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A morte de Indinho foi objeto da cobertura de outros órgãos de imprensa. No jornalcarioca Jornal do Brasil, a matéria assi...
o objetivo justamente de combater a impunidade das mortes de jovens que atingia 100%dos casos no estado.       Os centros ...
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DE; Lourinopelembe O papel político do jornalismo e as representações de “menores” vítimas da violência

  1. 1. O papel político do jornalismo e as representações de “menores” vítimas da violência1Sonia Serra*A representação de questões e grupos sociais é um papel fundamental do jornalismo. Essacomunicação discute o papel político do jornalismo, a partir da revisão crítica de distintasteorias normativas da imprensa e tendo como referencial empírico a cobertura jornalísticasobre a violência contra jovens, em particular, jovens pobres e em sua maioria negros. Otrabalho enfoca a relação do jornalismo com os movimentos sociais, tomando comoexemplo organizações ligadas ao Fórum de Defesa da Criança e do Adolescente ecomparando as representações desses jovens na imprensa tradicional e na imprensa própriado Fórum.Introdução Expectativas democráticas em relação ao papel do jornalismo para a cidadania nassociedades ocidentais contemporâneas tradicionalmente incluem o atendimento de trêsordens de necessidades dos cidadãos: de informação, de participação e de representação. Os cidadãos e cidadãs precisam de informações completas e verdadeiras paraorientar a sua ação pública e privada e se relacionarem com os organismos governamentaise as empresas de que dependem. Autores mais críticos enfatizam que essas informaçõesdeveriam implicar uma diversidade de perspectivas que possibilitassem aos indivíduosexercer a crítica das idéias dominantes e reinterpretar a sua própria experiência social (Curran, 91). Essas informações são consideradas importantes também para que todos possamexercer o direito de participar do debate público, avaliando as diferentes análises epropostas em circulação. Segundo alguns autores isto implica em que o jornalismo devacumprir também o papel de mobilizar para esta participação e revigorar a sociedade civil. Cidadãs e cidadãos têm também o direito de ter suas idéias, condições de existênciae necessidades adequadamente representadas. Do ponto de vista dos movimentos sociais,enquanto agências de representação os meios noticiosos deveriam ajudar as organizaçõescoletivas na sua busca de apoio externo e de adesão de novos membros. Deveriam ajudar napromoção de suas campanhas e promover as condições para que pontos de vistaalternativos pudessem de fato se constituir.1 SERRA, S. (2004). O papel político do jornalismo e as representações de “menores” vítimas daviolência. Salvador: Actas do 2º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo.
  2. 2. O poder das representações da mídia tem sido apontado em muitas pesquisas. Arepresentação de questões e grupos sociais é um dos papeis centrais dos meios noticiososque, ao contrário do que afirmam muitos profissionais e certas correntes teóricas, nãoapenas transmitem informações e orientações mas, ao fazê-lo mapeiam culturalmente oespaço público e arbitram entre demandas retóricas de interesses conflitantes, a partir deprocessos discursivos próprios. Estudos de recepção mostram que as audiências podem resistir ou negociar asrepresentações presentes nos textos jornalísticos ou ficcionais mas, também fornecemevidências de que os receptores realizam leituras preferenciais de acordo, muitas vezes,com as intenções e as linhas de interpretação propostas nesses textos. A reflexão sobre os papeis do jornalismo está presente tanto nas teorias sócio-científicas que procuram analisar e explicar o seu funcionamneto e organização quanto nasteorias normativas que referem-se às expectativas de como o jornalismo deveria atuar e amodelos de como os sistemas de comunicação deveriam ser organizados para melhorestruturar esse desempenho. A primeira parte dessa comunicação revê as principais teorias normativas dojornalismo, especialmente com relação aos papéis de informação e representação nelaspropostos e discute o papel político do jornalismo com base em uma revisão da literatura. A segunda parte examina a cobertura jornalística da violência contra crianças eadolescentes e as representações dos “menores” brasileiros vítimas de violência a partir deexemplos retirados da imprensa comercial e da imprensa própria de organizações em defesadas crianças e adolescentes. A conclusão retoma a discussão sobre o papel do jornalismonas teorias normativas e nas explicações científicas e comenta a relação entre jornalismo emovimentos sociais2. Modelos normativos para o jornalismo Quando os primeiros jornais impressos apareceram no mundo ocidental, no iníciodo século XVII, doutrinas autoritárias da informação, relacionadas com regimes políticosabsolutos, eram então prevalecentes na Europa e nas suas colônias. Nessas sociedades, averdade era considerada como de origem divina, revelada aos seus intérpretes oficiais daMonarquia e da Igreja, portanto una e não sujeita à discussão pública mas, impondo-se à fé.
  3. 3. O pensamento era cerceado pelos dogmas, a expressão divergente podia ser levada àsmasmorras ou às fogueiras da Inquisição e tampouco havia liberdade de imprensa. A atividade de imprimir livros ou jornais era considerada um privilégio real, alicença para tal era concedida a poucos, e exercida sob forte controle das autoridades,muitas vezes sob o regime de censura prévia. O papel atribuído a esses jornais era o deservir aos interesses dos governantes e ao funcionamento do estado. Como sabemos, adefesa do controle rigoroso da informação e da subordinação do jornalismo aos interessesdo Estado é típica de regimes autoritários, dos quais o absolutismo europeu foi apenas umexemplo. Com o Iluminismo, afirma-se uma visão liberal, baseada na defesa da razãohumana, da liberdade de expressão, opinião e de imprensa, como direitos naturais dosindivíduos. Para a teoria “libertária”, do século XVIII e inicio do século XIX, que coexistiacom o liberalismo econômico e a ascensão da burguesia, a verdade resultaria dacompetição em um “mercado de idéias” livre de controles governamentais, o que bastariapara garantir a diversidade e o pluralismo. Nessa visão, o jornalismo político-literário tem um duplo papel. De um lado cumpremonitorar o Estado, exercendo a desconfiança e o questionamento dos governantes paraproteger os cidadãos dos seus abusos. De outro, junto com a revelação desses desmandos ea mediação das queixas e demandas do povo, informar e formar a opinião pública para quetodos possam exercer a cidadania. A opinião orienta a informação e a verdade para essejornalismo representante do cidadão, “watch-dog” e “quarto-poder”. Este é arma política einstrumento pedagógico. Narrativas concorrentes, com víes liberal ou radical, populista ou do determinismotecnológico, entre outras, idealizaram a trajetória do jornalismo desde a sua fase artesanalcomo empreendimento individual ou de associações políticas ou literárias, passando pelaimprensa de ”massa” das empresas familiares, até a presente fase da convergênciatecnológica do jornalismo eletrônico, do “infotainment” e da propriedade das grandescorporações transnacionais. De um lado, enfatizou-se a luta progressiva pela conquista da liberdade da imprensae sua contribuição para a democracia, o avanço tecnológico e profissional (Traquina, 2002).De outro, lamentou-se a desestruturação da esfera pública e do debate racional e a
  4. 4. descaracterização da atividade jornalística (Marcondes, 2000). A mudança de paradigma daopinião para a informação, das notícias de “interesse público” para as estórias de “interessehumano”, com o crescimento do mercado, a comercialização do jornalismo, sua auto-sustentação através das vendas “em massa” e da publicidade, entre outras mudanças, foramencarados tanto como sinônimo de independência (do Estado), autonomia e progresso comode subordinação (ao mercado e ao Estado), manipulação e decadência. Não é o caso de examinar essas questões aqui. Mas, para discutir o papel político dojornalismo é importante referir-se a princípios ainda vigentes no jornalismo atual que sãooriginários da época do liberalismo clássico e da sua revisão e auto-crítica, representadaprincipalemnte pela teoria da responsabilidade social, formulada após a primeira guerramundial, já no contexto da guerra fria. A despeito das significativas transformaçõoes dojornalismo na realidade, muitos desses valores continuam a orientar a sua prática ou pelomenos o discurso sobre ela. Em 1947, uma comissão americana sobre a liberdade de imprensa - a ComissãoHutchins, avaliou o estado dos meios de comunicação e fez recomendações para suamelhoria. Críticos da imprensa vinham enfatizando o crescimento do sensacionalismo, damanipulação e do declínio nos padrões informativos. O relatório da comissão condenou osensacionalismo e a mistura da opinião com a informação, admitiu que a teoria libertáriado livre mercado estava obsoleta e que ao lado da noção de liberdade deveria ser enfatizadaa idéia de responsabilidade social. A Comissão reconheceu que o acesso à imprensa só era garantido para uma minoriae que os proprietários não prestavam um serviço adequado às necessidades da população.Apesar disso, diferentemente dos críticos do sistema capitalista da imprensa que atribuíamos seus defeitos à propriedade privada, à busca do lucro e à dependência dos anunciantes epropunham mudanças mais radicais no sistema de organização e propriedade dos meios ena sua regulamentação, a comissão defendeu como solução para os problemas básicamentea auto-regulação e o estabelecimento de códigos de ética e padrões profissionais maisrigorosos. Entre os papeis propostos pela comissão para o jornalismo estavam: 1) fornecer umrelato completo, verdadeiro e inteligente dos acontecimentos do dia, inseridos em umcontexto que lhes conferisse sentido; 2) servir como um fórum para o debate e a crítica e
  5. 5. canal comum para a expressão pública; 3) apresentar um quadro representativo dos gruposconstitutivos da sociedade e esclarecer os valores e metas sociais (Mc Quail, 1994). Ofundamento da teoria da responsabilidade social é que os meios de comunicação de massatêm obrigações para com a sociedade, devendo estar a seu serviço.Com relação à práticajornalística, a teoria da responsabilidade social recomenda que os meios noticiosos devemser: verdadeiros, precisos, justos, neutros, imparciais, objetivos e relevantes. A visão marxista-leninsta do jornal como um organizador coletivo e meio deagitação e propaganda por outro lado desafiava essas concepções da “imprensa burguesa” esuas pretensas noções de neutralidade, imparcialidade e objetividade. A partir da década de 1970, as concepções liberais entraram em choque tambémcom outras perspectivas que enfatizaram o direito à informação e à comunicação, o acessouniversal e fluxos mais equilibrados entre nações e grupos, a exemplo do movimento poruma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação, constituído por países emdesenvolvimento, com apoio da Unesco. Por reivindicar a adoção de políticas nacionais einternacionais para regular os meios de comunicações o movimento foi duramentecriticado pelos países centrais, como Estados Unidos e Inglaterra que se retiraram daorganização da ONU. Outras propostas alternativas de comunicação inspiradas porexemplo na Pedagogia do Oprimido e em modelos “de um outro desenvolvimento “ que seopunham às visões desenvolvimentistas sugerem outros papéis mais ativos e participativospara os meios de comunicação e os jornalistas. Principalmente a partir do final dos anos 80 um novo modelo surgido também nosEstados Unidos e com certa influência em diversos outros países novamente passou adesafiar algumas das noções básicas da teoria da responsabilidade social e a defender oempenho dos meios noticiosos na busca de soluções para os problemas da comunidade. Omovimento do jornalismo público ou cívico contestou principalmente a noção deobjetividade, que implicava em distanciamento social do jornalista e uma série deseparações: dos fatos dos valores, de sentimentos sobre os fatos das reportagens sobre osfatos, da identidade profissional da identidade pessoal. Propôs ao contrário, conexões entreesses pares e defendeu o engajamento dos jornalistas na comunidade. Defendeu uma novamudança de paradigma do ‘jornalismo de informação’ para o ‘jornalismo de conversação’(Glasser e Craft, 1998).
  6. 6. Do ponto de vista teórico, essas concepções foram criticadas também com relação àsua inadequação à realidade das organizações jornalísticas contemporâneas. James Curran(2002) comenta que sem dúvida o papel de vigilância do Estado, enfatizado peloliberalismo, deve permanecer sendo considerado fundamental. Entretanto o pesquisadorbritânico avalia que esse principio organizativo da teoria liberal, derivado da época dojornalismo político do século XIII, na verdade, define como principal papel do jornalismoalgo que, atualmente, ele não faz a maior parte do tempo. O autor comenta ainda que uma nova concepção do papel do jornalismo a esserespeito deveria considerar também o papel de monitoramento do poder privado, o que é naverdade difícil de cumprir no contexto contemporâneo do jornalismo pertencente aosgrandes conglomerados voltados cada vez mais para o entretenimento e eles mesmos partedesse poder corporativo. Outro problema apontado é que a independência e autonomia do jornalismoassumidas nessa perspectiva liberal não correspondem à realidade das relações de força oude coalizão entre o jornalismo e as elites no poder e entre os profissionais e proprietários.Menores bandidos ou crianças assassinadas? Para analisar a forma como a mídia noticiosa opera e as representações dos“menores” no jornalismo comercial, duas matérias publicadas por um tradicional jornalpaulista oferecem um exemplo instigante. A primeira intitulada "Crianças desapareceramda Sé, denuncia OAB" tem como principal tema subjacente a violência policial contra"meninos de rua". A segunda, por outro lado, intitulada "Praça da Sé vive guerrilha demeninos", focaliza principalmente a violência praticada pelos "menores". O lead da primeira matéria informa que, de acordo com a Ordem dos Advogadosdo Brasil, o desaparecimento de dois adolescentes, um rapaz de 17 e uma menina de 13anos, que viviam na Praça da Sé, em São Paulo, estaria relacionado com seu interrogatóriopela CPI criada para investigar denúncias de extermínio de crianças e adolescentes. Naconversa com os parlamentares os jovens teriam denunciado atos de policiais violentos etraficantes envolvidos com torturas e extermínio de menores e um dos garotos tambémchegara a entregar uma carta ao Presidente Collor, na qual afirmava que policiaiscontratados por comerciantes integravam os grupos de extermínio.
  7. 7. O que chama mais atenção nesta matéria é a sua ilustração. A foto mostra uma cenaem que dois jovens, (um deles bastante forte), seguram um homem e enfiam a mão no seubolso. Um adolescente está se aproximando do grupo com o rosto coberto pelo capuz docasaco, enquanto outro está deitado no banco, enrolado em um cobertor. Contrariando aimagem mostrada, que indica um assalto, a legenda diz : "Menores brincam na Praça daSé: medo de ser assassinados" (O Estado de São Paulo, 7.08.1991: 12). Entretanto, a mesma foto, agora com uma vista mais completa da praça, é uma dasprincipais ilustrações da segunda matéria, uma reportagem de página inteira, no mesmojornal, poucos dias depois. Desta vez, a legenda afirma: "Na saída do metrô, meninosparam a entrevista do repórter do Estado para assaltar um velho e depois voltam paracontinuar, com naturalidade, a conversa". O artigo, assinado pelo repórter Roldão Arruda,tem o seguinte sub-título: "A violência que cresce dia a dia atingiu o clímax ontem, com oassassinato de um menor durante assalto" (O Estado de São Paulo, 18.08.91: 22). O eventoiniciador é a morte de Indinho, um rapaz de 17 anos, baleado na Praça. A abertura informaque, de acordo com as investigações do delegado do distrito policial, o rapaz, que tentaraassaltar um casal, fora morto por um homem não identificado que reagira ao assalto. Por que um dos recursos mais utilizados para atestar que uma matéria jornalística éuma fiel reprodução da realidade é manipulado desta forma, mesmo em jornais de prestígiocomo o Estado? Como este recurso pode ser utilizado pelo mesmo jornal para construirrepresentações tão distintas de questões e grupos sociais? Para sugerir possíveis respostas para estas questões, uma descrição mais detalhadadas matérias inicialmente se impõe. Mas, para entender os processos de seleção eapresentação envolvidos será necessária uma análise do contexto em que os fatos ocorrem. Na primeira matéria as denúncias da Organização dos Advogados do Brasil (OAB)e suas críticas à atuação da CPI do extermínio são complementadas com declarações defontes do lado dos "meninos de rua". Sob o intertítulo "Medo" uma educadora de rua,voluntária da Pastoral do Menor da Arquidiocese de São Paulo, é nomeada e citadareferindo-se à constante violência praticada por policiais contra os menores na praça e aameaças de morte feitas pelos matadores profissionais. Também acrescenta-se uma citaçãode um dos moradores da praça, não identificado, que se afirma ter 16 anos e já ter sidobaleado pela policia e ter visto dois amigos morrerem, um vítima de um linchamento e
  8. 8. outro de um tiroteio. Ele fala do medo que sente dos que o perseguem com revólveres. Amatéria comenta que para esses menores da Praça, que "vivem de pequenos roubos aindiferença diante da violência é a melhor forma que encontraram para enfrentá-la". Mas o artigo conjuga, através do intertítulo "Fuga" a notícia da fuga e recaptura dedois adolescentes de uma unidade da Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem) que serve de gancho para tratar da questão do processo de desativação da Febempela Secretaria do Menor. A fonte ouvida para comentar estes acontecimentos é o Juiz da 1aVara Especial da Infância e da Juventude de São Paulo. O juiz refere-se a centenas defugas por mês e alerta sobre a ineficiência do sistema de acompanhamento dos menoresinfratores que estão sendo colocados em liberdade a partir das mudanças na legislação quelimitou grandemente os casos de internamento, substituindo-os por processos sócio-educativos. Outras declarações do juiz da 1a Vara levantam questionamentos sobre asatividades dos "cinco mil funcionários do órgão" e afirma que muitas vezes o atendimentoprescrito pelos juizes não tem sido cumprido. Em agosto de 1991, os "meninos de rua" estão no centro de uma controvérsiapública. Essa opõe de um lado grupos ligados ao Movimento Nacional de Meninos eMeninas de Rua (MNMMR) e demais defensores de direitos humanos e do outro setoresmais preocupados com a segurança da população. Enquanto os primeiros denunciam aviolência praticada contra esses jovens, os outros reclamam da violência praticada por elese fazem campanha contra o Estatuto da Criança e do Adolescente que considerampermissivo e responsável pelo aumento dessa violência. As denúncias do "extermínio de crianças" destacadas nos relatórios da AnistiaInternacional com ampla repercussão na imprensa internacional provocavam diferentesreações na imprensa nacional e no governo e sociedade brasileiros (Serra, 2000). Em julho,uma resolução do Parlamento Europeu condenando os atos de violência contra os meninosde rua e a aparente indiferença das autoridades brasileiras e ameaçando condicionar asrelações econômicas com o Brasil à resolução do problema, levara o jornal O Estado deSão Paulo a destacar um repórter para investigar o assunto. O repórter especial, Roldão Arruda, o mesmo da matéria citada, levantou o perfil eestória de vida das vítimas e as condições de suas mortes. A reportagem sobre oassassinato de 30 crianças e adolescentes durante o mês de julho em São Paulo foi
  9. 9. publicada no dia 04 de agosto, provocando reações positivas de organizações da sociedadecivil e do governo. Embora o jornal contestasse a visão de uma campanha deliberada paraeliminar crianças, reconhecia que a maioria dos mortos era pobre e que nem todos haviamsido assassinados por serem bandidos, como o senso comum acreditava. Após a investigação do jornal, a OAB criara uma comissão especial para investigaras execuções sumárias de crianças e adolescentes e por outro lado, o jornal passara a darespaço para as organizações em defesa dos meninos de rua, inclusive setores ligados àPastoral do Menor do setor "progressista" da Igreja Católica, então bastante criticada pelojornal. Entretanto, as matérias sobre a violência contra os menores, como a primeiramatéria mencionada, provocaram reações indignadas de setores da sociedade quequeixavam-se que o jornal representava delinquentes perigosos como mártires e cobravamque o jornal olhasse o outro lado (entrevistas com o repórter Roldão Arruda e o editorRoberto Gazzi à autora, 1994). Assim, a segunda matéria, apesar de ter como evento iniciador o assassinato de umjovem, tinha como foco a violência praticada pelos menores. Essa visão prevalecia apesarde que no segundo parágrafo, a matéria esclarecesse que a versão policial, baseada emdepoimentos de dois adolescentes, de que o desconhecido matara o garoto que o assaltava,era contestada por outros dois rapazes que afirmavam serem policiais os autores doassassinato. A reportagem traz fotos também de meninos dormindo no chão da praça, em frenteà Igreja e daqueles que os "assistem", segundo esclarece a legenda: a educadoramencionada na matéria anterior e um capitão que aparece conversando com um rapazsentado no banco. No pé da página outras fotos mostram um garoto cheirando cola e umoutro com a camisa enrolada, cobrindo o rosto, deixando ver apenas os olhos. A legendainterpreta: "Cenas dos "guerrilheiros" da Sé em sua rotina diária na praça; crianças queescondem a identidade, sem causa maior além da sobrevivência e que roubam basicamentepara comprar a cola que cheiram o dia inteiro" (O Estado de São Paulo 18.08.91:22) Nesta reportagem o repórter narra a estória como testemunha ocular. Sua narrativaapresenta grupos de crianças e adultos correndo na praça para assaltar os transeuntes e orelato afirma que em menos de meia hora cinco assaltos haviam sido cometidos.
  10. 10. A morte de Indinho foi objeto da cobertura de outros órgãos de imprensa. No jornalcarioca Jornal do Brasil, a matéria assinada por José Maria Mayrink, da sucursal paulista,já expressa a linha adotada, no título, em convergência com a matéria do Estado:“Bandidos e ‘trombadinhas’ fazem inferno, na Praça da Sé (Jornal do Brasil 18.08.91).Aqui as principais fontes são um representante da Associação Comercial, exigindo maiorrepressão policial e o militar que fazia campanha pela abolição do Estatuto, considerandoque a lei era tolerante demais com os menores e atingia os direitos dos cidadãos de bem. Vale salientar, entretanto, que na mesma edição o jornal trouxe uma grandereportagem, assinada por Antonio Mendes, do Rio, que tinha como únicas fontes membrosde organizações não-governamentais e a Presidente da CPI do Extermínio que contestatvamos ataques que vinham sendo feitos contra o Estatuto da Criança e do Adolescente. É interessante comparar essas matérias com uma reportagem especial publicada pelarevista Isto É (28.08.91). A matéria, de cinco páginas, apoiou-se na morte de Indinho paradescrever a vida dos “meninos de rua” no Rio, Recife e São Paulo. A matéria entretanto,contrasta bastante com as descritas aquí e mesmo matéria anteriores da própria revista eparticularmente com uma matéria publicada meses antes pela sua principal concorrente, aVeja - a revista semanal de notícias e atualidades com muito maior circulação nacional. Enquanto essas últimas apresentavam como enquadramento dominante os menorescomo uma ameaça à sociedade, dando destaque ao seu comportamento violento, areportagem especial da Isto Ë enfatizava a necessidade de proteger essas crianças e jovens,representados como um grupo ameaçado pela miséria, violência e arbitrariedades da famíliae da sociedade, incluindo a polícia e o Exército. Aqui a temática é a luta pela sobrevivência desses jovens, levados à delinquênciadevido ao seu contexto social e à falta de oportunidades em um Estado falido. O foco são asmortes dramáticas desses jovens, assassinados por policiais e vigilantes. Alinhada com aposição das organizações em defesa dos direitos humanos, a matéria aponta a necessidadede acabar com a impunidade dos crimes contra essas crianças e adolescentes. É importante agora comparar essa cobertura do jornalismo comercial com asrepresentações da imprensa própria do movimento. Neste texto, toma-se como exemplo acobertura do jornal Saci, que foi lançado em dezembro de 1991, pelo Centro de Defesa daCriança e do Adolescente – CEDECA, organização criada pelo Fórum DCA da Bahia, com
  11. 11. o objetivo justamente de combater a impunidade das mortes de jovens que atingia 100%dos casos no estado. Os centros de defesa das crianças e adolescentes avaliavam que de forma dominantea grande imprensa tratava o “problema do menor” de uma forma superficial e poucoanalítica que contribuía para agravar o problema, considerando que os jornalistas “tendiama reproduzir o senso comum, o conservadorismo, a tradição” (CBIA, TERRA NUOVA,UNICEF, 1992). O jornal que circulou até 1996, era distribuído nos bairros periféricos, nos veículosde comunicação e em instituições como o Ministério Público e delegacias de polícia. Apartir de 1993, passou a ser a publicação oficial da Rede de Defesa da Criança e doAdolescente. O Saci colocava como seu objetivo principal divulgar os casos deassassinatos e agressões de jovens, visando provocar mobilizações da sociedade de formadireta e também através da pressão à grande imprensa. O jornal esperava influenciar a imprensa comercial em relação a dar um novotratamento à questão do “menor”. Neste sentido, inclusive, o Saci funcionava como umobservatório da imprensa, comentando matérias publicadas nos outros jornais. Na maiorparte das vezes, contestando as representações alí presentes, rebatendo a forma pejorativa,superficial, o “factualismo” e “sensacionalismo” , mas, ocasionalmente elogiando algunsartigos que denunciavam violências contra as crianças e adolescentes. O órgão do CEDECA cobria também questões ligadas à educação, saúde, problemascomunitários e as ações da sociedade civil na luta contra a violência contra as crianças eadolescentes. Essas matérias procuravam mostrar que a violência era um problemaestrutural e conjuntural cujas causas estavam atreladas a fatores como a falta de acesso àescola ou tratamento médico para as populações carentes. Principalmente a partir de 1994,a noção de violência contra os jovens amplia-se a partir das campanhas de combate àexploração sexual de meninos e meninas e de denúncia do trabalho infantil, que não serãoentretanto objeto desta comunicação (ver Serra, Costa e Prates, 2001). O enquadramento predominante procura contestar a representação tradicional do“menor” como uma ameaça à sociedade, mostrando-o ao invés, como vítima dessa mesmasociedade e das autoridades e aparece desde o número especial de lançamento: “O extermínio virou rotina e os jovens são as maiores vítimas do caos social. O Estado não cumpre com o papel de oferecer saúde, moradia e
  12. 12. educação às crianças brasileiras; os policiais despreparados que ameaçam, espancam e matam ao invés de protegê-las e a Justiça que garante impunidade aos crimes cometidos”. Procurando romper com a idéia de que os jovens, em sua maioria pobres e negros,vítimas de assassinatos são culpados pela própria morte e chamar atenção para a violênciapolicial, os casos de violência que têm maior destaque no Saci referem-se a jovens que nãoeram infratores e que foram mortos por policiais. Na matéria “PMs matam cinco adolescentes” (SACI, n.2), por exemplo, destaca-seque as “vítimas tinham família, bom comportamento, uma vida normal e foram mortasdiante de inúmeras testemunhas.” As reportagens, embora citem como fontes os inquéritospoliciais, muitas vezes contestam as versões policiais de que as mortes ocorriam em“legítima defesa”, como destacado na manchete “Adolescente metralhado pelas costas porpoliciais civis” (SACI, n.2) ou no trecho “O menino se assustou e correu sendo baleadopelas costas” (SACI, n16). Visando sensibilizar a sociedade, as matérias do Saci sobre adolescentesassassinados enfatizam o lado humano das vítimas, representadas não como marginais mascomo trabalhadores e cidadãos normais com desejos e vidas comuns aos demais jovens: “Burá, como era mais conhecido, trabalhava – e muito – no bar do sargento Itamar não muito longe de casa. Dormia no balcão e folgava uma vez por semana...Burá perdeu seu direito a dar risada, a imitar os Trapalhões e os desenhos animados da TV. A morte surpreendeu-lhe num ponto de ônibus quando pretendia visitar a tia, aproveitando o dia de folga. Em poucos minutos, conheceu a brutalidade, a loucura, o medo e a injustiça” (SACI, n.5). Nessas matérias os familiares das vítimas têm espaço para mostrar a sua dor, revelara sua indignação com as atrocidades cometidas contra suas crianças inocentes e a revoltacontra a impunidade dos crimes. O jornal é também um veículo para noticiar os atos deprotesto dos parentes e amigos e demais formas de organização da comunidade e dasociedade civil, enfatizando-se as ações do próprio Cedeca, visando promover a puniçãodos criminosos e a responsabilização das autoridades.
  13. 13. Conclusão O jornalismo desempenha papéis fundamentais para a vida pública nas democraciasrepresentativas contemporâneas. Como alguns autores argumentam, essa visibilidademidiática é fundamental para a promoção de um debate público generalizado “que informae reconstitui os espaços de discussão não midiáticos e as esferas públicas locais, maisrestritas” e ajuda a “criar uma base reflexiva para a promoção da deliberação pública nassociedades complexas” (MAIA, 2002:2). A doutrina liberal preconizava que a mídia noticiosa deveria proteger o cidadão dosabusos do Estado, informar o eleitor e expressar a opinião pública, entendida como umagregado de opiniões individuais. Esta concepção normativa influenciou análisessociológicas do jornalismo na mesma linha mas, como críticos têm demonstrado, tal visãocentrada no indivíduo, não atende às circunstâncias atuais já que obscurece o papel dospartidos políticos, grupos de pressão e movimentos sociais que promovem interessesindividuais, pressionam o Estado e influenciam a opinião pública de forma organizada ecoletiva (Curran, 1991). Além disso deve-se acrescentar que esta concepção ignora tambémas configurações contemporâneas da vida pública que extrapolam as fronteiras nacionais(Serra, 2000). Alguns jornalistas se auto-definem como neutros, imparciais e objetivosperseguidores da verdade, outros assumem uma postura mais engajada no seu trabalhoprofissional. Parece haver certa correlação positiva entre a auto-definição dessesprofissionais e a mediação exercida que implica em processos próprios de seleção e edição,de ênfases e ocultamentos e de enquadramentos diferenciados. Entretanto, o jornalismo tem, em larga medida, abdicado do seu papel de “ watchdog” ao substituir o jornalismo investigativo por meios passivos de cobertura baseada emrelatos de promotores de notícias, muitos deles oficiais . No campo dos problemas sociaiseste papel é muitas vezes transferido para as organizações da sociedade civil. Jornalistasque mantêm contato com as comunidades ou com essas organizações que a elas sevinculam têm um papel mais pró-ativo no agendamento de problemas sociais. A definição de um jornalismo objetivo, como defendido pela teoria daresponsabilidade social implica em que o significado da estória é construído pelos própriosfatos, sem uma interferência deliberada dos jornalistas. Na verdade sabe-se que asnarrativas jornalísticas constroem significados que definem a realidade. A busca da
  14. 14. verdade pelos jornalistas será orientada pelas distintas visões de mundo mas, eles sãoinfluenciados pela cultura hegemônica na sociedade. Estudos de autores de diferentes tradições teóricas apresentam em comum aconclusão de que apesar das pretensões de balanço e objetividade das teorias normativas dojornalismo de origem liberal, os interesses das fontes poderosas na sociedade normalmenteprevalecem na cobertura jornalística. Vários fatores concorrem para que as representaçõesvigentes no jornalismo sejam influenciadas principalmente por pressões de cima para baixo.Entretanto, têm sido apontadas também algumas condições e fatores que contribuem paraque interesses de grupos subordinados possam ganhar visibilidade. Entre estes incluem-se a capacidade dos movimentos sociais de promoverdefinições alternativas através de uma imprensa própria ou de esforços para influenciar amídia de massa. Pesquisas mostram que essa capacidade aumenta significativamentequando essas organizações conseguem o apoio de atores com maior capacidade de pressãosobre a mídia (SERRA, 1996). As novas tecnologias de comunicação e a Internet seapresentam também como novas possibilidades para ampliar a capacidade comunicativadessas organizações. Entretanto, o público também representa constrangimentos importantes eefetivamente reclama quando os seus jornais parecem romper os seus “contratos de leitura”.Em sociedades como a brasileira o público dos jornais e revistas de grande circulaçãopertence às camadas médias e altas. A concentração da propriedade nas mãos de poucasempresas familiares que dependem de anunciantes interessados nesse público de maiorrenda coloca limites importantes para um efetivo pluralismo e diversidade nos meios. Issorepresenta também pressões éticas sobre profissionais que gozam de uma “autonomiaconsentida” (Curran, 1990). Os movimentos sociais deixaram de simplesmente criticar a mídia para reconhecerque estes são campos estratégicos para a sua luta. Essa implica também uma disputa porpossibilidades de acesso e uma batalha por interpretações. Neste sentido as relações entrejornalistas e representantes dos movimentos são fundamentais. Mas, para que o jornalismopossa atender adequadamente os papeis de informação, representação e participação dosdiferentes grupos é necessária além da ação coletiva e da responsabilidade individual aadoção de políticas que possam constituir um sistema mais democrático que permita à
  15. 15. imprensa própria dos movimentos que normalmente enfrenta muitas dificuldades desobrevivência participar em melhores condições desse debate público.Referências BibliográficasCBIA, TERRANUOVA,UNICEF. Bahia: suas crianças e adolescentes. O que está sendo feito. Salvador,1992.CURRAN, J. Culturalist Perspectives of News Organizations: A Reappraisal and a Case Study. InFERGUSON, M. (org.) Public Communication. London: Sage, 1990.CURRAN, J. Media and Power. London: Routledge, 2002.GLASSER, T.L., CRAFT, S.Public Journalism and the search for democratic ideals. In LIEBES, T. eCURRAN, J. (orgs.) Media, Ritual and Identity. London: Routledge, 1998.MAIA, R. Mídia e deliberação pública: mediações possíveis. Trabalho apresentado no Encontro daAssociação Nacional de Porgramas de Pós-graduação em Comunicação (Compós), 2001.MARCONDES FILHO, C. Comunicação e Jornalismo: A Saga dos Cães Perdidos. São Paulo: HackerEditores, 2000.MCQuail, D. Mass Communication Theory: na introduction. 3a edição. London: Sage, 1994.SERRA, S. Multinationals of Solidarity: international Civil Society and the Killing of Street Children inBrazil. In BRAMAN, S. e SREBERNY-MOHHAMADI, A Globalization, Communication andTransnational Civil Society. Cresskill, NJ: Hampton Press, 1996.SERRA, S. The killing of Brazilian street children and the rise of the public sphere. In CURRAN, J. MediaOrganizations in Society. London: 2000.TRAQUINA, N. O que é Jornalismo. Quimera, 2002.* Sonia Serra é PhD em Mídia e Comunicações pela University of London e professora do Programa de PósGraduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Ufba e da Faculdade de Tecnologia e Ciências.Este trabalho é baseado em resultados de pesquisas financiadas pelo CNPq.

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