Subjetividades e  identidades múltiplas na era da comunicação digital e das redes sociais.
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Subjetividades e  identidades múltiplas na era da comunicação digital e das redes sociais. Subjetividades e identidades múltiplas na era da comunicação digital e das redes sociais. Document Transcript

  • AS SUBJETIVIDADES E AS IDENTIDADES MÚLTIPLAS NA ERA DA COMUNICAÇÃO DIGITAL E DAS REDES SOCIAIS. Luciana Prado1Resumo Faz sentido neste momento em que se vive no século XXI, momento de encurtamentode distâncias na era da tecnologia das redes de computadores, da internet, da globalização e darequisição profunda de todos os sentidos humanos no mundo das cidades modernas e cheiasde luzes e sons e múltiplas formas de atração de interesse de um indivíduo qualquer, citar umafrase que se tornou uma referência recente, mas profundamente instigante, do sociólogopolonês Zygmund Bauman, em Modernidade Liquida (2001) na qual ele diz: ―Ter umaidentidade fixa é hoje, neste mundo fluido, uma decisão de certo modo suicida‖. O que propõeeste artigo é discutir os conceitos de alguns autores que tratam da questão da formação dassubjetividades e das identidades, com o foco principal na participação da mídia em geral nesteprocesso contínuo de produção de subjetividades e da referência de identidade dos indivíduosque se inserem nas redes sociais para buscar algum modo de compartilhamento desentimentos, emoções, e visibilidade, esta completamente ligada ao seu contrário,apossibilidade de vigilância licenciada pelo indivíduo.Palavras chave: subjetividades, identidade, redes sociais, contemporaneidade.Considerações sobrea relação do indivíduo com a mídia e a formação das suasidentidades. Como o filósofo e político italiano, Antônio Negri, escreve em um de seus artigos ―AInfinitude da comunicação e a finitude do desejo‖, parte da obra Imagem-máquina: a era dastecnologias do virtual, organizado por André Parente, ―a relação mídia-espectador nunca foitão satanizada, e isso só faz piorar. Não só isso se pretendeu dar da mensagem da mídia uma1 Luciana Prado, mestranda em Mídia e Cultura, e-mail: lserenini@gmail.com. Trabalho apresentado comoconclusão da disciplina Estudos Avançados em Mídia e Cultura, professora Dª Suely Gomes.
  • imagem de uma rajada de metralhadora que se abate sobre o espectador-alvo miserável e oaniquila‖ (2008, p. 175). No contexto de seu pensamento Negri nega esse olhar, para ele jámuito superado, de uma esquerda advinda da escola crítica de Frankfurt, que não deixa de termuita razão em várias de suas críticas, adverte ele, mas que não pode aceitar que o indivíduonão é uma massa amorfa, um bando de zumbis que deglutem tudo o que lhes é imposto pelamídia. Continua ele, ―É verdade que não somos insensíveis à degradação do gosto e do sabercoletivo, nem tampouco à colonização dos universos de vivência. Além do mais, parece-nosevidente que a máquina da mídia não produz em absoluto efeitos com toda inocência‖ (2008,p.176). Ele concorda que no sistema atual a mídia ainda produz conscientemente códigos―infectos e epidêmicos‖, suas palavras que impedem de certo modo a produção demecanismos simbólicos de subjetividade, que induz em muitos momentos a uma seleçãoestratégica de conteúdos de informação que são reduções à mera mercadoria e à futilidade.Mas, reflete também sobre o fato de os seres humanos não são unidimensionais, e por issomesmo não podemos crer que o indivíduo não tenha condições próprias de criar mecanismosde fuga a tais estratégias midiáticas, assim como não possa produzir suas subjetividades quese apoiem em uma autopoiese, na operatividade criativa, coletiva que também ajam no mundoda comunicação, formando caminhos de resistência dentro do próprio sistema decomunicação e da mídia. Um dos caminhos que ele, e outros autores acreditam que possa sedar essa ―liberdade‖ e a formação de novas subjetividades passa pelo contexto de máquinas etrabalho, aqui considerados como instrumentos cognitivos e de autoconsciência poiética, denovo ambiente e de nova cooperação. Para ele o trabalho humano de produção de uma novasubjetividade ganha toda sua consciência dentro desta nossa era e do horizonte virtual, abertocada vez mais pelas tecnologias da comunicação, onde ele diz: ―Estamos entrando numa era ‗pós-mídia‘, de consciências comunicantes, dos indivíduos cooperantes se portando capaz de levar a cabo, radicalmente, a transformação social, sem outro limite senão a finitude de nosso desejo. Uma finitude que tem como único obstáculo a in- finitude da tarefa‖ (2008, p. 175). A visão de Negri se apresenta bastante otimista, principalmente partindo de umfilósofo marxista. Mas é, de certa forma corroborada por Santaella ao discutir um dos temasmais frequentes entre as pessoas que estão refletindo sobre as questões que emergem dacibercultura, que é a questão das identidades múltiplas que o usuário do ciberespaço podedesenvolver em seus diversos ambientes. E isso ocorre porque, segundo ela, longe de ser uma
  • comunicação linear entre emissor e receptor, a relação entre o eu e o (s) outro (s) ficapermeada de ambiguidades que são geradas por diversos fatores, principalmente pelafacilidade do anonimato, pela construção múltipla de identidades nos vários espaços que ainternet propicia. Mas o que Lúcia Santaella faz, no seu livro ―Linguagens líquidas na era damobilidade‖ (2011) é também discutir esta noção de identidade, tendo como vistadesconstruir a crença de que a multiplicidade identitária só ocorra no ciberespaço, em suaspalavras: ―Longe disso, identidades são sempre múltiplas. A ideia de que a identidade possa ser con- sistentemente uma e engessada sustenta-se sobre uma noção de sujeito e subjetividade herdada do cartesianismo e já vem sendo colocada em crise pela filosofia e pela psicanálise há pelo menos um século. Se as identidades são sempre múltiplas, então porque o tema identidade tornou-se tão proeminente na cultura digital? O que os ambientes ciberespaciais modificaram em relação ao tema?‖ (2011, p.83-84). Partindo deste ponto vamos investigar um pouco mais a questão da noção deidentidades, das subjetividades partindo de olhares do filósofo francês Michel Foucault eposteriormente por olhares da psicanálise, pois como foi dito por Santaella, já há pelo menosum século estes temas já fugiram da ideia do homem como sujeito racional, reflexivo, senhordos comandos de seus pensamentos e ações como nos pressupostos Kantianos, hegelianos,fenomenológicos e até dos existencialistas.Contribuições de Foucault para uma visão do indivíduo e sua subjetividade Já na obra Vigiar e Punir Michel Foucault fornece aos leitores uma análise histórico-filosóficaprofunda sobre a estruturação de organização da sociedade Ocidental nos últimosséculos. Através de uma análise que tem como foco o sistema punitivo-legal ao longo dosséculos. Porém norteado pela construção histórica das punições submetidas ao corpo duranteos séculos e narrando estes fatos ele chegaa história mais recente da modernidade, concluindoque por meios mais requintados se chega ao sistema do panoptismo como forma devigilânciae controle sobre os corpos não só nas prisões, do sistema carcerário, mas também dofuncionamento das fábricae dos sistemas escolares, por exemplo. Para Foucault, a históriadoOcidente é uma história que pode ser reconstruída sob a ótica do binômio ‗vigiar e punir‘. Dentro do contexto sob o qual o autor estruturou esta temática que poderia serdemonstrada em qualquer âmbito do cotidianohistórico, mas que nesta obra está maisdiretamente relacionada com a dimensão judiciária, ele mesmo deixa claro o objetivo de seu
  • livro: ―uma história correlativa da alma moderna e deum novo poder de julgar; umagenealogia do atual complexo científico-judiciário onde o poder depunir se apoia, recebe suasjustificações e suas regras, estende seus efeitos e mascara suaexorbitante singularidade‖(p.23). Mas na concepção da nossa temática nos interessa lançar um olhar sobre o que eleestabelece na terceira parte do livro intitulada de ―Disciplina‖ (p. 117-187) que constitui porassim dizer ocoração da demonstração do novo sistema punitivo engendrado a partir doséculo XVIII. Aqui neste ponto ele de descreve as facetas ‗modernas‘ da criaçãoda disciplinacomo forma de inscrever na representação o ideário de ‗vigiar e punir‘. No capítulo I (p. 117-142), o autor relata as ‗modernas‘ formas e tecnologias para criar―corpos dóceis‖. Uma dos requisitos seria a ―arte das distribuições‖, isto é,distribuições deespaço e de corpos no espaço. Deve haver uma tendência a criar a disciplina apartir da arte dedistribuição. Um lugar certo para cada corpo, as filas, a ordem, as senhas que aindaconhecemos tão bem no nosso mundo moderno. Um segundo ponto é o controle da atividadedos corposdistribuídos no espaço, ou seja, o que se pode fazer e onde, e principalmente o quenão se pode ou deve fazer diante da sociedade, o que também se aprende desde cedo. Aorganização das gêneses e a composição das forças também fazemparte deste ideário decontrole social, ou seja, quem manda e quem detém o poder, por exemplo, deve estar clarodentro do esquema de controle e vigilância da sociedade moderna. Mas adiante, o autor tratados ―recursos para o bom adestramento‖ (p. 143-162). E neste ponto deixa claro que o melhorcaminho para o ‗bom adestramento‘ é a vigilância hierárquica, tão representativa nos modelosde todo funcionamento da sociedade, desde a família, com o pai e mãe, até as regras impostaspelo Estado a população em geral, que também podemos citar como exemplos que seencaixam na rotina da vida cotidiana moderna e contemporânea. O autor mesmodemonstraisso noexemplo de escolas e também de fábricas, com a distribuição de micro-poderes devigilânciaautorizados por uma autoridade hierárquica superior. Foucault reflete que toda lógica militar reside sobre esseprincípio. A sanção―normalizadora‖, que deve ser genérica, bem como o ―exame‖, aqui subentendido como asprovas, seleções, que se configuram em outrasformas utilizadas para um bom adestramentodos corpos. ―O exame combina as técnica dahierarquia que vigia e as da sanção quenormaliza‖ (p. 154). Neste ponto ele nos diz que ―a escola torna-se uma espécie deaparelho deexame ininterrupto que acompanha em todo o seu comprimento a operação doensino‖ (p.
  • 155). E por mais estranho que possa parecer é na vigilância e na normalização quese operauma ‗individualização‘. Mas de modo algum é uma individualização ‗ascendente‘, que projetaa pessoa para o cenário principal, de uma criatividade e modos de subjetividades próprios. Emcenário de regime disciplinar, a individualização, ao contrário, é descendente à medida que opoder setorna mais anônimo e mais funcional. Os indivíduos sobre quem se exerce o podertendem a ser maisfortemente individualizados, passando a se medirem uns aos outros, pormedidas comparativas que têm a ―norma‖ como referência,e não por genealogias que dão osancestrais como pontos de referência; mais por ―desvios quepor proezas‖ (p. 160-1). Se a visão do filósofo francês sobre a subjetividade dos indivíduos é um tema debatidoe controverso em muitos momentos por outros autores, em decorrência do fato de ter sidotrabalhado de modo diferente em outras obras, tome-se como referência o modelo por eleexposto em Vigiar e Punir, onde a sensação é a de que o indivíduo torna-se quase um robô dasregras sociais que lhe são impostas. Do contexto desta obra, que traça uma reflexão ampla dasociedade, se pode buscar uma ligação para tentar compreender como e porque no mundocontemporâneo e dentro do nosso estudo sobre as relações de exposição e diálogos nas redes emídias sociais, algumas das considerações do filósofo francês ainda estão vivas. Sua ideia do panóptico que é era a imagem deum edifício em forma de anel, no meiodo qual havia um pátio com uma torre no centro. O anel dividia-se em pequenas celas quedavam tanto para o interior quanto para o exterior. Em cada uma dessas pequenas celas, havia,segundo o objetivo da instituição, uma criança aprendendo a escrever, um operário atrabalhar, um prisioneiro a ser corrigido, um louco tentando corrigir a sua loucura, etc. Natorre havia um vigilante. Como cada cela dava ao mesmo tempo para o interior e para oexterior, o olhar do vigilante podia atravessar toda a cela; não havia nenhum ponto de sombrae, portanto, tudo o que o indivíduo fazia estava exposto ao olhar de um vigilante queobservava através de persianas, de modo a poder ver tudo sem que ninguém ao contráriopudesse vê-lo. Na discussão da temática dos homens modernos inseridos e imersos nas atividades dociberespaço, muitos questionamentos são levantados sobre a possibilidade de que o homemcontemporâneo esteja ainda mais vigiado que em todas as outras épocas. Isto, porquena era dacomunicação mediada por diversas tecnologias de rede, o homem em geral festeja sualiberdade, mas acaba se expondo tranquilamente aos regimes de vigilância tão previsíveisdentro das regras da Internet, por exemplo. Seus gostos, seus desejos, suas memórias, toda a
  • sua vida enfim fica gravada, ―para todo o sempre‖, uma vez inseridos na rede mundial decomputadores. As mídias sociais, como o Faceboock, por exemplo, a cada curtir de umindivíduo vai traçando seu perfil ―mercadológico‖e o repassando às empresas parceiras,prontas para ampliar o leque de desejos do indivíduo, fornecendo a ele mais e mais daquiloque ele deve e deseja consumir. Então, não seria incorreto suscitar a ideia de que estariamtodos sendo vigiados, observados, e principalmente, facilmente rastreados pelos IP´s -InternetProtocolo, que é o protocolo base de toda a Internet, que faz o roteamento de pacotes entresistemas TCP/IP dos computadores, que pode em minutos dizer a exata localização do usuárioe o dono da máquina que processou qualquer tipo de entrada de informação. Já nas suas últimas obras, prioritariamente de um modo aprofundado nos volumes quetratam da história da sexualidade, do saber, da ética e do cuidado de si como prática deliberdade, o autor vai tratar das formas de produção de subjetividades e das formas deestetização da existência, que darão novos contornos e possibilidades de ―fuga‖ aos regimesde vigiar e punir, o que para a contemporaneidade passou a ficar cada vez mais difícil, frente atantas câmeras, e mesmo a facilidade com que muitos desejam mesmo se expor diante dooutro, em tempos de big-brother, geolocalização instantânea, e tantos outros recursos quepermitem que o indivíduo esteja o tempo todo sendo monitorado, na maioria dos casosconscientemente e por vontade própria. Michel Foucault vai buscar na experiência histórica greco-romana os conceitos acercadas estéticas da existência, como estilos de vida diferenciados. Para ele, nas civilizaçõesantigas greco‐romanas, concentrando‐se nos anos I e II AC., haveria uma experiência pautadana afirmação da liberdade e na ética, com o intuito de criação de uma existência boa e bela(FOUCAULT, 2006 ‐ A: p.268). Haveria aí prescrições e cânones coletivos, porém sem aconstituição de um código de regras como viria a se instaurar no cristianismo, cumprido pormeio da obediência a uma vontade soberana de Deus. Com o cristianismo, vimos se inaugurarlentamente, progressivamente, uma mudança em relação às morais antigas, que eramessencialmente na Antiguidade, a vontade de ser um sujeito moral, a busca de uma éticadaexistência era principalmente um esforço para afirmar a sua liberdade epara dar à suaprópria vida certa forma na qual era possível sereconhecer ser reconhecido pelos outros, e naqual a própria posteridadepodia encontrar um exemplo. (FOUCAULT, 2006 - B:p.289-290). Toda essaabordagem constituiuma perspectiva ontológica que diz respeito acomo ossujeitos são constituídos em relações de poder e de saber, e também narelação consigo. Para o
  • pensador, é na dimensão ética expressa na relação de si paraconsigo que o indivíduo podeconfrontar o poder e criar um modo de vida mais livre eintensificado. Governar a si mesmo,as suas paixões desenfreadas, preceitos muito significativos naautarquia antiga, define‐seentão pela capacidadede dar forma a si próprio e de modular seus próprios valores, não sesubmetendo a umamoral dominante e normalizadora. Mas é relevante lembrar que Foucault, ao tratar deprocessos culturais e históricos,sempre tinha no horizonte a discussão sobre a própriaatualidade: a questão do presente. Nomomento em que ele investiga as estéticas da existência naexperiência greco‐romana, quermarcar uma diferença, um estranhamento em relação ao presente, não faz um estudo daantiguidade somente como um intuito historicista. Ele deixa claro que o anseio de constituir asi mesmo como um indivíduo livre, umcidadão da polis, é um dos objetivos dessa experiênciaantiga. Em linhas gerais ele postula que esse objetivo éconstituído por práticas com umaintenção de transformação e atenção a si mesmochamadas por Foucault de técnicas de si.Consistiam em áreas de atenção como aalimentação ‐ a dietética, as relações amorosas ‐ aafrodisia, a elaboração de si pelaescrita, como os cadernos de anotação chamadosHupomnêmatas, o falar francamente ‐como a parrésia cínica (FOUCAULT, 2006 ‐ C, p.147 e2009,p.248). Todas estas ações, que seriam elementos chave nas relações greco-romanas,estavamdestinadas à constituição de um cidadão e, nesse sentido, as artes daexistênciacontemplavam o cuidado com o outro, a constituição de si por meio de relaçõesdeamizade, de amor e de aprendizado ‐é possível que o termo ―cuidado de si‖ possaparecererroneamente aos ouvidos do mundo contemporâneo como uma espécie deegocentrismo. Mas trata‐se para Foucault de investigar outra relação possívelcom as normas,as prescrições e com a verdade – ao mesmo tempo lembrarmos queolhamos ainda dentro datradição ocidental – fazendo surgir um espaço diferenciado deconstrução de si. Neste ponto também é interessante observar considerações atuais sobre o que foiobservado por Foucault na forma de registro e vivência das sociedades antigas e o que vemocorrendo no mundo da comunicação mediada por redes de computadores e, particularmentepelas redes sociais. Na visão do grupo Sociotramas, que é um grupo de pesquisa dedicado aoestudo das redes sociais na internet e temas circundantes, e quereúne pesquisadores ligados aoPrograma de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica e ao Programa de EstudosPós-Graduados em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP, encontra-seuma
  • reflexão interessante sobre uma possível ligação do tema Hupomnêmatas e a criação datimeline no Faceboock, em meados de setembro de 2011. Na avaliação feita pela autora dopost, Patrícia Fonseca Fayana, em seu comentário publicado em junho de 2012, encontramosa seguinte declaração: Nos registros dos usuários, o tempo subjetivo e afetivo se revela em observações e comentários sobre acontecimentos do dia a dia; em avisos, frases retiradas de um livro qualquer ou trechos de músicas preferidas; em fotos dos eventos de família, das viagens e das crianças; em links para vídeos, matérias jornalísticas ou artigos assinados; em manifestações de caráter religioso, político ou humanitário; e assim por diante.Difícil não se recordar de Foucault, em A Escrita de Si (1983). Ele nos conta sobre os hupomnêmata, que podiam ser livros de contabilidade ou cadernetas de anotações que ―constituíam uma memória material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas‖. Não eram diários íntimos e tampouco simples suportes para o exercício da memória — nem tinham como função guardar segredos ou revelar o desconhecido, mas justamente o contrário: reunir e registrar o já dito, o já lido e o já ouvido por alguém, com a finalidade de, em momentos posteriores de reflexão, confrontar esses fragmentos de discurso consigo mesmo e seus pensamentos e ideias. Os hupomnêmatase constituíam, portanto, em importantes auxiliares da subjetivação do discurso e, por isso mesmo, contribuíam efetivamente para a formação da consciência de si — gnôthi seautón ou ―conhece-te a ti mesmo‖, atribuído a Sócrates — um conceito caro aos gregos.Os posts dos usuários na Timeline do Facebook e os hupomnêmata dos gregos parecem guardar algumas semelhanças entre si. Em ambos os casos, os registros se configuram como um misto de pontos de vista sobre as coisas do mundo, de caráter particular — porém, de acesso público. Outra semelhança aparente é que, em ambos os casos, os registros não buscam a fidelidade à realidade, mas a fixação de um ponto de vista. Se para os gregos a escrita dos hupomnêmata ajudava-os a combater a stultitia (agitação da mente, a instabilidade da atenção), em tempos de redes sociais, em que a tal stultitia parece reinar entre os internautas, os posts no Facebook — aparentemente inúteis, cansativos e sem significado, como observam alguns — talvez possam se revelar de grande utilidade na for- mação de um gnôthi seautón contemporâneo (2012). No entanto, observa-se que nem toda prática de si prevê uma positivaçãodasexperiências vividas e da relação com o outro. Ao contrário, com odecorrerdahistória, oque presenciamos hoje é um profundo grau de massificação, espetacularização da vida, dosfatos do cotidiano, e uma desvalorização vivenciada pelos indivíduos, cada vez maisatomizados e dependentes de mercadorias desenhadas para a satisfação imediata e fugaz.Outras visões das relações de subjetividade no mundo contemporâneo No mundo ocidental, mas claramente, consegue-se observar por todo lado políticasdesubjetivação produtoras de ―subjetividades mercadológicas‖, em que as relações comomundo e consigo são empobrecidas, em favor dos contatos flutuantes estimuladospelocapitalismo da informação (ROLNIK, 2005, p. 44).
  • O mundo contemporâneo demarcado pelo individualismo também se associa aoconsumismo, configurando aquilo que Debord (1997) chama de sociedade de consumoostentatório e do espetáculo, com a busca do prazer incessante e a obsessão pela imagemperfeita, de corpos e almas, tudo isso reforçado pelas ilusões farmacológicas para regular omal-estar. É também uma ―cultura do narcisismo‖, segundo propõe o historiador ChistopherLasch (1983), em sua obra, ―A cultura do narcisismo‖, na qual ele reflete sobre o que importanos tempos modernos e na cultura americana, particularmente, é a exaltação gloriosa dopróprio eu, uma cultura na qual não há lugar para a existência do amor, amizade, pois o queinteressa a cada um é o gozo predatório sobre o outro e sobre o seu corpo, que é tratado comoum anônimo qualquer, sem rosto. É, então, uma forma de estruturação que aponta muito maispara uma ―cultura de morte‖ do que para uma ―cultura de vida‖. Outra característica deste tempo, apontada pelo sociólogo Bauman (1998), são osfundamentalismos e seus fascínios, que prometem isentar cada um dos sujeitos das agruras daescolha, ofertando-lhes uma autoridade indubitavelmente suprema. Os fundamentalismosapresentam-se como um remédio de ordem radical para esse veneno da sociedade de consumoostentatório, pois oferecem ao indivíduo um caminho pré-determinado a ser percorrido, sendoentão uma certeza na incerteza característica do mundo pós-moderno. Podemos ainda destacarneste contexto um processo de estetização generalizado. Em ―Vida para o consumo‖,Bauman nos desenha um retrato particular do que estaria se tornando o sujeito moderno nosdias de cultura do consumo: As mercadorias confessamtudo que há para ser confessado, e ainda mais - sem exigir reci- procidade. Mantêm-se no papel de "objeto" cartesiano - totalmentedóceis, matérias obedientes a serem manejadas, moldase colocadas em bom uso pelo onipotente sujeito. Pela simples docilidade, elevam o comprador à categoria de sujeito soberano,incontestado e desobrigado - uma categoria nobre e lisonjeiraque reforça o ego. Desempenhando o papel de objetos de maneiraimpecável e realista o bastante para convencer, os bens domercado suprem e rea- bastecem, de forma perpétua, a base epistemológicae praxiológica do "fetichismo da sub- jetividade".Como compradores, fomos adequadamente preparados pelosgerentes de marketing e redatores publicitários a desempenhar o papel de sujeito - um faz-de-conta que se experi- mentacomo verdade viva; um papel desempenhado como "vida real",mas que com o passar do tempo afasta essa vida real, despindo-a,nesse percurso, de todas as chances de retorno. E à medida quemais e mais necessidades da vida, antes obtidas com dificuldade,sem o luxo do serviço de intermediação proporcionado pelasredes de compras, tornam-se "comodizados" (a privatização dofornecimento de água, por exemplo, levando invariavelmente àágua engar- rafada nas prateleiras das lojas), as fundações do "fetichismoda subjetividade" são ampliadas e consolidadas. Paracompletar a versão popular e revista doCogitode Descartes,"Compro, logo sou...", deveria ser acrescentado "um sujeito". Eà medida que o tempo gasto em compras se torna mais longo(fisicamente ou em pensamento, em carne e osso ou eletronicamente), multiplicam-se as oportunidades para se fazer esseacréscimo.(2008, p. 27).
  • Estas proposições elaboradas por Bauman também se inserem dentro do nosso objetode pesquisa das novas formas de comunicação em redes sociais, e nos leva ao conhecimentode algumas questões sobre as quais também se pode refletir, pois segundo o sociólogo, Cadavezmais pessoas preferem comprar em websites do que em lojas. E tal fato se daria pelaenorme conveniência (entrega em domicílio) e economia de gasolina, por exemplo poderiamcompor a explicação mais imediata, mas para Bauman estas são razões mais rasas e parciaisque escondem uma tendência de esconder o confortoespiritual obtido ao se substituir umvendedor pelo monitor , pois nas suas palavras: Um encontro face a face exige o tipo de habilidade social que pode inexistir ou se mostrar inadequado em certas pessoas, e um diálogo sempre significa se expor ao desconhecido: é como se tornar refém do destino. É tão mais reconfortante saber que é a minha mão, só ela, que segura o mouse e o meu dedo, apenas ele, que repousa sobre o botão. Nunca vai acontecer de um inadvertido(e incontrolado!) trejeito em meu rosto ou uma vacilante, mas reveladora expressão de desejo deixar vazar e trair para a pessoa do outro lado do diálogo um volume maior de meus pensamentos ou intenções mais íntimas do que eu estava preparado para divulgar. (2008, p.28) Os avanços tecnológicos de um mundo globalizado também reforçam todo essepanorama, pois permitem cada vez mais aos sujeitos do mundo moderno/contemporâneo ailusão de suportar o tempo marcadamente acelerado, estabelecendo comunicações variadasem qualquer lugar e momento. Assim, as novas e recentes tecnologias, como, por exemplo, ainternet e o celular, podem ter um efeito de fascínio sobre cada um, pois oferecem uma ilusãode liberdade de escolha, que parece infinita, mas que, ao mesmo tempo, demarcam umaausência de intimidade, pois o sujeito pode ser localizado a qualquer tempo e em qualquerlugar. Essa ilusão parece proteger o sujeito do medo do encontro, do íntimo e do contato como outro. A modernidade alimentou a ilusão de que tais forças da natureza, o controle do corpo edo tempo poderia ser controlado pela tecnologia, pela ciência e pela razão. O ideal deautossuficiência, que a liberdade e autonomia para qual o homem moderno foi educado viria aprotegê-lo, quem sabe, do incômodo do inferno que são os outros, parafraseando Sartre. Oque se vê hoje, então é a hipervalorizarão do ―cada um estar na sua‖ ou do ―estar bem aqui eagora‖, a importância do autoconhecimento, do ―ser mais eu‖. Dezenas de terapias, religiões eseitas, que se colocam hoje como alternativa para formar o homem para a felicidade e sucesso(MARIN, 2004, p. 89).
  • Mas como dissemos anteriormente são inúmeras as propostas de debates e visões dohomem e da sua subjetividade na era moderna na trincheira do uso das novas formas decomunicação, e postulados como o de Lucia Santaella (2011), aqui novamente nos ancorandonesta discussão, vem reforçar um olhar psicanalítico de onde a imagem do eu sempre foiproduto de uma construção imaginária. E é essa essência que nos ilude quanto à existênciadeuma forma coerente e unificada do ser humano. Santaella nos diz que, ―para Jung, porexemplo, o eu é um ponto de encontro de arquétipos diversos (...) Lacan (1982) demonstrouque o ego é, na realidade, uma coleção desordenada de identificações e a ilusória unidade doeu é uma projeção do imaginário‖ (2011, p.86). E a autora ainda no propõe a pensar que hojefala-se da subjetividade socialmente construída, descentrada, múltipla, inscrita na superfíciedo corpo, produzida pela linguagem e muitas outras formas, como por exemplo a imagem desubjetividade delineada por Edgar Morin (1996), ―quando este enfatiza que a incertezaexistencial é a marca do propriamente humano, do que decorre de fundar o pensamento naausência de fundamento e reinventar o sujeito a partir da lógica do ser vivo: bio-lógica‖(2010. P, 87). Por fim, mas não como proposta de ter esgotado todas as possibilidades eautores que debatem o sujeito e sua subjetividade no mundo contemporâneo, temos tambémas visões de uma subjetividade polifônica proposta pelo filósofo Félix Guattari, para o qual asubjetividade coletiva é engendrada ―por componentes semióticos irredutíveis a uma traduçãoem termos de significantes estruturais e sistêmicos‖ (1992. p, 162). Então por essa suaperspectiva não se poderia falar do sujeito em geral e de uma ―enunciação perfeitamenteindividualizada, mas de componentes parciais e heterogêneos de subjetividade e deagenciamentos coletivos de enunciação que implicam multiplicidades humanas, mas tambémdevires animais, vegetais, maquínicos, incorporais e infrapessoais‖ (idem. p, 162). Inserindo mais um pensamento que nos provoca e nos induz a fazer analises sobre asformações possíveis das subjetividade do indivíduos encontramos também em Santaella, naobra ―Corpo e Comunicação‖(2008), uma passagem que retoma os pensamentos de Freudonde o psicanalista, segundo Santaella, promove a universalização do sintoma, propondo quetodas as produções do espírito são sintomas, podendo inclusive ser transmitido o conceito desintoma de cultura onde não há nenhuma pretensão de uma construção de inconscientecoletivo e sim, segundo ela nos explica uma proposta do psicanalista de ficções coletivas queconduzem a eficácia de cada inconsciente, segundo ela: Assim sendo, os sintomas variam em função das ficções de cada época. Sendo uma con- sequência do tipo de recalque próprio de cada cultura, os sintomas também variam de acordo
  • com a cultura, quer dizer, há sintomas novos tantos quantos forem os novos modos de gozo. (...) Cabe, portanto a pergunta: quais seriam os modos de gozo do mundo contemporâneo, das sociedades pós-modernas do capitalismo tardio? De um mundo que vem assistindo ao colapso irremediável do projeto civilizatório iluminista com suas propostasde emancipação humana através de um conjunto de valores e ideais, consubstanciados em tendências como o racio- nalismo, o individualismo e o universalismo . (SANTAELLA, 2008, p. 139). Nas avaliações de Santaella (2008), tudo faz crer que dentro de uma culturacaracterizada pela hegemonia da ciência e da tecnologia, dominada pela força potente domercado que promete ilusoriamente a satisfação de todos os desejos e necessidades, e queagora tentam agarrar até mesmo os consumidores/indivíduos das classes E dos paísesperiféricos, a sugestão lacaniana, para a autora carrega um grande significado de que um dosaspectos do gozo na sociedade capitalista esteja encerrado dentro dos modelos do consumopelo consumo, como forma de obtenção de uma falsa satisfação, produção de subjetividades―líquidas‖ e fugidias.Conclusão Longe de presumir encerrar a discussão proposta por este artigo o que se pretende ésomente fazer um fechamento onde o que parece mais razoável diante deste debate é tentarfazer compreender que o sujeito não é unificado, suas subjetividades são uma construçãoincessante, de acordo com vários autores a análises que apresentamos. E principalmente o fatode que o indivíduo estar inserido nas redes sociais com seus codinomes, suas fantasias e seusmúltiplos eu´s não se perfaz nenhuma grande novidade, já que no mundo do real cotidianoface a face todos estão também sujeitos a vários papéis contextualizados de acordo com acena em que estão, e não existe uma separação nítida entre a realidade fora do ciberespaçoonde sim, habitam e proliferam identidades múltiplas e linguagens múltiplas que sedesenrolam num processo que se constrói na vivência de cada um.BibliografiaBAUMAN, Zigmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.BAUMAN, Zigmunt. Tempos líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.________ Vida para consumo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.________. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001
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