Lamoso   comércio exterior brasileiro e a tese da reprimarização da economia
Upcoming SlideShare
Loading in...5
×
 

Like this? Share it with your network

Share

Lamoso comércio exterior brasileiro e a tese da reprimarização da economia

on

  • 726 views

 

Statistics

Views

Total Views
726
Views on SlideShare
726
Embed Views
0

Actions

Likes
0
Downloads
5
Comments
0

0 Embeds 0

No embeds

Accessibility

Categories

Upload Details

Uploaded via as Adobe PDF

Usage Rights

© All Rights Reserved

Report content

Flagged as inappropriate Flag as inappropriate
Flag as inappropriate

Select your reason for flagging this presentation as inappropriate.

Cancel
  • Full Name Full Name Comment goes here.
    Are you sure you want to
    Your message goes here
    Processing…
Post Comment
Edit your comment

Lamoso comércio exterior brasileiro e a tese da reprimarização da economia Document Transcript

  • 1. COMÉRCIO EXTERIOR BRASILEIRO: A TESE DA “REPRIMARIZAÇÃO” DA PAUTA EXPORTADORA E SUAS REPERCUSSÕES PARA MATO GROSSO DO SUL Lisandra Pereira Lamoso Doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Docente na Graduação e no Mestrado em Geografia da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). lisandralamoso@ufgd.edu.br INTRODUÇÃO O mercado externo é acessado através das relações de comércio exterior erepresenta o vetor de inserção da economia nacional nas relações internacionais. A maiorparte dos países sul-americanos teve seu modelo de desenvolvimento econômico atrelado aosimpulsos partidos do centro dinâmico do capitalismo. A forma como se ocorreu/ocorre estainserção é reveladora de importantes características de sua formação sócio-espacial. O comércio exterior brasileiro, nos anos noventa, apresentou uma redução daparticipação de produtos manufaturados nas exportações, concomitantemente ao aumentodas exportações de produtos básicos, de origem agrícola e mineral. Esse aumento deexportação de produtos de baixo valor agregado provocou discussões acerca da possível“reprimarização” da economia brasileira. Gonçalves (2003) apresentou dados para os anos noventa para argumentar arespeito do movimento de “reprimarização”: A participação do Brasil no comércio mundial de produtos agrícolas aumentou de 2,43% em 1990-94 para 2,92% em 1995-98. Por outro lado, os produtos manufaturados mostram uma tendência de aumento na primeira metade da década de 1999, mas uma queda ao longo da segunda metade da década. A participação média das exportações brasileiras no comércio mundial de manufaturados reduziu-se de 0,76% em 1990-94 para 0,68% em 1995-98. Segundo dados do MDIC (2010), no conjunto do total nacional, nos anos de2006, 2007 e 2008 a participação percentual dos produtos básicos sobre o valor total foi de,respectivamente: 29,2%, 32,1% e 36,9%. Para as exportações de manufaturados, no mesmoperíodo, os percentuais foram de 54,4%, 52,3% e 46,8%. Esse movimento pode sercompreendido a partir de dois processos: como reflexo da perda de competitividade Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 1
  • 2. 2internacional dos produtos manufaturados e também como uma expressão da mudança naestrutura das exportações, com uma participação maior dos produtos agrícolas e menor dosprodutos manufaturados. O movimento de “reprimarização” foi afetado pela crise financeira de 2008 eainda não sofreu os reflexos das recentes ações do Governo, como a Política deDesenvolvimento Produtivo (PDP) e as ações diretas da nova política industrial no sentido dereverter esse movimento. Este trabalho tem o objetivo de discutir as implicações do processode “reprimarização” das exportações para uma fração do espaço nacional, o estado de MatoGrosso do Sul. Os dados sobre comércio exterior foram obtidos para o período de 2006 a 2009na Secretaria de Comércio Exterior (SECEX) nas seguintes variáveis: produção exportada,fator agregado, empresas exportadoras, municípios exportadores. A revisão bibliográficaconsiderou a discussão presente em Rangel (2001) sobre o caráter complementar daeconomia brasileira frente aos países que ocupam a vanguarda do desenvolvimento e osimpulsos recebidos do centro dinâmico do capitalismo; a discussão de Paulino (2002) sobre ainserção do Brasil na nova Divisão Internacional do Trabalho; a de Gonçalves (2003), sobrea tese da “reprimarização da economia brasileira” no final dos anos noventa; Almeida (2009)sobre os paradoxos da política industrial do Governo Lula e Amsden (2009) sobre osdesafios postos para os países emergentes que aumentaram sua participação no comérciointernacional baseada na recuperação do papel do Estado no comando de estratégiasnacionais de desenvolvimento. Aproximar a discussão da economia de exportação às reflexões no âmbito daGeografia talvez esteja sendo o maior desafio enfrentado por essa pesquisa. Algumascontribuições teóricas têm sido consideradas como ponto de partida. Veltz (1999) consideraque as transformações recentes na forma de produção e de comércio colocam o territóriocomo uma matriz de organização e de interações sociais e não mais como repositório derecursos técnicos. Santos já afirmava sobre isso ao abordar a transição da ação globalizada comonorma ao território local como norma. Para compreender essa nova dimensão do territóriocontinua necessário considerar as relações entre classes e como as frações hegemônicasinternacionais se impõem de forma pontual, se valendo dos efeitos de uma eficiente Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 2
  • 3. 3coordenação e administração que passou a ser otimizada pelos avanços na logística detransportes e comunicação, que acentua os fluxos e as interações espaciais. Os espaços daseconomias de exportação são considerados na pesquisa segundo a expressão de Santos(2005) como “espaços da globalização”, nos quais o mundo se dá como norma ao ofereceroportunidade da espacialização, em diversos pontos, de seus vetores técnicos, informacionais,econômicos, sociais, políticos e culturais”(SANTOS, 2005, p. 169). É no interior dessas reflexões que procuramos compreender as características doterritório usado pelos principais grupos exportadores no Mato Grosso do Sul. As dinâmicasprodutivas regionais acompanharam o movimento nacional de da exportação de produtosagroprimários e minerais.A PREDOMINÂNCIA DO AGROPRIMÁRIO NA INSERÇÃO SUBORDINADAAO MERCADO INTERNACIONAL O Mato Grosso do Sul acentuou sua inserção internacional exercendo o papel defornecedor de mercadorias consideradas como bens primários, parte delas comocommodities. Predomina na pauta exportadora as mercadorias do complexo soja (grãos,bagaço e resíduo, subproduto da extração do óleo), pedaços e miudezas de galinha, minériode ferro, carne bovina desossada entre outros. O comportamento das exportações, analisadopercentualmente (sobre o total exportado em milhões de dólares FOB) ocorreu da seguinteforma: em 2006: 72% das exportações eram de produtos básicos e 7% manufaturados. Em2007 – 77% de básicos e 5% de manufaturados. Em 2008, 80% de produtos básicos e 4%de manufaturados. Apenas em 2009 houve uma inflexão nessa tendência, na seguinte ordem:75% de básicos e 5% de manufaturados, devido à expressão da exportação de carnedesossada de bovino congelada, que foi o produto mais exportado por Mato Grosso do Sulem 2009. O rol dos principais grupos exportadores do estado apresentou, para o ano de2009, em ordem decrescente (por valor exportado): Bertin (Frigorífico), ADM, SearaAlimentos, Cargil Agrícola, JBS (Frigorífico), Bunge Alimentos, VCP Celulose, Tavares deMelo Açúcar e Álcool, Urucum Mineração (mineradora que pertence à Vale), Minerva(Frigorífico), Independência (Frigorífico) e Doux-Frangosul (agroindústria de aves), BR Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 3
  • 4. 4Foods (união entre Sadia e Perdigão), Coamo (cooperativa que exporta grãos de soja),Mineração Corumbaense (mineradora que pertence à Vale), Louis Dreiffus Commodities.Essas empresas respondem por 78% do total das exportações em 2009. Não há participaçãode capital privado regional, nem mesmo entre os frigoríficos mais importantes e o estadopossui o maior rebanho bovino do país. A base produtiva exportadora permanece baseada no complexo soja (farelo,grãos, óleo vegetal), carne bovina, minério e a recente expansão da produção de celulose eetanol. A produção de etanol no estado aumentou de 495.591 milhões de litros na safra2005/2006 para 1.076.161 em 2008/2009, um aumento de 117% (dados da Única), setorempregados de mão-de-obra indígena, conforma apontado pelo trabalho de Mota e AvelinoJunior (2009). Embora o estudo da economia de exportação ofereça uma análise parcialsobre a estrutura produtiva presente no estado, ela permite compreender a influência dademanda internacional sobre a expansão da área plantada de commodities internacionais e aredução da área plantada de produtos tradicionais da alimentação básica, análise já realizadapor Aparecida de Almeida (2009). A política econômica de fortalecimento de determinados setores, no caso dofrigorífico e o estímulo ao estanol provocam um movimento de fortalecimento da produçãoprimária, não estimula processos regionais e territoriais de industrialização e organizam oterritório como base de atuação do capital privado internacional, como pode ser confirmadapela participação expressiva das tradings de grãos e das usinas de cana recentementeinstaladas. A produção de açúcar e álcool no estado já é dominada pela presença do capitalprivado estrangeiro, tendência que foi apontada pelo trabalho de Backes em 2009. Atradicional aliança entre capitalistas e proprietários de terra está, no estado, hegemonizadapela coordenada pela ação do capital estrangeiro e do capital privado nacionalinternacionalizado. As principais empresas privadas nacionais internacionalizadas, como a Vale e oJBS, permanecem ausentes das políticas de investimento na expansão da precáriainfraestrutura estadual. Setores estrangulados como a geração de energia (útil para o processosiderúrgico em Corumbá) e transportes (duplicação das principais rodovias que cortam o Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 4
  • 5. 5estado e implantação de novos ramais ferroviários) não tem recebido qualquer aporte derecursos dessas empresas capitalizadas.Mapa 1 Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 5
  • 6. 6Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 6
  • 7. 7CONSIDERAÇÕES FINAIS Há um processo de “reprimarização” da pauta exportadora que se acentua nosanos noventa e persiste na primeira década do século XXI. Esse movimento ainda não foirevertido pelas políticas públicas e pelos investimentos do Governo Federal, que demandarãoum tempo médio a longo de maturação e obtenção de resultados. Para o Mato Grosso do Sul, o incentivo às exportações de agro-primários eminerais tem reforçado uma sobreposição de territórios, organizados pelos principais gruposexportadores. Essa organização ocorre em função da combinação de fatores. O estado éformado por duas principais bacias hidrográficas, a do Rio Paraguai, a oeste e do Rio Paraná,a leste. A ocupação dos grupos exportadores se concentra na Bacia do Rio Paraná, motivadapela proximidade com os estados de São Paulo e Paraná. Na porção meridional, umasobreposição da atuação dos exportadores resulta do processo histórico de ocupação epovoamento, com predomínio da atividade pecuária, do projeto de colonização agrícolaorientado pelo Estado Varguista e pela expansão da soja, nos anos setenta. É na mesma porção meridional que se concentram as principais cooperativasexportadoras, num processo contíguo que tem origem no norte do Paraná. Os frigoríficosocupam as “franjas” da vizinhança com o principal mercado consumidor – São Paulo –estado no qual estão localizadas as matrizes e, portanto, o poder definidor de políticas deexpansão, comercialização e investimento. Na porção Nordeste, Três Lagoas assume sua centralidade na rede exportadoravalendo-se da rodovia BR 262, que corta o estado desde a vizinhança com a Bolívia, emCorumbá, passando pela capital Campo Grande. Além do benefício do traçado daFerronorte. Nesse ponto, a concentração do capital exportado acontece em função daatividade do reflorestamento e da fabricação de celulose, pela Fibria. O recorte da economia de exportação apresenta apenas uma das possibilidadesde leitura do território, mas é exemplar do processo de internacionalização da economiasul-matogrossense e do quanto suas dinâmicas produtivas são definidas por interesses Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 7
  • 8. 8externos, tanto internacionais quanto de capitais originários de outros estados, compredomínio de capitais paulistas e paranaenses.BIBLIOGRAFIAALMEIDA, Mansueto. Desafios da real política industrial brasileira do século XXI. Textospara Discussão IPEA – n,1452. Brasília, 2009. Disponível emhttp://www.ipea.gov.br/sites/000/2/publicacoes/tds/td_1452.pdf <Acesso em 15 de janeirode 2010>.AMSDEN, Alice. A ascensão do resto. São Paulo : Editora da Unesp, 2009.BACKES, Thaine. O capital agroindustrial canavieiro no Mato Grosso do Sul e ainternacionalização da produção. 2009. Dissertação (Mestrado em Geografia). Faculdadede Ciências Humanas, Universidade Federal da Grande Dourados. Disponível emhttp://www.ufgd.edu.br/fch/mestrado-geografia/dissertacoes/thaine-regina-backesBARROS, Octavio de; PEREIRA, Robson Rodrigues. Desmistificando a tese dadesindustrialização: reestruturação da indústria brasileira em uma época de transformaçõesglobais. In: BARROS Octavio de; GIAMBIAGI, Fabio (Org.) Brasil globalizado. Rio deJaneiro : Campus, 2008. p.299-330.BERTHOLI, Anderson. O lugar da pecuária na formação sócio-espacialsul-matogrossense. 2006. Dissertação (Mestrado em Geografia). Centro de Filosofia eCiências Humanas. Universidade Federal de Santa Catarina, 2006.BITTAR, Marisa. Mato Grosso do Sul – a construção de um estado: regionalismo edivisionismo no sul de Mato Grosso. Vol. 1. Campo Grande : Editora da UFMS, 2009.COUTINHO, Luciano; SARTI, Fernando. A política industrial e a retomada dodesenvolvimento. In: LAPLANE, Mario et. al. Internacionalização e desenvolvimento daindústria no Brasil. São Paulo : Editora da Unesp/Instituto de Economia da Unicamp, 2003.p.333-347.GONÇALVES, Reinaldo. O Brasil e o comércio internacional: transformações eperspectivas. São Paulo : Contexto, 2003.PAULINO, Luíz Antônio. O Brasil Seus Sócios e Seus Negócios. São Paulo emPerspectiva, São Paulo, v. 16, n. 02, p.82-93, 2002.RANGEL, Ignácio. Ciclo, tecnologia e crescimento. In: BENJAMIM, Cesar (org). Obrasreunidas. v.2, São Paulo: Contraponto, 2005a. p. 255-408.__________ . Dualidade básica da economia brasileira. 2ed. [s.l.] : Instituto IgnácioRangel/Bienal, 1999. Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 8
  • 9. 9SADER, Emir. Brasil, de Getúlio a Lula. In: SADER, Emir e GARCIA, Marco Aurélio(orgs). Brasil, entre o passado e o futuro. São Paulo : Editora da Fundação PerseuAbramo/Boitempo, 2010. pp. 11-29.SANTOS, Milton. A formação social como teoria e como método. Boletim Paulista deGeografia. n.54, 1977.__________ . A Natureza do Espaço – técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo :Hucitec, 1996.__________ . Espaço e método. São Paulo : Nobel, 1985.MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Estatísticasde comércio exterior – DEPLA.< http://www.mdic.gov.br > Acesso em: 28 mar. 2009.__________ . Política de Desenvolvimento Produtivo. Disponível em<http://www.mdic.gov.br/pdp/ > Acesso em: 24 de abr. 2010.VELTZ, Pierre. Mundialización, ciudades y territórios. Barcelona : Editorial Ariel, 1996. Realizado de 25 a 31 de julho de 2010. Porto Alegre - RS, 2010. ISBN 978-85-99907-02-3 9