O vampiro que descobriu o brasil ivan jaf-

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As aventuras de um vampiro por 500 anos de historia do Brasil, excelente para trabalhar em sala de aula e ler.

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  • Ainda lembro com carinho quando li esse livro até hj a historia não sai da cabeça :) sempre procuro ele em livrarias e secos ma snunca acho :(
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  • 1. Quem descobriu o Brasil? Antônio é mordido no pescoço e se transforma em vampi-ro em plena Lisboa no ano de 1500. Para desfazer a maldiçãoe voltar a ser mortal, ele terá de reencontrar o seu agressor efincar uma estaca no coração dele. O problema é que o homemestá entre a tripulação de Pedro Álvares Cabral. A solução, então,é embarcar também. Enquanto procura o vampiro que o atacou, Antônio se meteem muitas confusões e observa, desconfiado, o nascimento deum novo país. Durante cinco séculos, ele vai viver todos osacontecimentos importantes que fizeram o Brasil ser o que eleé hoje. Prepare-se para fazer uma deliciosa viagem no tempo emcompanhia de um vampiro português e de personagens famo-sos como Pero Vaz de Caminha, Tiradentes, Dom Pedro I eGetúlio Vargas. Eles vão aparecer de uma forma como vocênunca imaginou, mostrando um lado nunca antes revelado danossa História. Com muita criatividade, o escritor Ivan Jaf conseguiu reu-nir ficção e realidade, na medida certa. O resultado foi um li-vro divertido e muito sério ao mesmo tempo. Com ele, você vaidescobrir que o humor pode esconder muitas verdades ... Os editores 3
  • 2. SUMÁRIO 1. Vinte e nove anos de bacalhau • 7 14. Dança de vampiro • 51 2. Imortal, nem morto! • 10 15. À beira do abismo • 55 3. Problemas na saída • 13 16. Trocando de dono • 61 4. Depois do fim do mundo • 15 17. Cumprimento perigoso • 64 5. Topada eterna • 19 18. Um novo vampiro • 68 6. Mordendo mula • 23 19. No Brasil, o provisório dura muito • 73 7. Traidor aos pedaços • 26 20. Sem ter onde morder • 77 8. Vendo nuvens • 29 21. A imortalidade plastificada • 79 9. Jumenta nervosa • 33 22. Bigode suspeito • 82 10. Muita revolta para pouca pólvora • 35 23. Final de milênio • 8411. O mundo gira, e os lusitanos rodam • 41 24. Urna visita importante • 87 12. Quem é eterno sempre aparece • 4413. Maneiras de suportar a vida eterna • 47 Para o leitor curioso • 93 lJ/
  • 3. 1. Vinte e nove anos de bacalhau Pensando no que lhe aconteceu nos últimos cinco séculos, Antô-nio Brás concluiu que a vida eterna não valia uma lasca de bacalhaufrito no azeite. Como aquelas que preparou na noite de 20 de fevereiro de 1500,para depois que fechasse sua tasca, na praça principal de Restelo. a movimento aumentara muito naquele pequeno ancoradouro,a pouco mais de uma légua de ~isboa, desde que o navegador Vascoda Gama tinha voltado, oito me~es antes, com a notícia de que afi-nal encontrara um caminho marítimo para as Índias. Antônio não se importava com nada daquilo. Sobre política, bas-tava-lhe saber que ofrei cha~a~-;e D. Manuel,- o V~nturoso)e quenão devia falar mal dele. Nem tinha tempo. Trabalhava desde os primeiros raios de sol atéo último freguês ir embora, tarde ~a noite. Só então fechava a portae sentava-se com uma caneca de vinho tinto rascante e uma panelade lascas de bacalhau. Mas, naquela noite fria de final de inverno, um único homempermanecia sentado, calado, com uma expressão furiosa, e não ha-via meio de ele ir embora. Acabou tomando coragem e informou: - Senhor ... estam os a fechar. a comandante o olhou com raiva, os olhos se transformaram emduas bolas vermelhas brilhantes, a boca se abriu e os dois caninossupenores cresceram. , Taberna; casa onde se vende bebida. 2 Que deixa certo travo na garganta.
  • 4. OlAntônio ia dizer que tudo bem, podia ficar mais um pouco, mas Depois que o último freguês se foi, encostou-se no balcão e per- o homem avançou em sua direção e o prendeu num abraço apertado. cebeu que não respirava! Sentiu então a dentada no pescoço. Uma ratazana subiu no fogão, atrás de calor e restos de comida. Tentou se desvencilhar. Não pôde. Os caninos furaram sua pele. Voou sobre ela, agarrou-a com as duas mãos e mordeu-lhe a barriga. O sangue espirrou, escorreu por seu ombro. O sangue inundou sua boca. Bebeu como pôde, rasgando-a cada vez mais com os dentes, e terminou torcendo-a como uma camisa Enquanto era sugado, a dor passou. A sensação de dormência to- mou seu corpo. As pernas e braços balançavam, sem vida ... Até ser sol- molhada para sugar até a última gota. A força voltou. E com ela a consciência do que acabara de fazer to, desabar nas pedras encardidas do chão e ouvir o bater de grandes asas se afastando na noite. Correu apavorado pª,-ra fora da tasca. Atravessou a praça deserta. Um vulto magro, com um longo manto negro, saiu de trás do carva- Abriu os olhos com dificuldade. Custou uma eternidade para pôr- lho, agarrou-o pelo pescoço e o arrastou tão rápido que pareciam voar. se de pé, escalando cadeiras e mesas, as pernas bambas se recusando a sustentar o corpo. Passou a mão no pescoço e sentiu os dois furos e o I.J sangue coagulado. Diabo de freguês maluco. Quem me manda trabalhar num porto? Fechou a porta, encheu a caneca de rascante e pegou uma gran- de lasca de bacalhau. Tomou um gole e mastigou. Vomitou em seguida. Antônio Brás faria trinta anos em. breve. Comia bacalhau há vin- te e nove anos e aquilo nunca havia lhe acontecido. Tentou de novo e mais uma vez vomitou. • ~;tida de uma grandiosa esquadra estava marcada para 8 de março. Filas intermináveis de carregadores entravam e saíam dos na?~s. Antônio não tinha tempo nem de se coçar. Passava os dias na ~". tasca, servindo os fregueses, e tudo parecia normal, a não ser pelo fato de que não conseguia mais beber nem comer. Sentia-se bem-disposto. Com energia demais até. Ia de mesa em mesa com uma velocidade espantosa, era capaz de ouvir vários p~di- dos ao mesmo tempo e chegava a adivinhá-los. No terceiro dia após o incidente com o comandante, com o sol já transformando em lama as últimas neves do inverno, saiu para pegar uma encomenda de salame e voltou com a pele estranhamen- . , te empolada. No dia seguinte, todo o seu ~orpo doÍa e sentia-se muito fraco. 8 9
  • 5. 2. Imortal, nem morto! - Queria tomar parte no que será uma g~ande conquista portu- guesa: o monopólio do comércio com as Índias. É a mania do Ve- lho. Participar dos grandes acontecimento~ -Que mal pergunte, o que tenho a ver com isso? Quando abriu os olhos, Antônio estava sentado na terra úmida, - Nada. - Nada? Tilcom as costas apoiadas num imenso bloco de granito retangulfr. Encostada em outra pedra a sua frente, uma sinistra figura,mui-to alta e magra, ombros curvados para a frente, olhava-o, calada. Seu I} ~ - Só o azar de estar no caminho dele, justamente depois de sa- ber que seu nome fora cortado. E que em seu lugar irá Vasco de Ataíde, i I Irosto era branco como uma vela e o pouco cabelo que tinha parecia um fidalgo sem nenhuma ex~.eriência no mar, mas de boa linhagemcolado à cabeça por alguma substância gordurosa. e irmão de um comandante já escalado, Pero de Ataíde. É sempre I - Onde estou? - perguntou Antônio. uma politicagem dos diabos ... Ouviste o nome de quem escolheram - Nos alicerces do Mosteiro dos Jerônimos de Belém - respon- para capitão-mor?deu o outro. - Não sei nada dessas coisas. - Queres dinheiro? Leva a bolsa. Mas deixa-me a vida. - A nomeação saiu a 15 de fevereiro. É um tal de Pedro Álvares - A vida? Será possível que ainda não entendeste? Cabral, outro sem nenhuma experiência, mas com fortes laços de fa- mflia com a Coroa, e casado com uma das mulheres mais nobres e - O quê? ~ ricas de Portugal, neta do rei D. Fernando. - Não sabes que agora és um vampiro? Antônio não se assustou porque não sabia o que era aquilo. Teve - Manda quem pode, obedece quem tem juízo. _de ouvir as explicações. Não gostou nem um pouco. - O Velho mordeu-te por pura raiva. Nem estava com sede. Su- - Estás a dizer que bacalhau nunca mais? gou só uma parte do teu sangue. Nem todo, a ponto de matar-te, nem -É. tão pouco, que te pudesses recuperar. E aí está, Antônio ... agora és um dos nossos. - Ah, não. De jeito nenhum. Que diabo está a acontecer? Quemés tu? Domingos então ensinou pacientemente a Antônio o que era ser - Chamo-me Domingos. Vampiro também. Não concordei com um vampiro, o que devia e não devia fazer, como se alimentar, oso que o Velho fez a ti e resolvi ajudar-te. perigos a evitar, os poderes adquiridos ... - Nunca mais vinho? - Estás a falar do maluco que me mordeu o pescoço? - Nunca. - Aquele era só o corpo do comandante. O Velho é o vampiromais poderoso entre nós. O único que consegue entrar num corpo - Bacalhau? Salame? Chouriço?humano. - Não mesmo. - Não estou a entender... - Então não! Nem morto! Quero ser como sempre fui. Há de - A alma do Velho se apossou do comandante. haver um jeito. - Ora pois ... - Não há. Conforma-te. - Pretendia pilotar uma das caravelas que está a ser preparada Antônio insistiu, insistiu tanto que o outro revelou:aqui em Restelo. - Só existe uma maneira de reverter a maldição, mas tu não tens - E para quê? a menor chance contra o Velho. - Dize, pois. 10 11
  • 6. j ~ Precisas espetar uma estaca de carvalho no coração do vampi- ro que te ·criou e aspirar as cinzas em que seu corpo se transforma- 3. Problemas na saída rá. Ao diabo! E sacudiu o manto negro na noite, desaparecendo por entre as pedras. • Antônio Brás tinha tanto medo do mar que só no terceiro dia de A última semana passou depressa e obrigou Antônio a agir rápido. total pavor lembrou-se de que agora era imortal. As naus e caravelas, como cascas de nozes sobre o oceano desconhe- Todos a sua volta só cuidavam da grande festa de despedida da armada de Cabral, marcada para o próximo domingo. Com o suces- cido, balançavam para todos os lados ... mas nem precisavam afundar para matar seus tripulantes. Morria-se de tudo ali dentro. Doença, bri- so daquela missão, Portugal se consagraria como a maior potência econômica do Ocidente. ga, intoxicação, desespero, tédio, loucura. Ninguém tomava banho. Vo- mitavam, urinavam e defecavam por toda parte. A água se tomava intra- A população de Lisboa, umas sessenta mil almas, chegava em massa, improvisando barracas, estendendo panos para dividir o pão gáv~l. As comidas apodreciam. Só duas coisas ajudavam a enfrentar tudo isso: a ambição do lucro e a cota diária de litro e meio de vinho. e o vinho, espalhando-se pelas praias e colinas de Belém. I ~ Antônio evitava sair de sua tasca durante o dia. O mais fraco raio O vinho era tão importante que se media a capacidade dos na- de sol feria-o como uma navalha. vios, pela quantidade de barris que cabiam nele. .~ A nau capitânia, a maior da frota, tinha uma capacidade de 250 Na noite seguinte ao encontro com Domingos, cortou a ponta de tonéis. Dentro de um deles, abraçado às canelas e com o rosto en- um galho do carvalho da praça e fez uma estaca, com dois palmos , ;!.~:-1. terrado entre os joelhos, Antônio maldizia seu destino. de comprimento. Saía com ela após o trabalho, escondida sob o pe- Acontecer isso logo comigo, que amava a vida, que gostava do sol e ado- sado casaco de couro, e caminhava ao acaso pelas vielas escuras jun- rava minha mulhel~ meus filhos, presuntos, vinho, tremoços ... to ao cais, tropeçando em bêbados e pedras mal assentadas, amaldi- Mas a esperqnça de resolver tudo rápido e voltar o consolava. çoando o Velho. À noite, quando aquela maldita dormência deixava seu corpo, esti- Procurou-o em vão até a sexta-feira. cava-se e circulava pela nau, nas roupas roubadas de um marinheiro. Como Domingos havia explicado, a transformação seria lenta Era tanta gente, e tão grande o movimento, que ninguém o notava. To- mas irreversível. Em poucos dias teria todas as características dos vam- mavam-no como um marujo do tumo da noite e, de tão enjoados, ha- piros. A pele completamente branca, a necessidade de sangue fresco via alguns até mais pálidos do que ele. pelo menos duas vezes por semana, a ausência de respiração, os ins- Perambulavam por all oitenta marinheiros, setenta soldados e tintos aguçados de um lobo e a aversão total à luz do sol. trinta e três passageiros, entre serviçais, degredados, intérpretes e re- vou explicar isso à mulher e aos garotos? C..2!!,!o _ ligiosos, além dos sete besteiros da guarda pessoal de Cabral. Cen- to e noventa corpos onde a alma do Velho poderia estar escondida. ainda mais sem saber em que corpo se enfiara. A única pista: ele que- Ou melhor, cento e oitenta e nove. Aos primeiros raios de sol do ter-/Seria impossível encontrar o Velho no meio daquela multidão, )~ia ~s.tar no corpo de alguém importante, nos momentos históricos ceiro dia encontraram um grumet~tre os cordames, com um ta- deG1S,!voL __ _./ lho no pescoço e sem uma gota-de sangue no corpo. O gajo então vai estar junto ao Cabra/! No dia seguinte fechou a tasca, meteu-se num barril de vinho bem Soldado armado de besta (antiga arma de disparar setas). lacrado e despachou a si mesmo para a nau capitânia. 2 Aprendiz de marinheiro. 12 13
  • 7. ,,/ Ele está a bordo! Tantos mistérios cercavam a humanidade então que ninguém per- dia muito tempo tentando explicar as coisas. Embrulharam o rapaz 4. Depois do fim do mundo num pedaço de vela suja e o jogaram ao mar. Mestre João, um galego misto de lllédico, cirurgião, físico, artis- li ta, astrônomo e astrólogo, diagnosticou aner~:lia profunda provoca- da pela sangria do corte no pescoço, na certa resultado de uma bri- ga. Mas, quando lhe perguntaram onde diabos estava o sangue, sa- Duas coisas Antônio decidira: nunca se alimentar de sangue hu- mano nem dormir em caixão. cudiu os àmbros, disse "sei·lá" e foi tomar uma bagaceira com seus > amigos letrados, futuros escrivães para as feito rias da África. Se não quero ser um ~ar.npiro, o melhor é não fazer como eles. Antônio começou a desconfiar que o Velho estava no corpo do Por isso continuou a passar o dia entalado no barril e, à noite, tal Mestre João. chupava o sangue das ratazanas que infestavam o porão. Vidinha miseravel. - - É mesmo possível, pois. Quem maiS? Marinheiros, soldados e besteiros não são importantes. Serviçais e degredados, muito menos. Escrivães e in- A tripulação subalterna não passava muito melhor, obrigada a térpretes, pode ser, mas ficarão pelo caminho: Os homens da Igreja, nem comer diariamente meio quilo de biscoito duro, salgado, mofado, pensar. Do lado de Deus, sempre cercados de cruzes... Quanto a Cabral, fedorento e com as bordas comidas por baratas. esse não mesmo. Os dias foram passando. Domingos explicara que o Velho não costumava ocupar o corpo :De Lisboa, tomando o rumo sul-sudoeste, chegaram às Ilhas Ca- de grandes personalidades, para não ficar em evidência demais e ar- nárias a 14 de março de 1500. No dia 22 atingiram o arquipélago de riscar ser descoberto. Cabo Verde. I " ..-/ Durante a noite uma das naus desapareceu. Antônio teve certeza de que o Velho a afundara, matando cento e cinqüenta homens ape- nas para se vingar de seu comandante, Vasco de Ataíde. No dia 29 de março enfrentaram uma calmaria que durou dez longos dias. As provisões de água e comida foram acabando. O Velho apwveitou para~tar um besteiro e dois soldados. Nin- guém se importava maIs. Foram atirados para fora da nau junto com) outros, yítimas de escorbuto e diarréia. -c/, _ Foi durante aquela calmaria, jogando cartas escondido dos pa- dres, que Antônio aprendeu a profissão que exerceria nos cinco sé- culos seguintes. No dia 9 de abril, após as embarcações cruzarem a linha do Equador, os ventos voltaram a soprare, para espanto de todos, Ca- bral ordenou que embicassem para sudoeste, saindo da rota. O resto da frota o seguiu. As tripulações ameaçavam se rebelar. Cabral não inspirava confiança. O pavor se espalhou. Antônio, como a maioria, achava que a Terra era reta e que, se . fossem se afastando muito para o lado, acabariam caindo da borda. 1 )}çl Lá se sabe onde. 14 7"/ 15"-
  • 8. Ouviu Méstre João tentar convencer vários grupos de marujos ater- rorizados que não, que a Terra era redonda. Mas quando pergunta- vam como é que as pessoas podiam viver de cabeça para baixo, ele não sabia explicar. O gajo está calmo porque, como os morcegos, pode ficar pendijr{Ufc; pe- las pernas. Antônio cada vez tinha mais certeza. Com a desculpa de estudar o céu abaixo do Equador, Mestre João passava as noites no convés, e a toda hora chamava a atenção para uma nova,constelação em for- ma de cruz, como se tivesse medo dela. Vigiava-o no silêncio da noite, vendo as tochas que assinalavam o resto da frota, esperando a oportunidade para apanhá-lo .. / A 21 de abril cortaram íffiensostapetes de algas. A 22, gaivotas( emporcalharam as velas. À tarde, o vigia na cesta da gávea gritou: - Terra à vista! • IL Um dos problemas em ser vampiro antes da invenção da luz elé- trica é que a maioria das coisas importantes acontecia de dia. Quando Antônio saía do barril, encontrava a tripulação já de vol- ta, agitada pelos mais espantosos acontecimentos,A chegada_~_tella estranha, com um povo de pele marrom, limpos e felize~ co- bertos de penas coloridas, pintados, andando nus e conversando com ;g;aves. Mulheres lindas, peladas, com ossos espetados na boca. Gente que cuspia o vjnho e temia as galinhas. J Antônio só via da amurada o contorno de uma grande monta- nha arredondada. Frei Henrique Soares de Coimbra, que comandava os sacerdotes abordo da nau capitânia, rezou uma missa na sexiã~fêlfã, dia 1~ de . maio, véspera da partida~Antônio desesperava-se de curiosidade. Nã-=-- quela noite roubou em silêncio um bote e foi remando ,Çonhecer a grande ilha que já chamavam de Terra dos Papagaios. l, r , A tripulação de quase todas as naus e caravelas estava ainda por lá, espalhada pela praia. Viu a grande cruz de madeira e as tochas es- petadas na areia, as fogueiras assando peixes e raízes, e ouviu a can- toria bêbada. Sentiu sede. Farto das ratazanas, entrou na mata exótica atrás de um bicho diferente. 17
  • 9. ..• A escuridão da lua nova não ajudava, mas seu olhar aguçado d~vampiro afinal viu um estranho animal preto, com asas enormes e 5. Topada eternaquatro pernas. Chegou perto em silêncio e, escondido atrás de uma palmeira,entendeu. Frei Henrique de Coimbra, com sua batina preta aberta, abraça- Foijum começo complicado para Antônio. Segundo Domingos,va um índio por trás! "p-bom padre está a tentar pendurar um crucifixo no pobre sel- quando um vampiro criava outro, encarregava-se também de sua educação. Ele, no entanto, fora abandonado à própria sorte e estavavag~m..;~pensou, mas nisso-us,:luÍS-St~-viraiãill e... não haviãâ.t1vida: ~ numa terra desconhecida, a sete mil quilômetros de casa.ho.memL_----- ----=:- -- ----O frade estava com os dois enormes 7aninos cravados no pescoço do - Perdeu um tempo precioso tentando se recuperar do susto, até ti- !, Ao voltar à praia, depois de passar a noite na mata procurando o Velho, viu a armada de Cabral levantando âncora. O sol ameaçavarar da cintura a estaca de carvalho e avançar. nascer. Por sorte encontrou outro barril vazio jogado na areia e teve -SÓ aí se âêuconta de que não sabia com c~rteza onde ffcaváó co- tempo de entrar nele para passar o dia.ração. Na pressa, acabou enterrando a estaca na barriga do vampiro! Estava preso ali, mas com certeza o Velho também. Que lugar era O sangue espirrou. O índio rolou para um lado, o frade para o aquele? Na certa, uma ilha. Havia tantas pelo caminho. Canárias,outro, apertando a ferida e gritando de dor. Madeüa, Açores, Cabo Verde ... Nas noites seguintes andaria por todo Uma sombra então desprendeu-se do corpo do religioso, alongada lado e haveria de encontrar o Velho, recuperar sua alma mortal ee negra, e parou diante de Antônio por uns instantes. Dois pontos voltar para casa.de luz vermelha o encararam. Ouviu vozes se aproximando, atraídas Mas precisava ficar mais esperto. Não podia desperdiçar oportu-pelos gritos de socorro do frade. A sombra rodopiou no ar e sumiu nidades.na mata. Como podia desconfiar de um frade? Antônio compreendeu que ela era o Velho e que a alma do frade Concluiu que, justamente por Portugal estampar o símbolo davoltara ao corpo. cruz em tudo, das moedas às velas dos navios, os vampiros haviam Pegou de volta a estaca de carvalho e entrou na mata escura. se acostumado a ela. Logo após o pôr-do-sol do dia 2 de maio de 1500, ele saiu do bar- ril, espreguiçou-se e começou a mancar pela areia em direção ao nordeste. Quando uma pessoa é transformada em vampiro, ela permanece com a mesma aparência física do instante em que foi mordida. Por isso, Antônio cansou de maldizer a topada que deu com o dedão do pé direito no batente de pedra da porta da tasca, na noite de 19 de fevereiro de 1500. Por causa dela, entrou para a eternidade mancando. Aprendeu isso sozinho, depois de esperar o dedo desinchar por quinze anos. Os imortais têm muita paciência. ~o teimosos também. Custou a se convencer de que não estava numa ilha. 18 19 _".7:,
  • 10. Jr t 1(~UeTH~A f}fi rS Gü ( I S /H.[J Parou centenas de quilômetros adiante, às margens deuma enor- "r~r r,i"rU;L 0E OUVt;./~." A p~meira providência do então rei, D. João I1I, foi a criação dei . me baía, sem a menor ilusão de encontrar o Velho numa terra tão grande e misteriosa, ..• um governo geral para o Estado do Brasil, unificando a administração. Para isso, numa luminosa e quente noite de março de 1549, an- Viveu isolado numa caverna, na base de uma montanha de bar- corou na costa brasileira uma armada composta por três naus e duas ro duro e vermelho, por cinqüenta anos, aprendendo a ser vampiro. caravelas. Trazia escrivães, um provedor-mar, um ouvidor, vários fim- Os caninos, por exemplo, não podem se juntar na veia da vítima, cion~rios públicos, padres jesuítas, quatrocentos soldados e seiscen- fazendo um buraco só, senão espirra sangue por todo lado. Eles têm pequenos furos no centro, da ponta até a raiz, e é preciso sugar por t,ps degredados, todos sob as ordens do primeiro governador-geral do Brasil, o fidalgo Tomé de Souza. , .) eles como se fossem canudinhos. (I Fazendo isso com cuidado, era possível chupar o sangue de um A tudo isso assistiu Antônio Brás, pois a armada aportou justa- mente na baía onde ele vivia. animal sem matá-Ia. Assim ele se alimentou a partir de então em pa-o Sua mulher já devia estar morta há muitos anos. Seus filhos, ve- cas, antas e macacos. lhos demais para se lembrar dele. Nada prendia Antônio à humani- Aprendeu a fazer movimentos tão rápidos que se tornava invisí- . dade, a não ser as saudades do vinho e do bacalhau. Pretendia es- vel, e a pisar tão leve que não deixava marcas n,a areia. Dessa manei- ra podia entrar e sair das tribos e vilas sem ser notado. E assim se in- quecer tudo, e para sempre, em seu buraco úmido. Mas a Coroa por- teirava dos fatos. tuguesa resolveu fundar uma cidade no alto da montanha, de frente para a grande baía, bem em cima de sua cabeça. Depois de Cabral, os portugueses haviam retomado algumas ve- zes. Não raro ele via caravelas costeando o litoral para cima e para P..rimeiro botaram a mata abaixo e trataram de erg~r mpa gran- . } -de.-e_QValmuralha de taipa, com canhões apontado~_para lodos os :-,L -"f baixo. ( os interessesj voltados para o comércio co_~ a~Índias, um_ Com " lados. No interior traçaram ruas e praças, e ergueram pr~d~os para a administração, casas e igreja. E tanta pressa tinham que ni~o ajuda- ~gai tão fora d~ rota como aquele não mereceu muita atenção de Portugal. Vinham aqui apenas extrair a madeira utilizada como co- rante na manufatura têxtil, chamada de pau-brasil, conhecida dos europeus desde a época das Cruzadas. Os índios cortavam e levavam - as toras vermelhas para as praias. Pilhas e pilhas em troca de ferra- > clarou Tomé de Souza fundada moude SalVador. -- " ram funcionários, mulheres, crianças e padres, além dos escravos ín- , dios, caçadbs a laço nas aldeias próximas, e negros, trazidos como -- carga das costas africanas. E assim, em de novembro de 15A9, de:: 1<:> a primeira capital do Brasil, e a cha- . mentas de metal. Ora pois, isso que se está a fazer é uma coisa importante. Foi então que ouviu pela primeira vez a palavra brasileiro? o que comercializava o pau-brasil, ~ o nome Brasil ir aos poucos substi- Passou a espreitar os poderosos que gravitavam em torno do go- tuindo o oficial, Terra de Santa Cruz. vernador-geral, na esperança de encontrar no corpo de um daqueles J "homens bons", como eram conhecidos os integrantes da elite, fazen- I Àquela altura outras nações já c~gavam às Índias regularmente. deiros, grandes comerciantes, fidalgos e clero, a alma vaidosa do Velho.1 I Portugal, perdendo!! m~n~póli~ercial na região, e com_eLe o O tempo passou, porém, quase um século, e nada. Estava a pon- poderio econômico e marítimo, percebeu que naquela terra exótica to de desistir, conformar-se, quando uma pista lhe foi dada pelo acaso. chamada Brasil estava a saída pará-set.ls problenlas financeiros. Êra Na noite abafada de 2 de maio de 1624, do alto do telhado da preciso defendê:1a. •.. igreja, ouviu a conversa entre o bispo e um mascate que lhe vendia Outros povos europeus já começavam a desembarcar por aqui, toalhas da Ilha da Madeira . . principalmente franceses. Os invasores ocupavam vilas, construíam c I fortes e aliciava~ tribos. ~ - Já disse que não me importa o que acontece do lado de fora I dessa muralha - dizia o religioso. 20 21
  • 11. l ~ - .Mas O senhor podia percorrer as tribos, levando conforto à "" 6. Mordendo mulaalma dos índios. Estão apavorados. - Pois não sei nem se eles têm alma. - Continuam a aparecer... chupados, sem uma só gota de san-gue, e com dois furos na garganta. ", ~ - Eles criam seus demônios, depois que os aturem. Deixe-me Teve sorte.em paz. Na madrugada de 9 de maio entrou na baía uma esquadra ho- Investigando, Antônio descobriu que dezenas de índios vinham landesa, com vinte e seis navios, quinhentos canhões e três mil e tre-send~ encontrados assim há meses, e que o rastro de mortes tinha uma zentos homens. Descarregaram toda a sua aliilharia sobre a cidade,direção: as vítimas recentes, sempre mais para o nordeste. numa tempestade de fogo e ferro, e a ocuparam. Continuas a ser o mesmo idiota, pois. O Velho estava por cá, morden- Os holandeses fazia tempo dominavam o comércio na Europa,do o povo, e agora partiu. . beneficiando e distribuindo as mercadorias que espanhóis e portu- Três noites depois deixou para sempre seu buraco na terra e foi gueses recolhiam e transportavam da Ásia, África e América.atrás dele. Com o dinheiro, puderam aparelhar sua frota e então se pergun- taram: por que não buscar eles próprios as mercadorias nas fontes produtoras? Por isso, ataques holandeses à costa brasileira não eram novidade. A ocupação de Salvador, no entanto, mostrava uma nova fase. Já não se tratava mais de simples pilhagem. Queriam se instalar aqui. y Antônio não tinha ido longe. Os índios espalhavam-se em pequenos grupos. Era impossível sa- ber qual a próxima tribo a ser atacada pelo Velho. Ouviu comentários de mortes iguais entre os bandos de negros fugidos, mais difíceis ainda de encontrar. Teve a idéia então de arranjar uma mula, vestir-se como um mas- . cate e percorrer assim disfarçado a trilha oficial que o levaria a Per- nambuco, a capitania mais próspera e importante. Talvez o Velho esteja indo para lá. Como mascate, percorrendo devagar o território, conversando com quem encontrasse, ficaria a par dos acontecimentos. Depois saberia melhor o que fazer. À mula lhe foi muito útiL Além de mais cômodo do que mancar por centenas de quilômetros, duas vezes por semana chupava seu san- gue. Depois a recompensava: dias e dias solta nos melhores pastos. ) Pelo caminho, notou que a grande mata que se estendia por todo o litoral fora derrubada, e que em seu lugar agora havia um mato ã1to, com folhas finas e cortantes, e um caule comprido, de gomos coloridos. Esses caules eram cortados pelos escravos negros e pren- 22 23
  • 12. l""~ C. O céu já se enchia de manchas vermelhas, com os primeiros raios..~ad~ moendas dos engenhos. Do caldo produziam Q....quecha- de sol~ e teve de se enterrar fundo nas areias úmidas da margem do maval1Lde.açúcar, que sgniliLpara adoçar as çoisa~. E estraga! os den- rio para passar o dia. tes d~_.I=!essoastambém, o que podia ser fatg.l para um vampiffi.. No meio da manhã a terra tremeu. Como mascate, mesmo explicando que no momento não tinha __o-.---_ Embaixo da areia, sem poder abrir os olhos, continuou a ouvir as nada para vender, podia conversar com o povo da sen~àla e da casa- explosões violentas, por toda parte, durante horas. Por fim sentiu pés. grande, admirar a fartura dos senhores de engenho e se espantar com a crueldade com que tratavam os negros. MÚhares de pés correndo sobre ele. Desde essa época começou a se perguntar por que os brancos nun- Os vampiros têrríüma esPécie de relógio interno que indica quan- do a noite chega. No mesmo instante a dormência diurna abando- ca produziam o que necessitavam, e sim o que interessava aos ou- tros brancos que moravam muito longe dali. Um jesuíta que cmzou l1.r na seu corpo e a força sobrenatural volta. Quando isso aconteceu, Al}tônio pulou desesperado de sua cova, pelo caminho explicou que o nome disso era "pacto colonial". , r correu para a mata como um raio manco e só parou entre as folhas _ Aqui somos a Colônia. Portugal é a metrópole - disse ele, achando tudo muito natural. - Devemos vender, nossos produtos ~ de um coqueiro. Lá do alto, entendeu a situação. Uma grande es- ~J quadra holandesa aportara na costa, bombardeara Recife, desembar- . para eles, e comprar os deles, mesmo quando for mais vantajoso fa- zer isso com franceses, holandeses ou ingleses. I cara milhares de soldados e lutava ainda para dominar Olinda. _ Continuo a não entender qual a vantagem para nós, ora pois Os gajos não desistem, pá. - confessou Antônio. Foi ver aquilo de perto. _ Estamos aqui para produzir, não para concorrer. Assim se ajus- • tam os interesses e a dependência mútua. -:-;-Antônio coçava a cabeça: Levou tiros, na barriga e nas costas. Os buracos cicatrizariam em poucos dias, cuspindo os pequenos grãos de chumbo, deixando a - Dependência mútua? _ Sim. Eles também dependem de nós, percebe? pele branca sem marcas. Mas teve de roubar outra roupa, deixando Não, Antônio não percebia nada, e tinha outras preocupações: nu um mascate cuja cabeça estava a muitos metros ao corpo. Podia ter escolhido outro disfarce, funcionário da Coroa, feitor, encontrar o Velho, reaver sua alma mortal e passar o resto dos seus dias numa daquelas praias desertas, com uma bela índia, bebendo senhor de engenho ... Cadáveres não faltavam, espalhados por todo vinho e comendo salame. lado, porém apegara-se à vida de mascate, que lhe dava acesso a to- das as classes sociais. Assim prosseguiu sua busca, lentamente, sempre atento às notí- cias sobre novos corpos encontrados sem sangue. I Os portugueses resistiram por duas semanas, mas não puderam im-~ Os imortais não têm pressa. Em lombo de mula, perdendo-se várias pedir a vitória de uma armada de cinqüenta navios, mil e cem canhõ~s e oito mil homens. E os holandeses conquistaram Recife e Olinda. vezes pelas trilhas do sertão, parando meses num engenho, desviando- se da rota traçada para investigar as mortes em tribos e grupos de t:legros O governador, Matias de Albuquerque, teve tempo de fugir para o interior com os homens que lhe restaram. Atravessou o Capibari- fugidos escondidos na mata, e tendo de passar os dias metido em al- be e, sobre uma pequena elevação, instalou um acampamento de- gum lugar fechado e esCuro, quase sempre covas abertas na terra ao nas- cer do sol, Antônio levou seis anos para ir de Salvador a Recife. nominado Arraial do Bom Jesus, com a intenção de criar um foco de resistência. Atravessou a foz do rio Capibaribe e chegou ao porto na noite de Isto que está cá a acontecer é importante, pois. ,14 de fevereiro de 1630. Antes de roubar uma pequena canoa para Resolveu estabelecer-se no acampamento para ver se o Velho a travessia, despediu-se da mula com um beijo entre os olhos e a deixou num pasto verdejante. apareCIa. BIBLIOTECA DA ESCOLA ESTlU)UM. "JO~Ê GÀBRIH DF.OLiVE!RA" 24 25
  • 13. Y ," 7. Traidoraos pedaços Estaia bem embaixo dele, sugando o pescoço de uma negra. " Agora usava o corpo de Calabar. Já desconfiava dele, por isso o havia seguido. Apesar da enorme força do .mulato, nenhum humano poderia ter agarrado um touro ", furioso pelos d1ifres, como ele fizera na praça do Arraial. A tática de guerrilha de Matias de Albuquerque consistiu em or- "- D.esta vez tu não me escapas! Agora já sabia que o coração ficava no canto superior esquerdo.ganizar grupos de emboscadas e espalhá-Ios em postos avançados li· A velha estaca de carvalho, porém, iria esperar para entrar em ação.pelo sertão, em torno da cidade, com a intenção de isolar os holan-deses, cortando-Ihes o abastecimento. Vou te pegar dormindo, maldito! Não delLmuito certo porque os invasores saíam pelo mar e assim Mas naquela noite Calabar não voltou ao acampamento. Na noi- te seguinte ele também não apareceu, nem durante o dia, nem na se-conseguiam tudo de que precisavam, inclusive grande quantidade decaixas de açúcar, que continuaram a comercializar normalmente. mana seguinte. Foi considerado morto. Enquanto não chegavam reforços da Espanha, como acontecera Depois disso os holandeses, numa súbita mudança de estratégia,na expulsão dos holandeses de Salvador em 1625, o governador só deixaram a segurança quase inexpugnável de Recife e avançaram pe-contava com a eficiência dos capitães de suas milícias, espalhados las trilhas do sertão, adivinhando ~s emboscadas, antecipando-sepelo mato, em combates inesperados e fulminantes a todo holandês nos atalhos, aparecendo de surpresa nos postos avançados da guer-que ultrapassasse as muralhas fortificadas. rilha, tomando engenhos e destruindo as fontes de abastecimento Numa dessas estâncias, noite estrelada, ao lado de uma fogueira de comida e água dos homens de Matias de Albuquerque.em que se cozinhavam inhames e peixe, Antônio ouviu, de um negro, Foram conquistando vila após vila. Igaraçu, RioeFmmoso, Afoga-uma nova pista. dos ... E avançando, imbatíveis, instalaram-se em Itamaracá, Paraíba ~ --" _ Esses infiéis têm trato com o demo - dizia o escravo. - Isso ~ ..• e Rio Grande, ficando senhores de toda a costa nordestina. Não demorou para que o mistério s.e esclarecesse. Calabar passa-é jeito de se matar um homem? Não soube do índio boiando no rio,com a garganta cortada e seco como um pedaço de pau? Agora me ra para as tropas holandesas, revelando as posições inimigas, seusdiga, pra que os gringos iam querer o sangue do pobre? pontos fortes e suas fraquezas. - É a prÚneira vez? - perguntou Antônio. . Antônio decidira nunca interferir na história da humanidade. _ Nada. Volta e meia aparece um dessangrado assim. É o que o Achava que, como imortal, não tinha esse direito, já que não podiapadre falou mesmo. A religião deles é coisa do diabo. . sofrer as conseqüências de seus atos. A Igreja conseguia convencer índios e escravos a lutar ao lado de O diabo do Velho não pensa assim. E está a fazer uma bagunça danada.patrões que os chicoteavam, castravam, amputavam e quebravam Partiu rápido para as frentes de batalha, atrás de Calabar, mas,seus dentes a marteladas. Só porque os invasores eram protestantes "sempre chegando atrasado, ia testemunhando a formação da Novaem vez de católicos. Antônio não compreendia. Holanda. Ficou alerta. O Velho estava por perto. C1nsado, achou uma boa idéia voltar ao Arraial do Bom Jesus e Foi ao local onde aparecera a última vítima. Um posto avançado, esperar. Àquela altura, o último foco de resistência era uma ilha cer-comandado por um mulato alago ano chamado Calabar. Lá ficou, cada de holandeses por todos os lados, sem água nem comida, com dentro de um buraco na terra durante o dia, rondando o acampa- a população se alimentando de tatos para sobreviver. mento como um morcego à noite, esperando. Quando não havia mais ratos nem para Antônio chupar, o pró- Afinal, numa noite sem lua, pendurado no alto de uma palmeira, prio Arraial foi invadido. Mas Calabar não estava entre as tropas Antônio teve o segundo encontro com o Velho! holandesas. 26 27
  • 14. .. Matias de Albuquerque fugiu para Alagoàs. Antônio foi com ele .. No meio do caminho, um homem se apresentou ao estropiado 8. Vendo nuvensgovernador e revelou que Calabar estava justame-1iltenuma vila pró-xima, Porto Calvo; sua terra natal. Isso aconteceu durante o dia. Quando Antônio saiu de sua cova,aberta às pressas na terra fedorenta dos fundos de uma estrebaria, e~cor-reu para a vila, já encontrou Calabar amarrado a um tronco rio meio da 1J1aisalgumas décadas se passaram até Antônio voltar a encontrarpraça, cercado pelos populares, ouvindo sua sentença de morte. pistas do Velho. Foi enforcado, esquartejado e seus pedaços espetados em varaspara os urubus. Os holandeses continuaram instalados no Nordeste, estendendo ~ Nem um imortal resiste a isso, ora pois. O Velho deve estar longe. Es- de Sergipe ao Maranhão o braço eficiente e lucrativo da Companhia das Índias Ocidentais.capou-me de novo. A Coroa holandesa, satisfeita com o sucesso na América do Sul, nomeou um importante membro de sua nobreza, o príncipe Mau- rício d~ NaJi~au,-p-aIa.governar.Qs !.~Titórios conqu[S!?!Íos no Brasil. Vinha com poderes de soberano para acabar de uma vez com os fo- - cos de guerrilha restantes, reorganizar a produção de açúcar e recu- perar a atividade dos engenhos abandonados. ~ Antônio presenciou a imponente chegada do príncipe e sua co- .%u.itiva, na manhã calorenta de 23 de janeiro de 1637. I Sim, ele estava lá, é bem verdade que protegido pela sombra de no mangueira, e vestido dos pés à cabeça. Mas desperto! Em ple- umadia! ir Aconteceu com ele o mesmo que com os vampiros portugueses, que, no meio de tantas cruzes impressas em todos os lugares, deixa- ram de ser afetados por elas. Pois um vampiro nos trópicos, com o sol torrando a terra todos os dias do ano, acabou por se adaptar a ele e a suportá-Io. Isso lhe tróuxe uma granqe alegria. Não podia comer, beber ou amar as mulheres, mas pelo menos dali em diante teria a sensação mortal de sentir o sol, de ver as cores, os pássaros, as borboletas e as nuvens. Estava farto de corujas, morcegos e pernilongos. E, melhor do que túdo, não precisava mais dormir em buracos na terra ou en- . , talado em barris .. Comprou uma rede preta, alugou um quarto numa pensão e pas- so~ os anos seguintes circulando entre os mortais, admirando o crescimento de Recife. Vestiu-se como um holandês. As roupas protestantes, pretas e com colarinhos e punhos fechados, vieram a calhar para um vampiro que 28 29
  • 15. ia aos poucos se acostumando com o sol. Para completar, um cha- Não tivera mais notícias do Velho. Tinha certeza de que o maldi- ,péu de abas largas. _ to estava bem longe daquela zona arrasada, prestes a enfrentar uma Agora ganhava dinheiro como jogador profissional. Passava noi- decadência que se arrastaria por séculos.tes e noites e,m rodas de carteado, fingindo respirar e beber cachaÇa; Numa manhã de nuvens carregadas, tomou a decisão de se me-com feitores, funcionários públicos e senhores de engenho. Podia ter no sertão.usar seus poderes de vampiro para vencer: a leitura de pensamento, Ouvira comentários sobre descobertas de ouro e diamante numapara saber o que os adversários tinham nas mãos e se estavam ble- região bem ao norte, conhecida como Sertão dos Cataguás, parafando; a rapidez de movimento, para trocar uma carta sem que eles o~de estava indo gente de todas as capitanias.vissem; e a manipulação da vontade alheia, para que apo§.tassem Talvez o Velho também apareça por lá.maÍs do que podiam. Descobriu-se invencível em qualquerjogo ,que •entrasse, e quase invencível nas apostas que não dependessem dele. Em sua volta Recife crescia, pela intenção dos holandeses de er- Depois de atravessar os canais do Capibaribe chegou à várzea eguer um marco da fundação de seu domínio político na América, e começou a travessia de uma vasta campina. Em seu passo manco, iapelo delírio de Maurício de Nassau, criando a cidade de seus sonhos. sem pressa, com o vago rumo de seguir os boatos sobre o ouro. Mandou abrir canais, construir diques e aterros, plantar árvores, Na pouca luz do pôr-do-sol avistou uma pequena jumenta cor-e transformou tudo num imenso parque. Traçou ruas, praças e am- rendo atrás de um cavalo.plas avenidas. Construiu seu palácio, com museu, biblioteca e sala . Opa, isso não devia ser o contrário?de música. E lá fundou uma academia de artes e ciências, cercando- O cavalo -veio na direção de Antônio. Quando estavam a poucosse de artistas e intelectuais. metros um do outro, a jumenta saltou para a frente ... e lhe cravou J Antônio chegou a desconfiar que os delírios de grandeza de Nas- dois enormes dentes pontudos no pescoço!. sau se davam por estar seu corpo ocupado pela alma do Velho, mas O cavalo escoiceou, empinou, caiu, mas a jumenta não o soltou, investigou muito e concluiu que não. continuou mordendo, sugando o sangue, e Antônio lembrou: Ali, em Recife, começou-se a falar na liberdade dos escravos e dos - É ela! cultos, sem pensar em colocar essas idéias em prática, claro, porque ~sperou sua antiga companheira de viagem terminar. Ela tam- ainda não interessavam a ninguém, a não ser às vítimas. bém o reconheceu e se aproximou. Os ricos e poderosos foram se mudando para lá. Senhores de en- - Tantos anos bebendo o seu sangue, minha amiga ... a transfor- genho voltavam a produzir e a vender. Gente de toda parte, franceses, mei numa jumenta-vampira sem querer. Quer vir comigo conhecer alemães, belgas, circulava pelas calçadas limpas. Pareceu-lhe que os o interior do Brasil? homens afinal podiam se entender. Montou nela e seguiu viagem. Estava errado. Assim que seu contrato chegou ao fim, Nassau foi Uma longa viagem de um século. deposto e enviado de volta à Holanda. Quem mandava eram os co- Ia quase feliz. Via o mundo de dia, não podia ser ferido, n~m adoe- merci~ntes da Companhia das Índias, que queriam mais lucros e cer, e ganhava dinheiro suficiente, como jogador, para boas roupas menos despesas com idéias malucas. e pousadas confortáveis. Mas, enquanto não pudesse tomar uma ca- A guerra voltou com toda a força. E os holandeses começaram a chaça e comer feijão çom carne de porco, sentir o calor das mulhe- perdê-Ia. res-:- esperança dos v~lhos e a curiosidade da morte, não sossegaria. a Antônio tratou de cuidar da vida. Tinha saudades até do nariz escorrendo. 30 31
  • 16. 9. Jumenta nervosa De. qualquer maneira, à medida que entrava terra adentro, ia se interessando cada vez mais por aquela que, na época, era a mais im- portante colônia pOrtuguesa. - Como gosta o Velho. Se tivéssemos parado na Índia, não seria tão bom. De fato. Portugal já havia perdido toda a influência sobre o co- Espalhou-se a notícia por todo o Brasil e pela Europa: havia ouro, mércio.com o Oriente, e a desastrada política externa da Corte só pio- e muito, no território que pouco depois ficaria conhecido como Mi- rava a situação. Para fugir da dominação espanhola, pedira ajuda nas Gerais. aos holandeses. As dívidas com a Holanda, pagara pedindo empres- Assim que essas notícias chegaram aos confins do sertão, por tado à Inglaterra. Agora importava quase tudo dos ingleses e dependia onde Antônio perambulava, o movimento nas trilhas antes desertas, do. que pudesse arrancar das colônias para pagar suas dívidas, que por onde ele seguia em paz com sua jumenta, agora o obrigava a fi7 . só crescialIL. Ias indianas com dezenas, centenas de homens aflhos. Vaqueiros que Para completar o desastre, os holandeses, expulsos daqui afinal abandonavam o gado no pasto, agricultores que deixavam suas la- em 1654, foram plantar cana nas Antilhas e na Guiana e condena- o.( vouras no litoral, comerciantes, artesãos, funcionários públicos, ofi- ram a produção brasileira à decadência. ciais de justiça, militares, todos largando emprego e família, numa À Corte, desesperada, só restou a esperança do ouro, da prata, das espécie de delírio coletivo, em busca do ouro. pedras preciosas. Se os espanhóis enriqueciam com a mineração em Deixou-se levar, com a certeza de que encontraria o Velho. sua banda da América do Sul, era preciso tentar o mesmo por aqui. Porque, sem dúvida, algo de importante vai acontecer. Antônio ia se inteirando da situação à medi1a.gye avançava Bra- A jumenta desenvolvera dois enormes e pontudos dentes cavala- sil adentro, em conversas de carteado nas pequenas vilas, em torno res, que Antônio procurava esconder com uma focinheira de couro. de fogueiras em acampamentos de vaqueiros, çm rodadas de gamão Ela dava trabalho. Quando sentia sede de sangue, ninguém a se- com fazendeiros abastados ou com parceiros de viagem ocasionais. gurava. Atacava cavalos, bois, antas, onças, até gente. A sorte de Antô- _.- - _ .. .,-- ---- Há décadas, saídas das capitanias ao sul, expedições já vasculha- vam o lllteúor atrás de jazidas. Iam longe, invadindo terras espanhQ~ nio é que ela só se alimentava à noite, nas veredas escuras e desertas do sertão. Ias, desrespeitando o velho Tratado de Tordesilhas. Como ele, a jumenta continuava desperta durante o dia, embora Acabaram descobrindo. um pouco mais lenta. Mas à noite, principalmente logo após sugar o sangue de suas vítimas, adquiria uma energia assustadora e prati- camente;;oava. Era comum subir em árvores atrás de algum maca- co distraído para sobremesa. Apesar dos contratempos, e das várias vezes em que quase os de- nunciou como vampiros, Antônio gostava dela. Sentia-se muito so- litário e só outra alma imortal podia lhe fazer companhia.~ Assim prosseguiram, com muitas paradas e desvios enormes. Maravilhava-se com o que via. Era capaz de passar anos numa curva espraiada de rio, no cume de uma montanha rochosá cercada de cachoeiras ou vendo as vilas próximas às jazidas incharem de gen- te. Admirava-se com os homens abrindo gigantescos buracos na terra, trabalhando como formigas. 33 32
  • 17. • ~ . • 1" Viveu em Pitangui, Ribeirão do Carmo, Rio das Velhas e muitas 10; Muita revolta paraoutras vilas. pouca pólvora Foi na manhã em que pisou em Vila Rica, mais tarde conhecidacomo Ouro Preto, no outono de 1756, qug soube do grande terre-moto que havia arrasado Lisboa, destruindo dois terços da cidade ematando quarenta mil pessoas. Agora é que vamos dar com os burros n água. Nesses passeios de mula pelas redondezas de Vila Ric~, Antônio Chegava, afinal, à maior cidade mineradora da América do Sul e, procurava se inteirar de possíveis vítimas de vampiro. Sua eXperiên-cansado de procurar em vão pela nova encarnação do Velho, resol- cia lhe dizia que o Velho ocupava corpos de figuras importantes, mas,ve~ esperá-Io. na hora de se alimentar, preferia índios, escravos e pobres de uma Se o desgraçado aparecer, será aqui. maneira geral, cujas mortes não preocupavam a Justiça. • E tanto procürou que encontrou um grupo de mineiros, isola- dos ao pé de uma montanha, a muitas léguas da vila mais próxima, A tragédia em Lisboa tornou Portugal totalmente dependente da apavorados com os corpos de companheiros encontrados no fundoInglaterra, acrescentando às dívidas antigas os novos empréstimos das grutas. Chegou mesmo a ver um deles e teve certeza da presen-para a reconstrução da cidade. A única saída era aumentar ainda mais a intervenção nas colô- ça do Velbo: a garganta rasgada a unha, para disfarçar as duas mar-nias. Incentivar e fiscalizar a produção era bom, mas muito lento. O cas de dentes, e o corpo seco, mumificado, sem uma gota de san- gue nas veias.mais rápido era arrochar nos impostos. É claro que os brasileiros Na volta, ao pernoitar numa estalagem, dividiu a mesa com doisnão gostaram nem um pouco. .. A Coroa exagerava. Havia imposto sobre tudo ~a época. Pagava- personagens conhecidos. Fingiu tomar uma caneca de vinho para ouvir o que tramavam . se para passar na alfândega, para cruzar um rio, para comercializar qualquer produto, para vender e comprar terras, para estabelecer co- .~m deles estava se tornando famoso por conspirar contra a Co- mércio e para fechar comércio ... roa portuguesa, falando mal do governador e do vice-rei, pregando Num final de tarde chuvoso, durante um passeio um pouco ao abertamente a revolta armada e a independência do Brasil. Era ma- sul, um fiscal parou Antônio numa curva de trilha deserta e lhe co- gro e alto, uns quarenta anos, e um pouco vesgo. Alferes do regimen- brou um "imposto sobre circulação de mula". to de cavalaria de Vila Rica, tinha o apelido de Tiradentes, por ter Não teve tempo de receber. A jumenta-vampira arrancou-lhe a sido dentista antes de entrar para a carreira militar. cabeça e cravou os dentes no buraco do pescoço, chupando todo o O outro chamava-se Joaquim Silvério dos Reis, um importante seu sangue. "coronel" português, endividado com a Coroa até os cabelos. Antônio não fez nada para impedir. Após quase trezentos anos, Antôl?io já tomara algum dinheiro dos dois no carteado, por isso torcia pelos brasileiros. sentiram-se à vontade para conversar. Ou melhor, praticamente só Tir~dentes falou. A situação estava insustentável. O novo governador da capitania das Minas Gerais, o visconde de Barbacena, assumia o cargo com a promessa da temível forma de arrecadação conhecida como "derra- ma": a cobrança dos impostos atrasados, de uma vez só. 34 35
  • 18. Revoltados com a metrópole, que os ameaçava com desapropria-ções, saques, torturas e prisões, a elite endividada planejava uma re- ;volução que a tornasse livre de uma vez por todas de Portugal. Tiradentes, com seus discursos inflamados, tornara-se o líder dpmovimento. - Já somos muitos - dizia ele -, dispostos a expulsar daquÍ osrepresentantes da Coroa, que só sabem chupar? nosso sangue. Ao escutar essa expressão, Antônio ficou atento e passou a des-confiar dele, embora seu apelido assustasse um vampiro. Ouviu então os planos secretos da revolução. Quando o visconde de Barbacena principiasse a "derrama", mar-cada para fevereiro de 1789, Tiradentes, comandando um grupo ar-mado, invadiria a casa do governador, cortaria sua cabeça e leriauma declaração de independência, proclamando a República. Tinham a certeza de contar com duzentos hQmens, armados commosquetes. O difícil era conseguir pólvora. Conversaram horas sobre os detalhes, os nomes envolvidos, assenhas, e quando afinal se separaram e Silvério dos Reis recolheu-seao quarto ao lado do seu, Antônio leu-lhe os pensamentos e nãogostou nem um pouco do que descobriu. O coronel iria trair a revolução. O maldito Velho já usou o corpo de um traidor antes. Pode muito bemfazer isso de novo. Resolveu vigiar Silvério dos Reis. Ficou de dlho em Tiradentes também. Quando ele fala em cortar cabeças, seus olhos brilham ... Além do mais, os dois estavam perto das recentes mortes na gruta. Dias depois foi à casa do desembargador Tomás Antônio Gon-zaga, com quem jogara gamão algumas vezes. Havia uma reuniãomarcada para o fim da tarde, no varandão interno, a que Tiraden-tes iria. Lá estavam padres, advogados, militares, funcionários públicos emuitos fazendeiros e proprietários de minas. Antônio misturou-se a eles. Eram os conspiradores. Falavam so-bre as idéias novas que surgiam na Europa, sobre o "liberalismo eco-nômico" que pregava o fim dos monopólios e dos pactos coloniais, Ii I 36
  • 19. ..·dos ideais franceses de igualdade, fraternidade e liberdade, do "ilu- Antônio assistiu a tud<? revoltado, mas tinha por princípio não minismol", do "racionalism02" ••• interferir na História. Um dos problemas dos vampiros é se manter atualizado. Enquan- A primeira providência de Barbacena foi suspender a "derrama", to a um mortal basta conviver com sua época, :1mimortal tem de atra- desorientando os conspiradores. Depois, para não levantar suspei- vessar os séculos tentando acompanhar a evolução dos pensamentos, tas, foi substituindo vários comandantes militares, colocando ho- o surgimento das palavras novas, as modas. Dá trabalho. Por isso, mui- mens de confiança nos postos-chave. Por fim, pediu reforços de tro- tos vampiros preferem se isolar e só sair à noite, como os fantasmas. f;. pas ao vice-rei. Mas Antônio amava a vida e jurou manter o interesse pela huma- Tiradentes viajou até a nova capital do Brasil, São Sebastião do nidade até ter sua alma mortal de volta. Rio de Janeiro, no litorat pregando por onde passava a proclamação Davam os revoltos os exemplos de outras colônias, como a da da independência. !: América do Norte, que pouco tempo antes havia lutado contra a In- Antônio não pôde continuar vigiando os dois. Teve de escolher. glaterra e conquistado sua independência. Ficou em Vila Rica, de olho em Silvério dos Reis. - E também é contra a Inglaterra a nossa luta! - gritava Tira- Certa madrugada, num novo encontro, deixou o traidor na sala dentes. - Portugal paga suas dívidas com nosso ouro! A Coroa .de audiência do palácio e foi espiar pela janela dos aposentos do go- mantém seus luxos chupando nosso sangue. vernador por que ele demorava tanto. "Toda hora o gajo fala nisso. Ora pois, que aí tem coisa", pensa- Encontrou o visconde lanchando. va Antônio. De quatro, os dentes cravados no pescoço raspado de um bode! Voltaram a discutir sobre a falta de pólvora e como seria a ban~ Burro! Burro!deira da nova república, mas não chegavam a um acordo. Xingava-se Antônio, escondido entre os galhos de uma manguei- Reclamaram muito da situação. Todos ali, fora Tiradentes, que ra do jardim.era pobre, deviam à Coroa. Alguns, em desespero, planejavam fugir Ele não desconfiara do governador. 11 Ipara os sertões caso a revolução não vingasse. Procurou se acalmar e correu para o pequeno sobrado que aluga- Mas o que mais se falou, o motivo mesmo da reunião, era o fato ra no final da rua Direita. Lá, desembrulhou emocionado a estaca deirritante de o visconde de Barbacena ter adiado a "derrama" para um ~: carvalho que talhara há quase trezentos anos, apanhou na gaveta adia incerto. Isso atrapalhava todos os planos dos conspiradores, e marreta de madeira que comprara recentemente, como se estivesseeles se perguntavam o que estaria acontecendo. I adivinhando, e voltou ao palácio, disposto a recuperar sua alma mor- Só Antônio sabia. tal, já sonhando com feijão-tropeiro, cachaça com maracujá e a mu- Na noite seguinte ao encontro na estalagem, seguira o cOIonel lata do armazém.Silvério dos Reis em sua visita suspeita ao visconde. Esperou a reunião se encerrar. Ouviu o Velho, no corpo de Bar- O governador, um tipo estranho, calado e solitário, sempre tIían- bacena, ordenar que Silvério dos Reis fosse atrás de Tiradentes até acado em seu palácio afastado da cidade, recebeu o traidor em au- capital, denunciá-l o ao próprio vice-rei.diência privada e sigilosa e tirou dele todos os nomes e planos dos Horas depois de o traidor ir embora, o governador deitou-se econspiradores. Em troca, anistiou as dívidas do coronel. dormiu. Antônio esperava por isso. I Movimento filosófico do século XVIII que se caracterizava pela confiança no Levantou a janela guilhotina, entrou e mancou até a beira da progresso e na razão, pelo desafio à tradição e à autoridade e pelo incentivo à cama. O visconde roncava, dentro de seu camisolão de seda. liberdade de pensamento. 2 Doutrina que pretende explicat tudo pela razão. Finalmente, depois de tantos anos, terás o que mereces, maldito! 38 39
  • 20. Segurando a estaca com a mão esquerda, pousou a ponta sobre o coração de Barbacena. Com o martelo na outra, e toda sua força de 11. O mundo gira; e os vampiro, desferiu o golpe mortal. lusitanos rodam Mas a estaca espatifou-se! Os cupins, em três séculos, haviam feito um estrago danado. .~ Uma sombra escura desprendeu-se do corpo do visconde numpulo e empurrou Antônio com tanta força que este se chocou cont~.a parede, derrubando a mesa, uma bacia de metal e um espelho. Ator- Antônio percorreu os quinhentos quilômetros que o separavamdoado, viu dois pontos de luz vermelha queo encaravam. Ouviu os da recente capital do Brasil em pouco mais de dois anos.gritos dos soldados que já batiam na porta. A sombra atravessou a pa- Admirou-se com a qualidade das estradas reais, as melhores da Co-rede. Só teve tempo de pular pela janela e se esconder na noite. lônia, largas, muitos trechos calçados com pedras arredondadas tira- Perdera novamente o Velho. das dos rios, e com boas estalagens para estirar-se em sua rede preta. No dia 20 de maio chegou a notícia da prisão de Tiradentes, no Teria chegado ao Rio de Janeiro antes se, na metade do caminho, :;.~~Rio de Janeiro, e das ordens do vice-rei para que as tropas do gover- a jumenta, enlouquecida pela sede, não tivesse chupado o sangue deno invadissem Vila Rica. Nos dias que se seguiram foram todos pre- dois cav;llos de uma tropa do governo.sos e despachados para as prisões da capital. Por sorte atacou-os longe da pousada onde Antônio pernoitara, Fazendeiros e proprietários de minas, que antes apoiavam os cons- e ninguém soube que a jumenta era dele. Mas uns vinte soldados con-piradores, agora apresentavam denúncias formais contra eles, na es- seguiram segurá-Ia e lhe cortaram a cabeça.perança de abatimentos nas dívidas. o Mesmo assim ela ainda correu pelos pastos por cinco dias e cin- Antônio arrumou suas coisas numa bolsa de couro, procurou por co noites, até sumir no mato. O fato foi comentado por décadas esua jumenta-vampira e começou a descer rumo ao Rio de Janeiro, acabou criando a lenda da mula-sem-cabeça.numa luminosa noite de lua cheia. Prosseguiu a pé, mas, como mancasse, ofereciam-lhe carona nas carruagens e quase sempre acabava em alguma fazenda, ou em vilas pequenas, jogando carteado e ganhando a vida. No começo do verão de 1792, ao final da travessia de uma alta cordilheira, seu olfato apurado de vampiro reconheceu a maresia, o cheiro salgado do Atlântico, que o acompanhava desde criança e que não sentia há um século e meio. Chegou ao Rio de Janeiro numa tarde de temporal, com as ruas alaga das e os raios queimando as altas palmeiras, no começo de abril. Hospedou-s~ num sobrado, de frente para o campo de São Do- mingos, e passou as semanas seguintes conhecendo a famosa cida- de, com suas montanhas de rochas onduladas entrando mar aden- tro, lagoas cheias de peixes e praias de águas cristalinas. Caravelas portuguesas haviam aportado ali no dia I? de janeiro de 1502, no que pensavam ser a foz de um grande rio, por isso o nome da cidade. 40 41
  • 21. Fora invadida constantemente pelos franceses, que chegaram a Uma pelo mar, outra pela terra, ambas exigindo de suas vítimasdominá-Ia de 1555 a 1560. a exclusividade nas transações comerciais, deixaram Portugal fITeral- Os portugueses brigaram com eles, pedindo sempre reforços a IÍlente imprensado.Salvador, até a expulsão definitiva e a fundação oficial da cidade, em Em meados de 1807, a França exigiu da Coroa portuguesa o fe- 1<:de março de 1565. chamento dos portos à Inglaterra e a expulsão e o confisco de bens Com o interesse da Coroa voltando-se para a mineração, o Rio dos ingleses.de Janeiro, como porto mais próximo, tornou-se ideal para a saída D. João, o regente na época, fingiu que concordava, mas tratoue o controle dos metais preciosos. Para ali transferiram a capital da de assinar uma convenção secreta em Londres, tomando uma dasColônia, em 1763, passando a ser administrada por um vice-rei. Ela decisões mais doidas da história das nações.logo cresceu e se transformou no que Antônio via agora: uma cida- Vendo as tropas francesas avançar sobre Portugal, para conquis-de com inúmeras ruas bem-calçadas, milhares de sobrados onde se tá-Io e se apropriar de suas colônias, e a marinha britâniça bloquearacomodavam mais de cinqüenta mil pessoas, sem falar dos forastei- o Tejo, pronta para invadir Lisboa, a Corte decidiu se mudar.ros e moradores das centenas de chácaras e fazendas em torno. O grande porto, sempre congestionado, ligava o Rio de Janeiroao mundo. Era ali que Antônio gostava de ir, jogar cartas e saber dasnovidades. Era lá também que se torturava, sentindo o cheiro do ba-calhau, do vinho, das azeitonas e tremoços nos barris de carvalhoque chegavam de Portugal para abastecer o comércio. Com trezentos anos de trópicos, ele agora já podia pegar sol,como qualquer mortal, e provavelmente foi o primeiro e único vam-piro a ir à praia e ficar bronzeado. Seus olhos, porém, sensíveis demais, precisavam de proteção. Para.isso comprou óculos com lentes sem grau, cobriu-as com fumaça devela e inventou os óculos escuros. Nos carteados noturnos, pelos arredores perigosos do porto, in-teirava-se dos dias agitados que Portugal vivia na virada do século. To~almente dependente, por dívidas e tratados comerciais, a Co-roa entregara à Inglaterra todo o ouro extraído aqui, transformando-a numa potência capitalista e financiando sua Revolução Industrial, "que agora precisava se expandir atrás de mercados consumidores. Antônio, que na temporada em Vila Rica aprendera a ler e escre-ver com um paciente padre em troca de muitos gramas de ouro, jánotara o made in England gravado em todos os lugares, dos postes àsprivadas. Do outro lado, a França, também uma potência capitalista, avan-çava com seu exército, Napoleão à frente, conquistando mercadopara seus produtos à força. 42 43
  • 22. 12. Quem é eterno Do sobrado no campo de São Domingos, Antônio assistia às transformações da cidade, lembrando de seus dias no Recife do sempre aparece , . I . Q,fíncipe Nassau. A p,opulação aumentava a cada dia, as construções subiam, os decretos baixavam. Revogaram-se as restrições à implantação de indústrias e à im- pressão de jornais e livros. Permitiu-se a abertura de ~stabelecimen- "" tos comerciais de qualquer tipo e a importação de máquinas moder- A princípio, parecia piada, < r nas. E, o mais surpreendente para Antônio, acabaram com a legisla- Mas em novembro de 1807 toda a nobreza, o clero, os altos fun- ção monopolista, abrindo os portos brasileiros às "nações amigas".cionários do Estado, os ricos e poderosos em geral saquearam Lis- Amigas da Inglaterra.~ ---boa, correram para os navios e caíram fora, levando objetos de va- Mas se não era isso que queria o tal Tiradentes, ora pois...lor, obras de arte, tesouros e metade de todo o dinheiro do país, dei- Ele já não perdia muito tempo tentando compreender os homens,xando o povo para trás. estava mais preocupado com o que vinha acontecendo bem perto Quando as tropas francesas chegaram à capital portuguesa atrás dele: justamente no porto, na calada da noite, em suas vielas escuras,do rei, ele já não morava mais lá, alguma coisa vinha rasgando gargantas de marinheiros, escravos, Viera para o BrasiL justamente para a cidade onde Antônio esta- bandidos e prostitutas e sugando todo o sangue de seus corpos.va, E foi assim que ele e milhares de brasileiros incrédulos viram, a Acontecia com tal freqüência, dois corpos por semana, às vezes8 de março de 1808, a enorme esquadra portuguesa, escoltada pela três na lua cheia, que Antônio não teve mais dúvida: com uma estacamarinha inglesa, desembarcar no porto do Rio de Janeiro. de carvalho nova e envernizada de um lado do cinto, um martelo de Em meio à multidão que festejava, com autoridades do governo madeira do outro, e toda a raiva acumulada em trezentos anos, co- I:e da Igreja chegando de todas as capitanias, Antônio também tinha meçou a vasculhar beco por beco, noite após noite. tmotivos para estar feliz. Acabou encontrando. Isto por aqui se transformar na sede do Império português ... ora, pois, Viu quando um negro bêbado, vestido apenas com uma bermuda lise não é importante! É certo que o Velho vai aparecer! de algodão, saiu de uma tasca e parou para urinar atrás de uma pi- Duraram dez dias as comemorações e o beija-mão do príncipe- lha de caixotes podres. Por pura intuição espreitou-o atrás de umaregente D: João. Em seguida cuidaram de instalar a nova administra- carruagem sem rodas, parada em frente a uma oficina. Ição, criando órgãos que antes só funcionavam na metrópole. Um vulto magro e alto pulou do telhado e pousou suave e silen- 1I Foram muito além do necessário. Para arranjar emprego e renda ciosamente, batendo seu manto escuro como asas, bem atrás do es-para os milhares de fidalgos, inventou-se todo tipo de repartições pú- cravo ... e, abraçando-o por trás, cravou-lhe os dentes no pescoço! jblicas. Como algumas delas precisavam aparentemente funcionar, Sabia, por experiê,ncia própria, que minutos depois que o sangue Iinstaurou-se uma burocracia infernal. da vítima entrasse nas veias do vampiro este se sentiria entorpecido, Obrigados também a fundar os estabelecimentos necessários, que, como as cobras depois de picar, e ficaria vulnerável. Esperou. Ipelo próprio pacto coloniaL haviam impedido de existir aqui, os I "A maldição chegará·á6 fim", pensou, antes de atacar.portugueses criaram uma fábrica de pólvora, um grande hospitaL o Jar- Avançou em silêncio. O vampiro estava de costas. Apontou a es-dim Botânico, um teatro, uma biblioteca pública, a Academia de Be- taca e martelou com força.làs-Artes e o Banco do Brasil. Ouviu um grito alucinante. Os longos braços soltaram o negro e Arranjaram dinheiro para tudo isso das duas maneiras usuais: tentaram em vão arrancar a estaca que atravessara seu coração, porpedindo à Inglaterra e aumentando os impostos. trás. Rodopiou e caiu de costas, sacudindo os braços e as pernas. 44 45
  • 23. Antônio se abaixou, pronto a aspirar o pó em que o maldito iria 13. Maneiras de suportarse transformar dali a pouco ... mas gritou: a vida eterna - Domingos! Só então percebeu que era seu amigo. Espantado, Domingos também reconheceu Antônio, e teve for- ças para gritar: - Arranca a estaca! E dá-me teu pulso! Antônio puxou o pedaço de carvalho cheio de sangue e estendeu o braço. Domingos mordeu, ávido, e sugou o sangue, de olhos fe- 1 chados, como uma criança faminta suga o seio da mãe. O buraco em seu peito parou de sangrar e o corpo esquentou. Ele abriu os olhos, largou o pulso e cuspiu: - Cruzes, que gosto horrível! : - É de gambá - esclareceu Antônio. - O que é gambá? - Uma espécie de ratazana, muito grande, com um rabo pelado. Chupei uma ontem. - Mas chega a feder! - Um pouco. - Com tanta gente por aí. - Não mato pessoas. - Nunca? - Se agir como um vampiro, acabo sendo um. , ~J: - Mas tu és um vampiro! - Estou tentando manter minha consciência humana. - Há trezentos anos? - Pois. • Antônio alugou uma pequena chácara nos arredores da cidade, comprou um belo caixão de madeira trabalhada, com forro de velu- do vermelho acolchoado, e acomodou o amigo, para que se recupe- rasse do ferimento. 46 47
  • 24. " - Só o sangue de um vampiro pode salvar o outro de uma esta- - Pois.ca no coração ~ explicou Domingos. - Porém, a fraqueza que o - É por termos interesses diferentes que desenvolvemos poderesgolpe produz dura alguns meses. particulares. Conheci bem o Velho. Não há vampiro mais poderoso. Mas a ferida em seu peito ameaçou abrir novamente por causa Mas existem uns truques para pegá-Io. Vou-te ensinar alguns.das gargalhadas que deu ouvindo as trapalhadas de Antônio no Outro problema dos vampiros é a memória. Quando se duraNovo Mundo. para sempre é difícil lembrar-se de tudo. Mas Antônio nunca se es- - Se soubesse que tu estavas tão empenhado assim em caçar o queceria dos meses passados com Domingos na Corte recém-insta-Velho, tinha te ensinado mais sobre vampiros. lada no Brasil. - Então ensina agora. A cidade do Rio de Janeiro fervilhava. Fora transformada do dia Domingos era muito culto, refinado e interessado em artes. Gos- para a noite em sede do Império, e as pessoas se sentiam importan- 0.tava de freqüentar as cortes européias, comprara um título de nobre- I, tes só em caminhar pelas ruas esburacadas. Imensos e luxuosos so-za recentemente e ganhava dinheiro no comércio de antigüidades, brados eram erguidos às pressas, para abrigar as famílias dos fazen-quadros e jóias. ,~ deiros e ricos comerciantes dos arredores, São Paulo e Minas Gerais. - Quando vi os nobres fugindo para cá, trazendo tudo que ha- O porto funcionava dia e noite. A baía vivia congestionada de na-via de valor em Lisboa, vim atrás deles. vios esperando para descarregar as manufaturas. Inglesas, natural- Antônio ficou feliz. Sua única companhia imortal havia sido mente, ainda mais após as "compensações" que a Coroa britânicauma mula. conseguira pelo apoio a Portugal: monopólio sobre as exportações Os vampiros, como todos os velhos, acabam solitários. Vêem os de gêneros tropicais, tarifas alfandegárias mais baixas que as dos pró-amigos mortais envelhecer e morrer. prios portugueses e a garantia de que qualquer falcatrua cometida - O verdadeiro vampiro é o tempo - repetia Domingos às ve- por um súdito britânico só poderia ser julgada pela Justiça britânica.zes, nas longas conversas noturnas na varanda da chácara. - É ele Importou-se de tudo. Ferragens, chapéus, comidas salgadas, cerâ-que suga a vida. Mesmo a nossa, Antônio, que parece eterna, mas mica, cerveja ... E coisas inúteis de toda espécie.que pode acabar. - Pior que ser colônia é ser-Jolônia de u!J1-a..-€01ôni<L.:::-_riu-se - Pode? _Q.Qmingos num_arn)3,zém,~C? ver o porttlguês J)sar patins- de gelo - Conheci muitos de nós que cravaram uma estaca no próprio ~par~.,.Çortarsalame.1. ~:iP JlY(J) <,l fm. ~epeito, ou que simplesmente saíram de dia e esperaram o sol cozi- - Os gajos têm os corpos cá, mas a cabeça está sempre além-marnhá-Ios, porque não conseguiram suportar o tédio da eternidade. O - completou Antônio.maior desafio de um vampiro é arranjar alguma coisa para fazer, que De fato, as classes altas, que antes imitavam Portugal, agora vol-dure para sempre. tavam-se para a Inglaterra e, um pouco menos, para a França. - Já senti isso. Abriram-se manufaturas têxteis, uma siderúrgica e metalúrgicas, - Eu acompanho as artes que os humanos praticam, e que tor- com maquinaria britânica.nam alguns deles mais imortais que nós. O Velho, por exemplo, segue E academias de desenho, pintura e escultura com artistas france-os movimentos políticos. Quer entrar para a posteridade. ses, a que Domingos se integrou, apresentando Antônio e o levan- - E eu? do a festas luxuosas e saraus concorridos. - Tu corres atrás dele. E isso deve até diverti-Io, senão já teria - Há coisa melhor para se fazer à noite? - dizia, enquanto en-acabado contigo. sinava Antônio como se vestir, como comer e o que dizer. 48 49
  • 25. - Mas podias beber menos sangue - disse-lhe Antônio uma noicte. - Três escravos e um marinheiro francês só esta semana é demais. 14. Dança de vampiro - Como assim? Que eu me lembre, foi só o tal marinheiro. - Dois apareceram no porto. as outros dois jogados na areia depraias distantes. Domingos o olhou espantado e disse: , - Não fui eu! Portugal, livre dos franceses já desde o final do ano da fuga, 1808, a Velho estava por ali. exercia cada vez mais pressão para a volta da Corte, única saída para restaurar um pouco a dignidade do Império. . Do lado de cá, os beneficiados com a presença de D. João VI, como os grandes proprietários rurais paulistas, fluminenses e minei- ros, que com o dedínio da extração mineral eram então os mais ri- cos e influentes, não queriam deixá-Io voltar. a regente ficou entre Portugal, cuja única saída para sua intermi- nável crise econômica seria intensificar a exploração da Colônia, e o Brasil, que não queria perder a liberdade comercial e tudo mais que conquistara sendo a sede da Coroa. Em 1816, com a morte de sua mãe, a rainha Maria 1, louca de pe- dra, ele se tornou afinal imperador e precisou tomar uma decisão. Primeiro, juntou Colônia e metrópole num só Reino Unido de Portugal e Algarve. Não convenceu. Lisboa queria a Corte lá. Decidiu mandar seu filho, D. Pedro I. Não deu certo. Mudou de idéia. Ele iria e o filho continuaria aqui, como príncipe regente. Antes que voltasse atrás, obrigaram-no a fazer isso e ele partiu em abril de 1821. Antes, anunciou uma grande festa no Paço de São Cristóvão. Domingos e Antônio deram um jeito de ser convidados. Tinham um plano infalível para pegar o Velho . • .~ a príncipe D. Pedro I, com 23 anos, gostava de uma farra, de be- ber e de jogar. Com essas qualidades, acabou conhecendo Antônio e Domingos, já famosos nas festas da Corte. Por isso foi fácil para a dupla de vampiros arranjar convites para o baile de despedida de D. João VI. Investigando os corpos que não paravam de ser descobertos nos becos sombrios do porto e nas ruelas encardidas da cidade, com a cer- teza de que se tratava do Velho, Antônio desesperou-se. Com a quan- 50 51
  • 26. , ftidade de personalidades importantes e poderosas espalhadas por sistisse de lutar pelo corpo e saísse. Então ele entrava no lugar dela etodos os cantos com a chegada da Corte, seria impossível escolher o corpo revivia, possuído. Ficava a cicatriz da mordida. Quando elesuspeitos, muito menos vigiá-los. Domingos resolveu ajudar, com saía, a alma antiga voltava, sem se lembrar de nada, como se tivesseum plano simples: sido um sonho. - Vamos esperar por uma festa. Saber o momento certo de parar de chupar o sangue, depois do - Tu só pensas em festas! risco de criar um novo vampiro e antes, de matar a vítima, era o se- - Uma das grandes, onde estejam todos os poderosos e onde tu gredo do Velho.possas descobrir em que corpo está o Velho, usando os truques que O terceiro indício eram as gotas de xixi nas calças. Como os vam-te ensinei. piros não urinam nem defecam, o Velho sempre se atrapalhava nes- Dois meses depois, como se de encomenda, a grande festa foi I:- sas horas.marcada. O quarto, que eliminava metade das possibilidades, é que ele nun- • ca ocupava corpos femininos . . o Paço de São Cristóvão, iluminado por milhares de velas em _ Havia centenas de pessoas. A Coroa queria se despedir em grandecandelabros suntuosos, abriú as portas na noite ainda abafada de fi- estilo, deixando uma imagem de superioridade absolutista, e convi-nal de verão para receber os convidados ilustres que desciam das . dara todos, aliados, oposição e até radiCais. Menos os pobres.carruagens, congestionando a longa aléial da entrada. Parado a um canto, como se tomando conta da pesada coroa im- Antônio vestia um traje de gala, como o de todos os homens, a perial que descansava num banquinho, o gordo D. João VI aturavanão ser pela estaca de carvalho presa às costas, por baixo da casaca. os puxa-sacos com o ar entediado e os olhos já opacos dos bêbados. Domingos, à vontade, cumprimentava os homens da Corte e cor- Seu filho, D. Pedro I, ao contrário, circulava e parava em cada gru-tejava as mulheres. . .po de mulheres, como mosca de confeitaria sobre pães-doces. - Eu não disse? - sussurrou no ouvido de Antônio. - Vieram Antônio percorria o salão, observando atentamente.cada um dostodos. Trouxe os equipamentos? convidados, atrás dos indícios. , - Espalhados pelos bolsos. Foi quando estava justamente de costas, admirando pela janela - Deixa a bebida correr um pouco, depois começa. Ele está aqui. as árvores do grande parque que circundava o Paço, que ouviu o ba-Posso sentir. rulho de um vaso quebrando. Antônio também. Voltou-se e viu José Bonifácio de Andrada e Silva, poderoso minis- Domingos explicara que o Velho era um vampiro grande, gordo tro do Reino e Estrangeiros, que acabara de esbarrar numa mesa dee espalhafatoso, por isso, quando invadia um corpo, geralmente se canto, tropeçar na ponta de um tapete ao tentar abaixar-se para re-sentia apeltado dentro dele. Isso provocava o primeiro indício: o cuperar a bengala.corpo ocupado era desajeitado, esbarrava nos objetos, derrubava co- O ministro levantou-se e ajeitou rápido a gola alta de seu fraque.pos, tropeçava. Antônio não tirava os olhos dele. Quando viu a marca de umidade Outro sinal seriam as duas marcas de dentes no pescoço, natural- na perna esquerda da calça, pensou: "Estabanado, escondendo omente muito bem disfarçadas. Segundo Domingos, o Velho sugava pescoço e mijado! É o maldito!".o sangue de sua vítima até a beira da morte, até que a alma dela de- Seguindo os ensinamentos de Domingos, agora começaria a fa- zer os testes. Para ter certeza. Tirou o primeiro equipamento do bol- I Fileira de árvores; alameda. so. Um pequeno espelho. 52 53
  • 27. . Alguns vampiros não têm reflexo. O Velho era um deles. Quan- , do ocupava um corpo, o reflexo acompanhava seus movimentos um 15. A beira do abismo pouco atrasado. -~ Com dificuldade, para não chamar atenção, Antônio observou o mi- nistro caminaar entre os convidados através do pequeno espelho, e achou que de fato o reflexo não estava acompanhando o corpo direito. Guardou o espelho e retirou a vela de um dos castiçais de mesa. Domingos, que seguira os soldados, levou o amigo esburacado Cruzou com ela na frente de José Bonifácio e, fingindo tropeçar, che- para a chácara. gou a chama bem perto de seus olhos. O homem recuou, assustado, Em poucos dias os ferimentos fecharam, sem deixar nem cicatriz. confirmando as suspeitas. Os vampiros têm olhos mais sensíveis do Mas precisaria de algumas semanas de repouso. que os mortais. Como os olhos estão ligados à alma, o Velho carre-. gava essa sensibilidade no novo corpo . te à- daTenho . de pegar o ministro - festa disse Antônio, na noite seguin- . Faltava o último teste, para a certeza absoluta, antes de cravar a - Não era ele. estaca de carvalho no coração do ministro. - Como? Antônio retirou do bolso o longo alfinete de prata. Seguiu sua ví- tima até um canto isolado e o espetou no braço! - Fiz os testes ... lá, mas não era o ministro - afirmou Domingos. - O Velho estava Se a alma daquele corpo fosse a de um vampiro, a dor seria ter- - Qualquer um pode derrubar um vaso, tropeçar e mijar nas calças. rível e a pele ficaria preta. - Mas a luz da vela ... José Bonifácio deu um berro! - Foi mais o susto. A festa parou. - O reflexo no espelho ... Antônio foi pego por um grupo de jovens oficiais do exército e retirado do salão. - Tu parecias um maluco seguindo o homem de costas. Os ofi- ciais já estavam de olho em ti. Do lado de fora do Paço o entregaram a um grupo de soldados, sob a acusação de atentado contra o ministro. Arrastado para o ma- - O grito quando o espetei com o alfinete de prata! tagal alto nos fundos do parque, recebeu vários tiros de mosquete à - Falei para não o fazeres com muita força. Quase atravessaste o braço do gajo. Não, Antônio. Com certeza não era ele. queima-roupa. - Como podes saber? - Eu vi o Velho. Antônio abriu muito os olhos: - Quem? - Voltei antes de o sol nascer, percorri os aposentos do Paço ... - Quem? Quem? - ... e encontrei D. João VI chupando o pescoço de uma criada, uma bela negra, por quem, na verdade, eu havia voltado. - D. João VI?! - Pois é. Por isso tu não o encontraste. Nunca vi o Velho tão à vontade num corpo. O imperador também é grande, gordo e es- palhafatoso. 54 55
  • 28. ~ Mas tu disseste que ele não ocupa os corpos das pessoas mais nais. Descobriu na leitura a melhor forma de se atualizar sobre oem evidência! mundo das pessoas, conhecer novas palavras e modas, sem ter de se _ Não. Eu disse que ele raramente faz isso. misturar a elas. Antônio tirou a estaca e o martelo do baú, furioso: Foi dessa maneira que acompanhou as reviravoltas políticas no _ Não importa. Vou lá acabar com o desgraçado. Rio de Janeiro. _ Não adia,nta. Já não está màis naquele corpo. D. Pedro I começou empenhado em reprimir as manifestações li- - O quê? berais, apoiado pela poderosa aristocracia agrária, apavorada com a _ Assisti à cena, amigo. A festa foi uma despedida mesmo. De- possibilidade de perder seus privilégios. Mas Lisboa, cada vez mais afogada em dívidas, aproveitou a vol-pois que ele bebeu todo o sangue da negra eu o segui até seu quar-.to, o vi deitar, e em seguida a sombra escura do Velho deixou seu ta da Corte para tentar uma política de recolonização do Brasil, rebai- xando a autoridade do príncipe e, claro, aumentando os impostos.corpo e saiu pela janela. _ Não compreendo - suspirou Antônio, desabando numa Com sua já longa experiência Antônio sabia que a única coisa ~ que unia os brasileiros era a luta contra o aumento de impostos. Foi cadeira. _ D. João VI vai voltar para Lisboa, levando a Corte. O Velho o que aconteceu . . Em agosto de 1822, quando Portugal ordenou que D. Pedro I vol-. quer ficar. Ele sabe que o futuro está aqui, no Brasil. .tasse, as elites locais resolveram romper com a metrópole. _ Bem, só me resta continuar a caçada. A 7 de setembro, o próprio príncipe declarava a Independência _ Mais uma coisa, Antônio. dóBrasil, fazendo o que queriam os homens que as mesmas forças - O quê? políticas vinham matando havia décadas. Isso não era nenhuma no- _ Eu vou com eles. vidade para Antônio. • Ele chegou a circular à noite pela cidade, admirando as comemo- rações. Viu as janelas enfeitadas e o povo alegre, do mesmo jeito que Domingos disse que não agüentaria ficar longe do brilho das cortes. estavam há trinta anos, depois do enforcamento de Tiradentes ... Os navios já aguardavam a nova mudança de D. João VI, mais É claro que houve resistência, principalmente por parte das tro- uma vez abarrotados de objetos de valor e dinheiro. pas portuguesas que ficaraín por aqui sem saber o que fazer, mas Antônio viu a esquadra partir, na noite estrelada de 24 de abril José Bonifácio tratou logo de estrutura r um exército nacional, com- de 1821. prando navios e contratando mercenários ingleses. Ficou novamente só. D. Pedro r, sentindo que enquanto fizesse o que os grupos mais po- Geralmente precisava se afastar das amizades mortais depois d~ derosos queriam permaneceria imperador, tratou de cumprir seu pa- uns dez anos, pois começavam a estranhar o fato de ele não enve- pel, o de representante do poder absolutista, e continuou reprimindó lhecer, mas daquela vez era pior. Todos ficaram sabendo da sua mor- os radicais que pregavam "democracia", "abolicionismo", "constitui- te. A versão da guarda nacional, de que ele era um liberal radical e ções" e tantas outras palavras novas que Antônio ia tentando decorar. de que tentara fugir para o mato depois do atentado contra o minis- Uma palavra, no entanto, vinha sendo cada vez mais falada: Re- tro, se espalhou pela cidade e saiu na primeira página de A Gazeta pública. do Rio de Janeiro. Pelo que o vampiro entendia, era uma forma de organização po- Resolveu isolar-se em sua chácara, na região de Mangaratiba~ e lítica em que o poder seria exercido por alguém eleito por todos, e noS vinte anos seguintes praticamente não saiu de lá. Alimentava-se não escolhido por Deus, e por tempo determinado. nas florestas dos arredores, ia à praia e à noite lia muito, livros e jor- Essa eu quero ver. 56 57
  • 29. " Portugal não se conformava com a perda da colônia. A Inglater- " ra servia de mediadora, manobrando as duas cortes segundo seus .....• interesses. Antônio, entre outras coisas, não entendia como é que dois paí- 1 ses se tornam independentes mas continuam a ser governados pela mesma família. Ora, pois, porque D. Pedra I continua sucessor de D. João VI, só que em reinos diferentes. . De fato. E com a morte deste, em 1826, a situação complicou-se. O Brasil estava falido. Devia aos ingleses até os fios dos cabelos, em empréstimos para indenizar Portugal e gastos com a instalação o do novo Estado independente. A solução Antônio já sabia: mais em- préstimos e aumento de impostos. Quanto à produção, as coisas iam mal. Açúcar, já faziam de be- terraba na Europa. Alimentos, uma ex-colônia britânica na América, que daria muito o que falar, os Estados Unidos, tornara-se a maior exportadora, em quantidade e preço sem concorrência. Agora que havia uma Casa da Moeda, existia uma terceira alter- nativa: fazer dinheiro. Fizeram demais. Isso desvalorizou ainda mais a moeda brasileira em comparação com as outras e os preços subi- ram. O Banco do Brasil quebrou. Todos os que viviam de salário, a maioria dos moradores das cidades, milhares só no Rio de Janeiro, desesperaram-se e começaram a defender posições radicais contra o governo. D. Pedro I caiu fora. Em 7 de abril de 1831 foi para Portugal, ser Pedro IV. Chegando lá descobriu que seu irmão tinha se apoderado do trono e os dois começaram uma fraterna guerra civil, mas isso é outra história. A alegria dos radicais, democratas, abolicionistas, republicanos etc. durou pouco, porque aqui ficou um Pedro lI, filho do primeiro. E essa foi mais uma vitória dos poderosos de sempre, os senho- res da terra, que agora podiam fazer um império particular, já que o soberano tinha apenas seis anos e não mandava nada. José Bonifá- cio de Andrada e Silva ficou com a tutela dele. O Brasil foi sendo governado por regências, governos provisó- rios, enquanto o soberano não chegava à maioridade. E a situação geral evoluiu da bagunça ao caos. A toda hora substituíam-se os re- BtBlIOTECA DA ESCOLA ÉSlJUJUA~ "JO~É G$l}RiH DE OLIVEIRA"
  • 30. gentes. Nem as classes dominantes se entendiam mais. Estouravam 16. Trocando de donorevoltas em todas as partes do país: províncias queriam se separar,governadores, voltar a ser colonizados por alguém, as populaçõesurbanas, imitar as da Europa. Até o povo começou a sonhar com al-gumas mudanças. Para tentar restaurar a autoridade de um poder centraL uma idéia Os cafezais há décadas vinham substituindo as matas ao redor"brilhante": anteciparam a maioridade do soberano e o declararam do Rio de Janeiro.imperador do Brasil com quinze anos. D. Pedro II foi um menino de sorte. Na época em que assumiu o Falidos e desgovernados, desta vez eles se· estrepam. trono, o café passou a ser bem cotado no exterior e recuperou a eco- Antônio não podia imaginar que a salvação da pátria estava ali à nomia do país.sua volta, brotando nos arredores de sua chácara. Lendo nos jornais para onde ia o grosso da nossa produção, os Estados Unidos, Antônio entendeu: Enquanto os ingleses nos deixavam dependentes "vendendo" seus pro- dutos, os americanos do norte nos tornarão dependentes "comprando" nos- sos produtos. Com quatrocentos anos de Brasil, estava ficando esperto. A sociedade mudava rápido. Os homens não paravam de inven- tar máquinas novas para aumentar a produção, o transporte e a co- municação. Estendiam-se cabos telefônicos submarinos. entre os paí- ses. O vapor substituía a água e o trabalho humano na impulsão dos motores. Após vinte anos de reclusão, Antônio não resistiu e voltou a an- dar pelo Rio de Janeiro, confiando que a maioria dos que presenciaram os acontecimentos daquela festa estavam mortos ou haviam voltado para Portugal. Ficou maravilhado com os bondes, puxados por mulas, e depois com os trens. Voltou a fre~üentar as rodas de carteado do porto e dos sobrados luxuosos dos fazendeiros para ganhar dinheiro e a viajar pe- las ferrovias que os ingleses não paravam de estender por todo lado. .. Mancava à vontade pelas ruas, agora iluminadas a gás, vendo as fábricas brotando por toda parte, produzindo o que antes era preci- so comprar no exterior. Os Estados Unidos ficando com o café, o Brasil pagava as dívidas com os ingieses, livrando-se deles, tendo mais autonomia, e ainda sobrava dinheiro para investir aqui. - Mas estamos a ficar nas mãos dos americanos lá de cima, pois se nos param de comprar... - resmungava Antônio nas rodas de jogo. - Não se preocupe ---:respondiam sempre. - Deus é brasileiro. 60 61
  • 31. -- Então é por isso que o mundo é essa confusão. O poder passav.a para as nações mais espertas. Ganhava-se menos com guerras do que com um bom tratado de paz. Era melhor em- _. Antônio aprendia novas palavras como evo onismo, ~i- tivism02", via a religião ser substituída pel ciência os mistérios, pela experiência, e a escuridão, pela luz elétrica. prestar do que tomar. Banqueiros e economistas conquistavam ter- A moda era ser racional e isso deixou Antônio mais tranqüilo pe- ritórios com mais eficiência do que reis e militares. A vantagem ago- las ruas porque ninguém mais acreditava em vampiros, mesmo que ra era ter consumidores, em vez de súditos. visse-ou até fosse mordido por um. Mas se vamos contar com a inteligência da elite do Brasil, estamos mal. Por outro lado, uma invenção dessa época, a fotografia, o deixou Com o dinheiro entrando, principalmente a partir de 1860, e os deprimido por anos. Ele não saía nas fotos de jeito nenhum. políticos bem ou mal se entendendo, o problema concentrou-se na São Paulo, que Antônio já conhecia viajando pel~ São Paulo Rail- espavidão. way Company, crescia, burguesa e moderna, querendo mudar as re- Os proprietários de terra não queriam nem falar em ãOOl«;:ão .gras da polítiüq a seu favor, com o poder de quem era responsável porque os cafezais se apoiavam justamente no trabalho escravo. Por por 1/6 da renda nacional. E o que interessava a esses novos senho- outro lado a Inglaterra, que libertara os negros em suas colônias, res de terra era descentralizar o poder, dando maior autonomia às não queria mais a escravidão em lugar nenhum porque ela baratea- províncias. Passaram a lutar pel~r~lis~ da mesma forma va o preço da produção e prejudicava a concorrência. como já faziam os radicais republicanos que eles mesmos comba- Os ingleses começaram então a discordar dos poderosos barões do tiam poucas décadas antes, quando ainda não tinham enriquecido. café, que antes apoiavam, e acabaram incentivando as idéias radicais. Certos dias, ao acabar de ler os jornais, os do governo e os da oposi- Os mortais não se entendem! ção, Antônio decidia esquecer o Velho e ser vampiro para sempre. Os , Em 1872, só no Rio de Janeiro moravam quase trezentas mil pes- mortais eram completamente malucos, e não queria mais ser um deles. soas. As cidades cresciam em todo o país. Esse povo urbano queria Mas aí se lembrava dos almoços que gentilmente recusava nas se- mudanças radicais.I Antônio costumava viajar de maria-fumaça ao longo do rio Pa- des das fazendas, dos franguin~~ de leite ass~dos na brasa, da mart.. dioca frita, das carnes mergulhadas no feijão-preto, da cachaça, dos raíba, por entre os contínuos cafezais, para vilas como Vassouras, Resen" bolos de batata-doce e dos quindins, do licor de jenipapo, e das mu- de e Barra Mansa. Jogava com os ricos fazendeiros em seus imensos camas e das filhas dos bari)es .... sobrados de frente para as praças, vendo o luxo e prevendo a deca- Palavras novas, todas republicanas, não paravam de ser impres- dência. Eles gostavam de ser chamados pelos títulos de nobreza que sas: "opiniãp pública", "ordem e progresso", "soberania popular", "su- haviam comprado, imaginando-se nobres de fato, sem reparar que em frágio universaI4". volta o mundo moderno avançava sobre eles. Certa noite leu sobre uma estranha moléstia que vinha atacando Em breve receberiam golpes fatais. A terra do vale do Paraíba, des- pessoas do povo. gastada, deixou de produzir. Os novos plantadores, agora na" Oeste Duas ou três vezes por semana os serviços sanitários e as casas paulista, aceitaram substituir o trabalho escravo pelo dos imigrantes beneficentes encontravam corpos sem uma gota de sangue. vindos da Europa. E, em 1888, a escravidão foi oficialmente aboli- . da no Brasil. . As coisas só mudam quando um grupo de poderosos substitui o outro. I Doutrina filosófica ou científica baseada na idéia da evolução biológica das espécies. 2 Doutrina que rejeita as vãs especulações e afirma que nada se pode conhecer E não eram só os novos plantadores de café em São Paulo que com exatidão, senão as verdades verificadas pela observação ou pela experiência. enriqueciam. Também, nas cidades, industriais e banqueiros faziam 3 Forma de governo em que vários estados se reúnem numa só nação, conser- fortuna e distanciavam-se cada vez mais dos ideais absolutistas, mo- vando cada qual uma autonomia relativa. 4 Direito de voto a todos os cidadãos. nárquicos e escravagistas. 62 63
  • 32. Os jornais da oposição haviam revelado os preparativos para aque- 17. Cumprimento perigoso la grande festa: dez mil litros de cerveja, trezentas caixas de vinho, champanhe à vontade. Fingindo-se de bêbado, circulou pelo salão, cumprimentando qualSluer um que usasse farda ou casaca, fosse monarquista, liberal ou republicano. Fazia questão de entrar nos grupos fechados, expan- Para o povo, o resultado prático da abolição da escravatura e do sivo, adivinhando a figura mais importante e cobrindo-a de elogios, incentivo à imigração foi a formação de imensos cortiços e favelas, sempre apertando a mão de todos, até do próprio imperador, dei- onde iam morar os escravos libertos abandonados à própria sorte e xando para tráscentenqs de poderosos com uma estocada indolor os estrangeiros fugidos dos trabalhos forçados nos cafezais. de prata na mao. Era lá que o velho voltara a atacar. Nos dias seguintes, leu ansioso os jornais e saiu pelas ruas atrás Com sua estaca por baixo da roupa, Antônio subia os morros à . de novidades. Só no dia 14 de novembro, no final da tarde, escutou noite, entre os barracos, ou percorria as vielas, entre os casarões de- uma senhora comentando sobre a doença do ministro da Fazenda e cadentes onde famílias inteiras dividiam o mesmo quarto. presidente do Conselho de Estado, o visconde de Ouro Preto. Uma Enquanto as elites brigavam por privilégios, a maior parte das ( infecção na mão direita, que parecia gangrena. pessoas passava fome, andava sobre esgoto e enterrava seus filhos Antônio correu até a chácara para pegar a estaca de carvalho e o ainda bebês. martelo. Chegou à casa do político mais importante do Império no Os pobres eram tantos, e se estendiam por tantos lugares, que sur- final da madrugada. Esgueirou-se pelo amplo jardim dos fundos, es- preender o Velho seria quase impossível. calou o pé de maracujá que subia pela treliça e procurou, pela janela, Quando os ideais republicanos chegaram às tropas, a situação do o quarto de dormir. imperador ficou difícil: os novOS plantadores paulistas de café que- Encontrou o homem roncando, com o braço direito enfaixado riam o federalismo; os antigos, do vale do Paraíba, achavam que ele sobre a cabeça. era um banana; os capitalistas ingleses, norte-americanos e brasilei- Suspendeu silenciosamente a janela guilhotina, passou uma per- ros preferiam tratar com republicanos moderados liberais; e os inte- na para dentro e... ouviu baterem na porta. Puxou a perna de volta lectuais e artistas urbanos já lutavam pela República há décadas. Sem e fechou a janela rápido! o apoio do exército, simplesmente não deu mais. Um empregado acordou o visconde, informando que o mare- A providência do governo foi marcar uma grande festa, para quaJ1 chal-de-exército Floriano Peixoto se juntara afinal aos republicanos, tro mil convidados, na ilha Fiscal, no meio da baía. J tirando o único apoio militar que restara aos monarquistas. E que o Antônio leu a notícia rindo: Campo de Santana fora ocupado pelos revoltosos! Deve ser o único país do mundo em que os regimes se despedem com Antônio, com a estaca de carvalho na mão, viu, sem poder fazer baTtes. nada, os empregados invadirem o quarto para vestir o ministro, que E resolveu tentar pela segunda vez o plano de Domingos: caça! o partiu logo. Velho numa festa. Seguiu-o até o Ministério da Guerra, junto ao Campo de Santa- Sempre achara a idéia boa, apesar do fracasso da primeira tenta- na, esperando sempre uma oportunidade para pegá-Io a sós. tiva. Dessa vez tinha um plano melhor, depois de sessenta e oito O prédio estava cercado. Uma tropa sublevada, vinda do quartel anos pensando no assunto. de São Cristóvão, começou a trocar tiros com outra, leal ao governo. Dessa vez não levava estaca de carvalho, martelo, espelho, nada ... Antônio passou por todos e entrou no ministério, invisível como apenas um anel de prata, com uma pequena ponta voltada para a uma flecha.)I palma da mão, fina como ~m·alfi.!.1ete. 65 64
  • 33. Já esperavam o visconde. Para comunicar que fora derrotado. Lá de fora se ouviam os gritos de "Viva a República" e alguns tiros. Nos primeiros raios da manhã do dia 15 de novembro um outroimportante marechal, Deodoro da Fonseca, assumindo o comando dastropas revoltosas, entrou de cavalo e tudo no pátio do ministério. O visconde de Ouro Preto desceu para falar corri ele. Antônio se-guia-o com movimentos rápidos, de um canto a outro, como um ca-mundongo. Ali mesmo o marechal dissolveu o ministério, proclamou a Re-pública e, o pior, prendeu o visconde. Aconteceu então algo que só Antônio reparou. A sombra que ocorpo de Ouro Preto projetava nas pedras do pátio do Ministério daGuerra alongou-se lentamente, procurando a escuridão de um cor-redor coberto. <toAntônio sabia que aquilo era o Velho escapando novamente. Elenão ia se deixar prender. Sem pensar, Antônio foi atrás dele. Um jo-vem oficial sacou uma garrucha de dois canos e atirou. Sentiu os buracos se abrindo nas costas, as balas saindo no pei-to, mas não parou de correr, atravessou o corredor, o pátio interno,já sabendo que era inútil, que o Velho escapara novamente. Puloucomo um lobo ferido o muro alto do quartel, subiu um morro e es-condeu-se na mata, cavando um buraco e enterrando-se no chãoúmido, como não fazia há séculos. 66
  • 34. 18. Um novo vampiro Na virada do século XIX a classe que ditava as regras no país era a dos cafeicultores do Oeste paulista. A República vinha para servi-los. A estrutura política mudara. Agora havia um presidente, com po- deres para intervir nos estados, que por sua vez eram chefiados tam- bém por presidentes, mais tarde chamados de governadores, e se- Três semanas depois da proclamação da República um velho ne- riam eleitos pelo povo. "Todos" votariam, com exceção dos analfa-gro tomaria o maior susto de sua vida. Entrara no mato para fazer betos, das mulheres, dos soldados e dos menores de idade. Quer di.:..um despacho de macumba quando a terra se abriu a sua frente e um er, 2% elegiam os representantes da nação ...homem, nu e muito branco, pulou, com vermes e minhocas gruda- Depois de um primeiro período conturbado, em que os milita-dos por todo o corpo, cumprimentou-o e saiu andando calmamente. res se sucederam na Presidência, o Partido Republicano Paulista pas- Era Antônio, já recuperado dos tiros, e com uma firme decisão: sou a ganhar todas as eleições e a escolher o presidente do Brasil.ficar rico. Até 1930 os governos civis enfrentaram também monarquistas, O último incidente havia sido a gota dágua. Precisava mudar místicos, separatistas e descontentes em geral, com a violência detudo. O Velho não gostava do poder? Pois ele seria um poderoso tam- sempre, que fazia os vampiros parecerem crianças inocentes.bém. E, com quatrocentos anos de experiência, agora sabia que o São Paulo, com o dinheiro do café, e Minas, com o leite e o maiorpoder está onde está o dinheiro. número de eleitores, se alternavam na Presidência por meio de elei- Nos primeiros dias enterrado chegou a desistir, a gostar da calma ções fraudulentas, assassinato de opositores e candidatos únicos.e do silêncio em que viviam os defuntos. Quis ficar ali para sempre. Esse regime desagradava a todos que não se aproveitavam dele, aDepois, porque afinal estava meio vivo, tornou a sentir-se inquieto, grande maioria dos brasileiros, que por essa época já somavam unscom raiva, e um idiota, sempre perdendo para o Velho, tomando ti- trinta milhões de almas. Mas, enquanto o café continuasse a render,ros e precisando se esconder. nada podia ser feito. Sou um vampiro! Tenho poderes! Antônio canalizou parte dessa fortuna de exportação para seu Então traçou os planos para o futuro e, quando os ferimentos ci- bolso, desafiando "coronéis" no carteado ali mesmo, nas vizinhan-catrizaram, pulou da cova para agir. ças de sua mansão da avenida Paulista. Sentiam-se invencíveis. Não Comprou roupas novas e saiu todas as noites para jogar cartas, viam sequer um palmo adiante do nariz.limpando as mesas da alta sociedade do Rio de Janeiro e das vilas Em 1905 tomaram O primeiro susto. Cqlheram quatro vezes maisno caminho da ferrovia, até a cidade de São Paulo. sacas do que o mercado internacional podia comprar. Se um produ- Tirava dinheiro de fazendeiros, altos funcionários públicos, do- to sobra, seu preço cai. Com o café ia acontecer isso, se os "barões"nos de jornais, grandes comerciantes ... Aceitava jóias, objetos de arte que o produziam não obrigassem o governo a comprá-Io pelo pre-e até casas como pagamento. ço de sempre e estocá-lo. O mesmo aconteceu nos anos seguintes. Jogou obsessivamente, até pOder comprar um casarão em São Pau- para isso foi preciso, como sempre, pedir emprestado aos bancoslo, .no ponto mais nobre da cidade, a avenida Paulista, e uma casa, estrangeiros e aumentar os impostos.confortável no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Vai começar outra revolução. Tomara a decisão de usar a intuição dos vampiros para guiar seus Para piorar, a Europa entrou em guerra. O conflito se expandiupassos. Sentia que, com a instauração da República, o poder iria para pelo mundo. O café não era uma prioridade e os Estados UnidosSão Paulo. Não se enganou. deixaram de comprá-Ia. 68 69
  • 35. tantes, fotografá-l os, submetê-Ios a testes como espetadelas com alfi- Surgiram também novas formas de radicalismo político, trazidas netes de prata e luzes intensas nos olhos, verificar se tinham facili-pelos imigrantes europeus, como o anarquismo e o comunismo. dade de enxergar no escuro, se assustavam os cães, gatos e pássaros, O que levara os cafeicultores paulistas ao poder, o aumento da . se possuíam reflexos rápidos demais e uma energia sobre-humana.produtividade e a mão-de-obra dos imigrantes, agora os destruía. Os escolhidós não saberiam uns dos outros, nem quem era ele Antônio continuou a enriquecer com o jogo. ou onde morava. Receberiam os nomes dos homens que teriam de Além do carteado, em que sempre ganhava, apostava em corridas investigar e mandariam os relatórios para a caixa postal indicada. de cavalo, brigas de galo e lutas de boxe. Teriam também de investigar mortes suspeitas, gargantas corta- Como Domingos explicara, ser vampiro é fortalecer o lado ani- das, furos no pescoço, cadáveres sem sangue ... mal, é desenvolver os instintos de caçador; por isso ele podia sentir Não poderiam falar sobre o trabalho com ninguém. A quebra de o cheiro do medo do galo perdedor, a maior energia vital do cavalo sigilo, Antônio deixou claro, cancelava o acordo e podia custar a vida vencedor e as disposições de ânimo dos lutadores quando subiam do infrator. ao ringue do Parque Antártica, em São Paulo. Raramente se enganava. Ele pagava bem. Nenhum deles recusou o emprego. . Usando apenas a intuição, quase sempre também ganhava em Com a equipe formada, o vampiro instalou um escritório na casa apostas no futebol, um esporte que crescia rápido como o século. do Catete, outro na avenida Paulista, e começou a caçada ao Velho. E foi essa mesma intuição sua maior fonte de renda com a inven- • ção da loteria. Uma em cinco vezes Antônio era capaz de adivinhar os números sorteados. A República foi um problema para Antônio. Com o federalismo, Com tudo isso, acabou ficando milionário e pôde então realizar não havia mais um só grupo no poder, como no absolutismo, mas a segunda parte de seu plano. vários, e espalhados por todo o país, principalmente nas capitais No verão de 1929, entre as notícias alarmantes da queda da Bol- dos estados mais ricos. sa de Nova York e seus vinte mil suicídios, os leitores dos jornaÍs O A única forma de acomp}nhar essa situação era através da im- Estado de S.Paulo e Correio da Manhã, no Rio, puderam ler, na seção prensa. de classificados, um discreto e misterioso anúncio: Pela manhã, um jornaleiro italiano deixava na porta do vampiro uma pilha com os principais jornais do Brasil, governistas e oposi- Contrato jovens, sem laços familiares e cionistas, e ele começava a trabalhar. Um de seus poderes, o da rapi- com disponibilidade para viajar. Bom dez de movimento, incluía também a leitura e ele passava as pági- salário. Exijo sigilo total. Mandar foto e nas velozmente, se inteirando dos movimentos políticos e econômi- endereço para a caixa postal número ... , cos por todo o país. Detinha-se apenas nas fotos, tentando intuiti- vamente captar no olhar de um figurão a alma escondida do Velho. As cidades cresciam. Seiscentas mil pessoas em São Paulo, mais Dessas leituras selecionava suspeitos, enviava os nomes a seus in- de um milhão no Rio. As pequenas indústrias, principalmente de tece- vestigadores e esperava os relatórios. lagem, absmviam alguma mão-de-obra, mas o desemprego era geral. Nos jornais também conferia os números da loteria, as noites de Bastaram os dois anúncios para Antônio reunir centenas de cartas. boxe e os páreos no jóquei. Analisando as fotos, escolheu intuitivamente dez pessoas em O Rio passara a ser Distrito Federal, capital do Brasil, e o governo cada cidade para formar a sua confraria secreta. Encontrou-se sepa- central instalara-se no Palácio do Catete, a poucas quadras da casa radamente com cada uma, em lugares públicos, e ofereceu altos sa- de Antônio. lários em troca de um serviço muito estranho: seguir homens impor- 71 70
  • 36. --- 19. No Brasil, o provisório Em 1930, apressada pela sucessão presidencial, a crise estourou. dura muito Minas Gerais, revoltada, se uniu aos coronéis nordestinos, repre- sentados pela Paraíba, e ao Rio Grande do Sul, formando um bloco político poderoso, a Aliança Liberal, para concorrer à Presidência da República. O candidato escolhido foi o governador do Rio Grandé do Sul, Getúlio Vargas. Depois do açúcar, do café e do leite, Antônio se perguntava o que Perderam. Mas o candidato do governo, o paulista Júlio Prestes, sustentaria o Brasil a seguir. não tomaria posse. Talvez a produção de xícaras. Ou de colherzinhas. • O novo governo, revolucionário e provisório, ficou no poder quinze anos. Antônio teve certeza no instante em que viu a foto de meia pági- Antônio não parou de dar trabalho a sua equipe de investigado- na do vice de Getúlio Vargas, João Pessoa. Lá estavam, reveladas por res, periodicamente renovada e aumentada segundo as necessidades. um colarinho aberto, as duas marcas de dentes no pescoço! O Brasil ia mudando. Antônio fez as malas. Entre as roupas, a estaca de carvalho e o martelo de madeira. Era o dia 26 de setembro de 1930. João Pessoa Os produtores de café agonizavam lentamente, e em seu lugar surgiam os industriais. _ estava em Recife, fazendo comícios contra o resultado das eleições., Seguiu-o pelas ruas, esperando uma oportunidade para acabar MutrâS)alavras nevas ·apareei-am-e se firmav~~", com ele. Mas fizeram isso antes. Naquele mesmo dia o governador "fascismqy~ "trabalhismo~tecn~) ~-------- "-A-fót6"grafiaadquiria movÍrrreTIto e virava cinema, A voz humana da Paraíba foi assassinado, bem diante de Antônio! Viu as balas entrando no corpo do homem, sua expressão de sur- chegava pelos ares através das rádios, pelos fios, com o telefone, e presa e raiva. O Velho estava lá dentro. E era obrigado a sair, porque podia ser gravada em grandes bolachas e ouvida em gramofones. o corpo que vestia teria de morrer. Os aviões cortavam os céus. Antônio adorava viajar neles. Fazia A sombra escura deixou o cadáver e rodopiou até as árvores cen- longas excursões pelo Brasil, ia a lugares distantes, como a Amazô- tenárias de uma praça. f nia, às fronteiras, conheceu todas as capitais. Aquele assassinato seria o estopim. A revolução estourou. Tropas Com prazer de imortal, gostava de admirar a evolução dÇ)sobje- gaúchas avançaram para o Rio, tropas mineiras para São Paulo e no tos. As penas virando canetas-tinteiro, depois máquinas de escrever; Nordeste os revoltosos tomaram as principais capitais. as garruchas, revólveres, metralhadoras; os tílburis, carros; as velas, Washington Luís foi deposto em outubro e Getúlio Vargas che- lâmpadas; as casas, sobrados ... os sobrfdos, prédios ... os prédios, ar- o,) gou à Presidência do Brasil. ranha-céus ... Antônio, desanimado com mais uma tentativa frustrada, desco- Mas, dos tempos modernos, duas invenções o deixaram feliz de briu-se novamente em Recife, depois de três séculos, e resolveu ma- fato. tar as saudades, como faziam os mortais. 1 Movimento político brasileiro de extrema-direita nos moldes fascistas, fundado} em 1932 e extinto em 1937. 2 Sistema político nacionalista, imperialista, antiliberal e antidemocrático im- plantado na Itália por Benito Mussolini (1883-1945) depois da Primeira Guerra Mundial. 3 Conjunto de teorias econômicas e sociais acerca da situação do operariado. 73 72
  • 37. Primeiro foram os cassinos. Um paraíso. Jogos de todo tipo e mu- A única novidade, péssima para Antônio, foi o fechamento dos lheres bonitas. Descobriu que com sua rapidez de vampiro podia co- cassinos. Foi obrigado a jogar em roletas clandestinas ou em outros locar a bolinha da roleta sobre o número que quisesse sem ninguém países. ver. Freqüentava o cassino da Urca, no Rio, o Quitandinha, em Petró- Por outro lado, descobriu que o jogo do bicho agora pagava al- polis, e, de avião, os das outras capitais, aumentando a sua fortuna. tos prêmios e ganhou um bom dinheiro adivinhando em sonhos o A segunda melhor invenção foi a geladeira. Agora podia comprar animal sorteado no dia seguinte. sangue de galinha ou de boi nos açougues e feiras e guardar em casa. Cinco anos depois, ao final do mandato presidencial, novas elei- Dois ou três copos por dia, bem gelados, asseguravam sua existên- ções e Getúlio, ele mesmo, retomou ao poder. cia, e eram quase um prazer. Pelo menos economizo nas investigaçõesl já que os personagens são os r O presidente Getúlio Vargas fez o que quis. Fechou o Congresso, mesmos. abriu, promulgou uma nova Constituição, suspendeu os direitos cons- • titucionais, instituiu eleições diretas e o direito de voto às mulheres,"- regulamentou relações trabalhistas entre patrões e empregados, deu Getúlio Vargas voltou pelo voto popular e apoiou-se nisso para direito a férias, seguros de saúde e salário mínimo, criou departa- se sustentar no poder. As palavras agora eram: "populismo"", "na- mentos de censura, cassou mandatos, interveio nos jornais, deu um cionalismo, "imperialismo"". golpe de Estado, mandou prender, colocou fascistas atrás de comu- Após quatrocentos anos de escravidão e cinqüenta de trabalho nistas e deixou torturar e matar. industrial mal pago, vivendo sem amparo, sem aposentadoria, sem Como resultado disso tudo, formou-se uma legião de desconten- direitos, o povo recebia com veneração cada migalha que caía da tes, que lutavam por liberdade para os presos políticos, convocação de mesa dos ricos. eleições para presidente da República e formação de novos partidos. Getúlio virou o "Pai dos Pobres", "Apóstolo Nacional", "Guia da Antônio, àquela altura com mais de cem investigadores mandan- Juventude Brasileira", "Bom Velhinho". do relatórios de todas as partes do país, não chegava a nada. Nem si- Aos descontentes juntaram-se então seus antigos aliados, os fas- nal do Velho. cistas, acusando-o de tendências esquerdistas, e trataram de depô-Io, Mandou seguir líderes fascistas, como Plínio Salgado, comunis- numa campanha sem tréguas na imprensa. tas, como Cados Marighela, e articuladores políticos, como Lourival Um personagem novo se destacou nessa fase: Cados Lacerda _ Fontes, que aparecia sempre desgrenhado nas fotos. Checou chefes o diretor de um jornal oposicionista carioca. de Estado, militares, donos de jornais, deputados e senadores. Nada. Era conhecido como "O Corvo", e Antônio encontrou alguma coisa Notícias sobre cadáveres com gargantas cortadas e sem sangue che- estranha em seu olhar. Mandou segui-Io. No relatório, além de fotofo- gavam às vezes, mas dispersos pelas periferias das grandes cidades. bia e reações negativas em animais próximos, uma suspeita séria: num A cúpula do exército afinal, apoiada por boa parte da elite, de in- atentado, Cados Lacerda esquivara-se, num reflexo rápido demais. telectuais e até dos banqueiros americanos, cercou o Palácio do Ca- A bala que era para ele acabou matando um major da aeronáutica tete e destituiu o presidente em 29 de outubro de 1945. e provocou revolta nas tropas. Em 23 de agosto de 1954, um grupo Depois de tantas lutas, a oposição tinha finalmente sua oportu- de militares lançou um manifesto exigindo a renúncia do presidente. nidade de chegar ao poder. Antônio se preparou para colocar seus investigadores atrás dos novos nomes ... Mas quem chegou à Presi- 4 Prática política que prega a defesa dos interesses das classes sociais de menor dência foi um velho aliado de Getúlio, seu ministro da Guerra por poder aquisitivo para conquistar o apoio popular. dez anos, marechal Eurico Gàspar Outra. 5 Doutrina baseada no sentimento patriótico e que subordina toda a política in- terna de um país ao desenvolvimento do poderio nacional. Nem sinal do Velho. 6 Política de expansão e domínio territorial e/ou econômico de uma nação sobre outras. /" 74 75
  • 38. A cidade estava em pé de guerra. Carlos Lac~rda vociferava nas 20. Sem ter onde morder páginas dos jornais. Antônio tentava há dias espetá-Io pessoalmente com um alfinete de prata, como teste final antes de cravar uma esta- ca em seu coração e acabar com aquela história, mas o jornalista era mantido sob a proteção de homens do exército dia e noite. Na noi~e de 24 de agosto, vítima de uma estranha ansiedade, saiu Antônio não acreditou na versão de suicídio. de casa caminhando e embrenhou-se pelo escuro parque entre o Pa- O Velho poderia até atirar contra o próprio corpo, para se livrar dele, lácio do Catete e a avenida Beira-Mar. mas nunca no coração ... Uma bala no corqção pode matar um vampiro, e-» Toda a nação esperava a reação de Getúlio Vargas ao manifesto. foi por isso que a alma dele teve tanta dificuldade de sair do corpo de Ge- . Antônio escalou uma palmeira cuja copa ficava no nível da única túlio. Alguém atirou. Só pode ser... " janela iluminada, no terceiro andar do palácio. Após meses remoendo os fatos, concluiu apenas que o desgraça- Nem bem acomodou-se entre as folhas ouviu um tiro. do do Velho não obedécia a nenhuma regra. Não podia se basear em Em seguida as duas bandas da janela se abriram e ele viu uma som- oisa alguma para encontrá-lo. E as cidades cresciam demais. Impos- bra se contorcendo, querendo sair, mas presa a alguma coisa dentro sfvel encontrar alguém numa multidão daquelas. do quarto. Passou anos desesperançado, mas não deixou de dar trabalho a Depois de tantos séculos, Antônio não tinha mais dúvidas quando seus investigadores. Fornecia a eles os nomes mais falados, como o via aquilo. Era a alma do Velho abandonando um corpo. Mas, pela do presidente seguinte, o mineiro Juscelino Kubitschek, ex-governa- dor de Minas Gerais, e seu vice, o gaúcho João Goulart, ministro do primeira vez, o maldito estava com problemas. Viu claramente uma forma humana, alongada, agarrada ao para- Trabalho do segundo governo de Getúlio, já investigado antes. Mudou-se para um apartamento de cobertura, de frente para a peito da janela, desesperada para sair... até soltar-se numa ponta, como um elástico, e cruzar o parque em direção ao mar. praia de Copacabana, e trocou seu casarão na avenida Paulista por As luzes se acenderam e Antônio soube então o que toda a nação metade de um prédio comercial luxuoso na mesma avenida, onde instalou um escritório supermoderno. saberia em seguida. Getúlio Vargas se matara com um tiro no peito .* Contratava testas-de-ferro para efetuar todas essas negociações, .: . Ele mancou até sua casa, em sentido contrário ao da multidão q~-- advogados que faziam qualquer coisa por dinheiro, e continuava ga- atorria ao palácio, deitou em sua rede preta e passou dias olha~do nhando muito nos cassinos do exterior, como os de Las Vegas, onde ~ara o teto. . ia mensalmente arrasar a banca. Era Getúlio! O "bom velhinho" era o Velho! O tempo todo! E eu sou Agora ficava a maior parte da semana no escritór~paulista, indo /um~b~W! ! em seu bimotor particular passar o sábado e o domingo no Rio. Cercou-se dos aparelhos mais avançados, sempre admirando a evolução dos objetos. A eletricidaçie--penetrava ~ tudó. Surgiam li- quidificadores, batedeiras, vitrolas, gra~adores ... A voz humana ago- ra chegava junto da imagem, através da televisão, e isso facilitou seu trabalho de análise, procurando nos corpos em movimento os indí- cios da presença do Velho. 1 Pessoas que- se apresentam como responsáveis por ato.(s) ou empreendimen- to( s) de outrem, que não quer ou não pode aparecer. 77 76
  • 39. 21. A imortalidade plastificada A moda então eram os carros, Antônio tinha um no Rio e outroem São Paulo, e os eletrodomésticos. Milhares de produtos precisa-vam ser fabricados em função deles: aço, ferro, asfalto, borracha, plás-ticos ... b que gerava empregos nas cidades do Sudeste e atraía levas " Ve levas de pobres de todo o Brasil. As mortes por total anemia continuavam, poucas, mas semanais, Juscelino se propôs a modernizar o Brasil e a construir uma nova nas cidades-satélites, nas vilas vizinhas e até em tribos indígenas quecapital, bem longe. Chamou-se Brasília. ainda tentavam sobreviver para os lados da Amazônia, conforme os A princípio Antônio achou incômodo, mas rendeu-se aos fatos e relatórios.abriu um escritório na nova cidade. Antônio concentrou suas atenções em Brasília. Chegou a ter du- Nas eleições seguintes, em 1960, ganhou o ex-governador de São zento~g~submetendo a test~~. Paulo, Jânio Quadros. -Quanto aos próprios presidentes militares, que se sucederam por Antônio mantinha trinta agentes no Distrito Federal, investigan- vinte anos rio poder, nenhum lhe pareceu abrigar a alma do Velho. do suspeitos. O Velho estava lá. Podia sentir. Como cães de guarda, eram ferozes e pareciam desajeitados, mas por Pouco depois, em agosto de 1961, Jânio surpreendia o país apre- ervilismo e Qouca inteligênci~ - - - - - - -- sentando sua renúncia, dizendo que "forças ocultas" o estavam obri- ,Quem mandava no Brasil agora eram as empresas estrangeiras,gando àquilo. conhecidas como multinacionais, e seus parceiros locais, políticos, Forças ocultas! Só pode ser o Velho! intelectuais, tecnocratas e sócios industriais. As suspeitas caíram sobre o vice, que assumiria a Presidência, As palavras que Antônio aprendia agora, para se manter atualiza- ninguém menos que João Goulart. do, eram em inglês. É, ele de novo... As Forças Armadas serviam para manter a ordem necessária, fe- Colocou três homens vigiando-o, dia e noite. João Goulart, des- hando o Congresso, suspendendo garantias constitucionais, cas- de quando ministro do Trabalho de Getúlio, criara inimigos pode- sandodireitos, censurando, torturando e matando. rosos, se responsabilizando pelos atos populistas em favor dos traba- A$ suspeitas do vampiro recaíam nos figurões dos bastidores, um lhadores, como aumentos de até cem por cento no salário mínimo. chefe de gabinete civil, um articulado r político, um intelectual pago l).l1ando de vice em vice, ele agora chegava à Presidência, em dólar para produzir editoriais nos jornais, donos de revistas; , Não viram o novo presidente fazer nada suspeito. Mas os Estados Unidos, vendo nele tendências socialistas e nacionalistas perigosas, convenceram os militares a darem um golpe. l grandes empresários e banqueiros, o embaixador norte-americano. .. Mas lia e relia os relatórios que não paravam de chegar ... e nada. No dia 31 de março de 1964 os militares, sempre achando que • haviam instaurado a República e aproveitado muito pouco dela, volta- Antônio continuava admirado com a evolução dos objetos. A te- ram ao poder e iniciaram um período obscuro e sangrento, de cau- levisão agora era em cores, e o que ela transmitia ia substituindo a sar enjôo até num vampiro. realidade. Mensagens eram jogadas para o alto, quicavam em satéli- Para Antônio, apenas uma vantagem. O corpo do presidente im- tes artificiais e voltavam para cair no ponto do planeta que se quises- posto pelo golpe, o marechal Castelo Branco, nunca poderia abrigar se. As balas acertavam os alvos sozinhas, os trens andavam por de- a alma do Velho simplesmente porque não tinha pescoço. baixo da terra e os humanos ricos viviam cada vez mais, substituindo órgãos com defeito por similares de plástico. 79 78
  • 40. , Partiam-se os átomos, revelavam-se os vírus, pisava-se na Lua e, de lá assistil,VilllPressi9..nado a-quase-um-milhão de pessoas que, in-o que mais impressionava Antônio, os humanos iam aos poucos re-produzindo certas capacidades mentais artificialmente, em apare-lhos chamados computadores. centivadasCpoJdiscurso.Lcl~Qolíticos, gritavam {Diretasjf,~ Da janela, tomando sangue de galinha gclado:teve certeza de que j O vampiro foi um dos primeiros a ter um em casa, e aumentousua fortuna usando a capacidade de armazenar dados da máquina , dali para a frente, com aquela impressionante demonstração de união do povo, o Brasil nunca mais seria o mesmo. Estava enganado. "para jogar em todas as loterias, estaduais e federais, em todas as ban-cas de bicho, em bingos de igreja, no mercado de ações e em todas Ias promoções do comércio anunciadas nas rádios e nas televisões, ,Iganhando casas, centenas de eletrodomésticos, carros, motos e via-gens com acompanhante. :"/ I Antônio comprou uma lambreta, depois a trocou por uma motojaponesa. Circulava pela noite de Copacabana, pedindo bloody marynos bares e substituindo por sangue gelado, tão rápido que nin-guém percebia. I A pílula anticoncepcional liberava o sexo. As roupas diminuíamde tamanho. As drogas rolavam, apeSqr de todos serem contra. Mas o Brasil sempre viveu delas: açúcar, tabaco, café ... Foi na década de 70 que Antônio não resistiu e, pela primeira e úl·tima vez, mordeu o pescoço de uma mulher, uma hippie, durante umpôr-do-sol na praia de Ipanema. Passou uma semana doidão, contando a todos que era um vampiro. ,I Não parou de analisar relatórios e jogar, tudo através do compu-tador, que a cada dia diminuía em tamanho e aumentava em velo- :1cidade. Apesar de toda a tecnologia, nada do Velho . f • Os tempos iam mudando, as ditaduras deixavam de ser necessá-rias e caíam de podre. Conseguia-se muito mais controle das pes-soas manipulando o dinheiro e a informação do que censurando,torturando e matando. Pressionados, os militares concordaram em promover uma aber-tura, mas "lenta e gradual". Foram atropelados por manifestaçõespopulares de massa, como nunca ocorrera no país, com milhões depessoas ocupando as ruas e exigindo eleições diretas. No dia 10 de abril de 1984 AntôniO alugou uma suíte de hotel,de frente para a rua Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, e 80 81
  • 41. De fato, Tancredo nem chegou a assumir a Presidência. Morreu de infecção generalizada no dia 21 de abril de 1985. E seu lugar foi 22. Bigode suspeito ocupado pelo vice, sobre o qual caíram as suspeitas de Antônio! Ele gosta de ser chamado de imortal! E o bigode que usa ... só pode ser al- ~um tipo de disfarce! Querendo acreditar que afinal estava na pista certa, depois de tan- las décadas, mandou investigá-l o, submetendo-o durante meses a Na manhã do dia 14 de março de 1985, Antônio recolheu a cor- lodos os testes, repetidas vezes. Teve de concluir que, mais uma vez,respondência em sua caixa postal de uma agência em Copacabana, não chegara a nada.como fazia quase diariamente depois da praia. Abriu os envelopes Mas as mortes não paravam de acontecer e agora, com o compu~em seu escritório refrigerado ouvindo um disco de chorinho e leu, tador ligado a outras fontes de dados em todo o país, como o~ arqui-logo no primeiro relatório: um de seus investigadores conseguira es- vos da polícia e dos hospitais, descobria com regularidade corpospetar um alfinete de prata na barriga de um político e o homem ago- encontrados com a garganta rasgada, e sem uma gota de sangue, nasra se encontrava à beira da morte, com uma infecção intestinal. favelas de todas as capitais. Mas é o Tancredo! O presidente! / As distâncias encurtavam. O Velho podia sair de Brasília para chu- Tancredo Neves, um-mineiro há cinqüenta anos na política, fora par o pescoço de um pobre gaúcho e estar de volta em três horas. E,eleito em janeiro. O primeiro civil depois de vinte anos. Não por se fosse político, nem pagava a passagem.eleições diretas. Articulações entre as elites haviam derrubado essa A caçada ficava a cada dia mais difícil.possibilidade no Congresso, traindo o desejo dos milhões de brasi- Até que, pesquisando em jornais velhos, leu uma declaração doleiros que Antônio vira nas ruas. Em eleições indiretas, votado por um Colégio Eleitoral compos- último presidente militar, nos corredores do Congresso, em uma vi- sita, anos depois de deixar o poder:to pelos próprios congressistas, Tancredo saiu presidente, tendocomo vice justamente um dos líderes do movimento contra as elei- - Ué? Estão todos aqui? Só quem saiu fui eu.ções diretas. Mandara investigá-l o sem muita esperança. Era um homem tão pe-queno que parecia impossível para a alma do Velho caber dentro dele. Voou para o escritório na capital federal. Os noticiários eramalarmantes. O presidente nem tomou posse, marcada para o dia se-guinte, 15 de março. Na noite de 21 de março de 1985, Antônio penetrou sem ser no-tado no Hospital de Base de Brasília, vestiu roupas de enfermeiroroubadas na lavanderia e entrou no quarto do paciente com a des-culpa de trocar o soro. O homem estava péssimo, inconsciente, custando a manter-se vivodepois de duas cirurgias no intestino e das altas doses de antibióticos. Olhou bem para ele e teve certeza: - Esse não dura mujto. Se o Velho estava dentro dele, já foi. Voltou ao escritório com a sensação de que havia alguma coisaerrada por ali e resolveu ficar em Brasília, para acompanhar os acon-tecimentos de perto. 83 82
  • 42. krionou os nomes que apareceram nesse período, segundo a quan- 23. Final de milênio tidade de vezes e a constância. Depois arquivou todas as fotos de solenidades do governo .desde 1<)50 e passou semanas analisando cada uma delas. E então um personagem se destacou. Lá estava ele, em todas, sempre um pouco atrás, alto e magro. Si- A pista que Antônio precisava estava naquela frase. Num país Ilistro.Participara de todos os governos. Tinha o corpo ideal para es-onde o poder se reforma, transforma, renova, mas nunca muda, tro- conder a alma de um vampiro.cam-se apenas os reis ou presidentes, o resto fica. Sempre muito discreto, de preto, os assessores comentavam seus es- Em suas duas últimas aparições, como Getúlio Vargas e seu vice, tranhos hábitos. Chegava antes de todos ao gabinete, saía por último.João Pessoa, o Velho havia sido baleado e quase morto. Na certa, de- Esse eu vou investigar pessoalmente.pois disso, escolhera alguém mais discreto. Um político profissional, •do tipo que não quer ficar em evidência, mas que passa a vida todajunto ao poder. o mundo agora baseava seu sustento na substituição de um ob- Nem um empresário, que possa falir, nem um articulador político, jeto pelo outro, em prazos cada vez menores. a quem podem tirar o apoio, nem um condutor de massas que venha As palavras da moda eram "descartável", "virtual" e "obsoleto". a se tornar indesejável. Não, ninguém importante demais que precise A vida para os vampiros não estava fácil. O sangue das pessoas ser eliminado quando a situação vira. podia vir com aids, hepatite e drogas pesadas. O dos animais era Antônio trancou-se em sua cobertura e começou a trabalhar. uma porcaria também, contaminado por hormônios e agrotóxicos. Quatro civis já haviam passado pela Presidência, combatendo e Os fios estavam desaparecendo. Dos telefones, dos microfones, criando uma inflação galopante, e deixando algumas palavras em dos aparelhos de televisão, dos rádios, das antenas. O próprio cor- evidência, como "pacote econômico, "choque heterodox02", "mo- dão umbilical ia virando coisa do passado. ratória}", Jiajuste fisca14", "arrocho salariaP" e "lavagem de dinheiro!>". Faziam-se pessoas em ampolas de vidro e, num futuro próximo, Instauraram uma ditadura econômica menos violenta, mas tão cada um poderia tirar uma cópia de si mesmo a partir de uma célu- perversa e ineficaz quanto a outra, dando a Antônio a certeza de que la, transplantar a memória para o done e viver para sempre. Os vam- o ser humano é perfeitamente capaz de fazer o contrário do que fala. piros teriam companhia. Usando o computador, que agora cabia dentro de uma pequena Mas na certa só os ricos vão ser imortais. pasta e se conectava a milhões de outros, no mundo inteiro, acessou • o banco de dados dos jornais mais importantes e arquivou na me- mória milhares de páginas com reportagens sobre política, cobrindo Antônio chegou a Brasília num final de tarde seco, em janeiro de os últimos cinqüenta anos no Brasil. Em seguida, um programa se- 1999. O presidente reeleito tomara posse há poucas semanas e o Congresso fervilhava, excitado pela perspectiva da criação de um novo I Série de decretos, relativos à economia,expedidos de uma só vez. imposto: a cobrança de coptribuição para a aposentadoria dos pró- 2 Em economia, medida que causa impacto por contrariar padrões e normas esta- 3 belecidos. Suspensão dos pagamentos devidos a credores internacionais. Mancou pela I prios aposentados.Esplana<la dos Ministérios, esperando a noite cair. 4 Tentativa do governo federal de gastar menos do que arrecada. Nos amplos espaços da capital era fácil controlar o movim~nto das S Redução dos salários. pessoas. 6 Transformação de recursos de origem ilícita em rendimentos legais. 85 84
  • 43. o homem que procurava saiu do prédio tarde da noite e caminhou 24. Uma visita importanteaté o estacionamento deserto. Dois seguranças vinham na frente.Antônio os reconheceu. Haviam sido seus investigadores, décadasatrás, e tinham sumido misteriosamente. Só que eles continuavam jovens! E o reconheceram também. Como lhe dissera um marujo quinhentos anos antes, depois de . Entendeu tudo em segundos. Partiu como um raio e atravessou li ma violenta tempestade que quase virou a caravela onde estavam,com uma faca de prata o pescoço de um deles. que salva alguns homens é não saber desistirll• 11() O homem gritou e caiu se debatendo, com o rosto já se tornan- Teve de forçar os dedos para que largassem a faca. Guardou a mão no bolso, voltou ao escritório e a fixou ao braço com ataduras. A caF do negro. Antônio achou que teria tempo de pegar o outro de surpre- sa também, mas sua mão foi segura no ar, seu pulso foi esmigalhado ne, as veias e o osso se uniram imediatamente. Em poucas semanas e a mão decepada rolou, ainda segurando a faca. recuperaria todos os movimentos. Permaneceu em Brasília. Caiu de joelhos e olhou para o homem magro e alto, atrás do se- gurança, que apenas balançou a cabeça, sorrindo, entrou no carro e Dos janelôes envidraçados de seu escritório via os gramados da foi embora. avenida Monumental e, ao longe, o Congresso Nacional, comvsuas Antônio então compreendeu tudo. úpulas brancas refletindo a lua cheia. Havia telefonado para o gabinete do vice-presidente da Repúbli- ca e marcado o encontro. Ele chegaria a qualquer momento. Foi pontual. À meia-noite a campainha tocou. Cumprimentaram-se em silêncio, Antônio ofereceu-lhe a confortá- vel poltrona de couro preto e sentou-se na ponta de um pequeno sofá. - Obrigado por ter vindo - disse. - Aceita um copo de sangue de pato gelado? - Obrigado. Já jantei. - É a primeira,vez que ouço sua voz num outro corpo. É estranho. - Você continua sensível, Antônio. Ainda não experimentou san- gue humano? - Só uma vez e pra nunca mais ... - Depois de cinco séculos ... - Cinco séculos ... - repeliu ÁIlIOllÍO. - O tempo passa. - Pois. Sorriram. - Perdemos o sotaque diss( () outro. - Somos brasileiros agora. 8 86
  • 44. - Boa terra. Grande povo. Como dizem hoje em dia, todos "san- gue bom". Ficaram um tempo em silêncio, olhando a noite através dos vi- dros da janela. - Você veio aqui porque se acha invencível, não é? - perguntou Antônio. - E não sou? Mas a história teria de acabar. - É. Então por que não se revelou antes? Por que fez isso comi- go? São perguntas que venho me fazendo há cinco séculos. - Você queria acabar comigo. - Mas, se eu não tinha nenhuma chance, que diferença fazia? I - Esqueceu qual é o maior problema dos vampiros? O tédio da eternidade ... - Quer dizer que o tempo todo ... foi tudo brincadeira? Apenas uma distração para você? -- Eu me diverti bastante, se quer saber. Você não? Falavam pausadamente, com longos intervalos em silêncio. - Nunca quis ser vampiro. - Essa era a melhor parte. Você é completamente maluco, sabia? Como pode querer ser um homem mortal, limitado, pegando gripe, morrendo atropelado, precisando de óculos para ler, levando e tra- zendo os filhos do colégio, preso num congestionamento ... - É a vida. Gosto dela. - Diga-me ... mesmo agora, depois de conviver com a humani- dade durante quinhentos anos, conhecendo todos os seus defeitos ... sabendo que esses defeitos são tão eternos quanto nós ... ainda quer voltar a ser um homem? Antônio apoiou a mão esquerda no braço do sofá e ficou mexen- do os dedos, exercitando a mão reimplantada. - Você é vampiro há tanto tempo que nem lembra mais o que é a vida - disse. - Testemunhou por meio milênio os horrores de que é capaz a natureza humana e mesmo assim quer voltar a ...t - Sua má impressão dos. homens é compreensível. Sempre con- viveu com os piores. Novo silêncio. 88 ~ ,,t~
  • 45. f , - Às vezes eu achava que você sabia o tempo todo, Antônio. lilas não foi longe. Parou no vidro fechado de uma janela e escorreu - Não sabia, não. IlMa o chão. Aos poucos foi se tomando sólida ... e ainda se debatia um - A idéia dos investigadores foi boa. Me diverti muito com eles. E pouco quando afinal se transformou em Domingos.os truques falsos para pegar vampiro? Puxa, como eu ri depois, lem- Antônio levantou-se e ajoelhou a seu lado, acompanhando obrando de você perseguindo o José Bonifácio com o espelhinho. llmpo avançar vários séculos em minutos, a pele murchar, os ossos - Nem era gordo ... virarem farinha, até não restar mais nada do vampiro, além de uma poeira preta sobre o assoalho. - Quis dificultar um pouco as coisas. - E esse nome ... Velho ... É verdadeiro? Debruçou-se sobre ela e aspirou com força. - Não. Inventado. Seu dedão do pé direito voltou a doer. - Por que me mordeu? • - Por raiva mesmo. Depois que se transformou num vampiro,éque pensei no que fazer com você. O vice-presidente respirava normalmente. Colocou-o deitado no Voltaram a ficar em silêncio. Na tela do monitor, peixes colori- sofá. Quando acordasse, lembraria daquilo como um sonho.dos passavam de um lado para o outro. Antônio continuava a exer- Não havia mais nada de Antônio naquele escritório. Tomara o cui- dado de apagar todas as pistas.citar os dedos, agora sobre um largo botão de madeira que enfeita-va a ponta do braço do sofá. Apanhou uma vassoura atrás do armário do banheiro e varreu os. - Gostou deste corpo que estou usando agora? - perguntou o restos de Domingos para baixo do tapete. Espirrou.outro. Antes de sair, telefonou para o melhor restaurante de Brasília, con- - Encaixa perfeitamente. firmando a reserva e o pedido. Lascas de bacalhau frito no azeite e vinho tinto rascante. - Pois é. Por isso fiquei tantas décadas dentro dele. Parece sobmedida. Muito confortável mesmo. Achei que você ia me reconhe-cer logo, mas demorou ... - A semelhança é grande, mas não podia imaginar. Soube nonosso último encontro. Aí, tudo se encaixou ... Antônio o olhou nos olhos e sorriu. Seus dedos batiam de leveno botão de madeira. - A brincadeira acabou. O indicador apertou o botão. Dentro do espaldar da poltrona uma mola soltou-se, impulsio-nando uma pequena estaca de carvalho, que rasgou o couro e atra-vessou o corpo do outro por trás, bem na altura do coração. Antônio permaneceu sentado o tempo todo. O vice-presidente pulou para a frente e caiu sobre o tapete, gri-tando e se contorcendo. Conseguiu arrancar a estaca! O ferimentologo cicatrizou e ele chegou a rir. Mas em seguida voltou a estremecer, entrou em pânico e acabourígido como uma pedra. Uma sombra escura saiu de seu corpo ... 90. 91
  • 46. II~ - Conhecendo Ivan ]af Vampiros à vista escrever O vampiro que descobriu o Brasil, em que passo 1/1,,1/1 o carioca Ivan Jafnasceu em 1957. Na juventude, estudou Co- .111 1(viSla cinco séculos de nossa História, precisei pedir ajuda amunicação e Filosofia e perambulou de mochila nas costas pela 1111 imortal", revela Ivan Jaf. Mas será que os vampiros existemEuropa e América Latina. Mora atualmente no Rio de Janeiro, no 1111S 111 o?bairro de Santa Teresa, de onde Em 1879 foi publicado o livro Drácula: a história arrepiante doraramente sai. É autor de 28 li- ~ (ol/de vampiro, de Bram Stoker. O autor se inspirou em um perso- ~.vros de ficção para o público in- :;: l1agem real- o cruel Vlad, o Empalador, herói romeno na guerrafanto-juvenil e a cada dia con- Iontra os turcos - para criar livremente essa história que nuncaquista mais e mais leitores. mais deixou de atrair as pessoas.Grande parte de sua obra tem Você já deve ter visto aquela cena famosa do elegante vampi-como tema a História do Brasil, I() abocanhando o pescoço da donzela, não é mesmo? Saiba quesempre tratada com humor e para se defender dessa criatura, há receitas infalíveis: luz,. alho,boas doses de aventura, sem rruzes, objetos de prata, uma estaca no coração. deixar de lado a seriedade das Duro mesmo é resistir ao charme desse bonitão mal-intencio- informações. nado. Há até quem torça para encontrá-Io por aí. "Venha me bei- Ivan escreve também rotei- jar, meu doce vampiro", cantou Rila Lee em Lima de suas músi- ros para histórias em quadri- as mais famosas. nhos e cinema, e textos para vampiro Lestat, um dos teatro. Já ganhou prêmios im- Ivan JaF~uita pesquisa antes de escreve!: 1111.lollogensentrais do livro c rll li/me Rice, foi vivido no portantes como o Sundance 1Í/1I1r/(/ por Tom Cruise. Institute - USA/98, de cinema, e na literatura, premiação da União Brasileira dos Escritores e indicação de "Altamente Reco- mendável para o Jovem", da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Entre suas obras mais conhecidas estão: O super tênis, Onde fica o Ateneu?, O Super Silva, Agüenta Firme e O robô que virou gente. Sucesso 1111 kkfHl c na telínha Como num romance Há inúmeros filmes s()IJlI V,IlllpiIllS, entre eles o clássico Nosfera- tu, uma sinfonia de f/o//o/ ( I) !) ~v1.lis recentemente, Drácula de Bram A pesquisa que Ivan fez para escrever O vampiro que descobriu o Brasil Stoker e Entrev~sta CO/ll (I 11/111//(1 (Inl<> acima) atraíram público no merece um capítulo à parte. Ele leu livros de História como se fossem mundo inteiro. romances. Queria compreender os acontecimentos como um todo, sem No Brasil, o v3mpit() j:1 jll~jPIIlII de personagem de Chico Anysio - se ater apenas aos detalhes. "Descobri que queria fazer isso desde a épo- Bento Carneiro, o Villllpil() IJI,I,i1111O a novelas de sucesso como Vamp ca do colégio", confessa. Deu certo: o texto ficou ao mesmo tempo e O beijo do vampim. informativo e gostoso"de ler. 9 94