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    Conf terra-2010-vol-2 Conf terra-2010-vol-2 Document Transcript

    • Giovanni Seabra José Antonio Novaes da Silva Ivo Thadeu Lira Mendonça (organizadores) A Conferência da TerraAquecimento global, sociedade e biodiversidade Volume II Editora Universitária da UFPB João Pessoa - PB 2010
    • UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA reitor RÔMULO SOARES POLARI vice-reitora MARIA YARA CAMPOS MATOS EDITORA UNIVERSITÁRIA diretor JOSÉ LUIZ DA SILVA vice-diretor JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS FILHO supervisor de editoraçãoALMIR CORREIA DE VASCONCELLOS JUNIOR
    • Capa: Éric SeabraEditoração: Ivo Thadeu Lira MendonçaE-mail: gs_consultoria@yahoo.com.br A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade. Volume II / Giovanni de Farias Seabra, José Antonio Novaes da Silva, Ivo Thadeu Lira Mendonça (organizadores). – João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2010. 675 p.: il. ISBN: 978-85-7745-532-4 1. Meio Ambiente. 2. Mudanças climáticas. 3. Educação ambiental. 4. Ecossistemas terrestres e aquáticos. 5. Saúde global. I. Seabra, Giovanni de Farias. II. Silva, José Antonio Novaes da. III. Mendonça, Ivo Thadeu Lira. UFPB/BCAs opiniões externadas nesta obra são de responsabilidade exclusiva dos seus autores.Todos os direitos desta edição reservados à GS Consultoria Ambiental e Planejamento do Turismo Ltda.Impresso no BrasilPrinted in BrazilFoi feito depósito legal
    • SumárioSUMÁRIO .......................................................................................................................................... 5PREFÁCIO ......................................................................................................................................... 9UM NOVO PASSO... ....................................................................................... ERRO! INDICADOR NÃO DEFINIDO.3. EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL......................... 10A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO PARA A REALIZAÇÃO DO CONSUMO SUSTENTÁVEL E DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE .......................................................................... 11AGRESTE SETENTRIONAL DO ESTADO DE PE: IMPACTOS AMBIENTAIS CARACTERIZADOS PELO PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO EM SERRA SECA-PE.................................................................................. 18ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA COMUNIDADE RIBEIRINHA PANTANAL EM ARACAJU ....... 25ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS EM PRAIAS DO MUNICÍPIO DE OLINDA-PE .................................................................................................................................................................................... 31ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DO BAIRRO MAURO ANTÔNIO BENTO EM JATAÍ – GOIÁS, BRASIL ......................................................................................................................................... 38ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS ASSOCIADOS AO ECOSSISTEMA MANGUEZAL DO RIO COCÓ, FORTALEZA/CE............................................................................................................................ 43CARCINICULTURA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO AGROAMBIENTAL NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL .................................................................................................................................................................................... 50CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO À LUZ DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ...... 58CONTRIBUIÇÃO DA PREFEITURA DE OLINDA NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNICÍPIO SUSTENTÁVEL ........................................................................................................................... 64DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA ZONA COSTEIRA DE SÃO LUIS – MA: UM ESTUDO DE CASO DA PRAIA DO ARAÇAGY .......................................................................................................................................................... 69EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE SUSTENTABILIDADE NA ERA DO CONSUMO GLOBAL .................................................................................................................................................................... 75EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL ...................................................................................... 82EDUCAÇÃO AMBIENTAL, EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL ........................................................................................................................................................ 88EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES COSTEIRAS DO CEARÁ. .......................................................... 95EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO NA PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO EM ESCOLA PÚBLICA ESTADUAL NA CIDADE DE CATALÃO – GOIÁS .......................................................... 102EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ALAMBIQUE SAMANAÚ – RN ........................................................................... 108EDUCOMUNICAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: O DESENVOLVIMENTO CRÍTICO E CONSCIENTE DE CONSUMO POR AQUELES QUE FAZEM RÁDIO COMUNITÁRIA ................................................................ 114EDUCOMUNICAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE ...................... 122EFETIVIDADE DA ROTULAGEM AMBIENTAL: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DO RECIFE .............. 128MARKETING VERDE: O SEU PAPEL NO PROCESSO DECISÓRIO DE COMPRA DOS UNIVERSITÁRIOS DAS INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR. ........................................................................................ 134O IMPACTO SECUNDÁRIO DA ATIVIDADE PETROLÍFERA NA CIDADE DE MACAÉ COM BASE NA FOTOINTERPRETAÇÃO DE IMAGENS AÉREAS .............................................................................................. 142O USO DA AULA DE CAMPO COMO MECANISMO INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL ........................................................................................................................................................... 151
    • O USO DE CARTILHA COMO INSTRUMENTO DE INFORMAÇÃO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SANITÁRIA DIRECIONADO À COMUNIDADE TRADICIONAL DA APA DO MARACANÃ NO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS/MA ................................................................................................................................................... 158OS REFLEXOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA INSPEÇÃO VEICULAR ........................................................ 163PERCEPÇÃO DOS PESCADORES DO CABO DE SANTO AGOSTINHO SOBRE A ATIVIDADE PESQUEIRA FRENTE ÀS DRAGAGENS NO PORTO DE SUAPE (PE) ................................................................................... 169PROJETO RIO LIMPO, RIO LINDO: EDUCAÇÃO AMBIENTAL AO LONGO DO RIO DAS MORTES ............. 176SELO AMBIENTAL: EDUCAR PARA CIDADANIA ................................................................................................ 184TIMOR-LESTE: PERCEPÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR DE UM ESTADO EM CONSTRUÇÃO .................................................................................................................................................................................. 189UNIVERSIDADE E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL ................................ 196A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: UMA LEITURA A PARTIR DA SOCIEDADE DO CONSUMO ................................................................................................................................ 201A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO ESCOLAR: A ESCOLA, O PROFESSOR E O ENSINO DE GEOGRAFIA ........................................................................................................................................................... 206A FORMAÇÃO DO SUJEITO ECOLÓGICO DENTRO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DO CURSO NORMAL MÉDIO DE UMA ESCOLA ESTADUAL EM PERNAMBUCO ......................................................... 213A IMPORTÂNCIA DE PROJETOS AMBIENTAIS: UM ESTUDO DE CASO SOBRE O PROJETO COM CIÊNCIA, NO BAIRRO ILHA DO BISPO, NA CIDADE DE JOÃO PESSOA – PARAÍBA ................................................. 219A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DA COMUNIDADE LOTEAMENTO PADRE HENRIQUE BAIRRO DA VÁRZEA RECIFE-PE ....................................................................................................................... 222AÇÕES ANTRÓPICAS NOS BAIXOS PLANALTOS COSTEIROS DA BR 101 NO TRECHO JOÃO PESSOA- MAMANGUAPE...................................................................................................................................................... 229ALAMBIQUE SAMANAÚ E BACIA HIDROGRÁFICA PIRANHAS-ASSU – CASOS DE SUSTENTABILIDADE E DEGRADAÇÃO AMBIENTAL NO SERIDÓ ..................................................................................................... 235ANÁLISE DE DESENHOS SOBRE O MEIO AMBIENTE FEITOS POR ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL PÚBLICO DO MUNICÍPIO DE CUITÉ/PB ............................................................................................................ 240ASPECTOS NATURAIS E CULTURAIS DO MORRO DA MASSARANDUBA, ARAPIRACA – AL ................... 246AVALIAÇÃO DO PROCESSO DE DEGRADAÇÃO DA COBERTURA VEGETAL EM SERRA BRANCA E COXIXOLA - PB...................................................................................................................................................... 253CATADORES DE MATERIAS RECICLÁVEIS DO LIXÃO DE IRECÊ- BA: EDUCAÇÃO– E PERSPECTIVAS DE QUALIDADE DE VIDA .......................................................................................................................................... 261CONCEPÇÃO DOS MORADORES DO BAIRRO DA ILHA DE SANTA LUZIA NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ – RN, SOBRE PROCESSOS EROSIVOS .................................................................................................................. 267EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO PARQUE DOIS IRMÃOS, RECIFE-PERNAMBUCO ........................................... 275EDUCAÇÃO AMBIENTAL COM OS CHACAREIROS DO ENTORNO DA ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE DO CÓRREGO GRANADA EM APARECIDA DE GOIÂNIA: UMA PROPOSTA EM PROL DA VEGETAÇÃO ................................................................................................................................................... 282EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS ESCOLAS DA RDS PONTA DO TUBARÃO – RN: POTENCIALIDADES E LIMITAÇÕES NA VISÃO DOS PROFESSORES .................................................................................................. 287EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MERCADO DE CONSUMO GLOBAL: A IMPORTÂNCIA DA CONSCIENTIZAÇÃO DA POPULAÇÃO .............................................................................................................. 295ESTUDO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE CRIANÇAS RIBEIRINHAS PARA PLANEJAMENTO DE AÇÕES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL .............................................................................................................................. 301FORMAÇÃO DE PROFESSORES E EDUCAÇÃO AMBIENTAL NAS SÉRIES INICIAIS DO ENSINO BÁSICO: UM ESTUDO NUMA CIDADE DO SERTÃO NORDESTINO ............................................................................. 308IDENTIFICAÇÃO DE PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DESENVOLVIDAS POR PROFESSORES DO MUNICÍPIO DE AREIA BRANCA/RN .................................................................................................................. 316IMPACTO AMBIENTAL NA EXTRAÇÃO DE AREIA NA REGIÃO DO TABULEIRO DAS LAGOAS .............. 322LINHAS QUE SE SOBREPÕEM: CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TEMPO GEOLÓGICO E AS AÇÕES HUMANAS .............................................................................................................................................................. 330MEIO AMBIENTE NOS OLHARES DE ESTUDANTES DO ENSINO FUNDAMENTAL II DE ESCOLAS PÚBLICAS, JOÃO PESSOA-PB ............................................................................................................................. 336O LIMITE, O MAR: USO DA MÚSICA NA INVESTIGAÇÃO DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS PROFESSORES DA RDS PONTA DO TUBARÃO ............................................................................................... 342
    • PADRÕES DE CONSUMO, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL .................. 349PERCEPÇÃO SÓCIO-AMBIENTAL DOS FREQUENTADORES DAS PRAIAS DO BESSA E INTERMARES (PARAÍBA-BRASIL) ............................................................................................................................................... 355PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE ALUNOS EM UMA ESCOLA NORMAL, NO CONTEXTO DAS SALAS DE INCLUSÃO DA ESCOLA PÚBLICA, EM JOÃO PESSOA - PB .......................................................................... 362PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS ALUNOS EM UMA ESCOLA DA REDE PRIVADA NO MUNICÍPIO DE JOÃO PESSOA – PARAÍBA. ............................................................................................................................................. 371PERFIL E PERCEPÇÃO DOS PARTICIPANTES DE TRILHAS INTERPRETATIVAS DO PARQUE ESTADUAL DE DOIS IRMÃOS, RECIFE-PE ............................................................................................................................. 378POSSIBILIDADES E ATUAÇÃO SOCIO EDUCACIONAL DO COMPLEXO ALUIZIO CAMPOS – CAMPINA GRANDE-PB ............................................................................................................................................................ 383PRÁTICA DA AQUICULTURA NO ESTUÁRIO DO CANAL DE SANTA CRUZ: IMPACTOS AMBIENTAIS .. 390PROPOSTA DO PLANO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DA UFPB-CAMPUS I, JOÃO PESSOA - PB ............... 397RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS EM JAZIDAS DE INSTALAÇÕES DE PETROLÉO .................... 404REFLEXÃO SOBRE CONSCIÊNCIA AMBIENTAL NOS DIAS ATUAIS ............................................................... 410RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS NO MUNICÍPIO DE MOSSORÓ-RN ........................................................... 414ROEDORES “VILÕES” DA PESTE NEGRA: RECONSTRUINDO O CONHECIMENTO DOS ESTUDANTES NO SERTÃO PERNAMBUCANO ................................................................................................................................. 419UM JOGO NECESSÁRIO ............................................................................................................................................. 4254. MEGACIDADES E CIDADES SUSTENTÁVEIS .............................................................. 430A RELAÇÃO ENTRE O HOMEM E A NATUREZA NA TRADICAÇÃO AFRICANA –BANTO .......................... 431A ESTRUTURAÇÃO DO SISTEMA MUNICIPAL DE MEIO AMBIENTE DE PARNAMIRIM/RN E SUA IMPORTÂNCIA PARA A GESTÃO AMBIENTAL LOCAL ................................................................................ 437CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE: ANÁLISE TEÓRICA COMO FERRAMENTA PARA O ESTUDO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO MUNICÍPIO DE SERRA TALHADA-PE ......................................................... 444CONDIÇÕES DO MEIO AMBIENTE E GESTÃO AMBIENTAL EM MUNICÍPIOS PERNAMBUCANOS .......... 450POLUIÇÃO SONORA E SAÚDE ................................................................................................................................. 458REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA E A DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO EM MUNICÍPIOS DA BACIA DE CAMPOS .................................................................................................................................................................. 464RISCOS SOCIAL, ECONÔMICO E EPIDEMIOLÓGICO DAS FAMÍLIAS RESIDENTES NO MORRO CRISTO REI EM CAJAZEIRAS – PB ................................................................................................................................... 471SOCIA(BI)LIDADE E SOLIDARIEDADE EM COMUNIDADES DE BAIXA RENDA: PRÁTICAS PARA VIVER EM AMBIENTES HOSTIS ...................................................................................................................................... 479UM OLHAR VOLTADO A DEMOCRATIZAÇAO POPULAR EM PLANOS DIRETORES VISANDO CIDADES SUSTENTÁVEIS ..................................................................................................................................................... 487CATADORES DE LIXO: REFÚGIO DO EXCEDENTE POPULACIONAL .............................................................. 492MARECHAL DEODORO – AL EM FOCO: CENÁRIO E PERSPECTIVAS SOCIOAMBIENTAIS DA COMUNIDADE PESQUEIRA LOCAL .................................................................................................................. 498PRÁTICAS DE PRESERVAÇÃO NO PARQUE ESTADUAL DE DOIS IRMÃOS/PE ............................................. 5055. PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DOS RECURSOS HÍDRICOS .............................. 512A LUTA CONTRA A POBREZA E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NAS REGIÕES SEMI-ÁRIDAS PASSA PELO DESENVOLVIMENTO DA IRRIGAÇÃO A PARTIR DE PEQUENOS LENÇÓIS ALUVIAIS? REFLEXÕES A PARTIR DE UM ESTUDO DE CASO NO NORDESTE BRASILEIRO .................................... 513ARAGUAIA – RIO DE AMOR E POESIA................................................................................................................... 525A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA GESTÃO DE RECURSOS HÍDRICOS ............................................................... 532A UTILIZAÇÃO DO GEOPROCESSAMENTO PARA CRIAÇÃO DE UNIDADES HIDROGRÁFICAS NO ESTADO DA BAHIA: UM SUPORTE NO MONITORAMENTO DA QUALIDADE DAS ÁGUAS.................. 539AVALIAÇÃO DA QUALIDADE AMBIENTAL DE ASSENTAMENTOS NA BACIA HIDROGRÁFICA DA REPRESA BILLINGS (MUNICÍPIO DE SÃO BERNARDO DO CAMPO/SP) .................................................... 547
    • BACIAS HIDROGRÁFICAS: GESTÃO & DEGRADAÇÃO AMBIENTAL ............................................................. 555CARACTERIZAÇÃO DO ÍNDICE DE DISPONIBILIDADE DE UMIDADE NA MICROBACIA HIDROGRÁFICA DO AÇUDE DOS NAMORADOS, SÃO JOÃO DO CARIRI, PB ......................................................................... 561CARACTERIZAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: SISTEMA CATUAMA, MUNICÍPIO DE GOIANA-PE .................... 566DESPERDÍCIO DE ÁGUA NAS EDIFICAÇÕES DA CIDADE UNIVERSITÁRIA - UFPB .................................... 573QUANTIFICAÇÃO DA INTERCEPTAÇÃO DA ÁGUA DA CHUVA EM ÁRVORES ISOLADAS E EM GRUPO .................................................................................................................................................................................. 581UTILIZAÇÃO DO MICROFITOPLÂNCTON NO MONITORAMENTO DA QUALIDADE DE ÁGUA DE UM RESERVATÓRIO HIDROELÉTRICO TROPICAL ............................................................................................... 588A POLUIÇÃO DO AÇUDE MARECHAL DUTRA – O “GARGALHEIRAS” ........................................................... 598ANÁLISES FÍSICO-QUÍMICAS E MICROBIOLÓGICA DA ÁGUA DO AÇUDE DE BODOCONGÓ, CAMPINA GRANDE, PARAÍBA .............................................................................................................................................. 604AVALIAÇÃO DA IMPORTÂNCIA DADA PELOS MORADORES DA CIDADE DE MAMANGUAPE-PB SOBRE O MEIO AMBIENTE, O CASO DO RIO BANDEIRA .......................................................................................... 609AVALIAÇÃO DA VULNERABILIDADE À EROSÃO NAS SUB-BACIAS DE CONTRIBUIÇÃO DOS RESERVATÓRIOS CARPINA, GLÓRIA DO GOITÁ E VÁRZEA DO UNA, PERNAMBUCO, UTILIZANDO TÉCNICAS DE GEOPROCESSAMENTO ............................................................................................................. 614DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DO RIO VERMELHO – MUNICÍPIO DE RIO TINTO/PB ..................................... 621EFEITO DA FRAGMENTAÇÃO SOBRE A DIETA DAS ESPÉCIES DE PEIXES EM IGARAPÉS DE BAIXA ORDEM NA AMAZÔNIA ....................................................................................................................................... 629ESTUDOS PRELIMINARES DOS DADOS FÍSICO-QUÍMICOS DE 2007, RIO CUIÁ, JOÃO PESSOA/PB .......... 637IDENTIFICAÇÃO E MAPEAMENTO DAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE DUNARES NA MICROBACIA DO RIO DOCE NATAL/RN .......................................................................................................... 641O REFLEXO DA POLUIÇÃO URBANA NOS ECOSSISTEMAS AQUÁTICOS: O CASO DO MANGUEZAL CHICO SCIENCE, COMPLEXO DE SALGADINHO, OLINDA-PE .................................................................... 649O USO DAS ÁGUAS SUBTERÂNEAS PARA IRRIGAÇÃO NOS MUNICIPIOS DE JOÃO DOURADO, IRECÊ E LAPÃO - BAHIA ..................................................................................................................................................... 656RIO MANDACARU: UMA ABORDAGEM SOBRE A PERCEPÇÃO AMBIENTAL E SITUAÇÃO SOCIAL DA POPULAÇÃO RIBEIRINHA ................................................................................................................................... 662RIO MEKONG: TRANSNACIONALIDADE, DILEMAS DE AÇÃO COLETIVA E COOPERAÇÃO INTERNACIONAL .................................................................................................................................................. 669
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 9 PrefácioUm novo passo...A quecimento global ou resfriamento do Planeta Terra? Estas indagações fazem parte de um elenco de incertezas com que a humanidade se defronta diante da realidade ambiental do mundo atual, mais antropocêntrico e menos holístico. As questões ambientais estãoincorporadas no dia-a-dia das pessoas, invadindo as residências, as escolas e os ambientes detrabalho, incidindo na estrutura e hábitos da sociedade humana, tornando-se tema de destaque emreuniões de associações intelectuais e científicas. Os programas e ações ambientais são quasesempre sustentados pelas grandes corporações empresariais e políticas, cuja sustentação reside nocapital multinacional e nacional e estes, paradoxalmente, constituem os maiores poluidores. Estasituação cria incertezas no pensamento individual e coletivo, exigindo ações de conscientização emobilização efetivas e livres da pressão do capital. Somente assim teremos uma sociedade maisjusta no Mundo ecologicamente correto. A Conferência da Terra surge como um importante instrumento de conscientização emobilização da população, um movimento contínuo em prol da saúde planetária. A Conferência daTerra propicia a união de todos convergindo na perspectiva, do bem estar dos outros seres, e nãosomente dos homens. De nada adianta estarmos sós no Planeta, sem a atmosfera e a biodiversidadeque nos permitem viver. Na segunda edição, a Conferência da Terra 2010 apresenta-se como mais umaoportunidade para representantes de instituições acadêmicas, sociedade civil e organizada, bemcomo entidades governamentais e privadas reunirem-se com o objetivo de trazerem soluções para apreservação do meio ambiente. Sob o tema “Aquecimento global, sociedade e biodiversidade”,damos um novo passo no intuito de despertar o censo crítico e instigar ações conservacionistaseficazes e livres das interferências políticas e institucionais. A Conferência da Terra, uma realização da Universidade Federal da Paraíba, com apoio deoutras instituições, propiciou o acesso de todos os participantes ao que existe de mais novo, notocante às experiências profissionais e acadêmicas de centenas de pesquisadores e cidadãosevolvendo meio ambiente, mudanças climáticas, educação ambiental, ecossistemas terrestres eaquáticos e saúde global. Giovanni Seabra Ivo Thadeu Lira Mendonça
    • 3. Educação Ambiental no Mercado de Consumo Global
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 11 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO PARA AREALIZAÇÃO DO CONSUMO SUSTENTÁVEL E DA PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL DO MEIO AMBIENTE Karoline de Lucena Araújo Universidade Federal da Paraíba. Centro de Ciências Jurídicas. Programa de Pós-graduação em Ciências Jurídicas. Mestranda em ciências jurídicas pela Universidade Federal da Paraíba. karolinerp@hotmail.com RESUMO O texto trata da importância da educação ambiental para a formação de uma populaçãoconsciente e, especialmente, de consumidores conscientes. A educação revela-se primordial paraque haja uma mudança na forma de consumir o que levará a uma mudança, também, na forma deproduzir, já que o sistema capitalista de produção tem como um de seus pilares o fomento aoconsumo. Mostrar-se-á que a educação ambiental é uma previsão constitucional e, por isso, éreconhecidamente um instrumento para que a proteção constitucional do bem ambiental seconcretize. Além disso, é de grande relevância também para a realização do consumo sustentável,que a forma de consumo que precisa ser fomentada diante da situação em que se encontra o meioambiente. PALAVRAS-CHAVE: Educação – Meio ambiente – Constituição – Consumo sustentável. ABSTRACT This paper addresses the importance of environmental education for the formation of aconscious population and especially conscious consumers. Education appears to be essential if thereis a change in the way we consume leading to a change also in the form of produce, since thecapitalist system of production has as one of its pillars promoting consumption. Show will be thatenvironmental education is a constitutional provision and, therefore, is recognized as a means to theconstitutional protection of environmental good will come true. Furthermore, it is also of greatimportance to the achievement of sustainable consumption, the pattern of consumption that needs tobe encouraged about the situation you are in the environment. KEYWORDS: Education - Environment - Constitution - Sustainable consumption 1. INTRODUÇÃO O Brasil vive hoje um sistema capitalista de produção. Tal sistema consiste na extração derecursos naturais, como matéria prima dos mais diversos produtos, e no fomento ao consumo. Oresultado dessa forma de produção já pode ser sentido e tal sensação não é das melhores, issoporque o que se pode observar que é a degradação do meio ambiente que culmina com a escassez demuitos de seus recursos. Diante desse quadro, iniciou-se um movimento em nível internacional dedivulgação do estado em que se encontrava o meio ambiente e de formas de se prevenir e evitarnovos danos a esse bem. Essa preocupação maior com meio ambiente ganhou relevo no início da década de 70, coma Conferência das Nações Unidas de Estocolmo em 1972, que publicou o documento conhecidocomo Declaração sobre o Meio Ambiente Humano. Esse evento teve como objetivo chamar aatenção de todos os países para a necessidade de se viver em um ambiente de qualidade e que este,para tanto, precisava ser preservado. Foi quando se começou a falar em desenvolvimentosustentável. Tal desenvolvimento implica numa forma de produção que seja suportável pelanatureza. Era preciso equilibrar o desenvolvimento com o meio ambiente de qualidade. O presente trabalho traz, nesse diapasão, a educação como forma de esclarecer a populaçãopara a importância do meio ambiente equilibrado para a manutenção da qualidade de vida. Paratanto, destaca a proteção constitucional dada ao meio ambiente e a previsão no mesmo diploma dapromoção da educação ambiental como instrumento para proteger e preservar o bem ambiental.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 12Sendo assim, num primeiro momento do trabalho é feita localização do meio ambiente naConstituição e, principalmente, é colocada a educação ambiental como instrumento para se chegar àproteção determinada pela Lei Maior. É, ainda nesse momento, chamada atenção para o fato de que o Brasil possui uma Lei deEducação Ambiental que estabelece diretrizes e que ratifica a relevância da implementação daeducação com foco ambiental para que a população contribua na prevenção de danos ao meioambiente e na manutenção do meio ambiente de qualidade, premissa constitucional. E é nesse contexto que se chega ao mercado de consumo. O consumo sustentável é um dossustentáculos para a mudança na forma de produção que, como dito, não possui nenhumapreocupação com manutenção do meio ambiente em equilíbrio. O consumidor, através de umamudança de postura, vai estar mais atento ao que consome, pois tem conhecimento de como suasatitudes na hora de consumir são decisivas para que haja a preservação do meio ambiente e, assim,assegurar esse bem para outras gerações. Essas decisões serão positivas à medida que a população éesclarecida para a importância de uma postura consumerista ambientalmente responsável o que épossível através da educação ambiental. 2. EDUCAÇÃO, CONSTITUIÇÃO FEDERAL E MEIO AMBIENTE A educação é uma das grandes riquezas, se não a maior, que o ser humano pode ter.Riqueza que pode ser acumulada ilimitadamente. Mas, não basta o acúmulo de conhecimento. Aeducação vai além. Ela se revela através dos atos de quem a adquire. Quando se diz que alguém éeducado é porque ele se comporta bem no relacionamento em sociedade, mesmo que não possuaconhecimento de muitas ciências. Assim, quando se fala em educação ambiental se quer dizer que éuma forma de orientar o indivíduo para que se relacione bem com o meio ambiente, “um grandemovimento ético que deve permear toda a cultura, promovendo uma nova cosmovisão que integre eentrelace as várias partes do mundo” 1. Assim, a educação ambiental é uma forma de esclarecer as pessoas sobre as formasde proteger o meio ambiente e de assegurá-lo para as futuras gerações. A população precisa estarciente de que meio ambiente precisa ser protegido sob pena de a própria vida humana estarcondenada ao fim. Os problemas ambientais gerados por um sistema de produção descomprometido com omeio ambiente levaram muitos países, inclusive o Brasil, a incorporar em sua legislação e,principalmente, em sua Constituição o meio ambiente como bem protegido. O meio ambienteganhou destaque constitucional com a promulgação da Constituição de 1988, consolidando efortalecendo aquela proteção como aduz Antonio Herman Benjamin: Assim configurada, a proteção ambiental deixa, definitivamente, de ser um interesse menor ou acidental noordenamento, afastando-se dos tempos em que, quando muito, era objeto de intermináveis discussões científicas epoéticas. Aqui, o meio ambiente é alçado ao patamar máximo do ordenamento, privilégio que outros valores sociais sódepois de décadas ou mesmo séculos lograram conquistar. 2 A Constituição Federal de 1988 traz um capítulo específico para o meio ambienteque se refere ao art. 225 daquele diploma. Ele ressalta a importância do meio ambiente para a vidahumana e o coloca como direito de todos, assim como impõe o dever de proteção ao Poder Públicoe à população e, para tanto, destaca a importância da educação: Art. 225 - Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo eessencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lopara as presentes e futuras gerações.1 SEARA FILHO, Germano. O que é a Educação Ambiental. In: Desenvolvimento Sustentado: Problemas e estratégias.Editora: Elisabete Gabriela Castellano pág. 6.2 BENJAMIN, Antonio Herman. Meio ambiente e Constituição: uma primeira abordagem. In: 10 anos da Eco 92: Odireito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002, pág. 94.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 13 §1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao poder público: [...] VI – promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para apreservação do meio ambiente; Necessário se faz, então, que haja uma união de forças, tanto do Poder Público comode toda a população no sentido de preservar o meio ambiente, pois se é o ser humano que intervémno ambiente, estabelecendo riscos de degradação é ele também que deve buscar formas de evitá-lospara protegê-lo como bem elucida Marcelo Abelha Rodrigues: Ora, só haverá a possibilidade de preservar e proteger para as futuras gerações se e somente se o papel do serhumano for o de lutar pela sua preservação, pois caso contrário, permanecendo inerte ou em contínua destruição domeio, terá em pouco tempo assassinado a si próprio3. Por isso, medidas que tenham como importância primeira a preservação devem ter lugar dedestaque nas políticas públicas. E sem dúvida a educação é uma delas. Isso porque uma sociedadeesclarecida dificilmente permite que seus direitos sejam violados e quando se transfere isso para aeducação com foco ambiental, o ato de educar ganha ainda mais relevância, pois se transforma numgrande instrumento de proteção ao meio ambiente. A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO CONSTITUCIONAL A Lei Maior constatou que a sadia qualidade de vida está condicionada ao equilíbrioambiental e que, portanto, uma afronta a tal equilíbrio deve ser evitada sob pena de se estáameaçando a qualidade de vida de toda a coletividade, uma vez que o mesmo diploma define meioambiente como bem de uso como comum, ocorrendo a “existência de um direito materialconstitucional caracterizado como direito ao meio ambiente, cujos destinatários são todos” 4 Uma população esclarecida dificilmente vai permitir que o meio ambiente ao qualtem direito, mas com qualidade, seja agredido por um sistema que põe em risco os recursos naturaise a saúde da população. A educação da população desde os primeiros anos de vida escolar é umaforma de se chegar ao equilíbrio do meio ambiente que é indispensável para a vida da pessoa quehabita atualmente o planeta, bem como as gerações futuras e a Constituição Federal reconhece issoao estabelecer a educação ambiental como um instrumento de proteção e como finalidade do PoderPúblico, como nas palavras de Édis Milaré: A partir da tutela constitucional, o processo educativo relacionado com o meio ambiente adquire umadimensão transcendental, visto que ele se associa às finalidades do Estado enquanto representação da própria sociedadecomo decorrência de um pacto social. (...) Vale dizer, a Educação ambiental, como preceito constitucional, é umaexigência nacional que engloba dois aspectos distintos, contudo complementares: trata-se da exigência social e natural –duas faces da mesma moeda.5 O problema está no fato de que muitos não sabem da importância do bem ambientalpara garantia da qualidade de suas vidas. Isso porque desde a colonização desse país ficou incutidana mente da população que os recursos naturais eram renováveis e que, portanto, a extração dosmesmos poderia ser feita sem qualquer tipo de cuidado. É preciso quebrar paradigmas, o que eravisto como renovável não pode mais assim ser tido, além de que meio ambiente possui limites queprecisam ser respeitados sob pena de o ser humano pagar preços altos em razão do desrespeito a taislimites. E é isso que deve ser esclarecido á população.3 RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. São Paulo: Max Limonad, 2002, p.54.4 FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Princípios do processo ambiental. São Paulo: Saraiva, 2004. pág. 33.5 MILARÉ, Édis. Direito de Ambiente. São Paulo: Revistas dos Tribunais, 2000. pág. 164.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 14 Além do disposto na Carta Magna existe a Lei de Educação Ambiental (Lei nº9.795/99) que ratifica a premissa constitucional de proteção ambiental. Ela é um instrumento queconcede eficácia à preservação disposta na Carta Maior, pois ela dá as diretrizes para odesenvolvimento da política de educação ambiental que deve ser desenvolvida pelo Poder Público,incumbido a este a promoção da educação ambiental em todos os níveis de ensino. E esta promoçãoestá prevista tanto no inciso I do art. 3º da Lei 9.795/99 quanto no inciso VI do citado art. 225 daLei Maior, o que atesta a sintonia entre os dois diplomas. É a mudança de postura da sociedade, educada e preparada para lutar por seusdireitos, nesse caso, pela preservação do meio ambiente, que determinará a mudança de posturadaqueles que formam o poder econômico e colocam em risco a qualidade dos recursos naturais e,por conseguinte, da vida humana. O meio ambiente é um direito de todos e de cada um assim como o é o dever deprotegê-lo, mas isso se torna uma tarefa árdua se toda a população não estiver atenta para isso. E foipor essa razão que a Constituição colocou como dever do Poder Público a garantia dessa educação,para que a população tivesse o conhecimento da importância de preservar o meio ambiente. Aimplementação da educação ambiental nas escolas e na comunidade repercute em todas as áreas quepodem contribuir para preservação ecológica, já que uma população informada é exigente e atuanteo que contribui para a preservação ambiental, como nas palavras de José Kalil de Oliveira Costa: A sociedade civil educada com enfoque ambiental terá visão ecossistêmica da ordem pública jurídica e sociale poderá assumir um papel mais participativo no controle da comunidade e do Estado, já que estará melhor qualificadapara conseguir provocar a ação socioambiental mais efetiva da Administração Pública, a fim de se fazer implementar asPolíticas Públicas de Educação Ambiental, dentre tantas outras (...)6. Sendo assim, a educação foi um dos instrumentos eleitos pela Carta Magna para tornareficaz seu objetivo de proteção do meio ambiente. Além disso, convém aduzir que é através daeducação ambiental que se pode chegar a uma mudança importante na sociedade de consumo, poiseste é um lado relevante do atual sistema de produção, já que se trata do destinatário final dosprodutos e serviços para os quais é, na maioria das vezes, sacrificado o bem ambiental. 3. O consumo sustentável Como foi dito, no início do ensejo, a forma de produção atual se baseia namercantilização de recursos e no estímulo ao consumo. Todos os dias as vitrines comerciaisapresentam produtos novos mais sofisticados, que desqualificam peremptoriamente o produto deontem. Essa mensagem atinge diretamente o consumidor que se sente obrigado a adquirir um novoproduto, sob pena de ser excluído da modernidade. O consumo cresce cada dia mais, o que leva a crer que a cada dia o bem ambiental émais sacrificado, já que as tecnologias se modernizam objetivando o lançamento de produtos novosno mercado, mas o que permanece caduca é a forma de produção, que não se preocupa com asustentação de tal método produtivo pelos recursos ambientais. Em razão disso, quando se fala em desenvolvimento tendo em vista o meio ambiente,não se pode esquecer na mudança de postura que deve assumir tais consumidores. O consumidorprecisa ser um consumidor consciente, ou seja, que conhece suas responsabilidades perante o meioambiente e que a mudança de sua postura contribui sobremaneira para degradação ambiental.Afinal, “é o ritmo do consumo dos bens ambientais que determina a velocidade com esses benspassem a ser escassos”7 Optando por produtos ou serviços que sejam menos danosos ao meio ambiente, ouque, se quer, lhe causem danos, a sociedade de consumo forçará os fornecedores a colocarem6 COSTA, José Kalil de Oliveira. Educação ambiental, um direito social fundamental. In: 10 anos da Eco 92: O direitoe o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP, 2002, pág. 448 – 449.7 FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Consumo sustentável. In: Ibidem. Pág. 187.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 15produtos dessa natureza no mercado. Trata-se do consumo sustentável. Essa forma de consumo é,sem dúvida, a maior busca que deve haver por parte da população, já que qualquer pessoa temobrigação de preservar o meio ambiente e, enquanto consumidor, está usufruindo dos recursosambientais, devendo procurar fazê-lo de forma responsável, como ratifica Lafayete Josué Petter: Aos consumidores são atribuíveis mais responsabilidades na proteção do meio ambiente. Como pondera adoutrina, a livre escolha do consumidor pode ser legitimamente limitada em nome da defesa do meio ambiente. Osconsumidores, a cada dia precisam tornar-se mais conscientes da dimensão ecológica do processo de consumo em gerale de seu comportamento individual e particular8. Isso confirma a relevância do consumidor para o movimento de preservação ambiental,através da sua mudança de postura não só com relação ao que está consumindo, mas também comrelação ao destino dado ao produto quando este não mais servir para o uso. Ao optar pordeterminado produto, o consumidor passa a ser responsável pela repercussão que aquele produtoterá no meio ambiente. É importante que o produto seja biodegradável, já que o lixo é outra formade agressão ao meio ambiente, mas que pode ser amenizada se o consumidor for responsáveltambém no momento de descartar o produto. Ainda acerca do consumo, é válido salientar que a mudança na postura da sociedadeconsumerista não pode ser, apenas na opção por um produto não, ou menos, danoso ao meioambiente, mas também na quantidade de produtos que estes consomem. Assim, “o consumo verdelança novos desafios para a comunidade mundial: a mudança radical nos processos produtivos,assim como nos aspectos quantitativos e qualitativos do consumo”. 9 E aqui se está diante do dilema de se educar toda uma sociedade treinada para consumir oquanto puder, a consumir somente o necessário e ainda optar por aquele produto que não agrida anatureza. E a palavra dita foi a mais acertada. Educar. A educação com foco ambiental é grande uminstrumento. 3.1 A sociedade de consumo e a influência cultural A sociedade foi treinada, como dito, para consumir. Para tanto, alguns parâmetrosforam estabelecidos para que esse consumo seja eficiente para o sistema de produção. Existe umparâmetro de beleza e para ter aquela beleza alguns produtos cosméticos são oferecidos paraconsumidor. Existe um padrão de vestir que é aquele ditado pela famosa indústria da moda. Enfim,isso acontece com os demais ramos da indústria. A preocupação com os danos que aqueles produtos causam ao meio ambiente e se aprodução dos mesmos se utiliza de tecnologias que não agridem, ou amenizam a agressão, ao meioambiente não faz parte das preocupações dos consumidores. Cria-se, então, uma cultura universalonde todos comem, vestem e calçam a mesma coisa, até aqueles ditos de estilo alternativo possuemum padrão. É a chamada indústria cultural que “insere no subconsciente humano a idéia deimitação, que passa a ser considerada como um valor absoluto.”10 Esse padrão de consumo precisa ser combatido e isso só é possível através dademonstração de que existem outros valores a serem observados. E formação desses novos valorespara a formação de uma nova sociedade de consumo só ocorrerá através da educação ambiental.Como já foi dito, é através da educação que antigos paradigmas são quebrados. A educaçãoambiental possui um papel de grande importância para a mudança de parâmetro cultural dasociedade de consumo. 3.2 Educação ambiental para a formação de consumidores conscientes8 PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado e o alcance do art. 170 daConstituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. pág. 38.9 SPINOLA, Ana Luiza S. Consumo Sustentável: o alto custo dos produtos que consumimos. In: Revista de DireitoAmbiental. p. 215.10 BASTOS, Lúcia Elena Arantes Ferreira Bastos. Consumo de massa e a ética ambientalista. In: Revista de DireitoAmbiental. pág. 185.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 16 Antes mesmo de ser dispositivo constitucional a educação aliada ao meio ambiente jáera pauta de alguns encontros de significativa importância, como é o caso da Conferência deEstocolmo em 1972 em que se destacou a importância de introduzir a educação ambiental nosestudos, principalmente de jovens e adultos com o fim de formar uma consciência deresponsabilidade sobre a natureza. E mesmo depois na Conferência do Rio de 1992, em que seelaborou a agenda 21 que propôs a reorientação do ensino, devendo ser voltado para a consciênciaambiental. O certo é que a educação ambiental sempre foi e é mencionada como meio de grandeeficácia para a formação de uma postura responsável no consumo. A mudança na posturaconsumerista se tornou imprescindível para a sustentação da produção pelos recursos naturais e o,mais importante, para a preservação dos mesmos. E isso é relevante destacar que a preservação dobem ambiental não é apenas para que o sistema de produção continue, mas para que o meioambiente seja protegido e preservado para as futuras gerações como reza o dispositivoconstitucional. A educação ambiental é um instrumento de grande eficácia para que o consumosustentável não seja um processo falacioso. É preciso que, como nas palavras de José Kalil deOliveira Costa: A educação ambiental contemple a formação de valores e alterações de paradigmas arraigados em nossasociedade, por um processo de aprendizado que é muito mais abrangente, capaz de despertar no individuo a cidadania, aresponsabilidade social e a preocupação com o bem estar comum, criando uma consciência crítica acerca danecessidade de harmonizar as atividades humanas com a proteção ao Meio ambiente11. A educação entra, assim, como válvula propulsora da mudança de comportamento. Épreciso que o consumidor esteja bem informado e o Código de Defesa do Consumidor, em seu art.31, garante o direito ao consumidor terem acesso a qualquer informação acerca do produto ouserviço que adquire. Sendo assim, o consumidor tem direito de optar por um produto que seja ounão menos danoso ao meio ambiente e essa opção só será benéfica ao meio ambiente se houver umapreparação do consumidor pra isso preparação essa que fica a cargo da educação ambiental. Assim,é muito mais do que ter direito à informação sobre o produto, mas ter a consciência de que talproduto é danoso ou apresenta riscos ao meio ambiente e que essa consciência influencie naescolha. “Dessa forma, se permite que a abertura comunicacional proporcionada pelo discursoecológico atue diretivamente na orientação de qualquer conduta e atividade de intervenção sobre oambiente”12 A educação ambiental abre a comunicação para que a sociedade seja formada parater consciência ambiental e até se torne curiosa no sentido de buscar formas de proteger o meioambiente o que vai influenciar nas suas escolhas com relação, principalmente, ao que consumir ecomo consumir. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS O estágio atual em que se encontra a biota não se pode mais pensar em mudança depostura da população como algo a ser deixado para depois. É preciso formar pessoascomprometidas com a preservação do meio ambiente urgentemente. E isso é possível através dapromoção da Educação Ambiental. Foi visto no ensejo que a Constituição impõe ao Poder Público aimplementação da educação ambiental nas escolas, o que mais tarde foi regulado também através delei específica, qual seja a Lei nº 9.795/99, Lei de Educação Ambiental. Todas as pessoas são consumidoras em potencial. Portanto, formar uma populaçãoconsciente é formar consumidores conscientes, que se preocupam com o impacto que seu consumoterá no meio ambiente. A educação ambiental deve fazer parte da prática escolar, mas também das11 COSTA, José Kalil de Oliveira. Ob. cit. Nota 5. pág. 450.12 LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedade de risco. Rio de Janeiro:Forense Universitária, 2002. pág. 92.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 17conversas em casa e também nas comunidades. Associações de bairro podem contribuir bastantepara essa mudança na mentalidade de jovens, adultos e crianças. É preciso que haja uma mudança de valores, para que isso repercuta na forma deconsumo e consequentemente obrigue uma mudança no próprio sistema. O que define a produção éa demanda. Sendo assim, se os consumidores procurarem cada vez mais produtos que não agridama natureza e que seu descarte não gere tantos transtornos, o fornecedor indubitavelmente procurarásuprir essa demanda. A educação é, pois, o caminho seguro para a formação de consumidores conscientesque protegem e preservam o meio ambiente seguindo o dever imposto pela Constituição Federal aogarantir o direito ao meio ambiente de qualidade. 5. REFERÊNCIAS BASTOS, Lúcia Elena Arantes Ferreira Bastos. Consumo de massa e a ética ambientalista.In: Revista de Direito Ambiental. N. 43. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2006. BENJAMIN, Antonio Herman. Meio ambiente e Constituição: uma primeira abordagem.In: 10 anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin.São Paulo: IMESP, 2002 COSTA, José Kalil de Oliveira. Educação ambiental, um direito social fundamental. In: 10anos da Eco 92: O direito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. SãoPaulo: IMESP, 2002. FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de. Consumo sustentável. In: 10 anos da Eco 92: Odireito e o desenvolvimento sustentável. Org.: Antonio Herman Benjamin. São Paulo: IMESP,2002. FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Princípios do processo ambiental. São Paulo: Saraiva,2004. LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito ambiental na sociedadede risco. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. MILARÉ, Édis. Direito de Ambiente. Doutrina – jurisprudência – prática e glossário. SãoPaulo: Revistas dos Tribunais, 2000. PETTER, Lafayete Josué. Princípios constitucionais da ordem econômica: o significado eo alcance do art. 170 da Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. São Paulo: MaxLimonad, 2002. SEARA FILHO, Germano. O que é a Educação Ambiental. In: DesenvolvimentoSustentado: Problemas e estratégias. Editora: Elisabete Gabriela Castellano. SPINOLA, Ana Luiza S. Consumo Sustentável: o alto custo dos produtos queconsumimos. In: Revista de Direito Ambiental. N. 43. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais,2006.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 18 AGRESTE SETENTRIONAL DO ESTADO DE PE: IMPACTOS AMBIENTAIS CARACTERIZADOS PELO PROCESSO DE DESERTIFICAÇÃO EM SERRA SECA-PE Niédja Maria Galvão Araújo e OLIVEIRA Universidade de Pernambuco/UPE noliveir@oi.com.br João Allyson Ribeiro de CARVALHO Universidade de Pernambuco/UPE allysondecarvalho@hotmail.com Mariana Mendes NOGUEIRA Universidade de Pernambuco/UPE, Bolsista PIBIC/CNPq ABSTRACT The protection of areas susceptible to desertification in Brazil should be seen as a priorityto the welfare of the nature and of the society which inhabits them. This research brings as aim toanalyze the resources of nature, that are in process of degradation in the area of Serra Seca in SantaMaria do Cambucá-PE, while observing the continuation of a larger research project in this area.About the methods and techniques, it was used a methodology connected directly in the field,combined with analysis of staff, soil and interviews, all of these are the basis for a theoretical andpractical work. Still, we present the identification of the area undergoing rapid desertification,which brings out a guiding of this process, through human activities, incompatible with the carryingcapacity of the environment. KEYWORDS: Desertification; Mineral Extraction, Soil Degradation. RESUMO A proteção das áreas susceptíveis a desertificação no Brasil devem ser vistas comoprioridade ao bem-estar da natureza e da sociedade que nelas habitam. A presente pesquisa versa àleitura de objetivo voltado a analisar os recursos da natureza e da sociedade que encontram-se emprocesso de degradação na área da Serra Seca no município de Santa Maria do Cambucá-PE,pautando-se em continuidade de uma pesquisa maior dentro da área. No que se refere aos métodos etécnicas, foram utilizadas a metodologia direta de campo consorciada com análises de gabinete,analise de solo e entrevistas. Elementos basilares para fundamentação teorico-prática ao trabalhocom a identificação da área em acelerado processo de desertificação, apresentando característicasque norteiam a esse processo, desencadeadas por atividades antrópicas incompatíveis com acapacidade de suporte com o ambiente. PALAVRAS-CHAVE: Desertificação. Extração Mineral. Degradação de Solos. INTRODUÇÃO O processo de desertificação é um fenômeno que vem preocupando diversos países, face àsua grande perda da biodiversidade e inserção maléfica ao socioeconômico do lugar. O Brasil nãoestá excluído dessa realidade degradativa: oito estados do Nordeste, além do norte de Minas Geraissofrem riscos potenciais ao processo de desertificação. Muitos locais, já com variados níveis deocorrência, como se faz sentir na região de Serra Seca, área objeto de estudo, localizada noMunicípio de Santa Maria do Cambucá/PE, cuja posição geográfica é de 7º 48’ 45’’ de latitude S e35º 52’ 50’’ de longitude W de Greenwich (Figura 01).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 19 Figura 01: Localização da área de estudo. Fonte: EMBRAPA, 2005. O processo de desertificação vem sendo tratado desde os anos 30 do século passado. Noentanto, a evolução dos modelos de recuperação de tal processo se deu em 1992, na Conferência dasNações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro, quando foipossível delimitar conceitualmente o fenômeno desertificação, suas causas e efeitos, antes tratadoscom várias divergências entre os estudiosos. Na referida Conferência foi aprovado o documentodiscutido e válido até a atualidade. Pode-se exemplificar a partir da Agenda 21 nacional que em seu12° capítulo define desertificação como: “(...) a degradação da terra nas regiões áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante devários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”. Antes da formulação da Agenda 21 nacional, ocorreram discussões referenciando-se aosfatores que atuavam na deflagração dos núcleos de desertificação, sem definição clara entredesertificação e desertos. Além da Agenda 21, Nimer (1988, p. 04) também tratou do assunto,diferenciando deserto como sendo um estágio final de degradação, tendo características próprias, ea desertificação como um processo em que estas características se tornam variáveis de acordo como grau da evolução degradante: “Deserto e Desertificação, embora tenham a mesma etimologia e, de certa forma,fundamentos semelhantes, designam coisas distintas. Deserto é um fenômeno acabado e resultanteda evolução de processos que alcançaram certa estabilidade final, e que pode ser definida comoum clímax ecológico, isto é, por uma espécie de equilíbrio homeostático natural”. Os impactos naturais vêm sendo visualizados, no ambiente, através da eliminação dacobertura vegetal com consequente redução da biodiversidade local, permitindo que os solos fiquemmais vulneráveis à erosão, como por exemplo: as águas da chuva que arrastam todos os seusnutrientes inorgânicos e orgânicos, provocando nos rios enchimento dos leitos, fenômeno esteconhecido como assoreamento. Tais erosões fazem com que ocorram perdas, parcial ou total nossolos, seja por fenômenos físicos (voçorocas) ou fenômenos químicos (salinização e alcalinização).Além disso, a incapacidade de retenção de água nos solos aumenta à seca edáfica. Todos essesfatores afetam a fertilidade e a produtividade agrícola, impactando o ambiente. Elementos esses, problemas à economia, como a queda na produção e produtividadeagrícola, diminuindo a renda e o consumo da população, resultando na desorganização do mercadolocal e regional. Prejuízos sociais como estes, são caracterizados pela diminuição da qualidade devida, o aumento da mortalidade infantil e diminuição da expectativa de vida da população. Em
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 20geral, pode-se afirmar que a população de Serra Seca é uma das mais pobres do Estado sem acessoà educação e à renda adequada. Os impactos na região de Serra Seca não deixam de ser perceptíveis, assim como as áreasque sofrem com a desertificação, essa região padece consequências dos impactos citados acima,principalmente os que afetam os aspectos físicos, com a retirada da cobertura vegetal, e da areiapara a construção civil, e os que afetam os aspectos econômicos com a perda da produção dacastanha de caju, entre outros que existem na região, desestruturando a renda familiar e o comércioregional. A desertificação não é um processo irreversível, porém, as recuperações das áreas afetadaspodem ser inacessíveis para muitos. É preocupante que, na maioria das localidades brasileiras, o desenvolvimento sustentávelainda seja algo distante de ser percebido, principalmente, onde a desertificação e a seca estãopresentes, devido à carência da população que nela habita. O trabalho em referência já se encontraem desenvolvimento desde 2008, na região do Sítio do Manduri, município em pauta, cujo norte deintensificação da área de pesquisa passou a massificação face o processo de desertificação não estarexclusivamente pontuado no Sítio do Manduri, mas que amplia-se em outras áreas implícitas nomunicípio e até mesmo estendendo-se até outros, como se exemplifica em Vertente do Lério. Esseúltimo, através da extração do calcário. Diante do exposto, a pesquisa versa como objetivo depotencializar análises do meio físico e socioeconômicos, de modo a priorizar o processo emergentede desertificação na área e suas consequências no ambiente, associado a processos migratórios domunicípio de Santa Maria do Cambucá para as áreas adjacentes de oferta de mão-de-obra. METODOLOGIA Para a elaboração da pesquisa, foi necessário detectar o problema através da observaçãoem campo, do reconhecimento da degradação ambiental, das entrevistas e as pesquisasbibliográficas no que diz respeito à desertificação, suas causas e consequências. Para obtenção dosresultados, necessário se fez a parceira com a Prefeitura Municipal de Santa Maria do Cambucá e aSecretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado de Pernambuco-SECTMA/CONSEMA. No concernente à metodologia aplicada, estriba-se numa combinação peculiar parapercepção das investigações a seguir: a revisão bibliográfica veio contribuir para o subsídio dafundamentação teórica necessária ao embasamento deste trabalho. Utilizaram-se ainda mapasclimáticos, geológicos, pedológicos, hidrográficos, políticos e imagens de satélite. A coleta deamostras do solo, para análise químico-física e teor de matéria orgânica será imprescindível paraverificação do grau de probabilidade ao processo de desertificação e ao mesmo tempo à execuçãode um manejo sustentável. Essas análises estão sendo aferidas em laboratório. Nesse sentido, pluraliza-se viabilidades de conscientização no âmbito ambiental. Osparticipantes da pesquisa têm como objetivo fazer com que as famílias do município tenhamcondições de viver do cultivo do caju, utilizando-o não apenas para a extração da castanha, mastambém aproveitando o seu pseudofruto, seja para a produção de doces e outros produtos. Paratanto, o tratamento da presente proposta está sendo desenvolvida a partir de encontros e oficinascom a população local. Através das entrevistas foram coletados dados sobre a estrutura sócio-econômica do local,buscando soluções para a problemática. Tais soluções estão pautadas na adoção de alternativascomo programas para a sensibilização das famílias residentes nas áreas de extração. Como materialtécnico, foram utilizados: bússola para a aferição do grau das vertentes, o GPS para a localização eavaliação do tamanho das áreas degradadas, altímetro, que junto com o GPS foi utilizado para
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 21medir as altitudes, sacos plásticos, pás e espátulas para a coleta de material, e trenas para a mediçãodas vertentes. RESULTADOS E DISCUSSÃO A extração de areia que acontece na área foco de trabalho é um espelho das condições emque vivem a população desfavorecidas da região. A necessidade e a desinformação são as principaiscausas das vendas e alugueis de lotes para comercialização de sedimentos. A partir desta lacunaaberta, as empresas propõem a estas famílias lucro imediato. Quem permite a extração em suapropriedade não tem consciência de que a terra se tornará improdutiva. No sentido de compreendere solucionar essa problemática encontra-se em processo de realização a tabulação dos dados obtidoscom as entrevistas realizadas com os moradores da área, uma vez que estes são os elementosfundamentais por serem os atores diretos do processo de degradação in loco. Encontra-se em fase de trabalho a conscientização da população, com visitas a colégioslocais e palestras abertas às pessoas diretamente ligadas à atividade de extração de areia. Essasatividades vêm sendo apoiadas através da Prefeitura. As entrevistas com os atores locais para aanálise dos trabalhos encontram-se em desenvolvimento, portanto, as mesmas não deverão aparecerno texto em face de não representarem no momento a realidade do processo social em estudo. Com a sequência de trabalhos técnicos de campo, percebeu-se que a extração de areia éfeia a partir da venda ou aluguel de lotes de terra. Grande parte da areia retirada segue paramunicípios vizinhos, para a indústria de construção civil. E, na maioria das vezes, não mais com aretirada à base da pá (Figura 02), mas sim através de retro escavadeiras (Figura 03), retirandosedimentos em volume muito mais acentuado, chegando a alimentar indústrias de construção civilde grande porte na cidade do Recife. Figura 02: utilização da pá enquanto ferramenta. Figura 03: uso de escavadeira. No caso do caju, também é utilizado para a extração da castanha, que segundo uma dasentrevistadas, é comercializada com um lucro médio mensal de R$50,00. Esta prática podecontribuir no combate à desertificação, já que para cessarem as vendas e os alugueis de terras, asfamílias precisam de um trabalho que traga renda. O estudo realizado pela EMBRAPA (2009)mostra que o Município de Santa Maria do Cambucá possui 63% de aptidão para a cultura do caju,o que é um bom percentual visto que o solo e o clima não são favoráveis para todos os tipos decultura. Porém, falta às famílias de produtores o aprimoramento desta atividade, como cursos decapacitação que os ajudem, a trabalhar a matéria-prima. Segundo outro entrevistado, foi construídauma Usina de Benefício do Caju e da Castanha, que ajudaria os agricultores no trabalho com o caju.Porém, segundo ele, a mesma foi construída longe da população (no centro urbano) e acabou pornão fazer o trabalho para o qual se destinava. Todavia, a usina atualmente após esse trabalho depesquisa, já se encontra lotada na área de produção, para seu beneficiamento.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 22 É notável que a desertificação gere múltiplos prejuízos econômicos e sociais. O êxodorural na região afetada é bastante comum. Considerando as entrevistas, foi percebido que as novasgerações das famílias residentes na área vêm para a capital, tentando fugir da pobreza, fato que vemagravando os problemas de infra-estrutura já existentes. No caso do município de Santa Maria doCambucá, o fenômeno do êxodo rural acontece quando as famílias percebem que a terra se tornoupouco ou totalmente improdutiva após a degradação. De acordo com a SECTMA (1993, p. 03), adegradação das terras causa sérios problemas econômicos. Isto se verifica principalmente no setoragrícola, como comprometimento da produção de alimentos. Além do enorme prejuízo causado pelaquebra de safras e diminuição da produção. Como a prática da retirada de areia é ativa em certos terrenos, é possível observar naFiguras 04 e 05 as áreas desnudadas após a partida de caminhões que levam o mineral. Figura 04: Área degradada. Solo estéril. Figura 05: Cratera após a retirada da areia. A retirada da areia junto ao lucro traz consigo uma condição irreversível para a terra, poiso solo fica vulnerável à ação das chuvas, que escoam e carregam os nutrientes da área afetada,destruindo a cobertura vegetal e trazendo prejuízos a médio e/ou longo prazo. Este fato se dá pelafalta de permeabilidade da rocha matriz, sendo esta formada pelo embasamento geneticamente deorigem do planalto da Borborema. A Figura 06 mostra o afloramento da rocha matriz após aextração da areia. Os prejuízos em longo prazo são mais preocupantes neste município, pois a agricultura é omeio de subsistência da maioria das famílias residentes. Estas têm como principais atividades ocultivo de feijão, milho e do caju, que na sua maioria são para consumo próprio. Com as visitas decampo, foram coletados alguns dados sobre as crateras e locais degradados. Serão abordados aseguir alguns fatores que mudam após modelos de uso e ocupação do solo inadequado. Atividade degradante: Em média 80% das crateras visitadas já são inativas, ou seja,chegaram a um ponto em que os nutrientes e sedimentos finos se extinguem só restando a rochamatriz. Nessas áreas podem ser observados troncos de árvores empilhados a serem comercializados.(Figura 07).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 23Figura 06: Afloramento da rocha matriz depois de retirada Figura 07: madeira a ser comercializada proveniente do indiscriminada de sedimentos. Cajueiro. Unidade de relevo: Representada por pediplanos. Grande parte das áreas analisadasdemonstra um relevo de depressão relativa, aplainado com baixas altitudes também causadas pelosprocessos intempéricos. O relevo estudado variou entre ondulado, levemente ondulado ou plano,não tendo grandes variações de altura, a não ser nas vertentes das crateras, que chegam até 7 metros,visualizado na Figura 06. Altitude: Foram aferidas com a ajuda do aparelho de GPS, medidas em cada ponto dasvertentes formando um “X”, variando de 423m a 494m. Um fato importante para a interpretaçãoambiental da área, que por sua vez não apresenta declividades acentuadas apesar das consideráveismédias de altitude. Hidrologia: Antes da retirada da areia, poucas vezes o solo consegue reservar água em suasuperfície pelo fato do relevo ser constituído de cobertura de regossolos, com altas taxas depermeabilidade. Solos: Foram encontrados os seguintes tipos de solo: Regossolo: Em grande parte das áreas visitadas foi encontrado esse tipo de solo, quasemassificado localmente. As areias quartzosas distróficas ocupam o segundo tipo de solo maisaflorante. Este solo como o regossolo possui grande poder de percolação, por ser um solo ácido nãoretém umidade em seu perfil. Esse fato agrava o problema da população local, pois não existemreservas para absorção de água necessária ao consumo. O Poder Público implementou nas áreascríticas cisternas para o armazenamento de águas pluviais. Vegetação: Foram encontrados tipos de vegetação arbórea, arbustivas e herbáceasretratando o domínio da caatinga, verificou-se algumas espécies atípicas a este domínio sendo amaioria frutíferas, como o caju nativo com predomínio, coco, pinha, limão, goiaba, tamarindo e jaca(cultura), que pelo que aparentavam estavam adaptadas ao ambiente. Dinâmica instável: Em alguns casos são encontradas moradias na proximidade dascrateras. Porém, na grande maioria, não há população perto das atividades de extração, enfatizando-se, portanto, uma dinâmica voltada para a retirada indiscriminada de sedimentos. Aptidão Natural: A maior parte dos terrenos possui aptidão para o cultivo do caju.Também há, em alguns locais, aptidão para a palma, agricultura de subsistência, pecuária elaboratório para aulas práticas. CONCLUSÕES A busca por condições sociais favoráveis nem sempre é bem sucedida. Na maior parte dasvezes, quem vem para a cidade no intuito de buscar melhores condições sociais, acaba vivendo àmargem da sociedade, não participando da força de trabalho e agravando a estrutura urbana. Paraque a degradação ambiental progressiva do Município de Santa Maria do Cambucá seja reduzida,fazem-se necessárias Políticas Publicas que venham estimular a comunidade a se fixar no campo,evitando o êxodo.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 24 A degradação da área de Serra Seca ocorre devido à extração exacerbada das areias nasáreas menos desenvolvidas, por meio da negociação com os proprietários dos lotes que alugam aárea para a retirada da areia. Essa extração é muitas vezes feita por indivíduos de municípiosvizinhos que procuram este tipo de solo para a retirada e utilização na construção civil. Esta práticavem trazendo grandes problemas para a população, desde a falta de terra fértil para o plantio, quantoà marginalização da parcela afetada por esta atividade. A estrutura original da área se mostra por uma área de depressão relativa e em seu entorno,testemunhos residuais do Planalto da Borborema e o calcário do município de Vertente do Lério. Orelevo local e tipo de solos, em junção com a escassez relativa de pluviosidade torna bastante difícilo acúmulo de umidade no solo. Por ser de relevo de pediplano e solos porosa a água da chuva,escoa e infiltra de forma a não permitir a concentração de nutrientes e consequentemente retençãode umidade. Apesar de toda a dificuldade de fertilidade, o cajueiro é bastante comum no local, o quepode ser o ponto inicial da tomada para a sustentabilidade das famílias residentes ali, já que para aextração da areia faz-se necessária a retirada da cobertura vegetal, e consequentemente, do solo.Nessa instância, para que a cultura do caju possa progredir as retiradas de sedimentos precisamcessar urgentemente. A adoção de ações pautadas na Educação Ambiental deve subsidiar asatividades inseridas na área com vistas à meta do desenvolvimento local e sustentável. A presentemeta está sendo perseguida a partir de pequenas, todavia, importantes ações propostas pelo presenteestudo e com a anuência da Prefeitura Municipal. Só com o consórcio da comunidade, PoderPúblico e Academia, o futuro do Município de Santa Maria do Cambucá poderá assegurar aos seuscidadãos sustentabilidade local e ambiental. REFERÊNCIAS BRASIL, Senado Federal. Conferência das nações Unidas sobre Meio Ambiente eDesenvolvimento. Rio 92. Agenda 21. Brasília: Senado Federal; Subsecretaria de edições técnicas,1996. EMBRAPA, Zoneamento Pedoclimático do Cajueiro para o Estado de Pernambuco.Disponível em: http://www.uep.cnps.embrapa.br/caju/index.php?link=index. Acesso em:20/11/2009. NIMER, E. Desertificação: Realidade ou Mito? Revista Brasileira de Geografia. Rio deJaneiro, IBGE, 50 (1): 7 – 39 jan/mar, 1988. PERNAMBUCO. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Plano dedesenvolvimento florestal e da conservação da biodiversidade de Pernambuco. Recife:Sectma-PE, 1993.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 25 ANÁLISE DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DA COMUNIDADE RIBEIRINHA PANTANAL EM ARACAJU BIANCHINI, Ilka Maria Escaliante Rede Estadual de Ensino SE - Professora ibianchini@yahoo.com.br LIMA, Josael Bruno de Souza Rede Estadual de Ensino SE – Professor jobs@infonet.com.br SANTOS, Lorena Xavier SENAI SE – Docente lorenasantos@se.senai.br RODRIGUES, José Lourenço SENAI SE – Docente joselourenco@se.senai.br ABSTRACT The necessity of protection for the aquatic environments has been assuming the projectionof global order. The adaptation of managerial and domestic processes with relationship to therelease of sewers and garbage is urgent and it requests of the competent organs a more criticalglance in than says respect to the environmental preservation. In another sphere, the environmentaleducation gone back to the riverine communities that a lot of times pollute the waters of the riversfor knowledge lack makes itself necessary, because the pollution of water by riverine besides beingan environmental problem is also a public health problem. The objective of this work is to analyzethe environmental perception of a riverine community in the Pantanal, located the river Poxim nearthe neighborhood Inácio Barbosa in Aracaju, Sergipe. Data collection through site visits andinvestigative questionnaires, showed us the list of people who live there with the river Poxim. KEYWORDS: Environmental degradation; Riparian; river Poxim. RESUMO A necessidade de proteção aos ambientes aquáticos tem assumido projeção de ordemglobal. A adequação de processos empresariais e domésticos quanto ao lançamento de esgotos eefluentes é urgente e requer dos órgãos competentes um olhar mais crítico no que diz respeito àpreservação ambiental. Numa outra esfera, a educação ambiental voltada para as comunidadesribeirinhas que muitas vezes poluem as águas dos rios por falta de conhecimento faz-se necessário,pois a poluição das águas pelos ribeirinhos além de ser um problema ambiental é também umproblema de saúde pública. O objetivo geral deste trabalho será o de analisar a percepção ambientalda população ribeirinha da comunidade do Pantanal, localizada as margens do rio Poxim, próximoao bairro Inácio Barbosa em Aracaju, Sergipe. O levantamento de dados deu-se através de visitas“in loco” para aplicação de questionários investigativos, que se evidenciou uma relação de pessoasque ali habitam com o rio Poxim. PALAVRAS-CHAVE: Degradação ambiental; Mata ciliar; rio Poxim. CARACTERIZAÇÃO DO RIO POXIM O rio Poxim, é um dos principais afluentes da margem direita da Bacia Hidrográfica doRio Sergipe, é considerado uma sub-bacia que abrange parte dos municípios de ItaporangaD’Ajuda, Areia Branca, Laranjeiras, Nossa Senhora do Socorro, São Cristóvão e Aracaju recebendoas águas dos rios Poxim-Mirim, Poxim-Açu e Pitanga, tendo sua foz na maré do Apicum. A região estuarina do rio Poxim, está localizada na região sudoeste do Estado de Sergipe,possuindo uma extensão de aproximadamente 9 km, com cerca de 100 m de largura e profundidademédia de 2 m. O estuário do rio Poxim é uma das principais fontes de abastecimento de água doEstado, recebendo uma grande carga poluidora decorrente da industrialização e do crescimentourbano desordenado. Levando-se em consideração que as concentrações de nutrientes (nitrogênio e
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 26fósforo), estão geralmente relacionadas à carga poluidora recebida pelo ecossistema aquático, ondeelevados valores servem como indicativo do estado de eutrofização é, portanto, de grandeimportância o controle dos teores de nutrientes neste ambiente. A necessidade de proteção aos ambientes aquáticos tem assumido projeção de ordemglobal. O derramamento de óleo, despejos industriais e domésticos, rejeitos de origem hospitalar,contaminação por fertilizantes e pesticidas, desmatamento de manguezais, bem como, redução deespécies animais e vegetais, constituem foco da atenção a fim de estabelecer proteção adequada aosrecursos marinhos e aquáticos. A área estudada compreende a região que fica localizada atrás do Conjunto Beira Rio, noBairro Inácio Barbosa e surgiu de uma invasão tendo às margens o Distrito Industrial de Aracaju(DIA), onde se encontram indústrias de produtos alimentícios, móveis, plásticos, produtos têxteis,químicos, dentre outras. Constitui-se em um dos principais afluentes do rio Sergipe, amplamenteutilizado pela população do estado desde a captação de águas pela Companhia de Saneamento deSergipe (DESO), ao uso indiscriminado pela população em geral e comunidades ribeirinhas, queapesar de retirar o sustento de suas famílias, possuem relações bem próximas com o rio no que dizrespeito a lazer, prática de esportes, uso das águas para lavagem de roupas, despejo de lixo entreoutros. A destruição da mata ciliar e os desvios feitos em mananciais por fazendeiros da regiãotambém vem contribuindo significativamente para a agressão ao rio, influenciando no volume deágua. De acordo com o Comitê da bacia hidrográfica do rio Sergipe, a qualidade da água do rioPoxim em alguns trechos é sofrível, apresenta altos índices de metais pesados, coliformes fecais epesticidas, prejudicando ainda mais o ecossistema do rio. O lançamento de efluentes domésticos e industriais sem tratamento eleva os processos deeutrofização do rio, comprometendo a vida do ecossistema e a vida das pessoas que utilizam as suaságuas. O Poxim percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma rede desaneamento correta e todos os dejetos que saem das casas da área em questão, sejam eles orgânicosou artificiais, são jogados diretamente no rio. O estuário do Rio Poxim pode ser caracterizado como um ambiente bastante impactado,com resíduos oriundos basicamente do aporte de efluentes industriais e domésticos que não temtratamento adequado. Seu estado de eutrofização é bastante elevado, o que requer ações demitigação para colocá-lo em condições ambientais sustentáveis. COMUNIDADE PANTANAL: A INTERAÇÃO ENTRE OS ELEMENTOSECOLÓGICOS E SOCIAIS O Pantanal fica localizado atrás do Conjunto Beira Rio, no Bairro Inácio Barbosa na zonasul de Aracaju e surgiu de uma invasão a mais de 25 anos. Os problemas de infra-estrutura destacomunidade em maior ou menor grau condenam a qualidade de vida da população. Curiosamente, oPantanal está situado entre o Distrito Industrial de Aracaju, cujas atividades parecem não terabsorvido a mão de obra local, fato que poderia ter auxiliado no desenvolvimento da comunidade, eo Parque dos Coqueiros, bairro de classes média e média alta. No presente estudo, procurou-seconhecer as percepções relacionadas ao meio ambiente da população ribeirinha do AssentamentoPantanal as margens do Rio Poxim, no município de Aracaju, para que a questão ambiental pudesseser contextualizada como um sistema complexo, com a interação entre os elementos ecológicos esociais. A população atual é genuinamente urbana e composta por aproximadamente 500 famílias,segundo pesquisa de 2005 realizada pela Secretaria Municipal de Saúde. Quem segue pelo primeirotrecho do conjunto Beira Rio, bairro regulamentado nas proximidades do rio Poxim, depara-se derepente com uma mudança radical de paisagem. O caminho inicial é repleto de casas grandes,algumas até luxuosas, e a pista é asfaltada. Alguns metros depois a situação é bem diferente. Não hámais asfalto, só uma estrada de terra. É aí então que começa a Comunidade Pantanal, margeando o
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 27rio Poxim. O acesso é feito por um estreito caminho chamado de Avenida Pantanal que segundomoradores, há muito tempo, foi a primeira avenida aberta na comunidade. A área apresenta problemas de infra-estrutura que, em maior ou menor grau, condenam aqualidade de vida da população e comprometem o ambiente natural onde a comunidade estainstalada. Curiosamente, o Pantanal está situado entre o Distrito Industrial de Aracaju, cujasatividades parecem não ter absorvido a mão de obra local, fato que se ocorrido, poderia terauxiliado no desenvolvimento da comunidade, e o Parque dos Coqueiros, bairro de classes médias emédias alta. Diante da crise ambiental que a humanidade está atravessando, à exploração equivocadados recursos naturais e à poluição diversificada do planeta, as questões referentes ao meio ambienteadquirem grande importância. Entretanto, os problemas ambientais não estão restritos aoselementos ecológicos, cuja degradação está combinada com a rápida expansão populacional e com avisão fragmentada da sociedade. Esses problemas não podem ser entendidos isoladamente, pois sãoproblemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes. As soluçõespara estas questões requerem mudanças de percepção em relação aos valores humanos, através deuma reflexão ética para com as atitudes em relação ao meio ambiente. A escola por sua vez, torna-se parte integrante na agregação destes valores ambientais que devem ser abordados, auxiliando naconstrução de conceitos e ampliando a visão dos cidadãos em todos os níveis da sociedade. Osurgimento de metodologias de ensino participativas em prol da democracia, do exercício dacidadania e da qualidade de vida deve existir para todos da mesma forma, respeitando a diversidadecultural e as identidades dos grupos sociais. Neste sentido, a escola apresenta grande potencial paraa identificação, diagnóstico e contribuição no esclarecimento das questões ambientais dacomunidade à sua volta, uma vez que estudantes, professores e funcionários levam suas vivênciaspara a prática cotidiana escolar. Para tanto a identificação das representações desses sujeitos sobreas questões ambientais deve ser o primeiro passo para a elaboração de um projeto de educaçãoambiental. O conceito clássico de Bacia Hidrográfica explicita basicamente o conjunto de terrasdrenadas por um corpo d’água principal e seus afluentes, numa perspectiva hidrológica (PIRES et.al, 2002). Esse conceito, porém, vem se expandindo, uma vez que a bacia hidrográfica vem setomando uma unidade de planejamento e gerenciamento ambiental. Essa unidade é apropriada paraestudos ambientais integrados, pois sobre os sistemas hidrológicos, geológicos e ecológicos de umabacia hidrográfica atuam forças antropogênicas, onde os sistemas biogeofísicos, econômicos esociais interagem. (TUNDISI, 2003) A interação humana da comunidade Pantanal com o rio Poximtornou-se foco principal no levantamento de dados norteadores acerca da percepção ambiental dosmoradores desta região, com a finalidade de averiguar a estreita relação existente entre homem emeio ambiente. No presente estudo, o conhecimento da percepção ambiental da comunidadePantanal sobre o Rio Poxim, no município de Aracaju, foi essencial para que a questão ambientallocal pudesse ser contextualizada como um sistema complexo, com a interpretação da interaçãoentre os elementos ecológicos e sociais. A Comunidade Pantanal apresenta problemas de infra-estrutura que a mais de 25 anos,engessam a elevação da qualidade de vida da população: saneamento básico precário e/ouimprovisado, ausência de calçamento, iluminação pública deficitária, falta de segurança edificuldade de acesso aos programas sociais e/ou educativos. O poder público municipal apenas sefaz presente pela regularidade da coleta de lixo. O Pantanal se subdivide em duas etapas. Umadelas, provavelmente a mais antiga, é conhecida por muitos como Vila do Rato, parte da invasãoque possui mais de vinte anos de existência e é a parte mais pobre do Pantanal. O acesso a estaetapa é feito por um estreito caminho na beira do rio. As casas (barracos), improvisadas e semcondições de habitação, acompanham a margem direita do Poxim e se espalham por algumas ruas.A segunda parte, cujos traços de urbanização são mais evidentes (guardadas às devidas proporções),apresenta construções mais bem acabadas, feitas de alvenaria e um número mínimo dedependências (quarto, sala, cozinha e banheiro). Todavia, vale à pena sublinhar a existência de
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 28casas que, com dois quartos (amplos) e bem divididas, acabam por se destacar dentre as demaishabitações. A partir de um questionário dirigido à comunidade no dia 08 de julho de 2009, foi possíveladquirir algumas informações pertinentes ao trabalho visitando 70 residências, com média de 04pessoas por família. Perguntadas inicialmente se sabiam quais os motivos principais que levam aescassez de água no Planeta Terra, 77% dos entrevistados afirmaram que sim, e apontaram odesmatamento, o desperdício de água, o aquecimento global, lixos domésticos e dejetos industriaiscomo as maiores causas de degradação ambiental. Solicitados que justificassem suas respostas, aproximadamente 81% dos entrevistadosdemonstraram possuir informações mesmo que superficiais a respeito dos reais motivos que temlevado a escassez de água no planeta, e cerca de 19% desconhecem as suas reais causas. Para osmoradores as causas que mais contribuem para a escassez de água no Planeta Terra são: odesperdício de água (50,8%), o desmatamento (15,4%) e a poluição (13,8%) de água no PlanetaTerra. As tabelas a seguir ilustram muito bem esta realidade que constatamos a partir dedepoimentos dos habitantes da região. As demais causas juntas representaram apenas 13,0%,consideradas, portanto desprezíveis para uma análise mais profunda. Os moradores foram indagados se conheciam quais as causas de agressão aos rios quebanham a capital sergipana, especialmente o rio Poxim. Aproximadamente 94,40% dosentrevistados disseram que sim, cerca de 4,40% afirmaram desconhecer e os 2,20% restantes nadainformaram. De posse destes dados, pedimos que citassem os principais agentes causadores destapoluição. Após a análise e discussão chegou-se aos seguintes resultados: 42% citaram o lixocomum, 21,74% os dejetos industriais, 16,31% citaram os esgotos domésticos e 9,79% a falta deconscientização da população. Os entrevistados citaram o lixo, os poluentes industriais e a falta de tratamento de esgotocom peso relevante para os resultados, ou seja, constituindo-se em 80,44% do problema. Foipossível observar que todo tipo de dejeto produzido nos barracos vão direto para o rio, nem todas ascasas possuem fossa séptica e isso torna-se um grande problema para os moradores e para o rio. Noinicio do assentamento pescadores e familiares se alimentavam do rio. O pescado hoje no RioPoxim praticamente não existe, estando bastante escasso devido à poluição produzida pelas fábricasdo Distrito Industrial de Aracaju e pelas residências da própria comunidade. Uma das perguntas dirigida à comunidade é se conheciam o que pode causar as queimadase a devastação das matas ciliares aos rios. O primeiro passo foi esclarecer o que é mata ciliar.Depois disso, alguns dos entrevistados disseram que as queimadas e a devastação das matas quecircundam os rios, modificam a estrutura do solo provocando o assoreamento pela diminuição dacapacidade para absorver as chuvas, afetando seriamente a pesca e a vida de outros organismosvivos. Outros destacaram o aumento do buraco da camada de ozônio da atmosfera e o aumento dapoluição atmosférica como conseqüência principalmente das queimadas. Disseram que a poluiçãoagride ao meio ambiente e à saúde do homem. Pode-se notar também que 37% dos entrevistadosnão responderam o que perguntamos, quem sabe, ou por não saber ou por não demonstrareminteresse. Segundo moradores que já vive na comunidade há muito tempo toda área no inicio doassentamento era uma lagoa de dejetos industriais. Para alguns as conseqüências de tudo isso são
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 29um número cada vez maior de ratos e doenças como leptospirose, cólera, doença de pele,verminoses, além de agentes biológicos como bactérias e tantos outros que a comunidadedesconhece. De acordo com os dados da pesquisa realizada, foi possível verificar que 58% dosmoradores da localidade conhecem alguma lei que defende o meio ambiente de condutas que oprejudiquem, porém, quando perguntamos se sabiam citar todos responderam que não. Éimportante ressaltar que as leis são reguladores externos do comportamento humano, indispensáveisà sociedade. No entanto, para que sejam conscientemente respeitadas, faz-se necessário conhecerpara que produza uma mudança interna nos indivíduos. A educação para o meio ambiente, no entanto, deve ser de maneira ampla e geral, para quepossa favorecer uma nova ordem social consciente, crítica, e, sobretudo, responsável. Apesar de nãocitarem alguma legislação que defende o meio ambiente destacam o Ministério Público a ADEMAe o IBAMA como órgãos de fiscalização e de encaminhamento de crimes ambientais. De acordo com os dados da pesquisa realizada, foi possível verificar que 97% dosentrevistados disseram não ter hábito de poluir o Rio Poxim. Contradizem-se quando 61% afirmamque os dejetos sanitários são jogados no rio e 71% destacam a não existência em suas residências defossa. Opondo-se a afirmação da maioria que dizem não poluir o rio, moradores talvez maisconscientes, disseram que sempre se encontra no seu leito animais mortos, sofá boiando, fezesdentro de sacos plásticos, móveis e eletrodomésticos. Apesar de 28% dos entrevistados afirmarem que suas casas possuem fossas, observa-seoutra realidade. Encontramos ruas totalmente poluídas e sem nenhum saneamento básico, aexemplo da Avenida Pantanal que uma das mais antigas do assentamento segundo moradores.Infere-se tudo isso a ausência do poder público, que pouco tem investido na educação parapreservação da natureza, apesar da coleta de lixo na comunidade acontecer com freqüência pelopoder público municipal, ou seja, três vezes por semana, assim afirmaram 64% dos consultados.Para 33% dos indagados a coleta de lixo acontece com regularidade, porém, acreditam que deveriaser melhor. Apenas um afirmou que a coleta é rara. Ao analisar as informações a respeito do nível de escolaridade da comunidade percebeu-seque 57% possuem nível fundamental, 38% nível médio, 3% tem formação em nível de 3º grau e 1%concluiu curso técnico. Do universo de entrevistados foi encontrado apenas um analfabeto. Osdados levam-se a concluir, que 99% da população entrevistada é alfabetizada. Já tinha sidoconcluído anteriormente que 97% dos entrevistados afirmavam não jogar lixo no rio. O dado agorapesquisado concluir-se que quanto melhor for o nível de escolaridade, ou seja, as pessoas forempelos menos alfabetizada, melhor também será seu nível de consciência. De acordo com a faixa etária das pessoas que moram na comunidade, verifica-se que dototal analisado, a faixa etária de maior incidência está no intervalo de 27 a 35 anos, num total de 20,representando 32% do universo pesquisado, conforme pode ser visto na tabela 5 e no gráfico 5. Naseqüência, as pessoas consultadas estão nas seguintes faixas etárias: de 11 a 19 anos, num total de11, representando 17%, de 19 a 27 anos, num total de 13 pessoas consultadas, o correspondente a21%, de 35 a 43 anos, num total de 8, o que corresponde a 13%, de 43 a 51 num total de 7 pessoas,com um percentual de 11% e finalmente de 51 a 59 anos, 4 pessoas pesquisadas, representando6%. Numa população tão jovem como a da comunidade pantanal, a aplicação de oficinas e palestrasvoltadas a comunidade em prol do desenvolvimento da percepção ambiental é uma maneira deconstruir quanto mais às pessoas participarem, mais elementos para desenvolvimento de umaconsciência de respeito ao meio ambiente terão. A partir do momento em que se consegue implantar nas mentes e nos corações de todos,uma nova maneira de enxergar e de explicar a vida e tudo o que nela existe, os cidadãos bemorientados poderão contribuir para a preservação da vida respeitando o meio ambiente. CONCLUSÃO Concluiu-se que devido à falta de moradia apropriada para alguns aracajuanos, acomunidade teve início às margens do rio com casas construídas em madeira sem nenhumaestrutura nem tampouco rede de esgoto. O Pantanal é fruto de um processo de loteamento irregular
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 30efetivado em terras que pertence à União. Existe pelo menos há trinta anos segundo a pesquisaefetuada no local. Podemos compreender que se fizermos uma projeção desse dado a populaçãohoje se aproxima de 3.000 moradores. Em conversas, através das entrevistas, pode-se perceber que89% da população residem a menos de 11 anos no Pantanal e afirmam que no inicio não se via tantadestruição. A comunidade observada hoje no Pantanal é jovem, boa parte instruída, fato que auxilia narelação existente entre rio e comunidade. Os problemas sócio políticos que ali são verificados sãoinúmeros, e concluiu-se que obras necessárias para o bem estar da população e promoção daqualidade de vida, falta da aplicação e planejamento de gestão ambiental de resíduos industriaistornaram-se uma constante em todos esses anos de assentamento, deixando a desejar e gerando umadesconfiança da população em torno das resoluções governamentais e da justiça ambiental. Diante do exposto, percebe-se que a preservação do meio ambiente deve ir além dasquestões legais e políticas, partindo do social, a educação voltada para o jovem, futuros cidadãosatuantes, deve ser incentivada então no que se refere ao conhecimento do ambiente em que se vive eisso sim, deve ser levado em consideração. O Poxim percorre vários bairros da capital sergipana, onde a maioria não possui uma redede saneamento correta e todos os dejetos que saem das casas, sejam eles orgânicos ou artificiais, sãojogados diretamente no rio. Para alguns moradores o mau cheiro incomoda a população e afasta aclientela de alguns comerciantes. A ocupação desordenada e o despejo de lixo em locaisinadequados favorecem aos altos índices de poluição. Os órgãos ambientais permanecemmonitorando e fiscalizando todos os pontos a fim de manter o controle dos índices de poluição. A Educação Ambiental tem a sua importância na possibilidade de, a partir doconhecimento das leis e o respeito ao meio ambiente, reduzir consideravelmente as agressõesambientais e, sobretudo, os danos à natureza. Configura-se, pois, como expressão incondicional derespeito à própria vida. A percepção ambiental, ou cognição ambiental, é o termo usado para sereferir à tendência geral pelas quais as pessoas desenvolvem atitudes e sentimentos em relação aoambiente. (ALTMAN; CHEMERS, 1989) Faz-se urgente o incentivo, a criação e aplicação de programas de educação ambiental sejapor meio das escolas circunvizinhas, por meio de oficinas organizadas pela própria comunidade. Aeducação modifica o pensamento, o pensamento norteia as ações. Indivíduos bem informadosbuscam por melhores condições e a partir daí, desenvolvem força para requerer junto às autoridadesos direitos que lhe assistem e lhe são tirados. Estas questões, como muitas outras, estão colocadaspara a sociedade brasileira e exigem repostas bem fundamentadas de todos nós. (BEOZZO et. al,2003) REFERÊNCIAS ALTMAN, I. CHEMERS, M.M. Cultura e Ambiente. Cambridge. Cambridge UniversitPress, 1989. BEOZZO, José Oscar; REBOUÇAS, Aldo da Cunha; MALVEZZI, Roberto; SILVA,Marina; BARROS, Marcelo; CAPPIO, Luis Flávio. Água é Vida: Dom de Deus eResponsabilidade Humana. São Paulo: Paulus, 2003. PIRES, J. S. R. A utilização do conceito de Bacia Hidrográfica para conservação dosrecursos naturais. Conceitos de Bacias Hidrográficas: teorias e aplicações Ilhéus: Editus, 2002. TUNDISI. J.G. Água no século XXI: enfrentando a escassez. São Carlos: RIMA IIE,2003. http://www.sbp.org.br/ranteriores/23/resumos/0722/index.html http://www.seplantec-srh.se.gov.br/ http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/10950 http://pt.wikipedia.org/wiki/lista de paises limítrofes do Brasil
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 31 ANÁLISE QUALI-QUANTITATIVA DOS RESÍDUOS SÓLIDOS EM PRAIAS DO MUNICÍPIO DE OLINDA-PE Claryana Alves da CUNHA Pós graduada em Gestão Ambiental pela Faculdade Frassinete do Recife; 1º Ten Professora de Geografia; Exército Brasileiro-Colégio Militar do Recife. Mônica Márcia VICENTE LEAL Mestre em Oceanografia pela Universidade Federal de Pernambuco; 1º Ten Professora de Biologia e Oficial de Meio Ambiente; Exército Brasileiro-Colégio Militar do Recife. RESUMO O presente trabalho visa realizar um levantamento quali-quantitativo dos resíduos sólidosem praias do município de olinda-PE. Foram delimitados 3 transectos de 5 metros de largura,estendendo-se desde o limite superior da praia até a linha de maré, nas praias do Carmo - A, CasaCaiada – B e Rio Doce – C. Os resíduos sólidos foram coletados nas luas novas e cheias, aosdomingos, no período da tarde, nos meses de dezembro de 2007, janeiro e fevereiro de 2008 eagrupados em categorias. Os plásticos se destacaram com 2722 itens, 44% do total, seguido poralimentos (22,9%) e papel (17%). São necessárias políticas públicas direcionadas à população locale turistas quanto à limpeza, e conservação das praias de Olinda, uma vez que o gerenciamento dosresíduos sólidos é de extrema relevância para mitigar os impactos decorrentes das atividadeshumanas no ambiente praial, bem como para preservar o ecossistema costeiro, na busca por umdesenvolvimento social justo e ambientalmente sustentável. PALAVRAS-CHAVE: resíduos sólidos, praia, Olinda. ABSTRACT This work aims making a research of quantity and quality of solid waster in beaches ofOlinda, Pernambuco. Three transects of five meters large were delimited, which was extended fromthe top limit of the beach to the tide line on Carmo – A, Casa Caiada –B e Rio Doce – C beaches.The solid wastes were caught in new and full moons, on sunday afternoons, in December 2007,January and February 2008. Afterwards the wastes were grouped in categories. “Plastic” wasteswere the most representative, reaching 2.722 items, 44% of the total, followed by “food” (22,9%)and “paper” (17%). It is necessary politics focused in the local population and and tourists regardingto cleaning and conservation of Olinda’s beaches, since solid wastes management is extremelyrelevant in order to mitigate impact derived from human activities on the beach environment, aswell as to preserve the coast ecosystem in a search from a faired social development andenvironmentally sustainable. KEYWORDS: solid wastes, beach, Olinda. 1. INTRODUÇÃO Uma vez que a praia é um espaço de lazer bastante diversificado, sua exploração comorecurso turístico gera empregos, demanda por serviços e renda para as populações locais (Bird,1996). Com o incremento do consumo consolida-se a cultura do desperdício, que é bastantepresente no povo brasileiro. Segundo o último censo do IBGE a quantidade diária de lixo urbanocoletado no Brasil é de 228.413 toneladas, o que representa 1,25 Kg diários per capita (IBGE,2001). O denominado lixo, em função de sua proveniência variada apresenta também constituintesbastante diversos, e o volume de sua produção varia de acordo com sua procedência, com o níveleconômico da população e com a própria natureza das atividades econômicas na área onde é gerado(Braga et al., 2006). As praias olindenses são utilizadas por visitantes locais, e de várias regiões do Brasil e domundo, e apresentam todas as nuances das questões aqui levantadas.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 32 Em virtude disto, o presente trabalho tem por objetivo realizar um levantamentoquali-quantitativo dos resíduos sólidos em praias do município de Olinda PE, a fim de servir como tivo Olinda-PE,ferramenta de apoio ao gerenciamento ambiental da área. Para tal, os itens que compõe os resíduossólidos existentes nas praias de Olinda serão identificados, quantificados e agrupados em categorias de acordo com o tipo de resíduo e/ou natureza do tificadosmaterial amostrado. Será ainda determinada a representatividade de cada categoria e a incidência espaço-temporal destes resíduos, como subsídio ao poder público para o temporalplanejamento e direcionamento das medidas de gestão ambiental, com vistas a melhorar a qualidade nejamentodas praias e conseqüentemente de vida de seus usuários. 2. DESCRIÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO Olinda, município da Região Metropolitana do Recife – RMR, encontra encontra-se entre osparalelos 7°57’30” e 8°02’30”, latitude Sul e os meridianos 39°55’00” longitude Oeste deGreenwich, com uma área de 43,55Km². Seus limites são: ao Norte o município de Paulista, à Lesteo Oceano Atlântico, à Oeste e ao Sul o Recife. De acordo com o Censo 2000 do IBGE a populaçãoé de 368.643 habitantes e a densidade demográfica é de 8.991 hab/km². (IBGE, 2002 apud Beltrãoet al,1995). Figura 1: Localização do município de Olinda Olinda-PE. Fonte: Neves e Sá (2002). 2.2 – O litoral de Olinda O litoral olindense é formado por 10,5km de costa aberta, caracterizada por depósitosarenosos, compreendendo, no sentido Sul Norte, as praias: Istmo, Milagres, Carmo, São Francisco, Sul-Norte,do Farol, Bairro Novo, Casa Caiada e Rio Doce. A linha costeira de Olinda é sem dúvida o maior sítio paisagístico municipal, sendode grande importância econômica, onde está concentrada a maior parte da população, bem como asatividades comerciais, de recreação e de turismo. O Diagnóstico Ambiental de Olinda (Beltrão et al,1995) definiu quatro áreas do 1995)litoral com problemas ambientais tais como, erosão marinha, dificuldade de acesso à praia,disposição de esgoto doméstico, entre outros: Unidade1 – Praia do Istmo até dos Milagres; Unidade2 – praias dos Milagres, Carmo e São Francisco; Unidade 3 – praias do Farol e Bairro Novo; efinalmente, unidade 4 – praias de Casa Caiada e Rio Doce. 3. MATERIAL E MÉTODOS Inicialmente foi realizado um caminhamento ao longo de toda a orla, a fim de seestabelecer áreas específicas a serem estudadas. Foram visualmente observados aspectos como a
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 33existência de faixa de areia, a intensidade de freqüência de usuários e a presença de resíduos naareia e calçada. Desta forma, foram escolhidas para o estudo as praias do Carmo, Casa Caiada e RioDoce, situadas nas unidades 2 e 4 definidas por (Beltrão et al,1995). A praia de Casa Caiada é amais tradicionalmente freqüentada, constituindo-se num point da população jovem. A praia de RioDoce apresenta a faixa de areia mais extensa e é também bastante freqüentada, não tendo, porém asmesmas condições de infra-estrutura da primeira. A praia do Carmo é a mais afastada dentre aspraias com maior número de usuários. No entanto, a quantidade destes é visualmente muito inferiora das anteriormente citadas. Para a coleta de dados foram estabelecidos transectos piloto com 10 m de largura, reduzidapara 5 m de largura para a amostragem, dimensionados por meio de uma trena de 50 m egeorreferenciados com o auxílio de um GPS Etrex Garmin Estes transectos se estendiam do limitesuperior da praia (calçada, rua, etc.) até a linha de maré. Em cada praia foi estabelecido umtransecto em um trecho fixo (A-Carmo, B-Casa Caiada e C-Rio Doce) (Tabela 1). Foi realizada uma medição de cada transecto em dias de maré com amplitudesignificativamente baixa e alta, a fim de determinar a área amostral total em m², a mínima e amáxima dos transectos (faixa de areia exposta) a fim de determinar a densidade de lixo por área emm² em ambas as marés. Os horários de coleta foram entre 14 e 18 horas. A escolha dos dias de coleta de dadosbaseou-se nos trabalhos de Leal (2006) e Silva (2006) para as praias de Boa Viagem e do Pina. Osdias declaradamente preferidos de visita às praias foram domingos e sábados respectivamente. Combase nestas informações, foi estabelecido o período amostral na estação seca, de dezembro afevereiro, aos domingos. A segunda autora afirma que o padrão de uso dos freqüentadores em suapesquisa foi o mesmo para o verão e inverno, mas a freqüência foi três vezes maior nos finais desemana de verão, com destaque para o domingo. Foram feitas duas coletas por mês, num total de 6 coletas, nas luas novas e cheias. Osresíduos sólidos, incluindo fragmentos, foram coletados por catação manual, colocados em sacos de100 litros e retirados do local para posterior triagem. Os itens identificados foram contados, agrupados em uma tabela e classificados emcategorias por tipo, de acordo com a natureza do material que os constitui. Foi calculadarepresentatividade em números absolutos e percentagem de cada categoria, bem como dos itens quese destacaram de forma isolada e em escala espaço-temporal.Transecto Praia Localização CaracterísticasA Praia 41°21’52”S Situa-se por trás da Agência dos Correios, sendo freqüentada por banhistas e do 8º03’19” W pescadores. Apresenta construções (residencias) na pós-praia. Não apresenta Carmo vegetação, possui diques de contenção construídos no mar, paralelos à praia. Possui uma extensão de 100m na maré baixa.B Praia 51º48’02”S Área próxima ao Bompreço, em frente à casa nº 3425. É muito frequentada por de 7º58’55” W banhistas. Apresenta construções (residencias) no alto da praia. O ambiente praial Casa atinge 62 m de extensão da calçada à linha de praia na maré baixa. CaidaC Praia 52º11’06”S Fica em frente ao Bar do Vivaro, próximo à marina. É bastante freqüentada por de 7º58’15” W banhistas. Apresenta cobertura de areia original que vai até as calçadas das casas. Rio Neste ponto a extensão é de 63 m do limite superior até a linha da água. Doce Tabela 1: Caracterização dos transectos de amostragem (A-Carmo, B-Casa Caiada e C-RioDoce), perfazendo uma área de 825 m2 de praia, nos meses de dezembro de 2007, janeiro efevereiro de 2008. 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO Foram identificados um total de 6.191 itens de resíduos sólidos nas três áreas, durante todoo período amostral. Os itens foram distribuídos nas seguintes categorias: Pl (plástico); V (vidro);Me (metal); Pa (papel); Ma (madeira) e A (alimentos). (Tabela 2).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 34 A categoria que se destacou foi a dos plásticos com um total de 2.722 itens, o querepresenta 44,0% do total amostrado. Silva (2006) encontraou este mesmo padrão de prevalênciados plásticos, para a praia de Boa Viagem, na qual esta categoria representou 40,2% do total daamostra. Em segundo lugar destacou-se a categoria ‘alimentos’ com o total de 1.415 itens (22,9%).Vale salientar que os itens plásticos mais representativos dentro da amostra total foram copos,canudos e saquinhos (Tabela 2). Os vidros foram os menos representativos dentre todas as categorias, num total de 66 itens(1,1%), isto se deve ao fato de os principais itens desta categoria serem garrafas e fragmentosdestas. As bebidas consumidas na praia, que são principalmente cerveja e refrigerante, são servidasem embalagens de vidro retornáveis, não sendo, portanto, descartadas na praia. As garrafascoletadas neste estudo foram de bebidas quentes (rum, whisky, campari, etc.), cujas embalagens nãosão retornáveis. Dentre os papéis, que representaram 17,0% da amostra total, os guardanapos tiveram umapredominância massiva. Dos 1.052 itens de papel encontrados, 840 foram guardanapos. Isto reforçaa idéia de que o lixo existente nas praias de Olinda é proveniente de seus usuários e que aalimentação é uma das principais atividades desenvolvidas por estes. Total de itens por categoria. 3000 2500 Total de itens 2000 1500 1000 500 0 Pl V Me Pa Ma A Categorias de resíduos sólidos Figura 2: Representatividade em valores absolutos das categorias de resíduos sólidoscoletados nas três praias estudadas em relação ao número total de itens. Pl (plástico); V (vidro);Me (metal); Pa (plástico); Ma (madeira) e A (alimentos). Os metais, com 509 itens (8,2%) ficaram em 4° lugar. O número de tampas degarrafa foi alto dentro desta categoria (392 ou 77,0%), embora a quantidade de garrafas tenha sidode apenas 19. Como discutido antes, as garrafas de bebidas utilizadas na praia são retornáveis. Suastampas, no entanto, são descartadas na areia. Com relação às latas, é importante salientar que dentreas 91 coletadas durante o período amostral, encontravam-se não somente as de alumínio, mastambém as de ferro e aço. Não se pode deixar de mencionar que a catação de latas de alumíniocomo fonte alternativa de obtenção de renda é uma atividade bastante difundida entre a populaçãomais carente. Isto faz com que dificilmente este item seja largamente encontrado nas praias. Os itens agrupados na categoria madeira representaram 6,9% da amostra total, comdestaque para os palitos de churrasco (188 ou 44,0% do total da categoria). Os palitos de fósforoestão associados à presença de fumantes. Foram coletadas 972 pontas de cigarro, que, contudo, nãoconstituem uma categoria por se tratar de um único item.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 35 1000 Quantidade de itens por m ês de coleta. 800 Total de itens 600 400 200 0 Pl V Me Pa Ma A Categorias de resíduos sólidos Dez Jan Fev Figura 3: Variação quantitativa mensal dos resíduos sólidos nos três transectos. Pl(plástico); V (vidro); Me (metal); Pa (plástico); Ma (madeira) e A (alimentos). Segundo Irapuã Muniz, Chefe do Departamento de Operações e Fiscalização da LimpezaUrbana do município de Olinda (Comunicação pessoal), a limpeza da faixa de areia das praias érealizada por um efetivo de 36 homens, divididos em duas equipes, distribuídos por cerca de 6 kmde praia. O trabalho é realizado todos os dias, das 6:30 às 23:30, com troca de turno às 15:30. Alimpeza é feita através de ciscação, seguida pelo ensacamento do lixo e sua disposição na calçada,para posterior recolhimento por veículo coletor convencional. Este faz 3 coletas ao dia, por voltadas 11:00, 14:00-15:00 e à noite. Nos finais de semana são distribuídos, das 9:00 às 12:00, sacosplásticos aos usuários e comerciantes Ele acrescenta que a deficiência de infra-estrurura sanitária ede fiscalização da orla, além do compromisso de ambos, comerciantes e população em geral, emmanter o ambiente limpo, torna difícil o trabalho. Durante o período amostral foi possível observar que na praia de Casa Caiada existem maislixeiras, distribuídas em intervalos menores do que nas demais praias. Algumas estavam depredadasou restavam apenas os suportes. Os resultados demonstram que no período amostral, janeiro apresentou a maior produçãode resíduos, o que era esperado, por este ser um o mês das férias escolares do verão, o que aumentaa freqüência da população na praia (figura 9). As variações nas quantidades de resíduos descritas na(Tabela 1), sofreram influência das flutuações na quantidade de freqüentadores em cada dia decoleta. Das três áreas de coleta, a B, que corresponde à praia de Casa Caiada, destacou-se emnúmero de itens em todos os meses de amostragem. Isto pode estar relacionado a uma maiorpresença de usuários neste local, atraídos por uma infra-estrutura mais diversificada (banheirospúblicos, quiosques padronizados, segurança etc.). Fazendo uma comparação da quantidade de resíduos de cada trecho ao longo dos meses deamostragem, é possível constatar que houve um padrão de variação no qual o número de itensaumentou em janeiro e diminuiu em fevereiro, ficando este último, no entanto acima dos níveis domês de dezembro. Esta tendência foi observada tanto com relação ao número total de itens portrecho por mês, quanto em cada categoria por área por mês, com exceção dos metais, cujaquantidade foi mais expressiva no último mês de coleta (fevereiro). Com relação às marés, a mais alta e a mais baixa do período de coleta de dados foram 2.2 e0.3 metros de amplitude respectivamente. A medição da extensão dos transectos foi feita em maréscom 1.9 e 0.4 m (www.dhn.mar.mil.br). Os dados estão agrupados na Tabela 3. Houve umadiferença de extensão de faixa de areia exposta entre a maré baixa e a alta, nos trechos A, B e C, de49, 25 e 27 m. Isto significa uma redução de aproximadamente 50% da área dos transectos na maréalta.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 36 Quantidade total de ite ns por áre a/m ês 1200 1000 Total de itens 800 600 400 200 0 DEZ JAN FEV Mes e s de cole ta A B C Figura 4: Variação quantitativa em números absolutos dos resíduos sólidos por áreas nosmeses de amostragem nos transectos A, B e C. A densidade dos resíduos, ou seja, a relação entre o número de itens por área em m² obtevevalores mais elevados na maré alta em todos os trechos estudados. A área amostral total, resultanteda soma das áreas dos três transectos, foi de 1.125 m² na maré baixa, com densidade de 5,5itens/m², e 620 m² na maré alta, com densidade de 10 itens/m². O transecto B apresentou as maioresdensidades de resíduos, em ambas as marés, corroborando as tendências já discutidas em relação aesta área. Quanto maior a densidade de resíduos sólidos num ambiente praial, maiores serão osimpactos ambientais e prejuízos sociais decorrentes de sua presença. A B C Maré Maré Maré Maré Maré Maré baixa alta baixa alta baixa alta Extensão do transecto 100 51 62 37 63 36 (m) Área do Transecto 500 255 310 185 315 180 (m²) Densidade dos resíduos 3,7 7,3 7,6 12,8 6,0 10,6 (nº de itens/m²) Tabela 2: Variações na extensão dos transectos A, B e C, em relação à alternância dasmarés baixa e alta em metros; área correspondente em m² e densidade de resíduos em itens/m². 5- CONCLUSÕES A grande quantidade de resíduos sólidos, principalmente plásticos, oferece riscos aosusuários, além de prejudicar a condição estético-paisagística da praia, comprometendo o turismo e aeconomia do município. Diante deste quadro, constata-se a necessidade de se implementar programas e políticaspúblicas por parte da Prefeitura Municipal de Olinda direcionadas para a conscientização dapopulação local e também dos turistas quanto à limpeza, manutenção e preservação das praias deOlinda, visando estabelecer princípios, normas, diretrizes e instrumentos, no sentido de incentivar acomunidade, os empresários, entre outros, a cuidar melhor das praias dessa região, tendo em vistaque o gerenciamento dos resíduos sólidos é de extrema relevância para mitigar os impactosdecorrentes das atividades humanas no ambiente praial, bem como para preservar o ecossistemacosteiro, como parte da busca por um desenvolvimento social justo e ambientalmente sustentável.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 37 Os resíduos sólidos nas praias de Olinda demonstrou que os mesmos são provenientes defontes terrestres, sendo os principais geradores os próprios usuários. 6- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BELTRÃO, A. de L.; MAIA, J.T.A.; OLIVEIRA, M.L. de. et al. Diagnostico ambiental domunicípio de Olinda: uma contribuição ao Plano Diretor. Recife: Agência Estadual de MeioAmbiente e Recursos Hídricos – CPRH, 1995. 160 p. BIRD, E.C.F. 1996. Beach management. New York: John Wiley & Sons, 281p. BRAGA, B; HESPANHOL, I.; CONEJO, J.G.; BARROS, M.T.; SPENCER, M.; PORTO,M.; NUCCI, N.;JULIANO, N.; EIGER, S. Introdução à Engenharia Ambiental . São Paulo: PreniceHall, 2002. 305p. IBGE. Sinopse preliminar do censo demográfico 2000 – Brasil. 2001. Disponível em:http://www.ibge.gov.br - Acesso em: 13/05/2008. LEAL, M.M.V. Percepção dos usuários quanto à erosão costeira na praia da Boa Viagem,Recife (PE), Brasil. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco, 99 p., 2006. NEVES, J. M.; SÁ, L.A.C.M. de. Utilização de um Sistema de Geoinformação para oCadastro de Terrenos Foreiros – Olinda/PE, in: Congresso Brasileiro de Cadastro TécnicoMultifinalitário · UFSC Florianópolis · 6 a 10 de Outubro 2002. SILVA, J.S. Diagnóstico dos resíduos sólidos das praias da Boa Viagem e do Pina, Recife-PE, Brasil. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Pernambuco, 99 p., 2006. Tábua de marés. Disponível em: http://www.dhn.mar.mil.br. Acesso em 10/11/2008.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 38 ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MORADORES DO BAIRRO MAURO ANTÔNIO BENTO EM JATAÍ – GOIÁS, BRASIL Kenia Alves Pereira LACERDA Carlos Cézar DA SILVA Ceila de Brito DIAS Vanêssa Batista GOUVEIA RESUMO Buscar a percepção ambiental através da investigação sistemática é essencial nacompreensão das práticas da sociedade, seus saberes, sua cultura e de como estes conhecimentos oupráticas afetam o meio ambiente. Estes conhecimentos são, sem dúvida, importantes ferramentaspara o correto direcionamento de uma educação ambiental transformadora e dialógica. O estudo depercepção ambiental é uma dos meios utilizados pela etnociência para obter conhecimentos dascomunidades tradicionais e apontar caminhos para a práxis da Educação ambiental, principalmenteem espaços não escolarizados. O presente trabalho teve como principal objetivo mensurar apercepção ambiental dos moradores de um bairro da cidade de Jataí - Goiás, diante da instalação deaquecedores solares em suas residências, adquiridos através de programa governamental. Apesquisa foi realizada com intuito de saber como os moradores percebiam ou não a importância dosaquecedores em prol do meio ambiente. Notou-se, por meio desta pesquisa, que a percepçãoambiental dos moradores entrevistados é muito pequena, quase inexistente, principalmente por partedas populações de baixa renda e com reduzida formação escolar. Não há, por parte da comunidadepesquisada, conhecimento de práticas e ações para preservar o meio ambiente, talvez nem saibamcomo e por onde começar. A população não tem consciência que muito das atitudes estãocolaborando para a degradação da natureza e do meio ambiente. O que não deixa de serresponsabilidade dos Governos Municipal, Estadual e Federal, que deveriam, no mínimo,conscientizar a população sobre a importância de se preservar o meio ambiente de uma maneirageral e utilizar corretamente os equipamentos distribuídos pelo programa, numa visão mais pontual. PALAVRAS-CHAVES: Percepção ambiental, educação ambiental, aquecedor solar. ABSTRACT Search the environmental perception through systematic research is essential inunderstanding the practices of society, their knowledge, their culture and how this knowledge orpractices affect the environment. These skills are undoubtedly important tools in the correctdirection of an environmental education and transformative dialogue. The study of environmentalperception is one of the means used by the ethno-science to gain knowledge of traditionalcommunities and point the way to the practice of environmental education, especially in non-educated. This study aimed to measure the environmental perception of the residents of aneighborhood in the city of Goiás - Goiás, before the installation of solar heaters in their homesacquired through government program. The research was performed to find out how residentsperceive the importance or not of the heaters in favor of the environment. It was noted through thisresearch, the environmental perception of the residents interviewed is very small, almostnonexistent, especially from low-income and low education. There is, by the community surveyed,knowledge of practices and actions to preserve the environment, perhaps do not know how andwhere to start. The population is unaware that much of the attitudes are contributing to thedegradation of nature and the environment. What it remains the responsibility of municipalgovernments, state and federal, that should at least raise awareness about the importance ofpreserving the environment in general, and correctly use the equipment distributed by the programin a more timely. KEYWORDS: Environmental perception, environmental education, solar heater.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 39 INTRODUÇÃO Em um cenário de crise ambiental e constantes catástrofes naturais, é preciso que haja umamudança na cultura e concepção dos valores de cada cidadão, objetivando uma maior relativa àresponsabilidade individual para com o meio ambiente. Torna-se cada vez mais necessário a realimplantação de uma Educação Ambiental, por meio dos órgãos públicos, pois “a maior contribuiçãosocial tem vindo através dos movimentos da própria sociedade civil, das entidades não-governamentais, dos veículos de comunicação, dos movimentos políticos e culturais (CartaBrasileira para Educação Ambiental - MEC. Rio-92)”. Nesta linha de pensamento, TOZONI-REIS (2004) manifesta: Assim, se a educação é mediadora na atividade humana, articulando teoria e prática, aeducação ambiental é mediadora da apropriação, pelos sujeitos, das qualidades e capacidadesnecessárias para a ação transformadora responsável diante do ambiente em que vivem. A percepção ambiental oriunda de diferentes grupos de indivíduos de uma sociedade érelevante para o correto posicionamento das políticas públicas de Educação Ambiental. Aefetivação de sua práxis, partindo das necessidades emanadas sobre o meio ambiente em que estãoinseridos, em uma relação próxima, muitas vezes com valores ambientais muito significativos, oque pode ser evidenciado nas indicações de Tuan (1980). Buscar a percepção ambiental através da investigação sistemática, é essencial nacompreensão das práticas da sociedade, seus saberes e sua cultura. Estes conhecimentos são, semdúvida, importantes ferramentas para o correto direcionamento de uma educação ambientaltransformadora e dialógica. Contudo, o estudo de percepção ambiental é uma das ferramentasutilizadas pela etnociência para obter conhecimentos das comunidades tradicionais e apontarcaminhos para a práxis da Educação ambiental, principalmente em espaços não escolarizados,Figueiredo (2009). A Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita edesenvolvida, porque implica em mudanças profundas e nada inócuas (Brasil, 1997). Atualmente jásão notadas ações governamentais que demonstram uma preocupação ambiental como, porexemplo, a instalação de aquecedores solares gratuitos em conjuntos habitacionais para populaçãode baixa renda. O aproveitamento da energia solar para aquecimento de água é crescente, principalmentedevido à preocupação com os impactos ambientais provocados pelas formas de energia maisutilizadas atualmente. Segundo Leite (2005), as construções de hidrelétricas interferemdrasticamente no meio ambiente, alterando o clima devido ao aumento da temperatura, alterando aflora com a perda da biodiversidade, a paisagem natural, e fauna, pois vários animais morrem nainundação e poucos são reintegrados a natureza. Tudo isso interfere na ocupação terrestre e na baseeconômica da região. Conforme Global Energy Telecom (GET), 18% da capacidade de geração de eletricidadeinstalada no Brasil é acionada nos momentos de pico pelo conjunto de chuveiros elétricosresidenciais. O uso de aquecedores solares reduz significativamente os consumos de energia elétricapara usuários de água quente sendo uma forma de desenvolvimento sustentável e racional, levandoem consideração o impacto ambiental conseqüente da geração de energia elétrica além daquantidade de empregos diretos gerados pelas empresas de pequeno e médio porte no mercado decoletores solares. De acordo com relatório anual de responsabilidade socioambiental da CompanhiaEnergética de Goiás (CELG, 2008), houve uma redução de demanda de 647 kilowattes por hora eeconomia anual de energia elétrica de 3.343 megawatts por hora devido à instalação dosaquecedores solares nos municípios de Jataí, Goiatuba, Catalão, Itapirapuã, Luziânia, Novo Gama,Formosa e Planaltina no Estado de Goiás. O aquecedor de água por meio de energia solar consiste basicamente em doiselementos: Coletor de energia solar e depósito acumulador de água quente. Os coletores sãoprojetados com materiais que possuem uma alta condutividade térmica para reduzir a resistência ao
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 40fluxo por condução, assim a placa irá absorver a energia dos raios solares, transformando em calorque transportado para a água irá aquecê-la. A água quente ficará armazenada no depositoacumulador de água. Resultados de trabalhos de pesquisa (MATAJS, 1997) que incluíram medições e levantamentos de dados por questionários, que a Universidade de São Paulo (USP)realizou em conjunto com a ELETROPAULO, no setor residencial, demonstraram que os chuveiroselétricos provocam aumento de potência média instalada de 121%, ou seja, a potência do chuveiroultrapassa a soma de todos os outros eletrodomésticos juntos. Demonstra, ainda, que a inclusão dochuveiro elétrico eleva a demanda máxima média em 365%, ou seja, no momento em que éutilizado o chuveiro elétrico, a demanda sobe para mais de 4,5 vezes o consumo médio. Asubstituição do chuveiro elétrico pelo aquecedor solar traduz-se em economia, em médio prazo,principalmente para o usuário final, pois exige baixíssima manutenção e possui vida útil, em média,superior a quinze anos, proporciona economia na conta de energia elétrica e recupera oinvestimento num período de três a cinco anos. No ano de 2007, moradores do bairro Mauro Antônio Bento, no município de jataí – Goiás,receberam como doação aquecedores solares para serem implantados em suas casas, que tambémforam adquiridas em programas governamentais de habitação em anos anteriores. Muitos empreendimentos nos municípios são geridos diretamente por pessoas que nãopossuem recursos técnicos adequados para tratar das questões ambientais. No entendimento deFarias (2002), seja por falta de tempo, conhecimento ou recursos financeiros, a gestão dos impactosambientais é relevada em segundo plano. O objetivo central deste trabalho foi verificar a percepção ambiental dos moradores doconjunto habitacional Mauro Bento na cidade de Jataí e o impacto ambiental provocado pelo uso deaquecedores solares em suas residências. Metodologia O trabalho foi proposto e desenvolvido durante o segundo semestre de 2009 durante nadisciplina de Biologia Ambiental e Ecologia Humana, sendo coordenado pela professora epesquisadora dessa área no curso de Licenciatura em Física do Instituto Federal de Goiás – CampusJataí. A pesquisa foi realizada no Conjunto Habitacional Mauro Antônio Bento em Jataí, Goiás,onde foram escolhidas aleatoriamente 100 residências como universo amostral. Foi aplicado umquestionário com 18 questões por residência, visando avaliar a percepção ambiental. A pesquisa, feita através de questionário, foi baseada nos seguintes parâmetros: idade, sexoe moradores por residência. Análise dos Resultados O perfil etário dos moradores é heterogêneo, com predominância de casais jovens, 40%têm entre vinte e trinta anos, enquanto 26% têm entre trinta e quarenta anos. Os demais 34% dosmoradores têm até vinte ou mais de quarenta e um anos. No total são 66% de publico feminino e34% masculino. 52% das casas são habilitadas por até três pessoas, enquanto 46% tem entre 4 e 6moradores, 2% das residências abrigam acima de 7 pessoas. Quando questionados sobre os benefícios do aquecedor solar, a grande maioria dosmoradores (86%) acredita apenas na redução do custo da energia elétrica. Apenas 4% vêem algumaimportância para o aquecedor além da redução de custo com energia elétrica e os demais nãoresponderam, não usam ou não verificaram qualquer diferença após a implantação do aquecedorsolar. Mesmo após a instalação do aquecedor solar boa parte dos moradores ainda utilizam ochuveiro elétrico, 35% quando está muito frio, 15% quando está chovendo muito, 13% por outrosmotivos e apenas 37% não usam mais o chuveiro elétrico. Quando questionados se o aquecedor solar ajuda a preservar o meio ambiente, 22%dos moradores conseguiram responder com exatidão e demonstraram ter conhecimento sobre o
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 41assunto. Os outros 78% não souberam responder, e ainda não perceberam a correlação existenteentre aquecedores e meio ambiente. Ao perguntarmos para os moradores quem eram responsáveis pela manutenção e aqual era o tempo de garantia do equipamento, a maioria não souberam e não tiveram interesse emobter informações, embora no aquecedor seja informado o endereço eletrônico da empresa, bemcomo a forma de atendimento ao usuário. Os moradores quando entrevistados se haveria algum problema ambiental no bairro,poucos citaram o lixo eminente nas ruas, inclusive relatando que não apresenta nenhum problemaambiental. Um aspecto interessante é que diversos problemas, mesmo que amplamente divulgadospela mídia, não foram citados, entre eles: o problema ocasionado pela incidência de chuvas, a faltade esgoto, a degradação das nascentes, abuso no uso de agrotóxico, caça e pesca indiscriminada. Acomplexidade destes temas aliados à ausência de informações pode inibir este público para debates.Alguns moradores citaram como problema ambiental uma área de preservação permanente, quecircunda parte do bairro, onde há muito lixo, transferindo a responsabilidade aos órgãos públicos domeio ambiente, omitindo o papel do cidadão. Segundo Morin (2006) “um cidadão é definido, emuma democracia, por sua solidariedade e responsabilidade em relação à sua pátria”. Alguns problemas ambientais locais como a deficiência na arborização urbanatambém não foram percebidos pelo grupo pesquisado. A orientação realizada pelos responsáveis pela instalação do aquecedor solar foi arecomendação de como utilizar o mesmo, não havendo uma preocupação em orientá-los a respeitodo princípio de funcionamento e como o aquecedor contribui para preservação do meio ambiente.Em relação ao desempenho do chuveiro, poucos entrevistados alegaram que o mesmo não estavafuncionando de forma adequada, citando que ele não aquece suficientemente durante o inverno. Conclusão Não há duvida de que o uso de aquecedor solar ajuda a preservar o meio ambiente, penaque nem todos têm acesso ao mesmo, devido ao custo alto de compra. Mas alguns tendo acesso aoaquecedor solar por meio de projetos do governo, não vêem nenhuma vantagem em ter este, a nãoser a economia no custo de energia elétrica no final do mês. Os entrevistados quando utilizam o aquecedor solar não se preocupam com apreservação do meio ambiente, isso ocorre porque não há um esclarecimento sobre esses aspectos.Na maioria das vezes há uma evidência apenas na redução no valor da quantia da conta de energia,assim a realização desta pesquisa se apresenta como uma alternativa para alertar indústria e osusuários no que diz respeito à forma de divulgação dos benefícios oriundos do uso do aquecedorsolar e de que forma o mesmo colabora para a preservação do meio ambiente. A percepção ambiental ainda é muito pequena, quase inexistente principalmente por partedas populações de baixa renda e com reduzida formação escolar. Não há um interesse por parte dosmoradores em preservar o meio ambiente, talvez nem saibam como e por onde começar. Apopulação não tem consciência que muito dos nossos atos está ajudando na degradação da naturezae do meio ambiente. O que não deixa de ser responsabilidade dos Governos Municipais, Estadual eFederal. BIBLIOGRAFIA BRASIL, Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: MeioAmbiente, Saúde/ Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 128p. v.9. 1997. Eletrotécnica e Energia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1997. FARIAS, J. S. ; A Pequena e micro empresa e o meio ambiente: A percepção dosempresários com relação aos impactos ambientais. Revista Organizações & Sociedades. Ed. Escolade Administração da Universidade Federal da Bahia, v.9, n.23, janeiro/Abril, 2006. FIGUEIREDO, J. NETO, G.G. ASPECTOS DA PERCEPÇÃO AMBIENTAL DE UMGRUPO DE EMPRESÁRIOS DE SINOP, MATO GROSSO, BRASIL. Monografia de conclusão
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 42do curso de Graduação em Biologia UFMT. Revista eletrônica Mestrado em Educação Ambiental ,v.22, janeiro a julho de 2009. GET – Global Energy And Telecom Ltda, Aquecedor Solar reduz consumo de energia eágua e preserva o meio ambiente, disponível emhttp://aquecedores.get.ind.br/index.php/tag/aquecedores-solares/ acesso em setembro 2009. LEITE, M. A. IMPACTO AMBIENTAL DAS USINAS HIDRELÉTRICAS. II Semana doMeio Ambiente. UNESP. Ilha Solteira, Junho, 2005. MATAJS, R.R. Demanda, consumo e custo das alternativas ao chuveiro elétrico no Estadode São Paulo. 1997. 156 f. Dissertação (Mestrado em Inter unidades em Energia) - Instituto de MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO (MEC), CARTA BRASILEIRA PARA EDUCAÇÃOAMBIENTAL, Workshop sobre Educação Ambiental, Jacarépaguá, Rio de Janeiro 1 a 12 de julhode 1992. MORIN, E. A cabeça bem feita. São Paulo: 120 edição Bertrand, Brasil, p.128, 2006. Relatório Anual de Responsabilidade Socioambiental, 2008. Disponível emhttp://www.celg.com.br/arquivos.pdf acesso em 26 de fevereiro de 2010. TOZONI-REIS, M.F.C. Educação ambiental para crianças no ambiente urbano: umaproposta de pesquisa-ação. Revista Ciência & Educação. v. 10, n2, p.149-159, 2004. TUAN, YI-FU. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente.São Paulo. DIFEL. 288p. 1980.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 43 ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAISASSOCIADOS AO ECOSSISTEMA MANGUEZAL DO RIO COCÓ, FORTALEZA/CE Davi Aragão ROCHA Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC daviaragaorocha@gmail.com Antonio Jeovah de Andrade MEIRELES Prof. Dr. Departamento de Geografia UFC Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFC. Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/UFC jeovahmeireles@ufc.br RESUMO Este estudo descreve as funções socioambientais dos ecossistemas manguezais,aprofundando-se na importância do ecossistema manguezal do Rio Cocó, em Fortaleza/CE. Estuda-se, a partir de publicações acadêmicas e documentos governamentais, os impactos que esseecossistema vem sofrendo e os consequentes efeitos para a sua biodiversidade e para a populaçãofortalezense. Observou-se que manguezais são ecossistemas costeiros encontrados principalmentenas regiões tropicais, sendo ricas fontes de produção de material orgânico, muito atrativo a diversasespécies de animais e propícios a várias espécies de plantas, além de microorganismos. Osecossistemas manguezais se prestam a vários serviços sócio-ambientais. Insere-se nesse contexto oecossistema manguezal do Rio Cocó, que sofre com diversos problemas, como os impactos geradospela especulação imobiliária e ocupação irregular. Para potencializar as funções e serviçosambientais, faz-se necessário a delimitação e demarcação das áreas de preservação permanente;retiradas das construções irregulares em áreas de preservação permanente e a recuperação davegetação; amplo processo de saneamento básico e ações de implantação de políticas públicas paraampliar a biodiversidade, principalmente com a conservação dos demais sistemas ambientaisassociados ao manguezal. Conclui-se que o ecossistema manguezal do Rio Cocó, por todas afunções socioambientais que presta, é essencial para o ecossistema urbano da cidade de Fortaleza.Assim, é de extrema importância a realização de estudos ambientais para a fundamentação daspolíticas públicas que envolvam esse ecossistema. PALAVRAS-CHAVE: Ecossistema, Manguezal, Rio Cocó, Impactos Ambientais ABSTRACT This study describes the social and environmental functions of mangrove ecosystems,deepening the importance of mangrove ecosystem of Rio Coco in Fortaleza. It studies, usingacademic publications and government documents, the impacts that this ecosystem is suffering andthe consequent effects on its biodiversity and on the population of Fortaleza. It was observed thatmangroves are coastal ecosystems found mainly in tropical regions, and that they are rich sources ofproduction of organic material, which is very attractive to several species of animals and prone tovarious kinds of plants, and microorganisms. Mangrove ecosystems lend various social andenvironmental services. In this context, the mangrove ecosystem of Rio Coco suffers severalproblems, such as the impacts created by land speculation and illegal occupation. To enhance thefunctions and environmental services, it is necessary the delimitation and demarcation of areas ofpermanent preservation; the removal of buildings installeds in areas of permanent preservation;restoration of vegetation; extensive process of sanitation and public actions to enlarge biodiversity,especially with the conservation of other environmental systems associated with the mangrove. Weconclude that the mangrove ecosystem of Rio Coco, by all the social and environmental functions itprovides, is essential to the urban ecosystem of Fortaleza. The environmental studies are of extremeimportance for the public policy involving this ecosystem. KEYWORDS: Ecosystem, Mangrove, Rio Coco, Environmental Impacts
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 44 1. INTRODUÇÃO O Rio Cocó é o principal rio da cidade de Fortaleza, possuindo 45 km de extensão, dosquais 24 km correm dentro desse município. Dessa forma, ele é historicamente, culturalmente,economicamente e socialmente importante para a capital cearense. O ecossistema manguezal emque o rio se insere realiza diversa funções essenciais ao ecossistema urbano da cidade. Nos últimos anos, os impactos que a expansão urbana causa nesse ecossistema são cadavez mais perceptíveis, chamando a atenção da população e da mídia para o problema, exigindoações do poder público para a recuperação da área. Este estudo objetiva, assim, realizar uma descrição das funções socioambientais dosecossistemas manguezais, demonstrando-se a importância histórica, cultural, econômica eambiental. Aprofunda-se na importância do ecossistema manguezal do Rio Cocó. Partindo-se entãopara o estudo dos impactos que esse ecossistema vem sofrendo e os consequentes efeitos para a suabiodiversidade e para a população fortalezense. Utilizou-se, para o estudo, publicações de autores eórgãos governamentais, pesquisas acadêmicas e documentos do governo e do ministério público. Essa pesquisa é importante por demonstrar a essencial necessidade de estudos ambientaispara a fundamentação das políticas públicas para a recuperação e ampliação dos ecossistemasurbanos, em especial o Rio Cocó. Serve ainda de fonte para outros estudos que tratem da temáticaambiental, incluindo-se aí pesquisas dos campos do Direito, Arquitetura, Urbanismo, Ecologia,Biologia e Geografia, dentre outros. 2. ASPECTOS ECODINÂMICOS E SERVIÇOS AMBIENTAIS O que é ecossistema? Eco origina-se do termo grego oîkos e , como se observa pelo,significa “casa, domicílio, habitat” (ODUM & BARRETT, 2007). Sistema, por sua vez, tambémvem do grego, do termo systema (grupo, reunião), significando disposição das partes ou doselementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionam como estrutura organizada. Sobre ecossistema, Fritjof Capra escreve o seguinte: Quanto mais estudamos o mundo vivo, mais nos apercebemos de que a tendência para a associação, para oestabelecimento de vínculos, para viver uns dentro de outros e cooperar, é uma característica essencial dos organismosvivos. Lewis Thomas observou: “Não temos seres solitários. Cada criatura está, de alguma forma, ligada ao resto e deledepende”. As maiores redes de organismos formam ecossistemas, em conjunto com vários componentes inanimadosligados aos animais, plantas e microorganismos, através de uma intrincada rede de relações que envolvem a troca dematéria e energia em ciclos contínuos. Tal como os organismos individuais, os ecossistemas são sistemas auto-organizadores e auto-reguladores nos quais determinadas populações de organismos sofrem flutuações periódicas. Emvirtude da natureza não-linear dos percursos e interligações dentro de um ecossistema, qualquer perturbação séria nãoestará limitada a um único efeito, mas poderá propagar-se a todo o sistema e até ser ampliada por seus mecanismosinternos de realimentação. Num ecossistema equilibrado, animais e plantas convivem numa combinação de competição e mútuadependência. Cada espécie te potencial suficiente para realizar um crescimento exponencial de sua população, masessas tendências são refreadas por vários controles e interações. (grifou-se) (CAPRA, 2005) Pode-se, portanto, entender ecossistema como uma rede de convivência dos sereshabitantes de determinado meio ambiente – fauna, flora e microrganismos –, relacionando-se comos outros elementos deste e entre si, tendendo a um equilíbrio dinâmico e evoluindo ao longo dotempo. A vegetação do mangue – a floresta – produz grande quantidade de matéria orgânica, que édecomposta pela microfauna existente na água e no solo (CEARÁ, 1992). O fluxo da água – quegera uma troca de elementos entre o mar e o rio (BRASIL, 2004) – encarrega-se de levar essamatéria orgânica para o mar, tendo nisso a colaboração dos peixes, ajudando no desenvolvimentodos organismos aquáticos da costa; e “do mar traz consigo nutrientes de um tipo diferente daqueles[...] de forma que as contribuições se complementam” (VANNUCCI, 1999). Essa matéria orgânicatambém serve de alimento a outros seres, como alguns crustáceos e peixes. Essa interação entre água doce e água marinha mostra-se muito importante, por exemplo,em relação aos corais, que dependem dos manguezais, pois estes funcionam como controladores daqualidade da água costeira. Em contrapartida, os corais protegem os manguezais das ondas de forte
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 45energia, dissipando-as e criando águas de baixa força e baixa energia, o que é muito relevante parao equilíbrio do manguezal. Uma das características do mangue é a grande quantidade de peixes, crustáceos emoluscos. A quantidade de peixes nos manguezais chega a ser muito maior do que nos habitat daszonas costeiras adjacentes. Segundo relatos, o número de peixes nos manguezais da Flórida, nosEUA, por exemplo, chega a ser 35 vezes maior do que na sua costa (RÖNNBÄCK, 1999). Saliente-se que, apesar de mais evidentes, os crustáceos e os peixes não são os únicoshabitantes do manguezal; encontrando-se ainda várias espécies de mamíferos, aves, insetos erépteis, além de fungos e parasitas (VANNUCCI, 1999), que também mantêm uma rede de relaçõesnesse ecossistema. Compreende-se que há uma grande complexidade de relações e de trocas nos ecossistemasmanguezais. Complexidade que favorece o desenvolvimento de diversas espécies de animais. Os manguezais servem de zona de desova e de alimento de inumeráveis espécies de peixes,chegando a 80% dos recursos pesqueiros dependerem, direta ou indiretamente, deles; tendo,juntamente com arrecifes de coral e plantas herbáceas marinhas, função decisiva de armazenar ereciclar os elementos nutritivos, regulando o equilíbrio aquático e protegendo as terras da erosão(JUMA, 1997). Oferecem os manguezais uma abundância de alimentos bem maior do que nosecossistemas costeiros próximos, contendo, como já dito, grande quantidade de matéria orgânica,tornando-se assim atrativo a larvas e peixes jovens. Estes têm, muitas vezes, como principal dietafilhotes de caranguejos, abundantes nesse ecossistema. Assim, peixes jovens e camarões encontramali bons refúgios para proteção. Além da importância para a vida animal marinha e para a qualidade da água, muitos outrosserviços ambientais são prestados pelos manguezais. Como explicitam Barbier e Cox (2004), “asflorestas de mangue são uma das características primárias dos ecossistemas costeiros”, sendo, naverdade, um dos mais produtivos ecossistemas costeiros das regiões tropicais e subtropicais domundo, produzindo, uma vez mais, bastante material orgânico. Alguns dos maiores serviços ecológicos promovidos pelos ecossistemas manguezais, deacordo com UICN (2003) – The World Conservation Union –, que os classifica como categoriaespecial de terra molhada, são o controle de enchentes e de poluição, a reciclagem da água do solo ea estabilização da linha costeira e bancos de rios (TUPINAMBÁ, 2004). O Relatório GT-Carcinicultura de 2005 da Câmara Federal diz que o manguezal, sendo umecossistema dos mais complexos do Planeta, favorece a segurança alimentar advinda das atividadesde subsistência, pois atua como suporte para a pesca e a mariscagem. Serve ainda à preservação dasaves, por estar vinculado a rotas de migrações de várias espécies, e à geração e produção de vidaanimal, principalmente marinha, sendo um verdadeiro “berçário da vida”. Estão elencadas, no Quadro 1, uma série de serviços ambientais e ecológicos, citados pordiversos autores, que são prestados pelos ecossistemas manguezais. Quadro 1 – Serviços ambientais e ecológicos* ► Fonte de produtos naturais diversos; ► Proteção contra enchentes, furacões e ondas fortes; ► Proteção e controle contra erosão pelo amortecimento da energia das marés através das raízes das plantas; ► Proteção e controle contra salinização de lençóis freáticos; ► Suporte biológico e físico a outros ecossistemas costeiros; ► Local de refúgio, desenvolvimento e alimentação de peixes – em especial marinhos – crustáceos e outros; ► Proteção e conservação de habitares de fauna de natureza rara; ► Armazenamento e reciclagem de matéria orgânica, nutrientes e poluentes; ► Exportação de matéria orgânica e de nutrientes, através da dinâmica das marés, para ecossistemas costeiros próximos, constituindo a base da cadeia trófica com espécies de importância econômica e/ou ecológica; ► Aumento do desenvolvimento da pesca em geral através do fornecimento de detritos; ► Manutenção, regulamento e diversificação da biodiversidade local;
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 46 ► Regulação biológica de processos e funções ecossistêmicas; ► Produção de oxigênio; ► Influência nos climas locais e no clima global; ► Habitat e suporte a atividades de subsistência de comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras, índios e agricultores); ► Valores espirituais, culturais, religiosos e hereditários; ► Inspiração artística; ► Fonte de informação educacional e científica; ► Turismo e recreação; ► Vinculação a rotas migratórias de aves *Fontes: BARBIER e COX, 2004; DESCH, 2004; IBAMA, 2005; Relatório GT-Carcinicultura da Câmara Federal, 2005; REIS ARAGÃO, 2004; RÖNNBÄCK, 1999; VANNUCCI, 1999; TUPINAMBÁ, 1994. Apesar de todas essas importantes funções, os manguezais eram comumente considerados,no passado, como “terras baldias” (IBAMA, 2005), chegando-se inclusive a afirmar que deveriamser transformados em terras “úteis e produtivas”. Dessa forma, os manguezais são atualmente um dos ecossistemas mais devastados, e estãodesaparecendo de forma rápida em vários países (BARBIER & COX, 2004), pois foram ao redor doplaneta gradativamente ocupados, urbanizados e, mais recentemente, degradados pela utilizaçãopara a carcinicultura. Os números assustam. Muitos países da América Latina e da África perderam entre 30% e70% nos últimos 40 anos. Na Ásia, a Índia perdeu 50% entre 1963 e 1977; as Filipinas perderam70% entre os anos de 1920 e 1990 (BARBIER & COX, 2004). A indústria pesqueira chegou aperdas anuais de 4,7 milhões de toneladas de peixes e 1,5 milhão de tonelada de camarão, emvirtude da degradação dos manguezais (IBAMA, 2005). Assim, faz-se necessário procurarem-se formas de parar as fontes causadoras dadegradação, ou de, pelo menos, atenuar seus efeitos, e de recuperar as áreas de manguezaisdepredadas, sendo imprescindíveis a vontade política e a pressão da sociedade civil para que hajapolíticas públicas voltadas para as questões sociais e ambientais inseridas nessa problemática. 3. O MANGUEZAL DO RIO COCÓ NO CONTEXTO URBANO O estado do Ceará apresenta atualmente cerca de 182 km² de manguezais, que se estendemao longo dos seus aproximados 573 km de comprimento de zona costeira (CEARÁ, 2006). É nesseestado, mais precisamente na cidade de Fortaleza, que se encontra o manguezal do Rio Cocó e ondeele atinge o mar, na praia do Caça e Pesca. Formando uma zona estuarina, com terrenos sujeitos a inundação, a influência das maréschega, atualmente, no rio Cocó, até 13 km da foz. “Nesta zona, os bosques de mangue queconseguiram resistir ao desmatamento, ocupam uma área de cerca de 375 ha” (MIRANDA, 1988). Dos aproximados 45 km de curso do rio, 24 km percorrem o município de Fortaleza, ondea poluição torna-se um grande prejuízo à saúde do Cocó. Aí se insere, como forte contribuinte desseproblema, a especulação imobiliária, que colabora com o aparecimento de esgotos a céu aberto, aconstrução de comunidades sem saneamento básico e desmatamento e aterramento do manguezal. Como já dito, a zona estuarina no Rio Cocó vai, atualmente, até cerca de 13 km da foz,sendo essa área a mais utilizada pela população de baixa renda (IBAMA, 2005). O bairro doLagamar, por exemplo, localiza-se nessa faixa, sofrendo com alagamentos no período de cheias.Esses alagamentos ocorrem pelo aumento da permanência das águas sobre a superfície,consequência da impermeabilização do solo, fruto das edificações, pavimentações de ruas e aterrodo manguezal. No documento “Proposta de Proteção, Conservação e Recuperação do Rio Cocó”(CEARÁ, 2003) são apresentados os impactos ambientais identificados por estudo daSuperintendência Estadual do Meio Ambiente – SEMACE, afirmando que em toda a extensão dorio “o homem tem provocado muitas alterações”, usando os recursos ambientais de forma
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 47irracional. Afirma ainda que, atravessando a Região Metropolitana de Fortaleza, a qualidade daágua do rio torna-se crítica em quase todo o trajeto, recebendo diversos tipos de poluentes. Esse estudo evidencia que os principais impactos ambientais associados ao Rio Cocó são: a) Disposição de resíduos sólidos (lixo doméstico), ressaltando-se a falta de infra-estruturados locais vistoriados – lugares de moradias de baixa renda – e a tendência de agravamento doproblema, em virtude do crescimento da população na área; b) Ocupações irregulares por barracos, problema esse que está diretamente ligado aoanterior, tendo não apenas questões ambientais envolvidas, mas essencialmente profundosproblemas sociais, que vão desde o desemprego à falta de moradia; c) Construções irregulares de alvenaria, que invadem as áreas de preservação permanentedo rio, incluindo-se aí prédios e residências; d) Lançamento de efluentes, incluindo-se desde efluentes de cemitérios e matadouros, aefluentes de oficinas, lavagem de carros e troca de óleo. e) Desmatamento da vegetação de mangue para implantação de equipamentos provadosnas margens do estuário e afetando diretamente a biodiversidade do manguezal; f) Ocupação de áreas de preservação permanente do mangue e rio por avenidas, centroscomerciais e edifícios residenciais; reduzindo a área de influência do fluxo das marés e,consequentemente, impedindo a ampliação da vegetação de mangue; g) Supressão de áreas úmidas de fundamental importância para as reações ecológicas(habitat de anfíbios, aves de produtoras de nutrientes) e destinadas ao amortecimento dasinundações durante o período de cheias; h) Impermeabilização de extensos trechos do leito principal do estuário, com a extinção deáreas de recarga do aquífero, planície de inundação e de riachos afluentes do rio Cocó. Sobre o problema do lançamento de efluentes no rio, relatório de estudo técnico doMinistério Público Federal (2007) afirma: [...] a implantação de postos de combustíveis, oficinas mecânicas, indústrias e comércios em suasadjacências, provocam forte pressão, inserindo diferentes tipos de tensores no meio [...], haja vista que “(...) foramimplementadas sem as devidas adequações ambientais, já que inibem ou interferem na livre passagem do fluxo de águase, (...), modificam as taxas de sedimentação, acelerando as precipitações (...)” desses sedimentos, pois houve alteraçãoda fonte primária de energia ou remoção da energia armazenada pelo sistema, bem como implicam no incentivo aoutros tipos de agressões, estimulando a deposição direta de lixo e de lançamento de esgotos in natura na área. Em trechos terraplenados, encontram-se extintos os sistemas ambientais destinados aamortecer as enchentes (planície de inundação e de maré, lagoas e riachos), evidenciando-se açõesirregulares na implantação de intervenções que ocupam fundamentais setores do rio para o controledas enchentes – promovendo impactos cumulativos. Posto isso, aumentarão os danossocioambientais relacionados com as áreas de risco vinculadas à bacia hidrográfica do rio Cocó,caso haja instalação e operação de novas edificações em áreas antes destinadas ao fluxo das marés eregularização dos eventos de cheias. O conjunto de impactos promove desmatamento de vegetação de mangue,impermeabilização do solo, supressão de unidades do ecossistema manguezal, extinção de setoresda planície de inundação, planície de maré e demais áreas úmidas vinculadas ao sistema estuarino,representando intervenções em um sistema ambiental de fundamental importância para a cidade deFortaleza. Por tudo o que se mostrou, as funções e serviços ambientais do ecossistema em estudoforam alteradas e modificadas, gerando consequências que interferiram na biodiversidade e naqualidade de vida dos fortalezenses. A biodiversidade vem sendo paulatinamente ameaçada ereduzida pela expansão da especulação imobiliária, com todos os seus impactos, que avança sobre afloresta e o rio, desrespeitando a legislação vigente e quebrando importantes elos das cadeiasexistentes no ecossistema, necessários à sua sobrevivência. O rio, aos poucos, morre, sendo poluídopelos efluentes advindos de vários pontos da cidade por todo o trajeto que percorre. Os efeitos paraos fortalezenses são, por exemplo, problemas de saúde, perda de espaços de lazer e de memóriacoletiva, mudanças no microclima, perda de potenciais fontes de renda e produção, além de
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 48constantes – e cada vez maiores – enchentes, que provocam enormes transtornos à população egrandes perdas financeiras ao poder público. Nisso tudo, importa salientar que quem mais sofre é apopulação de menor renda, em especial a que vive irregularmente próxima ao rio, tendo perdasincomensuráveis. Por isso, é urgente a realização de políticas públicas transformadoras dessarealidade, através de obras de saneamento básico, de recuperação do ecossistema, de habitação e defiscalização, além da necessária demarcação das áreas legalmente protegidas. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Manguezais são ecossistemas costeiros encontrados principalmente nas regiões tropicais,sendo locais de encontro e interação de águas doces dos rios com águas salgadas do mar, formandoambientes bastante característicos. Ressalte-se que apesar das características comuns, cadamanguezal é único, com suas próprias relações, interações e espécies de seres. Diversos estudos apontam os ecossistemas manguezais como ricas fontes de produção dematerial orgânico, fruto das reações químicas e interações ambientais entre os seres vivos lápresentes e o ambiente abiótico, tornando esses ecossistemas muito atrativos, pela grandequantidade de nutrientes, a diversas espécies de animais e propícios a várias espécies de plantas,além de microorganismos. Para diversas espécies de peixes e crustáceos, inclusive e especialmentemarinhos, esses ecossistemas possuem a função de berçário por servirem de refúgio contrapredadores e de local com fartura de alimento. Por isso, cerca de 70% da vida marinha depende dosmanguezais, incluindo-se nessa dependência os corais, dos quais, por sua vez, dependem osecossistemas em questão, existindo, como se percebe, uma interdependência. Além disso, os ecossistemas manguezais se prestam a vários serviços sócio-ambientais.Pode-se destacar: proteção contra enchentes; proteção e controle contra erosão; proteção e controlecontra salinização de lençóis freáticos; suporte biológico e físico a outros ecossistemas costeiros;local de desenvolvimento e de peixes – em especial marinhos – crustáceos e outros; proteção econservação de habitares de fauna de natureza rara; vinculação a rotas migratórias de aves;armazenamento e reciclagem de matéria orgânica, nutrientes e poluentes; exportação de matériaorgânica e de nutrientes, através da dinâmica das marés, para ecossistemas costeiros próximos,constituindo a base da cadeia trófica com espécies de importância econômica e/ou ecológica;produção de oxigênio; influência nos climas locais e no clima global; habitat e suporte a atividadesde subsistência de comunidades tradicionais (pescadores, marisqueiras, índios e agricultores); fontede informação educacional e científica; turismo e recreação. Fortaleza vem sofrendo desde a década de 30 um processo de crescimento populacionaldesordenado, provocando forte pressão sobre o meio ambiente. Insere-se nesse contexto e no apresentado no início desta conclusão, o ecossistemamanguezal do Rio Cocó, que apesar da importância para a cidade em que se encontra – Fortaleza –sofre com diversos problemas. Como exemplo, tem-se que antigamente o fluxo das marésconseguia chegar a até 22km da foz; hoje, porém, não passa dos 13km. A especulação imobiliária no entorno do Cocó é grande. Encontrando-se parte deleinserido em área nobre da cidade. Não apenas moradias de luxo fazem parte da paisagem, mas lojas,supermercados, oficinas, postos de combustível, entre outros. Vastas áreas de comunidades pobrescobrem também o entorno do rio, não possuindo o saneamento adequado. Vê-se de um lado apressão do luxo, onde verde é vendido como jardim particular; de outro a pressão da pobreza, ondeo rio toma a função do Poder Público de recolher o lixo da população. Não se pense, porém, que noprimeiro caso não se polui. Acontece que lá, procura-se utilizar o rio como tapete, para onde se jogadebaixo, furtivamente, os detritos do farto jantar. Para potencializar as funções e serviços ambientais relacionados ao manguezal do rioCocó, faz-se necessário a delimitação e demarcação das áreas de preservação permanente; retiradasdas construções irregulares em áreas de preservação permanente e a recuperação da vegetação;amplo processo de saneamento básico e ações implantação de políticas públicas para ampliar abiodiversidade, principalmente com a conservação dos demais sistemas ambientais associados aomanguezal.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 49 5. REFERÊNCIAS ARAGÃO, A. C. R. A Percepção da Comunidade sobre as Opções de Lazer e deConservação do Parque Ecológico do Cocó. Monografia (Graduação em Turismo). Fortaleza:UNIFOR, 2004. BARBIER, E. B. & COX, M. An Economic Analysis of Shrimp Farm Expansion andMangrove Conversion in Thailand. In: Land Economics. Wisconsin: BRUWS, 2004. BRASIL. Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias da Câmara dosDeputados; MELO, João Alfredo Telles (rel.). Relatório GT-Carcinicultura. Brasília: CâmaraFederal, 2004. CAPRA, F. O Ponto de Mutação; trad. Álvaro Cabral. 25ª edição. São Paulo: Cultrix,2005. CEARÁ. Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente – SDU e SuperintendênciaEstadual do Meio Ambiente – SEMACE. O que é Manguezal. Fortaleza: SEMACE, 1992. p. 13 CEARÁ. Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente – SEMACE. Proposta deProteção, Conservação e Recuperação do Rio Cocó. Fortaleza: SEMACE, 2003. CEARÁ. Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente – SEMACE. Atlas dosManguezais do Nordeste do Brasil: Avaliação das áreas de manguezais dos Estados do Piauí,Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e PernambucoFortaleza: SEMACE, 2006. IBAMA. Diagnóstico da Carcinicultura no Ceará. Ministério do Meio Ambiente, 2005. JUMA, Calestous. Mundos Perdidos. In: Fuentes UNESCO nº96. UNESCO, 1997. MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Ação Civil Pública nº 064/2007; Ref.: ProcedimentoAdministrativo nº 1.15.000.001348/2006-30. MIRANDA, M. e S. In: MOREIRA, M. O. Produção do Fitoplâncton em Um EcossistemaEstuarino Tropical (Estuário do Rio Cocó, Fortaleza, Ceará). Recife, 1994. ODUM, P.E.; BARRET, G.W. Fundamentos de Ecologia. 5. ed. São Paulo: Thomson,2007. RÖNNBÄCK, P. The ecological basis for economic value of seafood production supportedby mangrove ecosystems. In: Ecological Economics. Elsevier Science, 1999. TUPINAMBÁ, S. V. Inventário Florestal do Manguezal do Cocó. Fortaleza: UniversidadeFederal do Ceará, 1994. __________. In: LEROY, J. (Relator). Populações Litorâneas Ameaçadas: Carcinicultura,Pesca Industrial, Turismo, Empreendimentos Públicos e Poluição. Relatoria Nacional para oDireito Humano ao Meio Ambiente, 2004. UNION, The World Conservation. Regional Technical Assistance For Coastal And MarineResourcer Management And Poverty Reduction In South Asia: An Economic Evaluation OfMangrove Ecosystem And Different Fishing Techniques In The Vanthavilluwa DivisionalSecretariat In Puttalam District Of Sri Lanka. Sri Lanka: Asian Development Bank, 2003. VANNUCCI, M. Os Manguezais e Nós: Uma Síntese de Percepções; versão em portuguêsDenise Navas-Pereira. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 50 CARCINICULTURA E A PRODUÇÃO DO ESPAÇO AGROAMBIENTAL NO LITORAL DE SERGIPE, BRASIL13 SANTOS, Carmem Lúcia Profª do IFS-SE, Doutoranda do NPGEO/UFS- Brasil carmemls@infonet.com.br COSTA, Boni Guimarães Prof. da SEED, Mestrando em Geografia do NPGEO/UFS- Brasil costaboni@hotmail.com RESUMO A carcinicultura, assim como qualquer outra atividade produtiva demanda o consumo derecursos naturais e pode afetar adversamente o meio ambiente. Na região litorânea de Sergipe emmeados de 1998, iniciou-se o cultivo de camarão marinho com a espécie lipopenaeus Vannameiadotando-se o sistema semi-intensivo. Neste contexto, este trabalho, baseado em fontesbibliográficas e documentais, busca discutir o processo de transformação nos espaços no litoralsergipano a partir da configuração territorial da carcinicultura, onde as relações sociais seintensificam com mudanças na produção e organização espacial. O presente estudo consiste emuma sistematização descritiva dos dados preliminares da pesquisa e fornece uma idéia da evolução eda organização do espaço litorâneo agroambiental sergipano, bem como apresenta alguns aspectosrelativos às formas de organização do corredor produtivo, em especial a carcinicultura. Com baseem estudos da Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais de Sergipe -CODISE o número de empreendimentos de carcinicultura em Sergipe cresceu entre 2004 e 2006nas várias bacias hidrográficas do Estado. A atividade da carcinicultura no litoral sergipanocontribuiu para uma redução e extinção de habitats de numerosas espécies, o desmatamento deextensas áreas de manguezal causando interferência direta na produção e distribuição de nutrientespara o estuário e plataforma continental; extinção de setores de reprodução e alimento de moluscos,aves e peixes e diminuição da biodiversidade ao longo das bacias hidrográficas. Isto gera a expulsãode marisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho, ou tornam-seobstáculos a seu acesso, aos espaços produtivos do território, ao estuário e ao manguezal com aprivatização de terras da União, tradicionalmente utilizadas para o extrativismo animal e vegetal. PALAVRAS-CHAVE: Carcinicultura, povoamento, corredor produtivo, espaçoagroambiental e meio ambiente. ABSTRACT Shrimp farming, like any other productive activity demands the use of natural resources and canadversely affect the environment. In the coastal region of Sergipe in mid-1998, began the cultivation ofmarine shrimp species with lipopenaeus Vannamei adopting the semi-intensive system. In this context, thispaper, based on bibliographic and documentary discusses the process of transforming the spaces in theSergipe coast from the territory configuration of shrimp farming, where social relations are intensified withchanges in production and spatial organization. This study consists of a systematic descriptive of the researchand provides an idea of the evolution and organization of space-environment coastal Sergipe, introducessome aspects of the forms of organization of productive runner, especially shrimp. According to theIndustrial Development Corporation and Mineral Resources of Sergipe - CODISE the number of projects inSergipe shrimp grew between 2004 and 2006 in various watersheds. The activity of shrimp farming incoastal Sergipe contributed to a reduction and disappearance of habitats for many species, the deforestationof large areas of marsh causing direct interference in the production and distribution of nutrients to theestuary and continental shelf; extinguishing sectors of reproduction and food shellfish, birds and fish andreduction of biodiversity along the river basin. This leads to the expulsion of seafood, fishermen and crab13 Texto apresentado faz parte da avaliação final da disciplina “Dinâmica Ambiental e Agricultura” ministrada pelaProfª Drª. Rosemeri Melo e Souza do Programa de Pós-Graduação em Geografia – NPGEO/UFS, no 2º semestre de2009.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 51collectors of their work areas, or become obstacles to their access to productive areas of the area, estuariesand mangroves with the privatization of the land traditionally used for extraction plant and animal. KEYWORDS: Shrimp farming, settlement, running productive, space-environment andenvironment. INTRODUÇÃO A globalização da problemática ambiental apresentou sérias conseqüências ao sistemamundo e acentuou-se, sobretudo, com as ações do capital com seus modelos desenvolvimentistas,sobre os ambientes naturais, desconsiderando a questão da sustentabilidade socioambiental. Istopode ser visto pelo pouco envolvimento da sociedade em relação a elaboração de estratégias deproteção dos recursos naturais. Ross (2006, p. 64), nos lembra que a produção do espaço atual no território brasileiro é oresultado da combinação convergente de um conjunto de fatores naturais, técnico-científicos epolítico-econômicos que se associam aos diferentes momentos da história econômica brasileira, emque programas, projetos e planos dos governos federal e estaduais voltaram-se para uma política deplanejamento que visa ao desenvolvimento econômico, sem preocupação maior com o social e oambiental. Neste sentido, uma problemática que não pode deixar de ser considerada, é a realidadena qual se encontra a zona costeira brasileira. Ela é uma região associada a importantes momentoshistóricos e palco de grandes intervenções ao longo do tempo. Enquadra-se, portanto, num cenáriodesafiador e influenciador de re-configurações territoriais. Deniz (1981) classifica zona costeira a partir do termo litoraneidade, entendido como umconjunto de condições econômicas e ambientais submetidos ao processo histórico. O autor apontatrês elementos como critérios de definição da litoraneidade: o povoamento antigo, clima quente eúmido e solos pobres e relevo suave. Para Diniz, o fato de estar junto ao mar dá fisionomia própriaao litoral e explica uma série de fatos ligados à ocupação do espaço. Não que o importante seja omar propriamente dito, mas um conjunto de características associadas a essa posição, quer seja derelevo e solo, quer seja de clima, de povoamento ou de atividade econômica (DINIZ, 1981). Vasconcelos (2005) destaca que a ocupação humana de forma desordenada gerourompimentos no equilíbrio dinâmico e sérios impactos negativos no ambiente costeiro brasileiro.Essa zona vem sendo objeto de acelerado processo de ocupação com sérios reflexos na produção doespaço geográfico e nas re-configurações dos territórios. Os reflexos dessa situação podem ser percebidos no litoral Sergipano que sofre do mesmotipo de intervenções e transformações ocorridas no litoral brasileiro, com uma relativa concentraçãode atividades econômicas, indústriais, serviços, atividades primárias, concentração populacionalsignificativa em função de importantes municípios costeiros e também sistemas naturais protegidos.Entretanto, não é difícil identificar na zona litorânea sergipana sistemas ambientais naturaistransformados pelas práticas econômicas, em projetos de carciniculturas 14 e construções deviveiros nas margens dos rios e canais fluviais dos sistemas estuarinos. Nesta zona se definemquadros problemáticos do ponto de vista da gestão ambiental, demandando ações de carátercorretivo, com a mediação dos múltiplos conflitos de uso. Diante deste cenário, busca-se discutir o processo de transformação nos espaços no litoralsergipano a partir da configuração territorial da carcinicultura, onde as relações sociais seintensificam com mudanças na produção e organização espacial. A realização do estudo consideroutrabalhos científicos, dissertações de mestrados, teses de doutorado e relatórios de estudos deplanejamento dos órgãos estaduais. Apesar deste trabalho consistir, ainda, em uma sistematizaçãodescritiva dos dados preliminares obtidos na pesquisa ele fornece uma idéia da evolução e daorganização do espaço litorâneo agroambiental sergipano, bem como apresenta alguns aspectosrelativos às formas de organização do corredor produtivo, em especial a carcinicultura. Para melhor entendimento dos termos espaços agroambiental e corredor produtivo costeironorte-sul, o trabalho teve como base as observações tecidas por Ross (2006) que: a partir da leitura14 A carcinicultura é uma atividade que estabelece relações diretas com o ecossistema, podendo alterar sua dinâmica efunções ecológicas caso a atividade não seja conduzida respeitando os princípios de sustentabilidade ambiental.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 52do processo histórico de ocupação do território brasileiro, discutiu a classificação das unidadesgeomorfológicas do país relacionadas com a vegetação e os sistemas naturais vegetais, sob aperspectiva do grau de alteração pelo homem, quando se transformam em espaços de atuaçãoeconômica: tanto em agropecuário quanto em extrativista. Nesse transcurso teórico foi possívelidentificar que existem vastas áreas pouco produtivas, com agricultura e pecuária no geraldecadentes, combinadas com ambientes naturais degradados, ao lado de grandes espaços aindapouco ocupados e também pouco produtivos, que se apresentam em condições ambientais aindabastante preservados. Neste estudo, considerou-se o que foi determinado pela Política Nacional deGerenciamento Costeiro do Ministério do Meio Ambiente quanto à classificação adotada pelosestudos para elaboração do Gerenciamento Costeiro em Sergipe. A zona costeira estadual encontra-se subdividida em três setores: i) Litoral Norte – 17 municípios: Barra dos Coqueiros, Neópolis,Nossa Senhora do Socorro, Laranjeiras, Riachuelo, Maruim, Santo Amaro das Brotas, Rosário doCatete, General Maynard, Carmopólis, Pirambu, Japaratuba, Pacatuba, Brejo Grande, Ilha dasFlores; ii) Litoral Centro – Aracaju, e iii) Litoral Sul – 5 municípios: São Cristóvão, ItaporangaD’Ajuda, Estância, Santa Luzia do Itanhi e Indiaroba. 1.1 Algumas Considerações sobre a Ocupação do Espaço Agroambiental do LitoralSergipano A estrutura do espaço agroambiental sergipano é resultado de um longo processo, cujoponto inicial pode ser fixado na formação do espaço colonial brasileiro. Aí a exploração açucareirarepresentou seu grande instrumento de ocupação, sendo precedida pela pecuária extensiva, com ointuito de promover cada vez mais o alargamento de suas fronteiras agrícolas e como não haviam dedeixar de ser, econômicos. Foi o cultivo da cana-de-açúcar, inicialmente no litoral da Capitania deSão Vicente, hoje litoral paulista, e pouco mais tarde no litoral de Pernambuco e Bahia, que começade fato o processo de ocupação do território, se estabelecendo uma incipiente transformação dosambientes naturais em áreas cultivadas( ROSS, 2006, p. 99). No processo de formação do território sergipano a pecuária é uma dessas atividades emcomum em todo o Estado, que não deve ser esquecida, inclusive pela forte influência que exerceunos municípios litorâneos como um todo. Porém, é somente nos anos de 1970 e principalmente nosanos de 1980, que se comprova nitidamente a pecuarização. Os dados de mudanças nas formas deutilização da terra e na orientação da agricultura deixam evidente o predomínio das pastagens,mormente as plantadas, e do rebanho bovino (VILAR e VIEIRA, 2004). No final do século passado, o cultivo de arroz já se fazia presente no litoral sergipano,sobretudo nas áreas próximas ao atual município de Brejo Grande. Entretanto, o referido cultivo nãotinha, naquela época a mesma importância da cana-de-açúcar e do sal, de exportação. Porém, paraaumentar a dinamização econômica entre os estuários, foram construídos canais de conexão fluvial,permitindo a interligação das bacias hidrográficas dos rios Japaratuba e Sergipe, através daconstrução do Canal do Pomonga, e entre as bacias hidrográficas do Rio Sergipe e do Vaza-Barrizpor intermédio do Canal de Santa Maria que facilitava a comunicação entre as áreas nucleares doespaço litorâneo sergipano. O litoral sergipano apresenta-se devastado na sua cobertura vegetal primitiva. De acordocom Santos e Andrade (1992), exemplo marcante é notado nos municípios de Pirambu e Pacatubaao observar uma forte transição da floresta costeira “tanto para a mata de restinga, quando seencaminha para o litoral, quanto para o cerrado e mata não espinhosa, quando se dirige para ointerior”. É possível afirmar, então, a substituição, sobretudo, nas áreas mais devastadas, dessacobertura por cultivos perenes (exemplos do coco-da-baía e da manga) e temporários (cana-de-açúcar e mandioca), e ainda pelas pastagens e do rebanho bovino, caracterizando um nítidoprocesso de pecuarização. Essas paisagens podem ser entendidas então, como um dos elementos fundamentais para oentendimento das organizações e relações espaciais. Levando em consideração a perspectivahumana pode ser evidenciada a partir dos estudos do geógrafo francês Georges Bertrand (2004, p.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 53141) onde ele nos apresenta que: [...] a paisagem não é a simples adição de elementos geográficosdisparados. É uma determinada porção do espaço, resultado da combinação dinâmica, portantoinstável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente uns sobre osoutros, fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, em perpétua evolução. Fontes (1990), por exemplo, afirma que a parcela considerável dos mangues vem sendodevastada, ocorrendo sua ocupação, principalmente, por salinas, viveiros e canais artificiais,alterando profundamente a circulação da água, modificando os ciclos das marés econsequentemente reduzindo o ingresso de nutrientes. O aterro resulta, geralmente, da execução deobras de engenharia (aterro para construção de obras de engenharia (aterro para construção de leitode rodovias), que se interpõem isolando áreas de mangue. Caracteriza-se pela ação definitiva eirreversível na alteração do manguezal suprimindo completamente a fauna e a flora. Atualmente, ao longo de toda zona litorânea pode-se observar a presença da rodoviaestadual (SE-100 e SE-318) que tem como meta interligar grande parte do litoral, os estados daBahia, Sergipe e Alagoas, com recursos provenientes do Programa de Desenvolvimento do Turismono Nordeste - PRODETUR. Amplia-se assim de forma significativa o fluxo de ocupação e servindode eixo estruturador do espaço. A CARCINICULTURA COMO ATIVIDADE DO CORREDOR PRODUTIVOCOSTEIRO NORTE-SUL Entendemos a organização espacial como sendo o conjunto de objetos ou formas espaciaisefetivadas no processo histórico, através da atuação humana. Neste contexto são construídoscampos de cultivos, pontes, rodovias, que facilitam os fluxos geográficos no litoral. “O conjunto detodas essas formas configura a organização espacial da sociedade. A organização espacial é asegunda natureza, ou seja, a natureza primitiva transformada pelo trabalho social” (CORRÊA,2003b, p.54). Com Ross, (2006), obtivemos a compreensão de que existem dois macrocorredores demaior produção e produtividade agropecuária no Brasil, que se estendem na direção norte-sul,sendo um na parte central e o outro na zona costeira do país. Dentro desta zona encontra-se o litoraldo Nordeste que apresenta grande dinâmica econômica onde a carcinicultura vem se instalando. No Brasil, a prática da carcinicultura foi iniciada em 1970 e se firmou como uma atividadeindustrial em 1980 a partir de articulação entre instituições de pesquisas regionais, governo einiciativa privada no sentido do planejamento e da implantação de tecnologias tais como:engenharia de projetos, insumos, equipamentos, biotecnologia entre outros. O investimento nesse setor no Brasil, especialmente na Região Nordeste, ampliou-se nosúltimos dez anos devido às características edafoclimáticas, topográficas e hidrobiológicas quebeneficiam o cultivo do camarão durante todo o ano permitindo realizar três ciclos anuais deprodução, aos investimentos realizados em infra-estrutura da Região; e em razão de uma queda naprodução dos países com grande participação no mercado mundial (FIGUEIREDO, GONDIM,2003). A viabilidade do cultivo comercial do camarão foi obtida com a aclimatação da espécieLitopenaeus vannamei que é originária da costa do Pacífico e teve uma excelente adaptação àscondições tropicais de clima, solo e água principalmente as encontradas no litoral Nordeste. Porisso, a região Nordeste detém a maior concentração de área produtiva e responde por quase atotalidade da produção nacional, especialmente, nos Estados do Rio Grande do Norte, Ceará, Bahiae Pernambuco (ABCC, 2002). Forjado (2008, p.48) nos evidencia que, as dinâmicas econômicas “modificam as paisagens(criando e recriando)”, produzindo, novas configurações territoriais. Um subsídio teórico-conceitual de Raffestin, acerca da compreensão de espaço e territórioé evidenciado nesse trabalho. Ele afirma que é essencial compreender bem que o espaço é anteriorao território. O território se forma a partir do espaço, é resultado de uma ação conduzida por umator sintagmático (ator que realiza um programa) em qualquer nível [...] O território nessaperspectiva, é um espaço onde se projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 54conseqüência, revela relações marcadas pelo poder. O espaço é a “prisão original, o território é aprisão que os homens constroem para si [...] O espaço é, portanto anterior, preexistente a qualqueração. O espaço é de certa forma, “dado” como se fosse uma matéria prima (RAFFESTIN, 1980). Seguindo o raciocínio de Raffestin, o ser humano constrói territórios a partir de interessescapitalistas e a carcinicultura é um exemplo, se constituindo em um segmento produtivo daaqüicultura15, derivada do processo de desenvolvimento tecnológico, associado ao crescimento dademanda mundial por tais produtos. Como resposta às exigências da modernização socioeconômica,a atividade além de utilizar recursos naturais progressivamente, proporciona agressões aos limitesde tolerância dos ecossistemas, reprimindo e eliminando espécies de natureza viva, reduzindo,portanto, a biodiversidade (ALTVATER, 1995). Os problemas ambientais gerados pela criação de camarão em cativeiro sãofrequentemente relatados. Tahim (2004), por exemplo, aponta o desmatamento de mangues,lançamento de efluentes nos cursos d’água (causando mudanças das características físico-químicasdas águas), bem como o uso de produtos químicos, erosão, inundações, alterações no regimehidrológico de rios gerando problemas socioeconômicos para as comunidades locais. Esse autor alerta que a implantação de viveiros de camarão é realizada em áreas que eramutilizadas para a pesca, mariscagem, uso de produtos da flora do mangue por parte das comunidadesribeirinhas. Porém, no lugar destas atividades a carcinicultura se introduziu, demarcando seuterritório impedindo o acesso dessas comunidades, já que são áreas disponíveis para o extrativismo,causando o que podemos chamar de privatização das terras da União. Os aspectos legais e sócio-culturais estão relacionados, por exemplo, ao uso de águas públicas, conflitos locais, entre outrosfatores (ALTVATER, 1995). Os grandes projetos de carcinicultura marinha localizados nos estuários apresentamconflitos com o mangue, degradando–o através de supressão de sua vegetação parainstalação/ampliação de viveiros ou para implantação de vias de acesso. O lançamento de fluentes eresíduos em seus corpos de água compromete em médio prazo a função desses ecossistemas(CPRH, 2003) e também o lançamento de resíduos da larvicultura no manguezal e corte de manguepara instalação de viveiros de camarão (CPRH, 2003). Saquet (2007) aborda a formação do território como fruto de relações econômicas,políticas e culturais efetivadas por um grupo social. Cotidianamente, são estabelecidas inúmerasrelações/ ligações/conexões, que formam o que se chama de redes geográficas. A precarizaçãosocioespacial dominante na sociedade capitalista dá forma àquilo que se denominam aglomeradoshumanos de exclusão, exemplo mais estrito de des-territorialização, considerado por HAESBAERT(2006, p. 67) como “um processo de exclusão social, ou melhor, de exclusão socioespacial”. 3.ESPAÇOS PRODUTIVOS DO LITORAL SERGIPANO: A CARCINICULTURA O litoral de Sergipe tem uma extensão, de aproximadamente 163 km e ocupa umasuperfície de 5.453 km2, composto de 23 municípios, classificados como costeiros, litorâneos ouestuarinos, distribuídos, e delimitados pelos critérios do GERCO - Programa Nacional deGerenciamento Costeiro, fortemente marcado pela presença da planície Litorânea que recebeinfluência direta dos estuários dos rios: São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Vaza-Barris e Piauí –Real. Além disso, comporta variadas paisagens, assentadas sobre a formação de vastasáreas estuarinas e manguezais cujo potencial animal é constituído, basicamente, da fauna típicadesses ambientes, onde se podem destacar crustáceos, moluscos, aves. Associado à vegetação, aosolo e as características hídricas dos estuários, a fauna típica é bastante diversificada, representadapor várias espécies de crustáceos, moluscos, cuja captura desempenha importante papel na15 Aqüicultura é uma atividade multidisciplinar, que constitui no “cultivo de organismo aquático incluindo peixes,moluscos, crustáceos e plantas aquáticas” (FAO, 1998). O cultivo implica em intervenção humana no processo decriação para aumentar a produção, tal como regulação dos estoques, alimentação, proteção de predadores, entre outros.Considerando, também, o potencial dos impactos econômicos com o crescimento da aqüicultura e a geração de empregoe renda.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 55sobrevivência das populações locais. Além da pesca artesanal outra forma de utilização desseespaço é a instalação de viveiros para a prática de aqüicultura. Segundo Carvalho (2004) a ocupação com os carcinicultores e seus sistemasde produção, semi-intensivo, de natureza comercial do camarão marinho em Sergipe tiveram inícioem meados de 1998, com a espécie cultivada lipopenaeus Vannamei e o sistema de cultivo semi-intensivo. Este sistema conta com suporte de fertilizantes e/ou nutrientes externos. A espéciecultivada depende de consumo de organismos vivos, presentes no viveiro, e de suplementosalimentares. Conforme estudos desenvolvidos16, em 2004 havia 60 empreendimentos em produçãocom área total de 636,87 hectares, distribuídos em cinco bacias hidrográficas (figura 1), destacando-se, em número, a do rio Sergipe, com 21 unidades produtoras e, em área, a do São Francisco com262,07 ha em produção. Com relação ao tamanho das unidades produtivas, 78,33% eram depequeno porte, 16,33% possuíam porte médio e apenas 5% são de grande porte. 649955 718758 N SERGIPE O L MUNICÍPIOS QUE CULTIVAM S CAMARÃO MARINHO 2006 ALAGOAS 8892061 BAHIA BREJO GRANDE 8834276 PACATUBA 3,41 10,73 PIRAMBU 0,49 SANTO AMARO DAS BROTAS 1,95 N. Sra. DO SOCORRO 47,81 BARRA DOS COQUEIROS 3,41 O IC SÃO CRISTÓVÃO 11,71 ARACAJU T 6,83 N 8776491 0,49 Â L BACIAS HIDROGRÁFICAS T ITAPORANGA A DAJUDA RIO SÃO FRANCISCO RIO JAPARATUBA O ESTÂNCIA RIO SERGIPE N 4,88 RIO VAZA-BARRIS A RIO PIAUÍ E C RIO REAL O CONVENÇÕES CARTOGRÁFICAS SANTA LUZIA DO ITANHY LIMITE MUNICIPAL BAHIA 3,90 MUNICÍPIOS COM EMPREENDIMENTOS REDE HIDROGRÁFICA INDIAROBA 4,39 0,49 PERCENTUAL DE EMPREENDIMENTOS 0 12 24 Km Fonte: Atlas Digital - SRH, 2004. Organização: Marcelo Alves dos Santos, 2010. Figura 1: Empreendimentos de maricultura por bacias hidrográficas, 2006. De acordo com a CODISE (2004), no estuário do Rio São Francisco existiam 17estabelecimentos de produção de camarão cultivado, dos quais 14 localizam-se no município dePacatuba, totalizando 259,77 ha produtivos, e 3 em Brejo Grande, com um total de 9,5ha. Estesempreendimentos correspondem à maior área produtiva do estado, totalizando 41,20% da área emprodução. O estuário do rio Sergipe era o segundo maior em área produtiva de camarão cultivadoocupando 25,60% dos hectares produtivos. Dos 21 empreendimentos de carcinicultura, 10 estãolocalizados no município de Nossa Senhora do Socorro, 8 na Barra dos Coqueiros, 2 em SantoAmaro das Brotas e 1 em Aracaju. O município com maior área em produção é Nossa Senhora doSocorro, com 125,5ha. Com relação ao estuário do Rio Vaza Barris havia sete empreendimentoslocalizados em Itaporanga d’Ajuda, somando 37 hectares de produção, enquanto São Cristóvãoapresentava apenas uma fazenda, que, no entanto, possui 70 ha em produção. Este estuário ocupavaa terceira posição em termos de área produtiva no estado, com 16,80%. No estuário do rio Piauí existiam nove unidades produtivas de camarão cultivado,ocupando a quarta colocação em área produtiva do estado, com 8,25% hectares de espelho d’águaem produção. Dos 52,70 ha em produção, 34,5 ha estão localizados no município de Estância e 18,216 Refiro-me os resultados da dissertação de Márcia Eliane Silva Carvalho, “A Carcinicultura na Zona Costeira doEstado de Sergipe”, defendida no NPGEO/UFS, em 2004.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 56ha em Santa Luzia do Itanhy. Indiaroba é o único município sergipano localizado na bacia do RioReal concentrando cinco empreendimentos, com 52 ha em produção, o que equivale a 8,15% daprodução no estado. Com base nos dados da CODISE, em 2006 existiam 205 estabelecimentosdistribuídos em 978 ha voltados para o cultivo do camarão marinho na planície litorânea sergipanacom a maior incidência no estuário no rio Sergipe. Os municípios de Nossa Senhora do Socorro,São Cristovão e Pacatuba, totalizam mais de 70% do total de empreendimentos (CODISE, 2007). Percebe-se um crescimento do número de empreendimentos e a área de produção nasmargens dos rios e canais fluviais dos sistemas estuarinos na zona litorânea sergipana. Adisponibilidade de área com essa destinação, segundo Fonseca et.al.(2008), 56,09% dosempreendimentos, instalados em estruturas pré-existentes, eram salinas ou viveiros de maré. 4. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A MAIS A implantação da carcinicultura no litoral Sergipano constitui um espaço modificadoa partir da relação do homem com a natureza configurando relações sociais por conta de novosfatores territoriais onde tais relações se intensificam com mudanças na produção e organização dasociedade. Partindo deste pressuposto Milton Santos esclarece que, “a paisagem é um conjunto deformas, que num dado momento, exprime as heranças que representam as sucessivas relaçõeslocalizadas entre homem e natureza [...]” Santos (2002, p. 103 apud CASTRO, s.d, s.p.). Essaconceitualização evidencia que a partir de algumas atividades socioeconômicas (carcinicultura) nospermite entender os processos que produzem as paisagens. Com relação ao meio ambiente, a carcinicultura no litoral sergipano contribuiu para umaredução e extinção de habitats de numerosas espécies, o desmatamento de extensas áreas demanguezal causando interferência direta na produção e distribuição de nutrientes para o estuário eplataforma continental; extinção de setores de reprodução e alimento de moluscos, aves e peixes ediminuição da biodiversidade ao longo das bacias hidrográficas. Isto gera a expulsão demarisqueiras, pescadores e catadores de caranguejo de suas áreas de trabalho, ou tornam-seobstáculos a seu acesso, aos espaços produtivos do território, ao estuário e ao manguezal com aprivatização de terras da União, tradicionalmente utilizadas para o extrativismo animal e vegetal. REFERÊNCIAS ABCC. Associação Brasileira de Criadores de Camarão. O cultivo de camarão e meioambiente. Disponível em http//www.abcc.com.br. Acesso em 30/11/2009. __________ Censo de carcinicultura nacional 2004. http//www.abcc.com.br. Acesso emnovembro/2009. ALTVATER, E. O preço da riqueza. São Paulo, UNESP, 1995. ANDRADE, Manuel Correia de. A terra e o homem no Nordeste – contribuição ao estudoda questão agrária no Nordeste. São Paulo, Editora Atlas S.A, 1986. BERTRAND, George. Paisagem e geografia física global. Esboço metodológico.RA’EGA. Curitiba, n.8, 2004, p.141-152. CARVALHO, Márcia Eliane Silva, A carcinicultura na zona costeira do Estado deSergipe. Dissertação de mestrado. Aracaju, NPGEO-UFS, 2004. CODISE. Companhia de Desenvolvimento Industrial e de Recursos Minerais. Censogeoreferenciado da carcinicultura no Estado de Sergipe. Aracaju, 2007. __________ Censo georeferenciado da carcinicultura no Estado de Sergipe. Aracaju, 2004. CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. 7 ed. São Paulo: ática, 2003b. CPRH. Companhia Pernambucana do Meio Ambiente. Diagnóstico Socioambiental doLitoral de Pernambuco. Recife, 2003, 214p. DINIZ, José Alexandre Filizola. Áreas agrícolas subcosteiras do nordeste meridional.Recife: SUDENE, 1981. FARJADO, Sérgio. Territorialidades corporativas no rural paranaense. Guarapuava. Ed.UNICENTRO, 2008. FAO. The state of word fisheries and aquaculture. Roma, 1998, 114p.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 57 FIGUERÊDO, M.C de, ROSA, M. F.; GONDIM, R. S. Sustentabilidade ambiental dacarcinicultura no Brasil: desafios para a pesquisa. Revista Econômica do Nordeste, Fortaleza, v.34,n.2, abr-jun. 2003. FONTES, Aracy Losano. Aspecto da geomorfologia costeira no Norte do Estado deSergipe. 2º Simpósio de Ecossistema da Costa Sul e Sudeste Brasileiro – Estrutura, Função eManejo. ÁCIESP, Águas de Lindóia/SP, 1990. FREIRE, Felisbelo. Historia Territorial de Sergipe. Aracaju, Sociedade Editorial deSergipe/ S.E.C. /FUNDEPAH, 1977. GOVERNO DO ESTADO DE SERGIPE. Companhia de Desenvolvimento Industrial e deRecursos Minerais de Sergipe – CODISE. Estudo de Áreas Potenciais para o Cultivo de CamarãoMarinho em Sergipe. Aracaju: CODISE, 2004. HAESBAERT, Rogério. Concepções de Território para entender a desterritorialização. In:SANTOS, M; BECKER,B.K., (org.) Território, territórios: ensaios sobre o ordenamento territorial.2. Ed. Rio de Janeiro: PPGEO/UFF, DP&A Editora, 2006. JUNIOR, Lamartine Richard, Modelo para implementação de sistema integrado de gestãoambiental para a carcinicultura marinha, Tese de doutorado, Programa de Pós-Graduação emEngenharia de Produção, UFSC, Florianópolis, 2006. RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1980. ROSS, Jurandyr Luciano Sanches, Natureza e sociedade nos espaços agroambientais dobrasil. In: Ecogeografia do Brasil: subsídios para planejamento ambiental, São Paulo, Oficina detextos, p. 62-146, 2006. SANTOS, Adelci Figueiredo & ANDRADE, José Augusto. Delimitação e regionalizaçãodo Brasil semi-árido – Sergipe. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe - UFS/SE, 1992. SAQUET, Marcos Aurélio. Abordagens e Concepções de Território. São Paulo: ExpressãoPopular, 2007. SOUTO, P.H. Litoral norte sergipano: história e perspectivas socioeconômicas. GEOUFS.São Cristovão, 2002, v.1, nº 1. TAHIM, Elda Fontinele, A Carcinicultura e o meio ambiente: o desafio dasustentabilidade. Apresentação oral-Agropecuária, meio ambiente e desenvolvimento sustentável,Instituto Centec, Fortaleza/Ceará, 2005. VEIGA, José Eli da. Apresentação. In: Caio Prado Jr. (Org). A questão Agrária. 5ª Ed. SãoPaulo: Brasiliense, 200, v.1, p. 3-23 (Prefácio, Pósfacio, Apresentação). VILAR, José Wellington Carvalho e VIEIRA, L.V.L. Consolidação do diagnóstico dolitoral sul de Sergipe. Relatório de Consultoria. MMA/ADEMA. Aracaju, 2004.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 58CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL: UMA DISCUSSÃO À LUZ DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Ana Gizelle da SILVA Mestranda em Geografia da UFG – Catalão/GO anagizelles@yahoo.com.br José A. Lima DOURADO Mestrando em Geografia da UFG – Catalão/GO josephdourado@yahoo.com.br Klayton Marcelino de PAULA Mestrando em Geografia da UFG – Catalão/GO klaytonmarcelino@yahoo.com.br Paulo Henrique Kingma ORLANDO Professor Dr. UFG – Catalão/GO phorlando@yahoo.com.br RESUMO Ante aos desequilíbrios ambientais causados pelas atividades da sociedade e pelanecessidade de mudar os paradigmas atuais regularizados primordialmente pelo crescimentoeconômico, a Educação Ambiental (EA) se apresenta como um instrumento de fundamentalimportância, visto que, somente uma sociedade esclarecida e consciente das limitações dos recursosnaturais territorializados, poderá garantir a existência e o bem estar das atuais e futuras gerações,através de outro tipo de organização societária. A EA é uma prática educativa que surgiu em virtudeda preocupação humana com a qualidade de vida, no entanto, seu contexto é muito amplo eabrangem aspectos que não se dissociam da natureza, estando interligados aos aspectos sociais,econômicos, políticos, éticos e culturais. Esse artigo faz uma análise das crises contemporâneas pelaótica crítica da EA dialógica e emancipatória, que valoriza todos os saberes, e que conduz asociedade a uma maior participação política em defesa de uma nova postura diante das questõesengendradas pela ocupação territorial. PALAVRAS-CHAVE: Crise do Capital. Crise Ambiental. Educação. EducaçãoAmbiental. ABSTRACT With the environmental imbalance caused by the activities of society and for necessity tochange the present paradigms settled primarily by economic growth, environmental education (ee)is presented as an instrument of fundamental importance, since only a company informed and awareof the limitations of territorial resources, can guarantee the existence and well being of present andfuture generations, through another type of corporate organization, ee is an educational practice thatarose as a result of human concern for quality of life, however, its context is very huge and coverissues which do not dissociate from nature and are linked to social, economic, political, ethical andcultural aspects. This article is an analysis of contemporary crisis through the eyes of ee dialogi calcritical and emancipatory, which values all knowledge, and leading the company to a larger politicalrole in support of a new position with the issues created by the land occupation. KEYWORDS: Crisis in the capital. Environmental crisis. Education. Environmentaleducation. INTRODUÇÃO O fim da primeira década do séc. XXI está sendo marcado por calorosos debatesrelacionados à crise ambiental, à crise do capital, à crise social, ou ainda, à crise da sociedadecontemporânea. A crise ambiental não se dissocia da social, tendo em vista que o termosocioambiental é redundante, sendo comprovado pelo hibridismo homem/natureza, tão evidenciadopor Latour (1994) em Jamais Fomos Modernos. Então podemos afirmar que nos resta uma única
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 59opção de crise que para efeito de análise pode ser discutida em seus dois focos: ambiental e docapital. Partimos do princípio que os adjetivos que dão conotação às crises são extremamenteamplos, imbricados de indagações e pormenorizados em detalhes, fazendo com que a Geografiasaia na frente nesse embate teórico, por ter o privilégio de trabalhar a apropriação e uso da naturezapela sociedade. Soma-se a essa questão o uso do território dentro de uma formação sócio-espacial,pautado na lógica de máximo aproveitamento dos recursos naturais transformados em mercadorias.Nesse cenário a Educação Ambiental (EA) dialógica e emancipatória, que valoriza todos os saberes,torna-se um meio importante de conduzir a sociedade a uma maior participação política em defesade uma nova postura diante das questões engendradas pela ocupação territorial, num projeto deeducação que baseado na ação possível do agora, promova mudanças individuais e coletivas maisprecisas. A educação aqui é tratada como um processo que deve ser explorado e efetivado, pois, aconsideramos um mecanismo capaz de criar uma auto-reflexão no indivíduo, uma utopia no sentidode desejo de um mundo melhor e uma peça chave de sensibilização que leva ao desencadear daautoconscientização, portanto, a educação por si só e sem adjetivos exerce um papel primordial namelhoria da qualidade de vida. O problema passa a ser então como oferecer uma educação dequalidade e de cunho crítico? Como fazer cumprir as várias Leis existentes que organizam eprogramam o processo de efetivação específico da EA no ensino formal? Como desburocratizar osistema e aproximar o educador do educando? Como facilitar o acesso do educador as fontes deinformações necessárias a um bom trabalho? Nas várias concepções teórico-metodológicas sobreesse assunto existe um consenso: a relevância da educação de qualidade em todos os níveis, comcaráter global e holístico. É preciso ir além das disciplinas “engavetadas”. Nesse sentido é preciso tambémambientalizar a educação através do estudo efetivo das questões ambientais e do entendimento dohomem como natureza. É dever dos pesquisadores acadêmicos a árdua tarefa de inserir no debatedas Universidades a questão da formação dos professores como um todo, numa visão geral daeducação formal, incitada pela nova ordem econômica e socioambiental com suas incoerências edeficiências. Racionalidade, Epistemologia e Saber Ambiental na visão de Enrrique Leff Começaremos o diálogo com o doutor em Economia do Desenvolvimento Enrique Leffque se orienta fundamentalmente no sentido da análise de processos de articulação das ciênciasnaturais e sociais. Ele tece suas discussões formulando uma teoria baseada na RacionalidadeAmbiental (é preciso construir um saber diferenciado da razão produtivista dominante na economiae na própria ciência). Para esse autor o Saber Ambiental poderia ajudar a compreender a dinâmicaambiental lançando mão de outros saberes que não sejam só o científico. Leff (2000, p. 41) diz oseguinte: A crise Ambiental não só se manifesta na destruição do meio físico e biológico, mastambém na degradação da qualidade de vida, tanto no âmbito rural como no urbano. Mais uma vezfica nítido o hibridismo homem/ meio, onde não existe prejuízo a um que não seja também dooutro. Leff na mesma obra (p. 45) fala que toda a produção de valores de uso implica um processosocial de transformação da matéria e da energia acumuladas no planeta. Ratificando a idéia de que a crise do capital leva a crise ambiental e que a criseambiental promove a crise do capital, Leff escreveu: Com a conformação do Modo de Produção Capitalista, as tendências dos processosecológicos e culturais articulam-se, são assimiladas ou transformadas pela sobre-determinação quelhes impõe a racionalidade econômica de uso dos recursos. (LEFF, 2000, p. 107). Percebemos então, que tudo passa pelo patamar econômico, e que se não “doesse nobolso” a crise ambiental não seria tão relevante para a sociedade capitalista. Sobre esta questão omesmo autor diz o seguinte: A expansão internacional da Economia induziu processos de destruiçãoecológica e étnica, pelo fato de a Natureza e a Cultura não terem valores contabilizáveis dentro daracionalidade econômica prevalecente. (Leff, 2000, p. 124). Esses valores se diferenciam dos
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 60valores dos bens produzidos, todavia, com a escassez generalizada dos “bens” naturais, existe umatendência a valorização financeira dos mesmos, a exemplo da água e do petróleo. A crise ambiental é uma crise do conhecimento: da dissociação entre o ser e o ente à lógicaautocentrada da ciência e ao processo de racionalização da modernidade guiado pelos imperativosda racionalidade econômica e instrumental (...). O saber ambiental vai derrubando certezas eabrindo os raciocínios fechados que expulsam o ambiente dos círculos concêntricos doconhecimento. (LEFF, 2007, p. 13). Leff ainda afirma que a epistemologia ambiental funda-se a partir de um novo saberque emerge do limite do real (entropia), do projeto de unificação forçada do ser e da epopéia daciência pela objetividade e transparência do mundo (2007 p. 15). Assim, problematiza e questionaos paradigmas existentes, entre eles o positivismo e propõe uma nova abordagem, onde nasentrelinhas se lê Educação Ambiental, ou seja, um projeto para pensar as condições teóricas e paraestabelecer métodos que orientem as práticas interdisciplinares. Fechando a linha de pensamento de Leff, vale citar o que ele disse no livro SaberAmbiental (2008, p. 15) A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricosque impulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. Na atualidade, odiscurso começou a mudar e a sustentabilidade busca reconciliar os contrários da dialética dodesenvolvimento: o Meio Ambiente e o Crescimento Econômico. E o que se procura hoje éecologizar a economia. A problemática ambiental converteu-se numa questão eminentemente política. Os conflitossocioambientais emergem de princípios éticos, direitos culturais e lutas pela apropriação danatureza que vão além da internalização dos custos ecológicos para assegurar um crescimentosustentado. (LEFF, 2008, P. 45). Eis aqui o grande desafio da sociedade, ou melhor, o grande desafio da classe trabalhadoraque sustenta os modelos vigentes e que no “frigir dos ovos” é a maior prejudicada com osproblemas socioambientais. Tal desafio ainda é maior por perpassar pela falta de ética generalizadado atual padrão político e econômico. As novas tendências e abordagens que buscam mudanças da concepção linear da sociedadepara uma concepção holística Para dar inicio ao debate sobre mudanças escolhemos Frijot Capra. Destacamos queesse autor em sua obra O Tao da Física “desafiou a sabedoria convencional ao demonstrar ossurpreendentes paralelos existentes entre as mais antigas tradições místicas e as descobertas daFísica, no séc. XX”. Em O Ponto de Mutação (1982) Capra criticou o pensamento cartesiano ecolocou a Física Moderna como responsável por uma revolução e transformação em todas asciências, o que levou a nova visão de mundo e de valores. A crise atual, portanto, não é apenas uma crise de indivíduos, governos ou instituiçõessociais; é uma transição de dimensões planetárias. Como indivíduos, como sociedade, comocivilização e como ecossistema planetário, estamos chegando a um momento decisivo. (CAPRA,1982, P. 30). Nessa concepção, baseado na Física Quântica, o autor aumenta as margens da crise,tornando-a com uma dimensão incalculável. Capra diz que o pensamento racional é linear, ao passoque a consciência ecológica decorre de uma intuição de sistemas não-lineares. Desta forma, afirma(1982, p. 39) que nosso progresso, portanto, foi uma questão predominantemente racional eintelectual, e essa evolução unilateral atingiu agora um estágio alarmante, uma situação tãoparadoxal que beira a insanidade. Dando seqüência ao debate citaremos as idéias de Edgard Morin que trata do Paradigma daComplexidade, partindo também de uma abordagem sistêmica. Esse autor acredita na necessidadede discutir a base da consciência humana como um ser que possui diversas identidades: Cósmica,terrena/biológica, cultural e pessoal. Nesse sentido. Os modelos explicativos fazem parte docotidiano dos estudos do meio físico. A complexidade das relações, dos lugares e dos sistemas levaa necessidade de discussão.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 61 Seria preciso ensinar princípios de estratégias que permitam enfrentar os imprevistos, oinesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento, em virtude das informações adquiridasao longo do tempo. É preciso aprender a navegar em um oceano de incertezas em meio a umarquipélago de certezas. (MORIN, 2004, p.16). Pensando nisso, as noções de mundo e relações seriam ampliadas, ressaltando que ohomem como indivíduo (identidade pessoal) é predominante na sociedade contemporânea. Sobreesse assunto escreveu Morin (2002, p. 63) A Terra não é a adição de um planeta físico, mais abiosfera, mais a humanidade. É uma totalidade complexa física/biológica/antropológica, em que avida é uma emergência da história da Terra. Esse autor (2002, p.46) também contribui para ajustificativa da EA quando diz que nossa educação ensinou separar, compartimentar, isolar, e nãoligar os conhecimentos. Nos faz conceber nossa humanidade de forma insular. Assim, podemosafirmar que o momento agora é de unir, aglutinar, ligar os conhecimentos, já que o desvelar dahistória nos mostrou que não existem ilhas para o saber e não é o sistema cartesiano o caminho daspedras. Chegou o tempo do neoliberalismo, onde a concorrência passou a ser natural, ou talvez,um mal necessário. Existe competição em tudo: Blocos Econômicos, Países, Multinacionais,Pequenas Empresas, Trabalhadores e em vários outros setores. Para (Gonçalves, 2006, p. 51) operíodo atual da globalização neoliberal, difere dos períodos que o antecede pela especificidade dodesafio ambiental. O motor do mundo globalizado é a competitividade. E para que esse motor não pare defuncionar, é alimentado pela “corrida” tecnológica. Chegar em primeiro lugar significateoricamente ter a maior economia. Assim, trava uma incessante e “burra” disputa econômica emtodas as escalas. “O Ter substituiu o Ser”. A razão “Cartesiana” questionada ou não, aindapermanece nas entrelinhas das relações sociais e da construção de conhecimento. No entender de Gonçalves (2006, p. 113) o mercado se mostrou hábil para encontrarmecanismos de remunerar os investimentos de acordo com seus riscos potenciais, o mesmo não sedá com relação aos riscos ambientais. O processo de globalização traz em si mesmo a globalizaçãoda exploração da natureza com proveitos e rejeitos distribuídos desigualmente. O estrago ambiental já foi feito. O lucro obtido com esse estrago não foi divididoentre os povos do planeta. Contrastam no mundo nações ricas com sociedade altamente consumistacom nações pobres com a maioria da população de miseráveis famintos. O crescimento econômicoe tecnológico de algumas nações e o uso indiscriminado dos recursos naturais não foi acompanhadopelo desenvolvimento social. A Educação Ambiental no contexto da Crise Em decorrência do desenvolvimento tecnológico, da produção em larga escala e doconsumismo, o meio ambiente tem passado por intensas transformações, induzidas pelo própriohomem. A primeira década do século XXI está sendo marcada por um debate mundial acerca dasquestões ambientais, o que fez difundir a idéia da finitude dos recursos naturais e das sutilezas domecanismo natural do planeta. Juntamente com o crescimento das discussões sobre a problemáticaambiental, cresce também, a preocupação coletiva com o futuro comum da humanidade, criandoassim, a necessidade de frear o processo de destruição. É viabilizada então a Educação Ambientalcomo uma das propostas para alcançar uma nova relação da sociedade com o meio ambiente. Importante sublinhar que quando falamos EA, estamos falando de educação comoprotagonista de libertação da sociedade nos moldes de Paulo Freire e, portanto, sem a mitificação deque o indivíduo é o culpado por tudo, pela sua falta de ética e pelo seu consumismo. Só se consomeporque se produz. Além das salas de aula e das nossas casas, existem um complexo sistemachamado capitalismo e uma estrutura política que maximizam os problemas ambientais. Assim, aEA é necessária tanto quanto a educação, no desvelar de uma sociedade mais consciente e critica. As necessidades humanas são atendidas com os recursos da natureza. Naturezacomplexa, impossível de ser estudada em todas as suas especificidades por apenas uma ciência, oque leva profissionais de todas as áreas a trabalharem juntos, tornando a Educação Ambiental um
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 62tema transversal, como é tratada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. Sobre essa questãoGuimarães disse: A Educação Ambiental apresenta uma nova dimensão a ser incorporada ao processoeducacional, trazendo toda uma recente discussão sobre as questões ambientais, e as conseqüentestransformações de conhecimento, valores e atitudes diante de uma nova realidade a ser construída.(GUIMARÃES, 2005, p. 9). Essa discussão não está somente na educação formal em si, ela ultrapassa os muros dasescolas e chega até a sociedade num contexto bem mais amplo, adquirindo força através do debate,para combater as desigualdades sociais, políticas e ambientais consideradas o tripé dainsustentabilidade. A resolução dos problemas ambientais implica na solução de mazelas sociaisvergonhosas como a fome e todos os problemas inerentes à condição humana, visto que, homem énatureza e não existe mal feito a um que não atinja o outro. Esse complexo sistema constitui apreocupação maior da EA. Para Carvalho (2008) EA é a uma mediação importante na construção social de umaprática político-pedagógica portadora de nova sensibilidade e postura ética, sintonizada com oprojeto de uma cidadania ampliada pela dimensão ambiental. Segundo essa autora a EA críticaseria, portanto, aquela capaz de transitar entre os múltiplos saberes: científicos, populares etradicionais, alargando nossa visão do ambiente e captando os múltiplos sentidos que os grupossociais atribuem a ele. A EA é um discurso, assim como é ação, atitude, prática que de alguma forma tentamitigar e recuperar os estragos causados ao meio ambiente pela ação humana. É também,protagonista de uma discussão necessária e comprometida com a transformação da sociedade,conclamando para uma leitura crítica da realidade, apresentando à ética como principal coadjuvante. Reconhecemos que estamos imersos numa era de imprevisibilidades, em meio a umatransição muito turbulenta, e precisamos estar preparados para o que vai ocorrer nos próximos anos.Reconhecemos que estamos diante de um sistema cada vez mais limitado para responder os anseiosdas sociedades, e que vivenciamos as diversas crises humanas – ambientais, sociais, econômicas... -que são meros sintomas de uma crise ambiental mais profunda, cujas raízes se encontram na perda eaquisição de novos valores humanos e na carência de ética. (DIAS, 2004, p.94). A globalização das questões ambientais vem despertando uma preocupação semprecedentes em relação à degradação causada pelo desenvolvimento tecnológico/industrial. Apropagação da idéia que Desenvolvimento e Meio Ambiente constituem um binômio que deve tervalores e prioridades equivalentes promoveu o entendimento que é essencial desenvolvereconomicamente, mas é vital que os recursos naturais sejam poupados para que não faltem. Estavisão apresenta fortes contradições. Mesmo dentro das limitações da EA, assim como da Educação, é possível afirmar que aEducação permanente transforma a realidade. Não existe quem sabe tudo, tão pouco quem não sabenada, o homem assim como os outros animais é um ser inacabado e se diferencia pelo fato de terconsciência disso, essa consciência ao ser desenvolvida pode transformar tornando-se crítica, e apartir daí suscitar mudanças. Considerações Finais No novo cenário mundial de crises é necessária uma visão humanista da escola e do mundoe uma visão crítica da realidade socioespacial. Nesse sentido, tentamos analisar a criseambiental/capital ou vice-versa, pelo prisma da EA, convocando a mesma para uma elucidação dosproblemas ambientais/econômicos vigentes. Nosso intuito foi beneficiar os estudos dessa área doconhecimento e fortalecer o debate sobre as questões ambientais na Universidade a qual o projetoque deu origem a esse artigo está vinculado. Enfatizamos que as colocações feitas aqui sãotangíveis de discussão e aprofundamento teórico e se pautam numa pergunta essencial: tem comoser sustentável dentro dos marcos que regem a sociedade atual? Iniciamos citando Enrrique Leff que fez grandes contribuições ao diferenciarRacionalidade, Epistemologia e Saber Ambiental e ao afirmar que a crise ambiental é também uma
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 63crise de conhecimento. Na seqüência, falamos sobre as novas tendências e abordagens que buscammudanças da concepção linear da sociedade para uma concepção holística. Nesse momento dadiscussão tentamos deixar claro nosso real objetivo ao pesquisarmos Educação Ambiental, ou seja,conhecer para propor mudanças de atitudes e valores. Ao falarmos da Educação Ambiental nocontexto da crise, fizemos um recorte no tempo, para melhor entendê-la, e assim, clarificar suanecessidade e justificar o título do artigo que diz: CRISE DO CAPITAL OU CRISE AMBIENTAL:uma discussão à luz da Educação Ambiental. Referências CAPRA, fritjot, O Ponto de Mutação. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix,1982. CARVALHO, Isabel C. de Moura. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico.3. ed. São Paulo: Cortez, 2008. _________, A Invenção Ecológica – Narrativas e Trajetórias da Educação Ambiental noBrasil. 3. ed. Porto alegre: UFRGS, 2008. DIAS, Genebaldo Freire. Ecopercepção: um resumo didático dos desafios socioambientais.São Paulo: Gaia, 2004. ____. Educação Ambiental – princípios e práticas. 9.ed. São Paulo: Gaia, 2004. GONÇALVES, Carlos W. Porto. Os (des)caminhos do meio ambiente. São Paulo:Contexto, 2005. __________. A Globalização da Natureza e a Natureza da Globalização. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 2006. __________. O Desafio Ambiental. Rio de Janeiro: Record, 2004. GUIMARÃES, Mauro. A Dimensão Ambiental na Educação. 6. ed. SP: Papirus. 2005. __________. A Formação de Educadores Ambientais. 3. ed. SP: Papirus, 2007.. LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade a fora.São Paulo: UNESP, 2000. _______. Jamais Fomos Modernos. Tradução de Carlos Irineu da Costa. 2. ed. Rio deJaneiro: Ed 34, 2000. LEFF, Enrrique. Saber Ambiental. Tradução: Lúcia Mathilde Endlich Orth. 6. ed. Rio deJaneiro: Vozes, 2008. ____. Ecologia, Capital e Cultura – racionalidade ambiental, democracia participativa edesenvolvimento sustentável. Tradução de Jorge Esteves da Silva. Blumenau: edifurb, 2000. ____. Epistemologia Ambiental. Tradução de Sandra Valenzuela. 4. ed. São Paulo:Cortez, 2007 MORIN, Edgar. Ciência e Consciência. São Paulo: Bertrand Brasil, 1996. ____. Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro. Tradução de Catarina EleonoraF. da Silva Jeanne Sawaya. 5. ed. UNESCO, Cortez, 2000. ____. A cabeça bem-feita – repensar a reforma reformar o pensamento. Rio de Janeiro:Bertrand Brasil, 2004. SATO, M. e SANTOS, J. E. A Contribuição da EA à Esperança de Pandora. 2. ed. SãoCarlos: Rima, 2003. SATO, Michèle; SANTOS, José Eduardo. Tendências nas pesquisas em educaçãoambiental. In NOAL, F.; BARCELOS, V. (Org) Educação ambiental e cidadania: cenáriosbrasileiros. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 64 CONTRIBUIÇÃO DA PREFEITURA DE OLINDA NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DE UM MUNICÍPIO SUSTENTÁVEL Maria de Fátima Faro Cleide Amorim Sônia Brandão Maria Helena Peixoto Luiza Maria Barros Grupo da Sala Verde / Diretoria de Meio Ambiente da Prefeitura de Olinda-PE O Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso, CEA, situado na Secretaria deOrçamento Participativo e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de Olinda, é um local deReedição de Práticas Ambientais, onde a comunidade olindense tem oportunidade de sersensibilizada em relação à problemática ambiental, através da exposição de temas ambientais,debates, pesquisas e vivência de demonstrações de práticas ambientais. O CEA dispõe de uma SalaVerde, Sala de Capacitação, Oficina de Papel, Oficina de Ecoartes e Pátio para Atividades deCompostagem. Este espaço vem funcionando desde a sua inauguração em junho de 2006. SALA VERDE Sala Verde é um projeto do Ministério do Meio Ambiente que consiste em uma bibliotecainterativa sobre questões ambientais, onde os interessados encontrarão um acervo significativorelacionado ao meio ambiente. Este acervo está disponível para leitura, pesquisa e consulta na forma de livros, cartilhas,periódicos, folders, CDs, DVDs, fitas de vídeo. Podendo ser utilizado por professores, estudantes ea comunidade em geral. O objetivo do espaço é democratizar o acesso da população às informações, materiais epublicações ambientais, oferecendo atividades diversas como: capacitações, palestras, oficinas,vivências, campanhas, entre outras experiências, viabilizando uma participação ativa do processo deconservação da cidade. Sendo a cidade de Olinda Monumento Nacional e Patrimônio Cultural da Humanidade,com rico acervo arquitetônico, urbanístico e cultural, a Sala Verde vem enriquecer na formação dereeditores ambientais, visando melhorar a qualidade de vida e consequentemente a cidadaniaambiental. A Sala Verde funciona de segunda à sexta-feira no horário das 08 às 12 horas. comvisitas pré-agendadas. OFICINA DE PAPEL RECICLADO Na década de 80 foram introduzidas tecnologias alternativas em Olinda pelo governomunicipal como solo cimento, compostagem do lixo, sistema condominial de esgotamento sanitárioe a reciclagem de papel. O Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso-CEA continua com a prática dareciclagem do papel para demonstração didática, através da Oficina de Papel, proporcionando àcomunidade a vivência do passo a passo do reaproveitamento do papel já utilizado. A oficina depapel funciona de segunda à sexta no horário das 08 às 12 horas. com visitas pré-agendadas. EXPERIÊNCIA DE COMPOSTAGEM EM OLINDA A prática da compostagem em Olinda, iniciada desde a década de 80, tendo sido referênciano tratamento alternativo de resíduos sólidos orgânicos, prática ecologicamente correta. A compostagem é realizada em pequena escala, no CEA, para demonstração didática, apartir da Coleta Alternativa de uma pequena área de difícil acesso no entorno da Secretaria. Consta de um processo biológico no qual o lixo orgânico é transformado em composto ricoem nutrientes, o húmus, o qual é utilizado nos jardins das praças olindenses.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 65 Tal prática é mais um estímulo à reciclagem do Lixo vivenciado pela comunidade. Oficina de Ecoartes Nesta oficina, as arte educadoras do CEA desenvolvem produtos elaborados a partir dareciclagem de papel, garrafas plásticas e outros materiais recicláveis, junto a comunidade. Existeum atendimento a grupo da 3ª idade todas as segundas pela manhã. E atendimentos eventuais apartir da demanda por esta atividade. Capacitações Á cada mês são desenvolvidos pelo menos dois temas do Calendário Ecológico, sendoapresentado e discutido com o público presente. Podendo também ser apresentados outros temasambientais, dependendo do interesse do público alvo como Erosão Marinha, Hortas e outros. A cada visita inicial de um grupo é realizado um tour pelo CEA, onde são recepcionadoscom conceitos de Meio Ambiente e Cidadania, depois acompanham o passo a passo daCompostagem, recebem informações sobre os cuidados e responsabilidades sobre a questão do Lixoe, aprendem e praticam o passo a passo da Reciclagem do Papel. Sendo Olinda uma cidade litorânea, enfatizamos a preocupação com o lixo nas praias esuas consequencias na Biota Marinha. Por fim é apresentada a Sala Verde, colocando a disposição dos interessados todo o nossoacervo. Em ocasiões especiais a capacitação é apresentada de forma lúdica através do Teatro deFantoches. Outro Projeto do CEA: Coletivos Educadores Outra atividade do Centro de Educação Ambiental Espaço Bonsucesso é a integração aoprograma do Ministério do Meio Ambiente Coletivos Educadores para Municípios Sustentáveis,focando o fortalecimento da Educação Ambiental no nosso território e a melhoria da nossarealidade socioambiental. O Coletivo Educador é constituído pela articulação de instituições que trabalham comformação em Educação Ambiental, Educação Popular, Ambientalismo e Mobilização Social,estabelecendo parcerias para implementar uma proposta integrada de Educação Ambiental na baseterritorial, a partir de uma reflexão crítica acerca da problemática socioambiental local. Por meiodesse processo de formação, o Coletivo forma educadores ambientais populares que tem comocompromisso promover intervenções no território voltadas para a sustentabilidade socioambiental,sendo apoiados pelo Coletivo de forma contínua e permanente. MATA DO PASSARINHO A Mata do Passarinho, resquício de Mata Atlântica em Olinda, definida como ReservaEcológica pela Lei Estadual nº 9.989/87, Área de Proteção Especial pela Lei Orgânica do Municípioe Zona de Preservação Ambiental Especial pelo Plano Diretor, foi desapropriada pela Prefeitura deOlinda em 1998, passando a ter um Núcleo de Educação Ambiental. É um espaço onde as pessoas vivenciam, através das trilhas de caráter educacional, adinâmica e a biodiversidade da mata, reconhecendo o seu papel na Natureza. Desde a inauguração do Núcleo de Educação Ambiental em 2002, foi visitado porinúmeras escolas das redes municipal, estadual e particular, grupos da 3ª Idade, e público em geral. Este espaço, aberto ao público pode ser visitado no horário da manhã de segunda à sexta,após agendamento na Diretoria de Planejamento Ambiental da Secretaria de OrçamentoParticipativo e desenvolvimento Urbano.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 66 ROTINAS DO CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - CEA 1. Recepção dos visitantes 2. Demonstração do Processo de Compostagem 3. Capacitação sobre Lixo
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 67 4. Oficina de Papel Reciclado 5. Capacitação Calendário Ecológico e Sala Verde 6. Capacitação com a 3ª Idade
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 68 REFERÊNCIA BIBLIOGFAFICA DELORS, Jacques e outros (1996) Educação: um tesouro a descobrir. Relatório daComissão Internacional sobre a Educação para o século XXI Paris: UNESCO/ Rio Tinto: ASA,1996. Encontros e caminhos: formação de educadoras (es) ambientais e coletivos educadores /Luiz Antonio Ferraro Junior, organizador. – Brasília: MMA, Diretoria de Educação Ambiental,2005. FAZENDA, I.C.A. (Org). Práticas interdisciplinares na escola. 2.ed. São Paulo: Cortez,2004. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 20 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. GUTIÉRREZ, F.; PRADO, C. Ecopedagogia e cidadania planetária. São Paulo: Cortez,1999. Programa Nacional de Educação Ambiental – PRONEA. Documento em Consulta Nacional.Brasília: DEA / MMA, COEA / MEC, 2003. TORO, J. B.; WERNECK, N. M. D. Mobilização Social: um modo de construir ademocracia e participação. Brasília: SRH/ MMA, ABEAS, UNICEF, 1997.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 69 DEGRADAÇÃO AMBIENTAL DA ZONA COSTEIRA DE SÃO LUIS – MA: UM ESTUDO DE CASO DA PRAIA DO ARAÇAGY Lorena Santos GONÇALVES lorenaangitur@hotmail.com Janaíne Lira VIEIRA biologajana@hotmail.com Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA thais.eline@gmail.com Hadryan Lima RODRIGUES hadryan11@yahoo.com.br Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / Curso de Especialização em Educação Ambiental - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil. RESUMO O presente trabalho objetiva fazer um estudo de caso na zona costeira do Maranhão,especificadamente na área da praia do Araçagy, para analisar as condições ambientais da área,caracterizando os impactos e/ou problemas ambientais gerados pelas desordenadas açõesantrópicas. Quanto à metodologia, utilizou-se, principalmente, a observação in locu, a partir dasvisitas periódicas realizadas no local, simultaneamente, foi feito um levantamento sobre taisimpactos e registro dos mesmos. A partir dos dados obtidos, sentiu-se a necessidade de realizarações de Educação Ambiental na área, voltadas para o desenvolvimento da consciência crítica dosbarraqueiros e banhistas freqüentadores da praia, orientando-os sobre a importância da tomada deatitudes ambientalmente corretas, no que diz respeito a conservação e preservação dos recursosnaturais, ainda existentes na área. PALAVRAS-CHAVES: zona costeira, educação ambiental, impactos ambientais. ABSTRACT The present paper aims at studying the shoreline of Brazilian Maranhao state, specificallyAraçagy beach, in Sao Luis, in order to analyze the environmental conditions in that area,characterizing the impacts and environmental problems generated by anthropic disorderly actions.Regarding methodology, one used, mainly, in locu observation, from periodical visits made to thelocation. Simultaneously, a study was made about the impacts and their records. From the obtaineddata, arised the need for Environmental Education actions in the area, aimed at the development ofcritical conscience of bar owners and attenders of the beach, giving them orientation about theimportance of environmentally correct attitudes, regarding conservation and preservation of thenatural resources which still exist in the area. KEYWORDS: shoreline zone, environmental education, environmental impacts. 1 INTRODUÇÃO Desde o surgimento da humanidade na superfície terrestre, a mais de um milhão deanos, o homem vem transformando a natureza. No principio, essas transformações causavaimpactos irrelevantes sobre o ambiente, exatamente pelo fato de haver um pequeno número depessoas vivendo no planeta. Assim, é possível verificar que o limite entre o homem submisso ànatureza e o grande agente modificador do espaço natural é marcado indiscutivelmente pelaRevolução Industrial. Nessa perspectiva, os principais impactos ambientais decorrentes dacapacidade humana de transformação da natureza, passaram a crescer em ritmo acelerado, nãosomente locais, como também em escala global. A ilha do Maranhão, situada no Golfão Maranhense, possui mais de 1000 km², sendocomposta pelos municípios de São José de Ribamar, Raposa, Paço do Lumiar e São Luís. Juntos,estes municípios perfazem uma população em torno de 1.211.270 habitantes (IBGE, 2008). Limita-
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 70se, ao norte, com o Oceano Atlântico; ao sul, com o Estreito dos Mosquitos; a leste, com a Baía deSão José, e a Oeste, com a Baía de São Marcos. No que se refere à zona costeira da capital maranhense, pode-se constatar que se tratade uma das áreas de maior atração populacional, que como conseqüência da concentração dasatividades humanas, vem se constituindo numa das áreas mais afetadas pelo processo de degradaçãoambiental, provocando sérios impactos e diminuindo a qualidade paisagística. Neste sentido, impacto ambiental caracteriza-se como: qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio ambiente, causada por qualquerforma de matéria ou energia resultante das atividades humanas, que direta ou indiretamente afetam: a saúde, asegurança, o bem-estar da população; as atividades sociais e econômicas; a biota; as condições estéticas e sanitárias domeio ambiente; a qualidade dos recursos naturais. (Resolução CONAMA n0001/86 apud (et.al), 200p.133). Entretanto, pode-se espreitar que os impactos ambientais decorrentes das açõesantrópicas na praia do Araçagy extendendo-se ao Porto do 400, área de estudo, prejudicam toda adinâmica do ambiente, podendo-se arrolar, como exemplo; a degradação da paisagem, devido aconstruções inadequadas, especialmente de edifícios que por suas dimensões, formas, cores ematérias-primas utilizadas, podem ser consideradas arquitetonicamente inadequadas ao local;aumento da utilização e da necessidade de abastecimento da água potável; contaminação da água domar, devido ao aumento de efluentes não tratados e contaminação por resíduos; degradação dafauna e da flora; aumento da geração de resíduos sólidos. Assim como também podemos citar como exemplo, o aumento do tráfego deveículos ocasionando conseqüentemente a redução da qualidade do ar; dos ruídos; os assoreamentosda encosta, com destruição de corais, recifes, mangues, restingas e dunas, onde se destacam osconstantes aterros para aumentar a área urbana; necessidade de implantação de obras de infra-estrutura causadoras de impactos ambientais tais como: estradas, sistemas de drenagem, aterros comgrande movimentação de terra, entre outros. As praias são ambientes costeiros que oferecem grande oportunidade para umaimersão inicial no estudo do meio marinho, possibilitando um melhor entendimento da zonação domar e das características do oceano consideradas de maior interesse ecológico. Os ambientes marinhos possuem maior diversidade animal do que os ambientesterrestres ou de água doce. Isso ocorre devido maior estabilidade de seus fatores ambientais duranteo tempo geológico (PEREIRA & SOARES-GOMES, 2002). A Zona Costeira abriga um mosaico de ecossistema de alta relevância ambiental. Asustentabilidade das atividades humanas na Zona Costeira depende de um meio marinho saudável evice-versa (VIDIGAL et al., 2006). A caracterização física da Zona Costeira Brasileira leva emconsideração aspectos como: localização geográfica, geomorfologia, clima e a produtividade(PEREIRA & SOARES-GOMES, 2002). 2 OBJETIVOS 2.1 Objetivo Geral Identificar o estado atual das condições naturais da Praia do Araçagy, fazendo umlevantamento sobre as características apresentadas, bem como analisar os diferentes graus deimpactos ambientais ocorridos na área da zona costeira decorrentes das ações antrópicas. 2.2 Objetivos Específicos Levantar dados no que tange os impactos ambientais ao longo do litoral; Estabelecer relações entre os diversos tipos de degradação ambiental; Observar e registrar a paisagem natural da área; Caracterizar a zonação e fatores abióticos da praia; Divulgar os dados obtidos através de artigo cientifico.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 71 3 MATERIAL E MÉTODOS Para a percepção do ambiente natural da praia realizou-se uma caminhada ao longoda linha e poças de maré e pedras, com o objetivo de averiguar inicialmente o modo de vida aliexistente. Foi feito in loco: a medição dos parâmetros de temperatura e salinidade, acaracterização da zonação e a observação dos fatores abióticos, registrado através de GPS, refrator etermômetro em alguns pontos estratégicos do local, bem como a identificação das zonas intertidais,supratidais e subtidais da região. Após a coleta dos dados supracitados, realizou-se uma entrevista (informal) comalguns visitantes abordando principalmente as questões das potencialidades e/ou problemas dapraia. Na ocasião da entrevista, aproveitou-se da oportunidade para conversar informalmente umpouco sobre Educação Ambiental com os banhistas freqüentadores da orla marítima com a intençãode fazer um trabalho de conscientização ambiental com os mesmos. Todas as observações feitas foram registradas com fotografias e anotações para umaposterior análise e compreensão acerca da temática abordada. Pensou-se ainda na possibilidade decoletar esses dados e resultados obtidos para publicar em forma de artigo científico como um dosobjetivos do trabalho. 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES O Brasil é um país com uma vasta zona costeira, tendo o nordeste vantagem sobreoutras regiões pelo seu clima e pela geomorfologia. No Estado do Maranhão, que tem o segundomaior litoral no país, com 640 km, encontramos uma diversidade de paisagens que variam deplanaltos, tabuleiros, planícies, planície de maré areno-lamosa, planície flúviomarinha, cordõesarenosos, falésias, florestas, capoeira, campos, vegetação de dunas ou restingas, mangues, apicuns eentre outros. 4.1 ÁREA DE ESTUDO 4.1.1 PRAIA DO ARAÇAGY A Praia do Araçagy localiza-se nas coordenadas S 02º 27’911’’ e W 044º20’03’’localizada na cidade de São José de Ribamar/MA, fica no litoral da ilha do Maranhão, tambémconhecida como Ilha de Upaon-Açu. Toda a praia possui uma orla de dunas com vegetação rasteiratípica. Ao longo da visita realizada à praia, pôde-se conhecer as seguintes zonações:intertidal ou litoral (superfície do mar que sobe e desce com as ondas), supratidal (região localizadaacima da zona intertidal), e subtidal (é a região abaixo da zona intertidal). Numa oportunidade seguinte visitou-se também na praia do Araçagy o projeto “OrlaViva” que recebe entidades de todos os níveis de ensino e é aberta para visitação pública. Já possui5 anos de existência. De março 2007 a dezembro de 2008 recebeu em média 4.164 visitantes sendo80% estudantes. Para estudantes de instituição privada é cobrada uma taxa para manutenção doprojeto. Já passaram visitantes de 13 países, 23 estados brasileiros e 42 municípios. O referidoprojeto é uma importante iniciativa voltada para o estudo das espécies marinhas encontradas naárea, assim como também para despertar uma consciência ecológica ligada à preservação econservação da biodiversidade da zona costeira maranhense. 4.1.2 PORTO DO 400 O Porto do 400 que é uma área limite de mangue e praia, localiza-se nas coordenadasS 02º27’15’’ e W 44º09’33’’. Os manguezais são ecossistemas costeiros, estuarinos, sujeitos a inundaçõesperiódicas pelas marés e por águas doces. São sistemas abertos no tocante a entrada e saída dematéria e energia. Geralmente, ocorre nos manguezais entrada de sedimentos, água doce enutrientes e saída de água e matéria orgânica para os estuários (Araujo & Maciel, 1979; Cintrón,Lugo & Martinez, 1980).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 72 No Porto do 400 pode-se observar a presença de caranguejos do gênero Uca rapaxque é um componente bastante presente na macrofauna bentônica dos manguezais da Ilha doMaranhão. Apesar de não possuir valor econômico esse táxon destaca-se, juntamente com as outrasespécies do gênero, por contribuírem grandemente na retenção de nutrientes e energia pelo consumoda maioria do folhiço, aumentando a degradação das folhas, remineralizando os nutrientes epromovendo a oxigenação pela atividade de alimentação e escavação de tocas, as quais parecemestimular a produção de árvores dos manguezais (Schaeffer-Novelli, 1989). Constituem as florestas de mangue: Mangue vermelho (Rhizophora), MangueBranco (Laguncularia) e o Mangue de Seriúba (Avicennia). Vivem na zona das marés,apresentando uma série de adaptações: raízes respiratórias, capacidade de ultrafiltragem da águasalobra e desenvolvimento das plântulas na planta materna, para serem posteriormente dispersaspela água do mar. A flora do manguezal pode ser acrescida de poucas espécies como a samabaia domangue, a gramínea spartina e o hibisco. Todo esse cenário tem passado por inúmeras modificações que são verdadeirosreflexos das ações antrópicas desordenadas, que visa defender seus interesses particulares. Vale ressaltar que existe uma série de fatores que agravam ainda mais a evolução doprocesso erosivo, como a devastação da cobertura vegetal como efeito da especulação imobiliária eo próprio crescimento populacional, que acaba impulsionando a ocupação desordenada de áreas deecossistema frágil como manguezais, dunas e margens de rios. As zonas costeiras estão em umafase de supervalorização e em São Luís isso não é diferente, visto que o processo de urbanizaçãotem crescido consideravelmente nessas áreas. 4.2 PRINCIPAIS PROBLEMAS DETECTADOS *MAU USO E OCUPAÇÃO DA ZONA COSTEIRA Uma ocupação espacial de sistemas ambientais inadequada, com ações desenfreadasque coduz a um anexo de agressões ao meio ambiente, que se manifesta por meio de verdadeirosdesastres que afetam o equilibrio ecológico, podendo até se tornar um caso irreversível. Figura 1: Ocupação da zona costeira *DESTRUIÇÃO DA MATA CILIAR Na área de estudo, encontram-se conjuntos faunisticos representados pelo mangue eflorestas secundarias, já bastante reduzidos devido a expanção urbana da cidade de São Luis.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 73 Figura 2: Destruição da mata ciliar *CONSTRUÇÃO DE EDIFICAÇÕES E EROSÃO PROVENIENTE DASCONSTRUÇÕES Com a grande concentração populacional, a apropriação desenfreada e desorganizadae contruções inadequadas de edificios, geram alterações no ambiente. Devido ao mau planejamento, as dunas invadiram contruções feitas para o lazer. Figura 3: Edificações e erosão proveniente de construções *ACUMULO DE RESÍDUOS Neste aspecto, observou-se que as grandes quantidades de resíduos acumulados naárea são provenientes das atividades comerciais realizadas pelos barraqueiros da praia, onde osmesmos até tentam organizar os resíduos produzidos, mas dependem diretamente do serviçopúblico de coleta de lixo, que passam no local em dias alternados, sendo insuficiente para a grandequantidade de resíduos produzidos. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os problemas ambientais decorrentes das ações antrópicas associadas a um mauplanejamento do uso e ocupação do solo da zona costeira do Maranhão desencadearam uma série deobstáculos ao desenvolvimento sustentável e à manutenção e/ou preservação dos recursos hídricosdos quais se destaca a área de estudo. As alterações causadas pela intervenção do homem resultaram na quebra doequilíbrio natural, acarretando não só o empobrecimento do solo como conseqüência do modo deexploração, mas provocou também o surgimento de outros elementos prejudiciais ao homem e aomeio ambiente. Dessa forma, as principais transformações ocorridas resultaram numa paisagem
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 74pontuada de formas residuais que encenam caracteres de antigos ambientes, esses testemunhosencontram-se ao longo do litoral. O ambiente é o maior patrimônio que a humanidade possui; quanto maior for suaqualidade, maiores serão os benefícios. Assim sendo, o que se pretende com esse trabalho écaracterizar os impactos ao longo da Praia do Araçagy, e criar ações que possam minimizá-los, paraque assim se tenha um meio ambiente, equilibrado e sadio. Partindo desta premissa, foi discutido e analisado os aspectos apontados ao longo dasvisitas in locu e pensou-se em tomar algumas medidas que pudessem pelo menos minimizar osimpactos já mencionados, em caráter emergencial, tais como: Realização de mutirões de limpeza ao longo da orla por educadores ambientaisdevidamente identificados para chamar a atenção dos banhistas. Na ocasião, orientar as pessoas daimportância em tomar certas atitudes voltadas para a preservação e conservação das característicasnaturais da zona costeira, através de conversas informais e entregas de panfletos educativos. Posteriormente consolidar o trabalho com a elaboração de projetos em EducaçãoAmbiental Marinha para serem desenvolvidos com os barraqueiros e banhistas freqüentadores dapraia. Assim como também, implantar uma sede de estudos e ações em Educação AmbientalMarinha na zona costeira de São Luís-MA, para o desenvolvimento de ações e produçõesacadêmicas de Educação Ambiental realizadas nas praias de São Luís-MA. REFERÊNCIAS ARAÚJO, D. S. D. & MACIEL, N.C. Os manguezais do recôncavo da Baia deGuanabara. Cadernos FEEMA, ser. téc., 10/79: 1-115. 1979. BANCO DO NORDESTE. Manual de impactos ambientais. Fortaleza: Banco do nordeste,1999. CINTRÓN, G; LUGO, A. E. & MARTINEZ, R. Structural and functional propeties ofmangrove forests. Symp. Signaling the Completion of the flora of Panama, p. 53-66. 1980. ODUM, E. P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. PEREIRA, R. C.; SOARES-GOMES, A. (Orgs). Biologia marinha. Rio de Janeiro:Interciência, 2002. SCHAEFFER-NOVELLI, Y. Perfil dos ecossistemas litorâneos brasileiros com especialênfase sobre o ecossistema manguezal. S. Paulo: Publicação esp. Inst. oceanogr., 1989. SILVA, Pedro Paulo de Lima [et. al.]. Dicionário brasileiro de ciências ambientais. Rio deJaneiro: Thex editora, 2005. T. S. Oliveira e [et. al.]. Alometria no crescimento de uca rapax (crustacea, decapoda,ocypodidae) na ilha de são luís, maranhão. Caxambu – MG: Anais do VII Congresso de Ecologiado Brasil, Setembro de 2007. VIDIGAL, A. A. F. [et. al.] Amazônia azul: o mar que nos pertence. Rio de Janeiro: Record, 2006.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 75 EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO INSTRUMENTO DE SUSTENTABILIDADE NA ERA DO CONSUMO GLOBAL Bruno Soares de ABREU Economista - Doutorando em Recursos Naturais - CTRN/UFCG abreu.ufcg@gmail.com Vera Antunes de LIMA Prof. da Unidade Acadêmica de Eng. Agrícola - CTRN/UFCG antuneslima@gmail.com Silvana FERNANDES NETO Geógrafa – Doutoranda em Recursos Naturais - CTRN/UFCG silfeneto@gmail.com Geraldo Moura BARACHUY NETO Administrador, Doutorando em Recursos Naturais - CTRN/UFCG baracuhy@gmail.com RESUMO As ações antrópicas em favor do consumo global têm aumentado gradativamente adegradação ambiental em todo planeta, fazendo com que, os problemas ambientais se tornem cadavez mais preocupantes. Notoriamente, a revolução industrial, o avanço tecnológico e o consumodesenfreado pela população, favoreceram o desencadear de uma crise ambiental, outrora não tãoevidenciada. Assim sendo, a busca incessante por medidas que minimizassem tal situação passou aser foco principal mediante encontros, relatórios e convenções. A disseminação de informações decaráter educativo sobre a necessidade de proteger e melhorar o meio ambiente, possibilitando odesenvolvimento do homem de forma sustentável, em todos os sentidos, foi se tornando essencialprincipalmente na era do consumo global. Nesse contexto, a educação ambiental versa para umasustentabilidade equitativa e duradoura, sendo um processo de aprendizagem contínuo epermanente, baseado no respeito a todas as formas de vida. Tal educação apresenta enfoquehumanístico e participativo, afirmando valores e ações que contribuem para a preservação ecológicae transformação de sociedades socialmente justas. Incorporar a educação ambiental vai além dasmudanças de comportamento, paradigmas conceituais e metodológicos; busca a responsabilidadeindividual e coletiva e a relação de interdependência e diversidade. PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Consumo. Sustentabilidade. Meio ambiente edesenvolvimento. ABSTRACT The human actions encouraged by a global consumption have increased graduallythroughout the world environmental degradation, causing environmental problems becomeincreasingly worrying. Notably, the industrial revolution, technological advances and unbridledconsumption by the population, favored the onset of an environmental crisis, once not so evident.Thus, the incessant search for measures that might minimize this situation came to be the mainfocus through meetings, reports and conventions. The dissemination of information of aneducational nature on the need to protect and improve the environment, enabling the developmentof mankind in a sustainable way, in every sense, was becoming essential, particularly in the era ofglobal consumption. In this context, environmental education versa for a fair and lastingsustainability, being a continuous learning process and ongoing, based on respect for all life forms.Such education has humanistic and participatory approach, affirming values and actions thatcontribute to ecological preservation and processing of socially just societies. Incorporateenvironmental education goes beyond the behavior changes, conceptual and methodologicalparadigms; search the individual and collective responsibility and the relationship ofinterdependence and diversity. KEYWORDS: Environmental education. Consumption. Sustainability. Environment anddevelopment.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 76 INTRODUÇÃO A realidade socioeconômica e ambiental, não apenas em escala nacional, mas também emnível global, tende a ficar cada vez mais obscura quando nos dispomos a investigar de forma umtanto quanto minuciosa e detalhada, como o atual modelo de desenvolvimento socioeconômico dosistema capitalista vem causando danos muitas vezes irreparáveis à humanidade como um todo emprol de seu desenvolvimento e consumo desenfreados. Cada vez mais nos deparamos com as crescentes incertezas e instabilidades que pairam namente das pessoas no que dizem respeito aos caminhos que devem ser implantados para que sepossa alcançar a plenitude de um desenvolvimento econômico e social mundial de forma igualitário,equitativo, inclusivo e duradouro. Mesmo com a busca constante de um desenvolvimento equitativo e igualitário propostopelos princípios da sustentabilidade, observamos que o tão glorioso desenvolvimento social,econômico e ambiental, articulado e imposto pelos grandes capitalistas vem nos provando ocontrário. Estes, sempre trazem em seus braços uma série de impactos e modificações geralmentenegativas nas quais, hoje a sociedade já começa a despertar e a questionar o seu tão impiedosomodo de agir. Atualmente, os impactos sociais, econômicos e ambientais vêm aumentando de formaexponencial, provocando a destruição dos ecossistemas e causando alterações do meio ambiente apartir das atividades humanas que afetam a saúde, a segurança, o bem estar da população, asatividades socioeconômicas, as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente como um todo. Diante desse contexto, este trabalho tem por intuito, a realização de uma retrospectivahistórica acerca dos mecanismos que possibilitaram a observação gradativa dos problemas sociais,econômicos e ambientais decorrentes da extração de recursos naturais para o consumo, bem comoa introdução de uma educação ambiental que versa para uma sustentabilidade equitativa eduradoura, atraves de um processo de aprendizagem contínuo e permanente, baseado no respeito atodas as formas de vida onde tal educação apresenta um enfoque humanístico e participativo, eafirma valores e ações que contribuem para a preservação ecológica e transformação de sociedadessocialmente justas. Revisão teórica Atualmente, em todas as áreas do conhecimento, a questão ambiental e seus desafios vêmsendo bastante refletidos por se tratar de uma preocupação mundial. Historicamente, a formairracional adotada na busca do desenvolvimento e consumo sócio-econômico vem causando danosalarmantes não só ao meio ambiente, mas também a humanidade como um todo. Os avanços científicos e tecnológicos, a globalização da sociedade, a mudança dosprocessos de produção e suas conseqüências na educação, trazem a tona novas exigências àconscientização das pessoas objetivando reverter o atual quadro em que se encontra a questãoambiental. Observou-se na segunda metade do século XVII, na Europa, o surgimento dos primeirosmovimentos que se preocupavam com questões relacionadas à preservação de áreas naturais, comoreação à degradação do meio ambiente promovida pela revolução industrial. E, a partir do séculoXIX, foram criados os primeiros parques nacionais nos EUA, Austrália e Nova Zelândia, comoexigência da sociedade local. No século XX, mais precisamente na década de 60, começaram a surgir as primeirasarticulações de movimentos ambientalistas preocupados com questões referentes à preservaçãoambiental, cujas informações sobre as ameaças que o planeta estava sofrendo, difundia-serapidamente entre as sociedades fazendo com que estas começassem a adquirir a noção deequilíbrio ecológico e a consciência sobre a necessidade de preservar os recursos naturais e osecossistemas. Nos anos 70, o termo “ambiente” passou a constituir a agenda mundial no bojo da criseeconômica na maioria das nações do planeta, quer sejam estas desenvolvidas ou não. Nessecontexto, observou-se um novo componente na crise e que este tinha relação direta com a redução
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 77do índice de qualidade de vida de uma grande parte da população mundial: a poluição, a degradaçãoambiental, que juntamente com a possibilidade de saturação dos recursos naturais interferia nopresente e no futuro da humanidade. A degradação ambiental se manifesta como sintoma de uma crise de civilização marcada pelomodelo de modernidade regido pelo predomínio do desenvolvimento da razão tecnológica sobre aorganização da natureza. A questão ambiental problematiza as próprias bases da produção; aponta para adesconstrução do paradigma econômico da modernidade e para a construção de futuros possíveis, fundadosnos limites das leis da natureza, nos potenciais ecológicos, na produção de sentidos sociais e na criatividadehumana (LEFF, 2001). A partir de então, o tema passou a aparecer em diversos estudos, relatórios e programasinternacionais dedicados ao meio ambiente, embora de formas e com ênfases distintas, onde namaioria das vezes vieram deturpar a visão da sociedade para as reais necessidades de preservaçãodo meio ambiente com intuito de minimizar o processo de degradação ambiental com a qual nosdeparamos na atualidade. Segundo Leff (2001), a degradação ambiental, o risco de colapso ecológico e o avanço dadesigualdade e da pobreza são sinais eloqüentes da crise do mundo globalizado. A sustentabilidadeé o “significante” de uma falha fundamental na história da humanidade; crise de civilização quealcança seu momento culminante na modernidade, mas cujas origens remetem a concepção domundo que serve de base à civilização ocidental. A sustentabilidade é o tema do nosso tempo, dofinal do século XX e da passagem para o terceiro milênio; da transição da modernidade truncada einacabada para uma pós-modernidade incerta, marcada pela diferença, pela diversidade, pelademocracia e pela autonomia. Mediante tais constatações surge o conceito de desenvolvimento sustentável que,segundo Barbosa (2007), é aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer acapacidade das futuras gerações de prover as suas próprias necessidades. Nesse sentido, o desenvolvimento sustentável implica necessariamente em uma açãointerligada e interdependente com as variáveis econômicas, sociais e ambientais de maneira estávele equilibrada, pois, até então, a produção material, a reprodução e a conservação dos recursosnaturais não são corrigidas pela economia de mercado. Busca-se uma nova forma de racionalidadedo sistema capitalista frente às contradições do mundo moderno. A noção de desenvolvimento sustentável tem como uma de suas premissas fundamentais oreconhecimento da “insustentabilidade” ou inadequação econômica, social e ambiental do padrão dedesenvolvimento das sociedades contemporâneas. Esta noção surge da compreensão da finitude dos recursosnaturais e das injustiças sociais provocadas pelo modelo de desenvolvimento vigente na maioria dos países(BECKER, 1999). De acordo com Leff (2001), o princípio de sustentabilidade surge no contexto daglobalização como marca de um limite e o sinal que reorienta o processo de civilização dahumanidade. A crise ambiental veio questionar a racionalidade e os paradigmas teóricos queimpulsionaram e legitimaram o crescimento econômico, negando a natureza. Ultimamente, surge demaneira crescente, à adesão a essa idéia mesmo que de forma genérica e pouco precisa. Nos anos 80, após a publicação em vários idiomas do “Relatório de Brundtland”, a noçãode desenvolvimento sustentável apresentada vem se tornando bastante usual em múltiplos espaçossociais nos dias atuais. Notoriamente, a implementação do desenvolvimento sustentável percorre um processo dediscussão e comprometimento da sociedade como um todo, uma vez que implica em mudanças nomodo de agir dos agentes sociais. Vale salientar que, foi a partir da publicação do Relatório de Brundtland que se tornoupossível se problematizar algumas concepções e idéias do desenvolvimento sustentável, onde aessência do que foi apresentado em tal documento vem recair sobre uma ótica mais crítica da
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 78exploração que ocorre com os recursos naturais, da orientação dos investimentos e dascompatibilidades entre preservação e desenvolvimento. O mesmo também reafirma o fossoprofundo entre países centrais e países subdesenvolvidos (GIANSANTI, 1998). Dessa maneira, fica evidente que a garantia de sustentabilidade do patrimônio naturalintegrada a um desenvolvimento econômico e social, necessita da elaboração e aquisição de váriosoutros conceitos que possibilitem garantir um desenvolvimento justo, equitativo e duradouro. De acordo com Giansanti (1998), o Relatório de Brundtland, referencia ao atendimento das“necessidades essenciais dos pobres no mundo”. Inegavelmente, tal meta possui grande mérito, mashá evidentes dificuldades em definir essas necessidades, diferenciando as coisas que realmentedevem ser produzidas das coisas supérfluas. Consoante, Leff (2001) evidencia que o discurso da sustentabilidade leva, portanto, a lutarpor um crescimento sustentado, sem uma justificação rigorosa da capacidade do sistema econômicode internalizar as condições ecológicas deste processo. A Organização das Nações Unidas (ONU), que é constituída por quase todos os países doplaneta, vem abordando a temática ambiental durante a realização de suas conferências. Dois desseseventos que se destacaram e focaram a tal questão no mundo foram a Conferência de Estocolmo(1972) e a Conferência do Rio (1992). Nessas conferências foram estabelecidos princípios que serviram de caminho para aresolução das questões abordadas, como também a concretização de compromissos assumidos emconvenções. Embora se saiba que existe um longo caminho a ser percorrido entre o que se tem emmente e o que se deseja pôr em prática, é de suma importância conhecermos e valorizarmos oesforço das Nações Unidas, pois este constitui-se em um grande passo para que as mudançasnecessárias ocorram. A questão ambiental tornou-se uma preocupação mundial a partir do que foi declarado emEstocolmo, passando a fazer parte do que era negociado internacionalmente. O primeiro passoconstituiu na criação de um mecanismo institucional para cuidar de questões ambientais no âmbitodas Nações Unidas. No ano de 1972, surge o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente(PNUMA). Segundo Giansanti (1998), nos anos 70, a preocupação básica da Conferência deEstocolmo, era conter as várias formas de poluição, sendo que os debates foram marcados pelapolarização entre os defensores do chamado crescimento zero, que advogavam pela contenção dosíndices de crescimento econômico dos países pobres diante da ameaça de esgotamento dos recursosnaturais que o ritmo de exploração da natureza poderia causar e os desenvolvimentistas, que eramcompostos praticamente de representantes de países subdesenvolvidos que reivindicavam o direitoao desenvolvimento, mesmo trazendo impactos ambientais. Ainda em 1972, durante a Conferência de Estocolmo, não só o Brasil como os países emdesenvolvimento opunham-se à problemática ambiental alegando que proteção ao meio ambienteteria sido uma estratégia criada pelos países desenvolvidos para impor barreiras a industrializaçãoem andamento dos países subdesenvolvidos. Desta forma, o Brasil não reconhecia que as questõesambientais assumiam dimensões muito mais responsáveis e complexas. Em junho de 1992, as Nações Unidas convocaram outra conferência a ser realizada no Riode Janeiro, denominada Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento(CNUMAD), para discutir conclusões e propostas do Relatório que introduziu o conceito dedesenvolvimento sustentável e ainda comemorar os 20 anos da Conferência de Estocolmo. Na Conferência do Rio foram produzidos documentos fundamentais ao conceito dedesenvolvimento sustentável, entre os quais podemos citar a criação da Agenda 21, um amploprograma de ação com a finalidade de dar efeito prático aos princípios aprovados na declaração doRio. Em síntese, a Agenda 21 constitui um plano de ação estratégico, que possuiu a mais ousadae abrangente tentativa já feita de realizar, em escala planetária, um novo padrão dedesenvolvimento, conciliando métodos de proteção ambiental, justiça social e eficiência econômica.Assim, estabelecendo uma parceria entre governos e sociedades, ou seja, um programa estratégico,
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 79universal, para alcançarmos o desenvolvimento sustentável no século XXI. Com isso, a implantaçãoda Agenda 21 pode proporcionar um Meio Ambiente equilibrado para as futuras gerações (ABREU,2009). A construção e implementação de alguns processos da Agenda 21 tem o intuito desensibilizar a população através da educação ambiental, transformando e impulsionando as políticaspúblicas ambientais, levando-se em consideração as demandas populares pela equidade de umdesenvolvimento social, econômico e ambiental. O papel da educação na promoção do desenvolvimento sustentável é tratado maisespecificamente no Capítulo 36 da Agenda 21, que trata da promoção do ensino, da conscientizaçãoe do treinamento; propõe um esforço global para fortalecer atitudes, valores e ações que sejamambientalmente saudáveis e que subsidiem o desenvolvimento sustentável. Antes mesmo do surgimento da Agenda 21, segundo Sorrentino (1998), foi a partirda Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizada em Tsibilisi (EUA), noano de 1977, que se iniciou um amplo processo em nível global orientado que visava criar ascondições que para formar uma nova consciência sobre o valor da natureza e para reorientar aprodução de conhecimento baseada nos métodos da interdisciplinaridade e nos princípios dacomplexidade. Ainda segundo o autor, tal campo educativo tem sido fertilizado transversalmente, eisso vem possibilitando a realização de experiências concretas de educação ambiental de formacriativa e inovadora por diversos segmentos da população e em diversos níveis de formação. Na Cidade de Tessalônica, Grécia em 1997, foi realizada a Conferência Internacionalsobre Meio Ambiente e Sociedade, Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade, onde oseu documento chama a atenção para a necessidade de se articularem ações de educação ambientalbaseadas nos conceitos de ética e sustentabilidade, identidade cultural e diversidade, mobilização eparticipação e práticas interdisciplinares. Segundo Godard (1997), a interdisciplinaridade é com efeito, o tema ideal dediscursos enfáticos e abstratos, suscetíveis de inflamar as paixões e de alimentar longos debates,onde cada qual se considera suficientemente competente de emitir uma opinião tão definitivaquanto distante de um conhecimento prático comprovado. Ainda segundo o autor, quanto mais a aproximação interdisciplinar apontar nadireção da simbiose, tanto mais ela necessitará dispor de amplos horizontes temporais, consideradossuficientes para que o conhecimento mútuo e a confiança possam se estabelecer, e para que se possaconstruir uma crônica de fases alternadas do conhecimento disciplinar isolado e de fases de forteinteração e de realizações comuns. Assim, a educação ambiental pode ser indicada como um dos possíveis instrumentosinterdisciplinar capaz de capacitar e ao mesmo tempo sensibilizar a população em geral acerca dosproblemas ambientais nos quais se deparam a humanidade na atualidade. Através desta, torna-sepossível a elaboração de métodos e técnicas que facilitam a tomada de consciência das pessoas arespeito da gravidade e necessidade da implementação de providências urgentes no que diz respeitoaos problemas ambientais globais. De acordo com Minnini (1994), a Educação Ambiental enfatiza o desenvolvimentode valores e comportamentos diferentes na inter-relação homem e meio ambiente, defendendo anecessidade de um conhecimento integrado da realidade e procedimentos baseados na investigaçãodos problemas ambientais, utilizando estratégias interdisciplinares. Diante disto, a educação é um meio para que aconteça a transformação na sociedade.No entanto, essa mudança depende da práxis educativa do educador, que deve oferecer condiçõespara que o educando se torne independente, crítico, consciente, livre, responsável com o mundo,com a vida e consigo mesmo. Educar é construir, é libertar o ser humano das cadeias do determinismo social,reconhecendo no processo histórico um tempo de possibilidades inesgotáveis. Desta forma,podemos dizer que o processo educativo configura-se como um "ensinar a pensar de formaautônoma”. É um "que fazer dialogado, co-participado", integrado e por isso não pode de modo
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 80algum tornar-se produto de uma mente burocratizada e estagnada, ao contrário exige dos seusparticipantes uma reflexão crítica reflexiva da prática e do contexto histórico, político e cultural noqual encontra-se inserido (FREIRE, 1987). Sendo assim, a educação é um processo contínuo, devendo nunca se distanciar darealidade concreta do educando e do educador, buscando a coerência entre o dizer e o fazer, entre opensar e o agir, entre o sentir e o falar. Partimos da concepção de que, a educação ambiental também é um processocontínuo, interdisciplinar, direcionada a toda sociedade e, por isso mesmo, deve promover umavinculação estreita com as práticas sociais e políticas, com as nossas formas de intervir na realidade. A educação, assim como a educação ambiental, não se restringe apenas a uma meratransferência de conhecimentos, mas a um ato de compromisso, de conscientização e de testemunhode vida. Por conseguinte, a educação terá um papel determinante na criação da sensibilidadesocial necessária para reorientar a humanidadade (ASSMANN, 2001, p. 26). De acordo com Freire (1977 apud Philippi Jr., 2005), a educação como prática deliberdade não é a transferência ou a transmissão do saber nem da cultura; não é a extensão deconhecimentos técnicos; não é o ato de depositar informes ou fatos nos educandos; não é aperpetuação dos valores de uma cultura dada, nem o esforço de adaptação do educado a seu meio. A tarefa do educador, então, é problematizar aos educandos o conteúdo que osmediatiza, e não dissertar sobre ele. Dessa forma, ele (o educador) aprofunda-se e compromete-secom o processo, enquanto os educandos o captam, o analisam e o compreendem (PHILIPPI JR.,2005). Nesse contexto, o processo de conscientização e sensibilização acerca das questõessociais, econômicas e ambientais necessita do envolvimento e participação dos sujeitos, que pormeio das responsabilidades buscarão a ação e participarão na tomada de decisões para a solução dosproblemas ambientais. Desta maneira, a educação ambiental pode contribuir de forma significante naformação da cidadania crítica e responsável, capaz de participar de forma democrática das decisõespolíticas, econômicas do desenvolvimento das futuras gerações. Assim, precisamos tratar a educação ambiental a partir de sua vinculação direta coma ética e a cidadania, situando-a numa reflexão mais ampla, o que envolve uma visão sociológica euma visão política de mundo. Nessa perspectiva, é importante que a educação ambiental desperte nas pessoas osentimento de que somos co-responsáveis pela mudança de atitude, que não só promova apreservação da vida, mas uma nova mentalidade essencial para criar um novo tipo dedesenvolvimento - o desenvolvimento sustentável - onde as sociedades sustentáveis combatem odesperdício, levam em conta o processo coletivo, e o bem comum sem violar os direitos individuaisdas pessoas. Além disso, não basta apenas apontar problemas decorrentes de uma ação do homem emrelação ao meio ambiente, é imprescindível, entender o ambiente não somente como um meio parasatisfazer as necessidades humanas, mas como o meio ambiente do ser humano, que condiciona aprópria sobrevivência. Este ambiente tem sua própria dinâmica, suas regras e exigências e ahumanidade pode interagir com ele (PENTEADO, 1994). Segundo Philippi Jr. (2005), a educação ambiental deve, portanto, capacitar ao plenoexercício da cidadania, permitindo a formação de uma base conceitual suficientementediversificada, técnica e cultural, de modo a permitir que sejam superados os obstáculos à utilizaçãosustentável do meio. Ainda de acordo com o mesmo autor, educação ambiental não é ecologia; pressupõeconhecimentos disciplinares diversos, que permitam uma visão integral dos problemas e seuenfrentamento de forma interdisciplinar.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 81 Metodologia A metodologia utilizada para o desenvolvimento deste estudo partiu de uma abordagemcom natureza bibliográfica que, na visão de Gil (1991), é desenvolvida a partir de material jáelaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos. Na desenvoltura do mesmo foi realizada uma análise documental referente às literaturasem alguns autores que enfocam a questão da Educação Ambiental, consumo e sustentabilidade,assim como periódicos (revistas e jornais) que serviram para enriquecimento, ampliação everificação das questões levantadas. Após a coleta e revisão do material, foi feita uma análise dosdados escolhidos e dado início a escritura do mesmo. 4 Conclusão A educação ambiental é um tema sempre presente nas discussões de âmbito educacionalnas últimas décadas. Entretanto, é possível perceber que embora esta temática seja amplamentedebatida, estudada, percebemos a cada dia, em uma velocidade assustadora, a destruição do meioambiente em prol do desenvolvimento e consumo estipulado pela humanidade. Nesse sentido, é imprescindível apresentar caminhos metodológicos para a implementaçãode políticas de gestão do meio ambiente na escola e na sociedade, objetivando a formação deconsciências individuais e coletivas no sentido de alcançarmos a sustentabilidade ambiental. Diante do exposto, cabe-nos observar que o educador, o gestor, o pesquisador tem umpapel importante na formação de um sujeito crítico, participativo e criativo, com argumentação evisão dialética do contexto sócio-político-ambiental e do processo de desenvolvimento sustentável,pois, educar ambientalmente é um processo de educação política, é formar atitudes quepredisponham à ação. REFERÊNCIAS ABREU, Bruno Soares. Gestão e resíduos sólidos e seus aspectos sociais econômicos eambientais. Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Campina Grande, 2009. ASSMANN, H. Reencantar a educação rumo à sociedade aprendente. 5 ed. Petrópolis:Vozes, 2001. BARBOSA, Erivaldo Moreira. Introdução ao direito ambiental. Campina Grande:EDUFCG, 2007. BECKER, Dionizar Fermiano. Desenvolvimento Sustentável: Necessidade e/ouPossibilidade.2.ed. Santa Cruz do Sul:Edunisc, 1999. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 27 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. GIANSANTI, R. O desafio do desenvolvimento sustentável. São Paulo: Atlas, 1998. GODARD, O. A relação interdisciplinar: problemas e estratégias. In: VIEIRA, PauloFreire; WEBER, Jacques (Eds). Gestão de recursos naturais renováveis e desenvolvimento. Novosdesafios para a pesquisa ambiental. São Paulo: Cortez, 1997, pp. 321-360. LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder.Petrópolis: Vozes, 2001. 343p. MININNI, N.M. Elementos para a introdução da dimensão ambiental na educação escolar– 1º grau. Amazônia: uma proposta interdisciplinar de educação ambiental. Brasília, IBAMA, 1994. PENTEADO, H.D. Meio ambiente e formação de professores. São Paulo: Cortez, 1994. PHILIPPI JR., A. Saneamento, saúde e ambiente – fundamentos para um desenvolvimentosustentável. São Paulo: Manole, 2005. SORRENTINO, M. De Tbilisi a Tessaloniki, a educação ambiental no Brasil. In: JACOBI,P. et al. (orgs.). Educação, meio ambiente e cidadania: reflexões e experiências. São Paulo:SMA.1998. p.27-32.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 82 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL Hadryan Lima RODRIGUES hadryan11@yahoo.com.br Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA thais.eline@gmail.com Lorena Santos GONÇALVES lorenaangitur@hotmail.com Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / Curso de Especialização em Educação Ambiental - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil. RESUMO As questões ambientais geram diversas manifestações, principalmente contra a utilizaçãode “tecnologias poluentes”, o que de uma forma ou de outra nos conduz para a necessidade deimplantação de um processo de desenvolvimento mais responsáveis com o ambiente. Observandoesse contexto, a realização desse estudo nasceu do interesse em discutir os problemas relacionadoscom as variadas formas de consumo do ambiente e fazer a conexão com os diversos saberesrelacionados às práticas de Educação Ambiental, de modo a fornecer subsídios para o entendimentodas múltiplas situações relacionadas à ação antrópica com o ambiente. Pretende-se, ainda, analisaros impactos socioeconômicos decorrentes destas relações, bem como contribuir para odesenvolvimento de ações que conduzam para uma melhoria da condição ambiental em níveislocais, regionais e intrarregionais. PALAVRAS-CHAVES: educação ambiental, consumo sustentavel, sociedade. ABSTRACT Environmental issues generate several manifestations, mainly against the use of “pollutingtechnologies”, which leads us to the need for implementation of a development process moreresponsible regarding environment. Observing this context, this study arose from the interest indiscussing problems related to the several forms of environmnet consumption and making theconnection with the several knowledges related to environmental education practices, in order tosupply with subsidies for the understanding of multiple situations related to anthropic action withthe environment. It also aims at analyzing the socieoeconomical impacts of these relations, as wellas contributing for the development of actions leading to the improvement in local, regional andinterregional levels. KEYWORDS: environmental education, sustainable consumption, society. 1 INTRODUÇÃO A Educação Ambiental constitui-se em uma ação educativa permanente. É também atravésdela que a comunidade educativa toma consciência de sua realidade global, do tipo de relações queos homens estabelecem entre si e com a natureza, dos problemas decorrentes destas relações e decausas mais profundas. Ela desenvolve, mediante uma prática que vincula o educando com acomunidade, valores e atitudes que promovem um comportamento dirigido a transformaçãosuperadora dessa realidade, tanto em seus aspectos naturais quanto sociais, desenvolvendo noeducando as habilidades e atitudes necessárias para esta transformação. No dia 27 de Abril de 1999 a Educação Ambiental tornou-se lei. Trata-se da Lei N° 9.795– Lei da Educação Ambiental – que em seu Art. 2° afirma: A educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, devendo estarpresente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e não-formal(BRASIL, 1999).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 83 Ocorre que, muitas vezes em nome do desenvolvimento técnico-científico, tem seefetivado o consumo cada vez mais desordenado do ambiente. Esse aspecto deixou claro osproblemas de ordem ambiental, fazendo com que essa problemática acabasse por agravar osquestionamentos sobre essa forma de consumo do espaço. Nesse cenário, as manifestações contra a utilização de “tecnologias poluentes” tambémaumentaram, o que de uma forma ou de outra vai nos conduzindo para a necessidade deimplantação de um processo de desenvolvimento mais responsável com o ambiente. ConformeRosa (1992), é exatemente o desenvolvimento sustentável que vai apresentar uma síntese pararesponder as demandas sociais emergentes desse contexto. Em uma visão empresarial, o espaço constitui-se cada vez mais em um produto deconsumo. Sob essa perspectiva, um outro problema surge dessa situação: a ocupação, a produção eo consumo do meio ambiente geralmente é desacompanhada de uma preocupação ambiental, o quecontribui para o agravamento dos aspectos relacionados degradação ambiental. Entretanto, épossível afirmar que estão sendo implantadas medidas, ainda que de forma pouco abrangentes, parase promoverm uma melhoria do ambiente, mesmo que sejam para possibilitarem a otimização dasmargens dos lucros empresariais. A degradaçao ambiental se manifesta de diversas formas e sob variadas cirunstâncias.Nesse sentido, concordamos com Borrero (1990) quando afirma que a lógica da ciência e datecnologia, a falta de uma política social coerente e a procura por necessidades básicas quegarantam a sobrevivência faz com que muitas pessoas sejam “cúmplices involuntárias dadegradação ambiental”. Sendo assim, constata-se mais um agravante: a difusão da idéia de que aimplentação de ações que promovam a justiça social são impossíveis de acontecerem em países queainda estão em vias de desenvolvimento. Sabe-se que a produção industrial descontrolada ameaça signficativamente a vida noplaneta. Desta forma, é possível afirmar que há uma relação direta entre a atividade de consumorealizada pelo homem com os padrões de sustentabilidade do ambiente. Além desta constatação,pode-se afirmar, ainda, que o ambiente não é fonte inesgotável de recursos, bem como não assegurao crescimento econômico permanente entre as nações. Levando-se em consideração o contexto atual, aponta-se para a necessidade de efetivaçãode um consumo sustentável que possa auxiliar na mitigação dos problemas decorrentes das diversasformas de produção e consumo ao qual estamos todos submetidos. Deve-se destacar, ainda, que oconceito de consumo sustentável passou a ser construído a partir do termo desenvolvimentosustentável, divulgado com a Agenda 21, documento produzido durante a Conferência das NaçõesUnidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, na cidade do Rio de Janeiro, em 1992. A Agenda 21 relata quais as principais ações que devem ser tomadas pelos governos paraaliar a necessidade de crescimento dos países com a manutenção do equilíbrio do ambiente. Ostemas principais desse documento falam exatamente sobre as modificações dos padrões deconsumo, do manejo ambiental dos resíduos sólidos e do saneamento, bem como abordam ofortalecimento do papel do comércio e da indústria. Desta forma, o consumo sustentável se trata de um desafio que nos remete ao pensamentosobre a importância de se adotar um comportamento mais comprometido com a necessidade dereciclar, bem como de se adotar um novo estilo de vida que nos conduza a novos padrões deconsumo. Sabe-se, ainda, que esta deve ser uma tarefa pertinente a todas as esferas, sejamgovernamentais, sociais ou mesmo empresariais. Segundo Portilho (2004), é exatamente a partir do crescimento dos movimentosambientalistas, que vão surgir novos argumentos contra os hábitos ostensivos e consumistas denossa sociedade. Essa prerrogativa deixa evidente que o padrão de consumo das sociedadesocidentais, além de se apresentar de forma socialmente injusta, também é imoral e ambientalmenteinsustentável. Sobre esse assunto a autora se manifesta da seguinte forma: A crise ambiental mostrou que não é possível a incorporação de todos no universo de consumo em função dafinitude dos recursos naturais. O ambiente natural está sofrendo uma exploração excessiva que ameaça a estabilidadedos seus sistemas de sustentação (exaustão de recursos naturais renováveis e não renováveis, desfiguração do solo,
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 84perda de florestas, poluição da água e do ar, perda de biodiversidade, mudanças climáticas etc.). Por outro lado, oresultado dessa exploração excessiva não é repartido eqüitativamente e apenas uma minoria da população planetária sebeneficia desta riqueza. (PORTILHO, 2004) A realização desse estudo nasceu do interesse em discutir os problemas relacionados comas variadas formas de consumo do ambiente e fazer a conexão com os diversos saberes relacionadosàs práticas de Educação Ambiental, de modo a fornecer subsídios para o entendimento dasmúltiplas situações relacionadas à ação antrópica com o ambiente. Pretende-se, ainda, analisar osimpactos socioeconômicos decorrentes destas relações, bem como contribuir para odesenvolvimento de ações que conduzam para uma melhoria da condição ambiental em níveislocais, regionais e intrarregionais. Se levarmos em consideração o princípio ético de igualdade, em que todos os habitantes doplaneta, das presentes e das futuras gerações, possuem o direito a usufruir os recursos naturais,poderemos chegar a constatação de que enquanto os países desenvolvidos continuarem distribuindode forma desigual a riqueza e os recursos naturais, os países do subdesenvolvidos poderão continuarreivindicando o direito de adotar o mesmo padrão de comportamento, tornando impossível acontenção do consumo global dentro de limites considerados sustentáveis. Nesse sentido, os riscos de conflitos gerados a partir do interesse de consumo pelosrecursos naturais tenderão a aumentar. Esse dilema conduz para a percepção ética de que todos ospovos devem ter direitos proporcionais no acesso e na utilização dos recursos naturais. Sendo assim,para se promover a redução das disparidades socioeconômicas, é necessário estabelecer um nívelmínimo e um máximo para os padrões de consumo. Entretanto, cada sociedade possui o direito e odever de desenvolver o seu estilo de vida, mas não sem antes estabelecer uma condição de vida e deconsumo que não comprometa a qualidade de vida da própria humanidade. O que é Educação Ambiental (EA)? O que é consumo sustentável? Qual é a relação entre aEA e os níveis de consumo da humanidade? Quais os valores éticos referentes a prática do consumosustentável? Que tipos de ações em EA poderiam ser realizadas para se garantir uma melhor relaçãoentre consumo e qualidade de vida? Focalizar esta realidade significa, portanto, contribuir nãosomente para o desenvolvimento da área das ciências sociais numa perspectiva acadêmica. Trata-se,também de produzir conhecimentos que possam ser utilizados no campo da Educação Ambiental,dando suporte às estratégias de desenvolvimento de ações que culminem na formação de cidadãosmais críticos e responsáveis com o ambiente. 2 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO SUSTENTÁVEL Recorrendo a Portilho (2004), percebe-se que a qualidade de vida, a felicidade e aqualidade ambiental estão sendo cada vez mais associadas ou reduzidas às conquistas materiais.Essa constatação leva a um ciclo vicioso, onde o indivíduo trabalha não somente para manter umdeterminado nível de consumo, mas também para ostentar uma condição materialista de sucessosocial. Esta situação reduz o tempo destinado ao lazer e a própria felicidade a mercadorias quedevem ser consumidas para alimentar a características inerentes ao modelo econômico do qualfazemos parte. Por este ângulo, é conveniente destacar que a expansão da Sociedade de Consumo,amplamente influenciada pelo modo de vida estadunidense, possibilitou que o consumo setransformasse em uma compulsão, que é vastamente estimulada pelas forças do mercadoeconômico. Sabe-se que esta sociedade produz carências, desejos e necessidades materiais esimbólicas intimamente presentes no modelo industrial, na moda e nas diversas formas decomunicação, como a publicidade. Estes aspectos convergem para a constatação de Santos (2005), que avisa sobre osdesajustes existentes entre as práticas de consumo e suas relações com o ambiente. Nessa ótica, aautora destaca que a comunicação exerce um papel fundamental para conscientizar o consumidor,mas, não com a intenção de estender o consumo a todas as classes, e sim por torná-lo uma forma depressão que norteia para mudanças no próprio modo de produção.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 85 Tal modelo de sociedade passa a reconhecer seus indivíduos a partir da avaliação e dojulgamento daquilo que consomem, utilizam ou simplesmente possuem e exibem aos outros. Opróprio indivíduo passa a fazer uma autoavaliação a partir do que possui, ou pelo seu poder deconsumo diante dos produtos ofertados pelo mercado. Trata-se de uma situação complexa em quese torna muito difícil estabelecer o limite entre consumo e consumismo, pois a definição do que énecessário ou supérfluo está diretamente relacionado às características culturais e socioeconômicasda sociedade e do grupo ao qual fazemos parte. Exatamente pelos aspectos já destacados é que Canclini (1996) afirma que o consumo semostra como um tema relevante quando se trata de se investigar as representações e os valoressociais que se constroem no cenário contemporâneo. Sob esta perspectiva, deve-se destacar que ofenômeno do consumo se constitui, tanto como um campo de construção simbólica, quanto um atopolítico e espaço de disputa pela hegemonia de determinados valores e parâmetros. Sobre a natureza e os aspectos que envolvem a produção simbólica, Bourdieu (1998)contribui da seguinte forma: O campo de produção simbólica é um microcosmo da luta simbólica entre as classes: é ao servirem aosinteresses na luta interna do campo de produção (e só nessa medida) que os produtores servem aos interesses dos gruposexteriores ao campo de produção (BOURDIEU, 1998, p. 12) Levando-se em consideração os padrões de consumo já citados, também é necessáriodestacar o reconhecimento das limitações físicas do nosso planeta em relação ao reconhecimento doprincípio universal de eqüidade na distribuição e acesso aos recursos indispensáveis à vida humana.A partir dessa percepção e da constatação de que os atuais padrões de consumo estãoinequívocamente relacionados às origens da crise ambiental, a crítica ao consumismo passa a seruma contribuição substancial para a construção de uma sociedade mais justa, democrática esustentável. Nessa perspectiva, surgiram diversas propostas que objetivam a modificação dessespadrões, tais como: o consumo verde, consumo consciente, ético, responsável e sustentável. Trata-se de uma proposta que é dominada por diversas análises que consideram que caso os consumidorespossuam conhecimento suficiente, irão por conseqüência obter a necessária “consciênciaambiental”, transformando-a em atitudes e comportamentos ambientalmente adequados. ConformeCohen (2001), um bom exemplo dessa questão seria o enfrentamento com maior ênfase exercidopelos programas informativos que possuem estratégias de eco-rotulagem, como acabou sendoempregado pela Comunidade Européia. Entretanto, o simples acesso a conhecimentos relacionados à questão ambiental não conduza estilos de vida e práticas ambientalmente corretas. Outro aspecto que merece ser destacado é aexcessiva quantidade de informações relacionadas com uma grande diversidade de assuntos, muitasvezes altamente especializados, que impossibilitam a realização de uma análise correta, tendo emvista que muitas informações são incompreensíveis ou incompatíveis, além de se configuraremcomo aspectos conflitantes mesmo entre os especialistas no assunto. Recorrendo mais uma vez a Santos (2005), percebe-se que a idéia de consumo sustentávelnas organizações toma forma quando as posturas das empresas anunciam uma preocupaçãorealmente efetiva com os níveis de impacto socioambiental que sua produção e seu consumoprovocam. Outra evidência de destaque acontece quando um compromisso ainda maior com asustentabilidade ocorre nas empresas que promovem modificações em sua perspectiva de futurorelacionadas, tanto em seu modo de produção, quanto em nível de compartilhamento das novaspolíticas com fornecedores, clientes e com o próprio governo. Outro aspecto que merece observância refere-se ao papel que a mídia exerce na adoção depadrões sustentáveis de consumo. É inegável que a disseminação de informações, bem como amudança cultural relativa ao consumo encontra nos instrumentos midiáticos um excelenteinstrumento de influência nessas questões. Nesse contexto, Habermas (1997) destaca o poder que osmeios de comunicação possuem de produzir o que ele denomina de “esfera pública abstrata”. Talexpressão contempla questões referentes a leitores, ouvintes e espectadores, onde quer que se
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 86encontrem, pois compreende-se que tal esfera apresenta o poder de interferir no conjunto denarrativas a que a mídia confere visibilidade. Com base no que foi exposto, é possível afirmar que a presença de temas relativos asustentabilidade constitui-se em reflexo de uma modificação contínua na percepção pública e emuma condição importante para que este reflexo encontre eco nos variados segmentos sociais. Apartir do agir comunicativo, a mídia fomenta a geração do espaço social. Nessa perspectiva, elaprovoca a ambientação adequada para expor à cena pública os questionamentos relativos aodesenvolvimento sustentável. Desta forma, deve-se destacar o argumento de que ações coletivas e intervenções políticaspodem realmente fazer ajustes, tanto no nível, quanto na estrutura do consumo de forma menosonerosa, principalmente para os consumidores. Além desse aspecto, deve-se destacar que estasações e intervenções facilitam a distribuição dos custos e dos benefícios desses ajustes de umaforma mais equilibrada. Finalmente, também é importante afirmar que as ações coletivas oferecem vários méritos,principalmente o de eliminar os problemas causados pelos aproveitadores entre aqueles queparticipam ativamente da construção de benefícios e de melhorias na qualidade ambiental, tendo emvista que os mesmos pretendem usufruir dos benefícios, contudo se recusam a participarem doscustos decorrentes dessa participação. Dessa forma, as ações coletivas se configuram comoexcelentes estratégias, potencialmente mais adequadas e eficazes no que diz respeito a conduçãodos atuais padrões de consumo em direção a construção de um mundo mais justo e democrático,bem como de um ambiente mais sustentável. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS A sociedade de consumo e o consumismo estão intimamente relacionados. Os ideais deliberdade individual e a valorização exarcebada ao individualismo comprometem de formasignificativa as ações convergentes para uma melhor condição ambiental. Neste sentido, pode seafirmar que a sociedade de consumo foi erguida sob a bases da “liberdade individual de escolha. Entretanto, concordamos com Bauman (2000), quando se refere que o aumento daliberdade individual pode coincidir com o aumento da impotência coletiva. Uma vez que não existeuma forma única se traduzir preocupações pessoais em questões públicas, torna-se necessárioestabelecer a comunicação entre estas esferas e romper com as limitações que envolvem essascircunstâncias. A análise das conseqüências das políticas de consumo como estratégia de enfrentamentodos problemas ambientais nos leva a reforçar a afirmação de que as ações individuais não são oespaço onde mudanças profundas nos padrões de consumo devem ser esperadas, sem uma pressãovinda das organizações sociais e das instituições políticas, ainda que tenham sido eleitasdemocraticamente. Conforme lembra Strasser et al (1998), as atividades de consumo operam na interseçãoentre vida pública e privada, atuando no sentido de alterar as fronteiras entre elas. Acreditamos queo debate sobre a Educação Ambiental e as práticas de Consumo Sustentável devem ocorrer em umespaço público e ao mesmo tempo privado. Esse debate deve envolver questões de ambas as esferase objetivar recuperar os elos entre elas. Através dessa perspectiva, a questão ambiental certamentepoderá ser colocada em um lugar cujas preocupações privadas e as questões públicas se encontram.Desta forma, o consumo sustentável pode funcionar como uma estratégia política para promover aresolução de problemas coletivos e individuais, através da própria aproximação entre essas esferas. Quanto às críticas referentes ao consumismo, é possível dizer que a organizaçãoindividualista do consumo tende a nos desconectar, enquanto cidadãos, da solidariedade e dointeresse pelos problemas coletivos. Ainda que concordemos com essa afirmação bastante precisa,também somos obrigados a concordar com Canclini (1996) quando afirma que a expansão dascomunicações e do consumo gera associações de consumidores e lutas sociais. Nesse sentido, muitopouco tem sido feito para se analisar as práticas de consumo como uma forma de criação de redesde intercâmbio de informação e de aprendizagem que sirvam para o exercício da cidadania.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 87 Finalmente, ainda que não seja correto afirmar que o consumidor é o único “ator social”capaz de mudar a sociedade em direção a um ideal mais sustentável, deve-se considerar apossibilidade de se politizar o debate ambiental na esfera privada. Deve-se, ainda, considerar aspráticas políticas como uma necessária condição para o desenvolvimento de propostas queconduzam para uma modificação dos padrões de consumo, além de fazerem parte de um projeto ede utopia de implantação de uma sociedade que seja realmente sustentável. REFERÊNCIAS BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000. BORRERO, M. Los Estudios de Ciencia, Tecnologia e Sociedad em el contextolationoamericano. In: MANUEL MEDINA et al. (Orgs.). Ciência, tecnologia y sociedad: estúdiosinterdisciplinares em la universidade, em la educación y em la gestinón política y social. Barcelona:Antropos, p.125-9, 1990. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Diretrizes para operacionalização doPrograma Nacional de Educação Ambiental. Disponível na internet no endereço:http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_legislacao/20_legislacao18032009111654.pdf em: 24de julho de 2009. CANCLINI, Néstor García. Consumidores e cidadãos - conflitos multiculturais daglobalização. Rio de Janeiro, UFRJ, 1996. HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. PORTILHO, Fátima. Limites e possibilidades do consumo sustentável. In: Educação,ambiente e sociedade: idéias e práticas em debates - Programa de Comunicação Ambiental. Serra,CST, 2004, pp.73-96. SANTOS, Luciane Lucas dos. Comunicação e consumo sustentável: das entrelinhas docapitalismo leve ao enquadramento da sustentabilidade na mídia. In: revista fronteiras – estudosmidiáticos. vol. 3. set./ dez. Porto Alegre: UNISINOS, 2005. STRASSER, Susan; McGOVERN, Charles & JUDT, Matthias. Getting and spending -European and American consumer societies in the Twentieth century. Cambridge, CambridgeUniversity Press, 1998.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 88 EDUCAÇÃO AMBIENTAL, EDUCAÇÃO EMPREENDEDORA E DESENVOLVIMENTO LOCAL SUSTENTÁVEL PINTO, Francisca Wislana Costa17 FCAP/Universidade de Pernambuco wislana@msn.com RESUMO O presente trabalho analisa questões-chave a respeito da educação ambiental como umaliado na disseminação da educação empreendedora e do desenvolvimento local sustentável. Emconcordância com a visão do desenvolvimento, o empreendedorismo vem se consolidando cada vezmais como um dos elementos de contribuição para a inclusão social e o desenvolvimentoeconômico além de tornar-se um tema prioritário e relevante nas discussões referentes aocrescimento do mercado de consumo e ao futuro do nosso País. Sendo assim, buscamos no sistemaeducacional uma parceria no ensino e formação de empreendedores, com inserção de temasrelacionados a negócios em seus programas de ensino, em diferentes níveis, para a promoção dodesenvolvimento local sustentável. PALAVRAS-CHAVES: Empreendedorismo, Desenvolvimento Local, EducaçãoEmpreendedora, Educação Ambiental. ABSTRACT This paper examines key issues concerning the environmental education as an ally in thedissemination of entrepreneurial education and local development. In line with the vision ofdevelopment, entrepreneurship is consolidating more and more as one of the elements contributingto social inclusion and economic development as well as become a priority and relevant indiscussions concerning the growth of the consumer market and the future of our country Therefore,we sought a partnership in the educational system in teaching and training of entrepreneurs, withinclusion of topics related to business in their teaching programs at different levels, to promotesustainable local development. KEYWORDS: Entrepreneurship, Local Development, Entrepreneurial Education,Environmental Education. 1 INTRODUÇÃO O empreendedorismo tem como tema central promover o desenvolvimento, criar e inovar oque já existe. É crescente o interesse pelo empreendedorismo como força propulsora na criação deempresas. A disseminação da importância do empreendedorismo, através da educação, visacontribuir com o processo de desenvolvimento econômico local e fundamenta-se na idéia de que aeducação empreendedora promove o rompimento de barreiras de resistência à realização de idéiasinovadoras e pode gerar comportamentos e atividades que conduzem à criatividade e à geração deriquezas Dentre as idéias associadas à questão da criação de emprego e renda e a conseqüentepreocupação com a elevação da qualidade de vida da população está o empreendedorismo. Numsentido amplo, empreendedorismo fomenta o desenvolvimento local integrado e sustentável,vinculado à capacidade de uma comunidade ser autora dos processos de mudanças essenciais ao seucrescimento e ao acesso de toda a população à riqueza gerada. E para ser empreendedor é precisoter seu próprio negócio? A resposta é não. Ser empreendedor é criar e inovar o que já existe. Elebusca novos negócios e oportunidades e está sempre pesquisando para melhorar produtos ouserviços com base nas necessidades do mercado, num processo contínuo pela busca da melhoria doproduto, da prestação do serviço ou do desempenho na função que exercer. Os empreendedores são17 Administradora, acadêmica do programa de Mestrando em GDLS -Gestão do Desenvolvimento Local Sustentável-FACP/UPE
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 89pessoas que inovam. Peter Drucker (1992) afirma "A inovação é o instrumento específico dosempreendedores, o meio pelo qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para umnegócio ou serviço diferente". A questão fundamental então é o preparo do empreendedor. O sistema educacionalassume um papel importante para com a causa empreendedora. A inclusão de temas no programa deensino das escolas de ensino médio, técnico e superior, voltados aos negócios, tem se mostrado umainiciativa bastante positiva para a promoção do empreendedorismo. E esse estudo tem comopropósito refletir sobre a importância da disseminação da educação empreendedora para a criaçãode empresas e na promoção do desenvolvimento local de forma sustentável. 2 Empreendedorismo Vários são os conceitos para o empreendedorismo. A literatura apresenta muitas definiçõespara os termos empreendedorismo e empreendedores, dada as diversas correntes de pesquisadoresdesse campo, que utilizaram os princípios de suas áreas de interesse para construir o conceito. OTermo empreendedorismo é um neologismo traduzido livremente do inglês entrepreneurship,originada da palavra francesa entrepreneur, usada no século 12 para designar “aquele queincentivava brigas” (Dolabela, 1999a, p. 43). Segundo Leite (2002) cita que o empreendedor é umempresário ou aquele que abre um empreendimento, criando por conta própria um negócio em seubenefício, assumindo riscos de um produto qualquer. Neste sentido, para Degen (2005) serempreendedor significa ter a necessidade de realizar coisas novas, pôr em prática suas própriasidéias e essas são características de personalidade e comportamento não muito comuns de seencontrar, mas que fazem com que as pessoas que as possuem se destaquem, pois são elas quefazem as coisas acontecer. O empreendedorismo trata atos e comportamentos dos empreendedores. “Umempreendedor é uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões” Filion (1999 p.9); oempreendedor é um agente de mudanças e inovações, que identifica oportunidades e busca recursospara transformar conhecimento em riqueza. Desta forma, o instrumento específico do espíritoempreendedor é a inovação, a busca deliberada e organizada de mudanças, as fontes dasoportunidades que tais mudanças podem oferecer. Os empreendedores estão comprometidos numprocesso onde o economista Joseph Schumpeter (1959) descreveu como "destruição criativa", ouseja, "romper com velhos hábitos, para gerar respostas novas às carências e desejos do mercado".Eles (os empreendedores) forçam situações, com o objetivo de mudar as coisas para melhor. Sãoconstrutores compulsórios: quando começam, não param mais (LEITE, 2006). A respeito dacontribuição dos empreendedores na formação da riqueza de um país, Schumpeter (1959) afirmaque o empreendedor é o agente do processo de destruição criativa e é o impulso fundamental queaciona e mantém em marcha o motor capitalista. Transformar conhecimento, nascido de uma idéia, de uma oportunidade, em riqueza,através da realização da visão concebida a partir do sonho, é uma tarefa que requer doempreendedor diversas características. O empreendedor tem características e traços capazes dedeixar todos os integrantes da empresa surpreendidos, sempre prontos para trazer e gerir novasidéias, produtos ou mudar tudo o que já existe. É um otimista que vive no futuro, transformandocrises e oportunidades, e exercendo influencia sobre as pessoas para levá-las em direção às suasidéias. Ele cria e inova o que já existe, busca novos negócios e oportunidades e está semprepesquisando para melhorar produtos ou serviços com base nas necessidades do mercado. Para Weber (1996) o empreendedor não parece tão arrojado quanto o de Schumpeter(1959), mas é organizado e racional. A racionalidade, um dos pilares do empreendedor weberiano,incluía todo o processo de produção, comercialização, a capacidade de organização e dacontabilidade, a busca do aumento da produtividade e a introdução de "baixos-preços e "grandegiro" [...] "e aqueles que não fizerem o mesmo, têm que sair do negócio" (WEBER, 1996, p. 44). Otermo empreendedorismo, embora tenha se originado a partir de pesquisas em economia, recebeufortes contribuições da psicologia e da sociologia, que deram ênfase as características pessoais do
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 90indivíduo empreendedor o que provocou diferentes definições para o termo e, como conseqüência,variações em seu conteúdo. O futuro é dinâmico e cheio de incertezas, sendo assim, é necessário refletir sobre asnossas posturas, habilidades pessoais e profissionais; criatividade; memória; comunicação; comoenfrentar este século. São mudanças socioculturais e tecnológicas que fazem repensar hábitos eatitudes frente às novas exigências do mercado. Diferenciar-se dos demais, rever convicções ecomportamentos, mudar paradigmas, sobrepor idéias antigas às novas verdades, este é o perfil doprofissional que, trocando informações, dados e conhecimentos, poderá fazer parte do cenário dasorganizações que aprendem, das organizações sustentáveis. 3 Educação empreendedora Antes, acreditava-se que o empreendedorismo não podia ser ensinado: Osempreendedores eram indivíduos nascidos com dom inato, e com características especiais que oslevava ao sucesso no mundo dos negócios. Hoje, temos resultados diferentes. Os estudos recentesindicam que embora características pessoais possam facilitar a atuação individual à frente de umnovo negócio, o processo empreendedor pode, sim, ser ensinado e aprendido (Dolabela, 1999b;Dornelas, 2001). O autor Dornelas(2001) destaca que o processo empreendedor pode ser ensinado eentendido por qualquer pessoa e que o sucesso é decorrente de uma gama de fatores internos eexterno ao negocio, do perfil do empreendedor e de como ele administra as adversidades queencontra no dia-a-dia de seu empreendimento. Os empreendedores inatos continuam existindo esendo referencia se sucesso, exemplos como Ford, Bill Gates, Silvio Santos, Roberto Marinho.Todavia muitos outros podem ser capacitados para a criação de empresa duradoras. A cultura empreendedora pode ser desenvolvida a partir de ações e políticas específicaspara este fim. Saini (2001), menciona que uma das questões básicas do desenvolvimento econômicorefere-se à promoção do espírito empreendedor na sociedade. Os países em desenvolvimento sedeparam com uma considerável população de empreendedores, que estão dispostos a criar novosnegócios e novas tecnologias, correr riscos, na criação de empregos, proporcionando o crescimentoda comunidade. Diante disso, podemos apontar que a educação é um dos grandes instrumentos parao desenvolvimento da cultura empreendedora na sociedade, e quanto mais cedo se começar ainculcar nos jovens, os valores e o pensamento empreendedor, tanto mais efetivos serão osresultados. Como sustenta Dolabela (2003, p. 15), “a educação empreendedora deve começar namais tenra idade, porque diz respeito à cultura, que tem o poder de induzir ou de inibir a capacidadeempreendedora.” Qualquer curso de empreendedorismo deve focar em seus programas de ensino,temas como: - A inovação e o processo empreendedor; - A importância do empreendedorismo para o desenvolvimento econômico; - Como preparar e utilizar um plano de negocio; - Como identificar fontes e obter financiamento para o novo negócio; - Como gerenciar e fazer a empresa crescer de forma sustentável, e - Como tornar-se responsável social e ambiental. A inserção desses temas relacionados à atividade empreendedora estimula uma iniciativabastante adequada para a promoção do empreendedorismo. De acordo com Lundström & Stevenson(2002), programas desta natureza atendem a pelo menos duas necessidades: a) o fortalecimento dacultura empreendedora; e b) a preparação dos jovens para as transformações no mercado de trabalho– mudanças estas que, inevitavelmente, farão com que algum aspecto do empreendedorismo sejaincluído à futura experiência profissional deles. Dolabela (1999a; 1999b) relaciona outros motivos que por si só justificariam adisseminação da cultura empreendedora através do sistema de ensino estabelecido. Dentre eles: a) fortalecer valores relacionados à ética e cidadania, fatores estes intrinsecamente ligadosao empreendedorismo;
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 91 b) aumentar a percepção quanto à importância da PME (Pequena e Média Empresa) para odesenvolvimento econômico; c) reduzir a possibilidade de fracasso entre as empresas nascentes; d) preparar os jovens para atuarem como intraempreendedores (ou empreendedores dentrodas organizações); e) aproximar as instituições de ensino, sistemas de suporte e empresas, ainda muitodistantes entre si, no contexto brasileiro; f) estimular a auto-realização. No Brasil, o ensino do empreendedorismo já desponta iniciativas no sentido de levar oempreendedorismo da sala de aula para a casa do aluno, para o trabalho e para o convívio social.Vejamos alguns exemplos: - projeto “Aprender a Empreender”, parceria entre a Fundação Roberto Marinho, ProgramaBrasil Empreendedor e SEBRAE Nacional, o qual tem levado o ensino do empreendedorismo demaneira dinâmica e criativa a milhares de pessoas, através de um curso composto de 10 programasde TV e um livro texto com os 10 capítulos correspondentes. Além de contribuir para odesenvolvimento da cultura empreendedora, a iniciativa auxilia empreendedores, ouempreendedores em potencial, em relação a aspectos como planejamento, organização, direção econtrole dos empreendimentos nascentes (FRM, PBE & SEBRAE Nacional, 2000). - projeto “Oficina do Empreendedor”, criado pelo Prof. Fernando Dolabela, aplicado emescolas de segundo grau e universidades (Dolabela, 1999a). - Desafio SEBRAE voltada para o público universitário. O programa consiste em umacompetição entre equipes em torno da administração de uma empresa. - PROGER – Jovem Empreendedor. O programa, promovido pelo Governo Lula, é umalinha de crédito especial abrangendo jovens com até 24 anos de idade que pretendam montar umamicroempresa, uma cooperativa ou trabalharem por conta própria. Esse financia investimento fixo ecapital de giro, com valores que podem chegar a R$ 50 mil e prazo de pagamento de até 84 meses,com 18 meses de carência. O jovem financiado é obrigado a se submeter a capacitação técnico-gerencial prévia e acompanhamento pós-crédito. - Incubadoras de Empresas, promovido pelas Escolas técnicas e IES como o propósito deidentificar o potencial empreendedor de pessoas que de outra forma não poderiam iniciar seusempreendimentos inovadores. O programa é desenvolvido em laboratórios, centros de pesquisas, econstitui-se em iniciativas de pré-incubação que permitiriam aos alunos vivenciar o ambiente deuma empresa, sem a necessidade de sua constituição formal desde o inicio. 4 Desenvolvimento Local Sustentável O desenvolvimento local é uma ação que possibilita o aumento de indicadores econômicos,assim como também é o principal instrumento de melhoria da qualidade de vida- um processodinamizador que utiliza a comunidade, o ser humano. A problemática da sustentabilidade assumeneste novo século um papel central na reflexão sobre as dimensões do desenvolvimento e dasalternativas que se configuram. O quadro socioambiental que caracteriza as sociedadescontemporâneas revela que o impacto dos humanos sobre o meio ambiente tem tido conseqüênciascada vez mais complexas, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos (JACOBI, 2003). A construção histórica do conceito de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável estávinculada ao incremento da preocupação com a manutenção da existência de recursos naturais emum ambiente propício para a continuidade das gerações futuras, rediscutindo o ritmo e a formacomo o sistema capitalista propunha o desenvolvimento das sociedades. (SILVA, 2005). Anecessidade de abordar o tema da complexidade ambiental decorre da percepção sobre o incipienteprocesso de reflexão acerca das práticas existentes e das múltiplas possibilidades de, ao pensar arealidade de modo complexo, defini-la como uma nova racionalidade e um espaço onde searticulam natureza, técnica e cultura. Refletir sobre a complexidade ambiental abre uma estimulanteoportunidade para compreender a gestação de novos atores sociais que se mobilizam para aapropriação da natureza, para um processo educativo articulado e compromissado com a
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 92sustentabilidade e a participação, apoiado numa lógica que privilegia o diálogo e a interdependênciade diferentes áreas de saber. Mas também questiona valores e premissas que norteiam as práticassociais prevalecentes, implicando mudança na forma de pensar e transformação no conhecimento enas práticas educativas. Segundo Capra (2006) “Uma sociedade sustentável é aquela que satisfazsuas necessidades sem diminuir as perspectivas das gerações futuras” . A realidade atual exige uma reflexão cada vez menos linear, e isto se produz na inter-relação dos saberes e das práticas coletivas que criam identidades e valores comuns e açõessolidárias diante da reapropriação da natureza, numa perspectiva que privilegia o diálogo entresaberes. A preocupação com o desenvolvimento sustentável representa a possibilidade de garantirmudanças sociopolíticas que não comprometam os sistemas ecológicos e sociais que sustentam ascomunidades. A complexidade desse processo de transformação de um planeta, não apenascrescentemente ameaçado, mas também diretamente afetado pelos riscos socioambientais e seusdanos, é cada vez mais notória. Os economistas corporativos tratam como bens gratuitos não somente o ar, a água e o solo, mas, também adelicada teia das relações sócias, que é seriamente afetada pela expansão econômica continua. Os lucros privados estãosendo obtidos com os custos públicos em detrimento do meio ambiente e da qualidade geral de vida, e às expensas dasgerações futuras. O mercado, simplesmente, nos dá a informação errada. Há uma falta de realimentação, e aalfabetização ecológica básica nos ensina que esse sistema não é Sustentável (CAPRA, 2006 p. 233) A concepção “sociedade de risco”18, de Beck (1997), amplia a compreensãode um cenário marcado por nova lógica de distribuição dos riscos. Isso implica a necessidade de semultiplicarem as práticas sociais baseadas no fortalecimento do direito ao acesso à informação e àeducação ambiental em uma perspectiva integradora. E também demanda aumentar o poder dasiniciativas das empresas baseadas na premissa de que um maior acesso à informação e transparênciana administração dos problemas ambientais urbanos pode implicar a reorganização do poder e daautoridade. [...] o indivíduo é o produto de um ciclo de reprodução; mas este produto é, ele próprio, reprodutor em seuciclo, [...]. Somos, portanto, produtos e produtores, ao mesmo tempo. Assim também, quando se considera o fenômenosocial, são as interações entre indivíduos que produzem a sociedade, com sua cultura, suas normas, retroage sobre osindivíduos humanos e os produz enquanto indivíduos sociais dotados de uma cultura (MORIN, 2001, p.119) De acordo com Pedrosa (2000) “É preciso refletir que a forma de apropriação dos recursosnaturais é espelho de relações sociais marcadas pela noção de possuidor /possuído,dominador/dominado.” Existe, portanto, a necessidade de incrementar os meios de informação e oacesso a eles, bem como o papel indutivo do poder privado nos conteúdos educacionais, comocaminhos possíveis para alterar o quadro atual de degradação sócio ambiental. Trata-se de promovero crescimento da consciência ambiental, expandindo a possibilidade das empresas participarem emum nível mais alto no processo decisório, como uma forma de fortalecer sua co-responsabilidade nafiscalização e no controle dos agentes de degradação ambiental. 5 Considerações Finais De acordo com o estudo bibliográfico, deste trabalho, constatamos que oempreendedorismo cumpre um importante papel em relação ao desenvolvimento local e que aeducação é a melhor ferramenta para a disseminação e formação do empreendedor. Segundo oGEM (2008) o Brasil ocupou a 13ª posição no ranking mundial de empreendedorismo realizadopelo Global Entrepreneurship Monitor em 2008. A Taxa de Empreendedores em Estágio Inicial18 A noção de risco pode ser entendida a partir do que ele denomina lógica invertida. Tal inversão diz respeito àpassagem da sociedade de penúria, na qual a questão fundamental girava em torno de uma melhor divisão das riquezas,para a sociedade de risco onde a questão fundamental passa a ser, como o próprio nome diz, a divisão dos riscos.(BECK, 1997)
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 93(TEA) brasileira foi de 12,02, o que significa que de cada 100 brasileiros 12 realizavam algumaatividade empreendedora até o momento da pesquisa. Todavia, sendo uma característica deindivíduos, é compreensível que o empreendedorismo esteja inter-relacionado com a cultura eeducação. Além do que, pode-se facilmente observar o potencial para odesenvolvimento/fortalecimento de uma cultura empreendedora a partir da utilização do sistemaeducacional estabelecido. O ensino do empreendedorismo nas escolas técnicas e universidades brasileiras baseiam-sena criação de novos negócios, geração de riqueza e crescimento econômico. Sendo ainda necessárioreforçar ações que visem conscientizar e motivar os futuros empreendedores a serem proativos comseus negócios em promover o desenvolvimento local sustentável. Não basta somente gerar riquezapara reduzir a pobreza no mundo. È preciso preservar manter limpo e saudável o nosso meioambiente para as gerações futuras. Por isso, os empreendedores não só devem perseguir objetivosfinanceiros e sociais, mas devem, também, procurar preservar os recursos naturais e proteger o meioambiente. As ações voltadas à educação ambiental nos curso de empreendedorismo têm o potencialde contribuir para o aumento da atividade inovadora, do desenvolvimento local e do crescimentoeconômico, além de conscientizar e motivar, o novo empreendedor para o mundo das oportunidadesde negócios baseados na preservação de recursos naturais de forma sustentável. 6 Referências Bibliográficas CAPRA Fritjof, A teia da vida: uma nova compreensão cientifica dos sistemasvivos/Fritjof Capra: tradução Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 2006. BECK, Ulrich. A reinvenção da política: rumo a uma teoria da modernização reflexiva. InAnthony Giddens. Modernização Reflexiva. São Paulo: UNESP, 1997 DEGEN, Ronald. O Empreendedor: fundamentos da iniciativa empresarial. São Paulo:Markon Books, 2005. 368 p DOLABELA, F. (1999a) Oficina do Empreendedor. São Paulo: Cultura EditoresAssociados. DOLABELA, F. (1999b) O Segredo de Luísa. São Paulo: Cultura Editores Associados. DOLABELA, F. (2003) Pedagogia Empreendedora. São Paulo: Editora de Cultura. DORNELAS, J. C. A. (2001) Empreendedorismo: Transformando Idéias em Negócios.Rio de Janeiro: Campus. DRUKER, P. F. Administrando para o futuro: os anos 90 e a virada do século. São Paulo:Pioneira, 1992. FILION, L.J. Diferenças entre Sistemas Gerenciais de Empreendedores e Operadores dePequenos Negócios. RAE-Revista de Administração de Empresas, FGV. São Paulo: 1999. FRM, PBE & SEBRAE Nacional. (2000) Aprender a Empreender. Fundação RobertoMarinho, Programa Brasil Empreendedor e SEBRAE Nacional. Sala Produções. GEM.Empreendedorismo no Brasil – Global Entrepreneurship Monitor, 2008. Disponívelem:http://201.2.114.147/bds/BDS.nsf/5D1CAC412448B0428325757B00697DC7/$File/NT0003EF2A.pdf. Acesso em 20 de setembro de 09. JACOBI, Pedro. Educação Ambiental, Cidadania e Sustentabilidade. In: Cadernos dePesquisa- vol. 118- março 2003- Fundação Carlos Chagas LEITE, Emanuel F. O fenômeno do empreendedorismo/ Recife: Bagaço, 2002._________Empreendedorismo, inovação e incubação de empresas: Lei de Inovação/Emanuel Leite.– Recife: Bagaço, 2006. LUNDSTRÖM, A., & L. Stevenson. (2002) On the Road to Entrepreneurship Policy.Stockholm: Swedish Foundation for Small Business Research. MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio deJaneiro: Bertrand Brasil, 2001 PEDROSA, Fábio J. A. Cavernas Tecnológicas. Revista de Ciências da Administração dePernambuco, 2000, v. 1, 2000.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 94 SAINI, J. S. (2001) “Economic Development and Entrepreneurship”. In Entrepreneurship& Education: Challenges and Strategies, eds. J. S. Saini, & B. R. Gurjar. Jaipur: RawatPublications. SEBRAE. Desafio Sebrae, Disponível no site www.sebrae.com.br acessado em04/01/2009. SHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro:Fundo de Cultura, 1959. SILVA, C. L. Desenvolvimento Sustentável. Um conceito Multidisciplinar. IN: SILVA,C.L.; MENDES, J. T. G. (Orgs). Reflexões sobre desenvolvimento sustentável. Petrópolis, RJ:Vozes, 2005. WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo - 11. ed. Tradução de M.Irene de Q. F. Szmrecsányi e Tomás J. M. K. Szmrecsányi. São Paulo: Pioneira , 1996.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 95EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM COMUNIDADES COSTEIRAS DO CEARÁ. Juliana Maria Oliveira SILVA Universidade Federal do Ceará. Doutoranda em Geografia juliana_geoufc@hotmail.com Jocicléa de Sousa MENDES Universidade Federal do Ceará. Graduanda em Geografia Cícera Angélica de Castro dos SANTOS Universidade Federal do Ceará. Mestranda em Geografia Prof. Dr. Edson Vicente da SILVA Universidade Federal do Ceará RESUMO Este trabalho relata as experiências desenvolvidas pelo projeto de educação ambientaldesenvolvido na comunidade da Praia das Fontes, município de Beberibe-Ceará, contemplando emmédia 35 crianças. O projeto visa fazer com que as crianças tenham uma consciência em relaçãoaos problemas sócioambientais do local e que juntas possam atuar na melhoria da área. A GeografiaFísica possui um elo com a educação ambiental. A Geografia Física tem ajudado no embasamentoteórico e técnico. Através dos conhecimentos adquiridos no curso de Geografia é que é possíveldesenvolver as atividades repassando para as crianças em uma linguagem acessível todo omecanismo que rege a praia das fontes, enfocando as principais unidades geoambientais da áreacomo os campos de dunas, falésias, faixa de praia, lagoas. As trilhas realizadas com as criançascontribuem para uma melhor visualização dos fenômenos, já que as mesmas sabem que tem na área,mas não como isso funciona e as oficinas contribuem para uma melhor aprendizagem. PALAVRAS-CHAVES: educação ambiental, comunidades costeiras, geografia. ASBTRACT This paper reports the experiments conducted by the environmental education projectdeveloped in the community of Praia das Fontes, Ceara-Beberibe, comprising on average 35children. The project aims to ensure that children have an awareness of the socio-environmentalproblems of the site and that together they can act to improve the area. Physical geography has alink to environmental education. Physical geography has aided in the theoretical and technical.Through the knowledge acquired in the course of Geography is that it is possible to developactivities for children passing on a language accessible throughout the mechanism governing thebeach of sources, focusing on the main geoenvironmental units in the area such as dune fields,cliffs, full of beach ponds. The tracks performed with children contribute to a better visualization ofthe phenomena, since they know they have in the area, but not how it works and workshopscontribute to better learning. KEYWORDS: environmental education, coastal communities, geography. INTRODUÇÃO O Laboratório de Climatologia e Recursos Hídricos do curso de Geografia da UniversidadeFederal do Ceará realiza pesquisas e desenvolve suas atividades através da atuação de projetos deextensão universitária com temáticas sobre Educação Ambiental, Educação Indígena e Produção deMateriais Didáticos. O Laboratório dispõe de um quadro de oficinas temáticas, cursos e palestrasque são utilizadas nas ações realizadas na comunidade, onde a escola está envolvida através daparticipação de professores e alunos, associação de bairro, sendo envolvidas as liderançascomunitárias, os agentes de saúde e outros indivíduos. Por meio de visitas à comunidade sãorealizadas palestras, oficinas e mini-cursos tornando possível ampliar e aprofundar as interaçõesentre o conhecimento científico e as experiências da comunidade.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 96 Dentre os diversos projetos de educação ambiental que o Laboratório desenvolve destaca-se o de Educação Ambiental em Comunidades Costeiras. Este artigo relata as experiênciasdesenvolvidas na comunidade da Praia das Fontes, município de Beberibe-Ceará, contemplando emmédia 35 crianças. O projeto visa fazer com que as crianças tenham uma consciência em relaçãoaos problemas sócioambientais do local e que juntas possam atuar na melhoria da área. As ações doprojeto ocorrem na Escola Municipal Raimundo Fagner, com o apoio da Associação de Moradoresda Praia das Fontes. As crianças envolvidas com as atividades relacionadas são incentivadas einformadas para atuarem como agentes multiplicadores das ações de Educação Ambiental em suacomunidade. A comunidade da Praia das Fontes situa-se no município de Beberibe, litoral leste doCeará, com aproximadamente 200 famílias vivendo de atividades ligadas a agricultura, pesca,comércio e turismo. A Praia das Fontes possui uma diversidade de paisagens composta por faixa de praia,campos de dunas, lagoas e um extenso corredor de falésias com areias multicoloridas que sãolapidadas pela ação marinha e pluvial. Devido a esta diversidade de paisagens, a praia tem atraídoturista e muitos investidores imobiliários que construíram hotéis em áreas de preservaçãopermanente e que continuam a se expandir na praia (SILVA, 2008). Destacamos inicialmente a experiência vivenciada durante os anos de 2007, 2008 e 2009na comunidade da praia das Fontes. Paralelamente houve a criação da Sala de Leitura Pedro Gomesdo Nascimento (figura 01) pelo trabalho conjunto entre a escola e a comunidade. Figura 01: Sala de Leitura Pedro Gomes do Nascimento – Funciona como mais um espaço para a leitura A questão ambiental trabalhada na comunidade, direciona-se do local para o global, pois acomunidade é alvo de propagandas mercadológicas voltadas para o potencial turístico que oGoverno do Estado propõe e que chega a diversos países com essa característica. Logo, a populaçãovê seu litoral preenchido por turistas, trazendo novas culturas exploratórias, fazendo com quemuitas famílias se afastem do seu aconchego nativo (FREITAS, 2009). O projeto possibilitará que outras comunidades possam conhecer o que está sendodesenvolvido na praia das Fontes e com os resultados obtidos através da Sala de Leitura e daEducação Ambiental, possam inserir esses ideais na sala de aula ou até desenvolver projetoseducativos de maior alcance. Além do que, a própria população deve conhecer ainda mais essesprojetos educativos e com eles se envolver, principalmente os familiares dos alunos. METODOLOGIA Para se obter os objetivos propostos fizeram-se necessários alguns procedimentos teórico-metodológicos que auxiliaram na compreensão do tema. Como referencial teórico utilizamos osprincípios e práticas da Educação Ambiental do Programa Nacional de Educação Ambiental, umprograma elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente (2005). Este documento lista 20 objetivos
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 97da Educação Ambiental, e nós consideramos interessante e que nos é válido para a realização doprojeto na comunidade alguns como: ● Criar espaços de debate das realidades locais para o desenvolvimento de mecanismos dearticulação social, fortalecendo as práticas comunitárias sustentáveis e garantindo a participação dapopulação nos processos decisórios sobre a gestão dos recursos ambientais; ● Incentivar iniciativas que valorizem a relação entre cultura, memória e paisagem – sob aperspectiva biofilia -, assim como a interação entre os saberes tradicionais e populares e osconhecimentos técnico - cientifico; ● Difundir a legislação ambiental, por intermédio de programas, projetos e ações deeducação ambiental. O propósito da Educação Ambiental é a conscientização das pessoas em relação ao uso doMeio, assim é necessário que se tenha um conhecimento do mesmo, sua formação, sua importância.Para isso foi utilizado também como embasamento teórico conceitos da Geografia Física, no que serefere às explicações a cerca da dinâmica natural. Para Guimarães (2005) essa demanda pela Educação Ambiental, não só decorrente dosaspectos legais, mas também dos problemas ambientais vivenciados por toda a sociedade, provoca anecessidade deformar profissionais aptos a trabalhar com essa nova dimensão do processoeducativo. A Educação Ambiental no Brasil é regulada pela Política Nacional de Educação Ambiental- PNEA, instituída pela lei nº. 9795, de abril de 1999, que definiu os seus princípios básicos dentreos quais se destaca o enfoque democrático e participativo, a concepção de ambiente em suatotalidade e a garantia de continuidade e permanência do processo educativo. "Processo em que se busca despertar a preocupação individual e coletiva para a questãoambiental, garantindo o acesso à informação em linguagem adequada, contribuindo para odesenvolvimento de uma consciência crítica e estimulando o enfrentamento das questões ambientaise sociais. Desenvolve-se num contexto de complexidade, procurando trabalhar não apenas amudança cultural, mas também a transformação social, assumindo a crise ambiental como umaquestão ética e política”. (Política Nacional de Educação Ambiental - Art. 1o da Lei nº. 9.795 de abril de 1999). Segundo Guimarães (2005), o educador ambiental, como liderança que pretenda contribuirpara a superação dos problemas ambientais, não se contenta em promover intervenções pontuais decaráter meramente informativo. Esse processo deve ser educativo tem que ser potencializador,gerador de movimento, impulsionando o processo de transformação social. A relação Universidade-Comunidade é importante para que se compartilhem experiências,nesse caso especifico conteúdos aprendidos no curso de Geografia sendo trabalhado através deatividades com as crianças da comunidade da Praia das Fontes, onde foi utilizada uma linguagemacessível para explicar o mecanismo que rege a Praia das Fontes, enfocando as principais UnidadesGeoambientais da área como os campos de dunas, falésias, faixa de praia, lagoas, etc. Além do referencial teórico, os procedimentos técnicos adotados foram à elaboração deuma série de oficinas, trilhas ecológicas, exposições e dinâmicas, visando um máximo deesclarecimento e de entendimento sobre o meio ambiente e o local em que vivem. RESULTADOS: RELATOS DAS EXPERIÊNCIAS O projeto iniciou-se com uma oficina sobre Lixo (tabela 01) juntamente com um mutirãode limpeza da praia (figuras 03 e 04). No primeiro momento criam-se concepções sobre o que élixo, como ele pode ser prejudicial ao homem, como o lixo pode ser dividido (figuras 05) para serreutilizado e qual o tempo de decomposição de cada tipo de lixo.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 98Figura 03: Início da trilha na praia Figura 04: Mutirão de limpeza na Figura 05: Explicação sobre os praia tipos de lixo TABELA 01 – Dinâmicas executadas na oficinaDINÂMICA DESCRIÇÃO OBJETIVO1 Apresentação de cada participante da oficina Proporcionar uma maior interação eApresentação favorecer um maior reconhecimento entre os participantes.2 Dinâmica Os participantes são dispostos um ao lado do outro e Ressaltar a importância dadas mãos colocados em círculo, onde eles iram observar quem estar do colaboração entre as pessoas. E que seu lado esquerdo e direito, em seguida é pedido para que eles essa colaboração é de fundamental se movimentem entre eles, depois é pedido para pararem de se importância para a preservação do movimentar e para dar as mãos, sem sair do lugar, para o meio ambiente. companheiro que estava do seu lado esquerdo e direito. Logo após é pedido para que eles tentem formar um circulo igual ao feito no começo a dinâmica, contudo não é permitido que soltem as mãos.3 – Dinâmica Pede-se a cada participante que pegue um material reciclado e Proporcionar uma reflexão ecom dados19 coloque na caixa de cor correspondente ao tipo de produto. visualizar qual a percepção desta Caixa azul: papel (jornais, revistas, formulários contínuos, pessoa sobre o tema tratado. folhas de escritório, caixas, papelão, etc). Caixa amarela: metal (latas de aço e de alumínio’, clipes, grampos de papel e de cabelo, papel alumínio). Caixa verde: vidro (garrafas, copos, recipientes). Vale ressaltar que nesta dinâmica, para evitar o manuseio de vidro, optou-se por escrever o nome do objeto em seu correspondente de plástico.4 – Dinâmica Cada participante desenha algo que queira e que esteja Observar e discutir a percepçãodo desenho relacionado com o tema. No final sorteiam-se três pessoas ambiental de cada participante além para explicar os seus desenhos. de promover a socialização entre eles. Assim passa-se a trabalhar os temas a partir da percepção de cada participante.5 – Trilha na Como ultima atividade a ser realizada, foi feita uma trilha ao Coletar o lixo encontrado ao longopraia longo da praia. Em mutirão com todos os participantes da trilha, discutir sobre alguns coletou-se o lixo ao longo da trilha. problemas que a comunidade enfrenta e ressaltar as belezas naturais encontradas ao longo da trilha.19 Vale ressaltar que o processo de construção dos dados segue as seguintes etapas:1º Material utilizado: duas caixas de papelão em forma de quadrado, fita adesiva, cola, cartolina, tesoura, e imagens depaisagens.2º Cortam-se as folhas de cartolina, de acordo com o tamanho de cada lado da caixa.3º Em seguida, com o auxilio da cola e da fita adesiva, cola-se a cartolina cortada em cada lado da caixa, até cobrirtodos os lados da caixa.4º Colam-se as imagens de paisagens em cada lado do dado.O mesmo processo se repete para a construção do segundo dado, no entanto no lugar de imagens de paisagens,colocam-se frases que façam as pessoas refletirem.Cabe ressaltar que vários tipos de dados podem ser feitos, depende do assunto de cada oficina, no caso desta optou-sepor utilizar imagens da região onde a oficina foi ministrada.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 99 A segunda oficina trabalhou-se o aproveitamento de resíduos sólidos para a confecção debrinquedos (figuras 06 e 07). Figura 06: Confecção da peteca Figura 07: Confecção de Brinquedos com Resíduos Sólidos Realizou-se uma Gincana Interdisciplinar, traçando como objetivo principal, praticar oconhecimento que os alunos detinham a cerca do meio ambiente, focalizando os ecossistemaslitorâneos, aprimorando os saberes e analisando o perfil de conhecimento dos alunos a partir dosaber cotidiano. Participaram um total de 20 alunos, em conjunto com a participação da professorada escola e integrantes da comunidade (figuras 08). Figura 08: Gincana – momento de realização de uma tarefa Foram realizadas as seguintes atividades: um diálogo inicial sobre a temática trabalhada,lembrando as diferentes paisagens encontradas na localidade, indicando-se assim um mapeamentosobre a percepção do litoral no cotidiano dos participantes. Os alunos foram divididos em equipespara responder as perguntas sobre conhecimentos específicos de Geografia e Meio Ambiente,seguindo com uma leitura para se contar uma história local e por fim discutimos sobre a temática deuma música de contexto ecológico. Uma atividade de crucial importância no desenvolvimento do projeto foi à realização daoficina com a temática: Unidades Geoambientais. Nela construímos juntamente com as criançasmaquetes, representando as paisagens que eram reconhecidas por eles, realizamos uma trilha epercebemos que eles identificavam e conheciam cada unidade, entretanto não sabiam o que eramexatamente nem como se formaram, alguns nunca tinham visto de perto o Monumento Natural dasFalésias. Dessa maneira dividiu-se essa atividade em duas, sendo a parte teórica onde seconstruíram maquetes (Figura 09) para facilitar a identificação das unidades por eles e a prática, naqual reconheceram-se cada unidade de paisagem.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 100 Figura 10: Maquete de representação de lagoa costeira e Na parte teórica trabalhou-se a dinâmica de formação das lagoas, das falésias, da praia e ocuidado que a comunidade deve ter com o meio. Um fato importante notado foi o quanto elessabiam sobre o assunto, às vezes de maneira popular e outras de maneira cientifica, tentamos fazercom que eles firmassem esse conhecimento. Para desenvolver essas atividades firmaram-se parcerias com a prefeitura e a associação debugueiros do município, que disponibilizaram três bugues (Figura 11) para que se pudesse realizar atrilha com 13 crianças (Figura 12). A trilha saiu da Praia das Fontes e seguiu-se em direção a Praiade Morro Branco, onde se localiza o Monumento Natural das Falésias (figura 13), de lá se seguiu,pela faixa de praia, para a Lagoa do Uruaú, durante o percurso pode-se observar toda a planícielitorânea e suas fácies (faixa de praia, pós-praia, campo de dunas, mar litorâneo, falésias e lagoas)finalizamos a trilha na Lagoa do Uruaú.Figura 11: Caminho para a praia de Figura 12: Crianças que participaram da Figura 13: Trilha no MonumentoMorro Branco trilha. Natural das Falésias Percebeu-se a necessidade de trabalhar a questão sobre manguezal com as crianças, apesarde na comunidade não haver manguezal, eles tinham um conhecimento sobre o assunto, pois muitosdos pais viviam da exploração do mangue. Nessa oficina mostrou-se a eles, a importância desseecossistema para as comunidades pesqueiras, pois o mangue produz mais de 90% dos alimentoscapturados do mar pelo homem. Relatou-se sobre a importância da preservação do manguezal e autilização sustentável do mesmo já que ele é de grande importância para a dinâmica costeira. Pediu-se para que as crianças desenhassem sobre o que entenderam da oficina em seguida foi utilizadauma musica sobre mangue. Outra oficina realizada na comunidade da Praia das Fontes foi a Agenda 21. O objetivodesta oficina foi discutir a importância da Agenda 21 como um compromisso com o meio ambiente,buscando realizar ações de melhoria não só ambiental, mas o social também. Iniciou-se a oficinaperguntando o que tinha de bom e de ruim na comunidade e o que se poderia fazer para melhorar.As crianças tiveram uma avaliação muito crítica da comunidade, onde o principal problema paraelas são os piquiniqueiros que freqüentam a praia dia de domingo e jogam o lixo na praia. Destemodo, foi feito um dia de conscientização na praia com os freqüentadores, distribuindo sacos delixo e pedindo para que eles não jogassem o lixo na praia e sim no saco distribuído e depoiscolocassem nos tambores de lixo que tem na praia. A partir desta oficina foi criada a comissão dacriação da Agenda 21 das crianças na Praia das Fontes. Outras oficinas serão realizadas para aconstrução da agenda 21.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 101 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES As oficinas tiveram uma participação total das crianças, com muito empenho e criatividadena realização das atividades. Destaca-se também a consciência das crianças em relação à ocupaçãoindevida sobre as falésias e como estas podem atuar na comunidade, fazendo com que o meio-ambiente da Praia das Fontes juntamente com a sua Unidade de Conservação seja respeitado epreservado. No decorrer do projeto, outras oficinas serão ministradas visando assuntos que sejamimportantes para a área. A Geografia, como outras disciplinas escolares é um meio didático de mostrar às criançasalgumas das diversas conseqüências da expansão da ocupação na praia das Fontes. Muitos dacomunidade já compreendem os resultados, percebem através da movimentação de turistas nosfinais de semana, pelo trabalho dos pais e até pela quantidade de lixo que se é deixado após ospiqueniques de visitantes. A comunidade da praia das Fontes já apresenta um percurso histórico escolar dinamizadoque ganhou novas dimensões a partir do momento que permitiu-se trabalhar com projetoseducativos que estivessem suporte escolar. A Sala de Leitura Pedro Gomes pode ser desvendada como instrumento depossibilidade de desenvolvimento da E.A. como também, símbolo da prática educativa comomodelagem local, no qual as atividades e características da Sala possibilitam visualizar comotrabalhar a partir do local o regional ou vice-versa, mas como enfoque, podemos expor a Sala comorecurso metodológico da educação ambiental. Na praia das Fontes existem disputas entre empresários de equipamentos turísticos ecomunidade local, principalmente em questão de espaço e meio ambiente. Parte da populaçãobeneficia-se com o turismo, porém existe uma grande hierarquia em cargos e funções. Outraquestão que podemos destacar é a formação profissional dos que já estão inseridos nos serviçosprestados aos turistas, pois verificamos que os buggeiros e comerciantes não apresentam umaformação adequada a área. Os atrativos da localidade se tornaram produto turístico, pois existiram investimentosestruturais, porém um planejamento turístico, social e ambiental necessita de uma novaconfiguração, nesse contexto se faz necessárias avaliações periódicas na busca de um turismointegrado. Como forma de agregar as características locais, refletindo as influências regionais, aeducação ainda continua uma prática social viável a todas as populações, independente daexistência de problematizações, sejam essas referentes a dinâmica local, aos materiais didáticosescolares ou aos espaços diferenciais. REFERÊNCIAS BRASIL. Congresso. Senado. Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. Regulamenta o art.225, § O 1 , incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional deUnidades de Conservação da Natureza e dá outras providências. Diário Oficial [da] RepúblicaFederativa do Brasil, Brasília, DF, 18 julho, 2000. FREITAS, B.M.R. Educação Ambiental e Sala de Leitura: Alternativas para o Ensino deGeografia. Universidade Federal do Ceará, Curso de Geografia, 2009 (Trabalho de Graduação deLicenciatura). GUIMARÃES, Mauro. Educação ambiental: no consenso, um embate? Campinas:Papirus, 2000. SATO, Michele. Educação ambiental. São Carlos: Rima 2002. SILVA, J.M.O. Monumento Natural das Falésias: diretrizes para o planejamento egestão ambiental. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-Graduação emGeografia, 2008. (Dissertação de Mestrado).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 102 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E CONSUMO NA PERCEPÇÃO DOS ESTUDANTES DE ENSINO MÉDIO EM ESCOLA PÚBLICA ESTADUAL NA CIDADE DE CATALÃO – GOIÁS Klayton Marcelino de Paula Mestrando em Geografia. Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão klaytonmarcelino@yahoo.com.br Ana Gizelle da Silva Mestranda em Geografia. Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão anagizelles@yahoo.com.br Manoel Rodrigues Chaves Orientador: Prof. Dr. (UFG). Órgão Financiador: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás – FAPEG ABSTRACT Environmental changes of anthropogenic origin, waving with a series of impacts in Brazil,ranging from changes in agricultural production to public health including population displacementin the regions of the semi-arid toward the states of south and southeast as the most developed. Thehuman performance, in charge of growing environmental problems, promotes uncontrolledexploitation of natural resources, many non-renewable, to meet the demands of the global consumermarket with goods increasingly less disposable and biodegradable. This whole discussion involvingthe environment must pass the school, according to INEP last updated on 13/08/2009 were recordedthis year, 8.369.369 in the national enrollment average of which 69.999 are in schools federal,7.239,523 in the state, 163.779 in city and 897.068 in private. These 8.369.369 adolescents enrolledin high school education are consumers, workers who benefit from goods, facilities and servicesprovided by the modern world. It is urgent to understand how the perception of high school studentsin public school in relation to consumption stimulated by the capitalist system and address issuesrelated to environmental education, learn ways to this study being efficient, provide students withmeans of knowledge environmental issues and realize that part of the process as a transformingagent of the environment, and the real possibilities didactic/methodological in public schools todiscuss environmental education and consumption. KEYWORDS: Environmental education. Public school. High school. Teaching. RESUMO As mudanças ambientais de origem antrópica, acenam com uma série de impactos que, noBrasil, vão desde mudanças na produção agropecuária à área da saúde pública incluindodeslocamentos populacionais das regiões do semi-árido em direção aos estados do sul e sudesteconsiderados mais desenvolvidos. A atuação humana, responsável pelos crescentes problemasambientais, favorece a exploração desordenada dos recursos naturais, muitos não renováveis, paraatender à demanda do mercado de consumo global com mercadorias cada vez mais descartáveis emenos biodegradáveis. Toda essa discussão envolvendo o meio ambiente deve passar pela escola,segundo os dados do INEP atualizados em 13/08/2009 foram contabilizadas, neste ano, em redenacional 8.369.369 matrículas no ensino médio das quais 68.999 são nas escolas federais, 7.239.523nas estaduais, 163.779 nas municipais e 897.068 nas particulares. Esses 8.369.369 adolescentesmatriculados nas séries do ensino médio são consumidores, trabalhadores que usufruem dasmercadorias, comodidades e serviços disponibilizados pelo mundo moderno. É urgentecompreender como é a percepção dos estudantes de ensino médio de escola pública estadual emrelação ao consumo estimulado pelo sistema capitalista e a abordagem das questões relacionadas àEducação Ambiental, conhecer caminhos para que este estudo se torne eficiente, proporcionar aosestudantes meios de conhecimento a respeito das questões ambientais e que se percebam parteintegrante do processo como agente transformador do ambiente, e as reais possibilidadesdidático/metodológica das escolas públicas para discutir Educação Ambiental e Consumo.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 103 PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Escola pública. Ensino médio. Práticaspedagógicas. INTRODUÇÃO A Educação Ambiental tem sido apresentada como uma modalidade de educaçãopreocupada com a análise e interpretação dos problemas ambientais, sendo reconhecida comoinstrumento decisivo para promover as mudanças na humanidade desde a Conferência deEstocolmo (ONU, 1972) e prática educativa integrada, contínua e permanente com abordagemtransdisciplinar nas escolas em todas as modalidades e fases do ensino de acordo com a Lei n°9.795, de 27 de abril de 1999. Nesse contexto, a educação assume posição de destaque paraconstruir os fundamentos da sociedade sustentável, propiciando os processos de mudanças culturaisem direção à instauração de uma ética ecológica individual e social. Diante do exposto, questionam-se quais princípios teórico-metodológicos e estratégias educativas podem promover avanços nosestudos da Educação Ambiental? Como construir uma proposta metodológica que ajude a tornar oestudo mais objetivo possível, porém não-neutro? Como discutir consumo no mundo atual levandoem conta todas as facilidade e comodidades que o consumo oferta? A complexidade do significado e da representação da Educação Ambiental noambiente escolar vai mais além, será a Educação Ambiental uma prática pedagógica voltada àconservação na natureza? Promover desenvolvimento sustentável? Religar o humano à natureza,como se não fossem pertencentes à mesma essência? Seria mudança de comportamento e atituderelacionada ao consumo para algo mais ecologicamente correto? Portanto, é no sentido de promover a articulação das ações educativas voltadas àsatividades de conscientização, proteção, recuperação de valores éticos e morais no trato com anatureza, melhoria socioambiental, e de potencializar a função da educação para as mudançascomportamentais, que se deve pensar a qualidade da abordagem das questões ambientais noambiente escolar. O debate sobre Educação Ambiental e Consumo deve estar presente na práticadocente, sem ser um discurso vazio, há que fugir do lugar-comum da crítica apenas pela crítica. JUSTIFICATIVA Meio ambiente, Educação ambiental, Consumo, Poluição, Política, todos esses temase outros tantos estão nas pautas das conversar informais, nas manchetes dos jornais e no noticiárioda TV, não há uma única pessoa que nunca tenha proferido um discurso crítico sobre essesassuntos, porém, tão logo passe esses momentos onde se tenta resolver os problemas mundiaisnuma roda de amigos, tudo continua como antes, isso significa que não há falta de informação sobreas questões ambientais, não há falta de projetos mitigadores, há uma infinidade de ONGs comproposta de salvação do planeta, porém, ainda persistem e aumentam a cada dia as agressões ànatureza em todos os sentidos. Isto é resultado da falta de qualidade, embasamento, credibilidade,seriedade, compromisso com as questões que envolvam meio ambiente. Não precisaríamos de Educação ambiental, se a humanidade fosse educada de formaampla e completa, educação e nada mais, aprender a respeitar o próximo entendendo esse próximocomo tudo que está a nossa volta. A educação ampla é função da família e da escola. A escola, ao definir seu Projeto Político Pedagógico - PPP deve propiciar condiçõespara que o estudante conheça os fundamentos básicos da investigação científica; reconhecer aciência como uma atividade humana em constante transformação, fruto da conjunção de fatoreshistóricos, sociais, políticos, econômicos, culturais, religiosos e tecnológicos, e, portanto, nãoneutra; compreender e interpretar os impactos do desenvolvimento científico e tecnológico nasociedade e no ambiente. Reconhecendo que os principais temas referem-se à compreensão da vidana Terra, das consequências dos avanços tecnológicos e da intervenção humana. A família aos poucos perde sua característica de formadora da ética e da moralsocial. Independente da durabilidade das uniões, o compromisso com a formação do caráter da proleé de responsabilidade dos seus genitores, porém a educação dos filhos é fortemente permissiva e
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 104consumista, talvez compensado a falta de atenção preenchida com mercadorias, presentes,gratificações para os olhos brilhantes de quem recebe um agrado material quando falta o afetivo. [...] Enquanto a cultura geral comportava a incitação à busca da contextualização de qualquer informação ouidéia, a cultura científica e técnica disciplinar parcela, desune e compartimenta os saberes, tornando cada vez maisdifícil sua contextualização. [...] Daí decorre o paradoxo: o século XX produziu avanços gigantescos em todas as áreasdo conhecimento científico, assim como em todos os campos da técnica. Ao mesmo tempo, produziu nova cegueirapara os problemas globais, fundamentais e complexos, e esta cegueira gerou inúmeros erros e ilusões, a começar porparte dos cientistas, técnicos e especialistas. Por quê? Porque se desconhecem os princípios maiores do conhecimentopertinente. O parcelamento e a compartimentação dos saberes impedem apreender “o que está tecido junto”.[...] Aeducação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana. Estamos na era planetária;uma aventura comum conduz os seres humanos, onde quer que se encontrem. Estes devem reconhecer-se em suahumanidade comum e ao mesmo tempo reconhecer a diversidade cultural inerente a tudo que é humano. Conhecer ohumano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele, todo conhecimento deve contextualizar seuobjeto, para ser pertinente. “Quem somos?” É inseparável de “Onde estamos?”. “De onde viemos?”, “Para ondevamos?” (MORIN, 2002, p. 41 - 47). Não há tempo disponível pra discutir ou delegar funções entre escola e família,ambas estão despreparadas para formar esse cidadão completo e educado amplamente. A escolaenquanto espaço físico está sucateada e desfalcada de recursos, e enquanto componente humanoestá despreparada desde a formação universitária dos docentes. A escola se ressente com tantasobrigações delegadas a ela e por outro lado a família entende ser obrigação unicamente da escola aformação do cidadão consciente. É preciso avaliar a forma da abordagem das questões ambientais e principalmenteproporcionar ao estudante meios para estabelecer comparações, perceber impasses, contradições,desafios ambientais de nível local e global. A problemática ambiental – a poluição e degradação do meio, a crise de recursos naturais, energéticos e dealimentos – surgiu nas últimas décadas do século XX como uma crise de civilização, questionando a racionalidadeeconômica e tecnológica dominantes. Esta crise tem sido explicada a partir de uma diversidade de perspectivasideológicas. Por um lado, é percebida como resultado da pressão exercida pelo crescimento da população sobre oslimitados recursos do planeta. Por outro, é interpretada como o efeito da acumulação de capital e da maximização dataxa de lucro a curto prazo, que induzem padrões tecnológicos de uso e ritmos de exploração da natureza, bem comoformas de consumo, que vêm esgotando as reservas de recursos naturais, degradando a fertilidade dos solos e afetandoas condições de regeneração dos ecossistemas naturais. A problemática ambiental gerou mudanças globais em sistemassocioambientais complexos que afetam as condições de sustentabilidade do planeta, propondo a necessidade deinternalizar as bases ecológicas e os princípios jurídicos e sociais para a gestão democrática dos recursos naturais. Estesprocessos estão intimamente vinculados ao conhecimento das relações sociedade-natureza: não só estão associados anovos valores, mas a princípios epistemológicos e estratégias conceituais que orientam a construção de umaracionalidade produtiva sobre bases de sustentabilidade ecológica e de equidade social. Desta forma a crise ambientalproblematiza os paradigmas estabelecidos do conhecimento e demanda novas metodologias capazes de orientar umprocesso de reconstrução do saber que permita realizar uma análise integrada da realidade. Uma das principais causasda problemática ambiental foi atribuída ao processo histórico do qual emerge a ciência moderna e a RevoluçãoIndustrial. Este processo deu lugar à distinção das ciências, ao fracionamento do conhecimento e àcompartimentalização da realidade em campos disciplinares confinados, com o propósito de incrementar a eficácia dosaber científico e a eficiência da cadeia tecnológica de produção. A partir dessa premissa, iniciou-se a busca por ummétodo capaz de reintegrar esses conhecimentos dispersos num campo unificado do saber. Desta forma a análise daquestão ambiental exigiu uma visão sistêmica e um pensamento holístico para a reconstrução de uma realidade “total”.Daí propôs um projeto para pensar as condições teóricas e para estabelecer métodos que orientem as práticas dainterdisciplinaridade. (LEFF, 2007, p. 61 e 62). Portanto, é no sentido de promover a articulação das ações educativas voltadas àsatividades de conscientização, proteção, recuperação de valores éticos e morais no trato com anatureza, melhoria socioambiental, e de potencializar a função da educação para as mudançascomportamentais, que se deve pensar a qualidade da abordagem das questões ambientais na escolana intenção que esse conhecimento adquirido seja levado adiante na futura vida familiar eprofissional dos estudantes. Caracterização da área da pesquisa A pesquisa foi realizada na cidade de Catalão a sudeste do estado de Goiás divisacom Minas Gerais, localiza-se à latitude 18º 9’ 57” sul e à longitude 47º 56’ 47” oeste e à altitudede 835 metros, sua população foi recenseada em 2007 como sendo de 75.623 habitantes, seu PIB de
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 105mais de 2,5 bilhões de reais em 2007 que o coloca como a sexta maior economia do Centro-Oeste ea terceira de Goiás neste ano. Possui área de aproximadamente 3778 km². Também da nome aodistrito sede do município (os outros dois são Pires Belo e Santo Antônio do Rio Verde) e a umamicrorregião do Estado de Goiás, formada pelos municípios de Catalão, Ipameri, Ouvidor, TrêsRanchos, Davinópolis, Goiandira, Cumari, Nova Aurora, Anhanguera e Corumbaíba. O Colégio Estadual Polivalente Dr. Tharsis Campos está situado à Avenida JoséMarcelino s/n°, Bairro Nossa Senhora de Fátima em Catalão-GO, esta é a principal avenida deacesso à cidade para quem entra pelo estado de Minas Gerais passando pelas cidades mineiras deUberlândia e Araguari, a avenida é basicamente comercial, porém o bairro como um todo é decaracterística residencial, sendo um dos mais antigos da cidade devido a isso os moradores são emgeral de pessoas com mais idade havendo poucos jovens. A escola contabilizou no ano letivo de 2009 o número de 664 alunos matriculados,destes, 499 no ensino médio, e os demais nas séries do ensino fundamental 8° e 9° anos. Em 2010 jásão 530 matrículas confirmadas para o Ensino Médio até a presente data (março de 2010) asmatriculas continuam em aberto e esperam-se novos alunos oriundos da vizinha Escola EstadualDavid Persicano que teve extinguido em 2010 suas turmas de Ensino Médio ficandoexclusivamente com Ensino Fundamental. A escola possui 30 professores e 32 funcionários administrativos, 1 laboratório deinformática com 20 computadores conectados a internet, 1 laboratório de ciências equipado com 10microscópios ópticos, 2 microscópios esteroscópicos, vidraria completa, 1 balança digital ereagentes diversos utilizados nas aulas práticas, 1 biblioteca, 1 oficina de artes, 1 sala de leitura, 1sala de vídeo com TV LCD e aparelho de DVD, acervo histórico com objetos antigos doados pelacomunidade e objetos da própria escola, auditório com equipamentos de som e imagem (DVD eVHS) e projetor de multi mídia. O Colégio Polivalente foi fundado em maio de 1979 com a proposta de escolaprofissionalizante ofertando no currículo do Ensino Fundamental disciplinas como: técnicasindustriais, técnicas comerciais e técnicas agrícolas. Para estas disciplinas contava com maquináriode marcenaria e serralheria, mobiliário simulando uma loja e o espaço da horta. Aprendia-se atrabalhar com madeira, ferragens, atendimento comercial e o trato com a terra desde o plantio até acolheita. O ensino das disciplinas profissionalizantes foi extinto no início da década de 1990,ficando caracterizada como escola de Ensino Médio. O Colégio atende alunos dos bairros: Nossa Senhora de Fátima, Santa Terezinha,Castelo Branco, Pontal Norte, São Francisco, Santo Antônio, bairro JK e zona rural, Fazenda dosCasados e Comunidade Cisterna. A renda média geral das famílias é entre 2 a 5 salários mínimos, aprincipal fonte empregadora são as empresas de extração de minérios, montadoras de veículos eempresas terceirizadas. As turmas do turno matutino são de alunos mais jovens que ainda não foramintroduzidos no mercado de trabalho, os alunos do vespertino são em grande parte da zona rural deCatalão (GO) e os alunos do noturno são mais adultos e em grande maioria, trabalhadores nasindústrias e comércio local. Metodologia da pesquisa Para a realização da pesquisa foi feito o estudo dos Parâmetros CurricularesNacionais para o Ensino Médio, Orientações Curriculares para o Ensino Médio que tratam doestudo transdisciplinar da Educação Ambiental e a Lei nº. 9.795/99, que dispõe sobre a educaçãoambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e da outras providências, entre elas, aobrigatoriedade da abordagem ambiental em todas as séries e modalidades de ensino. Foi aplicadoquestionário aos alunos das 3ª séries do ensino médio matutino e noturno do Colégio EstadualPolivalente Dr. Tharsis Campos em Catalão-GO. Foram entrevistados um total de 80 estudantes, deste total, 40 foram do turnomatutino sendo 28 mulheres e 12 homens com idades entre 16 a 20 anos e 40 estudantes do turnonoturno sendo 25 homens e 15 mulheres com idades entre 16 a 21 anos, a entrevista tentou revelar
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 106um pouco do perfil e modelo de consumo dos estudantes, bem como, o perfil dos alunos queestudam de manhã e dos que estudam a noite. Resultados Das 40 entrevistas pela manhã, 35 estudantes possuem aparelho celular, 24 possuemcomputador de mesa, 7 possuem computador portátil e 19 possuem MP3 ou outro similar. Emrelação ao tempo que permanecem com esses aparelhos, 2 afirmaram trocar a cada seis meses, 12trocam uma vez ao ano principalmente celular e 26 permanecem com o mesmo aparelho por maisde um ano. O destino dos aparelhos usados, 24 disseram que revendem ou doam aos amigos oufamiliares, 16 simplesmente deixam em casa e ninguém descarta o aparelho antigo no lixodoméstico. A manutenção financeira dos estudantes, para 29 deles fica a cargo dos pais ou outroresponsável, 2 são por conta dos cônjuges e 9 afirmam serem eles mesmos os responsáveis pelasdespesas. Na compra de roupas e sapatos 26 revelam que compram todos os meses, 9 compram acada seis meses e 5 passam mais de seis meses sem comprar peças de vestuário. Sobre o consumode alimentos industrializados, tipo refrigerante e salgadinhos, 17 dizem consumir todos os dias, 19somente nos finais de semana e 4 somente em ocasiões especiais como uma festa, todos afirmamconsumir alimentos naturais no dia a dia. Das 40 entrevistas no período noturno, 38 estudantes possuem aparelho celular, 22possuem computador de mesa, apenas 6 possuem computador portátil e 11 possuem MP3 ou outroaparelho similar. Em relação ao tempo que permanecem com esses aparelhos, 2 afirmaram trocar acada seis meses, 16 trocam uma vez ao ano principalmente celular e 22 permanecem com o mesmoaparelho por mais de um ano. O destino dos aparelhos usados, 1 revelou descartar no lixo domésticocomum, 26 repassam a terceiros vendendo ou doando e 13 deixam o aparelho velho em casa. Amanutenção financeira dos estudantes, para 14 deles fica a cargo dos pais ou outro responsável, 2são sustentados pelos cônjuges e 24 se mantém com o próprio trabalho. Na compra de roupas esapatos 19 revelam comprar todos os meses 18 compram a cada seis meses e 3 passam mais de seismeses sem comprar peças de vestuário. Sobre o consumo de alimentos industrializados, tiporefrigerante e salgadinhos, 23 dizem consumir todos os dias, 13 apenas nos finais de semana e 4somente em ocasiões especiais como uma festa, todos afirmam consumir alimentos naturais no dia adia. Considerações finais Em linhas gerais, os alunos no matutino são mantidos pelos pais e os do noturno sãoresponsáveis pelas próprias despesas, isso determina os perfis de consumo, enquanto os alunos domatutino se preocupam com a marca do celular e o trocam com freqüência, os do noturno sepreocupam com o valor do aparelho. Percebe-se pela pesquisa que os estudantes da manhã são maisjovens que os do noturno, a grande maioria possuem mais computador de mesa em relação ao donoturno, alguns preferem o computador portátil por ter a opção de levar para a escola ou trabalho.Em relação ao vestuário, os alunos do matutino são mais consumistas e sempre valorizando a marcada roupa ou sapato como status. No noturno há um consumo maior de alimentos industrializados,pois muitos saem do trabalho e vão pra escola e a opção mais fácil e rápida de alimento é compraralgo pronto no supermercado. Todos revelam uma certa preocupação e noções básicas de meioambiente e produção de lixo tecnológico, sabem ou já ouviram falar do perigo de descartar esse tipode material no lixo doméstico. A finalidade da pesquisa não foi apontar hábitos de consumo e classificá-los comocertos ou errados, afinal, estamos todos felizes com nossos aparelhos celulares modernos e ultramodernos, nossos MP 3, 4, 5 e tantos outros MPs, estamos contentes com nossos computadoresportáteis cada vez mais leves, econômicos e rápidos, a questão está, onde e como usufruir, descartarou reciclar o obsoleto? A resposta a isso não virá da população consumidora apenas e nem serápapel da escola indicar um caminho, a escola pode e deve apontar as questões históricas dodesenvolvimento tecnológico, as questões biológicas e químicas da produção de lixo, as questõessociais da produção industrial, trabalho e consumo, porém apontar uma melhoria sócio-ambiental é
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 107tarefa conjunta das grandes empresas produtoras de tecnologia, das revendedoras e é claro, doconsumidor final também. A escola trabalha com conscientização, visitando aterros sanitários, trabalhandotextos, livros, palestras e projetos, mas tudo isso é inócuo em relação à grandiosidade do mundoconsumista, os próprios professores são vítimas do modelo de consumo e da tecnologia. Atecnologia facilitou nossas vidas, isso ninguém pode negar, seja na comunicação, na saúde, narapidez das informações, porém tudo isso teria que ser acessível a toda a população, masinfelizmente o que se observa é a tecnologia se transformar em mais um aspecto de determinismode categoria social. REFERÊNCIAS BARCELOS, Valdo; Educação ambiental : sobre princípios, metodologias e atitudes /Petrópolis RJ. ed. Vozes, 2008. – (Coleção Educação Ambiental). CARVALHO, Isabel C. de Moura. Educação ambiental: a formação do sujeitoecológico /– 2. ed. – São Paulo: Cortez, 2006. DIAS, Genebaldo Freire. Educação ambiental princípios e práticas. 3ª Ed. Editora Gaia.São Paulo 1994. GALIAZI, Maria do Carmo; FREITAS, José Vicente de – Metodologias emergentes depesquisa em educação ambiental. Ijuí : Ed. Unijuí, 2007. (Coleção Educação em Ciências) LEFF, Enrique. Epistemologia Ambiental. 4. ed. – São Paulo : Cortez, 2007. LOUREIRO, Carlos Frederico B; Trajetória e fundamentos da educação ambiental / 2.ed. – São Paulo : Cortez, 2006. Ministério da Educação (MEC), Secretaria de Educação Média e Tecnológica (Semtec).Parâmetros curriculares nacionais para o ensino médio. Brasília MEC/Semtec, 1999. ______Secretaria de Educação Básica. Orientações curriculares para o ensino médio :volume 2. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias Brasília, 2008. Ministério do Meio Ambiente, Programa nacional de educação ambiental – ProNEADiretoria de Educação Ambiental; Ministério da Educação. Coordenação Geral de EducaçãoAmbiental. – 3. ed. – Brasília, 2005. Rede Brasileira de Educação Ambiental; Revista brasileira de educação ambiental / - n.2 (Fev. 2007). – Brasília, 2007
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 108 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E O ALAMBIQUE SAMANAÚ – RN Maracajá, Kettrin Farias Bem Professora da UFRN/Curso de Turismo kettrin@ufrnet.br Dantas, José da Paz Bacharel em Turismo pela FCST paizitopaz@bol.com.br Silva, Vicente de Paulo Rodrigues da UFCG/Unidade Acadêmica Ciências Atmosféricas vicente@dca.ufcg.edu.br RESUMO Nos dias atuais existe uma preocupação constante em relação à educação ambiental comoalternativa sustentável de desenvolvimento econômico em áreas naturais. Porém, para isso énecessário minimizar os impactos ambientais que são constantemente gerados nessa areas. Opresente trabalho discute a Educação Ambiental no Alambique Samanaú – RN e aponta algunsprocedimentos utilizados para minimizar os impactos ambientais provocados pelo cultivo da cana-de-açúcar. O artigo é apresentado através de uma revisão bibliográfica e entrevistas na área deestudo, como parte de um projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade Federal do Rio Grandedo Norte. PALAVRAS-CHAVE: impactos ambientais, áreas naturais, cana-de-açúcar ABSTRACT Nowadays there is a constant concern about environmental education as sustainablealternative for the economic development in natural areas. However, for this it is necessary tominimize the environmental impacts that are constantly generated on such areas. This paperdiscusses the environmental education in the Alembic Samanaú – RN, indicating some proceduresfor reducing the environmental impacts caused by growth of sugar cane. The article is presentedthrough a literature review and interviews in the study area, as part of a research project developedby Federal University of Rio Grande do Norte. KEYWORDS: environmental impacts, natural areas, sugar cane ALAMBIQUE SAMANAÚ A messoregião do Seridó do Estado do Rio Grande do Norte tem grande potencial turísticodevido as suas belezas naturais como a vegetação, o relevo e o clima, além das belezas artificiais,como açudes, barragens e a arquitetura em geral, e seus valores culturais, destacando-se areligiosidade, festejos juninos, artesanato, gastronomia, dentre outros aspectos culturais. Segundo ARAÚJO (2003) em 1994 foi construída no leito do Rio Seridó abarragem Passagem das Traíras, perenizando assim o rio, beneficiando e valorizando toda amessorregião, tornando produtivas aquelas terras que até então só eram aproveitadas paraplantações em épocas chuvosos. Essa construção favoreceu o plantio, dentre outras lavoras, a dacana-de-açúcar, surgindo assim, a idéia da implantação de um alambique para a fabricação dacachaça. Outro fator que influenciou e fomentou a idéia da produção da cachaça foi a altaconcentração de sacarose (açúcar) encontrada na planta, devida às condições climáticas ideais daregião para o desenvolvimento dessa cultura. O senhor Dadá Costa, proprietário da cachaça Samanaú, muito embora nãotenha sido o pioneiro na fabricação de cachaça no Seridó, pois antigamente já existia uma produçãode cachaça na região, mas de maneira rudimentar, ele assumiu o desafio de instalar na sua fazendaum alambique de cobre, com todos os seus aparatos e equipamentos necessários para produzir umacachaça de ótima qualidade. Muitos especialistas no assunto consideram essa cachaça deexcelência, que inclusive já está sendo comercializada para o exterior. O tipo de alambique utilizado
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 109na Samanaú é o mais recomendado para a destilação e fabricação da cachaça artesanal, comotambém é o mais usado no Brasil. A cachaça foi batizada com o nome de Samanaú devido a fazenda, quepertence a família do proprietário há mais de cem anos, encontrando-se localizada na serra deSamanaú. O senhor Dada Costa, citando Câmara Cascudo, afirma que Samanaú significa serra,elevação ou montanha listrada de preto. De fato, observando-se a Serra de São Bernardo seconstatam algumas pedras listradas de preto na antiga Serra de Samanaú. O Rio São Bernardotambém já foi chamado de Rio Samanaú, como também existe um bairro em Caicó com o mesmonome, dentre outros produtos existentes na região com o mesmo nome. Assim, devido a sua importância histórica e cultural, o Alambique Samanaúestá de forma inovadora resgatando o seu nome de origem indígena, principalmente para ter o seureconhecimento histórico da época do Brasil colonial e que o mundo também conheça parte dacultura dessa região semiárida através do consumo de um produto originalmente brasileiro. Outrossim, no que diz respeito a produção de cachaça, a Samanaú não énenhuma novidade. Entretanto, levando-se em consideração a qualidade e a produtividade doproduto, pode-se afirmar que o projeto do Alambique Samanaú é totalmente inovador,estabelecendo um marco na história sócio-cultural e econômica da região Seridó, como também doestado do Rio Grande do Norte. Além disso, esse produto resgata no passado da microrregião doSeridó uma de suas bases de sua economia, bem como mantém vivas as antigas tradições ecostumes de parte do País. ALAMBIQUE SAMANAÚ: UM PATRIMONIO TURÍSTICO NO SERIDÓ A mesorregião do sertão se destaca por uma vasta diversidade de ecossistemas,que estão sendo reduzidos em face das atividades agropastoris. Primeiramente, o grande cicloeconômico na região foi a pecuária, depois veio o ciclo do algodão, fazendo com que o status da regiãofosse elevado, chegando a ser, por muito tempo, o centro econômico e político do Estado do Rio Grandedo Norte. A prova disso é o grande número de governadores, dentre outros políticos influentes, quesaíram dessa região naquela época. Essa messoregião também se destaca pelos seus contrastesclimáticos, principalmente no regime pluviométrico, com grandes períodos de seca intermitentes epequenos períodos de chuva. Apesar disso, o Sertão sempre ofereceu condições suficientes para assobrevivências dos homens e dos animais, devido às técnicas utilizadas para construção de açudes,barragens, poços e similares. Em 1994 foi construída no leito do rio Seridó a barragem Passagem dasTraíras, perenizando, assim, o rio que beneficiou e valorizou aquelas terras que até então eram utilizadaspara plantações nas épocas chuvosas. Essa construção favoreceu, dentre outras lavoras, o plantio dacana-de-açúcar, surgindo assim a idéia da implantação de um alambique para a fabricação de cachaça.Outro fator que também influenciou e fomentou a idéia de produzir aguardente da cana-de-açúcar foi oalto nível de sacarose da planta, devida às condições climáticas da região favoráveis ao plantio dessacultura. A principal finalidade das plantações de cana-de-açúcar no Seridó foi na manutenção dapecuária e na fabricação de rapadura e batida. Essa atividade e produtos já fazem parte da vida dosseridoenses por mais de cem anos. Assim como no contexto nacional, a produção de cachaça não era oprincipal objetivo do plantio, muito embora se fazia necessária para suprir as necessidades do consumo,principalmente em nível familiar, pois, o que sobrava da fabricação da rapadura, os proprietários dosengenhos utilizavam para a fabricação da cachaça, mesmo que de forma rudimentar, em alambiquespequenos e artesanais para ser consumida nas festividades da região, como o natal, “noite de ano”, festasde padroeiros, aniversários, casamentos, batizados, ou até mesmo em comemoração de fim da safra.Esse produto era pouquíssimas vezes utilizado como complemento da renda familiar, assim como emoutras regiões do país, pelo fato do principal objetivo ser para o consumo próprio. Nesse contextodestacou-se no passado o alambique Sipuada, que produzia uma cachaça artesanal de mesmo nome, eque se localizava no município de São João do Sabugi. Outro alambique que se destacou na região foi oda fazenda Caboclo, localizado no município de Caicó. A produção desses alambiques não tinha finscomerciais. Assim, no que diz respeito a produção de cachaça, a Samanaú não é nenhumanovidade. Entretanto, levando-se em consideração a qualidade, a produtividade e a preocupação com a
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 110educação ambiental se pode afirmar que o projeto do Alambique Samanaú é totalmente inovador,estabelecendo um marco na história sócio-cultural e econômica da região Seridó, como também noEstado do Rio Grande do Norte. Além de resgatar a história do Seridó Potiguar, essa atividade mantémvivas as tradições e costumes da região. EDUCAÇÃO AMBIENTAL A partir dos anos 80, o Brasil começa a se preocupar com a educaçãoambiental, mediante a realização da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente edesenvolvimento, conhecida como Rio 92, dando início a uma série de discussões entre os diversosrepresentantes das nações. Segundo a COMISSAO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE EDESENVOLVIMENTO, as ciências relacionadas à ecologia e aos recursos naturais elaboram osfundamentos básicos da proposta pedagógica que veio a se chamar de Educação Ambiental,enfocando: conscientização, mudanças de comportamento, desenvolvimento de competências,capacidade de avaliação e participação. Esse mesmo autor, José do Carmo Neves na épocapresidente do Instituto Estadual de Florestas (IEF), propôs que os responsáveis pelo ensino no País,Estados e Municípios incluíssem nos seus currículos dos cursos de primeiro e segundo graus noçõesrealistas e aplicáveis sobre conservação dos recursos naturais renováveis e a preservações emelhoria do meio ambiente, conforme disposições do Artigo 42, do Código Florestal - Lei n 4771,de 15 de setembro de 1965. No âmbito do Alambique Samanaú a educação ambiental passa a ser umprocesso contínuo de conscientização pelos trabalhadores da própria comunidade local, objetivandoa preservação do meio ambiente diariamente. A prática adotada consiste em transmitir todas asinstruções educacionais para que se atinja a produção de forma sustentável e com menor açãoimpactante sobre o meio ambiente no Alambique Samanaú. A estimulação da conscientização dapopulação é baseada na Lei n 9795 de 27/04/99, que institui a Política Nacional de EducaçãoAmbiental não formal de ser incentivada pelo poder publico nas três esferas do governo (art.13inciso VIII). É a partir de uma nova conduta, obtida através da educação ambiental, que se pretendeevitar muitos efeitos maléficos nos locais de produção, tentando, assim, fazer com que exista cadavez mais um Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) nessa mesorregião do Estado do RioGrande do Norte. ALAMBIQUE SAMANAÚ E EDUCAÇÃO AMBIENTAL O Alambique é composto por um pátio central, jardins, área de secagem dobagaço da cana, moendas, onde é moída a cana para a obtenção do caldo, decantadores, sala defermentação. Nele, ainda, consta a destilação, galpões onde são armazenados os barris e tonéis parao envelhecimento, sala de engarrafamento, marcenaria e alojamento dos funcionários. Tudo isso édistribuído em uma área de mil e noventa e dois metros quadrados, que é justamente a áreaconstruída do empreendimento. As Figuras 1 e 2 exibem a faixada externa e as instalações internasdo alambique, respectivamente. Além desse espaço, o alambique ainda possui a área da lavoura decana-de-açúcar, lagoa de estabilização, casa da fazenda, dentre outras dependências.Figura 1: Faixada do Alambique Figura 2: Instalações Externas
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 111 O Alambique Samanaú é uma indústria de cachaça artesanal que produ cem produzmil litros de cachaça por ano, com capacidade de dobrar a sua produção, pois, opera praticamentecom cinqüenta por cento de sua capacidade. A produção da cachaça no alambique Samanaú geraemprego e renda de forma sustentável, tendo em vista que seus equipamentos produzem o mínimode poluição. No plantio da cana do alambique é dispensado o uso de agrotóxicos, optandoapenas pelo adubo orgânico proveniente da própria produção, sendo utilizados os rejeitos dasleveduras usadas na fermentação. Além disso, é utilizado também o vinhoto, que consiste em um disso,resíduo pastoso e com forte odor proveniente do rejeitado da fermentado da cana cana-de-açúcar. Paracada litro de cachaça produzido, é deixado para traz aproximadamente dez litros de vinhoto, que sejogados diretamente nos rios pode causar grande impacto ambiental. Porém, se tratado ele pode ser iretamenteusado como adubo na própria lavoura ou na obtenção de biogás. No caso do Alambique Samanaú,essa substância é tratada em uma lagoa de contenção, onde o produto fica ar armazenado por umperíodo de aproximadamente quarenta dias, e usado posteriormente como adubo. Isso torna aatividade de fabricação de cachaça no Alambique Samanaú é auto sustentável, além de contribuir auto-sustentável,diretamente na preservação do meio ambiente.Figura 3: Cana Cortada Figura 4: Lavoura de cana Outra característica positiva do Alambique é a opção pela não queimada dalavoura. As queimadas aumentam a produtividade da cana, devido ao ganho de tempo de colheita,mas, diminui a qualidade do produto final, pois, a partir do momento em que a cana é aquecida, elapassa por um processo químico que diminui o seu teor de açúcar. Esse processo estimula outraspropriedades da cana que podem ser nocivas ao consumo, comprometendo assim a bebida, semmencionar na produção de grande quantidade de fumaça tóxica, cujos danos muitas vezes sãoirreversíveis para a saúde humana e para a atmosfera. No Alambique Samanaú a cana é colhida manualmente, como mostra a figura3, e cortada a parte da folhagem como se observa na figura 4, pois se as folhas fossem moídasocasionaria uma fermentação excessiva do caldo, influenciando diretamente na qualidade daprodução, tal como no brix (teor de açúcar).Figura 5: Bagaço da cana
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 112 Após a moagem, o bagaço da cana (figura 5) que chega a trinta por cento doproduto, fica exposto em uma área descoberta para secagem, de duzentos e sessenta metrosquadrados. Após a secagem, cinqüenta por cento desse volume é hidrolisado e destinado àalimentação do rebanho, e os outros cinqüenta por cento são aproveitados como combustível nasfornalhas do alambique. A quantidade de bagaço produzida por safra chega à trezentas toneladas. IMPACTO NA ECONOMIA DA REGIÃO Como o objetivo inicial do Alambique Samanaú era o de gerar emprego erenda, foi articulada uma parceria com o perímetro irrigado Itans/Sabugí através da criação doAçude para facilitar o cultivo da cana-de-açúcar naquela localidade. Entretanto, o que aconteceatualmente é que a zona rural está sendo esvaziada com o exôdo rural para os grandes centrosurbanos. A razão disso está associado ao fato de que antigamente os recursos naturais não eram tãoescassos como hoje. Toda fazenda tinha a sua lavoura de onde se tirava o sustento para os seumoradores trocando por outros produtos. Um dos fatores que contribuiu para que esse quadro serevertesse foi a própria ação predatória do homem, através de desmatamentos desordenados, caça epesca abusivas com fins comerciais, dentre outros. Todos esses fatores ocasionaram oempobrecimento dos solos, erosões, assoreamento dos mananciais e o desaparecimento da flora e dafauna. Assim, o homem quando se viu sem saída, começou a migrar para as cidades, aumentandocada vez mais as dificuldades de sobrevivência. Muitas vezes essa população sem saber que sealgumas ações fossem tomadas, toda a potencialidade do campo poderia ser resgatadas, inclusivecom a agregação de outros valores. Portanto, sem nenhuma necessidade de deslocamento do seulocal de origem para se aventurar nos grandes centros urbanos e agravando ainda mais os problemassociais. No caso em análise, a auternativa foi justamente a implantação da lavoura decana-de-açúcar, pois, todos os moradores que estavam desempregados, ou trabalhavam na zonaurbana tiveram a oportunidade de trabalhar na sua região de origem. Além disso, eles têm aoportunidades de morar próximo a suas famílias, além de salário fixo e contar com as açõespúblicas, tendo em vista que onde se desenvolve atividades geradoras de renda e de capital existemprogramas sociais que melhoram a qualidade de vida dos habitantes daquela localidade. Soma-se aisso o fato de possibilidade da comercialização de produtos tradicionais da região, como artesanato,culinária, festas populares, dentre outros; abrindo, assim, precedentes para o desenvolvimento deoutras atividades, como por exemplo, o turismo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar de serem amplas as questões quanto aos impactos ambientais,percebe-se que pouco se faz na prática para minimizá-los e a conscientização dos trabalhadoressobre essa questão, assim como da população, ainda é muito restrita. A educação ambiental pode ser utilizada com mais ênfase e, assim, setransformar em uma ferramenta eficaz, trabalhando como forma de se obter a prevenção do meioambiente, como também, a utilização de ferramentas que estão disponíveis para diminuição dapoluição. O exemplo disso é o Alambique Samanaú que utiliza 50% do bagaço prensado da cana-de-açúcar para servir de energia ao invés da madeira que provoca o desmatamento e a degradaçãodos ecossistemas rurais. Já existem maquinas destinadas a queima de casca de coco, como também,a prensa do bagaço de cana-de-açúcar para transformar em pequenos fardos, minimizando, assim, apoluição ambiental. Isso também mostra que existe um crescimento da conscientização popularsobre os problemas da poluição. O Alambique Samanaú deve ser tornado como exemplo de como se podealcançar o desenvolvimento sem a emissão de poluentes através da pouca utilização de lenha, pornão existir queima da lavoura e também por ter uma lagoa de contenção. A educação ambiental temo potencial de contribuir para que as pessoas compreendam melhor as questões ambientais; dessemodo ampliar a conscientização desses problemas, para que as pessoas tenham contato mais
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 113próximo como o meio ambiente natural. Esse contato eleva a consciência do valor da natureza e fazcom que a população adotem comportamentos e atitudes ambientalmente conscientes para preservaro meio ambiente. Portanto, destaca-se que a educação ambiental realmente está atrelada às ações desustentabilidade do Alambique Samanaú, com qualidades cada vez mais destacadas dos demaisAlambiques da região que envolvidos diretamente com a atividade da fabricação de aguardente dacana-se-açúcar. Somente através de ações educativas é possível reduzir os impactos negativos sobreo meio ambiente e se obter os desenvolvimentos social e econômico de forma sustentável. Enquantoeste perfil de sustentabilidade ambiental não for atingido, a educação ambiental se torna aferramenta mais adequada a ser utilizada como alternativa para a prevenção e conservação dosecossistemas naturais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ARAÚJO, R. C. Açude Itans: estação de piscicultura e perímetro irrigado. In:Muirakytan;K. de Macedo (org.). Caicó: uma viagem pela memória seridoense. Natal:SEBRAE/RN, 2003. CÂMARA, Marcelo. Cachaças: bebendo e aprendendo. Rio de Janeiro: Mauad X, 2006.______. CARVALHO Hernani de. A cachaça, vista pelo folclore. Jangada Brasil, Rio de Janeiro, v.5, n. 49, set. 2002. Disponível em: <http://www.jangadabrasil.com.br/setembro49especial02.htm>.Acesso em: 12 set, 2008. COMISSAO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. NossoFuturo Comum. 2 ed. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas. 1991 DOCUMENTÁRIO sobre a cachaça. Diário Turismo. TV Diário, 09 jun. 2008. MOLETTA, Vânia Florentino. Turismo rural. 3. ed. Porto Alegre: SEBRAE/RS, 2002. MOLINA E. Sérgio. Turismo y Ecología- 6a ed. México, Trilhas;1998. TRINDADE, Alesandra Garcia. Cachaça: um amor brasileiro. São Paulo: Melhoramentos,2006. ORGANIZACAO MUNDIAL DE TURISMO-OMT. Guia de desenvolvimento do turismosustentável. Porto Alegre: Bookman, 2003. PELLEGRINI Filho, Américo. Ecologia, cultura e turismo- 2aed, Campinas- SP, Papirus;1997.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 114 EDUCOMUNICAÇÃO SOCIOAMBIENTAL: ODESENVOLVIMENTO CRÍTICO E CONSCIENTE DE CONSUMO POR AQUELES QUE FAZEM RÁDIO COMUNITÁRIA Marlos Feitosa MARQUES Biólogo, Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação Matemática e Tecnológica, Centro de Educação, UFPE marlos.feitosa@gmail.com RESUMO O objetivo deste estudo foi demonstrar o modo processual de formação da consciênciacrítica de consumo por jovens responsáveis pela realização de programas radiofônicos comunitáriosno Município de Pombos-PE. O procedimento de coleta e análise de dados teve como fonte osdiálogos contidos em um programa sobre Educação Ambiental, produzido através de práticaseducomunicativas e veiculado no mês de outubro de 2009. A consciência crítica de consumo pôdeser observada em estágios iniciais nos exemplos de diálogos travados entre os locutores doprograma. Embora as idéias e o discurso não tenham alcançado todo o potencial intrínseco aoconteúdo específico trabalhado, os jovens conseguiram fazer relações importantes entre o tema e aquestão do consumo consciente. Contribuímos, dessa forma, para a compreensão do potencial dedesenvolvimento crítico e consciente de consumo, presente em práticas radiofônicaseducomunicativas, o que se constitui como um dos primeiros passos para o engajamento dossujeitos em ações que extrapolem o discurso e os limites espaciais do ambiente da rádiocomunitária. PALAVRAS-CHAVES: Educação Ambiental, Educomunicação Socioambiental, RádioComunitária, Consumo Consciente. ABSTRACT The aim of this study was to demonstrate how procedural formation of critical conscienceof consumption by young people responsible for realization of communitarian radio programs in thecity of Pombos-PE. The source of data collect and analysis was the dialogue contained in anEnvironmental Education program, produced through educommunication practices and transmittedin october 2009. A critical conscience of consumption could be observed in the early stages in theexamples of dialogues between speakers of the program. Although the ideas and the discourse hasnot reached all intrinsic potential of the specific content working, young people were able to makeimportant links between the theme and the question of conscientious consumption. We contribute,therefore, to understand the potential of developing critical and conscious of consumption in thiseducommunicatives practices of radio, which are constituted as a first step for the engagement ofindividuals in actions that go beyond speech and spatial limits of the environment communitarianradio. KEYWORDS: Environmental Education, Socioenvironmental Educommunication,Community Radio, Conscious Consumption. INTRODUÇÃO No mundo contemporâneo globalizado as tecnologias da informação e comunicação,transformam a distância e o tempo das relações estabelecidas ao criar redes invisíveisinterconectadas que, entre outros efeitos, aproximam mercados acelerando a produção e o consumodas sociedades de forma nunca antes vista. Considerando que o desenvolvimento da humanidade sedeu a partir de sua formas de intervenção no meio natural e de acordo com sua capacidade de secomunicar, o desenvolvimento dos diversos artefatos tecnológicos ocorreu concomitantemente aodesenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação (tic’s), a começar pela próprialinguagem humana.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 115 Entretanto, Trigueiro (2004) nos dá uma idéia dos efeitos colaterais desse modelo dedesenvolvimento: Apenas 1,7 bilhão dos atuais 6,3 bilhões de pessoas que habitam o planeta têm hojecondições de consumir além das necessidades básicas. Ainda assim, a demanda por matéria-prima eenergia cresce, precipitando o mundo na direção de um impasse civilizatório: ou a sociedade deconsumo enfrenta o desafio da sustentabilidade, ou teremos cada vez menos água doce e limpa,menos florestas, menos solos férteis, menos espaço para a monumental produção de lixo e outrosefeitos colaterais desse modelo suicida de desenvolvimento (online). Defendemos, no entanto, neste artigo, a idéia que se, outrora, a linguagem, assim como astecnologias da informação e comunicação de uma forma geral, se relacionaram fortemente com odesenvolvimento das técnicas de modificação do meio natural e conseqüentemente com aconsolidação do atual quadro de desequilíbrios instalado, cabe também a estas preponderante papelna resolução da problemática ambiental, a começar pela formação de consumidores mais críticos econscientes. O papel da mídia, entretanto, em especial da grande mídia, isto é, aquela que tem longoalcance e atinge públicos socialmente diversificados, (a exemplo do rádio e da televisão) é, a esserespeito, historicamente pautado mais pelo estímulo ao consumo desequilibrado, e isto se deve,basicamente, à forte dependência financeira dos meios de comunicação em relação à publicidadeempresarial. A crise ambiental contemporânea, por outro lado, vem estimulando o aumento depropagandas em que muitas empresas se autopromovem como sustentáveis e socioambientalmenteresponsáveis. Todavia, além da falta de compreensão de que há uma maior necessidade de medidaspreventivas que compensatórias, em razão do atual status de degradação ambiental, o apelo aoconsumo desenfreado permanece atrelado à propaganda empresarial e aos noticiários em geral,revelando a não associação da crise ambiental ao modelo civilizatório de exploração dos recursosnaturais e produção e consumo de bens. O discurso da mídia, nesse sentido, é altamentecontraditório e continua a promover a perpetuação do consumo desequilibrado e inconsciente. A partir dessa problemática é possível constatar a dificuldade atual em desenvolverprocessos de Educação Ambiental através dos meios tecnológicos de informação e comunicação.Neste contexto, o novo campo da Educomunicação é visto como alternativa para a substituição develhas práticas pedagógicas que não mais respondem às necessidades urgentes contemporâneas derelação com o ambiente. O termo Educomunicação foi originalmente criado pelo comunicadorargentino Mário Kaplún. As idéias deste autor e de grandes nomes da educação, como Martin Búbere Paulo Freire, além de estudos de diversos pesquisadores interessados nesta área, somaram-se paraque o professor Ismar Soares formasse um entendimento mais completo da Educomunicação.Segundo o autor, a Educomunicação tem como objetivos (2004 apud BRASIL/MMA, 2005): Promover o acesso democrático à produção e à difusão de informação; facilitar apercepção crítica da maneira como o mundo é editado nos meios; facilitar o ensino/aprendizadoatravés do uso criativo dos meios de comunicação (não do ponto de vista instrumentalista, maspartindo da percepção de suas peculiaridades e da importância de democratizar o acesso a eles); e,por fim, promover a expressão comunicativa dos membros da comunidade em questão (p. 12). Nessa perspectiva, a característica que mais se destaca na Educomunicação é a mudança doautor e do sentido da informação de modo a propiciar processos mais efetivos de conscientizaçãocrítica e aprendizagem por aqueles que produzem e veiculam informações. Concordamos comVolpato (2010), quando afirma que o fazer comunicação tem: (...) uma função contrahegemônica, ou seja, caminhar em direção à construção de umanova ordem comunicacional ligada às manifestações socioculturais da comunidade e não aos
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 116interesses mercadológicos e, ainda, que rompe com a relação dominador/dominado,emissor/receptor (p.11). A Educomunicação é, portanto, a ciência do aprender fazendo, interagindo, secomunicando mediado pelas tic´s. A Educação Ambiental, conceitualmente e pragmaticamentetransformada em Educomunicação Socioambiental pelos elementos essenciais da Educomunicação,almeja ser eficaz nesse sentido. A Educomunicação Socioambiental não significa apenas mais umaterminologia que representa os esforços desprendidos em torno da resolução da problemáticaambiental. A princípio, também não pretende ser uma nova forma de transmitir EducaçãoAmbiental, pois entende a Educação Ambiental de qualidade como conseqüência de uma práxis, eisto significa que os maiores beneficiados são aqueles envolvidos em práticas dialógicas,participativas e tecnologicamente mediadas entendidas como educomunicativas. Embora muitas tecnologias atendam a iniciativas de Educação Ambiental, a tecnologiarádio, em especial, a rádio comunitária, promove segundo nossa visão maiores níveis de acessodemocrático à sociedade por ser dentre as tic´s mais populares aquela que é a mais difundida, demenor custo e de mais fácil manuseio. Por essas qualidades, tem melhores condições de atender àsnecessidades imediatas da comunidade. Segundo Kaplún (1994), é cada vez mais reconhecido opapel do rádio em promover: (...) a transmissão de valores, a promoção humana, o desenvolvimento integral do homem edas comunidades, em que se propõe a elevar o nível de consciência, estimular a reflexão e convertercada homem em agente ativo da transformação em seu meio natural, econômico e social (p. 22). Em suas discussões contextualizadas em torno da rádio comunitária, Volpato (2010)acrescenta que as contribuições educacionais que afloram em torno desta tecnologia estãovinculadas à construção da cidadania dos sujeitos: A participação na comunicação comunitária contribui para uma formação cidadã porquecria processos educativos que ampliam a consciência das pessoas e promove o desenvolvimento dehabilidades, além de fazê-las experimentar novas experiências e conhecer outras realidades (p. 11). No entanto, defendemos o ponto de vista da autora quando ela aponta que processosmais efetivos de educação e cidadania ocorrem a partir de níveis ampliados de participaçãoproporcionados, não pela recepção passiva de mensagens através dos meios, mas através do fazercomunicação pelo uso dos meios, porque permite “nascer nos envolvidos um sentimento decompromisso, responsabilidade, de pertença a uma comunidade, de caráter cooperativo, o que, semdúvida, mobiliza com maior eficiência que pela simples veiculação de conteúdo” (p. 10) Certamente, concordamos com os autores citados que há o afloramento de todas essascompetências sócio-cognitivas. Demonstramos, inclusive, em outra oportunidade (MARQUES,2010, dados não publicados)20, a relação entre a emergência dessas competências e as práticaseducomunicativas de jovens comunicadores, que constituem, mais uma vez, nosso público alvo. Noentanto, focaremos neste artigo na demonstração do modo processual de formação da consciênciacrítica de consumo por jovens responsáveis pela realização de programas radiofônicoscomunitários. Consideramos oportuno estudar uma iniciativa particular visto que todas aslocalidades, situadas ou não em grandes centros urbanos, influenciam e são influenciadas pelomercado de produção e consumo planetário, em face do atual nível de globalização observado. METODOLOGIA 2.1 Campo de Pesquisa e Público Alvo20 MARQUES, Marlos F. Educomunicação e juventude: um olhar sobre a produção de rádio comunitária por jovens noMunicípio de Pombos-PE. Trabalho submetido ao Encontro Nacional de Didática e Prática do Ensino de 2010 eaguardando aprovação.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 117 O nosso campo de pesquisa é o Programa denominado De Propósito veiculado dentro daRádio Comunitária Brasil FM, 98,5 localizada no município pernambucano de Pombos, por jovenscom faixa etária média de vinte anos, e formados pela Organização Não Governamental GIRAL(Grupo de Informática, Comunicação e Ação Local). O público alvo deste estudo é formado por 8jovens que se revezam em dois grupos de quatro para a realização semanal do programa. Para isso,eles se reúnem duas vezes na semana: às quintas feiras, para produzir o roteiro e aos sábados, para aveiculação do programa, que acontece no horário das 10:00 às 11:30 da manhã. Os jovens são acompanhados e orientados por um educador designado pela ONG e aprogramação inclui temas variados a cada semana, não se restringindo necessariamente à temáticasambientais. A escolha do público alvo desta pesquisa se deve em razão de já haver sidodiagnosticada a presença de práticas educomunicativas pelo grupo, as quais consideramosessenciais para demonstrar a formação dos sujeitos, como consumidores críticos. 2.2 Coleta e Análise de Dados Para a coleta e análise de dados foi realizada uma viagem ao Município de Pombos no mêsde outubro de 2009 para acompanhamento do processo de reunião-produção-veiculação doprograma. A análise esta centrada, entretanto, somente no conteúdo de um programa sobre meioambiente, embora o processo geral de conscientização crítica se estenda desde a produção do roteiroaté o momento da veiculação do programa, como concluímos em outro trabalho (MARQUES,2010). RESULTADOS E DISCUSSÃO Apresentada a técnica metodológica, procurar-se-á demonstrar o desenvolvimento daconsciência crítica de consumo nos diálogos entre os jovens locutores do Programa De Propósito.Para isso, iniciamos a análise tomando como referência trechos das falas presentes em um programade temática ambiental, mais especificamente sobre desmatamento. Locutor 1: (...) focando desmatamento e queimadas que são grandes males do século,destruindo inúmeros e inúmeros habitats de animais, até contribuindo com o aquecimento global! Locutor 2: é, e isso acontece por causa das necessidades do homem em obter matériaprima, pensando apenas no benefício imediato que isso lhes trará. As áreas enormes de mata sãoderrubadas para a construção de condomínios residenciais, industriais e rodovias. Locutor 1: isso ocorre e não é de hoje né, hoje é que a gente tem um alerta maior, talveztenha um entendimento mais claro sobre isso (...) a gente sabe que precisa realmente que oprogresso possa tomar algumas dessas áreas, mas com um certo controle devido aodesordenamento. Aqui, tem-se um fragmento de diálogo que demonstra haver entre os atores umentendimento da relação entre desenvolvimento urbano e geração de impactos ambientais,extrapolando para a capacidade de associação entre este modelo de desenvolvimento não preventivoe financeiramente interessado e uma problemática de larga escala temporal e espacial, que é oaquecimento global. A última fala fornece indícios da compreensão do dilema entre progresso epreservação, típico das discussões sobre desenvolvimento sustentável. A esse respeito e levando emconta a existência dois tipos de mudanças para o enfrentamento da crise ambiental(LAYRARGUES, 2009 p. 16): “profundas e radicais, contemplando o âmbito ético e paradigmático(...) ou apenas (...) “reformando os sistemas sociais, mantendo intactos os mecanismos dereprodução social”, o locutor concebe um raciocínio moderado, característico do segundo tipo de
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 118mudança, o que demonstra ainda haver um estágio inicial de consciência crítica sobre esse temaespecífico. Locutor 1: mas uma coisa há de se saber... Já existem formas para controlar ou paratentar amenizar este problema, um deles é a certificação florestal. A certificação florestal é umagarantia da origem que serve também para orientar o comprador atacadista ou varejista aescolher um produto diferenciado e com valor agregado, capaz de conquistar um público maisexigente e assim, abrir novos mercados. Ao mesmo tempo, permitir ao consumidor, de maneiraconsciente, a obtenção de um produto que não degrada o meio ambiente e contribui para odesenvolvimento socioeconômico das comunidades florestais. A questão do consumo consciente é retratada pelos atores através da certificaçãoflorestal, vista como alternativa de controle ou mitigação de impactos. Trata-se de um discursoadquirido que tem visivelmente a intencionalidade de fornecer uma informação pouco disseminadaao ouvinte-consumidor, mas que é uma forte tendência para a qualificação de produtos destinadosao mercado. Podemos inferir pela fala, que o tipo de valor agregado ao produto é o desustentabilidade e que o exemplo das comunidades florestais indica conscientização sobre aresponsabilidade socioambiental. Há, no entanto, potencial para um maior desenvolvimento daconsciência crítica sobre o assunto entre os jovens, já que, não basta atualmente que o consumidorseja exigente ou consciente, pois, produtos com certificação ambiental, em geral, ainda são caros epouco competitivos, tendo, por isso, dificuldades em se popularizar. Locutor 1: Para muita gente o assunto do aquecimento global soa distante como se aatitude de uma única pessoa não tivesse nada a ver com essas catástrofes naturais (...) a exemplodo supermercado que as pessoas usam sacolas plásticas né, e preferem mesmo estando com ummonte de sacolas... Sempre quando alguém oferece mais uma... uma caneta que se compre, tem quecolocar em um saquinho plástico! (...) se você joga a sacola dentro de um rio, quando vem umaenchente e ele joga de volta pra sua casa de novo! Então ele também tem a hora de se defender!(...) ao falar de meio ambiente é preciso levar em conta as questões sociais, culturais, éticas epolíticas também. De repente você foi criado em determinada cultura, ou o seu pai, o seu avô, masque naquela época não se tinha uma noção exata das conseqüências para o meio ambiente. Locutor 3: é isso mesmo Jairo, infelizmente a globalização está esquecendo da geraçãofutura né? as crianças, os jovens...Tem pessoas que dizem... ah! Eu vou morrer mesmo! Masesquecem que tem seu neto, tem seu filho, tem seus bisnetos, que a vida continua né! A geração quevem, com certeza merece um mundo igual ou melhor ao nosso né Jairo? Locutor 1: é, isso sem contar que a gente tem que pensar em fazer o hoje, não esperar oamanhã confiando que alguém vai ter uma atitude brilhante e vai solucionar isso... que a gente vaiprocurar outro planeta para morar de repente (...) Agora existe ainda nos dias de hoje, osgovernantes, as pessoas, as autoridades nacionais, até mundiais que criaram algumas regras prainibir ou pelo menos conter alguns problemas. Locutor 3: E no Apocalipse fala, quem for ler vai ver que o mundo vai acabar do jeito quecomeçou, nas trevas, infelizmente né! Deus deu, Deus fez o mundo, fez a natureza, mas o homeminfelizmente não ta sabendo cuidar e o mundo vá acabar em fogo, mas esse fogo que a Bíblia diz éo sol quente que vai queimar tudo mesmo (...) Desta vez, é possível observar no diálogo entre os três locutores uma série de elementosdiscursivos que formam o raciocínio crítico de que a responsabilidade socioambiental deve serestendida desde o modelo social de técnicas de produção de alimentos pela agricultura até o planoindividual, como em atitudes corriqueiras de uso e descarte de sacolas plásticas. A formação da
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 119consciência crítica para o consumo abrange, assim, todo o ciclo de produção de bens. A idéia de quea natureza se defende do ser humano indica tanto o entendimento do efeito de ação e reação como apercepção do planeta como um sistema vivo, interconectado e complexo, que precisa ser respeitado. Já a solução para os problemas ambientais perpassa desde o estabelecimento de regrassociais, representadas pelas penalidades da lei, até a visão apocalíptica do fim do mundo. Issorepresenta uma desorientação estendida à população em geral e até mesmo aos cientistas, sobremétodos eficazes de prevenção e mitigação de impactos ambientais, pois as medidasgovernamentais, em sua maioria, são apenas punitivas ou compensatórias A legislação ambiental,mesmo quando fornece diretrizes preventivas padece de orientações metodológicas definitivas,entre outros fatores, pela diversidade social, cultural e ecossistêmica existente no planeta.Interessante ressaltar que a preocupação da locutora 3 com a geração futura esta, inclusive,contemplada na Constituição Brasileira de 1988, em seu artigo 225 (BRASIL, 1998). Locutor 1: O Brasil está entre os países do mundo de maior diversidade biológica e aindapossui a flora mais rica do planeta, mas o homem quando pratica o ato de queimar a pastaria e asmatas, não tem consciência que esse sistema levou anos pra se formar! Para apreciadores danatureza, locais como esse são verdadeiros santuários ecológicos que uma vez preservados,poderão ser utilizado como fonte de exploração turística, fonte permanente de estudos do podermedicinal. Locutor 3: isso é verdade! Enquanto levam embora as coisas que a gente tem deimportante aqui no nosso país, esses produtos, tipo xampu, produto pra pele, são tudo cosméticosfeitos da natureza e a gente compra tão caro, sabendo que a gente tem essa plantinha aqui, atémesmo na nossa casa (...) No diálogo acima, a natureza é concebida sob dois enfoques: de forma sagrada, comolocal de contemplação para o bem estar social e como fonte de exploração comercial, através deatividades turísticas e de produção de medicamentos e cosméticos. Destacamos nesses fragmentos aquestão da relação entre propriedade intelectual e plantas medicinais, que é bastante problemáticano Brasil em decorrência do confronto cultural entre instituições com interesses competitivos demercado e povos pautados por modo de vida solidário e detentores de conhecimento tradicional. Aconscientização crítica presente nesse diálogo se dá, portanto, pelo reconhecimento da importânciado conhecimento tradicional para o mercado de consumo global de medicamentos e cosméticos. Locutor 1: (...) Reduzir, Reutilizar e Reciclar são os chamados 3 Rs. Reduzir é consumirmenos, é fundamental (...) Locutor 2: Reutilizar: é impossível reduzir a zero a geração de resíduos, mas muito do quejogamos fora poderia ser reaproveitado (...) Locutor 1: Reciclar: o R mais conhecido, é sinônimo de economia de matérias primascomo o vidro, papel, plástico e metal; e representam em média 50% do lixo que vai para os aterros,hoje a gente já percebe que as pessoas, sobretudo as menos favorecidas, já conseguem ganharalgum dinheiro com reciclagem de papelão, de papel e também de alumínio né, aqui na nossacidade é bem comum, a gente perceber as pessoas recolhendo esse tipo de material nas festas? Locutor 2: É, como, tipo, latinha também, eles recolhem e isso ajuda muito na limpeza dacidade. Locutor 1: olha aí! Evitar comprar também coisas supérfluas, ou seja, coisas que não temutilidade, que não tem necessidade, apenas por impulso. É aquela coisa, você vê aquele produtoque já tem em casa e compra novamente, acaba não utilizando, vai ser jogado fora e vai dar
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 120trabalho, (...) a gente usa descartável porque não vai dar trabalho limpar, joga fora, e isso vaiacumulando, mas o acúmulo vai demorar semanas, até meses, dependendo do tipo de material prase decompor. Olha, é complicado, mas não é impossível. A gente achava séculos atrás que eraimpossível construir uma edificação com tantos andares, imagine então mudar alguns hábitos eculturas que a gente tem no dia a dia, então eu acho que não é tão complicado. Nessa passagem, a questão do consumo consciente é abordada de forma mais direta. Nodiálogo, os jovens formam uma concepção de que muitos dos bens comprados pelos consumidoresnão são de primeira necessidade, gerando mais resíduos, o que poderia ser evitado. Isso se devemuitas vezes a uma das artimanhas do sistema capitalista - a inovação estética - embora aspropriedades do produto continuem as mesmas a sua aparência muda para atrair o consumidorcausando nele uma falsa necessidade de consumo. Já os descartáveis são um exemplo típico deoutro artifício do mercado de consumo capitalista – a obsolescência planejada - que consiste nafabricação pela indústria de produtos com pouca resistência e durabilidade, para que sejamsubstituídos o mais rápido possível, realimentando o mercado (ZACARIAS, 2009). A fala sobre a redução, reutilização e reciclagem de resíduos simboliza a força contrária deresistência a essas artimanhas do modelo de produção capitalista e tem implicitamente apreocupação em não deixar que o valor de uso das mercadorias seja mais relevante que seu valor detroca (ZACARIAS, 2009). A mudança de valores e hábitos também é validada na fala, quando osjovens se referem aos catadores de lixo, e, em um segundo momento, ao fazer a analogia entre adificuldade de reforma individual e a das edificações. A educação ambiental é concebida, assim,nesse discurso como processual, naturalmente difícil, mas não impossível. CONSIDERAÇÕES FINAIS O desenvolvimento da consciência crítica de consumo pôde ser observado no Programa DePropósito através dos exemplos de diálogos entre os locutores. Faz-se importante ressaltar, noentanto, que a formação crítica tem inicio na reunião de produção do roteiro do programa e,portanto, se estende aos outros participantes do grupo que, assim como os locutores, tambémparticipam da pesquisa e discussão da temática de cada semana. Embora as falas indiquem um estágio inicial de conscientização, acreditamos que possahaver um amadurecimento das idéias e do discurso, visto que, o tema central era desmatamento e,portanto, os jovens não tinham, diretamente, a intenção de aprofundá-lo naquele programa. Issodemonstra, aliás, um aspecto positivo: a capacidade de associação pelos atores entre umaproblemática específica e outras questões sociais, como o consumo consciente. Acreditamos ter contribuído para reforçar a idéia de que práticas radiofônicaseducomunicativas podem propiciar processos sociocognitivos importantes para o desenvolvimentoda cidadania de jovens comunicadores. A formação da consciência crítica de consumo é umexemplo disso e constitui-se em uma etapa chave para o envolvimento mais efetivo dos sujeitos emações que extrapolem o discurso e os limites físicos do ambiente da rádio comunitária. REFERÊNCIAS ARCOVERDE, Kalinne de Silveira; NORONHA, Karla Rossana F. R.; OLIVEIRA, SaraLuísa de; TAVARES, Olga. Mídia e Universidade: Caminhos Radiofônicos para a ConscientizaçãoAmbiental. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XXXICongresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Natal, RN – 2 a 6 de setembro de 2008.Disponível em: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2008/resumos/R3-1030-1.pdf>.Acesso em: 06 març. 2010. BRASIL, 1998. Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm>. Acesso em: 06març. 2010. BRASIL, MMA. Programa de Educomunicação Socioambiental. Série DocumentosTécnicos-2. Brasília: órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental. 2005. Disponível
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 121em: <http://www.mma.gov.br/estruturas/educamb/_arquivos/dt_02.pdf>. Acesso em: 06 març.2010. KAPLÚN, Mario. Producción de Programas de Radio: el guión – la realización. LAYRARGUES, Philippe P. Educação ambiental como compromisso social: o desafio dasuperação das desigualdades. In: LOUREIRO, C. F. B.; LAYRARGUES, P. P.; CASTRO, R. S.Repensar a educação Ambiental. Um olhar crítico. São Paulo: Cortez, 2009. MARQUES, Marlos F. Educomunicação e juventude: um olhar sobre a produção de rádiocomunitária por jovens no município de Pombos-PE. Trabalho submetido ao ao Encontro Nacionalde Didática e Prática do Ensino, Belo Horizonte, 2010. México, Editorial Cromocolor, 1994. TRIGUEIRO, André. Consumindo a vida. Ecopop. [s.l.] 16/12/2004. Disponível em:<http://www.ecopop.com.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=137&tpl=printerview&sid=10>. Acesso em: 27 jan. 2010. VOLPATO, Marcelo de Oliveira. Rádio Comunitária e Educomunicação Ambiental:pistas teórico-conceituais. Disponível em: <http://www.bocc.ubi.pt/pag/volpato-marcelo-radio-comunitaria-educomunicacao-ambiental.pdf>. Acesso em: 15 dez. 2009. ZACARIAS, Rachel. “Sociedade do consumo”, ideologia do consumo e as iniquidadessocioambientais dos atuais padrões de produção e consumo. In: LOUREIRO, C. F. B.;LAYRARGUES, P. P.; CASTRO, R. S. (orgs) Repensar a educação ambiental: um olhar crítico.São Paulo: Cortez, 2009.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 122 EDUCOMUNICAÇÃO: UMA ESTRATÉGIA PARA A CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Maria Vitória Elida do NASCIMENTO Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. cep: 59072-970. Natal/RN, Brasil. vitoriaelida@yahoo.com.br Jucicleide Gomes da Silva SOUZA Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. Leonardo Oliveira da SILVA Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. Elineí ARAÚJO-DE-ALMEIDA Professora. Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente – PRODEMA/ UFRN. cep: 59072-970. Natal/RN, Brasil. RESUMO Temas referentes à degradação ambiental vêm recebendo destaque ao longo dos anos,fazendo com que o homem passe a buscar estratégias para minimizar os problemas que emergemdessa questão. Dentre as alternativas de solução, encontra-se a Educação Ambiental (EA),importante ferramenta na luta pela conservação do meio ambiente. Implementar a EA em áreasprotegidas age fortalecendo os mecanismos de conservação da biodiversidade. Porém, estaEducação Ambiental, também necessita desenvolver formas para alcançar seus objetivos desensibilização para esta conservação. Surge então o conceito de Educomunicação, que consiste emações que buscam fortalecer ás atividades de comunicação no âmbito educacional. Utilizar oenfoque da Educomunicação em projetos de Educação Ambiental, pode tornar-se uma importanteatividade na busca de promoção da conservação da diversidade biológica em Unidades deConservação. PALAVRAS-CHAVE: Educação Ambiental; Educomunicação; Conservação daBiodiversidade ABSTRACT Topics related to environmental degradation has received attention over the years, makingthe man go to seek strategies to minimize the problems that emerge from this issue. Among thealternative solution, is the Environmental Education (EE), an important tool in the fight forenvironmental conservation. Implement the EA in protected areas act strengthening mechanisms forbiodiversity conservation. However, this environmental education also needs to develop ways toachieve their goals of raising awareness of this conservation. Then, it comes the concept ofEducommunication, which consists of actions that seek to strengthen communication activities ineducation. Using the approach of Educommunication in projects of environmental education canbecome an important activity in seeking to promote the conservation of biological diversity inprotected areas. KEYWORDS: Environmental Education; Educomunication; Biodiversity Conservation INTRODUÇÃO Segundo o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis eResponsabilidade Global, a Educação Ambiental surge como um processo orientado por valoresbaseados na transformação social, tendo como ação necessária, garantir que os meios decomunicação se transformem em instrumentos educacionais para a preservação e conservação domeio ambiente. O Tratado, ainda, afirma que a Educação Ambiental requer a democratização dos meios decomunicação de massa e seu comprometimento com os interesses de todos os setores da sociedade;que a comunicação é um direito inalienável e que os meios de comunicação de massa devem ser
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 123transformados em um canal privilegiado de educação, não somente disseminando informações embases igualitárias, mas também promovendo intercâmbio de experiências, métodos e valores. Nesse sentido, surge a Educomunicação não como uma nova disciplina a ser acrescentadanos currículos acadêmicos, mas, segundo Soares (2000): “... como o novo campo, por sua naturezarelacional, estrutura-se de um modo processual, midiático, transdisciplinar e interdiscursivo, sendovivenciado na prática dos atores sociais, através de áreas concretas de intervenção social”. Este campo defende, segundo Soares (2000), o uso da comunicação como um meioeficaz para ampliar ações voltadas à cidadania e para ampliar as formas de expressão dos membrosde uma comunidade, utilizando as Novas Tecnologias de Informação (NTICs) de maneiratransdisciplinar e interdiscursiva na produção e disseminação do conhecimento. Desta maneira, oambiente mediado por tecnologias pode ajudar a produzir sentidos, convertendo-se em mediação. Éo sentido que provoca a aprendizagem, não a tecnologia, e é por isso que o campo compete àeducomunicação (SOARES, 2002). Diante disso, a Educação Ambiental pode assumir uma função crítica e transformadora,objetivando co-responsabilizar indivíduos no intuito de promover um novo modelo dedesenvolvimento (LEFF, 2001). Cabe, então, a esta Educação Ambiental, criar novas estratégias nointuito de disseminar o conhecimento geral sobre o meio ambiente. Segundo Gutierrez (1978), a comunicação é um problema humano e, em síntese, é diálogo.A educação, por outro lado, deve proporcionar as possibilidades para que o homem atue, modifiquee transforme a realidade. Atrelando tais pensamentos, pode-se perceber a necessidade de que aeducação seja voltada à comunicação, para utilizar desses meios comunicativos na expressão dosenvolvidos, sendo assim, a Educomunicação, um elemento de importância significativa. O termo Educomunicação surgiu através do filósofo de educação Mario Kaplun, eune os conceitos de educação e comunicação, surgindo como um novo campo de intervenção nasrelações educativas. A Educomunicação é uma área do conhecimento que atua na interface daeducação e comunicação e tem como foco a formação crítica e reflexiva dos sujeitos (SCHAUN,2002). Ao pensarmos Educomunicação e Meio Ambiente, devemos ter cuidado para entender acomplexidade do tema, e de como será feito o processo de transformação de saberes. Nesse sentido,as atividades de escrita, fotografia, desenho, a fala, são registros elaborados desses saberes. E adivulgação dessas ações através dos meios de comunicação, seja ele, rádio, TV, jornal ou outroqualquer, realiza-se uma ação educomunicativa, onde a educação cruza seus conhecimentos com acomunicação. Pois, conservar a diversidade biológica é de grande importância para a manutençãoda vida no planeta. Devido à contribuição econômica gerada, a participação na manutenção deciclos ambientais, manutenção de paisagens e principalmente, pelo direito a vida. Dessa forma, a pesquisa tem como objetivos proporcionar elementos de reflexão parafornecer um maior entendimento sobre o meio ambiente, através de uma visão mais ampliadaacerca do universo de conhecimentos produzidos ao relacionar a Educomunicação às questõesenvolvidas nos espaços destinados à conservação da diversidade biológica. PERCURSO METODOLÓGICO A pesquisa foi desenvolvida por meio de um levantamento amostral de algunsreferenciais bibliográficos disponíveis em sites diversos, seguindo alguns princípios da análise deconteúdo exposta em Bauer (2008). Foram selecionados para orientação das reflexões sobre o tema,os trabalhos que direcionassem para alguma fonte bibliográfica explicitada. Preferencialmenteforam selecionados trabalhos que conduziram às discussões à luz de algum referencial teóricoespecializado. Também, nesta revisão, elegeu-se o tema meio ambiente, unidades de conservação ebiodiversidade enfocando a perspectiva da educomunicação, abrangendo informações relativas aoBrasil como território fonte de estudo. Foram combinadas palavras-chave enfocando às seguintes combinações: a)educomunicação + meio ambiente; b) educomunicação + unidade de conservação e, c)educomunicação + biodiversidade. As fontes selecionadas para o estudo, em princípio foram
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 124buscadas entre aquelas que contivessem, no mínimo frase(s) abordando um dos três conjuntos decombinações conceituais. Em seguida, utilizou-se o critério de uma apreciação da experiência doautor no estudo do tema e nas fontes onde os mesmos publicaram seus escritos. Acrescidas à pesquisa bibliográfica, fundamentada na busca por palavras-chave e leituracrítica dos conteúdos conceituais, foram acrescidas as informações oriundas da experiência depesquisa com a temática conservação da biodiversidade dos três primeiros autores desse trabalho,onde cada um pode interagir numa narrativa conceitual proporcionada pela expressão de seus perfisrelatados junto com os elementos da pesquisa, trazendo a tona, conteúdos carregados de sentidos ede expressão pessoal diante do processo de releitura do objeto de pesquisa relacionando-o numaperspectiva da investigação (auto)biográfica (ver Passeggi, 2008; Passeggi; Barbosa, 2008a;Passeggi; Barbosa, 2008b), como também voltada para a construção interdisciplinar como seencontram destacado em Araújo-de-Almeida (2010). A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO UM ELEMENTO A SER APLICADO NASUNIDADES DE CONSERVAÇÃO Ao longo dos anos têm-se percebido uma grande preocupação com as questões ambientais.Isso se deve a forma como o homem se relaciona com o meio, relação esta de dominação eexploração, gerando um ambiente degradado e cada dia mais ameaçado. A partir da década de 70, ohomem começou a inquietar-se diante destes problemas ambientais e de como seria o futuro dahumanidade, incluindo neste contexto as questões referentes à biodiversidade. Segundo Diegues (2004), um importante mecanismo de conservação da biodiversidadeencontra-se na criação de Unidades de Conservação (UC), que são espaços territoriais e seusrecursos ambientais, legalmente instituídos pelo Poder Público, com o objetivo de conservação elimites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas deproteção (BRASIL, 2000). Mas, apenas a criação destas unidades não tem sido efetiva na tentativade conservar a biodiversidade, visto que ainda se tem conhecimento de processos de degradação deecossistemas. Os rumos da Educação Ambiental (EA) começaram a ser definidos a partir da Conferênciade Estocolmo, em 1972, onde se inseriu a temática EA no cenário internacional. Mas foi em Tbilisi,que saíram as definições, objetivos, princípios e estratégias para a Educação Ambiental, sendo estesaté hoje adotados. Uma das finalidades da Educação Ambiental (EA) é a formação de um sujeito críticoe capaz de efetuar mudanças nas suas atitudes, com intuito de poder interferir positivamente nomeio, produzindo um ambiente digno e saudável. Aplicar a EA em áreas de conservação ambiental é importante na busca pororientação e promoção de mudanças na visão com relação ao funcionamento da unidade deconservação, produzindo hábitos que não acarretem na degradação destas áreas. Com isso, educarnessas áreas significa problematizar sua finalidade e concertar a sua forma de utilização, inserido-asna realidade local. A realização de Educação Ambiental em áreas protegidas requer que se desenvolvamestratégias diferenciadas que se adequem a cada realidade local, para assim cumprir com seusobjetivos de sensibilização (SILVA, 2000). Estratégias essas que motivem a formação de uma novaética ambiental e social, facilitando o enfrentamento dos problemas ambientais. Dentro dessas estratégias encontra-se a utilização de meios de comunicação, atravésda atividade denominada de Educomunicação, um novo campo de pesquisa, que conecta as áreas deeducação e comunicação de forma a contribuir na resolução de problemas ambientais. Os meios decomunicação podem atuar potencializando as atividades e projetos de educação ambiental, poisagem de maneira esclarecedora a cerca do panorama ambiental. O fornecimento de informações aoscidadãos é um principio que deve nortear a gestão ambiental, de forma a permitir à tomada dedecisão e a promoção de ações voltadas à melhoria do ambiente (FURRIELA apud DUARTE;ESPINOLA, 2006), visto que a comunicação é o elemento pelo qual é possível transformar o ser
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 125humano em sujeito da sua própria história, vivendo uma relação dialética, em diálogo, que o conduza uma consciência crítica e a uma transformação. IMPORTÂNCIA DA CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE Segundo as considerações de Primack (1993) biodiversidade ou diversidadebiológica refere-se à variedade de formas de vida presente na Terra (diversidade de espécies), aosgenes que as constituem (diversidade genética) e aos ecossistemas dos quais são parte (diversidadede ecossistemas). Este termo foi introduzido na metade da década de 80, pelos naturalistas que seinquietavam pela rápida destruição dos ambientes naturais e suas espécies (LÉVÊQUE, 1999). O Brasil apresenta uma das maiores diversidades de espécies conhecidas (descritas) domundo. Mas essa riqueza gerou a idéia ilusória de que a biodiversidade brasileira é abundante einesgotável, por isso poderia ser explorada. Ao sediar a Conferência das Nações Unidades para o Meio Ambiente e oDesenvolvimento, em 1992, e confirmar a assinatura da Convenção sobre Diversidade Biológica, oBrasil assumiu compromisso em proteger a biodiversidade, o que impulsionou a criação de açõesconservacionistas no país. Heywood e Watson (apud HOROWITZ, 2003) ampliam o conceito de biodiversidade, paraas relações estruturais e funcionais das organizações biológicas nas quais as atividades humanasestão inseridas. Dessa forma pode-se expandir este tema para além da dimensão ambiental,incorporando assim, as dimensões humanas e culturais, onde tudo mostra biodiversidade. A criação de Unidades de Conservação (UC) se tornou, então, uma estratégia muitoimportante para a promoção da conservação da biodiversidade, devendo ser associada a atividadesde sensibilização das comunidades de dentro e do entorno da UC, para que haja uma manutençãodessa área e assim, ocorra uma efetiva conservação da diversidade biológica. A Conservação da biodiversidade, portanto, deve ser compreendida como umcompromisso social que inclui ações de todos os indivíduos. Á medida que espécies correm o riscode serem extintas, é necessário que se tomem medidas de proteção dos processos ecológicos quemantêm tais espécies. Para isso, além de estratégias de conservação, é de fundamental importânciaque a sociedade seja sensibilizada para compreender as ameaças a diversidade biológica e o riscoque a extinção das espécies representa. Nesse contexto, o acesso à informação surge como condição essencial para apoiar oexercício da cidadania e o protagonismo social em políticas públicas, entre as quais, as que sedestinam à proteção de unidades de conversação. Colaboram para esse entendimento, autores comoBordenave (1985), para quem não existe participação social, sem comunicação. Diante disso, é necessário que se pense como desenvolver atividades de educomunicaçãoem unidades de conservação, com intuito de sensibilizar a comunidade sobre a diversidade existenteem sua área, e sobre a necessidade de conservar as espécies aí presentes. Para isso, podem serpropostas ações junto a autoridades locais, administrações escolares e alunos residentes em unidadede conservação, como a elaboração de um jornal informativo sobre a biodiversidade da área, umarádio comunitária voltada para as questões ambientais do local, entre outras ações, todas com intuitode promover a conservação. Pois, segundo informa Guimarães (2001) “O novo mundo que queremos, mais equilibradoe justo, requer o engajamento pessoal coletivo de educadores e educandos no processo detransformações sociais”. Isto personifica a incorporação do tema Educomunicação como umaperspectiva de acesso as pessoas interessadas sobre a temática conservação da biodiversidade re-configurando essa questão para a sociedade brasileira. Assim, a Educomunicação não vem subistituir a Educação Ambiental, mas ampliar oseu campo de ação, aliando-se à comunicação como um meio eficaz para ampliar ações voltadas àcidadania e as formas de expressão dos membros de uma comunidade, correspondendo, assim, a umdos objetivos da Estratégia Nacional de Comunicação e Educação Ambiental (Brasil, 2009; p. 12):
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 126 Elaborar e implementar projetos e ações de Educação Ambiental para as comunidades doentorno, considerando lideranças comunitárias, mulheres, jovens e minorias para seu maiorenvolvimento e diálogo quanto às atividades de gestão das UCs, destacando assuntos que serelacionem a importância das UC e seu papel na conservação da biodiversidade e na manutençãodos serviços ambientais da área protegida; CONSIDERAÇÕES FINAIS Como estamos diante de uma sociedade em que as mídias são as principais fontes deinformação, a Educação Ambiental pode utilizar esse mecanismo para disseminar conhecimentossobre biodiversidade e sua conservação, através do que chamamos de Educomunicação. Pode-se considerar importante a responsabilidade dos veículos de comunicação nastentativas de conservação de biodiversidade em unidades de conservação, torna-se uma estratégiada educação ambiental. Maior importância ainda é confiada aos meios de comunicaçãocomunitários, seja pela possibilidade de veicularem um conteúdo mais ligado às necessidades dacomunidade, seja pela possibilidade de potencializarem ainda mais a educação ambiental através dapromoção da participação no fazer-comunicação. Realizar atividades de Educação Ambiental e buscar cada vez mais estratégias desensibilização torna-se foco significativo para futuras pesquisas em conservação em áreasprotegidas. Assim, Educomunicação e a Educação Ambiental se complementam e se interrelacionamem suas propostas e ações ao promover interdisciplinaridade e sensibilização para traçar metas quelevem à conservação do meio ambiente. REFERÊNCIAS ARAÚJO-DE-ALMEIDA, E. (org.). Ensino de Zoologia: ensaios interdisciplinares. 2ª.Ed. João Pessoa :EdUFPB, 2009. BAUER, M. W. Análise de conteúdo clássica: uma revisão. In: BAUER, M. W.;GASKEL, G. (Org.). Pesquisa qualitativa com texto imagem e som. Petrópolis/RJ: EditoraVozes, 2008, 516p. BORDENAVE, J. D. O que é participação? São Paulo: Brasiliense, 1985. BRASIL Cartilha para Consulta Pública: Estratégia Nacional de Comunicação eEducação Ambiental no Âmbito do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, Brasília/DF:Ministério do Meio Ambiente, 2009. BRASIL. Lei nº. 9.985 de 18 de julho de 2000, que regulamenta o art. 225, § 1o, incisos I,II, III e VII da Constituição Federal, institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação daNatureza e dá outras providências, Brasil, 2000. DIEGUES, A. C. O mito moderno da natureza intocada. 5ª. Ed. São Paulo: EditoraHucitec, 2004. DUARTE, F.; ESPINOLA, B. Comunicação e Educação Ambiental: Estudo de Caso emCuritiba. In: Comunicação e espaço público. Ano IX, n. 1 e 2, 2006. p. 108-119. GUIMARÃES, M. A dimensão ambiental na educação. 4ª. Ed. São Paulo: Papirus, 2001. GUTIERREZ, F. Linguagem total: uma pedagogia dos meios de comunicação. São Paulo:Summus, 1978. HOROWITZ, C. A sustentabilidade da biodiversidade em unidades de conservação deproteção integral: Parque Nacional de Brasília. Tese de doutorado, CDS/UnB, Brasília, 2003. LEFF, E. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder.Petrópolis: LÉVÊQUE, C. A Biodiversidade. Tradução: Waldo Mermelstein. São Paulo: EDUSC,1999. PASSEGGI, M. C. Memoriais auto-bio-gráficos: a arte profissional de tecer uma figurapública de si. In: PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Org.). Memórias, memoriais:
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 127pesquisa e formação docente. Natal: EdUFRN; São Paulo: Paulus, 2008. (Coleção Pesquisa (Auto)Biográfica-Educação, nº 5). PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Org.). Memórias, memoriais: pesquisa eformação docente. Natal: EdUFRN; São Paulo: Paulus, 2008a. (Coleção Pesquisa (Auto)Biográfica-Educação, nº 5). PASSEGGI, M. C.; BARBOSA, T. M. N. (Org.). Narrativas de formação e saberesbiográficos. Natal: EdUFRN; São Paulo: Paulus, 2008b. (Coleção Pesquisa (Auto) Biográfica-Educação, nº 6). PRIMACK, R. B. Essentials of conservation biology. Massachusetts: Sinauer AssociatesInc., 1993. SCHAUN, Angela. Educomunicação. Reflexões e Princípios. Rio de Janeiro: Maud,2002. SILVA, M. M. P. da. Estratégias em educação ambiental. 2000. Dissertação. Mestradoem Desenvolvimento e Meio Ambiente/PRODEMA). UFPB/UEPB. Campina Grande. SOARES, I. 2002. Gestão Comunicativa da Educação: Caminhos da Educomunicação. In:Revista Comunicação e Educação. Editora Ano VII, jan./abr. 2002, p 16 – 25. TRATADO de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e ReponsabilidadeGlobal – Aprovado na Jornada Internacional de Educação/Fórum Global – Rio 92. Foz do Iguaçu(PR): Itaipu Binacional, 2008. Vozes, 2001.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 128 EFETIVIDADE DA ROTULAGEM AMBIENTAL: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DO RECIFE Adauto Alex dos SANTOS Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas – Zoologia, DSE, Universidade Federal da Paraíba (UFPB) adautoalexs@gmail.com Maria Eduarda V. DIAS Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Tatiana de Oliveira CALADO Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Virgínia C. B. ROCHA Graduada em Ciências Biológicas/Ciências Ambientais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) RESUMO Esta pesquisa buscou avaliar a relação entre consumidores de produtos de supermercados,catadores de materiais recicláveis e a rotulagem ambiental. A rotulagem ambiental funciona comoum elo de comunicação entre produtor e consumidor, visando informar ao consumidor algumascaracterísticas sobre o produto. O trabalho trata-se de uma pesquisa exploratória com umaabordagem qualitativa e quantitativa. Foram aplicados 100 questionários de múltipla escolha àpopulação de consumidores (n=80) e catadores de materiais recicláveis (n=20) na cidade do Recife,no ano de 2008. Através da aplicação desses questionários pode-se constatar a falta deconhecimento dos consumidores em relação ao selo ou rótulo ambiental, onde a grande maioria diznunca percebê-los nas embalagens, demonstrando que na hora da compra as pessoas pouco seimportam com o destino final do produto que levam para casa. Em relação aos catadores demateriais recicláveis, surpreendentemente, a maioria dos entrevistados (19 catadores) souberamexplicar corretamente o que é uma coleta seletiva devido, principalmente, ao convívio direto com osdiversos tipos de materiais. Há uma necessidade de maior conteúdo informacional no que é passadonos rótulos para garantir que os consumidores possam realmente se importar com a presença dosselos ambientais e entenda o seu significado. PALAVRAS-CHAVE: Rótulo ambiental, Selo ambiental, Consumidor, Catador demateriais recicláveis. ABSTRACT This research’s objective is to evaluate the correlation between the consumers of productsfrom supermarkets and recycled garbage pickers and the environmental labeling. TheEnvironmental Labeling working as a link of communication between producer and consumer,aiming to inform the consumer some characteristics on the product. This document is anexploratory research using a qualitative and quantitative approach. 100 Questionnaires were appliedmultiple choice to the population of consumers (n=80) and recycled garbage pickers (n=20) in thecity of Recife, in the year 2008. Through the application of these questionnaires was possible tonotice the consumer’s lack of knowledge in respect to environmental labels or stamps, where thegreat majority says never understand them on packs, showing that at the time of acquire people littlecare to the final destination of the product that take to home. In relation to recycled garbage pickers,surprisingly, most interviews (19 garbage pickers) able explain correctly what it is a selectivecollect due, mainly, to direct contact with the various types of materials. There is a necessity forgreater informational content in what is transmitted in labels to ensure that consumer’s can actuallyimported with the presence of the environmental stamps and understand its significance. KEYWORDS: Environmental label, Environmental stamp, Consumer, Recycled garbagepicker.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 129 INTRODUÇÃO Através do marketing verde e do consumo consciente, atualmente em estágio deevolução, identificou-se, no mercado, uma ferramenta que poderá agregar valor a essas duasvertentes: Os rótulos ambientais. A rotulagem ambiental, que funciona como um elo decomunicação entre produtor e consumidor, são selos que visam informar ao consumidor algumascaracterísticas sobre o produto, podendo ser conhecidos também como “selo verde”, “seloambiental” ou “rótulo ecológico”. Além do consumidor, esses rótulos têm como objetivo fornecerorientação para o processo de coleta seletiva através de sua simbologia de produtos recicláveis(GODOY & BIAZIN, 2000; KOHLRAUSCH, 2003). A ISO (Organização Internacional para Padronização) criou a série de Normas“14020” falando sobre os três tipos de rotulagem ambiental. A Rotulagem tipo I (NBR ISO 14024)aborda tópicos sobre os programas de Selo Verde, estabelecendo princípios e procedimentos para odesenvolvimento de programas de rotulagem ambiental, incluindo a seleção de categorias deprodutos, critérios ambientais e características funcionais dos mesmos, além de avaliar e demonstrarsua conformidade. Esta Norma também estabelece os procedimentos de certificação para aconcessão do rótulo (CEMPRE, 2008). A Rotulagem tipo II (NBR ISO 14021) especifica os requisitos para auto-declaraçõesambientais, incluindo textos, símbolos e gráficos, no que se refere aos produtos. Este tipo derotulagem descreve termos selecionados usados comumente em declarações ambientais e fornecequalificações para seu uso, além de trazer uma metodologia de avaliação e verificação geral paraauto-declarações ambientais e métodos específicos de avaliação e verificação para as declaraçõesselecionadas nesta Norma. Dentro desta Norma estão contidas declarações como “recicláveis”,“lixo comum”, “plásticos”, entre outros, auxiliando, dessa forma, na coleta seletiva (CEMPRE,2008). Os Rótulos do tipo III (ISO 14025) ainda estão sendo elaborados no âmbito da ISO, tendoum alto grau de complexidade devido à inclusão da ferramenta “Avaliação do Ciclo de Vida”. Apercepção é de que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que este tipo de rotulagemganhe o mercado, visto que a ferramenta de ACV ainda não está definitivamente consolidada doponto de vista técnico (CEMPRE, 2008). O crescimento desordenado da população, a inexistência de uma política eficiente, e a faltade informação da grande massa da população faz com que haja uma urgência de se criaremdiretrizes que acompanhem os rótulos ambientais, para que estes tenham seus objetivos alcançadosno seu público-alvo: população de consumidores e catadores de materiais recicláveis. Nesse contexto, o objetivo deste trabalho foi o de avaliar se a rotulagem ambiental, de fato,está sendo posta em prática (Conhecimento e efetividade), atendendo, assim, os objetivos propostosjunto o público consumidor como informante de caracteres ambientais, e com os catadores de coletaseletiva através de sua simbologia para produtos recicláveis. MATERIAIS E MÉTODOS De caráter exploratório este trabalho foi desenvolvido na região metropolitana do Recife-PE, no ano de 2008, com uma abordagem quantitativa e qualitativa. A pesquisa exploratória objetiva, em geral, provocar o esclarecimento de uma situaçãopara a tomada de consciência, através de entrevistas com pessoas que tiveram (ou têm) experiênciaspráticas com o problema pesquisado, nesse caso, o conhecimento sobre a rotulagem ambiental(CHIZZOTTI, 1995). Foram utilizados questionários como instrumento de coleta de dados, sendo estes aplicadose preenchidos pelo entrevistador no momento da entrevista (ver LAKATOS & MARCONI, 1985).Foram elaborados dois questionários de múltipla escolha, um destinado aos consumidores e o outroaos catadores de materiais recicláveis. Para o público consumidor foram aplicados 20 questionários em cada um dos 4 (quatro)grandes supermercados escolhidos aleatóriamente na cidade do Recife (Hiper Bompreço - Av.Caxangá, 3942, Iputinga; Hiper Bompreço - Praça Francisco Pessoa de Queiroz, 23 Casa Forte;
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 130Comprebem – Av. Caxangá, 2900, Iputinga; Extra – Av. Engenheiro Domingos Ferreira, 1818, BoaViagem), totalizando 80 consumidos entrevistados. O segundo tipo de formulário, direcionado aos catadores, foram aplicados em três núcleosde catadores de coleta seletiva, localizados nos bairros da Torre, Cajueiro e Afogados. Ao todoforam entrevistados 20 catadores. RESULTADOS Consumidores A Maioria dos entrevistados foi do sexo feminino (66%), com faixa etária entre 21 e35 anos (33,7%), 2º grau completo (35%) e com renda familiar acima de 11 salários mínimos(30%). Não foi registrado nenhum indivíduo com 1º grau completo ou analfabeto. Nos tipos de produtos que os consumidores afirmam ter o hábito de ler o rótulo, osalimentícios foram os mais citado com 22,2%, seguido pelos de Limpeza e artigos de Higiene ePerfumaria, ambos com 18,5% . Esses dados são referentes aos consumidores que afirmaram lerapenas um tipo de produto, contudo, indivíduos que lêem todos os produtos compreenderam umtotal de 48,15% dos entrevistados, e apenas 3,7% não lêem nenhum rótulo. Mais da metade dos consumidores (55%) afirmaram nunca observarem a presença deselos ambientais no rótulo de um produto, e apenas 17,5% afirmam manter o hábito de lê-los. Comos símbolos de reciclagem os dados são bastante semelhantes: apenas 22,5% dizem sempre observaros símbolos. A grande maioria (47,5%) nunca percebe sua presença ou quase nunca (30%). Os consumidores demonstraram, a primeira vista, diferenciadas formas de analisar orótulo de um produto. Os itens que mais chamam atenção são o logotipo (marca) e o conteúdo, com25% e 22,5%, respectivamente. A presença de alguma certificação no produto é notada por apenas12,5% dos consumidores, seguido pela embalagem reciclável (10%). Na opinião da maioria dos consumidores (72,5%), prevaleceu a seguinte definição noque diz respeito aos selos ambientais: “Declarações que atestam que um produto causa menorimpacto ambiental...”. Em seguida, com 12,5%, encontra-se a opção relacionada à legislaçãovigente. Apenas 30% dos entrevistados sabem identificar no rótulo um selo ambiental, e, paracerca de 46%, a presença de um selo ambiental no rótulo influenciaria em seu processo de compra.A maioria daqueles que responderam não se influenciar pela presença de selo (54%) justificaram asua escolha, principalmente, pelo hábito de sempre comprar a mesma marca. Àqueles queafirmaram ter preferência por produtos certificados citaram, como principal fator motivacional, oprocesso de conscientização ambiental, proteção da natureza e conservação do meio ambiente(59%). Em relação aos símbolos de reciclagem, 60% dos consumidores desconhecem estasimbologia, enquanto 40% estão familiarizados. Quanto ao conhecimento dos símbolos entre osdiferentes materiais, 51,2% afirmaram saber a diferencia entre eles, ao passo que 48,7% não sabemdistingui-los. Catadores de Materiais Recicláveis Do total de entrevistados, 16 catadores eram do sexo masculino, com idade entre 21a 35 anos (50%) e com 1º grau incompleto. A maioria (18 catadores) apresentou renda familiarentre um e três salários mínimos. Quando perguntados se a sua renda principal era proveniente dotrabalho de coleta, 85% (17 catadores) responderam que sim, enquanto que os demais (3 catadores)justificaram outras formas de comércio informal (ambulante) como sendo sua principal fonte derenda. A maioria dos entrevistados (14 catadores) afirmou saber o que é uma coleta seletiva,dentre eles, 19 catadores responderam que “Se trata de um processo de separação dos resíduos deacordo com o material de que é composto”.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 131 Quando questionados se sabiam identificar um símbolo de reciclagem no rótulo dosprodutos, 65% declararam que sim, porém nenhum dos entrevistados sabe diferenciar os símbolosde reciclagem entre os diferentes materiais, assim como todos afirmaram nunca prestar atenção emsímbolos nos rótulos dos produtos que compra. Á exemplo da questão anterior, quando perguntadosse deixariam de comprar algum produto pelo fato de sua embalagem não ser reciclável, todosconfessaram que nunca fariam tal escolha, justificando-a por limitações financeiras. DISCUSSÃO O que mais chama a atenção dos consumidores nos produtos são a marca e o conteúdo,isso confirma que a preferência do consumidor é manipulada pela produção e propaganda degrandes empresas, elas decidem o que produzir, colocando no mercado seus produtos e deixando acargo da propaganda e do marketing a venda dos produtos (PIETROCOLLA, 1986). As grandesempresas são responsáveis por definirem as necessidades e os valores da sociedade (SLATER,2002). Segundo LAZZARINI & SODRÉ (2001), hoje se vive o que muitos autores chamam desociedade de consumo, sociedade que tem por características, entre outros fatores, a produção emsérie, alta tecnologia na fabricação, distribuição em massa, crédito fácil e valorização dapublicidade como meio de venda. Esse sistema acaba atraindo os consumidores no seu dia-a-dia,com as mais variadas propostas e produtos, tornando a escolha e a compra complicada, por nãohaver discriminação entre um produto e outro, principalmente no que se refere aos impactosambientais. Os resultados apresentados neste trabalho corroboram esta idéia, visto que a presençade alguma certificação e selos ambientais chamam atenção de uma ínfima parcela de consumidores. Em relação aos símbolos de reciclagem presentes nos rótulos dos produtos, a grandemaioria diz nunca percebê-los, com uma pequena parcela levando em consideração produtos queapresentem tal embalagem. Na hora da compra, as pessoas pouco se importam com o destino finaldo produto que levam para casa, levando ainda a uma reflexão sobre a coleta seletiva entre osconsumidores. De acordo com BENTLEY (2002), a alavanca principal para reduzir os efeitos ambientaisdo consumo não precisa ser necessariamente o ato de consumir menos, mas como uma segundaalternativa, consumir de maneira diferente. Consumir menos seria o caminho ideal, especialmentenos países desenvolvidos, porém, consumir de maneira diferente utilizando-se da reutilização,reciclando produtos, comprando peças construídas com considerações ambientais e produtos quecontenham rótulos ambientais, hoje, pode ser uma atitude mais realista. A definição de selos ambientais por parte dos consumidores, “Declarações queatestam que um produto causa menor impacto ambiental em relação a outros produtos disponíveisno mercado”, parece de acordo com as definições vigentes atualmente: “A rotulagem ambientalconsiste na atribuição de um selo ou rótulo a um produto para comunicar ao seu consumidor queeste atende aos padrões ambientais requeridos para sua concessão” (ROTULAGEM, 2002);“Rotulagem ambiental são declarações que dão ao consumidor informação acurada a respeito doimpacto ambiental de um produto” (CEMPRE, 1999); “Os rótulos ecológicos atestam que umproduto causa menor impacto ambiental em relação a outros” (NASCIMENTO, 2002). Daqueles consumidores entrevistados que observa a presença de selos ambientais poucosdeles sabiam identificar no rótulo um selo ambiental, e, caso soubessem, pouco influenciaria emseus respectivos processos de compra. A rotulagem é um dos meios capazes de informar asociedade a respeito dos impactos causados pela deterioração ininterrupta do meio ambiente pelomodo insustentável de produção e consumo (SODRÉ, 2002). Em relação aos catadores de materiais recicláveis, sobre o conhecimento da coleta seletiva,a hipótese testada foi de que os coletores não tinham conhecimento sobre esse processo, seguindoapenas orientação do sucateiro (pessoa responsável por comprar os materiais coletados e revender aterceiros). Contudo, a maioria dos entrevistados soube explicar o que é uma coleta seletiva, devidoao convívio direto com os diversos tipos de materiais, refutando nossa hipótese inicial.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 132 A maioria dos entrevistados sabia identificar os símbolos de reciclagem no rótulo, noentanto, nenhum deles soube diferenciá-los. Os catadores não deixariam de comprar algum produtopelo falo de sua embalagem não ser reciclável por falta de condições financeiras, sendo o preçofator determinante para aquisição de produtos. Os catadores também ignoram os aspectos queenvolvem a logística do processo de reciclagem, desconhecimento muitas vezes atribuído ao baixonível de escolaridade. O pouco conhecimento do circuito da reciclagem é um forte impedimentopara que catadores obtenham ganhos melhores nessa atividade (CARMO, 2005; MAGERA, 2003). Observou-se com a pesquisa que não é o rótulo do produto que não é lido ou notado, já quea maioria dos entrevistados o faz com freqüência, especialmente os alimentícios, o problema emquestão são os consumidores não saberem identificar um selo ambiental no rótulo dos produtos.Com isso, comprova-se que o problema de identificação e compreensão se dá apenas com os selosambientais, e isso provavelmente estar ligado ao fato dos selos não agregarem informações econteúdo. Outro fator perceptível foi a falta de preocupação dos consumidores em comprar produtosrecicláveis, além da pouca relevância da simbologia e diferenciação dos símbolos de reciclagempara eles, deixando claro a defasagem na preocupação com o destino final dos produtosconsumidos. Há uma necessidade de maior conteúdo informacional no que é passado nos rótulos paragarantir que os consumidores possam realmente se importar com a presença do selo ambiental eentenda o seu significado. Observa-se que o consumidor tem pouca ou nenhuma informação sobreos atributos de qualidade do produto. Informações do tipo: processo de produção, insumosutilizados, tecnologias, entre outras, não são prontamente observáveis e, por isso, de difícilavaliação pelo consumidor. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENTLEY, M. 2002 Consumir menos, mais ou de outro jeito? Disponível em: <http:// CARMO, M. S. 2005. A semântica "negativa" do lixo como fator "positivo" àsobrevivência da Catação – Estudo de caso sobre a associação dos recicladores do Rio de Janeiro.Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-graduação em Pesquisa em Administração.ENANPAD, Brasília – DF. CEMPRE, 2008. A rotulagem ambiental aplicada às embalagens. ABRE – AssociaçãoBrasileira de Embalagem, Cartilha, 20p. CEMPRE. 1999. A Rotulagem Ambiental e o Consumidor no Mercado Brasileiro deEmbalagens. Acessado em 25/02/2010, Disponível em www.cempre.org.br. CHIZZOTTI, A. 1995. Pesquisa em ciências humanas e sociais. São Paulo: Cortez. GODOY, A.M.G. & BIAZIN, C.C. 2000. A rotulagem ambiental no ComércioInternacional, Anais 4º Encontro Eco-Eco. KOHLRAUSCH, A. K. 2003. A Rotulagem Ambiental no Auxílio à Formação deConsumidores Conscientes. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Produção) – Pós graduaçãoem Engenharia de produção, UFSC, Florianópolis, 153p. LAKATOS, E. M. & MARCONI, M. A. 1985. Metodologia Científica. São Paulo, Atlas,1985. LAZZARINI, M. & SODRÉ, M. G. 2001. Consumidores organizados – os reis domercado? Disponível em: http://www.meioambiente.org.br/consumo_sust.htm>. Acessado em 02jan.2010. MAGERA, M. 2003. Os empresários do lixo: um paradoxo da modernidade. Campinas,SP: Átomo. NASCIMENTO, L. F. 2002. Rotulagem Ambiental. Disponível em:<http://www.disciplinas.adm.ufrgs.br/engambiental/download/Aula%206-%20selos.ppt>. Acessoem: 19 dez. 2009. PIETROCOLLA, L. G. 1986. O que todo cidadão precisa saber sobre sociedade deconsumo. São Paulo/SP: Global, 74p.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 133 ROTULAGEM ambiental. 2002. O compromisso selado. Sitivesp News. São Paulo, ano II,edição VI. SLATER, D. 2002. Cultura do consumo & Modernidade. São Paulo: Nobel. SODRÉ, M. G. O. 2002. Dever de Informar e a Proteção Ambiental. Disponível em:<http://server.digipronto.com.br/idec.org.br/consumidorsa/arquivo/fev00/fev0028.htm>. Acessoem: 20 dez 2009. www.akatu.net/conheca/visualizarConteudo.asp?InfoID=220>. Acesso em: 08 de fev2010.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 134 MARKETING VERDE: O SEU PAPEL NO PROCESSO DECISÓRIO DE COMPRA DOS UNIVERSITÁRIOS DAS INSTITUIÇÕES PRIVADAS DE ENSINO SUPERIOR. PEDROSA, André de Sousa UFCG andre_pedrosa1@yahoo.com.br SOUZA, Adriana Paula Braz UFCG adrianapaula.souza@hotmail.com PINHEIRO, Isabelle de Fátima Silva UFCG isabelleisp@gmail.com FREITAS, Lúcia Santana de, Dra UFCG luciasf@ch.ufcg.edu.br RESUMO O século XXI tem se caracterizado por uma peremptória evolução ambiental em virtude docrescente desequilíbrio ambiental devido ao processo de industrialização e, sobretudo, aoconsumismo descontrolado das sociedades. Essa evolução ambiental desenvolve-se sobre o escopode uma nova sensibilização ambiental por parte de entidades governamentais, ONG`s, sociedadecivil e ambientalistas que exigem a inserção da sustentabilidade no âmbito das corporações. Essareivindicação da sociedade por organizações sustentáveis vem manifestando-se no processodecisório de compra de um consumidor mais seletivo e, principalmente, mais racional com asescolhas dos produtos. Face ao exposto, o presente artigo trata de uma análise do comportamento deconsumo dos estudantes de Instituições de Ensino Superior privada, localizadas na cidade deCampina Grande-PB. O artigo apresentou como objetivo analisar as percepções dos estudantesuniversitários sobre a utilização do marketing verde e os seus reflexos na decisão de compra. Otrabalho buscou identificar se o público pesquisado poderia desembolsar uma quantia maior paracomprar produtos ambientalmente corretos; avaliar se o público confia na preocupação dasorganizações com o meio ambiente ao investirem na produção de produtos verdes; enumerar osprincipais fatores que influenciam a decisão de compra; avaliar se as instituições de ensino superiorestão promovendo ações que notabilizem a promoção de uma nova racionalidade consumistaambientalmente correta e verificar se as certificações são fatores preponderantes na decisão decompra. A pesquisa de campo constatou que, de modo geral, os universitários ainda não seconscientizaram sobre a possibilidade de modificarem as atitudes das organizações poluidorasatravés do ato decisório de consumo. Outra informação auferida foi à mencionada inexistência deações proativas por parte da instituição de ensino para o fortalecimento de uma consciênciaambiental. PALAVRAS CHAVES: Consciência ambiental; Sustentabilidade; Marketing verde;Educação ABSTRACT The century has been characterized by an adamant environmental changes due to thegrowing environmental imbalance due to the process of industrialization and, above all, theconsumerism of society. This development environment is developed on the scope of a newenvironmental awareness by government agencies, ONG’s, civil society and environmentalists whodemand the inclusion of sustainability within corporations. This widespread demand for sustainableorganizations is manifested in the decision process of purchasing a consumer more selective andespecially with the more rational choices of products. Given the above, this article deals with ananalysis of consumer behavior of students in institutions of higher education private, located in thecity of Campina Grande. The article presented to analyze the perceptions of university students on
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 135the use of green marketing and its impact on purchasing decisions. The study aimed to identifywhether the public could pay searched a larger amount to purchase environmentally friendlyproducts, assessing whether the public trust in organizations concerned with the environment byinvesting in the production of green products, list the main factors influencing the buying decisionand to evaluate whether the higher education institutions are promoting actions that excel inpromoting a new environmentally friendly consumer rationality and verify that the certifications areimportant factors in purchasing decisions. The field research found that, overall, the university hasnot become aware of the possibility of altering the attitudes of polluting organizations through theact of making consumption. Other information was received for the aforementioned lack ofproactive efforts by the educational institution for the strengthening of environmental awareness. KEYWORDS: Environmental awareness, sustainability, green marketing, Education INTRODUÇÃO É notório que há muito tempo estamos no limiar de um cenário catastrófico e irreversívelpara o planeta. Este inquestionalmente não suporta mais o ritmo consumista que nos imprimimos nonosso cotidiano. O clamor por uma nova sociedade mais racional e por empresas sustentáveistornam-se mais latentes no cenário mundial. Uma nova consciência faz-se necessário, o desligamento de antigos paradigmas, de antigastautologias e paradoxos, almejando, desta forma, um consumo e um crescimento sustentado eordenado, no qual as organizações possuem um papel singular nesta evolução. Diante destarealidade que sugere a inserção da sustentabilidade do desenvolvimento econômico, poucasorganizações se mostram simpatizantes na inserção de processo que venham a causar uma produçãomais limpa e sustentável. Uma grande parcela preocupa-se apenas em não divergir com a legislação,evitando assim as penalidades, ou seja, ainda situam-se naquele estágio inerte diante das açõesantrópicas que as mesmas promovem para os seus colaboradores, à população e ao planeta. Poroutro lado, há organizações que conseguem interpretar essas mudanças de paradigmas através deum prisma diferente, prisma esse que enxerga novas conveniências e diferenciais, e já direcionamseus planejamentos para as novas contingências mercadológicas. O marketing verde é uma ferramenta de gestão holística de processos que alvitramidentificar, antecipar e satisfazer as necessidades dos clientes e sociedade, através de um novoordenamento balizado na consonância entre lucratividade e sustentabilidade. (PEATTIE;CHARTER, 2003). A função deste tipo de marketing que enfatiza as questões ambientais é de agregar valoresaos produtos através dos enfoques ecológicos e sociais, tendo por preceitos a educação ambiental eos seus valores gerados. O marketing verde quando planejado de forma ética e moral, incentiva oconsumo consciente da sociedade, e ao mesmo tempo projeta uma imagem de qualidade dosprodutos e de uma organização ciente de suas responsabilidades perante a sociedade. Assim, em decorrência dos novos cenários que ressaltam o meio ambiente e, sobretudo,perante o contexto de que é plausível contribuir com o meio ambiente através das decisões deconsumo, enfatiza-se a importância da consciência verde nas universidades. As Instituições deEnsino Superior tem a obrigação de difundir a educação ambiental, como um processo no qual oindivíduo e a coletividade desenvolvem valores sociais, habilidades, atitudes, valores sociais ecompetências direcionadas para a conservação do ambiente e, sobretudo, para um consumoconsciente e ético, visto que, os universitários representam uma parcela consumista considerável epoderão representar a força motriz para as futuras transformações em termos de consumo nomundo. Portanto, a justificativa deste trabalho encontra-se na importância que a temática ambientaltem tomado dentro das esferas sociais, visto que, o processo de conscientização ambiental é umdever de todos. Mesmo que estejamos inseridos em paradigma capitalista desenvolvimentista,podemos através de um consumo consciente cooperar com a diminuição dos níveis de poluiçãocausados por nós e pelas organizações. Assim, é importante ressaltar que os universitários poderãoser os principais atores de uma transformação de consumo. Por conseguinte o estudo procura
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 136analisar as percepções dos estudantes universitários sobre a utilização do marketing verde e seusreflexos na decisão de compra, como também a postura das instituições de ensino superior comrelação às questões ambientais e sua implantação no meio acadêmico. Metodologia Trata-se de uma pesquisa de campo quali-quantitativa tendo em vista que a coleta de dadosutilizou como instrumentos de investigação questionários aplicados aos discentes das instituiçõesprivadas de ensino superior. Segundo Oliveira (2002) a abordagem da pesquisa quantitativasignifica quantificar opiniões, dados, na forma de coleta de informações, e empregar recursos etécnicas estatísticas. A abordagem qualitativa não emprega tratamento estatístico como centro doprocesso de análise do problema, mas é usada para poder entender a relação de causa e efeito dofenômeno e conseqüentemente chegar a sua verdade e razão. O método de pesquisa a ser usado é oSurvey. Conforme Babbie (1999) a pesquisa Survey é usada para a obtenção de dados sobrecaracterísticas, ações ou opiniões de determinado grupo, indicado como representante de umapopulação alvo, por meio de questionários estruturados e entrevistas pessoais. A aplicação dosquestionários utilizou perguntas fechadas e de múltipla escolha. O universo da pesquisa envolveu100 estudantes de duas instituições privadas de ensino superior do município de Campina Grande.Os resultados foram obtidos a partir de uma análise estatística descritiva de caráter quali-quantitativa de cinco cursos, a saber: Administração, Biomedicina, Biologia, Enfermagem eFisioterapia, pertencentes ao terceiro período, e todos tiveram na sua grade curricular disciplinasrelacionadas ao meio ambiente. Fundamentação teórica Marketing Verde: Um novo enfoque organizacional Com o reconhecido desenvolvimento das práticas da gestão ambiental, as organizaçõesiniciaram um novo processo de adaptação dentro de suas áreas mercadológicas, onde as temáticasambientais representam a principal força motriz desta nova adaptação. As organizações além de serem obrigadas a seguirem uma legislação ambiental incisivaque as obriga a uma acuidade maior com o controle da poluição, também deverão coadunar seusplanejamentos com a nova visão da sociedade, visão esta que esta cada vez mais focada com asconseqüências da degradação ambiental. Para Kotler (1995), o marketing verde surge quando as organizações começam a absolveras temáticas ambientais e os anseios sociais sobre o meio ambiente. A produção de produtosecologicamente corretos, embalagens recicláveis e biodegradáveis e um maior controle da poluição,foram estratégias utilizadas pelas organizações na tentativa de convergir suas culturasorganizacionais com a nova racionalidade ambiental imposta pela sociedade. Diante das recentes necessidades que norteiam essa racionalidade ambiental que sedissemina de forma contínua entre os consumidores, as organizações deverão se adaptar a essasnovas necessidades através da ferramenta do marketing verde que proporciona a inserção depolíticas ambientais envolvendo todos os níveis setoriais da organização. Os consumidores estãomais informados e atentos aos produtos que consomem e, sobretudo, muitos determinam suasdecisões de compra não apenas pelo fator preço, mas também pelo critério seletivo de escolha deprodutos que de alguma forma colaborem com a questão socioambiental. Para o marketing verde, a sua vertente principal é o desenvolvimento da educaçãoambiental. Esta vertente apresenta-se como a força motriz que modificará as decisões dos cidadãos,tornando-os mais atentos às conseqüências dos seus atos de compra e contribuindo para o avanço deum consumo ético, consumo este que é pautado na sinergia da tríplice sociedade, organizações emeio ambiente. O papel da Educação para o consumo ético e sustentável. A nossa sociedade ainda sobrevive no fundo de uma crise sócio-ambiental, onde a urgênciade mudar o paradigma desenvolvimentista e antropocêntrico para uma visão mais coletiva,biocêntrica e comprometida com todos os temas relevantes para a sobrevivência da raça humana. O sistema capitalista impõe padrões de consumo não condizentes com a realidadeambiental, sob pena de inviabilizar qualquer solução sustentável para o desenvolvimento das
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 137nações. Assim, o papel da educação é fundamental na criação de uma nova racionalidade, tendo ação çãocomo elemento capital a conscientização do consumo. Há uma necessidade de mudanças no modode pensar que privilegie uma visão total do mundo, com uma postura ética, responsável e solidária. Segundo Barbieri (2006) a educação ambiental tem a função de criar uma nova unçãomentalidade nas pessoas, com o intuito de promover mudanças que venham a alterar várioscomportamentos divergentes com a realidade em vigência, como, por exemplo, os padrões deconsumo. Na concepção de Sirvinskas (2002) o caminho a ser percorrido para alcançar a consciência vinskasecológica através da educação ambiental será melhor fundamentado com o fomento de uma nova ambiental,ética ambiental, responsável e solidaria com o futuro do planeta. vel A nova ética está fundamentada na responsabilidade e na solidariedade com o futuro. ParaMedina e Santos (1999, p. 18): “Há uma necessidade de mudança fundamental na maneira de ):pensarmos acerca de nós mesmo, nosso meio, nossa sociedade e nosso futuro; uma mudança básicanos valores e crenças que orientam nosso pensamento e nossas ações; mudanças que nos permitaadquirir uma percepção holística e integral do mundo com uma postura ética, responsável esolidária.” Devido a sua importância, a educação ambiental deve ser atuante em todos os graus emodalidades do ensino, e compete ao poder Público a fiscalização de sua aplica aplicação. O artigo 2º daLei 9.795/99 assim estabelece: “A educação ambiental é um componente essencial e permanente daeducação nacional, devendo estar presente, de forma articulada, em todos os níveis e modalidadesdo processo educativo, em caráter formal e não não-formal.” Portanto, o futuro da espécie humana e de todas as espécies depende do equilíbrio do meioambiente. Sem uma relação harmônica e equilibrada entre o ser humano e a natureza, não há comoassegurar a sadia qualidade de vida no presente, e a existência das futuras gerações. Desta forma, aeducação ambiental tem um papel singular na tentativa de criar uma pluralidade de novos valores,calcados na ética, responsabilidade e solidariedade ambiental nas camadas sociais. Análise dos resultados Perante o que foi exposto no decorrer da pesquisa, os questionários foram aplicados a 100 discentes pertencentes a instituições privadas de ensino superior dos curcursos da área desaúde (biomedicina, biologia, enfermagem e fisioterapia) e da área de humanas o curso deadministração. Ao analisarmos as respostas dadas percebemos que no momento da compra de umproduto o consumidor se utiliza de diferentes critérios. Quando indagados sobre tais critérios, pode se perceber claramente que o critério ndo pode-seambiental aparece quase nulo, visto que a maioria desconhece a importância da certificaçãoambiental. De acordo com a primeira pergunta do questionário, referente aos critérios para a escolhae compra de um produto ou serviço, 59% dos entrevistados acham que a qualidade é o principalcritério de escolha, enquanto apenas 2% optaram pela certificação ambiental como critério. 2% Quais os principais critérios para a escolha e compra de um produto ou serviço? 4% 6% Qualidade 29% 59% Preço Gráfico 1 Critério de escolha 1. O que você entende por ume compra de um produto ou serviço. oduto produto ambientalmenteQue na correto Um produto ambientalmente correto seapresenta como estimulador na decisão de compra, ou produto verde? descarte consumo produção, e esse nãopois ele se destaca perante a avaliação do 4% 1% 1% agrediu o meio ambiente. Que a empresa 39% cumpre as leis 55% ambientais.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 138consumidor, sendo então diferente dos demais ofertados, e por isso a impressão que se tem é que eleé superior aos outros. Segundo o observado no gráfico 2, 55% dos pesquisados afirmaram que aterminologia “produto ambientalmente correto ou produto verde” remete que na produção, consumoe descarte, este produto não agrediu o meio ambiente. Por outro lado, 39% dos entrevistadosacreditam que “ambientalmente correto ou produto verde” significa que a empresa cumpre com asleis ambientais. Revela-se então que os entrevistados apresentam uma visão limitada da funçãoambientalmente correto, trazendo uma distorção do seu conceito e mostrando também ineficácia doseu uso. Gráfico 2. Entendimento com relação a produto ambientalmente correto ou verde. O processo de rotulagem, diante do acentuado avanço do mercado verde, surge como umatemática em crescente evolução que vem sendo trabalhada em diversos tipos de países. É umaferramenta que fornece subsídios para uma padronização do consumo, visando uma evolução maisconsciente. De acordo com o gráfico 3, 2% Quando é possível identificar um quando os estudantes foram indagados sobre a possibilidade de produto ambientalmente correto? selo identificação de um produto Quando possui o de certificação 1% 0% 15%1% 1% ambiental ambientalmente correto, 80% Quando a sua responderam que percebem essa embalagem é de papel possibilidade através do selo de 80% reciclavel Outro certificação ambiental afixado no produto, enquanto que 1% avaliam a através da variável ‘preço’. Gráfico 3. Produto ambientalmente correto. Dada a relevância no entendimento da questão ambiental interpretada nos gráficosanteriores, mesmo assim 60% dos entrevistados ainda não pagariam mais caro por produtos quepossuem certificação ambiental. O percentual de negação nos faz refletir sobre a real importância dacertificação, seria necessário algum tipo sensibilização que levasse então a população acompreender melhor e então optar por pagar mais caro ou não. Você estaria disposto a pagar mais por produtos que possuíssem certificação… Gráfico 4. Disposição dos usuários de produtos com certificação ambiental. Sim 40% A aplicação de ações 60% Não ambientais pelas empresas são importantes, pois , mostram que de certa
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 139forma, algum tipo de trabalho a organização está aplicando, por um lado percebe-se a desconfiançado consumidor por achar que esse processo se faz apenas por um jogo de interesses. Faz-senecessário então um melhor planejamento estratégico dessas ações. No gráfico 5, os entrevistadosmostraram-se receosos com relação as ações ambientais aplicadas pelas empresas, visto que 32%entendem que estas ações visam apenas estratégias para vender mais, enquanto que 14% acreditamque essas ações são realmente direcionadas para a proteção do meio ambiente. O que você acha das açoes ambientais aplicadas pelas… para Uma estratégia vender mais 6% 2% 14% 32% Gráfico 5. Aplicações de Passar uma imagem ações ambientais. 18% correta para os seus 28% clientes As instituições pesquisadasapresentam em sua grade curricular disciplinas que versão sobre a temática ambiental, utilizamtambém eventos para estimular o uso consciente, porém o que ainda se percebe é um descrédito porparte dos partícipes. Em relação a responsabilidade social e ambiental das IES para a construção deuma racionalidade de consumo consciente, segundo 62% dos entrevistados, as instituições deixam adesejar no que se refere a um trabalho de sensibilização e disseminação de novos valores pautadosnuma nova ética ambiental. Você observa por parte das IES algum tipo de estímulo ao consumo consciente? 10% 3% Raramente Gráfico 6. Avaliação na visão 25% Nunca 62% dos estudantes da ação das IES. Sempre Quando indagados se reduziriam o nível de consumo em prolda preservação ambiental, 79% dos estudantes responderam que sim, ou seja, apesar de nãoobservarem um incentivo por parte das IES constatado no gráfico anterior, percebe-se que oconsumo consciente vem ganhando espaço através de fatores externos, fatores esses que podem sera mídia, a internet, a TV. Você reduziria o seu nível de consumo em prol da preservação ambiental? 6% 15% Sim Gráfico 7. Relação nível de Não 79% consumo e preservação ambiental. Depende Considerações Finais É imperativo modificar oshábitos de consumo que causam sérios problemas ambientais e sociais, freando o consumismo efazendo escolhas que promovam o desenvolvimento sustentável. Nesse processo, o consumidorconsciente tem um papel fundamental. A realização deste estudo permitiu um melhor entendimentodo comportamento dos estudantes universitários sobre as questões ambientais e as suas relaçõescom o consumo ambientalmente correto.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 140 Os resultados obtidos nas pesquisas de campo demonstram que o consumidor estapassando por um novo estágio desenvolvimento, estágio esse que notabilizasse pelo interesse dosconsumidores nas questões ambientais e, conseqüentemente, no fator de que eles podem assumirum papel fundamental no processo decisório das empresas através da sua força de consumo.Entretanto, este público ainda não possui informações e critérios que venham a desenvolver umconhecimento mais conciso sobre os produtos ambientalmente corretos, a ponto de mudarem osseus hábitos tradicionais. Ficou evidenciado neste estudo que os estudantes são detentores de uma consciênciaambiental e que reconhecem o desequilíbrio ambiental em vigência, no entanto ainda não estãocientes de que suas atitudes individuais de consumo podem contribuir para a mudança destecenário. No que se refere aos critérios que levam o consumidor a decidir por um produto, o públicopesquisado optou pela qualidade, ou seja, não interessa se o produto foi fabricado de formaambientalmente correta. Em relação às ações ambientais das empresas, os entrevistados acreditamque as mesmas não possuem uma real preocupação ambiental, detendo-se apenas no interessecomercial. Um dos aspectos negativos foi à ausência de estímulos das Instituições de Ensino Superiorna formação de novos valores que seriam imprescindíveis para a composição de uma consciênciaambiental real dos estudantes. Um número considerável de entrevistados afirmou que nunca ouraramente as suas Instituições ressaltaram as questões ambientais com a devida precisão eimportância. Esta afirmação nos leva refletir sobre a eficiência do real papel das Instituições deEnsino Superior na formação de um cidadão consciente, cabendo destacar que o desenvolvimentode uma consciência ambiental que reflita em atitudes reais, deve ser iniciada desde o ensinofundamental. Face ao exposto, a consciência ambiental é fator fundamental que deverá ser desenvolvidatanto pelas organizações, como também pelos consumidores. Entretanto, nota-se que este tipo deconsciência ainda se encontra em uma fase embrionária no Brasil, requerendo assim uma maior proatividade de vários setores da sociedade. Para que isso ocorra é necessária a intervenção do governona composição de políticas que sejam eficientes no processo de conscientização ambientalprincipalmente em relação a preservação do meio ambiente e ao consumo ambientalmente correto,considerando que a decisão de compra está sendo cada dia mais repassada para crianças eadolescentes. A realização deste estudo contribuiu para um esclarecimento mais conciso sobre ocomportamento dos estudantes universitários relacionados às suas percepções a respeito dasquestões ambientais e suas relações com o consumo. A consciência ambiental ainda precisa sermelhor trabalhada no intelecto dos universitários e nas suas respectivas instituições de ensino,para que efetivamente surja um novo consumo consciente e ético, e que venha a modificar asposturas empresariais que são divergentes com a realidade ambiental. Portanto, é fundamental que as empresas, sociedade, Instituições de Ensino Superior e ogoverno se unam para atingir uma conscientização coletiva, ética e sustentável. Como por exemplo,as empresas não devem deter-se apenas com o papel comercial, mas também na função de educarambientalmente o consumidor, as Instituições de Ensino Superior deverão estar mais cientes esensíveis com relação às questões ambientais, visto que, o seu papel é formar atores sociaisracionais com os temas que norteiam o desenvolvimento de nossa sociedade, favorecendo assim odesenvolvimento de uma nova consciência de consumo no intelecto dos universitários que serásentida em gerações futuras. Por conseguinte, para uma maior amplitude de resultados, faz-se necessário a conjectura deanálises oriundas de outras instituições e de outros cursos para a obtenção de uma melhordiversidade e qualidade nas informações, visto que, o trabalho se restringiu apenas a um grupo dediscentes de instituições de ensino superior privado. Como sugestões para estudos que abordam temáticas associadas com os assuntostrabalhados no estudo, pode-se analisar os seguintes temas para o desenvolvimento de trabalhos
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 141futuros: Produtos orgânicos e sua participação nos supermercados, uma análise sobre o nível deconhecimento dos selos verdes por parte dos consumidores, o processo de implantação do (SGA)em uma empresa, além da análise de projetos de implantação na rede de ensino de metodologiaseducacionais acerca dos problemas ambientais. Referências Bibliográficas BABBIE, Earl. Métodos de Pesquisas de Survey. 1a. reimpressão. Belo Horizonte: UFMG,1999. BARBIERI, José Carlos. Gestão ambiental empresarial. Conceitos, modelos einstrumentos. São Paulo : Saraiva, 2006 MEDINA, Naná Mininni; SANTOS, Elizabeth da Conceição. Educação ambiental: umametodologia participativa de formação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Metodologia científica aplicada ao Direito. São Paulo:Thomson,2002. PEATTIE ; CHARTER, M. Green Marketing. In : BAKER, M. (ED). The marketing book.Gran Britannia : Ed. Butter Wealth,2003. SIRVINSKAS, Luís Paulo. Meio ambiente e cidadania. Revista do Instituto de Pesquisas eEstudos. Bauru, n. 35, p. 305-307, ago. 2002 KOTLER, Administração de Marketing : análise,planejamento,implementação econtrole.4.ed.São Paulo : Atlas, 1995.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 142O IMPACTO SECUNDÁRIO DA ATIVIDADE PETROLÍFERA NA CIDADE DE MACAÉ COM BASE NA FOTOINTERPRETAÇÃO DE IMAGENS AÉREAS Rafael Nogueira Costa Mestrando em Engenharia Ambiental, Instituto Federal Fluminense, IFF.rafaelnogueiracosta@gmail.com Maria Inês Paes Ferreira Doutora em Engenharia Química e Coordenadora do Núcleo de Pesquisa em PetróleoEnergia e Recursos Naturais, Instituto Federal Fluminense, IFF ines_paes@yahoo.com.br RESUMO Atualmente existem poucos estudos sobre o impacto secundário da atividade petrolíferanos Municípios da Bacia de Campos. A tímida atuação do poder público na mitigação dessesimpactos, aliada à organização incipiente dos usuários dos recursos naturais da região pode levar aoesgotamento de tais recursos, notadamente o dos recursos pesqueiros. Este artigo visa discutir arelação de uso e apropriação dos recursos comuns, em especial, os do estuário do rio Macaé, situadono epicentro das atividades de apoio à exploração e à produção de petróleo offshore na Bacia deCampos. Compreender as funções ecológica e econômica desse ecossistema e entender ospressupostos a ele aplicáveis pela legislação ambiental é um passo fundamental para proporsoluções e definir metas para protegê-lo, contribuindo assim para a manutenção de uma dasatividades tradicionais da Região Norte Fluminense, a pesca. PALAVRAS-CHAVE: Macaé, Petróleo, Crescimento Urbano, Impacto, Estuário ABSTRACT Currently there are few studies on the secondary impact of oil activity in the municipalitiesof Campos Basin. The modest performance of the government in mitigating these impacts, coupledwith the incipient organization of users of natural resources in the region may lead to depletion ofthese resources, notably fisheries resources. This paper discusses the relationship of use andappropriation of common resources, in particular the Macaé River Estuary, located at the epicenterof activities to support the exploration and production of offshore oil in the Campos Basin.Understanding the ecological and economic functions of this ecosystem and understand theconditions applicable to it by environmental legislation is a key step to propose solutions and setgoals to protect him, thus contributing to the maintenance of traditional activities of the NorthFluminense, fishing . Keywords: Macaé, Petroleum, Urban Growth, Impact, Estuary INTRODUÇÃO O Município de Macaé (Figura 1), localizado no Estado do Rio de Janeiro, Brasil, fazdivisa com as cidades de Quissamã, Carapebus, Conceição de Macabu, ao Norte; Rio das Ostras eCasimiro de Abreu, ao Sul; Trajano de Moraes e Nova Friburgo, a Oeste; e com o OceanoAtlântico, a Leste. Possui uma área total de 1.219,8 km2, destacando-se a presença de diversospontos turísticos, como as praias e a região serrana (MACAÉ, 2009). O objetivo desse estudo éanalisar através do uso de aerofotografias antigas e atuais os impactos secundários da atividadepetrolífera no Município de Macaé, em especial o estuário. Tal modificação vem gerando umadescaracterização de um ecossistema de relevância ambiental e econômica para a Região.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 143 Figura 1. Localização do Município de Macaé. Fonte: Fundação Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro CIDE (2001). A região de estudo adotada compreende o trecho inferior da bacia do rio Macaé, incluindoa parte final estritamente fluvial e toda zona estuarina da bacia. O trecho em estudo, embora poucoextenso, incorpora áreas de grande interesse social (navegação, moradias e pesca). METODOLOGIA O sensoriamento remoto é uma tecnologia que permite obter imagens e outros tipos dedados, da superfície terrestre, por meio da captação e do registro da energia refletida ou emitida pelasuperfície (GALLOTTI, 2007). Os fenômenos no mundo real podem ser observados sob trêsaspectos: (i) temático, aquele que trata das variação de características; (ii) espacial, trata da variaçãogeográfica; e (iii) temporal, trata da variação em intervalos de tempo (SILVA, 2007). Neste trabalhoprocuramos apresentar os três aspectos através do acompanhamento da série histórica: 1956, 1966,1976, 1989 e 1999; e relacioná-lo com os conceitos de uso e apropriação apontados por Vieira et al.(2005). RESULTADOS E DISCUSSAO IMPACTOS SECUNDÁRIOS DA ATIVIDADE PETROLÍFERA EM MACAÉ A Aerofotografia 1 foi tirada em 1956, época em que já era possível ver que a cidade deMacaé estava localizada no estuário do Rio Macaé. Esse fenômeno de crescimento das cidadesacompanha o que acontece no mundo inteiro. Por se tratar de um ambiente de transição entre ooceano e o continente, os estuários constituem áreas de grande complexidade e vulnerabilidade àinfluencia do homem. Essa relação é estabelecida pelos seguintes motivos: (i) são locais adequadospara a instalação de portos; e (ii) constituem uma via de acesso importante para o interior doscontinentes (MIRANDA et al., 2002). A partir de meados desse século, com a conseqüenteexpansão populacional nas cidades próximas aos estuários em todo o Planeta, aumentouconsideravelmente a influência do homem sobre esse ambiente (WELLS, 1999). Vale ressaltar quenessa época o Código Florestal (Lei 4.777 de 1965) ainda não existia. Logo, suas definições deáreas de preservação permanente e a proteção das matas ciliares não eram aplicadas nesse caso. Em 1966, a cidade ainda sobrevivia basicamente da pesca e do comércio local, dez anos sepassaram e quase não vemos muita diferença em relação à quantidade de moradias localizadas nafoz do rio Macaé (Aerofotografia 2), que passaram a ter suas margens protegidas pela Lei Federal4.771 de 1965 (BRASIL, 1965).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 144 Aerofotografia 1. Data: 1956. O Rio Macaé com seus meandros naturais e o início do processo deretificação. Fonte: GEOMACAÉ (2008). Aerofotografia 2. Data: 1966. A paisagem parece não mudar muito apesar te ter passado umadécada. Fonte: GEOMACAÉ (2008). As intervenções realizadas pelo extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento(DNOS) no rio Macaé trouxeram impactos negativos e positivos. Os positivos estão relacionados àdiminuição da incidência de malária, problema que muito preocupava as autoridades locais. Poroutro lado, se constatou a redução do pescado, dada a diminuição dos locais naturais de postura epelo desaparecimento de áreas de várzeas com vegetação natural. Houve também uma diminuiçãodo volume de água e acúmulo de terra em conseqüência de enchentes (AMARAL, 2003). Nota-se que o Rio permanecia com seus meandros naturais e que se torna visível o iníciodo processo de retilinização (Aerofotografia 3). Este processo criou ilhas entre o novo curso,retilinizado, e o antigo, sinuoso, além de dois braços na desembocadura, separados pela ilha ColôniaLeocádia (SOFFIATI, 2007). Porém, após 20 anos ainda não se verificava mudança significativaem termos de ocupação associada ao crescimento urbano. Como afirma Soffiati (2007), com a descoberta das jazidas de petróleo da Bacia deCampos e a posterior construção das instalações da PETROBRAS em Macaé, a cidade passou areceber anualmente milhares de pessoas de todo o Brasil em busca de emprego. Muitas nãoconseguem trabalho e acabam marginalizadas, o que gera, além da violência, a invasão de áreas de
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 145preservação ambiental (IPEA, 2008). Em alguns trechos verifica-se um vertiginoso processo deurbanização por pessoas de baixa renda, tornando-se consolidado em alguns pontos: (i) na margemdireita do rio velho; (ii) no interior da ilha Colônia Leocádia; (iii) no trecho final do canal Campos-Macaé; (iv) e na margem esquerda do rio. Entretanto o processo de invasão do estuário não selimita a pessoas com baixo poder aquisitivo, o que pode ser visto na ilha da Caieira, onde estálocalizado um condomínio fechado com mansões (Aerofotografia 4). A urbanização, além de suprimir importantes áreas, acarreta outro grande problema:aumento de lançamentos de produtos químicos (LACERDA et al. 2008). Com efeito, é notória acontaminação do rio Macaé por esgoto orgânico, por efluentes oleosos e por resíduos sólidos.Apesar de possuir sua foz permanentemente aberta, permitindo a ação saudável das marés, esseecossistema encontra-se em estágio avançado de degradação sofrendo intensos e permanentesimpactos antrópicos como lançamento de esgoto in natura e despejo de óleo das pequenasembarcações utilizadas para pesca, principalmente no final do Canal Campos-Macaé. Em 1999, oMunicípio de Macaé já estava consolidado no cenário nacional e até mesmo mundial no tocante àindústria do petróleo. Associado aos problemas ambientais e sociais ocasionados pelo processo deextração de óleo e gás, o crescimento da cidade gerou uma pressão sobre o estuário (Aerofotografia5, na qual pode-se ver o Rio Macaé completamente retilinizado). Aerofotografia 3. Data: 1976. Início da formação da Ilha Colônia Leocádia. Fonte: GEOMACAÉ(2008).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 146 Aerofotografia 4. Data: 1989. Início do crescimento espontâneo em cima do estuário. Implantaçãodo Porto de Imbetiba. Fonte: GEOMACAÉ (2008). Aerofotografia 5. Data: 1999. Descaracterização do estuário do rio Macaé. Fonte: GEOMACAÉ(2008). Atualmente, um dos maiores vetores de crescimento da cidade situa-se sobre o estuário, oque acarreta em uma diminuição na quantidade de pescado, influenciado pela perda de habitat paraprocriação e crescimento dos organismos marinhos, aliados a esse fator a sobre pesca e poluiçãourbana, fazem desse um grande problema enfrentado pelo governo atual e futuro no que diz respeitoa sustentabilidade do município, principalmente após a finalização das atividades exploratórias depetróleo e gás na Bacia de Campos. As atividades humanas concentradas nessas áreas podem geraroutros tipos de estresse, podendo alterar completamente as condições naturais do meio (BONETTI,2000). Almeida (2009) discute a falta de percepção ambiental de alguns alunos das escolas públicaslocalizadas próximas ao manguezal, o que comprova não só a descaracterização do ambiente, mastambém a separação homem-natureza no tocante a esse ecossistema, que caracteriza, conformeFoster (2005), um estado de alienação. FUNÇÕES ECOSSISTÊMICAS E RELAÇÕES HOMEM-NATUREZA NO ESTUÁRIO
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 147 Segundo a definição de Dyer (1997, apud MIRANDA et al., 2002) os estuários são corposde água costeiros semifechados, com uma livre ligação com o oceano aberto, estabelecendo-se rioacima até o limite da influência da maré, sendo que em seu interior a água do mar émensuravelmente diluída pela água doce oriunda da drenagem continental. Diversos peixes ecrustáceos utilizam o estuário como parte do seu ciclo de vida, entre eles o camarão-rosaFarfantepenaeus paulensis apresenta forte valor comercial na região norte-fluminense (IWAI,1978). Assim sendo, as regiões comerciais de pesca dependem da conservação e da proteção dosestuários (BRAGA et al., 2005; MIRANDA, et al., 2002). O estuário, em especial o manguezaldesempenha diversas funções naturais de grande importância ecológica e econômica, dentre asquais se destacam (SEMADS, 2001; HERCULANO & PACHECO, 2006): (i) Proteção da linha dacosta: a vegetação atua contra a ação erosiva das ondas e marés; (ii) Retenção dos sedimentoscarreados pelos rios; (iii) Ação depuradora: o ecossistema funciona como um filtro biológico; (iv)Fonte de matéria orgânica particulada e dissolvida para as águas costeiras adjacentes e (v)Renovação da biomassa costeira e reprodução de espécies. Costanza et al. (1997) relatam que osecossistemas apresentam serviços e funções ecológicas que podem ser classificados quanto ao seuuso e valor para a sustentabilidade humana. Os estuários apresentam extrema relevância, poisparticipam em praticamente todos os serviços apresentados, destacando-se: refúgio e berçário dasespécies, controle da linha da costa e inundações, ecoturismo, pescaria e recreação ao ar livre eciclagem dos nutrientes. Muitas são as normas jurídicas existentes para defesa desse ecossistema. Porém, comoafirma Leff (2000), elas mais sancionam as condutas individuais que geram efeitos nocivos noambiente do que reorientam a racionalidade global do aproveitamento dos recursos naturais depropriedade comum. Com isso o processo de uso e ocupação do estuário passa a ser calcado napremissa de punição individual. Como a punição não aconteceu no início e Nem vem sendopraticada na atualidade, isso facilitou e vem facilitando a prática de apropriação das terras dentrodas áreas protegidas por lei. O processo de ocupação do estuário em Macaé foi acelerado pelachegada da indústria petrolífera na Bacia de Campos, e em especial na cidade de Macaé, que foiescolhida para ser à sede dos processos de exploração. Como no fim da década de 70 as questõesambientais não estavam em voga, os princípios do discurso ambientalista não foram incorporadosna prática política daquela época, gerando uma forte degradação ambiental e diminuição dequalidade de vida das populações locais, o que caracterizamos como impactos secundários dessaatividade. É visível o fato que em Macaé o homem se tornou alienado em relação ao ambientenatural, pois a busca pelo crescimento econômico individual e pelas riquezas materiais passa a ser ocentro das atenções. Os pescadores, por terem co-evolucionado sustentavelmente com a natureza eassegurado à conservação da biodiversidade nos estuários (ALIER, 2007), são ou deveriam ser seusdefensores. Porém, em Macaé, esse grupo está desarticulado e sem lutas visíveis em relação àdefesa desse bem tão precioso. Muitas vezes, são os próprios pescadores os grandes culpados peladescaracterização desse ecossistema, pois jogam toneladas de óleo das embarcações no rio. EmMacaé também inexistem atualmente grupos articulados ligados a correntes do ativismo ambiental.Nesse sentido, as instituições educacionais que chegaram no Município, como Universidade Federaldo Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Federal de Educação,Ciência e Tecnologia Fluminense (IF Fluminense) e outras, passam a desempenhar papelimportantíssimo na construção de feedbacks, contribuindo assim para uma articulação com ossetores envolvidos direta e indiretamente com essas causas, necessária à construção daracionalidade ambiental, formulando e/ou sistematizando princípios conceitos e teorias que searticulam com os processos ecológicos, tecnológicos e sociais, os quais são a base de umaracionalidade produtiva alternativa (LEFF, 2000). Ao falarmos em exaustão dos recursos naturais, cabe ressaltar a parábola usada por Hardin(1968, apud Vieira et al., 2005) conhecida como “tragédia dos comuns”. Formulada inicialmentepara explicar a superexploração de áreas de pastagens, num hipotético sistema de recursos comunsna Inglaterra medieval, pode ser aplicada aos dias atuais no Município de Macaé. Os indivíduos que
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 148usam em conjunto o mesmo recurso são incapazes de se organizar e de se engajar numa açãocoletiva, ou seja, “a liberdade no uso de recursos comuns provoca a ruína de todos”. EntretantoVieira et al. (2005) considera que essa metáfora poderosa não chega a caracterizar muito bem o queacontece em muitos casos de recursos comuns, pois não leva em conta a existência de instituições efeedbacks. A organização seria um passo para evitar esse problema, fato que não está ocorrendo emMacaé. Segundo Vieira et al. (2005) os recursos de uso comum podem ser geridos sob um dosquatros regimes básicos de apropriação de recursos, entre eles: (i) livre acesso (geralmente ademanda excede a capacidade de renovação, sendo seu esgotamento inevitável); (ii) propriedadeprivada (tende a um incentivo para uso sustentável); (iii) propriedade estatal (na qual a quantidadede regulamentos, gera um descumprimento generalizado); e (iv) propriedade comunal oucomunitária (oferece o mais diversificado conjuntos de regulamentos, mas o crescimentopopulacional, mudanças tecnológicas e econômicas podem contribuir para a desestruturação dosmecanismos de exclusão). Na prática, os recursos tendem a ser controlados mediante combinações desses regimes, eexistem variações em cada combinação (VIEIRA et al. 2005). Os direitos de apropriação de uso dos recursos naturais estão associados às perspectivassobre as interações entre sistemas sociais e naturais. Os direitos de apropriação dos recursos de usocomum em níveis locais e geridos sob diferentes regimes de apropriação são definidos e analisadosem diferentes possibilidades (VIEIRA et al. 2005). As características básicas na discussão sobre osrecursos comuns são: (i) exclusão ou controle do acesso e (ii) problema de uso compartilhado. Osrecursos que compartilham essas características tendem a ser susceptíveis ao esgotamento e adegradação, esse dilema tem sido chamado de a “tragédia dos comuns”, ou seja, a liberdade no usode recursos comuns provoca a ruína de todos. Assim, apesar de existirem grupos organizados comocolônia de pescadores e associações de moradores, o modelo de apropriação é caracterizado comolivre acesso, tendo em vista que os incentivos para o uso sustentável dos recursos são fracos epraticamente inexistente. Além desse problema ainda existe a invasão do manguezal para construção de moradias,tanto de moradores de baixa renda como de condomínios de luxo. Nesse processo de “invasão” nãoexiste nenhum interesse em conservar os recursos, pois ambos utilizam o rio Macaé comodepositário de esgoto, logo a tendência nesse caso é o esgotamento dos principais organismos,acarretando em uma maior dificuldade para os indivíduos que dependem diretamente eindiretamente dos recursos biológicos desse ecossistema. Com isso, a atividade que um dia foi aprincipal fonte de renda do munípio, fica cada vez menos viável, o que implica no baixo interessedos alunos do ensino fundamental do Colégio Municipal de Pescadores em desenvolver a pescacomo atividade profissional. Entrevistas realizadas previamente mostraram que apenas 6% do totalde alunos matriculados em 2010 possuem tal pretensão. Alguns estudos mostram que nem a gestão centrada exclusivamente no nível local etampouco aquela centrada exclusivamente nos níveis mais altos funcionam bem por si mesmas.Como saída torna-se interessante apoiar instituições que permeiam as diversas escalas, denominadaspor Vieira et al. (2005) como interações transescalares, que estão conectadas tanto horizontalmente(através do espaço) quanto verticalmente (através de níveis de organização). Além disso, quando hádificuldades em se fazer cumprir a legislação, acordos de co-gestão envolvendo os usuários derecursos pesqueiros e as instituições governamentais. Tais acordos podem contar ainda com aparticipação de organizações não-governamentais para desenvolvimento e empoderamento dosatores locais. Experiências análogas já foram tentadas em Macaé (como a formação da RedeSolidária da Pesca, a REDESCA, que contou com a participação da Colônia de Pescadores, deInstituições de Ensino e Pesquisa e do Poder Público, atualmente desarticulada). CONSIDERAÇÕES FINAIS Existem problemas no cumprimento da legislação federal, estadual e municipal no queconcerne às questões ambientais relacionadas ao uso e a ocupação do estuário do rio Macaé. Os
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 149indivíduos que usam em conjunto o estuário, seja para alimentar-se e/ou retirar sustento familiar,não estão conseguindo se organizar em uma ação coletiva para a conservação desse ecossistema.Fato esse que torna os recursos desse ecossistema susceptíveis ao esgotamento e à degradação. Afalta de articulação entre os usuários é visível. A comunidade pesqueira de Macaé andadesestimulada com a situação do futuro da profissão e sem interesse em iniciar qualquer tipo deintervenção e se engajar numa ação coletiva, fato que sugere que os recursos desse ecossistemaestão susceptíveis. É papel das instituições de ensino e pesquisa, como IF Fluminense, UFRJ eoutras, localizadas no Estado do Rio de Janeiro, a produção de feedbacks de forma flexível, aberta eatualizada. Um exemplo desse tipo de procedimento é o monitoramento constante da situaçãoambiental desse ecossistema. Muitas informações já foram produzidas no Município, porém agrande maioria está relacionada ao Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba, pouco se sabe sobrea situação ambiental do estuário do rio Macaé, um ecossistema frágil e de suma importância para aeconomia da Região. A continuidade dessas ações e a não participação da comunidade naelaboração de regulamentos, interligando os diferentes usos do estuário e dos recursos pesqueiros edisciplinando as intervenções, como elaboração de normas explícitas e punições podem levar a umcolapso do ecossistema, influenciando deleteriamente as atividades econômicas locais ligadas àpesca. Como recomendações, acreditamos que retomar os procedimentos que viabilizem os acordosde co-gestão entre a comunidade (notadamente os pescadores), instituições da sociedade civil egovernos, que priorizem o poder formal, compartilhado em parceria, deveria ser uma medidaurgente para mitigar tal problema. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALIER, J. M. 2007. O Ecologismo dos pobres. Conflitos ambientais e linguagens devaloração. Editora Contexto. São Paulo. 2007. AMARAL, K. J. Estuário do rio Macaé: Modelagem computacional como ferramenta parao gerenciamento integrado de recursos hídricos. Tese de mestrado em Engenharia Civil,COPPE/UFRJ. Rio de Janeiro. 2003. p-53. BONETTI, C. V. D. H. C. 2000. Foraminíferos como bioindicadores do gradiente deestresse ecológico em ambientes costeiros poluídos. Estudo aplicado ao sistema estuarino de Santos- São Vicente (SP, Brasil). Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, Instituto Oceanográfico,229 p. BRAGA, B.; et al. Introdução à engenharia Ambiental. 2ª ed. São Paulo: Pearson PrenticeHall, 2005, 23p. BRASIL. Lei n. 4.771 de 15 de setembro de 1965. Institui o Novo Código Florestal.Brasília. DOU 16.09.1965. CIDE (1994). Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro. Percentual das áreas, portipo de uso do solo, segundo os municípios. Disponível emhttp://www.cide.rj.gov.br/tabelas/CoberturaVegetal.htm. Acesso em: 24 de junho de 2009. COSTANZA et al. (1997). The value os the world`s ecosystem services and naturalcapital. Nature. Vol. 387. FOSTER, J. B. 2005. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira. LEFF, E. 2000. Ecologia, Capital e Cultura. Racionalidade Ambiental, DemocraciaParticipativa e Desenvolvimento Sustentável. Edifurb. 2000. IPEA. PAULA, G. (2008). Desafios do desenvolvimento. A revista mensal de informaçõese debate do PNUD. Disponível em : <http://www.ipea.gov.br/desafios/edicoes/29/artigo37746-3.php> Acesso em: 16 dezembro de 2008. GALLOTTI, F. T. Iniciação em sensoriamento remoto. 2a Edição. Oficina de Textos. SãoPaulo. 2007. GEOMACAÉ. 2008. Secretaria Municipal Especial de Planejamento e Gestão. Macaé. Riode Janaeiro.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 150 HERCULANO, S.; PACHECO, T. (2006). Racismo Ambiental. I Seminário Brasileirocontra o Racismo Ambiental. Walprint Gráfica e Editora Ltda. Rio de Janeiro – RJ, 100-48p. IWAI, M. 1978. Desenvolvimento larval e pós-larval de Penaeus (Melicertus) paulensisPérez Farfante, 1967 (Crustacea, Decapoda) e o ciclo de vida dos camarões do gênero Penaeus daregião centro-sul do Brasil. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. p.138. LACERDA, L. D.; MOLISANI, M. M.; SENA, D.; MAIA, L. P. 2008. Estimating theimportance of natural and anthropogenic sources on N and P emission to estuaries along the CearáState Coast NE Brazil. Environ. Monit. Assess. (2008) 141:149–164. MACAÉ. 2009. Macaé: petróleo e desenvolvimento. Disponível em<http://www.macae.rj.gov.br/municipio/macaeped.asp>. Acesso em 15 de julho de 2009. MIRANDA, L. B., CASTRO, B. M., KJERFVE, B. 2002. Princípios de OceanografiaFísica de estuários. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 25-424p. SILVA. R. M. Introdução ao Geoprocessamento. Conceitos, técnicas e aplicações. EditoraFEEVALE. Novo Hamburgo. RS. 2007. SOFFIATI, A. Os manguezais do Sul do Espírito Santo e do Norte do Rio de Janeiro (noprelo). 2007. VIEIRA, P. F., BERKES, F., SEIXAS, C.S. Gestão Integrada e Participativa de RecursosNaturais: Conceitos, Métodos e Experiências. Florianópolis: APED, 2005. Capítulo 1 e 9. WELLS, P. G. 1999. Biomonitoring the Health of Coastal Marine Ecosystems – The Rolesand Challenges of Microscale Toxicity Tests. Marine Pollution Bulletin. Voll.39, Nos. 1-12, p39.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 151 O USO DA AULA DE CAMPO COMO MECANISMOINTERDISCIPLINAR NO ENSINO DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Joel Maciel Pereira CORDEIRO Professor de Geografia (substituto) do ensino fundamental da escola “Ulisses Maurício de Pontes” – Sertãozinho, PB. Graduando em Geografia pela UEPB Joelmacielbig_all@hotmail.com Josenilson Soares BASÍLIO Professor de Ciências do ensino fundamental da escola “Ulisses Maurício de Pontes” – Sertãozinho, PB. Graduado em Geografia pela UEPB, Biologia pela UVA e Especialista em Agroecologia pela UFPB josenilsonsoares@hotmail.com RESUMO Este trabalho discute as contribuições das aulas de campo para motivar a aprendizagem doaluno em relação ao conhecimento ambiental, porque é comum, hoje em dia, encontrar alunos eprofessores reclamando que a sala de aula é um ambiente cansativo e pouco atrativo. A aula decampo por sua vez, constitui um importante elemento que facilita no processo ensino-aprendizagemao comparar a teoria com a prática e simplificar assuntos que, às vezes, tornam-se tão complexos.Contribui para enriquecer a discussão acerca da temática e dinamiza o trabalho do professor.Experiências pessoais de emoções e sensações vivenciadas durante aulas de campo justificam aelaboração deste trabalho, pretendendo, portanto, contribuir para incentivar o desenvolvimento deiniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e de infraestrutura adequadapara realização de tais atividades. Através de resultados de uma pesquisa com alunos do 6º ano doensino fundamental da escola municipal “Ulisses Mauricio de Pontes” em Sertãozinho, no estado daParaíba e do posicionamento de diferentes autores sobre o tema, procurou-se por meio da análise,distinguir pontos básicos necessário ao desenvolvimento do tema – o uso da aula de campo comomecanismo interdisciplinar no ensino da educação ambiental – demonstrando um recursointeressante para valorizar o ensino da educação ambiental e uma possibilidade de inovação para otrabalho do professor, além de levar a compreensão de que a educação ambiental não se limitaapenas a algumas disciplinas, bem como a páginas de um livro ou a quatro paredes de uma sala deaula, mas sim a todas as áreas do conhecimento e em todo o espaço que nos cerca. PALAVRAS-CHAVE: Educação ambiental. Interdisciplinaridade. Motivação. Aula decampo. ABSTRACT This paper discusses the contributions of field classes to motivate students that are learningabout the environmental knowledge, because it’s common, nowadays, to find students and teacherscomplaining that classrooms are boring and unattractive. The class field is an important strategythat helps the teaching-learning process by comparing theory with practice, simplifying issues thatsometimes seem to be so difficult. It helps to enrich discussions about the theme and makesteachers practice more interesting. Personal experiences, emotions and sensations experiencedduring field classes justify the production of this work, intending thus to encourage the developmentof political initiatives which may bring educational stuff to the schools, infrastructure forconducting such activities. Through the results of a survey with the 6th year atudents of anelementary school, The Municipal School Ulisses Maurício de Pontes in Sertãozinho- Paraíba.That’s why a research in different authors that discuss this subject, through it we wanted todistinguish basic points os the development of our subject - the use of class field as aninterdisciplinary mechanism to environmental education teaching - demonstrating a nice feature toenhance the environmental education teaching and an opportunity for innovation of the teacherswork and it also leads to understanding that the environmental education is not limited to certainsubjects, as well as the pages of a book or the four walls of a classroom, but to all areas ofknowledge and all the space around us.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 152 KEYWORDS: Environmental education. Interdisciplinarity. Motivation. Class field. A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E OS TRABALHOS DE CAMPO Na escola, no contexto atual, é comum encontrarmos professores reclamando dodesinteresse dos alunos. É de se considerar que os elementos encontrados no ambiente escolar noqual os alunos se deparam todos os dias – salas de aulas cercadas por quatro paredes, carteiras ondeos alunos assistem às aulas sentados e observando constantemente o professor, o quadro negro e umgiz – transformam o ensino em algo monótono e cansativo. O professor de geografia e de ciências/biologia, bem como das demais áreas doconhecimento, tem a sua disponibilidade diversos métodos que podem ser aplicados dentro e forada sala de aula para auxiliar na aprendizagem do aluno e dinamizar o ensino da educação ambiental.Dentre os métodos para auxiliar no ensino da educação ambiental, as aulas de campo aparecemcomo um instrumento eficiente para o estabelecimento de uma nova perspectiva na relaçãoaluno/aprendizagem, pois o aluno passa a “ver” o meio ambiente em vez de apenas “ler” o meioambiente, permitindo assim, uma maior compreensão da influência que exerce neste ambiente,assim como passam a compreender melhor a influência dos fatores ambientais em sua vida. De acordo com Brasil (1998, p. 126) “Esses trabalhos contemplam visitas planejadas aambientes naturais, a áreas de preservação ou conservação, áreas de produção primária (plantações)e indústrias, segundo os diferentes planos de ensino do professor”. E ainda complementam: Além de unidades de conservação, deve-se considerar a riqueza do trabalho de campo em áreas próximas,como o próprio pátio da escola, a praça que muita vezes está a poucas quadras da escola, as ruas da cidade, os quintaisdas casas, os terrenos baldios e outros espaços do ambiente urbano, como a zona comercial ou industrial ou da cidade[...] (BRASIL, op cit, p. 126). Com relação à educação ambiental, as aulas de campo constituem um elemento importantepara superar as dicotomias existentes entre a teoria exposta em sala de aula e a prática advinda dasaulas de campo, bem como a integração entre as várias áreas do conhecimento. A atividade de campo passa a ser um momento de construir e de compartilhar o novo com o aluno e deaproximar o conhecimento teórico, lógico, ao experienciado, ao empírico. Ela também dá sentido e prazer ao fazerpedagógico, a que se propõe o educador (MATHEUS, 2007, p. 143). Para Lacoste (2006, p. 85) as excursões por ônibus durante a qual os professores, nasdiferentes paradas que previam no percurso, fazem um discurso diante dos estudantes passivos, sãoimportantes, porém insuficientes por servirem apenas de iniciação à pesquisa. Em contrapartida,Alentejano e Rocha-Leão fazem a seguinte observação diante das afirmações de Lacoste: Ao nosso ver, se estas excursões forem previamente preparadas, instigando-se os alunos a problematizar oque vão ver, a preparar o que vão perguntar e refletir acerca do que vão observar, podem representar uma importantecontribuição para o processo de formação destes como pesquisadores (ALENTEJANO e ROCHA-LEÃO 2006, p. 63). Pode-se observar ainda, a importância de uma orientação pedagógica necessária autilização adequada da dialética e os trabalhos de campo. “A didática devia comportar umaoscilação dialética entre o campo e os exercícios na sala de aula: estudos de documentos,exposições orais, discursos [...]. Após o campo, é necessário extrair conclusões, ampliarconhecimentos.” (TRICART, 1985, p.117). Assim, objetivou-se descrever no presente artigo, as diversas contribuições que as aulas decampo podem oferecer para transformar o ensino da educação ambiental em um dos temas maisatraentes para os alunos de todos os níveis de ensino e, principalmente, incentivar odesenvolvimento de iniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e deinfraestrutura adequada para a realização de tais atividades.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 153 Materiais e métodos Para realizar o trabalho foram efetuadas pesquisas com 32 alunos, de idade entre 9 e12 anos, matriculados na época em uma das turmas de 6º ano do ensino fundamental da EscolaMunicipal de Ensino Fundamental “Ulisses Mauricio de Pontes” em Sertãozinho, no estado daParaíba. Houve-se primeiramente, um diálogo com os alunos da turma a respeito dos conteúdos quesequencialmente seriam estudados, depois, discutiu-se a proposta da realização de uma aula decampo após os mesmos aprofundarem-se nos conteúdos preestabelecidos. Em um primeiro momento foram desenvolvidas aulas teóricas na escola, eduas semanas depois, aulas de campo em região circunvizinha à cidade. Nas duas etapas foramabordadas as seguintes áreas de conhecimento: degradação do meio ambiente, biogeografia,biodiversidade e vegetações brasileiras (em especial a mata atlântica e a caatinga). Em classe, os conteúdos foram sobrepostos através de aulas expositivasdialogadas, atividades de leitura de textos e trabalhos pesquisados em equipes, além deapresentações em DVD de algumas imagens referentes aos temas discutidos. Ao levar a turma a campo pretendia-se mostrá-los as espécies vegetais dacaatinga e mata atlântica que podem ser encontradas no espaço vivenciado pelos alunos e suasrespectivas classificações (xerófitas, caducifólias, perenifólias). Almejava-se integrar os estudantese os professores em torno da preservação desses biomas para a garantia e sobrevivência dadiversidade de espécies animais e vegetais que correm o risco de desaparecer devido à degradaçãodesses ecossistemas pelo homem, despertando, contudo, a conscientização ecológica dos mesmosao fazê-los enxergar e sentir de perto a natureza, assim como os problemas provocados no meioambiente pela ação humana. O lugar da aula de campo foi escolhido de forma intencional por ser próximoà cidade e por atender as exigências dos conteúdos pressupostos em sala de aula: havia diversasespécies vegetais da caatinga, como a jurema preta (Mimosa nigra), o juazeiro (Zizipus joazeiro),mandacaru (Cereus jamacaru), sabiá (Mimosa sp) e da mata tropical a exemplo do pau d’arco(Tabebuia sp) e o cajueiro (Anacardium occidentale), além de um açude onde havia indícios deresíduos sólidos depositados no mesmo. Também podiam ser vistos algumas espécies de animaiscomo o anu (Crotophaga ani), a jaçanã (Jacana spinosa) e alguns insetos. Após a aula de campo foram levantadas discussões em sala de aula com osalunos, organizadas em círculos, onde seriam debatidos alguns elementos analisados no decorrer daaula de campo, despertando desta forma, a interação dialética do aluno com o professor e a turma,ao instigá-los a dar suas opiniões, fazer suas críticas ou comentários sobre os temas abordados. Epor fim, foi sobreposto um questionário aos alunos para analisar o conhecimento sobre os conceitosestudados, bem como suas observações a respeito do ambiente visitado, além das emoções emotivação com relação ao conhecimento ambiental despertados com a aula de campo. A motivação acompanha o conhecimento biogeográfico do meio ambiente Uma saída a campo constitui um elemento fundamental para dinamizar o ensino dabiogeografia e integrar os alunos nas questões ambientais, pois a diversidade de elementosencontrados no espaço observado influencia na curiosidade do aluno e na aprendizagem de coisasnovas, assim como favorece o diálogo e uma melhor relação entre professores e alunos. “O dia da saída em geral é uma festa; a alegria de uma aula fora das quatro paredes ésempre vivida com muito entusiasmo” (MARTINS, Ano 3, nº 14, p. 63). Por situar-se próximo àescola, o percurso da aula de campo foi realizado através de caminhadas desde o inicio. Era notávela ansiedade dos alunos e a curiosidade em aprender mais sobre os elementos observados:“professor, que árvore é aquela?”; “a qual classificação pertence àquela árvore?”; “professor, porque as árvores da caatinga perdem as folhas durante a estação seca?”; “professor, ali tem um cácto,ele é da caatinga, não é?”. “Sair do ambiente escolar, por si só, gera um efeito geralmente positivosobre o interesse dos alunos pelo conteúdo” (FARINA e GUADAGNIN, 2007, p. 111).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 154 No campo eram colhidas amostras de folhas e galhos de plantas, sendo explicado aosalunos algumas características que as classificassem como pertencentes a caatinga ou a mata pertencentestropical. Também foi esclarecido aos alunos que a intervenção humana nesses biomas com práticasde queimadas e derrubadas da vegetação nativa vem a cada dia pondo em risco as espécies de seresvivos que dependem desse ambiente para sobreviver. Ao observar o açude notava ambiente notava-se que haviamresíduos sólidos depositados no mesmo (isopor, garrafas pet, sacolas plásticas), e este problemaservia de base para explicar aos alunos sobre as conseqüências da degradação do meio ambientepara o ser humano. As atividades realizadas no decorrer da aula de campo demonstraram satisfatórias junto demonstraram-seaos objetivos preestabelecidos. É de se concordar que: Além da fuga das paredes escolares (fundamental, sadia e necessária), que já serve como uma mo motivação parao trabalho e para o surgimento de interesse, o estudo de caso específico tem como retorno imediato a atribuição designificado ao conteúdo que esta sendo estudado (FARINA e GUADAGNIN, 2007, p. 118). onteúdo A aula de campo é um componente didático que não tem como ser separado da quesensação de lazer, ansiedade, angústia e novidade. É nessa perspectiva que considero importante sair do espaço escolar, mais formal, com papeis definidos e cadeiras ordenadas, para um local que nos permita desfrutar emoções compartilhar, cantar, rir, emoções, quem sabe proporcionar um novo olhar ao que já está dado (MATHEUS, 2007, p. 142) 142). Através destas atividades observou-se que as aulas de campo despertam a motivação do sealuno e contribuem para aproximar o mesmo do conhecimento biogeográfico, ou seja, ambiental , ambiental. Tanto nas discussões em sala de aula, como no questionário, ao questioná ao questioná-los sobre o queeles mais gostaram na aula de campo, obteve se como resultado respostas bem diversificadas, desde obteve-sea análise da paisagem, observar a natureza, os animais e as espécies vegetais, até respostas natureza,relacionadas a aspectos emocionais como diversão e tranquilidade, conforme aparece no gráfico I: mocionais tranquilidade, Gráfico I: Frequência de justificativas apresentadas pelos alunos com relação à seguinte questão: “O que ênciavocê mais gostou na aula de campo?” No questionário foi elaborada uma questão para analisar quais os aspectos da paisagemobservada atraiu mais a atenção do aluno: “V cê achou o lugar visitado: feio ( ); bonito ( ); por “Vocêquê? 31 alunos responderam que acharam o lugar bonito e apontaram diversas justificativas:“porque é um lugar calmo, cheio de plantas e animais”; “porque é uma paisagem natural etranquila”; “por causa da natureza”; “porque o açude é enorme e tem muitas árvores” 2 alunos usa árvores”.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 155consideraram o lugar feio e apontaram a poluição do açude como fator fundamental para suasconclusões: “porque o açude estava poluído”; “porque havia lixo no açude”. A partir do observado evidenciou-se a importância da utilização das aulas de campo separa estabelecer uma relação entre teoria e prática, permitindo aos alunos vivenciarem aquilo quefoi prescrito em sala de aula, comprovando as diferenças e semelhanças da realidade biogeográficados lugares visitados, aproximando, portanto, o alunado dos temas expostos. Desta forma, foram elaboradas mais três questões para analisar o aproveitamento eassimilação dos conteúdos pelos alunos. Ao questioná-los: “Quais os elementos do conteúdo visto em sala de aula você observou no conteúdodecorrer da aula de campo?”, 26 alunos conseguiram estabelecer de forma coerente a relação entre ateoria pressuposta em sala de aula com a aula prática desenvolvida no ambiente extra essuposta extra-escolar: “asplantas da caatinga e da mata atlântica: cajueiro, jurema, juazeiro”; “plantas caducifólias, xerófitas, ingaárvores da mata atlântica”; “árvores caducifólias como a jurema preta e a sabiá”; “as plantas da rvorescaatinga como o cácto que tem espinhos no lugar de folhas”; “a degradação do meio ambiente, as cto degradaçãoárvores da caatinga e da mata atlântica”. De acordo com Alves (2008 p. 63), as espécies vegetais da depressão sublitorânea (na qual (2008, ),Sertãozinho faz parte) mostram se acatingadas, com a maioria das espécies caducifólias e mostram-seespinhosas. E ainda ressalta: Ao lado das espécies da caatinga, encontra-se espécies da mata úmida, s.o que talvez indique o seu caráter de transição entre esses biomas. eu No questionário foi solicitado que os alunos caracterizassem as espécies da caatinga e damata atlântica e depois dessem alguns exemplos: 22 alunos caracterizaram as espécies da caatinga ederam exemplos: “tem espinhos e folhas pequenas. O juazeiro e a jurema preta”; “tem espinhos ealgumas não tem folhas como o mandacaru”; “a jurema e a sabiá, porque tem espinhos e perdem as porquefolhas no verão”; 9 alunos deram apenas os exemplos e 2 alunos deixaram a questão em branco. Com relação à mata atlântica, 18 alunos caracterizaram as espécies de forma coerente: “ocajueiro porque é perenifólia e tem as folhas grandes”; “tem folhas grades e são verdes o ano grandes”;inteiro, por exemplo: o cajueiro e o pau d’arco”; “elas são grandes e sempre verdes como o paud’arco e o pau-brasil”; 7 alunos deram apenas os exemplos e 8 responderam de forma incorreta oudeixaram a questão em branco. 22 18 9 8 7 2 Caracterizaram as Deram apenas os Deixaram a questão em espécies de forma exemplos branco ou correta e deram os responderam de forma exemplos incorreta Gráfico II – Comparação das respostas sobre a caracterização das formações vegetais: caatinga e mataatlântica. Como se pode observar no gráfico II, houve uma diferença no número de respostas corretacom relação às características da caatinga e da mata atlântica. De certa forma, no ambiente da aula caatingade campo havia uma maior ocorrência em número e diversidade de espécies da caatinga que damata tropical, o que talvez tenha influenciado nas respostas. Alguns alunos inclusive deram
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 156exemplos de espécies da mata atlântica que não estavam presentes no lugar observado, como o pau-brasil (Caesalpinia echinata) e a pitombeira (Talisia esculenta). A aula de campo: uma atividade complementar Por tudo o que foi mencionado, torna-se conveniente considerar a educação ambientalcomo uma dos temas interdisciplinares mais adequadas para a utilização das aulas de campo comometodologia de ensino. Se esse método desencadeia diversos aspectos positivos – relacionam ateoria com a prática, proporciona uma melhor compreensão do espaço, quebra a rotina dos estudos,motivam o interesse pelo tema em questão – é adequado que o educador passe a utilizar mais asaulas de campo para minimizar a banalização das questões ambientais na sociedade, bem como nacomunidade escolar. Entretanto, vale salientar que apenas as aulas de campo não são suficientes para despertar ointeresse do aluno pela preservação ambiental, a integração das disciplinas/áreas do conhecimento,exerce papel crucial nesse despertar. Para isso, a preocupação ambiental inserida nas várias áreas do saber é decisiva. [...] As áreas de Ciências Naturais, História e Geografia são as tradicionais parceiras para o desenvolvimento dos conteúdos aqui relacionados, pela própria natureza dos seus objetos de estudos. Mas as demais áreas ganham importância fundamental, pois, cada uma, dentro da sua especialidade, pode contribuir para que o aluno tenha uma visão mais integrada do ambiente (BRASIL,1998, p. 194). A sala de aula é o lugar em que o educador convive com seus alunos, é a partir desseambiente que o professor deve compartilhar com os estudantes o conhecimento ali (no campo)desenvolvido. O professor deve transformar a aula em um espaço aberto para o diálogo, as discussões, ascríticas e reflexões dos alunos diante dos temas abordados, bem como “fazer com que o alunoperceba qual a importância do espaço, na constituição de sua individualidade e da(s) sociedade(s)de que ele faz parte (escola, família, cidade, país, etc.)” (KAERCHER 2004, p. 223), obtendo assim,resultados mais significativos no desenvolvimento do interesse do aluno pelo meio ambiente. Considerações finais As contribuições que as aulas de campo proporcionam ao trabalho do professor e o auxílioque elas propõem para a compreensão dos conteúdos pelos alunos, demonstram que esse métododeveria ser mais usado nas instituições de ensino para aumentar a valorização dos conteúdos – emparticular a educação ambiental - abordados nas salas de aulas. As inovações associadas à interdisciplinaridade são muito proveitosas para que o estudantecompreenda os assuntos de forma mais agradável e satisfatória. As aulas de campo, comoalternativa de inovação e interdisciplinaridade, ajudam o aluno a analisar e refletir sobre ainterferência humana no meio ambiente que o cerca, contribuindo para desenvolver a capacidade deinteragir com o conhecimento e com a vida em sociedade. Por isso é de fundamental importância odesenvolvimento de iniciativas que dotem as instituições de ensino de capacidade técnica e deinfraestrutura adequada para realização dos trabalhos de campo. Somando a vontade e determinação dos professores com os diversos métodos e inovaçõesque motivam os alunos a conhecer melhor o meio ambiente, esse tema tende a se tornar um dosmais interessantes, admirados e respeitados pelos alunos em todos os estágios de ensino. REFERÊNCIAS ALENTEJANO, Paulo R. R.; ROCHA-LEÃO, Otávio M. Trabalho de campo: umaferramenta essencial para os geógrafos ou um instrumento banalizado? In: Boletim Paulista deGeografia: trabalho de campo, nº 84. São Paulo: AGB, 2006; pp. 51-67 ALVES, J. J. Amâncio. Biogeografia. João Pessoa; Ed. Do Autor, 2008 BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais. Secretaria de EducaçãoFundamental – Brasília: MEC/SEF, 1998
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 157 _________. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais:terceiro e quarto ciclos: Apresentação dos temas transversais – Brasília: MEC/SEF, 1998 FARINA, B. C.; GUADAGNIN, F. Atividades práticas como elementos de motivação paraa aprendizagem em geografia ou aprendendo na prática. In: REGO, N.; CASTROGIOVANNI, A.C.; KAERCHER, N. A. (ORG.). Geografia - práticas pedagógicas para o ensino médio. PortoAlegre: Artmed, 2007; pp. 111-119 KAERCHER, N. A. O gato comeu a geografia crítica? Alguns obstáculos a superar noensino-aprendizagem de geografia. In: PONTUSCHKA, N. N.; OLIVEIRA, A. U. de (ORG.).Geografia em perspectiva: ensino e pesquisa. 2ª ed – São Paulo: Contexto, 2004; pp. 221-231 LACOSTE, Yves. A pesquisa e o trabalho de campo: um problema político para ospesquisadores, estudantes e cidadãos. In: Boletim Paulista de Geografia: trabalho de campo, nº 84.São Paulo: AGB, 2006; pp. 77-92 MARTINS, Dadá. Além dos muros da escola: como o estudo do meio pode ajudar napropagação do conhecimento. In: Discutindo geografia, ano 3, nº14. Escala Educacional; pp. 62-63 MATHEUS, E. H. C. O que há por trás de uma panela? Uma atividade de campo comotrajetória a um olhar geográfico. In: REGO, N.; CASTROGIOVANNI, A. C.; KAERCHER, N. A.(ORG.). Geografia - práticas pedagógicas para o ensino médio. Porto Alegre: Artmed, 2007; pp.135-148 TRICART, Jean. O campo na dialética da Geografia. In: Associação de GeógrafosBrasileiros – AGB. Reflexões sobre a Geografia. São Paulo: AGB, 1980; pp. 97-119
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 158 O USO DE CARTILHA COMO INSTRUMENTO DE INFORMAÇÃO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E SANITÁRIA DIRECIONADO À COMUNIDADE TRADICIONAL DA APA DO MARACANÃ NO MUNICÍPIO DE SÃO LUÍS/MA Luciana da Silva BASTOS lucianabastos79@gmail.com Thaís Eline Ribeiro ALMEIDA thais.eline@gmail.com Lorena Santos GONÇALVES lorenaangitur@hotmail.com.br Hadryan Lima RODRIGUES hadryan11@yahoo.com.br Grupo de Pesquisa em Educação Ambiental em Unidades de Conservação no Maranhão (GPEAMA) / 2 Curso de Especialização em Educação Ambiental da UEMA - Departamento de Química e Biologia, Universidade Estadual do Maranhão, Cidade Universitária Paulo VI. C.P. 09. Tirirical - CEP. 65055-970 São Luís - MA, Brasil. RESUMO A Área de Proteção Ambiental do Maracanã, constitui-se em Unidade de Conservação deUso Sustentável, abrangendo cerca de 1.8131 hectares (VASCONCELOS, 1995). A APA doMaracanã, a exemplo de reservas extrativistas do norte do país, pode se aproveitar da exploração daEuterpe oleracea Mart., a juçara, como atrativo turístico, pois o modo de extração e preparação dabebida típica desta fruta é conhecido por grande parte da população, principalmente, na ocasião daFesta da Juçara (MENDES, 2007). O objetivo desse trabalho é realizar ações de EducaçãoAmbiental com produtores do vinho da juçara do Parque da Juçara na APA do Maracanã, São Luis– MA, utilizando como instrumento didático-pedagógico uma cartilha educativa sobre as boaspráticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados. Acartilha Saiba como preparar a Juçara abordou os seguintes temas: Perigos na produção do vinho dejuçara (doença de chagas, doenças de transmissão hídrica), e as Boas práticas na produção do vinhode juçara - Passo a passo como produzir vinho de juçara com qualidade (Colheita, debulha,armazenamento, transporte, processamento da juçara, acondicionamento e coleta de resíduos,manipuladores). Sugeriram-se também algumas dicas visando os cuidados na lavagem dereservatórios e como lavar as mãos. PALAVRAS-CHAVE: Festa da Juçara, cartilha educativa, Educação, APA do Maracanã. ABSTRACT The Environmental Protection Area of Maracana, it constitutes a Conservation Unit ofSustainable Use, covering approximately 1.8131 hectares (Vasconcelos, 1995). APA Maracana, theexample of extractive reserves in the north, can take advantage of the exploitation of Euterpeoleracea Mart. The juçara, as a tourist attraction, because the mode of extraction and preparation ofthe typical drink of this fruit is known by most population, mainly in the Feast of Juçara (MENDES,2007). The aim of this work is to perform actions on Environmental Education with wine producersof the juçara Park Juçara the APA Maracanã, São Luis - MA, using as didactic and pedagogic aneducational booklet on good hygiene and sanitary practices in handling and marketing the juçaraand its derivatives. The booklet Learn how to prepare the Juçara covered the following topics:Dangers in the production of wine juçara (Chagas disease, waterborne diseases), and Best practicesin wine production juçara - Step by step how to produce wine with juçara quality (Harvesting,threshing, storage, transportation, processing juçara, packaging and collection of waste handlers). Italso suggested some tips aimed at the care and cleaning of reservoirs such as hand washing. KEYWORDS: Festival Juçara, educational booklet, Education, APA Maracana.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 159 1 INTRODUÇÃO Uma Área de Proteção Ambiental (APA) é em geral extensa, com um certograu de ocupação humana, dotadas de atributos abióticos, bióticos, estéticos ou culturaisespecialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar das populações humanas, e temcomo objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação eassegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. (Legislação Brasileira do Meio Ambiente,2002). A Área de Proteção Ambiental do Maracanã, constitui-se em Unidade deConservação de Uso Sustentável, abrangendo cerca de 18.131 hectares (VASCONCELOS, 1995).A APA do Maracanã, a exemplo de reservas extrativistas do norte do país, pode se aproveitar daexploração da Euterpe oleracea Mart., a juçara, como atrativo turístico, pois o modo de extração epreparação da bebida típica desta fruta é conhecido por grande parte da população, principalmente,na ocasião da Festa da Juçara (MENDES, 2007). A Festa da Juçara surgiu em 1970, idealizada pela então secretária de educação e açãocomunitária da prefeitura de São Luís e engenheira agrônoma Rosa Mochel, moradora do bairroMaracanã situado na zona rural de São Luis – MA. Ao observar a abundante produção de juçara nolocal e seu pequeno mercado consumidor, insuficiente para o escoamento de toda a produção, RosaMochel resolveu organizar uma festa que acabasse com esse problema e pudesse trazer uma rendaextra para a população local. Em outubro desse mesmo ano realizou-se a primeira Festa da Juçara.Em 2009 a festa comemora a sua 39ª edição. O Parque da Juçara possui uma área total de cinco hectares com a presença de trinta e trêsbarracas de alvenaria. É válido ressaltar que o trabalho do manipulador de alimentos é fundamental para garantirprodutos mais seguros e proteger a saúde dos consumidores, sendo importante investir em açõescontínuas de Educação Sanitária e Ambiental com esse público específico. Assim, torna-seindispensável uma cartilha didática significativa, capaz de sensibilizar as pessoas que manipulam ajuçara, desde o momento da coleta do fruto até o momento da destinação final do vinho aoconsumidor, reconhecendo boas práticas. Nunes (2004) ressalta que a educação Ambiental é uma aliada fundamental no processo deconscientização individual e coletiva, comprometida com a realidade vivenciada, na busca demudanças comportamentais que garantam a sustentabilidade da vida. De acordo com Teixeira (apud BRASIL, 2001, p.3) “a informação representa um fatorfundamental para identificar, prevenir, mitigar e reverter efeitos adversos que comprometem asaúde e o bem-estar das comunidades”. Dias (apud COSTA, 2003, p.26), refere-se à educação ambiental como uma forma deprática educacional sintonizada com a vida da sociedade e, só pode ser efetiva, se todos os membrosda sociedade participarem, de acordo com suas habilidades, das completas e múltiplas tarefas demelhoria das relações das pessoas com seu ambiente. Esse trabalho objetivou realizar ações de Educação Ambiental com produtores do vinho dajuçara do Parque da Juçara na APA do Maracanã, São Luis – MA, utilizando como instrumentodidático-pedagógico uma cartilha educativa sobre as boas práticas higiênico-sanitárias namanipulação e comercialização da juçara e seus derivados. 2 PROCEDIMENTOS METODOLOGICOS A ação educativa desenvolvida realizou-se através de entrega de cartilha educativa sobreboas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara e seus derivados econversa informal com cada barraqueiro. Na escolha da cartilha como forma de repassar as informações foram levados emconsideração: A necessidade de material gráfico a ser utilizado nas atividades profissionaisrealizadas e o fato de a cartilha oferecer além da linguagem escrita, uma linguagem visual de fácilentendimento do conteúdo do leitor. A utilização de ilustração permite o envolvimento dosmanipuladores com o texto, tornando prazerosa a aquisição destas informações, atraindo assim a
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 160atenção destes leitores. O cuidado com esses detalhes teve como objetivo a fácil leitura eentendimento do texto. A cartilha Saiba como preparar a Juçara foi elaborada destinada aos produtores do vinho dajuçara e vêm justamente com a intenção de possibilitar a esse público conhecimentos básicos eimportantes sobre boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara eseus derivados. Nesse contexto, enfocou-se os seguintes temas: Perigos na produção do vinho dejuçara (doença de chagas, doenças de transmissão hídrica), e as Boas práticas na produção do vinhode juçara - Passo a passo como produzir vinho de juçara com qualidade de acordo com ofluxograma a seguir. FLUXOGRAMA Colheita Debulha Armazenamento Transporte Processamento da juçara Acondicionamento Coleta de resíduos Manipuladores Sugeriram-se também algumas dicas visando os cuidados na lavagem de reservatórios ecomo lavar as mãos. Na confecção da cartilha foram utilizados o formato 16 (15x21cm), encadernação tipocanoa, colorida (policromia), com 20 páginas. Neste cenário, a Educação Ambiental e Sanitária tem um papel importante a exercersensibilizando para a importância da adoção de boas práticas, quebrando o distanciamento entresujeito e objeto da pesquisa, partiu-se da realidade local para a elaboração da cartilha, comoinstrumento educacional. 3 RESULTADOS E DISCUSSÃO Dentre os instrumentos atualmente utilizados como veículos na transmissão de informaçãoque possam conscientizar, sensibilizar e promover reflexão das pessoas,as cartilhas tem merecidodestaque, uma vez que de uma forma prática e concisa, conseguem transmitir de maneira agradávelos conhecimentos básicos sobre o assunto.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 161 Considerando a importância da implantação de boas práticas higiênico-sanitárias namanipulação e comercialização de suco de juçara, a suspeita de ocorrência de surto de Doença deChagas Aguda transmitida por alimentos contaminados com Trypanosoma cruzi e a característicaaltamente perecível do fruto, elaborou-se essa cartilha trazendo informações úteis que vão ajudar oscomerciantes e manipuladores a produzir esses alimentos mais seguros e de forma a prevenirpossíveis danos à saúde dos consumidores. Figura I – Capa da cartilha O ministério da Educação (2001b) ressalta que, embora recomendada por todas asconferências internacionais, exigida pela constituição e declarada como prioritária por todas asinstancias do poder, a Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita edesenvolvida, porque ela implica mudanças profundas e nada inócuas. Ao contrário, quando bemrealizada, a Educação Ambiental leva a mudanças de comportamento pessoal e a atitudes e valoresde cidadania que podem ter fortes conseqüências sociais. Nesse ponto é importante ressaltar que atingir o grande público no que se refere aoconhecimento sobre boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçara eseus derivados da comunidade tradicional da APA do Maracanã e, portanto, da EducaçãoAmbiental, só será possível se recorrermos a grupos de ligação, grupos diferenciados por sualigação social e profissional como indicam ZIAKA et al. (2003). Assim, é importante acontinuidade de ações educativas na área, visando à qualidade de vida dos produtores econsumidores dessa festa.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 162 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A discussão em torno dos conteúdos a constar na cartilha, dentro da concepção deinvestigação-ação, mostrou-se essencial por permitir discutir e esclarecer à comunidade o quanto éimportante adotar as boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização da juçarae seus derivados, além de contribuir para a construção de conhecimentos individuais e coletivos,culminando em ações conjuntas na busca de melhoria qualidade de vida da comunidade. Com a realização deste trabalho, pode-se perceber que a cartilha é um instrumento quepode ser utilizado pela comunidade em geral visto que esta iniciativa é de fundamental importânciapara a compreensão de temas relevantes que necessitam de maior atenção. A festa da Juçara reúne centenas de pessoas de todos os bairros de São Luís, além dealguns turistas de outras regiões do país, portanto, tornou-se necessário um trabalho de prevenção eorientação dos barraqueiros e demais profissionais que atuam na área durante a realização doevento, no que se refere às boas práticas higiênico-sanitárias na manipulação e comercialização dajuçara e seus derivados. REFERÊNCIAS MENDES, Edijanne R.; RIBEIRO, Érika F. V.; ROCHA, Ariadne E. Florística efitossociologia das Trilhas ecológicas da APA Maracanã, Ilha de São Luís – MA. Disponívelem: <http://www6.ufrgs.br/seeragroecologia.pdf>. Acesso em: 13 mai 2009. MINISTERIO DA EDUCAÇÃO. Parâmetros Curriculares Nacionais: MeioAmbiente/Saúde. Secretaria de Educação, Fundamental, 3ªed. Brasília, DF. 2001b. 128p. NUNES, Ana Tereza de Sousa. ÁGUA: O bom uso começa em casa. 2004. 24f.Monografia (Especialização em Educação Ambiental) – Universidade Estadual do Maranhão, SãoLuis, 2004. SILVA, F.H.C. Educação Ambiental enfocando o desperdício de papel na sala de aulade professores do UniCEUMA. 2003. 55f. Monografia (Graduação em Ciências Biológicas –Curso de Ciências Biológicas). Centro Universitário do Maranhão, São Luis, 2003. VASCONCELOS, Janete Rodrigues de. Maracanã para todos: uma proposta dedesenvolvimento sustentável para a Área de Proteção Ambiental da Região do Maracanã.UEMA/ CTDS. São Luís, 1995. ZIAKA, Y.; SOUCHON, C.; ROBICHON, P. Educação ambiental: seis proposiçõespara agirmos como cidadãos. São Paulo: Instituto Polis, 2003. 216p. (Cadernos de proposiçãopara o século XXI, 3).
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 163 OS REFLEXOS DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA INSPEÇÃO VEICULAR Evandro OLIVEIRA SANTANA (Professor) FJAV - Faculdade José Augusto Vieira Evandro_se@yahoo.com.br José Aldemar dos SANTOS ANDRADE Ademário ALVES SANTOS (Orientador) FJAV - Faculdade José Augusto Vieira Praça Nossa Senhora Aparecida, s/n, Bairro Cidade Nova. CEP: 49400-000 Lagarto-SE ABSTRACT The environmental education is a present subject in all possible discussions. It is objectiveof speech in parliament; it is also objective of academics approaches and informal talks in any placeon the planet. When we discuss about its importance we usually remember to destruction of theforests, rivers and streams and its risings, like this we usually remind to the sanitary embankmentsand the inadequate use of the solid residues. But is not common, in spite of being of extremeimportance, to link the environmental education the vehicular inspection, because when we linkenvironmental education to the world of the automobiles, we just remembers to the pollutionprovoked by the liberation of the monoxide of the carbon in the atmosphere, among other, but theagents traffic performance in the sense of the action against the abuses, is not at least associated thea subject of environmental education. KEYWORDS: Education, inspection and traffic. RESUMO A educação ambiental é assunto presente em todas as discussões possíveis. É alvo dediscurso no parlamento, é alvo de abordagens no plano da academia, é alvo também de conversaspopulares em qualquer lugar do planeta. Quando se trata de discutir sua importância, comumente évista quando se recorda a destruição das matas, os assoreamentos dos rios, a destruição dasnascentes de rios e riachos, os aterros sanitários, o uso inadequado de resíduos sólidos e por diante.O que não é comum, apesar de ser de extrema importância, é vincular a educação ambiental ainspeção veicular, pois o que se constata é que, quando se relaciona educação ambiental ao mundodos automóveis, lembra-se apenas da poluição provocada pela liberação do monóxido do carbonona atmosfera, dentre outros, mas a atuação dos agentes de trânsito no sentido de coibir os abusos,não é sequer associada a uma questão de educação ambiental. PALAVRAS-CHAVE: educação, inspeção e trânsito. INTRODUÇÃO Percebe-se que de um modo em geral, os países desenvolvidos ou do norte foram ospioneiros no tocante aos problemas direcionados às questões ambientais. Com a preocupaçãoveicular ambiental, também não foi diferente. Há uma larga tradição dos moradores das cidades dospaíses desenvolvidos em cobrarem o cumprimento das leis sejam elas quais forem. O exercício dacidadania dá-se mediante a relação que as pessoas mantêm com o público no sentido de fazer valeraquelas conquistas que demoraram, muitas vezes, séculos para se conseguir. Nos países subdesenvolvidos, nota-se o quanto tais atitudes demoram a serem postas emprática, não por falta de conhecimento de tais problemas, mas por uma lógica capitalista insensívelà necessidade de se usar os recursos naturais disponíveis em seu meio de vivência de formaecologicamente correta. No Brasil, por exemplo, mesmo se tendo conhecimento da realidade depredadora dosespaços urbanos e rurais de seu território, verifica-se que apenas no início da década de 80, quandoo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), mais precisamente em 31 de Agosto de1981, no uso de suas atribuições, passou a vigorar a lei 6.938, a regulamentada pelo decreto número
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 16499.274, de 06 de Junho de 1990 e suas alterações, tendo em vista o disposto em seu regimentointerno e considerando que a emissão de poluentes por veículos automotores contribui para acontínua deterioração da qualidade do ar, especialmente nos grandes centros urbanos. Em Sergipe, a realidade vinculada à temática para a inspeção veicular não é diferente, umavez que se determinam ações voltadas para organizar o trânsito em si, com orientações e aplicaçõesde multas, sem de fato preocupar-se com as emissões de poluentes oriundos da queima decombustíveis fosseis, emitidos pelos escapamentos dos automóveis e meios de transportes como umtodo. Com se diagnostica, conseqüentemente, que não há também preocupação com a qualidade doar que respiramos e as possíveis doenças respiratórias, originadas pela péssima qualidade do ar, quea cada dia se multiplicam os números de pessoas acometidas com doenças respiratórias. Lagarto, município localizado na região centro-sul de Sergipe, é um dos municípios queapresenta um fluxo de veículos em crescimento e que, senão forem adotadas medidas importantes,tende apresentar sérios problemas relacionados aos resíduos tóxicos liberados no ar pela frota deveículos. De acordo com as informações obtidas junto aos órgãos que fiscalizam e regulam asatividades relacionadas à circulação de veículos, o referido município apresenta uma inspeçãoveicular restritamente direcionada à orientação dos condutores de veículos e à aplicação de multas,ambas voltadas com certa preocupação de evitar acidentes no trânsito e de angariar recursosfinanceiros para abastecer os cofres públicos. Diante dessa realidade, faz-se necessário com uma certa urgência a devida aplicabilidadeda lei número 6.938, determinada pelo CONAMA, bem como, as políticas públicas de trânsito,direcionadas à sensibilização e atuação dos proprietários de veículos particulares, empresas deônibus, moto taxi, taxistas, caminhões, carretas e veículos de cargas em geral, para que, juntos,possam circular pelas rodovias e centros urbanos sem poluírem com tanta agressividade o ar. A referida pesquisa pode apontar que a forma pela qual a inspeção ambiental veicular éconduzida sinaliza para uma interpretação da qualidade da educação (consciência) ambiental emSergipe. Para isso, procura-se a consistência numa iniciativa que, envereda na busca por retratar opanorama das questões que envolvem as políticas públicas voltadas para a inspeção ambientalveicular em Sergipe e todos os agentes envolvidos com a finalidade de proporcionar a sociedadesergipana um diagnóstico que se aproxime o quanto possível, da real situação no Estado. A pesquisa em tela proposta procura compreender de que forma o povo e as instânciasenvolvidas com as questões de trânsito buscam outras posturas, através de novos comportamentossociais, de se relacionar com a problemática do trânsito. Não se omite quanto às questões clássicasde educação ambiental e para tanto considera a emissão de poluentes no meio ambiente sergipanocomo um dos itens que merecem redobradas atenções. Dessa forma, convém ressaltar o necessáriodesenvolvimento deste trabalho, pois viabiliza a sociedade civil e jurídica o despertar por umaeducação ou reeducação nas ações relativas à sustentabilidade ambiental sem descartar aimportância do trânsito, também por não acarretar danos ao meio natural e à saúde da população. A pesquisa, além do custo social e da proteção ambiental, possibilita transformar-se emmaterial de estudo para a comunidade sergipana; aos pesquisadores, acadêmicos, estudantes emgeral e demais seguimentos afins; bem como, serve de documento e instrumento revelador de umfato concreto que urge por iniciativas mais eficazes dos órgãos e personagens responsáveis. OS TRÂMITES PARA A REALIZAÇÃO DA VISTORIA DOS VEÍCULOS E AFISCALIZAÇÃO VOLTADA PARA A INSPEÇÃO VEICULAR A educação no Brasil para onde quer que se olhe fornece numerosas condições precárias.Esta precariedade se reflete nos números que o país apresenta anualmente, os quais dizem um poucoda qualidade de vida da população. São gigantescos os desafios que o Brasil tem pela frente paratransformar esta realidade cruel. Há quem aponte no mínimo quarenta anos investindoininterruptamente (UNESCO, 1997). O que se percebe é que apesar do país investir quantiassignificativas do PIB – Produto Interno Bruto – em educação, quando se vão olhar os resultados, osnúmeros nos envergonham. O que diria daqueles setores vistos de forma separada? Como está aeducação ambiental do brasileiro? Como anda a educação no trânsito? De que forma está a
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 165educação do brasileiro quando medida pela higiene e pelos cuidados em manter o patrimôniopúblico? Estas são questões que nos remetem a outro desafio: compreender de que maneira aeducação de um modo em geral influência em todas as demais instâncias da vida civilizada. Comoesta opção é praticamente impossível, nos resta observar, a partir da relação com o trânsito, como obrasileiro, que vive aqui em lagarto, situa-se nesta temática. Conforme informações obtidas junto a Policia Rodoviária do Estado de Sergipe, detecta-seque há uma fiscalização constante voltada para segurança no trânsito e ações direcionadas àsquestões ilícitas de um modo geral. Porém, fiscalização relativa à inspeção veicular de cunho esensibilização ambiental, não. Segundo alguns motoristas de ônibus interestadual a abordagem dasblitz da Polícia Rodoviária Federal é para observar, juntamente com outros órgãos, responsáveiscomo o DETRAN, a quantidade de passageiros, se o carro está com pneus adequados para circular,se o uso de cintos de segurança é feito, utiliza-se, às vezes, o teste do bafômetro para fiscalizar epunir motoristas embriagados nas rodovias. Nota-se também uma preocupação com a manutençãodo tacógrafo para verificar se há excesso de velocidade e se as condições dos veículos estão boaspara seguir viagem. Percebe-se que por parte dos donos de ônibus e outros veículos há uma preocupação com amanutenção dos veículos para não provocarem acidentes e no caso dos ônibus para garantir ummelhor atendimento aos clientes, mas não objetiva diretamente os cuidados necessários, como aqualidade do ar, com a redução de poluentes na atmosfera. Além disso, poucos ônibus e veículostêm o saco plástico no seu interior para a coleta de lixo, com isso, passageiros e condutores em gerallançam os resíduos sólidos nas Rodovias Federais, Estaduais e Municipais; nas ruas e avenidas dascidades; e nas estradas e rodovias da zona rural; agregando à emissão de dióxido de carbono naatmosfera, uma enorme e diversificada quantidade de lixo que contribui negativamente para aqualidade de vida, uma vez que tais resíduos entopem bueiros, contamina as águas e o solo, além deprovocar outro tipo de poluição, a poluição visual. Segundo Adriano, motorista de ônibus da Empresa Coopertalse, ele se preocupa muito coma manutenção do carro (mecânica, pneus, direção...); usa som baixo; atende bem aos passageiros;paradas corretas e mais segurança para os clientes; limpeza do filtro de ar uma vez por mês, poisnão fazendo pode provocar falhas no veículo. Diz ainda que ao mesmo tempo em que conserva oônibus, contribui de forma indireta para diminuir a emissão de poluentes e que os novos veículossão bem menos poluidores que os mais antigos. É correto afirmar que os veículos mais antigos são os mais poluidores. Nota-se, dessaforma, um certo descaso dos órgãos responsáveis, principalmente no interior, com as medidas quedeveriam ser tomadas, nas doses de suas proporções, em relação ao cumprimento da lei, pois alémdo alto índice de acidentes que os mesmos provocam, dizimando vidas, registra-se um aumentosignificativo dos resíduos que não apenas comprometem o ar, mas desestabilizam os ecossistemasquando objetos poluidores são lançados, sem mencionar a contribuição em grande escala para oaquecimento global. De acordo com os agentes de trânsito dos Municípios de Aracaju e de Lagarto, no edital doconcurso o qual os mesmos foram submetidos para exercer a função, tem claramente que uma dasobrigações seria a inspeção veicular, utilizando aparelho devido para medir a emissão de poluentesna atmosfera, porém não há aparelhos para os mesmos executarem a referida tarefa. Segundo eles,apenas a Polícia Rodoviária Federal disponibiliza no Estado de Sergipe de tal aparelho. Nessesentido, percebe-se que mesmo disponibilizando do mencionado aparelho, nas blitz proferidas pelaPolicia Rodoviária não há medição de índices de poluição e nem cobranças aos condutores deveículos no sentido de minimizarem a emissão de poluentes no meio ambiente. O agente de trânsito Edivânio, diz que o governo deveria se preocupar com os órgãosfiscalizadores no sentido de desenvolver práticas destinadas ao controle dos poluentes na atmosferae políticas públicas educativas para de fato surtir efeitos mais eficazes. O leque de obrigações dosórgãos fiscalizadores é grande, no entanto, no caso de Sergipe, limita-se mais especificamente àsações fiscalizadoras e punitivas. É a finalidade maior.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 166 Constata-se de fato que as instâncias responsáveis pela inspeção veicular em Sergipe,voltam-se, para galgar recursos financeiros para os cofres públicos, sem transformar tais recursosem benefícios sociais coletivos. Essa é uma prática comum naqueles países que apresentam umaestrutura arrecadadora de suprir apenas as necessidades coorporativas. Goldemberg (1999) argumenta que a questão da poluição do ar, seja pela emissão de gasespresentes, por exemplo, nos escapamentos de veículos, seja pela instalação de unidades industriaissem a devida fiscalização ainda é um dos maiores desafios que o Brasil enfrenta. A deficiência deprojetos vinculados à temática educacional no Brasil, e de maneira especial em Sergipe, ainda éalgo insipiente. Em entrevista, um agente de trânsito relata que não há projetos de cunho educativovoltados exclusivamente para a educação veicular ambiental. Em Sergipe, tanto para os críticos,quanto para os especialistas, em especial, funcionários públicos envolvidos com a problemática dotrânsito, os governantes deveriam implantar a educação veicular ambiental desde a educaçãoinfantil até o ensino médio, deveriam também exigir das autoescolas a obrigatoriedade de assumirum papel dissipador em relação ao projeto educacional que tivesse como finalidade instruir oscondutores de veículos. Para estes, infelizmente existem no Brasil e em Sergipe autoescolas queaceitam o pagamento pelas aulas sem que o aluno, e futuro motorista, tenha freqüentado comodeveria ser, quanto mais assumir outra responsabilidade (educação veicular ambiental). Observa-se, diante dessa vertente, que os governantes de todas as esferas de governo,instâncias responsáveis, autoescola, indústrias automobilísticas e concessionárias de veículosbuscam dentro da lógica capitalista o acúmulo de capital sem a mínima preocupação com asconseqüências da frota de automóveis que cresce significamente nas rodovias e ruas das cidades epovoados do Estado em foco. Este fato confirma o pensamento de Harvey (2000) quando enfatizaque a lógica do capital é a reprodução. Verifica-se que Lagarto e Aracaju sobressaem em relação aos demais municípios doEstado de Sergipe que não implantaram a municipalização do trânsito, pois a capital, e o maiormunicípio da região centro-sul do Estado, respectivamente, principiaram a fiscalização. Essafiscalização tinha inicialmente a intenção de ser orientadora e posteriormente punitiva como jádestacada antes, porém em todo o Estado não há preocupação e fiscalização de caráter ecológico oude sustentabilidade ambiental no trânsito. Na verdade, no Brasil há alguns casos isolados de Estadosque implantaram a lei nº 6.938, como por exemplo, São Paulo, Distrito Federal e alguns poucosmunicípios do sul do País. Essa realidade confirma o pensamento de Correa (1996) ao enfatizar queuma das principais formas de organizar o espaço é pela regulamentação de todas as atividadespresentes nas instâncias que respondem pela organização das atividades econômicas tuteladas pelaimportância das leis. Por parte dos condutores de veículos não se percebe também qualquer preocupação. Comoo agente destaca a existência de veículos totalmente deteriorados em circulação, outros usandoirregularmente o gás de cozinha, que contribui para poluir de forma desenfreada ainda mais aatmosfera, fazendo surgir com relativa freqüência às doenças respiratórias. O público que maisabusa do vácuo, deixado pela completa ausência de fiscalização, é composto basicamente porJovens que abusam dos canos de descargas das motocicletas, o que acabam por provocar certoincômodo aos moradores, que, por sua vez, reclamam da poluição sonora sem se deter das questõesecológicas. Segundo Haguete (1994) quando os papeis são invertidos ou negligenciados sobrasomente o descaso. É este o descaso que se sustenta de um lado pelo não cumprimento das leis e deoutro pela própria precariedade das condições de civilidade que a educação promove. A comunidade, por sua vez, não costuma reclamar do incômodo causado pela destruiçãoou depreciação dos espaços públicos, que servem para o lazer e para o divertimento das crianças,quando isso acontece, no máximo, percebe-se uma voz indignada se levantar, o que, muitas vezes,acaba sendo uma forma de exposição para quem costuma não aceitar as coisas como estão. Poucossão aqueles moradores que procuram as autoridades para denunciar um comportamento acima oufora da lei. Por duas razões básicas: ou não vão ser atendidos dadas as condições de precariedade dedelegacias e demais órgãos responsáveis pela segurança, ou porque não acreditam mesmo nasinstituições públicas como promotoras da manutenção da lei e da ordem pública.
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 167 É interessante observar sobre esse ponto de vista o que nos foi relatado por um dosagentes de trânsito: “Os incomodados reclamam da poluição sonora, questão ambiental,preocupação nenhuma” (Edivânio – entrevista 2009). A preocupação do referido agente faz sentidona medida em que as questões relacionadas às temáticas ambientais não estão apenas incluídasnaquelas que se sustentam na crítica ao lançamento de resíduos sólidos nos rios, riachos,logradouros públicos etc., mas a toda uma série de fatores que refletem diretamente na qualidade devida dos moradores de uma comunidade qualquer (Alves, 2009). O PAPEL DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DE TRÂNSITO A educação poderia dizer tem dois papais simultâneos: educar e fazer o cidadão dono de si.Alves (2008) enfatiza ainda, convém lembrar, que a expressão dono de si está diretamentevinculada ao papel libertador da própria educação. Como os resultados positivos da educação é algoque se conseguem com o tempo, a partir da execução de medidas corretas, deve-se esperar que estesresultados, hoje desfavoráveis, possam ser modificados para melhores daqui a alguns anos, mas atélá não resta outra alternativa senão a de exigir dos responsáveis o cumprimento dos dispositivosconstitucionais preconizados na legislação ambiental. Gonçalves (2001) pronuncia-se fazendo observações quanto ao lançamento de resíduostóxicos nos córregos e também do lançamento de dejetos de esgotos nos lixões das cidades, além detoda a produção de elementos tóxicos presentes nos combustíveis queimados pelos veículos eemitidos no ar sem qualquer fiscalização. Para ele, a atuação apenas dos órgãos públicos, sem aparticipação da sociedade civil, não adianta visto ser muito difícil funcionar algo, que é coletivo,individualmente. Para o referido autor, a situação da agroindústria canavieira em São Pauloapresentou conquistas e avanços no sentido de se porem fim as práticas das queimadas para extrair acana. Alves (2009) ao observar a destruição da vegetação e a não tomada de consciência dapopulação em reivindicar a punição dos responsáveis, enfatiza que a proliferação de umcomportamento destrutivo e anti-social ganha força em sociedades com um largo perfil autoritário,relata ainda a destruição de espécies antigas, presentes na formação da vegetação nativa no oestesergipano, e observa a importância da mediação dos educadores nas questões que tocamdiretamente nos problemas educacionais. Para isso, ele chama atenção para o papel da educaçãocomo força libertadora indo de encontro ao pensamento de Freire (1986) que enfatiza que aeducação é a única forma de livrar os homens da opressão. E afirma que educar exige compromissoe responsabilidade. Nesta freqüência, quando se avalia a participação dos moradores de Lagarto, nasquestões vinculadas ao trânsito em todas as suas formas legítimas, o que se denota é que nadamudou. Só para se ter uma ideia, de acordo com os resultados obtidos numa ligeira amostragem,86% da população tem sérias dificuldades em relacionar inspeção veicular às questões de saúdeambiental. A inspeção dos veículos não é tarefa fácil também para que seja cumprida. Ainda que esteou aquele agente diga que é possível realizar. Isto porque precisa de profissionais qualificados, queidentifiquem os veículos com problemas de emissão de ar, precisa-se também de um corpo defuncionários que se identifique com o que faz. Por outro lado, necessita que a população colabore,fazendo as denúncias e reconhecendo a importância do agente de trânsito, assim como outrosprofissionais indispensáveis na formação de uma melhor convivência com as durezas da rotina dequem passa horas por detrás de um volante. CONSIDERAÇÕES FINAIS A preocupação com a inspeção ambiental veicular teve sua origem nos países dedesenvolvimento, seja de maior sensibilização da sociedade ou por terem também iniciado adeterioração e degradação das condições atmosféricas e da própria qualidade de vida. Notou-se que nos países menos desenvolvidos tais atitudes surgiram bem mais tarde e emmenores proporções. No Brasil apenas no final do século XX mais precisamente em 1981 é quesurge o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) é que se considera que a emissão de
    • A Conferência da Terra: Aquecimento global, sociedade e biodiversidade 168poluentes por veículos automotores contribui para o continua deterioração da qualidade do ar,especialmente nos centros urbanos. Considerou-se também a necessidade de contínua atualização do Programa de Controle daPoluição do Ar por Veículos Automotores – PROCONVE; e considerou-se ainda, a produçãonacional e as importações de veículos automotores, juntamente com a necessidade de harmonizaçãotecnológica internacional, resolvem adequar à circulação de veículos e poluir menos o meioambientes. São Paulo é o estado brasileiro que mais busca seguir as novas exigências. No estado de Sergipe, observou-se que os governantes, os órgãos e os agentes responsáveispela inspeção ambiental veicular, também parte dos condutores de veículos e alguns membros dasociedade, têm conhecimento da resolução do CONAMA e são sabedores dos problemas oriundospela emissão de gases poluentes por veículos, principalmente os mais antigos e em condiçõesirregulares de circulação pelas rodovias de todo o Estado, inclusive na capital. Quem primeiroimplantou o sistema de trânsito no Estado, porém até os dias atuais voltado apenas para afiscalização de caráter orientador e punitivo, sem ações direcionadas à proteção ambiental e melhorqualidade do ar sergipano. Contudo percebeu-se a urgente necessidade de ações integradas de cunho educativo parasensibilizar todos os seguimentos da sociedade sergipana na proteção da qualidade do ar; e que osórgãos fiscalizadores façam com seriedade cumprimento das exigências do CONAMA. Portanto, nota-se de um modo em geral que, enquanto em Sergipe luta-se para iniciar ocumprimento de uma lei existente há muito tempo, noutros estados, a exemplo de São Paulo, essasquestões vinculadas à inspeção já se encontram numa realidade bastante diferente da nossa aindaque apresente também sérias dificuldades. Nos Estados Unidos, por exemplo, através da iniciativado governador da Califórnia, agora uma luta abraçada pelo atual preside