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Quem descobriu o Brasil?   Antônio é mordido no pescoço e se transforma em vampi-ro em plena Lisboa no ano de 1500. Para d...
SUMÁRIO                                                      1. Vinte e nove anos de bacalhau • 7                14. Dança...
1. Vinte e nove anos                           de bacalhau    Pensando no que lhe aconteceu nos últimos cinco séculos, Ant...
OlAntônio ia dizer que tudo bem, podia ficar mais um pouco, mas                   Depois que o último freguês se foi, enco...
2. Imortal, nem morto!                                                                                    - Queria tomar p...
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Ouviu Méstre João tentar convencer vários grupos de marujos ater- rorizados que não, que a Terra era redonda. Mas quando p...
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..    Matias de Albuquerque fugiu para Alagoàs. Antônio foi com ele ..    No meio do caminho, um homem se apresentou ao es...
ia aos poucos se acostumando    com o sol. Para completar, um cha-            Não tivera mais notícias do Velho. Tinha cer...
9. Jumenta nervosa        De. qualquer maneira, à medida que entrava terra adentro, ia se    interessando cada vez mais po...
•                                                                                      ~                                  ...
Revoltados com a metrópole, que os ameaçava com desapropria-ções, saques, torturas e prisões, a elite endividada planejava...
..·dos ideais franceses de igualdade, fraternidade e liberdade, do "ilu-                           Antônio assistiu a tud<...
Segurando a estaca com a mão esquerda, pousou a ponta sobre o coração de Barbacena. Com o martelo na outra, e toda sua for...
O vampiro que descobriu o brasil   ivan jaf-
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As aventuras de um vampiro por 500 anos de historia do Brasil, excelente para trabalhar em sala de aula e ler.

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  1. 1. Quem descobriu o Brasil? Antônio é mordido no pescoço e se transforma em vampi-ro em plena Lisboa no ano de 1500. Para desfazer a maldiçãoe voltar a ser mortal, ele terá de reencontrar o seu agressor efincar uma estaca no coração dele. O problema é que o homemestá entre a tripulação de Pedro Álvares Cabral. A solução, então,é embarcar também. Enquanto procura o vampiro que o atacou, Antônio se meteem muitas confusões e observa, desconfiado, o nascimento deum novo país. Durante cinco séculos, ele vai viver todos osacontecimentos importantes que fizeram o Brasil ser o que eleé hoje. Prepare-se para fazer uma deliciosa viagem no tempo emcompanhia de um vampiro português e de personagens famo-sos como Pero Vaz de Caminha, Tiradentes, Dom Pedro I eGetúlio Vargas. Eles vão aparecer de uma forma como vocênunca imaginou, mostrando um lado nunca antes revelado danossa História. Com muita criatividade, o escritor Ivan Jaf conseguiu reu-nir ficção e realidade, na medida certa. O resultado foi um li-vro divertido e muito sério ao mesmo tempo. Com ele, você vaidescobrir que o humor pode esconder muitas verdades ... Os editores 3
  2. 2. SUMÁRIO 1. Vinte e nove anos de bacalhau • 7 14. Dança de vampiro • 51 2. Imortal, nem morto! • 10 15. À beira do abismo • 55 3. Problemas na saída • 13 16. Trocando de dono • 61 4. Depois do fim do mundo • 15 17. Cumprimento perigoso • 64 5. Topada eterna • 19 18. Um novo vampiro • 68 6. Mordendo mula • 23 19. No Brasil, o provisório dura muito • 73 7. Traidor aos pedaços • 26 20. Sem ter onde morder • 77 8. Vendo nuvens • 29 21. A imortalidade plastificada • 79 9. Jumenta nervosa • 33 22. Bigode suspeito • 82 10. Muita revolta para pouca pólvora • 35 23. Final de milênio • 8411. O mundo gira, e os lusitanos rodam • 41 24. Urna visita importante • 87 12. Quem é eterno sempre aparece • 4413. Maneiras de suportar a vida eterna • 47 Para o leitor curioso • 93 lJ/
  3. 3. 1. Vinte e nove anos de bacalhau Pensando no que lhe aconteceu nos últimos cinco séculos, Antô-nio Brás concluiu que a vida eterna não valia uma lasca de bacalhaufrito no azeite. Como aquelas que preparou na noite de 20 de fevereiro de 1500,para depois que fechasse sua tasca, na praça principal de Restelo. a movimento aumentara muito naquele pequeno ancoradouro,a pouco mais de uma légua de ~isboa, desde que o navegador Vascoda Gama tinha voltado, oito me~es antes, com a notícia de que afi-nal encontrara um caminho marítimo para as Índias. Antônio não se importava com nada daquilo. Sobre política, bas-tava-lhe saber que ofrei cha~a~-;e D. Manuel,- o V~nturoso)e quenão devia falar mal dele. Nem tinha tempo. Trabalhava desde os primeiros raios de sol atéo último freguês ir embora, tarde ~a noite. Só então fechava a portae sentava-se com uma caneca de vinho tinto rascante e uma panelade lascas de bacalhau. Mas, naquela noite fria de final de inverno, um único homempermanecia sentado, calado, com uma expressão furiosa, e não ha-via meio de ele ir embora. Acabou tomando coragem e informou: - Senhor ... estam os a fechar. a comandante o olhou com raiva, os olhos se transformaram emduas bolas vermelhas brilhantes, a boca se abriu e os dois caninossupenores cresceram. , Taberna; casa onde se vende bebida. 2 Que deixa certo travo na garganta.
  4. 4. OlAntônio ia dizer que tudo bem, podia ficar mais um pouco, mas Depois que o último freguês se foi, encostou-se no balcão e per- o homem avançou em sua direção e o prendeu num abraço apertado. cebeu que não respirava! Sentiu então a dentada no pescoço. Uma ratazana subiu no fogão, atrás de calor e restos de comida. Tentou se desvencilhar. Não pôde. Os caninos furaram sua pele. Voou sobre ela, agarrou-a com as duas mãos e mordeu-lhe a barriga. O sangue espirrou, escorreu por seu ombro. O sangue inundou sua boca. Bebeu como pôde, rasgando-a cada vez mais com os dentes, e terminou torcendo-a como uma camisa Enquanto era sugado, a dor passou. A sensação de dormência to- mou seu corpo. As pernas e braços balançavam, sem vida ... Até ser sol- molhada para sugar até a última gota. A força voltou. E com ela a consciência do que acabara de fazer to, desabar nas pedras encardidas do chão e ouvir o bater de grandes asas se afastando na noite. Correu apavorado pª,-ra fora da tasca. Atravessou a praça deserta. Um vulto magro, com um longo manto negro, saiu de trás do carva- Abriu os olhos com dificuldade. Custou uma eternidade para pôr- lho, agarrou-o pelo pescoço e o arrastou tão rápido que pareciam voar. se de pé, escalando cadeiras e mesas, as pernas bambas se recusando a sustentar o corpo. Passou a mão no pescoço e sentiu os dois furos e o I.J sangue coagulado. Diabo de freguês maluco. Quem me manda trabalhar num porto? Fechou a porta, encheu a caneca de rascante e pegou uma gran- de lasca de bacalhau. Tomou um gole e mastigou. Vomitou em seguida. Antônio Brás faria trinta anos em. breve. Comia bacalhau há vin- te e nove anos e aquilo nunca havia lhe acontecido. Tentou de novo e mais uma vez vomitou. • ~;tida de uma grandiosa esquadra estava marcada para 8 de março. Filas intermináveis de carregadores entravam e saíam dos na?~s. Antônio não tinha tempo nem de se coçar. Passava os dias na ~". tasca, servindo os fregueses, e tudo parecia normal, a não ser pelo fato de que não conseguia mais beber nem comer. Sentia-se bem-disposto. Com energia demais até. Ia de mesa em mesa com uma velocidade espantosa, era capaz de ouvir vários p~di- dos ao mesmo tempo e chegava a adivinhá-los. No terceiro dia após o incidente com o comandante, com o sol já transformando em lama as últimas neves do inverno, saiu para pegar uma encomenda de salame e voltou com a pele estranhamen- . , te empolada. No dia seguinte, todo o seu ~orpo doÍa e sentia-se muito fraco. 8 9
  5. 5. 2. Imortal, nem morto! - Queria tomar parte no que será uma g~ande conquista portu- guesa: o monopólio do comércio com as Índias. É a mania do Ve- lho. Participar dos grandes acontecimento~ -Que mal pergunte, o que tenho a ver com isso? Quando abriu os olhos, Antônio estava sentado na terra úmida, - Nada. - Nada? Tilcom as costas apoiadas num imenso bloco de granito retangulfr. Encostada em outra pedra a sua frente, uma sinistra figura,mui-to alta e magra, ombros curvados para a frente, olhava-o, calada. Seu I} ~ - Só o azar de estar no caminho dele, justamente depois de sa- ber que seu nome fora cortado. E que em seu lugar irá Vasco de Ataíde, i I Irosto era branco como uma vela e o pouco cabelo que tinha parecia um fidalgo sem nenhuma ex~.eriência no mar, mas de boa linhagemcolado à cabeça por alguma substância gordurosa. e irmão de um comandante já escalado, Pero de Ataíde. É sempre I - Onde estou? - perguntou Antônio. uma politicagem dos diabos ... Ouviste o nome de quem escolheram - Nos alicerces do Mosteiro dos Jerônimos de Belém - respon- para capitão-mor?deu o outro. - Não sei nada dessas coisas. - Queres dinheiro? Leva a bolsa. Mas deixa-me a vida. - A nomeação saiu a 15 de fevereiro. É um tal de Pedro Álvares - A vida? Será possível que ainda não entendeste? Cabral, outro sem nenhuma experiência, mas com fortes laços de fa- mflia com a Coroa, e casado com uma das mulheres mais nobres e - O quê? ~ ricas de Portugal, neta do rei D. Fernando. - Não sabes que agora és um vampiro? Antônio não se assustou porque não sabia o que era aquilo. Teve - Manda quem pode, obedece quem tem juízo. _de ouvir as explicações. Não gostou nem um pouco. - O Velho mordeu-te por pura raiva. Nem estava com sede. Su- - Estás a dizer que bacalhau nunca mais? gou só uma parte do teu sangue. Nem todo, a ponto de matar-te, nem -É. tão pouco, que te pudesses recuperar. E aí está, Antônio ... agora és um dos nossos. - Ah, não. De jeito nenhum. Que diabo está a acontecer? Quemés tu? Domingos então ensinou pacientemente a Antônio o que era ser - Chamo-me Domingos. Vampiro também. Não concordei com um vampiro, o que devia e não devia fazer, como se alimentar, oso que o Velho fez a ti e resolvi ajudar-te. perigos a evitar, os poderes adquiridos ... - Nunca mais vinho? - Estás a falar do maluco que me mordeu o pescoço? - Nunca. - Aquele era só o corpo do comandante. O Velho é o vampiromais poderoso entre nós. O único que consegue entrar num corpo - Bacalhau? Salame? Chouriço?humano. - Não mesmo. - Não estou a entender... - Então não! Nem morto! Quero ser como sempre fui. Há de - A alma do Velho se apossou do comandante. haver um jeito. - Ora pois ... - Não há. Conforma-te. - Pretendia pilotar uma das caravelas que está a ser preparada Antônio insistiu, insistiu tanto que o outro revelou:aqui em Restelo. - Só existe uma maneira de reverter a maldição, mas tu não tens - E para quê? a menor chance contra o Velho. - Dize, pois. 10 11
  6. 6. j ~ Precisas espetar uma estaca de carvalho no coração do vampi- ro que te ·criou e aspirar as cinzas em que seu corpo se transforma- 3. Problemas na saída rá. Ao diabo! E sacudiu o manto negro na noite, desaparecendo por entre as pedras. • Antônio Brás tinha tanto medo do mar que só no terceiro dia de A última semana passou depressa e obrigou Antônio a agir rápido. total pavor lembrou-se de que agora era imortal. As naus e caravelas, como cascas de nozes sobre o oceano desconhe- Todos a sua volta só cuidavam da grande festa de despedida da armada de Cabral, marcada para o próximo domingo. Com o suces- cido, balançavam para todos os lados ... mas nem precisavam afundar para matar seus tripulantes. Morria-se de tudo ali dentro. Doença, bri- so daquela missão, Portugal se consagraria como a maior potência econômica do Ocidente. ga, intoxicação, desespero, tédio, loucura. Ninguém tomava banho. Vo- mitavam, urinavam e defecavam por toda parte. A água se tomava intra- A população de Lisboa, umas sessenta mil almas, chegava em massa, improvisando barracas, estendendo panos para dividir o pão gáv~l. As comidas apodreciam. Só duas coisas ajudavam a enfrentar tudo isso: a ambição do lucro e a cota diária de litro e meio de vinho. e o vinho, espalhando-se pelas praias e colinas de Belém. I ~ Antônio evitava sair de sua tasca durante o dia. O mais fraco raio O vinho era tão importante que se media a capacidade dos na- de sol feria-o como uma navalha. vios, pela quantidade de barris que cabiam nele. .~ A nau capitânia, a maior da frota, tinha uma capacidade de 250 Na noite seguinte ao encontro com Domingos, cortou a ponta de tonéis. Dentro de um deles, abraçado às canelas e com o rosto en- um galho do carvalho da praça e fez uma estaca, com dois palmos , ;!.~:-1. terrado entre os joelhos, Antônio maldizia seu destino. de comprimento. Saía com ela após o trabalho, escondida sob o pe- Acontecer isso logo comigo, que amava a vida, que gostava do sol e ado- sado casaco de couro, e caminhava ao acaso pelas vielas escuras jun- rava minha mulhel~ meus filhos, presuntos, vinho, tremoços ... to ao cais, tropeçando em bêbados e pedras mal assentadas, amaldi- Mas a esperqnça de resolver tudo rápido e voltar o consolava. çoando o Velho. À noite, quando aquela maldita dormência deixava seu corpo, esti- Procurou-o em vão até a sexta-feira. cava-se e circulava pela nau, nas roupas roubadas de um marinheiro. Como Domingos havia explicado, a transformação seria lenta Era tanta gente, e tão grande o movimento, que ninguém o notava. To- mas irreversível. Em poucos dias teria todas as características dos vam- mavam-no como um marujo do tumo da noite e, de tão enjoados, ha- piros. A pele completamente branca, a necessidade de sangue fresco via alguns até mais pálidos do que ele. pelo menos duas vezes por semana, a ausência de respiração, os ins- Perambulavam por all oitenta marinheiros, setenta soldados e tintos aguçados de um lobo e a aversão total à luz do sol. trinta e três passageiros, entre serviçais, degredados, intérpretes e re- vou explicar isso à mulher e aos garotos? C..2!!,!o _ ligiosos, além dos sete besteiros da guarda pessoal de Cabral. Cen- to e noventa corpos onde a alma do Velho poderia estar escondida. ainda mais sem saber em que corpo se enfiara. A única pista: ele que- Ou melhor, cento e oitenta e nove. Aos primeiros raios de sol do ter-/Seria impossível encontrar o Velho no meio daquela multidão, )~ia ~s.tar no corpo de alguém importante, nos momentos históricos ceiro dia encontraram um grumet~tre os cordames, com um ta- deG1S,!voL __ _./ lho no pescoço e sem uma gota-de sangue no corpo. O gajo então vai estar junto ao Cabra/! No dia seguinte fechou a tasca, meteu-se num barril de vinho bem Soldado armado de besta (antiga arma de disparar setas). lacrado e despachou a si mesmo para a nau capitânia. 2 Aprendiz de marinheiro. 12 13
  7. 7. ,,/ Ele está a bordo! Tantos mistérios cercavam a humanidade então que ninguém per- dia muito tempo tentando explicar as coisas. Embrulharam o rapaz 4. Depois do fim do mundo num pedaço de vela suja e o jogaram ao mar. Mestre João, um galego misto de lllédico, cirurgião, físico, artis- li ta, astrônomo e astrólogo, diagnosticou aner~:lia profunda provoca- da pela sangria do corte no pescoço, na certa resultado de uma bri- ga. Mas, quando lhe perguntaram onde diabos estava o sangue, sa- Duas coisas Antônio decidira: nunca se alimentar de sangue hu- mano nem dormir em caixão. cudiu os àmbros, disse "sei·lá" e foi tomar uma bagaceira com seus > amigos letrados, futuros escrivães para as feito rias da África. Se não quero ser um ~ar.npiro, o melhor é não fazer como eles. Antônio começou a desconfiar que o Velho estava no corpo do Por isso continuou a passar o dia entalado no barril e, à noite, tal Mestre João. chupava o sangue das ratazanas que infestavam o porão. Vidinha miseravel. - - É mesmo possível, pois. Quem maiS? Marinheiros, soldados e besteiros não são importantes. Serviçais e degredados, muito menos. Escrivães e in- A tripulação subalterna não passava muito melhor, obrigada a térpretes, pode ser, mas ficarão pelo caminho: Os homens da Igreja, nem comer diariamente meio quilo de biscoito duro, salgado, mofado, pensar. Do lado de Deus, sempre cercados de cruzes... Quanto a Cabral, fedorento e com as bordas comidas por baratas. esse não mesmo. Os dias foram passando. Domingos explicara que o Velho não costumava ocupar o corpo :De Lisboa, tomando o rumo sul-sudoeste, chegaram às Ilhas Ca- de grandes personalidades, para não ficar em evidência demais e ar- nárias a 14 de março de 1500. No dia 22 atingiram o arquipélago de riscar ser descoberto. Cabo Verde. I " ..-/ Durante a noite uma das naus desapareceu. Antônio teve certeza de que o Velho a afundara, matando cento e cinqüenta homens ape- nas para se vingar de seu comandante, Vasco de Ataíde. No dia 29 de março enfrentaram uma calmaria que durou dez longos dias. As provisões de água e comida foram acabando. O Velho apwveitou para~tar um besteiro e dois soldados. Nin- guém se importava maIs. Foram atirados para fora da nau junto com) outros, yítimas de escorbuto e diarréia. -c/, _ Foi durante aquela calmaria, jogando cartas escondido dos pa- dres, que Antônio aprendeu a profissão que exerceria nos cinco sé- culos seguintes. No dia 9 de abril, após as embarcações cruzarem a linha do Equador, os ventos voltaram a soprare, para espanto de todos, Ca- bral ordenou que embicassem para sudoeste, saindo da rota. O resto da frota o seguiu. As tripulações ameaçavam se rebelar. Cabral não inspirava confiança. O pavor se espalhou. Antônio, como a maioria, achava que a Terra era reta e que, se . fossem se afastando muito para o lado, acabariam caindo da borda. 1 )}çl Lá se sabe onde. 14 7"/ 15"-
  8. 8. Ouviu Méstre João tentar convencer vários grupos de marujos ater- rorizados que não, que a Terra era redonda. Mas quando pergunta- vam como é que as pessoas podiam viver de cabeça para baixo, ele não sabia explicar. O gajo está calmo porque, como os morcegos, pode ficar pendijr{Ufc; pe- las pernas. Antônio cada vez tinha mais certeza. Com a desculpa de estudar o céu abaixo do Equador, Mestre João passava as noites no convés, e a toda hora chamava a atenção para uma nova,constelação em for- ma de cruz, como se tivesse medo dela. Vigiava-o no silêncio da noite, vendo as tochas que assinalavam o resto da frota, esperando a oportunidade para apanhá-lo .. / A 21 de abril cortaram íffiensostapetes de algas. A 22, gaivotas( emporcalharam as velas. À tarde, o vigia na cesta da gávea gritou: - Terra à vista! • IL Um dos problemas em ser vampiro antes da invenção da luz elé- trica é que a maioria das coisas importantes acontecia de dia. Quando Antônio saía do barril, encontrava a tripulação já de vol- ta, agitada pelos mais espantosos acontecimentos,A chegada_~_tella estranha, com um povo de pele marrom, limpos e felize~ co- bertos de penas coloridas, pintados, andando nus e conversando com ;g;aves. Mulheres lindas, peladas, com ossos espetados na boca. Gente que cuspia o vjnho e temia as galinhas. J Antônio só via da amurada o contorno de uma grande monta- nha arredondada. Frei Henrique Soares de Coimbra, que comandava os sacerdotes abordo da nau capitânia, rezou uma missa na sexiã~fêlfã, dia 1~ de . maio, véspera da partida~Antônio desesperava-se de curiosidade. Nã-=-- quela noite roubou em silêncio um bote e foi remando ,Çonhecer a grande ilha que já chamavam de Terra dos Papagaios. l, r , A tripulação de quase todas as naus e caravelas estava ainda por lá, espalhada pela praia. Viu a grande cruz de madeira e as tochas es- petadas na areia, as fogueiras assando peixes e raízes, e ouviu a can- toria bêbada. Sentiu sede. Farto das ratazanas, entrou na mata exótica atrás de um bicho diferente. 17
  9. 9. ..• A escuridão da lua nova não ajudava, mas seu olhar aguçado d~vampiro afinal viu um estranho animal preto, com asas enormes e 5. Topada eternaquatro pernas. Chegou perto em silêncio e, escondido atrás de uma palmeira,entendeu. Frei Henrique de Coimbra, com sua batina preta aberta, abraça- Foijum começo complicado para Antônio. Segundo Domingos,va um índio por trás! "p-bom padre está a tentar pendurar um crucifixo no pobre sel- quando um vampiro criava outro, encarregava-se também de sua educação. Ele, no entanto, fora abandonado à própria sorte e estavavag~m..;~pensou, mas nisso-us,:luÍS-St~-viraiãill e... não haviãâ.t1vida: ~ numa terra desconhecida, a sete mil quilômetros de casa.ho.memL_----- ----=:- -- ----O frade estava com os dois enormes 7aninos cravados no pescoço do - Perdeu um tempo precioso tentando se recuperar do susto, até ti- !, Ao voltar à praia, depois de passar a noite na mata procurando o Velho, viu a armada de Cabral levantando âncora. O sol ameaçavarar da cintura a estaca de carvalho e avançar. nascer. Por sorte encontrou outro barril vazio jogado na areia e teve -SÓ aí se âêuconta de que não sabia com c~rteza onde ffcaváó co- tempo de entrar nele para passar o dia.ração. Na pressa, acabou enterrando a estaca na barriga do vampiro! Estava preso ali, mas com certeza o Velho também. Que lugar era O sangue espirrou. O índio rolou para um lado, o frade para o aquele? Na certa, uma ilha. Havia tantas pelo caminho. Canárias,outro, apertando a ferida e gritando de dor. Madeüa, Açores, Cabo Verde ... Nas noites seguintes andaria por todo Uma sombra então desprendeu-se do corpo do religioso, alongada lado e haveria de encontrar o Velho, recuperar sua alma mortal ee negra, e parou diante de Antônio por uns instantes. Dois pontos voltar para casa.de luz vermelha o encararam. Ouviu vozes se aproximando, atraídas Mas precisava ficar mais esperto. Não podia desperdiçar oportu-pelos gritos de socorro do frade. A sombra rodopiou no ar e sumiu nidades.na mata. Como podia desconfiar de um frade? Antônio compreendeu que ela era o Velho e que a alma do frade Concluiu que, justamente por Portugal estampar o símbolo davoltara ao corpo. cruz em tudo, das moedas às velas dos navios, os vampiros haviam Pegou de volta a estaca de carvalho e entrou na mata escura. se acostumado a ela. Logo após o pôr-do-sol do dia 2 de maio de 1500, ele saiu do bar- ril, espreguiçou-se e começou a mancar pela areia em direção ao nordeste. Quando uma pessoa é transformada em vampiro, ela permanece com a mesma aparência física do instante em que foi mordida. Por isso, Antônio cansou de maldizer a topada que deu com o dedão do pé direito no batente de pedra da porta da tasca, na noite de 19 de fevereiro de 1500. Por causa dela, entrou para a eternidade mancando. Aprendeu isso sozinho, depois de esperar o dedo desinchar por quinze anos. Os imortais têm muita paciência. ~o teimosos também. Custou a se convencer de que não estava numa ilha. 18 19 _".7:,
  10. 10. Jr t 1(~UeTH~A f}fi rS Gü ( I S /H.[J Parou centenas de quilômetros adiante, às margens deuma enor- "r~r r,i"rU;L 0E OUVt;./~." A p~meira providência do então rei, D. João I1I, foi a criação dei . me baía, sem a menor ilusão de encontrar o Velho numa terra tão grande e misteriosa, ..• um governo geral para o Estado do Brasil, unificando a administração. Para isso, numa luminosa e quente noite de março de 1549, an- Viveu isolado numa caverna, na base de uma montanha de bar- corou na costa brasileira uma armada composta por três naus e duas ro duro e vermelho, por cinqüenta anos, aprendendo a ser vampiro. caravelas. Trazia escrivães, um provedor-mar, um ouvidor, vários fim- Os caninos, por exemplo, não podem se juntar na veia da vítima, cion~rios públicos, padres jesuítas, quatrocentos soldados e seiscen- fazendo um buraco só, senão espirra sangue por todo lado. Eles têm pequenos furos no centro, da ponta até a raiz, e é preciso sugar por t,ps degredados, todos sob as ordens do primeiro governador-geral do Brasil, o fidalgo Tomé de Souza. , .) eles como se fossem canudinhos. (I Fazendo isso com cuidado, era possível chupar o sangue de um A tudo isso assistiu Antônio Brás, pois a armada aportou justa- mente na baía onde ele vivia. animal sem matá-Ia. Assim ele se alimentou a partir de então em pa-o Sua mulher já devia estar morta há muitos anos. Seus filhos, ve- cas, antas e macacos. lhos demais para se lembrar dele. Nada prendia Antônio à humani- Aprendeu a fazer movimentos tão rápidos que se tornava invisí- . dade, a não ser as saudades do vinho e do bacalhau. Pretendia es- vel, e a pisar tão leve que não deixava marcas n,a areia. Dessa manei- ra podia entrar e sair das tribos e vilas sem ser notado. E assim se in- quecer tudo, e para sempre, em seu buraco úmido. Mas a Coroa por- teirava dos fatos. tuguesa resolveu fundar uma cidade no alto da montanha, de frente para a grande baía, bem em cima de sua cabeça. Depois de Cabral, os portugueses haviam retomado algumas ve- zes. Não raro ele via caravelas costeando o litoral para cima e para P..rimeiro botaram a mata abaixo e trataram de erg~r mpa gran- . } -de.-e_QValmuralha de taipa, com canhões apontado~_para lodos os :-,L -"f baixo. ( os interessesj voltados para o comércio co_~ a~Índias, um_ Com " lados. No interior traçaram ruas e praças, e ergueram pr~d~os para a administração, casas e igreja. E tanta pressa tinham que ni~o ajuda- ~gai tão fora d~ rota como aquele não mereceu muita atenção de Portugal. Vinham aqui apenas extrair a madeira utilizada como co- rante na manufatura têxtil, chamada de pau-brasil, conhecida dos europeus desde a época das Cruzadas. Os índios cortavam e levavam - as toras vermelhas para as praias. Pilhas e pilhas em troca de ferra- > clarou Tomé de Souza fundada moude SalVador. -- " ram funcionários, mulheres, crianças e padres, além dos escravos ín- , dios, caçadbs a laço nas aldeias próximas, e negros, trazidos como -- carga das costas africanas. E assim, em de novembro de 15A9, de:: 1<:> a primeira capital do Brasil, e a cha- . mentas de metal. Ora pois, isso que se está a fazer é uma coisa importante. Foi então que ouviu pela primeira vez a palavra brasileiro? o que comercializava o pau-brasil, ~ o nome Brasil ir aos poucos substi- Passou a espreitar os poderosos que gravitavam em torno do go- tuindo o oficial, Terra de Santa Cruz. vernador-geral, na esperança de encontrar no corpo de um daqueles J "homens bons", como eram conhecidos os integrantes da elite, fazen- I Àquela altura outras nações já c~gavam às Índias regularmente. deiros, grandes comerciantes, fidalgos e clero, a alma vaidosa do Velho.1 I Portugal, perdendo!! m~n~póli~ercial na região, e com_eLe o O tempo passou, porém, quase um século, e nada. Estava a pon- poderio econômico e marítimo, percebeu que naquela terra exótica to de desistir, conformar-se, quando uma pista lhe foi dada pelo acaso. chamada Brasil estava a saída pará-set.ls problenlas financeiros. Êra Na noite abafada de 2 de maio de 1624, do alto do telhado da preciso defendê:1a. •.. igreja, ouviu a conversa entre o bispo e um mascate que lhe vendia Outros povos europeus já começavam a desembarcar por aqui, toalhas da Ilha da Madeira . . principalmente franceses. Os invasores ocupavam vilas, construíam c I fortes e aliciava~ tribos. ~ - Já disse que não me importa o que acontece do lado de fora I dessa muralha - dizia o religioso. 20 21
  11. 11. l ~ - .Mas O senhor podia percorrer as tribos, levando conforto à "" 6. Mordendo mulaalma dos índios. Estão apavorados. - Pois não sei nem se eles têm alma. - Continuam a aparecer... chupados, sem uma só gota de san-gue, e com dois furos na garganta. ", ~ - Eles criam seus demônios, depois que os aturem. Deixe-me Teve sorte.em paz. Na madrugada de 9 de maio entrou na baía uma esquadra ho- Investigando, Antônio descobriu que dezenas de índios vinham landesa, com vinte e seis navios, quinhentos canhões e três mil e tre-send~ encontrados assim há meses, e que o rastro de mortes tinha uma zentos homens. Descarregaram toda a sua aliilharia sobre a cidade,direção: as vítimas recentes, sempre mais para o nordeste. numa tempestade de fogo e ferro, e a ocuparam. Continuas a ser o mesmo idiota, pois. O Velho estava por cá, morden- Os holandeses fazia tempo dominavam o comércio na Europa,do o povo, e agora partiu. . beneficiando e distribuindo as mercadorias que espanhóis e portu- Três noites depois deixou para sempre seu buraco na terra e foi gueses recolhiam e transportavam da Ásia, África e América.atrás dele. Com o dinheiro, puderam aparelhar sua frota e então se pergun- taram: por que não buscar eles próprios as mercadorias nas fontes produtoras? Por isso, ataques holandeses à costa brasileira não eram novidade. A ocupação de Salvador, no entanto, mostrava uma nova fase. Já não se tratava mais de simples pilhagem. Queriam se instalar aqui. y Antônio não tinha ido longe. Os índios espalhavam-se em pequenos grupos. Era impossível sa- ber qual a próxima tribo a ser atacada pelo Velho. Ouviu comentários de mortes iguais entre os bandos de negros fugidos, mais difíceis ainda de encontrar. Teve a idéia então de arranjar uma mula, vestir-se como um mas- . cate e percorrer assim disfarçado a trilha oficial que o levaria a Per- nambuco, a capitania mais próspera e importante. Talvez o Velho esteja indo para lá. Como mascate, percorrendo devagar o território, conversando com quem encontrasse, ficaria a par dos acontecimentos. Depois saberia melhor o que fazer. À mula lhe foi muito útiL Além de mais cômodo do que mancar por centenas de quilômetros, duas vezes por semana chupava seu san- gue. Depois a recompensava: dias e dias solta nos melhores pastos. ) Pelo caminho, notou que a grande mata que se estendia por todo o litoral fora derrubada, e que em seu lugar agora havia um mato ã1to, com folhas finas e cortantes, e um caule comprido, de gomos coloridos. Esses caules eram cortados pelos escravos negros e pren- 22 23
  12. 12. l""~ C. O céu já se enchia de manchas vermelhas, com os primeiros raios..~ad~ moendas dos engenhos. Do caldo produziam Q....quecha- de sol~ e teve de se enterrar fundo nas areias úmidas da margem do maval1Lde.açúcar, que sgniliLpara adoçar as çoisa~. E estraga! os den- rio para passar o dia. tes d~_.I=!essoastambém, o que podia ser fatg.l para um vampiffi.. No meio da manhã a terra tremeu. Como mascate, mesmo explicando que no momento não tinha __o-.---_ Embaixo da areia, sem poder abrir os olhos, continuou a ouvir as nada para vender, podia conversar com o povo da sen~àla e da casa- explosões violentas, por toda parte, durante horas. Por fim sentiu pés. grande, admirar a fartura dos senhores de engenho e se espantar com a crueldade com que tratavam os negros. MÚhares de pés correndo sobre ele. Desde essa época começou a se perguntar por que os brancos nun- Os vampiros têrríüma esPécie de relógio interno que indica quan- do a noite chega. No mesmo instante a dormência diurna abando- ca produziam o que necessitavam, e sim o que interessava aos ou- tros brancos que moravam muito longe dali. Um jesuíta que cmzou l1.r na seu corpo e a força sobrenatural volta. Quando isso aconteceu, Al}tônio pulou desesperado de sua cova, pelo caminho explicou que o nome disso era "pacto colonial". , r correu para a mata como um raio manco e só parou entre as folhas _ Aqui somos a Colônia. Portugal é a metrópole - disse ele, achando tudo muito natural. - Devemos vender, nossos produtos ~ de um coqueiro. Lá do alto, entendeu a situação. Uma grande es- ~J quadra holandesa aportara na costa, bombardeara Recife, desembar- . para eles, e comprar os deles, mesmo quando for mais vantajoso fa- zer isso com franceses, holandeses ou ingleses. I cara milhares de soldados e lutava ainda para dominar Olinda. _ Continuo a não entender qual a vantagem para nós, ora pois Os gajos não desistem, pá. - confessou Antônio. Foi ver aquilo de perto. _ Estamos aqui para produzir, não para concorrer. Assim se ajus- • tam os interesses e a dependência mútua. -:-;-Antônio coçava a cabeça: Levou tiros, na barriga e nas costas. Os buracos cicatrizariam em poucos dias, cuspindo os pequenos grãos de chumbo, deixando a - Dependência mútua? _ Sim. Eles também dependem de nós, percebe? pele branca sem marcas. Mas teve de roubar outra roupa, deixando Não, Antônio não percebia nada, e tinha outras preocupações: nu um mascate cuja cabeça estava a muitos metros ao corpo. Podia ter escolhido outro disfarce, funcionário da Coroa, feitor, encontrar o Velho, reaver sua alma mortal e passar o resto dos seus dias numa daquelas praias desertas, com uma bela índia, bebendo senhor de engenho ... Cadáveres não faltavam, espalhados por todo vinho e comendo salame. lado, porém apegara-se à vida de mascate, que lhe dava acesso a to- das as classes sociais. Assim prosseguiu sua busca, lentamente, sempre atento às notí- cias sobre novos corpos encontrados sem sangue. I Os portugueses resistiram por duas semanas, mas não puderam im-~ Os imortais não têm pressa. Em lombo de mula, perdendo-se várias pedir a vitória de uma armada de cinqüenta navios, mil e cem canhõ~s e oito mil homens. E os holandeses conquistaram Recife e Olinda. vezes pelas trilhas do sertão, parando meses num engenho, desviando- se da rota traçada para investigar as mortes em tribos e grupos de t:legros O governador, Matias de Albuquerque, teve tempo de fugir para o interior com os homens que lhe restaram. Atravessou o Capibari- fugidos escondidos na mata, e tendo de passar os dias metido em al- be e, sobre uma pequena elevação, instalou um acampamento de- gum lugar fechado e esCuro, quase sempre covas abertas na terra ao nas- cer do sol, Antônio levou seis anos para ir de Salvador a Recife. nominado Arraial do Bom Jesus, com a intenção de criar um foco de resistência. Atravessou a foz do rio Capibaribe e chegou ao porto na noite de Isto que está cá a acontecer é importante, pois. ,14 de fevereiro de 1630. Antes de roubar uma pequena canoa para Resolveu estabelecer-se no acampamento para ver se o Velho a travessia, despediu-se da mula com um beijo entre os olhos e a deixou num pasto verdejante. apareCIa. BIBLIOTECA DA ESCOLA ESTlU)UM. "JO~Ê GÀBRIH DF.OLiVE!RA" 24 25
  13. 13. Y ," 7. Traidoraos pedaços Estaia bem embaixo dele, sugando o pescoço de uma negra. " Agora usava o corpo de Calabar. Já desconfiava dele, por isso o havia seguido. Apesar da enorme força do .mulato, nenhum humano poderia ter agarrado um touro ", furioso pelos d1ifres, como ele fizera na praça do Arraial. A tática de guerrilha de Matias de Albuquerque consistiu em or- "- D.esta vez tu não me escapas! Agora já sabia que o coração ficava no canto superior esquerdo.ganizar grupos de emboscadas e espalhá-Ios em postos avançados li· A velha estaca de carvalho, porém, iria esperar para entrar em ação.pelo sertão, em torno da cidade, com a intenção de isolar os holan-deses, cortando-Ihes o abastecimento. Vou te pegar dormindo, maldito! Não delLmuito certo porque os invasores saíam pelo mar e assim Mas naquela noite Calabar não voltou ao acampamento. Na noi- te seguinte ele também não apareceu, nem durante o dia, nem na se-conseguiam tudo de que precisavam, inclusive grande quantidade decaixas de açúcar, que continuaram a comercializar normalmente. mana seguinte. Foi considerado morto. Enquanto não chegavam reforços da Espanha, como acontecera Depois disso os holandeses, numa súbita mudança de estratégia,na expulsão dos holandeses de Salvador em 1625, o governador só deixaram a segurança quase inexpugnável de Recife e avançaram pe-contava com a eficiência dos capitães de suas milícias, espalhados las trilhas do sertão, adivinhando ~s emboscadas, antecipando-sepelo mato, em combates inesperados e fulminantes a todo holandês nos atalhos, aparecendo de surpresa nos postos avançados da guer-que ultrapassasse as muralhas fortificadas. rilha, tomando engenhos e destruindo as fontes de abastecimento Numa dessas estâncias, noite estrelada, ao lado de uma fogueira de comida e água dos homens de Matias de Albuquerque.em que se cozinhavam inhames e peixe, Antônio ouviu, de um negro, Foram conquistando vila após vila. Igaraçu, RioeFmmoso, Afoga-uma nova pista. dos ... E avançando, imbatíveis, instalaram-se em Itamaracá, Paraíba ~ --" _ Esses infiéis têm trato com o demo - dizia o escravo. - Isso ~ ..• e Rio Grande, ficando senhores de toda a costa nordestina. Não demorou para que o mistério s.e esclarecesse. Calabar passa-é jeito de se matar um homem? Não soube do índio boiando no rio,com a garganta cortada e seco como um pedaço de pau? Agora me ra para as tropas holandesas, revelando as posições inimigas, seusdiga, pra que os gringos iam querer o sangue do pobre? pontos fortes e suas fraquezas. - É a prÚneira vez? - perguntou Antônio. . Antônio decidira nunca interferir na história da humanidade. _ Nada. Volta e meia aparece um dessangrado assim. É o que o Achava que, como imortal, não tinha esse direito, já que não podiapadre falou mesmo. A religião deles é coisa do diabo. . sofrer as conseqüências de seus atos. A Igreja conseguia convencer índios e escravos a lutar ao lado de O diabo do Velho não pensa assim. E está a fazer uma bagunça danada.patrões que os chicoteavam, castravam, amputavam e quebravam Partiu rápido para as frentes de batalha, atrás de Calabar, mas,seus dentes a marteladas. Só porque os invasores eram protestantes "sempre chegando atrasado, ia testemunhando a formação da Novaem vez de católicos. Antônio não compreendia. Holanda. Ficou alerta. O Velho estava por perto. C1nsado, achou uma boa idéia voltar ao Arraial do Bom Jesus e Foi ao local onde aparecera a última vítima. Um posto avançado, esperar. Àquela altura, o último foco de resistência era uma ilha cer-comandado por um mulato alago ano chamado Calabar. Lá ficou, cada de holandeses por todos os lados, sem água nem comida, com dentro de um buraco na terra durante o dia, rondando o acampa- a população se alimentando de tatos para sobreviver. mento como um morcego à noite, esperando. Quando não havia mais ratos nem para Antônio chupar, o pró- Afinal, numa noite sem lua, pendurado no alto de uma palmeira, prio Arraial foi invadido. Mas Calabar não estava entre as tropas Antônio teve o segundo encontro com o Velho! holandesas. 26 27
  14. 14. .. Matias de Albuquerque fugiu para Alagoàs. Antônio foi com ele .. No meio do caminho, um homem se apresentou ao estropiado 8. Vendo nuvensgovernador e revelou que Calabar estava justame-1iltenuma vila pró-xima, Porto Calvo; sua terra natal. Isso aconteceu durante o dia. Quando Antônio saiu de sua cova,aberta às pressas na terra fedorenta dos fundos de uma estrebaria, e~cor-reu para a vila, já encontrou Calabar amarrado a um tronco rio meio da 1J1aisalgumas décadas se passaram até Antônio voltar a encontrarpraça, cercado pelos populares, ouvindo sua sentença de morte. pistas do Velho. Foi enforcado, esquartejado e seus pedaços espetados em varaspara os urubus. Os holandeses continuaram instalados no Nordeste, estendendo ~ Nem um imortal resiste a isso, ora pois. O Velho deve estar longe. Es- de Sergipe ao Maranhão o braço eficiente e lucrativo da Companhia das Índias Ocidentais.capou-me de novo. A Coroa holandesa, satisfeita com o sucesso na América do Sul, nomeou um importante membro de sua nobreza, o príncipe Mau- rício d~ NaJi~au,-p-aIa.governar.Qs !.~Titórios conqu[S!?!Íos no Brasil. Vinha com poderes de soberano para acabar de uma vez com os fo- - cos de guerrilha restantes, reorganizar a produção de açúcar e recu- perar a atividade dos engenhos abandonados. ~ Antônio presenciou a imponente chegada do príncipe e sua co- .%u.itiva, na manhã calorenta de 23 de janeiro de 1637. I Sim, ele estava lá, é bem verdade que protegido pela sombra de no mangueira, e vestido dos pés à cabeça. Mas desperto! Em ple- umadia! ir Aconteceu com ele o mesmo que com os vampiros portugueses, que, no meio de tantas cruzes impressas em todos os lugares, deixa- ram de ser afetados por elas. Pois um vampiro nos trópicos, com o sol torrando a terra todos os dias do ano, acabou por se adaptar a ele e a suportá-Io. Isso lhe tróuxe uma granqe alegria. Não podia comer, beber ou amar as mulheres, mas pelo menos dali em diante teria a sensação mortal de sentir o sol, de ver as cores, os pássaros, as borboletas e as nuvens. Estava farto de corujas, morcegos e pernilongos. E, melhor do que túdo, não precisava mais dormir em buracos na terra ou en- . , talado em barris .. Comprou uma rede preta, alugou um quarto numa pensão e pas- so~ os anos seguintes circulando entre os mortais, admirando o crescimento de Recife. Vestiu-se como um holandês. As roupas protestantes, pretas e com colarinhos e punhos fechados, vieram a calhar para um vampiro que 28 29
  15. 15. ia aos poucos se acostumando com o sol. Para completar, um cha- Não tivera mais notícias do Velho. Tinha certeza de que o maldi- ,péu de abas largas. _ to estava bem longe daquela zona arrasada, prestes a enfrentar uma Agora ganhava dinheiro como jogador profissional. Passava noi- decadência que se arrastaria por séculos.tes e noites e,m rodas de carteado, fingindo respirar e beber cachaÇa; Numa manhã de nuvens carregadas, tomou a decisão de se me-com feitores, funcionários públicos e senhores de engenho. Podia ter no sertão.usar seus poderes de vampiro para vencer: a leitura de pensamento, Ouvira comentários sobre descobertas de ouro e diamante numapara saber o que os adversários tinham nas mãos e se estavam ble- região bem ao norte, conhecida como Sertão dos Cataguás, parafando; a rapidez de movimento, para trocar uma carta sem que eles o~de estava indo gente de todas as capitanias.vissem; e a manipulação da vontade alheia, para que apo§.tassem Talvez o Velho também apareça por lá.maÍs do que podiam. Descobriu-se invencível em qualquerjogo ,que •entrasse, e quase invencível nas apostas que não dependessem dele. Em sua volta Recife crescia, pela intenção dos holandeses de er- Depois de atravessar os canais do Capibaribe chegou à várzea eguer um marco da fundação de seu domínio político na América, e começou a travessia de uma vasta campina. Em seu passo manco, iapelo delírio de Maurício de Nassau, criando a cidade de seus sonhos. sem pressa, com o vago rumo de seguir os boatos sobre o ouro. Mandou abrir canais, construir diques e aterros, plantar árvores, Na pouca luz do pôr-do-sol avistou uma pequena jumenta cor-e transformou tudo num imenso parque. Traçou ruas, praças e am- rendo atrás de um cavalo.plas avenidas. Construiu seu palácio, com museu, biblioteca e sala . Opa, isso não devia ser o contrário?de música. E lá fundou uma academia de artes e ciências, cercando- O cavalo -veio na direção de Antônio. Quando estavam a poucosse de artistas e intelectuais. metros um do outro, a jumenta saltou para a frente ... e lhe cravou J Antônio chegou a desconfiar que os delírios de grandeza de Nas- dois enormes dentes pontudos no pescoço!. sau se davam por estar seu corpo ocupado pela alma do Velho, mas O cavalo escoiceou, empinou, caiu, mas a jumenta não o soltou, investigou muito e concluiu que não. continuou mordendo, sugando o sangue, e Antônio lembrou: Ali, em Recife, começou-se a falar na liberdade dos escravos e dos - É ela! cultos, sem pensar em colocar essas idéias em prática, claro, porque ~sperou sua antiga companheira de viagem terminar. Ela tam- ainda não interessavam a ninguém, a não ser às vítimas. bém o reconheceu e se aproximou. Os ricos e poderosos foram se mudando para lá. Senhores de en- - Tantos anos bebendo o seu sangue, minha amiga ... a transfor- genho voltavam a produzir e a vender. Gente de toda parte, franceses, mei numa jumenta-vampira sem querer. Quer vir comigo conhecer alemães, belgas, circulava pelas calçadas limpas. Pareceu-lhe que os o interior do Brasil? homens afinal podiam se entender. Montou nela e seguiu viagem. Estava errado. Assim que seu contrato chegou ao fim, Nassau foi Uma longa viagem de um século. deposto e enviado de volta à Holanda. Quem mandava eram os co- Ia quase feliz. Via o mundo de dia, não podia ser ferido, n~m adoe- merci~ntes da Companhia das Índias, que queriam mais lucros e cer, e ganhava dinheiro suficiente, como jogador, para boas roupas menos despesas com idéias malucas. e pousadas confortáveis. Mas, enquanto não pudesse tomar uma ca- A guerra voltou com toda a força. E os holandeses começaram a chaça e comer feijão çom carne de porco, sentir o calor das mulhe- perdê-Ia. res-:- esperança dos v~lhos e a curiosidade da morte, não sossegaria. a Antônio tratou de cuidar da vida. Tinha saudades até do nariz escorrendo. 30 31
  16. 16. 9. Jumenta nervosa De. qualquer maneira, à medida que entrava terra adentro, ia se interessando cada vez mais por aquela que, na época, era a mais im- portante colônia pOrtuguesa. - Como gosta o Velho. Se tivéssemos parado na Índia, não seria tão bom. De fato. Portugal já havia perdido toda a influência sobre o co- Espalhou-se a notícia por todo o Brasil e pela Europa: havia ouro, mércio.com o Oriente, e a desastrada política externa da Corte só pio- e muito, no território que pouco depois ficaria conhecido como Mi- rava a situação. Para fugir da dominação espanhola, pedira ajuda nas Gerais. aos holandeses. As dívidas com a Holanda, pagara pedindo empres- Assim que essas notícias chegaram aos confins do sertão, por tado à Inglaterra. Agora importava quase tudo dos ingleses e dependia onde Antônio perambulava, o movimento nas trilhas antes desertas, do. que pudesse arrancar das colônias para pagar suas dívidas, que por onde ele seguia em paz com sua jumenta, agora o obrigava a fi7 . só crescialIL. Ias indianas com dezenas, centenas de homens aflhos. Vaqueiros que Para completar o desastre, os holandeses, expulsos daqui afinal abandonavam o gado no pasto, agricultores que deixavam suas la- em 1654, foram plantar cana nas Antilhas e na Guiana e condena- o.( vouras no litoral, comerciantes, artesãos, funcionários públicos, ofi- ram a produção brasileira à decadência. ciais de justiça, militares, todos largando emprego e família, numa À Corte, desesperada, só restou a esperança do ouro, da prata, das espécie de delírio coletivo, em busca do ouro. pedras preciosas. Se os espanhóis enriqueciam com a mineração em Deixou-se levar, com a certeza de que encontraria o Velho. sua banda da América do Sul, era preciso tentar o mesmo por aqui. Porque, sem dúvida, algo de importante vai acontecer. Antônio ia se inteirando da situação à medi1a.gye avançava Bra- A jumenta desenvolvera dois enormes e pontudos dentes cavala- sil adentro, em conversas de carteado nas pequenas vilas, em torno res, que Antônio procurava esconder com uma focinheira de couro. de fogueiras em acampamentos de vaqueiros, çm rodadas de gamão Ela dava trabalho. Quando sentia sede de sangue, ninguém a se- com fazendeiros abastados ou com parceiros de viagem ocasionais. gurava. Atacava cavalos, bois, antas, onças, até gente. A sorte de Antô- _.- - _ .. .,-- ---- Há décadas, saídas das capitanias ao sul, expedições já vasculha- vam o lllteúor atrás de jazidas. Iam longe, invadindo terras espanhQ~ nio é que ela só se alimentava à noite, nas veredas escuras e desertas do sertão. Ias, desrespeitando o velho Tratado de Tordesilhas. Como ele, a jumenta continuava desperta durante o dia, embora Acabaram descobrindo. um pouco mais lenta. Mas à noite, principalmente logo após sugar o sangue de suas vítimas, adquiria uma energia assustadora e prati- camente;;oava. Era comum subir em árvores atrás de algum maca- co distraído para sobremesa. Apesar dos contratempos, e das várias vezes em que quase os de- nunciou como vampiros, Antônio gostava dela. Sentia-se muito so- litário e só outra alma imortal podia lhe fazer companhia.~ Assim prosseguiram, com muitas paradas e desvios enormes. Maravilhava-se com o que via. Era capaz de passar anos numa curva espraiada de rio, no cume de uma montanha rochosá cercada de cachoeiras ou vendo as vilas próximas às jazidas incharem de gen- te. Admirava-se com os homens abrindo gigantescos buracos na terra, trabalhando como formigas. 33 32
  17. 17. • ~ . • 1" Viveu em Pitangui, Ribeirão do Carmo, Rio das Velhas e muitas 10; Muita revolta paraoutras vilas. pouca pólvora Foi na manhã em que pisou em Vila Rica, mais tarde conhecidacomo Ouro Preto, no outono de 1756, qug soube do grande terre-moto que havia arrasado Lisboa, destruindo dois terços da cidade ematando quarenta mil pessoas. Agora é que vamos dar com os burros n água. Nesses passeios de mula pelas redondezas de Vila Ric~, Antônio Chegava, afinal, à maior cidade mineradora da América do Sul e, procurava se inteirar de possíveis vítimas de vampiro. Sua eXperiên-cansado de procurar em vão pela nova encarnação do Velho, resol- cia lhe dizia que o Velho ocupava corpos de figuras importantes, mas,ve~ esperá-Io. na hora de se alimentar, preferia índios, escravos e pobres de uma Se o desgraçado aparecer, será aqui. maneira geral, cujas mortes não preocupavam a Justiça. • E tanto procürou que encontrou um grupo de mineiros, isola- dos ao pé de uma montanha, a muitas léguas da vila mais próxima, A tragédia em Lisboa tornou Portugal totalmente dependente da apavorados com os corpos de companheiros encontrados no fundoInglaterra, acrescentando às dívidas antigas os novos empréstimos das grutas. Chegou mesmo a ver um deles e teve certeza da presen-para a reconstrução da cidade. A única saída era aumentar ainda mais a intervenção nas colô- ça do Velbo: a garganta rasgada a unha, para disfarçar as duas mar-nias. Incentivar e fiscalizar a produção era bom, mas muito lento. O cas de dentes, e o corpo seco, mumificado, sem uma gota de san- gue nas veias.mais rápido era arrochar nos impostos. É claro que os brasileiros Na volta, ao pernoitar numa estalagem, dividiu a mesa com doisnão gostaram nem um pouco. .. A Coroa exagerava. Havia imposto sobre tudo ~a época. Pagava- personagens conhecidos. Fingiu tomar uma caneca de vinho para ouvir o que tramavam . se para passar na alfândega, para cruzar um rio, para comercializar qualquer produto, para vender e comprar terras, para estabelecer co- .~m deles estava se tornando famoso por conspirar contra a Co- mércio e para fechar comércio ... roa portuguesa, falando mal do governador e do vice-rei, pregando Num final de tarde chuvoso, durante um passeio um pouco ao abertamente a revolta armada e a independência do Brasil. Era ma- sul, um fiscal parou Antônio numa curva de trilha deserta e lhe co- gro e alto, uns quarenta anos, e um pouco vesgo. Alferes do regimen- brou um "imposto sobre circulação de mula". to de cavalaria de Vila Rica, tinha o apelido de Tiradentes, por ter Não teve tempo de receber. A jumenta-vampira arrancou-lhe a sido dentista antes de entrar para a carreira militar. cabeça e cravou os dentes no buraco do pescoço, chupando todo o O outro chamava-se Joaquim Silvério dos Reis, um importante seu sangue. "coronel" português, endividado com a Coroa até os cabelos. Antônio não fez nada para impedir. Após quase trezentos anos, Antôl?io já tomara algum dinheiro dos dois no carteado, por isso torcia pelos brasileiros. sentiram-se à vontade para conversar. Ou melhor, praticamente só Tir~dentes falou. A situação estava insustentável. O novo governador da capitania das Minas Gerais, o visconde de Barbacena, assumia o cargo com a promessa da temível forma de arrecadação conhecida como "derra- ma": a cobrança dos impostos atrasados, de uma vez só. 34 35
  18. 18. Revoltados com a metrópole, que os ameaçava com desapropria-ções, saques, torturas e prisões, a elite endividada planejava uma re- ;volução que a tornasse livre de uma vez por todas de Portugal. Tiradentes, com seus discursos inflamados, tornara-se o líder dpmovimento. - Já somos muitos - dizia ele -, dispostos a expulsar daquÍ osrepresentantes da Coroa, que só sabem chupar? nosso sangue. Ao escutar essa expressão, Antônio ficou atento e passou a des-confiar dele, embora seu apelido assustasse um vampiro. Ouviu então os planos secretos da revolução. Quando o visconde de Barbacena principiasse a "derrama", mar-cada para fevereiro de 1789, Tiradentes, comandando um grupo ar-mado, invadiria a casa do governador, cortaria sua cabeça e leriauma declaração de independência, proclamando a República. Tinham a certeza de contar com duzentos hQmens, armados commosquetes. O difícil era conseguir pólvora. Conversaram horas sobre os detalhes, os nomes envolvidos, assenhas, e quando afinal se separaram e Silvério dos Reis recolheu-seao quarto ao lado do seu, Antônio leu-lhe os pensamentos e nãogostou nem um pouco do que descobriu. O coronel iria trair a revolução. O maldito Velho já usou o corpo de um traidor antes. Pode muito bemfazer isso de novo. Resolveu vigiar Silvério dos Reis. Ficou de dlho em Tiradentes também. Quando ele fala em cortar cabeças, seus olhos brilham ... Além do mais, os dois estavam perto das recentes mortes na gruta. Dias depois foi à casa do desembargador Tomás Antônio Gon-zaga, com quem jogara gamão algumas vezes. Havia uma reuniãomarcada para o fim da tarde, no varandão interno, a que Tiraden-tes iria. Lá estavam padres, advogados, militares, funcionários públicos emuitos fazendeiros e proprietários de minas. Antônio misturou-se a eles. Eram os conspiradores. Falavam so-bre as idéias novas que surgiam na Europa, sobre o "liberalismo eco-nômico" que pregava o fim dos monopólios e dos pactos coloniais, Ii I 36
  19. 19. ..·dos ideais franceses de igualdade, fraternidade e liberdade, do "ilu- Antônio assistiu a tud<? revoltado, mas tinha por princípio não minismol", do "racionalism02" ••• interferir na História. Um dos problemas dos vampiros é se manter atualizado. Enquan- A primeira providência de Barbacena foi suspender a "derrama", to a um mortal basta conviver com sua época, :1mimortal tem de atra- desorientando os conspiradores. Depois, para não levantar suspei- vessar os séculos tentando acompanhar a evolução dos pensamentos, tas, foi substituindo vários comandantes militares, colocando ho- o surgimento das palavras novas, as modas. Dá trabalho. Por isso, mui- mens de confiança nos postos-chave. Por fim, pediu reforços de tro- tos vampiros preferem se isolar e só sair à noite, como os fantasmas. f;. pas ao vice-rei. Mas Antônio amava a vida e jurou manter o interesse pela huma- Tiradentes viajou até a nova capital do Brasil, São Sebastião do nidade até ter sua alma mortal de volta. Rio de Janeiro, no litorat pregando por onde passava a proclamação Davam os revoltos os exemplos de outras colônias, como a da da independência. !: América do Norte, que pouco tempo antes havia lutado contra a In- Antônio não pôde continuar vigiando os dois. Teve de escolher. glaterra e conquistado sua independência. Ficou em Vila Rica, de olho em Silvério dos Reis. - E também é contra a Inglaterra a nossa luta! - gritava Tira- Certa madrugada, num novo encontro, deixou o traidor na sala dentes. - Portugal paga suas dívidas com nosso ouro! A Coroa .de audiência do palácio e foi espiar pela janela dos aposentos do go- mantém seus luxos chupando nosso sangue. vernador por que ele demorava tanto. "Toda hora o gajo fala nisso. Ora pois, que aí tem coisa", pensa- Encontrou o visconde lanchando. va Antônio. De quatro, os dentes cravados no pescoço raspado de um bode! Voltaram a discutir sobre a falta de pólvora e como seria a ban~ Burro! Burro!deira da nova república, mas não chegavam a um acordo. Xingava-se Antônio, escondido entre os galhos de uma manguei- Reclamaram muito da situação. Todos ali, fora Tiradentes, que ra do jardim.era pobre, deviam à Coroa. Alguns, em desespero, planejavam fugir Ele não desconfiara do governador. 11 Ipara os sertões caso a revolução não vingasse. Procurou se acalmar e correu para o pequeno sobrado que aluga- Mas o que mais se falou, o motivo mesmo da reunião, era o fato ra no final da rua Direita. Lá, desembrulhou emocionado a estaca deirritante de o visconde de Barbacena ter adiado a "derrama" para um ~: carvalho que talhara há quase trezentos anos, apanhou na gaveta adia incerto. Isso atrapalhava todos os planos dos conspiradores, e marreta de madeira que comprara recentemente, como se estivesseeles se perguntavam o que estaria acontecendo. I adivinhando, e voltou ao palácio, disposto a recuperar sua alma mor- Só Antônio sabia. tal, já sonhando com feijão-tropeiro, cachaça com maracujá e a mu- Na noite seguinte ao encontro na estalagem, seguira o cOIonel lata do armazém.Silvério dos Reis em sua visita suspeita ao visconde. Esperou a reunião se encerrar. Ouviu o Velho, no corpo de Bar- O governador, um tipo estranho, calado e solitário, sempre tIían- bacena, ordenar que Silvério dos Reis fosse atrás de Tiradentes até acado em seu palácio afastado da cidade, recebeu o traidor em au- capital, denunciá-l o ao próprio vice-rei.diência privada e sigilosa e tirou dele todos os nomes e planos dos Horas depois de o traidor ir embora, o governador deitou-se econspiradores. Em troca, anistiou as dívidas do coronel. dormiu. Antônio esperava por isso. I Movimento filosófico do século XVIII que se caracterizava pela confiança no Levantou a janela guilhotina, entrou e mancou até a beira da progresso e na razão, pelo desafio à tradição e à autoridade e pelo incentivo à cama. O visconde roncava, dentro de seu camisolão de seda. liberdade de pensamento. 2 Doutrina que pretende explicat tudo pela razão. Finalmente, depois de tantos anos, terás o que mereces, maldito! 38 39
  20. 20. Segurando a estaca com a mão esquerda, pousou a ponta sobre o coração de Barbacena. Com o martelo na outra, e toda sua força de 11. O mundo gira; e os vampiro, desferiu o golpe mortal. lusitanos rodam Mas a estaca espatifou-se! Os cupins, em três séculos, haviam feito um estrago danado. .~ Uma sombra escura desprendeu-se do corpo do visconde numpulo e empurrou Antônio com tanta força que este se chocou cont~.a parede, derrubando a mesa, uma bacia de metal e um espelho. Ator- Antônio percorreu os quinhentos quilômetros que o separavamdoado, viu dois pontos de luz vermelha queo encaravam. Ouviu os da recente capital do Brasil em pouco mais de dois anos.gritos dos soldados que já batiam na porta. A sombra atravessou a pa- Admirou-se com a qualidade das estradas reais, as melhores da Co-rede. Só teve tempo de pular pela janela e se esconder na noite. lônia, largas, muitos trechos calçados com pedras arredondadas tira- Perdera novamente o Velho. das dos rios, e com boas estalagens para estirar-se em sua rede preta. No dia 20 de maio chegou a notícia da prisão de Tiradentes, no Teria chegado ao Rio de Janeiro antes se, na metade do caminho, :;.~~Rio de Janeiro, e das ordens do vice-rei para que as tropas do gover- a jumenta, enlouquecida pela sede, não tivesse chupado o sangue deno invadissem Vila Rica. Nos dias que se seguiram foram todos pre- dois cav;llos de uma tropa do governo.sos e despachados para as prisões da capital. Por sorte atacou-os longe da pousada onde Antônio pernoitara, Fazendeiros e proprietários de minas, que antes apoiavam os cons- e ninguém soube que a jumenta era dele. Mas uns vinte soldados con-piradores, agora apresentavam denúncias formais contra eles, na es- seguiram segurá-Ia e lhe cortaram a cabeça.perança de abatimentos nas dívidas. o Mesmo assim ela ainda correu pelos pastos por cinco dias e cin- Antônio arrumou suas coisas numa bolsa de couro, procurou por co noites, até sumir no mato. O fato foi comentado por décadas esua jumenta-vampira e começou a descer rumo ao Rio de Janeiro, acabou criando a lenda da mula-sem-cabeça.numa luminosa noite de lua cheia. Prosseguiu a pé, mas, como mancasse, ofereciam-lhe carona nas carruagens e quase sempre acabava em alguma fazenda, ou em vilas pequenas, jogando carteado e ganhando a vida. No começo do verão de 1792, ao final da travessia de uma alta cordilheira, seu olfato apurado de vampiro reconheceu a maresia, o cheiro salgado do Atlântico, que o acompanhava desde criança e que não sentia há um século e meio. Chegou ao Rio de Janeiro numa tarde de temporal, com as ruas alaga das e os raios queimando as altas palmeiras, no começo de abril. Hospedou-s~ num sobrado, de frente para o campo de São Do- mingos, e passou as semanas seguintes conhecendo a famosa cida- de, com suas montanhas de rochas onduladas entrando mar aden- tro, lagoas cheias de peixes e praias de águas cristalinas. Caravelas portuguesas haviam aportado ali no dia I? de janeiro de 1502, no que pensavam ser a foz de um grande rio, por isso o nome da cidade. 40 41
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