultados.A metodologia desenvolvida pelo coronel Oswaldo Oliva Neto, está em linha comtentativas de ponta desenvolvidas em poucas empresas mundiais: a substituição doplanejamento estático, que trabalha com a visão de “projeto” e de orçamento commetas rígidas, pela noção de processo. No modelo estático, não são levados emconta a instabilidade do ambiente e o dinamismo da construção do futuro.O caminho consiste em substituir o conceito de projeto pelo de processo, e o deplanejamento pelo de gestão. A partir daí, emergem novos valores: a visão global;a pró-atividade e o foco participativo; o incentivo à criatividade; o permanente con-trole do processo; o foco organizacional; a ênfase em alianças; a responsabilidadesocial; e a aprendizagem contínua.Dados esses fundamentos, está se desenhando a nova metodologia, que consisteem:identificação da realidade presente;conhecimento dos fatores históricos (ações e agentes), com a finalidade de se com-preender a dinâmica do passado, que conduziu a sua conformação na atualidade;antevisão dos possíveis cenários futuros e suas implicações na definição e conquistados objetivos estratégicos identificados;elaboração de todas as soluções estratégicas possíveis de conquistar os objetivosidentificados nos cenários prospectivos;utilização dos fundamentos da estratégia para selecionar a solução estratégica maisadequada para a conquista destes objetivos;construção das “curvas de futuro” que apontam todos os parâmetros necessários àconquista dos objetivos estratégicos;permanente interação corretiva entre o plano teórico e a realidade, para adaptar aconstrução das curvas de futuro à realidade, sem perder o foco no objetivo;aplicação do poder disponível (vontade e meios), no local, na forma e no momentocerto, para contribuir, no presente, com a construção do futuro e garantir a con-quista dos objetivos estratégicos pretendidos.Por enquanto o NAE é um ensaio, que poderá ou não trazer resultados se conseguirfugir da sina de dispersão que tem caracterizado as tentativas de implantação deferramentas de gestão do atual governo. Mas os conceitos em jogo merecem seranalisados.A integração continentalPrincipal responsável pela Agenda de Desenvolvimento da União Européia, a portu-guesa Maria João apresentou uma síntese brilhante de sua estratégia na reunião deontem do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES)O primeiro passo consiste em superar as dicotomias que costumam aprisionar asdiscussões nacionais. Como a dicotomia entre econômico e social, entre produtivi-dade e emprego, entre política macroeconômica e desenvolvimento, entre fecha-mento e globalização.A implantação da Agenda européia passou por cinco fases:28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 123/127Momento 1: definição da estratégia, o big bang, que significa harmonizar o conhe-cimento existente, identificar os atores relevantes que tenham algo a dizer e expe-riência a transmitir.A questão chave é definir apenas um objetivo estratégico, para evitar dispersão.No caso da Agenda da Lisboa, o objetivo definido foi o de criar uma trajetória dedesenvolvimento sustentável, criando mais e melhores empregos, reduzindo a de-sigualdade social com base em uma economia competitiva fundada na geração doconhecimento.Para se atingir o objetivo proposto, definiu-se uma lista restrita de prioridades. Temque ser quatro, cinco prioridades no máximo, ensina Maria João.Foco no emprego. Mais e melhores empregos, explorando novas áreas de criaçãode emprego com criatividade e inovação.Novas políticas de inclusão social, mais voltadas para equipar pessoas para setornarem ativas e de promoverem socialmente do que seguindo a lógica compensa-tória.Construção de novos fatores competitivos, mais baseados na qualidade, nainovação, através de um sistema nacional de inovação.Definição de uma política macroeconômica que possibilite melhor articulaçãocom crescimento na base de uma reforma do sistema financeiro.Repensar a política de inclusão competitiva na economia internacional.Momento 2 -- consagração pública da estratégia. Os governos nacionais precisamapresentar o máximo de capacidade política e de mobilização da sociedade civil.Momento 3 – transformação dos princípios em agenda, através do desdobramentoem planos para políticas setoriais. No caso do pacto europeu, foram definidas políti-cas para onze setores, desde política de emprego, reforma da Previdência Social,tecnologia etc..Simultaneamente foram identificadas medidas concretas e indicadores de acompa-nhamento, como indicadores de progressão do desenvolvimento: de emprego, dequalificação, de nível de proteção social, de redução da pobreza etc.Momento 4: a implementação da política. A grande preocupação é a adaptação dapolítica a cada região e local, com envolvimento dos atores mais relevantes.Há uma especial atenção para o desenvolvimento regional, sem a visão compensa-tória. Cada região tem que traduzir para ela a estratégia que o país adotou para si.Momento 5: o monitoramento, verificar constantemente o que está acontecendo,corrigindo a trajetória, aprendendo uns com os outros, de forma que os casos desucesso se difundam rapidamente.O papel de um organismo tipo CDES seria a capacidade de sentir a pulsação da so-ciedade civil, ajudando na implementação da estratégia de forma adaptada a cadaregião.O interesse nacionalNas próximas semanas haverá um encontro em Brasília de estudantes de RelaçõesInternacionais. Nele, cada faculdade representará um país, entenderá quais seusinteresses e os defenderá em um fórum de negociações. Utilizarão as táticas queelas utilizam, montarão acordos das quais eles se valem.Chamo a atenção para esse evento porque representa a consolidação de um conhe-cimento fundamental: o de que as grandes potências são grandes porque aprende-ram desde crianças a incluir a defesa dos interesses nacionais em todos seus atosexternos e internos --que pode ser uma norma de comércio da Organização Mundial28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 124/127do Comércio (OMC) ou uma recomendação do FMI. Algumas são boas, algumas sãoruins, nenhuma é desinteressada.Pode ser uma estratégia positiva, de criar mercados de consumo nos países emer-gentes, consolidar a democracia, criar ambientes econômicos modernos. Pode seruma agenda negativa, de impedir o desenvolvimento de tecnologias concorrentes,atrapalhar o desenvolvimento bélico; impedir alianças comerciais que fortaleça aautonomia dos emergentes.O grande problema tanto do nacionalismo quanto do internacionalismo dos anos 50era a indiferenciação de atores e ações. Colocavam-se no mesmo balaio as iniciati-vas de Nelson Rockefeller de introduzir a pesquisa agrícola em países tropicais e asconspirações de Lincoln Gordon em 1964.Ambas as posições --dos nacionalistas e internacionalistas-- refletiam a baixa auto-estima nacional, a falta de informação e, por conseqüência, de fé na própria capa-cidade do país de identificar oportunidades e armadilhas, para lograr negociaçõessoberanas.Nos anos 90, era sinal de "modernidade" repetir clichês como "fazer a lição de ca-sa", defender que cortar verbas de saúde e educação são pré-condição para o cres-cimento, e supor que a internacionalização da economia significaria o fim do concei-to de interesse nacional –uma visão tão enganadora quanto a de supor que faz par-te das virtudes de Estado massacrar pobres e excluídos para reservar recursos paraa banca.A idéia da disfuncionalidade Estado-nação está desmoralizada. Dois domingos a-trás, o próprio Francis Fukuayama, o grande ideólogo da teoria do "fim da história",no artigo em que discute o livro "Multidão" de Negri/Hardt (caderno "Mais"), diz que"a falta de poder e a pobreza no mundo atual não se devem ao excesso de poderdos Estados-nação, mas à sua fraqueza. A solução não é minar a soberania, masconstruir Estados mais fortes no mundo em desenvolvimento".Para que esse Estado cumpra suas funções, no entanto, são fundamentais os prin-cípios da profissionalização e da impessoalidade na definição das políticas públicas.Este será um dos grandes desafios dos novos tempos que virão. Agora é bobagemse espelhar no passado para decretar a impossibilidade de um modelo eficiente deintervenção. Hoje em dia, existe um grau de consciência inédita no país.O papel do Estado nacionalEm plena era da globalização, há espaço para o Estado nacional? Em havendo,quais seriam seus limites e potencialidades? Todo grande país conta com um Esta-do forte e atuante. Por isso mesmo é “ciência” cabeça de planilha decretar que,como a intervenção do Estado foi abusiva nos anos 80, toda forma de intervençãodo Estado será sempre abusiva. Que mané determinista é este?Um Estado nacional, e conceitos como o neonacionalismo são relevantes porque asoma da lógica das empresas predominantes, em um determinado momento dahistória, não corresponde necessariamente à lógica de futuro de país. O Brasil de2020 só será bem sucedido se abrir espaço para um conjunto de atores que hojeem dia ou são insignificantes politicamente, ou sequer existem. Quem vai defendê-los?Além disso, nenhuma empresa, por mais poderosa que seja, tem fôlego suficientepara montar formas de auto-defesa contra outros países e/ou empresas estrangei-ras. Quando o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)atuou de forma pró-ativa para impedir a entrada da Bombardier no país, e criou ascondições para a Embraer voar, era o Estado nacional atuando em defesa do que seconsiderou interesse nacional. Foi um esboço da nova forma de atuação do estado.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 125/127Esses conceitos estão magistralmente descritos na obra do autor alemão FriedrichList (1789-1846), “Sistema Nacional de Economia Política” (Coleção Os Pensadoresda Abril Cultural, edição de 1983).List historia o processo de desenvolvimento e decadência de diversas economias.Na década de 1830 já previa que os EUA iriam se tornar a maior potência do mun-do e ironizava a visão de Adam Smith que, algumas décadas antes, baseado na te-oria das vantagens comparativas, garantia que a vocação dos EUA era iminente-mente agrícola.Anotava que a costa Atlântica tinha se tornado centro manufatureiro. A expansãoagrícola se dava em direção ao interior do país. Sem a proteção aos centros manu-fatureiros, teria ocorrido uma dispersão, uma migração de pessoas e talentos parao centro e para a costa do Pacífico, demolindo o potencial de crescimento. Se a in-dústria manufatureira era nascente, como conseguiu impor seus interesses? Por-que, acima deles, pairava o interesse nacional exercido pelo Estado soberano.O livro de List é fantástico pela capacidade de observação da realidade e por definirclaramente os limites da proteção e da atuação do Estado. Há o momento da prote-ção e o momento da competição. Em casos analisados –como Veneza--, o que des-truiu a economia foi excesso de proteção. Em outros –como em Portugal--, o des-regramento moral com o ganho fácil. Em outros, a abertura comercial indiscrimina-da.Em todos os casos bem sucedidos, o nacionalismo foi ferramenta de coesão, permi-tindo consolidar princípios éticos, liberdade de manifestação e de iniciativa, ética dotrabalho e da inovação como valores centrais, e como moderadores de excessosque pudessem vir a ser cometidos pela ação do Estado nacional.Mas a quem caberá definir os pontos centrais de uma ação de Estado? Voltamoscom o tema em outra coluna.O vôo do falcãoDaqui a algum tempo a opinião pública olhará para trás e se surpreenderá como foipossível uma sobrevida tão longa a um amontoado de clichês tão rasos desses anos90, a história da “lição de casa”, do superávit primário como fim em si, esse mo-dernoso tão velho e primário quanto a usura. Mas o jogo é esse. O amadurecimentode um país não se dá de forma linear, mas aos trancos e barrancos.O golpe final simbólico foi dado pela entrevista de Fernando Henrique Cardoso ao“Primeira Leitura” admitindo publicamente o que ele não podia admitir por contin-gência do cargo e da sua responsabilidade sobre a situação: o modelo é insustentá-vel, pela progressão da dívida e pela impossibilidade de crescer. Dado o tiro de lar-gada, o processo de reavaliação do modelo será acelerado. Mas é importante nãose repetir simplificações de outros tempos.Em meio à aridez intelectual da discussão pública dos anos 90, como flores no de-serto consolidaram-se novos princípios e paradigmas relevantes, provenientes doscentros mais diversos de pensamento. A cada novo dia, mais claro ficará que aconstrução do país dependerá de educação, saúde, inclusão social, inovação, ges-tão, competitividade.O pessoal da tecnologia desenvolveu conceitos sobre o papel da inovação, o pessoalda qualidade sobre o papel da gestão; as áreas militar e diplomática dinamizaram avisão da geopolítica territorial; a diplomacia avançou no conhecimento dos proces-sos de negociação comercial; economistas mais sofisticados desnudaram as incon-seqüências do atual modelo; a inserção competitiva no mercado internacional tor-nou-se valor maior, assim como conceitos como responsabilidade social.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 126/127Não são idéias do grupo A ou B, mas ativos intelectuais nacionais, consolidados emdez a quinze anos de discussões, avanços e frustrações, em meio ao festival de ir-relevâncias monofásicas que predominou no período.Há que se discutir, discutir como nunca, para que as diferenças sejam aplainadas,as análises complexas se imponham sobre o pensamento monofásico, e dessa dis-cussão saia um país mais justo, forte e promissor.Fala-se na criação de um Instituto Celso Furtado, mantido por governos da Américado Sul, para retomar as discussões sobre desenvolvimentismo. Do lado não ortodo-xo, há novos centros de discussão econômica sendo montados –como a Escola deEconomia da FGV-SP--, centros tradicionais sendo revitalizados –como a Unicamp ea UFRJ. Do lado ortodoxo, a velha FGV está renascendo em instituições como o IB-MEC. Sem o predomínio de seus talibãs, a PUC Rio tem pensadores sofisticados. Ehá tentativas independentes de ampliar o escopo da discussão.Idéias mágicas e salvadoras continuarão a ser utilizadas por vendedores de Bíblia.Mas o país não comporta mais vôos de galinha nem de garças. O país tem que ini-ciar o seu vôo do falcão. Se não for com Lula, será com o próximo presidente. Masé inevitável nossa vocação para ser uma grande nação.É a política, estúpidoFicou famosa a frase do assessor de Bill Clinton sobre a campanha eleitoral norte-americana, alertando para o tema que no final prevalece. Vale o inverso para amudança do modelo econômico e para o novo salto que o país experimentará naspróximas décadas: é a política, estúpido! Sem consenso nacional, batalhado nocampo das idéias e dos conceitos, sem a adesão dos diversos setores que compõema sociedade, não se avançará mais do que guerras retóricas.Não se está mais no país dos tenentes nem dos generais. Tão pouco no país do po-pulismo ou de outros momentos da história nos quais um grupo detinha uma idéiae a transformava em bandeira salvadora.Nas últimas semanas, procurei traçar um quadro das potencialidades que o país a-cumulou nessas décadas perdidas, como idéias inovadoras avançaram em váriasfrentes, a maneira como o país se sofisticou. Falta agora a arrumação política, queé o ponto crucial.Os diversos centros de pensamento inovador pouco conversam entre si. Grandescorporações, elite acadêmica, APLs, economistas desenvolvimentistas, diplomacia,área militar etc. O estalo de Vieira que precipitará o processo de crescimento se da-rá no momento em que todos se olharem e se verem partes de um mesmo corpo,somando e trocando competências -- aprimoramento da gestão, busca da inovação,investimento em educação e saúde, ousadia diplomática, integração física do conti-nente, parceria com as subsidiárias de multinacionais.É dessa visão integral de país que emerge o sentimento de nacionalidade capaz deempurrá-lo em direção ao futuro, com todas as peças funcionando simultaneamen-te.É por isso que o conceito de pacto faz todo o sentido. E pacto implica relações pré-vias civilizadas no campo político. Há valores que não podem ser desrespeitados,menos ainda pelos que são poder, como a impessoalidade no trato da coisa pública,o respeito aos direitos individuais, à liberdade de imprensa.E há que se cuidar da retórica. Na política, valem os atos e valem as declarações. Aguerra das idéias se dá em um círculo restrito de pessoas. Quando as velhas idéiassão superadas, gradativamente as novas idéias começam a conquistar círculos mai-ores até se chegar ao último estágio –o dos cultivadores de clichês. Hoje os chama-dos “desenvolvimentistas” no governo são muito mais atacados pelo desperdício daretórica do que pelas idéias.28/8/2006 21:08:09
  • OS CABEÇAS DE PLANILHA 127/127Como toda guerra de idéias, as vitoriosas se impõem sobre as moribundas, o queestimula o espírito aguerrido que povoa as grandes discussões públicas. Mas se seperder de vista a idéia do pacto, se se permitir que os embates eleitorais criem umracha, se se passar a sensação de que idéias serão colocadas a serviço de interes-ses partidários ou conspiratórios, será mais uma oportunidade perdida e a reediçãodas polarizações políticas do passado.O país já tem as condições para a virada. Mas só conseguirá desatar esse nó górdioo governante que conseguir pairar acima das paixões partidárias.28/8/2006 21:08:09