Trabalho cooperativo e coordenado. Entrevista com Jurjo Torres Santomé

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Trabalho cooperativo e coordenado. Entrevista com Jurjo Torres Santomé
Pátio. Ensino Médio, Profissional e Tecnológico. Nº: 16. Ano: 2013. Janeiro 2013

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Trabalho cooperativo e coordenado. Entrevista com Jurjo Torres Santomé

  1. 1. Trabalho cooperativo e coordenado“Minha trajetória profissional e investigativa é marcadapela tentativa de compreender por que os alunos nãoconseguem achar interessante e apaixonante suapassagem pelas salas de aula”, diz o professor JurjoTorres Santomé, catedrático de Didática e OrganizaçãoEscolar na Universidade da Corunha. “É essa indagaçãoque me leva a experimentar e propor alternativas para otrabalho curricular em sala de aula”, explica o espanhol.Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, ele aborda a articulação entre disciplinas comouma dessas alternativas. “Estou iniciando um novo projeto de pesquisa, centrado em coligir asvozes dos alunos de educação secundária obrigatória (12 a 16 anos de idade), opinando sobre evalorizando o trabalho que fazem em sala de aula nas diferentes matérias”, conta. “Tenhointeresse em ouvir suas vozes e, obviamente, suas sugestões e propostas. Creio que podemosaprender muito com eles, como, por exemplo, a trabalhar respeitando-os mais, algo que meparece muito necessário, urgente e justo”, diz.Há muitos nomes para designar a integração das diversas áreas do conhecimento na escola,como transdisciplinaridade, multidisciplinaridade, interdisciplinaridade. O senhor considera queexiste diferença entre elas?Esses três nomes referem-se ao tipo de relações de colaboração que as disciplinas ou corpusespecializados do conhecimento estabelecem entre si. A mais elementar seria amultidisciplinaridade, uma colaboração entre especialidades, por exemplo, para enfrentar umproblema, mas mantendo, cada uma delas, sua idiossincrasia, sua estrutura conceitual,metodológica, avaliativa, etc. Essa é a relação mais comum; supõe, em um primeiro momento,admitir que outras disciplinas também têm algo a dizer sobre um tema que se considera queseja competência de sua disciplina. A interdisciplinaridade já implica maior integração dasdisciplinas, que passam a compartilhar e intercambiar conceitos, terminologias, metodologias,com um claro propósito de colaborar, participar e trabalhar de igual para igual. Atransdisciplinaridade supõe maior nível de integração de várias disciplinas. Seria como criar ummodelo onicompreensivo no qual não haveria fronteiras nem disputas entre as especialidadesdisciplinares. É ir além das disciplinas e das disputas entre elas.Qual a opção que melhor define a ideia de base para um currículo integrado?Um currículo integrado apoia-se claramente em uma interdisciplinaridade do conhecimento.Admite-se, como ponto de partida, que tudo está interconectado. Por isso, propomos processosde ensino e aprendizagem nos quais os alunos visualizem e construam significados,conhecimentos significativos em que fiquem claras essas conexões entre diferentes disciplinas.Quais os benefícios de um currículo integrado?Um currículo integrado permite-nos introduzir temas novos e mais interessantes na sala de aula,Grupo A » Revista Pátio » Entrevista » Trabalho cooper... http://www.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/8459/trab...1 de 5 20/03/13 17:39
  2. 2. cruzá-los com conceitos, saberes e procedimentos de diversas disciplinas, estimular uma maiorcuriosidade e espírito de exploração, investigação e inovação nos alunos; ajudá-los a captar e aconsiderar o maior número possível de pontos de vista para tomar decisões, para fazerjulgamentos mais equilibrados acerca da importância e da necessidade de dominardeterminados saberes que até então não viam como necessários. Essa aposta nainterdisciplinaridade do conhecimento será de enorme utilidade para estimularmos os alunos acompreender a necessidade de colaborar, de trabalhar em equipe com outras pessoas, deentender as necessidades de outros povos, de manter um compromisso e um trabalho em favorda sustentabilidade do planeta.Por que a concepção disciplinar foi dominante na escola do passado?No passado, havia alguma razão para que a concepção disciplinar fosse dominante: nãoprecisávamos do controle de outras disciplinas para evitar consequências imprevistas ao pôr emprática o saber disciplinar. As disciplinas “disciplinam” a mente para selecionar, interessar-se,interpretar e valorizar unicamente aquela realidade ou aquelas questões que fazem parte deseus referenciais conceituais e metodológicos. A disciplinaridade das mentes funciona tambémpara confrontar as disciplinas entre si, para convertê-las em rivais. Cada um de nós, comoespecialista, sempre pensa que tem muitas necessidades, que precisa de muito mais recursosque os outros, que é mais importante e indispensável para a formação dos alunos que as demaisespecialidades.E por que essa concepção continua sendo dominante no presente?Na última década, os obstáculos a um currículo integrado vêm aumentando de maneira bastantesignificativa, à medida que se consolidam políticas comparativistas para avaliar a qualidade dossistemas educacionais dos diferentes países. Um exemplo é o que ocorre com provas como oPISA, promovido pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Aobsessão dos países é ter êxito nessas provas e, com isso, essas disciplinas submetidas àavaliação internacional são as que recebem cada vez mais atenção e recursos humanos eeconômicos. O resultado dessas políticas comparativistas é que acabam convencendo a maioriados professores — e, inclusive, as famílias — de que seu trabalho consiste em treinar os alunospara que tenham êxito nesses testes e alcancem as melhores posições possíveis nos rankingsproduzidos. É evidente que treinar os alunos para fazer avaliações é algo radicalmente distintode educar cidadãs e cidadãos para entender, participar de e viver em sociedades maisdemocráticas, justas e solidárias.Com a complexidade crescente do conhecimento nas diferentes áreas, é possível promover ainterdisciplinaridade na escola?É evidente que sim. Essa complexidade é o que está fazendo com que as universidades apostemem modelos de ensino mais interdisciplinares, com que todos os grupos de pesquisa sejamrealmente interdisciplinares. Por isso, não é lógico pensar que nas etapas educativas anterioresnão se trabalhe com essa mesma filosofia educativa capaz de confrontar os alunos com umconhecimento verdadeiramente relevante e significativo. É muito difícil que o currículodisciplinar ajude a responder às necessidades dos alunos de hoje, sobretudo se nos confrontamoscom perguntas-chave que nos fazemos explicitamente há décadas, mas que incomodam aGrupo A » Revista Pátio » Entrevista » Trabalho cooper... http://www.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/8459/trab...2 de 5 20/03/13 17:39
  3. 3. maioria dos governos que, por isso, tratam de silenciá-las: de que conhecimentos necessitam asnovas gerações; quem deve participar da seleção; a que objetivos devem atender osconhecimentos selecionados; que metodologias são apropriadas para capacitar a uma cidadaniaverdadeiramente informada, comprometida e responsável com os assuntos públicos.No ensino médio, etapa conclusiva da educação básica, o diálogo entre saberes éimprescindível. Na realidade, porém, isso não acontece. Quais os principais entraves a essaconexão entre as disciplinas?Basicamente os medos e a falta de confiança em nós mesmos. Temos medo de nos equivocar oude que os outros descubram lacunas em nossos saberes, pois nos ensinaram que erros, dúvidas efalhas, medos e dificuldades são algo que merece punição ou castigo. Somos extremamenteinseguros, o que em princípio é bom, se utilizamos isso para trabalhar com outras pessoas esomar saberes, indagar e arriscarmo-nos a inovar de maneira colaborativa. Se você é educadodisciplinarmente, fica mais difícil atrever-se a uma inovação tão complexa como é o caso docurrículo integrado.O que é preciso para que haja uma mudança efetiva rumo à educação interdisciplinar?Estimular uma mudança nessa direção implica convencer as instituições universitárias deformação e atualização dos professores de que o mundo atual requer que formemos professorescomprometidos ativa e reflexivamente com o trabalho interdisciplinar. Mediante uma formaçãocoerente com essa filosofia, promoveremos docentes comprometidos com princípios éticos comogenerosidade intelectual (reconhecimento do trabalho das demais especialidades e profissões);confiança intelectual (crença no fato de que todos os especialistas podem dar contribuiçõesimportantes e, mais do que isso, disposição a submeter o próprio trabalho à avaliação de“estranhos”); humildade intelectual (reconhecimento da parcialidade e da incompletude doconhecimento em que somos especialistas e, portanto, disposição para pôr em risco nossaautoestima e assumir que outras disciplinas o revisem criticamente e tentem completá-lo);flexibilidade intelectual (aceitação da mudança de nossas perspectivas e de nossos pontos devista por sugestão e convencimento por outras disciplinas e áreas do conhecimento); integridadeintelectual (desenvolvimento do seu trabalho de maneira responsável e séria, tentando semprebuscar a verdade e dando o melhor de si, sem medo das pressões de poderes autoritários).Como um professor pode trabalhar de forma interdisciplinar e, ao mesmo tempo, aprofundaro conteúdo de sua disciplina específica?Essa é uma questão essencial. O currículo interdisciplinar destina-se a promover uma forma maiscompleta de pensar, aprender e utilizar o conhecimento; implica ver além das barreiras mentaiscriadas pelas disciplinas; obriga-nos a enxergar os efeitos colaterais aos quais raramenteprestamos atenção, já que nossas disciplinas também nos disciplinam a olhares mais seletivos eparciais. Cada disciplina realmente tem sua lógica interna, uma epistemologia dominante querevela seus frutos no constante avanço do conhecimento construído e reconstruído por seuspesquisadores. Em muitas disciplinas, existe uma hierarquia conceitual e/ou procedimental queobriga a organizar a aprendizagem dos alunos de determinado modo, respeitando essa estruturainterna. Entre os dilemas e prioridades a que o currículo escolar deve fazer frente, podemoscitar: ou educar exclusivamente especialistas que dominem bem essas disciplinas históricas, umGrupo A » Revista Pátio » Entrevista » Trabalho cooper... http://www.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/8459/trab...3 de 5 20/03/13 17:39
  4. 4. modelo claramente reprodutor, ou buscar uma melhor compreensão da realidade, desse mundomais integrado e interdependente, apostando em uma maior socialização das novas gerações,como cidadãos que precisam ser conscientes e aprender a se mover nesses espaços “inter”;pessoas que devem ver-se como interdependentes, assumindo que têm obrigações, direitos eresponsabilidades para com os demais.Na escola, os saberes específicos contidos nas diversas disciplinas continuam estanques eincomunicáveis. O que é necessário para a construção de um currículo interdisciplinar?Além de uma boa formação cultural e científica, precisamos de docentes com boa formaçãodidática, sociológica e psicopedagógica. Contudo, também precisamos de uma administraçãoeducacional que compreenda essa necessidade e, por conseguinte, promova normas, incentivose dotações apropriadas para realizar esse tipo de inovação educativa. Precisamos de docentesque aceitem que é preciso trabalhar colaborativamente com os colegas, de diretoras e diretoresde escolas que promovam esse tipo de trabalho mais integrado. As velhas tradições e rotinas doprofessor sozinho em sua classe, decidindo e planejando sem nenhuma coordenação com oscolegas, são um lastro do qual precisamos urgentemente nos libertar. Um currículo maisintegrado requer uma política educacional claramente decidida a convencer a uns e outros deque todos somos imprescindíveis, embora trabalhemos de forma cooperativa e coordenada.Qual é o caminho para alcançar tal objetivo?A escola deve garantir o acesso ao conhecimento, mas a um conhecimento que sempre comportaníveis de aprofundamento. Esse conhecimento costuma ter uma organização disciplinar que nospossibilitou historicamente maiores avanços à medida que compreendíamos seus conceitos-chave, suas estruturas conceituais, procedimentos, metodologias de pesquisa e avaliação donovo conhecimento. Um conhecimento relevante para os alunos não pode prescindir dessaschaves, mas também precisa completá-lo com outros saberes que lhes permitam percebê-locomo significativo, útil, válido para entender o mundo com mais rigor e objetividade. Nãopodemos negar aos alunos as chaves que permitem ter acesso a esse conhecimento organizadode maneira disciplinar e às novas disciplinas que emergem constantemente de dinâmicasinterdisciplinares, como bioquímica, eletroquímica, sociolinguística, bioética, biogeoquímica eetnomusicologia, entre outras.A interdisciplinaridade é uma utopia na escola?É uma meta, sempre aperfeiçoável, a se alcançar. São sempre possíveis maiores níveis deinterdisciplinaridade. No entanto, é preciso estar consciente dos obstáculos. É preciso aprendera elaborar currículos mais equilibrados, nos quais as disciplinas não sejam definitivamenteesquecidas, e sim coordenadas com propostas mais integradas, assim como tentamos integrar oglobal e o local.Créditos das imagens:Foto: Eduardo Castro Bal/divulgaçãoGrupo A » Revista Pátio » Entrevista » Trabalho cooper... http://www.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/8459/trab...4 de 5 20/03/13 17:39
  5. 5. Grupo A » Revista Pátio » Entrevista » Trabalho cooper... http://www.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/8459/trab...5 de 5 20/03/13 17:39

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