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  • Conferências introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) VOLUME XV (1915-1916) Dr. Sigmund Freud
  • 2 CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS SOBRE PSICANÁLISE (1916-17 [1915-17]) INTRODUÇÃO DO EDITOR INGLÊS VORLESUNGEN ZUR EINFÜHRUNG IN DIEPSYCHOANALYSE (a) EDIÇÕES ALEMÃS: 1916 Parte I (em separado), Die Fehlleistungen. Leipzig e Viena: Heller. 1916 Parte II (em separado), Der Traum. Mesmos editores. 1917 Parte III (em separado), Allgemeine Neurosenlehre. Mesmos editores. 1917 Os títulos acima, as três partes em um só volume. Mesmos editores. viii + 545 págs. 1918 2ª ed. (Com índice e inserção de lista de 40 corrigendas.) Mesmos editores. viii + 553 págs. 1920 3ª ed. (Reimpressão corrigida da edição anterior.) Leipzig, Viena e Zurique: InternationalerPsychoanalytischer Verlag. viii + 553 págs. 1922 4ª ed. (Reimpressão corrigida da edição anterior.) Mesmos editores. viii + 554 págs. (Também asPartes II e III em separado, sob os títulos de Vorlesungen über den Traum e Allgemeine Neurosenlehre.) 1922 Ed. de bolso. (Sem índice). Mesmos editores. iv + 495 págs. 1922 Ed. de bolso. (2ª ed., corrigida e com índice.) Mesmos editores. iv + 502 págs. 1924 G.S., 7. 483 págs. 1926 5ª ed. (Reimpressão das G.S.) I.P.V. 483 págs. 1926 Ed. de bolso. (3ª ed.) Mesmos editores. 1930 Ed. em 8 pequenos vols. I P.V. 501 págs. 1933 (Com autorização) Berlim: Kiepenheuer. 524 págs. 1940 G.W., 11, 495 págs. (b) TRADUÇÕES INGLESAS: A General Introduction to Psychoanalysis 1920 Nova Iorque: Boni & Liveright. x + 406 págs. (Tradutor não especificado; Prefácio de G. StanleyHall.) Introductory Lectures on Psycho-Analysis 1922 Londres: Allen & Unwin. 395 págs. (Trad. de Joan Riviere; sem prefácio de Freud; com prefácio deErnest Jones.) 1929 2a. ed. (revista). Mesmos editores. 395 págs. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 3 A General Introduction to Psychoanalysis 1935Nova Iorque: Liveright. 412 págs. (A ed. de Londres com o título da anterior de Nova Iorque. Trad.de Joan Riviere; com prefácios de Ernest Jones e G. Stanley Hall; incluído o prefácio de Freud). A presente tradução inglesa é nova e da autoria de James Strachey. Esta obra teve uma circulação maior do que qualquer outra obra de Freud, com exceção, talvez, de ThePsychopathology of Everyday Life. Também se distingue pela quantidade de erros de impressão nelaexistentes. Como ficou assinalado acima, quarenta foram corrigidos na segunda edição; porém havia aindamuitos mais, e pode ser observado um número considerável de pequenas variações no texto das diversasedições. A presente tradução inglesa segue o texto dos Gesammelte Werke, que é, de fato, idêntico ao textodos Gesammelte Schriften; e somente foram registradas as discordâncias mais importantes das primeirasversões. A data real de publicação das três partes não está definida. A Parte I certamente surgiu antes do fim dejulho de 1916, como se verifica por uma referência que a ela se faz em uma carta de Freud a Lou Andreas-Salomé, de 27 de julho de 1916 (cf. Freud, 1960a). Na mesma carta, ele também fala na Parte II como estandoprestes a aparecer. Uma carta de 18 de dezembro de 1916, que Freud escreveu a Abraham, sugere que, comefeito, ela apenas apareceu no fim do ano (cf. Freud, 1965a). A Parte III parece ter sido publicada em maio de1917. O ano acadêmico da Universidade de Viena se dividia em dois períodos: um período (ou semestre) deinverno, que ia de outubro a março, e um período de verão, de abril a julho. As conferências publicadas nestelivro foram proferidas por Freud em dois períodos de inverno sucessivos, durante a Primeira Guerra Mundial:1915-16 e 1916-17. Os relatos mais completos das circunstâncias que conduziram à sua publicação serãoencontrados no segundo volume da biografia escrita por Ernest Jones (1955, pág. 255 e seguintes). Embora, como o próprio Freud observara em seu prefácio às New Introductory Lectures, sua qualidadede membro da Universidade de Viena tivesse sido apenas ‘periférica’, desde os tempos de sua indicação comoPrivatdozent (Livre Docente da Universidade), em 1885, e como Professor Extraordinarius (ProfessorAssistente), em 1902, havia realizado muitos ciclos de conferências na Universidade. Estes ficaram semregistro, embora alguns relatos dos mesmos possam ser encontrados — por exemplo, os de Hanns Sachs(1945, pág. 39 e segs.) e Theodor Reik (1942, pág. 19 e segs.), bem como os de Ernest Jones (1953, pág. 375e segs.). Freud decidiu que a série que começava no outono de 1915 deveria ser a última, e foi por sugestão deOtto Rank que Freud concordou com sua publicação. Em seu prefácio às New Introductory Lectures, há poucocitado, Freud nos refere que a primeira metade da série atual, a série inicial, ‘foi improvisada e escrita logodepois’, e que ‘esboços da segunda metade foram feitos durante as férias do verão intermediário, em Salzburg,e passados para o papel, palavra por palavra, no inverno seguinte’. Acrescenta que, naquela época, ‘aindapossuía o dom de uma memória fotográfica’, pois, por mais cuidadosamente que suas conferências pudessemter sido preparadas, na realidade, invariavelmente, as proferia de improviso, e geralmente sem anotações.Existe concordância geral no tocante à sua técnica de dar conferências: que ele nunca era retórico e que seutom era sempre o de uma conversação tranqüila e mesmo íntima. Contudo, não se deve supor, por isso, quehouvesse algo de desleixo ou desordem nessas conferências. Elas quase sempre tinham uma forma definida —início, meio e fim — e podiam, freqüentemente, dar ao ouvinte a impressão de possuírem uma unidade estética. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 4 Foi mencionado (Reik, 1942, 19) que ele não gostava de dar conferências, no entanto é difícil conciliaressa afirmação não apenas com a quantidade de conferências que proferiu no decurso de sua vida, mastambém com a quantidade notavelmente elevada de seus trabalhos efetivamente publicados que estão sob aforma de conferências. Existe, entretanto, uma possível explicação para essa discordância. Um exame mostraque, entre suas publicações, são predominantemente os trabalhos expositivos que aparecem comoconferências: por exemplo, a conferência inicial sobre ‘The Aetiology of Hysteria’ (1896c), a que surgiu umpouco depois ‘Sobre a Psicoterapia’ (1905a), assim como, naturalmente, as Cinco Lições, proferidas naAmérica (1910a), e a presente série. Contudo, além disso, quando empreendeu anos depois uma exposiçãodas mais recentes evoluções de seus pontos de vista, ele, sem qualquer motivo evidente, mais uma vez ascolocou na forma de conferências e publicou suas New Introductory Lectures (1933a), embora jamais houvessequalquer possibilidade de serem dadas à luz como tais. Assim, Freud se socorreu evidentemente dasconferências como método de expor suas opiniões, mas apenas sob uma condição particular: ele devia estarem vívido contato com seu auditório real ou suposto. Os leitores do presente volume descobrirão como éconstante Freud manter esse contato — quão regularmente ele coloca objeções na boca de seus ouvintes, equão freqüentemente existem debates imaginários entre ele e seus ouvintes. Na verdade, ele estendia essemétodo de formular suas exposições a alguns de seus trabalhos que absolutamente não são conferências: atotalidade de The Question of Lay Analysis (1926e) e a maior parte de O Futuro de uma Ilusão (1927c) tomarama forma de diálogos entre o autor e um ouvinte que faz críticas. Contrariamente, talvez, a certas noçõeserrôneas, Freud era inteiramente avesso à exposição de suas opiniões em forma autoritária e dogmática: ‘Nãoo direi aos senhores’, ele diz à sua audiência, em uma passagem adiante (pág. 433), ‘mas insistirei em que odescubram por si mesmos’. As objeções não eram para ser abafadas, mas esclarecidas e examinadas. E isso,afinal, não era mais que um prolongamento de um aspecto essencial da técnica da própria psicanálise. As Conferências Introdutórias podem ser verdadeiramente consideradas como um inventário dasconceituações de Freud e da posição da psicanálise na época da Primeira Guerra Mundial. As dissidências deAdler e Jung já eram história passada, o conceito de narcisismo já tinha alguns anos de vida, o caso clínico do‘Wolf Man’, que marcou época, tinha sido escrito (com exceção de duas passagens) um ano antes do começodas conferências, embora não fosse publicado senão mais tarde. E, também, a grande série de artigos‘metapsicológicos’ sobre a teoria fundamental tinha sido ultimada alguns meses antes, ainda que apenas trêsdeles tivessem sido publicados. (Mais dois deles surgiram logo após as conferências, porém os sete restantesdesapareceram sem deixar vestígio.) Essas últimas atividades e, sem dúvida, também a realização dasconferências tinham sido facilitadas pela diminuição do trabalho clínico de Freud, imposta pelas condições daguerra. Parecia haver-se chegado a um divisor de águas, e era como se houvesse chegado a época para umapausa. De fato, porém, estavam em preparação idéias novas que deviam vir à luz em Além do Princípio dePrazer (1920g), Psicologia de Grupo (1921c) e O Ego e o Id (1923b). Em verdade, a linha não deve ser traçadacom tanta exatidão. Por exemplo, já podem ser detectados indícios da noção da ‘compulsão à repetição’ (págs.292-3), e os começos da análise do ego estão bastante evidentes (págs. 423 e 428-9), ao passo que asdificuldades referentes aos múltiplos sentidos da palavra ‘inconsciente’ (ver em [1]) preparam o caminho parauma nova descrição estrutural da mente. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 5 Em seu prefácio a estas conferências, Freud fala um pouco depreciativamente da falta de novidade emseu conteúdo. No entanto, ninguém, embora muito tenha lido de literatura psicanalítica, precisa sentir receio dese entediar com estas conferências, e ainda poderá achar nelas muitas coisas que não se encontrarão em outrolugar. As discussões sobre ansiedade (Conferência XV) e sobre fantasias primitivas (Conferência XXIV), queFreud mesmo, no prefácio, aponta como material recente, não são as únicas que ele podia ter mencionado. Arevisão do simbolismo na Conferência X, é, provavelmente, a mais completa que fez. Em nenhuma outra partefornece tão claro resumo da formação dos sonhos como nas últimas páginas da Conferência XIV. Sobre asperversões, não há comentários mais inteligíveis do que aqueles encontrados nas Conferências XX e XXI.Finalmente, não existe absolutamente qualquer tópico que se iguale à análise dos processos de terapiapsicanalítica, feita na última conferência. E mesmo onde os assuntos pareceriam estar surrados, como omecanismo das parapraxias e dos sonhos, a abordagem é feita a partir de direções inesperadas, lançando novaluz sobre o que poderia ter parecido terreno por demais conhecido. As Conferências Introdutórias seguramentemerecem sua popularidade. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 6 PREFÁCIO [1917] O que ao público agora ofereço como uma ‘Introdução à Psicanálise’ não se destina a competir, deforma alguma, com determinadas descrições gerais desse campo de conhecimento, como aquelas jáexistentes, e dentre as quais citam-se, por exemplo: as de Hitschmann (1913), Pfister (1913), Kaplan (1914),Régis e Hesnard (1914) e Meijer (1915). Este volume é uma reprodução fiel das conferências que proferi [naUniversidade], durante as duas temporadas de inverno de 1915/16 e 1916/17, perante um auditório de médicose leigos de ambos os sexos. Quaisquer peculiaridades deste livro que possam surpreender os leitores são devidas às condições emque ele se originou. Em minha apresentação não foi possível preservar a tranqüila serenidade de um tratadocientífico. Pelo contrário, o conferencista tinha de se empenhar em evitar que a atenção de seu auditóriodeclinasse durante uma sessão de quase duas horas de duração. As necessidades do momento muitas vezestornaram impossível evitar repetições ao tratar de um determinado assunto — poderiam emergir uma vez, porexemplo, em relação à interpretação de sonhos e, mais tarde, de novo, em relação aos problemas dasneuroses. Também em conseqüência da maneira como o material foi ordenado, alguns tópicos importantes (oinconsciente, por exemplo) não puderam ser exaustivamente debatidos em um só ponto, mas tiveram de serretomados repetidamente e outra vez abandonados, até que surgisse nova oportunidade para acrescentaralguma informação adicional a respeito. Aqueles que estão familiarizados com a literatura psicanalítica encontrarão nesta ‘Introdução’ poucacoisa que não lhes seja conhecida já a partir de outras publicações muito mais detalhadas. Não obstante, anecessidade de completar e resumir algum tema compeliu o autor, em certos pontos (a etiologia da ansiedade eas fantasias histéricas), a apresentar material que até então havia retido. FREUD. VIENA, primavera de 1917. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 7 PREFÁCIO DA TRADUÇÃO HEBRAICA [1930] Estas conferências foram proferidas em 1916 e 1917; proporcionaram uma descrição muitopormenorizada da posição da jovem ciência naquela época, e continham mais do que seu título indicava.Proporcionaram não apenas uma introdução à psicanálise, mas abrangeram a maior parte de seu conteúdotemático. Isso, naturalmente, já não é mais verdade. Nesse meio tempo houve progressos em sua teoria eimportantes acréscimos à mesma, como a divisão da personalidade em ego, superego e id, uma modificaçãoradical na teoria dos instintos, bem como descobertas referentes à origem da consciência e do sentimento deculpa. Assim sendo, estas conferências se tornaram em grande parte incompletas; na verdade, somente agoraé que se tornaram realmente ‘introdutórias’. Porém, em outro sentido, mesmo hoje elas não foram suplantadas,nem se tornaram obsoletas. O que contêm ainda é acreditado e pensado, afora algumas poucas modificações,nos institutos de formação psicanalítica. Os leitores de hebraico e especialmente os jovens, ávidos de conhecimento, se defrontarão nestevolume com a psicanálise vestida com o antigo idioma que tem sido despertado para uma vida nova pelavontade do povo judeu. O autor bem pode imaginar o problema que se propôs seu tradutor. E nem podesuprimir a dúvida quanto a saber se Moisés e os Profetas teriam julgado inteligíveis estas conferências emhebraico. Pede, entretanto, aos descendentes deles (entre os quais ele próprio se inclui), a quem este livro sedestina, para que não reajam demasiado prontamente a seus primeiros impulsos de crítica e enfado, rejeitando-o. A psicanálise revela tantas coisas novas, e, em meio a tudo isso, tantas coisas que contraditam opiniõestradicionais, e tanto fere sentimentos profundamente arraigados, que não pode deixar de provocar contestação.O leitor, se deixar em suspenso seu julgamento e permitir que a psicanálise, como um todo, provoque nele suaimpressão, talvez se torne receptivo à convicção de que mesmo essa indesejada novidade é digna de seconhecer e indispensável para todo aquele que deseja compreender a mente e a vida humana. VIENA, dezembro de 1930 Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 8 PARTE I - PARAPRAXIAS (1916 [1915]) CONFERÊNCIA I - INTRODUÇÃO SENHORAS E SENHORES: Não posso dizer quanto conhecimento sobre psicanálise cada um dos senhores já adquiriu pelasleituras que fez, ou por ouvir dizer. Mas o título de meu programa — ‘Introdução Elementar à Psicanálise’ —obriga-me a tratá-los como se nada soubessem e estivessem necessitados de algumas informaçõespreliminares. Posso, no entanto, seguramente supor que sabem ser a psicanálise uma forma de executar otratamento médico de pacientes neuróticos. E aqui já lhes posso dar um exemplo de como, nessa atividade,numerosas coisas se passam de forma diferente — e muitas vezes, realmente, de forma oposta — de comoocorrem em outros campos da prática médica. Quando, em outra situação, apresentamos ao paciente umatécnica que lhe é nova, de hábito minimizamos os inconvenientes desta e lhe damos confiantes promessas deêxito do tratamento. Penso estarmos justificados de assim proceder, de vez que desse modo estamosaumentando a probabilidade de êxito. Quando, porém, tomamos em tratamento analítico um paciente neurótico,agimos diferentemente. Mostramos-lhe as dificuldades do método, sua longa duração, os esforços e ossacrifícios que exige; e, quanto a seu êxito, lhe dizemos não nos ser possível prometê-lo com certeza, quedepende de sua própria conduta, de sua compreensão, de sua adaptabilidade e de sua perseverança. Temosboas razões, naturalmente, para manter essa conduta aparentemente obstinada no erro, como talvez ossenhores virão a verificar mais adiante. Não se aborreçam, então, se começo por tratá-los da mesma forma como a esses pacientes neuróticos.Seriamente eu os advirto de que não venham ouvir-me uma segunda vez. Para corroborar esta advertência,explicarei quão incompleto deve necessariamente ser qualquer conhecimento da psicanálise, e que dificuldadessurgem no caminho dos senhores ao formarem um julgamento próprio a respeito dela. Mostrar-lhes-ei comotoda a tendência de sua educação prévia e todos os seus hábitos de pensamento estão inevitavelmentepropensos a fazer com que se oponham à psicanálise, e quanto teriam de superar, dentro de si mesmos, paraobter o máximo de vantagem dessa natural oposição. Não posso, certamente, predizer quanto entendimento depsicanálise obterão das informações que lhes dou, contudo posso prometer-lhes isto: que, ouvindo-asatentamente, não terão aprendido como efetuar uma investigação psicanalítica ou como realizar um tratamento.No entanto, na hipótese de que um dos senhores não se sentisse satisfeito com um ligeiro conhecimento dapsicanálise, mas estivesse inclinado a entrar em relação permanente com ela, não apenas eu o dissuadiria deagir assim, como ativamente também o admoestaria para não fazê-lo. Da maneira como estão as coisas, nomomento, tal escolha de profissão arruinaria qualquer possibilidade de obter sucesso em uma universidade, e, Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 9se começou na vida como médico clínico, iria encontrar-se numa sociedade que não compreenderia seusesforços, que o veria com desconfiança e hostilidade e que despejaria sobre ele todos os maus espíritos queestão à espreita dentro dessa mesma sociedade. E os acontecimentos que acompanham a guerra, que agoraassola a Europa, lhes darão talvez alguma noção de que legiões desses maus espíritos podem existir. Não obstante, há bom número de pessoas para as quais, a despeito desses inconvenientes, algo quepromete trazer-lhes uma nova parcela de conhecimento tem ainda seu atrativo. Se alguns dos senhorespertencerem a essa espécie de pessoas, e, malgrado minhas advertências, novamente aqui comparecerempara minha próxima conferência, serão bem-vindos. Todos, porém, têm o direito de saber da natureza dasdificuldades da psicanálise, às quais aludi. Iniciarei por aquelas dificuldades vinculadas ao ensino, à formação em psicanálise. Na formaçãomédica os senhores estão acostumados a ver coisas. Vêem uma preparação anatômica, o precipitado de umareação química, a contração de um músculo em conseqüência da estimulação de seus nervos. Depois,pacientes são demonstrados perante os sentidos dos senhores: os sintomas de suas doenças, asconseqüências dos processos patológicos e, mesmo, em muitos casos, o agente da doença isolado. Nosdepartamentos cirúrgicos, são testemunhas das medidas ativas tomadas para proporcionar socorro aospacientes, e os senhores mesmos podem tentar pô-las em execução. Na própria psiquiatria, a demonstração depacientes, com suas expressões faciais alteradas, com seu modo de falar e seu comportamento, propicia aossenhores numerosas observações que lhes deixam profunda impressão. Assim, um professor de curso médicodesempenha em elevado grau o papel de guia e intérprete que os acompanha através de um museu, enquantoos senhores conseguem um contato direto com os objetos exibidos e se sentem convencidos da existência dosnovos fatos mediante a própria percepção de cada um. Na psicanálise, ai de nós, tudo é diferente. Nada acontece em um tratamento psicanalítico além de umintercâmbio de palavras entre o paciente e o analista. O paciente conversa, fala de suas experiências passadase de suas impressões atuais, queixa-se, reconhece seus desejos e seus impulsos emocionais. O médicoescuta, procura orientar os processos de pensamento do paciente, exorta, dirige sua atenção em certasdireções, dá-lhe explicações e observa as reações de compreensão ou rejeição que ele, analista, suscita nopaciente. Os desinformados parentes de nossos pacientes, que se impressionam apenas com coisas visíveis etangíveis — preferivelmente por ações tais como aquelas vistas no cinema —, jamais deixam de expressar suasdúvidas quanto a saber se ‘algo não pode ser feito pela doença, que não seja simplesmente falar’. Essa,naturalmente, é uma linha de pensamento ao mesmo tempo insensata e incoerente. Essas são as mesmaspessoas que se mostram assim tão seguras de que os pacientes estão ‘simplesmente imaginando’ seussintomas. As palavras, originalmente, eram mágicas e até os dias atuais conservaram muito do seu antigopoder mágico. Por meio de palavras uma pessoa pode tornar outra jubilosamente feliz ou levá-la ao desespero,por palavras o professor veicula seu conhecimento aos alunos, por palavras o orador conquista seus ouvintespara si e influencia o julgamento e as decisões deles. Palavras suscitam afetos e são, de modo geral, o meio demútua influência entre os homens. Assim, não depreciaremos o uso das palavras na psicoterapia, e nosagradará ouvir as palavras trocadas entre o analista e seu paciente. Contudo, nem isso podemos fazer. A conversação em que consiste o tratamento psicanalítico nãoadmite ouvinte algum; não pode ser demonstrada. Um paciente neurastênico ou histérico pode, naturalmente, Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 10como qualquer outro, ser apresentado a estudantes em uma conferência psiquiátrica. Ele fará uma descrição desuas queixas e de seus sintomas, porém apenas isso. As informações que uma análise requer serão dadaspelo paciente somente com a condição de que ele tenha uma ligação emocional especial com seu médico; elesilenciaria tão logo observasse uma só testemunha que ele percebesse estar alheia a essa relação. Isso porqueessas informações dizem respeito àquilo que é mais íntimo em sua vida mental, a tudo aquilo que, comopessoa socialmente independente, deve ocultar de outras pessoas, e, ademais, a tudo o que, comopersonalidade homogênea, não admite para si próprio. Portanto, os senhores não podem estar presentes, como ouvintes, a um tratamento psicanalítico. Estepode, apenas, ser-lhes relatado; e, no mais estrito sentido da palavra, é somente de ouvir dizer que chegarão aconhecer a psicanálise. Como conseqüência do fato de receberem seus conhecimentos em segunda mão, porassim dizer, os senhores estarão em condições bem incomuns para formar um julgamento. Isto obviamentedependerá, em grande parte, do quanto de crédito podem dar a seu informante. Suponhamos, por um momento, que os senhores estivessem ouvindo uma conferência não sobrepsiquiatria, mas sobre história, e que o conferencista lhes estivesse expondo a vida e os feitos militares deAlexandre Magno. Que fundamentos teriam para acreditar na verdade do que ele referisse? Num primeirorelance, a situação pareceria ser ainda mais desfavorável do que no caso da psicanálise, pois o professor dehistória teve tanta participação nas campanhas de Alexandre quanto os senhores. O psicanalista pelo menosreporta coisas nas quais ele próprio tomou parte. Porém, na devida oportunidade, chegamos aos elementosque confirmam aquilo que o historiador lhes disse. Ele poderia remetê-los aos relatos dos escritores daAntigüidade que, ou foram eles próprios contemporâneos dos eventos em questão, ou, de qualquer forma,estavam mais próximos dos mesmos — ele poderia remetê-los, digamos, às obras de Diodoro, Plutarco, Arrianoe outros. Poderia colocar à frente dos senhores reproduções de moedas e estátuas do rei, que sobreviveram, epoderia passar às suas mãos uma fotografia do mosaico de Pompéia representando a batalha de Isso.Estritamente falando, contudo, todos esses documentos apenas provam que as gerações anteriores jáacreditavam na existência de Alexandre e na realidade de seus feitos, e as críticas dos senhores poderiamcomeçar novamente nesse ponto. Os senhores descobririam então que nem tudo aquilo que foi relatado sobreAlexandre merece crédito ou pode ser confirmado em seus detalhes; não obstante, não posso supor que ossenhores viessem a deixar a sala de conferência com dúvidas sobre a realidade de Alexandre Magno. Adecisão dos senhores seria determinada, essencialmente, por duas considerações: primeiro, que oconferencista não tem qualquer motivo imaginável para garantir-lhes a realidade de algo que ele próprio nãojulga ser real, e, em segundo lugar, que todos os livros de história disponíveis descrevem os acontecimentosem termos aproximadamente semelhantes. Se continuassem a examinar as fontes antigas, teriam em conta osmesmos fatores — os possíveis motivos dos informantes e a conformidade das testemunhas entre si. Oresultado da pesquisa sem dúvida lhes traria uma confirmação, no caso de Alexandre; no entanto,provavelmente seria diferente quando se tratasse de personagens como Moisés ou Nemrod. Outrasoportunidades revelarão muito claramente que dúvidas os senhores podem ter a respeito da credibilidade doseu informante psicanalítico. Mas os senhores têm o direito de fazer outra pergunta. Se não há verificação objetiva da psicanálisenem possibilidade de demonstrá-la, como pode absolutamente alguém aprender psicanálise e convencer-se da Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 11veracidade de suas afirmações? É verdade que a psicanálise não pode ser aprendida facilmente, e que não sãomuitas as pessoas que a tenham aprendido corretamente. Naturalmente, porém, existe um método que se podeseguir, apesar de tudo. Aprende-se psicanálise em si mesmo, estudando-se a própria personalidade. Isso não éexatamente a mesma coisa que a chamada auto-observação, porém pode, se necessário, estar nelasubentendido. Existe grande quantidade de fenômenos mentais, muito comuns e amplamente conhecidos, que,após conseguido um pouco de conhecimento da técnica, podem se tornar objeto de análise na própria pessoa.Dessa forma, adquire-se o desejado sentimento de convicção da realidade dos processos descritos pela análisee da correção dos pontos de vista da mesma. Não obstante, há limites definidos ao progresso por meio dessemétodo. A pessoa progride muito mais se ela própria é analisada por um analista experiente e vivencia osefeitos da análise em seu próprio eu (self), fazendo uso da oportunidade de assimilar de seu analista a técnicamais sutil do processo. Esse excelente método é, naturalmente, aplicável apenas a uma única pessoa e jamaisa todo um auditório de estudantes reunidos. A psicanálise não deve ser acusada de uma segunda dificuldade na relação dos senhores com ela;devo fazê-los, aos senhores mesmos, responsáveis por isso, senhoras e senhores, pelo menos na medida emque foram estudantes de medicina. A educação que receberam previamente deu uma direção particular aopensar dos senhores que conduz para longe da psicanálise. Foram formados para encontrar uma baseanatômica para as funções do organismo e suas doenças, a fim de explicá-las química e fisicamente e encará-las do ponto de vista biológico. Nenhuma parte do interesse dos senhores, contudo, tem sido dirigida para avida psíquica, onde, afinal, a realização desse organismo maravilhosamente complexo atinge seu ápice. Poressa razão, as formas psicológicas de pensamento têm permanecido estranhas aos senhores. Cresceramacostumados a encará-las com suspeita, a negar-lhes a qualidade científica, a abandoná-las em poder deleigos, poetas, filósofos naturalistas e místicos. Essa limitação é, sem dúvida, prejudicial à sua atividademédica, pois, como é a regra em todos os relacionamentos humanos, os pacientes dos senhores começammostrando-lhes sua façade mental, e temo que sejam obrigados, como punição, a deixar parte da influênciaterapêutica que os senhores estão procurando aos praticantes leigos, aos curandeiros e aos místicos, que ossenhores tanto desprezam. Não ignoro a excusa de que devemos tolerar esse defeito em sua educação. Não existe nenhumaciência filosófica auxiliar que possa servir às finalidades médicas dos senhores. Nem a filosofia especulativa,nem a psicologia descritiva, nem o que é chamado de psicologia experimental (que está estritamente aliada àfisiologia dos órgãos dos sentidos), tal como são ensinadas nas universidades, estão em condições de dizer-lhes algo de utilizável pertinente à relação entre corpo e mente, ou de lhes proporcionar uma chave para acompreensão dos possíveis distúrbios das funções mentais. É verdade que a psiquiatria, como parte damedicina, se empenha em descrever os distúrbios mentais que observa, e em agrupá-los em entidades clínicas;porém, em momentos favoráveis os próprios psiquiatras duvidam de que suas hipóteses puramente descritivasmereçam o nome de ciência. Nada se conhece da origem, do mecanismo ou das mútuas relações dos sintomasdos quais se compõem essas entidades clínicas; ou não há alterações observáveis, no órgão anatômico damente, que correspondam a esses sintomas, ou há alterações nada esclarecedoras a respeito deles. Essesdistúrbios mentais apenas são acessíveis à influência terapêutica quando podem ser reconhecidos como efeitossecundários daquilo que, de outro modo, constitui uma doença orgânica. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 12 Essa é a lacuna que a psicanálise procura preencher. Procura dar à psiquiatria a base psicológica deque esta carece. Espera descobrir o terreno comum em cuja base se torne compreensível a conseqüência dodistúrbio físico e mental. Com esse objetivo em vista, a psicanálise deve manter-se livre de toda hipótese quelhe é estranha, seja de tipo anatômico, químico ou fisiológico, e deve operar inteiramente com idéias auxiliarespuramente psicológicas; e precisamente por essa razão temo que lhes parecerá estranha de início. Não considerarei os senhores, ou sua educação, ou sua atitude mental, responsáveis pela próximadificuldade. Duas das hipóteses da psicanálise são um insulto ao mundo inteiro e têm ganho sua antipatia. Umadelas encerra uma ofensa a um preconceito intelectual; a outra, a um preconceito estético e moral. Nãodevemos desprezar em demasia esses preconceitos; são coisas poderosas, são precipitados da evolução dohomem que foram úteis e, na verdade, essenciais. Sua existência é mantida por forças emocionais, e a lutacontra eles é árdua. A primeira dessas assertivas impopulares feitas pela psicanálise declara que os processos mentais são,em si mesmos, inconscientes e que de toda a vida mental apenas determinados atos e partes isoladas sãoconscientes. Os senhores sabem que, pelo contrário, temos o hábito de identificar o que é psíquico com o que éconsciente. Consideramos a consciência, sem mais nem menos, como a característica que define o psíquico, ea psicologia como o estudo dos conteúdos da consciência. Na verdade, parece-nos tão natural os igualar dessaforma, que qualquer contestação à idéia nos atinge como evidente absurdo. A psicanálise, porém, não podeevitar o surgimento dessa contradição; não pode aceitar a identidade do consciente com o mental. Ela define oque é mental, enquanto processos como o sentir, o pensar e o querer, e é obrigada a sustentar que existe opensar inconsciente e o desejar não apreendido. Dizendo isso, de saída e inutilmente ela perde a simpatia detodos os amigos do pensamento científico solene, e incorre abertamente na suspeita de tratar-se de umadoutrina esotérica, fantástica, ávida de engendrar mistérios e de pescar em águas turvas. Contudo, as senhorase os senhores naturalmente não podem compreender, por agora, que direito tenho eu de descrever comopreconceito uma afirmação de natureza tão abstrata como ‘o que é mental é consciente’. E nem podem ossenhores conjecturar que evolução seja essa, que chegou a levar a uma negação do inconsciente — se é queisso existe — e que vantagem pode ter havido em tal negação. A questão de saber se devemos fazer coincidiro psíquico com o consciente, ou aumentar a abrangência daquele, soa como uma discussão vazia em torno depalavras; mas posso assegurar-lhes que a hipótese de existirem processos mentais inconscientes abre ocaminho para uma nova e decisiva orientação no mundo e na ciência. Os senhores não podem sequer ter qualquer noção de quão íntima é a conexão entre essa primeiramostra de coragem por parte da psicanálise e a segunda, da qual devo agora falar-lhes. Essa segunda tese,que a psicanálise apresenta como uma de suas descobertas, é uma afirmação no sentido de que os impulsosinstintuais que apenas podem ser descritos como sexuais, tanto no sentido estrito como no sentido mais amplodo termo, desempenham na causação das doenças nervosas e mentais um papel extremamente importante enunca, até o momento, reconhecido. Ademais, afirma que esses mesmos impulsos sexuais também fornecemcontribuições, que não podem ser subestimadas, às mais elevadas criações culturais, artísticas e sociais doespírito humano. Em minha experiência, a antipatia que se volta contra esse resultado da pesquisa psicanalítica é a maisimportante fonte de resistência que ela encontrou. Gostariam de ouvir como explicamos esse fato? Acreditamos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 13que a civilização foi criada sob a pressão das exigências da vida, à custa da satisfação dos instintos; eacreditamos que a civilização, em grande parte, está sendo constantemente criada de novo, de vez que cadapessoa, assim que ingressa na sociedade humana, repete esse sacrifício da satisfação instintual em benefíciode toda a comunidade. Entre as forças instintuais que têm esse destino, os impulsos sexuais desempenhamuma parte importante, nesse processo eles são sublimados — isto é, são desviados de suas finalidades sexuaise dirigidos a outras, socialmente mais elevadas e não mais sexuais. Esse arranjo, contudo, é instável; osinstintos sexuais são imperfeitamente subjugados e, no caso de cada indivíduo que se supõe juntar-se aotrabalho da civilização, há um risco de seus instintos sexuais se rebelarem contra essa destinação. A sociedadeacredita não existir maior ameaça que se possa levantar contra sua civilização do que a possibilidade de osinstintos sexuais serem liberados e retornarem às suas finalidades originais. Por esse motivo, a sociedade nãoquer ser lembrada dessa parte precária de seus alicerces. Não tem interesse em reconhecer a força dosinstintos sexuais, nem interesse pela demonstração da importância da vida sexual para o indivíduo. Aocontrário, tendo em vista um fim educativo, tem-se empenhado em desviar a atenção de todo esse campo deidéias. É por isso que não tolerará esse resultado da pesquisa psicanalítica, e nitidamente prefere qualificá-locomo algo esteticamente repulsivo e moralmente repreensível, ou como algo perigoso. Entretanto, as objeçõesdessa espécie são ineficazes contra aquilo que se ergueu como produto objetivo de um exemplo de trabalhocientífico; se a contestação se fizer em público, então deve ser expressa novamente, em termos intelectuais.Ora, é inerente à natureza humana ter uma tendência a considerar como falsa uma coisa de que não gosta e,ademais, é fácil encontrar argumentos contra ela. Assim, a sociedade transforma o desagradável em falso.Rebate as verdades da psicanálise com argumentos lógicos e concretos; estes, porém, surgem de fontesemocionais, e ela mantém essas objeções na forma de preconceitos, opondo-se a toda tentativa de ascontestar. Nós, porém, senhoras e senhores, podemos afirmar que, ao expor esta controvertida tese, não temosem vista qualquer objetivo tendencioso. Desejamos simplesmente dar expressão a um assunto que acreditamoster demonstrado mediante nossos conscienciosos trabalhos. Afirmamos também o direito de rejeitar semrestrição qualquer interferência motivada em considerações práticas, no trabalho científico, mesmo antes denos termos perguntado se o medo, que procura impor-nos essas considerações, é justificado ou não. Essas, pois, são algumas das dificuldades que se erguem contra o interesse dos senhores pelapsicanálise. São, talvez, mais que suficientes para um começo. Porém, se puderem vencer a impressão quelhes causam, prosseguiremos. CONFERÊNCIA II - PARAPRAXIAS SENHORAS E SENHORES: Não começaremos com postulados, e sim com uma investigação. Escolhamos como temadeterminados fenômenos muito comuns e muito conhecidos, os quais, porém, têm sido muito poucoexaminados e, de vez que podem ser observados em qualquer pessoa sadia, nada têm a ver com doenças.São o que se conhece como ‘parapraxias’, às quais todos estão sujeitos. Pode acontecer, por exemplo, queuma pessoa que tenciona dizer algo venha a usar, em vez de uma palavra, outra palavra (um lapso de língua Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 14[Versprechen]), ou possa fazer a mesma coisa escrevendo, podendo, ou não, perceber o que fez. Ou umapessoa pode ler algo, seja impresso ou manuscrito, diferentemente do que na realidade está diante de seusolhos (um lapso de leitura [Verlesen]), ou ouvir errado algo que lhe foi dito (um lapso de audição [Verhören] ) —na hipótese, naturalmente, de não haver qualquer perturbação orgânica de sua capacidade auditiva. Outrogrupo desses fenômenos tem como sua base o esquecimento [Vergessen] — não, no entanto, umesquecimento permanente, mas apenas um esquecimento temporário. Assim, uma pessoa pode ser incapaz dese lembrar de uma palavra que conhece, apesar de tudo, e que reconhece de imediato, ou pode esquecer deexecutar uma intenção, embora dela se lembre mais tarde, tendo-a esquecido apenas naquele determinadomomento. Em um terceiro grupo o caráter temporário está ausente — por exemplo, no caso de extravio[Verlegen], quando a pessoa colocou uma coisa em algum lugar e não consegue encontrá-la novamente, ou nocaso precisamente igual de perda [Verlieren]. Aqui temos um esquecimento que tratamos diferentemente deoutras formas de esquecimento, um caso em que ficamos surpresos ou aborrecidos em vez de considerá-locompreensível. Além de tudo isso, há determinadas espécies de erros [Irrtümer], nos quais o caráter temporárioestá presente mais uma vez: pois, no caso destes, por um certo espaço de tempo acreditamos saber algo que,antes ou depois desse período, na realidade não sabemos. E existem numerosos outros fenômenossemelhantes, conhecidos por diversos nomes. Todas essas são ocorrências cuja afinidade interna recíproca é expressa pelo fato de [em alemão] suadesignação começar com a sílaba ‘ver‘. Quase todas carecem de importância, na maioria são muito transitóriase são destituídas de muita importância na vida humana. Apenas raramente, como no caso da perda de umobjeto, um fenômeno desses assume certo grau de importância prática. Também por esse motivo chamampouco a atenção, fazem surgir nada mais que tênues emoções, e assim por diante. É para esses fenômenos, também, que agora proponho chamar a atenção dos senhores. Porém, irãoprotestar com certo enfado: ‘Há tantos problemas ingentes no amplo universo, assim como dentro dos estreitoslimites de nossas mentes, tantas maravilhas no campo dos distúrbios mentais, que exigem e merecemelucidação, que parece realmente injustificado investir trabalho e interesse em tais trivialidades. Se o senhorpuder fazer-nos compreender por que uma pessoa com olhos e ouvidos sãos pode ver e ouvir, em plena luz dodia, coisas que não se encontram ali; por que outra pessoa subitamente pensa estar sendo perseguida pelaspessoas das quais foi, até então, muito amiga, ou apresenta os mais engenhosos argumentos em apoio desuas crenças delirantes, que qualquer criança poderia ver que são disparatadas, então deveríamos ter algumapreço pela psicanálise. Entretanto, se ela não pode fazer mais que nos pedir para considerarmos por que umorador, num banquete, emprega uma palavra em vez de outra, ou por que uma dona de casa extraviou suaschaves, e futilidades semelhantes, então saberemos como empregar melhor nosso tempo e interesse.’ Eu responderia: Paciência, senhoras e senhores! Penso que suas críticas perderam o rumo. É verdadeque a psicanálise não pode vangloriar-se de jamais haver-se ocupado de trivialidades. Pelo contrário, o materialpara sua observação é geralmente proporcionado pelos acontecimentos banais, postos de lado pelas demaisciências como sendo bastante insignificantes — o refugo, poderíamos dizer, do mundo dos fenômenos. Porém,não estão os senhores fazendo confusão, em suas críticas, entre a vastidão dos problemas e a evidência queaponta para eles? Não existem coisas muito importantes que, sob determinadas condições e em determinadasépocas, só se podem revelar por indicações bastante débeis? Eu não encontraria dificuldade para fornecer-lhes Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 15diversos exemplos de tais situações. Se o senhor, por exemplo, é um homem jovem, não será a partir depequenos indícios que concluirá haver conquistado os favores de uma jovem? Esperaria uma expressadeclaração de amor, ou um abraço apaixonado? Ou não seria suficiente um olhar, que outras pessoas malperceberiam, um ligeiro movimento, o prolongamento, por um segundo, da pressão de sua mão? E se fosse umdetetive empenhado em localizar um assassino, esperaria achar que o assassino deixou para trás suafotografia, no local do crime, com seu endereço assinalado? Ou não teria necessariamente de ficar satisfeitocom vestígios fracos e obscuros da pessoa que estivesse procurando? Assim sendo, não subestimemos ospequenos indícios; com sua ajuda podemos obter êxito ao seguirmos a pista de algo maior. Ademais, penso,como os senhores, que os grandes problemas do universo e da ciência são aqueles que mais exigem nossointeresse. É, porém, muito raro alguém manter a expressa intenção de se devotar à pesquisa deste ou daquelegrande problema. Fica-se então sem poder saber qual o primeiro passo a dar. É mais promissor, no trabalhocientífico, atacar o que quer que esteja imediatamente à nossa frente e ofereça uma oportunidade à pesquisa.Agindo dessa forma, realmente com afinco e sem preconceito ou sem prevenções, e tendo-se sorte, então,desde que tudo se relaciona com tudo, inclusive as pequenas coisas com as grandes, pode-se, mesmo partindode um trabalho despretensioso, ter acesso ao estudo dos grandes problemas. É isso que eu devia dizer, a fimde manter o interesse dos senhores quando tratamos dessas trivialidades tão evidentes como o são asparapraxias de pessoas sãs. Peçamos, agora, auxílio a alguém que nada saiba de psicanálise, e perguntemos-lhe como explicaessas ocorrências. Sua primeira resposta certamente será: ‘Ora, não há o que explicar: não passam depequenos acontecimentos ao acaso.’ O que o amigo quer dizer com isso? Estará afirmando existiremocorrências, embora pequenas, que escapam à concatenação universal dos fatos — ocorrências que tantopoderia haver como não haver? Se alguém comete uma infração desse tipo no determinismo dos eventosnaturais em um só ponto, significa que atirou fora toda a Weltanschauung da ciência. A própria Weltanschauungda religião, podemos lembrar-lhe, se comporta de maneira mais coerente, porque dá explícita garantia de quenenhum pardal cai do telhado sem a vontade de Deus. Penso que nosso amigo hesitará em tirar a conclusãológica dessa primeira resposta; mudará de opinião e dirá que, afinal, quando vir a estudar essas coisas, poderáencontrar explicações para elas. O que está em questão são pequenas falhas no funcionamento, imperfeiçõesna atividade mental, cujos determinantes podem ser especificados. Um homem que em geral consegue falarcorretamente, pode cometer um lapso de língua (1) se está ligeiramente indisposto e cansado, (2) se estáexcitado e ( 3 ) se está excessivamente ocupado com outras coisas. É fácil comprovar essas afirmações. Oslapsos de língua realmente acontecem com especial freqüência quando se está cansado, quando se tem dor decabeça ou quando se está ameaçado de enxaqueca. Nas mesmas circunstâncias, os nomes próprios sãoesquecidos com facilidade. Algumas pessoas estão acostumadas a reconhecer a aproximação de um ataquede enxaqueca quando nomes próprios lhes escapam dessa forma . Quando estamos excitados, também,amiúde cometemos erros com palavras — assim como com coisas, e segue-se um ‘ato descuidado’. Intençõessão esquecidas e numerosos outros atos não premeditados se tornam perceptíveis se estamos distraídos —isto é, propriamente falando, se estamos concentrados em alguma coisa. Um conhecido exemplo de taldistração é o professor em Fliegende Blätter, que perde seu guarda-chuva e pega o chapéu errado porque estápensando nos problemas que terá de abordar no livro seguinte. Todos nós podemos recordar, de nossa própria Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 16experiência, exemplos de como nos é possível esquecer intenções que tivemos e promessas que fizemos, portermos nesse entremeio passado por alguma experiência absorvente. Tal coisa soa bastante razoável e parece não ser passível de contradição, embora possa afigurar-senão muito interessante, talvez, e não ser o que esperávamos. Vejamos mais de perto essas explicações sobreparapraxias. As supostas precondições para a ocorrência desses fenômenos não são todas da mesma espécie.Estar doente e ter distúrbios de circulação fornecem um motivo fisiológico de deterioração do funcionamentonormal; a excitação, a fadiga e a distração são fatores de outra espécie que poderiam ser descritos comopsicofisiológicos. Esses últimos comportam fácil tradução para a teoria. Tanto a fadiga como a distração e,talvez, também a excitação geral realizam uma divisão da atenção, que pode resultar em que seja dirigidaatenção insuficiente para a função em apreço. Nesse caso, a função pode ser perturbada com especialfacilidade ou executada com descuido. Uma ligeira doença ou mudanças no suprimento sangüíneo ao órgãonervoso central podem ter o mesmo efeito, influenciando de modo similar o fator determinante, a divisão daatenção. Em todos esses casos, portanto, seria uma questão de efeito de um distúrbio da atenção, de causasorgânicas ou físicas. Isso parece não prometer muito ao nosso interesse psicanalítico. Poderíamos sentir-nos tentados aabandonar o tema. Se, no entanto, examinarmos as observações mais atentamente, o que vemos não seharmoniza inteiramente com essa teoria da atenção das parapraxias, ou, pelo menos, naturalmente não seregula por ela. Descobrimos que as parapraxias desse tipo e o esquecimento dessa espécie ocorrem empessoas que não estão fatigadas ou distraídas ou excitadas, mas que estão, sob todos os aspectos, em seuestado normal — a menos que decidamos atribuir ex post facto às pessoas em questão, puramente por contade suas parapraxias, uma excitação que, entretanto, elas mesmas não comportam. Nem pode, simplesmente,tratar-se do caso de uma função ser garantida através de um incremento da atenção dirigida a ela, e sercomprometida se essa atenção é reduzida. Há grande número de ações efetuadas de forma puramenteautomática, com muito pouca atenção, não obstante com total segurança. Um caminhante, que mal sabe aondeestá indo, mantém-se no caminho certo, malgrado isso, e pára em seu destino sem se haver perdido[vergangen]. Ora, em todos os casos, isso é como uma regra. Um exímio pianista toca as teclas certas, sempensar. Pode naturalmente cometer um erro ocasional; porém, se o tocar automático aumentasse o risco deerrar, esse risco seria máximo para um virtuose, cuja forma de tocar, em conseqüência de prolongada prática,se tornou inteiramente automática. Sabemos, pelo contrário, que muitas ações são efetuadas com um grau deprecisão muito especial se não são objeto de um nível especialmente elevado de atenção, e que o infortúnio deuma parapraxia está fadado a ocorrer precisamente quando se atribui importância especial ao funcionamentocorreto, portanto deveras sem que houvesse distração da atenção necessária. Poder-se-ia argüir que isso é oresultado da ‘excitação’, porém é difícil enxergar por que a excitação não deveria, inversamente, aumentar aatenção dirigida para aquilo que tão intensamente é desejado. Se, por um lapso de língua, alguém diz o opostodo que pretende, em um importante discurso ou comunicação oral, dificilmente isso pode ser explicado pelateoria psicofisiológica ou da atenção. Existem, ademais, numerosos pequenos fenômenos secundários no caso das parapraxias, os quaisnão compreendemos e a cujo respeito as explicações dadas até agora não trouxeram nenhuma luz. Porexemplo, se temporariamente esquecemos um nome, aborrecemo-nos com isso, fazemos tudo para recordá-lo Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 17e não podemos nos resignar. Por que, nesses casos, é tão extremamente raro lograrmos orientar nossaatenção, pois enfim estamos ansiosos por fazê-lo, à palavra que (como dizemos) está ‘na ponta da língua’ eque reconhecemos de pronto quando é dita para nós? Ou ainda: há casos em que as parapraxias semultiplicam, formam cadeias e se substituem umas às outras. Numa primeira ocasião alguém perdeu umcompromisso. Na ocasião seguinte, quando se decidiu firmemente não esquecer desta vez, verifica-se que sefaz anotação da hora errada. Ou tenta-se chegar, por vias indiretas, a uma palavra esquecida, e nisso escapauma segunda palavra que poderia ter ajudado a encontrar a primeira. Procurando-se por essa segunda palavra,uma terceira desaparece, e assim por diante. Como bem se sabe, o mesmo acontece com os erros deimpressão, que devem ser considerados as parapraxias do compositor. Um teimoso erro de impressão dessaespécie, segundo se conta, certa vez esgueirou-se para dentro de um jornal social-democrata. A notícia quedava de uma cerimônia incluía as palavras: ‘Entre os que estavam presentes, podia-se notar Sua Alteza oKornprinz.‘ No dia seguinte, fez-se uma tentativa de correção. O jornal pedia desculpas e dizia: ‘Devíamos,naturalmente, ter dito “o Knorprinz”.’ Em tais casos, as pessoas falam de um ‘demônio dos erros de impressão’ou um ‘demônio da composição tipográfica’ — expressões que, pelo menos, vão além de qualquer teoriapsicofisiológica dos erros de impressão. Talvez lhes seja também conhecido o fato de ser possível provocar lapsos de língua, produzi-los,digamos assim, por sugestão. Uma anedota ilustra esse fato. Tinha sido confiado a um estreante dos palcos oimportante papel, em Die Jungfrau von Orleans [de Schiller], do mensageiro que anuncia ao rei de ‘derConnétable schickt sein Schwert zurück [o Condestável devolve sua espada]’. Um primeiro ator divertia-se,durante os ensaios, com induzir repetidamente o nervoso jovem a dizer, em vez das palavras do texto: ‘derKomfortabel schickt sein Pferd zurück [o cocheiro devolve seu cavalo]’. Conseguiu seu intento: o desventuradoprincipiante realmente fez sua estréia na representação com a versão corrompida, apesar de haver sidoadmoestado de não fazê-lo, ou, talvez, porque tenha sido admoestado. Nenhuma luz é lançada sobre esses pequenos aspectos das parapraxias com a teoria da falta deatenção. Porém, não significa necessariamente que a teoria seja errônea, em face dessa explicação; elasimplesmente pode estar carecendo de algo, de algum acréscimo, para que venha a ser completamentesatisfatória. Contudo, algumas das parapraxias também podem ser consideradas por outro prisma. Tomemos os lapsos de língua como o tipo de parapraxia mais adequado a nossos propósitos —embora pudéssemos igualmente ter escolhido lapsos de escrita ou lapsos de leitura. Devemos ter em menteque, até aqui, apenas perguntamos quando — sob que condições — as pessoas cometem lapsos de língua, eapenas para essa pergunta tivemos uma resposta. Poderíamos, porém, dirigir nosso interesse para outroaspecto e indagar por que razão o erro ocorreu dessa determinada forma e não de outra; e poderíamosconsiderar o que é que emerge no lapso propriamente dito. Os senhores observarão que, enquanto essapergunta não for respondida e nada for respondido e nada for elucidado sobre o lapso, o fenômeno permanececomo evento casual, do ponto de vista psicológico, embora dele se tenha dado uma explicação fisiológica. Seeu cometesse um lapso de língua, poderia obviamente fazê-lo em número infinito de formas, a palavra certapoderia ser substituída por alguma palavra entre milhares de outras, ser distorcida em incontáveis direçõesdiferentes. Existe, pois, algo que, no caso particular, me compele a cometer o lapso de uma determinada forma; Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 18ou isso continua sendo uma questão de acaso, de escolha arbitrária, e se trata, talvez, de uma pergunta a quenão se pode dar qualquer resposta sensata? Dois escritores, Meringer e Mayer (um, filólogo, o outro, psiquiatra), de fato tentaram, em 1895, atacar oproblema das parapraxias por esse ângulo. Coligiram exemplos e começaram por abordá-los de maneirapuramente descritiva. Isso, naturalmente, até aqui não oferece nenhuma explicação, embora possa preparar ocaminho para alguma. Distinguem os diversos tipos de distorções que o lapso impõe ao discurso pretendido,como ‘transposições’, ‘pré-sonâncias [antecipações]’, ‘pós-sonâncias [perseverações]’, ‘fusões (contaminações)’e ‘substituições’. Eu lhes darei alguns exemplos desses principais grupos propostos pelos autores. Um exemplode transposição seria dizer ‘a Milo de Vênus‘ em vez de ‘a Vênus de Milo’ (transposição da ordem daspalavras); um exemplo de pré-sonância [antecipação] seria: ‘es war mir auf der Schwest… auf der Brust soschwer’; e uma pós-sonância [perseveração] seria exemplificada pelo conhecido brinde que saiu errado: ‘Ichfordere Sie auf, auf das Wohl unseres Chefs aufzustossen’ [em vez de ‘anzustossen’]. Essas três formas delapso de língua não são propriamente comuns. Os senhores encontrarão exemplos muito mais numerosos, nosquais o lapso resulta de contração ou fusão. Assim, por exemplo, um cavalheiro dirige-se a uma senhora na ruacom as seguintes palavras: ‘Se me permite, senhora, gostaria de a begleit-digen.‘ A palavra composta que sejuntou a ‘begleiten [acompanhar]’ evidentemente escondeu em si ‘beleidigen [insultar]’. (Diga-se de passagem,o jovem provavelmente não teve muito êxito com a senhora.) Como exemplo de substituição, Meringer e Mayercitam o caso de alguém que diz: ‘Ich gebe die Präparate in den Briefkasten’ em vez de ‘Brütkasten’. A explicação em que esses autores tentaram basear sua coleção de exemplos, é especialmenteinadequada. Acreditam que os sons e as sílabas de uma palavra têm uma ‘valência’ determinada, e que ainervação de um elemento de alta valência pode exercer uma influência perturbadora em outro de menorvalência. Com isso, estão evidentemente se baseando nos raros casos de pré-sonância e pós-sonância; essaspreferências de uns sons a outros (se é que de fato existem) podem não ter absolutamente qualquer relaçãocom outros casos de lapsos de língua. Afinal, os lapsos de língua mais comuns ocorrem quando, em vez dedizermos uma palavra, dizemos uma outra muito semelhante; e essa semelhança é, para muitos, explicaçãosuficiente de tais lapsos. Por exemplo, um professor declarou em sua aula inaugural: ‘Não estou ‘geneigt[inclinado]’ (em vez de ‘geeignet [qualificado]’) a valorizar os serviços de meu mui estimado predecessor.’ Ouentão, outro professor observava: ‘No caso dos órgãos genitais femininos, apesar de muitas Versuchungen[tentações] — me desculpem, Versuche [tentativas] ….’ O tipo mais comum e, ao mesmo tempo, mais notável de lapsos de língua, no entanto, são aqueles emque se diz justamente o oposto do que se pretendia dizer. Aqui, naturalmente, estamos muito longe de relaçõesentre sons e os efeitos de semelhança; e, em vez disso, podemos apelar para o fato de que os contrários têmum forte parentesco conceitual uns com os outros e mantêm entre si uma associação psicológica especialmentepróxima. Há exemplos históricos de tais ocorrências. Um presidente da câmara dos deputados de nossoparlamento certa vez abriu a sessão com as palavras: ‘Senhores, observo que está presente a totalidade dosmembros, e por isso declaro a sessão encerrada.’ Qualquer outra associação conhecida pode atuar da mesma forma insidiosa, como um contrário, eemergir em circunstâncias bastante inadequadas. Assim, conta-se que, por ocasião de uma celebração emhonra do casamento de um filho de Hermann von Helmholtz com uma filha de Werner von Siemens, o Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 19conhecido inventor e industrial, a incumbência de saudar à felicidade do jovem par coube ao famoso fisiologistaDu Bois-Reymond. Sem dúvida, este fez um discurso brilhante, porém encerrou com as palavras: ‘Portanto,longa vida à nova firma Siemens e Haeske!’ Essa era, naturalmente, a denominação da antiga firma. Ajustaposição dos dois nomes deve ter sido tão familiar a um berlinense como Fortnum e Mason o seria a umlondrino. Devemos, portanto, incluir entre as causas das parapraxias não apenas relações entre sons esemelhança verbal, como também a influência das associações de palavras. Isso, porém, não é tudo. Emnumerosos casos, parece impossível explicar um lapso de língua, a não ser que levemos em conta algo quetinha sido dito, ou mesmo simplesmente pensado, em uma frase anterior. De novo temos aqui um caso deperseveração, como aqueles em que insistia Meringer, porém de origem mais remota. Devo confessar quesinto, na totalidade, como se estivéssemos mais longe do que nunca de compreender os lapsos de língua. Não obstante, espero não estar equivocado ao dizer que, durante essa última pesquisa, todos nóstivemos uma nova impressão desses exemplos de lapsos de língua, e que pode valer a pena considerar umpouco mais detidamente essa impressão. Examinamos as condições sob as quais em geral os lapsos de línguaocorrem, e, depois, as influências que determinam o tipo de distorção produzida pelo lapso. Até agora, noentanto, não dedicamos nada de nossa atenção ao produto do lapso considerado em si mesmo, sem referênciaà sua origem. Se decidimos fazê-lo, não podemos deixar de encontrar, no final, coragem para dizer que, emalguns exemplos, aquilo que resulta do lapso de língua tem um sentido próprio. O que queremos dizer com ‘temum sentido’? Que o produto do lapso de língua pode, talvez, ele próprio ter o direito de ser considerado comoato psíquico inteiramente válido, que persegue um objetivo próprio, como uma afirmação que tem seu conteúdoe seu significado. Até aqui temos sempre falado em ‘parapraxias [atos falhos]’, porém agora é como se àsvezes o ato falho fosse, ele mesmo, um ato bastante normal, que simplesmente tomou o lugar de outro, que erao ato que se esperava ou desejava. O fato de a parapraxia ter um sentido próprio parece, em determinados casos, evidente e inequívoco.Quando o presidente da câmara dos deputados, com suas primeiras palavras, encerrou a sessão em vez deabri-la, sentimo-nos inclinados, em vista de nosso conhecimento das circunstâncias em que o lapso de línguaocorreu, a reconhecer que a parapraxia tem um sentido. O presidente não esperava nada de bom da sessão eficaria satisfeito se pudesse dar-lhe um fim imediato. Não temos qualquer dificuldade em chamar a atenção parao sentido desse lapso de língua, ou, por outras palavras, de interpretá-lo. Ou, então suponhamos que umamulher diga a outra, em tom de aparente admiração: ‘Esse lindo chapéu novo, suponho que você mesma oaufgepatzt [palavra não existente, em lugar de aufgeputzt (enfeitou)], não?’ Ora, não existe decoro científicoque possa impedir-nos de ver por trás desse lapso de língua as palavras: ‘Esse chapéu é uma Patzerei [droga].’Ou, noutro caso, contam-nos que uma senhora, conhecida por seus modos enérgicos, certa ocasião observava:‘Meu marido perguntou a seu médico qual dieta devia seguir; mas o médico lhe disse que não precisava dedieta: ele podia comer e beber o que eu quero.’ Também nesse caso o lapso de língua tem seu inconfundíveloutro lado: estava expressando um programa coerentemente planejado. Se viesse a acontecer, senhoras e senhores, que tivessem um sentido não apenas alguns exemplos delapsos de língua e de parapraxias em geral, mas considerável número deles, o sentido das parapraxias, do qualaté agora nada ouvimos, se tornaria seu aspecto mais importante e deslocaria qualquer outra consideração Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 20para um plano secundário. Poderíamos, então, pôr de lado todos os fatores fisiológicos e psicofisiológicos ededicar-nos à investigação exclusivamente psicológica do sentido — isto é, da significação ou do propósito —das parapraxias. Por conseguinte, nos ocuparemos em testar essa hipótese em grande número deobservações. Antes, porém, de levar a cabo essa intenção, gostaria de convidá-los a seguir-me ao longo de outrapista. Repetidamente tem acontecido haver um escritor criativo feito uso de um lapso de língua ou de algumaoutra parapraxia como meio de produzir um efeito pleno de imaginação. Esse fato isoladamente devedemonstrar-nos que ele considera a parapraxia — o lapso de língua, por exemplo — como possuidora de umsentido, de vez que a produziu deliberadamente. Pois o que sucedeu não foi o autor ter cometido um lapso deescrita acidental e, assim, permitido o uso do mesmo por um de seus personagens, na qualidade de lapso delíngua; ele tenciona trazer algo à nossa atenção mediante o lapso de língua, e podemos indagar sobre que algoé esse, se talvez queira sugerir que o personagem em questão esteja distraído e fatigado, ou esteja prestes ater um ataque de enxaqueca. Se o autor emprega o lapso como se este tivesse um sentido, nós, naturalmente,não temos vontade de exagerar a importância disso. Afinal, um lapso poderia realmente não ter sentido, ser umevento psíquico casual ou poderia ter um sentido apenas em casos bastante raros; contudo, ainda assim oautor teria o direito de intelectualizá-lo fornecendo a ele um sentido, a fim de empregá-lo segundo suasfinalidades próprias. E não seria de surpreender se tivéssemos mais a aprender sobre lapsos de língua comescritores criativos, do que com filólogos e psiquiatras. Um exemplo desse tipo pode ser encontrado em Wallenstein (Piccolomini Ato I, Cena 5), [de Schiller].Na cena anterior, Max Piccolomini esposou ardentemente a causa do Duque [de Wallenstein] e estevedescrevendo apaixonadamente os benefícios da paz, dos quais se tornou cônscio no decurso de uma viagemenquanto acompanhava a filha de Wallenstein ao campo. Quando ele deixa o palco, seu pai [Octavio] eQuestenbergs, o emissário da Corte, estão mergulhados em consternação. A Cena 5 continua: QUESTENBERG Ai de mim! e continua assim?Como, amigo! deixamo-lo partirNeste delírio — deixá-lopartir?Não chamá-lo de volta imediatamente,[não abrirSeus olhos, sem perda de tempo? OCTAVIO (saindo de uma meditação profunda) Ele vem de abrir meus olhos,E enxergo mais do que me apraz. QUEST. Que é isso? OCT. Amaldiçoem essa viagem! QUEST. Mas, por quê? Que se passa? OCT. Vem, vamos juntos, amigos! Preciso seguirA execrável rota, imediatamente. Meus olhosAgoraestão abertos, e devo usá-los. Vem!(Atrai Q. e o leva consigo.) QUEST. Que está havendo? Aonde vais, então!? OCT. Até ela… QUEST. Até — OCT. (corrigindo-se.) Até o Duque. Vem, partamos.[Conforme a tradução inglesa de Coleridge.] Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 21 Otávio quis dizer ‘até ele’, ao Duque. Comete, porém, um lapso de língua e, dizendo ‘até lá’ ao menosrevela a nós que reconheceu claramente a influência que o jovem guerreiro causou em um entusiasta da paz. Um exemplo ainda mais impressionante foi descoberto por Otto Rank [1910a] em Shakespeare. Estáem O Mercador de Veneza, na famosa cena em que o venturoso amante escolhe entre os três cofres… e talvezo melhor é ler para os senhores a breve descrição de Rank: ‘Um lapso de língua ocorre em O Mercador de Veneza, de Shakespeare (Ato III, Cena 2) e é, do pontode vista dramático, causado de maneira extremamente sutil e empregado com técnica brilhante. Semelhante aolapso existente em Wallenstein, para o qual Freud chamou a atenção, mostra que os dramaturgos possuemuma clara compreensão do mecanismo e do significado desse tipo de parapraxia, e supõem que o mesmo sejaverdadeiro para sua platéia. Pórcia, que, por vontade de seu pai, teve de escolher um marido por sorteio,escapou, até então, de todos os seus indesejados pretendentes por um feliz acaso. Tendo enfim encontrado emBassanio o pretendente de sua preferência, tem motivos para temer que também ele venha a escolher o cofreerrado. Ela desejaria muito dizer-lhe que, mesmo assim, ele poderia ter certeza de seu amor; porém isso lhe évedado em virtude do juramento. Nesse conflito íntimo, o poeta faz com que ela diga ao pretendente preferido: Por favor, não vos apresseis; esperai um ou dois dias antes de consultar a sorte, pois, se escolherdesmal, perco vossa companhia; assim, pois, aguardai um pouco. Alguma coisa me diz (mas não é o amor) quenão quereria perder-vos… Eu poderia ensinar-vos como escolher bem; mas, então, seria perjura e não o sereijamais. Podeis, pois, fracassar; porém, se fracassardes, far-me-eis deplorar não haver cometido o pecado deperjúrio. Malditos sejam vossos olhos!Encantaram-me e partiram-me em duas partes: uma é vossa e outra émeia vossa; quero dizer, minha; mas, sendo minha, é vossa e, desse modo, sou toda vossa. A coisa da qual ela desejava dar a ele apenas um indício muito sutil, porque devia escondê-la dele dequalquer maneira, ou seja, que ela, mesmo antes de ele fazer a escolha, era inteiramente dele e o amava — éprecisamente isso que o poeta, com uma maravilhosa sensibilidade psicológica, faz irromper abertamente emseu lapso de língua; e, com essa solução artística, logra aliviar tanto a incerteza intolerável do amante como osuspense do compreensivo auditório diante do resultado de sua escolha.’ Observem também com que habilidade Pórcia, no fim, reconcilia as duas afirmações contidas em seulapso de língua, como resolve a contradição entre elas e como, finalmente, mostra ser o lapso o que estavacorreto: ‘Mas, sendo minha, é vossae desse modo, sou toda vossa.’ Ocasionalmente tem acontecido que um pensador, cuja atividade se situa fora da medicina, hajarevelado, por algo que falou, o sentido de uma parapraxia, e se tenha antecipado a nossos esforços de explicá-la. Os senhores, todos, ouviram falar no espirituoso satirista Lichtenberg (1742-99), de quem Goethe disse:‘Onde ele faz uma pilhéria, se esconde um problema.’ Às vezes, a pilhéria também traz à luz a solução doproblema. Nos Witzige und Satirische Einfälle [Witty and Satirical Thoughts, 1853], de Lichtenberg, encontramoso seguinte: ‘Ele tanto leu Homero, que sempre lia “Agamemnon” em vez de “angenommen [suposto]”.’ Aquitemos toda a teoria dos lapsos de leitura. Na próxima vez precisamos ver se podemos concordar com esses escritores em suas opiniões. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 22 CONFERÊNCIA III - PARAPRAXIAS (continuação) SENHORAS E SENHORES: Chegamos, na última vez, à idéia de considerar as parapraxias não em relação à desejada função queelas perturbavam, mas à sua própria descrição; e tivemos a impressão de que, em casos especiais, pareciamrevelar um sentido próprio. Refletimos então que, se pudesse ser obtida a confirmação, em uma escala maisampla, de que as parapraxias têm um sentido, seu sentido logo ficaria mais interessante que a investigação dascircunstâncias em que ocorrem. Vamos, mais uma vez, chegar a um acordo sobre o que se deve entender por‘sentido’ de processo psíquico. Queremos dizer com isso tão-somente a intenção à qual serve e sua posição emuma continuidade psíquica. Na maioria de nossas investigações podemos substituir ‘sentido’ por ‘intenção’ ou‘propósito’. Tratava-se, então, simplesmente de uma ilusão enganadora ou de uma exaltação poética dasparapraxias quando pensamos reconhecer nelas uma intenção? Continuaremos a tomar lapsos de língua como nossos exemplos. Se agora examinarmos atentamentenumerosas observações desse tipo, encontraremos categorias completas de casos em que a intenção, osentido, do lapso é inteiramente visível. Antes de tudo existem aqueles nos quais o que se pretendia ésubstituído por seu contrário. O presidente da câmara dos deputados [ver em [1]] disse, em seu discurso deabertura: ‘Declaro a sessão encerrada.’ Isso não é nada ambíguo. O sentido e intenção de seu lapso eraencerrar a sessão. ‘Er sagt es ja selbst” é o que estamos tentados a citar: é apenas uma questão de aceitarsuas palavras. Não me interrompam neste ponto, objetando que isso é impossível, que sabemos que ele nãoqueria encerrar a sessão e sim abri-la, e que ele mesmo, a quem nós reconhecemos como a única supremacorte de apelação, poderia confirmar o fato de que queria abri-la. Os senhores estão se esquecendo de quefizemos o acordo de começarmos considerando as parapraxias no que concerne à sua própria descrição; suarelação com a intenção, que elas perturbaram, não será discutida senão mais adiante. De outro modo, ossenhores serão culpados de um erro de lógica, simplesmente por fugirem do problema ora em exame — poralgo que é chamado em inglês ‘begging the question’. Em outros casos, nos quais o lapso não expressa o exato contrário, não obstante um sentido opostopode ser expresso por ele. ‘Não estou geneigt [inclinado] a valorizar os serviços de meu predecessor [ver em[1]]. Geneigt não é o contrário de geeignet [qualificado], mas exprime claramente algo que contrasta nitidamentecom a situação na qual o discurso devia ser feito. Já em outros casos o lapso de língua apenas acrescenta um segundo sentido àquele que se pretendia.A frase então soa como uma contração, uma abreviação ou condensação de diversas frases. Assim, quando aenérgica senhora dizia: ‘Ele pode comer e beber o que eu quero’ [ver em [1]], é bem como se ela tivesse dito:‘Ele pode comer e beber o que ele quer; mas o que ele tem a ver com querer? Eu é que quero em vez dele.’Um lapso de língua muitas vezes dá a impressão de ser uma abreviação desse tipo. Por exemplo, um professorde anatomia, ao fim de uma conferência sobre as cavidades nasais, perguntou se seu auditório haviacompreendido o que ele disse, e após geral assentimento prosseguiu: ‘Dificilmente posso acreditar nisso, pois,mesmo em uma cidade com milhões de habitantes, aqueles que entendem das cavidades nasais podem sercontados em um dedo… desculpem-me, nos dedos de uma mão.’ A frase abreviada também possui um sentido— a saber, que existe apenas uma pessoa que delas entende. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 23 Contrastando com esses grupos de casos, nos quais a parapraxia por si mesma revela seu sentido,existem outros em que a parapraxia não produz nada que tenha algum sentido próprio, e que, por conseguinte,contrariam nitidamente nossas expectativas. Se alguém deturpa um nome próprio através de um lapso delíngua ou agrupa uma série anormal de sons, esses eventos muito comuns, isoladamente considerados,parecem dar uma resposta negativa à nossa pergunta sobre se todas as parapraxias têm alguma espécie desentido. Um exame mais detido desses exemplos, porém, mostra que essas distorções são facilmentecompreendidas e que absolutamente não existe diferença tão grande entre esses casos mais obscuros e osanteriores, mais claros. Um homem, a quem se perguntou a respeito da saúde de seu cavalo, respondeu: ‘Bem, ele draut [umapalavra sem sentido] … ele dauert [vai durar] mais um mês, talvez.’ Quando lhe foi perguntando o querealmente quis dizer, explicou haver pensado que isso era uma ‘traurige [triste] história’. A combinação de‘dauert‘ e ‘traurig‘ produziu ‘draut‘. Outro homem, falando de uns acontecimentos que condenava, prosseguiu: ‘Mas então, os fatos vierama Vorschwein [palavra não existente, em vez de Vorschein (luz)]….’ Respondendo a indagações, confirmou ofato de que havia considerado essas ocorrências ‘Schweinereien‘ [‘repugnantes’, literalmente ‘porcarias’].‘Vorschein‘ e ‘Schweinereien‘ combinaram-se para produzir a estranha palavra ‘Vorschwein‘. Por certo recordam-se do caso do jovem senhor que perguntou à senhora desconhecida se ele a podia‘begleitdigen‘ [ver em [1]]. Aventuramo-nos a dividir esta forma verbal em ‘begleiten [acompanhar]’ e ‘beleidigen[insultar]’ e nos sentimos muito certos dessa interpretação, sem precisarmos de qualquer confirmação. Ossenhores verão, a partir desses exemplos, que mesmo esses casos mais obscuros de lapsos de língua podemser explicados por uma convergência, uma ‘interferência‘ recíproca entre duas elocuções desejadas; asdiferenças entre esses casos de lapsos surgem meramente do fato de, em algumas ocasiões, uma intençãotomar completamente o lugar da outra (uma substitui a outra), como nos lapsos de língua que exprimem ocontrário; ao passo que, em outras ocasiões, uma intenção se satisfaz distorcendo ou modificando a outra, demodo que se produzem estruturas compostas, que fazem sentido, em maior ou menor grau, por sua própriaconta. Parecemos agora haver desvendado o segredo de grande número de lapsos de língua. Se retivermosna memória essa descoberta, seremos capazes de compreender também outros grupos que até agora seconstituíram em enigma para nós. Nos casos de distorção de nomes, por exemplo, não podemos supor que setrate sempre de uma questão de competição entre dois nomes semelhantes, mas diferentes. Não é difícil, noentanto, entrever a segunda intenção. A distorção de um nome ocorre, muito freqüentemente, sem haver lapsosde língua; procura dar ao nome um tom ofensivo ou fazê-lo soar como algo inferior, e é um costume conhecido(ou mau costume) destinado a insultar, que as pessoas civilizadas cedo aprendem a abandonar, porém relutamem abandonar. Muitas vezes ainda é permitida como brincadeira, embora brincadeira pouco digna. Comoexemplo notório e deselegante dessa forma de distorcer nomes, posso mencionar que, nos dias atuais [daPrimeira Guerra Mundial], o nome do presidente da República Francesa, Poincaré, foi transformado em‘Schweinskarré‘. Portanto, é plausível supor que a mesma intenção insultuosa esteja presente nesses lapsos delíngua e procure encontrar expressão na distorção de um nome. Explicações semelhantes acodem ao espírito,na mesma ordem de coisas, quando se trata de certos exemplos de lapsos de língua com efeitos cômicos ou Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 24absurdos. ‘Eu os convido a arrotar [aufzustossen] à saúde de nosso Chefe [ver em [1]].’ Aqui, uma atmosfera decerimônia é inesperadamente perturbada pela intromissão de uma palavra que evoca uma idéia condenável, e,à maneira de certas frases insultuosas e ofensivas, mal podemos evitar a suspeita de que uma intençãoprocurava encontrar expressão e estava em violenta contradição com as palavras ostensivamente respeitosas.O que o lapso de língua parece ter estado dizendo era mais ou menos isto: ‘Não acreditem! Isso não é a sério.Pouco me importa esse sujeito!’ Quase a mesma coisa se aplica a lapsos de língua que transformam palavrasinocentes em outras, indecentes ou obscenas. Assim, ‘Apopos‘ em vez de ‘à propos‘, ou ‘Eischeissweibchen‘por ‘Eiweissscheibchen‘.Muitas pessoas, como sabemos, tiram alguma satisfação de um costume como essede distorcer deliberadamente palavras inocentes em obscenas; tais distorções são vistas como engraçadas, eao ouvirmos uma delas devemos, de fato, primeiro indagar do interlocutor se a disse intencionalmente, comobrincadeira, ou se ela ocorreu como lapso de língua. Bem, está parecendo como se tivéssemos resolvido o problema das parapraxias, e com bem poucadificuldade! Não são eventos casuais, porém atos mentais sérios; têm um sentido; surgem da ação concorrente— ou, talvez, da ação de mútua oposição — de duas intenções diferentes. Agora, contudo, vejo também que ossenhores estão se preparando para apresentar-me uma avalanche de perguntas e de dúvidas, que terão de serrespondidas e abordadas antes de podermos apreciar esse primeiro resultado de nosso trabalho. Certamentenão tenho qualquer desejo de forçar os senhores a decisões apressadas. Vamos tomá-las na devida ordem,uma após outra e dedicar-lhes uma tranqüila atenção. O que é que os senhores desejam perguntar-me? Penso eu que essa explicação se aplica a todas asparapraxias ou apenas a determinado número delas? Pode este mesmo ponto de vista ser estendido aosmuitos outros tipos de parapraxias, aos lapsos de leitura, aos lapsos de escrita, ao esquecimento, aos atosdescuidados, aos extravios, e assim por diante? Em vista da natureza psíquica das parapraxias, quesignificação resta aos fatores de fadiga, excitação, distração e interferência na atenção? E mais, é claro quedas duas intenções rivalizantes de uma parapraxia uma delas sempre está manifesta, porém a outra, nemsempre. Que fazemos, então, para descobrir essa outra? E, se pensamos tê-la descoberto, como provamos quese trata não apenas de uma intenção provável, mas da única que é a correta para o caso? Existe algo mais quedesejam perguntar-me? Se não, vou prosseguir. Os senhores se lembrarão de que não damos muito valor àsparapraxias em si mesmas e tudo o que queremos é aprender, partindo de seu estudo, algo que possa resultarem benefício da psicanálise. Por conseguinte, eu lhes apresento esta questão. Que intenções ou quepropósitos são esses, capazes de perturbar outros dessa maneira? E quais são as relações entre as intençõesque perturbam e as intenções que são perturbadas? Logo, o problema não é resolvido, a menos querecomecemos nosso trabalho. Assim, pois, em primeiro lugar, é essa a explicação para todos os casos de lapsos de língua? Estoumuito inclinado a pensar que sim e meu motivo é que, sempre ao se investigar um exemplo de lapso de língua,surge uma explicação desse tipo. No entanto, realmente também não há maneira de provar que um lapso delíngua não possa ocorrer sem esse mecanismo. Pode ser assim; mas, teoricamente, é uma questão seminteresse para nós, de vez que permanecem as conclusões que desejamos tirar para nossa introdução àpsicanálise, embora — este não é certamente o caso — nossa opinião seja válida apenas para uma minoriados casos de lapsos de língua. À questão seguinte — saber se podemos estender a outros tipos de parapraxias Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 25nosso ponto de vista — responderei de antemão com um ‘sim’. Os senhores serão capazes de se convencerdisso ao virmos examinar exemplos de lapsos de escrita, de atos descuidados, e outros mais. Por motivostécnicos, porém, sugiro que adiemos essa tarefa até havermos abordado os lapsos de língua de forma aindamais completa. Exige-se uma resposta mais detalhada à pergunta sobre que significação resta aos fatores postos emevidência pelos autores mencionados — distúrbios da circulação, fadiga, excitação, distração e a teoria daperturbação da atenção — se aceitamos o mecanismo psíquico dos lapsos de língua que descrevemos.Observem que não estamos negando esses fatores. Em geral não é muito comum a psicanálise negar algo queoutras pessoas afirmam; via de regra, ela apenas acrescenta algo novo — embora, sem dúvida, vez e outrasucede esse algo, que até então foi negligenciado e é agora apresentado como um acréscimo novo, ser de fatoa essência do assunto. A influência das condições fisiológicas sobre a produção dos lapsos de língua medianteuma ligeira doença, distúrbios da circulação ou estados de exaustão deve ser reconhecida de imediato; aexperiência cotidiana e pessoal os convencerá disso. Mas, que pouca coisa elas explicam! Antes de tudo, elasnão são precondições necessárias das parapraxias. Lapsos de língua ocorrem, com a mesma possibilidade, emperfeita saúde e em estado normal. Esses fatores somáticos, portanto, apenas servem para facilitar e favorecero especial mecanismo mental dos lapsos de língua. Certa vez usei de uma analogia para descrever essarelação, e vou repeti-la aqui, porquanto posso supor não haver outra melhor que a substitua. Suponhamos que,numa noite escura, eu fosse a um local ermo e ali fosse atacado por um meliante, que carregasse com meurelógio e minha carteira. Como não visse claramente o rosto do ladrão, faria minha queixa no posto policial maispróximo, com as palavras: ‘Isolamento e escuridão roubaram meus pertences.’ O funcionário da polícia poderiaentão dizer-me: ‘Pelo que o senhor diz, parece estar adotando injustificadamente uma opinião extremamenteesquemática. Seria melhor apresentar os fatos assim: “Valendo-se da escuridão e favorecido pelo isolamentodo lugar, um ladrão desconhecido roubou os pertences do senhor.” Em seu caso, me parece que a tarefaprincipal é que devemos encontrar o ladrão. Talvez, então, sejamos capazes de recuperar o produto do roubo.’ Esses fatores psicofisiológicos como a excitação, a distração e os distúrbios da atenção muito pouconos vão ajudar com vistas a uma explicação. Eles são apenas frases vazias, são biombos atrás dos quais nãodevemos nos sentir impedidos de lançar um olhar. A pergunta deveria ser: o que foi causado pela excitação,pela distração especial da atenção? Ademais, devemos reconhecer a importância da influência dos sons, dasemelhança das palavras e das associações habituais suscitadas pelas palavras. Estas facilitam os lapsos delíngua por apontarem os caminhos que esses lapsos podem tomar. Contudo, se tenho um caminho abertodiante de mim, esse fato automaticamente decide que eu o tomaria? Preciso de um motivo a mais, antes de meresolver por ele e, além disso, de uma força que me impulsione pelo caminho. Assim, essas relações de sons epalavras constituem também, do mesmo modo como as condições somáticas, exclusivamente coisas quefavorecem os lapsos de língua e não podem proporcionar a verdadeira explicação para eles. Consideremapenas isso: em uma imensa quantidade de casos meu falar não é perturbado pela circunstância de aspalavras, que estou usando, lembrarem outras com som semelhante, de serem intimamente vinculadas a seuscontrários, ou de associações correntes delas derivarem. E talvez pudéssemos encontrar uma saídaacompanhando o filósofo Wundt, quando diz que os lapsos de língua surgem se, em conseqüência de exaustãofísica, a tendência a associar prevalece sobre aquilo que a pessoa tenciona dizer. Seria muito convincente se Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 26não fosse contrariado pela experiência, que mostra que numa série de casos os fatores somáticos facilitadoresdos lapsos de língua estão ausentes, e que em outra série de casos os fatores associativos, que os facilitam,estão igualmente ausentes. Entretanto, estou particularmente interessado em sua pergunta seguinte: Como se descobrem as duasintenções que se interferem mutuamente? Os senhores provavelmente não percebem como é importante apergunta. Uma das duas intenções, aquela que é perturbada, naturalmente é inequívoca: a pessoa que cometeo lapso de língua conhece-a e a admite. É somente a outra, a intenção que perturba, que pode dar origem àdúvida e à hesitação. Ora, já temos visto, e sem dúvida os senhores não o esqueceram, que em numerososcasos essa outra intenção é igualmente evidente. É indicada pelo efeito do lapso, bastando que tenhamos acoragem de reconhecer nesse efeito uma validade própria. Seja o caso do presidente da câmara dosdeputados, cujo lapso de língua disse o contrário do tencionado. E claro que desejava abrir a sessão, porém éigualmente claro que também desejava encerrá-la. Isso é tão óbvio que não nos deixa nada por interpretar. Nosoutros casos, contudo, nos quais a intenção perturbadora apenas distorce a intenção original sem que elamesma consiga completa expressão, como é que, partindo da distorção, chegamos à intenção perturbadora? Em um primeiro grupo de casos, isso se faz de maneira bastante simples e segura — com efeito, damesma maneira como se tem a intenção perturbada. Fazemos o interlocutor dar-nos a informação diretamente.Depois do lapso de língua, ele prontamente diz as palavras que originalmente pretendia: ‘Draut… não, dauert[vai durar] mais um mês, talvez.’ [ver em [1]]. Pois bem, exatamente da mesma forma o fazemos dizer qual aintenção que perturba. ‘Por que’, lhe perguntamos, ‘o senhor disse “draut”?’ Ele responde: ‘Eu queria dizer “Éuma traurige [triste] história”.’ De maneira semelhante, em outro caso, em que o lapso de língua era‘Vorschwein‘ [ver em [1]], a pessoa confirma o fato de que desejava inicialmente dizer ‘É uma Schweinerei[porcaria]’, porém se controlou e saiu-se com outro comentário. Aqui, pois, a intenção que distorce ficaestabelecida tão seguramente como aquela que foi distorcida. Minha escolha desses exemplos não foi sempropósito, de vez que sua origem e sua solução não procedem nem de mim nem de meus seguidores. E emambos esses casos medidas ativas de alguma espécie foram necessárias para se chegar à solução. Foi precisoperguntar ao orador por que cometera o lapso e o que poderia dizer sobre o mesmo. De outro modo, seu lapsopoderia ter-lhe passado despercebido, sem desejar explicá-lo. Quando, porém, foi indagado a respeito, deu aexplicação com a primeira coisa que lhe ocorreu. E agora, por favor, observem que esse pequeno passopositivo e seu resultado bem-sucedido já são uma psicanálise, e constituem um modelo para todas asinvestigações psicanalíticas que empreenderemos daqui por diante. Serei demais desconfiado, porém, se suspeito que, exatamente no momento em que a psicanálise fazseu aparecimento perante os senhores, a resistência a ela desperta, simultaneamente? Não se sentem ossenhores inclinados a objetar que a informação dada pela pessoa a quem foi feita a pergunta — a pessoa quecometeu o lapso de língua — não é totalmente conclusiva? Ela estava naturalmente desejosa, pensam ossenhores, de atender à solicitação de explicar o lapso, e assim disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça eque parecia capaz de fornecer tal explicação. Isso, porém, não é nenhuma prova de que o lapso realmenteocorreu dessa maneira. Pode ter sido assim; contudo, também pode ter sucedido de outra forma. E poderia ter-lhe ocorrido mais alguma coisa, que seria também apropriada, ou talvez até mesmo mais bem ajustada. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 27 É estranho quão pouco respeito os senhores, no fundo, têm por um ato psíquico. Imaginem que alguémtivesse empreendido a análise química de determinada substância e encontrado determinado peso para um deseus componentes: tantos e tantos miligramas. Determinadas inferências seriam deduzidas desse peso. Ora,supõem os senhores que alguma vez ocorreria a um químico criticar essas inferências com base no fato de quea substância isolada poderia igualmente ter tido algum outro peso? Todos se curvarão ante o fato de que opeso era esse e nenhum outro, e confiantemente tirarão daí suas ulteriores conclusões. No entanto, quando ossenhores se defrontam com o fato psíquico de que determinada coisa ocorreu à mente da pessoa interrogada,não querem admitir a validade do fato: alguma outra coisa poderia ter-lhe ocorrido! Os senhores acalentam ailusão de haver uma coisa como liberdade psíquica e não querem desistir dela. Lamento dizer que discordocategoricamente dos senhores a este respeito. Perante isso irão interromper-se, porém apenas para retomar sua resistência em outro ponto. Eprosseguirão: ‘Constitui técnica especial da psicanálise, segundo entendemos, tomarem análise as própriaspessoas a fim de obter a solução de seus problemas. [ver em [1], adiante.] Agora tomemos um novo exemplo:aquele em que um orador, convocando a um brinde de homenagem numa ocasião de cerimônia, convidou seusouvintes a arrotar [aufzustossen] à saúde do chefe [ver em [1]].O senhor diz [ver em [1] e [2]] que a intençãoperturbadora, nesse caso, era uma intenção de insultar: era essa que estava opondo-se à expressão derespeito do orador. É, contudo, mera interpretação da parte do senhor, baseada em observações nãorelacionadas com o lapso de língua. Se, nesse exemplo, o senhor interrogasse a pessoa responsável pelolapso, ela não confirmaria a idéia do senhor, de que ela tencionava um insulto; ao contrário, ela repudiaria issoenergicamente. Por que, em face desse claro desmentido, não abandona sua improvável interpretação?’ Sim. Os senhores encontraram um argumento poderoso desta vez. Posso imaginar o desconhecidoproponente do brinde. Provavelmente é subordinado do chefe do departamento, a quem está sendo feita ahomenagem — talvez ele mesmo já seja professor-assistente, um homem jovem, com excelentes projetos devida. Procuro forçá-lo a admitir que ele pode, não obstante, ter tido uma sensação de que nele havia algo seopondo ao brinde em honra do chefe. Entretanto, isso me põe em maus lençóis. Ele fica impaciente e, derepente, irrompe: ‘Pare de querer me interrogar, se não, vou ficar grosseiro. O senhor vai arruinar toda a minhacarreira com suas suspeitas. Apenas falei “aufstossen [arrotar]” em vez de “anstossen [brindar]”, porque antesdisse “auf” duas vezes na mesma frase. É o que Meringer chama de perseveração e não há nada mais para serinterpretado nisso. Está entendendo? Basta!‘ — Hum! Que reação surpreendente — uma negação realmenteenérgica. Vejo que não há nada mais a tratar com o homem. Porém, também constato que ele mostra intensointeresse pessoal em insistir em que sua parapraxia não tem um sentido. Os senhores também podem sentirque existe algo de errado em ele ser assim tão rude com uma indagação puramente teórica. Entretantopensarão, depois de tudo dito e feito: ele deve saber o que quis e o que não quis dizer. Mas, será que sabe mesmo? Talvez seja essa ainda a questão. Agora, porém, julgam que me têm à mercê dos senhores. ‘Então essa é sua técnica’, ouço-os dizer.‘Quando alguém que cometeu um lapso de língua diz alguma coisa a respeito, que satisfaz ao senhor, o senhoro declara autoridade decisiva e final no assunto. “É ele mesmo quem diz! [ver em [1]]”. Quando o que ele diznão se ajusta ao livro do senhor, então tudo quanto o senhor diz é que ele não tem importância — não hánecessidade de acreditar nele. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 28 Isso é bastante verdadeiro. Mas posso trazer-lhes um exemplo semelhante, no qual ocorre o mesmoespantoso evento. Quando alguém, acusado de um delito, confessa ao juiz sua ação, o juiz acredita em suaconfissão; porém, se nega, o juiz não acredita nele. Se fosse de outra forma, não haveria aplicação de justiça, eapesar de erros ocasionais devemos convir em que o sistema funciona. ‘O senhor é um juiz, então? E uma pessoa que cometeu um lapso de língua é trazida à sua presençasob acusação? Quer dizer que cometer um lapso de língua é um delito, não é?’ Talvez não precisemos rejeitar a comparação. Eu, contudo, pedir-lhes-ia observarem que profundasdiferenças de opinião atingimos após uma pequena investigação do que pareciam ser esses inocentesproblemas concernentes às parapraxias — diferenças que, no momento, não vemos como atenuar. Proponhouma conciliação provisória, com base na analogia entre juiz e réu. Penso que os senhores convirão comigo emque não pode haver dúvida de que a parapraxia tenha um sentido, se a própria pessoa o admite. Em troca, euvou convir em que não podemos chegar a uma prova direta do suspeito sentido, se a pessoa nos recusainformações, e também, naturalmente, se não está em condições de nos fornecer as informações. Portanto,como no caso da aplicação da justiça, somos obrigados a voltar-nos para a prova circunstancial, que podetornar uma decisão mais fundamentada em alguns casos, e menos, em outros. Nos tribunais de justiça pode sernecessário, por motivos práticos, considerar um réu culpado com base em provas circunstanciais. Não temosnecessidade disso; nem estamos, contudo, também obrigados a prescindir de provas circunstanciais. Seria umerro supor que uma ciência consista inteiramente de teses estritamente comprovadas, e seria injusto exigir isso.Somente uma pessoa inclinada a uma paixão por autoridade fará essa exigência, alguém com um desejoinsaciável de substituir seu catecismo religioso por outro, embora científico. A ciência tem apenas algumaspoucas proposições apodícticas em seu catecismo: o resto são asserções promovidas por ela a um certo graude probabilidade. Atualmente, constitui sinal de modo científico de pensamento contentar-se com essasaproximações da certeza e ser capaz de dedicar-se a um trabalho construtivo mais além, apesar da ausênciade confirmação final. No entanto, se a pessoa mesma não nos dá a explicação do sentido de uma parapraxia, onde iremosencontrar os pontos de partida para nossa interpretação — a prova circunstancial? Em diversas direções. Emprimeiro lugar, a partir de analogias com fenômenos outros que não as parapraxias: quando, por exemplo,afirmamos que distorcer um nome, isso ocorrendo como lapso de língua, tem o mesmo sentido insultuoso que adeturpação deliberada de um nome. Ademais, também a partir da situação psíquica na qual ocorreu aparapraxia, do caráter da pessoa que comete a parapraxia e das impressões que a pessoa recebeu antes daparapraxia e às quais a parapraxia talvez seja uma reação. O que sucede, via de regra, é a interpretação serefetuada segundo princípios gerais: começar por onde existe apenas uma suspeita, uma hipótese deinterpretação; e então encontramos uma confirmação ao examinarmos a situação psíquica. Às vezes, temos deesperar também por eventos subseqüentes (que, de certa maneira, se anunciaram pela parapraxia) antes denossa suspeita ser confirmada. Não posso facilmente dar-lhes ilustrações desse aspecto se me limito ao campo dos lapsos de língua,embora nele mesmo se possa encontrar alguns bons exemplos. O jovem senhor que queria ‘begleitdigen‘ umasenhora [ver em [1]] certamente era uma personalidade tímida. A mulher, cujo marido podia comer e beber oque ela quisesse [ver em [1]], é o que eu conheço como uma dessas enérgicas senhoras que mandam em Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 29casa. Ou, então, tomemos o seguinte exemplo: Na assembléia geral do “Concordia” um jovem membro fez umdiscurso de violenta oposição, no decorrer do qual se referiu à diretoria como ‘Vorschussmitglieder [membros doempréstimo]’, uma palavra que parece ter sido formada de ‘Vorstand [diretoria]’ e ‘Ausschuss [comissão]’.Suspeitaremos de que alguma intenção perturbadora estivesse operando nele, trabalhando contra sua violentaoposição, baseada em algo referente a um empréstimo. E com efeito, soubemos de nosso informante que oorador estava constantemente em dificuldades financeiras, e justamente nessa época se havia inscrito para umempréstimo. A intenção perturbadora podia, por conseguinte, ser substituída pelo pensamento: ‘Modere suaposição, estas são as mesmas pessoas que irão aprovar seu empréstimo.’ Contudo, tenho condições de dar-lhes um extenso conjunto de provas circunstanciais desse tipo se medesloco para o vasto campo das outras parapraxias. Se alguém esquece um nome próprio que lhe é normalmente familiar, ou se, malgrado todos os seusesforços, acha difícil lembrá-lo, é plausível supor que tenha algo contra a pessoa que usa o nome, de modo queprefere não pensar nela. Considerem, por exemplo, o que aprendemos sobre a situação psíquica em queocorreu a parapraxia, nos casos que agora examinaremos: ‘Herr Y. apaixonou-se por uma senhora, porém não teve sucesso, e logo depois ela se casou com HerrX. Depois disso, Herr Y., apesar de ter conhecido Herr X. por muito tempo e mesmo ter assuntos de negócioscom ele, esquecia seu nome repetidamente, de forma que por diversas vezes tinha de perguntar a outraspessoas qual era o nome, quando precisava corresponder-se com Herr X.’ Herr Y. evidentemente nada queriasaber de seu rival mais afortunado: ‘jamais pensar sobre sua existência.’ Ou esse outro: Uma senhora indagou a seu médico sobre notícias de uma conhecida de ambos, porémmencionou-a por seu nome de solteira. Ela havia esquecido o nome de casada de sua amiga. Admitiu, depois,que ficara muito desgostosa com o casamento e se antipatizava com o marido de sua amiga. Teremos muito a dizer sobre esquecimento de nomes em outros contextos [ver em [1] e seg., adiante];no momento interessa-nos principalmente a situação psíquica na qual ocorre o esquecimento. O esquecimento de intenções pode geralmente ser atribuído a uma corrente oposta de pensamento,que reluta em executar a intenção. Essa opinião, porém, não é sustentada apenas por nós, psicanalistas; éopinião geral, aceita por todos em sua vida diária e negada somente quando se torna teoria. Um protetor que dáa seu protégé a desculpa de haver esquecido seu pedido, não precisa justificar-se. O protégé logo pensa: Nãosignifica nada para ele; é verdade que prometeu, mas na realidade não quer fazê-lo. Por essa razão oesquecimento é interdito em certas circunstâncias da vida comum; a diferença entre a opinião popular e aopinião psicanalítica acerca dessas parapraxias parece haver desaparecido. Imaginem a dona da casarecebendo seu convidado com as palavras: ‘O quê? O senhor veio hoje? Esqueci-me totalmente de havê-loconvidado para hoje.’ Ou imaginem um jovem senhor confessando a sua noiva que ele se esqueceu decomparecer ao último encontro. Ele certamente não o confessará; preferirá inventar de improviso os maisimprováveis obstáculos que o impediram de comparecer a tempo e que, depois, o impossibilitaram de avisá-la.Todos sabemos, também, que na vida militar a desculpa de se haver esquecido algo, em nada ajuda, e nãoconstitui proteção contra punição; e certamente todos sentimos que essa conduta se justifica. Aqui de repentetodos se unem no pensar que uma determinada parapraxia tem um sentido e no saber que sentido é esse. Por Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 30que não são suficientemente coerentes para estender seu conhecimento às outras parapraxias e admiti-lasplenamente? Para essa pergunta existe, naturalmente, também uma resposta. Visto como os leigos têm tão poucas dúvidas sobre o sentido do esquecimento de intenções, ossenhores não ficarão nada surpresos ao encontrarem escritores empregando essa espécie de parapraxia nomesmo sentido. Qualquer um dos senhores que tenha visto ou lido Caesar and Cleopatra, de Bernard Shaw, selembrará de que, na última cena, César, ao deixar o Egito, é perseguido pela idéia de que há alguma coisa maisque tencionara fazer, porém esqueceu. No fim, vem-se a saber o que era: esquecera-se de dizer adeus aCleópatra. O dramaturgo, mediante esse pequeno expediente engenhoso, procura atribuir ao grande César asuperioridade que, na realidade, ele não possui e que jamais desejou. Fontes históricas lhes contarão queCésar fez Cleópatra acompanhá-lo a Roma, que ela vivia lá com seu pequeno Caesarion quando César foiassassinado, e que ela logo depois fugiu da cidade. Casos de esquecimento de uma intenção em geral são tão claros que não servem muito a nossoobjetivo obter a partir da situação psíquica uma prova circunstancial do sentido de uma parapraxia. Voltemo-nos, portanto, para um tipo de parapraxia especialmente ambíguo e obscuro: a perda e o extravio. Os senhoresnão terão dúvida em achar inacreditável que nós próprios podemos desempenhar um papel intencional emcoisa tão freqüente como o é o doloroso acidente de perder algo. Existem, contudo, numerosas observaçõessemelhantes à que se segue. Um jovem senhor perdeu um lápis de grande valor estimativo para ele. No diaanterior recebera uma carta de seu cunhado, a qual terminava com estas palavras: ‘Não tenho atualmente nemdisposição nem tempo para encorajá-lo em sua futilidade e preguiça.’ O lápis, de fato, lhe fora dado pelomesmo cunhado. Sem essa coincidência não poderíamos, naturalmente, ter afirmado que, nessa perda, umpapel foi desempenhado pela intenção de se desfazer do objeto. Casos semelhantes são muito comuns.Perdemos um objeto se nos desentendemos com a pessoa de quem o ganhamos e não queremos nos lembrardela; ou, então, se não gostamos mais do objeto em si mesmo e queremos uma desculpa para conseguir umoutro melhor em seu lugar. A mesma intenção dirigida contra um objeto também, naturalmente, pode ter umdesempenho nos casos de deixar cair, de quebrar e de destruir coisas. Podemos considerar obra do acasoquando uma criança em idade escolar, imediatamente antes do aniversário, estraga ou despedaça algum deseus pertences pessoais como sua mochila ou seu relógio? Sequer qualquer um que já tenha sofrido suficientes vezes o tormento de não poder encontrar algoguardado por ele mesmo, se sentirá inclinado a acreditar que existe um objetivo em extraviar coisas. Não sãonada raros os casos em que as circunstâncias concomitantes do extravio indicam uma intenção de se desfazer,temporária ou permanentemente, do objeto. O que se segue talvez seja o melhor exemplo de tal situação. Um homem ainda bem jovem contou-meo seguinte caso: ‘Há alguns anos havia desentendimentos entre mim e minha esposa. Achava-a muito fria, eembora de bom grado reconhecesse suas excelentes qualidades, convivíamos sem quaisquer sentimentosternos. Um dia. voltando de uma caminhada, deu-me um livro que havia comprado porque pensou que meinteressaria. Agradeci-lhe esse gesto de “atenção”, prometi ler o livro e o pus de parte. Depois disso jamaisconsegui encontrá-lo. Passaram-se meses, durante os quais casualmente eu me lembrava do livro perdido efazia vãs tentativas de encontrá-lo. Uns seis meses mais tarde minha querida mãe, que não morava conosco,caiu doente. Minha esposa deixou a casa para ir cuidar de sua sogra. A condição da paciente agravou-se e deu Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 31à minha mulher uma oportunidade de revelar o melhor lado de si mesma. Uma noite, eu regressava a casacheio de entusiasmo e gratidão pelo que minha esposa tinha realizado. Aproximei-me de minha escrivaninha, e,sem qualquer intenção definida, embora com uma espécie de certeza de sonâmbulo, abri uma das gavetas. Ali,bem à vista, encontrei o livro que há muito eu extraviara. Com a extinção do motivo o extravio do objeto tambémcessou. Senhoras e senhores, poderia multiplicar indefinidamente essa coleção de exemplos; mas não o farei,aqui. De qualquer forma os senhores encontrarão uma profusão de material para estudo das parapraxias emPsychopathology of Everyday Life (publicado pela primeira vez em 1901). Todos esses exemplos conduzem aomesmo resultado: indicam a probabilidade de as parapraxias terem um sentido, e mostram aos senhores comoesse sentido é descoberto ou confirmado pelas circunstâncias concomitantes. Hoje serei mais breve, poisadotamos o objetivo limitado de usar o estudo desses fenômenos como auxílio para uma preparação àpsicanálise. Há apenas dois grupos de observações nos quais preciso adentrar-me mais completamente nesteponto: as parapraxias acumuladas e combinadas e a confirmação de nossas interpretações por acontecimentossubseqüentes. As parapraxias acumuladas e combinadas são, sem dúvida, a fina flor de sua espécie. Se estivéssemosapenas interessados em provar que as parapraxias têm um sentido, nos teríamos limitado a elas logo de saída,de vez que em seu caso o sentido é inconfundível até mesmo para um pobre de espírito e se impõe aojulgamento mais crítico. Um acúmulo desses fenômenos revela uma persistência que quase nunca constituicaracterística de eventos casuais, a qual, porém, se ajusta muito bem a algo intencional. Finalmente, apermutabilidade recíproca entre diferentes espécies de parapraxias demonstra que coisa na parapraxia éimportante e característica: não é sua forma nem o método que empregam, mas sim o propósito a que servem,possível de se atingir das mais variadas formas. Por essa razão, fornecer-lhes-ei um exemplo de esquecimentorepetido. Ernest Jones [1911, 483] conta-nos que, por motivo que ele desconhece, certa vez deixou por váriosdias uma carta sobre sua escrivaninha. Por fim decidiu expedi-la; a carta, porém, retornou a ele pelo DeadLetter Office pois havia se esquecido de sobrescritá-la. Depois de colocado o endereço levou-a ao correio, masdesta vez ela não tinha selo. Então, por fim, foi obrigado a admitir sua completa relutância em enviar a carta. Em outro caso um ato descuidado aparece combinado com um exemplo de extravio. Uma senhoraviajou para Roma com seu cunhado, que era um artista famoso. O visitante foi recebido com grandes honraspela comunidade alemã de Roma e, entre outros presentes, deram-lhe uma antiga medalha de ouro. A senhoraficou agastada porque seu cunhado não apreciou suficientemente o valioso objeto. Quando regressava a suacasa (o lugar onde estava, em Roma, ficou ocupado por sua irmã), ao desfazer as malas ela descobriu quehavia trazido a medalha consigo; como, ela não sabia. Imediatamente enviou a seu cunhado uma carta com anotícia informando que no dia seguinte devolveria para Roma o objeto que levara consigo. Porém no diaimediato a medalha foi extraviada de forma tão astuta que não pôde ser encontrada e remetida; e foi nesseponto que a senhora começou a compreender o significado de sua distração: ela queria guardar o objeto para simesma. Já lhes dei um exemplo de combinação de um esquecimento com um erro, o caso de alguém que seesquece de um compromisso e, numa segunda ocasião, aparece na hora errada, tendo antes decididofirmemente não esquecê-lo desta vez [ver em [1]]. Um caso exatamente semelhante foi-me referido, de sua Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 32própria experiência, por um amigo que possui interesses literários e científicos. ‘Há alguns anos’, contou-me,‘permiti que me elegessem para a diretoria de certa sociedade literária, pois pensava que a organização algumdia pudesse ser capaz de me ajudar a ter minha peça produzida; e embora sem muito interesse, participeiregularmente das reuniões que se realizavam todas as sextas-feiras. Há poucos meses deram-me a promessade uma produção no teatro de F.; e, desde então, tenho me esquecido regularmente das reuniões dasociedade. Ao ler seu livro sobre o assunto senti-me envergonhado de minha negligência. Reprovei-me com aidéia de que distanciar-me era uma conduta indigna de minha parte, de vez que agora eu não estavaprecisando mais dessas pessoas, e resolvi a qualquer custo não me esquecer da próxima sexta-feira. Persistiem lembrar-me dessa resolução até quando a pus em execução e parei diante da porta da sala onde asreuniões se realizavam. Para minha surpresa, estava fechada; a reunião havia terminado. Eu havia realmentecometido um engano quanto ao dia; era sábado!’ Seria adequado acrescentar outros exemplos semelhantes. Devo prosseguir, contudo, e mostrar-lhesnum relance os casos em que nossa interpretação tem de esperar pelo futuro para ser confirmada. A condiçãodominante nesses casos, como se verificará, é que a situação psíquica presente nos é desconhecida ouinacessível a nossas pesquisas. Nossa interpretação, por conseguinte, não é mais que uma suspeita à qual nóspróprios não atribuímos muita importância. Mais tarde, no entanto, sucede algo que nos revela quão acertadafora nossa interpretação. Certa vez fui hóspede de um jovem casal recém-casado e ouvi a jovem senhoradescrever, com risos, sua última experiência. No dia após o regresso da lua-de-mel, convidara sua irmã solteirapara acompanhá-la às compras, como costumava fazer, enquanto seu marido ia para o trabalho. De repente,reparou em um cavalheiro no outro lado da rua, e, cutucando sua irmã, exclamou: ‘Olha, aí vai Herr L.’ Ela sehavia esquecido de que esse cavalheiro era seu marido há algumas semanas. Estremeci quando ouvi ahistória, contudo não ousei tirar uma conclusão. O pequeno incidente só acudiu à minha memória alguns anosdepois, quando o casamento havia chegado a um triste fim. Maeder conta-nos de uma senhora que, na véspera de suas núpcias, se esquecera de provar o vestidode casamento e, para desespero de seu costureiro, apenas se lembrou quando já era tarde, à noite.Correlaciona essa negligência com o fato de que ela em breve se divorciava de seu marido. Conheço umasenhora, atualmente divorciada de seu marido, a qual, ao tratar de assuntos de dinheiro, freqüentementeassinava documentos com seu nome de solteira, muitos anos antes de o reassumir de fato. — Sei de outrasmulheres que perderam suas alianças de casamento durante a lua-de-mel, e também que a história de seuscasamentos conferiu um sentido ao acidente. — E agora, eis mais um exemplo evidente, porém com um finalmais feliz. Conta-se essa história de um famoso químico alemão, cujo casamento não se realizou porque ele seesqueceu da hora da cerimônia nupcial, tendo ido ao laboratório em vez de ir à igreja. Foi muito prudente por sehaver contentado com uma só tentativa; morreu em avançada idade, solteiro. Talvez possa ter ocorrido aos senhores a idéia de que, nesses exemplos, as parapraxias assumiram olugar dos presságios ou dos augúrios dos antigos. E, com efeito, alguns presságios nada mais eram queparapraxias, como, por exemplo, quando alguém tropeçava ou caía. Outros, é verdade, tinham o caráter deacontecimentos objetivos e não de atos subjetivos. Os senhores, contudo, dificilmente acreditariam quão difícil,às vezes, é decidir se determinado evento pertence a um ou a outro grupo. Um ato muito amiúde sabe como sedisfarçar como uma experiência passiva. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 33 Aqueles dentre nós que podem recordar uma experiência de vida comparativamente longa,provavelmente admitirão que nos teríamos poupado muitos desapontamentos e surpresas dolorosas setivéssemos encontrado coragem e determinação para interpretar como augúrios pequenas parapraxiasexperimentadas em nossos contatos humanos, e para fazer uso delas como indícios de intenções que aindaestavam ocultas. Via de regra, não ousamos fazê-lo; isso nos levaria a sentir-nos como se, após uma jornadaatravés da ciência, estivéssemos ficando supersticiosos novamente. Nem todos os augúrios se realizam e ossenhores compreenderão, a partir de nossas teorias, que nem todos precisam realizar-se. CONFERÊNCIA IV - PARAPRAXIAS (conclusão) SENHORAS E SENHORES: Podemos considerar como resultado de nossos esforços até agora desenvolvidos e como base denossas ulteriores investigações o fato de as parapraxias terem um sentido. Permitam-me mais uma vez insistirem que não estou afirmando — para nossos objetivos não há necessidade de fazê-lo — que toda parapraxiaque ocorre individualmente tem um sentido, embora eu pense que provavelmente seja esse o caso. Já nossatisfaz mostrarmos esse sentido em um número relativamente freqüente de diferentes formas de parapraxias.Ademais, a esse respeito as diferentes formas aqui mencionadas se comportam de modo diverso. Casos delapsos de língua e de lapsos de escrita, e outros, podem ocorrer mediante uma causa puramente fisiológica.Não posso acreditar que isso ocorra nos tipos que dependem de esquecimento (esquecimento de nomes ou deintenções, extravios, etc.). É muito provável haver casos de perda que podem ser considerados como não-intencionados. De um modo geral, é verdade que apenas uma parcela dos erros que ocorrem na vida comum,pode ser julgada segundo nosso ponto de vista. Os senhores devem ter em mente essas limitações quando, deora em diante, dermos por estabelecido o fato de que as parapraxias são atos psíquicos e surgem de mútuainterferência entre duas intenções. Esse é o primeiro produto da psicanálise. A psicologia, até o momento atual, nada sabia da existênciadessas interferências recíprocas ou da possibilidade de que pudessem resultar em tais fenômenos. Ampliamosconsideravelmente o mundo dos fenômenos psíquicos e conquistamos para a psicologia fenômenos queanteriormente não eram nele incluídos. Façamos uma pausa mais detida sobre a afirmação de que as parapraxias são ‘atos psíquicos’. Seráque isso envolve uma coisa além daquilo que já dissemos: que elas possuem um sentido? Penso que não.Penso, antes, que a afirmação anterior [de que são atos psíquicos] é mais indefinida e mais facilmente passívelde compreensão errônea. Tudo o que é observável na vida mental pode ocasionalmente ser descrito comofenômeno mental. A questão, nesse caso, é saber se o fenômeno mental específico teve origem imediata eminfluências somáticas, orgânicas e materiais — e, assim, sua investigação não fará parte da psicologia — ou seele, em primeira instância, deriva de outros processos mentais, em alguma parte além daquela onde começa asérie das influências orgânicas. É essa última situação que temos em vista quando descrevemos um fenômenocomo processo mental, sendo por isso mais adequado encerrar nossa afirmação desta forma: ‘o fenômeno temum sentido’. Por ‘sentido’ entendemos ‘significação’, ‘intenção’, ‘propósito’ e ‘posição em um contexto psíquicocontínuo’. [ver em [1]] Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 34 Existem inúmeros outros fenômenos muito semelhantes às parapraxias; para eles, porém, esse nomenão mais se ajusta. Nós os denominamos ações casuais e ações sintomáticas. Estas possuem igualmente apeculiaridade de não ter motivo, serem insignificantes e não importantes; contudo, têm um acréscimo,explicitamente o de serem desnecessárias. Distinguem-se das parapraxias porque lhes falta uma segundaintenção capaz de lhes fazer oposição e de ser perturbada por elas. Por outro lado, elas se confundeminsensivelmente com os gestos e movimentos que consideramos expressões das emoções. Essas açõescasuais incluem toda classe de manipulações com nossas roupas ou com partes de nosso corpo ou comobjetos ao nosso alcance, executadas como que por brincadeira e aparentemente sem finalidade, e incluem,ademais, a omissão dessas manipulações; ou, além disso, melodias que murmuramos para nós mesmos.Penso que todos esses fenômenos têm um sentido e podem ser interpretados da mesma forma como asparapraxias, que eles são pequenas indicações de processos mentais mais importantes e atos psíquicosinteiramente válidos. Não me proponho, contudo, demorar-me sobre essa recente expansão do campo dosfenômenos mentais; voltarei às parapraxias, em relação às quais importantes problemas para a psicanálisepodem ser equacionados com muito maior clareza. Talvez sejam essas as questões mais interessantes que levantamos a respeito das parapraxias e queainda não foram respondidas. Dissemos serem as parapraxias o produto de mútua interferência entre duasintenções diferentes, das quais uma pode ser chamada de intenção perturbada e a outra, intençãoperturbadora. As intenções perturbadas não ensejam outras questões, porém no que se refere às intençõesperturbadoras gostaríamos de saber: em primeiro lugar, que espécie de intenções são essas capazes deperturbar outras, e, em segundo lugar, qual é a relação das intenções perturbadoras com as perturbadas? Se me permitem, mais uma vez tomarei lapsos de língua como representantes da classe inteira, eresponderei à segunda questão antes de responder à primeira. Em um lapso de língua a intenção perturbadora pode, em seu conteúdo, custar relacionada à intençãoperturbada, caso em que ela a contradiz, corrige ou suplementa. Ou então — caso esse mais obscuro e maisinteressante — o conteúdo da intenção perturbadora pode não ter nada a ver com o conteúdo da intençãoperturbada. Não teremos qualquer dificuldade em encontrar provas da relação citada em primeiro lugar, emexemplos que já conhecemos e em outros parecidos. Em quase todos os casos nos quais um lapso de línguainverte o sentido, a intenção perturbadora expressa o contrário da intenção perturbada, e a parapraxiarepresenta um conflito entre duas tendências incompatíveis. ‘Declaro aberta a sessão, porém preferiria que jáestivesse encerrada’ é o sentido do lapso de língua do presidente [ver em [1]]. Uma revista política, acusada decorrupção, se defende em um artigo cujo clímax deveria ter sido: ‘Nossos leitores serão testemunhas do fato deque sempre agimos da maneira mais desinteressada, pelo bem da comunidade.’ O editor a quem fora confiadaa preparação do artigo, porém, escreveu ‘da maneira mais interesseira‘. Quer dizer, ele estava pensando: ‘Issoé o que estou obrigado a escrever; porém, tenho idéias diferentes.’ Um membro do parlamento [alemão], queinsistia em que se devia dizer a verdade ao imperador ‘rückhaltlos [sem reservas]’, evidentemente ouviu umavoz interior, sobressaltada com sua ousadia e, por um lapso de língua, mudou a palavra para ‘rückgratlos [semespinha dorsal, sem coragem]’. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 35 Nos exemplos já conhecidos dos senhores, os quais dão uma impressão de serem contrações ouabreviações, o que temos diante de nós são correções, acréscimos ou continuações, por meio dos quais umasegunda intenção se faz sentir ao lado da primeira. ‘Os fatos vieram a Vorschein [a luz] — melhor dizer de umavez: eram Schweinereien [porcarias]; pois bem, então os fatos vieram a Vorschwein [ver em [1]].’ ‘Os queentendem disso podem ser contados nos dedos de uma mão — não, existe realmente apenas uma pessoa queentende disso: portanto, pode ser contada em um só dedo [ver em [1]].’ Ou: ‘Meu marido pode comer e beber oque quer. Mas, como sabem, eu não me submeto à sua vontade em nada, absolutamente; então: ele podecomer e beber o que eu quero [ver em [1]].’ Em todos esses casos o lapso de língua surge, pois, do conteúdoda própria intenção perturbada ou está em conexão com ela. A outra espécie de relação entre as duas intenções mutuamente interferentes parece enigmática. Se aintenção perturbadora não tem nada a ver com a intenção perturbada, de onde pode ter-se originado e por quese faz notar como uma perturbação nesse determinado ponto? A observação, que por si só é capaz de dar-nosa resposta para isso, mostra que a perturbação surge de uma seqüência de idéias que pouco antes se apossouda pessoa referida, e produz esse efeito subseqüente havendo ou não já sido expressa no discurso. Portanto,na realidade deve ser descrita como uma perseveração, embora não necessariamente como a perseveraçãodas palavras faladas. Também nesse caso está presente um elo associativo entre as intenções perturbadora eperturbada, porém não é situado em seu conteúdo, e sim construído artificialmente, muitas vezes através devias associativas extremamente tortuosas.Aqui está um exemplo simples desse aspecto, derivado de minhaprópria experiência. Certa vez encontrei nas aprazíveis Dolomitas duas senhoras vienenses vestidas em trajesde passeio. Acompanhei-as parte do caminho e conversamos sobre as delícias e, também, as atribulações depassar um feriado daquela maneira. Uma das senhoras admitiu que passar assim o dia tinha comoconseqüência uma boa dose de desconforto. ‘Certamente, não é de todo agradável’, dizia, ‘quando se esteve odia inteiro perambulando ao sol e transpirando até pela blusa e a camisa.’ Nesta frase, ela teve de vencer umaleve hesitação em determinado ponto. E prosseguiu: ‘Mas então, quando se vai “nach Hose” e se podemudar….’ Esse lapso de língua não foi analisado, contudo espero que possam compreendê-lo facilmente. Aintenção da senhora fora obviamente a de dar uma lista mais completa de suas roupas: blusa, camisa e Hose[calças]. Razões de decoro levaram-na a omitir qualquer menção às ‘Hose‘. Porém na frase seguinte, com seuconteúdo bastante independente, a palavra não dita emergiu como uma distorção da outra de som semelhante,‘nach Hause [para casa]’. Agora, porém, podemos voltar à questão principal, que por muito tempo adiamos: que espécie deintenções são essas, que encontram expressão nessa forma incomum como perturbadoras de outrasintenções? Bem, evidentemente elas são de espécies muito diferentes, entre as quais devemos procurar o fatorcomum. Com isso em mente, se examinarmos determinado número de exemplos, esses logo se enquadrarãoem três grupos. O primeiro grupo contém aqueles casos nos quais a intenção perturbadora é do conhecimentode quem fala e, além disso, foi por este percebida antes de cometer o lapso de língua. Assim, no lapso do‘Vorschwein‘ [ver em [1]] a pessoa que falava admitiu não somente haver feito o julgamento ‘Schweinereien’/’sobre os fatos em questão, mas também admitiu que tivera a intenção, da qual depois recuou, de expressar seujulgamento em palavras. Um segundo grupo é formado por outros casos nos quais a intenção perturbadora éigualmente reconhecida como tal pela pessoa que fala; porém, nestes casos, a pessoa não se apercebia de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 36que a intenção estava atuando dentro dela tão logo acabou de cometer o lapso. Desse modo, ela aceita nossainterpretação de seu lapso; ainda assim, permanece surpresa com o mesmo. Exemplos desse tipo de atitudetalvez possam ser encontrados em outras espécies de parapraxias, mais facilmente do que nos lapsos delíngua. Em um terceiro grupo, a interpretação da intenção perturbadora é vigorosamente rejeitada por aqueleque incorreu no lapso; não apenas nega que essa intenção estava atuante nele antes de cometer o lapso, masprocura sustentar a afirmação de que tal intenção lhe é inteiramente estranha. Recordam-se do exemplo do‘arroto’ [ver em [1] e [2]] e da vigorosa contestação que me foi apresentada pelo orador, pelo fato de eu revelarsua intenção perturbadora. Como os senhores sabem, até agora, em nossas opiniões, ainda não chegamos aum acordo a respeito desses casos. Eu não daria maior importância à contestação formulada pelo proponentedo brinde e persistiria serenamente em minha interpretação, ao passo que os senhores; suponho, aindaafetados pelo protesto daqueles, levantam a questão de saber se não deveríamos desistir de interpretarparapraxias dessa espécie e considerá-las como atos puramente fisiológicos, no sentido pré-analítico. Bemposso imaginar que coisa os intimida. Minha interpretação abriga a hipótese de que, quando uma pessoa fala,podem ser expressas intenções das quais ela própria nada sabe e que eu, contudo, posso inferir a partir deprovas circunstanciais. Os senhores se detêm ao arrostar essa hipótese nova e momentosa. Posso entenderisso e lhes dou razão nesse ponto. No entanto, uma coisa é certa. Se os senhores querem aplicarcoerentemente a compreensão das parapraxias, confirmada por tantos exemplos, terão de se decidir a aceitar aestranha hipótese que mencionei. Caso não possam fazê-lo, mais uma vez precisarão abandonar oentendimento das parapraxias, que os senhores vêm de adquirir. Consideremos, por um momento, que coisa é essa que une os três grupos, o que é aquilo que os trêsmecanismos dos lapsos de língua têm em comum. Isso, felizmente, é um fato inequívoco. Nos dois primeirosgrupos, a intenção perturbadora é reconhecida pela pessoa que comete o lapso; ademais, no primeiro grupoessa intenção se revela imediatamente antes do lapso. Porém, em ambos os casos, ela é repelida. O oradordecide não expressá-la verbalmente e, após isso, ocorre o lapso de língua: após isso, quer dizer, que aintenção, que foi repelida, é expressa em palavras, contra a vontade de quem fala, seja alterando a expressãoda intenção permitida, seja confundindo-se com essa expressão, ou realmente tomando seu lugar. Este é, pois,o mecanismo do lapso de língua. Em minha opinião, posso fazer com que aquilo que acontece no terceiro grupo se harmonizecompletamente com o mecanismo que descrevi. Apenas tenho de supor ser o diferente grau em que a intençãoé repelida, aquilo que distingue esses três grupos um dos outros. No primeiro grupo a intenção existe e se faznotar antes de o orador expressá-la; só então é rejeitada; e faz sua desforra no lapso de língua. No segundogrupo a rejeição vai além: a intenção já deixou de ser perceptível antes de a pessoa expressá-la no lapso. Demodo muito estranho, isso absolutamente não impede que ela tenha sua parte na causa do lapso. Essaconduta, porém, nos facilita a explicação do que acontece no terceiro grupo. Eu me aventuraria a supor queuma intenção também possa conseguir expressar-se em uma parapraxia quando foi repelida e não foipercebida durante um tempo considerável, talvez por um tempo muito longo: e pode, por essa razão, sernegada francamente pelo orador. Conquanto os senhores ponham de lado o problema do terceiro grupo, nãopodem deixar de concluir, a partir das observações que fizemos nos outros casos, que a supressão da intençãode alguém que fala, de dizer algo, é a condição indispensável para que ocorra um lapso de língua. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 37 Agora podemos pretender havermos feito maiores progressos em nossa compreensão das parapraxias.Sabemos não apenas que elas são atos mentais nos quais podemos detectar sentido e intenção, sabemos nãoapenas que acontecem por mútua interferência entre duas intenções diferentes; porém, além disso, sabemosque uma dessas intenções deve ter sido, de alguma forma, coagida a não ser posta em execução antes depoder manifestar-se como uma perturbação da outra intenção. Deve ter sido perturbada, antes de poder ser umelemento perturbador. Isso não significa, naturalmente, que já tenhamos conseguido uma completa explicaçãodos fenômenos que denominamos parapraxias. Vemos aflorarem imediatamente novas interrogações, egeralmente suspeitamos que, quanto mais se estende nossa compreensão, mais ocasiões haverá parasurgirem novas questões. Podemos perguntar, por exemplo, da razão por que as coisas não poderiam ser maissimples. Se o propósito é repelir determinada intenção, em vez de colocá-la em execução, o ato de repelirdeveria ser bem-sucedido, de modo que a intenção absolutamente não se manifestasse; ou, por outro lado, arepulsa poderia falhar, de forma que a intenção que devia ter sido repelida se manifestaria completamente. Asparapraxias, porém, são o resultado de um acordo: constituem um meio-êxito e um meio-fracasso para cadauma das duas intenções; a intenção que está sendo desafiada não é completamente suprimida, salvo em casosespeciais, nem é levada a cabo em sua íntegra. Podemos concluir que determinadas condições especiaisdevem prevalecer para que uma interferência ou ajuste desse tipo aconteçam; no entanto, não podemos formarnenhuma idéia sobre que condições são essas. E não penso que poderíamos descobrir esses fatoresdesconhecidos penetrando mais a fundo no estudo das parapraxias. Será necessário, isto sim, examinarprimeiramente outras regiões obscuras da vida mental: somente a partir das analogias que aí obtivermos,encontraremos a coragem de estabelecer as hipóteses necessárias para lançar uma luz mais penetrante sobreas parapraxias. E acrescento mais uma coisa. Trabalhar com base em pequenos indícios, comoconstantemente temos o hábito de fazer nessa área, tem seus próprios perigos. Existe uma doença mental, a‘paranóia combinatória’, na qual a exploração de pequenos indícios como esses é levada a graus ilimitados; e,naturalmente, não pretendo afirmar que as conclusões construídas sobre tais fundamentos sejaminvariavelmente corretas. Podemos tão-somente nos precaver desses riscos pela ampla base de nossasobservações, pela repetição de impressões semelhantes originárias das mais variadas esferas da vida mental. Nesse ponto, portanto, vamos abandonar a análise das parapraxias. Existe, contudo, mais um pontopara o qual chamaria a atenção dos senhores. Eu lhes pediria que fixassem na memória, como um modelo, amaneira como temos tratado esses fenômenos. Os senhores podem aprender desse exemplo quais osobjetivos de nossa psicologia. Buscamos não apenas descrever e classificar fenômenos, mas entendê-los comosinais de uma ação recíproca de forças na mente, como manifestação de intenções com finalidade, trabalhandoconcorrentemente ou em oposição recíproca. Interessa-nos uma visão dinâmica dos fenômenos mentais. Emnossa opinião, os fenômenos que são percebidos devem ceder lugar, em importância, a tendências que sãoapenas hipotéticas. Por conseguinte, não nos aprofundaremos mais nas parapraxias; contudo, ainda podemos realizar umrápido reconhecimento da extensão dessa área, no decorrer do qual mais uma vez encontramos coisas que jáconhecemos, mas que também revelarão algumas novidades. Nesse reconhecimento, manterei a divisão emtrês grupos que propus inicialmente: lapsos de língua reunidos, com suas formas cognatas (lapsos de escrita,lapsos de leitura e lapsos de audição); esquecimento, subdividido segundo os objetos de esquecimento (nomes Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 38próprios, palavras estrangeiras, intenções e impressões); e atos descuidados, extravio e perda. Os erros, noaspecto que nos interessa, situam-se, em parte, entre os esquecimentos e, em parte, nos atos descuidados. Já abordamos bastante detalhadamente os lapsos de língua, contudo existem mais alguns pontos aacrescentar. Os lapsos de língua são acompanhados por determinados fenômenos emocionais menores, nãode todo destituídos de interesse. Ninguém aprecia cometer lapsos de língua e assiduamente deixamos de ouvirnossos próprios lapsos, embora jamais deixemos de ouvir os de outras pessoas. Os lapsos de língua tambémsão, em certo sentido, contagiosos; absolutamente não é fácil falar sobre lapsos de língua sem cometer algunslapsos de língua próprios. As formas mais triviais desses lapsos, precisamente aquelas não consignadas aprojetar uma luz especial sobre os processos mentais ocultos, possuem razões que, não obstante, não sãodifíceis de discernir. Por exemplo, se alguém pronunciou com emissão breve uma vogal longa, em virtude deum distúrbio que afeta a palavra por uma ou outra razão, logo após pronunciará como longa uma vogalsubseqüente breve, cometendo assim um novo lapso de língua para compensar o anterior. Da mesma forma,se a pessoa pronuncia um ditongo incorreta e descuidadamente (por exemplo, pronunciar um ‘eu‘ ou ‘i como‘ei‘), procurará compensar isso trocando um ‘ei‘ subseqüente por um ‘eu‘ ou ‘oi‘. Aqui, o fator decisivo pareceser uma consideração para com a impressão causada nos ouvintes; estes não deveriam supor que, para oorador, é indiferente a maneira como trata sua língua-mãe. A segunda distorção, a que compensa a primeira,realmente tem o propósito de dirigir a atenção do ouvinte para a primeira e de lhe assegurar que o oradortambém a percebeu. Os lapsos de língua mais comuns, simples e triviais são contrações e antecipações [verem [1] e [2]] ocorrentes em partes insignificantes do falar. Por exemplo, em uma frase um tanto longa pode-secometer um lapso de língua que antecipa a última palavra do que se pretende dizer. Isso causa uma impressãode impaciência por ver terminada a frase, e em geral constitui evidência de uma certa antipatia contra o ato decomunicar a frase, ou contra o todo do comentário que se está fazendo. Chegamos, assim, a casos marginaisem que as diferenças entre a opinião psicanalítica a respeito de lapsos de língua e a opinião fisiológica comumse fundem uma na outra. É de supor que, nestes casos, esteja presente um propósito de perturbar a intençãodo discurso, porém tal propósito apenas consegue fazer notar sua presença e não aquilo a que ele próprio visa.A perturbação que ele produz se faz então segundo certas influências fonéticas ou atrações associativas; podeser considerada resultado de a atenção ter sido desviada da intenção do discurso. Contudo, nem essaperturbação da atenção nem as tendências à associação que se tornaram atuantes, atingem a essência doprocesso. Este, apesar de tudo, se mantém como a indicação da existência de uma intenção que éperturbadora da intenção do discurso, embora a natureza dessa intenção perturbadora não possa ser avaliadaa partir de suas conseqüências, conforme é possível fazê-lo em todos os casos de lapsos de língua mais bemdefinidos. Os lapsos de escrita, aos quais passaremos agora, são tão afins dos lapsos de língua, que nada denovo podemos esperar deles. Talvez possamos acrescentar algum pequeno ponto adicional. Os pequenoslapsos de escrita, extremamente comuns, contrações e antecipações de palavras que deveriam vir depois(especialmente de palavras do fim de frases) indicam, mais uma vez, um desprazer geral de escrever eimpaciência por ver o trabalho terminado. Determinados produtos mais marcantes de lapsos de escritapossibilitam reconhecer a natureza e o objetivo da intenção perturbadora. Ao encontrar um lapso de escrita emuma carta, sabe-se geralmente que havia algo de diferente com seu autor, porém não se pode sempre Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 39descobrir o que se passava com ele. Um lapso de escrita passa despercebido da pessoa responsável, com amesma freqüência com que sucede com os lapsos de língua. A seguinte observação é digna de nota. Comosabemos, há pessoas que tem o hábito de reler todas as cartas que escrevem, antes de enviá-las. Outras, não,via de regra; porém, quando excepcionalmente o fazem, sempre encontram alguns lapsos de escrita quechamam a atenção e que elas podem corrigir, então. Como se explica isso? É como se essas pessoassoubessem que haviam cometido um erro ao escrever a carta. Podemos realmente acreditar nesse fato? Um problema interessante diz respeito à importância prática dos lapsos de escrita. Os senhorescertamente podem recordar o caso de um assassino, H., que encontrou os meios de obter de instituiçõescientíficas culturas de bactérias patogênicas altamente perigosas, apresentando-se como bacteriologista. Usou,então, essas culturas com a finalidade de se desfazer de suas ligações próximas através desse métodomoderníssimo. Ora, certa ocasião esse homem se queixou aos diretores de um desses institutos que asculturas a ele enviadas eram ineficazes; porém cometeu um lapso de escrita e, em vez de escrever ‘em meusexperimentos com camundongos ou porquinhos-da-índia’, escreveu muito claramente‘em meus experimentoscom homens’. Os cientistas do instituto ficaram chocados com o lapso, contudo, pelo que sei, daí não tiraramqualquer conclusão. Pois bem, o que pensam os senhores? Não deveriam os cientistas, pelo contrário, tertomado o lapso de escrita como uma confissão e iniciado uma investigação que teria posto um fim imediato àsatividades do assassino? Por ignorarem nossas opiniões sobre parapraxias, não foram responsáveis, nessecaso, por uma omissão de importância prática? Ora, penso que um lapso de escrita como esse deveras mepareceria muito suspeito; porém algo de grande importância se opõe a que seja qualificado como confissão. Oassunto não é tão simples assim. O lapso certamente era uma prova circunstancial; mas não era suficiente, porsi mesmo, para dar início a uma investigação. É verdade que o lapso de escrita disse que ele estava ocupadocom idéias de infectar pessoas, entretanto não tornou possível decidir se essas idéias deveriam ser tomadascomo clara intenção de causar dano ou como uma fantasia sem importância prática. É mesmo possível que umhomem que tivesse cometido um lapso como esse, teria todas as justificativas objetivas para negar a fantasia, ea repudiaria como algo inteiramente estranho para ele. Os senhores compreenderão ainda melhor essaspossibilidades quando, mais adiante, viermos a considerar a diferença entre realidade psíquica e material.Assim, esse é mais um exemplo de parapraxia que adquire importância a partir de eventos subseqüentes [verem [1] e seg., acima.] Com os lapsos de leitura chegamos a uma situação psíquica que difere sensivelmente daquelaencontrada em lapsos de língua ou em lapsos de escrita. Aqui, uma das duas intenções em mútua competiçãoé substituída por uma estimulação sensorial e, talvez por isso, resiste menos. O que a pessoa vai ler não é umderivado de sua própria vida mental, como algo que se propõe escrever. Em grande número de casos, portanto,um lapso de leitura consiste em uma substituição completa. Substitui-se por outra a palavra que deve ser lida,sem haver necessariamente qualquer conexão de conteúdo entre o texto e o produto do lapso de leitura, o qualdepende, via de regra, de semelhança verbal. O melhor exemplo desse grupo é o de Lichtenberg, ‘Agamemnon‘por ‘angenommen‘ [ver em [1], acima]. Se quisermos descobrir a intenção perturbadora que produziu o lapso deleitura, devemos deixar inteiramente de lado o texto que foi lido erroneamente, e podemos começar ainvestigação analítica com duas perguntas: qual é a primeira associação ao produto do lapso de leitura? e emque situação ocorreu o lapso de leitura? Às vezes o conhecimento dessa situação é, por si só, suficiente para Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 40explicar o lapso de leitura. Por exemplo, um homem, sob a pressão de uma necessidade urgente, vagava poruma cidade estranha quando viu a palavra ‘Closet-House‘ numa grande tabuleta, no primeiro andar de umprédio. Mal teve tempo suficiente para se surpreender com o fato de a tabuleta estar colocada tão alta, quandodescobriu que, estritamente falando, o que devia ter lido era ‘Corset-House‘. Em outros casos, um lapso deleitura, precisamente do tipo que é muito independente do conteúdo do texto, requer uma análise detalhada,impossível de se efetuar sem a prática da técnica de psicanálise e sem seu apoio. Como regra, entretanto, nãoé tão árduo encontrar a explicação para um lapso de leitura: a palavra substituída imediatamente revela, comono exemplo Agamemnon, o círculo de idéias do qual surgiu a perturbação. Na atual época de guerra, porexemplo, é coisa muito comum os nomes de cidades e de generais, e de termos militares, que estãoconstantemente zumbindo à nossa volta, serem lidos onde quer que nossos olhos encontrem palavrassemelhantes. Tudo aquilo que nos interessa e nos preocupa se põe no lugar do que é estranho e aindadestituído de interesse. Imagens residuais de pensamentos [anteriores] perturbam novas percepções. Com os lapsos de leitura, também, não faltam os casos de outra espécie, nos quais o texto daquilo quese lê desperta por si mesmo a intenção perturbadora, a qual de imediato o transforma em seu contrário. O quedevíamos ler era alguma coisa de indesejado, e a análise nos convencerá de que um intenso desejo de rejeitaro que estávamos lendo deve ter sido responsável por sua alteração. Nos casos mais freqüentes de lapsos de leitura, que mencionamos no início, inexistiam os dois fatoresaos quais consignamos um importante papel no mecanismo das parapraxias: o conflito entre dois propósitos, ea repulsa a um deles, que faz sua represália produzindo a parapraxia. Não que algo em contrário ocorra nolapso de leitura. A proeminência da idéia que leva ao lapso de leitura é, contudo, muito mais perceptível do quea repulsa que essa idéia pode ter percebido previamente. São esses dois fatores os que encontramos com mais evidência nas diferentes situações em queocorrem parapraxias de esquecimento. O esquecimento de intenções é bem livre de ambigüidades, como jávimos [ver em [1]], sua interpretação não é objeto de controvérsias, nem mesmo por parte de leigos. Opropósito que perturba a intenção é, em todos os casos, uma contra-intenção, uma relutância; e tudo o que nosresta saber a seu respeito é por que ele não se expressou em alguma forma diversa e menos disfarçada. Noentanto, a presença dessa contravontade é inquestionável. Vez e outra também conseguimos entrever algo dosmotivos que compelem essa contravontade a ocultar-se; agindo subrepticiamente por intermédio da parapraxia,ela sempre atinge seu objetivo, ao passo que seria seguramente repudiada se emergisse como francaoposição. Se alguma importante modificação na situação psíquica se realiza entre a formação da intenção esua execução, em conseqüência do que não mais existe a cogitação de executar a intenção, então oesquecimento da intenção se exclui da categoria das parapraxias. Já não parece mais estranho havê-laesquecido e nos apercebemos de que teria sido desnecessário lembrarmo-nos dessa intenção; depois disso elase extingue em forma permanente ou temporária. O esquecimento de uma intenção somente pode serdenominado parapraxia quando não pudermos acreditar que a intenção tenha sido interrompida desse últimomodo. Os casos de esquecimento de uma intenção geralmente são tão uniformes e tão evidentes que, poressa mesma razão não interessam à nossa investigação. Assim mesmo, existem dois pontos em que algo denovo podemos aprender a partir de um estudo dessas parapraxias O esquecimento de uma intenção — isto é a Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 41omissão de executá-la — revela, como dissemos, uma contravontade que lhe é hostil. Sem dúvida, esse fatoprocede; nossas investigações, porém, mostram que a contravontade pode ser de dois tipos: direto e indireto. Oque dou a entender com este último é ilustrado mais adequadamente com um ou dois exemplos. Se umbenfeitor se esquece de interceder junto a uma terceira pessoa em benefício de seu protégé, isso podeacontecer porque não está realmente muito interessado no protégé e, portanto, não tem grande desejo de falarem benefício deste. De qualquer forma, é esse o modo como o protégé entenderá o esquecimento de seuprotetor [ver em [1]]. Contudo, as coisas podem ser mais complexas. No protetor a contravontade, opondo-se àexecução da intenção, pode ter outra origem e pode ser voltada em direção a um ponto bem diferente. Podenão ter nada a ver com o protégé, mas, talvez, pode ser dirigida contra a terceira pessoa junto a quem arecomendação devia ter sido feita. Assim, a partir disso os senhores mais uma vez verificam [ver em [1]] asdúvidas que se erguem como obstáculo a uma aplicação prática de nossas interpretações. Apesar dainterpretação correta do esquecimento, o protégé corre o risco de ser demasiado desconfiado e de fazer graveinjustiça ao seu protetor. Ou, suponhamos que alguém se esqueça de um compromisso que prometeu mantercom alguma outra pessoa; a razão mais freqüente para isso será, sem dúvida, uma franca rejeição ao encontrocom essa pessoa. Contudo, em um caso assim a análise poderia demonstrar que a intenção perturbadora nãose referiu a essa pessoa, mas estava dirigida contra o lugar planejado para o encontro, e foi evitado por contade uma lembrança desagradável referente ao lugar. Ou, ainda, se alguém se esquece de pôr uma carta nocorreio, o contrapropósito pode basear-se no conteúdo da carta; de modo algum, porém, se exclui a hipótese dea carta poder ser inocente em si mesma e poder apenas estar sujeita ao contrapropósito, de vez que algoreferente a ela faz lembrar uma outra carta, escrita em alguma ocasião anterior, que ofereceu à contravontadeum ponto direto de ataque. Pode-se dizer, portanto, que aqui a contravontade foi transferida da carta anteriorque a justificou, à carta atual, em relação à qual não havia motivos de preocupação. Os senhores verificam,então, que devemos ser moderados e previdentes ao aplicar nossas interpretações, e isso se justifica: as coisasque são psicologicamente equivalentes podem, na prática, ter grande variedade de significados. Fenômenos como esses últimos podem parecer muito inusitados para os senhores, e, talvez, seinclinarão a supor que uma contravontade indireta já indica tratar-se de um processo patológico. Possoassegurar-lhes, contudo, que ela ocorre também dentro dos limites do que é normal e sadio. Ademais, nãodevem me interpretar mal. Estou longe de admitir que nossas interpretações analíticas sejam indignas deconfiança. As ambigüidades no esquecimento de intenções, que venho mencionando, existem apenasenquanto não tenhamos feito uma análise do caso e apenas quando fazemos nossas interpretações com baseem nossas hipóteses gerais. Se efetuarmos uma análise na pessoa em questão, invariavelmente descobrimoscom suficiente certeza se a contravontade é direta ou que outra origem possa ter. O segundo ponto que tenho em mente [ver em [1]] é o seguinte: Se em uma grande maioria de casosencontramos confirmação do fato de que o esquecimento de uma intenção remonta a uma contravontade,podemos ousar estender a solução a um outro grupo de casos nos quais a pessoa em análise não confirma, esim nega, a contravontade que inferimos. Tomem como exemplo disso eventos tão extremamente comunscomo esquecer de devolver livros que se tomaram emprestados, ou de pagar contas ou dívidas. Com a pessoaem questão nos aventuraremos a insistir em que nela existe uma intenção de conservar consigo os livros e denão pagar as dívidas; a pessoa negará essa situação, porém não será capaz de fornecer qualquer outra Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 42explicação para sua conduta. Com isso, prosseguiremos dizendo-lhe que tem essa intenção, mas sem nadasaber da mesma, embora para nós isso seja suficiente, porquanto nos revela a presença da intenção queorigina nela o esquecimento. A pessoa pode repetir-nos que deveras se esqueceu. Agora reconhecerão asituação como uma tal em que nós mesmos anteriormente nos encontramos [ver em [1] e [2]]. Se quisermosprosseguir com nossas interpretações das parapraxias — tão freqüentemente comprovadas como acertadas —até uma conclusão coerente, somos compelidos à inevitável hipótese de que nas pessoas existem propósitoscapazes de se tornar atuantes sem que elas saibam da existência deles. Isto, contudo, nos leva a contrariarmostodas as opiniões dominantes tanto na vida comum como na psicologia. O esquecimento de nomes próprios e de nomes estrangeiros, tanto como o de palavras estrangeiras,pode semelhantemente ser rastreado até uma contra-intenção, que se volta, direta ou indiretamente, contra onome em questão. Já lhes apresentei diversos exemplos de aversão direta [ver em [1] e [2]]. A causaçãoindireta é, contudo, particularmente freqüente nesses casos e em geral apenas pode ser estabelecida por meiode análises cuidadosas. Por exemplo, durante a guerra atual, que nos obrigou a abandonar tantos dos nossosdivertimentos anteriores, nossa capacidade de recordar nomes sofreu muito em conseqüência das maisestranhas associações. Há pouco tempo atrás verifiquei que eu era incapaz de reproduzir o nome de Bisenz,pacata cidade da Morávia; e a análise demonstrou que aquilo que era responsável pelo fato não era nenhumahostilidade direta contra ela, senão sua similitude, no som, com o nome do Palazzo Bisenzi, em Orvieto, quetive o prazer de visitar repetidas vezes no passado. Aqui, pela primeira vez, descobrimos nessa razão de seopor à recordação de um nome, um princípio que depois irá revelar sua enorme importância na causação dossintomas neuróticos: a memória tem aversão por recordar tudo que está em conexão com sentimentos dedesprazer e com a reprodução daquilo que renova o desprazer. Essa intenção de evitar o desprazer, emergenteda lembrança ou de outros atos psíquicos, essa fuga psíquica do desprazer, pode ser reconhecida como acausa atuante fundamental não apenas do esquecimento de nomes, mas também de muitas outrasparapraxias, como as omissões, os erros, e assim por diante.O esquecimento de nomes, entretanto, parece sersobremodo facilitado psicofisiologicamente e, por esse motivo, há casos em que não se pode confirmar ainterferência de um motivo de desprazer. Se alguém tem determinada tendência para esquecer nomes, ainvestigação analítica mostrará que os nomes lhe fogem não apenas porque em si não os aprecia ou porque lhelembram algo desagradável; porém, também porque nesse caso o nome pertence a outro círculo deassociações com as quais a pessoa está mais intimamente relacionada. O nome está, digamos, ali ancorado ese mantém fora de contato com outras associações que foram momentaneamente ativadas. Se os senhores serecordarem dos truques mnemotécnicos verificarão, com certa surpresa, que as mesmas cadeias associativas,deliberadamente estabelecidas para evitar que nomes sejam esquecidos, também podem nos levar a esquecê-los. O mais notável exemplo desse fato é o que se refere aos nomes próprios de pessoas, os quaisnaturalmente possuem importância psíquica bastante diferente para diferentes pessoas. Para ilustrá-lo,tomemos um primeiro nome, como Teodoro. Para alguns dos senhores ele não terá qualquer significaçãoespecial; para outro, será o nome de seu pai, do irmão ou de um amigo, ou seu próprio nome. Assim, aexperiência analítica lhes mostrará que a primeira dessas pessoas não corre nenhum risco de se esquecer deque algum estranho usa esse nome, ao passo que as outras terão constantemente a tendência de negar aestranhos um nome que lhes parece reservado a ligações íntimas. Ora, se os senhores considerarem que essa Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 43inibição associativa pode coincidir com a atuação do princípio de desprazer e, ademais, com um mecanismoindireto, estarão em condições de formar uma idéia adequada das complexidades existentes na causação doesquecimento temporário de um nome. Uma análise apropriada irá, porém, desemaranhar-lhes uma dessasmeadas. O esquecimento de impressões e de experiências demonstra, de forma muito mais clara e exclusiva doque o esquecimento de nomes, a atuação da intenção de manter coisas desagradáveis fora da memória.Naturalmente nem toda a área desse tipo de esquecimento se situa dentro da categoria das parapraxias, masapenas casos tais como aqueles que, medidos pelo padrão de nossa experiência habitual, nos parecemadmiráveis e inexplicáveis: por exemplo, quando o esquecimento atinge impressões que são muito recentes ouimportantes, ou quando a lembrança perdida abre uma brecha naquilo que é, por seu lado, uma bem-memorizada cadeia de acontecimentos. Por que e de que modo somos capazes de esquecer em geral, e entreoutras coisas esquecer experiências que certamente deixaram em nós uma impressão mais profunda, tal comoos acontecimentos dos anos mais remotos de nossa infância — isso constitui outro problema no qual quererevitar impulsos desagradáveis desempenha determinado papel, e, contudo, está longe de constituir aexplicação completa. É fato inequívoco que as impressões desagradáveis são facilmente esquecidas. Diversospsicólogos o observaram, e o grande Darwin se impressionava tanto com isso, que tornou ‘regra de ouro’ anotarcom cuidado especial quaisquer observações que parecessem desfavoráveis à sua teoria, de vez que se haviaconvencido de que precisamente elas não permaneceriam em sua memória. Uma pessoa que pela primeira vez ouve falar nesse princípio do afastamento de lembrançasdesagradáveis por meio do esquecimento, raramente deixa de objetar que, pelo contrário, em sua experiênciaas coisas aflitivas são especialmente difíceis de esquecer e insistem em retornar, contra sua vontade, a fim deatormentá-la: lembranças, por exemplo, de insultos e humilhações. Isso também é um fato verídico, contudo aobjeção não procede. É importante e oportuno começar a levar em conta o fato de que a vida mental é a arenae o campo de batalha de intenções que se opõem reciprocamente ou, para dizê-lo de modo não-dinâmico, quese constitui de contradições e de pares de contrários. A prova da existência de determinado propósito não éargumento contra a existência de um propósito oposto; há lugar para ambos. É apenas uma questão de sabercomo se colocam esses contrários, um em relação ao outro, e que efeitos são produzidos por um e por outro. Perda e extravio são de particular interesse para nós devido aos vários significados que podem ter —isto é, devido à multiplicidade das intenções que podem se servir dessas parapraxias. Todos os casos têm emcomum o fato de ter existido um desejo de perder algo; diferem quanto à origem e quanto ao objetivo dessedesejo. Perdemos uma coisa quando está gasta, quando pretendemos substituí-la por outra melhor, quandonão gostamos mais dela, quando ela procedeu de alguém com quem não estamos nos relacionando bem, ouquando a adquirimos em circunstâncias que não desejamos mais rememorar. [ver em [1] e [2].] Deixar cair,danificar ou quebrar um objeto podem servir à mesma finalidade. Na esfera da vida social, segundo se diz, aexperiência demonstrou que as crianças indesejadas e ilegítimas são muito mais frágeis do que aquelasconcebidas legitimamente. Não é necessário atingir a crua técnica das criadeiras profissionais de crianças; parachegar a tal resultado, determinada dose de negligência no trato com as crianças deve ser suficiente. Apreservação de coisas pode estar sujeita às mesmas influências que o cuidado com as crianças. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 44 No entanto, as coisas podem ser condenadas a serem perdidas sem que seu valor tenha sofridoqualquer diminuição — isto é, quando há uma intenção de sacrificar algo ao Destino, a fim de se proteger deuma outra perda que se teme. A análise nos revela que entre nós ainda é muito comum exorcizar o Destinodessa maneira; e, assim, nossa perda muitas vezes é um sacrifício voluntário. Da mesma forma, a perdatambém pode servir à intenção de desafio ou autopunição. Para resumir, são incontáveis as mais remotasrazões para a intenção de se desfazer de uma coisa por meio de sua perda. Os atos descuidados, assim como outros erros, muitas vezes são usados para satisfazer desejos queuma pessoa deveria negar existirem em si própria. Neles a intenção se dissimula em um auspicioso acidente.Por exemplo, como aconteceu a um de meus amigos, um homem pode ser obrigado, obviamente contra suavontade, a viajar de trem para visitar alguém perto da cidade em que vive, e em uma estação onde deve fazerbaldeação então pode, por engano, embarcar num trem que o leva de volta ao local de onde veio. Ou alguém,numa viagem, pode estar desejoso de fazer uma parada em uma estação intermediária, porém estar impedidode fazê-lo devido a outras obrigações, podendo, assim, negligenciar ou perder uma conexão de modo que, emúltima análise, é obrigado a interromper sua viagem da maneira como queria. Ou o que sucedeu a um de meuspacientes: eu lhe havia proibido telefonar à moça de quem estava apaixonado, e quando quis telefonar paramim, pediu o número errado ‘por engano’ ou ‘enquanto estava pensando em alguma outra coisa’, e de repentese viu com o número do telefone da moça. Um bom exemplo de descuido cabal com repercussão prática éproporcionado pela observação feita por um engenheiro em seu relato dos fatos que antecederam um caso dedanos materiais: ‘Há algum tempo atrás eu trabalhava com diversos estudantes no laboratório da escola técnica, numasérie de complexas experiências sobre elasticidade, um trabalho que tínhamos assumido voluntariamente e,contudo, começava a exigir mais tempo de que prevíramos. Um dia, quando retornava ao laboratório com meuamigo F., este comentou como o aborrecia perder tanto tempo justamente naquele dia, quando tinha tantasoutras coisas para fazer em casa. Não pude deixar de concordar com ele e, com algum gracejo, referindo-me aum acidente na semana anterior, acrescentei: “Esperemos que a máquina falhe novamente, pois assimpoderemos parar com o trabalho e ir para casa cedo.” ‘Ao distribuir o trabalho, sucedeu que a F. coube a regulagem da válvula da prensa; isto é, estavaincumbido de abrir cuidadosamente a válvula para deixar o fluido sob pressão sair lentamente do acumuladorpara o cilindro da prensa hidráulica. O homem que conduzia a experiência colocou-se junto ao manômetro e,quando se atingiu a pressão correta, ordenou em voz alta: “Pare!” À palavra de comando, F. agarrou a válvula etorceu-a com toda a força — para a esquerda! (Todas as válvulas, sem exceção, fecham-se girando para adireita.) Isso fez com que a pressão total do acumulador passasse subitamente para a prensa, um esforço parao qual não estavam destinados os canos de ligação, de forma que um desses canos imediatamente explodiu —um acidente bastante inócuo para a máquina, porém suficiente para nos obrigar a suspender o trabalho poresse dia e irmos para casa. ‘O surpreendente, aliás, é que, quando estávamos discutindo o caso algum tempo depois, meu amigoF. não tinha a mínima recordação de meu comentário, que eu recordava fielmente.’ Isso pode levar os senhores a suspeitar de que não é apenas um inocente acaso que transforma asmãos de nossas empregadas domésticas em perigosos inimigos de nossos objetos de casa. E os senhores Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 45também podem se perguntar se é obra do acaso quando as pessoas se machucam e arriscam sua própriasegurança. Essas são noções cuja validade os senhores, surgindo a ocasião, podem se dedicar a comprovaranalisando suas próprias observações. Senhoras e senhores, isso está longe de ser tudo quanto se poderia dizer a respeito de parapraxias.Muita coisa resta a examinar e discutir. Fico, contudo, satisfeito se nossa discussão do assunto, até aqui, decerta forma agitou suas opiniões anteriores e os deixou um tanto mais preparados para aceitar outras, novas.Contento-me, de resto, com deixá-los defrontando-se com uma situação não esclarecida. Não podemosestabelecer nossas doutrinas a partir de um estudo das parapraxias, e não estamos obrigados a extrair nossasprovas a partir apenas desse material. O grande valor das parapraxias para os objetivos que almejamos,consiste no fato de serem fenômenos muito comuns que, além de tudo, podem ser observados com facilidadeem cada um, e ocorrer sem absolutamente implicar em doença. Existe apenas uma das questões dos senhores,não respondida, a qual eu, antes de terminar, gostaria de verbalizar. Conforme verificamos em muitosexemplos, se as pessoas chegam tão próximo de uma compreensão das parapraxias e tão amiúde secomportam como se apreendessem seu sentido, de que modo lhes é possível, não obstante, classificar essesfenômenos como sendo em geral eventos casuais, sem sentido nem significado, e poder opor-se tãovigorosamente à elucidação psicanalítica dessas mesmas parapraxias? Os senhores têm razão. Esse é um fato notável e exige uma explicação. No entanto, não lhes darei talexplicação. Em vez disso, eu os levarei gradualmente a áreas de conhecimento a partir das quais a explicaçãoirá se impor aos senhores, sem qualquer contribuição de minha parte. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 46 PARTE II - SONHOS(1916 [1915-16]) CONFERÊNCIA V - DIFICULDADES E ABORDAGENS INICIAIS SENHORAS E SENHORES: Um dia descobriu-se que os sintomas patológicos de determinados pacientes neuróticos têm umsentido. Nessa descoberta fundamentou-se o método psicanalítico de tratamento. Acontecia que no decursodesse tratamento os pacientes, em vez de apresentar seus sintomas, apresentavam sonhos. Com isso, surgiu asuspeita de que também os sonhos teriam um sentido. Não seguiremos, contudo, esse caminho histórico, e sim prosseguiremos na direção oposta.Demonstraremos o sentido dos sonhos como forma de preparação para o estudo das neuroses. Essa inversãose justifica, de vez que o estudo dos sonhos não apenas é a melhor preparação para o estudo nas neuroses,como também porque os sonhos, por si mesmos, são um sintoma neurótico que nos oferece, ademais, ainestimável vantagem de ocorrer em todas as pessoas sadias. Na verdade, supondo-se que todos os sereshumanos fossem normais contanto que sonhassem, nós, partindo de seus sonhos, poderíamos chegar a quasetodas as descobertas a que nos levou a investigação das neuroses. Os sonhos, portanto, se tornaram tema de pesquisa psicanalítica: mais uma vez fenômenos comunsaos quais se tem atribuído pouco valor, e aparentemente sem nenhum uso prático — como as parapraxias, comas quais na realidade têm em comum o fato de ocorrerem em pessoas sadias. Afora isso, porém, as condiçõespara nosso trabalho são aqui bem menos favoráveis. As parapraxias simplesmente tinham sido negligenciadaspela ciência, pouca atenção lhes havia sido dada; contudo, pelo menos não havia nenhum prejuízo em alguémse interessar por elas. ‘Sem dúvida’, dir-se-ia, ‘há coisas mais importantes. Alguma coisa no entanto talvezpossa resultar daí.’ Ademais, alguém se interessar por sonhos não é apenas pouco prático e desnecessário; épositivamente ignominioso. Traz consigo a reprovação geral de não ser científico e desperta a suspeita de umainclinação pessoal pelo misticismo. Imaginem um profissional da medicina dedicando-se a sonhos, quando hátantas coisas mais sérias, mesmo na neuropatologia e na psiquiatria: tumores da dimensão de maçãscomprimindo o órgão da mente, hemorragias, inflamação crônica, onde, em todos, as alterações dos tecidospodem ser demonstrados ao microscópio! Não, os sonhos são excessivamente triviais e indignos de ser objetode pesquisa. E existe algo mais que, por sua própria natureza, frustra os requisitos da pesquisa exata. Ao investigaros sonhos, nem mesmo se está seguro do objeto da pesquisa que se faz. Um delírio, por exemplo, apresenta-se de forma inequívoca e com seus contornos definidos. ‘Eu sou o imperador da China’, diz o paciente, semqualquer dissimulação. Mas, sonhos? Via de regra, não se pode fazer nenhum relato de sonhos. Se alguém fazum relato de um sonho, existe alguma garantia de que seu relato foi correto, ou, pelo contrário, não poderia ter Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 47alterado seu relato à medida que o fazia e ter sido compelido a inventar algum acréscimo para compensar aobscuridade de suas recordações? A maioria dos sonhos não pode absolutamente ser lembrada e é esquecida,salvo pequenos fragmentos. E de que modo a interpretação de material desse tipo pode servir como base deuma psicologia científica ou como método de tratar pacientes? Um excesso de críticas pode despertar nossas suspeitas. Essas objeções aos sonhos como objeto depesquisa obviamente foram longe demais. Já tratamos da questão da não-importância em relação àsparapraxias [ver [1] e seg.]. Dissemos que as grandes coisas podem ser reveladas através de pequenosindícios. No que concerne à sua indefinição — esta é uma característica dos sonhos, como outra qualquer: nãopodemos estabelecer para as coisas quais as características que devem ter. Aliás, também existem sonhosclaros e distintos. Ademais, há outros assuntos de pesquisa psiquiátrica que padecem da mesma característicade indefinição — em muitos casos, por exemplo, as obsessões, e estas têm, em última análise, sido abordadaspor psiquiatras respeitáveis e conceituados. Recordo-me do último desses casos que encontrei em minhaatividade médica. Era uma paciente que se apresentou com estas palavras: ‘Tenho uma espécie de sentimentocomo se eu tivesse ferido ou desejasse ferir uma criatura viva — uma criança? — não, mais como se fosse umcachorro —, como se a tivesse jogado de uma ponte, ou alguma outra coisa.’ Podemos conseguir superar adeficiência da incerteza ao relembrar sonhos, se decidimos que deve ser considerado como sonho seu tudoaquilo que nos relata a pessoa que sonhou, sem levar em conta o que possa ter esquecido ou tenha alteradoao recordá-lo. E, finalmente, nem mesmo se pode continuar afirmando tão indiscriminadamente que os sonhossão coisas sem importância. Sabemos, por nossa própria experiência, que o estado de ânimo em que umapessoa acorda de um sonho pode perdurar o dia inteiro; os médicos têm observado casos nos quais umadoença mental começou com um sonho e nos quais persistiu um delírio originário de um sonho; têm sidorelatados casos de personagens históricos que, em resposta a sonhos, se aventuraram a importantesempreendimentos. Podemos, pois, indagar qual deve ser a verdadeira origem do desprezo no qual sãomantidos os sonhos nos círculos científicos. Acredito que se trata de uma reação contra a supervalorização dos sonhos em épocas antigas. Areconstrução do passado, como sabemos, é tarefa nada fácil, contudo podemos supor com certeza (se é queposso expressá-lo como brincadeira) que há três mil anos ou mais nossos ancestrais já tinham sonhos como osnossos. Até onde sabemos, todos os povos da Antigüidade atribuíram grande importância aos sonhos epensavam que estes podiam ser usados para fins práticos. Deduziram a partir deles sinais para ler o futuro eneles procuravam os augúrios. Para os gregos e para outros povos orientais pode ter havido época em que ascampanhas militares sem interpretadores de sonhos pareciam tão impossíveis, como nos dias atuais pareceriaimpossível uma campanha sem reconhecimento aéreo. Quando Alexandre Magno iniciou suas conquistas, seuséquito incluía os mais famosos interpretadores de sonhos. A cidade de Tiro, que naquele tempo ainda seerguia sobre uma ilha, ofereceu ao rei tão dura resistência que ele pensou na possibilidade de levantar o cerco.Então, uma noite, ele teve um sonho em que um sábio parecia dançar em triunfo; e quando o relatou a seusinterpretadores de sonhos, estes o informaram de que o sonho predizia sua conquista da cidade. Ordenou umassalto e capturou Tiro. Entre os etruscos e os romanos estavam em uso outros métodos de prever o futuro;porém, durante todo o período helênico-romano, a interpretação de sonhos era praticada e altamenteconceituada. Da literatura que trata do assunto, o principal trabalho pelo menos sobreviveu: o livro de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 48Artemidoro de Daldis, que provavelmente viveu durante o período do imperador Adriano. Não sei dizer-lhescomo aconteceu que, depois disso, a arte de interpretar sonhos sofreu um declínio e os sonhos caíram emdescrédito. A difusão da instrução não pode ter tido muita coisa a ver com isso, porquanto muitas coisas maisabsurdas do que a interpretação de sonhos da Antigüidade foram ciosamente preservadas nas trevas da IdadeMédia. Resta o fato de que o interesse pelos sonhos caiu gradualmente ao nível de superstição e pôdesobreviver apenas entre as classes não instruídas. O abuso final da interpretação de sonhos foi atingido emnossos dias com tentativas de descobrir, a partir dos sonhos, os números destinados a serem premiados nojogo do loto. Por outro lado, a ciência exata de hoje repetidamente se ocupou de sonhos, mas sempre com oúnico objetivo de aplicar a eles suas teorias fisiológicas. Os médicos, naturalmente, consideraram os sonhoscomo atos não-psíquicos, como a expressão, na vida mental, de estímulos somáticos. Binz (1878, [35])enunciou que os sonhos são ‘processos somáticos, que em todos os casos são inúteis e, em muitos casos,positivamente patológicos, em relação aos quais a alma do universo e a imortalidade são tão excelsamentesuperiores como o céu azul sobre um areal plano infestado de ervas’. Maury [1878, 50] compara os sonhos aosdesordenados movimentos da dança de São Vito, em contraste com os movimentos coordenados de umhomem sadio. Consoante velha analogia, os conteúdos de um sonho são semelhantes aos sons produzidosquando ‘os dez dedos de um homem que nada sabe de música vagueiam sobre as teclas de um piano’[Strümpell, 1877, 84]. Interpretar significa achar um sentido oculto em algo; naturalmente, não haverá como fazê-lo, seadotarmos essa última opinião sobre a função dos sonhos. Reparem na descrição dos sonhos feita por Wundt[1874], Jodl [1896] e outros filósofos mais recentes. Eles se contentam com enumerar os aspectos em que avida onírica difere do pensamento desperto, sempre num sentido que deprecia os sonhos — enfatizando o fatode que as associações se rompem, que a faculdade de criticar deixa de funcionar, que todo o conhecimento éeliminado, bem como outros sinais de diminuição do funcionamento. A única contribuição de valor aosconhecimentos sobre sonhos, que temos a agradecer às ciências exatas, refere-se ao efeito produzido noconteúdo dos sonhos pelo impacto de estímulos somáticos durante o sono. Um autor norueguês, recentementefalecido, J. Mourly Vold, publicou dois alentados volumes de pesquisas experimentais sobre sonhos (ediçãoalemã, 1910 e 1912), que se dedicam quase que exclusivamente às conseqüências das alterações na posturados membros. Foram-nos recomendados como modelos de pesquisa exata sobre sonhos. Os senhores podemimaginar o que diria a ciência exata, se soubesse que desejamos fazer uma tentativa de descobrir o sentido dossonhos? Talvez ela já o tenha dito. Porém não nos deixaremos atemorizar com isso. Se foi possível àsparapraxias ter um sentido, os sonhos podem ter algum, também; e, em muitos e muitos casos, as parapraxiastêm um sentido que à ciência exata passou despercebido. Assim, abracemos o preconceito dos antigos e dopovo e sigamos as pegadas dos interpretadores de sonhos da Antigüidade. Devemos começar por encontrar nossos propósitos na tarefa à nossa frente e fazer um reconhecimentogeral do campo dos sonhos. Então, o que é um sonho? É difícil responder em uma só frase. Porém nãotentaremos uma definição, quando só basta que se chame a atenção para algo que é conhecido de todos.Devemos, entretanto, pôr em evidência o aspecto essencial dos sonhos. Este, onde é que se pode encontrá-lo,porém? São tão grandes as diferenças dentro do âmbito em que se inscreve nosso assunto — diferenças em Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 49todas as direções. O aspecto essencial provavelmente será algo que podemos apontar como sendo comum atodos os sonhos. A primeira coisa que é comum a todos os sonhos pareceria ser, naturalmente, o fato de que estamosdormindo durante os sonhos. O sonhar é, evidentemente, vida mental durante o sono — algo que tem certassemelhanças com a vida mental desperta, mas que, por outro lado, se distingue dela por grandes diferenças.Essa era, há muito tempo, a definição de Aristóteles. Talvez existam ainda conexões mais estreitas entresonhos e sono. Podemos ser acordados por um sonho; muito freqüentemente temos um sonho quandoacordamos espontaneamente ou quando somos tirados, à força, do sono. Assim, os sonhos parecem ser umestado intermediário entre o sono e a vigília. De modo que nossa atenção se volta para o sono. Bem, então, oque é o sono? Esse é um problema fisiológico sobre o qual ainda existe muita controvérsia. Quanto a esse respeitonão podemos chegar a qualquer conclusão; penso, porém, que devemos tentar descrever as característicaspsicológicas do sono. O sono é um estado no qual não desejo saber de nada do mundo externo, um estado noqual retirei do mundo externo meu interesse. Ponho-me a dormir retraindo-me do mundo externo e mantendoafastados de mim seus estímulos. Também vou dormir quando estou fatigado dele. De modo que, quando voudormir, digo ao mundo externo: ‘Deixe-me em paz; quero dormir.’ As crianças, ao contrário, dizem: ‘Eu não voudormir agora; não estou cansado e quero ter mais algumas experiências.’ A finalidade biológica do sono pareceser, portanto, a recuperação, e sua característica psicológica a suspensão do interesse pelo mundo. Nossarelação com o mundo, ao qual viemos tão a contragosto, parece incluir também nossa impossibilidade de tolerá-lo ininterruptamente. Assim, de tempos em tempos nos retiramos para o estado de pré-mundo, para aexistência dentro do útero. A todo custo conseguimos para nós mesmos condições muito parecidas comaquelas que então possuímos: calor, escuridão e ausência de estímulos. Alguns de nós se embrulhamformando densa bola e, para dormir, assumem uma postura muito parecida com a que ocupavam no útero.Parece que o mundo não possui completamente sequer mesmo aqueles dentre nós que são adultos, masapenas até os dois terços; um terço de nós ainda é como se não fora nascido. Cada vez que acordamos, pelamanhã, é como que um novo nascimento. Com efeito, ao falar em nosso estado, após o sono, dizemos que nossentimos como se tivéssemos acabado de nascer. (Ao dizer isso, aliás, estamos demonstrando o queprovavelmente é uma suposição muito falsa acerca das sensações gerais de uma criança recém-nascida, queparece, ao contrário, se sentir provavelmente muito sem conforto.) Falamos também do nascer como ‘ver pelaprimeira vez a luz do dia’. Se é isso o sono, os sonhos possivelmente não fazem parte do seu programa, parecendo, ao contrário,ser um indesejável acréscimo ao sono. Também, ao nosso ver, um sono sem sonhos é o melhor, o únicoapropriado. Não deveria existir qualquer atividade mental no sono; se este começa a ficar inquieto, é por quenão conseguimos atingir o estado fetal de repouso: não fomos inteiramente capazes de evitar osremanescentes da atividade mental. Os sonhos consistiriam nesses remanescentes. Contudo, se fosse assim,realmente pareceria não haver necessidade de os sonhos terem algum sentido. Com as parapraxias eradiferente; elas, afinal, eram atividades durante a vida desperta. Se, porém, estou dormindo e cessei minhaatividade mental completamente, e simplesmente não consegui suprimir alguns resíduos dessa atividade, entãonão há necessidade alguma de esses resíduos terem algum sentido. Nem sequer posso fazer uso de um tal Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 50sentido, de vez que o restante de minha vida mental está dormindo. Assim, realmente só pode tratar-se de umaquestão de reações, à maneira de ‘repuxões’, dos fenômenos mentais como resultado direto de um estímulosomático. Por conseguinte, os sonhos seriam remanescentes da atividade mental desperta, perturbadores dosonho, e faríamos bem em decidir abandonar de vez o assunto, por ser inadequado à psicanálise. No entanto, ainda que os sonhos fossem supérfluos, eles existem e podemos tentar explicar suaexistência. Por que a vida mental não consegue dormir? Provavelmente porque existe algo que não querconceder paz à mente. Os estímulos incidem sobre a mente e ela deve reagir a eles. Um sonho, pois, é amaneira como a mente reage aos estímulos que a atingem no estado de sono. E nisso vemos uma via deacesso à compreensão dos sonhos. Podemos tomar diferentes sonhos e tentar descobrir qual o estímulo queprocurou perturbar o sono, e contra o qual a reação foi um sonho. Nosso exame da primeira coisa que é comuma todos os sonhos, parece ter-nos levado até esse ponto. Existe algo mais que é comum a todos eles? Sim, algo que é inconfundível, porém muito mais difícil deapreender e descrever. Os processos mentais no sono têm um caráter bastante diferente daqueles que serealizam em vigília. Nos sonhos experimentamos toda sorte de coisas e acreditamos nelas, ao passo que, nãoobstante, nada experimentamos, exceto talvez o estímulo perturbador isolado. Nós o experimentamospredominantemente sob a forma de imagens visuais; sentimentos também podem estar presentes, assim comopensamentos que nisso se entrelaçam. Os outros sentidos também podem experimentar algo; porém, mesmoassim, se trata principalmente de uma questão de imagens. Parte da dificuldade de fornecer uma descrição dossonhos se deve ao fato de termos de traduzir essas imagens em palavras. ‘Eu poderia desenhá-lo’, diz-nosmuitas vezes uma pessoa que sonhou, ‘mas não sei como dizê-lo.’ Não se trata, porém, de uma atividademental reduzida, como a de uma pessoa oligofrênica comparada com a de um gênio: é qualitativamentediferente, embora seja difícil dizer onde está a diferença. G. T. Fechner [1860] certa vez exprimiu a suspeita deque o cenário da ação dos sonhos (na mente) fosse diferente daquele da vida ideativa desperta. Conquantonão o compreendamos e não saibamos o que fazer disso, na verdade reproduz a impressão de estranheza quea maioria dos sonhos nos causa. A comparação entre a atividade do sonho e os efeitos de uma mão não-musical no piano [ver em [1]] não nos auxilia nesse ponto. O piano, afinal de contas, responde com as mesmasnotas, embora não com melodias, quando suas teclas são tocadas ao acaso. Guardemos cuidadosamente namemória essa segunda coisa comum a todos os sonhos, embora possamos não tê-la compreendido. Existem mais outras coisas comuns a eles? Não posso descobrir nenhuma; não posso ver senãodiferenças, em todos os aspectos: em sua duração aparente, assim como em sua clareza; na quantidade deafeto que os acompanha, na possibilidade de retê-los na memória, e assim por diante. Essa variedade não érealmente o que poderíamos esperar encontrar em uma simples reação defensiva a um estímulo, algomecanicamente imposto, uma coisa vazia, como os repuxões da dança de São Vito. No que concerne àsdimensões dos sonhos, alguns são muito curtos e compreendem apenas uma única imagem, ou umas poucasimagens, um único pensamento, ou mesmo uma única palavra; outros são extraordinariamente ricos em seuconteúdo, apresentam novelas inteiras e parecem durar longo tempo. Há sonhos tão claros como a experiênciavigil, tão claros que, bastante tempo após havermos acordado, não percebemos que eram sonhos; e outrosexistem que são indescritivelmente obscuros, vagos e borrados. Na realidade, em um mesmo sonho partesmuito definidas podem se alternar com outras de uma vaguidade que mal se pode discernir. Há sonhos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 51inteiramente plenos de sentido ou, pelo menos, coerentes, humorísticos mesmo, ou fantasticamente belos;outros, ademais, são confusos, imbecis por assim dizer, absurdos, muitas vezes positivamente loucos. Hásonhos que nos deixam praticamente frios e outros em que se manifestam afetos de todos os tipos —sofrimento a ponto de fazer chorar, ansiedade a ponto de nos acordar, surpresa, encantamento, etc. Os sonhossão, de hábito, esquecidos facilmente, após o despertar, ou podem perdurar através do dia, lembrados mais emais indistintamente até o fim do dia; outros, ainda — por exemplo, sonhos da infância —, são tão bempreservados que, trinta anos após, permanecem na memória como se fossem experiência recente. Os sonhos,à semelhança de pessoas, podem aparecer somente em uma única ocasião para nunca mais, ou retornar namesma aparência não modificada ou com pequenas dessemelhanças. Em suma, esse fragmento da vidamental durante a noite tem um imenso repertório à sua disposição; é capaz, de fato, de tudo aquilo que a mentecria no período diurno — e, contudo, jamais é a mesma coisa. Poderíamos tentar explicar essas muitas variações dos sonhos supondo que correspondem a diferentesfases intermediárias entre o sono e a vigília, graus diferentes de sono incompleto. Está bem, mas se assimfosse, o valor, o conteúdo e a clareza de um produto onírico — e também a consciência de se tratar de umsonho — teriam de crescer naqueles sonhos em que a mente estava próxima do despertar; e não seria possíveluma parte clara e racional de sonho ser seguida imediatamente de outra que é obscura e não tem sentido, eesta, por sua vez, ser acompanhada de outra parte de boa qualidade. A mente, por certo, não poderia modificara profundidade de seu sono assim tão rapidamente. Logo, essa explicação não nos auxilia; não há como sair dadificuldade. Por agora, deixaremos de lado o ‘sentido’ dos sonhos e tentaremos chegar a uma melhor compreensãodos mesmos a partir daquilo que verificamos terem eles em comum. Inferimos da relação entre os sonhos e oestado de sono que os sonhos são a reação a um estímulo que perturba o sono. Aprendemos que esse étambém o único ponto no qual a psicologia experimental exata pode vir em nosso auxílio: fornece-nos provasde que os estímulos que incidem durante o sono fazem seu aparecimento nos sonhos. Muitas investigaçõesdesse tipo foram realizadas, sendo as mais recentes as de Mourly Vold, que já mencionei [ver em [1] e [2]]; ecada um de nós, sem dúvida, tem estado em condições de confirmar estes achados, a partir de observaçõespessoais. Selecionarei algumas das primeiras experiências. Maury [1878] realizou algumas experiênciasconsigo próprio. Foi-lhe dado para cheirar um pouco de água de colônia, durante o sono. Sonhou que estava noCairo, na loja de Johann Maria Farina, e houve mais algumas aventuras absurdas. Em outra ocasião, deram-lheum leve beliscão no pescoço; sonhou que lhe era aplicado um cataplasma de mostarda e sonhou com ummédico que o havia tratado quando era criança. Ou ainda, pingaram uma gota d’água em sua testa; estava naItália, transpirava violentamente e bebia vinho branco de Orvieto. O notável nesses sonhos produzidos experimentalmente será talvez mais visível ainda em outra sériede sonhos produzidos por estímulos. São três sonhos relatados por um observador inteligente, Hildebrandt[1875], todos eles reações à campainha de um despertador: ‘Sonhei, então, que certa manhã de primavera eu saía a passeio e vagava pelos verdes campos atéchegar a uma aldeia próxima, onde vi os aldeões, em suas melhores roupas, com seus livros de cânticosdebaixo do braço, reunindo-se na igreja. Evidente! Era domingo e o culto do início da manhã logo estariacomeçando. Decidi assistir ao culto, mas, antes, eu estava um tanto acalorado de caminhar, entrei no cemitério Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 52que circundava a igreja, para refrescar. Enquanto lia algumas das lápides dos túmulos, ouvi o sineiro subindo atorre da igreja e, lá no alto, via agora o pequeno sino da aldeia, que logo daria o sinal para o início dasdevoções. Por um momento eu o vi pendente ali, sem movimento, depois começou a balançar, e subitamenteseu repicar começou a soar claro e penetrante — tão claro e penetrante que pôs fim ao meu sono. Porém, oque estava soando era o despertador. ‘Aqui está outro exemplo. Era um dia claro de inverno e as ruas estavam cobertas de espessa camadade neve. Eu tinha decidido comparecer a uma festa, em viagem de trenó; contudo, tive de esperar por longotempo até virem me dizer que o trenó estava à porta. E então se seguiram os preparativos para embarcar — amanta de pele estendida, o abrigo para os pés já colocado — e, por fim, estava sentado em meu lugar. Aindaassim, o momento da partida foi retardado, até que um puxão nas rédeas deu o sinal aos cavalos. De imediatopartiram e, em sacudidas violentas, os cincerros do trenó romperam seu tilintar conhecido — deveras com talviolência que, num momento, a teia do meu sonho se havia rompido. E, uma vez mais, era apenas o somestridente do despertador. ‘E agora, um terceiro exemplo. Via uma empregada doméstica, com várias dúzias de pratos empilhadosuns sobre os outros, andando pelo corredor que dava para a sala de jantar. A pilha de louça em seus braçosme pareceu estar prestes a perder o equilíbrio. “Cuidado”, exclamei eu, “senão você vai deixar cair tudo.”Seguiu-se devidamente a inevitável resposta: ela estava acostumada àquela espécie de tarefa, e assim pordiante. E, entrementes, meu olhar ansioso seguia a figura que avançava. Então — justamente como euesperava — ela tropeçou na soleira e a frágil louça escapuliu e, numa verdadeira sinfonia de ruídos, espatifou-se em mil pedaços no chão. Mas, o barulho prosseguiu sem cessar, e logo não pareceu mais o ruídocaracterístico do espatifar de louças, transformando-se no som de uma campainha — e este som, como o meueu (self) desperto agora percebia, era apenas o despertador desempenhando sua tarefa.’ Esses são sonhos muito bonitos, inteiramente plenos de sentido e pelo menos não tão incoerentescomo costumam ser os sonhos. Não estou fazendo objeção a eles, a esse respeito. O que eles têm em comumé a situação, em cada caso, terminar com um barulho que, quando o sonhador acorda, é reconhecido comosendo causado pelo despertador. Assim, vemos aqui como se produz um sonho; aprendemos, porém, algomais que isso. O sonho não reconhece o despertador — e sequer este aparece no sonho — mas substitui oruído do despertador por outro; interpreta o estímulo que está pondo fim ao sono, contudo o interpreta de formadiferente em cada uma das vezes. Por que faz isso? Não há resposta; parece questão de capricho.Compreender o sonho significaria poder dizer por que esse determinado ruído, e não outro, foi escolhido parainterpretar o estímulo proveniente do despertador. Objeção análoga podemos fazer às experiências de Maury:podemos verificar bem claramente que o estímulo incidente aparece no sonho: porém, por que teve de tomaressa forma particular, isso não nos é dito, e não parece em absoluto ser devido à natureza do estímulo queperturbou o sono. Nas experiências de Maury geralmente aparece também uma série de outros materiais dossonhos, que se juntam ao efeito direto do estímulo — por exemplo, as aventuras absurdas no sonho da água decolônia —, que não podem encontrar explicação. E agora considerem que os sonhos do despertar oferecem a melhor oportunidade de estabelecer ainfluência dos estímulos externos perturbadores do sono. Em muitos outros casos será mais difícil. Nem todosos sonhos nos levam a acordar, e se na manhã seguinte nos lembramos de um sonho da noite anterior, como Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 53iremos descobrir um estímulo perturbador que talvez possa ter-nos causado um impacto durante a noite? Certavez consegui identificar um estímulo sonoro desse tipo, de modo retrospectivo, naturalmente, porém, apenasdevido a circunstâncias especiais. Acordei, certa manhã, em uma localidade das montanhas do Tirol, sabendoque havia tido um sonho em que o papa havia morrido. Não pude explicar a mim mesmo o sonho; entretanto,mais tarde minha esposa me perguntou se eu tinha ouvido o tremendo barulho do repicar dos sinos, pelamanhã, que irrompera de todas as igrejas e capelas. Não, eu nada tinha ouvido, meu sono é mais resistenteque o dela; mas, graças à sua informação, eu compreendi meu sonho. Quantas vezes estímulos dessa espéciepodem provocar sonhos em uma pessoa que dorme, sem que esta venha a saber deles depois? Talvez muitofreqüentemente, mas talvez não. Se os estímulos não podem mais ser identificados, não podemos nosconvencer de sua existência. E, em todo caso, mudamos nossa opinião com relação à importância dosestímulos externos que perturbam o sono, pois aprendemos que podem explicar apenas uma pequena parte dosonho e não o total da reação onírica. Não há necessidade para, em virtude disso, abandonar de todo essa teoria. Ademais, ela pode serampliada. Obviamente não importa saber o que é que perturba o sono ou leva a mente a sonhar. Como nãopode, invariavelmente, tratar-se de estímulo sensorial vindo de fora, pode haver, em substituição, o que sechama de estímulo somático, que surge dos órgãos internos. Essa é uma idéia muito plausível e concorda coma muito popular opinião sobre a origem dos sonhos: ‘os sonhos vêm da indigestão’, dizem as pessoasfreqüentemente. Infelizmente, aqui também devemos suspeitar muitas vezes que existem casos em que umestímulo somático atuado sobre uma pessoa em sono, durante a noite, não mais se manifesta após o despertare, portanto, não se pode provar que tenha ocorrido. Não desprezaremos, porém, o sem números de clarasexperiências que apóiam a origem dos sonhos em estímulos somáticos. Em geral, não pode haver dúvida deque as condições dos órgãos internos possam influenciar os sonhos. A relação entre o conteúdo de algunssonhos e uma bexiga muito cheia ou um estado de excitação dos órgãos genitais é tão simples que não podecausar mal-entendidos. Esses casos evidentes levam a outros, nos quais o conteúdo dos sonhos dá origem àjustificada suspeita de que houve um impacto causado por estímulos somáticos, porque no conteúdo existealgo que pode ser visto como uma superelaboração atuante, uma representação ou interpretação de taisestímulos. Scherner (1861), que realizou pesquisas com sonhos, argumentava com vigor especial a favor daderivação dos sonhos a partir de estímulos orgânicos e apresentava alguns bons exemplos pertinentes. Porexemplo, em um sonho ele viu ‘duas fileiras de rapazes elegantes, com lindos cabelos e pele delicada,enfrentando-se em formação de combate, fazendo uma investida, atacando uma à outra e, após, retirando-se evoltando novamente à posição anterior, em seguida começando toda a manobra mais uma vez’. Suainterpretação dessas duas fileiras de rapazes como sendo dentes é plausível em si mesma e pareceinteiramente confirmada quando sabemos que, após essa cena do sonho, a pessoa arrancou de sua mandíbulaum comprido dente. Identicamente a interpretação de ‘corredores longos, estreitos e ventosos’, como derivadosde um estímulo intestinal, parece válida e confirma a asserção de Scherner de que os sonhos procuramsobretudo representar o órgão que emite o estímulo por objetos que se lhes assemelham. Por conseguinte, devemos estar preparados para admitir que os estímulos internos podemdesempenhar nos sonhos o mesmo papel que os externos. Qualquer estimativa acerca de sua importânciainfelizmente é passível das mesmas objeções. Em numerosos casos uma interpretação que aponte para um Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 54estímulo somático é incerta e improvável. Não são todos os sonhos, mas apenas determinado número deles,que dão lugar a uma suspeita de que os estímulos orgânicos internos tivessem parte na origem deles. E, porfim, os estímulos somáticos internos são, como os estímulos sensoriais externos, tão pouco capazes de explicarmais aspectos de um sonho do que aquilo que neste corresponde a uma reação direta ao estímulo. Continuaobscuro saber de onde vem o restante do sonho. Observemos, no entanto, uma peculiaridade da vida onírica que vem à luz neste estudo dos efeitos dosestímulos. Os sonhos não fazem simplesmente reproduzir o estímulo; eles o vertem, fazem alusões a ele, oincluem em algum contexto, o substituem por alguma outra coisa. Esse é um aspecto da elaboração onírica quenão pode deixar de nos interessar, porque pode, talvez, nos aproximar mais da essência dos sonhos. Quandouma pessoa constrói algo em conseqüência de um estímulo, o estímulo não necessita, por isso, levar a cabotodo o trabalho. O Macbeth de Shakespeare, por exemplo, foi uma pièce d’occasion composta para celebrar aelevação ao trono do rei que foi o primeiro a unir as coroas dos três reinos. Essa ocasião histórica imediata,porém, abrangeria todo o conteúdo da tragédia? Explica todas as suas grandezas e os seus enigmas? Pode serque os estímulos externos e internos, também, atingindo a pessoa em sono, sejam apenas provocadores dosonho e, por conseguinte, nada nos revelem de sua essência. A segunda coisa comum aos sonhos, sua peculiaridade psíquica [ver em [1] e seg.], é, por um lado,difícil de compreender e, por outro, não nos oferece ponto de partida para ulterior investigação. Nos sonhos, viade regra, experimentamos coisas sob formas visuais. Podem os estímulos esclarecer algo a esse respeito? Oque experimentamos é realmente o estímulo? Nesse caso, porém, por que a experiência é visual, se é apenasem casos muito raros que a estimulação óptica provoca o sonho? Ou, se sonhamos palavras faladas, poderáser demonstrado que durante o sonho uma conversação, ou algum ruído que lhe seja semelhante, teve acessoaos nossos ouvidos? Eu me aventuraria a desprezar essa possibilidade, decisivamente. Se não podemos progredir com aquilo que é comum aos sonhos, vejamos se nos é possível valer-nosdas diferenças. Naturalmente os sonhos muitas vezes são sem sentido, confusos e absurdos; contudo, tambémexistem os sonhos plenos de sentido, práticos e sensatos. Verifiquemos se os últimos, os que são plenos desentido, podem elucidar aqueles carentes de sentido. Aqui está o último sonho sensato que me foi relatado. Foisonhado por um jovem: ‘Fui dar um passeio pela Kärntnerstrasse, encontrei ali Herr X. e estive com ele porcerto tempo. Depois, entrei num restaurante. Duas senhoras e um cavalheiro chegaram e se sentaram à minhamesa. Aborreci-me com isso, inicialmente, e não queria olhar para eles. Então, olhei realmente e constatei queeram muito amáveis.’ A pessoa que teve esse sonho comentou, a propósito, que na tarde anterior ao sonho defato passara pela Kärntnerstrasse, que é o caminho que geralmente segue, e que ali encontrara Herr X. A outraparte do sonho não era uma recordação direta e apenas tinha alguma semelhança com determinadaexperiência de uma época consideravelmente anterior. E aqui está outro sonho trivial, desta vez o sonho deuma senhora: ‘O marido dela lhe perguntou: “Você não acha que devemos mandar afinar o piano?” E elareplicou: “Não vale a pena; de qualquer maneira, os martelos precisam de recondicionamento.” Este sonhorepetia, sem muita modificação, uma conversação mantida entre ela e seu marido no dia anterior ao sonho. Oque entendemos desses dois sonhos sensatos? Nada, senão que contêm repetições extraídas da vida diária,ou coisas a esta vinculadas. Já seria alguma coisa se dos sonhos em geral se pudesse dizer algo semelhante.Esse, porém, não é o caso; aplica-se apenas a uma minoria e, na maioria dos sonhos, não existe sinal de uma Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 55conexão com o dia anterior; com isso, se elucidam os sonhos sem sentido e absurdos. Apenas mostra queencontramos, sem esperar, uma nova tarefa. Desejamos não apenas saber o que um sonho diz, mas, se elefala claramente, como o faz nesses exemplos, também queremos saber por que e com que finalidade essematerial corriqueiro, experimentado tão recentemente, foi repetido no sonho. Penso que, como eu, os senhores devem estar cansados de prosseguir com investigações como asque estivemos fazendo até aqui. Todo o interesse por um problema é evidentemente insuficiente, a menos quese conheça bem uma via de abordagem que leve à sua solução. Ainda não encontramos um tal caminho. Apsicologia experimental nada nos proporciona, salvo algumas informações muito valiosas sobre a importânciados estímulos como incentivadores do sonhar. Da filosofia nada podemos esperar, exceto que uma vez maisnos salientará orgulhosamente a inferioridade intelectual do objeto de nosso estudo. Também não temos desejoalgum de tomar qualquer coisa emprestada das ciências ocultas. A história e a opinião popular nos dizem queos sonhos têm um sentido e um significado: que eles perscrutam o futuro — o que é difícil de aceitar ecertamente impossível de provar. Assim, nosso esforço inicial nos deixa em completa incerteza. Inesperadamente nos chega a indicação de uma direção em que até agora não havíamos olhado: Ouso idiomático, que não é algo casual, porém constitui o precipitado de antigas descobertas, embora, paraestarmos seguros, não deva ser empregado descuidadamente — portanto nossa linguagem está familiarizadacom coisas que levam o estranho nome de ‘devaneios’. Os devaneios são fantasias (produtos da imaginação):são fenômenos muito generalizados, observáveis mais uma vez tanto nas pessoas sadias como nas doentes, esão facilmente acessíveis ao estudo em nossa própria mente. A coisa mais notável a respeito dessas estruturasimaginárias é que lhes foi dado o nome de ‘devaneios’, de vez que nelas não há qualquer traço dos doiselementos comuns aos sonhos [ver em [1] e segs.]. Sua relação com o sono já é negada em seu próprio nome;e no concernente à segunda coisa comum aos sonhos, nelas não experimentamos nem alucinamos algo, masimaginamos alguma coisa, sabemos que estamos tendo uma fantasia, não vemos, mas pensamos. Essesdevaneios surgem no período pré-púbere, freqüentemente ainda na parte final da infância; persistem até amaturidade ser alcançada e, então, ou são abandonados ou mantidos até o fim da vida. O conteúdo dessasfantasias é dominado por um motivo muito inteligível. São cenas e eventos em que as necessidades egoísticasde ambição e poder da pessoa, ou seus desejos eróticos, encontram satisfação. Em homens jovens asfantasias ambiciosas são as mais proeminentes; nas mulheres, cuja ambição se dirige ao êxito no amor, asfantasias é que o são. Também nos homens, contudo, as necessidades eróticas estão muito freqüentementepresentes nos bastidores: todos os seus feitos heróicos e seus êxitos parecem ter como único alvo a admiraçãoe o favor das mulheres. Em outros aspectos esses devaneios são de tipos muito diferentes e passam porvicissitudes modificadoras. Todos eles, cada qual por sua vez, ou são abandonados após pouco tempo esubstituídos por outros novos, ou mantidos, tecidos em longas histórias e adaptados às modificações quesurgem nas circunstâncias da vida da pessoa. Eles se acomodam aos tempos, por assim dizer, e recebem uma‘marca da época’ que testemunha a influência da nova situação. São a matéria-prima da produção poética, poiso escritor criativo usa seus devaneios com determinadas remodelações, disfarces e omissões, para construir assituações que introduz em seus contos, novelas ou peças. O herói dos devaneios é sempre a própria pessoa,seja diretamente, seja por uma óbvia identificação com alguma outra pessoa. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 56 Talvez os devaneios atribuam seu nome ao fato de terem a mesma relação com a realidade — paraindicar que seu conteúdo é para ser considerado não menos irreal do que o dos sonhos. No entanto, talvezpartilhem esse nome por causa de alguma característica psíquica dos sonhos que ainda nos é desconhecida,alguma característica que estamos investigando. Também é possível que estejamos laborando em considerávelerro ao tentarmos fazer uso dessa semelhança de nome como algo significativo. Somente mais tarde serápossível elucidar esse aspecto. CONFERÊNCIA VI - PREMISSAS E TÉCNICA DE INTERPRETAÇÃO SENHORAS E SENHORES: Aquilo de que necessitamos, então, é um novo caminho, um método que nos possibilitará estabelecerum início na investigação dos sonhos. Apresento-lhes uma hipótese razoável. Consideremos como premissa,desse ponto em diante, que os sonhos não são fenômenos somáticos mas psíquicos. Os senhores sabem oque isso significa; contudo, o que justifica que façamos essa hipótese? Nada: mas também nada há a impedir-nos de fazê-lo. Esta é a situação: se os sonhos são fenômenos somáticos, não têm interesse para nós, podemapenas nos interessar na hipótese de serem fenômenos mentais. Trabalharemos com a hipótese de querealmente o são, para ver o que daí se origina. O resultado de nosso trabalho decidirá se devemos manter essahipótese e se podemos tratá-la, por sua vez, como dado comprovado. Entretanto, a que realmente queremoschegar? Que objetivo nosso trabalho está buscando? Desejamos algo que é buscado em todo trabalhocientífico — compreender os fenômenos, estabelecer uma correlação entre os mesmos e, como fim último,aumentar, se possível, nosso poder sobre esses fenômenos.Nesse consenso, prosseguimos com nossotrabalho baseados na hipótese de que os sonhos são fenômenos psíquicos. Nesse caso, são produtos ecomunicações da pessoa que sonha, porém comunicações que nada nos dizem, que não entendemos. Poisbem, o que fazem os senhores se Ihes comunico algo ininteligível? Os senhores me farão perguntas, não émesmo? Por que não faríamos a mesma coisa com a pessoa que sonhou — questioná-la sobre o que seusonho significa? Como se recordam, certa vez nos encontramos na mesma situação, anteriormente. Quando estávamosinvestigando determinadas parapraxias — um caso de lapso de língua. Alguém havia dito [ver em [1]]: ‘Então osfatos vieram a Vorschwein‘ e logo lhe perguntamos — não, felizmente não éramos nós, e sim outras pessoas,que não tinham absolutamente qualquer conexão com a psicanálise — essas outras pessoas então lheperguntaram o que quis dizer com esse comentário ininteligível. E ele prontamente replicou que tinhapretendido dizer ‘estes fatos eram Schweinereien [repugnantes]’, porém repelira essa intenção em troca daversão mais suave ‘então os fatos vieram a Vorschein [luz]’. Naquela ocasião [ver em [1] e [2]] assinalei aossenhores que essa amostra de informação constituía um modelo para toda investigação psicanalítica e agoracompreenderão que a psicanálise segue a técnica de fazer com que as próprias pessoas que estão sendoexaminadas, tanto quanto possível proporcionem a solução de seus enigmas [ver em [1]]. Assim, também é opróprio sonhador quem deve nos dizer o que seu sonho significa. No entanto, como sabemos, com os sonhos as coisas não são tão simples. Com as parapraxiasfuncionou tudo bem, em numerosos casos; houve, porém, outros em que a pessoa, indagada, nada quis dizer e Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 57até mesmo recusou, indignada, a resposta que lhe propusemos. Com os sonhos os casos do primeiro tipo sãomuito escassos; o sonhador sempre diz que nada sabe. Não pode rejeitar nossa interpretação, de vez que nãotemos nenhuma para lhe apresentar. Devemos, então, desistir de nossa tentativa? Como ele nada sabe e nósnada sabemos, e uma terceira pessoa poderia saber menos ainda, parece não haver perspectiva de descobrir asolução. Nesse caso, se os senhores estão propensos a desistir, desistam da tentativa. Porém, se pensam deforma diferente, podem continuar acompanhando-me. Porque posso lhes assegurar ser completamentepossível e, na realidade, altamente provável que o sonhador sabe, sim, o que seu sonho significa: apenas nãosabe que sabe, e, por esse motivo, pensa que não sabe. Os senhores me assinalarão que, mais uma vez, estou introduzindo uma suposição, já a segundanesse breve raciocínio, e que, assim fazendo, estou reduzindo enormemente o direito à credibilidade de meuprocedimento: ‘Devido à premissa de que os sonhos são fenômenos psíquicos, e devido a uma nova premissade que há coisas mentais em uma pessoa que sabe sem saber que sabe da existência deles…’ e assim pordiante. Sendo assim, basta que se considere a improbabilidade intrínseca de cada uma dessas duas premissaspara se poder tranqüilamente desviar o interesse de qualquer conclusão que se possa basear nelas. Eu não os trouxe até aqui, senhoras e senhores, para iludi-los ou para ocultar-lhes determinadascoisas. Em meu programa, é verdade, anunciei uma série de ‘Conferências Elementares para Servir comoIntrodução à Psicanálise’, contudo, aquilo que eu tinha em mente não era nada nos moldes de umaapresentação in usum Delphini, que lhes daria uma versão agradável, com todas as dificuldadescuidadosamente escamoteadas, com as lacunas preenchidas e as dúvidas explicadas favoravelmente, deforma que os senhores pudessem crer, com a mente despreocupada, que tinham aprendido algo novo. Não,justamente pelo motivo de os senhores serem principiantes, quis mostrar-lhes a nossa ciência como ela é, comsuas asperezas e dificuldades, suas exigências e hesitações. Pois sei que o mesmo se passa com todas asciências e possivelmente não pode ser de outra forma, especialmente em seus começos. Sei também que, emgeral, o ensino se dá ao trabalho de se notabilizar pelo fato de encobrir, de quem aprende, essas dificuldades eimperfeições. Com a psicanálise, porém, isso não vai acontecer. De modo que formulei duas premissas, umadentro da outra; e se alguém acha tudo isso muito laborioso e muito inseguro, ou se alguém está habituado acertezas mais garantidas e a deduções mais elegantes, não deve prosseguir conosco. Penso, no entanto, queabsolutamente não deveria se meter com os problemas psicológicos, porquanto é de se temer que em breveachará intransitáveis os caminhos precisos e seguros que escolheu para seguir. E uma ciência que tem algo aoferecer, não tem necessidade de cortejar ouvintes e adeptos. Suas descobertas não podem deixar de angariaradesões; e ela pode esperar até que essas descobertas tenham feito com que as atenções se voltassem paraela. Para aqueles que gostariam de prosseguir com esse tema, porém, posso afiançar que minhas duashipóteses não são equivalentes. A primeira, a de que os sonhos são fenômenos psíquicos, é a premissa queprocuramos demonstrar pelo resultado de nosso trabalho; a segunda já foi demonstrada em outra área deconhecimento, e eu simplesmente estou me aventurando a transportá-la dessa área para nossos própriosproblemas. Onde, pois, em que campo, se pôde encontrar a prova de que existe algum conhecimento do qual apessoa interessada, apesar de tudo, nada sabe, conforme estamos propondo supor a respeito dos sonhos? Em Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 58última análise, este seria um fato estranho, surpreendente, um fato que viria alterar nossa visão da vida mentale que não teria por que se manter escondido: um fato, aliás, que se neutraliza na sua própria denominação eque, não obstante, pretende ser algo de real — uma contradição em termos. Pois bem, ele não se esconde.Não é falta sua se as pessoas nada sabem a seu respeito ou não lhe prestam suficiente atenção. Também nãosomos nós que devemos ser acusados de permitir que esses problemas psicológicos sejam deixados a cargode pessoas que se mantêm distanciadas de todas as observações e experiências decisivas para a questão. A comprovação foi encontrada no campo dos fenômenos hipnóticos. Quando, em 1889, tomei parte nasdemonstrações extraordinariamente impressionantes feitas por Liébault e Bernheim, em Nancy, testemunhei a seguinte experiência, entre outras. Quando um homem era colocado em estado desonambulismo, era levado a experimentar toda espécie de coisas, em forma alucinatória, e, depois, eradespertado; de início parecia nada saber do que acontecera durante seu sono hipnótico. Bernheim então lhepedia, sem rodeios, para relatar o que lhe havia acontecido sob hipnose. O homem afirmava que não conseguialembrar-se de nada. Bernheim, porém, se mantinha firme, pressionava-o para falar, insistia em que o homemsabia e devia recordar. E eis que o homem era tomado de incerteza, começava a refletir e recordava de formaindistinta uma das experiências que lhe tinham sido sugeridas, e depois outra parte, e a memória se tornavacada vez mais clara e mais completa e finalmente vinha à luz, sem falha. Como, no entanto, posteriormente ohomem sabia o que lhe acontecera durante a experiência, e como ninguém lhe havia comunicado nada nessemeio tempo, achamos acertado concluir que ele também antes sabia. Simplesmente lhe era inacessível; elenão sabia que sabia, e pensava que não sabia. Ou seja, a situação era exatamente igual àquela quesuspeitamos existir naquele nosso sonhador. Suponho que os senhores se surpreendam com que esse fato tenha sido estabelecido, e meperguntarão: ‘Por que o senhor deixou de apresentar essa prova anteriormente, em conexão com asparapraxias, quando terminamos por atribuir a um homem que cometera um lapso de língua uma intenção dedizer coisas das quais nada sabia e que negava? Se uma pessoa pensa que não sabe nada sobre experiênciascuja lembrança, ainda assim, está dentro dela, já não é mais tão improvável ela não saber nada de outrosprocessos mentais dentro de si. Esse certamente seria para nós um argumento de peso, e nos teria auxiliado acompreender as parapraxias.’ Naturalmente eu poderia tê-lo apresentado antes, porém reservei-o para outrolugar onde é mais necessário. As parapraxias, em parte, se explicavam por si mesmas, e, em parte, nosdeixavam a impressão de que, para preservar a continuidade dos fenômenos em questão, seria prudente supora existência de processos mentais dos quais a pessoa nada sabe. No caso dos sonhos, somos compelidos aintroduzir explicações provenientes de outro lugar e, ademais disso, espero que, no caso dos mesmos, ossenhores acharão mais fácil aceitar que eu transporte para cá explicações provenientes da hipnose. O estadono qual uma parapraxia ocorre, não pode deixar de se lhes afigurar normal; não possui qualquer semelhançacom o estado hipnótico. Por outro lado, existe um parentesco evidente entre o estado hipnótico e o estado desonho, que constitui uma condição necessária do sonho. A hipnose, na verdade, é descrita como um sonoartificial. À pessoa que estamos hipnotizando pedimos que durma, e as sugestões que fazemos sãocomparáveis aos sonhos do sono natural. As situações psíquicas nos dois casos são realmente análogas. Nosono natural retiramos nosso interesse de todo o mundo externo; e no sono hipnótico também o retiramos domundo inteiro, porém com exceção apenas da pessoa que nos hipnotizou e com a qual permanecemos em Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 59contato. Diga-se de passagem, o sono de uma mãe cuidando de seu filho, permanecendo em contato com omesmo e podendo ser acordada apenas por ele, é um equivalente normal do sono hipnótico. Assim, não seriatão fora de propósito transpor a situação da hipnose para a do sono natural. Não é inteiramente absurda asuposição de que também no sonhador esteja presente algum conhecimento a respeito de seus sonhos,embora esse conhecimento lhe seja inacessível a ponto de não acreditar no mesmo. Observe-se que, nesseponto, se abre uma terceira frente de abordagem ao estudo dos sonhos: vimos a dos estímulos que perturbamo sono, a dos devaneios e, agora, temos a dos sonhos sugeridos do estado hipnótico. Talvez possamos agora retornar à nossa tarefa com renovada confiança. É, pois, provável que osonhador tenha noção do que sonhou; a única questão é saber como tornar-lhe possível descobrir oconhecimento que tem e o comunicar a nós. Não lhe exigimos dizer-nos abertamente o sentido de seu sonho,porém será capaz de encontrar a origem, o círculo de pensamentos e de interesses do qual surgiu tal sonho.Os senhores se recordam de que, no caso das parapraxias, perguntou-se ao homem como ele havia chegado àpalavra equivocada ‘Vorschwein‘, e a primeira coisa que lhe ocorreu deu-nos a explicação. Nossa técnica, noque se refere aos sonhos, portanto é muito simples e copiada desse exemplo. Também aqui perguntaremos aquem sonhou de que modo chegou ao sonho e, da mesma forma, seu primeiro comentário pode serconsiderado uma explicação. Com isso deixamos de lado o problema da distinção entre o fato de o sonhadorpensar e o de não pensar que sabe algo, e tratamos ambos os casos como um só e mesmo caso. Essa técnica certamente é muito simples, porém temo que desencadeará a mais viva oposição dossenhores. Haverão de dizer: ‘Mais uma hipótese! a terceira! E a mais improvável de todas! Se pergunto àpessoa que sonhou o que é que lhe ocorre em relação ao sonho, de que modo precisamente a primeira coisaque lhe ocorre pode nos dar a explicação que esperamos? Ora, pode não lhe ocorrer absolutamente nada, ousabe lá o que lhe pode ocorrer. Não consigo ver em que se baseia uma expectativa desse tipo. Isso realmenteé mostrar demasiada confiança na divina providência, em um ponto em que seria apropriado, isto sim, um maiorexercício da faculdade crítica. Ademais, um sonho não é somente uma palavra errada; consiste em numerososelementos. Assim sendo, que associação de idéias devemos seguir?’Os senhores estão corretos em todos ospontos de menor importância. Um sonho difere de um lapso de língua, entre outras coisas, pela multiplicidadede seus elementos. Nossa técnica deve levar isso em consideração. Portanto lhes sugiro dividirmos o sonho emseus elementos e iniciarmos uma pesquisa à parte, de cada elemento; ao fazermos isso, a analogia com umlapso de língua se estabelece. Os senhores também têm razão ao pensar que aquele que sonhou, quandointerrogado sobre os diversos elementos do sonho separados uns dos outros, pode responder que nada lheocorre. Há alguns exemplos nos quais deixamos passar essa resposta, e mais adiante os senhores saberãoque exemplos são esses [ver em [1]]; coisa muito estranha, são exemplos nos quais idéias definidas podemocorrer em nós mesmos. Porém, em geral, se quem sonhou afirma que nada lhe ocorre, contestamos; nós opressionamos, insistimos em que algo deve ocorrer-lhe — e tornamos a ter razão. Produzirá uma idéia —qualquer idéia, é-nos indiferente qual seja. O sonhador nos dará determinadas informações, que podem serdescritas como ‘históricas’ com especial facilidade. Ele pode dizer: ‘Isso é algo que aconteceu ontem’ (como foio caso em nossos dois sonhos ‘de verdade’ [ver em [1] e [2]], ou: ‘Isso me lembra algo que aconteceu há poucotempo’ — e dessa maneira descobriremos que os sonhos se referem a impressões do dia anterior, ou dos doisúltimos dias, muito mais freqüentemente do que de início imaginávamos [loc. cit.]. E, finalmente, também Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 60recordará, a partir do sonho, acontecimentos de épocas ainda mais anteriores, e até mesmo, talvez, de umpassado muito remoto. No seu ponto principal, contudo, os senhores se enganam. Se pensam ser arbitrário supor que aprimeira coisa que ocorre ao sonhador forçosamente deva nos revelar aquilo que estamos procurando, noslevar até a meta de nossa procura; se pensam que aquilo que lhe vem à mente poderia ser qualquer outra coisadeste mundo e poderia não ter qualquer relação com o que procuramos; e que ao esperar alguma coisadiferente estou apenas exibindo minha confiança na providência divina — então os senhores estão cometendoum grande equívoco. Uma vez, anteriormente [ver em [1]], arrisquei-me a dizer-lhes que os senhores acalentamuma fé, profundamente arraigada, em acontecimentos psíquicos não-determinados e no livre-arbítrio; que isso,porém, é bastante anticientífico e deve ceder lugar à necessidade de um determinismo cujo princípio seestende à vida mental. Peço que respeitem o fato de que aquilo foi o que veio à mente do homem, e não outracoisa. No entanto, não estou opondo uma fé a outra. Pode-se demonstrar que a idéia referida pelo homem nãoera arbitrária, nem indeterminável, nem isenta de relação com aquilo que procurávamos. Na realidade, há nãomuito tempo constatei — posso dizer que sem atribuir muita importância ao fato — que a psicologiaexperimental também havia obtido provas nesse sentido. Tendo em vista a importância do assunto, solicitarei dos senhores especial atenção. Ao pedir a alguémdizer-me o que lhe vem à mente em resposta a um determinado elemento do sonho, estou lhe pedindo que seentregue à associação livre, enquanto mantém na mente uma idéia como ponto de partida. Isso exige umaatitude especial da atenção, bastante diferente da reflexão, e que exclui esta. Algumas pessoas conseguemessa atitude com facilidade; outras, quando tentam consegui-la, mostram um grau de inabilidade incrivelmenteelevado. Existe, no entanto, um grau maior de liberdade de associação: quer dizer, posso eliminar a exigênciade manter na memória uma idéia inicial e tão-somente estabelecer a modalidade ou tipo de associação quequero — posso, por exemplo, exigir da pessoa em experiência que deixe vir à mente um nome próprio ou umnúmero, livremente. Aquilo que então lhe ocorre presumivelmente seria ainda mais casual e mais imprevisíveldo que com nossa técnica anterior. Pode ser demonstrado, porém, que é sempre algo estritamente determinadopor importantes atitudes internas da mente, desconhecidas de nós no momento em que atuam — tão poucoconhecidas como as intenções perturbadoras das parapraxias e as intenções causadoras das ações casuais[ver em [1]]. Eu e muitos outros depois de mim fizemos repetidamente essas experiências com nomes e comnúmeros pensados ao acaso, e alguns desses experimentos foram publicados. Nessas experiências oprocedimento consiste em fornecer uma série de associações ao nome que emergiu; essas associaçõessubseqüentes, em decorrência, não são mais inteiramente livres, porém possuem um vínculo, assim comoexiste vínculo entre as associações e os elementos dos sonhos. Continua-se com esse procedimento até quese considere esgotado o estímulo para associar. Entretanto, com isso já terá sido esclarecido tanto o motivocomo o significado da escolha casual do nome. Essas experiências sempre conduzem ao mesmo resultado;relatos referentes a elas freqüentemente abrangem copioso material e exigem amplas elucidações. Asassociações com números escolhidos ao acaso são, talvez, as mais convincentes; elas fluem tão rapidamente eavançam com tão incrível certeza em direção a um objetivo oculto, que o efeito é realmente surpreendente.Apresentarei aos senhores um exemplo de uma dessas análises de um nome, de vez que lidar com isso exige Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 61uma quantidade de material convenientemente pequena.No decurso do tratamento de um jovem tive ocasião dediscutir esse assunto e mencionei a tese de que, apesar de uma escolha aparentemente casual, é impossívelpensar em um nome ao acaso que não venha a se revelar como rigorosamente determinado pelascircunstâncias imediatas, pelas características da pessoa em experiência e por sua situação no momento. Devez que ele se encontrava cético, sugeri-lhe que deveria fazer consigo mesmo uma experiência desse tipo, nahora. Eu sabia que ele mantinha relações particularmente numerosas, de todo tipo, com mulheres casadas ecom moças, e assim pensei que ele teria à sua disposição uma escolha especialmente ampla se fosse o casode lhe pedir que escolhesse o nome de uma mulher. Concordou em fazer a experiência. Para minha surpresa,ou melhor, talvez, para sua surpresa, não fui assoberbado por nenhuma avalanche de nomes femininos;permaneceu calado por um momento e então admitiu que apenas um nome lhe tinha vindo à cabeça e nenhumoutro além deste: ‘Albina’. — Que coisa curiosa! Mas o que significa esse nome para o senhor? Quantas‘Albinas’ o senhor conhece? — É estranho dizê-lo, ele não conhecia nenhuma mulher chamada ‘Albina’, e nadamais lhe ocorreu junto com o nome. Dessa forma, podia-se pensar que a análise havia fracassado. Mas não,absolutamente: já estava completa e outras associações não eram necessárias. O homem tinha uma peleexcepcionalmente alva e, em conversação durante o tratamento, muitas vezes eu o chamara de albino, porbrincadeira. Por essa época estávamos tratando de determinar os componentes femininos de sua constituição.Assim, era ele mesmo essa ‘Albina’, a mulher que mais lhe interessava no momento. Do mesmo modo, pode-se constatar que as melodias que acodem à mente de uma pessoa de modoinesperado são determinadas por uma seqüência de idéias à qual pertencem, e têm o direito de atarefar amente, sem que haja consciência de sua atividade. É fácil, nesses casos, demonstrar que a relação com amelodia é baseada em sua letra ou em sua origem. Contudo, devo ter o cuidado de não estender essaasserção a pessoas realmente ligadas à música; sucede que com elas não tive qualquer experiência. Pode serque para essas pessoas o conteúdo musical da melodia é que decide seu surgimento. O primeiro caso écertamente o mais comum. Por exemplo, conheço um jovem que se sentiu durante algum tempo realmenteperseguido pela melodia (aliás, uma melodia maravilhosa ) da canção de Páris [de Offenbach] La belle Hélène,até que, em sua análise, ele teve sua atenção voltada para uma rivalidade em torno de sua pessoa e embenefício seu, uma rivalidade entre uma ‘Ida’ e uma ‘Helena’.Se então as coisas que vêm à mente de umapessoa assim tão livremente, são de tal maneira determinadas e formam parte de um todo inter-relacionado,sem dúvida estamos agindo acertadamente ao concluir que não podem ser menos determinadas aquelascoisas que Ihe acodem à mente com apenas um vínculo — ou seja, o vínculo delas com a idéia que serve comoseu ponto de partida. A investigação realmente mostra que, afora o vínculo que lhe fornecemos com a idéiainicial, essas associações são dependentes também de grupos de idéias e de interesses intensamenteemocionais, os ‘complexos’, cuja participação não é conhecida no momento — ou seja, é inconsciente.Aocorrência de idéias com vínculos dessa espécie tem sido objeto de pesquisas experimentais muito elucidativasque desempenharam um papel notável na história da psicanálise. A escola de Wundt introduziu o queconhecemos como experiências de associação, nas quais se diz à pessoa uma palavra-estímulo e a pessoatem de responder a ela tão rapidamente quanto lhe é possível, com qualquer reação que lhe ocorra. Nessecaso, é possível estudar o intervalo de tempo que se passa entre o estímulo e a reação, a natureza dasrespostas dadas como reação, os possíveis erros quando a experiência é repetida mais tarde, e assim por Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 62diante. A escola de Zurique, liderada por Bleuler e Jung, encontrou explicação para as reações que sesucediam na experiência de associação, fazendo as pessoas em experiência elucidarem suas reações por meiode associações subseqüentes, no caso de essas reações terem mostrado aspectos marcantes. Constatou-seentão que essas reações marcantes eram determinadas de forma muito definida pelos complexos da pessoa.Assim, Bleuler e Jung estabeleceram a primeira ponte entre a psicologia experimental e a psicanálise.Tendoaprendido tantas coisas, os senhores poderão dizer: ‘Agora reconhecemos que os pensamentos que livrementeacodem à mente de uma pessoa são determinados, e não arbitrários, como supunhamos. Admitimos que issoseja verdadeiro também para os pensamentos que ocorrem como resposta aos elementos dos sonhos. Não énisso, porém, que estamos interessados. O senhor assevera que aquilo que vem à mente do sonhador, comoresposta ao elemento onírico, é determinado pelo fundamento psíquico (desconhecido para nós) daqueleelemento em particular. Isso não nos parece estar provado. Esperamos, isto sim, que o que ocorre ao sonhadorcomo resposta ao elemento onírico, venha a se revelar como sendo determinado por um dos complexos dequem sonhou; contudo, de que nos serve isso? Não nos leva a uma compreensão dos sonhos e sim, tal como aexperiência de associação, ao conhecimento desses ditos complexos. Mas, o que têm eles a ver com ossonhos?’ Os senhores têm razão, porém estão negligenciando um fator. Ademais, é precisamente devido a essefator que não escolhi a experiência de associação como ponto de partida desta exposição. Nessa experiência, oúnico determinante da reação, isto é, a palavra-estímulo, é arbitrariamente escolhida por nós. Aqui, a reação éintermediária entre a palavra-estímulo e o complexo despertado na pessoa. Nos sonhos, a palavra-estímulo ésubstituída por algo que propriamente deriva da vida mental da pessoa, de fontes que lhe são desconhecidas,podendo este algo, por conseguinte, ser facilmente um verdadeiro ‘derivado de um complexo’. Logo, não éexatamente fantástico supor que as demais associações vinculadas aos elementos oníricos serão determinadaspelo mesmo complexo que o do próprio elemento, e supor que conduzirão à sua descoberta. Permitam-me mostrar-lhes com outro exemplo que os fatos são como esperamos. O esquecimento denomes próprios é realmente um excelente modelo do que acontece na análise de sonhos; a diferença estáapenas em que os eventos compartilhados entre duas pessoas na análise de sonhos estão combinados emuma só pessoa nas parapraxias. Se esqueço temporariamente um nome, mesmo assim sinto em mim algumacerteza de o saber — uma certeza a que, no caso da pessoa que sonhou, somente chegamos pelo caminhoindireto da experiência de Bernheim [ver em [1]]. O nome que esqueci, embora o saiba, não é acessível paramim. A experiência em breve me ensina que nada adianta pensar nele, por mais que me esforce. Em lugar donome esquecido, porém, sempre posso recordar um ou vários nomes substitutos. É somente depois deespontaneamente ter-me ocorrido um nome substituto desse tipo, que se torna óbvio a semelhança dessasituação com a da interpretação do sonho. Como esse nome substituto, também o elemento onírico não é averdadeira coisa em si, porém tão-somente está em lugar de alguma outra coisa — da coisa original quedesconheço e devo descobrir mediante a análise do sonho. Mais uma vez, a única diferença é que, no caso doesquecimento de um nome, reconheço sem hesitação o substituto como algo não-original, ao passo que, nocaso do elemento onírico, chegamos a essa constatação com mais dificuldade. Pois bem, no caso doesquecimento de um nome existe também um método pelo qual podemos partir do substituto e chegar à coisainconsciente original, o nome esquecido. Dirigindo minha atenção para os nomes substitutos e permitindo que, Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 63em resposta a estes, outras idéias me advenham, obtenho o nome esquecido através de rodeios mais oumenos longos; ao ocorrer isso, verifico que tanto o nome substituto espontâneo como os nomes que recordei,estão correlacionados com o nome esquecido e foram por ele determinados.Descreverei para os senhores umaanálise desse tipo. Certo dia verifiquei que não conseguia recordar o nome do pequeno país da Riviera cujacapital é Monte Carlo. Foi muito cansativo, porém a coisa se passou assim. Concentrei tudo quanto sabia arespeito desse país. Pensei no Príncipe Alberto, da Casa de Lusignan, nos seus casamentos, em suadedicação às pesquisas em alto-mar, e tudo o mais que pude reunir; mas foi inútil. Desisti, assim, da reflexão edeixei que me ocorressem nomes substitutos em vez do nome esquecido. Vieram rapidamente: a própria MonteCarlo, Piemonte, Albânia, Montevidéu, Colico. Nessa série chamou-me a atenção primeiramente Albânia, logosubstituída por Montenegro, sem dúvida por causa do contraste entre branco e negro. Então constatei quequatro desses nomes substitutos continham a mesma sílaba ‘mon’ e com isso, subitamente, eu tinha a palavraesquecida e exclamei em voz alta: ‘Mônaco!’ Os nomes substitutos, assim, realmente haviam surgido do nomeesquecido: os quatro primeiros provinham de sua primeira sílaba, ao passo que o último reproduzia suaestrutura silábica e sua última sílaba inteira. Ademais, consegui descobrir com bastante facilidade o que meprivara temporariamente desse nome. Mônaco é também a palavra italiana para Munique; e foi essa cidade queexerceu a influência inibitória. Não há dúvida de que esse é um bom exemplo, porém é simples demais. Em outros casos, teria sidonecessário recordar extensas seqüências de idéias em resposta ao primeiro nome substituto, e então aanalogia com a análise de sonhos teria sido mais clara. Tive experiências também desse tipo. Certa ocasião,um estrangeiro convidou-me para tomar vinho italiano em sua companhia; porém, quando estávamos norestaurante, sucedeu não lembrar-se ele do nome do vinho que desejava pedir em virtude das recordaçõesmuito agradáveis que tinha desse vinho. A partir de numerosas idéias substitutas de diferentes espécies queacudiam à sua memória, em lugar do nome esquecido, pude concluir que pensamentos a respeito de algo como nome Hedwig o tinham feito esquecer o nome. E ele não apenas confirmou o fato de que provara dessevinho, pela primeira vez, quando estava em companhia de alguém com esse nome, como também, auxiliadopela descoberta, se lembrou do nome do vinho. Presentemente ele estava sendo feliz no casamento e aquelenome, Hedwig, pertencia a uma época anterior que não desejava recordar. Sendo possível no caso de esquecimento de um nome, também na interpretação de sonhos deve serpossível prosseguir, a partir do substituto, ao longo da cadeia de associações ligada a ele e dessa forma obteracesso à coisa original que está sendo mantida oculta. Do exemplo do nome esquecido podemos concluir queas associações com o elemento onírico serão determinadas tanto pelo elemento onírico como pela coisaoriginal inconsciente que está por trás deste. Sendo assim, parece que aduzimos alguma fundamentação paranossa técnica. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 64 CONFERÊNCIA VII - O CONTEÚDO MANIFESTO DOS SONHOS E OSPENSAMENTOS ONÍRICOSLATENTES SENHORAS E SENHORES: Como vêem, nosso estudo das parapraxias não foi improfícuo. Graças a nossos esforços com elas,sujeitos a duas premissas que lhes expliquei, conseguimos duas coisas: uma concepção da natureza doselementos oníricos e uma técnica para interpretar sonhos. A concepção dos elementos oníricos nos diz seremeles coisas não-originais [ver em [1]], substitutos de alguma outra coisa desconhecida do sonhador (como aintenção de uma parapraxia), substitutos de algo cujo conhecimento está presente em quem sonhou, que lhe é,porém, inacessível. Temos a esperança de que será possível aplicar a mesma concepção a sonhos inteirosconstituídos de tais elementos. Nossa técnica baseia-se em usar a associação livre para esses elementos, a fimde suscitar a emergência de outras estruturas substitutivas que nos possibilitarão atingir aquilo que se oculta denossos olhos.Proponho, agora, que devemos introduzir uma modificação em nossa nomenclatura, o que nosdará maior liberdade de movimentos. Em vez de falar em ‘oculto’, ‘inacessível’ ou ‘não-genuíno’, adotemos adescrição correta e digamos ‘inacessível para a consciência do sonhador’ ou ‘inconsciente‘. Com isso querodizer tão-somente aquilo que pode acudir ao espírito dos senhores quando pensam em uma palavra que lhesescapou, ou na intenção perturbadora de uma parapraxia — ou seja, quero dizer apenas ‘inconsciente nomomento‘. Contrastando com esse aspecto, naturalmente podemos referir como ‘conscientes‘ os elementosoníricos propriamente ditos e as idéias substitutivas que, através das associações com estes elementos, são desurgimento recente. Até aqui essa nomenclatura não envolve qualquer formulação teórica. Não se podeestabelecer objeção alguma ao uso da palavra ‘inconsciente’ como descrição adequada e de fácilcompreensão. Se estendemos ao sonho total nossa concepção a respeito de seus elementos isolados, procede que osonho como um todo constitui um substituto deformado de alguma. outra coisa, algo inconsciente, e que atarefa de interpretar um sonho é descobrir esse material inconsciente. Disso logo resultam, entretanto, trêsregras importantes que devemos observar durante o trabalho de interpretação de sonhos. (1) Não devemos nos preocupar com aquilo que o sonho parece dizer-nos, seja compreensível ouabsurdo, claro ou confuso, de vez que pode não ser o material inconsciente que estamos procurando. (Umaevidente limitação desta regra forçosamente irá impor-se à nossa consideração, mais adiante [ver em [1]].) (2)Devemos restringir nosso trabalho à recordação das idéias substitutivas de cada elemento, não devemos refletirsobre elas, nem considerar se contêm algo importante; e não devemos nos perturbar com o grau de divergênciaque elas apresentam em relação ao elemento onírico. (3) Precisamos aguardar até que o material inconscienteoculto, o qual procuramos, surja com espontaneidade, exatamente como a palavra esquecida ‘Mônaco’ adveiona experiência que descrevi [ver em [1]]. Agora, também, podemos compreender em que grau é indiferente o fato de muita ou pouca coisa dosonho ser lembrada, sobretudo se lembrada com precisão ou imprecisão. Pois o sonho recordado não é omaterial original e sim um seu substituto deformado, o qual, mediante a rememoração de outras imagenssubstitutivas, deve auxiliar-nos a nos aproximarmos do material original, a tornar consciente aquilo que no Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 65sonho é inconsciente. Se nossa lembrança foi imprecisa, portanto, causou simplesmente uma deformação amais desse substituto — uma deformação que, porém, não se efetuou sem motivo. O trabalho de interpretar pode ser executado nos sonhos de cada um, ou nos sonhos de outraspessoas. Na realidade, aprende-se mais consigo mesmo; o processo impõe maior convicção. Se então fizermosuma tentativa, observaremos que algo se opõe ao nosso trabalho. É verdade que as idéias nos ocorrem;porém, não permitimos que todas elas sejam levadas em consideração; influências de julgamentos e deescolhas se fazem sentir. No caso de uma idéia, podemos dizer a nós mesmos: ‘Não, isso não é importante,não tem cabimento aqui.’ No caso de outra idéia: ‘isso é demasiadamente sem sentido’; e no caso de umaterceira: ‘isso é totalmente sem importância’. E depois, somos capazes de observar como, com objeções dessaespécie, podemos encobrir idéias e finalmente rechaçá-las todas juntas, sem exceção, antes mesmo de sehaverem tornado bastante claras. Assim, por um lado nos aferramos muito àquela idéia que constituiu nossoponto de partida, o próprio elemento onírico; e, por outro lado, interferimos no resultado das associações livresao fazer a escolha. Se não somos nós mesmos enquanto interpretamos o sonho, se tomamos outra pessoapara que o interprete, adquirimos consciência muito nítida de mais um motivo que alegamos ao fazer essaseleção indevida, porque às vezes dizemos para nós: ‘Não, essa idéia é excessivamente desagradável; nãoquero ou não posso referi-la.’ Essas objeções constituem evidente ameaça ao êxito de nosso trabalho. Delas devemos nosresguardar, e em nosso próprio caso o fazemos resolvendo não ceder a elas. Estando analisando o sonho deuma outra pessoa, estabelecemos como regra inviolável a pessoa não ocultar de nós idéia alguma, ainda quedê origem a uma das quatro objeções — de ser demasiado sem importância, ou sem sentido; ou de serirrelevante, ou muito desagradável para ser referida. O sonhador promete obedecer à regra, e a seguirpodemos ter o aborrecimento de verificar como ele cumpre mal o prometido, quando lhe surge a ocasião.Podemos explicar a nós mesmos o que se passa, de início, supondo que, malgrado a garantia peremptória, eleainda não se compenetrou da razão de ser da associação livre; e talvez possamos ter a idéia de primeiroconvencê-lo teoricamente, dando-lhe livros para que leia, ou enviando-o a conferências que o possam converterem adepto de nossos pontos de vista sobre a associação livre. Contudo, de um erro assim nos manteremos àdistância, basta considerarmos nosso próprio caso; do vigor de nossas convicções dificilmente se pode duvidar,afinal de contas as mesmas objeções se apresentam a determinadas idéias, e são afastadas apenasposteriormente — digamos, em segunda instância.Em vez de nos aborrecermos com a desobediência dosonhador, podemos lucrar com essas experiências aprendendo algo novo a partir delas — algo tanto maisimportante quanto menos esperamos. Percebemos que o trabalho de interpretar sonhos é executado empresença de uma resistência que a ele se opõe e da qual as objeções críticas constituem manifestações. Aresistência independe da convicção teórica daquele que sonhou. Com efeito, aprendemos ainda mais.Descobrimos que uma objeção crítica desse tipo jamais chega a mostrar-se justificada. Ao contrário, as idéiasque as pessoas tentam suprimir dessa maneira invariavelmente se revelam as mais importantes e decisivas emnossa busca de material inconsciente. Na realidade equivale a uma marca distintiva uma idéia acompanhar-sede uma objeção desse tipo. A referida resistência é algo inteiramente novo: um fenômeno que encontramos calmamente em relaçãoa nossas premissas [ver em [1] e seg.]; porém, um fenômeno que não se incluía entre as mesmas. O Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 66aparecimento desse novo fator em nossos cálculos nos alcança como determinada surpresa não de todoagradável. Logo suspeitamos que ela não irá tornar mais fácil nosso trabalho. Poderia desorientar-nos a pontode abandonarmos nosso completo interesse pelos sonhos: algo tão sem importância como um sonho e, comose não bastasse, todas essas dificuldades, em lugar de uma única técnica simples, sem rodeios! Emcompensação, porém, as dificuldades podem precisamente agir como estímulo e fazer-nos suspeitar que otrabalho valerá a pena. Regularmente deparamos com a resistência ao tentarmos abrir caminho desde osubstituto, que é o elemento onírico, até o material inconsciente oculto por trás dele. Podemos, assim, concluirque deve haver algo importante escondido por trás do substituto. Se não, para que servem as dificuldades quetentam manter em vigor o ocultamento? Se uma criança recusa abrir sua mão fechada, para mostrar o que temescondido, podemos nos sentir seguros de que se trata de algo equívoco — algo que ela não devia ter. No momento em que introduzimos nos fatos em questão a idéia dinâmica de uma resistência, devemossimultaneamente refletir ser esse fator algo que varia em quantidade. Podem existir resistências maiores emenores, e estamos preparados para encontrar essas diferenças revelando-se também durante nosso trabalho.Talvez sejamos capazes de vincular essa experiência com outra que também encontramos durante o trabalhoda interpretação de sonhos: às vezes, apenas uma única resposta, ou não mais do que algumas, sãorequeridas para nos conduzirem desde o elemento onírico até o material inconsciente que nele se oculta, aopasso que em outras ocasiões, para se realizar isso, são necessárias longas cadeias de associações e asuperação de muitas objeções críticas. Concluiremos que essas diferenças correspondem à variável magnitudeda resistência, e certamente se verá que temos razão. Se a resistência é pequena, o substituto não pode estarmuito distante do material inconsciente; contudo, uma resistência maior significa que o material inconscienteestá muito distorcido e que será longo o caminho que se estende desde o substituto ao material inconsciente. Talvez, agora, seja o momento de tomarmos um sonho e tentar aplicar-lhe nossa técnica, a fim deverificar se nossas expectativas se confirmam. Sim; no entanto, que sonho devemos escolher para essafinalidade? Os senhores não podem imaginar como julgo difícil decidir; nem sequer posso esclarecer a naturezade minhas dificuldades. Evidentemente deve haver sonhos que, em seu conjunto, foram sujeitos apenas a umapequena deformação, e o melhor plano seria começar por eles. Entretanto, que sonhos foram menosdeformados? Os inteligíveis e não confusos, dos quais já lhes apresentei dois exemplos [ver em [1] e [2]]? Issonos faria perder o rumo. A investigação mostra que tais sonhos foram sujeitos a um extraordinário grau dedeformação. Se, entretanto, eu devesse não levar em conta exigências especiais e selecionasse um sonho aesmo, os senhores provavelmente ficariam muito desapontados. Talvez tivéssemos de observar ou gravartamanha profusão de idéias, em resposta aos elementos oníricos isolados, que seríamos incapazes deestabelecer uma visão de conjunto do trabalho. Se tomamos nota por escrito de um sonho e então anotamostodas as idéias que emergem como resposta a ele, podemos verificar que essas idéias são muitas vezes maislongas do que o texto do sonho. O melhor plano, portanto, pareceria ser o de escolher alguns sonhos curtospara análise, quando cada um dos quais pelo menos nos dirá algo ou confirmará algum ponto. Decidiremos,assim, seguir esse rumo, a menos que a experiência talvez nos mostre onde realmente podemos encontrarsonhos que foram apenas ligeiramente deformados. No entanto, posso pensar em alguma outra coisa que nostornará as coisas mais fáceis: algo, ademais, que está em nossa trajetória. Em vez de começarmos por Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 67interpretar sonhos completos, nos restringiremos a alguns elementos oníricos e descobriremos, em determinadonúmero de exemplos, como esses podem ser explicados mediante aplicação de nossa técnica. (a) Uma senhora referiu que, quando criança, sonhava muito freqüentemente que Deus usava nacabeça um chapéu de três bicos feito de papel. O que os senhores podem fazer com esse caso, sem o auxíliodaquela que sonhou? Parece totalmente disparatado. Deixa, porém, de ser absurdo quando ouvirmos dasenhora que ela costumava usar na cabeça um chapéu desse tipo, às refeições, quando era criança, porquenunca podia resistir ao desejo de dar olhadas furtivas aos pratos dos irmãos e irmãs para ver se eles nãotinham ganho porções maiores que a sua. Assim, o chapéu se destinava a funcionar como um par de óculos deproteção. Isso, aliás, era uma parte das informações referentes à sua história [ver em [1] e [2] e seg.], e foifornecida sem qualquer dificuldade. A interpretação desse elemento e, ao mesmo tempo, de todo esse brevesonho foi feita com o auxílio de mais uma idéia que lhe ocorreu: ‘Quando ouvi dizer que Deus era onisciente evia tudo’, disse, ‘o sonho só pode significar que eu sabia tudo e via tudo, mesmo que procurassem me impedir.’Parece que este exemplo é simples demais.(b) Uma paciente, que se mostrava cética neste respeito, teve umlongo sonho, no decorrer do qual algumas pessoas Ihe falavam acerca de meu livro sobre chistes [1905c] e oelogiavam muito. Então surgiu algo referente a um ‘canal’, talvez um outro livro que mencionava um canal, ouentão alguma coisa com canal… ela não sabia … era tudo tão indistinto.Sem dúvida os senhores tenderão aesperar que o elemento ‘canal’, de vez que já era tão indistinto, seria inacessível à interpretação. Têm razão emsuspeitar de uma dificuldade; porém a dificuldade não resulta da indistinção: tanto a dificuldade como aindistinção se originam de outra causa. Nada ocorreu a essa paciente em relação a ‘canal’, e eu obviamentenão pude elucidá-lo. Pouco tempo depois — para dizer a verdade, no dia seguinte — disse-me que haviapensado em alguma coisa que podia ter algo a ver com o fato. Era, sim, um chiste — um chiste que tinhaouvido. No vapor entre Dover e Calais, um conhecido autor entabulou conversação com um inglês. Esteaproveitou a ocasião para citar a frase: ‘Du sublime au ridicule il n’y a qu’un pas. [Do sublime ao ridículo não vaimais que um passo.]’ ‘Sim’, respondeu o autor, ‘le Pas de Calais‘ — querendo dizer que havia pensado que aFrança era sublime e a Inglaterra, ridícula. Porém o Pas de Calais é um canal — o Canal Inglês [Na verdade, osEstreitos de Dover.]. Os senhores me perguntarão se penso que isso tinha algo a ver com o sonho. Penso quesim, certamente; e dá a solução do elemento enigmático do sonho. Poderão duvidar de que esse chiste, jáantes de ocorrer o sonho, estava presente na qualidade de pensamento inconsciente, oculto por trás doelemento ‘canal’? Podem os senhores supor que foi introduzido como invenção subseqüente? A associaçãorevelou o ceticismo que jaz oculto na admiração ostensiva da paciente; e sua resistência contra a revelaçãodesse fato era sem dúvida a causa comum tanto de sua demora em fornecer a associação, como da indistinçãodo elemento onírico em referência. Considerem a relação entre o elemento onírico e seu terreno inconsciente:era como se fosse um fragmento desse terreno, uma alusão ao mesmo, tendo-se tornado ininteligível ao serisolado.(c) Como parte de um sonho um tanto longo, um paciente sonhou que diversos membros de sua famíliaestavam sentados em volta de uma mesa de formato especial, etc. Ocorreu-lhe, em relação à mesa, que eletinha visto um móvel desse tipo quando visitava determinada família. Seus pensamentos continuaram revelandoque havia um relacionamento peculiar entre pai e filho, nessa família; e logo acrescentou que o mesmo sepassava, de fato, nas relações entre ele próprio e seu pai. Assim, a mesa passou a fazer parte do sonho a fimde assinalar esse paralelo.O sonhador há muito se havia familiarizado com os requisitos da interpretação de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 68sonhos. Outras pessoas talvez pudessem fazer objeções a que detalhes tão triviais, como o formato de umamesa, se tornassem objeto de investigação. Na realidade, porém, não consideramos que algo seja casual ouindiferente em um sonho, e esperamos obter informações precisamente a partir da explicação desses detalhestriviais e despropositados. Os senhores talvez também se sintam surpresos com o fato de que o pensamento deque ‘a mesma coisa era verdadeira para nós e para eles’ deveria ter sido expresso, em especial, pela escolhada forma da mesa [Tisch]. Isso, contudo, também se aclara quando os senhores se dão conta de que o nomeda família em questão era Tischler [literalmente, ‘marceneiro’]. Ao fazer seus parentes se sentarem a essaTisch, ele estava dizendo que também eles eram Tischlers. Aliás, os senhores observarão quão inevitavelmentese é levado a ser indiscreto ao referir essas interpretações de sonhos. E perceberão que essa é uma dasdificuldades a que aludi na escolha dos exemplos. Poderia facilmente ter escolhido um outro exemplo em lugardeste, provavelmente; porém, eu apenas teria evitado tal indiscrição e iria cometer uma outra.Parece haverchegado o momento para eu introduzir dois termos que poderíamos ter empregado há muito tempo.Descreveremos como conteúdo manifesto do sonho aquilo que a pessoa que sonhou realmente nos conta; e omaterial oculto, que esperamos encontrar acompanhando idéias que lhe acodem à mente, chamaremos depensamentos oníricos latentes. Desse modo, consideramos aqui as relações entre o conteúdo manifesto dosonho e os pensamentos oníricos latentes conforme se mostrou nesses exemplos. Essas relações podem serde muitas espécies diferentes. Nos exemplos (a) e (b) o elemento manifesto também é um constituinte dospensamentos latentes, embora sendo apenas uma pequena parte deles. Uma pequena porção da grande ecomplexa estrutura psíquica dos pensamentos oníricos inconscientes também conseguiu ter acesso ao sonhomanifesto — um fragmento desses pensamentos ou, em outros casos, uma alusão aos mesmos, umamanchete, por assim dizer, ou uma abreviação em estilo telegráfico. É atribuição do trabalho de interpretaçãoreunir esses fragmentos ou essa alusão para completar um todo — o que foi conseguido de modoespecialmente preciso no caso do exemplo (b). Assim, uma forma da deformação que constitui a elaboraçãoonírica é a substituição por um fragmento ou uma alusão. No exemplo (c) pode-se observar outro tipo derelação, além deste; e a encontramos expressa em forma ainda mais pura e clara nos exemplos que seseguem. (d) O sonhador estava puxando uma mulher (determinada mulher, conhecida sua) de detrás de umacama. Ele mesmo encontrou o significado desse elemento onírico, partindo da primeira idéia que lhe ocorreu.Significava que estava manifestando sua preferência por essa mulher.(e) Outro homem sonhou que seu irmãoestava numa caixa [Kasten]. Em sua primeira resposta, ‘Kasten‘ foi substituída por ‘Schrank‘ [armário], e asegunda deu a interpretação: seu irmão estava se restringindo [‘schränkt sich ein’].(f) O sonhador subia aocume de uma montanha de onde se descortinava uma paisagem extraordinariamente ampla. Este sonhoparece bastante racional e os senhores poderiam supor que não há o que interpretar nele, e que tudo quantotemos a fazer é interrogar sobre qual lembrança deu origem ao sonho e a razão de essa lembrança ter sidodespertada. Enganar-se-iam porém. Verificou-se que este sonho estava carecendo de uma interpretação, tantoquanto qualquer outro mais confuso. Pois não foi de nenhuma escalada de montanha que o homem serecordou; na realidade, pensou em um conhecido seu, editor de uma ‘Rundschau‘. que tratava de nossasrelações com as mais distantes regiões da Terra. Assim, o pensamento onírico latente era uma identificaçãodesse homem com o ‘Rundschauer‘.Aqui temos um novo tipo de relação entre os elementos oníricos manifesto Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 69e latente. O primeiro não é bem uma deformação do último, e sim uma representação deste, um retrato plástico,e seu ponto de partida se localiza nas palavras. Contudo, precisamente por esse motivo ele é, mais uma vez,uma deformação, porquanto de há muito temos esquecido de que imagem concreta a palavra se originou e, porconseguinte, deixamos de reconhecê-la quando substituída pela imagem. Quando os senhores consideram queo sonho manifesto é constituído predominantemente de imagens visuais e, mais raramente, de pensamentos epalavras, podem imaginar que importância se atribui a esse tipo de relação na construção dos sonhos. Ossenhores também verão que assim, em face de um grande número de pensamentos abstratos, se tornapossível criar quadros que funcionem como substitutos desses pensamentos no sonho manifesto, ao passo quesimultaneamente se ajustam à finalidade de ocultar. Essa é a técnica das conhecidas figuras enigmáticas. Porque possuem essas figuras aparência de serem brincadeiras, é um problema especial com o qual nãoprecisamos nos envolver, por enquanto.Existe um quarto tipo de relação entre os elementos manifesto elatente, que devo continuar mantendo em segredo dos senhores até que cheguemos à sua palavra-chave aotecermos considerações sobre a técnica. Mesmo assim não terei apresentado uma lista completa; porém, serveàs nossas finalidades. Os senhores se sentem agora com coragem suficiente para se aventurarem a interpretarum sonho inteiro? Façamos a experiência, para verificar se estamos bem equipados para a tarefa.Naturalmente não selecionarei um dos mais obscuros; mesmo assim, será um sonho que fornecerá um quadromuito aproximado dos atributos de um sonho.Pois bem, vamos ao caso. Uma senhora que, embora aindajovem, estava casada há muitos anos, teve o seguinte sonho: Ela estava no teatro com seu marido. Um lado daprimeira fila de cadeiras estava completamente vazio. Seu marido lhe disse que Elise L. e seu noivo tambémtinham pretendido ir, porém só poderiam conseguir lugares ruins — três por 1 florim e 50 kreuzers — enaturalmente não poderiam adquiri-los. Ela pensou que não teria sido realmente nenhum prejuízo se tivessemconseguido.A primeira coisa que essa senhora nos referiu foi que a causa precipitante do sonho residia em umaalusão do seu conteúdo manifesto. Seu marido realmente lhe havia falado que Elise L., que eraaproximadamente da mesma idade dela, há pouco havia contratado casamento. O sonho era uma resposta aessa informação. Já sabemos [ver em [1]] ser fácil, no caso de muitos sonhos, assinalar uma causadesencadeante como essa do dia anterior, e que a pessoa que sonhou muitas vezes é capaz de estabelecê-lapara nós sem qualquer dificuldade. Essa senhora, no presente caso, colocou à nossa disposição informaçõessemelhantes para outros elementos do sonho manifesto, também. — De onde veio o detalhe referente a estarvazio um dos lados das cadeiras? Era alusão a um evento real da semana anterior. Ela havia planejado irassistir a determinada peça e por isso havia comprado seus ingressos com antecedência — com tantaantecedência, que teve de pagar uma taxa de reserva. Quando foram ao teatro, acabaram verificando que apressa dela era bastante desnecessária, de vez que uma parte das cadeiras da primeira fila estava quasevazia. Teria sido suficiente a antecipação de comprar os ingressos se os tivesse adquirido no dia em querealmente se realizava a representação. Seu marido não deixou de gracejar com ela por ter tido tanta pressa.— Qual era a origem do 1 florim e 50 kreuzers? Surgiu de uma relação bem diferente, que nada tinha a ver coma anterior, mas que também aludia a algumas informações do dia anterior. Sua cunhada recebera de presente150 florins de seu marido e tinha tido muita pressa — a tola — de correr a uma joalheria e trocar o dinheiro poruma peça de bijuteria. — De onde veio o ‘três’? Ela não conseguia pensar em nada referente a isso, até quelevamos em conta a idéia de que Elise L., sua amiga, que noivara recentemente, era só três meses mais nova Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 70que ela, embora ela própria estivesse casada há dez anos, aproximadamente. — E a idéia absurda de adquirirtrês ingressos para apenas duas pessoas? Ela nada tinha a dizer quanto a isso, e não quis referir maisnenhuma idéia ou informação. De qualquer modo, porém, ela nos havia fornecido tanto material nessas poucas associações, que foipossível, a partir destas, entrever os pensamentos oníricos latentes. Não pode deixar de chamar-nos a atençãoo fato de ocorrerem períodos de tempo em diversos pontos das informações que nos deu sobre o sonho, eesses pontos proporcionam um denominador comum das diferentes partes do material. Ela adquiriu osingressos para o teatro cedo demais, comprou-os superapressadamente, tendo de pagar mais do que onecessário; assim, também sua cunhada estivera com pressa de levar seu dinheiro à joalheria e com elecomprar bijuteria, como se, de outra maneira, fosse perdê-lo. Se, além do ‘cedo demais’ e do ‘com pressa’ quenos chamaram a atenção, tomamos em consideração a causa desencadeante do sonho — a notícia de que suaamiga, embora somente três meses mais nova do que ela, tinha, não obstante, conseguido um excelentemarido — e a crítica a sua cunhada, expressa na idéia de que era absurdo ela estar com tanta pressa, então senos apresenta quase espontaneamente a seguinte construção dos pensamentos oníricos latentes, dos quais osonho manifesto é um substituto acentuadamente deformado: ‘Realmente, foi absurdo de minha parte ter tanta pressa de casar! Posso ver, pelo exemplo de Elise,que também eu podia arranjar um marido, mais tarde.’ (Estar com pressa demais foi representado por suaprópria conduta de comprar os ingressos e pela conduta de sua cunhada, de comprar a bijuteria. Ir ver a peçapareceu um substituto de casar.) Pareceria ser esse o pensamento principal. Talvez possamos ir adiante,embora com menos certeza, pois a análise não deveria prescindir dos comentários da pessoa que sonhou, nosseguintes pontos: ‘E eu poderia ter conseguido um, cem vezes melhor, com o dinheiro!’ (150 florins é cemvezes mais do que 1,50 florim.) No caso de colocarmos seu dote em lugar do dinheiro, significaria que seumarido foi comprado com o dote dela: a peça de bijuteria, assim como os ingressos ruins, seriam substitutos deseu marido. Seria ainda mais satisfatório se o elemento real ‘três ingressos’ tivesse algo a ver com seu marido.[ver adiante, em [1] e [2].] No entanto, até esse ponto ainda não chegamos, por enquanto, em nossacompreensão do sonho. Descobrimos apenas que o sonho expressa o reduzido valor atribuído por ela a seumarido e seu pesar por ter casado tão cedo. Imagino que ficaremos mais surpresos e confusos do que satisfeitos com o resultado dessa primeirainterpretação de sonho. Foi-nos dado demais numa primeira dose — mais do que somos capazes de enfrentar.Já podemos ver que não esgotaremos as lições dessa interpretação de um sonho. Apressemo-nos a separaraquilo que podemos reconhecer como novas descobertas firmadas: Em primeiro lugar, é algo notável a ênfase principal dos pensamentos latentes residir no elemento ‘estarcom pressa demais’; nada disso se pode encontrar no sonho manifesto. Sem a análise, não suspeitaríamos deque esse fator desempenhasse algum papel. Parece, portanto, que no sonho manifesto é possível estarausente aquilo que de fato constitui coisa principal, o centro dos pensamentos inconscientes. Isso significa quedeve ser fundamentalmente modificada a concepção que tivemos do sonho inteiro. Em segundo lugar, nosonho existe uma combinação absurda: três por 1,50 florim. Detectamos nos pensamentos oníricos a afirmaçãode que ‘foi absurdo (casar tão cedo)’. Pode haver dúvida de que idéia ‘foi absurdo’ é representada pela inclusãode um elemento absurdo no sonho manifesto? E, em terceiro lugar, uma rápida comparação nos mostra que a Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 71relação entre os elementos manifesto e latente não é uma relação simples; está longe de ser o caso o fato deum elemento manifesto sempre estar no lugar de um elemento latente. Antes, o que existe é uma relação deconjunto entre as duas camadas, dentro da qual um elemento manifesto pode substituir diversos elementoslatentes, ou um elemento latente pode ser substituído por diversos elementos manifestos. [ver adiante em [1].] No que concerne ao significado do sonho e à atitude da sonhadora para com este, bem poderíamosclassificá-lo de igualmente surpreendente. Realmente, ela concordou com a interpretação, porém estavaassombrada com ela. Não tinha consciência de como era reduzido o valor que atribuía a seu marido; e nemsabia por que tinha de desvalorizá-lo tanto. Assim, a este respeito muita coisa ainda existe por compreender.Com efeito, parece-me que ainda não estamos aparelhados para interpretar um sonho, e que primeironecessitamos receber mais alguns conhecimentos e preparação. CONFERÊNCIA VIII - SONHOS DE CRIANÇAS SENHORAS E SENHORES: Tenho a impressão de que progredimos depressa demais. Retrocedamos um pouco. Antes deempreendermos a anterior tentativa de vencer a dificuldade da deformação em sonhos com o auxílio de nossatécnica, dissemos [ver em [1]] que a melhor forma de proceder nesse caso seria contornar a dificuldade,atendo-nos a sonhos em que não havia deformação, ou apenas pouca deformação — caso existam taissonhos. Uma vez mais isso significará um desvio em relação à evolução histórica de nossas descobertas [verem [1]]; porque, na verdade, só após a técnica de interpretação ter sido coerentemente aplicada e os sonhosdeformados terem sido completamente analisados, é que percebemos haver sonhos livres de deformação.Ossonhos que estamos buscando ocorrem em crianças. São breves, claros, coerentes, fáceis de entender, semambigüidade; não obstante, são sonhos indubitavelmente. Os senhores, porém, não devem supor que todos ossonhos de crianças sejam desse tipo. A deformação onírica já inicia bem no início da infância, e têm sidorelatados sonhos sonhados por crianças entre 5 e 8 anos que possuem todas as características de sonhos deidade maior. Entretanto, se os senhores se limitarem à faixa etária entre o início da atividade mental observávele o quarto ou quinto ano, encontrarão numerosos sonhos portadores das características que se podemdescrever como ‘infantis’, e alguns outros do mesmo tipo em anos posteriores da infância. Na verdade, sobcertas condições, os próprios adultos têm sonhos que em muito se assemelham aos sonhos tipicamenteinfantis.Desses sonhos de crianças podemos tirar conclusões, com grande facilidade e certeza, a respeito docaráter essencial dos sonhos em geral, e podemos esperar que essas conclusões sejam comprovadas comodecisivas e universalmente válidas.(1) Nenhuma análise, nenhuma aplicação de qualquer técnica é necessáriapara compreender esses sonhos. Não há necessidade de indagar a uma criança que nos conta seu sonho. Noentanto, há que acrescentar ao sonho alguma parcela de informação proveniente de eventos da vida dacriança. Invariavelmente existe alguma vivência do dia anterior que nos explica o sonho. O sonho é a reação,durante o sono, da vida mental da criança à experiência que teve no dia precedente. Tomaremos alguns exemplos, nos quais basearemos nossas demais conclusões. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 72 (a) Um menino de 2 anos foi solicitado a entregar a alguém uma cesta de cerejas como presente deaniversário Obviamente, ele estava muito relutante em fazê-lo, embora lhe houvessem prometido que ganhariaalgumas das cerejas. Na manhã seguinte, contou que havia sonhado: ‘O Hermann comeu todas as cerejas!’ (b) Uma menina de 3 anos e 3 meses fez a travessia de um lago, pela primeira vez. No local dedesembarque, não queria deixar o barco e chorava desconsoladamente. A travessia tinha sido curta demaispara ela. Na manhã seguinte anunciou: ‘Noite passada, eu andei no lago.‘ Seguramente podemos acrescentarque essa travessia tinha durado mais tempo. (c) Um menino de 5 anos e 3 meses foi levado a uma excursão ao Echerntal, perto de Hallstatt. Tinha-lhe sido dito que Hallstatt ficava no sopé do Dachstein. Tinha mostrado grande interesse por essa montanha.De onde ele estava, em Aussee, havia uma linda vista da montanha e o Simony Hut, que a encimava, podia serreconhecido através de um telescópio. A criança muitas vezes procurava vê-lo através do telescópio — se oconseguiu, não se sabe. A excursão começou em clima de alegre expectativa. Sempre que uma novamontanha surgia aos seus olhos, a criança perguntava: ‘É aquele o Dachstein?’ e foi ficando mais e maisdeprimida cada vez que lhe diziam que não. Por fim, ficou completamente calado e se recusou a prosseguircom o resto do grupo na curta subida da cachoeira; acharam que devia estar exausto. Na manhã seguinte,porém, com a fisionomia radiante, falou assim: ‘Na noite passada sonhei que nós estávamos no Simony Hut.’Assim, fora isso que esperava obter da excursão. Não deu outros detalhes, salvo algo que tinha ouvido antes:‘Você tem que subir a pé, durante seis horas.’Estes três sonhos nos fornecerão todas as informações de quenecessitamos.(2) Como podemos ver, esses sonhos de crianças não são absurdos. São atos mentaisinteligíveis, completamente válidos. Os senhores recordarão o que eu lhes disse da opinião médica a respeitode sonhos e da analogia com dedos sem experiência musical passeando sobre as teclas de um piano [ver em[1]]. Não podem deixar de observar quão nitidamente esses sonhos de crianças contradizem tal opinião. Defato, seria por demais estranho se as crianças pudessem executar atos mentais completos, em seu sono,enquanto os adultos se contentassem, sob as mesmas condições, com reações que não fossem nada mais que‘repuxões’. Ademais, temos toda a razão ao pensar que o sono das crianças é mais eficaz e profundo. (3) Esses sonhos não apresentam qualquer deformação onírica e, por conseguinte, não exigemnenhuma atividade interpretativa. Neles, o sonho manifesto e o latente coincidem. Assim, a deformação oníricanão faz parte das características essenciais do sonho. Espero que isso alivie os senhores. Porém, quandoexaminarmos esses sonhos mais detidamente, reconheceremos, mesmo neles, uma pequena parcela dedeformação onírica, determinada diferença entre o conteúdo manifesto do sonho e os pensamentos oníricoslatentes. (4) Um sonho de uma criança é uma reação a uma experiência do dia precedente, a qual deixou atrásde si uma mágoa, um anelo, um desejo que não foi satisfeito. O sonho proporciona uma satisfação direta,indisfarçada, desse desejo. Recordemos, agora, nossas discussões sobre o papel que desempenham osestímulos somáticos de fora e de dentro como perturbadores do sono e provocadores dos sonhos [ver em [1] esegs.]. Nessa conexão vimos a conhecer alguns fatos incontestes, mas, por meio destes, apenas noscapacitamos a explicar um reduzido número de sonhos. Nesses sonhos de crianças, entretanto, não há nadaque assinale a atuação de estímulos somáticos dessa espécie; nisso não poderíamos estar equivocados, poisos sonhos são completamente inteligíveis e fáceis de apreender. Porém, isso não significa que devemos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 73abandonar a questão do estímulo na etiologia do sonho. Podemos apenas nos perguntar como pôde acontecerque, desde o início, esquecessemos que, além dos estímulos somáticos, existem estímulos mentais queperturbam o sono. Afinal de contas, sabemos que excitações dessa natureza são os principais responsáveispela perturbação do sono em um adulto, impedindo-o de estabelecer o estado de espírito requerido para oadormecer — o interesse em ser retirado do mundo. Ele não deseja interromper a vida; de preferência,continuaria seu trabalho com as coisas nas quais está interessado, e por essa razão não adormece. No caso decrianças, portanto, o estímulo mental — o desejo que não foi satisfeito — e é a isso que reagem com o sonho. (5) Isso nos abre o caminho mais direto para a compreensão da função do sonho. Na medida em queum sonho é uma reação a um estímulo psíquico, deve equivaler a um manejo do estímulo de maneira tal queeste seja eliminado e o sono possa continuar. Ainda não sabemos como esse manejo do estímulo pelo sonhose torna possível, dinamicamente; porém, já estamos verificando que os sonhos não são perturbadores dosono, como erroneamente são denominados, mas guardiães do sono que eliminam as perturbações do sono.Pensamos que deveríamos dormir melhor se não houvesse sonho, porém nos equivocamos; de fato, sem oauxílio do sonho, não poderíamos, absolutamente, ter dormido. É devido a isso que dormimos bem ou mal. Osonho não pode evitar de nos perturbar um pouco, da mesma maneira como um vigia noturno muitas vezes nãopode evitar de fazer um pequeno ruído quando persegue os perturbadores do sossego que procuram acordar-nos com seu barulho. (6) O que origina um sonho é um desejo, e a satisfação deste desejo constitui o conteúdo do sonho —esta é uma das características principais dos sonhos. A outra, igualmente constante, é que um sonho nãoapenas confere expressão a um pensamento, mas também representa o desejo sendo satisfeito sob a forma deuma experiência alucinatória. ‘Gostaria de ir ao lago‘ é o desejo que origina o sonho. O conteúdo do sonhopropriamente dito é: ‘Estou indo ao lago.‘ Portanto, mesmo nesses simples sonhos de crianças, há umadiferença entre o sonho latente e sonho manifesto, há uma distorção do pensamento onírico latente: atransformação de um pensamento em uma vivência. No processo de interpretar um sonho, essa alteraçãonecessita, primeiro, ser desfeita. Se tal vier a revelar-se como a característica mais universal dos sonhos, aparte de sonho que lhes referi anteriormente [ver em [1]] ‘Vi meu irmão em uma caixa [Kasten]’ não deve sertraduzida como ‘meu irmão está se restringindo [schränkt sich ein]’, e sim como ‘Eu gostaria que meu irmão serestringisse: meu irmão deve restringir-se.‘ Das duas características gerais dos sonhos, que agora apresentei, asegunda tem melhor perspectiva de ser aceita sem oposição, do que a primeira. É apenas por meio deexaustivas investigações que podemos estabelecer o fato de que a origem dos sonhos deve ser sempre umdesejo, não uma preocupação, uma intenção ou uma censura; isso, porém, não afetará a outra característica: ade que o sonho não faz simplesmente reproduzir esse estímulo, mas remove-o, elimina-o, maneja-o, através deum tipo de vivência. (7) Com base nestas características dos sonhos podemos voltar, mais uma vez, a uma comparaçãoentre sonho e parapraxia. Nesta, distinguimos entre uma intenção perturbadora e uma intenção perturbada [verem [1] e segs.], sendo a parapraxia uma conciliação das duas. Um sonho pode se ajustar ao mesmo modelo. Aintenção perturbada só pode ser a de dormir. Podemos substituir a intenção perturbadora pelo estímulopsíquico, quer dizer, pelo desejo que pressiona por ser manejado, de vez que até o momento não tomamosconhecimento de nenhum outro estímulo psíquico que perturbe o sono. Também aqui, o sonho é o resultado de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 74uma conciliação. Dorme-se, e, não obstante, se vivencia a remoção de um desejo, satisfaz-se um desejo,porém, ao mesmo tempo, continua-se a dormir. Ambas as intenções são em parte realizadas e em parteabandonadas. (8) Os senhores estarão lembrados de que, em certa passagem [ver em [1] e [2]], tínhamos aesperança de nos aproximarmos da compreensão dos problemas dos sonhos a partir de determinadasestruturas imaginativas, muito simples de examinar, conhecidas como ‘devaneios’. Ora, esses devaneios são,na realidade, satisfações de desejos, satisfações de ambições e de desejos eróticos que nos são bemconhecidos; porém constituem pensamento, ainda que vividamente imaginado, e jamais são experimentadossob a forma de alucinações. Das duas principais características dos sonhos, então, a menos constante é aquipreservada, ao passo que a outra está totalmente ausente, visto depender do estado de sono e não poderrealizar-se no estado de vigília. O uso idiomático, por conseguinte, encerra uma noção do fato de que asatisfação de desejos é uma característica principal dos sonhos. Diga-se de passagem, se nossa vivência nossonhos é apenas um tipo modificado de imaginação que se tornou possível devido às condições do estado desono — isto é, um ‘devanear noturno’ — já podemos compreender como o processo de construção de umsonho pode utilizar o estímulo noturno e proporcionar satisfação, visto que o devaneio também é uma atividadevinculada à satisfação, e, na verdade, somente é exercido por esse motivo. Outros usos idiomáticos, contudo, expressam o mesmo sentido. Existem provérbios conhecidos, como‘Os porcos sonham com bolotas de carvalho e os gansos sonham com milho’ ou ‘Com que sonham asgalinhas? — Com milho.’ Assim, os provérbios descem mais ainda do que nós — abaixo das crianças, até osanimais — e afirmam que o conteúdo dos sonhos é a satisfação de uma necessidade. Numerosas expressõesidiomáticas parecem apontar na mesma direção: ‘lindo como um sonho’, ‘eu nem sonharia uma coisa dessas’,‘não imaginei isso nem nos meus sonhos mais ousados’. Neste ponto, o uso idiomático está tomando partido,evidentemente. Tanto que existem também sonhos de ansiedade, e sonhos de conteúdo penoso ou indiferente;porém o uso idiomático permaneceu indiferente a eles. É verdade que se conhece o que se chama de ‘sonhosmaus’, mas um sonho é, pura e simplesmente, apenas a doce realização de um desejo. E não existe nenhumprovérbio que nos afirme que os porcos e os gansos sonham com sua matança. É naturalmente inconcebível que a realização de desejos, característica dos sonhos, não tivesse sidopercebida por pessoas que escreveram sobre o assunto. Pelo contrário, muitas vezes foi percebida; contudo, aninguém ocorreu a idéia de reconhecer esta característica como sendo universal e transformá-la em pontocapital da explicação dos sonhos. Bem podemos imaginar o que impediu de fazê-lo; entraremos no assuntomais adiante. Mas vejam quantos esclarecimentos obtivemos ao examinarmos sonhos de crianças, e com tão poucoesforço o conseguimos: as funções dos sonhos, na qualidade de guardiães do sono; sua origem situada emduas intenções concorrentes, uma das quais, o desejo de dormir, permanece inalterada, ao passo que a outraluta por satisfazer um estímulo psíquico; a evidência de que os sonhos são atos psíquicos com um sentido;suas duas principais características: realização de desejos e vivência alucinatória. E, ao descobrir tudo isso,quase seríamos capazes de esquecer que estávamos comprometidos com a psicanálise. À parte a relação comas parapraxias, nosso trabalho não leva nenhum sinal especial. Qualquer psicólogo, nada conhecendo dos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 75postulados da psicanálise, teria conseguido dar-nos essa explicação dos sonhos de crianças. Por que não ofez? Se os sonhos do tipo infantil fossem os únicos, o problema estaria resolvido e nossa tarefa terminada; eisso sem termos de fazer perguntas àquele que sonhou, sem tocarmos no inconsciente ou recorrermos àassociação livre. É aí, evidentemente, que se situa a continuação de nossa tarefa. Já verificamos repetidamenteque as características que se afirmava serem de validade geral, terminaram aplicando-se apenas a umdeterminado tipo e a um determinado número de sonhos. A questão que se nos apresenta, portanto, é saber seas características gerais que inferimos dos sonhos de crianças possuem uma base mais firme, se elas sãoválidas também para sonhos que não são tão transparentemente nítidos e cujo conteúdo manifesto nãoapresenta qualquer sinal de estar relacionado a algum desejo, remanescente do dia anterior. É nossa opiniãoque esses outros sonhos sofreram uma deformação em profundidade e, por este motivo, não podem seravaliados à primeira vista. Também suspeitamos que, para explicar essa deformação, necessitaremos datécnica psicanalítica, da qual pudemos prescindir quando tratávamos de entender, ainda há pouco, os sonhosde crianças. Em todo caso, ainda há uma outra classe de sonhos que se apresentam não-deformados e que, comoos sonhos de crianças, facilmente podem ser reconhecidos como realizações de desejos. Estes são os sonhosque, em qualquer época da vida, são suscitados por necessidades corporais imperiosas — fome, sede,necessidade sexual —, isto é, são realizações de desejos sob a forma de reações a estímulos somáticosinternos. Assim, tenho anotado um sonho de uma menina de dezenove meses, que consistia em um cardápioao qual se ligava seu próprio nome. ‘Anna F.‘ morangos, morangos silvestres, omelete, pudim!‘ Isso era umareação a um dia sem comida, devido a um distúrbio digestivo; este realmente se tinha originado na ingestão dafruta que apareceu por duas vezes no sonho. A avó da criança — suas idades somadas perfaziam setenta anos— simultaneamente foi obrigada a privar-se de alimentos por um dia inteiro, devido um distúrbio ocasionado porum rim flutuante. Ela sonhou, na mesma noite, que havia sido ‘convidada para comer fora’ e que fora regaladacom as mais apetitosas iguarias. Observações levadas a cabo com prisioneiros que foram forçados a jejuar e com pessoas queestiveram sujeitas a privações em viagens e explorações, nos ensinam que, sob essas condições, os sonhosregularmente se centram na satisfação de tais necessidades. Assim, Otto Nordenskjöld (1904, 1, 336 e seg.)escreve, da seguinte maneira, a respeito dos membros de sua expedição, enquanto atravessavam o inverno naAntártida: ‘A direção tomada por nossos pensamentos mais íntimos mostrava-se claramente em nossos sonhos,que nunca foram mais vívidos nem mais numerosos do que nesta época. Mesmo aqueles de nós, que de outromodo sonhavam apenas de vez em quando, tinham longas histórias para contar, quando chegava a manhã,ocasião em que trocávamos experiências desse mundo da imaginação. Todos diziam respeito ao mundoexterior, agora tão distante de nós, embora todas elas muitas vezes estivessem adaptadas a nossascircunstâncias reais… No entanto, comer e beber eram o ponto central ao redor do qual giravam, no mais dasvezes, os nossos sonhos. Um de nós, que tinha um dom especial para participar de grandes banquetes durantea noite, se sentia orgulhoso de poder contar, de manhã, que tinha “devorado um jantar de três pratos”. Um outrosonhava com fumo, com montanhas inteiras de fumo; enquanto isso, um terceiro sonhava com um navio que seaproximava, de velas enfunadas, em mar aberto. Mas, esse outro sonho, vale a pena repeti-lo. Um carteiro Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 76trazia a correspondência e dava uma longa explicação do motivo pelo qual tivéramos que esperar tanto tempopela correspondência: ele a havia despachado para o endereço errado e só pudera recuperá-la com grandedificuldade. Naturalmente, sonhávamos com coisas ainda mais impossíveis. Mas havia uma falta muito grandede imaginação, evidenciada por quase todos os sonhos que eu próprio sonhei, ou de que ouvi falar. Certamenteseria de grande interesse psicológico se todos esses sonhos pudessem ser registrados. E facilmente se podecompreender quanto desejávamos o sono, pois este podia oferecer a cada um de nós tudo o que maisardentemente era desejado.’ Assim também, de acordo com Du Prel [1885, 231], ‘Mungo Park, quando estava aponto de morrer de sede, em uma de suas viagens pela África, sonhava incessantemente com os valesricamente irrigados e com as campinas de sua terra natal. Em forma semelhante, o barão Trenck, sofrendo ostormentos da fome, à época em que esteve encarcerado na fortaleza de Magdeburg, sonhava que se viarodeado de refeições abundantes; e George Back, que tomou parte na primeira expedição de Franklin, quandoestava quase morrendo de inanição em conseqüência de suas terríveis privações, sonhava constante eregularmente com lautas refeições.’ Todo aquele que come algum prato altamente condimentado no jantar e sente sede durante a noite,provavelmente sonha que está bebendo. Naturalmente, é impossível desfazer-se de uma necessidade muitopremente de comer e beber, por meio de um sonho. Acorda-se de um sonho dessa natureza ainda com asensação de sede e tem-se de tomar água, realmente. O efeito produzido pelo sonho é insignificante, nestecaso, sob o ponto de vista prático; não obstante, é evidente que ele aconteceu com o objetivo de despertar efazer agir. Quando a necessidade não é tão intensa, os sonhos de satisfação de necessidades amiúde ajudama superá-las. Da mesma forma, proporcionam satisfação os sonhos sob a influência de estímulos sexuais; contudo,estes mostram particularidades que convém mencionar. Como constitui característica do instinto sexual ser umpouco menos dependente do seu objeto do que a fome e a sede, pode constituir uma satisfação real aquelaque advém de sonhos de ejaculação; e, como conseqüência de determinadas dificuldades (que terei demencionar mais adiante) em sua relação com o objeto, acontece, com especial freqüência, que a satisfação realé, ainda assim, vinculada a um obscuro ou distorcido conteúdo do sonho. Essa característica dos sonhos deejaculação (como foi assinalado por Otto Rank [1912a]) faz deles assunto especialmente favorável ao estudoda deformação onírica. Ademais, todos os sonhos de adultos, originários em necessidades corporais,geralmente contêm junto com a satisfação um outro material; este deriva de fontes de estimulação puramentepsíquicas e exige interpretação para que possa ser compreendido.Além disso, não desejo afirmar que ossonhos de realização de desejos, em adultos, construídos segundo padrões infantis, somente aparecem comoreações a necessidades imperiosas, que mencionei. Conhecemos também sonhos breves, claros, do tipo que,sob a influência de alguma situação dominante, inquestionavelmente se originam em fontes psíquicas deestimulação. Existem, por exemplo, sonhos de impaciência: se alguém fez preparativos para uma viagem, parauma representação teatral importante para ele, para ir a uma conferência, ou fazer uma visita, pode sonhar comuma satisfação antecipada de sua expectativa; durante a noite anterior ao evento, poderá ver-se a si mesmochegando ao seu destino, presente no teatro, em conversação com a pessoa que vai visitar. Existem, ainda,aqueles que são apropriadamente chamados de sonhos de conveniência, nos quais uma pessoa que desejadormir mais, sonha que já está de pé e se lavando, ou que já está na escola, ao passo que, na realidade, ainda Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 77está dormindo e preferiria levantar-se num sonho a fazê-lo na realidade. O desejo de dormir, que temosreconhecido como um dos constantes componentes da construção dos sonhos, aparece abertamente nessessonhos e se revela como o principal construtor onírico. Existem bons motivos para situar a necessidade dedormir em condições de igualdade com as outras grandes necessidades corporais.Aqui está uma reproduçãode um quadro de Schwind, exposto na Galeria Schack, de Munique [ver frontispício], que mostra com queperfeição o artista captou a maneira como os sonhos surgem da situação dominante. Seu título é ‘O Sonho doPrisioneiro’, um sonho cujo conteúdo só pode ser sua fuga. Constitui uma solução feliz dar-se sua fuga atravésda janela, porque é o estímulo da luz entrando pela janela que põe fim ao sono do prisioneiro. Os gnomos, queestão subindo um em cima do outro, sem dúvida representam as posições sucessivas que ele próprio teria detomar, à medida que subisse até o nível da janela. E, se não me engano, e se não estou atribuindo demasiadadeliberação ao artista, o gnomo que se situa mais em cima, que está serrando as grades — isto é, que estáfazendo o que o prisioneiro gostaria de fazer — tem semblante igual ao deste.Em todos os sonhos que nãosejam os de crianças nem os de tipo infantil, nosso caminho, como disse, está obstruído pela deformaçãoonírica. De início, não podemos dizer se esses outros sonhos também são realizações de desejos conformesuspeitamos, não podemos determinar, a partir do seu conteúdo manifesto, a que estímulo psíquico devem suaorigem, e não podemos provar que também eles se esforçam por eliminar esse estímulo, ou, de algum modo,manejá-lo. Devem ser interpretados — isto é, traduzidos —, sua deformação deve ser desfeita, e seu conteúdomanifesto substituído pelo conteúdo latente antes de podermos julgar se aquilo que encontramos nos sonhosinfantis pode ser considerado válido para todos os sonhos. CONFERÊNCIA IX - A CENSURA DOS SONHOS SENHORAS E SENHORES: O estudo dos sonhos de crianças nos ensinou a origem, a natureza essencial e a função dos sonhos.Os sonhos são coisas que eliminam, pelo método da satisfação alucinatória, estímulos (psíquicos)perturbadores do sono. No entanto, conseguimos explicar apenas um grupo dos sonhos de adultos — aquelesque descrevemos como sonhos de tipo infantil. O que se passa com os demais, ainda não sabemos dizer,contudo também não os entendemos. Assim mesmo, chegamos a um dado provisório cuja importância nãodevemos subestimar. Sempre que um sonho se nos tornou inteiramente inteligível, veio a se revelar comorealização de um desejo em forma alucinatória. Essa coincidência não pode ter surgido do acaso, deve ter umsignificado.Com base em considerações diversas e na analogia com nossa opinião acerca das parapraxias,supusemos, a propósito de sonhos de uma outra espécie [ver em [1] e seg.], que eles seriam um substitutodeformado de um conteúdo desconhecido, e que a primeira coisa seria correlacioná-los com esse conteúdo.Nossa tarefa imediata, portanto, consiste em uma investigação que nos leva a compreender essa deformaçãonos sonhos.Deformação onírica é aquilo que faz com que um sonho nos pareça estranho e ininteligível. Arespeito dela queremos saber diversas coisas: primeiro, de onde vem — sua dinâmica — ; segundo, o que faz;e, por último, como faz. Também podemos dizer que a deformação onírica é obra da elaboração onírica; énecessário descrevermos a elaboração onírica e explicarmos as forças que nela operam.E agora, ouçam estesonho. Foi registrado por uma senhora pertencente ao nosso grupo, e, conforme ela nos conta, provém de uma Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 78senhora de idade avançada, altamente conceituada e instruída. Não foi feita nenhuma análise do sonho; nossainformante observa que para um analista ele não requer interpretação. E a pessoa que o sonhou também não ointerpretou, porém o julgou e o condenou como se compreendesse a maneira de interpretá-lo; pois, a respeitodo mesmo, ela disse: ‘E uma coisa chocante e estúpida como esta foi sonhada por uma mulher de cinqüentaanos, que dia e noite não tem outros pensamentos senão os de se preocupar com seu filho!’Aqui, pois, está osonho — que trata de ‘serviços de amor’ em época de guerra. ‘A paciente dirigiu-se ao Hospital da GuarniçãoN° 1 e informou ao sentinela do portão que precisava falar com o Chefe do Serviço Médico (mencionando umnome que lhe era desconhecido) visto desejar oferecer seus serviços como voluntária no hospital. Elapronunciou a palavra “serviço” de tal forma, que o sub-oficial imediatamente compreendeu que ela queria dizer“serviço de amor”. Como se tratava de uma senhora idosa, após alguma hesitação, permitiu que ela passasse.Em vez de encontrar o Chefe do Serviço Médico, contudo, chegou ela a um aposento grande e sombrio no qualestava grande número de oficiais e médicos do exército, alguns de pé e outros sentados em torno de uma longamesa. Aproximou-se de um cirurgião da equipe com o seu pedido, e ele compreendeu o que ela queria dizerdepois de ter esta pronunciado apenas algumas palavras. O fraseado real de seu discurso no sonho foi: “Eu emuitas outras mulheres e moças de Viena estamos prontas para…” nesta altura do sonho, suas palavras setransformaram num sussurro ininteligível “…para as tropas — oficiais e outras patentes, sem distinção.” Elapôde compreender pela expressão do rosto dos oficiais em parte com uma expressão de constrangimento e emparte de malícia que todos haviam compreendido suas palavras corretamente. Prosseguiu a senhora: “Estoucônscia de que nossa decisão pode parecer surpreendente, mas nossa intenção é realmente séria. Ninguémpergunta a um soldado no campo de batalha se ele deseja morrer ou não.” Seguiu-se um incômodo silêncio dealguns minutos. O médico pôs então um braço em torno de sua cintura e disse: ‘Suponha, madame, que issorealmente viesse a… (murmúrio).” Ela afastou-se dele dizendo com os seus botões: “Ele é como todos osdemais”, e retrucou: “Deus do Céu, sou uma velha e nunca poderia chegar a esse ponto. Além disso, há umacondição que deve ser observada: idade deve ser respeitada. Jamais deve acontecer que uma mulher idosa…(murmúrio) … um mero garoto. Isso seria terrível.” “Compreendo perfeitamente”, respondeu o médico. Algunsdos oficiais, e entre eles um que tinha sido pretendente à sua mão quando ela era jovem, riram alto. A seguir, asenhora pediu para ser levada à presença do Chefe do Serviço Médico, pessoa do seu conhecimento, de modoque todo o assunto pudesse ser deslindado, mas verificou, para sua consternação que não podia recordar-lhe onome. Não obstante, o médico, com o máximo de cortesia e respeito, indicou-lhe o caminho até o segundoandar por uma escada de ferro em caracol muito estreita, que conduzia diretamente da sala até aos andaressuperiores do edifício. Quando subia, ouviu um oficial dizer: “Essa é uma tremenda decisão a tomar — nãoimporta que uma mulher seja moça ou velha! Belo gesto o dela!” Sentindo simplesmente que estava cumprindocom seu dever ela subiu por uma interminável escada.’‘O sonho se repetiu por duas vezes no decurso depoucas semanas, conforme comentou a senhora, com apenas algumas modificações sem importância ecarentes de sentido.’Por sua continuidade, este sonho se assemelha a uma fantasia diurna: nele há poucasinterrupções, e alguns dos detalhes de seu conteúdo poderiam ter sido explicados se tivessem sidoinvestigados; porém, como sabem, isto não foi feito. Do nosso ponto de vista, contudo, o que é notável einteressante é que o sonho apresenta diversas lacunas — lacunas não na memória da mulher que o sonhou,mas no conteúdo do próprio sonho. Em três pontos o conteúdo do sonho foi, por assim dizer, extinto; onde Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 79ocorrerem essas lacunas o falar foi interrompido por um murmúrio. Como não foi realizada nenhuma análise,estritamente falando, não temos o direito de dizer algo sobre o sentido do sonho. Não obstante, há indícios nosquais podem se fundamentar determinadas conclusões (por exemplo, na expressão ‘serviço de amor’); porém,acima de tudo, as partes do discurso imediatamente anteriores aos murmúrios exigem que sejam preenchidasas lacunas, e de forma nada ambígua. Ao fazermos as inserções, o conteúdo da fantasia se revela como sendoo seguinte: a mulher que teve o sonho, atendendo a uma obrigação patriótica, está apta a colocar-se àdisposição das tropas, tanto de oficiais como de outras categorias, para satisfação das necessidades eróticasdos mesmos. Naturalmente, isso é muito censurável, é o modelo de uma fantasia libidinal desavergonhada —tal, porém, absolutamente não aparece no sonho. Precisamente nos pontos onde o contexto exigiria que issofosse admitido, o sonho manifesto contém um murmúrio indistinto: algo se perdeu ou foi suprimido. Os senhores pensarão, assim espero, que seja plausível supor que foi justamente a naturezacensurável dessas passagens que constituiu o motivo de sua supressão. Onde encontraremos um paralelo detal evento? Nos dias atuais, não é preciso ir longe. Tomem qualquer jornal político e verificarão que aqui e ali otexto está ausente e, em seu lugar, não se vê nada mais que papel em branco. Isto, como sabem, é obra dacensura da imprensa. Nos espaços vazios havia algo que só agradou às autoridades superiores da censura, epor este motivo foi removido — é uma pena, como vêem, pois sem dúvida era o que de mais interessante haviano jornal — o ‘melhor pedaço’. Noutras ocasiões a censura não funcionou em uma passagem depois de esta já estar pronta. O autorviu com antecedência quais as passagens que se podia esperar suscitassem objeções da censura e, por estacausa, antecipadamente moderou o tom das mesmas, modificou-as ligeiramente ou se contentou comaproximações ou alusões àquilo que originalmente teria fluido de sua pena. Neste caso, não há espaços embranco no papel, contudo as circunlocuções e obscuridades de expressão que aparecem em certos pontos,possibilitarão aos senhores perceber onde houve prévio acatamento à censura. Pois bem, podemos manter esta comparação. Pensamos que as partes omitidas do discurso do sonho,que foram ocultadas por um murmúrio, de forma semelhante foram sacrificadas a uma censura. Queremos nosreferir a uma ‘censura de sonhos’, à qual se deve atribuir uma parcela da deformação onírica. Em qualquerparte onde existem lacunas no sonho manifesto, a censura é responsável por elas. Devemos ir mais adiante econsiderar como manifestação da censura toda passagem em que um elemento onírico é recordado de maneiraespecialmente indistinta, indefinida, duvidosa, em meio a outros elementos construídos mais claramente. Noentanto, apenas muito raramente essa censura se manifesta tão indisfarçadamente — tão ingenuamente, sepoderia dizer — como nesse exemplo do sonho dos ‘serviços de amor’. A censura age muito maisfreqüentemente de acordo com o segundo método, produzindo atenuações, aproximações e alusões, em vezda coisa original. Nas atuações da censura de imprensa não conheço nada semelhante à terceira forma defuncionamento da censura de sonhos; posso, porém, demonstrá-la justamente com o exemplo de um sonhoque antes já analisamos. Os senhores se recordam do sonho dos ‘três bilhetes de entrada ruins por 1,50 florim’[ver em [1]]. Nos pensamentos latentes desse sonho, o elemento ‘superapressadamente, cedo demais’ estavaem primeiro plano. Portanto: foi absurdo casar tão cedo — também foi absurdo adquirir os bilhetes de ingressotão cedo — foi ridículo a cunhada sair tão apressada com o dinheiro para comprar jóias. Nada desse elementocentral dos pensamentos oníricos transpareceu no sonho manifesto; neste, a posição central é ocupada por ‘ir Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 80ao teatro’ e ‘comprar os ingressos’. Como conseqüência desse deslocamento da ênfase, com esse novoagrupamento dos elementos de conteúdo, o sonho manifesto ficou tão diferente dos pensamentos oníricoslatentes, que ninguém suspeitaria da presença destes atrás daquele. Esse deslocamento da tônica é um dosprincipais instrumentos da deformação onírica e é o que confere ao sonho sua estranheza, que faz com que aprópria pessoa que teve o sonho não se mostre inclinada a reconhecê-lo como obra sua. Omissão, modificação, novo agrupamento do material — são estas, pois, as atividades da censura desonhos e os instrumentos da deformação onírica. A censura de sonhos, por si mesma, é o agente ou um dosagentes da deformação onírica que agora estamos examinando. Estamos habituados a combinar os conceitosde modificação e reajuste sob o termo ‘deslocamento’. Após estes comentários sobre as atividades da censura de sonhos, passemos agora à sua dinâmica.Espero que os senhores não tomem o termo antropomorficamente demais e não imaginem o ‘censor dossonhos’ como um severo homúnculo; contudo, também espero que não assumam muito o termo num sentidode ‘localização’, e não pensem em um centro cerebral do qual proceda uma influência censora dessa ordem,uma influência que chegaria ao fim se esse ‘centro’ fosse lesado ou removido. Por agora, não é nada mais queum termo útil para descrever a relação dinâmica. A palavra não nos impede de perguntarmos por quaisintenções é exercida essa influência censora e contra que intenções ela é exercida. E não nossurpreenderemos ao constatar que mais uma vez nos defrontamos com a censura de sonhos, embora, talvez,sem reconhecê-la.Pois é este realmente o caso. Os senhores se recordam de que, ao começarmos a usarnossa técnica de associação livre, fizemos uma descoberta surpreendente. Apercebemo-nos de que nossosesforços de abrir caminho desde o elemento onírico até o elemento inconsciente, do qual aquele é umsubstituto, encontravam uma resistência [ver em [1] e [2]]. Essa resistência, dissemos, poderia ser de diferentesmagnitudes, às vezes enorme, às vezes quase insignificante. Nesse último caso, temos de passar através deapenas alguns elos intermediários em nosso trabalho de interpretação. No entanto, quando a resistência égrande, temos de percorrer longas cadeias de associações a partir do elemento onírico, somos conduzidos paralonge deste, e, em nosso caminho, temos de vencer todas as dificuldades representadas pelas objeçõescríticas às idéias que ocorrem. O que encontramos sob a forma de resistência, em nosso trabalho deinterpretação, deve agora ser introduzido na elaboração onírica como censura de sonhos. A resistência àinterpretação é apenas a efetivação da censura do sonho. Também nos prova que a força da censura não seesgota com a deformação do sonho e nem se extingue depois disso; que a censura, contudo, persiste comoinstituição permanente que tem como seu objetivo manter a deformação. Ademais, assim como a força daresistência varia na interpretação de cada elemento do sonho, também a magnitude da deformaçãoengendrada pela censura varia para cada elemento do mesmo sonho. Se compararmos o sonho manifesto como latente, constataremos que determinados elementos latentes foram totalmente eliminados, outros,modificados em grau maior ou menor, enquanto outros, ainda, foram transportados para o conteúdo manifestodo sonho, inalterados, ou mesmo, talvez, reforçados.Desejávamos, no entanto, perguntar quais são ospropósitos que exercem a censura e contra que propósitos ela é exercida. Ora, esta questão, fundamental parao entendimento dos sonhos e talvez, na realidade, da vida humana, é fácil de responder se examinarmos asérie de sonhos que foram interpretados. Os propósitos que exercem a censura são aqueles reconhecidos pelojulgamento vigil da pessoa que sonhou, aqueles com o quais o sonhador está de acordo. Os senhores podem Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 81ter a certeza de que, se rejeitarem uma interpretação de um de seus próprios sonhos, que tenha sido efetuadacorretamente, assim estarão agindo pelos mesmos motivos pelos quais a censura do sonho foi exercida, adeformação do sonho foi ocasionada e a interpretação do sonho se tornou necessária. Vejam o sonho dasenhora de cinqüenta anos de idade [ver em [1] e [2]]. Ela achou seu sonho repugnante, sem tê-lo analisado, ese teria indignado mais ainda se Dr. von Hug-Hellmuth lhe houvesse dito algo acerca de sua inevitávelinterpretação; foi precisamente porque essa senhora condenou o sonho que as passagens censuráveis domesmo foram substituídas por um murmúrio.As tendências contra as quais se dirige a censura de sonhosdevem ser descritas, em primeiro lugar, do ponto de vista dessa instância mesma. Assim sendo, apenas pode-se dizer que invariavelmente são de natureza repreensível, repulsiva do ponto de vista ético, estético e social —assuntos nos quais a pessoa absolutamente não se aventura a pensar, ou somente pensa com aversão. Essesdesejos, que são censurados e recebem uma expressão deformada nos sonhos, são, primeiro e acima de tudo,manifestações de um egoísmo desenfreado e impiedoso. E, vejam só, o próprio ego do sonhador surge edesempenha o papel principal no sonho, apesar de muito bem saber esconder-se, para o que muito contribui oconteúdo manifesto. Este ‘sacro egoísmo’ dos sonhos certamente não é desprovido de alguma relação com aatitude que adotamos quando dormimos, que consiste em retirarmos nosso interesse de todo o mundoexterno.O ego, liberto de todos os compromissos éticos, também se sente à vontade com todas as exigênciasdo sexo, mesmo aquelas que por muito tempo têm sido condenadas pela nossa educação estética e aquelasque contrariam todos os requisitos das barreiras morais. O desejo de prazer — a ‘libido’, conforme odenominamos — escolhe sem inibição seus objetos e, de preferência, os proibidos: não somente as mulheresde outros homens, mas, acima de tudo, objetos incestuosos, objetos sagrados segundo o consenso dahumanidade, mãe e irmã de um homem, pai e irmão de uma mulher. (O sonho dessa senhora de cinqüentaanos também era incestuoso; sua libido estava inequivocamente voltada para seu filho. (ver em [1] e [2].)Desejos sensuais, que imaginamos distantes da natureza humana, mostram-se suficientemente fortes paraprovocar o surgimento de sonhos. Também surgem ódios rancorosos, sem constrangimento. Desejos devingança e de morte, dirigidos contra aqueles que nos são mais próximos e mais caros na vida desperta, contraos pais, irmãos e irmãs, marido ou esposa, e contra os próprios filhos, não são nada raros. Esses desejoscensurados parecem nascer de um verdadeiro inferno; depois que são interpretados, quando estamosacordados, nenhuma censura a eles nos parece tão rigorosa. Porém, os senhores não devem acusar o próprio sonho por causa de seu conteúdo mau. Não seesqueçam de que ele executa a função inocente, e, na verdade, útil, de preservar o sono de qualquerperturbação. Essa ruindade não faz parte da natureza essencial dos sonhos. Com efeito, os senhores tambémsabem que há sonhos que podem ser reconhecidos como satisfação de desejos justificados e de necessidadescorporais prementes. Estes, é verdade, não apresentam deformação; mas também não precisam dedeformação, porque podem preencher sua função sem insultar os propósitos éticos e estéticos do ego. Atentemtambém para o fato de que a deformação do sonho é proporcional a dois fatores. Por um lado, ela é tão maiorquanto pior é o desejo a ser censurado; mas, por outro lado, também se torna maior à medida que maisseveras forem as exigências da censura no momento. Assim, uma moça, educada rigorosamente, pudica, comuma censura implacável, irá distorcer impulsos oníricos que nós, médicos, por exemplo, teríamos de considerardesejos libidinais permissíveis, inofensivos e acerca dos quais, dentro de dez anos, ela mesma fará julgamento Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 82igual.Ademais, ainda não fomos tão suficientemente longe a ponto de sentirmos indignação com esse resultadode nosso trabalho de interpretação. Penso que ainda não o compreendemos acertadamente; porém, nossaprimeira obrigação é defendê-lo contra certas calúnias. Não há dificuldade em encontrar nele um ponto fraco.Nossas interpretações de sonhos são feitas com fundamento nas premissas que já aceitamos [ver em [1] eseg.]: que os sonhos em geral possuem um sentido, que é correto transportar do sono hipnótico para o normalo fato de existirem processos mentais que, na época considerada, são inconscientes, e que tudo o que ocorre àmente é determinado. Se, com base nessas premissas, tivéssemos chegado a achados plausíveis originadosda interpretação de sonhos, deveríamos ter encontrado justificativa para concluir pela validade das premissas.Mas como conseguir isso, se esses achados parecem ser como lhes mostrei? Estaríamos, então, tentados adizer: ‘Esses achados são impossíveis, carecem de sentido ou, pelo menos, são muito improváveis; portanto,havia algo de errado nas premissas. Ou os sonhos não são fenômenos psíquicos, ou não existe nadainconsciente no estado normal, ou nossa técnica apresenta em si uma falha. Não é mais simples e maissatisfatório supor assim, de preferência a aceitar todas as abominações que se supõe tenhamos descobertobaseados em nossas premissas?’Sim, com efeito! Mais simples e mais satisfatório, no entanto nem por issonecessariamente mais correto. Concedamo-nos tempo: o tema ainda não está maduro para julgamento. E emprimeiro lugar, podemos reforçar ainda mais as críticas à nossa interpretação de sonhos. O fato de os achadosprovenientes dos sonhos serem tão desagradáveis e repulsivos talvez não devesse ter tanto peso. Umargumento mais forte é que as pessoas que têm os sonhos, a quem somos levados a atribuir essas intençõesplenas de desejos mediante a interpretação de seus sonhos, as rejeitem muito enfaticamente, e por boasrazões o fazem. ‘O quê?’ diz uma delas, ‘o senhor quer me convencer, com este sonho, de que eu lamento tergasto dinheiro com o dote de minha irmã e com a instrução de meus irmãos? Mas não pode ser assim.Trabalho exclusivamente para meus irmãos e irmãs; não tenho nenhum outro interesse na vida senão cumprirminhas obrigações para com eles, o que, como o mais velho da família, prometera a minha falecida mãe fazer.’Ou, então, uma mulher poderá dizer a propósito de seu sonho: ‘Pensa que eu desejaria ver meu marido morto?Isso é chocante disparate! É que não somente estamos vivendo um casamento muito feliz — o senhorprovavelmente não acreditaria em mim se eu dissesse isso — mas a morte dele me roubaria tudo o que eutenho neste mundo.’ Um outro homem nos respondeu: ‘O senhor diz que tenho desejos sensuais por minhairmã? Isso é ridículo! Ela não significa absolutamente nada para mim. Estamos brigados, e com ela não tenhotrocado uma palavra há anos.’ Poderíamos, talvez, não dar maior importância se tais pessoas nãoconfirmassem nem negassem as intenções que lhes atribuímos; poderíamos dizer que essas eram justamentecoisas que elas desconheciam a respeito de si próprias. Porém, quando sentem em si mesmas justamente ocontrário do desejo que lhes interpretamos, e quando conseguem provar-nos, através da vida que levaram,estarem dominadas por esse desejo contrário, seguramente somos tomados de surpresa. Não teria chegado ahora de abandonar todo o trabalho que executamos acerca da interpretação de sonhos, como algo cujosachados se reduziram ad absurdum?Não, ainda não. Até mesmo este argumento mais forte desmorona se oexaminarmos criticamente. Tendo como certo que na vida mental existem intenções inconscientes, nada seprova ao mostrar que intenções opostas às intenções inconscientes dominam a vida consciente. Quem sabe,na mente há lugar para existirem lado a lado intenções opostas, contradições. Possivelmente, na verdade, adominância de um impulso seja precisamente a condição necessária para que seu contrário seja inconsciente. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 83Afinal, restam-nos então as primeiras objeções levantadas: as descobertas da interpretação de sonhos não sãosimples e são muito desagradáveis. À primeira delas podemos responder que toda a paixão dos senhores peloque é simples não conseguirá solucionar um só dos problemas dos sonhos. Aqui, os senhores precisam seacostumar a enfrentar um complexo estado de coisas. E à segunda objeção podemos responder que ossenhores se enganam redondamente quando usam um gostar ou não-gostar daquilo que sentem comofundamento de um julgamento científico. Que diferença faz se as descobertas da interpretação de sonhos lhesparecem desagradáveis ou, na realidade, embaraçosas e repulsivas? ‘Ça n’empêche pas d’exister‘, conformeouvi meu mestre Charcot dizer, em situação semelhante, quando eu era um jovem médico. Deve-se terhumildade e refrear as simpatias e antipatias quando se deseja descobrir o que é real neste mundo. Se umfísico pudesse provar-lhes que, em certo espaço de tempo, a vida orgânica neste planeta chegaria ao fim pormeio do congelamento, os senhores se arriscariam a dar-lhe a mesma resposta: ‘Não pode ser assim, aperspectiva é tão desagradável assim?’ Penso que os senhores se calariam até que outro físico viesse emostrasse ao primeiro um erro em suas premissas ou em seus cálculos. Quando os senhores rejeitam algumacoisa que lhes desagrada, o que fazem é repetir o mecanismo de construção dos sonhos, em vez de entendê-loe superá-lo.Ora, os senhores poderão prometer não levar em conta o caráter desagradável dos sonhos derealização de desejo censurados, e se apoiarão no argumento de que, afinal, é improvável que seja dadoespaço tão grande ao mal na constituição dos seres humanos. A experiência dos senhores, porém, ratifica oque dizem? Não irei discutir o que cada um possa aparentar a si mesmo; mas têm os senhores encontradotanta benevolência entre os seus superiores e competidores, tanto cavalheirismo entre os seus inimigos e tãopouca inveja em seu meio social, que se sentem na obrigação de protestar contra o fato de a maldade egoístafazer parte da natureza humana? Não têm os senhores plena consciência de como a média das pessoas temdescontroles e deslealdades em tudo o que diz respeito à vida sexual? Ou não sabem que todas astransgressões e excessos com que sonhamos durante a noite são diariamente cometidos, na vida real, pelaspessoas em sua vida desperta? O que faz aqui a psicanálise senão confirmar a velha sentença de Platão, deque os bons são aqueles que se contentam em sonhar com aquilo que os outros, os maus, realmente fazem?Eagora, abstraiam-se dos indivíduos e considerem a grande guerra que ainda devasta a Europa. Pensem naavassaladora brutalidade, na crueldade e nas mentiras que conseguem se alastrar pelo mundo civilizado. Ossenhores acreditam realmente que um punhado de homens ambiciosos, trapaceiros, sem consciência,poderiam ter tido êxito em desatrelar todos esses maus espíritos se seus milhões de seguidores nãopartilhassem de seu crime? Os senhores se arriscariam, nessas circunstâncias, a quebrar lanças em defesa dainexistência do mal na constituição mental da humanidade?Os senhores me farão ver que estou fazendo umjulgamento unilateral da guerra: que esta também faz manifestar-se o que há de mais belo e nobre nos homens,seu heroísmo, seu auto-sacrifício, seu senso social. Sem dúvida; mas os senhores não se estarão revelandocúmplices da injustiça que tem sido feita à psicanálise, de reprová-la, negando uma coisa só porque ela afirmououtra? Não é nossa intenção questionar os nobres reforços da natureza humana, e nunca fitemos algo que lhediminuísse o valor. Pelo contrário; estou mostrando aos senhores não apenas os maus sonhos de realização dedesejo que são censurados, mas também a censura que os suprime e os torna irreconhecíveis. Damos ênfasemaior àquilo que nos homens é mau tão-somente porque outras pessoas o rejeitam e, com isso, tornam amente humana não melhor, mas incompreensível. Se agora deixamos de lado essa avaliação ética unilateral, Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 84sem dúvida encontraremos uma fórmula mais correta para a relação entre o bem e o mal na naturezahumana.Aí está. Não temos por que abandonar as descobertas de nosso trabalho sobre interpretação dossonhos, ainda que não consigamos vê-las senão como estranhas. Talvez mais adiante sejamos capazes de nosaproximarmos da compreensão delas a partir de outro enfoque. Por agora, fixemo-nos nisso: a deformaçãoonírica é conseqüência da censura exercida por intenções reconhecidas do ego contra impulsos plenos dedesejos de qualquer modo censuráveis, que perturbam nosso interior, à noite, durante nosso sono. Por que issotem de acontecer especialmente à noite, e de onde procedem esses desejos repreensíveis — ambosconstituem um assunto sobre o qual, sem dúvida, ainda há muito a questionar e pesquisar. Seria injusto, porém, se a esta altura deixássemos de enfatizar suficientemente um outro resultado denossas investigações. Os sonhos de realização de desejo que procuram nos perturbar o sono, nos sãodesconhecidos e, na verdade, deles somente tomamos conhecimento através da interpretação de sonhos.Portanto, eles devem ser descritos, segundo o sentido de nossa exposição, como inconscientes no momentoatual. Devemos, contudo, refletir que são inconscientes também por duração mais longa do que no momentoatual. O sonhador, como temos verificado em tantos casos, também os rejeita depois de chegar a conhecê-lospela interpretação do seu sonho. Aqui nos defrontamos novamente com a situação que, pela primeira vez,encontramos no lapso de língua do ‘arroto’ [ver em [1]], onde o proponente do brinde protestou, indignado, quenem naquela época, nem em qualquer outra época anterior, estivera cônscio de qualquer impulsodesrespeitoso em relação a seu chefe. Já naquela ocasião nos assaltaram algumas dúvidas a respeito davalidade de uma convicção dessa espécie, e, em vez disso, sugerimos a hipótese de que o orador tinhapermanente desconhecimento da presença de semelhante impulso em si próprio. Essa situação se repete,agora, com toda interpretação de um sonho acentuadamente deformado e, conseqüentemente, adquireredobrada importância pelo apoio que confere à nossa opinião. Agora estamos preparados para supor existiremna mente processos e intenções dos quais a pessoa pode não saber absolutamente nada, nada soube durantelongo tempo, e até mesmo, talvez, jamais tenha sabido de alguma coisa. Com isso, o inconsciente adquire umnovo sentido para nós; a característica de ‘no momento atual’ ou ‘temporário’ desaparece de sua naturezaessencial. Pode significar permanentemente inconsciente e não meramente ‘latente em certa época’.Naturalmente, haveremos de ouvir mais a este respeito, em outra ocasião. CONFERÊNCIA X - SlMBOLISMO NOS SONHOS SENHORAS E SENHORES: Verificamos que a deformação que ocorre nos sonhos e interfere em nossa possibilidade decompreendê-los, resulta de uma atividade censora dirigida contra inaceitáveis impulsos plenos de desejoinconscientes. Não temos afirmado, naturalmente, ser a censura o único fator responsável pela deformação nossonhos, e, de fato, ao estudá-los mais detidamente podemos descobrir que outros fatores desempenham suaparte na consecução desse resultado. Isso importa em dizermos que, mesmo estando fora de ação a censuraonírica, ainda assim não estaríamos em condições de entender os sonhos, o sonho manifesto ainda não seriaidêntico aos pensamentos oníricos latentes.Descobrimos esse outro fator que evita que os sonhos sejamnítidos, essa nova contribuição à deformação onírica, ao constatarmos uma lacuna em nossa técnica. Já fiz ver Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 85aos senhores [ver em [1]] que, às vezes, realmente acontece não ocorrer à pessoa em análise nenhuma idéiaem resposta a determinados elementos de seus sonhos. É verdade que isso não acontece tão seguidamentecomo a pessoa afirma; em muitíssimos casos, com persistência, brota-lhe uma idéia. Não obstante, restamcasos nos quais deixa de surgir uma associação, ou, se essa é obtida, não nos dá o que dela esperávamos.Acontecendo durante um tratamento analítico, isso tem um significado especial que não nos interessa aqui.Contudo, também acontece na interpretação de sonhos de pessoas normais e em nossos próprios sonhos. Senos convencemos de que, em tais casos, não há pressão que possa nos ser de utilidade, terminamos pordescobrir que esse evento indesejado ocorre regularmente em conexão com determinados elementos oníricos,e começamos a reconhecer que um novo princípio geral está em vigor ali onde começávamos a pensar queapenas se nos antepunha uma excepcional falha de técnica. Assim sendo, somos tentados a interpretar esses elementos oníricos ‘mudos’ em si mesmos, a nos pôra traduzi-los com nossos próprios recursos. Somos então compelidos a reconhecer que, sempre que nosaventuramos a efetuar uma substituição dessa espécie, encontramos um sentido adequado para o sonho, aopasso que este permanece carente de sentido; e a cadeia de pensamentos se mantém interrompida enquantonos abstivermos de intervir dessa maneira. A acumulação de muitos casos semelhantes proporciona, por fim, anecessária certeza àquilo que começou como tímida experiência. Estou expondo tudo isso de modo bastante esquemático. Tal, porém, afinal se permite por motivosdidáticos, e nada foi adulterado, mas apenas simplificado. Conseguimos, assim, traduções uniformes paranumerosos elementos oníricos — assim como os ‘livros de sonhos’ populares dão traduções para tudo o queaparece nos sonhos. Os senhores naturalmente não se terão esquecido de que, quando usamos técnicaassociativa, nunca se torna claro por que ocorrem determinadas substituições constantes de alguns elementosoníricos. Os senhores prontamente farão a objeção de que esse método de interpretação lhes parece muito maisinseguro e passível de ataque do que o anterior, baseado na associação livre. Porém, existe algo mais. Pois,quando, com a experiência, tivermos coligido número suficiente de tais versões constantes, chega a hora emque percebemos que deveríamos ser capazes de lidar com essa parte da interpretação de sonhos por meio denossos próprios conhecimentos, e que elas poderiam realmente ser compreendidas sem as associações dosonhador. O modo como devemos conhecer necessariamente seu significado se tornará claro na segundametade desta nossa exposição.Uma relação constante desse tipo entre um elemento onírico e sua versão, nósa descrevemos como ‘relação simbólica’, e ao elemento onírico propriamente dito, como um ‘símbolo’ dopensamento onírico inconsciente. Os senhores estão lembrando de que, anteriormente, quando investigávamosas relações entre elementos oníricos e a coisa ‘original’ situada por trás deles, diferenciei três relações dessetipo — a da parte com o todo, a da alusão e a da representação plástica. Na ocasião eu os adverti de que haviauma quarta relação, porém não citei seu nome [ver em [1]]. Essa quarta relação é a relação simbólica que estouapresentando agora. Ela enseja oportunidade para algumas discussões interessantes, e eu passarei a estasantes de lhes demonstrar os resultados detalhados de nossas observações sobre o simbolismo. O simbolismo é, talvez, o mais notável capítulo da teoria dos sonhos. Em primeiro lugar, como ossímbolos são versões constantes, realizam até certo ponto o ideal da antiga, tanto como da popular,interpretação dos sonhos, do qual, com nossa técnica, nos afastamos muito. Permitem-nos em certas Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 86circunstâncias interpretar um sonho sem fazer perguntas ao sonhador que, de qualquer modo, realmente nadateria a nos dizer acerca do símbolo. Se estivermos familiarizados com os símbolos oníricos comuns, e, ademaisdisso, com a personalidade do sonhador, as circunstâncias em que ele vive e as impressões que precederam aocorrência do sonho, freqüentemente estaremos em situação de interpretar um sonho com segurança — detraduzi-lo à vista, por assim dizer. Um virtuosismo dessa espécie lisonjeia a quem interpreta o sonho eimpressiona aquele que teve o sonho; forma um agradável contraste com a laboriosa tarefa de interrogar osonhador. Contudo, não se deixem perder-se com isso. Não é de nosso feitio executar atos de virtuosismo. Ainterpretação baseada no conhecimento dos símbolos não é uma técnica que possa substituir a técnicaassociativa, nem competir com esta. A técnica dos símbolos suplementa a técnica associativa e produzresultados que apenas possuem utilidade, quando subordinada a esta. E, no que concerne ao conhecimentoque se tenha da situação psíquica da pessoa que nos relata seu sonho, devem ter em mente que os sonhosdas pessoas que os senhores bem conhecem, não são os únicos que os senhores têm para analisar; ter emmente que, via de regra, os senhores não estão familiarizados com os eventos do dia anterior, que foramaqueles que provocaram o sonho, mas que as associações de idéias da pessoa que os senhores estãoanalisando lhes proporcionarão um conhecimento preciso daquilo que chamamos situação psíquica. Ademais, constitui aspecto muito notável — tendo em conta, também, algumas considerações quemencionaremos mais adiante [cf. pág. 169-70] — o fato de se terem manifestado, mais uma vez, as maisviolentas resistências contra uma relação simbólica entre os sonhos e o inconsciente. Mesmo pessoas dediscernimento e reputação, que, afora isso, têm concordado em muito com a psicanálise, nesse ponto retiraramseu apoio. Esse comportamento se afigura muito estranho; primeiro, em vista do fato de que o simbolismo nãoconstitui peculiaridade exclusiva dos sonhos e não é característico dos mesmos; e, em segundo lugar, osimbolismo nos sonhos não é, de forma alguma, descoberta da psicanálise, embora esta tenha feito muitasoutras descobertas surpreendentes. O filósofo K. A. Scherner (1861) deve ser apontado como o descobridor dosimbolismo onírico, se é que absolutamente se possam situar seus inícios nos tempos atuais. A psicanáliseconfirmou os achados de Scherner, embora tenha feito substanciais modificações nos mesmos. Agora, certamente, os senhores desejam ouvir algo sobre a natureza do simbolismo dos sonhos e teralguns exemplos. Com satisfação lhes direi o que sei, embora deva confessar que nossa compreensão destetema não é tão completa como desejaríamos. A essência desta relação simbólica constitui em ela ser uma comparação, embora não umacomparação de tipo qualquer. Limitações especiais parecem estar vinculadas à comparação, porém é difícildizer quais sejam elas. Nem tudo aquilo com que podemos comparar um objeto ou um processo aparece nossonhos como símbolo dessa comparação. E, por outro lado, um sonho não simboliza cada elemento possíveldos pensamentos oníricos latentes, mas somente alguns pensamentos determinados. Assim, existem limitaçõesem ambos os sentidos. Devemos admitir, também, que o conceito de símbolo, no momento atual, não pode serdefinido com precisão: esse conceito se transfigura gradualmente em noções tais como as de substituição ourepresentação, e mesmo se aproxima do que entendemos por alusão. Em numerosos símbolos, a comparaçãoque subjaz é óbvia. Entretanto, também aí existem outros símbolos em relação aos quais devemos nosperguntar onde buscaremos o elemento comum, o tertium comparationis, da suposta comparação. Com outrasreflexões, podemos posteriormente descobri-lo, ou então ele pode permanecer definitivamente oculto. É Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 87ademais estranho que, sendo o símbolo uma comparação, não seja elucidado por uma associação, e que osonhador não conheça, mas faça uso dele sem saber nada a seu respeito: mais ainda, na verdade, que osonhador não se sinta disposto a reconhecer a comparação, mesmo depois de esta lhe ter sido mostrada. Ossenhores observam, pois, que uma relação simbólica é uma comparação de tipo muito especial, cuja base atéagora ainda não apreendemos, embora possamos, posteriormente, chegar a alguma indicação sobre a mesma. A gama de coisas às quais se confere uma representação simbólica nos sonhos, não é ampla: o corpohumano como um todo, os pais, os filhos, irmãos e irmãs, nascimento, morte, nudez — e algumas outras coisasmais. A representação típica — isto é, regular — da figura humana como um todo é uma casa, conforme foireconhecido por Scherner, que até mesmo quis atribuir a este símbolo uma importância transcendental que nãotem. Em um sonho, pode acontecer alguém sentir-se descendo pela fachada de uma casa, num momentodeliciando-se com isso, depois atemorizando-se. As casas com paredes lisas representam homens, e aquelascom saliências e sacadas, em que é possível segurar-se, representam mulheres (ver em [1], adiante). Os paisaparecem nos sonhos como imperador e imperatriz, rei e rainha [loc. cit.] ou outras personagens respeitadas;com isso, os sonhos evidenciam muito respeito filial. Tratam, porém, com muito menos ternura os filhos, osirmãos e as irmãs: estes são simbolizados como pequenos animais ou bichinhos. O nascimento é quase queinvariavelmente representado por algo que tem uma conexão com água: ou a pessoa cai dentro da água ou saida água, a pessoa salva alguém da água ou é resgatada da água por alguém — ou seja, é uma relação mãe-filho [ver em [1]]. Morrer é substituído, nos sonhos, por partir, por viajar de trem ver em [1] e [2]], estar morto érepresentado por indícios diversos, por assim dizer, obscuros; a nudez, por meio de roupas e uniformes. Ossenhores vêem quão indistintos são os limites, aqui, entre a representação simbólica e a alusiva. É surpreendente que, em comparação com essa reduzida numeração, existe uma outra área em que osobjetos e assuntos são representados por um simbolismo extraordinariamente rico. Essa área é a da vidasexual — os genitais, os processos sexuais, a relação sexual. Nos sonhos, a grande maioria dos símbolos sãosímbolos sexuais. E aqui se revela uma estranha desproporção. Os temas que mencionei são poucos, ossímbolos que os representam são, porém, extremamente numerosos, de forma que cada uma dessas coisaspode ser expressa por numerosos símbolos quase equivalentes. Quando interpretados, o resultado originaobjeções generalizadas. Pois, em contraste com a multiplicidade das representações no sonho, asinterpretações dos símbolos variam muito pouco, o que enfada qualquer pessoa que ouve falar nisso; mas, oque podemos fazer quanto a isto? Como esta é a primeira vez que falo no tema da vida sexual, em uma destas conferências, devo-lhesuma explanação sobre a maneira pela qual me proponho a tratar do assunto. A psicanálise não temnecessidade de ocultamentos nem de palpites, não pensa que seja necessário envergonhar-se de lidar comesse importante material, acredita que é correto e apropriado nomear cada coisa pelo seu nome certo e esperaque esta seja a melhor maneira de manter à distância idéias inadequadas, de natureza desorientadora. O fatode estas conferências estarem sendo proferidas perante um auditório misto de ambos os sexos, não fazqualquer diferença com relação a esse aspecto. Assim como não pode haver ciência in usum Delphini, tambémnão pode havê-la para meninas de colégio; e as senhoras aqui presentes já evidenciaram, por sua própriapresença nesta sala de conferências, que desejam ser tratadas em condições de igualdade com os homens.Osgenitais masculinos então são representados nos sonhos por numerosas formas que devem ser chamadas Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 88simbólicas, nas quais o elemento comum da comparação é em geral muito evidente. Primeiramente, para osgenitais masculinos como um todo, o sagrado número 3 tem significação simbólica [ver em [1] e segs.]. O maisnotável e, para ambos os sexos, mais interessante componente dos genitais, o órgão masculino, encontrasubstitutos simbólicos primordialmente em coisas que a ele se assemelham pela sua forma — coisas, portanto,que são alongadas e retas, tais como: bengalas, guarda-chuvas, postes, árvores, e assim por diante; e tambémobjetos que compartilham, com a coisa que representam, da característica de penetrar no corpo e ferir — ouseja, armas pontiagudas de toda espécie, facas, punhais, lanças, sabres e também armas de fogo, rifles,pistolas e revólveres (especialmente adequados por causa de sua forma). Nos sonhos de ansiedade de umamenina, ser seguida por um homem com uma faca ou com arma de fogo desempenha importante papel. Essetalvez seja o caso mais comum de simbolismo onírico, e agora os senhores estão aptos a traduzi-lo comfacilidade. E não é difícil compreender de que modo o órgão masculino pode ser substituído por objetos dosquais flui água — torneira, regador, chafariz —, ou, ainda, por outros objetos capazes de se distenderem, taiscomo lâmpadas suspensas, lápis extensíveis, etc. Um aspecto não menos óbvio do órgão explica o fato de quelápis, canetas, limas, martelos e outros instrumentos são indubitáveis símbolos sexuais masculinos.Aextraordinária característica do órgão masculino de ser capaz de erguer-se em desafio às leis da gravidade, umdos fenômenos da ereção, faz com que seja representado simbolicamente por balões, máquinas voadoras e,mais recentemente, pelas aeronaves Zeppelin. Os sonhos, porém, podem simbolizar a ereção de outramaneira, muito mais expressiva. Podem tratar o órgão sexual como sendo a essência da pessoa inteira daqueleque sonha e fazê-lo voar. Não se melindrem com a idéia de que os sonhos com voar, tão comuns efreqüentemente tão agradáveis, devam ser interpretados como sonhos de excitação sexual geral, como sonhosde ereção. Entre alunos de psicanálise, Paul Federn [1914] colocou essa interpretação fora de dúvida; contudo,através de suas investigações chegou à mesma conclusão Mourly Vold [1910-12, 2, 791], que tem sido tãoelogiado por sua seriedade, quem levou a cabo as experiências com sonhos a que me referi [ver em [1] e [2]]com posições artificialmente assumidas dos braços e pernas, e estava muito distanciado da psicanálise epossivelmente nada sabia a respeito dela. E não façam, a partir daí, a objeção ao fato de as mulheres poderemter os mesmos sonhos de voar, como os homens. Lembrem-se, antes, de que nossos sonhos objetivam serrealizações de desejos e que o desejo de ser homem com muita freqüência é encontrado, consciente ouinconscientemente, em mulheres. E ninguém que conheça anatomia se espantará com o fato de que é possívelàs mulheres realizar esse desejo através das mesmas sensações do homem. As mulheres possuem, comoparte de seus genitais, um pequeno órgão semelhante ao órgão masculino; e esse pequeno órgão, o clitóris,realmente desempenha na infância e durante os anos anteriores às relações sexuais o mesmo papel quedesempenha o grande órgão dos homens.Entre símbolos sexuais masculinos menos inteligíveis situam-secertos répteis e peixes e, acima de tudo, o famoso símbolo da cobra. Certamente não é fácil adivinhar por quechapéus e sobretudos ou capas são empregados da mesma maneira; contudo, seu significado simbólico ébastante inquestionável [ver em [1]]. Finalmente, podemos nos perguntar se a substituição do membromasculino por outro membro, o pé ou a mão, deveria ser descrita como simbólica. Penso que somoscompelidos a também fazê-lo, em face ao contexto e aos equivalentes, no caso das mulheres.Os genitaisfemininos são simbolicamente representados por todos esses objetos que compartilham da característica depossuírem um espaço oco que pode conter algo dentro de si: buracos, cavidades e concavidades, por exemplo; Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 89vasos e garrafas, recipientes, caixas, malas, estojos, cofres, bolsas, e assim por diante. Barcos também seincluem nesta categoria. Alguns símbolos têm mais conexão com o útero do que com os genitais femininos:assim, armários, fogões e, mais especialmente, aposentos. Aqui o simbolismo de aposento se aproxima dosimbolismo de casa. Portas e portões também são símbolos do orifício genital. Os materiais também sãosímbolos femininos [ver em [1]]: madeira, papel e objetos feitos desses materiais como mesas e livros. Dentreos animais, caramujos e conchas, pelo menos, são inegáveis símbolos femininos: entre as partes do corpo, aboca (como substituto do orifício genital); entre as construções, igrejas e capelas; como podem observar, nemtodos os símbolos são igualmente inteligíveis.Os seios devem ser incluídos nos genitais; sendo hemisfériosvolumosos do corpo feminino, são representados por maçãs, pêras e frutas, em geral. Os pêlos pubianos deambos os sexos são representados nos sonhos por florestas e moitas. A complexa topografia das partesgenitais femininas torna compreensível o fato de elas serem freqüentemente representadas por paisagens comrochedos, floresta e água, ao passo que o imponente mecanismo do aparelho genital feminino explica por quetodo tipo de máquinas, difíceis de descrever, lhe serve de símbolo.Outro símbolo dos genitais femininos, quemerece ser mencionado, é o porta-jóias. Jóia e tesouro são usados nos sonhos, assim como na vida desperta,para mencionar alguém que é amado. Doces freqüentemente representam satisfação sexual. A satisfação queuma pessoa obtém com seus próprios genitais é indicada por toda espécie de tocar, inclusive tocar piano.Constituem representação simbólica par excellence da masturbação o deslizar ou escorregar, o arrancar umramo [ver em [1]]. A queda de um dente, ou a extração de um dente são símbolos oníricos particularmentedignos de reparo. Sua significação primeira é indubitavelmente a castração como castigo pela masturbação[loc. cit.]. Encontramos representações especiais do ato sexual com menos freqüência do que se poderiaesperar com base naquilo que se disse até aqui. Atividades rítmicas como dançar, cavalgar e subir devem sermencionadas aqui, bem como ocorrências violentas, como ser atropelado; e ainda da mesma forma, certasatividades manuais e naturalmente ameaças com armas.Os senhores não devem imaginar que seja muitosimples o emprego ou a tradução desses símbolos. No decurso deles, acontecem todos os tipos de coisas quesão contrárias às nossas expectativas. Parece quase inacreditável, por exemplo, que nessas representaçõessimbólicas as diferenças entre os sexos amiúde não são nitidamente observadas. Alguns símbolos significamem geral, independentemente de serem masculinos ou femininos, por exemplo: uma criança pequena, um filhopequeno, uma filha pequena. Ou ainda, um símbolo predominantemente masculino pode ser empregado pararepresentar genitais femininos e vice-versa. Não podemos compreender esse fato enquanto não tivermos obtidodeterminada compreensão interna (insight) da evolução das idéias sexuais nos seres humanos. Em algunscasos, a ambigüidade dos símbolos pode ser apenas aparente; e os símbolos mais marcados, como armas,bolsas e cofres, se excluem desse uso bissexual. Agora, partindo não da coisa representada, mas sim do símbolo, prosseguirei fazendo um exame deconjunto das áreas das quais geralmente derivam os símbolos sexuais, e farei algumas observações adicionais,com especial referência aos símbolos em que o elemento comum da comparação não está entendido. Ochapéu é um símbolo obscuro deste tipo — talvez, também, tudo o que se usa para cobrir a cabeça, em geral— e tem, via de regra, significação masculina, mas é também capaz de ter significação feminina. Da mesmaforma, um sobretudo ou uma capa significam um homem, talvez nem sempre se referindo ao aspecto genital;compete aos senhores perguntarem por quê. Gravatas, que são coisas que ficam pendentes e não são usadas Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 90por mulheres, são definitivamente um símbolo masculino. Roupa interior e roupa branca geralmente sãosímbolos femininos. Vestuário e uniformes, conforme já vimos, são substitutos da nudez ou das formascorporais. Sapatos e chinelos são símbolos de genitais femininos. Mesas e madeira já foram mencionadascomo símbolos femininos enigmáticos, porém certos. Escadas, degraus, escadarias, ou, mais precisamente,subir ou descer pelos mesmos, são claros símbolos da relação sexual. Pensando melhor, ocorre-nos que aqui oelemento comum é o ritmo de galgá-los — talvez, também, a crescente excitação e a respiração ofegante àmedida que se sobe [ver em [1]].Já nos referimos anteriormente a paisagens como representantes dos genitaisfemininos. Montes e rochedos são símbolos do órgão masculino. Jardins são símbolos comuns dos genitaisfemininos. Frutas representam não os filhos, mas os seios. Animais selvagens significam pessoas em estado deexcitação sensual e, além disso, os maus instintos ou paixões. Botões e flores indicam os genitais femininos ou,em especial, a virgindade. Não se esqueçam de que realmente as flores constituem os genitais das plantas.Jáconhecemos aposentos como símbolos. A representação pode ir além, as janelas e portas, com ou semaposentos, assumindo o significado de orifícios do corpo. E a questão de um aposento estar aberto ou fechadose adapta a este simbolismo, e a chave que o abre é decididamente um símbolo masculino.Esse, pois, omaterial de que se serve o simbolismo nos sonhos. Não está completo e poderia ser aprofundado e ampliadoainda mais. Imagino, porém, que lhes parecerá mais que suficiente, e talvez até mesmo possa tê-los irritado.‘Será que de fato vivo no meio de símbolos sexuais?’ — poderão perguntar. ‘São todos os objetos ao meuredor, todas as roupas que visto, todas as coisas que pego, todos símbolos sexuais, e nada mais?’ Existe, comefeito, fundamento suficiente para fazer perguntas atônitas, e, como primeira delas, podemos nos interrogarsobre como realmente chegamos a conhecer a significação desses símbolos oníricos, a respeito dos quais osonhador nos dá informação insuficiente, ou absolutamente nenhuma informação.Minha resposta é que aaprendemos a partir de fontes muito diversas — de contos de fadas, de mitos, de bufonarias e anedotas, dofolclore (isto é, do conhecimento dos usos populares e costumes, da maneira de falar e das canções) e deexpressões idiomáticas, poéticas e coloquiais. Em todas essas direções encontramos o mesmo simbolismo e,em alguns deles, podemos entendê-lo sem maior erudição. Se penetrarmos nos detalhes dessas fontes,encontraremos tantas semelhanças do simbolismo onírico, que não podemos deixar de nos convencer denossas interpretações.Segundo Scherner, como dissemos [ver em [1]], o corpo humano é com freqüênciarepresentado nos sonhos pelo símbolo de uma casa. Aprofundando esta representação, verificamos quejanelas, portas e portões representavam as aberturas do corpo e que as fachadas das casas eram ou lisas ouprovidas de sacadas e saliências nas quais se podia encontrar apoio. Contudo, o mesmo simbolismo éencontrado em nossos usos idiomáticos — quando saudamos familiarmente um conhecido, como uma ‘altesHaus‘ [‘casa velha’], quando falamos em dar a alguém ‘eins aufs Dachl‘ [uma pancada na cabeça, literalmente,‘uma no telhado’], ou quando dizemos de uma pessoa que ‘ela não está bem do sótão’. Na anatomia, osorifícios do corpo são muitas vezes chamados ‘Leibespforten‘ [literalmente, ‘portões do corpo’]. De início parece surpreendente encontrar os pais, nos sonhos, como casal imperial ou real. Isso,porém, tem seu similar nos contos de fadas. Começamos a compreender que as variadas histórias de fadasque começam com ‘Era uma vez um rei e uma rainha’ apenas querem dizer que certa vez havia um pai e umamãe. Em uma família as crianças são, de brincadeira, chamadas de ‘príncipes’, e o mais velho, de ‘príncipe Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 91herdeiro’. O próprio rei se denomina o pai de seu país. Por brincadeira falamos nos filhos como ‘Würmer‘[‘bichinhos’] e com simpatia nos referimos a uma criança como ‘der arme Wurm‘ [‘pobre bichinho’]. Retornemos ao simbolismo da casa. Quando, em um sonho, fazemos uso das saliências de uma casapara nelas nos segurarmos, podemos nos recordar de uma expressão vulgar comumente usada para designarseios bem desenvolvidos: ‘Ela tem coisa para agarrar.’ Existe outra expressão popular em tais casos: ‘Ela temmuita madeira em frente de casa’, o que parece confirmar nossa interpretação da madeira como símbolofeminino, materno. E, por falar em madeira, é difícil compreender como esse material veio a representar o que é materno.No entanto, nisso a filologia comparada pode vir em nosso auxílio. Nossa palavra alemã ‘Holz‘ parece provir damesma raiz da ‘υλη [hulé]’ grega significando material, matéria-prima. Esse parece ser um exemplo daocorrência não rara de um nome genérico de um material vir a ser, afinal, reservado a algum materialdeterminado. Ora, existe no Atlântico uma ilha chamada ‘Madeira’ Este nome lhe foi dado pelos portuguesesquando a descobriram, porque naquela época estava toda recoberta de florestas. Pois na língua portuguesa‘madeira’ está relacionada a ‘floresta’. Os senhores observam, porém, que ‘madeira’ é apenas uma formaligeiramente modificada da palavra latina ‘materia‘, que, mais uma vez, significa ‘material’ em geral. Contudo,‘materia‘ é derivada de ‘mater‘, ‘mãe’: o material do qual tudo é feito, por assim dizer, a mãe de tudo. Esseconceito antigo da coisa sobrevive, portanto, no uso simbólico de madeira como ‘mulher’ ou ‘mãe’. O nascimento é geralmente expresso nos sonhos por meio de alguma conexão com a água: a pessoacai na água ou é tirada das águas — dá à luz ou nasce. Não devemos nos esquecer de que este símboloconsegue se utilizar, em dois sentidos, da verdade da evolução. Não apenas todos os mamíferos terrestres,inclusive os ancestrais do homem, descendem de seres aquáticos (este é o mais remoto dos dois fatos), mastambém todo mamífero, todo ser humano, passou a primeira fase de sua existência na água — ou seja, naqualidade de embrião, no líquido amniótico do útero materno, e saiu dessa água ao nascer. Não digo queaquele que sonha sabe disso; por outro lado, afirmo que ele não necessita saber. Existe algo mais que osonhador provavelmente sabe, por lhe haver sido dito em sua infância; assim mesmo, afirmo que, se soubesse,esse conhecimento em nada contribuiria para a construção do símbolo. Foi-lhe dito, quando criança, que é acegonha que traz os bebês. Mas de onde os busca? Do lago, ou do rio — mais uma vez, pois, da água. Um demeus pacientes, após lhe haver sido dada esta informação — na época ele era um pequeno conde —desapareceu por uma tarde inteira. Por fim, foi encontrado de bruços junto à borda do lago do castelo, com seurostinho pendido sobre a superfície da água, perscrutando atentamente, procurando ver os bebês no fundo daágua. Nos mitos sobre o nascimento de heróis — aos quais Otto Rank [1909] dedicou um estudo comparado,sendo o mais antigo o mito do rei Sargão, de Agade (cerca de 2.800 a.C.) —, uma parte predominante édesempenhada pelo abandono na água e o resgate da água. Rank constatou que isso são representações donascimento, análogas às que comumente surgem nos sonhos. Quando uma pessoa salva alguém das águas,em um sonho, ela se transforma em sua mãe, ou, simplesmente, em mãe. Nos mitos uma pessoa que salva umbebê das águas admite ser a verdadeira mãe do bebê. Existe uma conhecida anedota cômica segundo a qualperguntaram a um inteligente menino judeu quem era a mãe de Moisés. Respondeu sem hesitação: ‘Aprincesa.’ ‘Não’, disseram-lhe, ‘ela somente o tirou da água’ ‘Isso é o que ela diz’, replicou, e assim provou que Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 92havia encontrado a interpretação correta do mito.Nos sonhos, partir significa morrer. Assim, quando umacriança pergunta onde está alguém que morreu, e de quem sente falta, é costume comum responder-lhe queesse alguém partiu de viagem. Mais uma vez gostaria de desmentir a crença de que o símbolo onírico derivadessa evasiva. O dramaturgo [Shakespeare, em Hamlet, Ato III, Cena 1] usa a mesma conexão simbólicaquando fala na morte como ‘país desconhecido de cujos limites nenhum viajante retorna’. Mesmo na vidacomum é freqüente falar em ‘última jornada’. Todo aquele que conhece os rituais antigos se apercebe de comose levava a sério (na religião do antigo Egito, por exemplo) a idéia de uma viagem às regiões da morte.Sobreviveram muitas cópias do Livro dos Mortos, que era fornecido à múmia como um guia de viagem, para serlevado nessa jornada. Desde quando os locais funerários foram separados dos locais de moradia, a últimaviagem de uma pessoa morta se tornou verdadeiramente uma realidade.E não se pense que o simbolismogenital seja algo encontrado apenas em sonhos. Provavelmente todos os senhores, em uma ou outra ocasião,referiram-se indelicadamente a uma mulher como ‘alte Schachtel‘ [‘caixa velha’], talvez sem saber que estavamusando um símbolo genital. No Novo Testamento encontramos a mulher sendo mencionada como o ‘vaso maisfrágil’. As escrituras hebraicas, escritas em um estilo que muito se aproxima da poesia, estão plenas deexpressões sexualmente simbólicas, que nem sempre foram corretamente compreendidas e cuja exegese (porexemplo, no caso do Cântico de Salomão) tem causado alguns equívocos. Na literatura hebraica posterior émuito comum encontrar a mulher representada por uma casa, cuja porta representa o orifício sexual. Umhomem se queixa, por exemplo, em um caso de perda da virgindade, de haver encontrado a porta aberta.Assim, também nesses escritos o símbolo da mesa representa a mulher. Por isso uma mulher diz de seumarido: ‘Eu lhe preparei a mesa, mas ele a virou.’ Diz-se que as crianças aleijadas surgem porque o homem‘virou a mesa’. Estes exemplos, eu os tomei de um artigo do Dr. L. Levy de Brünn [1914].O fato de, nos sonhos,também os navios representarem mulheres merece crédito, pois os etimologistas nos dizem que ‘Schiff [navio]’era originalmente o nome de um recipiente de barro e é a mesma palavra que ‘Schaff‘ [palavra dialetal quesignifica ‘tina’]. O fato de fogões representarem mulheres e útero, é confirmado pela lenda grega de Periandrode Corinto e sua esposa Melissa. O tirano, segundo Heródoto, faz aparecer o espírito de sua mulher, a quemamara apaixonadamente e, contudo, assassinara por ciúmes, a fim de obter dela algumas informações. Amulher morta provou sua identidade dizendo que ele, Periandro, havia ‘metido seu pão dentro de um forno frio‘,como forma de disfarçar um acontecimento que só era conhecido dos dois. Na revista Anthropophyteia, editadapor F. S. Krauss, inestimável fonte de conhecimentos de antropologia sexual, ficamos sabendo que, emdeterminada região da Alemanha, de uma mulher que deu à luz uma criança se diz que ‘o forno dela se fez empedaços‘. Pegar fogo, fazer fogo, e tudo o que com isso se relacione, está intimamente entretecido desimbolismo sexual. A chama é sempre um genital masculino e a lareira, o fogão, é seu equivalente feminino.Seos senhores puderem se surpreender com a freqüência com que as paisagens são empregadas nos sonhospara representar os genitais femininos, podem aprender da mitologia geral qual o papel desempenhado pelaMãe Terra nos conceitos e cultos dos povos da Antigüidade, e como sua visão da agricultura era determinadapor esse simbolismo. O fato de, em sonhos, um quarto representar uma mulher, os senhores tenderão a atribuí-lo ao uso idiomático de nossa linguagem pelo qual ‘Frau‘ é substituído por ‘Frauenzimmer‘ — o ser humanosendo substituído pelo aposento destinado a ele. De forma semelhante, falamos em ‘Sublime Porte’significando o sultão e seu governo. Assim, também o título do governante do Egito antigo, ‘Faraó’, significa Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 93simplesmente ‘Grande Saguão do Paço’. (No antigo oriente, os pátios entre os duplos portões de uma cidadeeram locais de encontro públicos, assim como as praças do mercado do mundo clássico ) Essa derivação,entretanto, parece ser excessivamente superficial. Parece-me mais provável que um aposento se tornousímbolo de mulher por ser o espaço que encerra seres humanos. Já verificamos que ‘casa’ é usada em sentidosemelhante; e a mitologia e a linguagem poética nos possibilitam acrescentar ‘cidade’, ‘cidadela’, ‘castelo’ e‘fortaleza’ como outros símbolos para ‘mulher’. Poder-se-ia facilmente levantar a questão a respeito de sonhosde pessoas que não falam ou não entendem o idioma alemão. Durante esses últimos anos tenho tratadoprincipalmente pacientes de idioma estrangeiro e parece-me que me lembro de que também em seus sonhos‘Zimmer‘ [‘aposento’] significava ‘Frauenzimmer‘ embora em seus idiomas não tivessem uso semelhante.Existem outras indicações de que a relação simbólica pode ultrapassar os limites da linguagem — o que, aliás,foi afirmado há muito tempo por um antigo pesquisador de sonhos, Schubert [1814]. No entanto, nenhum de meuspacientes ignorava completamente o alemão, de modo que a decisão deve ser deixada aos analistas quepodem coligir dados das pessoas que usam um só idioma, em outros países. Dificilmente alguma das representações simbólicas dos genitais masculinos não reaparece no usoanedótico, vulgar ou poético, especialmente junto aos dramaturgos clássicos antigos. Entretanto, aquiencontramos não apenas os símbolos que surgem nos sonhos, porém outros mais como, por exemplo,utensílios usados em diversas atividades, e especialmente o arado. Ademais, a representação simbólica damasculinidade nos leva a uma região muito extensa e muito controvertida, que por motivos de economiaevitaremos. Gostaria, no entanto, de dedicar algumas palavras a um símbolo que, por assim dizer, se excluidessa categoria: o número 3. Permanece obscuro o fato de saber se este número deve seu caráter sagrado aessa relação simbólica. O que no entanto parece certo é que numerosas coisas tripartidas existentes nanatureza — a folha de trevo, por exemplo — devem seu uso em brasões e emblemas a esse significadosimbólico. De maneira semelhante, o lírio tripartido — a chamada fleur-de-lis — e o notável desenho heráldicode duas ilhas tão distantes uma da outra, como a Sicília e a ilha de Man — o tríscele (três pernas meio fletidasirradiando-se de um centro) — parecem ser versões estilizadas dos genitais masculinos. As formas do órgãomasculino eram consideradas na Antigüidade como o mais poderoso apotropaico (meio de defesa) contra másinfluências e, por conseguinte, os amuletos de nossos dias podem, todos eles, ser reconhecidos facilmentecomo símbolos genitais ou sexuais. Consideremos uma coleção dessas coisas — como são usadas, porexemplo, na forma de pequenos berloques de prata pendentes: trevo de quatro folhas, porco, cogumelo,ferraduras, escada, vassoura de chaminé. O trevo de quatro folhas tomou o lugar do de três folhas, querealmente se presta para ser um símbolo. O porco é um antigo símbolo da fertilidade. O cogumelo é sem dúvidaum símbolo do pênis: existem cogumelos [fungos] que devem seu nome sistemático (Phallus impudicus) à suainconfundível semelhança com o órgão masculino. A ferradura reproduz o contorno do orifício genital feminino,ao passo que a vassoura de chaminé, que se associa à escada, aparece em companhia desta em face de suasfunções, às quais vulgarmente se compara o ato sexual. (Cf. Anthropophyteia.) Conhecemos essa escada, emsonhos, como símbolo sexual; aqui o uso idiomático alemão vem em nosso auxílio e nos mostra como a palavra‘steigen‘ [‘subir’, ou ‘montar’] é usada no que é par excellence um sentido sexual. Dizemos ‘den Frauennachsteigen‘ [‘perseguir’ (literalmente ‘trepar’) ‘mulheres’], e ‘ein alter Steiger‘ [‘um velho farrista’ (literalmente Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 94‘trepador’)]. Em francês a palavra para degraus de uma escada é ‘marches‘, e encontramos um termoexatamente análogo ‘un vieux marcheur‘. O fato de que, em muitos animais de grande porte, subir ou ‘montar’na fêmea é um preliminar necessário ao ato sexual, provavelmente se presta a este contexto.‘Arrancar umgalho’, como representação simbólica da masturbação, não apenas se coaduna com as descrições vulgares doato como também possui semelhanças mitológicas amplas. Mas que a masturbação, ou melhor, a puniçãocorrespondente — a castração — seja representada pela queda ou extração de dentes, é fato especialmentenotável, pois existe na antropologia um seu equivalente, o qual pode ser do conhecimento de apenas umpequeno número das pessoas que sonham. Parece-me inequívoco que a circuncisão, praticada por tantospovos, é um equivalente e substituto da castração. E agora sabemos de determinadas tribos primitivas daAustrália que realizam a circuncisão como um rito da puberdade (na cerimônia em que se celebra o início damaturidade sexual de um menino), enquanto outras tribos, seus vizinhos próximos, substituíram esse ato pelaquebra de um dente.A este ponto, encerro minha exposição desses exemplos. São apenas exemplos. Arespeito deste assunto conhecemos muito mais; porém os senhores podem imaginar como seria mais rica emais interessante uma coleção como essa, se fosse reunida não por amadores como nós, e sim porverdadeiros profissionais da mitologia, antropologia, filologia e do folclore.Algumas conseqüências se impõem ànossa atenção; não podem ser completas, porém nos oferecem material para reflexão.Em primeiro lugar,deparamos com o fato de que o sonhador tem à sua disposição uma forma simbólica de expressão que eledesconhece na vida desperta e não reconhece. Isso é tão extraordinário como se os senhores viessem adescobrir que sua empregada doméstica entendesse sânscrito, embora sabendo que ela nasceu numa aldeiada Boêmia e jamais o estudou. Não é fácil explicar tal fato com o auxílio de nossas concepções psicológicas.Apenas podemos dizer que o conhecimento do simbolismo é inconsciente naquele que sonha, que pertence àsua vida mental inconsciente. Contudo, mesmo com essa suposição, não chegamos ao cerne da questão. Atéagora apenas nos tem sido necessário supor a existência de esforços inconscientes — isto é, esforços dosquais nada sabemos, temporária ou permanentemente. Agora, porém, trata-se de algo mais que issosimplesmente, de parcelas inconscientes de conhecimento, de conexões de pensamentos, de comparaçãoentre diferentes objetos que resultam na possibilidade de estes serem regularmente colocados um em lugar dooutro. Essas comparações não são recém-estabelecidas em cada ocasião; estão de antemão prontas para usoe são completas, de uma vez por todas. Isso está implícito no fato de serem concordantes, quando se trata deindivíduos diferentes — possivelmente, na verdade, concordantes, apesar das diferenças de idioma. Qual podeser a origem dessas relações simbólicas? O uso idiomático cobre apenas uma parte delas. A multiplicidade deanalogias em outras esferas de conhecimento é, na maioria das vezes, desconhecida da pessoa que tem osonho; nós mesmos tivemos de laboriosamente colecioná-las.Em segundo lugar, tais relações simbólicas nãoconstituem peculiaridade do sonhador ou da elaboração onírica, através da qual elas adquirem expressão. Essemesmo simbolismo, como vimos, é empregado por mitos e contos de fadas, pelas pessoas em seus ditados eem sua canções, pelo uso idiomático coloquial e pela imaginação poética. O campo do simbolismo éimensamente amplo e o simbolismo onírico constitui apenas pequena parte dele: na verdade, não conduz anenhum objetivo útil atacar o problema a partir dos sonhos. Muitos símbolos que são comumente usados emoutros contextos aparecem no sonho muito raramente, ou absolutamente não aparecem. Alguns símbolosoníricos não podem ser encontrados em todas as áreas, porém, como os senhores viram, apenas num ou Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 95noutro lugar. Tem-se a impressão de que nos defrontamos aqui com um modo de expressão antigo, porémextinto, cujas diferentes partes sobreviveram em diferentes campos de fenômenos, uma parte somente aqui,outra somente ali, uma terceira parte, talvez, com suas formas ligeiramente modificadas, em diversas áreas. Enisso, recordo-me da fantasia de um interessante paciente psicótico que imaginou uma ‘linguagem básica’ daqual todas essas relações simbólicas seriam resíduos. Em terceiro lugar, deve ter-lhes causado surpresa que osimbolismo, nas outras áreas que mencionei, não é absolutamente apenas simbolismo sexual, ao passo quenos sonhos os símbolos são empregados quase exclusivamente para expressão de objetos e relações sexuais.Isso também não se explica facilmente. Deveríamos supor que os símbolos, que originalmente possuíam umasignificação sexual, mais tarde tenham adquirido outra aplicação e que, ademais disso, a atenuação darepresentação por símbolos em outros tipos de representação pode estar em conexão com este aspecto?Essas questões evidentemente não podem ser respondidas enquanto não houvermos considerado osimbolismo onírico isoladamente. Podemos apenas manter firme a suspeita de que existe uma relaçãoespecialmente íntima entre símbolos,verdadeiros e sexualidade. Com referência a esse aspecto descobrimos importantes indícios durante esses últimos anos. Umfilólogo, Hans Sperber [1912], de Uppsala, que trabalha independentemente da psicanálise, apresentou oargumento de que as necessidades sexuais desempenharam o papel principal na origem e no desenvolvimentoda linguagem. Segundo esse autor, os sons originais da linguagem se destinavam à comunicação e atraíam oparceiro sexual; a evolução ulterior das raízes lingüísticas acompanhou as atividades laborativas do homemprimitivo. Essas atividades, prossegue ele, eram executadas em comum e acompanhadas por expressõesritmicamente repetidas. Assim, um interesse sexual permaneceu vinculado ao trabalho. O homem primitivotornou o trabalho aceitável, por assim dizer, tratando-o como equivalente e substituto da atividade sexual. Aspalavras enunciadas durante o trabalho em comum tinham, pois, dois significados: designavam atos sexuais etambém a atividade laborativa que a estes se equiparava. Com o decorrer do tempo as palavras sedesvincularam da significação sexual e fixaram-se no trabalho. Em gerações posteriores a mesma coisaaconteceu com as palavras novas, que tinham significado sexual e eram aplicadas a novas formas de trabalho.Desse modo, numerosas raízes de palavras teriam sido formadas, todas elas de origem sexual, perdendosubseqüentemente sua significação sexual. Se é correta a hipótese que delineei aqui, ela nos possibilitariacompreender o simbolismo dos sonhos. Deveríamos entender por que os sonhos, que conservam algumas dascondições mais primitivas, mantêm um número tão extraordinariamente grande de símbolos sexuais e por quegeralmente armas e utensílios representam o que é masculino, ao passo que materiais e coisas, que seprestam para serem transformados pelo trabalho, representam o que é feminino. A relação simbólica seria oresíduo de uma antiga identidade verbal, coisas que numa época foram chamadas pelo mesmo nome, tantoque os genitais poderiam agora servir como símbolo para os mesmos, nos sonhos.Os aspectos correlatos queencontramos no simbolismo onírico também nos permitem formar uma estimativa dessa característica dapsicanálise que lhe permite atrair interesse geral, de uma forma que nem a psicologia nem a psiquiatriaconseguiram fazê-lo. No trabalho da psicanálise formam-se vínculos com numerosas outras ciências mentais,cuja investigação promete resultados do mais elevado valor: vínculos com a mitologia e a filosofia, com ofolclore, com a psicologia social e com a teoria da religião. Os senhores não ficarão surpresos ao ouvir que umarevista cresceu em solo psicanalítico e seu único objetivo é fortificar esses vínculos. Essa revista é conhecida Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 96pelo nome de Imago, fundada em 1912 e editada por Hanns Sachs e Otto Rank. Em todos esses vínculos aparticipação da psicanálise é, em primeira instância, a de doador e, apenas em menor escala, a de receptor. Éverdade que isso lhe traz a vantagem de seus estranhos achados se tornarem mais conhecidos quandoconstatados também em outras áreas da ciência; porém, em seu conjunto, é a psicanálise que provê osmétodos técnicos e as concepções cuja aplicação nesses outros campos deve se mostrar proveitosa. A vidamental dos seres humanos, quando sujeita à investigação psicanalítica, oferece-nos explicações com cujoauxílio conseguimos resolver numerosos enigmas da vida das comunidades humanas ou, pelo menos,enquadrá-los num enfoque verdadeiro.A propósito, ainda não lhes disse absolutamente nada com respeito àscircunstâncias em que podemos obter nossa mais profunda compreensão da hipotética ‘linguagem primitiva’, eao campo em que a maior parte desta sobreviveu. Até virem a conhecê-la, os senhores não poderão formaruma opinião de sua total importância. Pois esse campo é o das neuroses e seu material são os sintomas eoutras manifestações dos pacientes neuróticos, para cuja elucidação e tratamento a psicanálise foi, de fato,criada. A quarta de minhas reflexões nos leva de volta ao começo e nos conduz por nosso caminhopreviamente determinado. Eu disse [ver em [1]] que os sonhos, ainda que não houvesse censura de sonhos,não seriam facilmente inteligíveis para nós, de vez que ainda teríamos de nos defrontar com a tarefa de traduzira linguagem simbólica dos sonhos para a de nosso pensamento desperto. Assim, o simbolismo é um segundo eindependente fator de deformação de sonhos, ao lado da censura de sonhos. É plausível supor, porém, que acensura de sonhos julga conveniente fazer uso do simbolismo, porque isso conduz ao mesmo fim: o caráterestranho e incompreensível dos sonhos.Em breve ficará esclarecido se um estudo adicional dos sonhos nãonos poderá colocar em face de um outro fator que contribui para a deformação dos sonhos. Contudo, eu nãogostaria de abandonar o tema do simbolismo onírico sem mais uma vez [ver em [1] e [2]] tocar no problemasobre o modo como ele pode encontrar resistência tão acirrada em pessoas instruídas, quando a ampla difusãodo simbolismo nos mitos, na religião, na arte e na linguagem é tão inquestionável. A responsável não seránovamente sua conexão com a sexualidade? CONFERÊNCIA XI - A ELABORAÇÃO ONÍRICA SENHORAS E SENHORES: Quando tiverem compreendido adequadamente a censura de sonhos e a representação por símbolos,verdade é que ainda não terão dominado o assunto sobre a deformação em sonhos, e, não obstante, estarãoem condições de entender a maioria destes. E para isso os senhores usarão ambas as técnicascomplementares: reunir as idéias que acodem à mente do sonhador, até haverem compreendido desde a coisasubstituta até a coisa original e, fundados no próprio conhecimento dos senhores, substituir os símbolos poraquilo que representam. Mais adiante discutiremos algumas incertezas que surgem nessa correlação.Podemosagora dedicar-nos mais uma vez à tarefa que tentamos executar anteriormente com recursos inadequados,quando estudávamos as relações entre os elementos dos sonhos e as coisas originais que eles representam.Estabelecemos quatro principais relações, ou seja [ver em [1] e seg.]: relação da parte com o todo, aproximaçãoou alusão, relação simbólica e representação plástica das palavras. Agora nos propomos empreender a mesmacoisa, em escala mais ampla, comparando o conteúdo manifesto de um sonho como um todo com o sonho Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 97latente, conforme este é revelado pela interpretação.Espero que os senhores nunca mais venham a confundiressas duas coisas uma com a outra. Se alcançarem esse ponto, terão conseguido compreender melhor ossonhos do que a maioria dos leitores de meu trabalho A Interpretação de Sonhos. E permitam-me lembrar-lhesnovamente que o trabalho que transforma o sonho latente no sonho manifesto se chama elaboração onírica. Otrabalho que opera em sentido oposto, que intenta chegar ao sonho latente a partir do manifesto, é nossotrabalho interpretativo. Esse trabalho interpretativo procura decifrar a elaboração onírica. Os sonhos de tipoinfantil, que reconhecemos como evidente realizações de desejos, ainda assim sofreram determinado grau deelaboração onírica — sofreram uma transformação de desejo em experiência real e, também, via de regra, depensamentos foram transformados em imagens visuais. No caso deles, não há necessidade de interpretação,porém apenas se requer sejam desfeitas essas duas transformações. A elaboração onírica adicional que ocorreem outros sonhos denomina-se ‘deformação onírica’, e é esta que deve ser decifrada através de nosso trabalhointerpretativo. Tendo comparado as interpretações de numerosos sonhos, estou em condições de lhes apresentaruma descrição sumária daquilo que a elaboração onírica executa com o material dos pensamentos oníricoslatentes. Peço-lhes, entretanto, não procurarem entender demais acerca das coisas que lhes digo. Tratar-se-áde uma descrição que deve ser ouvida com serena atenção.A primeira realização da elaboração onírica é acondensação. Entendemos, com isso, que o sonho manifesto possui um conteúdo menor do que o latente, e é desteuma tradução abreviada, portanto. Às vezes a condensação pode estar ausente; via de regra se faz presente e,muitíssimas vezes, é enorme. Jamais ocorre uma mudança em sentido inverso; ou seja, nunca encontramos umsonho manifesto com extensão ou com conteúdo maior do que o sonho latente. A condensação se realiza dasseguintes maneiras: (1) determinados elementos latentes são totalmente omitidos, (2) apenas um fragmento dealguns complexos do sonho latente transparece no sonho manifesto e (3) determinados elementos latentes, quetêm algo em comum, se combinam e se fundem em uma só unidade no sonho manifesto.Se preferirem,podemos reservar o termo ‘condensação’ apenas para o último desses processos. Seus resultados podem serdemonstrados com especial facilidade. Os senhores não terão dificuldade em relembrar exemplos de seuspróprios sonhos, em que pessoas diferentes são condensadas em um a só. Um personagem composto, destetipo, pode, talvez, assemelhar-se a A, mas pode, talvez, assemelhar-se a A, contudo pode estar vestida comoB, executar algo que lembre C, e ao mesmo tempo podemos saber que é D. Essa estrutura compostanaturalmente está dando ênfase àquilo que as quatro pessoas têm em comum. É possível, naturalmente,formar tal estrutura composta de coisas ou de lugares, do mesmo modo que de pessoas, contanto que asdiferentes coisas e lugares tenham em comum algo que o sonho latente acentua. O processo se assemelha àconstrução de um conceito novo e transitório que tem nesse elemento comum o seu núcleo. O resultado dessasuperposição de elementos separados, que foram condensados conjuntamente, é, via de regra, uma imagemdifusa e vaga, à semelhança daquilo que sucede quando se batem diversas fotografias sobre uma mesmachapa.A produção de estruturas compostas, como essas referidas, deve ser de grande importância para aelaboração onírica, porquanto podemos demonstrar que ali onde inicialmente faltam os elementos comuns paraformá-las, estes são introduzidos deliberadamente — por exemplo, através da escolha da palavra pelas quaisum pensamento é expresso. Já encontramos condensações e estruturas compostas dessa espécie. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 98Desempenharam seu papel na produção de determinados lapsos de língua. Os senhores se recordam do jovemsenhor que se prontificou a ‘begleitdigen‘ [‘begleiten (acompanhar)’ + ‘beleidigen (insultar)’, ver em [1]] umasenhora. E, também, existem anedotas cuja técnica se baseia em uma condensação desse tipo. Salvo essescasos, porém, pode-se dizer que o processo é muito raro e estranho. É verdade que as partes componentesdestinadas a essa construção devem situar-se em algumas criações de nossa imaginação, que está prontapara combinar em uma unidade componentes de coisas que não formam conjunto em nossa experiênciacorrente — nos centauros, por exemplo, e nos animais fabulosos que aparecem na mitologia antiga ou nosquadros de Böcklin. A imaginação ‘criativa’ realmente é bastante incapaz de inventar qualquer coisa; ela podeapenas combinar entre si componentes que são estranhos. O notável no que se refere ao processo daelaboração onírica, contudo, reside no que vem a seguir. O material disponível à elaboração onírica consiste depensamentos — alguns deles podem ser censurados ou inaceitáveis, porém são corretamente construídos eexpressos. A elaboração onírica dá a esses pensamentos uma outra forma, e constitui fato singular eincompreensível que, sendo feita tal tradução (transmitindo essa mensagem, digamos assim, através de umoutro texto da linguagem), esses métodos de mistura e combinação se realizam. Afinal, uma tradução seesforça por preservar as diferenças constantes do texto original e especialmente por manter separadas ascoisas que são apenas semelhantes. A elaboração onírica, muito ao contrário, procura condensar doispensamentos diferentes buscando (como um chiste) uma palavra ambígua na qual os dois pensamentos sepossam juntar. Não preisamos tentar compreender esse aspecto de uma só vez; no entanto, ele pode serimportante em nosso estudo crítico da elaboração onírica. Embora a condensação torne os sonhos obscuros, não parece dar-nos a impressão de ela ser efeito dacensura. Antes, parece ser devida a um fator automático ou econômico, mas, em todo caso, a censura lucracom ela.Aquilo que a condensação consegue realizar pode ser bastante extraordinário. Às vezes é possível,com seu auxílio, combinar duas seqüências de pensamentos latentes muito diferentes, em um único sonhomanifesto, de modo que se pode chegar a algo que parece ser uma interpretação suficiente de sonho, e noentanto, procedendo assim, pode-se deixar de perceber uma possível ‘superinterpretação’.No que concerne àrelação entre o sonho latente e o manifesto, a condensação tem como conseqüência o estabelecimento de umarelação não-simples entre os elementos de um e de outro. Um elemento manifesto pode correspondersimultaneamente a diversos elementos latentes e, em sentido inverso, um elemento latente pode desempenharseu papel em diversos elementos manifestos — existe, por assim dizer, um relacionamento entrecruzado (verem [1]). Ademais, ao interpretar um sonho verificamos que as associações com um único elemento manifestonem sempre emergem em seqüência ordenada: muitas vezes devemos esperar até todo o sonho ter sidointerpretado.A elaboração onírica assim efetua uma espécie muito inusitada de transcrição dos pensamentosoníricos: não se trata de uma tradução palavra-por-palavra ou sinal-por-sinal; e nem se trata de uma soluçãofeita segundo normas fixas — como seria no caso de se reproduzir apenas as consoantes de uma palavra eeliminar as vogais; e também não é aquilo que se poderia descrever como solução representativa — umelemento sendo invariavelmente escolhido para tomar o lugar de vários elementos; trata-se de algo diferente emuito mais complexo.A segunda realização da elaboração onírica é o deslocamento. Felizmente já procedemosa um exame preliminar do mesmo: pois já sabemos que é inteiramente obra da censura dos sonhos. Manifesta-se de duas maneiras: na primeira, um elemento latente é substituído não por uma parte componente de si Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 99mesmo, mas por alguma coisa mais remota, isto é, por uma alusão; e, na segunda, o acento psíquico é mudadode um elemento importante para outros sem importância, de forma que sonho parece descentrado e estranho.Asubstituição de algo por meio de uma alusão constitui processo corrente também em nosso pensamentodesperto, porém existe uma diferença. No pensamento desperto, a alusão deve ser inteiramente inteligível, e osubstituto deve estar relacionado, no seu tema, com a coisa original que representa. Também os chistes fazemuso da alusão. Eles prescindem da precondição de haver uma associação no tema e a substituem porassociações externas incomuns, tais como semelhança de sons, ambigüidade verbal, e assim por diante.Conservam, contudo, a precondição de inteligibilidade: um chiste perderia toda a sua eficiência se o caminhoretroativo que vai da alusão à coisa original não pudesse ser percorrido com facilidade. As alusões usadas parafins de deslocamento nos sonhos estão livres de ambas essas restrições. Elas estão em conexão com oelemento que substituem através das relações mais externas e remotas e são, pois, ininteligíveis; e, quandosão desfeitas, sua interpretação dá a impressão de serem um mau chiste ou de constituírem uma explicaçãoaleatória e forçada, tirada não se sabe de onde. Pois a censura de sonhos só consegue seu objetivo quandoconsegue tornar impossível que se encontre o caminho desde a alusão até a coisa original.O deslocamento doacento é um método sem igual de expressar pensamentos. Algumas vezes o utilizamos no pensamentodesperto, a fim de conseguir um efeito cômico. Talvez eu possa recriar aqui a impressão de alheamentocausada por esse método recordando uma anedota. Numa aldeia havia um ferreiro que cometera um crimecapital. O júri decidiu que o crime devia ser punido; porém, como o ferreiro era o único na aldeia e eraindispensável, e como, por outro lado, lá viviam três alfaiates, um destes foi enforcado em seu lugar. A terceira realização da elaboração onírica é psicologicamente a mais interessante. Consiste emtransformar pensamentos em imagens visuais. Deixemos claro que essa transformação não afeta tudo nospensamentos oníricos; alguns deles conservam sua forma e aparecem no sonho manifesto também comopensamentos ou conhecimentos; e nem são as imagens visuais a única forma na qual os pensamentos setransformam. Ainda assim, eles enfeixam a essência da formação dos sonhos; essa parte da elaboraçãoonírica, como já sabemos, é a segunda parte mais constante [ver em [1] e [2]] e já nos familiarizamos com arepresentação gráfica das palavras no caso dos elementos oníricos isolados [ver em [1] e [2]].Claro que essarealização não é fácil. Para termos uma idéia de suas dificuldades, suponhamos que os senhores tivessemassumido a tarefa de substituir um editorial político, em um jornal, por uma série de ilustrações. Os senhoresteriam de retroceder da escrita alfabética para a escrita pictográfica. Em um tal artigo mencionando pessoas eobjetos concretos, os senhores os substituiriam com facilidade e talvez até mesmo com vantagem, por meio defiguras; contudo, as dificuldades começariam quando se tratasse da representação de palavras abstratas e detodos aqueles componentes do discurso que indicam relações entre pensamentos — tal como partículas,conjunções, e assim por diante. No caso de palavras abstratas os senhores conseguirão recorrer a umavariedade de soluções. Por exemplo, os senhores se esforçariam por dar ao texto um enunciado diferente, quetalvez pudesse parecer menos usual, porém com mais componentes concretos e possíveis de serrepresentados. Então os senhores se lembrariam de que a maioria das palavras abstratas são palavrasconcretas ‘diluídas’, e, por essa razão, teríamos que retroceder, sempre que possível, à significação concretaoriginal de tais palavras. Assim, os senhores teriam o prazer de constatar que podem representar ‘a possessão’de um objeto pela ação real, física, de estar sentado sobre o mesmo. E a elaboração onírica executa Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 100justamente a mesma coisa. Em tais circunstâncias, dificilmente poderiam esperar uma grande precisão daquiloque os senhores representassem: de forma semelhante perdoariam a elaboração onírica por substituir umelemento tão difícil de traduzir em imagens, como, por exemplo, ‘adultério’ [‘Ehebruch‘, literalmente ‘quebra docasamento’] por outra quebra: a fratura de uma perna [‘Beinbruch‘]. E dessa forma os senhores conseguiriam,até certo ponto, compensar a falta de habilidade expressiva da escrita pictórica que estaria supostamentesubstituindo a escrita alfabética.Para representar aquelas partes do discurso que indicam relações entrepensamentos — ‘porque’, ‘portanto’, ‘entretanto’, etc. — os senhores não poderiam contar com semelhanteajuda à sua disposição; esses constituintes do texto se perderiam à medida que a tradução os transformasseem imagens. Da mesma forma, a elaboração onírica reduz o conteúdo dos pensamentos oníricos à suamatéria-prima de objetos e de atividade. Os senhores se dariam por satisfeitos com haver uma possibilidade de,por alguma forma, deixar entrever, através de sutis detalhes das figuras, determinadas relações não em sicapazes de ser representadas. E é precisamente assim que a elaboração onírica consegue expressar algo doconteúdo dos pensamentos oníricos latentes por meio de peculiaridades na forma do sonho manifesto: por suaclareza ou obscuridade, por sua divisão em diversas partes, e assim por diante. O número de partes oníricasem que se divide um sonho geralmente corresponde ao número dos temas principais dos pensamentos nosonho latente. Um sonho introdutório curto freqüentemente faz as vezes de prelúdio a um sonho seguinte maisdetalhado, o sonho principal, ou pode proporcionar o motivo para o mesmo; uma oração subordinada nospensamentos oníricos será substituída pela interpolação de uma mudança de cena no sonho manifesto, eassim por diante. Logo, a forma dos sonhos está longe de não ter alguma importância, e essa mesma formaexige interpretação. Quando diversos sonhos ocorrem durante a mesma noite, têm freqüentemente a mesmasignificação e indicam que está sendo feita uma tentativa de manejar cada vez mais eficazmente um estímulode crescente insistência. Em sonhos separados, um elemento especialmente difícil pode estar representado pordiversos símbolos — por ‘dobletes’.Se fizermos uma série de comparações entre os pensamentos oníricos e ossonhos manifestos que os substituem, encontraremos toda sorte de coisas para as quais estamosdespreparados: por exemplo, que o disparate e o absurdo dos sonhos possuem seu significado. Neste aspecto,com efeito o contraste entre a visão médica e a psicanalítica dos sonhos apresenta uma discordância que nãose encontra em qualquer outra área. Segundo o ponto de vista médico, os sonhos são desprovidos de sentidoporque a atividade mental nos sonhos abandonou todas as suas faculdades de crítica; segundo nosso ponto devista, pelo contrário, os sonhos se tornam carentes de sentido quando uma parcela de crítica, incluída nospensamentos oníricos — um julgamento de que ‘isso é absurdo’ —, tem de ser representada. O sonho que ossenhores conhecem, aquele da ida ao teatro (‘três ingressos por 1,50 florim’) [ver em [1]], é um bom exemplodisso. O julgamento que expressou era: ‘foi absurdo casar tão cedo.’De forma semelhante, no decurso denosso trabalho interpretativo, percebemos o que é que corresponde às dúvidas e incertezas, que tantas vezesse expressam nos sonhos, dúvidas sobre saber se determinado elemento ocorreu em um sonho, se foi isso ouse, pelo contrário, foi alguma outra coisa. Via de regra, nos pensamentos oníricos latentes não há nadacorrespondente a essas dúvidas e incertezas; estas se devem à atividade da censura de sonhos e devem seridentificadas como tentativas de eliminação que não tiveram muito êxito.Entre os achados mais surpreendentesencontra-se a maneira como a elaboração onírica trata os contrários que ocorrem nos sonhos latentes. Jásabemos [ver em [1] e [2]] que as semelhanças no material latente são substituídas por condensações no Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 101sonho manifesto. Pois bem, os contrários são tratados da mesma forma que as semelhanças, e existe umaespecial preferência por expressá-los pelo mesmo elemento manifesto. Assim, um elemento no sonhomanifesto, capaz de ter o seu contrário, com igual facilidade pode estar se expressando a si próprio, ou seucontrário, ou ambos conjuntamente: apenas o sentido pode decidir qual a versão que se deve escolher. Isto sevincula com o fato adicional de que, nos sonhos, não se encontrará uma representação para ‘não’ — ou, dequalquer modo, uma representação isenta de ambigüidade.Uma oportuna analogia com esse estranhocomportamento da elaboração onírica nos é proporcionada com a evolução da linguagem. Alguns filólogos têmafirmado que, nos idiomas mais antigos, os contrários, tais como ‘forte-fraco’, ‘claro-escuro’, ‘grande-pequeno’,são expressos pelas mesmas raízes verbais. (É o que denominamos ‘significação antitética de palavrasprimitivas’.) Assim, no idioma egípcio antigo, ‘ken‘ originalmente significava ‘forte’ e ‘fraco’. No falar, evitam-seos equívocos, provenientes do uso dessas palavras ambivalentes, através de diferenças de entonação e degestos concomitantes, e, no escrever, pelo acréscimo de algo chamado ‘determinativo’— uma figura que não sedestina a ser falada. Por exemplo, ‘ken‘ com a significação de ‘forte’ era escrito com a figura de um homenzinhona vertical, após os sinais alfabéticos; quando ‘ken‘ representava ‘fraco’, o que se seguia era a figura de umhomem instavelmente agachado. Foi somente mais tarde, por meio de ligeiras modificações da palavrahomóloga original, que se chegou a duas representações distintas para expressar os contrários nela incluídos.Foi assim que de ‘ken‘ ‘forte-fraco’ derivaram ‘ken‘ ‘forte’ e ‘kan‘ ‘fraco’. Os remanescentes dessa significaçãoantitética antiga parecem ter sido conservados não somente nas mais recentes evoluções dos idiomas maisprimitivos como também nos idiomas mais novos e até mesmo em algumas línguas ainda vivas. Aqui estãoalgumas provas disso, retiradas de K. Abel (1884).No latim, palavras que permaneceram ambivalentes são‘altus‘ (‘alto’ e ‘profundo’) e ‘sacer‘ (‘sagrado’ e ‘maldito’).Como exemplos de modificações da mesma raiz,posso mencionar ‘clamare‘ (‘chorar’), ‘clam‘ (‘macio’, ‘sossegado’, ‘secreto’); ‘siccus‘ (‘seco’), ‘succus‘ (‘suco’). Eem alemão: ‘Stimme‘ [‘voz’], ‘stumm‘ [‘mudo’].Se compararmos línguas afins, encontraremos numerososexemplos. Em inglês ‘to lock’ (‘fechar’), em alemão ‘Loch‘ [‘buraco’] e ‘Lücke‘ [‘fresta’]. Em inglês, ‘to cleave’; emalemão ‘kleben‘ [‘aderir‘].A palavra inglesa ‘without’ (que é realmente ‘withwithout’, ‘com — sem’) é empregadaatualmente apenas como ‘without’ (‘sem’). O ‘with’, além de seu sentido de combinar, originalmente tinhatambém o de remover; isso ainda se percebe nos compostos ‘withdraw’ (‘remover’) e ‘withhold’ (‘reter’). Demaneira semelhante, em alemão ‘wieder‘ [‘junto com’] e ‘wider‘ [‘contra’].Outra característica da elaboraçãoonírica também tem seu correspondente na evolução da linguagem. No antigo idioma egípcio, assim como emoutras línguas menos primitivas, a ordem dos sons numa palavra pode ser invertida, ao mesmo tempoconservando a mesma significação. Constituem exemplos disso, no inglês e no alemão. ‘Topf‘ — [‘pot’](‘panela’); ‘boat‘ (‘barco’) — ‘tub’ (‘banheira’, ‘barco para prática de remo’); ‘hurry’ (‘pressa’) — ‘Ruhe‘ [‘rest’](‘descanso’); ‘Balken‘ [‘beam’] (‘viga’) — ‘Kloben‘ [‘log’] (‘tora’, ‘madeira’) e ‘club’ (‘clava’); ‘wait‘ (‘esperar’) —‘täuwen‘ [‘tarry‘] (‘esperar’, ‘demorar-se’). De maneira semelhante, encontramos no latim e no alemão: ‘capere‘— ‘packen‘ [‘pegar’]; ‘ren‘ — ‘Niere‘ [‘rim’].Inversões, como essas que ocorrem aqui, em palavras isoladas,efetuam-se de várias maneiras na elaboração onírica. Já conhecemos a inversão de significado, a substituiçãode algo pelo seu oposto [ver em [1] e [2]]. Ademais disso, nos sonhos encontramos diversões de situações, darelação entre duas pessoas — um mundo ‘virado de pernas para o ar’. Muito freqüentemente, em sonhos é acaça que atira no caçador. Ou então encontramos uma inversão na ordem dos eventos, de modo que aquilo Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 102que precede causalmente um evento ocorre depois do mesmo, no sonho — como uma produção teatralrealizada por uma companhia de terceira categoria, na qual o herói cai morto e o tiro que o matou não édetonado nos bastidores senão bem depois. E também há sonhos nos quais a ordem total dos elementos seencontra invertida de forma que, para se obter sentido, quando de sua interpretação, devemos tomar o últimoelemento em primeiro lugar e o primeiro, em último. Os senhores também recordam, de quando estudamos osimbolismo dos sonhos, que entrar ou cair na água significa o mesmo que sair dela — -isto é, dar à luz ounascer [ver em [1]], e que subir uma escadaria ou uma escada é a mesma coisa que descê-la [ver em [1]]. Nãoé difícil ver qual a vantagem que a deformação onírica pode auferir desta liberdade de representação.Estesaspectos da elaboração onírica podem ser descritos como arcaicos. São igualmente característicos dossistemas antigos de expressão falada e escrita e importam nas mesmas dificuldades que teremos de abordar,mais adiante, em um sentido crítico.Agora, mais algumas considerações. No caso da elaboração onírica, trata-se claramente da questão de transformar os pensamentos latentes, que são expressos em palavras, emimagens sensoriais, a maioria na forma de imagens visuais. Ora, nossos pensamentos originalmente surgiramde imagens sensoriais desta espécie: seu primeiro material e seus estádios preliminares foram impressões dossentidos, ou, mais propriamente, imagens mnêmicas dessas impressões. Somente mais tarde as palavrasforam vinculadas a essas impressões e as palavras, por sua vez, vincularam-se a pensamentos. Assim, aelaboração onírica submete os pensamentos a um tratamento regressivo e desfaz a sua evolução; e, nodecorrer da regressão, tem de ser eliminado tudo o que foi acrescido como aquisição nova no decorrer daevolução das imagens mnêmicas para pensamentos.Tal parece ser, pois, a elaboração onírica. Em comparaçãocom os processos que nela vimos a conhecer, o interesse pelo sonho manifesto deve perder muito de suaimportância. Mas dedicarei alguns comentários a este último, pois é dele, somente, que temos conhecimentoimediato.É natural devermos perder algo do interesse pelo sonho manifesto. Para nós será indiferente se eleestá bem composto, ou se está fracionado em uma série de quadros separados e desconexos. Mesmo quandopossui um exterior aparentemente inteligível, sabemos que isso somente se fez pela deformação onírica, epode ter tão pouca relação orgânica com o conteúdo interno do sonho, como a fachada de uma igreja italianacom uma estrutura e sua planta. Outras ocasiões há em que esta fachada do sonho tem sua significação, ereproduz um importante componente dos pensamentos oníricos latentes com pouca ou nenhuma deformação.Mas isso não podemos saber sem primeiro termos submetido o sonho à interpretação e podermos formar umjulgamento, a partir dessa interpretação, do grau de deformação que se realizou. Dúvida semelhante surgequando dois elementos em um sonho parecem ter entrado em relação íntima um com o outro. Isso talvez nosforneça um valioso indício de que podemos juntar também no sonho latente aquilo que corresponde a esseselementos. Em outras ocasiões, porém, podemos nos convencer de que aquilo que é da mesma classe, nospensamentos oníricos, foi disposto separadamente no sonho.Em geral, deve-se evitar a tentativa de explicaruma parte do sonho manifesto por outra, como se o sonho tivesse sido concebido coerentemente e fosse umanarrativa com ordenação lógica. Pelo contrário, via de regra, é como um pedaço de brecha, composto dediversos fragmentos de rocha unidos por um cimento, de modo que os desenhos que nele aparecem nãopertencem às rochas originais inclusas. E há realmente uma parte da elaboração onírica, conhecida como‘elaboração secundária’, cuja função é conferir um aspecto de unidade e maior ou menor coerência aos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 103produtos primários da elaboração onírica. No transcorrer desta, o material é arranjado segundo o que amiúde éum sentido totalmente confuso, e, onde parece necessário, são feitas interpolações. Por outro lado, não devemos superestimar a elaboração onírica e atribuir-lhe demasiada importância.As suas realizações, que citei, resumem toda a sua atividade; ela não pode fazer mais que condensar,deslocar, representar em forma plástica e submeter o todo a uma elaboração secundária. O que no sonhoaparece como expressão de julgamento, crítica, surpresa ou interferência — nada disso são realizações daelaboração onírica e muito raramente são expressões de pensamentos subseqüentes referentes ao sonho; nasua maioria, são parcelas de pensamentos oníricos que passaram para o sonho manifesto com maior ou menorgrau de modificação e adaptação ao contexto. E a elaboração onírica não consegue formar discursos. Comalgumas exceções destacadas, os discursos nos sonhos são cópias e combinações de discursos que alguémouviu ou enunciou para si próprio no dia anterior ao sonho e que foram incluídos nos pensamentos latentes, oucomo material ou como instigadores dos sonhos. A elaboração onírica também é incapaz de efetuar cálculos.Estes, quando surgem no sonho manifesto, são, na maioria, combinações de números, cálculos simulados,muito desprovidos de sentido enquanto cálculos e, mais uma vez, apenas cópias de cálculos dos pensamentosoníricos latentes. Nessas circunstâncias, não é de admirar se o interesse, que se havia voltado para aelaboração onírica, logo tende a se deslocar desta para os pensamentos oníricos latentes, que se revelam,deformados em grau maior ou menor, através do sonho manifesto. Mas não existe justificativa para levar tãolonge essa mudança de interesse a ponto de, considerando o assunto teoricamente, substituir o sonho,completamente, pelos pensamentos oníricos latentes e afirmar sobre aquele alguma coisa que se aplicaexclusivamente a estes. É estranho que os achados da psicanálise possam prestar-se a um mau uso quepossibilite confusões. Não se pode dar o nome de ‘sonho’ a nenhuma outra coisa que não seja produto daelaboração onírica — isto é, a forma em que os pensamentos latentes foram transmutados pela elaboraçãoonírica. [ver em [1] e segs.]A elaboração onírica é um processo de tipo muito singular, do qual ainda não se temconhecido similar na vida mental. Condensações, deslocamentos, transformações regressivas de pensamentosem imagens: eis os novos fatos cuja descoberta premiou abundantemente os esforços da psicanálise. E ossenhores podem constatar, uma vez mais, a partir das comparações com a elaboração onírica, as conexõesque se revelaram entre os estudos psicanalíticos e outros campos do conhecimento — especialmente osreferentes à evolução da linguagem e do pensamento. Somente poderão formar uma idéia da transcendenteimportância destas descobertas quando aprenderem que o mecanismo da construção onírica é o modelosegundo o qual se formam os sintomas neuróticos.Também estou cônscio de que ainda não estamos emcondições de fazer um apanhado geral do total das novas aquisições com que estes estudos contribuíram paraa psicologia. Apenas quero assinalar as recentes provas que eles proporcionaram da existência de atosmentais inconscientes — pois é isto que são os pensamentos oníricos latentes — e assinalar quão inimaginávele amplo acesso a um conhecimento da vida mental inconsciente nos promete a interpretação de sonhos.Agora,contudo, sem dúvida chegou a minha ocasião de demonstrar-lhes, dentre uma variedade de pequenosexemplos de sonhos, para que fim estive preparando os senhores no decorrer destes comentários. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 104 CONFERÊNCIA XII - ALGUMAS ANÁLISES DE AMOSTRAS DE SONHOS SENHORAS E SENHORES: Não devem ficar desapontados se, mais uma vez, apresento-lhes fragmentos de interpretações desonhos, em vez de convidá-los a tomar parte na interpretação de um lindo e grande sonho. Os senhoresargumentarão que, após tantos preparativos, têm esse direito, e expressarão sua convicção de que, depois detantos milhares de sonhos terem sido exitosamente interpretados, já há muito tempo deveria ter sido possívelhaver juntado uma coleção de excelentes amostras de sonhos sobre as quais todas as nossas assertivasreferentes à elaboração onírica e aos pensamentos oníricos pudessem ser demonstradas. Certo. Asdificuldades que se opõem à realização do desejo dos senhores, todavia, são muitas. Em primeiro lugar, devo admitir que ninguém efetua interpretação de sonhos como sua atividadeprincipal. Como ocorre, então, que as pessoas os interpretam? Ocasionalmente, sem nenhum objetivo em vista,alguém pode se interessar por sonhos de um conhecido seu, ou alguém pode esquadrinhar seus própriossonhos durante algum tempo a fim de preparar-se para o trabalho psicanalítico; mas, na maior parte das vezes,aquilo com que se tem de lidar são os sonhos de pacientes neuróticos que estão em tratamento psicanalítico.Esses sonhos constituem excelente material e de modo algum são inferiores aos de pessoas sadias; a técnicado tratamento, porém, requer que subordinemos a interpretação de sonhos aos objetivos terapêuticos, e temosde permitir que bom número de sonhos tenha sido examinado até havermos extraído dos mesmos algumacoisa de utilidade para o tratamento. Alguns sonhos que ocorrem durante o tratamento escapam inteiramente auma análise completa: de vez que se originam de um grande acervo de material que ainda nos é desconhecido,é impossível entendê-los antes de o tratamento chegar ao término. Se eu fosse relatar sonhos deste tipo, seriaobrigado a desvendar também todos os segredos de uma neurose; e isto não nos servirá, pois foi precisamentea fim de preparar-nos para o estudo das neuroses que enfrentamos o problema dos sonhos. Os senhores, entretanto, gostariam de dispensar essa parte e prefeririam que lhes fosse dada umaexplanação dos sonhos de pessoas sadias ou de sonhos dos senhores mesmos. Isto, contudo, não pode serfeito por causa de seu conteúdo. É impossível submeter seja a si mesmo, seja qualquer outra pessoa de cujaconfiança se desfruta, a uma exposição impiedosa que adviria a da análise detalhada de seus sonhos, os quais,como os senhores já sabem, referem-se à parte mais íntima da personalidade. Mas existe ainda outradificuldade que se opõe, afora a de fornecer material. Os senhores sabem que os sonhos apresentam umaaparência estranha para o próprio sonhador, e ainda mais estranha para quem quer que não o conheçapessoalmente. Nossa bibliografia não é pobre de boas e detalhadas análises de sonhos. Eu mesmo publiqueialgumas, dentro do quadro referencial dos casos clínicos. Talvez o melhor exemplo de interpretação de umsonho seja o que foi relatado por Otto Rank [1910b], consistindo em dois sonhos inter-relacionados, tidos poruma jovem, que ocupam cerca de duas páginas impressas: mas sua análise vai a setenta e seis páginas.Assim, eu deveria necessitar de cerca de um semestre inteiro para conduzi-los através de um único trabalhodessa espécie. Se se tomar qualquer sonho relativamente longo e muito deformado, há que fornecer tantasexplicações do mesmo, levantar tanto material que surge no curso das associações e das recordações, seguirtantas vias secundárias, que uma conferência a respeito dele seria muito confusa e insatisfatória. Devo,portanto, pedir-lhes que se contentem com o que se pode ter com mais facilidade: uma descrição de pequenas Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 105parcelas de sonhos de pacientes neuróticos, em que é possível reconhecer este ou aquele ponto isoladamente.O que é mais fácil de demonstrar são os símbolos oníricos e, depois destes, algumas características darepresentação regressiva nos sonhos. No caso de cada um dos sonhos que se seguem, indicarei o motivo porque penso valer a pena relatá-lo. (1) Este sonho consiste em apenas dois quadros breves: O tio dele estava fumando um cigarro, emborafosse sábado. — Uma mulher o acariciava e o acarinhava [ao sonhador] como se fosse seu filho. Com referência ao primeiro quadro, a pessoa que sonhou (um judeu) comentou que seu tio era umhomem piedoso, que nunca fizera e jamais poderia fazer algo assim pecaminoso. No que concerne à mulher,no segundo quadro, não lhe ocorreu nada à mente, exceto sua mãe. Esses dois quadros ou pensamentosdevem evidentemente ser vistos um em relação ao outro. Mas, como? Visto que ele negou expressamente arealidade da ação de seu tio, é plausível inserir um ‘se’. ‘Se meu tio, este homem piedoso, viesse a fumar umcigarro em dia de sábado, então eu também poderia permitir-me ser acarinhado pela minha mãe.’ Isto significa,evidentemente, que trocar carícias com sua mãe se constituía em algo não permissível como não seriapermissível a um judeu piedoso fumar no sábado. Os senhores se lembram de que eu lhes disse [ver em [1] e[2]] que no decurso da elaboração onírica todas as relações entre os pensamentos oníricos são eliminadas;elas se dissipam dentro da matéria-prima destes e compete à interpretação reinserir as relações omitidas. (2) Em conseqüência de minhas publicações sobre sonhos, tornei-me, em certo sentido, consultorpúblico sobre assuntos referentes a eles, e, por muitos anos, venho recebendo comunicações das maisvariadas origens, em que sonhos me são relatados ou submetidos a meu julgamento. Naturalmente, sou grato atodo aquele que acrescenta ao sonho material suficiente para possibilitar uma interpretação, ou que dá, elepróprio, uma interpretação. O sonho que se segue, sonhado por um estudante de medicina de Munique, edatando do ano de 1910, enquadra-se nesta categoria. Apresento-o para lhes mostrar como, em geral, éimpossível compreender um sonho enquanto o sonhador não nos der as informações pertinentes. Pois suspeitoque, no fundo, os senhores pensam que o método ideal de interpretação de sonhos consistiria em preencher asignificação dos símbolos e que gostariam de prescindir da técnica de obter associações com os sonhos; eestou desejoso de dissuadi-los desse equívoco nocivo.‘13 de julho de 1910. Pela manhã, tive este sonho: Euestava andando de bicicleta por uma rua de Tübingen, quando um cão rasteiro, de cor marrom, se lançou aomeu encalço e me atacou no calcanhar. Logo desci da bicicleta, sentei num degrau e comecei a espancar oanimal que me mordia com firmeza. (Não tive qualquer sentimento desagradável nem pela mordida nem pelacena como um todo.) Algumas senhoras mais idosas estavam sentadas no outro lado da rua, em frente, e riamde mim, mostrando os dentes. Então acordei e, como tantas vezes me aconteceu, no momento da transiçãopara o despertar, o sonho todo se me tornou claro.’ Aqui os símbolos são de pouca ajuda. O mesmo estudante, porém, relatou: ‘Recentemente, meapaixonei por uma jovem, mas apenas pude vê-la na rua e não tive meios de falar-lhe. O cão rasteiro poderiaser o meio mais agradável de conseguir isso, especialmente porque tenho grande afeição por animais e gosteidessa mesma característica na jovem.’ Acrescentou que ele repetidamente havia intervindo em furiosas brigasde cães, com grande habilidade, e muitas vezes para surpresa dos circunstantes. Sabemos também que ajovem, pela qual ele se sentia atraído, sempre era vista na companhia de seu cão de estimação. No que tangeo sonho manifesto, porém, a jovem foi omitida e somente restou o cão, que ele associava a ela. As senhoras de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 106idade, que se riam dele, talvez possam estar em lugar da jovem. Seus outros comentários não esclareceramadequadamente este ponto. O fato de, no sonho, ele estar andando de bicicleta, é uma repetição direta dasituação recordada. Ele nunca encontrou a jovem com o cão, a não ser quando ele estava andando de bicicleta. (3) Quando se perde alguém que é de nossas relações e nos é caro, surgem sonhos de um tipoespecial, durante algum tempo após, nos quais o conhecimento da morte chega às mais estranhas conciliaçõescom a necessidade de trazer novamente à vida a pessoa morta. Em alguns desses sonhos, a pessoa quemorreu está morta e ao mesmo tempo permanece viva porque não sabe que está morta; somente se soubesse,morreria completamente. Em outros, a pessoa está meio morta e meio viva, e cada um desses estados vemindicado por uma forma particular. Não devemos descrever esses sonhos como simplesmente absurdos; poisser devolvido novamente à vida não é mais inconcebível nos sonhos do que o é, por exemplo, em contos defadas, nos quais isso ocorre como fato muito rotineiro. Sempre que pude avaliar tais sonhos, constatei que elessão passíveis de uma solução racional; contudo, o piedoso desejo de fazer retornar à vida a pessoa mortaconseguiu operar pelos mais estranhos meios. Apresentar-lhes-ei agora um sonho desse tipo, que parece tãoesquisito e absurdo, e, no entanto, sua análise lhes mostrará muitas coisas para as quais nossas explicaçõesteóricas os terão preparado. É o sonho de um homem que havia perdido seu pai, vários anos antes: Seu pai estava morto, mas havia sido exumado e parecia estar mal. Tinha estado vivendo desde entãoe o homem, no sonho, fazia todo o possível para evitar que o pai percebesse. (O sonho continuava com outrosassuntos, aparentemente muito diferentes.) Seu pai estava morto; sabemos disso. O ter sido exumado não corresponde à realidade; e não havianada de realidade em tudo o que se seguia. O sonhador, porém, relatou que, após ter voltado dos funerais dopai, um de seus dentes começou a doer. Ele queria tratar o dente segundo o preceito da doutrina judaica: ‘Seteu dente incomoda, arranca-o!’ E ele foi ao dentista. Mas o dentista disse: ‘Não se arranca um dente. Deve-seter paciência com ele. Porei dentro dele algo que o mate; volte em três dias e eu o extrairei.’ ‘Esse “extrair”’, disse o homem que teve o sonho, ‘é exumar!’ Será que o homem estava certo do que dizia? Isso apenas se adapta mais ou menos, nãocompletamente; pois não foi extraído o dente, foi extraído apenas algo nele que morrera. No entanto,imprecisões deste tipo podem, com prova em outras experiências, ser atribuídas à elaboração onírica. Sendoassim, o homem que teve este sonho condensara seu pai morto e o dente que havia sido morto, porémconservado; ele os fundiu numa unidade. Não é de causar admiração, portanto, que algo de absurdo emergisseno sonho manifesto, de vez que, afinal, nem tudo que se disse do dente poderia ajustar-se a seu pai. Ondepode haver, talvez, um tertium comparationis [ver em [1], anterior] entre o dente e seu pai, para que se tornassepossível a condensação? Entretanto, sem dúvida ele deve ter tido razão, pois prosseguiu dizendo que sabia que sonhar com aqueda de um dente significa que se vai perder um membro da família. Essa interpretação popular, como sabemos, é incorreta, ou, pelo menos, correta somente em sentidogrosseiro. Todos ficaremos muito surpresos por encontrar, pois, o assunto assim abordado reaparecendo agoraem outras partes do conteúdo do sonho.Este sonhador, sem nenhum outro encorajamento, começou a falar nadoença e na morte de seu pai, bem como a respeito de suas próprias relações com ele. Seu pai esteve doentedurante longo tempo, e os cuidados e o tratamento tinham-lhe custado (ao filho) grande soma de dinheiro. Não Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 107obstante, nunca era demais, ele jamais se impacientou, jamais desejou que, afinal, tudo pudesse logo chegarao fim. Orgulhava-se de sua verdadeira dedicação filial judaica para com o pai, de sua estrita obediência à leijudaica. E aqui nos surpreendemos com uma contradição existente nos pensamentos pertinentes ao sonho. Elehavia identificado o dente com seu pai. Devia proceder com o dente segundo a lei judaica que lhe ordenavaarrancá-lo se lhe causasse dor ou incômodo. Desejava também proceder do mesmo modo com seu pai,segundo os preceitos da lei; neste caso, porém, ela lhe ordenava não poupar gastos nem atribulações, assumirtodo o encargo sobre si mesmo e não permitir que alguma intenção hostil emergisse contra o objeto que lheestava causando sofrimento. Será que as duas atitudes não teriam sido conciliadas muito maisconvincentemente, se ele tivesse realmente desenvolvido sentimentos para com seu pai doente semelhantesàqueles com relação a seu dente doente — isto é, se tivesse desejado que a morte se antecipasse e pusessefim à sua existência desnecessária dolorosa e custosa? Não duvido de que era esta, realmente, sua atitude para com seu pai durante a fatigante doença, e quesuas altivas afirmações de amor filial se destinavam a desviá-lo dessas lembranças. Sob essas condições, odesejo de morte contra um pai está pronto a entrar em atividade e esconder-se sob o disfarce dessas reflexõescaridosas tais como ‘seria um feliz alívio para ele’. Mas, por favor, observem que, nisso, ultrapassamos umabarreira existente nos próprios pensamentos oníricos latentes. Sem dúvida, a primeira parte dos mesmosesteve inconsciente apenas temporariamente, isto é, durante a construção do sonho; seus impulsos hostiscontra o pai, contudo, devem ter sido permanentemente inconscientes. Podem ter-se originado de cenas de suainfância e, ocasionalmente, emergiram como conscientes, tímida e disfarçadamente, durante a doença do pai.Isto podemos afirmar, com grande certeza; acerca de outros pensamentos latentes que contribuíraminequivocamente para o conteúdo do sonho. Nada, realmente, deve ser descoberto, no sonho, sobre seusimpulsos hostis para com seu pai. Se, porém, procurarmos na infância as raízes dessa hostilidade contra umpai, nos recordaremos de que o medo ao pai tem início nos primeiros anos de vida, porque este se opõe àsatividades sexuais do menino, exatamente como terá de acontecer mais uma vez, por motivos sociais, após aidade púbere. Essa relação com o pai aplica-se também a esse nosso sonhador: o amor pelo pai incluía umaestranha mescla de reverência e temor, que tinha sua origem no fato de, quando menino, por meio deameaças, ter sido tolhido em sua atividade sexual.As frases restantes do sonho manifesto podem serexplicadas, agora, em relação ao complexo da masturbação. ‘Ele parecia estar mal‘ é realmente uma alusão auma outra observação do dentista no sentido de que parece mau alguém perder um dente nessa parte da boca;mas refere-se, ao mesmo tempo, ao ‘parecer estar mal’ pelo qual um jovem, na puberdade, revela, ou receiarevelar, sua atividade sexual excessiva. Não foi sem alívio para seus próprios sentimentos que, no conteúdomanifesto, este que sonhou deslocou o ‘parecer estar mal’ de si mesmo para seu pai — um dos tipos deinversão feitos pela elaboração onírica, que os senhores já conhecem [ver em [1]]. ‘Tinha estado com vidadesde então‘ coincide com o desejo de trazer de volta à vida, assim como coincide com a promessa do dentistade que o dente sobreviveria. A frase ‘o sonhador fazia todo o possível para evitar que ele (o pai) percebesse‘ émuito sutilmente arquitetada para nos desorientar, fazendo-nos pensar que ela deveria ser completada com aspalavras ‘que ele estava morto’. A única completação, entretanto, que faz sentido, provém, uma vez mais, docomplexo de masturbação; em relação a isto, é evidente que o jovem fez tudo quanto pôde para ocultar de seupai sua vida sexual. E, finalmente, lembrem-se de que sempre devemos interpretar os chamados ‘sonhos com Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 108um estímulo dental’ como sendo relacionados com masturbação e com o temido castigo correspondente. [verem [1].] Agora podem ver como esse sonho incompreensível se efetuou. Fez-se produzindo uma condensaçãoestranha e desorientadora, desprezando todos os pensamentos que estavam no centro do processo depensamentos latentes e criando substitutos ambíguos para os mais profundos e cronologicamente maisremotos desses pensamentos.(4) Já tentamos, repetidamente, chegar a compreender os sonhos triviais ecomuns, que nada têm de absurdo ou estranho em sua aparência, mas nos fazem perguntar por que alguémiria sonhar com matéria tão indiferente assim. [ver em [1], [2] e [3].] Por isso lhes ofereço outro exemplo destetipo, três sonhos em interconexão, tidos por uma jovem senhora em uma só noite.(a) Ela estava caminhandopelo salão de sua casa e bateu com a cabeça num lustre que pendia a baixa altura, e começou a sangrar.Nenhuma reminiscência, nada que lhe houvesse realmente acontecido. As informações que deu, em respostaao sonho, conduziram a direções bem diferentes. ‘O senhor sabe como meu cabelo está caindo. “Minha filha”,disse-me, ontem, minha mãe, ‘use isso continua desse jeito você vai ficar com a cabeça tão lisa como umtraseiro.” ‘Dessa forma, aqui a cabeça está em lugar da outra extremidade do corpo. Podemos entender olustre, sem qualquer ajuda, como sendo um símbolo: todos os objetos capazes de serem encompridados sãosímbolos do órgão masculino [ver em [1]]. Tratava-se, portanto, da questão do sangramento na extremidadeinferior do corpo, decorrência de contato com o pênis. Isto ainda poderia ser ambíguo. Suas posterioresassociações mostraram que estava em questão algo referente à crença de que o sangramento menstrual seorigina da relação sexual com um homem — um fragmento de teoria sexual que conta com muitas crentes fiéisentre jovens imaturas. (b) Ela via, no parreiral, um buraco fundo que ela sabia ter sido causado pelo arrancamento de umaárvore. Acrescentou um comentário de que a árvore estava faltando. Ela quis dizer que não tinha visto a árvore,no sonho; mas as mesmas palavras serviram para exprimir um outro pensamento que tornou a interpretação desímbolos muito certa. O sonho se referia a uma outra parte da teoria sexual — a crença de que as meninasoriginalmente tinham os mesmos genitais que os meninos, e que sua forma ulterior foi conseqüência dacastração (o arrancamento de uma árvore). (c) Ela estava de pé, em frente à gaveta de sua escrivaninha, que ela conhecia tão bem a ponto depoder dizer imediatamente se alguém ali havia penetrado. Como todas as gavetas, cofres e caixas, a gaveta daescrivaninha significava os genitais femininos [ver em [1]]. Ela sabia que os sinais de relação sexual (e,segundo pensava, de tocar) podiam ser observados nos genitais, e por muito tempo havia temido taldescoberta. Em todos estes três sonhos, penso que a ênfase deve ser posta no conhecimento. Ela estavarecordando o período de suas investigações sexuais, quando era criança, de cujo resultado, naqueles tempos,muito se orgulhava.(5) Aqui se apresenta mais um pouco de simbolismo. Desta vez, porém, devo começar comum breve preâmbulo da situação psíquica. Um cavalheiro, que havia passado a noite mantendo relaçõessexuais com uma mulher, descreveu-a como uma dessas personagens maternas em quem o desejo por umfilho irrompe irresistivelmente na relação com um homem. As circunstâncias desse encontro, no entanto,exigiam uma precaução que impedisse o sêmen fertilizante de atingir o útero da mulher. Ao acordar, após essanoite, a mulher relatou o seguinte sonho: Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 109 Um oficial, com uma capa vermelha, corria atrás dela na rua. Ela fugia dele, e subiu correndo osdegraus, e ele sempre atrás. Ofegante, chegou a sua casa, bateu a porta atrás de si e trancou-a. Elepermaneceu do lado de fora e, quando ela olhou através da vigia da porta, ele estava sentado num banco echorava. Sem dúvida, os senhores reconhecerão a perseguição pelo oficial com a capa vermelha e a subidaofegante dos degraus da escada como representação do ato sexual [ver em [1]]. O fato de ter sido a própriamulher do sonho que se trancou a si mesma para se livrar de seu perseguidor servirá como exemplo dasinversões tão comumente utilizadas nos sonhos [ver em [1]], pois foi o homem quem evitara a consumação doato sexual. Da mesma maneira, a tristeza dela tinha sido deslocada para o homem, pois era este quem choravano sonho — e isto era simultaneamente uma representação da emissão de sêmen. Estou certo de que os senhores ouviram, uma vez ou outra, a psicanálise afirmar que todo sonho temuma significação sexual. Pois bem, os senhores mesmos estão em condições de formar um julgamento daincorreção dessa acusação. Os senhores vieram a conhecer sonhos plenos de desejos que lidam com asatisfação das necessidades mais óbvias — fome e sede, e ânsia de liberdade —, sonhos de conveniência e deimpaciência, e também sonhos puramente gananciosos e egoístas. Mas, ao mesmo tempo, os senhoresdeveriam ter em mente, como um dos resultados da investigação psicanalítica, que sonhos grandementedeformados proporcionam expressão principalmente (embora, também, não exclusivamente) a desejos sexuais. (6) Tenho um motivo especial para colecionar exemplos do uso dos símbolos nos sonhos. Em nossaprimeira conferência [ver em [1] e segs.], eu lamentava a dificuldade de proporcionar demonstrações e, assim,de conferir convicção ao dar ensinamentos sobre psicanálise. E não tenho dúvidas de que os senhores, desdeentão, tenham concordado comigo. As diversas teses da psicanálise estão, contudo, em tão íntima conexão,que as provas podem com facilidade ser estendidas de um único ponto até um ponto maior do todo. Dapsicanálise poder-se-ia dizer que, se alguém lhe mostra um só dedo mínimo, ela imediatamente lhe agarra amão inteira. E, mesmo, ninguém que tenha aceito a explicação das parapraxias pode logicamente refrear suacrença em tudo o mais. Uma segunda situação, igualmente acessível, é oferecida pelo simbolismo onírico. Aquiestá o sonho de uma mulher sem instrução, cujo marido era um policial, e que, certamente, jamais tinha ouvidofalar qualquer coisa sobre simbolismo onírico ou psicanálise. Depois julguem por si mesmos se a explicação dosonho, com auxílio dos simbolismos sexuais, pode ser chamada de arbitrária e forçada: ‘…Então alguém penetrou na casa e ela assustou-se e chamou um policial. Mas ele entraratranqüilamente numa igreja à qual se chegava por certo número de degraus acompanhado de dois vagabundos.Atrás da igreja havia uma colina e, acima, um cerrado bosque. O policial usava um capacete, gola com placa debronze e capote. Tinha a barba castanha. Os dois vagabundos, que acompanhavam pacificamente o policial,tinham aventais semelhantes a sacos atados em torno da cintura. Em frente da igreja um caminho conduzia atéa colina; em ambos os lados, cresciam relva e mato rasteiro, que se tornavam cada vez mais espessos e, noalto da colina, se transformavam num bosque comum.’Os senhores não terão problemas em reconhecer ossímbolos utilizados. Os genitais masculinos são representados por uma tríade de personagens e os genitaisfemininos por um cenário com uma capela, um monte e uma floresta. Mais uma vez, os senhores encontramdegraus como símbolo do ato sexual. O que no sonho é chamado de monte é também chamado de monte, naanatomia — o Mons Veneris [o monte de Vênus].(7) E aqui está mais um sonho que deve ser solucionado pela Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 110inserção de símbolos. É notável e convincente pelo fato de a própria pessoa que o sonhou haver traduzidotodos os símbolos, embora não tivesse qualquer espécie de conhecimento teórico prévio da interpretação desonhos. Tal atitude é bastante incomum, e suas causas determinantes não foram precisamentecompreendidas:‘Ele estava passeando a pé, com seu pai, num lugar que certamente deve ter sido o Prater, poisviu a Rotunda, com um pequeno anexo em frente, à qual estava amarrado um balão cativo, embora esteparecesse flácido. Seu pai perguntou-lhe para que servia tudo isso; ele ficou surpreso com a pergunta, masexplicou-lhe. Então entraram num pátio em que havia uma grande folha de flandres estendida. Seu pai quisarrancar um pedaço grande da mesma, porém, primeiro olhou em volta para ver se havia alguém observando.Ele lhe disse que ele apenas precisava falar ao capataz e poderia levar uma parte da folha, sem qualquerproblema. Uma escada descia desse pátio para um poço de mina, cujas paredes estavam almofadadas com ummaterial macio, bem semelhante a uma poltrona de couro. No fim do poço de mina havia uma compridaplataforma e, depois, mais outro poço de mina começava….’ O próprio sonhador interpretou-o: ‘A Rotunda eram os meus genitais e o balão cativo em frente damesma era meu pênis, de cuja flacidez tenho motivos para me queixar.’ Entrando em maiores detalhes,portanto, podemos traduzir a Rotunda como o traseiro (habitualmente considerado pelas crianças comofazendo parte dos genitais) e o pequeno anexo em frente da mesma, como o escroto. Seu pai perguntou-lhe, nosonho, para que servia tudo isso — ou seja, qual a finalidade e função dos genitais. Pareceu plausível inverter asituação e transformar a pessoa que sonhou na pessoa que pergunta. Visto como ele nunca havia feitoperguntas a seu pai neste sentido, temos de considerar o pensamento onírico como um desejo, ou torná-locomo oração condicional, tal como: ‘Se eu tivesse perguntado a meu pai sobre explicações sexuais….’ Logomais encontraremos a continuação deste pensamento em outra parte do sonho. O pátio, onde estava estendida a folha de flandres, não deve ser tomado simbolicamente à primeiravista. Derivava dos locais de negócios do pai desse sonhador. Por motivos de discrição, substituí ‘folha deflandres’ por outro material com que seu pai realmente lidava; mas não fiz nenhuma outra alteração no sonho.Ele havia entrado no negócio de seu pai e tinha feito sérias objeções às práticas, um tanto duvidosas, das quaisdependiam, em parte, os lucros da firma. Conseqüentemente, o pensamento onírico que acabei de interpretarpode ser retomado desta maneira: ‘(Se eu lhe tivesse perguntado), ele me teria logrado da mesma forma comologra seus fregueses.’ Com relação ao ‘arrancar’, que serviu para representar a desonestidade de seu pai nonegócio, o sonhador deu uma segunda explicação — ou seja, que representava a masturbação. Não somentehá muito tempo estávamos familiarizados com essa interpretação como também havia algo para confirmá-la nofato de que a natureza secreta da masturbação estava representada pelo seu inverso: podia ser efetuada empúblico. Tal como era de se esperar, a atividade masturbatória mais uma vez se deslocou para o pai dosonhador, assim como sucedera com o aspecto de fazer perguntas, na primeira cena do sonho. Eleprontamente interpretou o poço de mina como sendo uma vagina, tendo em conta o revestimento macio desuas paredes. Acrescentei, com base na minha autoridade [ver em [1]], que descer, assim como subir, emoutros casos, descrevia o coito na vagina. O próprio personagem desta história deu uma explicação biográfica dos demais detalhes — de oprimeiro poço de mina ser seguido de uma plataforma comprida e de mais outro poço de mina. Ele vinhamantendo relações sexuais, durante certo tempo, mas depois abandonou-as por causa de inibições, e agora Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 111esperava conseguir reencetá-las com o auxílio do tratamento.(8) Os dois sonhos seguintes foram sonhados porum estrangeiro, que vivia numa situação altamente polígama. Reproduzo-os para os senhores como prova deminha afirmação [ver em [1]] de que o próprio ego de quem o sonhou aparece em cada um de seus sonhos,ainda que escondido no conteúdo manifesto. As malas, nestes sonhos, eram símbolos de mulheres:(a) Eleestava iniciando uma viagem; sua bagagem era levada à estação numa carruagem, numerosas malasempilhadas, e entre elas, duas malas pretas, semelhantes a malas de amostras. Ele disse a alguém, em tom deconsolo: ‘Bem, elas só vão comigo até a estação.’Ele realmente viajava com grande quantidade de bagagem;mas também trazia consigo para o tratamento muitíssimas histórias referentes a mulheres. As duas malaspretas correspondiam a duas mulheres negras que nessa época estavam desempenhando o principal papel nasua vida. Uma delas quis acompanhá-lo a Viena; e, por orientação minha, ele havia telegrafado para ela nãovir.(b) Uma cena que se passa na alfândega: Um outro viajante abriu seu baú e, fumando indiferentemente umcigarro, disse: ‘Não há nada aí dentro.’ O funcionário aduaneiro pareceu acreditar nele, mas voltou a apalpar ointerior do baú e encontrou algo muito especialmente proibido. O viajante disse, com voz resignada: ‘O que éque se vai fazer….’Ele próprio era o viajante: eu era o funcionário da alfândega. Via de regra, ele era muitofranco em admitir determinadas coisas; mas tencionava, comigo, manter silêncio a respeito de uma ligaçãorecente que havia iniciado com uma senhora porque, com razão, supunha que ela não me fosse desconhecida.Ele deslocou para um estranho a desagradável situação de ser descoberto, de modo que ele próprio parecianão surgir no sonho. (9) Aqui está um exemplo de um símbolo que ainda não mencionei: Ele encontrou sua irmã em companhia de duas amigas que eram, também elas, irmãs. Cumprimentoucom um aperto de mão a ambas, mas não a sua irmã. Nenhuma conexão com alguma ocorrência real. Seus pensamentos, porém, o levaram de volta, istosim, a um período no qual suas observações fizeram-no refletir quão tardiamente se desenvolviam os seios dasmeninas. Assim, as duas irmãs eram seios; ele teria desejado agarrá-los com sua mão — desde que não setratasse de sua irmã. (10) E agora, um exemplo de simbolismo da morte num sonho: Ele estava caminhando com duas pessoas, cujos nomes sabia mas esquecera ao acordar, por umaponte de ferro muito alta e íngreme. De repente, elas desapareceram e ele viu um homem parecido com umfantasma, envolto numa capa e numa roupagem de linho. Perguntou-lhe se ele era o mensageiro do telégrafo.Não. Era ele o cocheiro? Não. Então continuou andando…. Enquanto ainda estava sonhando, sentia umaaguda ansiedade e, após haver acordado, continuou o sonho com uma fantasia de que a ponte de ferro serompia de repente e ele caía no espaço. Pessoas de quem se insiste em dizer que são desconhecidas, ou cujos nomes não são lembrados, são,na sua maioria, pessoas próximas. Este sonhador tinha um irmão e uma irmã; e se ele desejasse que estesdois estivessem mortos, não seria mais que justo que, em troca, ele devesse ser vítima do medo da morte.Sobre o mensageiro do telégrafo, comentou que uma pessoa assim sempre traz más notícias. Pelo seuuniforme poderia igualmente ter sido o acendedor de lampião; entretanto ele também os apaga, da mesmaforma como o Espírito da Morte apaga a chama da vida. O cocheiro fê-lo pensar no poema de Uhland sobre aViagem do Rei Carlos, e fê-lo recordar-se de uma perigosa viagem por mar, com dois companheiros, durante a Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 112qual ele tinha feito a parte do rei no poema. A ponte de ferro levou-o a pensar num recente desastre e no toloditado: ‘A vida é uma ponte pênsil.’ (11) O sonho seguinte pode contar-se como mais uma entre as representações da morte:Umcavalheiro desconhecido entregou-lhe um cartão de visitas tarjado de negro.(12) Os senhores estarãointeressados no seguinte sonho, por diversos motivos, embora um estado neurótico na pessoa que o sonhoutenha sido uma de suas precondições:Ele estava viajando de trem. O trem fez uma parada em campo aberto.Pensou que estava por suceder um desastre e que devia tratar de fugir. Percorreu todos os carros do trem ematou a todos que encontrou: o guarda, o maquinista, e assim por diante.Com relação a isto, ele pensou emuma história que lhe contara um amigo. Um louco estava sendo conduzido em um vagão de trem, na Itália;contudo, por descuido, deixou-se que um viajante ficasse com ele no mesmo compartimento. O louco matou oviajante. Assim, ele estava identificando-se com o louco, e seu motivo de agir assim, ele o baseou em umaobsessão, que o atormentava de tempos em tempos, de que ele devia ‘livrar-se de todas as testemunhascúmplices’. Ele próprio, porém, então encontrou um motivo melhor e isso foi o que levou à causadesencadeante do sonho. A noite anterior, no teatro, mais uma vez viu a jovem com quem desejara casar, mashavia desistido porque ela lhe dera motivos para ciúme. Em face da intensidade atingida por seu ciúme,pensou, ele estaria realmente louco para querer casar com ela. Isto significava que ele a considerava tãoindigna de confiança que, em seu ciúme, ele teria de matar todos os que estivessem no seu caminho. Jáencontramos o caminhar através de uma série de quartos (aqui, carros do trem) como símbolo de casamento(uma inversão de ‘monogamia’).Com relação à parada do trem em campo aberto e ao medo de acidente, disseque, certa vez, quando se encontrava numa viagem de trem, tinha havido uma súbita parada nessascircunstâncias, quando não estavam na estação. Uma jovem senhora que viajava com ele dissera que podiaser iminente uma colisão e que o mais seguro era manter as pernas levantadas. Este ‘manter as pernaslevantadas’ tinha tido, contudo, seu papel nos muitos passeios a pé e excursões pelo campo, que ele tinha feitocom a outra jovem, nos primeiros dias felizes de seu amor. Este era um novo argumento para pensar que eleestava louco para casar com ela, agora. Meu conhecimento da situação deu-me a certeza de que, nãoobstante, ele desejava estar suficientemente louco para casar com ela. CONFERÊNCIA XIII - ASPECTOS ARCAICOS E INFANTILISMO DOS SONHOS SENHORAS E SENHORES: Comecemos mais uma vez partindo da conclusão a que chegamos de que a elaboração onírica, sob ainfluência da censura dos sonhos, transpõe a ordem dos pensamentos oníricos latentes para um modo deexpressão diferente. Os pensamentos latentes não diferem dos nossos conhecidos pensamentos conscientesda vida desperta. O novo modo de expressão nos é incompreensível devido a muitos de seus aspectos. Temosdito que ele retorna a estados de nossa evolução intelectual que há muito foram suplantados: à linguagem porimagens, às conexões simbólicas, a condições que, talvez, existiram antes de se desenvolver nossa linguagemde pensamento. Temos descrito, por essa razão, o modo de expressão da elaboração onírica como arcaico ouregressivo [ver em [1] e seg.]. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 113 Os senhores podem concluir, com isto, que, se estudarmos mais a elaboração onírica, deveremosconseguir lograr valioso esclarecimento dos poucos conhecidos inícios de nosso desenvolvimento intelectual.Espero que assim seja; contudo, este trabalho até agora não foi iniciado. A pré-história à qual a elaboraçãoonírica nos faz retroceder é de duas espécies — de um lado, à pré-história do indivíduo, sua infância; e, deoutro lado, até onde cada indivíduo de alguma maneira recapitula, em forma abreviada, todo o desenvolvimentoda espécie humana, também à pré-história filogenética. Conseguiremos distinguir qual parte dos processosmentais latentes deriva do período pré-histórico do indivíduo, e qual a parte proveniente da pré-históriafilogenética? Penso não ser impossível consegui-lo. A mim, por exemplo, parece-me que as conexõessimbólicas que o indivíduo jamais adquiriu por aprendizado, podem, com razão, exigir serem consideradascomo herança filogenética. Esta, porém, não é a única característica arcaica do sonho. Naturalmente, os senhores todos conhecembem a extraordinária amnésia da infância. Quero dizer com isso que os primeiros anos de vida, até a idade decinco, seis ou oito anos não deixaram atrás de si, em nossa memória, marcas como as das experiênciasposteriores. Aqui e ali, é verdade, encontramos pessoas que se podem gabar de uma memória contínua, desdeos primeiros começos até o dia de hoje; mas a outra alternativa, de lacunas na memória, é, de longe, a maisfreqüente. Em minha opinião, não tem havido suficiente surpresa com referência a esse fato. Na época em queuma criança tem dois anos de idade, ela consegue falar bem, e logo mostra que está à vontade em situaçõesmentais complicadas; e faz comentários que, se lhe forem referidos muitos anos mais tarde, ela mesma teráesquecido. Ademais disso, a memória é mais eficiente, em tenra idade, pois está menos sobrecarregada do queestará mais tarde. E não existe qualquer motivo para considerar a função da memória uma atividade mentalespecialmente elevada ou difícil; pelo contrário, podemos encontrar uma boa memória em pessoas de nívelintelectual muito baixo.Um segundo fato notável, para o qual devo chamar sua atenção, e que se aflora doprimeiro, é que, de permeio ao vazio de memórias que abrange os primeiros anos da infância, sobressaemalgumas recordações bem preservadas, na maioria percebidas em forma plástica, que não podem explicar suasobrevivência. Nossa memória lida com o conteúdo das impressões, que nos atingem posteriormente na vida,fazendo uma seleção das mesmas. Ela retém o que possui alguma importância e elimina o que carece deimportância. Isto, porém, não procede para as lembranças da infância que foram conservadas. Elas nãocorrespondem necessariamente às experiências importantes dos anos da infância, nem mesmo àquelasexperiências que devem ter parecido importantes do ponto de vista da criança. Freqüentemente, são tão banaise insignificantes que apenas podemos nos perguntar, surpresos, por que esse detalhe especial escapou aoesquecimento. Há muito tempo, com auxílio da análise, procurei enfrentar o enigma da amnésia infantil e dasmemórias residuais que a interrompem, e cheguei à conclusão de que, mesmo no caso de crianças, malgradotudo, é verdade que somente permanece na memória aquilo que é importante. Pelos processos, que ossenhores já conhecem, de condensação e, mais especialmente, de deslocamento, aquilo que é importante é,contudo, substituído na memória por alguma outra coisa que parece sem importância. Por essa razãodenominei a essas lembranças da infância ‘lembranças encobridoras’ e, com uma análise minuciosa, pode serextraído delas tudo o que foi esquecido. Nos tratamentos psicanalíticos, invariavelmente nos defrontamos com a tarefa de preencher essaslacunas na memória da infância; e, na medida em que o tratamento de alguma forma tem êxito — ou seja, muito Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 114freqüentemente — também temos êxito em trazer à luz o conteúdo desses anos da infância esquecidos. Taisimpressões realmente jamais foram esquecidas, eram apenas inacessíveis, latentes, e tinham formado parte doinconsciente. Pode suceder, porém, elas emergirem do inconsciente espontaneamente, e isto sucede emrelação aos sonhos. Parece que a vida onírica sabe como obter acesso a essas experiências latentes, infantis.Excelentes exemplos disto foram relatados na literatura, e eu mesmo pude trazer uma contribuição desse teor.Uma vez, sonhei, em certa circunstância, com uma pessoa que devia ter-me prestado um serviço e que viclaramente à minha frente. Era um homem com um olho só, de baixa estatura, forte, e com a cabeçaprofundamente enterrada nos ombros. Pelo contexto, concluí que se tratava de um médico. Felizmente pudeperguntar a minha mãe, que ainda vivia, com quem se parecia o médico da minha terra natal (que eu deixaraquando tinha três anos de idade); e eu soube, por ela, que ele tinha um olho só, era baixo, forte e tinha acabeça enterrada fundo nos ombros; e também soube qual o acidente em decorrência do qual ele viera em meuauxílio e que eu mesmo havia esquecido. Esse fato de os sonhos terem à sua disposição o material esquecidodos primeiros anos da infância é, pois, mais um aspecto arcaico.Essa mesma parcela de informação pode,ademais, ser aplicada a um outro enigma com que nos temos defrontado. Os senhores se recordam doassombro causado pela nossa descoberta de que os sonhos são provocados por desejos ativamente maus eextravagantemente sexuais que tornaram necessária a censura e a deformação dos sonhos [ver em [1] esegs.]. Ao interpretarmos um sonho desse tipo àquele que o sonhou, e se, na melhor das hipóteses, o sonhadornão atacar realmente a interpretação, ele, ainda assim, regularmente levanta a questão da proveniência dessesdesejos, de vez que estes lhe parecem alheios, e aquilo de que está cônscio é o oposto desses desejos. Nãodevemos hesitar em assinalar a origem dos mesmos. Esses impulsos de desejos maus são originários dopassado, e, freqüentemente, de um passado não tão remoto. Pode-se demonstrar que houve uma época emque eles eram corriqueiros e conscientes, embora atualmente não o sejam mais. Uma mulher, cujo sonhosignificava que desejava ver sua filha única, agora com dezessete anos de idade, morta em sua presença,verificou, com nosso auxílio, que ela realmente, em certa época, abrigava esse desejo de morte. A filha era frutode um casamento infeliz que logo se dissolvera. De certa feita, quando ainda trazia essa filha em seu ventre,num acesso de raiva, e após uma cena violenta com seu marido, ela golpeara com seus próprios punhos seucorpo, a fim de matar a criança que estava dentro. Quantas mães, que amam seus filhos ternamente, hoje emdia talvez com excessiva ternura, conceberam-nos contra a vontade e, à época, desejaram que o ser vivodentro delas não mais se desenvolvesse! Podem até mesmo ter expresso esse desejo em ações diversas,felizmente inofensivas. Assim, seu desejo de morte contra alguém que amam, desejo que, depois, é tãomisterioso, origina-se dos primeiros dias de seu relacionamento com essa pessoa.Da mesma forma, um paiteve um sonho que legitimou a interpretação de que ele desejava a morte de seu filho predileto, o mais velho.Ele também foi levado a recordar que houvera uma época em que tal desejo não lhe era estranho. Quando ofilho era ainda uma criança de colo, este pai, descontente com a esposa que escolhera, amiúde pensava que,se a pequena criatura, que nada significava para ele, viesse a morrer, mais uma vez ficaria livre e faria melhoruso de sua liberdade. A mesma origem pode ser demonstrada no caso de grande número de impulsos de ódiosemelhantes; são recordações de algo pertencente ao passado, que, numa época, foi consciente edesempenhou seu papel na vida mental. Os senhores tenderão a, disso, concluir que esses desejos e essessonhos não deveriam aparecer naqueles casos em que nunca ocorreram transformações desse tipo nas Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 115relações com alguém, em que o relacionamento foi do mesmo tipo desde o início. Estou disposto a admitir essefato; devo, porém, lembrar-lhes que precisam ter em consideração não o enunciado do sonho, mas seu sentidoapós o sonho haver sido interpretado. É possível que um sonho manifesto com a morte de alguma pessoaamada simplesmente tenha assumido uma máscara aterradora e possa significar algo muito diferente, ou que apessoa amada sirva como substituto destinado a confundir a identidade de alguma outra pessoa. Este mesmo tema pode, contudo, sugerir uma outra questão muito mais séria. ‘Ainda que’, os senhoresdirão, ‘este desejo de morte se encontrasse presente em determinada época, e seja confirmado pelalembrança, isso ainda não constitui explicação. Afinal, há muito que foi ultrapassado, e atualmente só podeestar presente no inconsciente como alguma outra recordação qualquer desprovida de conteúdo emocional, enão como um impulso poderoso. Nada fala em favor desta última possibilidade. Por que, então, foi recordadono sonho?’ Esta pergunta pode surgir, e com razão. Uma tentativa de respondê-la nos levaria demasiado longe,e exigiria que assumíssemos uma posição em um dos pontos mais importantes da teoria dos sonhos. Vejo-me,no entanto, obrigado a manter-me dentro do quadro de referências de nossa exposição, e usar de moderação.Assim, preparem-se para uma desistência provisória. Contentemo-nos com a evidência efetiva de esse desejo,que ficou para trás, poder ser demonstrado como sendo o causador do sonho, e prossigamos com nossainvestigação para saber se outros desejos maus podem, de modo semelhante, ser remontados aopassado.Deter-nos-emos nesses desejos de eliminar alguém, os quais, em sua maioria, podem ser atribuídosao desenfreado egoísmo do sonhador. Um desejo desse tipo muito amiúde pode ser apontado como omaquinador de um sonho. Sempre que alguém, no decurso da vida, se interpõe no caminho de uma pessoa —e como é freqüente isso acontecer, face à complexidade dos relacionamentos de uma pessoa! —, um sonhologo se prontifica a matar esse alguém, mesmo que se trate do pai ou da mãe, do irmão ou da irmã, do maridoou da esposa. Essa maldade da natureza humana surgiu-nos para grande surpresa nossa, e, decididamente,não estávamos propensos a aceitar, sem indagações, esse resultado da interpretação de sonhos. No entanto,assim que fomos levados a procurar a origem desses desejos no passado, descobrimos o período do passadodo indivíduo quando não havia ainda nada de estranho em tal egoísmo e em tais impulsos plenos de desejosdirigidos até mesmo contra os parentes mais próximos. São as crianças, e precisamente nesses primeiros anos,mais tarde velados pela amnésia, que freqüentemente manifestam um tal egoísmo em grau extremamentemarcado e, invariavelmente, mostram evidentes rudimentos ou, expressando-se com maior correção, resíduosdele. As crianças amam em primeiro lugar a si próprias, e apenas mais tarde é que aprendem a amar os outrose a sacrificar algo de seu ego aos outros. As próprias pessoas a quem uma criança parece amar desde o início,no começo são amadas pela criança porque esta necessita delas e não pode dispensá-las — por motivosegoístas, mais uma vez. Somente mais tarde o impulso de amar se torna independente do egoísmo. Éliteralmente verdadeiro que seu egoísmo ensinou a amar. Neste consenso, será interessante comparar a atitude da criança com relação a seu irmãos e irmãscom sua atitude para com seus pais. Uma criança pequena não ama necessariamente seus irmãos e irmãs;muitas vezes, obviamente não os ama. Sem dúvida ela os odeia como rivais seus, e é fato sabido que estaatitude freqüentemente persiste por muitos anos, até ser atingida a maturidade ou mesmo até mais tarde, seminterrupção. Com efeito, muito amiúde esta atitude é substituída, ou melhor, digamos, é encoberta por outra,mais cordial. Mas, a que é hostil em geral parece ser a que surge primeiro. Essa atitude hostil pode ser Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 116observada com muita facilidade em crianças com idade entre dois e meio e quatro ou cinco anos, quando umnovo irmãozinho ou irmãzinha aparece. Geralmente encontra uma recepção muito inamistosa. São muitocomuns os comentários como ‘não gosto dele; a cegonha pode levar embora de novo!’ Depois, aproveitam-sede todas as oportunidades para rebaixar o recém-chegado, e se fazem tentativas de machucá-lo; e até mesmose conhecem casos de ataques mortíferos. Se a diferença de idade é menor, na época em que a atividademental da criança se aviva em determinado grau de intensidade, ela já encontra aí seu competidor e a ele seadapta. Sendo maior a diferença, o novo bebê pode, desde o início, despertar alguma simpatia, como um objetointeressante, uma espécie de boneca viva; e quando a diferença de idade é de oito ou mais anos, já podemmanifestar-se impulsos solícitos, maternais, especialmente em meninas. Contudo, falando honestamente, sealguém encontrar, em sonho, um desejo de morte contra um seu irmão ou irmã, raramente há que considerá-loum enigma e, sem dificuldades, pode situar seu protótipo no início da infância e, vezes mais seguidas, tambémnos anos subseqüentes do companheirismo fraterno.Provavelmente não há quarto de crianças sem violentosconflitos entre seus ocupantes. Os motivos de tais desavenças são a rivalidade pelo amor dos pais, pelasposses comuns, pelo espaço vital. Os impulsos hostis são dirigidos contra membros da família mais velhos etambém mais novos. Foi Bernard Shaw, segundo penso, quem comentou: ‘Via de regra, só existe uma pessoaque uma menina inglesa odeia mais do que a sua mãe; é a sua irmã mais velha. Neste comentário existe,porém, algo que nos parece estranho. Poderíamos, quando muito, achar compreensíveis o ódio e a competiçãoentre irmãos e irmãs. Mas como podemos supor que sentimentos de ódio venham a surgir nas relações entrefilha e mãe, entre pais e filhos?Esta relação é, sem dúvida, uma relação mais favorável também do ponto devista dos filhos. É o que exigem as nossas expectativas; achamos que uma ausência de amor é muito maiscensurável entre pais e filhos do que entre irmãos e irmãs. No primeiro caso, teríamos tornado esta relaçãosagrada, ao passo que, no segundo, isso teria permanecido profano. Já a observação corrente pode nosmostrar quão freqüentemente as relações afetivas entre os pais e seus filhos adultos deixam de atingir o idealestabelecido pela sociedade, quanta hostilidade está pronta para manifestar-se, e se manifestaria se não fossecontida por um misto de devoção filial e impulsos afetuosos. Os motivos dessa hostilidade geralmente sãoconhecidos e sua tendência é separar os do mesmo sexo — a filha, de sua mãe, e o pai, de seu filho. A filhaencontra em sua mãe a autoridade que restringe sua vontade e que está incumbida da tarefa de impor-lhe arenúncia à liberdade sexual, renúncia que também a sociedade exige; em alguns casos, a filha encontra em suamãe até mesmo uma competidora que luta por não ser suplantada. A mesma coisa se repete entre filho e pai, ede forma ainda mais flagrante. Aos olhos do filho, o pai representa todas as restrições sociais relutantementetoleradas; o pai lhe impede o exercício da vontade, o prazer sexual incipiente e, nas famílias em que existepropriedade comum, o desfrute desta. No caso de um herdeiro do trono, essa espera da morte do pai atinge asraias do trágico. Parece haver perigo menor para a relação entre pai e filha ou mãe e filho. Esta últimaproporciona os mais puros exemplos de uma afeição imutável, não prejudicada por quaisquer consideraçõesegoístas.Por que estou eu falando nestas coisas, que, afinal, são banais e conhecidas universalmente? Porquehá uma inequívoca tendência a negar-lhes a importância que têm na vida, e a fazer crer que o ideal impostopela sociedade é atingido muito mais freqüentemente do que o é na realidade. É melhor, pois, que a verdadedeva ser dita pelos psicólogos, de preferência a deixar tal tarefa a cargo de cínicos. E, aliás, essa negação se Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 117aplica somente à vida real. As obras narrativas e dramáticas da imaginação podem livremente jogar com ostemas que surgem de um distúrbio deste ideal. Portanto, não há motivos para surpresas se, em muitas pessoas, os sonhos revelam seu desejo deeliminar seus pais e, especialmente, o genitor do mesmo sexo. Podemos supor que esse desejo também estejapresente na vida desperta, e até mesmo seja consciente, às vezes, quando pode estar mascarado por algumoutro motivo, como foi o caso do sonhador do Exemplo 3 [ver em [1], acima] em que foi substituído pelacompaixão pelos inúteis sofrimentos do pai. É raro que apenas a hostilidade domine o relacionamento; muitomais freqüentemente ela se encontra nos bastidores de impulsos mais afetuosos, pelos quais é suprimida, epode, por assim dizer, esperar até que um sonho venha a isolá-la. O que parece-nos ter uma dimensão enormeem um sonho, por ter sido isolado, reduz-se mais uma vez, quando nossa interpretação o situa no contexto davida real (Hanns Sachs). Contudo, encontramos este desejo onírico também na vida real, onde não adquirequalquer relevância e onde o adulto jamais deseja admiti-lo na vida desperta. A razão disso é que os motivosmais profundos e mais invariáveis de desavenças, especialmente entre duas pessoas do mesmo sexo, já sefizeram sentir no início da infância.O que tenho em mente é a rivalidade no amor, com nítida ênfase no sexo doindivíduo. Quando é ainda uma criança, um filho já começa a desenvolver afeição particular por sua mãe, aquem considera como pertencente a ele; começa a sentir o pai como rival que disputa sua única posse. E damesma forma uma menininha considera sua mãe como uma pessoa que interfere na sua relação afetuosa como pai e que ocupa uma posição que ela mesma poderia muito bem ocupar. A observação nos mostra a quãoprecoces anos essas atitudes remontam. A essas atitudes chamamos de ‘complexo de Édipo’, visto que a lendade Édipo materializa, com apenas uma leve atenuação, os dois desejos extremos originários na situação dofilho — matar o pai e tomar a mãe como esposa. Não pretendo afirmar que o complexo de Édipo engloba toda arelação dos filhos com os pais: esta pode ser muito mais complexa. O complexo de Édipo, ademais disso, podeestar desenvolvido em maior ou menor intensidade, pode até mesmo estar invertido; mas constitui fatorconstante e importante na vida mental de uma criança, e existe maior risco de, antes, subestimarmos, do quesuperestimarmos sua influência e a dos desenvolvimentos que nele se originam. Aliás, as criançasfreqüentemente reagem, em sua atitude edipiana, a um estímulo proveniente de seus pais, que amiúde sedeixam levar, nas suas preferências, pela diferença do sexo, de modo que o pai escolherá a filha e a mãeescolherá o filho como favorito ou, no caso de um esfriamento conjugal, como um substituto de um objeto deamor que perdeu seu valor.Não se pode dizer que o mundo tenha demonstrado muita gratidão à investigaçãopsicanalítica por sua revelação do complexo de Édipo. Ao contrário, a descoberta provocou a mais violentaoposição entre adultos; e aqueles que não se interessaram por tomar parte no repúdio a este relacionamentoemocional proscrito e tabu, compensaram seu débito mais tarde, subtraindo a este complexo o seu valor, pormeio de reinterpretações tortuosas. Permanece inalterada minha convicção de que não há o que negar ouencobrir. Devemos nos congratular com o fato de ter sido reconhecido pela própria lenda grega como destinoinevitável. Mais uma vez é interessante o fato de o complexo de Édipo, que tem sido repudiado na vida real, tersido deixado a cargo dos escritos imaginativos, ter sido colocado, por assim dizer, livremente à sua disposição.Otto Rank [1912b] demonstrou, em cuidadoso estudo, como o complexo de Édipo proporcionou aos autoresdramáticos uma riqueza de temas com infindáveis modificações, atenuações e disfarces — isto é, comdistorções do tipo que já conhecemos como obra de uma censura. Portanto, podemos também atribuir este Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 118complexo de Édipo às pessoas que sonham e foram suficientemente felizes para escapar a conflitos com seuspais em sua vida posterior. E, em íntima conexão com o mesmo, encontramos aquilo a que chamamos de‘complexo de castração’, a reação às ameaças contra a criança, destinadas a pôr um fim a suas primeirasatividades sexuais, ameaças atribuídas a seu pai.O que já aprendemos de nosso estudo da vida mental dascrianças fará com que esperemos encontrar uma explicação semelhante para o outro grupo de desejos oníricosproibidos: os impulsos sexuais excessivos. Assim, encorajamo-nos a realizar um estudo da evolução da vidasexual das crianças e, com base em muitas informações, chegamos ao que se segue. Primeiro e acima detudo, é um erro injustificável negar que as crianças têm uma vida sexual e supor que a sexualidade somenteinicia na puberdade, com a maturação dos genitais. Pelo contrário, bem desde o início as crianças têm umaintensa vida sexual, que difere em muitos pontos daquilo que mais tarde é considerado normal. Aquilo que navida adulta é descrito como ‘perverso’ difere do normal por estes aspectos: primeiro, porque despreza a barreirada espécie (o abismo entre o homem e o animal); segundo, por transpor a barreira contra a repugnância;terceiro, a barreira contra o incesto (proibição contra a busca da satisfação sexual em relações consangüíneaspróximas); quarto, a barreira contra pessoas do mesmo sexo; e quinto, por transferir a outros órgãos e áreas docorpo o papel desempenhado pelos genitais. Nenhuma destas barreiras existia desde o começo; foramestabelecidas apenas gradualmente, no decorrer do desenvolvimento e da educação. Crianças de tenra idadesão livres delas. Não reconhecem qualquer abismo assustador entre seres humanos e animais; a soberba comque os homens se distanciam dos animais não emerge senão mais tarde. Inicialmente, as crianças nãomostram qualquer repugnância pelas excreções; porém, adquirem-na lentamente, sob a pressão da educação.Não dão importância especial à distinção entre os sexos, mas atribuem a ambos a mesma conformação dosgenitais; dirigem seus primeiros desejos sexuais e sua curiosidade àqueles que lhes são mais próximos e, poroutras razões, mais caros — os pais, irmãos e irmãs, ou babás; e, finalmente, demonstram (e isto mais tardeirrompe novamente no clímax de uma relação amorosa) que esperam obter prazer não somente a partir de seusórgãos sexuais, mas que muitas outras partes do corpo exibem a mesma sensibilidade, proporcionam-lhessensações análogas de prazer e, em decorrência, podem desempenhar o papel de genitais. Assim, pode-sedescrever as crianças como ‘perversos polimorfos’ e, se estes impulsos apenas mostram traços de atividade,isso ocorre, por um lado, porque eles têm intensidade menor quando comparados com os da vida posterior e,por outro lado, porque todas as manifestações sexuais de uma criança são prontamente, energicamentesuprimidas pela educação. Esta supressão, por assim dizer, se estende à teoria; pois os adultos se esforçampor não ver uma parte das manifestações sexuais das crianças e por disfarçar uma outra parte, interpretando-lhes erroneamente a natureza sexual, conseguindo assim negá-la em sua totalidade. Freqüentemente, sãoestas exatamente as mesmas pessoas que, no trato com as crianças, se enfurecem com qualquer traquinagemsexual sua e, depois, em seus escritos, defendem a pureza sexual das mesmas crianças. Quandoabandonadas a si próprias, ou sob a influência de sedução, amiúde as crianças realizam proezas consideráveisna área da atividade sexual perversa. Os adultos, naturalmente, têm razão ao não levar isto muito a sério econsiderá-lo como ‘criancice’ ou ‘brincadeira’, de vez que as crianças não podem ser condenadas comointeiramente capazes ou inteiramente responsáveis, seja perante o tribunal da moralidade, seja perante a lei;não obstante, essas coisas existem. Têm sua importância não apenas como indicações da constituição inata deuma criança e como causas e encorajamentos para desenvolvimentos ulteriores; também nos proporcionam Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 119informações acerca da vida sexual das crianças e, assim, acerca da vida sexual humana em geral. Se, portanto,mais uma vez encontramos todos estes impulsos plenos de desejos perversos por trás de nossos sonhosdeformados, isto somente significa que, também neste campo, os sonhos deram um passo atrás, ao estado deinfância. Entre esses desejos proibidos, merecem especial ênfase os desejos incestuosos — isto é, aqueles queobjetivam a relação sexual com pais, irmãos e irmãs. Os senhores conhecem o horror que se sente, ou aomenos se manifesta, na sociedade humana, diante de tal relação, e o acento com que se tonificam asproibições contra a mesma. Esforços tremendos têm sido dispendidos para explicar esse horror ao incesto.Algumas pessoas supuseram que considerações referentes à reprodução, por parte da natureza, tivessemencontrado representação psíquica nesta proibição, pois os acasalamentos consangüíneos prejudicariam ascaracterísticas raciais. Outros afirmaram que, como conseqüência da vida em comum, do início da infância emdiante, o desejo sexual desviou-se das pessoas em questão. Em ambos estes casos, pode-se observar, umevitar do incesto estaria assegurado automaticamente, e não se esclareceria por que se exigem essasproibições severas, as quais indicariam, antes, a presença de um intenso desejo incestuoso. As pesquisaspsicanalíticas têm demonstrado inequivocamente que a escolha incestuosa de um objeto de amor é, pelocontrário, a primeira e a invariável escolha, e senão mais tarde é que a resistência contra ela se manifesta; semdúvida, não é impossível descobrir a origem desta resistência na psicologia individual. Reunamos agora tudo aquilo com que nossas pesquisas acerca da psicologia da criança têmcontribuído para nossa compreensão dos sonhos. Não somente constatamos que o material das vivênciasesquecidas da infância tem acesso aos sonhos, como também vimos que a vida mental das crianças, comtodas as suas características, seu egoísmo, sua escolha incestuosa de objetos de amor, e assim por diante,ainda persiste nos sonhos — isto é, no inconsciente; e que os sonhos nos levam de volta, todas as noites, aesse nível infantil. Confirma-se assim o fato de que, na vida mental, o que é inconsciente é também o que éinfantil. A estranha impressão de haver tanta maldade nas pessoas começa a reduzir-se. Esta maldade temidaé simplesmente a inicial e primitiva parte infantil da vida mental, que podemos encontrar em real atuação nascrianças, à qual, contudo, em parte não damos importância, nas crianças, devido ao pequeno tamanho delas, e,em parte, não a levamos a sério porque das crianças não esperamos elevado padrão ético algum. Visto ossonhos regredirem a esse nível, eles dão a impressão de terem revelado o mal que existe em nós. Esta,todavia, é uma aparência enganadora, pela qual nos temos deixado atemorizar. Não somos tão maus comotenderíamos a supor a partir da interpretação dos sonhos.Se esses impulsos maus nos sonhos são merosfenômenos infantis, um retorno aos inícios de nossa evolução ética (de vez que os sonhos simplesmente nostransformam novamente em crianças, em nossos pensamentos e sentimentos), não temos, se formos racionais,necessidade de nos envergonhar desses sonhos de maldade. Aquilo que é racional, porém, constitui apenasuma parte da vida mental, inúmeras outras coisas se passam na vida mental e não são racionais; e assimsucede irracionalmente estarmos envergonhados desses sonhos. Sujeitamo-los à censura dos sonhos,envergonhamo-nos e nos irritamos se, por exceção, um desses desejos consegue irromper na consciência emforma tão indisfarçada, que somos obrigados a reconhecê-lo; com efeito, às vezes nos envergonhamos tanto deum sonho deformado como se o compreendêssemos. Basta pensar no indignado julgamento que aquelaexcelente senhora de meia-idade emitiu a propósito de seu sonho, não interpretado, sobre os ‘serviços de amor’ Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 120[ver em [1]]. O problema, assim, ainda não está esclarecido, e ainda é possível que outras considerações sobrea perversidade nos sonhos possam nos levar a formar outro julgamento e chegar a uma outra avaliação danatureza humana. Como resultado de nossas pesquisas, atenhamo-nos a duas descobertas, embora apenas signifiquemo começo de novos enigmas e de novas dúvidas. Em primeiro lugar, a regressão da elaboração onírica não éapenas formal, mas também material. Não só traduz nossos pensamentos em uma forma primitiva deexpressão; revive, também, as características de nossa vida mental primitiva — a antiga dominância do ego, osprimeiros impulsos de nossa vida sexual e, realmente, até mesmo, nossa antiga propriedade intelectual, casoassim possam ser consideradas as conexões simbólicas. E, em segundo lugar, tudo isso que é antigo e infantile que em certa época foi dominante, e dominante sozinho, hoje deve ser atribuído ao inconsciente, acerca doqual nossas idéias agora se estão modificando e ampliando. ‘Inconsciente’ já não é mais o nome daquilo que élatente no momento; o inconsciente é um dos reinos da mente com seus próprios impulsos plenos de desejos,seu modo de expressão próprio, e com seus mecanismos mentais específicos que não vigoram em outrossetores. No entanto, os pensamentos oníricos latentes, que descobrimos ao interpretar sonhos, não pertencema este reino; são, ao contrário, pensamentos iguais àqueles que poderíamos ter pensado na vida desperta. Nãoobstante, são inconscientes. Como, então, se pode solucionar esta contradição? Começamos a suspeitar queaqui deve ser estabelecida uma distinção. Alguma coisa que deriva de nossa vida consciente e compartilha desuas características — nós a denominamos ‘resíduos diurnos’ — combina-se com alguma outra coisaproveniente dos domínios do inconsciente, a fim de se construir um sonho. A elaboração onírica se realiza entreestes dois componentes. A influência exercida sobre os resíduos diurnos pela adição do inconsciente está, semdúvida, entre os determinantes da regressão. Esta é a mais profunda compreensão que podemos obter, aqui,da natureza essencial dos sonhos — até havermos investigado outras regiões da mente. Logo, contudo, adviráa época de dar outro nome ao caráter inconsciente dos pensamentos oníricos latentes, a fim de diferenciá-lo doinconsciente oriundo dos domínios do infantil.Podemos, naturalmente, levantar uma outra questão paralela:‘Que coisa força a atividade psíquica, durante o sono, a fazer esta regressão? Por que não remove osestímulos mentais, que perturbam o sono, sem causar esta regressão? E se, para fins de censura de sonhos,tem de fazer uso de disfarce, utilizando-se do modo de expressão antigo, agora ininteligível, qual o motivo dereviver também os impulsos, desejos e traços de caráter mentais antigos que hoje em dia estão superados —de fazer uso da regressão material, além da regressão formal?’ A única resposta que poderia nos satisfazer éque apenas desta forma pode um sonho ser construído, e que não seria dinamicamente possível o estímulo dosonho ser eliminado de outra maneira. Por enquanto, não temos o direito de dar tal resposta, contudo. CONFERÊNCIA XIV - REALIZAÇÃO DE DESEJO SENHORAS E SENHORES: Deverei fazê-los lembrarem-se, mais uma vez, dos assuntos sobre os quais discorremos até aqui? Decomo, quando começamos a aplicar nossa técnica, defrontamo-nos com a deformação dos sonhos, de comopensávamos a respeito da natureza essencial dos sonhos a partir dos sonhos de crianças? De como, após,munidos daquilo que aprendêramos dessa pesquisa, acometemos diretamente a deformação onírica e, Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 121segundo espero, vencemo-la passo a passo? Somos levados a admitir, entretanto, que as coisas quedescobrimos, por uma e por outra via, não se harmonizam inteiramente. Será nossa tarefa juntar as duas sériesde descobertas e ajustá-las entre si. Verificamos, partindo de ambas as fontes de informação, que a elaboração onírica consiste,essencialmente, na transformação dos pensamentos em uma experiência alucinatória. É por demais misteriosoo modo pelo qual isso pode acontecer, é, contudo, um problema de psicologia geral, que propriamente não nosinteressa aqui. Ficamos sabendo, pelos sonhos de crianças, que a intenção da elaboração onírica é eliminar oestímulo mental, perturbador do sono, por meio da realização de um desejo. Dos sonhos deformados nãopodíamos dizer nada semelhante, até descobrirmos como interpretá-los. Desde o início, porém, nossaexpectativa era a de podermos considerar os sonhos deformados sob o mesmo prisma que os sonhos decrianças. A primeira confirmação desta expectativa nos foi dada pela descoberta de que, na realidade, todos ossonhos são sonhos de crianças, que eles operam com o mesmo material infantil, com os impulsos emecanismos mentais da infância. Agora que acreditamos haver superado a deformação onírica, devemosprosseguir e investigar se nossa visão a respeito dos sonhos como realização de desejos também é válida paraos sonhos deformados.Há pouco tempo, submetemos uma série de sonhos à interpretação, porém deixamoscompletamente fora de cogitação a realização de desejos. Estou certo de que os senhores repetidamentedevem ter sido levados a se perguntarem, de si para si: ‘Onde, porém, está a realização de desejos, que sesupõe ser o objetivo da elaboração onírica?’ A pergunta é importante, porque é aquela levantada por nossoscríticos leigos. Os seres humanos, como os senhores sabem, possuem uma tendência natural a repelirinovações intelectuais. Uma das formas pelas quais se manifesta esta tendência é a imediata redução danovidade às suas menores proporções, comprimindo-a, se possível, em um simples verbete. ‘Realização dedesejo’ tornou-se o verbete para a nova teoria dos sonhos. O leigo pergunta: ‘Onde está a realização dedesejo?’ Instantaneamente, tendo ouvido falar que se supõe serem os sonhos realizações de desejos, nopróprio ato de emitir a pergunta, ele a responde com uma rejeição. Imediatamente pensa em inumeráveisexperiências suas com sonhos, nas quais o sonho foi acompanhado por sentimentos que vão desde odesagradável até uma acentuada ansiedade, de modo que a afirmação feita pela teoria psicanalítica dossonhos parece-lhe muitíssimo improvável. Não temos dificuldade em responder que, nos sonhos deformados, arealização de desejo pode não estar evidente, porém deve ser buscada, de modo que é impossível evidenciar-se depois que o sonho for interpretado. Sabemos, também, que os desejos, nesses sonhos deformados, sãodesejos proibidos — rejeitados pela censura — e a existência desses desejos justamente foi a causa dadeformação onírica, o motivo da intervenção da censura dos sonhos. Contudo, é difícil fazer o crítico leigoentender que, antes de um sonho ser interpretado, não se pode investigar a respeito da realização do desejodesse sonho. Ele continuará esquecendo este aspecto. Sua rejeição da teoria da realização de desejorealmente não é mais que uma conseqüência de censura dos sonhos, um substituto da rejeição dos desejosoníricos censurados e uma decorrência da mesma. Naturalmente, também sentimos a necessidade de explicar a nós próprios por que existem tantossonhos de conteúdo aflitivo e, especialmente, por que existem sonhos de ansiedade. Aqui, pela primeira vez,encontramos o problema dos afetos nos sonhos; mereceria uma monografia à parte, porém, infelizmente, não oadentraremos. Se os sonhos são realizações de desejos, deveria ser impossível surgirem neles os sentimentos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 122desagradáveis: então pareceria que as críticas leigas teriam razão. Deve-se, contudo, levar em conta três tiposde complicações de que ainda não se havia cogitado. [1] Em primeiro lugar, pode ser que a elaboração onírica não tenha conseguido criar uma realização dedesejo; assim, parte do afeto aflitivo dos pensamentos oníricos ficou excedente no sonho manifesto. Nessecaso, a análise teria de demonstrar que estes pensamentos oníricos eram muito mais desagradáveis do que osonho que foi construído a partir deles. Que sempre se pode provar muita coisa. Sendo assim, devemos admitirque a elaboração onírica atingiu seu objetivo em grau não maior do que o sonho com beber, o qual, formadoem resposta ao estímulo da sede, não conseguiu aplacar a sede [ver em [1] e seg.]. Aquele que tem um talsonho permanece com sede e tem de acordar para tomar algo. Não obstante, era um sonho verdadeiro e nãoperdera nada da natureza essencial de um sonho. Podemos apenas dizer: ‘Ut desint vires, tamen est laudandavoluntas.’ A intenção, pelo menos, que pode ser definidamente reconhecida, merece ser valorizada. Tais casosde fracasso não são eventos raros. Concorre para isto o fato de que é muito mais difícil a elaboração oníricaalterar o sentido dos afetos de um sonho do que o seu conteúdo; os afetos, às vezes, são altamenteresistentes. O que então acontece é a elaboração onírica transformar o conteúdo aflitivo dos pensamentosoníricos na realização de um desejo, ao passo que o afeto desagradável persiste inalterado. Em sonhos dessaespécie, o afeto é bastante inadequado ao conteúdo, e nossos críticos podem dizer que os sonhos tão distanteestão de serem realizações de desejos que, mesmo mantendo um conteúdo inócuo, podem ser sentidos comoaflitivos. Podemos responder a este comentário superficial assinalando que é precisamente em sonhos dessanatureza que o propósito realizador de desejos da elaboração onírica aparece mais claramente, por ter sidoisolado. O erro surge porque àqueles que não estão familiarizados com as neuroses, se lhes afigura demasiadoíntimo o vínculo entre conteúdo e afeto, e, portanto, não podem imaginar que o conteúdo seja alterado semuma alteração simultânea da expressão do afeto ligado a ele.[2] Um segundo fator, muito mais importante e degrande alcance, contudo igualmente negligenciado pelos leigos, apresenta-se a seguir. Não há dúvida de queuma realização de desejo deve proporcionar prazer; mas então surge a pergunta: ‘A quem?’ À pessoa que temo desejo, naturalmente. Mas, como sabemos, a relação do sonhador para com seus desejos é uma relaçãomuito especial. Ele os repudia e os censura — não tem nenhuma simpatia por eles, em suma. De modo quesua realização não lhe dará prazer, e sim o oposto; e a experiência mostra que este oposto aparece sob aforma de ansiedade, um fato ainda a explicar. Assim, aquele que sonha, em sua relação com seus desejosoníricos, só pode ser comparado à amálgama de duas pessoas separadas, que estão ligadas por algum forteelemento em comum. Em vez de estender-me sobre isto, recordarei para os senhores um conhecido conto defadas, no qual encontrarão a mesma situação repetida. Uma fada boa prometeu a um casal pobre assegurar-lhe a realização dos seus três primeiros desejos. Eles ficaram jubilosos e puseram-se a pensar em comoescolher cuidadosamente seus três desejos. Mas um cheiro de lingüiça frita, proveniente da casa próxima,tentou a mulher a desejar algumas lingüiças. Num relâmpago, ali estavam as lingüiças; e esta foi a primeirarealização de desejo. Mas o marido se enfureceu, e, em sua raiva, desejou que as lingüiças ficassemdependuradas no nariz da mulher. E foi isto o que também aconteceu; e não havia como retirá-las dessa novaposição. Esta foi a segunda realização de desejo; mas o desejo era do homem, e a sua realização foi muitodesagradável para sua mulher. Os senhores sabem o restante da história. Visto que, afinal, eles eram, de fato,um — marido e mulher — o terceiro desejo não podia ser senão o de que as lingüiças se desprendessem do Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 123nariz da mulher. Este conto de fadas poderia ser usado em relação a muitas outras coisas; mas aqui serveapenas para ilustrar a possibilidade de que, se duas pessoas não estão de acordo uma com a outra, arealização de um desejo de uma delas não pode senão causar desprazer à outra. Agora não nos será difícil conseguir compreender melhor ainda os sonhos de ansiedade.Apresentaremos uma nova observação, e então nos decidiremos a adotar a hipótese a favor da qual há muitoque dizer. A observação consiste em que os sonhos de ansiedade freqüentemente possuem um conteúdo, porassim dizer, que escapou à censura. Um sonho de ansiedade, muitas vezes, é a realização indisfarçada de umdesejo — não, naturalmente, de um desejo inaceitável, mas de um desejo repudiado. A geração da ansiedadeassumiu o lugar da censura. Ao passo que de um sonho infantil podemos dizer ser ele a realização franca deum desejo permitido, e de um sonho deformado como sendo a realização disfarçada de um desejo reprimido, aúnica fórmula adequada a um sonho de ansiedade consiste em que este é a realização franca de um desejoreprimido. A ansiedade é um sinal de que o desejo reprimido se mostrou mais forte que a censura, que elelevou a cabo, ou está a ponto de levar a cabo, sua realização de desejo, apesar da censura. Percebemos queaquilo que para o desejo é uma realização de desejo, para nós só pode ser, de vez que estamos do lado dacensura, motivo de sentimentos angustiantes e de repulsa ao desejo. A ansiedade que emerge nos sonhos é,se preferem, ansiedade face à força destes desejos que normalmente estão sob controle. A razão por que estarepulsa aparece na forma da ansiedade não pode ser descoberta apenas a partir do estudo dos sonhos; aansiedade deve ser estudada, evidentemente, em outro contexto.Podemos supor que aquilo que é verdadeiropara os sonhos de ansiedade não-deformados também se aplica àqueles parcialmente deformados, assimcomo a outros sonhos desprazíveis, nos quais os sentimentos desagradáveis provavelmente correspondem auma aproximação da ansiedade. Sonhos de ansiedade, via de regra, são também sonhos que fazem despertar;habitualmente interrompemos nosso sono antes que o desejo reprimido, no sonho, tenha executado arealização completa, apesar da censura. Nesse caso, a função do sonho fracassou, mas sua naturezaessencial não foi modificada com isto. Temos comparado os sonhos com o vigia noturno ou guardião do sono,que procura proteger nosso sono contra perturbações [ver em [1]]. O vigia noturno, também, pode chegar aoponto de acordar a pessoa que dorme, se sente que é por demais fraco para, sozinho, afugentar a perturbaçãoou o perigo. Ainda assim, às vezes conseguimos continuar nosso sono, mesmo quando o sonho começa a ficarinseguro e a transformar-se em ansiedade. Dizemos a nós mesmos, em nosso sono, ‘afinal é apenas umsonho’, e continuamos dormindo.Quando ocorre que um desejo onírico consegue sobrepujar a censura? Acondição necessária para isto pode ser preenchida tanto pelo desejo onírico como pela censura do sonho. Odesejo, devido a uma causa desconhecida, pode ser excessivamente forte em uma ocasião; mas tem-se aimpressão de que, com mais freqüência, a conduta da censura do sonho é a responsável por estedeslocamento de suas forças relativas. Já vimos [ver em [1]] que a censura atua com intensidade variável emcada caso particular, que ela trata cada elemento de um sonho com um grau diferente de severidade. Agorapodemos acrescentar mais uma hipótese no sentido de que, em geral, a censura é muito variável e nãoemprega igual severidade para com cada elemento censurável. Caso suceda, em dada ocasião, sentir-se semforças contra um desejo onírico que ameaça tomá-la de surpresa, em vez da deformação ela se utiliza de seuúltimo recurso restante e abandona o estado de sono, ao mesmo tempo gerando ansiedade.Nessa conexão,surpreende-nos o fato de ainda ignorarmos, tanto, por que esses desejos maus, repudiados, se tornam ativos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 124justamente à noite, e nos perturbam durante o sono. A resposta, praticamente, não pode deixar de sefundamentar em alguma hipótese relativa à natureza do estado de sono. Durante o dia uma pesada censura osoprime, e, via de regra, lhes torna impossível manifestar-se em qualquer atividade. À noite, esta censura, assimcomo todos os demais interesses da vida mental, provavelmente, está afastada ou, pelo menos, muito reduzida,em benefício apenas do desejo de dormir. É a essa diminuição da censura, à noite, que os desejos proibidosdevem agradecer por poderem se tornar novamente ativos. Há alguns pacientes neuróticos que são incapazesde dormir, e admitem que sua insônia foi, inicialmente, intencional. Não ousavam dormir porque temiam os seussonhos — isto é, temiam os resultados do enfraquecimento da censura. Os senhores constatarão comfacilidade, entretanto, que, a despeito disto, o afastamento da censura não importa em grande desorganização.O estado de sono paralisa nossa capacidade motora. Se nossas intenções más começam a perturbar, elaspodem, afinal, causar nada mais do que simplesmente um sonho, que é inócuo, do ponto de vista prático. Éesta consideração apaziguadora a base de comentário altamente inteligente feito por aquele que está sonhando— à noite, é verdade, mas não formando parte da vida onírica: ‘Afinal, é apenas um sonho. Deixemos que elesiga seu caminho, continuemos dormindo.’[3] Em terceiro lugar, se os senhores se recordarem de nossa idéiade que o sonhador, lutando contra seus próprios desejos, pode ser comparado à soma de duas pessoasseparadas, embora de algum modo em íntima conexão uma com a outra, compreenderão mais umapossibilidade. Porque existe uma possibilidade de que a realização de um desejo venha a causar algo nadaprazeroso — ou seja, uma punição. Aqui, novamente, podemos utilizar como ilustração o conto de fadas dostrês desejos. As lingüiças fritas, em um prato, eram realização direta do desejo da primeira pessoa, a mulher.As lingüiças grudadas em seu nariz eram a realização do desejo da segunda pessoa, o marido; contudo eram,ao mesmo tempo, uma punição pelo desejo tolo da mulher. (Nas neuroses descobriremos o motivo do terceirodesejo, o último que restava, no conto de fadas.) Existem várias dessas tendências punitivas na vida mentaldos seres humanos; são muito poderosas e podemos atribuir-lhes a responsabilidade de alguns dos sonhosaflitivos. Agora, talvez, os senhores dirão que com isto resta muito pouco da famosa realização de desejo. Aoconsiderarem a questão mais detidamente, porém, admitirão que se enganaram. Comparada com amultiplicidade (que mencionarei mais adiante) de coisas que os sonhos podem ser, e, segundo muitasautoridades, realmente são, nossa solução — realização de desejo, realização de ansiedade, realização depunição — é muito restrita. Podemos acrescentar que a ansiedade é o oposto direto do desejo, que os opostosse encontram muito próximos um do outro nas associações e que, no inconsciente, eles se unem [ver em [1] esegs.]; e, ademais, que a punição também é a realização de um desejo: do desejo da outra pessoa, a quecensura. No conjunto, portanto, não fiz concessão à objeção dos senhores contra a teoria da realização dedesejo. Compete-nos, porém, sermos capazes de indicar a realização de desejo em todo sonho deformado quepudermos encontrar, e, por certo, não fugiremos à tarefa. Retornemos ao sonho que já interpretamos, o sonhodos três ingressos ruins por 1 florim e meio [ver em [1] e [2] ], do qual já aprendemos tanto. Espero que serecordem dele. Uma senhora, cujo marido lhe havia dito, durante o dia, que sua amiga Elise, que era só trêsmeses mais nova que ela, havia noivado, sonhou que estava no teatro, com seu marido. Um dos lados daprimeira fila de cadeiras estava quase vazio. Seu marido dizia-lhe que Elise e seu noivo também tinhamdesejado ir ao teatro, mas não puderam, pois apenas tinham conseguido lugares ruins — três por 1 florim e Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 125meio. Ela pensou que não teria havido nenhum prejuízo se tivessem ido. Verificamos que os pensamentosoníricos estavam relacionados à sua irritação por haver casado tão cedo e à sua insatisfação com seu marido.Talvez tenhamos a curiosidade de descobrir como estes pensamentos sombrios se transformaram numarealização de desejo e onde se pode encontrar algum vestígio do mesmo no conteúdo manifesto do sonho. Jásabemos que o elemento ‘muito cedo, apressadamente’ foi eliminado do sonho pela censura [ver em [1] e [2]].As cadeiras vazias eram uma alusão a esse elemento. O misterioso ‘três por 1,50 florim’ agora se nos tornamais inteligível com a ajuda do simbolismo, com o qual, nesse meio tempo, nos familiarizamos. O ‘3’ realmentesignifica um homem [ou marido] e o elemento manifesto é fácil de traduzir: comprar um marido com o dote dela.(‘Eu poderia ter conseguido um dez vezes melhor com meu dote.’) ‘Casar’ está claramente substituído por ‘ir aoteatro’. ‘Comprar os ingressos cedo demais’ é, realmente, um substituto imediato de ‘casar cedo demais’. Estasubstituição é, porém, obra da realização de um desejo. Essa mulher nem sempre estava tão insatisfeita comseu casamento precoce como estava no dia em que recebeu a notícia do noivado de sua amiga. Em certaépoca, tinha estado orgulhosa do seu casamento e considerava-se em vantagem sobre sua amiga. Como sesabe, moças ingênuas, depois de haverem noivado, freqüentemente expressam seu contentamento porpoderem, em breve, ir ao teatro, a todas as peças que até então foram proibidas, e terem permissão de vertudo. O prazer de olhar, ou a curiosidade, que nisto se revela, era sem dúvida, originalmente, um desejo sexualde olhar [escopofilia], dirigido para os eventos sexuais e especialmente para os pais das moças; daí haver-setornado poderoso motivo para induzi-las a um casamento precoce. Assim sendo, freqüentar o teatro tornou-se,mediante uma alusão, um substituto óbvio de estar casada. Por tanto, essa senhora que sonhou, em sua atualirritação com seu casamento precoce, retrocedeu ao tempo em que o casamento precoce constituía arealização de um desejo, porque satisfazia a sua escopofilia, e, levada por esse antigo impulso pleno de desejo,substituiu casamento por ir ao teatro.Não posso ser acusado de ter selecionado especialmente o exemplo maisconveniente para provar uma oculta realização de desejo. O procedimento haveria de ter sido o mesmo no casode outros sonhos deformados. Não posso demonstrar-lhes isto agora, e apenas expressarei minha convicçãode que sempre poderia ser executado com êxito. Entretanto, deter-me-ei um pouco mais neste ponto teórico. Aexperiência ensinou-me que este é um dos pontos mais expostos a ataque em toda a teoria dos sonhos, e quemuitas contradições e equívocos se originam nele. Ademais disso, os senhores talvez ainda se encontrem soba impressão de que já retirei parte da minha afirmação ao dizer que um sonho é um desejo realizado, ou ooposto de um desejo realizado, ou uma ansiedade, ou uma punição realizada; e os senhores podem pensarque esta é uma oportunidade para me forçarem a outras restrições. Também tenho sido censurado porapresentar coisas que me parecem óbvias sob forma por demais concisa e, em conseqüência, não-convincente. Quando alguém nos acompanhou até aqui na interpretação dos sonhos e aceitou tudo que foiapresentado até este ponto, amiúde sucede que faz uma pausa na realização de desejo e diz: ‘Já que ossonhos sempre tem um sentido e este sentido pode ser descoberto pela técnica da psicanálise, por que deveeste sentido, com todas as evidências em contrário, ser enquadrado à força dentro da fórmula da realização dedesejo? Por que não deveria o sentido deste pensar noturno ser de tantas espécies quantas são o do pensardiurno? Ou seja, por que não deveria um sonho muitas vezes corresponder a um desejo realizado, às vezes,como o senhor mesmo o diz, ao oposto desse desejo ou a um medo realizado, mas, às vezes, exprimir uma Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 126intenção, uma advertência, uma reflexão com os seus prós e contras, ou uma reprovação, um escrúpulo deconsciência, uma tentativa de se preparar para uma tarefa urgente, e assim por diante? Por que deve sersempre apenas um desejo, ou, quando muito, o oposto do desejo?’ Poder-se-ia pensar que uma diferença de opinião neste ponto não tem importância, se se concorda norestante. Poder-se-ia dizer que basta havermos descoberto o sentido dos sonhos e a maneira de reconhecê-lo;é de somenos importância se parecemos definir de maneira muito restrita esse sentido. Não é isso, porém. Umequívoco neste ponto afeta a essência de nossas descobertas sobre os sonhos e põe em perigo o valor dasmesmas para a compreensão das neuroses. Além disso, um acordo dessa espécie — que é muito cogitado navida comercial como sendo uma ‘cortesia’ — não tem acolhida em assuntos científicos, por ser prejudicial. Minha primeira resposta à pergunta de saber por que os sonhos não possuem numerosas significaçõesno sentido indicado, é a que costumo dar em tais casos: ‘Não sei por que não possuem. Não teria o que objetar.Na parte que me interessa, poderia ser assim. Existe apenas um detalhe nessa questão de um conceito maisvasto e mais cômodo dos sonhos — é que na realidade não é assim.’ Minha segunda resposta seria que ahipótese de que os sonhos correspondem a uma variedade de formas de pensar e de operações intelectuais,não me é estranha, a mim próprio. Já certa vez relatei um sonho, em um de meus casos clínicos, o qualapareceu por três noites sucessivas, e depois nunca mais; e expliquei essa conduta com o fato de que o sonhocorrespondia a uma intenção e não necessitava repetir-se depois de a intenção ter sido realizada. Mais tardepubliquei um sonho que corresponde a uma aprovação. Portanto, como poderei contradizer-me e afirmar queos sonhos jamais são outra coisa senão um desejo realizado?Faço-o, porque não deixarei passar um equívocotolo que pode nos roubar o fruto de nossos esforços com os sonhos — um equívoco que confunde o sonho comos pensamentos oníricos latentes e afirma, acerca daquele, algo que se aplica somente a este. Pois é bastantecorreto dizer que o sonho pode representar, e ser substituído por, tudo aquilo que os senhores há poucoenumeraram — uma intenção, uma advertência, uma reflexão, uma preparação, uma tentativa de solucionar umproblema, e assim por diante. Se examinarem atentamente, verão, todavia, que tudo isso se aplica somenteaos pensamentos oníricos latentes que foram transformados em sonho. Os senhores sabem, das interpretaçõesde sonhos, que o pensar inconsciente das pessoas centra-se nessas intenções, preparações, reflexões, eassim por diante, a partir das quais a elaboração onírica então forma os sonhos. Se, no momento, os senhoresnão estão interessados na elaboração onírica, estiverem, contudo, muito interessados na atividade ideativainconsciente das pessoas, então os senhores eliminam a elaboração onírica e dizem do sonho o que na práticaé bastante correto — que ele corresponde a uma advertência, uma intenção, e assim por diante. O quefreqüentemente acontece na atividade psicanalítica é que nossos esforços se dirigem principalmente para aeliminação da forma onírica e visam a inserir no contexto, em vez da forma onírica, os pensamentos latentescom os quais o sonho foi feito.Assim, bastante incidentalmente, constatamos, de nosso exame dospensamentos oníricos latentes, que todos estes atos mentais altamente complexos que citamos podem realizar-se inconscientemente — uma descoberta tão grandiosa quanto surpreendente!Mas, voltando atrás, os senhoressomente estarão corretos enquanto tiverem plena consciência de haver usado uma forma abreviada deexpressão e enquanto não acreditarem que a multiplicidade que descreveram deve estar relacionada ànatureza essencial dos sonhos. Quando falam de ‘sonho’, devem querer significar ou o sonho manifesto — istoé, o produto da elaboração onírica — ou, no máximo, também a própria elaboração onírica, isto é, o processo Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 127psíquico que forma o sonho manifesto a partir dos pensamentos oníricos latentes. Qualquer outro uso dapalavra significa confusão de idéias, e só pode levar a maus resultados. Quando estiverem fazendo afirmaçõesacerca dos pensamentos latentes por trás do sonho, façam-no diretamente, e não obscureçam o problema dossonhos com uma forma negligente de falar. Os pensamentos oníricos latentes são o material que a elaboraçãoonírica transforma em sonho manifesto. Por que teriam de confundir o material com a atividade que o forma?Com isto, que vantagem os senhores teriam sobre aqueles que apenas conheceram o produto dessa atividade,e não puderam explicar de onde veio ou como foi feito?A única coisa essencial a respeito de sonhos é aelaboração onírica que modificou o material ideativo. Não temos o direito de ignorá-la, em nossa teoria, aindaque a negligenciemos em algumas situações práticas. A observação analítica demonstra, também, que aelaboração onírica nunca se limita a traduzir esses pensamentos em um modo de expressão arcaico ouregressivo que os senhores conhecem. Ademais, regularmente se apossa de mais alguma coisa, que não fazparte dos pensamentos latentes do dia anterior, mas que é a verdadeira força propulsora da construção dosonho. Este acréscimo indispensável é o desejo igualmente inconsciente, para cuja realização o conteúdo dosonho recebe sua nova forma. Portanto, um sonho pode ser qualquer espécie de coisas desde que os senhoresestejam apenas tomando em consideração os pensamentos que representa — uma advertência, uma intenção,uma preparação, e assim por diante; mas também é sempre a realização de um desejo inconsciente e, se ossenhores o considerarem produto da elaboração onírica, ele é isto, somente. Assim sendo, um sonho nunca ésimplesmente uma intenção, ou uma advertência, mas sempre uma intenção, etc. traduzida para o modoarcaico de pensamento, mediante o auxílio de um desejo inconsciente, e transformada para realizar essedesejo. [Ver em [1]] Esta característica, a de realização de desejo, é a característica invariável; as demaispodem variar. Pode, por seu turno, mais uma vez, ser um desejo, e neste caso o sonho, com auxílio de umdesejo inconsciente, representará como realizado um desejo latente do dia anterior.Eu consigo compreendertudo isto muito claramente; mas não posso dizer se consegui torná-lo inteligível também para os senhores. Etambém tenho dificuldade em lho demonstrar. Isso não pode ser feito sem cuidadosamente analisar muitíssimossonhos e, por outro lado, esse aspecto tão importante e tão crítico de nosso conceito dos sonhos não pode serconvincentemente apresentado sem nos referirmos àquilo que vem depois. É impossível supor, de vez que tudoé intimamente inter-relacionado, que se possa penetrar profundamente na natureza de uma coisa sem que setenha levado em conta coisas de natureza semelhante. Como ainda não sabemos nada dos parentes maispróximos dos sonhos, os sintomas neuróticos, mais uma vez devemos contentar-nos, neste ponto, com o quetemos conseguido. Quero apenas dar-lhes só mais um exemplo ilustrativo e expor-lhes uma nova idéia. Retomemos o sonho ao qual retornamos tantas vezes: o sonho dos três ingressos de teatro por 1 florime meio. (Posso assegurar-lhes que inicialmente escolhi este exemplo sem qualquer propósito especial emvista.) Os senhores conhecem os pensamentos oníricos latentes: irritação por ter tido tanta pressa de casar, oque surgiu quando ela ouviu a notícia de que sua amiga só então acabava de noivar, atribuindo pouco valor aseu marido; e a idéia de que poderia ter conseguido um marido melhor, se ela ao menos tivesse esperado. Jáconhecemos o desejo que fez desses pensamentos um sonho: era o desejo de olhar, de poder ir ao teatro,muito provavelmente uma derivação de sua antiga curiosidade de descobrir, afinal, o que realmente acontecequando uma pessoa casa. Esta curiosidade, conforme sabemos, as crianças dirigem-na regularmente à vidasexual dos pais; trata-se de curiosidade infantil e, na medida em que ainda persiste, mais tarde, de um impulso Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 128instintual com raízes que remontam à infância. A notícia que a sonhadora recebeu durante o dia nãoproporcionou a ocasião de despertar este desejo de olhar, mas apenas despertou irritação e desgosto. Esteimpulso pleno de desejo não se encontrava, à primeira vista, em conexão com os pensamentos oníricoslatentes; e poderíamos incluir o resultado da interpretação do sonho na análise sem levar em conta esseimpulso. A irritação, de per se, contudo não era capaz de criar um sonho. Um sonho não poderia surgir a partirdos pensamentos de que ‘foi absurdo casar tão cedo’, a não ser quando estes despertaram o antigo desejo dever, até que enfim, o que acontece no casamento. Este desejo, então, deu ao conteúdo do sonho a sua forma,substituindo casamento por ir ao teatro, e a forma foi a de uma anterior realização de desejo: ‘Toma! agora euposso ir ao teatro e vez tudo o que é proibido, e tu não podes! Estou casada e tu tens que esperar!’ Dessemodo, sua presente situação foi transformada em seu oposto, um velho triunfo se colocou no lugar de suarecente frustração. E, aliás, a satisfação de sua escopofilia misturou-se à satisfação de sua tendênciacompetitiva egoística. Esta satisfação determinou, então, o conteúdo manifesto do sonho, no qual a situaçãoreal consistia em que ela estava no teatro, ao passo que a amiga não conseguia obter ingresso ao mesmo. Aspartes do conteúdo do sonho, atrás das quais os pensamentos oníricos latentes ainda permanecemescondidos, foram superpostas a essa situação de satisfação, como modificação equívoca e ininteligível damesma. A interpretação do sonho teve de desprezar tudo quanto serviu para representar a realização dedesejos e de restabelecer os pensamentos oníricos latentes aflitivos, diferenciando-os desses obscuros indíciosremanescentes.A nova idéia que desejo apresentar-lhes é atrair sua atenção para os pensamentos oníricoslatentes que agora se colocaram em primeiro plano. Peço-lhes que não se esqueçam de que, em primeirolugar, eles são inconscientes para o sonhador e, em segundo lugar, de que ele são completamente racionais ecoerentes, de modo que podem ser compreendidos como reações naturais à causa precipitante do sonho; e,em terceiro lugar, de que eles podem ser o equivalente de qualquer impulso mental ou operação intelectual.Agora descreverei estes pensamentos, mais estritamente do que antes, como resíduos diurnos, admita-os ounão a pessoa que teve o sonho. E farei a distinção entre os resíduos diurnos e os pensamentos oníricoslatentes e, de conformidade com o uso que fizermos anteriormente, designarei como pensamentos oníricoslatentes tudo o que constatamos na interpretação do sonho, enquanto os resíduos diurnos constituem apenasuma parte dos pensamentos oníricos latentes. Pensamos, pois, que alguma coisa se acrescenta aos resíduosdiurnos, algo que também fazia parte do inconsciente, um impulso pleno de desejos, poderoso, porémreprimido; e é este, somente, que torna possível a construção do sonho. A influência deste impulso pleno dedesejos sobre os resíduos diurnos cria a outra parte dos pensamentos oníricos latentes — essa parte que jánão necessita parecer racional e inteligível como se fosse derivada da vida desperta.Tenho usado de umaanalogia para ilustrar a relação entre os resíduos diurnos e o desejo inconsciente, e aqui posso apenas repeti-la. Em todo empreendimento, é preciso haver um capitalista que cobre as despesas e um entrepreneur que tema idéia e sabe como pô-la em prática. Na construção dos sonhos, o papel do capitalista é sempredesempenhado apenas pelo desejo inconsciente; este prove a energia psíquica para a construção do sonho. Oentrepreneur é o resíduo diurno que decide como deve ser usado este dispêndio de energia. Naturalmente, épossível o próprio capitalista ter a idéia e o conhecimento técnico, ou o próprio entrepreneur ter o capital. Istosimplifica a situação prática, porém dificulta a compreensão teórica. Em economia, a mesma pessoa seencontra constantemente dividida em seus dois aspectos de capitalista e de entrepreneur, e isto restabelece a Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 129situação fundamental em que se baseou nossa analogia. Na construção onírica, as mesmas flutuaçõesacontecem, e deixo que os senhores as complementem.Neste ponto não podemos progredir mais, pois ossenhores provavelmente há muito têm sido perturbados por uma dúvida, e esta merece atenção. ‘Os resíduosdiurnos’, os senhores me perguntarão, ‘são realmente inconscientes no mesmo sentido que o desejoinconsciente que deve ser acrescentado a eles, a fim de torná-los capazes de produzir um sonho?’ A suposiçãodos senhores está correta. Este é o ponto saliente em todo este assunto. Não são inconscientes no mesmosentido. O desejo onírico pertence a um inconsciente diferente — àquele inconsciente que já reconhecemoscomo tendo uma origem infantil e mecanismos peculiares [ver em [1] e [2]]. Seria muito oportuno distinguiressas duas espécies de inconscientes por meio de nomes diferentes. Preferiríamos, porém, esperar até nosfamiliarizarmos com a área dos fenômenos das neuroses. As pessoas consideram um tanto fantástico haver umsó inconsciente. Que dirão quando confessarmos que temos de nos haver com dois?Vamos interromper nesteponto. Mais uma vez, os senhores ouviram somente algo incompleto. No entanto, não é promissor pensar queeste conhecimento tem uma continuação, que ou nós mesmos ou outras pessoas iremos elucidar? E nósmesmos já não aprendemos tantas coisas novas e surpreendentes? CONFERÊNCIA XV - INCERTEZAS E CRÍTICAS SENHORAS E SENHORES: Não deixaremos o tema dos sonhos sem abordarmos as dúvidas e incertezas mais comuns que nossasinovações e nossas teorias originaram até aqui. Os senhores mesmos, ouvintes atentos, terão coligido algumasjunto ao material de que tratamos. (1) Os senhores podem ter tido a impressão de que, embora a técnica seja corretamente executada, asdescobertas de nosso trabalho interpretativo de sonhos admitem tantas incertezas, que chegam a invalidarqualquer tradução segura do sonho manifesto para os pensamentos oníricos latentes. Em apoio a isso, ossenhores argumentarão que, em primeiro lugar, nunca se sabe se um determinado elemento do sonho deve serentendido no seu sentido realçou na qualidade de símbolo, pois as coisas empregadas como símbolos nãodeixam de, por este motivo, ser elas mesmas. Se, no entanto, não se dispõe de indício objetivo para resolveristo, a interpretação, nesse ponto, deve ser deixada à escolha arbitrária do interpretador. Ademais, emconseqüência do fato de que, na elaboração onírica, os contrários se fundem, sempre permaneceindeterminado se certo elemento deve ser compreendido em sentido positivo ou negativo como sendo elepróprio ou como sendo o seu contrário [ver em [1]]. Aqui está uma nova oportunidade de o interpretador exerceruma escolha arbitrária. Em terceiro lugar, em conseqüência de inversões de toda espécie, tão ao gosto dossonhos [ver em [1]], é facultado ao interpretador efetuar uma inversão dessas em relação a qualquer passagemdo sonho que venha a escolher. E, por fim, comentarão que ouviram dizer que jamais se tem certeza de que ainterpretação que se encontrou para um sonho é a única possível. Corremos o risco de passar por alto uma‘superinterpretação’ perfeitamente admissível do mesmo sonho [ver em [1]]. Nestas circunstâncias, concluirãoos senhores, deixa-se tanta margem para a decisão arbitrária do interpretador, que esta se torna incompatívelcom a certeza objetiva dos dados. Ou, alternativamente, podem supor que a falha não se situa nos sonhos,mas que as inexatidões de nossa interpretação de sonhos devem ser atribuídas a erros em nossos pontos de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 130vista e em nossas premissas.Todos os elementos que os senhores apresentam são indiscutíveis; porém,segundo penso, não justificam suas conclusões, em dois aspectos, ou seja: que a interpretação de sonhos,como insistem os senhores, esteja à mercê da escolha arbitrária, e que a falta de resultados lance dúvidassobre a correção de nosso método. Se, em lugar da escolha arbitrária feita pelo interpretador, os senhores sereferissem à sua habilidade, à sua experiência e à sua compreensão, eu concordaria com os senhores.Naturalmente, não podemos dispensar um fator pessoal como este, especialmente nos problemas mais difíceisda interpretação de sonhos. A situação não é, porém, nada diferente em outras áreas científicas. Não há comoevitar que uma pessoa faça melhor uso de uma técnica, que de outra. Em outros termos, aquilo que dá aimpressão de casualidade — na interpretação de sonhos, por exemplo — é desfeito pelo fato de, via de regra, ainterconexão entre pensamentos oníricos, ou a conexão entre o sonho e a vida de quem sonha, ou a situaçãopsíquica global em que ocorre o sonho, selecionar uma só entre as soluções possíveis apresentadas,dispensando as demais, como inservíveis. A conclusão de que, por causa das imperfeições na interpretação desonhos, nossas hipóteses seriam incorretas, é invalidada assinalando-se que, ao contrário, a ambigüidade ou aindefinição é uma característica dos sonhos que era de se prever, necessariamente.Recordemos haver dito quea elaboração onírica executa uma versão dos pensamentos oníricos segundo um modo de expressão primitivo,semelhante à escrita pictográfica [ver em [1] e segs.]. No entanto, todos esses sistemas primitivos de expressãose caracterizam por indefinição e ambigüidade semelhante, não justificando que lancemos dúvidas sobre suaserventia. A fusão dos contrários, na elaboração onírica, é, como sabem, análoga à chamada ‘significaçãoantitética das palavras primitivas’ nos idiomas mais antigos. Realmente, Abel (1884), o filólogo ao qual devemosessa linha de pensamento, nos pede não supormos que as comunicações feitas por uma pessoa a outra, com aajuda de tais palavras ambivalentes, sejam, por essa razão, ambíguas. Pelo contrário, entonação e gestosdevem tê-las feito muito precisas, no contexto do discurso, indicando qual dos dois contrários o interlocutortencionava comunicar. Na escrita, onde o gesto está ausente, seu lugar era ocupado por um sinal pictográficoque não se destinava a ser falado — por exemplo, pela figura de um homenzinho, agachado e cambaleando oufirmemente ereto, conforme o hieróglifo ‘ken‘ devesse significar ‘fraco’ ou ‘forte’. Assim, apesar da ambigüidadedos sons e sinais, evitava-se o equívoco. [Ver em [1] e [2], anteriores.] Os antigos sistemas de expressão — por exemplo, a escrita dos idiomas mais antigos — revelamvaguidade em uma variedade de formas tal que não toleraríamos em nossa escrita atual. Assim, em algumasescritas semíticas, somente estão indicadas as consoantes das palavras. O leitor deve inserir as vogaisomitidas, segundo seus conhecimentos e o contexto. A escrita hieroglífica se comporta de forma similar,embora não precisamente da mesma maneira; e por este motivo permanece desconhecida para nós apronúncia do antigo idioma egípcio. A escrita sagrada dos egípcios é importante também em outros aspectos.Por exemplo, compete à decisão arbitrária do escriba dispor as figuras da direita para a esquerda ou daesquerda para a direita. A fim de proceder à sua leitura, deve-se seguir a regra de ler em direção aos rostos dasfiguras, pássaros, e assim por diante. Porém o escriba também podia ordenar os sinais pictográficos emcolunas verticais, e, ao fazer inscrições em objetos comparativamente pequenos, permitia que consideraçõesde decoração e espaço o influenciassem no sentido de alterar a seqüência dos sinais de outras maneiras. Oque mais perturba na escrita hieroglífica é, sem dúvida, o fato de não haver separação entre as palavras. Asfiguras são dispostas na página separadas por distâncias iguais; em geral, é impossível dizer se um sinal ainda Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 131faz parte da palavra precedente ou se forma o começo de uma nova palavra. Na escrita cuneiforme persa, poroutro lado, uma cunha oblíqua serve para separar as palavras. Idioma e escrita extremamente antigos, o chinês ainda é usado por quatrocentos milhões de pessoas.Os senhores não devem supor que eu absolutamente o entenda; somente obtive algumas informações sobre omesmo porque esperava encontrar nele analogias com a imprecisão dos sonhos. E minha expectativa nãosofreu desapontamento. O idioma chinês está cheio de exemplos de imprecisão que poderiam nos deixar muitoalarmados. Como se sabe, compõe-se de numerosos sons silábicos que são falados isolados ou combinadosaos pares. Um dos principais dialetos possui uns quatrocentos destes sons. Como o vocabulário deste dialeto écalculado em cerca de quatro mil palavras, porém, conclui-se que cada som tem, em média, dez significadosdiferentes — alguns menos, mas outros, em troca, têm mais. Existem numerosos métodos de evitar aambigüidade, pois não se pode inferir, apenas a partir do contexto, qual dos dez significados do som silábico apessoa tenciona transmitir ao ouvinte. Entre esses métodos estão aqueles que consistem em combinar doissons em uma palavra composta e em utilizar quatro diferentes ‘tons’ na pronúncia das sílabas. Do ponto devista de nossa comparação, é ainda mais interessante verificar que este idioma praticamente não temgramática. É impossível dizer se uma das palavras monossilábicas é um substantivo, ou um verbo, ou umadjetivo; e não há flexões verbais, pelas quais se possa reconhecer gênero, número, desinência, tempo emodo. Assim, a linguagem consta, poderia dizer-se, apenas de matéria-prima, assim como nossa linguagem-pensamento fica reduzida, através da elaboração onírica, à sua matéria-prima, e se omite qualquer expressãode relação. No idioma chinês, a solução do sentido, em todos os casos, cabe ao entendimento de quem ouve, enisto a pessoa se guia pelo contexto. Tomei nota de um exemplo de um provérbio chinês que, traduzidoliteralmente, reza assim:‘Pouca visão, muita maravilha.Não é difícil compreender isto. Pode significar: ‘Quantomenos alguém viu, mais tem com que se maravilhar’; ou: ‘De muita coisa se admira aquele que viu pouco.’Naturalmente, não há maneira de diferenciar entre estas duas versões que diferem apenas gramaticalmente.Apesar desta imprecisão, foi-nos assegurado que o idioma chinês é um veículo bastante eficiente de expressãodo pensamento. Assim, a imprecisão não deve necessariamente produzir ambigüidade.Naturalmente, deve-seadmitir que o sistema de expressão por meio de sonhos ocupa uma posição muito mais desfavorável do quequalquer desses idiomas e escritas antigos. Pois, afinal, destinam-se estes, fundamentalmente, à comunicação;ou seja, por qualquer método e com qualquer recurso, destinam-se a serem compreendidos. Precisamente estacaracterística, porém, está ausente nos sonhos. Um sonho não pretende dizer nada a ninguém. Não é umveículo de comunicação; pelo contrário, destina-se a permanecer não-compreendido. Por essa razão, nãodevemos nos surpreender ou ficar perplexos ao verificarmos que permanecem sem solução numerosasambigüidades e obscuridades dos sonhos. O único lucro certo que auferimos de nossa comparação é adescoberta de que esses pontos de incerteza que as pessoas tentaram usar como objeções à solidez denossas interpretações de sonhos são, ao contrário, características constantes de todos os sistemas primitivosde expressão.A questão de saber até onde alcança a inteligibilidade dos sonhos somente pode ser respondidapela prática e pela experiência. Muito longe, creio; e minha opinião é confirmada ao compararmos os resultadosproduzidos por analistas de formação correta. O público leigo, inclusive o público leigo científico, como se sabe,gosta de promover uma demonstração de ceticismo quando se defronta com as dificuldades e incertezas deuma realização científica. Penso que nisto não têm razão. Talvez nem todos os senhores estejam cientes de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 132que uma situação semelhante surgiu na história da decifração das inscrições assírio-babilônicas. Houve épocaem que a opinião pública esteve muito inclinada a considerar visionários os decifradores da escrita cuneiforme,e a totalidade de suas pesquisas, uma ‘impostura’. Mas, em 1857, a Royal Asiatic Society fez uma experiênciadecisiva. Solicitou a quatro dos peritos mais altamente respeitados em escrita cuneiforme, Rawlinson, Hincks,Fox Talbot e Oppert para remeterem, em envelopes lacrados, traduções independentes de uma inscriçãorecentemente descoberta; e, após uma comparação entre os quatro trabalhos, pôde anunciar que aconcordância entre estes peritos era suficiente para justificar o crédito que até então se havia dado e aconfiança em posteriores realizações. A zombaria por parte do mundo leigo culto diminuiu gradualmente, apósisto, e desde então tem aumentado enormemente a certeza na leitura dos documentos cuneiformes.(2) Umsegundo grupo de dúvidas está em conexão íntima com a impressão, à qual certamente nem os senhoresescaparam, de que determinadas soluções, em direção às quais nos sentimos compelidos ao interpretarsonhos, parecem ser forçadas, artificiais, arranjadas por imposição — isto é, arbitrárias, ou até mesmo cômicas,anedóticas. Comentários nesse sentido são tão freqüentes, que escolherei ao acaso o último que me foirelatado. Ouçam, pois. Na Suíça livre, o diretor de uma instituição de ensino recentemente foi afastado do cargopor causa de seu interesse pela psicanálise. Ele entrou com um protesto, e um jornal de Berna publicou aversão das autoridades da escola sobre sua apelação. Selecionarei algumas frases desse documento,referentes à psicanálise: ‘Além de tudo, estamos surpresos com o aspecto forçado e artificial de muitos dosexemplos, que também podem ser encontrados na obra do Dr. Pfister, de Zurique, a qual é citada…. Porconseguinte, é realmente surpreendente que o diretor de uma instituição de ensino aceite sem críticas todasessas assertivas e provas forjadas.’ Estas frases são expostas como uma decisão a que chegou uma pessoa‘após um julgamento sereno’. Penso que esta serenidade, isto sim, é que é ‘artificial’. Examinemos essasobservações mais detidamente, na expectativa de que uma leve reflexão e um pouco de conhecimentoespecializado não constituirão nenhuma desvantagem, mesmo para um julgamento sereno. É verdadeiramente reconfortante verificar com que rapidez e infalibilidade uma pessoa pode chegar ajulgar determinados problemas delicados de psicologia profunda após ter sua primeira impressão sobre amesma. As interpretações lhe parecem artificiais e forçadas, elas não lhe agradam; assim, elas são falsas etodo esse assunto de interpretação não tem valor. E nem dedica à outra possibilidade uma idéia passageira —de que existem bons motivos para essas interpretações só poderem ter esta aparência; e daí a outra questão,ou seja, quais são esses bons motivos.O assunto em questão refere-se essencialmente aos resultados dodeslocamento, que os senhores já conhecem como o mais poderoso instrumento da censura de sonhos. Comauxílio do deslocamento, a censura de sonhos cria estruturas substitutivas que temos descrito como alusões.Mas trata-se de alusões que não são facilmente reconhecíveis como tais, cujo caminho inverso até a coisaoriginal não é fácil de estabelecer, e que se correlacionam com a coisa original por meio das associações maisestranhas, incomuns e superficiais. Em todos estes casos, no entanto, trata-se de coisas que interessa sejammantidas ocultas, condenadas ao ocultamento, pois é isto que objetiva a censura de sonhos. Não devemos,contudo, esperar que uma coisa que foi mantida escondida venha a ser encontrada em seu lugar próprio, emsua localização adequada. As comissões de controle de fronteira, que funcionam atualmente, são maishabilidosas neste aspecto do que as autoridades escolares suíças. Em sua busca de documentos e anotações,não se contentam com examinar carteiras e pastas de documentos, mas admitem a possibilidade de que os Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 133espiões e contrabandistas possam ter essas coisas proibidas nas partes mais secretas do vestuário, onde suapresença seria totalmente imprópria — por exemplo, entre as solas duplas das botas. Se as coisas ocultasestão aí, certamente será possível dizer que são ‘artificiais’, mas também é verdade que, com isso, muito seterá achado.Ao reconhecermos que as conexões entre um elemento onírico latente e o seu substituto manifestopodem ser da natureza mais remota e especial, às vezes parecendo cômicas e às vezes assemelhando-se aum chiste, estamos nos fundamentando em abundante experiência de exemplos que, via de regra, nós mesmosnão solucionamos. Amiúde, é impossível dar tais interpretações por nossa própria conta: nenhuma pessoasensata poderia adivinhar qual a conexão. Aquele que teve o sonho nos dá a tradução, toda de uma vez, pormeio de uma associação direta — ele é capaz disso, pois foi ele quem produziu o substituto — ou então fornecetanto material, que a solução não exige mais nenhuma sagacidade, mas se apresenta, por assim dizer, comoalgo muito natural no contexto. Se o sonhador deixa de prestar esta ajuda numa ou noutra destas duas formas,o elemento manifesto, que pretendemos examinar, permanecerá para sempre ininteligível para nós. Permitam-me dar-lhos um exemplo que me ocorreu há pouco. Uma de minhas pacientes perdeu seu pai, durante otratamento. Desde então, ela aproveitou todas as ocasiões para trazê-lo à vida, em seus sonhos. Num destes,seu pai apareceu (em conexão com algo sem maior importância) e disse: ‘São onze e quinze, são onze e meia,são quinze para as doze.’ Ao tentar a interpretação desta singularidade, tudo o que lhe acudiu à mente foi queseu pai gostava que seus filhos adultos chegassem pontualmente às refeições da família. Sem dúvida, isto serelacionava ao elemento onírico, mas não elucidou nada de sua origem. Havia uma suspeita, baseada nasituação imediata do tratamento, de que uma revolta crítica, cuidadosamente suprimida, contra seu pai queridoe honrado, desempenhava um papel no sonho. No decorrer das associações seguintes, aparentementedistantes do sonho, ela contou como, no dia anterior, tinha havido um bocado de conversa sobre psicologia, emsua presença, e um seu parente havia comentado: ‘O Urmensch [homem primitivo] sobrevive em todos nós.’Isto pareceu dar-nos a explicação. Fora para ela uma excelente oportunidade para trazer à vida o pai falecido.No sonho, ela o transformou no ‘Uhrmensch‘ [‘homem do relógio’] fazendo-o anunciar os quartos de hora domeio-dia.Não há como evitar a semelhança deste exemplo com um chiste; e freqüentemente tem acontecidoum chiste do sonhador ser considerado como chiste de quem interpreta. Há outros casos em que não tem sidonada fácil decidir se aquilo que estamos abordando é um chiste ou um sonho. Os senhores se lembrarão,contudo, de que a mesma dúvida surgiu no caso de algumas parapraxias — lapsos de língua [ver em [1] eseg.]. Um homem referiu, como sonho seu, que um seu tio lhe havia dado um beijo enquanto estavam sentadosno seu auto (móvel). Ele mesmo, muito rapidamente, acrescentou a interpretação: significava ‘auto-erotismo‘(um termo da teoria da libido, indicando satisfação obtida sem qualquer objeto externo). Estava o homemquerendo fazer uma brincadeira conosco e estaria ele transmitindo um chiste de que se lembrava como umsonho? Penso que não; creio que ele realmente teve o sonho. Mas qual é a origem dessa enigmáticasemelhança? Esta questão, em certa época, desviou-me temporariamente do meu caminho, forçando-me afazer dos chistes mesmos o tema de uma investigação detalhada. Aí ficou demonstrado como se originam oschistes: uma seqüência de pensamentos pré-consciente é abandonada por um momento para ser trabalhada noinconsciente, e deste ela emerge como chiste. Sob a influência do inconsciente, é sujeita aos efeitos dosmecanismos que ali imperam — condensação e deslocamento —, os mesmos processos que vimos em açãona elaboração onírica; e é a este aspecto comum que se deve atribuir a semelhança, quando ocorre, entre Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 134chistes e sonhos. O ‘chiste onírico’ involuntário não tem nada da graça de uma verdadeira anedota. Ossenhores podem vir a saber por quê, se se aprofundarem no estudo dos chistes. Um ‘chiste onírico’ se nosapresenta como anedota sem graça; não nos faz rir, deixa-nos frios.Nisso, entretanto, estamos palmilhando oscaminhos da interpretação de sonhos da Antigüidade, que, ao lado de muita coisa imprestável, deixou-nosalguns bons exemplos de interpretação de sonhos que nós mesmos não poderíamos superar. Repetirei para ossenhores um sonho que teve importância histórica, e que Plutarco e Artemidoro de Daldis [ver em [1], anterior],com ligeiras variações, referiram acerca de Alexandre Magno. Quando o rei estava sitiando a obstinadamentedefendida cidade de Tiro (322 a. C.), sonhou que via um sátiro dançando. Aristandro, o interpretador de sonhos,que se encontrava presente junto com o exército, interpretou o sonho dividindo a palavra ‘Satyros‘ em σα Τυρος[sa Turos] (tua é Tiro) e, portanto, prometeu que ele iria triunfar sobre a cidade. Por esta interpretação,Alexandre foi levado a continuar o cerco e finalmente capturou Tiro. A interpretação, que possui uma aparênciabastante artificial, indubitavelmente era a correta.(3) Bem posso imaginar que os senhores ficarãoespecialmente impressionados quando ouvirem dizer que as objeções aos nossos pontos de vista dos sonhostêm sido feitas até mesmo por pessoas que estiveram, elas próprias, como psicanalistas, dedicando-se portempo considerável a interpretar sonhos. Seria demais esperar que este tão forte encorajamento a novos erros,como o que oferece esta teoria, tivesse sido negligenciado; e assim, em conseqüência de confusõesconceituais e generalizações injustificadas, foram feitas afirmações que não estão muito longe da visão médicaacerca dos sonhos, no que esta tem de incorreta. Os senhores já conhecem uma delas. Diz-nos que os sonhosconstituem tentativas de adaptação atuais e tentativas de solucionar problemas futuros — que eles têm um‘propósito prospectivo’ (Maeder [1912]). Já temos demonstrado [ver em [1]] que esta asserção se baseia numaconfusão entre sonho e pensamentos oníricos latentes e, por conseguinte, se baseia no fato de se omitir aelaboração onírica. Esta, como caracterização da atividade intelectual inconsciente, da qual os pensamentosoníricos latentes fazem parte, não constitui novidade, por um lado, e, por outro, não esgota o assunto, de vezque a atividade mental inconsciente está ocupada com muitas outras coisas além da preparação para o futuro.Uma confusão muito pior parece estar subjacente à afirmação de que a idéia de morte pode ser encontrada portrás de todo sonho [Stekel, 1911, 34]. Não tenho uma noção clara acerca do que se pretende dizer com estafórmula. Suspeito, porém, que ela esconde uma confusão entre o sonho e a personalidade global daquele quesonhou. [Cf. I. de S., Vol. V, pág. 424.]Uma generalização injustificável, baseada em alguns poucos exemplos,está contida na afirmação de que todo sonho admite duas interpretações — uma que concorda com nossadescrição, ‘psicanalítica’, e outra, ‘anagógica’, que não leva em conta os impulsos instintuais e objetivarepresentar as funções superiores da mente (Silberer [1914]). Existem sonhos deste tipo, porém os senhorestentarão inutilmente estender esta concepção à maioria dos sonhos. E mais, após tudo o que eu lhes disse, ossenhores acharão bastante incompreensível uma afirmação de que todos os sonhos devem ser interpretadosbissexualmente, como confluência de duas correntes, descritas como masculina e feminina (Adler [1910]). [Cf. I.de S., Vol. V, págs. 423-4.] podem constatar posteriormente que eles se constróem como alguns dos sintomashistéricos. A razão por que mencionei todas essas descobertas de novas características universais dos sonhosé para que os senhores estejam prevenidos quanto às mesmas ou, ao menos, para que não tenham dúvidas arespeito do que penso delas.(4) Um dia o valor objetivo da investigação sobre sonhos pareceu ser posto emxeque por uma observação de que os pacientes em tratamento analítico ordenam o conteúdo dos sonhos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 135conforme as teorias prediletas de seu médicos — alguns sonhando predominantemente com impulsosinstintuais sexuais, outros, com a luta pelo poder, e ainda outros, até mesmo, com renascimento (Stekel). Opeso destas observações, entretanto, diminuiu com a reflexão de que os seres humanos tinham sonhos antesque houvesse qualquer tratamento psicanalítico que pudesse dar a esses sonhos uma direção, e que aspessoas que agora se encontram em tratamento costumavam sonhar também durante o período anterior aoinício do tratamento. O que havia de verdade nesta inovação logo se podia ver que era evidente por si mesmo esem importância para a teoria dos sonhos. Os resíduos diurnos que suscitam os sonhos são elementos postosde lado devido a poderosos interesses durante a vida desperta. Quando as observações feitas pelo médico e osindícios que este fornece adquirem importância para o paciente, eles entram para o círculo dos resíduosdiurnos e podem prover estímulos psíquicos para a construção dos sonhos, como quaisquer outros interessesemocionalmente significativos do dia precedente, que não foram atendidos; e podem atuar como os estímulossomáticos que incidem sobre o sono de uma pessoa que venha a sonhar. As seqüências de pensamentospostas em marcha pelo médico, assim como esses outros instigadores dos sonhos, surgem no conteúdomanifesto de um sonho ou se revelam em seu conteúdo latente. Na verdade, sabemos que um sonho pode serproduzido experimentalmente, ou, expressando-nos em termos mais corretos, uma parte do material oníricopode ser introduzida no sonho. Ao produzir esses efeitos em seus pacientes, um analista está executando umpapel não diferente de um experimentador que, como Mourly Vold, coloca em determinadas posturas osmembros de pessoas, em suas experiências. [ver em [1], anteriores.]Freqüentemente, é possível influenciaruma pessoa acerca do que ela vai sonhar, mas nunca aquilo que sonhará. O mecanismo da elaboração oníricae o desejo onírico inconsciente estão isentos de qualquer influência externa. Ao tratar dos sonhos com estímulosomático, já verificamos [ver em [1] e seg.] que a natureza característica e a independência da vida onírica sãomostradas na reação com que os sonhos respondem aos estímulos somáticos ou mentais que são postos emação. A tese que estivemos discutindo, e que procura lançar dúvidas sobre a objetividade da pesquisa referenteaos sonhos, mais uma vez está baseada numa confusão — desta vez, entre o sonho e o material dossonhos.Isto, pois, era o que tinha a dizer-lhes, senhoras e senhores, a respeito dos problemas dos sonhos.Como poderão perceber, há muitas coisas que tive de omitir, e verificarão que, em quase todos os pontos, oque disse ficou necessariamente incompleto. Isso, naturalmente, se deve à conexão entre os fenômenos dossonhos e os das neuroses. Temos estudado os sonhos como introdução à teoria das neuroses, e isso foi,certamente, um procedimento mais correto do que se tivéssemos feito o oposto. Mas, assim como os sonhospreparam o caminho para uma compreensão das neuroses, também, por outro lado, uma verdadeiraapreciação dos sonhos só pode ser realizada depois de se conhecer os fenômenos neuróticos.Não sei dizer oque os senhores pensarão, porém devo assegurar-lhes que não lamento ter-lhes exigido tanto do seu interessee do tempo de que dispusemos para os problemas dos sonhos. Não existe nenhuma outra coisa mais, a partirda qual se possa tão rapidamente obter certeza da correção da tese pela qual a psicanálise resiste ou perece.Trabalho muito sério, por meses e até mesmo por anos, é o que se exige para demonstrar que os sintomas deum caso de doença neurótica têm um sentido, servem a um propósito e se originam das experiências de vidado paciente. Por outro lado, um esforço de apenas umas poucas horas pode ser suficiente para provar que omesmo procede para um sonho que e, de início, confuso a ponto de ser ininteligível, e para, dessa maneira,confirmar todas as premissas da psicanálise — a natureza inconsciente dos processos mentais, os mecanismos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • 136especiais a que estes obedecem e as forças instintuais que neles se expressam. E quando temos em mente aextraordinária analogia entre a estrutura dos sonhos e a dos sintomas neuróticos e, ao mesmo tempo,consideramos a rapidez com que uma pessoa que tem um sonho se transforma em um homem vigil e racional,adquirimos a certeza de que também as neuroses se baseiam apenas em uma modificação do jogo de forçasentre os poderes da vida mental. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) – Sigmund Freud
  • Conferências introdutórias sobre psicanálise (Parte III) VOLUME XVI (1916-1917) Dr. Sigmund Freud
  • 2 PARTE III - TEORIA GERAL DAS NEUROSES (1917 [1916-17]) CONFERÊNCIA XVI PSICANÁLISE E PSIQUIATRIA SENHORAS E SENHORES: Alegra-me vê-los novamente, no início do novo ano acadêmico, para uma retomada de nossasdiscussões. No ano passado, falei-lhes de como a psicanálise aborda as parapraxias e os sonhos. Este ano,gostaria de conduzi-los à compreensão dos fenômenos da neurose, que, conforme logo verificarão, têm muitascoisas em comum com ambos. Devo, porém, adverti-los, antecipadamente, de que não poderei oferecer-lhes,este ano, em relação a mim, a mesma situação do ano passado. Naquela época, fiz questão de jamais dar umpasso sem estar de acordo com o julgamento dos senhores; foram muitas as coisas que debati com ossenhores, e dei acolhida às suas objeções — de fato, reconheci-os e ao seu ‘senso comum’ como fatordecisivo. Isto, contudo, não é mais possível, e por uma razão simples. As parapraxias e os sonhos não sãofenômenos desconhecidos dos senhores; poderíamos dizer que os senhores tinham, ou facilmente podiamobter, tanta experiência acerca dos mesmos quanto eu. Entretanto, a área dos fenômenos da neurose lhes édesconhecida; de vez que os senhores não são médicos, têm qualquer acesso a eles que não seja porintermédio daquilo que tenho a dizer-lhes; e de que serve o melhor raciocínio, se este não está acompanhadoda familiaridade com o conteúdo daquilo de que se ajuíza? Os senhores não devem, porém, tomar esse advertência minha no sentido de que eu proponha dar-lhesconferências dogmáticas e insista em seu crédito irrestrito. Um equívoco desses far-me-ia grave injustiça. Nãodesejo suscitar convicção; desejo estimular o pensamento e derrubar preconceitos. Se, em decorrência da faltade conhecimento do material, os senhores não estão em condições de emitir um julgamento, não deveriam nemacreditar, nem rejeitar. Deveriam ouvir atentamente e permitir que atue nos senhores aquilo que lhes digo. Nãoé tão fácil adquirir convicções; ou, se estas são alcançadas facilmente, logo se revelam sem valor e incapazesde resistência. A única pessoa que tem o direito de possuir uma convicção é alguém que, como eu, tenhatrabalhado, por muitos anos, o mesmo material e que, assim agindo, tenha tido, por si próprio, as mesmas esurpreendentes experiências. De que servem então, na esfera do intelecto, essas convicções súbitas, essasconversões-relâmpago, essas rejeições instantâneas? Não está claro que o ‘coup de foudre‘, amor à primeiravista, deriva de esfera bem diferente, da esfera das emoções? Nem mesmo dos nossos pacientes exigimos quedevem convencer-se da verdade da psicanálise, no tratamento, ou aderir a ela. Tal atitude freqüentementelevanta nossas suspeitas. A atitude que neles achamos mais desejável é a de um benévolo ceticismo. Assim,também os senhores devem esforçar-se por deixar que os pontos de vista psicanalíticos amadureçam Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 3tranqüilamente nos senhores, junto com a visão popular ou psiquiátrica, até surgir a oportunidade de ambas seinfluenciarem reciprocamente, de uma competir com a outra e de se aliarem no rumo de uma conclusão. Por outro lado, não devem, de modo algum, supor que aquilo que lhes apresento como conceitopsicanalítico seja um sistema especulativo. Pelo contrário, é empírico — seja uma expressão direta dasobservações, seja um processo consistente em trabalhá-las exaustivamente. Se esse trabalho exaustivo foiexecutado de uma maneira adequada e fundamentada, isto se verá no decorrer de futuros progressos daciência, e realmente posso afirmar, sem jactância, após um período de quase vinte e cinco anos e tendoatingido uma idade razoavelmente avançada, que essas observações são o resultado de trabalhoespecialmente difícil, intensivo e aprofundado. Freqüentemente tive a impressão de que nossos opositoresrelutavam em levar em conta essa origem de nossas teses, como se pensassem que se tratava apenas denoções determinadas subjetivamente, às quais qualquer um podia opor outras, de sua própria escolha. Essaconduta dos nossos opositores não me é completamente compreensível. Talvez se deva ao fato de que, comomédico, habitualmente se tem tão pouco contacto com pacientes neuróticos e se presta tão pouca atenção aoque dizem esses pacientes que não se pode imaginar a possibilidade de que se possa derivar algo de valiosode suas comunicações — isto é, a possibilidade de efetuar acuradas observações a respeito delas. Valho-medesta oportunidade para assegurar-lhes que, no decorrer destas conferências, permitirei muito poucacontrovérsia, especialmente com algumas pessoa, individualmente. Nunca pude convencer-me da verdade damáxima segundo a qual a controvérsia é a mãe de todas as coisas. Penso que deriva dos sofistas gregos e,como eles, peca por supervalorizar a dialética. Parece-me, ao contrário, que aquilo que se conhece comocontrovérsia científica é, na totalidade, muito improdutivo, além do fato de quase sempre ser conduzidosegundo motivos altamente pessoais. Até há alguns anos, eu podia gabar-me de apenas uma vez haver-meenvolvido numa disputa científica regular — com um único pesquisador (Löwenfeld, de Munique). Terminou pornos tornarmos amigos, e o somos até o dia de hoje. Não repeti, porém, a experiência, por muito tempo, poisnão tinha certeza de que o resultado viesse a ser o mesmo. Ora, os senhores concluirão, sem dúvida, que uma rejeição como esta de todas as discussões porescrito demonstra um elevado grau de inacessibilidade a objeções, de obstinação, ou, para usar um termocientífico, coloquial e educado, de apego às idéias próprias [Verranntheit]. Gostaria de dizer, em resposta,quem, porquanto, após trabalho tão árduo, chegou-se a adquirir uma convicção, ao mesmo tempo adquiriu-seum certo direito de manter esta convicção com alguma tenacidade. Também posso declarar que, no transcorrerdo meu trabalho, tenho modificado minhas opiniões em alguns pontos importantes, tenho-as alterado esubstituído por outras, novas — e, em todas essas ocasiões, naturalmente, tornei isto público. E o resultadodessa sinceridade? Algumas pessoas jamais tomaram conhecimento de quaisquer de minhas autocorreções, econtinuam, até hoje, a criticar-me por hipóteses que, para mim, há muito cessaram de ter o mesmo significado.Outros me reprovam justamente por estas modificações, e, por causa delas, consideram-me indigno deconfiança. Naturalmente! uma pessoa que, vez por outra, mudou de opinião, não merece absolutamentenenhum crédito, pois tornou tudo tão demasiadamente provável, que as últimas afirmações também podem serequivocadas; mas uma pessoa que inflexivelmente manteve o que uma vez afirmou, ou que não pode derelance ser persuadida a abandoná-lo, deve naturalmente ser aferrada às idéias próprias, ou teimosa! Que se Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 4pode fazer frente a essas objeções contraditórias dos críticos, senão permanecer como se é, e conduzir-se deacordo com o julgamento próprio? Estou resolvido a agir assim, e não me impedirei de modificar ou retirarqualquer uma de minhas teorias sempre que a progressão da experiência possa exigi-lo. Com referência adescobertas fundamentais, até o momento atual, nada tenho a modificar, e espero que isto venha a manter-severdadeiro no futuro. Vou apresentar-lhes, portanto, a visão psicanalítica dos fenômenos da neurose. Para isto, parece que omelhor plano consistiria em começarmos por estabelecer uma conexão com os fenômenos de que já tratamos,tanto pela causa da analogia, como do contraste; e começarei expondo uma ação sintomática [ver em [1] e [2]]que vi muitas pessoas executarem durante minhas horas de consulta. Nós, analistas, não podemos fazer muitacoisa para conseguir que as pessoas que vêm até nós, em nosso consultório, nos exponham, em um quarto dehora, os sofrimentos de toda uma vida. Nosso conhecimento mais profundo nos dificulta dar o tipo de opiniãoemitida por um outro médico — ‘Não há problema com o senhor’ — à qual se acrescenta o conselho: ‘O senhordevia providenciar um tratamento hidropático brando.’ Um de meus colegas, quando lhe perguntaram o quefazia com seus pacientes, que vinham consultar, encolheu os ombros e respondeu: ‘Eu lhes aplico uma multa,de tantas e tantas Kronen por uma inútil perda de tempo.’ Assim, os senhores não se surpreenderão ao ouvirque, mesmo no caso de psicanalistas muito ocupados, suas horas de atendimento não costumam ser muitoanimadas. A porta simples, entre minha sala de espera e a sala de atendimento e a de tratamento, mandeifazê-la dupla e revestida de feltro. Não pode haver dúvidas a respeito do propósito desse arranjo. Ora,repetidamente acontece uma pessoa, que estava na sala de espera e que mando entrar, deixar de fechar aporta atrás de si e quase sempre deixar ambas as portas abertas. Tão logo percebo esse fato, insisto com opaciente ou a paciente, num tom mais propriamente inamistoso, para que volte e corrija a omissão — ainda quea pessoa questão seja um cavalheiro elegantemente trajado ou uma senhora da alta sociedade. Isto dá aimpressão de rigorismo desnecessário. Às vezes, também, tenho-me colocado em situação absurda, fazendoeste pedido quando se verifica, depois, tratar-se de uma pessoa que não pode por si mesmo tocar na maçanetada porta, e se alivia se alguém em sua companhia poupa-a dessa necessidade. Mas, na maioria dos casos,tenho agido com acerto; pois todo aquele que se conduz dessa forma e deixa aberta a porta entre a sala deespera e a sala de consulta de um médico, é mal-educado e merece uma recepção inamistosa. Não tomem,contudo, partido nesta questão, sem terem ouvido o restante. Pois esse descuido por parte do paciente apenasacontece quando esteve sozinho na sala de espera e, portanto, deixou atrás de si uma sala vazia; jamaisacontece no caso de outras pessoas, que lhe sejam estranha, terem estado esperando com ele. Nesse últimocaso, sabe muito bem que é de seu interesse que sua conversa com o médico não seja ouvida secretamente, enunca deixa de fechar cuidadosamente as duas portas.Assim, a omissão do paciente não é determinada peloacaso ou por falta de propósito; e, na realidade, ela não é destituída de importância, pois, conformeverificaremos, elucida a atitude de recém-chegado para com o médico. O paciente é mais um da grandemultidão que tem um desejo insaciável de autoridade mudança, que deseja ser ofuscado e intimidado. Ele podeter perguntado pelo telefone sobre a hora em que mais facilmente poderia conseguir uma entrevista; haviaformado para si a imagem de uma multidão de pessoas procurando ajuda, como a multidão do lado de fora deuma das filiais de Julius Meinl. E então entra em uma sala de espera vazia, e principalmente, mobiliada com Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 5extrema modéstia, e fica chocado. Ele tem de fazer o médico pagar pelo respeito supérfluo que tencionavaoferecer-lhe: é assim que deixa de fechar a porta entre a sala de espera e a sala de consulta. O que quer dizerao médico, por essa sua conduta, é: ‘Ah, então não há ninguém, e provavelmente não virá ninguém enquantoeu estiver aqui.’ Ele se conduziria de forma igualmente descortês e desrespeitosa durante a consulta, se suaarrogância não recebesse uma dura repreensão logo no começo.A análise dessa pequena ação sintomáticanão lhes diz nada que já não soubessem antes: a tese de que ela não é uma ação casual, mas teve um motivo,um sentido e uma intenção, que se localiza num contexto mental específico e que informa, mediante umapequena indicação, acerca de um processo mental mais importante. Mais que tudo, porém, essa açãosintomática lhes revela que o processo assim indicado era inconsciente para a consciência da pessoa queexecutou essa ação, de vez que nenhum dos pacientes que deixou as duas portas abertas teria conseguidoadmitir, por meio dessa omissão, que desejasse demonstrar tal desrespeito. Alguns deles provavelmente ter-se-iam apercebido de determinada sensação de desapontamento ao penetrarem na sala de espera vazia; mas aconexão entre esta impressão e a ação sintomática que se seguiu, por certo permaneceu desconhecida de suaconsciência.Após essa pequena análise de uma ação sintomática, passaremos agora à observação de umapaciente. Escolhi esta observação porque está vivida em minha memória, e também por poder ser relatada emtempo relativamente breve. Determinada quantidade de detalhes torna-se imprescindível num relato destaespécie.Um jovem oficial, de regresso a casa, em período de uma breve licença, pediu-me que tomasse emtratamento sua sogra, que, embora nas circunstâncias mais felizes, estava amargurando sua própria vida e asvidas de seus parentes, com uma idéia absurda. Foi assim que vim a conhecer uma senhora bem conservada,cinqüenta e três anos, de natureza amável e simples, que me narrou sem relutância a seguinte história. Elamorava no campo, vivia, num casamento feliz, com seu marido, diretor de uma grande fábrica. Não tinha senãocomo elogiar a afetuosa solicitude do marido. Há trinta anos se haviam casado por amor, e, desde então,jamais tinha havido qualquer problema, discórdia ou motivo para ciúmes. Seus dois filhos estavam bemcasados; seu marido (e pai destes), compenetrado de suas obrigações, ainda não pensava em aposentar-se.Um ano antes, ela recebera uma carta anônima, acusando seu excelente marido de um caso amoroso com umajovem. E o resultado incrível — e, para ela, ininteligível — foi que ela imediatamente acreditou na carta, e desdeentão sua felicidade foi destruída. O curso dos acontecimentos, em maiores detalhes, é mais ou menos este.Ela tinha uma empregada doméstica com quem costumava, talvez com freqüência excessiva, ter conversasíntimas. Esta moça perseguia uma outra, com certa hostilidade positivamente maldosa, porque esta outra haviaprogredido muito mais na vida, embora não fosse de origem mais elevada. Em vez de dedicar-se ao serviçodoméstico, esta moça tinha conseguido concluir um curso comercial, ingressado na fábrica e, em conseqüênciada falta de pessoal, devido ao fato de elementos da organização fabril serem requisitados para o serviço militar,foi promovida a uma boa posição. Agora morava na própria fábrica, mantinha relacionamento social com todosos senhores, e realmente tratavam-na por ‘Fräulein.’ A moça que tivera menos sucesso na vida naturalmenteestava pronta a repetir todos os tipos de maldades para com a antiga colega de escola. Certo dia, essa senhorateve um diálogo com a empregada a respeito de um cavalheiro que tinha estado com elas, que se sabia nãoestar vivendo com a esposa e estar tendo um caso amoroso com outra mulher. Ela não sabia como foi queaconteceu, mas de repente disse: ‘A coisa mais terrível que poderia acontecer-me era eu saber que meu Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 6querido esposo também estivesse tendo um caso.’ No dia seguinte, recebia uma carta anônima, pelo correio, aqual, como que por mágica, dava-lhe justamente esta informação, escrita com letra disfarçada. Concluiu,provavelmente com acerto, que a carta era obra de empregada maldosa, de vez que apontava como amante domarido a jovem a quem a serviçal perseguia com seu ódio. Embora imediatamente compreendesse a intriga etivesse visto, em muitos casos ocorridos no lugar onde vivia, quão pouco crédito merecem tais denúnciascovardes, o que aconteceu, todavia, foi que a carta abateu-a instantaneamente. Ficou terrivelmente excitada,mandou chamar prontamente seu marido e acusou-o violentamente. Seu marido não fez caso da acusação eagiu da melhor forma possível. Chamou o médico da família (que era também o médico da fábrica), que seesforçou por apaziguar a infeliz senhora. A conduta subseqüente de ambos foi inteiramente sensata. Adoméstica foi despedida, mas a suposta rival, não. Desde então a paciente se havia tranqüilizado por períodos,repetidamente, a ponto de não acreditar mais no conteúdo da carta anônima, porém nunca completamente,nunca definitivamente. Bastava-lhe ouvir mencionarem o nome da jovem senhora ou encontrá-la na rua, paranela desencadear um novo ataque de desconfiança, dor e acusações.Este é, pois, o caso clínico dessaexcelente senhora. Não se requeria muita experiência psiquiátrica para compreender que, em contraste comoutros neuróticos, ela estava dando uma descrição por demais atenuada de seu caso — que ela estava, porassim dizer, dissimulando — e que, realmente, jamais deixara de acreditar na acusação contida na cartaanônima.Que atitude, portanto, um psiquiatra adotará em um caso de doença como este? Já sabemos comoele se conduziria frente à ação sintomática do paciente que deixa de fechar a porta da sala de consulta. Eledeclara que se trata de evento casual, sem interesse psicológico, com o qual não tem a maior preocupação.Este procedimento, contudo, não pode ser mantido no caso da doença dessa mulher ciumenta. A açãosintomática parece ser uma questão irrelevante; mas o sintoma se impõe à nossa atenção como questãoimportante. Acompanha-se de intenso sofrimento subjetivo e, como fato objetivo, ameaça a vida em comum deuma família; constitui, pois, um assunto de inegável interesse psiquiátrico. O psiquiatra começará por procurarcaracterizar o sintoma por meio de algum aspecto essencial. A idéia com que a mulher se atormenta não podeser, em si, chamada de absurda; de fato, ocorre senhores casados de certa idade terem casos amorosos commocinhas. Existe, porém, algo mais, a este respeito, que é absurdo e difícil de entender. A paciente nãopossuía absolutamente nenhum outro motivo para acreditar que seu marido afetuoso e leal pertencesse a essaoutra classe, aliás nada rara, de maridos, a não ser o que se afirmava na carta anônima. Ela sabia que essedocumento não tinha qualquer valor de prova, e podia dar uma explicação satisfatória sobre a origem damesma. Portanto, devia ser capaz de dizer a si mesma que não tinha qualquer fundamento para seu ciúme, eela realmente o fez. Apesar disso, sofria tanto, contudo, como se julgasse esse ciúme totalmente justificado.Idéias desse tipo, inacessíveis a argumentos lógicos baseados na realidade, são, segundo o consenso geral,descritas como delírios. A boa senhora, portanto, estava sofrendo de delírios de ciúme. Este é, sem dúvida, oaspecto essencial deste caso mórbido.Depois de estabelecido este primeiro ponto, nosso interesse psiquiátricose torna até mais vívido. Se não se pode eliminar um delírio mediante uma referência à realidade, então semdúvida ele não se originou da realidade. De onde mais ter-se-ia originado? Existem delírios dos mais variadosconteúdos: por que, neste nosso caso, se trata justamente do delírio de ciúme? Em que tipo de pessoas atuamos delírios e, especialmente, os delírios de ciúme? Gostaríamos de ouvir o que o psiquiatra tem a dizer a este Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 7respeito; mas, neste ponto, ele nos deixa em apuros. Considera apenas uma das nossas perguntas. Investigaráa história familiar da mulher e, talvez, nos dará sua resposta: ‘Os delírios aparecem em pessoas em cujasfamílias tenham ocorrido, repetidamente, outros distúrbios psíquicos semelhantes.’ Em outros termos, se essamulher desenvolveu um delírio, estava predisposta a ele por transmissão hereditária. Sem dúvida, isso já éalguma coisa; mas, é tudo que queremos saber? Foi isso a única coisa que contribuiu para a causação dadoença? Devemos contentar-nos com supor tratar-se de algo sem importância, indiferente, ou de um capricho;ou que não se pode explicar se o delírio de ciúme aparece de preferência a algum outro tipo? E deveríamosentender a assertiva da predominância da influência hereditária também num sentido negativo — que, nãoimporta quais experiências a mente dessa mulher tivesse encontrado, ela estaria destinada, mais cedo ou maistarde, a vir a apresentar um delírio? Os senhores desejarão saber por que razão a psiquiatria científica não nosdará outras informações. Minha resposta aos senhores, contudo, é: ‘ele é um trapaceiro que dá mais do quetem.’ O psiquiatra não sabe como lançar mais luz sobre um caso como este. Ele deve contentar-se com umdiagnóstico e um prognóstico — incertos, apesar de uma grande quantidade de experiência —, e com suaevolução futura.Pode a psicanálise, porém, ir além, em um caso destes? Sim, ela realmente pode. Esperoconseguir mostrar-lhes que, mesmo num caso assim, tão difícil de abordar, ela pode descobrir algo quepossibilite uma primeira compreensão. E, antes de mais nada, eu atrairia a atenção dos senhores para odetalhe notório de que a própria paciente positivamente provocou a carta anônima, tendo, agora, dado apoio aseu delírio, ao informar à empregada intrigante, no dia anterior, que lhe causaria a maior infelicidade se seumarido tivesse um caso amoroso com uma jovem. Assim, primeiro ela incute na empregada a idéia de enviar acarta anônima. O delírio, então, adquire certa independência da carta; já estivera presente na paciente sob aforma de medo — ou era um desejo? Acrescentemos a isto as outras pequenas indicações obtidas em apenasduas sessões analíticas. A paciente, na realidade, conduziu-se de maneira bastante não-cooperativa quando,após haver contado sua história, perguntei-lhe por seus outros pensamentos, idéias e lembranças. Disse quenão lhe ocorria nada à mente, que já me havia dito tudo; e, depois de duas sessões, a tentativa de tratamentocomigo realmente teve de ser interrompida pois declarou que já se sentia bem e estava segura de que a idéiapatológica não retornaria. Naturalmente, ela disse isto apenas devido à sua resistência e ao receio dacontinuação da análise. Não obstante, durante essas duas sessões, fez algumas observações que permitiram,e realmente exigiram, uma interpretação especial; e essa interpretação lançou viva luz sobre a gênese de seudelírio de ciúme. Ela própria estava intensamente apaixonada por um homem jovem, pelo mesmo genro que apersuadira a procurar-me na qualidade de paciente. Ela mesma nada sabia, ou, talvez, sabia muito poucodessa paixão; no relacionamento família que existia entre ambos, era fácil essa afeição apaixonada disfarçar-secomo afeição inocente. Depois de todas as nossas experiências em outras situações, não nos é difícil tatear oscaminhos da vida mental dessa honrada esposa e digna mãe de cinqüenta e três anos. Estando apaixonadadessa maneira, uma coisa assim tão monstruosa e impossível não podia tornar-se consciente; permaneceu,porém, existindo, e, ainda que continuasse inconsciente, exercia grande pressão. Algo havia de acontecer, umalívio tinha de ser buscado, e a mitigação mais fácil surgiu, sem dúvida, através do mecanismo dodeslocamento, que desempenhou seu papel de modo tão regular na produção do ciúme delirante. Se ao menosnão somente ela, a senhora idosa, estivesse apaixonada por um homem jovem, mas também seu idoso marido Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 8estivesse mantendo um caso amoroso com uma jovem, então sua consciência se aliviaria do peso de suainfidelidade. A fantasia da infidelidade de seu esposo agiu assim como uma compressa fria em sua feridaardente. O amor que ela própria obrigava não se lhe tornara consciente; porém, seu reflexo especular, que lhedeu tal vantagem, agora se tornou consciente como uma obsessão e um delírio. Naturalmente nenhumargumento em contrário podia surtir qualquer efeito, pois o argumento era dirigido contra a imagem especular, enão contra a imagem original que deu à outra sua força e que permanecia oculta, inviolável, noinconsciente.Vamos reunir agora aquilo que esta tentativa de psicanálise, curta e detida como foi, trouxe à luzpara uma compreensão deste caso — supondo, naturalmente, que nossas investigações tenham sidoefetuadas corretamente, o que não posso, aqui, submeter ao julgamento dos senhores. Em primeiro lugar, odelírio deixou de ser absurdo ou ininteligível; tinha um sentido, tinha motivos fundamentados, e ajustou-se aocontexto de uma experiência emocional da paciente. Em segundo lugar, o delírio era necessário como reação aum processo mental inconsciente que inferimos de outras indicações, e foi justamente a esta conexão quedeveu seu caráter delirante e sua resistência a todo ataque lógico e realista. Esse delírio era, em si, de certamaneira desejado, uma espécie de consolação. Em terceiro lugar, o fato de o delírio vir a ser precisamente odelírio de ciúme, e não de outro tipo, estava inequivocamente determinado pela experiência que está por trásda doença. Naturalmente, os senhores se recordarão de que, no dia anterior, ela havia dito à empregadaintrigante que a coisa mais terrível que lhe podia acontecer seria a infidelidade do marido. E os senhores nãodeixarão de perceber as duas importantes analogias entre este caso e a ação sintomática que analisamos — aexplicação do seu sentido ou intenção e sua relação com algo inconsciente, envolvido na situação.Por certo,isto não responde a todas as perguntas que poderíamos fazer em relação a este caso. Pelo contrário, o casosuscita outros problemas — alguns, em geral, ainda não se tornaram solúveis, e outros não poderiam sersolucionados devido a existirem circunstâncias especiais desfavoráveis. Por exemplo, por que essa mulher, queestava vivendo um casamento feliz, apaixonou-se por seu genro? E por que o alívio, que teria sido possível deoutras maneiras, tomou a forma dessa imagem especular, dessa projeção de seu estado em seu marido? Ossenhores não devem pensar que é ocioso ou inútil levantar tais questões. Já possuímos algum material à nossadisposição, que possivelmente poderia servir para respondê-las. A senhora estava em uma idade crítica, naqual as necessidades sexuais da mulher sofrem um aumento súbito e indesejado; isto, por si só, poderiaresponder pelo evento. Ou ainda pode ter ocorrido que seu excelente e fiel esposo há alguns anos nãoestivesse mais gozando da capacidade sexual que essa mulher bem conservada requeria para sua satisfação.A experiência nos demonstrou que são precisamente homens numa situação assim, cuja fidelidade pode,conseqüentemente, ser tida como certa, que se distinguem por tratarem suas esposas com ternura incomum, epor mostrarem especial paciência para com os problemas nervosos delas. Ou ainda, não pode deixar de tersignificação o fato de o objeto de seu amor patogênico ser justamente o jovem marido de uma de suas filhas.Um poderoso vínculo erótico com uma filha, que remonta aos primórdios da constituição sexual da mãe, àsvezes encontra a forma de sobreviver numa transformação dessa ordem. Com referência a isto, posso, talvez,recordar-lhes que a relação entre sogra e genro tem sido considerada, desde as épocas mais remotas da raçahumana, como relação particularmente embaraçosa e que, entre tribos primitivas, deu origem aregulamentações e ‘evitações’ tabu muito poderosas. A relação, amiúde, é extravagante, pelos padrões Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 9civilizados, tanto em sentido positivo como negativo. Qual desses três fatores tornou-se atuante, no caso emquestão, ou se dois deles, ou se, talvez, todos os três vieram juntos, verdadeiramente não lhes posso dizer;isso, contudo, é só porque não me foi possível continuar a análise do caso além de duas sessões.Verificoagora, senhores, que lhes venho falando de muitas coisas, e os senhores não estão preparados para entendê-las. Assim procedi para fazer a comparação entre psiquiatria e psicanálise. Existe, porém, uma coisa que possoperguntar-lhes, agora. Observaram algum sinal de contradição entre elas? A psiquiatria não emprega osmétodos técnicos da psicanálise; toca superficialmente qualquer inferência acerca do conteúdo do delírio, e, aoapontar para a hereditariedade, dá-nos uma etiologia geral e remota, em vez de indicar, primeiro, as causasmais especiais e próximas. Mas existe uma contradição, uma oposição nisso? Não é o caso de umasuplementar a outra? O fator hereditário contradiz a importância da experiência? Ambas as coisas não secombinam da maneira mais efetiva? Os senhores assegurarão não existir nada na natureza do trabalho psiquiátrico que possa opor-se àinvestigação psicanalítica. O que se opõe à psicanálise não é a psiquiatria, mas os psiquiatras. A psicanáliserelaciona-se com a psiquiatria aproximadamente como a histologia se relaciona com a anatomia: uma estuda asformas externas dos órgãos, a outra estuda sua estruturação em tecidos e células. Não é fácil imaginar umacontradição entre essas duas espécies de estudo, sendo um a continuação do outro. Atualmente, como sabem,a anatomia é considerada por nós como fundamento da medicina científica. Houve, todavia, época em que eratão proibido dissecar um cadáver humano, a fim de descobrir a estrutura interna do corpo, como hoje parece sero exercício da psicanálise, esclarecer acerca do mecanismo interno da mente. É de se esperar que, em futuronão muito distante, perceber-se-á que uma psiquiatria cientificamente fundamentada não será possível sem umsólido conhecimento dos processos inconscientes profundos da vida mental. Talvez a psicanálise, sempre tão atacada, tenha, porém, entre os senhores, amigos que se regozijarãose ela puder legitimar-se num outro sentido — no aspecto terapêutico. Como sabem, nossa terapia psiquiátrica,até o momento atual, não é capaz de influenciar os delírios. Será possível, talvez, que a psicanálise possa fazê-lo, graças à sua compreensão profunda do mecanismo desses sintomas? Não, senhores, não pode. Ela é tãoimpotente (pelo menos por enquanto) contra esses males, quanto qualquer outra forma de terapia. Nóspodemos compreender, na verdade, o que ocorreu na paciente; no entanto, não temos meios de fazer com quea paciente mesma o compreenda. Os senhores ouviram como fui incapaz de prosseguir com a análise dessedelírio além de um simples começo. Estariam os senhores dispostos a afirmar, por isso, que uma análise de taiscasos deve ser rejeitada porque é infrutífera? Penso que não. Temos o direito, ou melhor, a obrigação, deefetuar nossa pesquisa sem considerar qualquer efeito benéfico imediato. No fim — não sabemos dizer ondenem quando — cada pequena parcela de conhecimento se transformará em poder, e também em poderterapêutico. Ainda que a psicanálise se mostrasse tão ineficaz em qualquer outra forma de doença nervosa epsíquica, como se mostra ineficaz nos delírios, estaria plenamente justificada como insubstituível instrumentode investigação científica. É verdade que, nesse caso, não estaríamos em condições de exercê-la. O materialhumano, com o qual procuramos aprender, que vive, tem sua vontade própria e precisa ter motivos paracooperar em nosso trabalho, se afastaria de nós. Portanto, permitam-me finalizar meus comentários de hojeinformando-lhes que existem extensos grupos de distúrbios nervosos nos quais a transformação do nosso Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 10melhor entendimento em poder terapêutico realmente se efetivou, e que nessas doenças, às quais é difícil oacesso por outros meios, obtemos, sob condições favoráveis, êxitos que não são superados por nenhum outromeio, na área da medicina interna. CONFERÊNCIA XVII O SENTIDO DOS SINTOMAS SENHORAS E SENHORES: Na última conferência, expliquei-lhes que a psiquiatria clínica atenta pouco para a forma externa doconteúdo dos sintomas individualmente considerados, que a psicanálise, entretanto, valoriza precisamente esteponto e estabeleceu, em primeiro lugar, que os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiênciasdo paciente. O sentido dos sintomas neuróticos foi descoberto, em primeira mão, por Josef Breuer, em seuestudo e cura bem sucedida (entre 1880 e 1882) de um caso de histeria, que desde então se tornou famoso. Éverdade que Pierre Janet apresentou as mesmas provas, independentemente; com efeito, o pesquisadorfrancês pode alegar prioridade de publicação, pois foi só uma década depois (em 1893 e 1895), quando estavacolaborando comigo, que Breuer publicou suas observações. Em todo caso, pode parecer questão de somenosimportância saber quem fez a descoberta, de vez que, como sabem, toda descoberta é feita mais de uma vez, enenhuma se faz de uma só vez. Ademais disso, nem sempre o sucesso acompanha o mérito: não foi deColombo que a América recebeu seu nome. O grande psiquiatra Leuret opinou, antes de Breuer e Janete, quemesmo nas idéias delirantes do insano se poderia encontrar um sentido, bastaria que compreendêssemos amaneira de traduzi-las. Devo admitir que, durante longo tempo, estive disposto a dar bastante crédito a Janetpor elucidar os sintomas neuróticos, porque ele os considerava expressão de idées inconscientes quedominavam os pacientes. Depois disso, porém, ele se tem expressado com exagerada reserva, como sequisesse admitir que o inconsciente, para ele, não tivesse sido nada mais que uma fórmula verbal, umexpediente, une façon de parler — que ele, com isso, não quis significar nada de real.Desde então, deixei decompreender os escritos de Janet; penso, no entanto, que ele, desnecessariamente, perdeu muito crédito.Ossintomas neuróticos têm, portanto, um sentido, como as parapraxias e os sonhos, e, como estes, têm umaconexão com a vida de quem os produz. Por ora, gostaria de tornar esta importante descoberta mais compreensível para os senhores, atravésde alguns exemplos. Realmente, posso apenas afirmar, não posso provar, que é assim, sempre, e em todos oscasos. Todo aquele que procura por si mesmo essas experiências, encontrará provas convincentes. Pordeterminadas razões, contudo, escolherei estes exemplos a partir de casos, não de histeria, mas sim de umaoutra neurose muito extraordinária, que é fundamentalmente muito semelhante àquela e a cujo respeito tenhoalguns comentários preliminares a fazer: Essa neurose, conhecida como neurose obsessiva, não é tão comum como a universalmenteconhecida histeria. Não é, se assim posso expressar-me, tão indiscretamente ruidosa; comporta-se mais comoassunto particular do paciente, prescinde quase que completamente dos fenômenos somáticos e cria todos os Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 11sintomas da esfera mental. A neurose obsessiva e a histeria são as formas de doenças neuróticas em cujoestudo baseou-se inicialmente a psicanálise, e em cujo tratamento, também, nossa terapia realiza seus triunfos.Mas a neurose obsessiva, na qual o enigmático salto do mental para o físico não desempenha nenhum papel,se nos tornou, através dos esforços da psicanálise, realmente mais compreensível e conhecida do que ahisteria, e temos constatado que ela apresenta muito mais flagrantemente determinadas característicasextremas da natureza da neurose. A neurose obsessiva manifesta-se no fato de o paciente se ocupar de pensamentos em que realmentenão está interessado, de estar cônscio de impulsos dentro de si mesmo que lhe parecem muito estranhos, e deser compelido a ações cuja realização não lhe dá satisfação alguma, mas lhe é totalmente impossível omitir. Ospensamentos (obsessões) podem ser, em si, carentes de significação, ou simplesmente assunto semimportância para o paciente; freqüentemente, são de todo absurdos e, invariavelmente, constituem o ponto departida de intensa atividade mental que exaure o paciente e à qual ele somente se entrega muito contra suavontade. Obriga-se, contra sua vontade, a remoer pensamentos e a especular, como se se tratasse dos seusmais importantes problemas vitais. Os impulsos, dos quais o paciente se apercebe em si próprio, tambémpodem causar uma impressão de puerilidade e falta de sentido; via de regra, porém, têm um conteúdo da maisassustadora categoria, tentando-o, por exemplo, a cometer graves crimes, de modo que não só os rechaçacomo alheios a si, mas deles foge com horror e se resguarda de executá-los recorrendo a proibições, renúnciase restrições em sua liberdade. Ao mesmo tempo, esses impulsos nunca — literalmente nunca — forçam seucaminho no rumo da realização; o resultado é que sempre obtêm vitória a fuga e as precauções. Aquilo que opaciente realmente efetua — os denominados atos obsessivos — são coisas muito inofensivas e certamentebanais, na sua maior parte repetição ou elaborações rituais das atividades da vida corrente. Essas atividadesobrigatórias (tais como ir deitar, lavar-se, vestir-se ou andar a pé) se tornam, contudo, tarefas extremamentefatigantes e quase insolúveis. Nos diferentes casos e formas de neurose obsessiva, as idéias, os impulsos e asações patológicas não se combinam em proporções iguais; via de regra, um ou outro desses fatores domina oquadro e dá seu nome à doença, mas o elemento comum em todas essas formas é suficientementeinconfundível. Certamente, esta é uma doença louca. A imaginação psiquiátrica mais extravagante não teriaconseguido, segundo penso, construir nada semelhante; e só mesmo vendo-a diante de si a cada dia, é que seé levado a acreditar nela. No entanto, não suponham que ajudarão o paciente, nem de longe, admoestando-opara que adote uma nova conduta, deixe de ocupar-se com esses pensamentos absurdos e faça algo sensatoem lugar de suas extravagâncias infantis. Ele próprio gostaria de fazê-lo, pois está perfeitamente lúcido,compartilha da opinião dos senhores acerca de seus sintomas neuróticos, e até mesmo expressa-aespontaneamente aos senhores. Só que ele próprio não consegue ajudar-se a si mesmo. O que é posto emação, em uma neurose obsessiva, é sustentado por uma energia com a qual provavelmente não encontramosnada comparável na vida mental normal. Existe uma coisa apenas, que ele pode fazer: realizar deslocamentos,trocas, pode substituir uma idéia absurda por outra um pouco mais atenuada, em vez de um cerimonial poderealizar um outro. Pode deslocar a obsessão, mas não removê-la. A possibilidade de deslocar qualquer sintomapara algo muito distante de sua conformação original é uma das principais características desta doença. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 12Ademais, surpreende que, nesta condição, as contradições (polaridades), com as quais a vida mental estáentretecida [ver em [1], adiante], emergem de maneira especialmente nítida, diferenciada. Além das obsessões,de conteúdo positivo e negativo, a dúvida se faz notar na área intelectual, e lentamente começa a corroer atémesmo aquilo que geralmente é tido como muito certo. A situação inteira termina em um grau sempre crescentede indecisão, perda da energia e restrição da liberdade. Ao mesmo tempo, o neurótico obsessivo inicia seusempreendimentos com uma disposição de grande energia, freqüentemente é muito voluntarioso e, via de regra,tem dotes intelectuais acima da média. Geralmente atingiu um nível de desenvolvimento ético satisfatoriamenteelevado; mostra-se superconsciencioso, e tem uma correção fora do comum em seu comportamento. Ossenhores podem imaginar que não é pouco o trabalho que se requer para se poder penetrar, por pouco queseja, nessa miscelânea de traços de caráter e de sintomas. E, de início, não pretendemos nada mais do quecompreender alguns desses sintomas e conseguir interpretá-los. Talvez os senhores desejassem conhecer, antes disso, e tendo em mente nossos contatos anteriores,que atitude a psiquiatria contemporânea adota em relação aos problemas da neurose obsessiva. Está aí umcapítulo árido. A psiquiatria dá nomes às diferentes obsessões, mas não diz nada mais acerca das mesmas.Por outro lado, insiste em que são ‘degenerados’ aqueles que sofrem desses sintomas. Isto proporciona poucasatisfação; de fato, é um julgamento de valores — uma condenação, em vez de uma explicação. Supõe-seacharmos que todas a possíveis espécies de excentricidade conseguem ocorrer em degenerados. Pois bem, éverdade que devemos considerar aqueles que desenvolvem tais sintomas como sendo algo diferentes, em suanatureza, de outras pessoas. Podemos, no entanto, perguntar: São eles mais ‘degenerados’ do que outrosneuróticos — do que os pacientes histéricos, por exemplo, ou aqueles que adoecem de uma psicose? Tambémaqui, a caracterização é, evidentemente, muito genérica. Com efeito, cabe-nos a dúvida quanto a saber seexiste absolutamente qualquer justificativa para essa generalização, quando sabemos que esses sintomasocorrem também em pessoas, renomadas, de capacidade especialmente elevada, de capacidade importantepara o mundo em geral. É verdade que, graças à sua própria discrição e às falsificações de seus biógrafos,pouco sabemos dos aspectos íntimos dos grandes homens que são nossos modelos; não obstante, tambémsucede um deles, como Émile Zola, poder ser um fanático da verdade, e, assim, ficamos conhecendo seusmuitos e estranhos hábitos obsessivos, dos quais foi vítima a vida inteira.A psiquiatria inventou uma maneira defalar em ‘dégénérés supérieurs‘. Muito bonito. Mas, na psicanálise, constatamos que é possível eliminarpermanentemente esses estranhos sintomas obsessivos, assim como outras queixas, e, também, em pessoasnão degeneradas. Eu próprio logrei repetidos êxitos neste ponto.Apresentar-lhes-ei apenas dois exemplos daanálise de um sintoma obsessivo: um deles, uma antiga observação, e não posso encontrar outra melhor que asubstitua, e um outro exemplo, encontrei-o recentemente. Limito-me a este pequeno número, de vez que éimpossível, nestes relatos, evitar ser muito dispersivo e entrar em todos os detalhes. Uma senhora, com cerca de trinta anos de idade, que sofria das mais graves manifestaçõesobsessivas, e que eu talvez pudesse ter ajudado, se uma eventualidade desfavorável não tivesse transformadoem nada o meu trabalho — posso ser capaz de contar-lhes mais a respeito disso, futuramente — executava,entre outros, os seguintes e notáveis atos obsessivos, muitas vezes por dia. Ela corria desde seu quarto até umoutro quarto contíguo, assumia determinada posição ali, ao lado de uma mesa colocada no meio do aposento, Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 13soava a campainha chamando a empregada, dava-lhe algum recado ou dispensava-a sem maioresexplicações, e, depois, corria de volta para seu quarto. Este não era certamente um sintoma muitodesagradável, mas assim mesmo, não podia deixar de causar curiosidade. A explicação foi obtida da maneiramais inequívoca e irrefutável, isenta de qualquer contribuição por parte do médico. Não consigo ver como eupoderia, talvez, ter formado alguma idéia do sentido desse ato obsessivo, ou dado qualquer sugestão acerca domodo como devia ser interpretado. Sempre que eu perguntava à paciente “Por que faz isto? qual o sentidodisto?’ ela respondia: ‘Não sei.’ Um dia, porém, após eu haver conseguido invalidar uma de suas dúvidas, umadúvida importante, fundamental, ela subitamente soube a resposta, e contou-me o que é que estava emconexão com o ato obsessivo. Mais de dez anos antes, casara-se com um homem de muito mais idade do queela, e, na noite de núpcias, ele ficou impotente. Amiúde, durante a noite, ele viera correndo de seu quarto parao dela, a fim de tentar mais uma vez, porém sempre sem êxito. Na manhã seguinte, ele disse com tristeza: ‘Eudevia sentir-me envergonhado perante a empregada, quando ela arrumar a cama’, pegou de uma garrafa detinta vermelha que casualmente havia no quarto e derramou seu conteúdo sobre o lençol, mas não no exatolugar em que uma mancha viria a calhar. Num primeiro momento, não pude atinar com a relação entre estalembrança e o ato obsessivo em exame; a única semelhança que pude encontrar foi no ato de correr de umquarto para o outro e, talvez, na vinda da empregada. Minha paciente então levou-me até a mesa, no segundoquarto, e mostrou-me uma grande mancha na toalha. Depois, explicou que assumia sua posição em relação àmesa de maneira tal que a empregada, ao ser dispensada de sua presença, não podia deixar de ver a mancha.Já não podia mais haver qualquer dúvida sobre a íntima conexão entre a cena de sua noite de núpcias e o atoobsessivo atual, embora ficassem por ser esclarecidas muitas outras coisas. Estava claro, em primeiro lugar, que a paciente se identificava com seu marido; ela estava executandoo papel dele, imitando sua corridas de um quarto a outro. Além disso, prosseguindo com a analogia, devemosconcordar em que a cama e o lençol foram substituídos pela mesa e pela toalha. Isto poderia parecer casual,mas por certo não foi sem finalidade que estudamos o simbolismo onírico. Também nos sonhos,freqüentemente encontramos uma mesa que deve ser interpretada como uma cama. Mesa e cama, juntas,representam o casamento, e, assim, uma pode facilmente tomar o lugar da outra.Parece já estar provado que oato obsessivo tinha um sentido; parece ter sido uma representação, uma repetição daquela cena importante.Mas não devemos parar aqui. Se examinarmos a relação entre as duas cenas mais detidamente,provavelmente obteremos informações acerca de algo que vai além — acerca da intenção do ato obsessivo.Sua essência consistia, obviamente, em chamar a empregada, e, à vista desta, mostrar a mancha, em contrastecom o comentário do marido, de que se sentiria envergonhado perante a empregada. Assim sendo, ele, cujopapel ela estava desempenhando, não se sentia envergonhado perante a empregada; portanto, a manchaestava no lugar certo. Vemos, portanto, que ela não estava simplesmente repetindo a cena, ela estavacontinuando e, ao mesmo tempo corrigindo-a; ela estava consertando-a. No entanto, com isso, ela tambémestava corrigindo uma outra coisa, que fora tão desagradável, aquela noite, e que tornou necessário oexpediente com a tinta vermelha — a impotência dele. De modo que o ato obsessivo estava dizendo: ‘Não, nãoé verdade. Ele não tinha por que sentir-se envergonhado perante a empregada; ele não ficou impotente.’Representava este desejo, à maneira de um sonho, como sendo satisfeito numa ação da época atual; servia ao Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 14propósito de fazer seu marido superar a desventura passada.Tudo quanto eu poderia lhes dizer a respeitodessa mulher ajusta-se ao fato. Ou, mais corretamente falando, tudo o mais que sabemos a respeito do casoabre o caminho, mediante esta interpretação ininteligível. A mulher estivera separada de seu marido, duranteanos, e estava debatendo-se com a intenção de obter divórcio legal. Contudo, não havia como livrar-se dele;ela era forçada a permanecer fiel a ele; retirou-se do mundo para não ser tentada; em sua imaginação,desculpava-o e engrandecia as qualidades dele. Na verdade, o mais profundo segredo de sua doença consistiaem que, através desta doença, protegia seu marido de comentários maldosos, justificava-se por estar separadadele e possibilitava-lhe levar uma vida separada cômoda. Assim, a análise de um ato obsessivo inócuoconduziu ao mais íntimo âmago de uma doença; mas, ao mesmo tempo, revelou-nos uma parte não pequenado segredo da neurose obsessiva em geral. Estou satisfeito por fazê-los deterem-se um pouco neste exemplo,porque reúne condições que não se poderia esperar encontrar facilmente em todos os casos. Aqui, ainterpretação do sintoma foi descoberta pela própria paciente, de um só golpe, sem qualquer influência ouintervenção por parte do analista; e resultou de uma conexão com um acontecimento que (como geralmente é ocaso) não pertencia a um período esquecido da infância, mas que ocorre na vida adulta da paciente epermaneceu vivo em sua memória. Todas as objeções que a crítica normalmente costumava levantar contranossa interpretação dos sintomas, caem por terra, neste caso particular. Não podemos esperar ter sempre tantasorte.E mais uma coisa. Os senhores não ficaram surpresos pela forma como o discreto ato obsessivo nosconduziu até a intimidade da paciente? Uma mulher não pode ter nada mais íntimo para contar do que ahistória de sua noite de núpcias. Foi por acaso e sem maior significação que chegamos justamente à intimidadeda vida sexual? Sem dúvida, poderia ser o resultado da escolha que fiz, nessa ocasião. Não sejamosapressados demais em formar nosso julgamento, e passemos ao meu segundo exemplo, que é de tipo bemdiferente — uma amostra de uma espécie muito comum, um ritual de dormir.Uma jovem de dezenove anos deidade, bem desenvolvida e bem dotada, era filha única de pais que superava em instrução e vivacidadeintelectual. Em criança, havia sido alegre e decidida, e no decorrer dos últimos anos, havia se transformado,sem qualquer causa visível, em neurótica. Era muito irritável, especialmente para com a mãe, sempreinsatisfeita e deprimida, com tendência à indecisão e à dúvida; finalmente, verificou que não conseguia maiscaminhar livremente por graças ou ruas relativamente largas. Não nos ocuparemos muito de sua complexadoença, que se enquadrava em pelo menos dois diagnósticos: agorafobia e neurose obsessiva; deter-nos-emosapenas no fato de que ela também desenvolveu um ritual de dormir, com o qual atormentava seus pais. Emcerto sentido, pode-se dizer que toda pessoa normal tem seu ritual de dormir, ou que estabeleceu determinadascondições necessárias, cujo não-preenchimento interfere com o adormecer; toda pessoa se impõedeterminadas formalidades na transição do estado de vigília ao de sono, e repete-as da mesma maneira, todasas noites. Tudo aquilo que uma pessoa sadia exige como condição necessária para dormir, pode, contudo, sercompreendido racionalmente e, no caso de circunstâncias externas exigirem uma mudança, a pessoa cede comfacilidade, sem perda de tempo. Um ritual patológico, porém, é inflexível, e insiste em ser levado a cabo,mesmo à custa de grandes sacrifícios; também se oculta atrás de uma fundamentação racional e, a um examesuperficial, parece divergir do normal apenas por uma exagerada meticulosidade. Entretanto, a um exame maisacurado, podemos ver que o disfarce é insuficiente, que o ritual compreende certas especificações que Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 15avançam muito além de sua base racional, e outras, que positivamente a contradizem. Essa paciente, de queestamos falando, alegou, como pretexto de suas precauções noturnas, que necessitava de silêncio para dormire devia abolir qualquer fonte de ruído. Com este fim em vista, fazia dois tipos de coisas. Parava o granderelógio em seu quarto, todos os outros relógios eram removidos do quarto e sequer permitia que seu minúsculorelógio de pulso ficasse dentro de sua mesinha-de-cabeceira. Vasos de flores e outros vasos eram agrupadosna escrivaninha de modo que não pudessem cair e quebrar-se durante a noite e perturbar-lhe o sono. Ela seapercebia de que estas medidas só podiam encontrar uma justificativa ostensiva na observância da regra dosilêncio; o tique-taque de seu pequenino relógio de pulso não poderia ter sido audível, ainda que fosse deixadona mesa-de-cabeceira, e todos temos experiência do fato de que o tique-taque regular de um relógio depêndulo nunca perturba o sono, mas age, isto sim como soporífero. Admitiu também que seu medo de que osvasos de flores e outros vasos, se deixados em seu lugares, pudessem cair e quebrar-se por si mesmos,carecia de qualquer fundamento. No caso de outras especificações feitas pelo ritual, abandonava-se o pretextoda necessidade de haver silêncio. Na verdade, a exigência de que a porta entre seu quarto e o quarto dos paisdevesse permanecer entreaberta — exigência que ela satisfazia colocando diversos objetos no vão da porta —parecia, pelo contrário, agir como fonte de ruídos perturbadores. as especificações mais importantes referiam-se, todavia, à cama propriamente dita. O travesseiro, na parte superior da cama, não devia tocar o encosto demadeira da cabeceira. O travesseiro pequeno devia repousar sobre o travesseiro grande, somente numaposição específica — ou seja, de modo a configurar a forma de um diamante. A cabeça devia repousar, então,exatamente no sentido do diâmetro maior do diamante. O edredom (ou ‘Duchent‘, como o chamamos naÁustria) tinha de ser, antes de colocado sobre a cama, sacudido de tal maneira, que a parte inferior ficassemuito volumosa; depois, no entanto, ela jamais deixava de aplainar esse acúmulo de penas, comprimindo-opara os lados.Com a permissão dos senhores, desprezarei os demais detalhes, muito banais, do ritual; não nosensinariam nada de novo e nos levariam para bem longe de nossos objetivos. Os senhores não devem,contudo, negligenciar o fato de que tudo isso não se fazia sem dificuldades. Havia sempre apreensão de que ascoisas não tivessem sido feitas corretamente. Tudo tinha de ser verificado e repetido, dúvidas assaltavam orauma, outra outra das medidas de segurança, e o resultado era que se gastavam nisso duas ou três horas,durante as quais a jovem não podia dormir, e também não haveria de permitir que dormissem os seusatemorizados pais.A análise destes tormentos não se faz tão simplesmente assim, como a análise do atoobsessivo de nossa paciente anterior. Fui obrigado a apresentar à jovem paciente determinadas alusões epropor interpretações, as quais sempre eram rejeitadas com um decidido ‘não’ ou aceitas com dúvidasdesdenhosas. Passada essa primeira reação ou rejeição, seguiu-se, porém, uma época durante a qual ela seocupava com as possibilidades que se lhe apresentavam, juntava associações às mesmas, referia recordaçõese estabelecia conexões, até que, por seu próprio esforço, passou a aceitar todas as interpretações. À medidaque isso aconteceu, ela abrandou a execução de suas medidas obsessivas, e, antes mesmo do fim dotratamento, havia abandonado por completo o ritual. Os senhores devem entender também que o trabalhoanalítico, tal como o efetuamos hoje em dia, praticamente exclui o tratamento sistemático de qualquer sintomaisolado até ser inteiramente elucidado. Pelo contrário, vemo-nos obrigados a abandonar repetidamente umdeterminado tema, na expectativa certa de retornar a ele novamente, em outros contextos. A interpretação de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 16seus sintomas, que estou por mostrar-lhes, é, em consonância com isto, uma síntese de achados que foramsurgindo, interrompidos por outro trabalho, durante um período de semanas e meses.Nossa pacientegradualmente veio a constatar que era devido à sua qualidade de símbolos dos genitais femininos que osrelógios eram retirados do meio de seus objetos de uso à noite. Os relógios — embora em outra partetenhamos encontrado outras interpretações simbólicas para os mesmos — assumiram a significação genitaldevido à sua relação com processos periódicos e intervalos de tempo iguais. Uma mulher pode gabar-se deque sua menstruação funciona com a regularidade de um relógio. A ansiedade de nossa paciente, porém,estava voltada em especial contra a possibilidade de ela ter o seu sono perturbado pelo tique-taque de umrelógio. O tique-taque do relógio pode ser comparado com a pulsação ou latejamento do clitóris durante aexcitação sexual. Realmente ela havia, repetidas vezes, acordado durante a noite com essa sensação, queagora se lhe tinha tornado desagradável; e expressou esse medo de uma ereção através da regra de que todosos relógios em funcionamento deviam ser removidos de perto de si, durante a noite. Vasos de flores, assimcomo todos os vasos [ver em [1]], também são símbolos sexuais. Tomar precauções para que não caíssem enão se quebrassem durante a noite, portanto, não deixava de ter seu correto sentido. Conhecemos o costumetão difundido de quebrar um vaso ou um prato nas cerimônias dos esponsais. Cada um dos homens presentesapanha um dos fragmentos, e podemos considerar isto como sendo um sinal de sua renúncia à pretensão quetinha em relação à noiva, em virtude de uma lei nupcial que remonta a uma época anterior ao estabelecimentoda monogamia. Com relação a esta parte de seu ritual, a jovem referiu uma lembrança e diversas associações.Certa vez, quando era criança, sofreu uma queda no momento em que tinha nas mãos um vaso de vidro ouporcelana, resultando-lhe um corte em um dedo e sangramento profuso. Quando cresceu e tomouconhecimento dos fatos referentes ao ato sexual, desenvolveu uma angustiante idéia de que, na sua noite denúpcias, ela não iria ter perda de sangue, e assim deixaria de mostrar que era virgem. Suas precauções com apossibilidade de os vasos se quebrarem significavam, pois, um repúdio a todo o complexo referente àvirgindade e ao sangramento no primeiro coito — igualmente um repúdio ao medo de sangrar e, ao contrário,medo de não sangrar. Estas precauções, que ela subordinava à evitação do ruído, tinham apenas remota conexãocom tal complexo.Ela atinou, um dia, com a significação central de seu ritual, quando, subitamente,compreendeu a significação da regra segundo a qual o travesseiro não devia tocar no encosto da cabeceira dacama. O travesseiro, disse, sempre havia sido, para ela, uma mulher, e o encosto de madeira, ereto, umhomem. Assim, desejava — por meios mágicos, podemos acrescentar — manter homem e mulher separados— isto é, separar seus pais um do outro, não lhes permitindo terem relação sexual. Anos antes, em épocaanterior ao estabelecimento do ritual, havia procurado atingir o mesmo objetivo, de maneira mais direta. Haviasimulado medo (ou explorara uma tendência ao medo que já se encontrava presente), a fim de que as portascomunicantes entre o quarto dos pais e seu quarto de criança não ficassem fechadas. Esta regra, com efeito,tinha sido mantida em seu ritual atual. Dessa forma, deu-se a si mesma a oportunidade de ficar escutando seuspais; entretanto, ao utilizá-la, desenvolveu um insônia que durou meses. Não satisfeita com perturbar os paispor este meio, conseguiu que lhe permitissem dormir, de tempos em tempos na cama dos pais, entre eles. Otravesseiro e o encosto de madeira, assim, não conseguiram aproximar-se. Por fim, quando já era tão grande Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 17que se tornou fisicamente desconfortável para ela encontrar lugar, na cama, entre seus pais, conseguiu, poruma consciente simulação de ansiedade, combinar com sua mãe uma troca de lugares com esta, à noite; amãe, então, cedia-lhe o lugar, de modo que a paciente conseguia dormir ao lado do pai. Sem dúvida, essasituação transformou-se no ponto de partida de fantasias, cujo efeito secundário se podia constatar no ritual.Seum travesseiro era uma mulher, então o sacudir o edredom até todas as penas se localizarem na parte inferior ecausarem um abaulamento, também tinha um sentido. Significava um mulher ficar grávida; ela, contudo, nuncadeixava de desfazer novamente essa gravidez, pois durante anos temera que o coito de seus pais resultasseem mais um filho e, desta forma, presenteassem-na com um rival. Por outro lado, se o travesseiro grande erauma mulher, a mãe, o travesseiro menor somente podia representar a filha. Por que este travesseiro tinha deser colocado na forma de um diamante e a cabeça situar-se justamente ao longo da linha central? Foi fácilrecordar-lhe que essa forma de diamante é a figura desenhada em todos os muros para representar os genitaisfemininos abertos. Sendo assim, ela própria estava representando o homem e substituindo o órgão masculinopor sua cabeça. (Cf. o simbolismo da decapitação como símbolo de castração.) Pensamentos muito dissolutos, dirão os senhores, para estarem passando na cabeça de uma jovemsolteira. Admito que sim. Mas, não devem esquecer-se de que não criei essas coisas, apenas interpretei-as. Umritual de dormir igual a esse também é algo estranho, e os senhores não deixarão de constatar como o ritualcorresponde às fantasias reveladas pela interpretação. Atribuo, todavia, maior importância ao fato de notaremque, no ritual, o que se verificou não foi o resultado de uma única fantasia, mas de diversas, embora tivessemum ponto nodal em alguma parte, e, ademais, que as regras estabelecidas pelo ritual reproduziam os desejossexuais da paciente, num ponto positivamente, e noutro, negativamente — em parte representavam essesdesejos e em parte derivam de defesa contra os mesmos.Poder-se-ia também obter mais alguma coisa daanálise desse ritual, se este pudesse ser adequadamente vinculado aos demais sintomas da presente. Nossainvestigação, contudo, não segue esta direção. Os senhores devem contentar-se com um indício de que ajovem estava dominada por uma ligação erótica com seu pai, ligação cujos começos remontavam à suainfância. Talvez fosse por isso que ela se portava de forma tão inamistosa com sua mãe [ver em [1]]. E nãopodemos deixar de atentar para o fato de que a análise deste sintoma nos levou de volta, mais uma vez, à vidasexual de uma paciente. Talvez nos surpreendêssemos menos com isso, à medida que mais freqüentementecompreendemos o sentido e a intenção dos sintomas neuróticos.Mostrei-lhes, portanto, como base em doisexemplos escolhidos, que os sintomas neuróticos, como as parapraxias e os sonhos, possuem um sentido etêm íntima conexão com as experiências do paciente. Posso esperar que acreditarão nesta tese extremamenteimportante, com as provas do dois exemplos? Não. Entretanto, podem os senhores exigir que eu continue adar-lhes outros exemplos, até que se declarem satisfeitos? Novamente, não. Pois, tendo em vista a maneiradetalhada como abordo cada caso isoladamente, teria de dedicar um ciclo de conferência de cinco horas aoestabelecimento de apenas este ponto da teoria das neuroses. Devo, assim, contentar-me com ter-lhes dadoum prova experimental de minha asserção e, quanto ao restante, remeto-os aos relatos que a bibliografiaoferece sobre o assunto — às clássicas interpretações de sintomas do primeiro caso (de histeria), de Breuer, àvívida luz lançada sobre os mais obscuros sintomas daquilo que se conhece como dementia praecox, por C. G.Jung [1907], numa época em que ele era apenas psicanalista e ainda não aspirava a ser profeta; e a todos os Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 18trabalhos que desde então têm enchido os nossos periódicos. Não faltavam investigações, justamente sobreesses assuntos. A análise, interpretação e tradução de sintomas psiconeuróticos provaram ser tão atraentespara os psicanalistas, que estes, por um tempo, negligenciaram os demais problemas da neurose.Se algum dossenhores empreender exercícios desta natureza, certamente terá uma poderosa impressão da quantidade deprovas documentais. Mas também se defrontará com uma dificuldade. O sentido de um sintoma, conformeverificamos, possui determinada conexão com a experiência do paciente. Quanto mais individual for a formados sintomas, mais motivos teremos para esperar que seremos capazes de estabelecer esta conexão. A tarefa,então, consiste simplesmente em descobrir, com relação a uma idéia sem sentido e uma ação despropositada,a situação passada em que a idéia se justificou e a ação serviu a um propósito. O ato obsessivo de nossapaciente, que corria para a mesa e tocava a campainha para chamar a empregada, é um modelo perfeito dessaespécie de sintomas. Existem, contudo — e são muito freqüentes — sintomas de tipo bem diferente. Devem serdescritos como sintomas ‘típicos’ de uma doença; são quase os mesmos em todos os casos, as distinçõesindividuais neles desaparecem, ou pelo menos diminuem, de tal forma, que é difícil pô-los em conexão com aexperiência individual dos pacientes e relacioná-los a situações particulares que vivenciaram. Voltemo-nos,mais uma vez, para a neurose obsessiva. O ritual de dormir de nossa segunda paciente já tem, neste consenso,muitos aspectos típicos, embora, ao mesmo tempo, tenha muitos traços individuais, de forma a tornar possívelaquilo que denomino interpretação ‘histórica’. Mas todos esses pacientes obsessivos têm uma tendência arepetir, a executar seus atos ritmicamente e a mantê-los isolados de outros atos. A maioria deles lava-se emdemasia. Pacientes que sofrem de agorafobia (topofobia ou medo de espaços), que não consideramos maiscomo neurose obsessiva, mas descrevemos como ‘histeria de angústia’, freqüentemente repetem os mesmosaspectos, em seus sintomas, com enfadonha monotonia: têm medo de espaços fechados, de amplas praçasdescampadas, de estradas e ruas longas. Sentem-se protegidos quando acompanhados de um conhecido ouseguidos por um veículo, e assim por diante. Com um background semelhante, diferentes pacientes, nãoobstante, exibem suas exigências individuais — manhas, como se costuma dizer — que, em alguns casos, secontradizem abertamente umas às outras. Um paciente evita apenas ruas estreitas, e um outro, somente ruaslargas; um consegue sair somente se houver poucas pessoas na rua, ao passo que um outro apenas sai seexistem muitas. Da mesma forma, a histeria, apesar da quantidade de traços individuais, possui em exagerosintomas comuns, típicos, que parecem opor-se a qualquer derivação histórica fácil. E não devemos esquecerque são estes sintomas típicos, na verdade, que nos dão a orientação com que fazemos nosso diagnóstico.Suponhamos que, num caso de histeria, tenhamos realmente constatado um sintoma típico remontar a umaexperiência ou a uma seqüência de experiências semelhantes — um caso de vômito histérico, por exemplo,relativo a uma série de recordações desagradáveis —; então ficamos na incerteza quando a análise de um casosemelhante de vômitos revela uma série de experiências obviamente verdadeiras, de natureza muito diferente.parece, pois, como se, por motivos desconhecidos, os pacientes histéricos não pudessem deixar de ter osvômitos, e como se as causas históricas precipitantes reveladas pela análise fossem apenas pretextos que, nocaso de se comprovarem, são explorados por essa necessidade interna. Assim sendo, defrontamo-nos agora com a desanimadora descoberta de que, embora tenhamos acapacidade de fornecer uma explicação satisfatória dos sintomas neuróticos individuais, mediante sua conexão Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 19com as vivências, essa nossa capacidade deixa-nos na incerteza quando chegamos aos sintomas típicos, muitomais freqüentes. Ademais disso, estou longe de ter-lhes apontado todas as dificuldades que surgem aointentarmos a sério efetuar a interpretação histórica dos sintomas. E nem pretendo fazê-lo; pois, embora sejaminha intenção não lhes explicar todas as coisas segundo uma perspectiva favorável, ou ocultá-las, não possoatirá-los na perplexidade e na confusão justamente no início de nossos estudos em conjunto. É verdade queapenas estamos no início de nossos esforços de compreender a significação dos sintomas; ater-nos-emos,porém, àquilo que conseguimos e seguiremos nosso caminho, passo a passo, até obtermos o domínio daquiloque ainda não compreendemos. Portanto, tentarei consolá-los com o pensamento de que mal se pode pensarque haja qualquer distinção fundamental entre um tipo de sintoma e outro. Se os sintomas, isoladamente, sãotão inequivocamente dependentes das experiências pessoais do paciente, resta a possibilidade de os sintomaspsíquicos remontarem a uma experiência que é típica em si mesma — comum a todos os seres humanos.Outros aspectos ocorrentes com regularidade nas neuroses podem constituir relações gerais impostas aospacientes pela natureza de sua modificação patológica, como as repetições ou as dúvidas na neuroseobsessiva. Em resumo, não temos motivos para um desespero prematuro; veremos o que resta por servisto.Uma dificuldade semelhante se ergue diante de nós na teoria dos sonhos. Não pude abordá-la antes,quando discorremos a respeito de sonhos. O conteúdo manifesto dos sonhos possui a maior diversidade evariedade individual, e mostramos detalhadamente o que é que derivamos deste conteúdo, por meio de umaanálise. Além destes, há, contudo, sonhos que igualmente merecem ser chamados de ‘típicos’, que acontecemem todas as pessoas, da mesma forma; sonhos de conteúdo uniforme, que oferecem as mesmas dificuldades àinterpretação. São sonhos com cair, voar, flutuar, nadar, envergonhar-se, estar nu, e alguns outros sonhos deansiedade — que conduzem, em pessoas diferentes, ora a esta, ora àquela interpretação, sem que se possaelucidar sua uniformidade e ocorrência características. Mas também nesses sonhos observamos ser estesubstrato comum enriquecido por acréscimos que variam de indivíduo para indivíduo; e é provável que, com aampliação de nossos conhecimentos, se torne possível, sem empecilhos, incluir também esses sonhos nacompreensão da vida onírica, que adquirimos de outros sonhos. CONFERÊNCIA XVIII FIXAÇÃO EM TRAUMAS — O INCONSCIENTE SENHORAS E SENHORES: Em minha conferência anterior, expressei o desejo de que nosso trabalho pudesse prosseguir combase não em nossas dúvidas, mas sim em nossas descobertas. Não expusemos ainda nada sobre duas dasmais interessantes implicações decorrentes de nossas duas amostras de análise. Comecemos pela primeira. Ambas as pacientes dão-nos a impressão de se terem ‘fixado’ em umadeterminada parte de seu passado, como se não conseguissem libertar-se dela, e estivessem, por essa razão,alienadas do presente e do futuro. Assim, elas permaneceram enclausuradas em sua doença, da mesma formacomo, em épocas anteriores, as pessoas se retiravam para dento de um mosteiro, a fim de ali suportarem a Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 20carga de suas vidas desditosas. O que havia lançado esse destino sobre nossa primeira paciente era ocasamento que ela, na vida real, havia abandonado. Por meio de seus sintomas, continuava a manter seurelacionamento com o marido. Pudemos compreender seus anseios que imploravam por ele, que odesculpavam, que o colocavam num pedestal e que lamentavam a perda dele. Embora fosse jovem e desejávelpara outro homens, havia tomado todas as precauções, reais e imaginárias (mágicas), para permanecer fiel aele. Não se mostrava a estranhos e negligenciava sua aparência pessoal; ademais, sempre que se sentavanuma cadeira, era incapaz de levantar-se rapidamente, recusava-se a assinar o nome e não podia dar nenhumpresente, com fundamento na suposição de que dela ninguém devia receber nada.O mesmo efeito se produziana vida de nossa segunda paciente, a jovem, por meio de uma ligação erótica com seu pai iniciada nos anosanteriores à puberdade. A conclusão que ela mesma tirou foi não poder casar-se enquanto estivesse tãodoente. Entretanto, suspeitamos que ficara assim tão doente para não ter de casar e para permanecer com opai.Não podemos desprezar a questão de saber por que, de que forma e por qual motivo uma pessoa podechegar a uma atitude assim tão estranha perante a vida, uma atitude tão pouco prática — supondo-se que estaatitude seja uma característica geral das neuroses, e não uma peculiaridade especial dessas duas pacientes. E,de fato, é um aspecto geral, de grande importância prática em toda neurose. A primeira paciente histérica deBreuer [ver em [1], anterior], estava, de modo semelhante, fixada no período em que cuidava de seu paigravemente doente. Apesar da recuperação, essa paciente, em certo aspecto, permaneceu desligada da vida;permaneceu sadia e eficiente, porém evitou o curso normal da vida de uma mulher. Em cada uma de nossaspacientes, a análise nos mostra que elas foram conduzidas de volta a um determinado período de seu passado,através dos sintomas de sua doença, ou pelas conseqüências desses sintomas. Na maior parte dos casos, comefeito, escolheu-se, para este fim, uma fase muito precoce da vida — um período de sua infância ou, atémesmo, por mais que isto pareça risível, um período de sua existência como criança de peito.A mais íntimaanalogia com essa conduta de nossos neuróticos apresenta-se nas doenças que se estão produzindo comespecial freqüência precisamente na época atual, por intermédio da guerra — o que se descreve comoneuroses traumáticas. Naturalmente, casos semelhantes aparecem também antes da guerra, após colisões detrens e outros acidentes alarmantes envolvendo riscos fatais. As neuroses traumáticas não são, em suaessência, a mesma coisa que as neuroses espontâneas que estamos acostumados a investigar e tratar pelaanálise; até agora, não conseguimos harmonizá-las com nossos pontos de vista, e espero, em algum época,poder explicar-lhes a razão desta limitação. No entanto, num aspecto devemos insistir em que existe completoacordo entre elas. As neuroses traumáticas dão uma indicação precisa de que em sua raiz se situa uma fixaçãono momento do acidente traumático. Esses pacientes repetem com regularidade a situação traumática, em seussonhos, onde correm ataques histeriformes que admitam uma análise, verificamos que o ataque corresponde auma completa transportação do paciente para a situação traumática. É como se esses pacientes não tivessemfindado com a situação traumática, como se ainda tivessem enfrentando-a como tarefa imediata ainda nãoexecutada; e levamos muito a sério esta impressão. Mostra-nos o caminho daquilo que podemos denominar deaspecto econômico dos processos mentais. Realmente, o termo ‘traumático’ não tem outro sentido senão osentido econômico. Aplicando-o a uma experiência que, em curto período de tempo, aporta à mente umacréscimo de estímulo excessivamente poderoso para ser manejado ou elaborado de maneira normal, e isto só Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 21pode resultar em perturbações permanentes da forma em que essa energia opera.Esta analogia nos compele adescrever como traumáticas também aquelas experiências nas quais nossos pacientes neuróticos parecem sehaver fixado. Isto nos proporia uma causa única para o início da neurose. Assim, a neurose poderia equivaler auma doença traumática, e apareceria em virtude da incapacidade de lidar com uma experiência cujo tom afetivofosse excessivamente intenso. Na verdade, foi esta realmente a primeira fórmula pela qual (em 1893 e 1895)Breuer e eu explicamos teoricamente nossas observações. Um caso como aquele da primeira de minhas duaspacientes, em minha conferência anterior — a jovem mulher casada separada de seu marido — ajusta-se muitobem a esta opinião. Ela não tinha superado o fracasso de seu casamento e permanecia ligada ao trauma. Masnosso segundo caso — o da jovem com uma fixação em seu pai — já nos mostra que a fórmula nãoproporciona compreensão suficiente. Por um lado, uma menininha estar de tal forma apaixonada por seu pai éalgo tão comum e tão freqüentemente superado, que o termo ‘traumático’, aplicado a este fato, perderia todo oseu significado; e, por outro lado, a história da paciente demonstrou-nos que, numa primeira instância, suafixação erótica parecia haver-se dissipado sem causar qualquer dano, e foi somente alguns anos mais tardeque reapareceu nos sintomas da neurose obsessiva. Aqui, pois, antevemos complicações, uma maiorquantidade de causas para o começo da doença; também podemos, contudo, suspeitar que não há por queabandonar a linha de abordagem traumática como se fosse errônea; deve ser possível fazê-la adequar-se a istoe incluí-la em algum outro lugar. Aqui, pois, mais uma vez devemos interromper o trajeto que iniciamos. Por agora, não conduz a nadamais, e teremos de nos instruir com outras coisas, antes de podermos encontrar sua correta continuação.Quanto ao tema da fixação numa determinada fase do passado, podemos, porém, acrescentar que tal condutaé muito mais difundida do que a neurose. Toda neurose inclui uma fixação desse tipo, mas nem toda fixaçãoconduz a uma neurose, coincide com uma neurose ou surge devido a uma neurose. Um perfeito modelo defixação afetiva em algo que é passado, é o que se nos apresenta no luto, que realmente envolve a maiscompleta alienação do presente e do futuro. Mesmo o julgamento de um leigo, contudo, distinguirá com nitidezentre luto e neurose. Existem, por outro lado, neuroses que podem ser descritas como forma patológica deluto.Também pode acontecer que uma pessoa seja levada a uma parada tão completa, devido a umacontecimento traumático que estremece os alicerces de sua vida, a ponto de abandonar todo o interesse pelopresente e pelo futuro e manter-se permanentemente absorvida na concentração mental no passado. Umapessoa assim desafortunada, porém, não se torna, por isso, necessariamente neurótica. Não atribuiremos,portanto, demasiado valor a este único aspecto ao caracterizar a neurose, embora ele esteja regularmentepresente e possa ser geralmente importante.Voltemo-nos agora para a segunda das descobertas queresultaram de nossas análises; e neste caso não precisamos temer a necessidade de fazer uma subseqüentelimitação em nossos pontos de vista. Descrevi-lhes como nossa primeira paciente executava um ato obsessivocarente de sentido e como referiu uma recordação íntima de sua vida passada que tinha alguma conexão comela: e como, a seguir, examinei a conexão entre esse ato e a lembrança, e descobri a intenção do ato obsessivoa partir de sua relação com a lembrança. Existe, porém, um fator que omiti completamente, embora mereçanossa mais completa atenção. Por mais que a paciente repetisse seu ato obsessivo, não sabia que estederivava da experiência por que havia passado. A conexão entre o ato e a experiência estava oculta para ela; Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 22apenas podia, muito fielmente, responder que não conhecia aquilo que a fazia executar seu ato. Então,subitamente, um dia, sob a influência do tratamento, conseguiu descobrir a significação e a referiu a mim. Noentanto, ela ainda nada sabia da intenção com que executava o ato obsessivo — a intenção de retificar umaparte desagradável do passado e colocar seu adorado esposo em melhor situação. Levou um tempoconsideravelmente longo e foi necessário muito trabalho, antes que compreendesse e admitisse para mim queapenas tal motivo poderia ter sido a força determinada de seu ato obsessivo. O elo entre a cena após sua infeliz noite de núpcias e o motivo afetuoso da paciente constituíram,tomados em conjunto, o que temos chamado de ‘sentido’ do ato obsessivo. Mas, enquanto executava o atoobsessivo, este sentido lhe tinha sido desconhecido em ambas as direções — tanto o por quê como o para quê.[ver em [1] e [2], adiante.] Os processos mentais, portanto, tinham estado em operação dentro dela e o atoobsessivo era o efeito deles; ela se apercebia deste efeito num estado mental normal, porém nenhum dospredeterminantes deste efeito vieram ao conhecimento de sua consciência. Conduzia-se exatamente da mesmaforma que uma pessoa hipnotizada que houvesse recebido de Bernheim a ordem de abrir um guarda-chuva, naenfermaria do hospital, cinco minutos após haver despertado. O homem executava esta ordem quando estavaacordado, mas não podia referir o motivo de sua ação. É uma situação semelhante que temos diante de nossosolhos quando falamos na existência de processos mentais inconscientes. Podemos desafiar a quem quer queseja, no mundo, que faça uma descrição científica mais correta desta situação e, se o fizer, de bom gradorenunciaremos à nossa hipótese de processos mentais inconscientes. Enquanto tal não acontecer, porém, nosaferraremos à hipótese; e se alguém levantar a objeção de que aqui o inconsciente não constitui nada de real,num sentido científico, que é um artifício, une façon de parler, podemos apenas sacudir os ombrosresignadamente, e não levar em conta o que diz, por ininteligível. Algo não real, que produz efeitos de umarealidade tão tangível como um ato obsessivo!E encontramos na segunda paciente aquilo que, em essência, éa mesma coisa. Ela estabelecera a regra de que o travesseiro não devia tocar o encosto da cabeceira da cama,e tinha de obedecer a essa regra, ainda que não soubesse de onde esta se originava, o que significava, ou aque motivos devia seu poder. A paciente considerar a regra como algo indiferente, ou lutar contra a mesma, ouirritar-se com ela, ou decidir transgredi-la — nada disso determinava qualquer modificação na sua execução.Tinha de ser obedecida, e ela se perguntava em vão, por quê. Devemos reconhecer, entretanto, que essessintomas de neurose obsessiva, essas idéias e impulsos que emergem não se sabe de onde, que provam serresistentes a toda influência de uma mente sob outros aspectos normal, que dão ao paciente a impressão de setratar de convidados todo-poderosos de um outro mundo, seres imortais imiscuindo-se no turbilhão da vidamortal — esses sintomas oferecem a mais clara indicação de que existe uma região da mente, por completoisolada do resto. Conduzem, por uma via que não se pode perder, a uma convicção da existência doinconsciente na mente; e é precisamente por esta razão que a psiquiatria clínica, que está familiarizada apenascom uma psicologia da consciência, não consegue abordar esses sintomas de nenhuma outra forma que nãoseja qualificando-os como sinais de um tipo especial de degeneração. Idéias obsessivas e impulsos obsessivosnaturalmente não são, em si mesmos, inconscientes, algo mais do que a realização de atos obsessivos escapaà percepção consciente. Não se teriam tornado sintomas, se não tivessem forçado o caminho até àconsciência. Mas seus motivos predeterminantes, que inferimos por meio da análise, as conexões em que os Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 23inserimos, pela interpretação, são inconscientes, pelo menos enquanto não os tivermos tornado conscientespara o paciente, através do trabalho da análise. Ora, se os senhores considerarem mais atentamente que a situação que estabelecemos em nossosdois casos se confirma em relação a todos os sintomas de toda doença neurótica — que sempre e em todaparte o sentido dos sintomas é desconhecido para o paciente, e que a análise regularmente demonstra queesses sintomas constituem derivados de processos inconscientes, contudo podendo, sujeitos a variadascircunstâncias favoráveis, fazer-se conscientes — se considerarem isto, os senhores compreenderão que, napsicanálise, não podemos prescindir daquilo que é, ao mesmo tempo, inconsciente e mental, e que estamoshabituados a operar com esse algo, como se se tratasse de alguma coisa perceptível pelos sentidos. Ossenhores, porém, também entenderão, talvez, quão incapazes de formar um julgamento desta questão sãotodas essas outras pessoas familiarizadas apenas com o inconsciente enquanto conceito, que jamais efetuaramuma análise e jamais interpretaram sonhos, ou encontraram sentido e intenção nos sintomas neuróticos. Valeanunciar, mais uma vez, para nossos fins: a possibilidade de conferir um sentido aos sintomas neuróticos,mediante interpretação analítica, é uma prova inarredável da existência — ou, se preferem, da necessidade demanter a hipótese … de processos mentais inconscientes. Isto não é tudo, porém. Graças a uma segunda descoberta de Breuer, que a mim parece maissignificativa ainda do que a outra [ver em [1]], a que ele empreendeu sozinho, aprendemos ainda mais acercada conexão entre os sintomas neuróticos e o inconsciente. Não apenas o sentido dos sintomas é, comregularidade, inconsciente, mas também existe uma relação inseparável entre este fato de os sintomas sereminconscientes e a possibilidade de eles existirem. Logo os senhores me compreenderão. Estou de acordo comBreuer ao afirmar que sempre ao encontrarmos um sintoma, poderemos concluir existirem determinadosprocessos mentais definidos, no paciente, os quais contêm o sentido do sintoma. Mas, também é necessárioque este sentido seja inconsciente, para que o sintoma possa surgir. Jamais se constroem sintomas a partir deprocessos conscientes; tão logo os processos inconscientes pertinentes se tenham tornado conscientes, osintoma deve desaparecer. Aqui os senhores prontamente percebem um meio de se chegar à terapia, umaforma de fazer os sintomas desaparecerem. E, dessa maneira, Breuer realmente recuperou sua pacientehistérica — isto é, libertou-a de seus sintomas; encontrou uma técnica de trazer à consciência os processosmentais inconscientes que continham o sentido dos sintomas, e os sintomas desapareceram. Essa descoberta de Breuer não foi resultado de especulação, mas sim uma feliz observação que setornou possível pela cooperação da paciente. E nem devem os senhores atormentar-se com tentativas decompreender essa descoberta atribuindo-a a algo anteriormente conhecido; devem reconhecer nela um fatofundamental novo, com cujo auxílio muita coisa se tornará explicável. Permitam-me, portanto, repetir-lhes amesma coisa, de outro modo.A construção de um sintoma é o substituto de alguma outra coisa que nãoaconteceu. Determinados processos mentais normalmente deveriam ter evoluído até um ponto em que aconsciência recebesse informações deles. Isto, porém, não se realizou, e, em seu lugar — a partir dosprocessos interrompidos, que de alguma forma foram perturbados e obrigados a permanecer inconscientes — osintoma emergiu. Assim, passou-se algo semelhante a uma troca; se isso puder ser invertido, o tratamento dossintomas neuróticos terá atingido seus objetivos.A descoberta de Breuer ainda é o alicerce da terapia Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 24psicanalítica. A tese, segundo a qual os sintomas desaparecem quando se fazem conscientes seus motivospredeterminantes inconscientes, tem sido confirmada por todas as pesquisas subseqüentes, embora nosdefrontemos com as mais estranhas e inesperadas complicações ao tentarmos pô-la em prática. Nossa terapiaage transformando aquilo que é inconsciente em consciente, e age apenas na medida em que tem condiçõesde efetuar essa transformação.Devo fazer agora, rapidamente, uma breve digressão, a fim de evitar o risco deos senhores imaginarem que este trabalho terapêutico seja realizado com muita facilidade. Daquilo que lhesdisse até aqui, uma neurose poderia resultar de uma espécie de ignorância — um não-saber acerca deacontecimentos mentais de que se deveria saber. Isto seria uma aproximação mais efetiva a algumasconhecidas doutrinas socráticas, segundo as quais até mesmo os vícios se baseiam na ignorância. Ora, via deregra seria muito fácil, para um médico experiente em análise, compreender que impulsos mentais tivessempermanecido inconscientes em determinado paciente. Então não lhe seria muito difícil, também, recuperar opaciente, comunicado seu conhecimento a este e assim remediando a ignorância de seu paciente. Pelo menosparte do sentido inconsciente do sintoma poderia ser abordada desta maneira, embora seja verdade que omédico não pode adivinhar muito a respeito da outra parte — a conexão entre os sintomas e as experiências dopaciente — de vez que o médico desconhece essas experiências e deve esperar até que o paciente as recordee narre. Mesmo para isso, contudo, pode-se, em alguns casos, encontrar um sucedâneo. Pode-se indagaracerca dessas experiências junto aos parentes do paciente, e estes amiúdes conseguirão reconhecer qualdelas teve um efeito traumático, podendo até mesmo, vez e outra, referir experiências de que o próprio pacientenada conhece, porque ocorreram em uma época muito do início de sua vida. Combinando, então, estes doismétodos, deveríamos ganhar a perspectiva de aliviar o paciente de sua ignorância patogênica, com poucodispêndio de tempo e de trabalho.Oxalá as coisas se passassem desta maneira! Chegaríamos a descobertas,com relação a este tema, para as quais, de início, estávamos despreparados. Saber nem sempre é a mesmacoisa que saber: existem diferentes formas de saber, que estão longe de serem psicologicamente equivalentes.‘Il y a fagots et fagots’, como disse Molière. O conhecimento do médico não é o mesmo que o do paciente, enão pode causar os mesmos efeitos. Se o médico transferir seu conhecimento para o paciente, na forma deinformação, não se produz nenhum resultado. Não, seria incorreto dizer isso. Não resulta em remoção dosintoma, mas tem um outro resultado — o de pôr em movimento a análise, do que um dos primeiros sinais,freqüentemente, são as expressões de rechaço. O paciente sabe, depois disso aquilo que antes não sabia — osentido de seus sintomas; porém, sabe tanto quanto sabia. Com isso, aprendemos que existe mais de umaespécie de ignorância. Necessitaremos ter uma compreensão mais profunda da psicologia, para que esta nosmostre em que consistem essas diferenças. Malgrado isso, continua, porém, verdadeira a nossa tese segundoa qual os sintomas desaparecem quando seu sentido se torna conhecido. Tudo quanto nos resta acrescentar éque o conhecimento deve basear-se numa modificação interna no paciente, e esta só pode efetuar-se atravésde uma parcela de trabalho psicológico orientado para um objetivo determinado. Aqui deparamos comproblemas que, presentemente, serão agrupados na dinâmica da construção dos sintomas.Agora devoperguntar; senhores, se isto que estou dizendo não é demasiado obscuro e complicado. Não estaria euconfundindo-os ao retomar, com tanta freqüência, coisas que já disse ou fazendo ressalvas às mesmas — aoiniciar seqüências de idéias e depois abandoná-las? Lamentaria se isto acontecesse. Porém, desagrada-me Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 25muito simplificar as coisas às custas da veridicidade. Não tenho o que objetar contra o fato de os senhoresreceberem todo o impacto da multiplicidade e complexidade de nosso tema; e também penso que não lhescauso prejuízo se em cada ponto lhes transmito mais do que os senhores podem utilizar. Afinal, estouconsciente de que todo ouvinte ou leitor, em sua mente, ordena, resume e simplifica tudo o que lhe éapresentado, e de tudo isto seleciona o que gostaria de reter. Até certo ponto, sem dúvida, procede o fato deque, quanto mais se tem à disposição, mais pode ser usufruído. Permitam-se esperar que, apesar de todos osaspectos secundários, os senhores tenham apreendido nitidamente a parte essencial daquilo que lhescomuniquei — a respeito do sentido dos sintomas, a respeito do inconsciente e a respeito da relação entreambos. Sem dúvida, também terão percebido que nossos esforços subseqüentes nos conduzirão em duasdireções: primeiro, nos levarão a descobrir a maneira pela qual as pessoas adoecem e como podem vir a adotara atitude neurótica em relação à vida — o que é um problema clínico; e, em segundo lugar, far-nos-ão entendercomo os sintomas patológicos se desenvolvem a partir das causas da neurose — o que constitui um problemade dinâmica mental. Ademais disso, deve haver algures um ponto em que os dois problemas convergem. Por hoje, não prosseguirei mais nesse tópico. No entanto, como ainda temos algum tempo disponível,gostaria de chamar sua atenção para um outra característica de nossas duas análises, que só será possívelapreciar novamente, de modo completo, mais adiante — para as lacunas nas recordações do paciente, suasamnésias. Conforme já ouviram falar [ver em [1]], a tarefa do tratamento psicanalítico pode ser expressa nestafórmula: sua tarefa consiste em tornar consciente tudo o que é patogenicamente inconsciente. Os senhorestalvez se surpreenderão ao constatar, então, que esta fórmula pode ser substituída por uma outra: sua tarefaconsiste em preencher todas as lacunas da memória do paciente, em remover as amnésias [ver em [1]]. O quecorresponderia à mesma coisa. Com isso queremos dizer que as amnésias dos pacientes neuróticos possuemimportante conexão com a origem de seus sintomas. No entanto, se os senhores considerarem o caso denossa primeira análise, não encontrarão justificativa para esse conceito de amnésia. A paciente não haviaesquecido a cena da qual se derivava seu ato obsessivo; pelo contrário, tinha nítida recordação da mesma enenhuma outra coisa esquecida desempenhou qualquer papel na origem do sintoma. A situação no caso denossa segunda paciente (a jovem com o ritual obsessivo), embora menos clara, era, em seu conjunto, análoga.Não se havia realmente esquecido de sua conduta de anos anteriores de sua vida — o fato de haver insistidoem que a porta entre o quarto de seus pais e seu quarto fosse mantida aberta, e de haver expulsado sua mãedo lugar que ocupava na cama dos pais; recordava-se disto muito bem, embora com hesitação e contra avontade. A única coisa que podemos considerar surpreendente é que a primeira paciente, ao realizar seu atoobsessivo em inúmeras ocasiões, nem uma vez sequer tenha percebido sua semelhança com a experiência danoite de núpcias, e que a lembrança respectiva não lhe ocorresse quando se lhe faziam perguntas diretas nosentido de encontrar os motivos de seu ato obsessivo. E o mesmo se aplica à adolescente cujo ritual e suascausas estavam em conexão principalmente com uma situação que se repetia, de forma idêntica, todas asnoites. Em ambos estes casos, não havia amnésia verdadeira, não havia perda de memória; mas rompera-seuma conexão que devia ter acarretado a reprodução ou a reemergência da lembrança. Para a neurose obsessiva, basta uma perturbação da memória deste tipo; na histeria, porém, o caos édiferente. Via de regra, esta neurose é marcada por amnésia em escala realmente grande. Ao analisar cada Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 26sintoma histérico isoladamente, descobre-se, geralmente, toda uma seqüência de impressão de eventos que,quando tornam a emergir, são descritos explicitamente pelo paciente como tendo sido esquecidos até então.Por outro lado, essa seqüência remonta aos primeiros anos de vida, de forma que a amnésia histérica pode serreconhecida como continuação imediata da amnésia infantil que, para nós, pessoas normais, ocultou oscomeços de nossa vida mental. [ver em [1] e seg., acima.] Ao seu lado, constatamos, com assombro, que atémesmo as mais recentes experiências do paciente podem estar sujeitas a esquecimento, e que ascircunstâncias que precipitaram a irrupção da doença ou levaram à sua intensificação, são especialmenteinvadidas, se não totalmente apagadas, pela amnésia. Acontece, com regularidade, que detalhes importantesdesaparecem do quadro total de uma recordação recente deste tipo, ou foram substituídos por falsificações damemória. Com efeito, sucede, com regularidade quase igual, que determinadas lembranças de vivênciasrecentes apenas emergem um pouco antes do final de uma análise — lembranças que haviam sido retidas atéesse momento tardio, e deixado lacunas perceptíveis na continuidade do caso. Essas limitações da capacidade da memória, conforme já disse, são características da histeria, na qual,de fato, determinados estados também surgem como sintomas — os ataques histéricos —, que não deixamatrás de si qualquer vestígio na memória. Se as coisas se passam diferentemente na neurose obsessiva, ossenhores podem concluir que nessas amnésias estamos lidando com uma característica psicológica damodificação que ocorre na histeria, e não é um aspecto universal das neuroses em geral. A importância destadistinção reduz-se com a seguinte consideração. Temos incluído duas coisas como ‘sentido’ de um sintoma: oseu ‘de onde’ e seu ‘para quê’ ou sua ‘finalidade’ [pág. 25] — ou seja, as impressões e experiências das quaissurgiu e as intenções a que serve. Assim, o ‘de onde’ de um sintoma se reduz a impressões que vieram doexterior, que uma vez forma necessariamente conscientes e podem, a partir daí, ter-se tornado inconscientesatravés do esquecimento. O ‘para quê’ de um sintoma, seu propósito, no entanto, é invariavelmente umprocesso endopsíquico, que possivelmente teria sido consciente, no início, mas pode igualmente não ter sidojamais consciente e ter permanecido no inconsciente desde o início. Por isso, não é de grande importância se aamnésia influenciou também o ‘de onde’ — as experiências em que o sintoma se baseia — como acontece nahisteria; é no ‘para quê’, no propósito do sintoma que pode ter sido inconsciente desde o início, que se baseiasua dependência do inconsciente — e não menos firmemente na neurose obsessiva do que na histeria. Ao enfatizar desta maneira o inconsciente na vida mental, contudo, conjuramos a maior parte dos mausespíritos da crítica contrário à psicanálise. Não se surpreendam com isso, e não suponham que a resistênciacontra nós se baseia tão-somente na compreensível dificuldade que constitui o inconsciente ou na relativainacessibilidade das experiências que proporcionam provas do mesmo. A origem dessa resistência, segundopenso, situa-se em algo mais profundo. No transcorrer dos séculos, o ingênuo amor-próprio dos homens tevede submeter-se a dois grandes golpes desferidos pela ciência. O primeiro foi quando souberam que a nossaTerra não era o centro do universo, mas o diminuto fragmento de um sistema cósmico de uma vastidão que malse pode imaginar. Isto estabelece conexão, em nossas mentes, com o nome de Copérnico, embora algosemelhante já tivesse sido afirmado pela ciência de Alexandria. O segundo golpe foi dado quando ainvestigação biológica destruiu o lugar supostamente privilegiado do homem na criação, e provou suadescendência do reino animal e sua inextirpável natureza animal. Esta nova avaliação foi realizada em nossos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 27dias, por Darwin, Wallace e seus predecessores, embora não sem a mais violenta oposição contemporânea.Mas a megalomania humana terá sofrido seu terceiro golpe, o mais violento, a partir da pesquisa psicológica daépoca atual, que procura provar o ego que ele não é senhor nem mesmo em sua própria casa, devendo, porém,contentar-se com escassas informações acerca do que acontece inconscientemente em sua mente. Ospsicanalistas não foram os primeiros e nem os únicos que fizeram essa invocação à introspecção; todavia,parece ser nosso destino conferir-lhe expressão mais vigorosa e apoiá-la com material empírico que éencontrado em todas as pessoas. Em conseqüência, surge a revolta geral contra nossa ciência, o desrespeito atodas as considerações de civilidade acadêmica e a oposição se desvencilha de todas as barreiras da lógicaimparcial. Em ademais de tudo isso, perturbamos a paz deste mundo também de uma outra forma, conformeem breve os senhores ouvirão. CONFERÊNCIA XIX RESISTÊNCIA E REPRESSÃO SENHORAS E SENHORES: Antes de empreendemos qualquer outro avanço em nossa compreensão das neuroses, necessitamosde algumas observações novas. Aqui estão duas, ambas muito notáveis; quando de sua descoberta, causarammuito surpresa. Nossas conferências realizadas no ano passado certamente os prepararam para ambas.Emprimeiro lugar, então, quando assumimos a tarefa de recuperar um paciente para a saúde, aliviá-lo dossintomas de sua doença, ele nos enfrenta com uma resistência intensa e persistente, que se prolonga por todaa duração do tratamento. Este é um fato tão estranho que não podemos esperar que as pessoas acreditemmuito nele. A este respeito é melhor nada dizer aos parentes dos pacientes, pois eles, invariavelmente,consideram-no desculpa de nossa parte para o prolongamento ou fracasso de nosso tratamento. O paciente,também, apresenta todos os fenômenos desta resistência, sem reconhecê-la como tal, e, se pudermos induzi-loa adotar nossa opinião a respeito dela e a contar com a existência da mesma, isto já se pode considerar comogrande êxito. Pensem apenas nisto: O paciente, que tanto sofre com os seus sintomas e tanto sofrimento causaàqueles que convivem com ele, que está disposto a enfrentar tantos sacrifícios em tempo, dinheiro, esforço eautodisciplina, a fim de se libertar desses sintomas — temos de acreditar que esse mesmo paciente empreendeuma luta no interesse da sua doença, contra a pessoa que o está ajudando. Como deve parecer improvávelesta afirmação! E, no entanto, é verdadeira; e quando sua improbabilidade nos é apontada, podemos somenteresponder que essa situação também tem analogias. Uma pessoa que vai ao dentista, por causa de uma dor dedente insuportável, assim mesmo procurará afastar o dentista quando este se aproxima do dente doente, comum boticão. A resistência do paciente apresenta-se sob muitíssimos tipos, extremamente sutis e freqüentementedifíceis de detectar; e mostra mutações cambiantes nas formas em que se manifesta. O médico deve serincrédulo e manter-se em guarda contra ela. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 28 No tratamento psicanalítico, fazemos uso da mesma técnica que os senhores já conhecem dainterpretação de sonhos. Instruímos o paciente para se colocar em um estado de auto-observação tranqüila,irrefletida, e nos referir quaisquer percepções internas que venha a ter — sentimentos, pensamentos,lembranças — na ordem em que lhe ocorrem. Ao mesmo tempo, advertimo-lo expressamente a não deixar quealgum motivo leve-o a fazer uma seleção entre essas associações ou a excluir alguma dentre elas, seja porqueé muito desagradável ou muito indiscreta para ser dita, ou porque é muito banal ou irrelevante, ou que éabsurda e não necessita ser dita. Sempre insistimos com o paciente para seguir apenas a superfície de suaconsciência e pôr de lado toda crítica sobre aquilo que encontrar, qualquer que seja a forma que esta críticapossa assumir; e asseguramos-lhe que o sucesso do tratamento, e sobretudo sua duração, depende daconscienciosidade com que ele obedece a esta regra técnica fundamental da análise. Já sabemos, da técnicada interpretação de sonhos, que aquelas associações que originam as dúvidas e objeções, que acabei deenumerar, são justamente as que invariavelmente contêm o material que leva à descoberta do inconsciente.[Cf. Conferência VII, ver em [1].]A primeira coisa que conseguimos ao estabelecer a regra técnica fundamentalé que ela se transforma no alvo dos ataques da resistência. O paciente procura, por todos os meios, livrar-sedas exigências desta regra. Num momento, declara que não lhe ocorre nenhuma idéia; no momento seguinte,que tantos pensamentos se acumulam dentro de si, que não pode apreender nenhum. Ora constatamos comdesgostosa surpresa que o paciente cedeu primeiro a uma e, depois a mais outra objeção crítica: no-lo revelapelas longas pausas que introduz em seus comentários. E logo depois, admite que existe algo que de fato nãopode dizer — ele teria vergonha de dizer; e permite que este motivo prevaleça sobre sua promessa. Ou diz quelhe ocorreu algo, mas que isto se refere a outra pessoa, e não a ele mesmo, e, em vista disso, não há por quereferi-lo. Ou ainda, aquilo que agora lhe acudiu à mente é realmente sem importância, excessivamente tolo esem sentido: como é que eu poderia imaginar que ele enveredasse por pensamentos desse tipo. E assimcontinua, com inumeráveis variações e apenas se pode replicar que ‘dizer tudo’ realmente significa ‘dizertudo’.Dificilmente haver-se-á de encontrar um único paciente que não faça uma tentativa de reservar uma ououtra região para si próprio, de modo a evitar que o tratamento tenha acesso a ela. Um homem, que só possodescrever como possuidor da mais elevada inteligência, manteve um silêncio deste tipo, durante semanas, porocasião do término de um caso amoroso íntimo, e, solicitado a dar as razões de haver rompido a regraestabelecida, defendeu-se com o argumento de que pensava que essa história especificamente constituíaassunto particular seu. O tratamento psicanalítico por certo não reconhece tal direito de asilo. Suponham que sefizesse, numa cidade como Viena, a experiência de considerar uma praça, como a do Hoher Markt, ou umaigreja, como a de Santo Estêvão, lugares em que nenhuma pessoa pudesse ser presa, e suponham que entãoprecisássemos apanhar um determinado criminoso. Poderíamos ter bastante certeza de encontrá-lo numdesses refúgios. Certa vez, decidi permitir a um homem, de cuja eficiência muitas coisas dependiam no mundoexterno, o direito de fazer uma exceção dessa espécie porque ele estava obrigado, por dever de seu ofício, anão fazer comunicação acerca de determinadas coisas a outras pessoas. É verdade que ele ficou satisfeito como resultado; mas eu não. Resolvi não repetir uma tentativa sob tais condições. Os neuróticos obsessivos entendem perfeitamente de como tornar a regra técnica quase inútil,aplicando nela sua superconscienciosidade e suas dúvidas. Pacientes que sofrem de histeria de angústia por Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 29vezes conseguem seguir a regra ad absurdum, referindo apenas associações tão distantes daquilo queandamos pesquisando, que não contribuem em nada para a análise. Não é, porém, minha intenção iniciá-los nomanejo dessas dificuldades técnicas. É suficiente dizer-lhes que, no fim com resolução e perseverança,conseguimos extorquir à resistência certo grau de obediência à regra técnica fundamental — que, com isso,passa para outra esfera.Por vezes, surge como resistência intelectual, luta com argumentos e explora todas asdificuldades e improbabilidades que um pensar normal, porém não instruído, encontra nas teorias da análise.Por vezes, somos obrigados a ouvir de uma só pessoa todas as críticas e objeções que assaltam nossosouvidos, em coro, na bibliografia científica referente ao assunto. E, por essa razão, nenhum desses clamoresque nos atingem de fora, nos soam desconhecidos. É uma regular tempestade em copo d’água. No entanto, opaciente está desejoso de argumentar; anseia fazer como que passemos a instruí-lo, ministrar-lheensinamentos, contradizê-lo, iniciá-lo na literatura, de modo que possa adquirir mais conhecimentos. Está muitodisposto a tornar-se um adepto da psicanálise — com a condição de que a análise poupe a sua pessoa. Masreconhecemos esta curiosidade como sendo resistência, como manobra tendente a nos desviar de nossastarefas específicas, e repelimo-la. No caso de um paciente obsessivo, haveremos de esperar táticas deresistências especiais. Freqüentemente, permitirá que a análise prossiga sem empecilhos em seu caminho, demodo que ela possa esclarecer, cada vez melhor, o enigma de sua doença. Começamos a nos admirar, por fim,de este aclaramento não se acompanhar de nenhum efeito prático, nenhuma diminuição dos sintomas. Entãoconseguimos perceber que a resistência se refugiou dentro da dúvida, que é própria da neurose obsessiva, edesta posição ela consegue resistir-nos. É como se o paciente dissesse: ‘Sim, está tudo muito bem, muitointeressante, e terei muito satisfação em prosseguir ainda mais. Eu mudaria um bocado minha doença, se tudoisto fosse verdade. Mas não acredito, nem um pouco, que seja verdade; e, na medida em que não acredito, nãofaz qualquer diferença para minha doença.’ As coisas podem continuar assim por longo tempo, até quefinalmente a pessoa enfrenta diretamente essa atitude de reserva, e então se fere a batalha decisiva.Asresistências intelectuais não são as piores: sempre é possível superá-las. O paciente também sabe, contudo,como erguer resistência sem sair de esquema de referência da análise, e a superação desta situação está entreos problemas técnicos mais difíceis. Em vez de recordar, repete atitudes e impulsos emocionais o início de suavida, que podem ser utilizados como resistência contra o médico e tratamento, através do que se conhececomo ‘transferência’.Se o paciente é um homem, geralmente extrai este material de sua relação com seu pai,em cujo lugar coloca o médico, e dessa forma constrói resistências que surgem a partir de seu esforço de setornar independente, em si próprio e em sua opiniões, a partir de sua ambição, cujo objetivo primeiro consistiaem fazer as coisas tão bem como seu pai, ou superá-lo; ou a partir de sua aversão a se endividar, pela segundavez na vida, com uma carga de gratidão. Assim, às vezes, tem-se a impressão de que o paciente substituiinteiramente sua melhor intenção de pôr um fim à sua doença, pela intenção alternativa de negar que o médicotenha razão, de fazer com que este reconheça sua impotência e de triunfar sobre ele. As mulheres têm umtalento de mestre para explorar, na relação com o médico, uma transferência afetuosa,com nuances eróticas,destinada à resistência. Se esta ligação atinge determinado nível, desaparece todo o seu interesse pelasituação imediata do tratamento e todas as obrigações que assumiram no início; seu ciúme, que nunca estáausente, e sua irritação ante a inevitável rejeição, embora expressos respeitosamente, não podem deixar de ter Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 30como efeito um dano na harmonia entre paciente e médico, e assim inativam uma das mais poderosas forçasmotrizes da análise.Resistências deste tipo não devem ser condenadas apressadamente. Incluem tantomaterial importante do passado do paciente e trazem-no à lembrança de forma tão convincente, que elas setornam os melhores suportes da análise, se uma técnica habilidosa soube dar-lhes o rumo apropriado. Nãoobstante, deve-se observar que esse material está sempre a serviço da resistência, em princípio, e revela umafaçade que é hostil ao tratamento. Também se pode dizer que aquilo que se mobiliza para lutar contra asmodificações que nos esforçamos por efetivar, são traços de caráter, atitudes do ego. Com referências a esteaspecto, descobrimos que esses traços de caráter foram formados em conexão com as causas da neurose ecomo reação contra as exigências desta; e encontramos traços que normalmente não conseguem emergir ounão podem emergir no mesmo grau, e que se poderia descrever como latentes. Ademais, não devem ossenhores ficar com a impressão de que consideramos o aparecimento dessas resistências um risco imprevistopara o empreendimento analítico. Não; estamos conscientes de que essas resistências estão fadadas a vir àluz; de fato, ficamos insatisfeitos quando não conseguimos fazê-las surgir de maneira suficientemente clara equando somos incapazes de demostrá-las ao paciente. Na verdade, chegamos a compreender, finalmente, quea superação dessas resistências constitui a função essencial da análise e é a única parte do nosso trabalho quenos dá a segurança de havermos conseguido algo com o paciente.Se os senhores refletirem também que opaciente transforma todos os eventos casuais, ocorrentes durante a análise, em interferências no tratamento;que ele utiliza, como motivos para afrouxar seus esforços, todo acontecimento perturbador externo à análise,todo comentário feito por uma pessoa ou autoridade, em seu ambiente, hostil à psicanálise, toda doençaorgânica eventual ou tudo aquilo que complica sua neurose, e até mesmo, na verdade, toda melhora em seuestado — se considerarem tudo isto, terão obtido uma imagem aproximada, embora ainda incompleta, dasformas e dos métodos da resistência; e a luta contra esta resistência faz parte de toda análise.Abordei esteponto de forma assim tão detalhada, porque agora devo informar-lhes que esta experiência nossa com aresistência dos neuróticos à remoção de seus sintomas tornou-se a base de nosso ponto de vista dinâmico dasneuroses. Inicialmente, Breuer e eu empreendíamos a psicoterapia por meio da hipnose; a primeira paciente deBreuer foi totalmente tratada sob influência hipnótica, e, no início, eu o segui neste procedimento. Admito que, naquela época, o trabalhoavançava mais fácil e satisfatoriamente, e também em muito menos tempo. Os resultados eram, porém,incertos e não duradouros, e por esse razão finalmente abandonei a hipnose. E então compreendi que não setornaria possível a compreensão da dinâmica destas doenças enquanto fosse empregada a hipnose. Esteestado era justamente capaz de subtrair à percepção do médico a existência da resistência. Ele fazia recuar aresistência, tornando uma determinada área livre para o trabalho analítico e represava-a nas fronteiras destaárea sob uma tal forma, que se tornava impenetrável, do mesmo modo como a dúvida age na neuroseobsessiva. Por esse motivo, tenho podido declarar que a psicanálise propriamente dita começou quandodispensei o auxílio da hipnose.Se, entretanto, tornou-se tão importante reconhecer a resistência, faríamos bemem deixar lugar para uma cautelosa dúvida quanto a saber se não estivemos despreocupados demais emnossas suposições sobre a resistência. Com efeito, talvez haja casos de neurose em que as associaçõesfalhem por outros motivos, talvez os argumentos contra nossas hipóteses realmente mereçam que seu Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 31conteúdo seja examinado, e estejamos fazendo uma injustiça aos pacientes ao catalogar, tãoconvenientemente, suas críticas intelectuais como sendo resistência. No entanto, senhores, não chegamos aesta conclusão levianamente. Temos tido oportunidade de observar todos esses pacientes críticos no momentoda emergência de uma resistência e após o seu desaparecimento. Pois a resistência constantemente estámodificando sua intensidade durante o transcorrer do tratamento, cresce sempre quando nos aproximamos deum novo assunto, alcança sua intensidade máxima quando estamos no clímax da abordagem desse assunto, ese dissipa quando o assunto é posto de lado. E não temos por que encontrar, a menos que tenhamos sidoculpados de alguma incorreção especial em nossa técnica, a carga total de resistência de que um paciente écapaz. Portanto, temos tido a possibilidade de nos convencer de que, em ocasiões incontáveis no decurso desua análise, a mesma pessoa abandonará sua atitude crítica e depois a reassumirá. Se estamos na iminênciade trazer-lhe à consciência uma parcela de material inconsciente especialmente desagradável, a pessoa setorna extremamente crítica; pode ter empreendido e aceito muitas coisas previamente, agora, todavia, ésimplesmente como se aquelas aquisições tivessem sido anuladas; em seu esforço de se opor, a todo custo,pode oferecer o quadro completo de um imbecil emocional. Se, contudo, conseguimos ajudá-la a superar essanova resistência, ela recupera sua compreensão interna (insight) e entendimento. Sua faculdade crítica não é,assim, uma função independente a ser respeitada como tal, é o instrumento de suas atitudes emocionais eorienta-se segundo sua resistência. Se existe alguma coisa de que não gosta, pode empreender contra estauma luta ferrenha e parecer extremamente crítica; mas se alguma coisa reza conforme sua cartilha, pode, pelocontrário, mostrar-se muitíssimo crédula. Talvez nenhuma de nós seja muito diferente; alguém, que está sendoanalisado apenas revela esta subordinação do intelecto à vida afetiva tão claramente, porque na análiseexercemos sobre ele uma pressão assim tão grande.Como, pois, explicamos nossa observação, segundo aqual o paciente luta com tamanha energia contra a remoção de seus sintomas e o estabelecimento de seusprocessos mentais em um curso normal? Dizemos a nós mesmos que conseguimos descobrir, aqui, forçaspoderosas que se opõem a qualquer modificação na condição do paciente; devem ser as mesmas que, nopassado, produziram esta condição. Durante a formação de seus sintomas, algo deve ter-se passado, queagora podemos reconstituir a partir de nossas experiências durante a resolução de seus sintomas. Já sabemos,através da observação de Breuer, que há uma precondição para a existência de um sintoma: algum processomental deve não ter sido conduzido normalmente até seu objetivo normal — que era o objetivo de poder tornar-se consciente. O sintoma é o substituto daquilo que não aconteceu nesse ponto [ver em [1] e [2], acima]. Agorasabemos em que ponto devemos localizar a ação da força que presumimos. Uma violenta oposição deve ter-seiniciado contra o acesso à consciência do processo mental censurável, e, por este motivo, ele permaneceuinconsciente. Por constituir algo inconsciente, teve o poder de construir um sintoma. Esta mesma oposição,durante o tratamento psicanalítico, se insurge, mais uma vez, contra nosso esforço de tornar consciente aquiloque é inconsciente. É isto o que percebemos como resistência. Propusemos dar ao processo patogênico, que édemonstrado pela resistência, o nome de repressão. Devemos, agora, formar idéias mais definidas acerca do processo de repressão. Esta é a precondiçãoda formação dos sintomas; também é, contudo, algo em relação ao qual não encontramos nada semelhante.Tomemos como nosso modelo um impulso, um processo mental que tenta transformar-se em ação. Sabemos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 32que pode ser repelido por aquilo que denominamos rejeição ou condenação. Quando isto acontece, a energia àsua disposição é retirada dele; o impulso torna-se impotente, ainda que possa persistir como lembrança. Todo oprocesso de chegar a uma decisão referente ao mesmo segue seu curso no âmbito do conhecimento do ego.Passa-se algo muito diverso quando o mesmo impulso está sujeito à repressão. Nesse caso, ele conservariasua energia e dele não restaria nenhuma recordação; além disso, o processo de repressão seria realizado semser percebido pelo ego. Esta comparação, portanto, não nos aproxima da natureza essencial darepressão.Apresentarei aos senhores as únicas idéias teóricas que revelaram ser de alguma utilidade para darao conceito de repressão um contorno mais definido. Sobretudo é essencial, para esse propósito, quepassemos da significação puramente descritiva da palavra “inconsciente’ à significação sistemática da mesmapalavra. Isto é, decidiremos dizer que o fato de um processo psíquico ser consciente ou inconsciente é apenasum de seus atributos, e não necessariamente um atributo isento de ambigüidade. Se um processo desse tipopermaneceu inconsciente, o fato de ser ele mantido afastado da consciência talvez possa ser apenas umaindicação de alguma vicissitude por que passou, e não a vicissitude mesma. A fim de formar uma imagemdessa vicissitude, suponhamos que todo processo mental — devemos admitir uma exceção quemencionaremos numa fase posterior — exista, inicialmente, em um estádio ou fase inconsciente, e que ésomente dali que o processo se transporta para a fase consciente, da mesma forma como uma imagemfotográfica começa como negativo e só se torna fotografia após haver-se transformado em positivo. Nem todonegativo transforma-se, contudo, necessariamente em positivo; e não é necessário que todo processo mentalinconsciente venha a se tornar consciente. Isto pode ser vantajosamente expresso com dizermos que umprocesso isoladamente pertence, no início, ao sistema de inconsciente, podendo, depois, em determinadascircunstâncias, passar ao sistema do consciente.A concepção mais aproximada desses sistemas, a maisconveniente para nós, é a espacial, Comparemos, portanto, o sistema do inconsciente a um grande salão deentrada, no qual os impulsos mentais se empurram uns aos outros, como indivíduos separados. Junto a estesalão de entrada existe uma segunda sala, menor — uma espécie de sala de recepção — na qual, ademais, aconsciência reside. Mas, no limiar entre as duas salas, um guarda desempenha sua função; examina osdiversos impulsos mentais, age como censor, e não os admitirá na sala de recepção se eles lhe desagradarem.De pronto, os senhores verão que não faz muita diferença se o guarda impede a entrada de determinadoimpulso no próprio limiar ou se ele o faz recuar através do limiar, após o impulso ter entrado na sala derecepção. Isto é apenas uma questão de grau de sua vigilância e de quão prontamente efetua sua ação dereconhecimento. Se mantivermos esta imagem, poderemos ampliar ainda mais nossa terminologia. Os impulsosdo inconsciente, no salão de entrada do inconsciente, estão fora das vistas do consciente, que está na outrasala; em princípio, devem permanecer inconscientes. Se já se infiltraram até o limiar e foram afastados peloguarda, então eles são inadmissíveis para a consciência; dizemos que eles são reprimidos. Entretanto, ospróprios impulsos que o guarda permitiu que cruzassem o limiar, não são, também, só por causa disso,necessariamente conscientse; podem vir a sê-lo somente se conseguissem chamar a atenção da consciência.Portanto, justifica-se que chamemos a esta segunda sala, de sistema do pré-consciente. Nesse caso, tornar-seconsciente mantém seu sentido meramente descritivo. Para qualquer impulso, porém, a vicissitude darepressão consiste em o guarda não lhe permitir passar do sistema do inconsciente para o do pré-consciente. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 33Trata-se do mesmo guarda que vimos a conhecer como resistência, quando tentamos suprimir a repressão pormeio do tratamento analítico.Ora, sei que dirão que estas idéias são ao mesmo tempo toscas e fantásticas ebastante inadmissíveis em assuntos científicos. Sei que são toscas; e, mais do que isso, que são incorretas; e,se não estou muito equivocado, já tenho algo melhor que tome o lugar delas. Se os senhores também asjulgarão fantásticas, não sei dizer. São hipóteses de trabalho preliminares, à semelhança do manequim deAmpère nadando na corrente elétrica, e não devem ser desprezadas, na medida em que são úteis para tornarinteligíveis nossas observações. Gostaria de afirmar-lhes que essas toscas hipóteses das duas salas, doguarda no limiar entre elas e da consciência como um expectador no fim da segunda sala, devem ser, aindaassim, aproximações de longo alcance dos fatos reais. Ademais, gostaria de ouvir os senhores admitirem quenossos termos inconsciente’, ‘pré-consciente’ e ‘consciente’ prejulgam muito menos as coisas e são muito maisfáceis de explicar do que outros termos que foram propostos ou estão em uso, tais como ‘subconsciente’,‘paraconsciente’, ‘intraconsciente’ e outros.Assim, será mais importante para mim admitirem que umaconcepção do aparelho mental, conforme esta que aqui proponho para explicar os sintomas neuróticos, devenecessariamente exigir uma validade geral e dar-nos informações também a respeito do funcionamento normal.Naturalmente, nisto os senhores terão toda a razão. No momento, não podemos avançar com esta implicação,mas nosso interesse na psicologia da formação dos sintomas não pode senão aumentar em grauextraordinário, se existir uma perspectiva, através do estudo de situações patológicas, de se obter acesso aoseventos mentais normais que se ocultam tão bem. Talvez os senhores também possam reconhecer qual o elemento que apóia nossa hipótese relativa aosdois sistemas, a relação entre estes dois sistemas e a relação de ambos com a consciência. Porque o guardacolocado entre o inconsciente e o pré-consciente não é senão a censura; a esta, conforme sabemos, subordina-se a forma que assume o sonho manifesto. [Cf. Conferência IX, ver em [1], acima.] Os resíduos diurnos, quesabemos serem os elementos deflagradores do sonho, foram material pré-consciente que, tanto no períodonoturno como no estado de sono, tinha estado sob a influência de impulsos plenos de desejos, inconsciente ereprimidos; tais resíduos diurnos, combinando-se com estes impulsos e graças à energia destes, foram capazesde construir o sono latente. Sob o domínio do sistema inconsciente, esse material havia sido trabalhado (pelacondensação e pelo deslocamento) segundo uma forma que é desconhecida ou apenas excepcionalmentepermissível na vida normal — isto é, no sistema pré-consciente. Chegamos a considerar que essa diferença naforma de operar é o que caracteriza os dois sistemas: achamos que a relação que o pré-consciente tem paracom a consciência é simplesmente uma indicação de que o processo pertence a um ou a outros dos doissistemas. Os sonhos não são fenômenos patológicos; podem surgir em qualquer pessoa sadia, nas condiçõesdo estado de sono. Nossa hipótese referente à estrutura do aparelho mental, que nos permite compreender aformação análoga dos sonhos e dos sintomas neuróticos, tem o inquestionável direito de ser aceita comoadequada à explicação da vida mental normal, também.Isso é tudo o que temos a dizer, no momento, arespeito da repressão. Ela, contudo, é apenas a precondição da formação dos sintomas. Os sintomas,conforme sabemos, são um substituto de algo que foi afastado pela repressão. Entretanto, vai uma longadistância, ainda, dede a repressão à compreensão dessa estrutura substitutiva. Quanto a este outro aspecto doproblema, surgem de nossas observações sobre a repressão as seguintes perguntas: que espécie de impulsos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 34está sujeita à repressão? por que forças ela se efetua? e por que motivos? Até agora, temos somente umaparcela de informação a respeito destes pontos. Ao investigar a resistência, constatamos que ela emana deforças do ego, de traços de caráter conhecidos e latente [ver em [1], acima]. São estes, pois, os responsáveispela repressão, ou, pelo menos, têm uma participação nela. Presentemente, não sabemos de nada mais.Nesteponto, a segunda das duas observações que lhes mencionei anteriormente [na abertura desta Conferência]vem em nosso auxílio. Quase sempre a análise faculta-nos compreender a intenção dos sintomas neuróticos.Isso também não será novidade alguma para os senhores. Já lho demonstrei em dois casos de neurose. Mas,afinal, de que lhes valem dois casos? Os senhores têm razão para insistir em que este aspecto lhes sejademonstrado em duzentos casos — em inumeráveis casos. O único problema é que não posso fazê-lo. Maisuma vez, em lugar disso, o que lhes deve servir é sua experiência própria, ou sua crença, a qual, neste ponto,pode apelar para os relatos unânimes de todos os psicanalistas. Os senhores recordar-se-ão de que, nos dois casos, cujos sintomas submetemos a uma investigaçãominuciosa, a análise nos levou à mais íntima vida sexual dessas duas pacientes. No primeiro caso, ademais,reconhecemos com especial clareza a intenção ou o propósito do sintoma em exame; no segundo caso, talvez,este aspecto de certa forma foi ocultado por um fator que será mencionado posteriormente [ver em [1], adiante].Pois bem, qualquer outro caso que submetêssemos à análise nos mostraria a mesma coisa que encontramosnesses dois exemplos. Em cada caso, iríamos tomar conhecimento, mediante a análise, das experiências edesejos sexuais do paciente; e, em cada caso, não poderíamos deixar de verificar que os sintomas servem àmesma intenção. Verificamos que esta intenção é a satisfação de desejos sexuais; os sintomas servem desatisfação sexual do paciente; são um substituto da satisfação sexual, de que os pacientes se privam em suasvidas. Pensem no ato obsessivo de nossa primeira paciente. A mulher estava sem seu marido, a quem elaamava intensamente, mas com quem não podia compartilhar sua vida devido às deficiências e fraquezas dele.Tinha de permanecer-lhe fiel; não podia colocar nenhuma outra pessoa no lugar dele. O sintoma obsessivodeu-lhe o que ela desejava, colocar o marido num pedestal; negou e corrigiu sua fraquezas e, acima de tudo,sua impotência. Este sintoma era fundamentalmente uma realização de desejo, tal qual um sonho — e,ademais disso, o que nem sempre acontece com um sonho, uma realização de desejos eróticos. No caso denossa segunda paciente, os senhores puderam pelo menos depreender que seu ritual procurava impedir o coitodos pais ou evitar que ele desse origem a um novo bebê. Os senhores, provavelmente, também perceberamque, no fundo, esse ritual procurava colocá-la no lugar de sua mãe. Mais uma vez, portanto, tratava-se deeliminar algo que interferia na satisfação sexual e na realização dos desejos sexuais da própria paciente. Embreve, falarei da complicação que mencionei. Gostaria de antecipar, senhores, as restrições que terei de fazer posteriormente à validade universaldestas afirmações. Portanto, assinalarei aos senhores que tudo aquilo que disse aqui sobre repressão e aformação e significação dos sintomas derivou de três formas de neurose — histeria de angústia, histeria deconversão e neurose obsessiva, e que, numa primeira instância, só é válido para estas formas. Este trêsdistúrbios, que estamos acostumados a agrupar conjuntamente como “neuroses de transferência’ tambémcircunscrevem a região em que a terapia psicanalítica pode funcionar. As demais neuroses têm sido estudadas Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 35de forma muito menos completa pela psicanálise; num grupo delas a impossibilidade de influência terapêuticafoi uma das razões desse abandono. E os senhores não devem esquecer que a psicanálise ainda é umaciência muito jovem, que preparar-se para ela demanda muita preocupação e tempo, e que absolutamente, nãofaz muito tempo, vinha sendo praticada por uma só pessoa. Apesar disso, estamos, em toda parte, a ponto depenetrar na compreensão dessas outras perturbações além das neuroses de transferência. Espero podermostrar-lhes, posteriormente, o alcance de nossas hipóteses e de nossas descobertas que resultam daadaptação a este novo material, e mostrar-lhes que estes outros estudos não levaram a contradições, mas aoestabelecimento de uma coerência ainda maior. Se, pois, tudo o que estou dizendo aqui se aplica às neurosesde transferência, permitam-me que acentue o valor dos sintomas com uma nova informação. Isso porque oestudo comparativo das causas determinantes do adoecer conduz a um resultado que pode ser expresso nafórmula: essas pessoas adoecem, de uma forma ou de outra, de frustrações, quando a realidade as impede desatisfazer seus desejos sexuais. Os senhores verificam com que perfeição estas duas descobertas seharmonizam entre si. Apenas assim é que os sintomas podem ser adequadamente visualizados, comosatisfações substitutivas daquilo que se perde na vida.Sem dúvida, pode-se ainda levantar toda classe deobjeções à asserção de que os sintomas neuróticos são substitutos de satisfações sexuais. Hoje, mencionareiduas dessas objeções. Quando os senhores mesmos houverem efetuado estudos analíticos de um grandenúmero de neuróticos, os senhores talvez me digam, meneando a cabeça, que, em muitos casos, minhaasserção simplesmente não é verdadeira; os sintomas parecem ter, isto sim, o propósito contrário, o de excluirou paralisar a satisfação sexual. Não discutirei a correção da sua interpretação. Em psicanálise, os fatoscostumam ser mais complicados do que gostaríamos. Se fossem tão simples como todos os demais, talvez nãofosse necessário que a psicanálise os esclarecesse. Na verdade, alguns dos aspectos do ritual de nossasegunda paciente mostram sinais desse caráter ascético, com sua hostilidade voltada contra a satisfaçãosexual: quando, por exemplo, ela suprimia os relógios [ver em [1]], o que tinha a significação de evitar ereçõesdurante a noite [ver em [1]], ou quando procurava precaver-se contra a queda e a quebra de vasos de flores[ver em [1]], o que equivalia a proteger sua virgindade [ver em [1]]. Em alguns outros casos de rituais da hora dedormir, que pude analisar, esse caráter negativo era muito mais evidente; o ritual podia consistir exclusivamenteem medidas defensivas contra recordações e tentações sexuais. Entretanto, já constatamos, vezes sem conta,que, em psicanálise, os contrários não importam em contradição. Poderíamos ampliar nossa tese e dizer que ossintomas objetivam ou uma satisfação sexual ou o rechaço da mesma, e que, na totalidade, o caráter positivode realização de desejo prevalece na histeria e o negativo, ascético, na neurose obsessiva. Se os sintomaspodem servir tanto à satisfação sexual como ao seu oposto. Existe uma excelente base para esta bilateralidadeou polaridade numa parte do seu mecanismo, que até o momento não pude mencionar. Pois, conformeveremos, elas são o produto de um acordo e surgem da recíproca interferência entre duas correntes opostas;representam não só o reprimido, mas também a força repressora que compartilhou de sua origem. Um ou outrolado pode estar representado com mais força; mas é raro uma das forças em jogo estar totalmente ausente. Nahisteria, geralmente ambas as intenções conseguem convergir no mesmo sintoma. Na neurose obsessiva, asduas partes freqüentemente estão separadas; o sintoma então se torna bifásico [divide-se em dois estádios] econsiste em duas ações, uma depois da outra, as quais se anulam reciprocamente.Não poderemos desprezar Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 36tão facilmente uma segunda objeção. Se os senhores observarem uma série razoavelmente longa deinterpretações de sintomas, provavelmente começarão a pensar que nelas o conceito de satisfação sexualsubstitutiva foi ampliado aos seus limites máximos. Não deixarão de assinalar o fato de que tais sintomas nãooferecem nada de real em termos de satisfação, que eles, muitíssimas vezes, limitam-se a reviver umasensação ou a representação de uma fantasia derivada de um complexo sexual. E, ademais, os senhoresnotarão que estas supostas satisfações sexuais assumem, às vezes, uma forma pueril e vergonhosa, próxima,talvez, de um ato de masturbação, ou relembram formas indecentes de travessuras, que são proibidas até acrianças — hábitos que foram erradicados. E, prosseguindo, os senhores também expressarão surpresa porestarmos apresentando como satisfação sexual aquilo que seria mais adequado descrever como satisfação dedesejos cruéis ou horríveis, ou mesmo teriam de ser chamados de antinaturais. Não chegaremos a um acordo,senhores, quanto a este último ponto, enquanto não houvermos feito uma investigação meticulosa da vidasexual dos seres humanos e, com isso, enquanto não tivermos decidido sobre o que justificadamente podemosdenominar ‘sexual’. CONFERÊNCIA XX A VIDA SEXUAL DOS SERES HUMANOS SENHORAS E SENHORES: Certamente supor-se-ia que não pudesse haver dúvidas quanto ao que se entende por ‘sexual’.Primeiro e acima de tudo, aquilo que é sexual é algo impróprio, algo de que não se deve falar. Contaram-meque os alunos de um conceituado psiquiatra certa vez fizeram uma tentativa de convencer seu professor dequão freqüentemente os sintomas de pacientes histéricos representam coisas sexuais. Com este propósito,levaram-no à beira da cama de uma mulher histérica, cujos ataques eram uma inconfundível imitação doprocesso de parto. Sacudindo a cabeça, ele observou: ‘Bem, não há nada de sexual com relação ao parto.’Muito certo. O parto não necessita, em todo caso, ser algo impróprio. Vejo que os senhores se ofendem por eu gracejar com coisas tão sérias. Isso não é contudo,totalmente, um gracejo. Falando sério, não é fácil delimitar aquilo que abrange o conceito de ‘sexual’. Talvez aúnica definição acertada fosse ‘tudo o que se relaciona com a distinção entre os dois sexos’. Os senhoresacharão, no entanto, que esta conceituação é neutra e excessivamente imprecisa. Se tomarem o fato do atosexual como ponto central, talvez definissem como sexual tudo aquilo que, com vistas a obter prazer, dizrespeito ao corpo e, em especial, aos órgãos sexuais de uma pessoa do sexo oposto, e que, em últimainstância, visa à união dos genitais e à realização do ato sexual. Com isto, os senhores não estarão, todavia,muito longe da equação segundo a qual aquilo que é sexual é impróprio, e o parto não constituirá algo sexual.Se, por outro lado, tomarem a função de reprodução como núcleo da sexualidade, correm o risco de excluirtoda uma série de coisas que não visam à reprodução, mas certamente são sexuais, como a masturbação, eaté mesmo o beijo. Mas já estamos preparados para constatar que as tentativas de definição sempre conduzema dificuldades; portanto, renunciemos à idéia de pretender algo melhor neste caso particular. Podemos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 37suspeitar que, no transcurso da evolução do conceito de ‘sexual’, algo aconteceu que resultou naquilo queSilberer apropriadamente chamou de ‘erro de superposição’.De modo geral, com efeito, quando pensamosneste aspecto, não temos dúvidas sobre o que as pessoas chamam de sexual. Algo que reúne uma referênciaao contraste entre os sexos, à busca de prazer, à função reprodutora e à características de algo que éimpróprio e deve ser mantido secreto — algumas destas combinações servirão para todos os fins práticos davida de todo dia. Mas para a ciência, isto não basta. Através de cuidadosas investigações (somentepossibilitadas, na verdade, por uma autodisciplina desinteressada), vimos a saber de grupos de indivíduos cuja‘vida sexual’ se desvia, da maneira mais supreendente, do quadro habitual da média. Algumas dessas pessoas‘pervertidas’, poderíamos dizer assim, riscaram de seu programa a diferença entre os sexos. Somente pessoasde seu próprio sexo podem excitar seus desejos sexuais; pessoas do outro sexo, e especialmente os órgãossexuais destas pessoas absolutamente não constituem para eles objeto sexual e, em casos extremos, sãoobjetos de repulsa. Isto implica, naturalmente, que abandonaram qualquer participação na reprodução. Taispessoas denominamos homossexuais ou invertidas. São homens e mulheres que, freqüentemente, mas nãosempre, conduzindo-se irrepreensivelmente, em outros aspectos, possuindo elevado desenvolvimentointelectual e ético, são vítimas apenas deste único desvio fatídico. Pela boca de seus porta-vozes científicos,eles se apresentam como variedade especial da espécie humana — um ‘terceiro sexo’ que tem o direito de sesituar em pé de igualdade com os outros dois. Talvez tenhamos oportunidade de examinar criticamente suasreivindicações. [ver em [1] e seg., adiante.] Naturalmente, eles não são, como também gostam de afirmar, uma‘élite‘ da humanidade; entre eles, há pelo menos tantos indivíduos inferiores e inúteis como os há entre pessoasde tipo sexual diferente.Esta classe de pervertidos, de qualquer modo, se comporta em relação a seus objetossexuais aproximadamente da mesma forma como as pessoas normais o fazem com os seus. Agora, porém,chegamos a uma longa série de pessoas anormais cuja atividade sexual diverge cada vez mais amplamentedaquilo que parece desejável para uma pessoa racional. Na sua mulplicidade e estranheza, somente podem sercomparadas aos monstros grotescos, pintados por Breughel para a tentação de Santo Antônio, ou à longaprocissão de deuses e crentes desaparecidos, que Flaubert faz desfilar ante os olhos de seu piedoso penitente.Uma tal miscelânea requer algum tipo de ordenamento para que não venha a confundir nossos sentidos. Porconseguinte, nós os dividimos naqueles em que, como os homossexuais, o objeto sexual foi modificado, e emoutros nos quais a finalidade sexual é que foi primariamente modificada. O primeiro grupo inclui aqueles querenunciaram à união dos dois genitais e que substituem os genitais de um dos parceiros envolvidos no atosexual por alguma outra parte ou região do corpo; com isto, eles desprezam a falta de dispositivos orgânicosadequados, assim como todo impedimento oriundo de sentimentos de repulsa. (Por exemplo, substituem avulva pela boca ou pelo ânus.) Outros há que, realmente, ainda mantêm os genitais como um objeto — não,porém, por causa da função destes, mas de outras funções em que o genital desempenha um papel, seja pormotivos anatômicos, seja por causa de sua proximidade. Neles, constatamos que as funções excretórias, queforam postas de lado como impróprias, durante a educação das crianças, conservam a capacidade de atrair atotalidade do interesse sexual. E ainda há outros que abandonaram totalmente o genital como objeto, etomaram alguma outra parte do corpo como o objeto que desejam — um seio de mulher, um pé, ou uma trançade cabelos. Depois há outros para os quais as partes do corpo não têm nenhuma importância, mas todos os Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 38seus desejos se satisfazem com uma peça de roupa, um sapato, uma peça de roupa íntima — são defetichistas. Ainda mais atrás, nesse séquito, se enfileiram essas pessoas que requerem de fato o objeto total,mas fazem a este exigências muito definidas — estranhas e horríveis exigências — até mesmo a de que esseobjeto devesse tornar-se um cadáver indefeso e de que, usando de uma violência criminosa, transformem-nonum objeto no qual possam encontrar prazer. Mas basta com essa espécie de horror!O segundo grupo éformado por pervertidos que transformaram em finalidade de seus desejos sexuais aquilo que normalmenteconstitui apenas um ato inicial ou preparatório. São pessoas cujo desejo consiste em olhar outras pessoas, oupalpá-las, ou espiá-las durante a execução de atos íntimos, ou pessoas que expõem partes do corpo quedeveriam estar encobertas, na obscura expectativa de poderem ser recompensadas, em troca, por uma açãocorrespondente. Depois vêm os sádicos, essas pessoas enigmáticas, cujas tendências carinhosas não têmoutro fim senão o de causar sofrimento e tormento a seus objetos, indo desde a humilhação até as lesõesfísicas graves; e, como que para contrabalançá-los, seus equivalentes opostos, os masoquistas, cujo únicoprazer consiste em sofrer toda espécie de tormentos e humilhações de seu objeto amado, seja simbolicamente,seja na realidade. Ainda existem outros em que diversas dessas precondições anormais estão unidas eentrelaçadas; e, por fim, devemos nos lembrar de que cada um destes grupos pode ser encontrado sob duasformas: ao lado daqueles que procuram sua satisfação sexual na realidade, estão os que se contentamsimplesmente com imaginar essa satisfação, que absolutamente não necessitam de um objeto real, mas podemsubstituí-lo por suas fantasias. Ora, não pode haver a menor dúvida de que todas essas coisas loucas, excêntricas e horríveisrealmente constituem a atividade sexual dessas pessoas. Não só elas próprias consideram essas coisas comotais e estão conscientes de que são substitutas umas das outras, como também devemos admitir que, em suasvidas, essas coisas desempenham o mesmo papel que, em nossas vidas, desempenha a satisfação sexualnormal; tais pessoas fazem por essas coisas os mesmos sacrifícios, às vezes excessivos, e podemos, nosdetalhes mais visíveis assim como nos mais sutis, determinar os pontos em que essas anormalidades sebaseiam naquilo que é normal e os pontos em que divergem da normalidade. E os senhores não podem deixarde perceber que, aqui, mais uma vez, aquilo que se refere à atividade sexual tem essa característica deimpropriedade, embora aqui, na sua maior parte, isto se intensifique ao ponto de ser abominável. Pois bem, senhoras e senhores, que atitude adotaremos para com essas formas incomuns desatisfação sexual? Indignação, expressão de nossa repugnância pessoal e garantia de que nós próprios nãocompartilhamos de semelhantes sensualidades, obviamente não proporcionarão qualquer ajuda. Na realidade,não foi para isso que fomos solicitados. Porque, afinal de contas, o que temos de encarar neste assunto é umcampo de fenômenos como qualquer outro. Seria fácil refutar alguém que negasse sua importância, propondoevasivamente que, afinal, isto são somente raridades e curiosidades. Pelo contrário, estamos tratando defenômenos muito comuns e difundidos. Se, entretanto, alguém argumentar que não temos por que permitir quenossas opiniões acerca da vida sexual sejam confundidas por essas anormalidades, porque estas não são maisque aberrações e desvios do instinto sexual, então o que se requer é uma resposta séria. A menos quepossamos compreender essas formas patológicas de sexualidade e correlacioná-las com a vida sexual normal,não poderemos nem mesmo entender a sexualidade normal. Para resumir, persiste a tarefa inescapável de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 39darmos uma explicação teórica completa da maneira como essas perversões ocorrem e da sua conexão comaquilo que se descreve como sexualidade normal.Nessa tarefa, prestar-nos-ão auxílio uma informação e duasobservações recentes. A primeira, devemo-la a Iwan Bloch [1902-3]. Corrige a opinião de que todas essasperversões são ‘sinais de degeneração’, mostrando que tais aberrações do fim sexual, esses afrouxamentos donexo com o objeto sexual, ocorreram desde tempos imemoriais, em todas as épocas conhecidas, entre todos ospovos, os mais primitivos e os mais civilizados, e, em algumas ocasiões, foram tolerados e difusamentereconhecidos. As duas observações derivaram da investigação psicanalítica em neuróticos; elanecessariamente têm uma decisiva influência sobre nossa visão das perversões sexuais.Eu disse que ossintomas neuróticos são substitutos da satisfação sexual [pág. 305] e lhes indiquei que a confirmação destaassertiva pela análise dos sintomas viria a defrontar-se com numerosas dificuldades. Pois somente será válidase na ‘satisfação sexual’ incluirmos a satisfação daquilo que se chama necessidades sexuais pervertidas, devez que, com freqüência surpreendente, se nos impõe uma interpretação de sintomas dessa espécie. Areivindicação que fazem os homossexuais ou invertidos de serem uma exceção, desfaz-se imediatamente aoconstatarmos que os impulsos homossexuais são encontrados invariavelmente em cada um dos neuróticos eque numerosos sintomas dão expressão a essa inversão latente. Aqueles que se proclamam homossexuais sãoapenas invertidos conscientes e manifestos e seu número nada é em comparação com os dos homossexuaislatentes. Entretanto, somos forçados a encarar a escolha de um objeto do mesmo sexo como um desvio na vidaerótica, desvio cuja ocorrência é positivamente freqüente, e cada vez aprendemos mais sobre isso, atribuindo-lhe importância particularmente elevada. Sem dúvida, isso não elimina as diferenças entre o homossexualismomanifesto e uma atitude normal; permanece a importância prática dessas diferenças, mas seu valor teóricodiminui muito. Temos até mesmo verificado que determinada doença, a paranóia, que não deve ser incluídaentre as neuroses de transferência, origina-se habitualmente de uma tentativa no sentido de o doente libertar-sede impulsos homossexuais excessivamente intensos. Os senhores talvez se recordem de que uma de nossaspacientes (pág. 270), em seu ato obsessivo, comportava-se como homem, como se fora o próprio marido dequem se separara; mulheres neuróticas muito freqüentemente produzem sintomas assim, à feição de umhomem. Ainda que isso não se deva considerar homossexualismo, relaciona-se muito de perto com asprecondições destas. Como provavelmente sabem, a neurose histérica pode produzir seus sintomas em qualquer sistema deórgãos e, assim, perturbar qualquer função. A análise demonstra que, desse modo, manifestaram-se todos oschamados impulsos pervertidos, que procuram substituir o órgão genital por algum outro órgão: este órgãos,então, comportam-se como genitais substitutivos. Os sintomas da histeria realmente nos levaram a considerarque os órgãos corporais, além do papel funcional que desempenham, devem ser reconhecidos comopossuidores de uma significação sexual (erógena) e que a execução da primeira dessas tarefas é perturbada sea segunda fizer exigências demasiadas. Inúmeras sensações e inervações, que encontramos como sintomasde histeria, em órgãos que não possuem conexão evidente com a sexualidade, revelam-se a nós, assim, comotendo o caráter de realização de impulsos sexuais pervertidos em relação aos quais outros órgãos adquiriram asignificação das partes sexuais. Também verificamos em que graus os órgãos destinados à tomada de alimentoe à excreção têm particular facilidade de se tornarem veículos de excitação sexual. Aqui, pois, temos a mesma Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 40coisa que constatamos nas perversões; só que, no caso destas, isto era fácil e inconfundivelmente visível, aopasso que, na histeria, temos de tomar um caminho indireto, através da interpretação dos sintomas, e, depois,não atribuímos à consciência da pessoa os impulsos sexuais pervertidos, mas os localizados em seuinconsciente.Entre os muitos quadros sintomáticos em que aparece a neurose obsessiva, os mais importantesvêm a ser aqueles provocados pela pressão de impulsos sexuais sádicos excessivamente intensos (pervertidos,portanto, quanto ao seu fim). Os sintomas, na verdade, de acordo com a estrutura de uma neurose obsessiva,servem predominantemente como defesa contra esses desejos, ou expressam a luta entre a satisfação e adefesa. A satisfação de tais desejos sádicos, contudo, também não sai perdendo tanto assim; obtém êxito,através de vias transversas, ao realizar-se na conduta dos pacientes, e se volta preferentemente contra elesmesmos, e os torna auto-atormentadores. Outras formas desta neurose, as formas cismáticas, correspondem auma excessiva sexualização de ações que comumente se efetuam como prévias com vistas à satisfação sexualnormal — uma excessiva sexualização do querer olhar, tocar ou explorar. Aqui temos a explicação da grandeimportância do temor de tocar e da obsessão de lavar-se. Uma quantidade incrivelmente grande de atosobsessivos pode remontar à masturbação, da qual constituem repetições e modificações disfarçadas; sabe-semuito bem que a masturbação, embora sendo uma ação única e uniforme, acompanha as mais diversas formasdo fantasiar sexual.Eu não teria muita dificuldade em apresentar-lhes um quadro muito mais pormenorizado dasrelações entre perversão e neurose; penso, porém, que aquilo que já lhes disse servirá aos nossos propósitos.Entretanto, devemos acautelar-nos, a fim de não nos desorientarmos com aquilo que lhes referi, ou seja, osignificado dos sintomas não deve nos levar a superestimar a freqüência e a intensidade das inclinaçõespervertidas das pessoas. Conforme ouviram falar [ver em [1]], é possível adoecer de neurose em conseqüênciade uma frustração da satisfação sexual normal. Entretanto, quando ocorre uma frustração real como esta, anecessidade lança-se a métodos anormais de excitação sexual. Mais adiante os senhores saberão como é queisso acontece [ver em [1] e segs.] Em todo caso, perceberão, contudo, que, como resultado desserepresamento ‘colateral’ [da corrente sexual normal], os impulsos pervertidos devem emergir com maisintensidade do que emergiriam se a satisfação sexual normal não tivesse encontrado obstáculo no mundo real.Ademais, pode-se reconhecer que uma influência semelhante também afeta as perversões manifestas. Emalguns caos, elas são provocadas ou postas em atividade se a satisfação normal do instinto sexual encontradificuldades excessivas, por motivos temporários ou em virtude de regras sociais permanentes. Em outroscasos, é fato, a inclinação às perversões é bastante independente de tais condições favorecedoras; poderíamosdizer que constituem o tipo normal de vida sexual para essas pessoas em particular.Talvez, por agora, ossenhores possam ter a impressão de que confundi mais do que explanei a relação entre sexualidade normal epervertida. Mas devem ter em mente a seguinte consideração. Se procede o fato de que um aumento dedificuldade em obter satisfação sexual normal da vida real, ou a privação desta satisfação, põe à mostra asinclinações pervertidas de pessoas que, anteriormente, nada disso tinham demonstrado, devemos supor quenessas pessoas havia algo que já se encontrava a meio-caminho das perversões; ou, se preferirem, asperversões devem ter estado presentes, nessas pessoas, em forma latente.E isto nos traz a segunda novidadeque lhes anunciei (ver em [1]). Pois a investigação psicanalítica teve de ocupar-se também com a vida sexualdas crianças, e isto porque as lembranças e associações emergentes durante a análise de sintomas de adultos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 41remetiam-se regularmente aos primeiros anos da infância. O que inferimos destas análises mais tarde seconfirmou, ponto por ponto, nas observações diretas de crianças. E, com isso, verificou-se que todas essasinclinações à perversão tinham suas raízes na infância, que as crianças têm uma predisposição a todas elas epõem-nas em execução numa medida correspondente à sua imaturidade — em suma, que a sexualidadepervertida não é senão uma sexualidade infantil cindida em seus impulsos separados.Em todo caso, agora ossenhores verão as perversões sob um novo prisma, e já não mais deixarão de perceber sua conexão com avida sexual dos seres humanos: mas à custa de quanta surpresa e de quanto sentimento de desagrado paracom estas incongruências! Sem dúvida, sentir-se-ão inclinados a negar todo este assunto: o fato de que ascrianças possuem tudo aquilo que se pode descrever como vida sexual, a justeza de nossas observações e aexplicação para o fato de encontrarmos tantas afinidades entre a conduta das crianças e aquilo que mais tardeé condenado como perversão. Por isso, permitam-me que comece explicando-lhes os motivos da oposição dossenhores e, depois, lhes apresente a totalidade de nossas observações. Supor que as crianças não têm vidasexual — excitações e necessidades sexuais e alguma forma de satisfação —, mas adquirem-na subitamente,entre os doze e os quatorze anos de idade, seria (abstraindo de todas as observações) biologicamente tãoimprovável, e, na verdade, tão sem sentido, como supor que viessem ao mundo desprovidas de genitais e queestes só aparecessem na época da puberdade. O que de fato desperta nas crianças, nessa idade, é a funçãoreprodutiva, que, para seus fins, faz uso dos componentes físicos e mentais já anteriormente presentes. Ossenhores estão cometendo o erro de confundir sexualidade com reprodução, e com isto estão bloqueando seucaminho para a compreensão da sexualidade, das perversões e das neuroses. Este é, contudo, um errotendencioso. Estranhamente, origina-se no fato de que os senhores mesmos uma vez foram crianças e,enquanto eram crianças, estiveram sob a influência da educação. Pois a sociedade deve assumir como uma desuas mais importantes tarefas educadoras domar e restringir o instinto sexual quando este irrompe comoimpulso à reprodução, e sujeitá-lo a uma vontade individual que é idêntica à ordem da sociedade. Esta tambémse preocupa em adiar o pleno desenvolvimento do instinto até que a criança tenha atingido certo grau dematuridade intelectual, de vez que, aí, com a completa irrupção do instinto sexual, a educabilidade, para finspráticos, chega a seu fim. De outro modo, o instinto romperia todos os diques e arrasaria todo o trabalho dacivilização laboriosamente construído. Ademais, nunca é fácil a tarefa de dominar o instinto; seu êxito, porvezes, é muito pequeno, por vezes, muito grande. O móvel da sociedade humana é, em última análise,econômico; como não possui provisões suficientes para manter vivos todos os seus membros, a menos quetrabalhem, ela deve limitar o número de seus membros e desviar suas energias da atividade sexual para otrabalho. Em suma, defronta-se com as eternas e primevas exigências da vida, que nos assediam até o dia dehoje.Sem dúvida, a experiência deve ter ensinado aos educadores que a tarefa de docilizar a tendência sexualda nova geração só poderia ser efetuada se começassem a exercer sua influência muito cedo, se nãoesperassem pela tempestade da puberdade, mas interviessem logo na vida sexual das crianças, que épreparatória para a puberdade. Por essa razão, todas as atividades sexuais foram proibidas às crianças e vistascom maus olhos; erigiu-se o ideal de tornar a vida das crianças assexual, e, no decorrer do tempo, as coisaschegaram ao ponto de as pessoas realmente acreditarem que as crianças sejam assexuais e, subseqüente, dea ciência proclamar isto como doutrina. Para evitar que sejam contraditas suas crenças e suas intenções, a Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 42partir daí as pessoas passam por alto as atividades sexuais das crianças (que não são de se desprezar) ou semostram contentes quando a ciência assume um ponto de vista diferente com relação a tais atividades. Ascrianças são puras e inocentes, e todo aquele que as descreve de outra maneira, pode ser acusado de ser umblasfemador infame dos ternos e sagrados sentimentos da humanidade. As crianças são as únicas a não concordar com essas convenções. Afirmam seus direitos animais comtotal naïveté e dão constantes provas de que ainda terão de trilhar o caminnho da pureza. É por demaisestranho que as pessoas que negam a existência da sexualidade nas crianças nem por isso se tornam maisbrandas em seus esforços educacionais, mas perseguem as manifestações daquilo que negam que exista, coma máxima severidade — descrevendo tais manifestações como ‘traquinagens pueris.’ É também do maiorinteresse teórico o período de vida que contradiz mais flagrantemente o preconceito de uma infância assexual— os anos de vida de uma criança até os cinco ou seis —, ser posteriormente, na maioria das pessoas, cobertopelo véu da amnésia, o qual só é completamente desfeito pela investigação analítica, embora anteriormentetenha sido permeável à construção de alguns sonhos. [ver em [1] e [2], acima.] Mostrarei aos senhores, agora, aquilo que se conhece de mais definido acerca da vida sexual dascrianças. Permitam-me, ao mesmo tempo, por motivos de conveniência, apresentar o conceito de ‘libido’. Emexata analogia com a ‘fome’, empregamos ‘libido’ como nome da força (neste caso, a força do instinto sexual,assim como, no caso da fome, a força do instinto de nutrição) pela qual o instinto se manifesta. Outrosconceitos, como os de ‘excitação’ e ‘satisfação’ sexual, não requerem explicação. Os senhores mesmosfacilmente perceberão que as atividades sexuais de crianças de colo são principalmente uma questão deinterpretação, ou, então, provavelmente usarão isso como motivo para objeções. A essas interpretações chega-se através do exame analítico retrospectivo baseado nos sintomas. Numa criança da tenra idade, os primeirosimpulsos da sexualidade têm seu aparecimento ligado a outras funções vitais. Seu principal interesse, comosabem, volta-se para a ingestão de alimentos; quando as crianças adormecem, após se haverem saciado aoseio, mostram uma expressão de bem-aventurada satisfação, que se repetirá, posteriormente na vida, após aexperiência do orgasmo sexual. Isto seria muito pouco para servir de base a uma conclusão. Constatamos,todavia, como um bebê repetirá o ato de tomar alimento sem exigir mais comida; a isto, portanto, o bebê não élevado devido a fome. Descrevemo-lo como sucção sensual, e o fato de que, ao fazê-lo, o bebê adormece,igualmente, com uma expressão beatífica, mostra-nos que o ato da sucção sensual lhe proporcionou, por si só,uma satisfação. Conforme sabemos, muito cedo as coisas chegam a um ponto em que não pode adormecersem haver sugado. Um pediatra de Budapest, Dr. Lindner [1879], foi o primeiro a apontar, há muito tempo, anatureza sexual dessa atividade. Aqueles que cuidam de crianças, e que não têm opiniões teóricas sobre oassunto, parecem formar um juízo semelhante a respeito da sucção. Não têm dúvidas de que esta somente tema finalidade de obter prazer, classificam-na como uma das ‘traquinagens’ da criança e obrigam-na a abandoná-la, causando-lhe desprazer, no caso de a própria criança não se decidir a deixá-la. Assim, aprendemos que obebês executam ações que não têm outro propósito senão o de obter prazer. Acreditamos que elas primeiroexperimentam esse prazer em conexão com a tomada do alimento, porém logo aprendem a separar esseprazer da condição que o acompanha. Só podemos atribuir esse prazer a uma excitação das áreas da boca e Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 43dos lábios; a estas partes do corpo denominamos ‘zonas erógenas’ e descrevemos como sexual o prazerderivado da sucção. Sem dúvida, haveremos de discutir, posteriormente, se esta descrição se justifica. Se um bebê pudesse falar, ele indubitavelmente afirmaria que o ato de sugar o seio materno é de longeo ato mais importante de sua vida. E nisto o bebê não se engana muito, pois nesse único ato está satisfazendode uma só vez as duas grandes necessidades vitais. Por isso, não nos surpreenderemos ao saber, por meio dapsicanálise, quanta importância psíquica conserva esse ato durante toda a vida. Sugar ao seio materno é oponto de partida de toda a vida sexual, o protótipo inigualável de toda satisfação sexual ulterior, ao qual afantasia retorna muitíssimas vezes, em épocas de necessidade. Esse sugar importa em fazer o seio materno oprimeiro objeto do instinto sexual. Não posso dar-lhes idéia da importante relação entre esse primeiro objeto e aescolha de todos os objetos subseqüentes, dos profundos efeitos que ele tem em suas transformações esubstituições até mesmo nas mais remotas regiões de nossa vida sexual. A princípio, contudo, o bebê, em suaatividade de sucção, abandonada esse objeto e o substitui por uma parte do seu próprio corpo. Começa a sugaro polegar ou a própria língua. Desse modo, torna-se independente do consentimento do mundo externo, no quetange à obtenção de prazer, e, ademais disso, aumenta-a, acrescentando a excitação de uma segunda área deseu corpo. As zonas erógenas não são todas igualmente generosas em proporcionar prazer; ocorre, pois, umaimportante experiência quando o lactente, conforme relata Lindner, descobre, no decorrer de suas buscas, asregiões especialmente excitáveis representadas por seus genitais e, com isso, passa da sucção à masturbação. Ao formarmos esta opinião referente à sucção sensual, já passamos a conhecer duas característicasdecisivas da sexualidade infantil. Ela surge ligada à satisfação das principais necessidades orgânicas e secomporta de maneira auto-erótica — isto é, procura seus objetos no próprio corpo da criança. O que ficoudemonstrado tão claramente com relação à tomada de alimentos repete-se, em parte, com as excreções.Concluímos que os bebês têm sensações prazerosas no processo de evacuação da urina e das fezes, e quelogo conseguem dispor destes atos de maneira que estes lhes tragam a máxima produção de prazer possível,através das correspondentes excitações das zonas erógenas da membrana mucosa. É aqui que, pela primeiravez (conforme sutilmente percebeu Lou Andreas-Salomé [1916]), os bebês se defrontam com o mundo externocomo força inibidora, hostil, ao seu desejo de prazer, e têm certa antevisão dos futuros conflitos externos einternos. Um bebê não deve eliminar suas excreções em qualquer momento de sua escolha, e sim quandooutras pessoas decidem que deve fazê-lo. Para induzi-lo a renunciar a essas fontes de prazer, é-lhes dito quetudo aquilo que se relaciona com essas funções é vergonhoso e deve ser mantido em segredo. Então, pelaprimeira vez, a criança é obrigada a trocar o prazer pela respeitabilidade social. No início, sua atitude para comsuas excreções é muito diferente. Não sente repugnância por suas fezes, valoriza-as como parte de seu própriocorpo, da qual não se separa facilmente, e usa-as como seu primeiro ‘presente’ com que distingue as pessoasa quem preza de modo especial. Mesmo depois de a educação ter atingido seu objetivo de tornar essastendências incompatíveis com a criança, esta continua a atribuir elevado valor às fezes, considerando-as‘presentes’ e ‘dinheiro’. Por outro lado, parece considerar com especial orgulho a proeza de urinar.Sei que, hámuito, os senhores estavam esperando para interromper-me e exclamar: ‘Chega de barbaridades! O senhor nosdiz que defecar é uma fonte de satisfação sexual explorada já na infância! que as fezes são uma substânciavaliosa e que o ânus é uma espécie de genital! Absolutamente não acreditamos nisso — mas compreendemos Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 44por que os pacientes e educadores se têm mantido à distância da psicanálise e de suas descoberta.’ Não,senhores. Os Senhores simplesmente se esqueceram de que estive procurando apresentar-lhes os fatos davida sexual infantil em relação aos fatos das perversões sexuais. Por que os senhores não haveriam de seaperceber de que, para um grande número de adultos, tanto homossexuais como heterossexuais, o ânusassume, na relação sexual, o papel de vagina? E que há muitas pessoas que conservam, durante toda a vida,uma voluptuosa sensação ao defecar, e a caracterizam como não sendo nada desprezível? Quanto aointeresse pelo ato de defecar e ao prazer de olhar uma outra pessoa defecando, os senhores podem conseguirque as próprias crianças confirmem o fato quando elas tiverem alguns anos mais de idade, e forem capazes delhes falar a respeito. Naturalmente, os senhores não deverão tê-las intimidado sistematicamente, de antemão,pois, nesse caso, elas compreenderão muito bem que devem silenciar sobre o assunto. Quando às demaiscoisas nas quais os senhores tanto desejam não acreditar, remeto-os às descobertas da análise e àobservação direta de crianças, e acrescento que realmente é necessário ser ingênuo para não ver tudo isso, ouvê-lo de modo diferente. E não me queixo se os senhores consideram muito surpreendente esta semelhançaentre atividade sexual infantil e perversões sexuais. Esta semelhança, contudo, é evidente: se de fato umacriança tem vida sexual, esta não pode ser senão uma vida sexual de tipo pervertido; pois, exceto quanto aalguns detalhes obscuros, as crianças são desprovidas daquilo que transforma a sexualidade em funçãoreprodutiva. Por outro lado, o abandono da função reprodutiva é o aspecto comum de todas as perversões.Realmente consideramos pervertida uma atividade sexual, quando foi abandonando o objetivo da reprodução epermanece a obtenção de prazer, como objetivo independente. Portanto, conforme poderão ver, a brecha e oponto crítico da evolução da vida sexual situam-se no fato de esta permanecer subordinada aos propósitos dareprodução. Tudo o que acontece antes dessa mudança de rumo, e igualmente tudo o que a despreza, e quevisa somente a obter prazer, recebe o nome pouco lisonjeiro de ‘pervertido’, e como tal é proscrito.Permitam-me, portanto, que eu prossiga com minha breve descrição da sexualidade infantil. O que já relatei comreferência aos dois sistemas de órgãos [digestivo e excretório] poderia ser confirmado em relação aos outros. Avida sexual de uma criança é, de fato, inteiramente constituída das atividades de determinado número deinstintos parciais que, independentes uns dos outros, buscam a obtenção de prazer, em parte, do próprio corpodo indivíduo e, em parte, já de um objeto externo. Entre esses órgãos muito cedo assumem relevo os genitais.Existem pessoas nas quais a obtenção de prazer de seus próprios genitais, sem a participação de quaisqueroutros genitais de algum objeto, continua ininterruptamente desde a masturbação infantil até a masturbaçãoinevitável da puberdade e persiste indefinidamente em épocas posteriores. Aliás, o tema da masturbação não éum tema que se possa solucionar tão facilmente: é algo que exige ser examinado a partir de diferentesângulos.Embora esteja desejoso de abreviar ainda mais esta exposição, devo, no entanto, dizer-lhes algumascoisas a respeito das investigações sexuais feitas por crianças: são por demais características da sexualidadeinfantil, e de importância suficientemente grande para a sintomatologia das neuroses, para que as deixemospassar sem um exame. As investigações sexuais das crianças começam muito precocemente, às vezes antesdo terceiro ano de vida. Não se referem à distinção entre os sexos, de vez que isto nada significa para ascrianças, já que estas (ao menos quanto aos meninos) atribuem a ambos os sexos o mesmo genital masculino.Se, depois, um menino faz a descoberta da vagina ao ver sua irmãzinha ou uma menina, companheira de Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 45brinquedos, ele procura, inicialmente, negar a evidência dos seus sentidos, pois não pode imaginar umacriatura humana, como ele próprio, desprovida de uma parte tão preciosa. Mais tarde, amedronta-se com apossibilidade que assim se lhe apresenta; e quaisquer ameaças que lhe tenham sido feitas anteriormente,porque tomou demasiado interesse por seu pequeno órgão, agora produzem um efeito retardado. Cai sob odomínio do complexo de castração, assumindo uma forma que desempenhará um grande papel na construçãodo seu caráter se permanecer normal, na sua neurose se adoecer, e em suas resistências, se vier a se trataranaliticamente. No que se refere às meninas de tenra idade, podemos dizer que se sentem em grandedesvantagem devido à sua falta de um pênis grande, visível, que elas invejam os meninos por estes opossuírem e que, principalmente por este motivo, desenvolvem o desejo de serem homem — desejo que tornaa emergir, mais tarde, em todas as neuroses e que pode surgir se lhes ocorrer algum revés no desempenho dopapel feminino. Ademais disso, na infância, o clitóris da menina assume inteiramente o papel de pênis:caracteriza-se por especial excitabilidade e se situa na área em que é obtida a satisfação auto-erótica. Oprocesso pelo qual uma menina se transforma em mulher depende muitíssimo da possibilidade de o clitórisceder sua sensibilidade ao orifício vaginal, na época oportuna e de forma completa. Nos casos conhecidoscomo de anestesia sexual das mulheres, o clitóris reteve obstinadamente sua sensibilidade.O interesse sexualdas crianças começa, certamente, quando elas se voltam para o problema de saberem de onde é que vêm osbebês — o mesmo problema subjacente à pergunta feita pela esfinge de Tebas — e na maior parte dos casoseste problema surge por causa dos temores egoístas da chegada de um novo bebê. A resposta, que já estápronta e diz que os bebês são trazidos pela cegonha [ver em [1]], esbarra na descrença até mesmo de criançaspequenas, numa freqüência muito maior do que percebemos. O sentimento de que a verdade está sendofalseada pelos adultos contribui em muito para fazer com que as crianças se sintam sós e desenvolvam suaindependência. Uma criança não tem, contudo, condições de solucionar este problema por seus próprios meios.Sua constituição sexual não desenvolvida estabelece limites precisos à sua capacidade de percepção. Começapor supor que os bebês vêm de pessoas que ingerem algo de especial no alimento, e não sabe que apenas asmulheres podem ter bebês. Depois percebe esta limitação e deixa de considerar o comer como sendo a origemdos bebês — embora tal teoria persista em contos de fadas. Com o aumento de sua idade, a criança logopercebe que seu pai deve ter algum papel nessa história de ter bebês, mas não consegue adivinhar qual. Seocorre a criança presenciar um ato sexual, encara-o como tentativa de subjugação, como luta, e isto constitui acompreensão deformada, em termos sádicos, do coito. Entretanto, no início, não correlaciona este ato com osurgimento de um bebê. Assim, também, se a criança encontra vestígios de sangue na cama da mãe, ou nasroupas íntimas desta, toma isto como sinal de que ela foi ferida por seu pai. Ainda mais tarde, na infância, acriança sem dúvida suspeita que o órgão sexual do homem tem uma parte essencial na produção de bebês,mas a única função que consegue atribuir a esse órgão do corpo é a micção. Bem desde o início, as crianças são unânimes em pensar que os bebês devem nascer da barriga;devem aparecer assim como uma massa uniforme ou como as fezes. Esta teoria não é abandonada senãoquando todos os interesses anais tivessem sido destituídos de seu valor, e é então substituída pela hipótese deque o umbigo se abre ou que a área do peito entre as mamas é o lugar em que se dá o nascimento. Dessemodo, a criança, no transcurso de suas investigações, aproxima-se dos fatos referentes ao sexo, ou, sentindo- Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 46se embaraçada devido a sua ignorância, passa por eles até que, geralmente nos anos que precedem apuberdade, recebe uma explicação, via de regra incompleta e depreciativa, que, muitas vezes, produz efeitostraumáticos.Sem dúvida terão ouvido falar, senhores, que, na psicanálise, o conceito daquilo que é sexual foiindevidamente ampliado, a fim de dar suporte às teses da causação sexual das neuroses e do significadosexual dos sintomas. Agora os senhores estão em condições de julgar por si mesmos se essa ampliação éinjustificada. Ampliamos o conceito de sexualidade apenas o bastante para podermos compreender a vidasexual dos pervertidos e das crianças. Isto é, restituímos-lhe sua dimensão verdadeira. Fora da psicanálise, oque se denomina sexualidade refere-se apenas a uma vida sexual restrita, que serve ao propósito dareprodução e é descrita como normal. CONFERÊNCIA XXI O DESENVOLVIMENTO DA LIBIDO E AS ORGANIZAÇÕES SEXUAIS SENHORES: Tenho a impressão de que não alcancei êxito em convencê-los muito profundamente da importânciadas perversões para nossa visão da sexualidade e, portanto, gostaria, até onde me for possível, de aprimorar esuplementar aquilo que disse. Não é o caso de apenas as perversões, isoladamente, ter-nos obrigado a realizar a modificação noconceito de sexualidade que levantou tantas objeções contra nós. O estudo da sexualidade infantil teve muitomais influência sobre esse fato, e foi o concurso desses dois fatores que se tornou decisivo para nós. Asmanifestações da sexualidade infantil, por mais inequívocas que possam ser num período ulterior da infância,contudo parecem mergulhadas na indefinição pelos inícios da infância. Todo aquele que resolver desprezar ahistória de sua evolução e de seu contexto analítico, negará que elas possuem características sexuais e, emvez disso, lhes atribuirá alguam característica indiferenciada. Os senhores devem não se esquecer de que, poragora, não possuímos nenhum critério universalmente reconhecido da natureza sexual de um processo, salvo,novamente, uma conexão com a função reprodutiva, que devemos rejeitar por ser um critério demasiadamentelimitado. Os critérios biológicos, como os de periodicidades de vinte e três e de vinte e oito dias, postulados porWilhelm Fliess [1906], são ainda altamente controvertidos; as características químicas do processo sexual, quepodemos supor, continuam aguardando a sua descoberta. Por outro lado, as perversões sexuais dos adultosconstituem algo tangível e inequívoco. Como já o demonstra o nome pelo qual são universalmente conhecidas,elas são inquestionavelmente sexuais. Se descritas como indicações de degeneração, ou o que quer que seja,ninguém ainda teve a coragem de classificá-las como algo que não sejam fenômenos da vida sexual. Apenasem virtude delas justifica-se afirmarmos que sexualidade e reprodução não coincidem, pois é óbvio que todasas perversões negam o objetivo da reprodução. Aqui encontro um paralelo não destituído de interesse.Enquanto, parra a maioria das pessoas, ‘consciente’ e ‘psíquico’ são a mesma coisa, fomos obrigados a ampliaro conceito de ‘psíquico’ e reconhecer como ‘psíquico’ algo que não é ‘consciente’. Exatamente do mesmomodo, enquanto outras pessoas declaram serem idênticos o ‘sexual’ e o ‘referente à reprodução’ (ou, se Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 47preferem resumir mais, o ‘genital’), não podemos evitar de postular a existência de algo ‘sexual’ que não é‘genital’ — que não tem nenhuma relação com a reprodução. Aqui, a similitude é apenas formal, mas não deixade ter um fundamento mais profundo.Se, contudo, a existência das perversões sexuais é um argumento tãodecisivo nessa questão, por que depois de tanto tempo ainda não deu resultado e definiu a questão?Realmente, não sei dizer. Acredito que se relaciona com o fato de essas perversões sexuais estarem sujeitas auma condenação muito especial, que chegou mesmo a afetar a teoria e se opôs à avaliação científica delas. Écomo se ninguém pudesse esquecer que elas não são apenas algo repulsivo, mas também algo monstruoso eperigoso — como se as pessoas as sentissem como sedutoras e, no fundo, tivessem de sufocar uma secretainveja daqueles que as experimentam. É o caso de se lembrar a confissão feita pelo Landgraf condenador, nafamosa paródia de Tannhäuser:‘Im Venusberg vergass er Ehr und Pflicht!—Merkwürdig, unser einem passiertsoetwas nicht.’Na realidade, os pervertidos são, antes, uns pobres diabos, que têm de pagar extremamente caropela satisfação que obtêm a duras penas.O que torna a atividade dos pervertidos tão inconfundivelmentesexual, por mais estranhos que sejam seus objetos e fins, é o fato de, via de regra, um ato de satisfaçãopervertida ainda assim terminar em orgasmo completo e emissão de produtos genitais. Naturalmente, só háesse resultado quando se trata de pessoas adultas. Em crianças, o orgasmo e a excreção genital raramentesão possíveis; em lugar disso, há elementos que certamente não são reconhecidos como sendo nitidamentesexuais.Existe algo mais que devo acrescentar a fim de completar nosso ponto de vista referente às perversõessexuais. Por mais infames que possam ser, por mais nítido que se faça o contraste com a atividade sexualnormal, uma reflexão tranqüila mostrará que um ou outro traço de perversão raramente está ausente da vidasexual das pessoas normais. Pode-se alegar que até mesmo um beijo seria considerado ato pervertido, de vezque consiste na junção de duas zonas erógenas orais em vez de dois genitais. No entanto ninguém o rejeitacomo pervertido; pelo contrário, é permitido, nas representações teatrais, como velada referência ao ato sexual.Mas, precisamente o beijar pode facilmente tornar-se perversão completa — ou seja, se se torna tão intenso,que uma descarga genital e o orgasmo sobrevêm diretamente, coisa nada rara. Podemos verificar, também,serem precondições indispensáveis do prazer sexual que a pessoa sinta e veja o objeto; sabemos que apessoa poderá beliscar ou morder, no auge da excitação sexual, que o ponto máximo de excitação dosamantes nem sempre é provocado pelos genitais, mas por alguma outra região do corpo do objeto, enumerosas outras coisas semelhantes. Não faz sentido excluir da classe dos normais essas pessoas comtraços isolados desse tipo e situá-las entre os pervertidos. Ao contrário, reconheceremos, cada vez com maiornitidez, que a essência das perversões não está na extensão do objetivo sexual, nem na substituição dosgenitais, e, mesmo, nem sempre na escolha diferente do objeto, mas sim unicamente na exclusividade com aqual se efetuam esses desvios e em conseqüência dos quais o ato sexual a serviço do objetivo de reprodução éposto de lado. Na medida em que as ações pervertidas se inserem na realização do ato sexual normal, comocontribuições preparatórias ou intensificadoras, não constituem, na realidade, absolutamente perversões. Oabismo entre sexualidade normal e pervertida é, naturalmente, em muito diminuído por fatos dessa espécie. Éfácil concluir que a sexualidade normal surgiu de algo que existia antes dela, eliminando determinados aspectosdesse material como inservíveis e reunindo o restante a fim de subordiná-lo a uma nova finalidade, a dareprodução. Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 48 Antes de utilizarmos nosso conhecimento das perversões, para nos atirarmos novamente ao estudo dasexualidade infantil com base em premissas mais claras, devo chamar a atenção dos senhores para umaimportante diferença entre elas. A sexualidade pervertida é, via de regra, muito bem centrada: todas as suasações se dirigem para um fim — geralmente um único fim: um dos instintos componentes assumiupredominância, e, ou é o único instinto observável, ou submeteu os outros a seus propósitos. Nesse aspecto,não há diferença alguma entre sexualidade pervertida e normal, a não ser o fato de que seus instintoscomponentes dominantes e, conseqüentemente, seus fins sexuais são diferentes. Em ambas, pode-se dizer,estabeleceu-se uma bem organizada tirania, mas, em cada uma das duas, uma família diferente tomou asrédeas do poder. À sexualidade infantil, por outro lado, falando genericamente, falta essa centralização; seusinstintos componentes separados possuem iguais direitos, cada um dos quais seguindo seus próprios rumos nabusca de prazer. Naturalmente, tanto a ausência como a presença da centralização harmonizam-se bem com ofato de que tanto a sexualidade pervertida como a normal surgiram da sexualidade infantil. Aliás, tambémexistem casos de sexualidade pervertida que têm uma semelhança muito maior com o tipo infantil, pois, nestes,numerosos instintos componentes levaram a cabo (ou, mais corretamente, persistiram em) seus fins,independentemente um dos outos. Em tais casos, é melhor falar em infantilismo da vida sexual, e não emperversão. Assim premunidos, podemos prosseguir com o exame de uma observação da qual certamente nãoseremos poupados. ‘Por que’, perguntar-nos-ão, ‘o senhor é tão obstinado em descrever como já constituindosexualidade aquilo que, segundo as evidências que o senhor mesmo mostrou, são indefiníveis manifestaçõesda infância, a partir das quais se desenvolve posteriormente a vida sexual? Por que, em vez disso, o senhornão se contenta com dar-lhes uma descrição fisiológica e dizer simplesmente que, num lactente, já observamosatividades, como a sucção sensual ou a retenção das excreções, que nos mostram que ele procura o “prazer doórgão”? Dessa forma, o senhor teria evitado a hipótese, tão repugnante para todo os sentimentos, de os bebêsda mais tenra idade terem uma vida sexual.’ Com efeito, senhores, não tenho em absoluto qualquer objeção aoprazer do órgão. Sei que mesmo o supremo prazer da união sexual apenas é um prazer do órgão, vinculado àatividade dos genitais. Podem os senhores, porém, dizer quando esse prazer do órgão, originalmenteindiferente, adquire o caráter sexual que indubitavelmente possui em fases posteriores do desenvolvimento?Sobre o ‘prazer do órgão’ sabemos mais do que a respeito da sexualidade? Os senhores responderão que eleadquire caráter sexual precisamente quando os genitais começam a desempenhar seu papel; ‘sexual’ coincidecom ‘genital’. Os senhores rejeitarão até mesmo a objeção levantada pelas perversões, assinalando a mim que,na maioria das perversões, visa-se, afinal de contas, a um orgasmo genital, ainda que a este se chegue poroutro método que não o da união dos genitais. Os senhores certamente estarão assumindo uma posição muitomais sólida na determinação das características do sexual, se deste eliminarem a referência à reprodução, quese torna indefensável nas perversões, e, em seu lugar, colocarem a atividade genital. Mas se assim for, já nãonos distanciamos para muito mais longe: é apenas uma questão de órgãos genitais versus outros órgãos. Quejulgarão os senhores, entretanto, das numerosas experiências que lhes mostram poderem os genitais serrepresentados, relativamente à sua produção de prazer, por outros órgãos, como no caso do beijo, ou daspráticas pervertidas dos sibatibas, ou dos sintomas da histeria? Nessa neurose, é muito comum acontecer que Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 49os sinais de estimulação, as sensações e as inervações e até mesmo os processos de ereção, que pertencempropriamente aos genitais, se desloquem para outras regiões remotas do corpo — como, por exemplo,deslocarem-se para cima, para a cabeça e a face. Estando dessa forma convencidos de que não têm onde seapoiarem para sua caracterização daquilo que é sexual, os senhores, sem dúvida, terão de se decidir a seguirmeu exemplo, e estender a descrição de ‘sexual’ também às atividades do início da infância que buscam oprazer do órgão. Agora, para justificação minha, existem mais duas considerações que devo pedir para levarem emconta. Como sabem, dizemos serem sexuais as atividades imprecisas e indefiníveis do início da infância,porque, no decurso da análise, chegamos a elas a partir dos sintomas, após examinarmos materialindiscutivelmente sexual. Não quer dizer que devam ser, por isso, necessariamente sexuais — de acordo!Tomem, porém, um caso análogo. Suponham que não temos meios de observar o desenvolvimento, desde assuas sementes, de duas plantas dicotiledôneas, a macieira e o feijoeiro, mas que nos seria possível rastrearretrospectivamente o desenvolvimento de ambos, desde a planta inteiramente desenvolvida até o primeiroembrião com dois cotilédones. Os dois cotilédones têm uma aparência neutra; são muito semelhantes emambos os casos. Devo supor, então, que sejam realmente semelhantes, e que a diferença específica entre amacieira e o feijoeiro somente seja introduzida nas plantas mais tarde? Ou é biologicamente mais corretoacreditar que essa diferença já está presente no embrião da planta, embora eu não possa observar qualquerdistinção nos cotilédones? Ora, estamos fazendo a mesma coisa quando dizemos que é sexual o prazer obtidonas atividades do lactente. Aqui, não posso discutir se todo prazer do órgão deva ser chamado de sexual, ouse, além do sexual, há um outro que não merece ser chamado assim. É muito pouco meu conhecimento arespeito de prazer do órgão e de suas causas; e, em vista do caráter regressivo da análise em geral, não ficareisurpreso se, bem no final, eu atingir aquilo que, por ora, são fatores indefiníveis.E mais outra coisa! Natotalidade os senhores terão lucrado muito pouco com o que querem afirmar — a pureza sexual das crianças —, ainda que consigam convencer-me de que seria melhor considerar não-sexuais as atividades do lactente. Avida sexual das crianças não comportaria mais todas essas dúvidas, do terceiro ano de vida em diante: poressa época, aproximadamente, os genitais já começam a excitar-se, um período de masturbação infantil — dasatisfação genital, portanto — inicia-se, talvez regularmente. Os fenômenos mentais e sociais da vida sexualnão necessitam mais estar ausentes; a escolha de um objeto, uma preferência carinhosa por determinadaspessoas, até mesmo uma decisão a favor de um dos dois sexos, ciúme — tudo isso foi estabelecido porobservações imparciais, feitas independentemente da psicanálise e antes que esta surgisse, podendo serconfirmadas por qualquer observador que tenha o cuidado de verificá-las. Os senhores objetarão que jamaisduvidaram do surgimento precoce da afeição; apenas duvidaram se essa afeição se revestia de um caráter‘sexual’. É verdade que as crianças já aprenderam a ocultar esse fato na idade entre três e oito anos. Se ossenhores estiverem, porém, atentos, poderão, mesmo assim, reunir provas suficientes dos fins ‘sensuais’ dessaafeição, e tudo quanto lhes faltar, depois disso, poderão facilmente obter em profusão nas investigações daanálise. Os fins sexuais, nesse período da vida, estão intimamente relacionados com as investigações sexuaisque a criança, por essa época, empreende, das quais apresentei-lhes alguns exemplos [ver em [1] e [2]]. O Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 50caráter pervertido de alguns desses fins depende, naturalmente, da imaturidade constitucional da criança, poisesta ainda não descobriu o objetivo do ato da cópula. Aproximadamente do sexto ao oitavo ano de vida em diante, podemos observar uma parada e umretrocesso no desenvolvimento sexual, que, nos casos em que culturalmente há mais condições, podemoschamar de período de latência. O período de latência também pode estar ausente: não acarretanecessariamente qualquer interrupção da atividade sexual e dos interesses sexuais por toda a extensão dalinha. A maior parte das experiências e dos impulsos mentais anteriores ao início do período da latência agorasucumbe à amnésia infantil — o esquecimento (sobre o qual já discorremos [ver em [1] e segs.]) que nos ocultanossa primeira juventude e nos torna estranhos a ela. Em toda psicanálise, coloca-se diante de nós a tarefa detrazer novamente à memória esse período esquecido da vida. É impossível evitar a suspeita de que odespontar da vida sexual, que se inclui nesse período, tenha dado motivo a que fosse esquecido — que esteesquecimento, de fato, é o resultado da repressão. A partir do terceiro ano de vida, a vida sexual da criança mostra muita semelhança com a do adulto.Difere desta, conforme já sabemos, por lhe faltar uma organização estável sob a primazia dos genitais, por seusinevitáveis traços de perversão e, também, naturalmente, pela intensidade muito menor de toda a tendênciasexual. Do ponto de vista da teoria, contudo, as fases mais interessantes do desenvolvimento sexual, ou, comodiremos, do desenvolvimento libidinal, situam-se em época anterior a esta. Esse curso do desenvolvimentorealiza-se com tanta rapidez, que, talvez, jamais pudéssemos conseguir, pela observação direta, apreenderfirmemente os seus quadros fugazes. Foi apenas com a ajuda da investigação psicanalítica das neuroses quese tornou possível descobrir as fases ainda mais precoces do desenvolvimento da libido. Para dizer a verdade,estas não são senão hipóteses; mas, se os senhores efetuarem a psicanálise na prática, verificarão que sãohipóteses necessárias e úteis. Em breve irão saber como sucede a patologia poder, aqui, revelar-nos aexistência de conexão que inevitavelmente deixaríamos de perceber em uma pessoa normal. Por conseguinte, posso agora descrever-lhes a forma que toma a vida sexual da criança, antes doestabelecimento da primazia dos genitais: essa primazia já tem seus preparativos no primeiro período dainfância, prévio ao período de latência, e se organiza, permanentemente, da puberdade em diante. Umaespécie de organização frouxa, que pode ser chamada ‘pré-genital’, existe durante esse período inicial. Duranteessa fase, o que está em primeiro plano não são os instintos componentes genitais, mas os sádicos e anais. Ocontraste entre ‘masculino’ e ‘feminino’ ainda não desempenha, aqui, nenhum papel. Em lugar disso, ocontraste se estabelece entre ‘ativo’ e ‘passivo’, que pode ser descrito como precursor da polaridade sexual eque, daí em diante, se solda a essa polaridade. O que se nos apresenta como masculino, nas atividades dessafase, quando o consideramos do ponto de vista da fase genital, vem a ser expressão de um instinto de domínioque facilmente pode transformar-se em crueldade. As tendências que visam a um fim passivo vinculam-se àzona erógena do orifício anal, que é muito importante nesse período. Os instintos de olhar e de adquirirconhecimento [instintos escopofílico e epistemológico] estão funcionando poderosamente; os genitais realmentedesempenham seu papel na vida sexual apenas como órgãos de excreção da urina. Os instintos componentesparciais dessa fase não existem sem objetos, mas esses objetos não convergem necessariamente em um únicoobjeto. A organização sádico-anal é o precursor imediato da fase de primazia genital. Um estudo detalhado Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 51mostra quanto dele se mantém na forma definitiva e ulterior das coisas, e, também, revela a forma em que seusinstintos parciais são compelidos a tomar seu lugar na nova organização genital. Anterior à fase sádico-anal dodesenvolvimento libidinal, podemos divisar um estádio de organização ainda mais precoce e primitivo, no qual azona erógena da boca desempenha o papel principal. Como podem perceber, a atividade sexual da sucção [verem [1] e [2]] pertence a esse estádio. Devemos admirar a compreensão dos antigos egípcios que, na sua arte,representavam as crianças, inclusive o deus Hórus, com um dedo na boca. Apenas recentemente, Abraham[1916] deu exemplo dos vestígios que essa fase oral primitiva deixa após si na vida sexual posterior. Facilmente posso supor, senhores, que essa última descrição das organizações sexuais serviu maispara confundi-los do que para instruí-los, e pode ser que mais uma vez eu tenha entrado em demasiadosdetalhes. Os senhores devem, contudo, ter paciência. O que acabaram de ouvir lhes será de grande valor apartir de suas ulteriores aplicações. Por agora, devem reter firme em mente que a vida sexual (ou, conformedizemos, a função libidinal) não emerge como algo pronto e nem tem seu desenvolvimento ulterior ditado peloseu próprio aspecto inicial, mas passa por uma série de fases sucessivas que não se parecem entre si; suaevolução repete-se, portanto, várias vezes — como o da lagarta em borboleta. O ponto crítico dessedesenvolvimento é a subordinação de todos os instintos parciais à primazia dos genitais e, com isso, a sujeiçãoda sexualidade à função reprodutiva. A esta precede uma vida sexual que poderia ser descrita como anárquica— a atividade independente dos diferentes instintos parciais buscando o prazer do órgão. Tal anarquia émitigada por inícios infrutíferos de organizações ‘pré-genitais’ — uma fase sádico-anal precedida por uma faseoral que é, talvez, a mais primitiva. Ademais, existem os processos variados, ainda incompletamenteconhecidos, que levam um estádio de organização ao estádio subseqüente, mais elevado. Posteriormentesaberemos quão importantes são os esclarecimentos que se obtêm, a respeito das neuroses, com o fato de alibido passar através de um percurso evolutivo tão longo e sujeito a tantas interrupções. Hoje, seguiremos um outro aspecto desse desenvolvimento — isto é, a relação entre os instintossexuais parciais e seu objeto. Ou melhor, faremos um rápido apanhado dessa evolução e nos deteremos umpouco mais em uma de suas conseqüências relativamente tardias. Alguns dos componentes do instinto sexualtêm, portanto, desde o início, um objeto e aderem a este — por exemplo o instinto de domínio (sadismo) e osinstintos escopofílico e epistemológico. Outros, mais definidamente vinculados a determinadas zonas erógenasdo corpo, têm, inicialmente, apenas um objeto, enquanto estiverem ainda ligados às funções não-sexuais [verem [1], acima], e o abandonam quando se separam dessas funções não-sexuais. Assim, o primeiro objeto docomponente oral do instinto sexual é o seio materno, que satisfaz a necessidade de alimento do bebê. Ocomponente erótico, que é satisfeito simultaneamente durante a sucção [nutricional], torna-se independentecom o ato da sucção sensual [lutschen]; abandona o objeto externo e o substitui por uma área do corpo dopróprio bebê. O instinto oral torna-se auto-erótico, como o são, no início, os instintos anais e outros instintoserógenos. O desenvolvimento subseqüente, para dar ao assunto toda a concisão possível, tem dois objetivos:primeiro, o abandono do auto-erotismo, logo, a substituição do corpo da própria criança por um objeto externo;e, em segundo lugar, a unificação dos diversos objetos dos instintos separados e sua substituição por um únicoobjeto. Naturalmente isto só pode ser realizado se o objeto, de novo, for um corpo total, semelhante ao do Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 52próprio sujeito. E não pode ser efetuado, a menos que alguns impulsos instintuais auto-eróticos sejamabandonados como inservíveis. Os processos referentes ao encontro de um objeto são muito complexos, e até agora ainda não se feznenhuma descrição completa dos mesmos. Para nossos propósitos, pode-se assinalar especialmente que, nosanos da infância anteriores à puberdade, quando o processo atingiu alguma definição, o objeto encontrado vema ser quase idêntico ao primeiro objeto do instinto de prazer oral, que foi obtido por ligação [ao instintonutricional]. Embora esse objeto não seja realmente o seio materno, pelo menos é a mãe. Dizemos que a mãeé o primeiro objeto de amor. Pois falamos em amor quando trazemos para o primeiro plano o lado mental datendências sexuais e quando queremos repelir as exigências instintuais ‘sensuais’ ou físicas subjacentes, ouesquecê-las no momento. Na época em que a mãe se torna o objeto de amor da criança, nesta o trabalhopsíquico da repressão já começou, trabalho que consiste em uma parte dos fins sexuais subtrair-se aoconhecimento consciente. A essa escolha que a criança faz, ao tornar sua mãe o primeiro objeto de seu amor,vincula-se tudo aquilo que, sob o nome de ‘complexo de Édipo’, veio a ter tanta importância na explicaçãopsicanalítica das neuroses e tem tido uma parte não menor, talvez, na resistência à psicanálise (ver em [1]). Ouçam este episódio ocorrido no transcurso da guerra atual. Um dos bravos discípulos da psicanálisefoi designado oficial médico no front alemão, em algum lugar da Polônia. Ele chamou a atenção de seuscolegas pelo fato de, ocasionalmente, exercer inesperada influência sobre algum paciente. Indagado a respeito,reconheceu que estava empregando os métodos da psicanálise e declarou-se disposto a transmitir seuconhecimento a seus colegas. Depois disso, todas as noites os oficiais médicos da tropa, seus colegas esuperiores, reuniam-se a fim de aprender as doutrinas secretas da análise. Tudo correu bem, durante algumtempo; quando, porém, falou ao seu auditório a respeito do complexo de Édipo, um de seus superioreslevantou-se, declarou que não acreditava nisso, que constituía um ato vil, por parte do conferencista, falar-lhesa respeito de tais coisas, a homens honestos que estavam lutando por seu país e que eram pais de família; eque proibia a continuação das conferências. Este foi o final do caso. O analista viu-se transferido para outraparte do front. Parece-me mau, entretanto, se uma vitória alemão exige que a ciência se ‘organize’ dessamaneira, e a ciência alemã não reagirá bem a uma organização dessa espécie. E, agora, os senhores estarão ávidos por ouvir o que esse terrível complexo de Édipo contém. Seunome o diz. Todos os senhores conhecem a lenda grega do rei Édipo, fadado pelo destino a matar seu pai e adesposar sua mãe, que fez todo o possível para escapar à decisão do oráculo e puniu-se a si próprio cegando-se, ao saber que, apesar de tudo, havia, sem querer, cometido ambos os crimes. Suponho que muito dossenhores devem ter sentido o efeito avassalador da tragédia em que Sófocles abordou essa história. A obra dodramaturgo atenienese mostra a maneira como o feito de Édipo, realizado num passado já remoto, égradualmente trazido à luz por uma investigação engenhosamente prolongada e restituído à vida por meio desempre novas séries de provas. Nesse aspecto, tem certa semelhança com o progresso de uma psicanálise. Nodecorrer do diálogo, Jocasta, a iludida mãe e esposa, declara-se contrária à continuação da investigação. Apelapara o fato de que muitas pessoas sonharam com dormir com a própria mãe, mas que os sonhos devem sermenosprezados. Não menosprezamos os sonhos — muito menos os sonhos típicos que muitas pessoassonham; e não duvidamos que o sonho a que Jocasta se referia tem íntima conexão com o estranho e terrível Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 53conteúdo da lenda. Uma coisa surpreendente é que a tragédia de Sófocles não suscita um repúdio indignadona platéia — uma reação semelhante à do nosso sincero médico militar, contudo muito mais justificada.Basicamente, trata-se, pois, de uma obra amoral: absolve os homens de responsabilidade moral, mostra osdeuses como promotores do crime e demonstra a importância dos impulsos morais dos homens que lutamcontra o crime. Facilmente poder-se-ia supor que o conteúdo da lenda tivesse em vista incriminar os deuses e odestino; e , nas mãos de Eurípides, crítico e inimigo dos deuses, provavelmente ter-se-ia tornado umaincriminação. Com o devoto Sófocles, todavia, não há lugar para uma aplicação dessa espécie. A dificuldadeentão é superada através do piedoso sofisma segundo o qual submeter-se à vontade dos deuses constitui amais elevada moralidade, mesmo quando isto conduza ao crime. Não consigo pensar que essa moralidade sejaum ponto forte na peça; aliás, não tem nenhuma influência em seu efeito. Não é a ela que o expectador reage,mas ao sentido e ao conteúdo secreto da lenda. Reage como se, por auto-análise, tivesse reconhecido ocomplexo de Édipo em si próprio e desvendado a vontade dos deuses e do oráculo como disfarces enaltecidosde seu próprio inconsciente. É como se fosse obrigado a recordar os dois desejos — eliminar o pai e, em lugardeste, desposar a mãe — e horrorizar-se com esses mesmos desejos. E o espectador compreende as palavrasdo dramaturgo, como se elas fossem dirigidas a ele: ‘Tu estás lutando em vão contra a tua responsabilidade, eestás declarando em vão o que fizeste em oposição a essas intenções criminosas. És culpado por não teresconseguido destruí-las; elas ainda persistem em ti, inconscientemente.’ E existe verdade psicológica encerradanessa frase. Conquanto um homem tenha reprimido seus maus impulsos para dentro do inconsciente e prefiradizer a si mesmo, posteriormente, que não é responsável por eles, ele, não obstante, tem de reconhecer essaresponsabilidade na forma de um sentimento de culpa cuja origem lhe é desconhecida.Não pode haver dúvidade que o complexo de Édipo pode ser considerado uma das mais importantes fontes do sentimento de culpacom que tão freqüentemente se atormentam os neuróticos. E mais do que isso: em um estudo sobre o início dareligião e da moralidade humanas, que publiquei em 1913 sob o título de Totem e Tabu [Freud, 1912-13],apresentei a hipótese de que a humanidade como um todo pode ter adquirido seu sentimento de culpa, aorigem primeira da religião e da moralidade, no começo de sua história, em conexão com o complexo de Édipo.Eu teria muita satisfação em dizer-lhes mais a esse respeito, prefiro, porém, deixá-lo de lado. Sempre que secomeça com esse assunto, é difícil interromper; devemos, contudo, retornar à psicologia individual. O que, então, se pode reunir acerca de complexo de Édipo, a partir da observação direta das crianças,na época em que fazem sua escolha de um objeto, antes do período de latência? Pois bem, é fácil verificar queo homenzinho quer ter sua mãe toda para si mesmo, que sente a presença de seu pai como um estorvo, quefica ressentido quando o pai dispensa qualquer sinal de afeição à mãe, e que mostra satisfação quando o paisaiu de viagem ou está ausente. Amiúde expressará seus sentimentos diretamente em palavras e prometerá àsua mãe casar com ela. Pensar-se-á que isto assume proporções modestas, se comparando com os feitos deÉdipo; na realidade, porém, é, nada mais nada menos, basicamente a mesma coisa. A observação éfreqüentemente obscurecida pela circunstância de, em outras ocasiões, a própria criança dar mostras degrande afeição pelo pai. Atitudes emocionais contrárias — ou, seria melhor dizer, ‘ambivalentes’ — que, emadultos, conduziriam a um conflito, permanecem, porém, compatíveis uma com a outra, por longo tempo, nascrianças, como também, mais tarde, encontram um lugar permanente, lado a lado, no inconsciente. Do mesmo Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 54modo, haver-se-á de objetar que a conduta do menino origina-se em motivos egoísticos e não oferece basepara se postular um complexo erótico: a mãe satisfaz todas as necessidades da criança, de modo que esta teminteresse em evitar que ela venha a dispensar cuidados a uma outra pessoa. Esse fato também é procedente;mas, logo tornar-se-á claro que, nessa situação, como em outras semelhantes, o interesse egoísticosimplesmente oferece um ponto de apoio ao qual a tendência erótica se vincula. O menino pode mostrar a maisindisfarçada curiosidade sexual para com sua mãe, pode insistir em dormir ao seu lado, à noite, pode impor suapresença, junto a ela quando ela está se vestindo, ou, mesmo fazer tentativas reais de seduzi-la, conforme suamãe divertidamente perceberá e relatará — tudo isso demonstra inequivocamente a natureza erótica de sualigação com a mãe. E não se deve esquecer que a mãe dedica a mesma atenção à sua filhinha, sem produzirigual resultado, e que seu pai amiúde compete com a mãe em proporcionar cuidados ao menino, e, no entanto,não lhe é atribuída a mesma importância que a ela. Em resumo, não existe crítica que possa eliminar dessasituação o fator da preferência sexual. Do ponto de vista do interesse egoístico, seria simplesmente uma toliceo homenzinho não preferir suportar o fato de ter duas pessoas a seu serviço, a ter apenas uma delas.Comovêem, descrevi-lhes apenas a relação de um menino para com seu pai e sua mãe. As coisas se passam demodo exatamente igual com as meninas, com as devidas modificações: uma afetuosa ligação com o pai, umanecessidade de eliminar a mãe, por julgá-la supérflua, e de tomar-lhe o lugar, um coquetismo que já utiliza osmétodos da futura feminilidade — tudo isso oferece um quadro encantador, especialmente em meninas, o quenos faz esquecer as conseqüências possivelmente graves que se escondem nessa situação infantil. Nãodevemos deixar de acrescentar que os próprios pais freqüentemente exercem uma influência decisiva nodespertar da atitude edipiana da criança, ao cederem ao empuxo da atração sexual, e que, onde houverdiversas crianças, o pai dará definidas provas de sua maior afeição por sua filhinha e a mãe, por seu filho. Masa natureza espontânea do complexo de Édipo nas crianças não pode ser seriamente abalada até mesmo poresse fator.Quando outras crianças aparecem em cena, o complexo de Édipo avoluma-se em um complexo defamília. Este, com novo apoio obtido a partir do sentimento egoístico de haver sido prejudicado, dá fundamentoa que os novos irmãos e irmãs sejam recebidos com aversão, e faz com que, sem hesitações, sejam, emdesejos, eliminados. Também é verdade que, via de regra, as crianças são muito mais capazes de expressarverbalmentes esses sentimentos de ódio, do que aqueles decorrentes do complexo parental. Se um desejodesse tipo se realiza, e se o irmão que se acrescentou à família desaparece novamente, logo depois, devido àsua morte, podemos descobrir, numa análise subseqüente, quão importante foi para a criança essa experiênciareferente à morte, embora ela não tenha necessariamente permanecido fixada em sua memória. Uma criançaque tenha sido posta em segundo lugar pelo nascimento de um irmão ou irmã, e que agora, pela primeira vez, équase isolada de sua mãe, não perdoa a esta, com facilidade, sua perda de lugar; sentimentos que, em umadulto, seriam descritos como de intenso ressentimento, surgem na criança e freqüentemente constituem abase de permanente desavença. Já mencionamos [ver em [1]] que as investigações sexuais da criança, comtodas as suas conseqüências, geralmente se originam dessa experiência vital sua. À medida que esses irmãose irmãs crescem, a atitude do menino para com eles sofre transformações muito significativas. Pode tomar suairmã como objeto de amor, à maneira de substituta da mãe infiel. Onde há diversos irmãos, todos cortejandouma irmã mais nova, surgem, já na época infantil, situações de rivalidade hostil que são tão importantes, na Conferências Introdutórias sobre psicanálise (Parte III) – Sigmund Freud
  • 55vida, mais tarde. Uma menina pode encontrar em seu irmão, mais velho, um substituto para seu pai, que nãomantém mais um interesse afetuoso por ela como o fazia em anos anteriores. Ou pode tomar uma irmã maisnova como substituta da criança que ela, em vão, desejou ter de seu pai. Isto e muito mais de natureza semelhante ser-lhe-á demonstrado pela observação direta de crianças epelo exame de recordações nitidamente retidas desde a infância, não influenciadas pela análise. Disto ossenhores concluirão, entre outras coisas, que a posição que uma criança ocupa na seqüência da família é fatorde extrema importância