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Estratégias para motivar os alunos

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  • 1. Estratégias para motivar os alunos 21 Estratégias para motivar os alunos Strategies to motivate students SAUL NEVES DE JESUS* RESUMO – Neste artigo sintetizamos as principais implicações práticas decorrentes de algumas investigações anteriores que desenvolvemos sobre estratégias que os professores podem utilizar no sentido de uma maior motivação dos alunos para a aprendizagem e para apresentarem comportamentos mais adequados na sala de aula. Descritores – Motivação; aprendizagem; disciplina; alunos ABSTRACT – In this paper are pointed out the main practical implications from some previous researches about student motivation to learn and to more appropriate behaviours in the classroom. Key words – Motivation; learning; discipline; students. Este artigo foi escrito com um objectivo prático de com a apresentação de alguns aspectos de três filmes queexplicitar estratégias concretas que possam ser utilizadas ilustram várias das estratégias que explicitamos.na prática pedagógica, ajudando os professores a en- Retomamos desta forma a dimensão mais prática decontrar soluções para as situações de falta de motivação trabalhos anteriores em que procurámos estudar estedos seus alunos, as quais são cada vez mais frequentes e tema da motivação dos alunos, em particular nos livroscom implicações por vezes graves, sobretudo ao nível “Influência do Professor sobre os Alunos” (JESUS,dos comportamentos de indisciplina na sala de aula. 1996), “Bem-Estar dos Professores” (JESUS, 1998), No entanto, convém salientar que as estratégias “Motivação e formação de professores” (JESUS, 2000)práticas aqui propostas não surgiram por acaso, sendo o e “Psicologia da Educação” (JESUS, 2004).resultado de trabalhos de reflexão teórica e de inves-tigação empírica anteriores, os quais nos permitiram 1 ESTRATÉGIAS PARA MOTIVAR OS ALUNOS PARAformular um Modelo Integrativo da Motivação Humana AS APRENDIZAGENS ESCOLARES(JESUS, 1996a; JESUS e LENS, 2005), com base emdiversas teorias cognitivistas da motivação, nomea- O professor na sala de aula é um líder, pois procuradamente a Teoria Relacional de Nuttin (1980), a Teoria influenciar os seus alunos para que estes se interessemda Atribuição Causal de Weiner (1985), a Teoria da pelas aulas, estejam atentos, participem, apresentemAuto-Eficácia de Bandura (1977), a Teoria do Locus de comportamentos adequados e obtenham bons resultadosControlo de Rotter (1966) e a Teoria da Motivação escolares.Intrínseca de Deci (1975). Neste contexto, importa analisar que factores podem Neste artigo, distinguimos uma parte que diz respeito permitir aos professores influenciar os seus alunos ou,à apresentação de estratégias para motivar os alunos para no mesmo sentido, o que é que leva os alunos a dei-as aprendizagens escolares, de outra que se centra sobre xarem-se influenciar pelo professor.a problemática da indisciplina dos alunos na sala de aula, Na linha de French e Raven (1967), podemosuma das principais consequências da desmotivação dos distinguir quatro grandes factores de influência dosalunos, apresentando algumas estratégias que podem professores sobre os alunos: o reconhecimento doajudar o professor a resolver estas situações. Termina estatuto do professor pelos alunos; o reconhecimento* Professor Catedrático de Psicologia da Universidade do Algarve; Doutor em Psicologia da Educação; Director do Mestrado em Psicologia da Educaçãoe do Mestrado em Psicologia da Saúde. E-mail: <snjesus@ualg.pt>.Artigo recebido em: agosto/2007. Aprovado em: setembro/2007. Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
  • 2. 22 Saul Neves de Jesuspelos alunos da capacidade de recompensar ou de punir ensinas, ensina-me de forma que eu aprenda”) e dando odo professor, através das avaliações e das estratégias de exemplo (um líder não pode funcionar segundo ogestão da indisciplina; o reconhecimento pelos alunos da princípio “faz o que eu digo e não o que eu faço”).competência do professor nos conhecimentos que este Para potencializar a criação de “laços” com os alunoslhes pretende ensinar; o reconhecimento de certas qua- e a motivação destes, os professores devem evitar olidades pessoais e interpessoais no professor, apreciadas distanciamento, a “neutralidade afectiva” e o auto-pelos alunos, desenvolvendo-se processos de identi- ritarismo, devendo, ao contrário, fomentar uma “relaçãoficação (JESUS, 1996b). de agrado” (RIBEIRO, 1991), caracterizada pelo diá- No passado, os alunos deixavam-se influenciar pelo logo, pela negociação e pelo respeito mútuo.professor por aceitarem pacificamente o seu estatuto, por Embora os professores tenham perdido poder noso considerarem competente na área de conhecimentos últimos anos, dificultando a utilização de alguns factoresque devia ensinar e também por lhe reconhecerem poder de influência sobre os alunos que no passado resultavam,para recompensar ou punir através das avaliações e das continuam a possuir um instrumento fundamental paraestratégias de gestão da indisciplina, não sendo postas conseguirem criar laços de identificação com os alunos,em causa as decisões tomadas pelo professor a este nível. influenciando-os: a linguagem utilizada na relaçãoActualmente, devido a múltiplos factores (JESUS, 2002, pedagógica, quer verbal, quer não verbal.2003, 2007; LENS e JESUS, 1999), muitos alunos não Algumas das frases que o professor pode utilizarse deixam influenciar pelo professor apenas devido ao para uma “relação de agrado” são as seguintes: “deviasfacto de ser o “senhor doutor” ou “senhor professor” a estar orgulhoso dos teus resultados”, em vez de “estousugerir, desvalorizam a escola como fonte de acesso ao orgulhoso de ti” (no sentido de responsabilizar o alunosaber ou conhecimento, colocando muitas vezes em pelo seu comportamento, indo ao encontro da suadúvida a competência do professor, para além deste necessidade de auto-determinação); “estás quase lá”, emtambém ter vindo a perder poder no que diz respeito à vez de “está quase tudo errado” ou “não fazes nada decapacidade de gestão da aprendizagem e da disciplina jeito” (no sentido de promover uma percepção dedos alunos. Inclusivamente, são freqüentemente contes- aperfeiçoamento pessoal e o esforço do aluno); “estejamtadas as suas decisões pelos próprios alunos e pelos pais à vontade para perguntar sempre que não compre-destes, para além de todo o trabalho burocrático exigido enderem alguma explicação ou queiram apresentarao professor nas situações em que pretende reprovar algum comentário relevante”, em vez de “não mealgum aluno. Assim, dos quatro factores de influência interrompam, se tiverem dúvidas perguntem no fim” (nodistinguidos, aquele que parece ter maior importância na sentido de promover a participação dos alunos e aactualidade é a identificação do aluno com o professor. compreensão e o acompanhamento das explicações doIsto é, o sucesso do professor junto dos alunos passa professor); “vez como hoje te estás a portar bem”, emmuito pelo reconhecimento de certas qualidades pessoais vez de “para brincar estás sempre pronto” ou “tinhas quee relacionais no primeiro que os últimos apreciam. ser tu” (no sentido de evidenciar os comportamentos de A identificação do aluno com o professor passa disciplina dos alunos e não apenas os de indisciplina).muito pela satisfação obtida na relação estabelecida. No Também a aprendizagem e a motivação dos alunosentanto, muitas vezes há uma insatisfação recíproca na depende da identificação destes com o professor. Norelação entre os professores e os alunos. Esta conclusão entanto, verifica-se que muitos alunos apresentamfoi obtida por Gilly (1976) quando investigou as re- insucesso funcional, isto é, a sua aprendizagem ou saberpresentações recíprocas dos professores e dos alunos, ao não corresponde ao que seria de esperar dado o nívelverificar que o docente previligia na sua representação de escolaridade, e muitos encontram-se desmotivadosdos alunos os aspectos cognitivos, enquanto estes relativamente às tarefas escolares. Esta situação constituipreviligiam na sua representação dos professores os um dos principais problemas para os professores. Numaaspectos afectivos e relacionais. Neste sentido, parece investigação conduzida por Lens (1994), verificou-sehaver um “mal-entendido” na relação pedagógica, sendo que a maioria dos professores considera que mais deimportante que os professores se aproximem das ne- metade dos seus alunos se encontram desmotivados paracessidades relacionais e de desenvolvimento dos alunos, o estudo, sentindo que, mesmo que queiram, não con-no sentido de os conseguirem influenciar ou motivar para seguem resolver este problema.o alcance dos objectivos da educação escolar no plano Com base nestes resultados, não obstante deveremcognitivo. No passado, os alunos tinham que se adaptar ser tomadas medidas que permitam restituir o poder aosaos métodos dos professores, mas actualmente o professores, nomeadamente serem definidos objectivosprofessor deve procurar ir ao encontro dos interesses e mínimos de aprendizagem necessários para que osda linguagem dos alunos, sendo flexível (de acordo com alunos possam transitar para o ano lectivo seguinte eo provérbio “professor, se eu não aprendo como tu me serem tidas em conta as notas obtidas desde o início do Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
  • 3. Estratégias para motivar os alunos 23percurso escolar dos alunos para o ingresso no ensino • aproveitar as diferenças individuais na sala desuperior, tornando-os mais responsáveis e motivados aula, levando os alunos mais motivados, com maispara aprender logo desde os primeiros anos de es- conhecimentos ou que já compreenderam ascolaridade, parece fundamental analisar algumas estra- explicações do professor a apresentarem os con-tégias que o professor pode utilizar para se confrontar de teúdos aos outros alunos com mais dificuldades,forma mais autoconfiante e com sucesso perante as contribuindo para uma maior compreensão e re-situações de desinteresse dos seus alunos. tenção da matéria por parte dos primeiros e para a Especificamente, existem diversas estratégias que modelação dos últimos;os professores podem utilizar para motivar os seus • incentivar directamente a participação dos alunosalunos para as tarefas escolares (ABREU, 1996; CAR- menos participativos, através de “pequenas” res-RASCO e BAIGNOL, 1993; JESUS, 1996B; LENS e ponsabilidades que lhes possam permitir seremDECRUYENAERE, 1991): bem sucedidos; • manifestar-se entusiasmado pelas actividades • fomentar o desenvolvimento pessoal e social dos realizadas com os alunos, constituindo um modelo alunos, através de estratégias de trabalho autó- ou exemplo de motivação para eles; nomo e de trabalho de grupo; • clarificar, logo no início do ano lectivo, o • utilizar metodologias de ensino diversificadas e “porquê?” da seqüência dos conteúdos progra- que tornem a explicação das matérias mais clara, máticos da disciplina que lecciona, levando os compreensível e interessante para os alunos; alunos a aperceberem-se da coerência interna • estabelecer as relações entre as novas matérias e entre as matérias a aprender e a adquirirem uma os conhecimentos anteriores; perspectiva global dessas aprendizagens; • partir de situações ou acontecimentos da actua- • explicitar o “para quê?” das matérias do programa lidade ou da realidade circundante para ensinar as da disciplina que lecciona, em termos da sua matérias aos alunos; • utilizar um ritmo de ensino adequado às capa- ligação à realidade fora da escola e da sua rele- cidades e conhecimentos anteriores dos alunos, vância para o futuro dos alunos; previligiando a qualidade à quantidade de ma- • alargar a perspectiva temporal de futuro dos térias expostas; alunos, levando-os a valorizar certas metas para • criar situações de aprendizagem significativas cujo alcance a escola constitui um meio ou para os alunos, contribuindo para uma retenção instrumento, contribuindo para que eles não se das aprendizagens a médio/longo prazo; limitem a uma atitude imediatista e consumista • evitar levar os alunos a estudar apenas na pers- face às alternativas facultadas pela sociedade pectiva do curto prazo porque vão ser avaliados actual; sobre as matérias em causa; • salientar as vantagens que poderão advir para a • diminuir o significado ansiógeno dos testes de vida futura dos alunos se estudarem, compa- avaliação, contribuindo para o potencializar das rativamente às desvantagens se não estudarem, qualidades dos alunos, para um maior empenha- embora actualmente haja uma grande incerteza mento destes noutras tarefas escolares e uma quanto às possibilidades de concretização dos menor ansiedade face às provas de avaliação; projectos pessoais; • proporcionar vários momentos de avaliação for- • procurar saber quais são os interesses dos alunos mativa aos alunos, levando-os a sentirem satis- e o nome próprio de cada um deles; fação por aquilo que já conseguiram aprender e • utilizar recompensas exteriores ao gosto e à motivação para aprenderem as matérias seguintes; competência que a realização das próprias tarefas • reconhecer o progresso escolar dos alunos, com- poderiam proporcionar, indo ao encontro dos parando os seus conhecimentos actuais com os interesses dos alunos, apenas no início do pro- seus conhecimentos anteriores, levando-os a per- cesso de ensino-aprendizagem e quando os alunos cepcionar as melhorias ocorridas e a acreditar na apresentam uma motivação muito baixa; possibilidade de ainda poderem melhorar mais os • deixar os alunos participarem na escolha das seus desempenhos se se esforçarem; matérias e tarefas escolares, sempre que possí- • reconhecer e evidenciar tanto quanto possível o vel; esforço e a capacidade dos alunos, não salien- • criar situações em que os alunos tenham um papel tando sobretudo os erros cometidos por estes; activo na construção do seu próprio saber (de • ter confiança e optimismo nas capacidades dos acordo com o provérbio “se ouço esqueço, se vejo alunos para a realização das tarefas escolares, lembro, se faço aprendo”); explicitando-o verbalmente; Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
  • 4. 24 Saul Neves de Jesus • contribuir para que o aluno seja bem sucedido nas Também numa outra investigação recentemente tarefas escolares, aumentando a sua autocon- realizada no nosso país (CURTO, 1998), com alunos do fiança, nível de excelência e “brio” na realização 7º ano de escolaridade, verificou-se que a maioria dos escolar; alunos inquiridos consideram que as turmas de que • promover a realização de tarefas de um nível de fazem parte são “pouco disciplinadas” (46%) ou “indis- dificuldade intermédio aos alunos, pois as tarefas ciplinadas” (13.3%), comparativamente aqueles que demasiado fáceis ou demasiado difíceis não fo- consideram as suas turmas “disciplinadas” (34.5%) ou mentam o envolvimento do aluno, nem a per- “muito disciplinadas” (3.5%). cepção de competência pessoal na sua realização; Face a estas situações começam a ocorrer mani- • levar os alunos a atribuir os seus fracassos a festações de saudosismo relativamente às práticas utili- causas instáveis (por exemplo, falta de esforço) e zadas no passado e, entretanto, criticadas e abandonadas não a causas estáveis (por exemplo, falta de em países considerados dos mais desenvolvidos do capacidade), de forma a que aumentem as ex- mundo e que constituem modelos de democracia, liber- pectativas de sucesso e o empenhamento em dade e inovação. Nos EUA é onde estas manifestações situações futuras; ocorrem de forma mais radical com a defesa do castigo • clarificar crenças inadequadas sobre os resultados físico nas escolas por responsáveis políticos, a expulsão escolares que os alunos possuam e que possam da escola de uma criança de 6 anos por ter beijado na estar a contribuir para um menor esforço ou face uma colega, e a oferta, por associações de pro- empenhamento nas actividades de estudo (por fessores, de cursos de judô para que os professores se exemplo, “o professor não gosta de mim e, logo, defendam dos alunos. Também alguns responsáveis não vou conseguir obter boa nota”); políticos de países da Europa defendem a reintrodução • ajudar os alunos a aproveitarem o esforço dis- do castigo corporal, nomeadamente a Ministra da Edu- pendido nas tarefas de aprendizagem, através do cação e do Emprego de Inglaterra. Em Portugal, embora desenvolvimento de competências de estudo, pois as situações de indisciplina (ainda) não tenham as pro- “mais vale estudar pouco e bem do que muito mas porções que se verificam nestes países, já há mani- mal”. festações de saudosismo que apontam no mesmo sentido. Nomeadamente, num estudo de opinião, metade dos participantes defendem a reintrodução de reguadas pelos 2 ESTRATÉGIAS PARA MOTIVAR OS ALUNOS PARA professores (FERNANDES, 1996). Por seu turno, a A DISCIPLINA NA SALA DE AULA Confederação de Pais (CONFAP) considera que deveria haver mais castigos nas escolas, afirmando que “as A indisciplina dos alunos constitui, na actualidade, estatísticas podem dar a ideia de que está tudo bem, oo principal factor de mal-estar docente para muitos que não é verdade” (LIMA, 1997, 20), pois em 1996, deprofessores, de acordo com os resultados obtidos em mais de um milhão de alunos das escolas públicasdiversas investigações (JESUS, 1996a). portuguesas, houve apenas vinte e sete suspensões por Sobretudo nos últimos anos, tem-se verificado um períodos iguais ou superiores a oito dias, quando aaumento da freqüência e da gravidade das situações de frequência de situações de indisciplina graves, nomea-violência nas escolas e de indisciplina dos alunos na sala damente a agressão aos professores, é muito superior.de aula, nomeadamente das agressões verbais e físicas Conforme já tivemos oportunidade de defender numentre os alunos e destes aos professores e funcionários, trabalho anterior (JESUS, 1996b), as estratégias puni-fomentando um clima de medo e insegurança entre os tivas, aparentemente eficazes por provocarem medo nosalunos, sobretudo mais novos e disciplinados, os pais, alunos, apenas apresentam efeitos a curto prazo, sendoreceando pelo que possa acontecer aos seus filhos na necessário aumentar a intensidade e a frequência daescola, os professores e os funcionários, pela agressi- punição para continuar a ter os mesmos efeitos sobre ovidade que os alunos possam manifestar. Num estudo comportamento destes. Além disso, o professor funcionarecentemente realizado em Portugal, a pedido do Minis- como modelo agressivo quando deveria fornecer umtério da Educação (Instituto de Inovação Educacional), exemplo de estabilidade e serenidade aos seus alunos.sobre “A violência nas escolas” (VALE e COSTA, Por seu turno, as suspensões são entendidas por muitos1998), em que participaram cerca de 5000 alunos dos 8º alunos indisciplinados como “uns dias de férias”, nãoe 11º anos de escolaridade, de 142 escolas, foram obtidos tendo as implicações correctivas que tinham no passadoresultados que traduzem as proporções que as situações ao nível do seu comportamento.de indisciplina começam a ter no nosso país, nomea- Tendo em conta que a realidade actual é comple-damente verificou-se que 42% dos alunos já ouviram tamente diferente e que os problemas devem ser ana-insultar um professor na escola. lisados no contexto histórico-social em que ocorrem, não Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
  • 5. Estratégias para motivar os alunos 25nos parece que o retorno às práticas de educação escolar • dialogar com os alunos indisciplinados, procu-utilizadas no passado possa constituir a via mais ade- rando compreender os motivos que estiveram naquada para resolver os problemas que se colocam aos base dos comportamentos identificados e fazendoprofessores na actualidade. Passámos de uma educação com que estes alunos também compreendam oescolar caracterizada por um elevado autoritarismo para papel do professor, mas sobretudo que o professorum sistema demasiado permissivo, sendo fundamental também é uma pessoa (também é “de carne eencontrar um ponto de equilíbrio. osso”) que deve ser respeitada; Especificamente, no que diz respeito à gestão da • fazer com que os alunos voltem a acreditar queindisciplina dos alunos, é necessária uma acção con- podem vir a alcançar resultados escolares posi-certada a vários níveis, em particular no plano sociopolí- tivos;tico, no plano da organização e gestão das escolas, no • orientar a participação dos alunos para as matériasplano do trabalho dos professores em equipa e no plano em análise, valorizando e incentivando essa parti-da colaboração entre professores e pais, para além das cipação;estratégias que o professor pode utilizar na sala de aula. • delegar funções de “assistente” no líder informal De seguida, apresentamos algumas das estratégias da turma, para a gestão da indisciplina na sala deque os professores podem utilizar para prevenir e gerir aula;situações de indisciplina dos alunos: • separar os alunos que perturbam; • manter-se sempre calmo, sereno e seguro, no • repreender os alunos em particular e apenas sentido de modelar o comportamento dos alunos; quando tal atitude é efectivamente necessária; • ser flexível, desde que coerente e estável, na • identificar os casos de alunos com problemas forma de actuação, podendo alguma surpresa no familiares (por exemplo, agressividade na família comportamento do professor em relação aos ou alimentação deficiente) e tentar contribuir para alunos permitir uma maior eficácia na influência a resolução de tais situações; sobre estes (por exemplo, o professor pode • nos questionários feitos no início do ano lectivo, a aproveitar e manifestar humor nalgumas situações todos os alunos que entram no ensino básico ou inesperadas em vez de ficar perturbado com elas); secundário, colocar questões sobre violência • evitar confrontos desnecessários, sendo mais escolar, nomeadamente sobre motivos e formas tolerante (por vezes, é preferível que o professor de resolução que os alunos têm para propôr no faça que não percebe ou que deixe passar algumas sentido de diminuir a ocorrência e gravidade situações menos graves do que tentar controlar destas situações; todas as situações, pois pode perder a eficácia na • estabelecer contratos (gestão de contingências) actuação quando realmente se justifica intervir); que identifiquem os comportamentos a corrigir • nunca se esquecer que também já foi aluno, pelos alunos, no sentido de os responsabilizar criança ou adolescente, e que também gostava de e de os levar a desenvolver uma “disciplina brincar; interior”. • evitar categorizar ou rotular os alunos indisci- • Aliás, o desenvolvimento da autodisciplina deve plinados, pois pode estar a contribuir para a ma- ser o objectivo de qualquer estratégia para gerir nutenção do comportamento destes (por exemplo, a indisciplina dos alunos (ARENDS, 1995; não dizer “tinhas que ser tu”); ESTRELA, 1992). • não se distanciar dos alunos indisciplinados, • Os exercícios de simulação são fundamentais apenas estabelecendo relação com eles quando para o desenvolvimento de competências profis- apresentam comportamentos de indisciplina, pois sionais ao nível da formação inicial (ESTEVE e nenhum aluno é sempre indisciplinado durante FRANCCHIA, 1986). No entanto, ao nível da todos os minutos em que decorrem as aulas; formação contínua de professores parece-nos que • tendo em conta que os comportamentos de o desenvolvimento profissional passa sobretudo disciplina também podem ser aprendidos, enfa- pelo trabalho em equipa, envolvendo a troca de tizar os aspectos positivos do comportamento e da experiências, num clima de autenticidade, empatia aprendizagem dos alunos, encorajando os seus e cooperação. progressos e fomentando uma expectativa de auto- A existência de regras implica o trabalho em equipa confiança (por exemplo, dizer “sei que és capaz”), pelos professores de uma mesma escola, para troca de não estabelecendo interacção apenas quando o experiências, definição de perspectivas de intervenção e comportamento é incorrecto ou quando há in- encontrar consensos quanto aos comportamentos que sucesso na aprendizagem; devem ser considerados de indisciplina. A indisciplina Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
  • 6. 26 Saul Neves de Jesusintegra todos os comportamentos que os alunos apre- desenvolvimento e da aprendizagem dos professores, nosentam na sala de aula que perturbam o trabalho que sentido de regularem e aperfeiçoarem as suas própriaso professor pretende realizar, podendo uns professores práticas educativas. A investigação conduzida por Curtoconsiderar que certos comportamentos constituem (1998) permitiu verificar que os alunos consideram queindisciplina e outros não (por exemplo, bocejar, mastigar os professores têm muita influência no potencializar depastilhas elásticas, usar boné, participar sem pedir a situações de indisciplina. Nomeadamente, a maioriapalavra ou distrair-se facilmente). É necessário que os dos alunos considera que “a indisciplina depende doprofessores se reunam para encontrar consensos e definir professor” e que “a simpatia do professor diminui aregras claras sobre os comportamentos aceitáveis e os indisciplina dos alunos”.não aceitáveis, evitando que os alunos possam argu- No âmbito de um projecto de investigação quementar “mas o professor X deixa fazer”. Estas regras coordenámos (JESUS e XAVIER, 1997) foram obtidosdevem ser apresentadas pelo Directores de Turma aos resultados que evidenciam que o diálogo com os alunosalunos logo na primeira aula e explicar-lhes porquê que sobre estratégias para gerir a indisciplina destes últimossão necessárias, podendo também, inclusivamente, ser pode ser factor de desenvolvimento, aprendizagem eafixadas nas salas de aula. aperfeiçoamento profissional. Inclusivamente, começa a Tivemos oportunidade de verificar na Escola EB 2+3 ser proposta (CARITA e FERNANDES, 1997) que nãode Santa Iria em Tomar, em que estava afixado um sejam apenas os professores a identificar os compor-documento, elaborado pelo Conselho Pedagógico, que tamentos indesejáveis dos alunos e a formularem regrasdefinia as regras de actuação do aluno na sala de aula, no sentido de evitar a sua ocorrência, mas que tambémsendo distinguido o que ele deve fazer (por exemplo, sejam os alunos a identificar os comportamentos de“entrar/sair ordenadamente”, “ser pontual”, “sentar-se professores que perturbam o desenrolar de processos decorrectamente” e “aguardar a sua vez de falar”) e o ensino e aprendizagem.que ele não deve fazer (por exemplo, “trazer pastilhas Em todo o caso, a adequação das estratégias uti-elásticas”, “levantar-se sem autorização” e “danificar o lizadas pelos professores depende também do nívelmaterial escolar”). de desenvolvimento psicossocial e moral dos alunos Também numa outra escola, a Escola C+S Dr. João (GOMEZ, MIR e SERRATS, 1993; SPRINTHALL eRocha-Pai de Vagos, havíamos verificado que havia um SPRINTHALL, 1993). Por exemplo, enquanto na fasedocumento afixado nas diversas salas de aula sobre em que a criança frequenta o jardim de infância pode“Aprender a aprender”, no sentido de ajudar os alunos ter sentido a utilização da força física, não enquantoa identificar e a desenvolver competências de métodos agressividade, mas sim para restaurar o controlo dade estudo que lhes permitissem aproveitar as suas situação pelo educador, no 1º Ciclo parece ser maiscapacidades e obter melhores resultados escolares. Esta relevante o uso de reforços materiais, sobretudo posi-metodologia de afixar e distribuir documentos, com tivos, e no 2º e 3º Ciclos pode ser utilizada a força doindicações que podem ajudar o aluno a orientar o seu grupo social, em termos de aprovação ou desaprovação.comportamento, parece-nos ser um exemplo a seguir A formulação de regras com a participação de todos ospelas diversas escolas. intervenientes, no sentido de aumentar a responsabi- Na elaboração do regulamento de disciplina interno lização pela sua concretização, requer que os partici-também poderiam participar os próprios alunos, bem pantes se encontrem no nível pós-convencional docomo os funcionários da escola e os encarregados de desenvolvimento moral, o que ocorre durante o Ensinoeducação, tornando o estabelecimento de regras mais Secundário. Assim, a análise da gestão da indisciplinaparticipado, permitindo aumentar a responsabilização deve pressupor uma abordagem desenvolvimentista quepela sua concretização por todos os intervenientes. se traduza na sugestão de estratégias diferenciadas paraMuitos professores, quando os alunos apresentam com- cada nível de ensino (JESUS e XAVIER, 1998).portamentos de indisciplina, por vezes, questionam-os As estratégias, atrás apresentadas, são algumas quesobre as consequências esperadas (por exemplo, per- os professores podem utilizar no sentido de uma maiorguntam ao aluno “o que é que tu merecias?”), ficando facilidade na gestão da disciplina dos alunos na sala desurpreendidos com o nível de exigência que eles apre- aula. No entanto, não há receitas universais e cadasentam relativamente às consequências que deveriam professor deve procurar aprender a partir da própriadecorrer do seu próprio comportamento de indisciplina, experiência, sendo coerente consigo próprio. Fundamen-revelando que os alunos também poderiam ser en- talmente, se o professor quer ser respeitado pelos seusvolvidos neste processo de definição de regras de alunos, tem que ele próprio respeitar-se e apreciar as suasdisciplina. qualidades pessoais e profissionais. Assim, uma das Esta abertura dos professores ao feedback forne- regras que o professor deve ter em conta é tentar analisarcido pelos alunos pode ser um factor essencial do o seu próprio comportamento face às situações de Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
  • 7. Estratégias para motivar os alunos 27indisciplina dos alunos e procurar aprender com essas algum que tenha feito o “TPC” e a partir daí continuar aexperiências, no sentido de um maior autoconhecimento sua aula. Este tipo de alunos são categorizados comoe aperfeiçoamento progressivo. “calados”, mas até correspondem a alunos que os professores gostam de ter nas suas turmas porque não 3 ABORDAGEM DE FILMES QUE ILUSTRAM são indisciplinados e até estão com atenção e obtêm ESTRATÉGIAS PARA MOTIVAR OS ALUNOS positiva nos testes de avaliação. Só que, embora estes alunos até adquiram alguns conhecimentos curriculares, Algumas das estratégias para motivar os alunos no plano do seu desenvolvimento pessoal e social poucoreferidas anteriormente encontram-se explicitadas em acontece, continuando “calados” nos anos lectivos se-três filmes (“Clube dos poetas mortos”, “O professor” e guintes. Mr. Keeting revela ter uma sensibilidade par-“Mentes perigosas”), que ilustram possíveis formas ticular para esta situação (“Mr. Anderson pensa que tudode estabelecer “laços” ou desenvolver processos de dentro de si é inútil e embaraçoso. Engana-se, tem algoidentificação que possam contribuir para a motivação dentro de si com grande valor”), incentivando este alunodos alunos. para deixar emergir o seu potencial criativo ao levá-lo a Tendo em conta que os professores têm poucas ser capaz de criar um poema espontaneamente na sala deoportunidades para serem confrontados com o desem- aula que surpreendeu o próprio aluno e os seus colegas.penho de colegas na sala de aula, os filmes em causa Além disso, outra particularidade, nesta situação, épodem constituir bons exemplos a reter, pelo que iriamos o facto de Mr. Keeting no final ir junto deste alunopassar a destacar alguns dos aspectos que, neste âmbito, dizendo-lhe ao ouvido “nunca te esqueças deste mo-nos parecem mais relevantes. mento”. Fundamentalmente, o que todas as pessoas No “Clube dos poetas mortos” é notória a diferença procuram são experiências de vida positivas. Também osentre Mr. Keeting e os professores que aparecem no alunos apresentam este objectivo, devendo o professorinício do filme. Estes últimos, para além duma atitude tentar proporcionar-lhes este tipo de vivências, pois estasque traduz pouca motivação para ensinar, enfatizam a também representam experiências gratificantes para osavaliação dos conhecimentos como a finalidade do próprios professores.processo de ensino-aprendizagem, devendo os alunos O filme “O professor” apresenta a particularidade deestudar as matérias porque vão ser avaliados sobre elas. traduzir uma situação cada vez mais frequente, aquelaMr. Keeting apresenta uma postura de grande entusiasmo em que o professor inicia esta actividade profissional dee gosto pela docência, procurando contribuir para o forma transitória e com pouca motivação. É o caso dedesenvolvimento pessoal e social dos seus alunos. Este é Mr. Holland que foi ser professor porque pensava queum dos grandes objectivos da educação escolar na esta actividade lhe permitia ter mais “tempo livre” paraactualidade pelo que, não obstante este filme procurar escrever as suas músicas, conforme refere logo no inícioretratar a realidade educativa dos anos 60 num colégio a um colega professor. A desmotivação de Mr. Holland étradicional dos EUA, a atitude do Mr. Keeting per- bem manifesta na relação distante que mantém com osmanece bastante actual, constituindo um bom exemplo alunos, estando apenas preocupado em cumprir opara muitos professores. Especificamente, este professor programa e manifestando-se “irritado” quando os alunosprocura desenvolver o espírito crítico dos alunos per- apresentam baixos resultados nos testes. Inclusivamente,guntando-lhes constantemente “porque é que o autor diz refere à sua mulher que quando era aluno queria estaristo?”. Inclusivamente, a situação em que se coloca em noutro sítio qualquer, mas nunca pensou que os pro-cima da secretária e convida os alunos a fazerem o fessores sentissem o mesmo, acrescentando inclusiva-mesmo tem este objectivo: “Estou em cima da secretária mente o seguinte: “Odei-o ensinar. Ninguém conseguepara me lembrar que devemos olhar constantemente as ensinar aqueles alunos”. Até que resolve começar a ir aocoisas de forma diferente. Não tenham só em mente o encontro dos interesses dos alunos, verificando que estesque o autor pensa. Pensem no que vocês pensam. e ele próprio gostaram mais desta aula do que dasEsforçem-se por encontrar a vossa própria voz”. Mas a anteriores. Faz então esta opção por tornar as aulas maisparte do filme que parece melhor ilustrar o papel que o interessantes para os alunos e para si próprio, cons-professor pode desempenhar a este nível é a situação em tituindo um bom exemplo de uma atitude fundamental aque no início da aula Mr. Keeting solicita a um aluno tomar por qualquer professor, a de tentar tornar as(Mr. Anderson), cujo comportamento revela alguma experiências ocorridas no âmbito do processo de ensino-timidez e falta de confiança em si próprio, para apre- aprendizagem tão satisfatórias quanto possível e de assentar o poema que todos os alunos deveriam ter feito vivenciar com alegria. E parece valer a pena, pois nocomo trabalho de casa e este aluno não o havia realizado. final do filme, quando lhe é feita uma festa surpresa de Habitualmente, o que acontece nestas circunstâncias despedida, são significativas as palavras de uma ex-alunaé o professor passar a um aluno seguinte até encontrar sua: “Mr. Holland teve uma profunda influência na Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
  • 8. 28 Saul Neves de Jesusminha vida. Em muitas vidas. Contudo sinto que ele estratégia que muitos professores, sobretudo de por-considera grande parte da sua vida disperdiçada. Ele tuguês, poderiam utilizar na actualidade, aproveitando asestava sempre a trabalhar na sua sinfonia. Ela ia torná-lo letras de algumas músicas de que os alunos gostam, emfamoso, rico. Provavelmente as duas coisas. Mas Mr. vez de rejeitarem à partida o interesse destas músicas,Holland não está rico. E não é famoso. Pelo menos fora porque “é só barulho”. Este ir ao encontro dos interessesda nossa pequena cidade. Portanto seria natural ele dos alunos é fundamental para que o professor consigaconsiderar-se um falhado. Mas estaria enganado. Porque fazer com que os alunos se interessem pelas matérias queeu acho que ele alcançou um êxito muito superior à efectivamente pretende que eles aprendam. Concreta-riqueza e fama. Olhe à sua volta. Não há uma vida nesta mente, Mrs. Louene procura levar os alunos a fazeremsala que não tenha influenciado. E cada um de nós é uma essa transferência de interesses através do concursopessoa melhor graças a si. Nós somos a sua sinfonia Mr. “Dylan-Dylan”. Os vencedores deste concurso teriamHolland. Nós somos as melodias e as notas da sua obra. uma recompensa. Este é outro aspecto particularmenteNós somos a música da sua vida”. relevante nas estratégias para motivação dos alunos Por seu turno, o filme “Mentes perigosas” pretende evidenciadas neste filme. Isto é, a utilização de recom-ilustrar a realidade cada vez mais actual das nossas pensas pode resultar numa fase inicial quando os alunosescolas, com turmas constituídas por alunos desinte- apresentam uma motivação muito baixa para as acti-ressados e indisciplinados. Esta situação provoca um vidades escolares. No entanto, quando os alunos come-“choque com a realidade” da Mrs. Louene, professora çam a envolver-se nestas actividades, as estratégiasem início de carreira que nunca pensou vir a encontrar deverão ser diferentes, incentivando a sua motivaçãouma turma com estas características. Face à situação intrínseca. Foi o que Mrs. Louene fez, pois numa situa-geral de indisciplina dos alunos evidenciada na primeira ção seguinte em que sugeriu aos alunos a realização deaula, esta professora tenta utilizar uma estratégia que uma tarefa escolar, quando um aluno lhe perguntou qualhavia lido num livro sobre formas de lidar com a era o prémio por realizarem essa actividade, ela res-indisciplina, concretamente escrever o nome do aluno pondeu: “aprenderem a ler e compreenderem é omais indisciplinado no quadro. No entanto, esta estra- prémio”. Depois fundamenta esta posição utilizando umtégia não resultou, ficando Mrs. Louene desesperada exemplo e uma linguagem compreensível para os alunos:com o facto de não conseguir controlar a situação. o cérebro é como um músculo e, tal como eles correrãoConvém salientar que o problema não está nos livros, melhor e mais depressa se treinarem a corrida, tambémmas no aproveitamento que deles é feito, pois as poderão usar melhor o pensamento se aprenderem assugestões apresentadas para a resolução de situações- matérias escolares (“Cada nova ideia constrói um novoproblema devem ser encaradas como meras hipóteses de músculo. São esses músculos que vos podem tornarsolução e não como receitas universais. Isto é, qualquer poderosos. São as vossas armas. E neste mundo inseguroestratégia para resultar tem que ser integrada no estilo têm que andar armados”). Além disso, acentua o factopessoal do professor que a vai utilizar e na situação em de os alunos terem que ir à escola e já que assim é devemcausa, tendo em conta os alunos envolvidos. aproveitar para aprender (“Tentem. De qualquer forma Nesse sentido, o aproveitamento da experiência e das já estão aqui. Se no fim do período não forem maisqualidades pessoais por cada professor é fundamental rápidos, fortes e espertos não perderam nada. Mas se issopara gerir situações de indisciplina. No caso de Mrs. acontecer vão ser mais díficeis de derrubar”). É tambémLouene ela tenta chamar a atenção dos alunos ou criar particularmente interessante a forma como Mrs. Louenelaços de identificação com eles indo ao encontro dos seus contacta os pais de um aluno suspenso, procurando-osinteresses, ao salientar o facto de já ter sido fuzileira e de para evidenciar o potencial e as qualidades positivasos alunos também poderem vir a ser bons fuzileiros, do seu filho, contribuindo para a criação de “laços”sendo a partir daquele momento cada um deles um afectivos também com as famílias. Assim, também sobreaspirante. Inclusivamente, refere aos alunos que “a partir a forma de abordar e chamar as famílias a participar nodeste momento todos têm 20 valores, só tendo que se processo de educação e de desenvolvimento dos seusesforçar para manter a nota”. Este discurso vai levar estes filhos, pela positiva e em colaboração e sintonia com osalunos a entender o sentido da escola de forma com- professores, Mrs. Louene constitui um bom exemplo.pletamente diferente, voltando a acreditar na possi- Em conjunto, estes três filmes ilustram que as aulasbilidade de obter sucesso escolar e, logo, a apresentar tanto podem ser “chatas” ou “uma perda de tempo”,comportamentos mais adequados para que a aprendi- como interessantes, evidenciando a importância da mo-zagem pudesse ocorrer. tivação dos professores para o seu próprio sucesso e A tentativa de ir ao encontro dos interesses, vi- realização profissional e também para a motivação dosvências e linguagem dos alunos também é evidente nos alunos. No entanto, não há receitas, devendo cada pro-poemas que começa por analisar com eles. Esta é uma fessor descobrir o seu caminho, tendo em conta as suas Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008
  • 9. Estratégias para motivar os alunos 29experiência e qualidades pessoais, “fazendo uso de si ARENDS, R. Aprender a ensinar. Lisboa: McGraw-Hill,mesmo como instrumento” (COMBS, BLUME, NEW- 1995.MAN e WASS, 1979). BANDURA, A. Self-efficacy: Toward a Unifying Theory of Os professores são diferentes e devem aceitar essa Behavioral Change. Psychological Review, n. 84, p. 191-215,diferença com naturalidade, tentando aproveitá-la na sua 1977.prática pedagógica. As diferenças manifestam-se na BLANCHARD, K.; ZIGARMI, P.; ZIGARMI, D. O líder “umprópria interpretação dos acontecimentos, quanto mais minuto”. Lisboa: Editorial Presença, 1986.na forma de actuação. Por exemplo, face à mesma CARITA, A.; FERNANDES, G. Indisciplina na sala de aula:situação, “um aluno ri na sala de aula”, diferentes Como prevenir? Como remediar? Lisboa: Editorial Presença, 1997.professores podem apresentar interpretações diferentescomo sejam: “aquele aluno está a gozar comigo, vou CARRASCO, J.; BAIGNOL, J. Técnicas y recursos para motivar a los alumnos. Madrid: Ediciones Rialp, 1993.repreendê-lo”; “aquele aluno está satisfeito, deve terentendido a explicação que estou a dar”; “alguém deve COMBS, A.; BLUME, R.; NEWMAN, A.; WASS, H. Clavester-lhe contado alguma coisa engraçada”; “aquele aluno para la formación de los profesores. Un enfoque humanístico. Madrid: Editorial Magisterio Español, 1979.ri sem razão, deve ter algum problema psicológico”. Não há um perfil universal de “bom professor”, tal CURTO, P. A escola e a indisciplina. Porto: Porto Editora, 1998.como não há um perfil de “líder universal”. Por exemplo,o Modelo Situacional de Liderança, de Blanchard, DECI, E. Intrinsic Motivation. New York: Plenum Press, 1975.Zigarmi e Zigarmi (1986), considera que o estilo de ESTEVE, J. M.; FRACCHIA, F. B. Inoculation against stress:liderança mais adequado depende do grau de compe- a technique for beginning teachers. European Journal of Teacher Education, n. 9, p. 261-269, 1986.tência e de motivação dos sujeitos que o líder pretendeinfluenciar. Neste sentido, distingue entre quatro estilos ESTRELA, M. T. Relação pedagógica, disciplina e indis- ciplina na escola. 3. ed. Porto: Porto Editora, 1992.de liderança: direcção, orientação, apoio e delegação. Nasala de aula, a adequação e eficácia do estilo a adoptar FRENCH, J.; RAVEN, B. As bases do poder social. In:pelo professor também depende muito dos alunos e, CARTWRIGHT, D.; ZANDER, A. (Ed.). Dinâmica de grupo: pesquisa e teoria. São Paulo: Herder, 1967.inclusivamente, diferentes alunos preferem diferentesestilos de professor. Numa investigação realizada por GILLY, M. A propos des rapports enseignant-enseigné: la représentation réciproque maître-élève repose-t-elle sur unVilla (1985), em que distinguiu sete tipos de professor – malentendu? Congrès Lápport des sciences fundamentales auxo didáctico (pela clareza da explicação), o organizado sciences de l’education. Actes... Paris: Ed. de L’Épi, 1976.(pela metodologia utilizada), o dominante (pela exi- v. II, p. 453-459.gência), o fisico (pela aparência), o cordial (pelo humor), GOMEZ, M.; MIR, V.; SERRATS, M. Como criar uma boao afectivo (pela atenção personalizada) e o entusiasta relação pedagógica. Porto: Porto Editora, 1993.(pela motivação expressa) – verificou-se que todos JESUS, S. N. A motivação para a profissão docente.os tipos são considerados importantes pelos alunos, Contributo para a clarificação de situações de mal-estar e paraconsoante o estilo do próprio aluno, o seu nível de ensino a fundamentação de estratégias de formação de professores.e as situações concretas. Inclusivamente, o mesmo aluno Aveiro: Estante Editora, 1996a.pode preferir um estilo de professor num dado momento ______. Influência do professor sobre os alunos. Porto:e outro estilo noutro momento do mesmo ano lectivo. Edições ASA, 1996b.Por exemplo, os estilos cordial e afectivo podem ser mais ______. Bem-estar dos professores. Estratégias para realizaçãovalorizados no início do ano lectivo, enquanto os estilos e desenvolvimento profissional. 2. ed. Porto: Porto Editora,didáctico e organizado podem ser preferidos mais no 1998.final do ano lectivo ou na proximidade de situações de ______. Motivação e formação de professores. Coimbra:avaliação de conhecimentos. Quarteto Editora, 2000. O que é importante é o professor ter uma perspectiva ______. Perspectivas para o bem-estar docente. Porto: ASAglobal das hipóteses de trabalho ou estratégias possíveis Editores II, 2002.para poder decidir por aquela que considere mais ade- ______. La motivación de los profesores. Revisión de laquada num determinado momento, em sintonia com o literatura. In: GARCÍA-VILLAMISAR, D.; FREIXAS, T.seu estilo pessoal e as situações com que se confronta. (Ed.). El estrés del profesorado. Valência: Promolibro, 2003. p. 116-139. ______. Psicologia da Educação. Coimbra: Quarteto Editora, REFERÊNCIAS 2004.ABREU, M. V. Pais, professores e psicólogos. Coimbra: ______. Professor sem stress. Realização e bem-estar docente.Coimbra Editora, 1996. Porto Alegre: Editora Mediação, 2007. Educação, Porto Alegre, v. 31, n. 1, p. 21-29, jan./abr. 2008

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