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  • 1. Dicionário de Psicanálise (PSI)1ª revisão – 13.08.982ª revisão – 31.08.983ª revisão – 24.09.984ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0Produção: Textos & FormasPara: Ed. Zahar
  • 2. Elisabeth Roudinesco Michel PlonDICIONÁRIO DEPSICANÁLISE TRADUÇÃO: Vera Ribeiro psicanalista Lucy Magalhães letras neolatinas SUPERVISÃO DA EDIÇÃO BRASILEIRA: Marco Antonio Coutinho Jorge psiquiatra e psicanalista Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 3. Tïtulo original: Dictionnaire de la psychanalyse Tradução autorizada da primeira edição francesa publicada em 1997 por Librairie Arthème Fayard, de Paris, França Copyright © 1997, Libraire Arthème Fayard Copyright da edição em língua portuguesa © 1998: Jorge Zahar Editor Ltda. rua México 31 sobreloja 20031-144 Rio de Janeiro, RJ tel.: (21) 2108-0808 / fax: (21) 2108-0800 editora@zahar.com.br www.zahar.com.br Não pode circular em Portugal. Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, no todoou em parte, constitui violação de direitos autorais (Lei 9.610/98) Este livro, publicado no âmbito do programa de auxílio à publicação, contou com o apoio do Ministério francês das Relações Exteriores,da Embaixada da França no Brasil e da Maison française do Rio de Janeiro. Revisão de texto: André Telles Revisão tipográfica: Lincoln Natal Jr. Preparação de bibliografia: Marcela Boechat Preparação de índice: Nelly Telles Capa: Carol Sá CIP-Brasil. Catalogação-na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ Roudinesco, Elisabeth, 1944 —R765d Dicionário de psicanálise/Elisabeth Roudinesco, Michel Plon; tradução Vera Ribeiro, Lucy Magalhães; supervisão da edição brasileira Marco Antonio Couti- nho Jorge. — Rio de Janeiro: Zahar, 1998. Tradução de: Dictionnaire de la psychanalyse Inclui bibliografia ISBN 978-85-7110-444-0 1. Psicanálise — Dicionários. I. Plon, Michel. II. Título. CDD: 150.1950398-1608 CDU: 159.964.2(038) Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 4. SUMÁRIOPrefácio viiSobre os autores xAgradecimentos xiNota à edição brasileira xiiiAbreviaturas bibliográficas xiiiVERBETES — A-Z 1Cronologia 795Índice onomástico 831Índice dos verbetes 865 Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 5. Dicionário de Psicanálise (PSI)1ª revisão – 13.08.982ª revisão – 31.08.983ª revisão – 24.09.984ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0Produção: Textos & FormasPara: Ed. Zahar
  • 6. PREFÁCIOO primeiro dicionário de psicanálise, intitulado Handwörterbuch der Psychoana-lyse, foi elaborado por Richard Sterba, entre 1931 e 1938. Foram publicados cincofascículos, até o momento em que a ocupação da Áustria pelos nazistas pôs fim aoempreendimento. A intenção era compor um léxico geral dos termos freudianos,um vocabulário mais do que um recenseamento dos conceitos: “Não desconheço,escreveu Freud em uma carta a seu discípulo, que o caminho que parte da letra Ae passa por todo o alfabeto é muito longo, e que percorrê-lo significaria para vocêuma enorme carga de trabalho. Assim, não o faça, a menos que se sinta interna-mente levado a isso. Apenas sob o efeito desse impulso, mas certamente não apartir de uma incitação externa!”1 Sem dúvida, Freud sabia melhor que ninguém que um dicionário pode respon-der a um impulso interno, a um desejo, a uma pulsão. Em sua famosa análise docaso Dora (Ida Bauer), ele frisava que um dicionário é sempre objeto de um prazersolitário e proibido, no qual a criança descobre, à revelia dos adultos, a verdadedas palavras, a história do mundo ou a geografia do sexo.2 Obrigado a se exilar nos Estados Unidos, como a quase totalidade dos psicana-listas europeus de língua alemã, Sterba interrompeu a redação do seu Handwör-terbuch na letra L, e a impressão do último volume na palavra Grössenwahn: “Nãosei, declarou vinte anos depois em uma carta a Daniel Lagache, se esse termo serefere à minha megalomania ou à de Hitler.” De qualquer forma, o Handwörterbuch inacabado serviu de modelo para asobras do gênero, todas publicadas na mesma data (1967-1968), em uma época emque o movimento psicanalítico internacional, envolvido em rupturas e dúvidas,experimentava a necessidade de fazer um balanço e recompor, através de um sabercomum, a sua unidade perdida. Diversas denominações foram utilizadas: glossário,dicionário, enciclopédia, vocabulário. O Glossary of Psychoanalytic Terms and Concepts (180 verbetes, 70 colabora-dores), obra coletiva publicada sob a égide da poderosa American PsychoanalyticAssociation (APsaA), expressava a ortodoxia de um freudismo pragmático emedicalizado. Na mesma perspectiva, a Encyclopedia of Psychoanalysis — rea-lizada sob a direção de Ludwig Eidelberg (1898-1970), psicanalista americanonascido na parte polonesa do antigo Império Austro-Húngaro e radicado em NovaYork depois de escapar do nazismo — se mostrava mais ambiciosa, ampliando a 1. Sigmund Freud, ”Prefácio ao Dicionário de psicanálise, de Richard Sterba“ (1936), ESB,XXIII, 309; OC, XIX, 287-9; GW, Nachtragsband, 761; SE, XXII, 253. Richard Sterba, Han-dwörterbuch der Psychoanalyse, 5 vols., Viena, Intern. Psychoanalytischer Verlag, 1936-1938. 2. Sigmund Freud, “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905), ESB, VII, 5-128. vii Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 7. lista dos verbetes e eliminando a noção de colaborador, em proveito de umorganograma de realizadores (640 verbetes e 40 editors assistentes ou associados). Em contrapartida, o Critical Dictionary of Psychoanalysis (600 verbetes) dopsicanalista inglês Charles Rycroft, claro, conciso e racional, tinha a vantagem denão ser uma obra coletiva. Daí a sua coerência e legibilidade. Rycroft foi tambémo primeiro a pensar o freudismo sem com isso deixar de considerar a terminologiapós-freudiana (especialmente a de Melanie Klein e de Donald Woods Winnicott).À medida que revia o trabalho, incluiu de modo sucinto as correntes da psicanálisemoderna (Heinz Kohut, Jacques Lacan, Self Psychology), com um espírito deabertura distante de qualquer dogmatismo. A obra de Rycroft serviria de modelopara alguns empreendimentos do mesmo gênero, na França e em outros países. Quanto ao célebre Vocabulário da psicanálise (417 verbetes) de Jean Laplanchee Jean-Bertrand Pontalis, foi o primeiro e único a estabelecer os conceitos dapsicanálise encontrando as “palavras” para traduzi-los, segundo uma perspectivaestrutural aplicada à obra de Freud. Composto de verdadeiros artigos (de 20 linhasa 15 páginas), e não de curtas notas técnicas, como os precedentes, inaugurou umnovo estilo, optando por analisar “o aparelho nocional da psicanálise”, isto é, os con-ceitos elaborados por esta para “explicar suas descobertas específicas”. Marcados peloensino de Lacan e pela tradição francesa da história das ciências, os autores conse-guiram a proeza de realizar uma escrita a duas vozes, impulsionada por um vigorteórico ausente nas outras obras. É a essas qualidades que ela deve seu sucesso.3 Os insucessos terapêuticos, a invasão dos jargões e das lendas hagiográficaslevaram a uma fragmentação generalizada do movimento freudiano, deixando livrecurso à ofensiva fin de siècle das técnicas corporais. Relegada entre a magia e ocientificismo, entre o irracionalismo e a farmacologia, a psicanálise logo tomou oaspecto de uma respeitável velha senhora perdida em seus devaneios acadêmicos.O universalismo freudiano teve então o seu crepúsculo, mergulhando seus adeptosna nostalgia das origens heróicas. Foi nesse contexto dos anos 1985-1990 que surgiu uma segunda geração dedicionários, muito diferente da dos anos 60. Por um lado, surgiram obras de escola,nas quais os conceitos eram recenseados em função de um dogma, e portantorecortados uns dos outros. Por outro lado, apareceram monstros polimorfos, comentradas anárquicas e profusas, nas quais a lista dos verbetes, artigos e autoresestendia-se infinitamente, pretendendo esgotar o saber do mundo, sob o risco demergulhar as boas contribuições em um terrível caos. Em resumo, de um lado, obreviário; de outro, Bouvard et Pécuchet.4 3. Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulário da psicanálise (Paris, 1967), S. Paulo,Martins Fontes, 1991, 2ª ed. Charles Rycroft, A Critical Dictionary of Psychoanalysis, N. York,Basic Books, 1968. E. Burness, M.D. Moore e D. Bernard Fine, A Glossary of PsychoanalyticTerms and Concepts (APsaA), Library of Congress, 1968. Encyclopedia of Psychoanalysis,Ludwig Eidelberg (org.), N. York, Free Press, e Londres, Macmillan, 1968. 4. É uma exceção o notável léxico biográfico realizado por Elke Mühlleitner para o período de1902 a 1938 sobre os pioneiros da Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras e da SociedadePsicanalítica Vienense (WPV). Ver Elke Mühlleitner, Biographisches Lexikon der Psychoana-lyse. Die Mitglieder der psychologischen Mittwoch-Gesellschaft und der Wiener psychoanalyti-schen Vereinigung von 1902-1938, Tübingen, Diskord, 1992. viii Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 8. O presente Dicionário se opõe a essas duas tendências sem retomar a idéia doVocabulário, o que equivaleria a uma paráfrase inútil. Portanto, ele não é nem umléxico nem um glossário, e tampouco é centrado exclusivamente na descobertafreudiana. Propõe um recenseamento e uma classificação de todos os elementosdo sistema de pensamento da psicanálise e apresenta a maneira pela qual estaconstruiu, ao longo do último século, um saber singular através de uma conceitua-lidade, uma história, uma doutrina original (a obra de Freud) permanentementereinterpretada, uma genealogia de mestres e discípulos e uma política. Nessa perspectiva, é também o primeiro e único a levar em conta ao mesmotempo: os conceitos; os países de implantação (23); a biografia dos atores (do nas-cimento à morte); as entidades psicopatológicas que a psicanálise criou ou trans-formou; as disciplinas para que contribuiu ou em que se inspirou (psiquiatria, an-tropologia etc.); os casos princeps (ou tratamentos protótipos) sobre os quaisconstruiu o seu método clínico; as técnicas de cura e os fenômenos psíquicos sobreos quais se apoiou, inventou ou que nela se inspiraram; os discursos e comporta-mentos que modificou em relação ao nascimento, à família, à morte, ao sexo e àloucura, ou que se construíram a partir dela; as instituições fundadoras; o própriofreudismo, suas diferentes escolas e sua historiografia; assim como a incidênciacontraditória de suas descobertas sobre outros movimentos intelectuais, políticosou religiosos. Foram incluídos, enfim, os membros da família de Sigmund Freud, seus mestresdiretos, os escritores e artistas com os quais ele manteve correspondência impor-tante ou contato pessoal determinante, e os 23 livros por ele publicados entre 1891e 1938, inclusive o segundo, escrito com Josef Breuer (Estudos sobre a histeria),e o último, inacabado e publicado a título póstumo (Esboço de psicanálise). Foiacrescentada uma outra obra póstuma, O presidente Thomas Woodrow Wilson, daqual Freud redigiu apenas o prefácio, mas à qual deu contribuição essencial comoco-autor ao lado de William Bullitt. Para esclarecer cada conceito ou entidade clínica e certas disciplinas, mé-todos, objetos de estudo ou comportamentos, cujas denominações foram criadaspor um autor preciso ou em circunstâncias particulares, há no início dessesverbetes uma definição com caracteres em negrito. Quando estritamente necessá-rio, conservamos o termo em sua língua original, fornecendo sempre uma expli-cação adequada. Cada verbete comporta seja uma bibliografia dos melhores títulos, documentosou arquivos que permitiram a redação do artigo, seja uma ou várias remissões aoutros verbetes, onde essas fontes são indicadas, ou ambos. No que se refere às 24 obras de Freud, indicamos a data e o local da primeirapublicação em língua alemã, assim como as diversas traduções inglesas e france-sas, indicando os nomes dos tradutores. Uma cronologia foi acrescentada ao final da obra. Encontram-se nela os fatosmarcantes da história da psicanálise no mundo, desde suas origens. E.R. e M.P. ix Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 9. SOBRE OS AUTORESELISABETH ROUDINESCO é historiadora, doutora em letras, directeur de recherchesna Universidade de Paris-VII, vice-presidente da Sociedade Internacional deHistória da Psiquiatria e da Psicanálise, e psicanalista. De sua autoria destacam-seHistória da psicanálise na França (2 vols.), Jacques Lacan: esboço de uma vida,história de um sistema de pensamento, e Genealogias — todos com traduçõespublicadas no Brasil.MICHEL PLON é directeur de recherches no Centre National de RecherchesScientifiques (CNRS), membro do Centre de Recherche Universitaire Psychana-lyse et Pratiques Sociales de la Santé (CNRS/Universidade da Picardia), e psica-nalista. É autor de La Théorie des jeux: une politique imaginaire. x Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 10. AGRADECIMENTOSEste dicionário não teria se realizado sem a colaboração de diversos pesquisadoresfranceses e estrangeiros, que nos ajudaram ou nos deram acesso a seus trabalhos,muitas vezes inéditos. Agradecemos a Yann Diener, que consultou revistas e obras em língua inglesae preparou fichas que possibilitaram a redação de vinte verbetes consagrados aospsicanalistas americanos. Expressamos nossa gratidão a Per Magnus Johansson, que nos apresentou seustrabalhos, em preparação, sobre a história da psicanálise nos países escandinavose redigiu especialmente para este dicionário textos, comentários e indicações sobreos quais nos baseamos, referentes aos psicanalistas nórdicos (Dinamarca, Finlân-dia, Noruega, Suécia). Além disso, também contribuiu para o verbete “Chistes esua relação com o inconsciente, Os”. Agradecemos a Julia Borossa, que nos esclareceu constantemente sobre ahistória da psicanálise na Grã-Bretanha e sobre os problemas do colonialismobritânico. Também redigiu cinco textos que nos foram preciosos: GirîndrashekharBose, Masud Khan, Índia, Wulf Sachs, Donald Woods Winnicott. Nossa gratidão a Françoise Vergès, que nos confiou seus artigos inéditos sobreFrantz Fanon e a psiquiatria colonialista. Somos gratos a todos os que deram sua contribuição à história da psicanáliseno Canadá: Élisabeth Bigras, Hervé Bouchereau, Jean-Baptiste Boulanger, MonaGauthier, Mireille Lafortune, e também a Monique Landry e Doug Robinson, quenos permitiram consultar os impressos da Biblioteca Nacional de Ottawa. Agradecemos a Didier Cromphout, que redigiu para este dicionário textos sobrea psicanálise na Bélgica e nos Países Baixos. Nossa gratidão a Mireille Cifali, que nos confiou muitas notas inéditas sobre apsicanálise na Suíça, e a Mario Cifali, que nos esclareceu com seus arquivos, seuscomentários e sua documentação. Nossa profunda gratidão a Gheorghe Bratescu, que redigiu para este dicionáriotrês textos, extraídos de seus trabalhos publicados em língua romena, sobre apsicanálise na Romênia. Agradecemos também a Teodoro Lecman que, durante um ano, fez numerosaspesquisas bibliográficas sobre a história da psicanálise na Argentina, além detrabalhos de campo. Agradecemos a Raul Giordano, que nos confiou sua tese sobreo mesmo tema. Agradecemos ainda a Hugo Vezzetti, cujos trabalhos sobre a psicanálise naArgentina, já publicados ou em preparação, nos foram indispensáveis. Agradecemos também a todos aqueles que nos forneceram informações oudocumentos para a redação dos artigos sobre a psicanálise no Brasil: Durval xi Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 11. Checchinato, Cláudia Fernandes, Ana Maria Gageiro, Catarina Koltaï, LeopoldNosek, Manoel Tosta Berlinck, Walter Evangelista e Lúcia Valladares. Nossa gratidão a Chaim Samuel Katz, que redigiu dois textos, um sobre AnaKatrin Kemper e outro sobre Hélio Pellegrino, e também a Luiz Alberto Pinheirode Freitas, que nos ajudou a redigir o verbete sobre Iracy Doyle. Agradecemos a Kao Jung-Hsi e a Oscar Zambrano, que pesquisaram obras emlíngua inglesa sobre a psicanálise no Japão. Nossa gratidão a Tanja Sattler-Rommel por suas traduções do alemão e suaparticipação na redação do verbete sobre Alexander Mitscherlich. Somos gratos a Vincent Kaufmann, que nos permitiu trabalhar na biblioteca daUniversidade de Berkeley, na Califórnia. Agradecemos a Olivier Bétourné e a Céline Geoffroy por seu trabalho com omanuscrito. Expressamos enfim nossa gratidão a todos aqueles que, de perto ou de longe,nos ajudaram respondendo às nossas perguntas ou confiando-nos generosamenteartigos, obras, fontes inéditas e teses de difícil obtenção: Anna Maria Accerboni,Eleni Atzina, Franco Baldini, Raphael Brossart, Michel Coddens, Marco Conci,Raffaello Cortina, Alain Delrieu, Horacio Etchegoyen, Ernst Falzeder, IgnacioGarate Martinez, Toby Gelfand, Nadine Gleyen, Ilse Grubrich-Simitis, ClaudeHalmos, André Haynal, Albrecht Hirschmüller, Norton Godinho Leão, Jacques LeRider, Patrick Mahony, René Major, Michael Molnar, Juan-David Nasio, Angéli-que Pêcheux, Antonello Picciau, August Rhus, Régine Robin, Emilio Rodrigué,Peter Schöttler, Harry Stroeken, Pablo Troïanovski, Fernando O. Ulloa, FernandoUribarri. xii Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 12. NOTA À EDIÇÃO BRASILEIRAPara estabelecer a versão em português deste Dicionário, foram levados em conta— além de dicionários, vocabulários e glossários já publicados anteriormente(muitos deles por esta mesma editora) — o estudo cada vez mais aprofundado daterminologia psicanalítica no Brasil e a própria sedimentação e evolução do usodessa terminologia pela comunidade psicanalítica. Assim, ao termo em português adotado para traduzir determinados verbetesconceituais, acrescentamos versões alternativas de uso corrente. Por exemplo, noesclarecimento introdutório, com caracteres em negrito, do histórico do termo“fantasia” (Phantasie em alemão, fantasme em francês), encontra-se o registro daversão “fantasma”, também muito difundida no Brasil. Agradecemos a colaboração do psicanalista Eduardo Vidal que, para os verbetesconceituais, nos forneceu a versão em espanhol que fizemos constar ao lado dascorrespondentes em alemão, francês e inglês, já presentes na edição original. Agradecemos também às editoras brasileiras que enviaram os dados biblio-gráficos solicitados, para que o leitor deste Dicionário pudesse ter acesso — nasbibliografias ao final de cada verbete — às edições e traduções publicadas noBrasil. O uso de um asterisco (*) após um nome, termo ou expressão, ou sua grafia emcaracteres maiúsculos (VERSALETES), indica remissão a esses verbetes. ABREVIATURAS BIBLIOGRÁFICASESB Sigmund Freud, Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 24 vols., Rio de Janeiro, Imago, 1977GW Sigmund Freud, Gesammelte Werke, 17 vols., Frankfurt, Fischer, 1960-1988IZP Internationale ärztlische Zeitschrift für PsychoanalyseIJP International Journal of Psycho-AnalysisOC Sigmund Freud, Oeuvres complètes, 21 vols., Paris, PUF, em preparação desde 1989SE The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, org. James Strachey, 24 vols., Londres, Hogarth Press, 1953-1974 xiii Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 13.08.98 2ª revisão – 31.08.98 3ª revisão – 24.09.98 4ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0 Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 13. Dicionário de Psicanálise (PSI)1ª revisão – 13.08.982ª revisão – 31.08.983ª revisão – 24.09.984ª revisão – 29.09.98 – Cad. 0Produção: Textos & FormasPara: Ed. Zahar
  • 14. AAberastury, Arminda (1910-1972) Com a idade de 62 anos, atingida por umapsicanalista argentina doença de pele que a desfigurou, Arminda Abe- Pioneira do movimento psicanalítico argen- rastury decidiu dar fim aos seus dias. Seu suicí-tino, Arminda Aberastury nasceu em Buenos dio*, como vários outros na história da psicanálise*,Aires, em uma família de comerciantes pelo la- suscitou relatos contraditórios e foi consideradodo paterno, e de intelectuais pelo lado materno. uma “morte trágica” pela historiografia* oficial.Seu tio, Maximiliano Aberastury, era um médi- • Arminda Aberastury, Psicanálise da criança — teoriaco de renome e seu irmão, Frederico, estudou e técnica (B. Aires, 1962), P. Alegre, Artes Médicas,psiquiatria com Enrique Pichon-Rivière*, cujos 1992 • Antonio Cucurullo, Haydée Faimberg e Leonar-pais se radicaram na Argentina* em 1911 e que do Wender, “La Psychanalyse en Argentine”, in Roland Jaccard (org.), Histoire de la psychanalyse, vol.2, Pa-se tornou o seu amigo mais próximo. Frederico ris, Hachette, 1982, 395-444 • Elfriede S.L. de Ferrer,sofria de psicose* e teve, por várias vezes, surtos “Profesora Arminda Aberastury”, Revista de Psicoaná-delirantes. Sofrendo de melancolia desde a ju- lisis, 4, t.XXIX, outubro-dezembro de 1972, 679-82 •ventude, sua irmã Arminda era uma mulher de Jorge Balán, Cuéntame tu vida. Una biografía colectiva del psicoanálisis argentino, B. Aires, Planeta, 1991 •grande beleza. Através de Frederico, ficou co- Élisabeth Roudinesco, entrevista com Emilio Rodrigué,nhecendo Pichon-Rivière, com quem se casou 12 de outubro de 1995, e com Cláudia Fernandes, 27em 1937. Como este, desejava oferecer à psica- de março de 1996.nálise uma nova terra prometida, a fim de sal-vá-la do fascismo que assolava a Europa. ➢ ESTÁDIO ; KLEINISMO; MELANCOLIA. Assim, integrou-se ao grupo formado emBuenos Aires por Arnaldo Rascovsky*, AngelGarma*, Marie Langer* e Celes Cárcamo*. Cin- Abraham, Karl (1877-1925)co anos depois, fez sua formação didática com psiquiatra e psicanalista alemãoGarma e tornou-se uma das principais figuras O nome de Karl Abraham é indissociável dada Asociación Psicoanalitica Argentina (APA). história da grande saga freudiana. Membro daNa linha do ensino de Melanie Klein* (de quem geração* dos discípulos do fundador, desempe-foi a primeira tradutora em língua espanhola) e nhou um papel pioneiro no desenvolvimento dainspirando-se nos métodos de Sophie Morgen- psicanálise* em Berlim. Implantou a clínicastern*, desenvolveu a psicanálise de crianças*. freudiana no campo do saber psiquiátrico,Entre 1948 e 1952, dirigiu, no quadro do Ins- transformando assim o tratamento das psi-tituto de Psicanálise da APA, um seminário coses*: esquizofrenia* e psicose maníaco-de-sobre esse tema. Formaria uma geração* de pressiva* (melancolia*). Elaborou também umaanalistas de crianças. No congresso de 1957 da teoria dos estádios* da organização sexual, naInternational Psychoanalytical Association* qual se inspirou Melanie Klein*, que foi sua(IPA), em Paris, apresentou uma comunicação aluna. Formou muitos analistas, entre os quaisnotável sobre a sucessão dos “estádios” durante Helene Deutsch*, Edward Glover*, Karen Hor-os primeiros anos de vida, definindo uma “fase ney* Sandor Rado*, Ernst Simmel*.genital primitiva” anterior, no desenvolvimento Nascido em Bremen, a 3 de maio de 1877,libidinal, à fase anal. em uma família de comerciantes judeus es- 1 Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 15. 2 Abraham, Nicolastabelecidos no norte da Alemanha desde o sé- tre. Mais clínico do que teórico, Abraham escre-culo XVIII, Abraham era um homem afável, veu artigos claros e breves, nos quais domina acaloroso, inventivo, eloqüente e poliglota. Fa- observação concreta. Devem-se distinguir trêslava oito línguas. Durante toda a vida, foi um épocas. Entre 1907 e 1910, dedicou-se a umaortodoxo da doutrina psicanalítica, uma “rocha comparação entre a histeria* e a demência pre-de bronze”, nas palavras de Sigmund Freud*. coce (que ainda não era chamada esquizofrenia)Foi na Clínica do Hospital Burghölzli, onde foi e à significação do trauma sexual na infância.assistente de Eugen Bleuler* com Carl Gustav Durante os dez anos seguintes, estudou a psico-Jung*, que começou a familiarizar-se com os se maníaco-depressiva, o complexo de castra-textos vienenses. Em 1906, casou-se com Hed- ção* na mulher e as relações do sonho* com oswig Bürgner. Tiveram dois filhos. Abraham mitos. Em 1911, publicou um importante estu-analisou sua filha Hilda (1906-1971), descre- do sobre o pintor Giovanni Segantini (1859-vendo o caso em um artigo de 1913, intitulado 1899), atingido por distúrbios melancólicos.“A pequena Hilda, devaneios e sintomas em Em 1912, redigiu um artigo sobre o culto mo-uma menina de 7 anos”. Hilda Abraham se noteísta de Aton, do qual Freud se serviria emtornaria psicanalista e redigiria uma biografia Moisés e o monoteísmo*, esquecendo de citá-lo.inacabada do pai. Enfim, durante o terceiro período, descreveu os Não tendo nenhuma possibilidade de fazer três estádios* da libido*: anal, oral, genital.carreira na Suíça*, Abraham instalou-se em Doente de enfisema, Karl Abraham morreuBerlim em 1907. No dia 15 de dezembro, foi a aos 48 anos, em 25 de dezembro de 1925, deViena* para fazer a sua primeira visita a Freud. uma septicemia consecutiva a um abscesso pul-Foi o início de uma bela amizade e de uma longa monar provavelmente causado por um câncer.correspondência — 500 cartas entre 1907 e Essa morte prematura foi sentida como um1925 — da qual só se conhece uma parte. verdadeiro desastre para o movimento freudia-Publicada em 1965 por Ernst Freud* e por Hil- no, e principalmente por Freud, que assistiuda, infelizmente essa correspondência foi am- impotente à evolução da infecção, não hesitan-putada de muitas peças, sobretudo dos comen- do em escrever-lhe: “Sachs me informou comtários sobre os sonhos de Hilda, sobre os confli- surpresa e pesar que a sua doença ainda nãotos com Otto Rank* no Comitê Secreto* e sobre terminou. Isso não concorda com a imagem queas discordâncias entre ambos. tenho de você. Quero imaginá-lo trabalhando Em 1908, Abraham criou com Magnus Hir- sempre, infalivelmente. Sinto sua doença comoschfeld*, Ivan Bloch (1872-1922), Heinrich uma espécie de concorrência desleal, e peço-lhe que pare logo com isso. Espero notícias suasKörber e Otto Juliusburger* um primeiro círcu- através de seus amigos.”lo, que se tornaria, em março de 1910, a Socie-dade Psicanalítica de Berlim. Seria seu presi- • Karl Abraham, Oeuvres complètes, 2 vols. (1965),dente até a morte. Em 1909, Max Eitingon* Paris, Payot, 1989 • Sigmund Freud e Karl Abraham,reuniu-se a ele e foi assim que se iniciou, com Correspondance, 1907-1926 (Frankfurt, 1965), Paris,a criação do Berliner Psychoanalytisches Ins- Gallimard, 1969 • Hilda Abraham, Karl Abraham, bio- graphie inachevée, Paris, PUF, 1976 • Guy Rosolato etitut*, a história do movimento psicanalítico Daniel Widlöcher, “Karl Abraham: lecture de son oeu-alemão, que, como se sabe, foi dizimado pelo vre”, La Psychanalyse, 4, Paris, PUF, 1958, 153-78 •nazismo* a partir de 1933. Ernst Falzeder, “Whose Freud is it? Some reflections Durante a Primeira Guerra Mundial, depois on editing Freud’s correspondance”, International Fo- rum of Psychoanalysis, em preparação.de ter sido membro do Comitê Secreto, Abra-ham dirigiu a International PsychoanalyticalAssociation* (IPA), da qual foi secretário em1922 e presidente em 1924. Assim, foi um dos Abraham, Nicolas (1919-1977)grandes militantes do movimento, tanto como psicanalista francêsclínico quanto como organizador e professor. De origem judeu-húngara, Nicolas Abraham A obra desse fiel discípulo de Freud se cons- nasceu em Kecskemet e emigrou para Paris emtruiu em função dos progressos da obra do mes- 1938. Teve uma formação filosófica marcada Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 16. ab-reação 3pela fenomenologia de Husserl. Falava várias e Sigmund Freud, dedicada ao estudo do meca-línguas. Depois do primeiro casamento em nismo psíquico atuante nos fenômenos histé-1946, do qual teve dois filhos, tomou como ricos.companheira Maria Torok, também de origem Nesse texto pioneiro, os autores anunciamhúngara. Analisado, como ela, por Bela Grun- desde logo o sentido de seu procedimento: con-berger, no seio da Sociedade Psicanalítica de seguir, tomando como ponto de partida as for-Paris (SPP), logo revelou-se como dissidente e mas de que os sintomas se revestem, identificarseu tratamento didático não foi homologado. o acontecimento que, a princípio e amiúde numNunca se tornou membro da SPP, limitando-se passado distante, provocou o fenômeno his-a ser filiado. Em 1959, iniciou com o filósofo térico. O estabelecimento dessa gênese esbarraJacques Derrida uma sólida amizade, fundada em diversos obstáculos oriundos do paciente,na paixão pela filosofia e em uma certa maneira aos quais Freud posteriormente chamaria dede analisar os textos freudianos. resistências*, e que somente o recurso à hipno- Foi com a publicação, em 1976, do Verbier se* permite superar.de l’Homme aux loups, redigido com Maria Na maioria das vezes, o sujeito afetado porTorok e prefaciado por Derrida, que se tornou um acontecimento reage a ele, voluntariamentecélebre. Depois de Muriel Gardiner*, comentou ou não, de modo reflexo: assim, o afeto ligadoo caso do Homem dos Lobos, mostrando o ao acontecimento é evacuado, por menos quepoliglotismo inerente a toda essa história. Ao essa reação seja suficientemente intensa. Nosrusso, ou língua materna, ao alemão, ou língua casos em que a reação não ocorre ou não é fortedo tratamento, e ao inglês, ou língua da ama do o bastante, o afeto permanece ligado à lembran-paciente, os autores acrescentaram uma quarta ça do acontecimento traumático, e é essa lem-língua, o francês, que lhes permitia sublinhar brança — e não o evento em si — que é o agenteque o eu* clivado do paciente comportava uma dos distúrbios histéricos. Breuer e Freud são“cripta”, lugar de todos os seus segredos in- muito precisos a esse respeito: “... é sobretudoconscientes. Essa teoria da cripta enfatizava o de reminiscências que sofre o histérico.” En-delírio do Homem dos Lobos e o caráter neces- contramos a mesma precisão no que concernesariamente delirante e polissêmico da própria à adequação da reação do sujeito: quer ela sejateoria clínica. imediata, voluntária ou não, quer seja adiada e• Nicolas Abraham e Maria Torok, Cryptonymie. Le provocada no âmbito de uma psicoterapia, sobVerbier de l’Homme aux loups, precedido de Fors, por a forma de rememorações e associações, elaJacques Derrida, Paris, Aubier-Flammarion, 1976 • tem que manter uma relação de intensidade ouRené Major, L’Agonie du jour, Paris, Aubier-Montaigne, proporção com o acontecimento incitador para1979 • Élisabeth Roudinesco, História da psicanálisena França, vol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge surtir um efeito catártico*, isto é, liberador. É oZahar, 1988. caso da vingança como resposta a uma ofensa, a qual, não sendo proporcional ou ajustada à➢ FRANÇA; PANKEJEFF, SERGUEI CONSTANTINO- ofensa, deixa aberta a ferida ocasionada porVITCH. esta. Desde essa época, Breuer e Freud sublinham como é importante que o ato possa ser subs-ab-reação tituído pela linguagem, “graças à qual o afetoal. Abreagieren; esp. abreacción; fr. abréaction; pode ser ab-reagido quase da mesma maneira”.ing. abreaction Eles acrescentam que, em alguns casos de quei-Termo introduzido por Sigmund Freud* e Josef xa ou confissão, somente as palavras cons-Breuer* em 1893, para definir um processo de tituem “o reflexo adequado”.descarga emocional que, liberando o afeto ligado Se o termo ab-reação permanece ligado aoà lembrança de um trauma, anula seus efeitos trabalho com Breuer e à utilização do métodopatogênicos. catártico, nem por isso a instauração do método O termo ab-reação aparece pela primeira vez psicanalítico e o emprego, em 1896, do termona “Comunicação preliminar” de Josef Breuer “psico-análise” significam o desaparecimento Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 17. 4 abstinência, regra dedo termo ab-reação, e isso por duas razões, (1925), ESB, XX, 17-88; GW, XIV, 33-96; SE, XX, 7-70; Paris, Gallimard, 1984; “As pulsões e suas vicissitudes”como deixam claro os autores do Vocabulário (1915), ESB, XIV, 137-68; GW, X, 209-32; SE, XIV,da psicanálise: uma razão factual, de um lado, 109-40; OC, XIII, 161-85; O eu e o isso (1923), ESB,na medida em que, seja qual for o método, a XIX, 23-76; GW, XIII, 237-89; SE, XIX, 1-59; in Essaisanálise continua sendo, sobretudo para alguns de psychanalyse, Paris, Payot, 1981, 219-52 • Georgespacientes, um lugar de fortes reações emocio- Canguilhem, “Le Concept de réflexe au XIXe siècle”, in Études d’histoire et de philosophie des sciences, Paris,nais; e uma teórica, de outro, uma vez que a Vrin, 1968 • Marcel Gauchet, L’Inconscient cérebral,conceituação da análise recorre à rememora- Paris, Seuil, 1992 • Jean Laplanche e Jean-Bertrandção* e à repetição*, formas paralelas de ab-rea- Pontalis, Vocabulário da psicanálise (Paris, 1967), S.ção. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2ª ed. • Jean Starobinski, “Sur le mot abréaction” (1994), in André Haynal (org.), Por que Breuer e Freud empregaram essa La Psychanalyse: cent ans déjà, Genebra, Georg,palavra, que este último não renegaria ao evocar 1996, 49-62.o método catártico em sua autobiografia? Como neologismo, o termo ab-reação ➢ CATARSE; ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; HIPNO- SE; HISTERIA; PULSÃO; RESISTÊNCIA; SUGESTÃO.compõe-se do prefixo alemão ab- e da palavrareação, constituída, por sua vez, do prefixo re-e da palavra ação. A primeira razão dessa dupli- abstinência, regra decação parece ser o cuidado dos autores de repe- al. Grundsatz der Abstinenz; esp. regla de abs-lir o caráter excessivamente genérico da palavra tinencia; fr. règle d’abstinence; ing. rule of abs-reação. Além disso, porém, a palavra remete ao tinenceprocedimento da fisiologia do século XIX, emcujo seio ela funciona como sinônima de re- Corolário da regra fundamental*, a regra de abs- tinência designa o conjunto dos meios e atitudesflexo, termo pelo qual se designa o elemento de empregados pelo analista para que o analisandouma relação que tem a forma de um arco linear fique impossibilitado de recorrer a formas de satis-— o arco reflexo — que relaciona, termo a fação substitutas, em condições de lhe poupar ostermo, um estímulo pontual e uma resposta sofrimentos que constituem o motor do trabalhomuscular. Essa referência constituía para Freud, analítico.nos anos de 1892-1895, uma espécie de garantia É em 1915, ao se interrogar sobre qual devede cientificidade, consoante com sua esperança ser a atitude do psicanalista confrontado com asde inscrever a abordagem dos fenômenos his- manifestações da transferência amorosa, quetéricos numa continuidade com a fisiologia dos Sigmund Freud* fala pela primeira vez da regramecanismos cerebrais. Como sublinhou Jean de abstinência. Esclarece que não pretende evo-Starobinski em 1994, a referência ao modelo do car apenas a abstinência física do analista emarco reflexo sobreviveria à utilização dessa pa- relação à demanda amorosa da paciente, mas olavra, já que Freud se refere explicitamente a ela que deve ser a atitude do analista para queem seu texto sobre o destino das pulsões*, onde subsistam no analisando as necessidades e de-distingue as excitações externas, que provocam sejos insatisfeitos que constituem o motor darespostas no estilo do arco reflexo, das exci- análise.tações internas, cujos efeitos são da ordem de Para ilustrar o caráter de tapeação de que seuma reação. revestiria uma análise em que o analista aten- Mais tarde, Freud utilizaria o termo reação desse às demandas de seus pacientes, Freudnum sentido radicalmente diferente: em vez de evoca a anedota do padre que vai dar os últimosdesignar uma descarga liberadora, ele seria em- sacramentos a um corretor de seguros descren-pregado para evocar um processo de bloqueio te: ao final da conversa no quarto do moribundo,ou contenção, a formação reativa. o ateu não parece haver se convertido, mas o padre contratou um seguro.• Sigmund Freud e Josef Breuer, “Sobre o mecanismo Não apenas, escreve Freud, “é proibido aopsíquico dos fenômenos histéricos: Comunicação pre-liminar” (1893), in Estudos sobre a histeria (1895), ESB, analista ceder”, como também este deve levar oII, 43-62; GW, I, 77-312; SE, II, 1-17; Paris, PUF, 1956, paciente a vencer o princípio de prazer* e a1-13 • Sigmund Freud, Um estudo autobiográfico renunciar às satisfações imediatas em favor de Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 18. acting out 5uma outra, mais distante, e sobre a qual se Fontes, 1992, 357-68; “Prolongamentos da ‘técnica ativa’ em psicanálise” (1921), in Psicanálise III, Obrasesclarece, no entanto, que “também pode ser completas, 1919-1926, S. Paulo, Martins Fontes, 1993menos certeira”. • Jacques Lacan, Escritos, (Paris, 1966), Rio de Janei- É no âmbito do V Congresso de Psicanálise, ro, Jorge Zahar, 1998; O Seminário, livro 7, A ética darealizado em Budapeste em 1918, que Freud psicanálise (1959-1960) (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988 • Jean Laplanche e Jean-Bertrandvolta a essa questão, após uma intervenção de Pontalis, Vocabulário da psicanálise (Paris, 1967), S.Sandor Ferenczi*, centrada na atividade do Paulo, Martins Fontes, 1991, 2ª ed.analista e nos meios a que ele deve recorrer paraafugentar e proibir todas as formas de satisfação ➢ CONTRATRANSFERÊNCIA; REGRA FUNDAMEN-substituta que o paciente possa buscar no âmbi- TAL; TÉCNICA PSICANALÍTICA; TRANSFERÊNCIA.to do tratamento, bem como fora desse quadro.Em essência, Freud assinala sua concordânciacom Ferenczi. Sublinha que o tratamento psi- acting outcanalítico deve, “tanto quanto possível, efetuar- al. Agieren; esp. pasar al acto; fr. passage à l’acte;se num estado de frustração* e abstinência”. ing. acting outMas deixa claro que não se trata de proibir tudo Noção criada pelos psicanalistas de língua inglesaao paciente e que a abstinência deve ser articu- e depois retomada tal e qual em francês, paralada com a dinâmica específica de cada análise. traduzir o que Sigmund Freud* denomina de colo- Este último esclarecimento foi progres- cação em prática ou em ato, segundo o verbosivamente perdido de vista, assim como se es- alemão agieren. O termo remete à técnica psicana-queceu a ênfase depositada por Freud no caráter lítica* e designa a maneira como um sujeito* passa inconscientemente ao ato, fora ou dentro do trata-incerto da satisfação a longo prazo. O surgi- mento psicanalítico, ao mesmo tempo para evitarmento de uma concepção pedagógica e ortopé- a verbalização da lembrança recalcada e para sedica do tratamento psicanalítico contribuiu para furtar à transferência*. No Brasil também se usaa transformação da regra de abstinência em um “atuação”.conjunto de medidas ativas e repressivas, que Foi em 1914 que Freud propôs a palavravisam fornecer uma imagem da posição do Agieren (pouco corrente em alemão) para de-analista em termos de autoridade e poder. signar o mecanismo pelo qual um sujeito põe Em seu seminário de 1959-1960, dedicado em prática pulsões*, fantasias* e desejos*.à ética da psicanálise, assim como em textos Aliás, convém relacionar essa noção com a deanteriores que versavam sobre as possíveis va- ab-reação* (Abreagieren). O mecanismo estáriações do “tratamento-padrão” e da direção do associado à rememoração, à repetição* e à ela-tratamento, Jacques Lacan* voltou à noção de boração* (ou perlaboração). O paciente “traduzneutralidade analítica, que situou numa pers- em atos” aquilo que esqueceu: “É de se esperar,pectiva ética. Se Freud se mostrava prudente portanto”, diz Freud, “que ele ceda ao automa-quanto à possível obtenção de uma satisfação tismo de repetição que substituiu a compulsãoposterior pelo paciente, fruto de sua renúncia a à lembrança, e não apenas em suas relaçõesum prazer imediato, Lacan pretendeu-se mais pessoais com o médico, mas também em todasradical, questionando a fantasia de um “bem as suas outras ocupações e relações atuais, bemsupremo” cuja realização marcaria o fim da como quando, por exemplo, lhe sucede apaixo-análise. nar-se durante o tratamento.” Para responder a esse mecanismo, Freud• Sigmund Freud, “Observações sobre o amor transfe- preconiza duas soluções: (1) fazer o pacienterencial” (1915), ESB, XII, 208-21; GW, X, 306-21; SE,XII, 157-71; Paris, PUF, 1953, 116-30; “Linhas de prometer, enquanto se desenrola o tratamento,progresso na terapia psicanalítica” (1919), ESB, XVII, não tomar nenhuma decisão grave (casamento,201-16; GW, XII, 183-94; SE, XVII, 157-68; in La escolha amorosa definitiva, profissão) antes deTechnique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 131-41 estar curado; (2) substituir a neurose* comum• Sigmund Freud e Sandor Ferenczi, Correspondance,1914-1919, Paris, Calmann-Lévy, 1996 • Sandor Fe- por uma neurose de transferência*, da qual orenczi, “A técnica psicanalítica” (1919), in Psicanálise trabalho terapêutico o curará. Em 1938, noII, Obras completas, 1913-1919, S. Paulo, Martins Esboço de psicanálise, Freud sublinha que é Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 19. 6 Adler, Alfreddesejável que o paciente manifeste suas reações ou rejeitado de qualquer quadro simbólico. Odentro da transferência*. suicídio, para Lacan, situa-se na vertente da Os psicanalistas de língua inglesa distin- passagem ao ato, como atesta a própria maneiraguem o acting in do acting out propriamente de morrer, saindo de cena por uma morte vio-dito. O acting in designa a substituição da ver- lenta: salto no vazio, defenestração etc.balização por um agir no interior da sessãopsicanalítica (mudança da posição do corpo ou • Sigmund Freud, “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905), ESB, VII, 5-128; GW, V, 163-286;surgimento de emoções), enquanto o acting out SE, VII, 1-122; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,caracteriza o mesmo fenômeno fora da sessão. 1970; “Recordar, repetir e elaborar” (1914), ESB, XII,Os kleinianos insistem no aspecto transferen- 193-207; GW, X, 126-36; SE, XII, 126-36; in La Techni-cial do acting in e na necessidade de analisá-lo, que psychanalytique, Paris, PUF, 1970; “A psicogê- nese de um caso de homossexualidade numa mulher”sobretudo nos bordelines*. (1920), ESB, XVIII, 185-216; GW, XII, 271-302; SE Por outro lado, em 1967, o psicanalista fran- XVIII, 145-72; in Névrose, psychose et perversion,cês Michel de M’Uzan propôs distinguir o ac- Paris, PUF, 1973; Esboço de psicanálise (1938), ESB,ting out direto (ato simples, sem relação com a XXIII, 168-223; GW, XVII, 67-138; SE, XXIII, 139-207; Paris, PUF, 1967 • Jacques Lacan, Le Séminaire, livretransferência) do acting out indireto (ato ligado X, L’Angoisse, (1962-1963), inédito • Jean Laplanche ea uma organização simbólica relacionada com Jean-Bertrand Pontalis, Vocabulário da psicanáliseuma neurose de transferência). (Paris, 1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2ª ed. • No vocabulário psiquiátrico francês, a ex- Ludwig Eidelberg (org.), Encyclopedia of Psychoana- lysis, N. York, The Free Press, e Londres, Collier Mac-pressão “passagem ao ato” evidencia a violên- millan Ltd., 1968 • Michel de M’Uzan, De l’art à la mort,cia da conduta mediante a qual o sujeito se Paris, Gallimard, 1977 • R.D. Hinshelwood, Dicionárioprecipita numa ação que o ultrapassa: suicídio*, do pensamento kleiniano, (Londres, 1991), P. Alegre,delito, agressão. Artes Médicas, 1992. Foi partindo dessa definição que JacquesLacan*, em 1962-1963, em seu seminário sobreA angústia, instaurou uma distinção entre ato, Adler, Alfred (1870-1937)acting out e passagem ao ato. No contexto de médico austríaco, fundador da escola de psicologiasua concepção do outro* e da relação de obje- individualto*, e a partir de um comentário de duas obser- Adler, primeiro grande dissidente da históriavações clínicas de Freud (o caso Dora* e “Psi- do movimento psicanalítico, nasceu em Ru-cogênese de um caso de homossexualidade nu- dolfsheim, subúrbio de Viena*, em 7 de feverei-ma mulher”), Lacan estabeleceu, com efeito, ro de 1870. Na verdade, nunca aderiu às tesesuma hierarquia em três patamares. Segundo ele, de Sigmund Freud,* de quem se afastou emo ato é sempre um ato significante, que permite 1911, sem ter sido, como Carl Gustav Jung*, seuao sujeito transformar-se a posteriori*. O acting discípulo privilegiado. Quatorze anos mais no-out, ao contrário, não é um ato, mas uma deman- vo do que o mestre, não procurou reconhecê-loda de simbolização que se dirige a um outro. É como uma autoridade paterna. Atribuiu-lhe, an-um disparate destinado a evitar a angústia. No tes, o lugar de um irmão mais velho e nãotratamento, o acting out é o sinal de que a manteve com ele relações epistolares íntimas.análise se encontra num impasse em que se Ambos eram judeus e vienenses, ambos provi-revela a incapacidade do psicanalista. Ele não nham de famílias de comerciantes que nuncapode ser interpretado, mas se modifica quando conheceram realmente o sucesso social. Adlero analista o entende e muda de posição transfe- freqüentou o mesmo Gymnasium que Freud erencial. fez estudos de medicina mais ou menos idênti- Quanto à passagem ao ato, trata-se, para cos aos seus. Entretanto, originário de uma co-Lacan, de um “agir inconsciente”, de um ato não munidade de Burgenland, era húngaro, o quesimbolizável pelo qual o sujeito descamba para fazia dele cidadão de um país cuja língua nãouma situação de ruptura integral, de alienação falava. Tornou-se austríaco em 1911 e nuncaradical. Ele se identifica então com o objeto teve a impressão de pertencer a uma minoria ou(pequeno) a*, isto é, com um objeto excluído de ser vítima do anti-semitismo. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 20. Adler, Alfred 7 Segundo de seis filhos, tinha saúde frágil, culo freudiano durante nove anos e dedicou suaera raquítico e sujeito a crises de falta de ar. primeira comunicação, no dia 7 de novembroAlém disso, tinha ciúme do irmão mais velho, de 1906, ao seguinte tema: “As bases orgânicasque se chamava Sigmund, e com quem teve da neurose”. No ano seguinte, apresentou umuma relação de rivalidade permanente, como a caso clínico, depois, em 1908 uma contribuiçãoque teria mais tarde com Freud. Protegido pelo para a questão da paranóia*, e em 1909, aindapai, rejeitado pela mãe e sofrendo por não ser o outra, “A unidade das neuroses”. Foi nessa dataprimogênito, sempre deu mais importância aos que começaram a se manifestar divergênciaslaços de grupo e de fraternidade do que à relação fundamentais entre suas posições e as de Freudentre pais e filhos. Em sua opinião, a família era e seus partidários. Elas constam das Minutas damenos o lugar de expressão de uma situação Sociedade, transcritas por Otto Rank* e edita-edipiana do que um modelo de sociedade. Daí das por Hermann Nunberg*.o interesse que dedicou à análise marxista. Em fevereiro de 1910, Adler fez uma confe- Em 1897, casou-se com Raissa Epstein, fi- rência na Sociedade sobre o hermafroditismolha de um comerciante judeu originário da Rús- psíquico. Afirmava que os neuróticos qualifica-sia*. A jovem pertencia aos círculos da intelli- vam de “feminino” o que era “inferior”, e situa-gentsia e propalava opiniões de esquerda que a va a disposição da neurose* em um sentimentoafastavam do modo de vida da burguesia vie- de inferioridade recalcado desde a primeira re-nense, em que a mulher devia ser antes de tudo lação da criança com a sexualidade*. O surgi-mãe e esposa. Através dela, Adler freqüentou mento da neurose era, segundo ele, a conse-Léon Trotski (1879-1940) e depois, em 1908, qüência de um fracasso do “protesto masculi-foi terapeuta de Adolf Abramovitch Ioffe no”. Do mesmo modo, as formações neuróticas(1883-1927), futuro colaborador deste no jornal derivariam da luta entre o feminino e o mascu-Pravda. lino. Em 1898, publicou sua primeira obra, Ma- Freud começou então a criticar o conjuntonual de higiene para a corporação dos al- das posições de Adler, acusando-o de se apegarfaiates. Nela, traçava um quadro sombrio da a um ponto de vista biológico, de utilizar asituação social e econômica desse ofício no fim diferença dos sexos* em um sentido estritamen-do século: condições de vida deploráveis, te social e, enfim, de valorizar excessivamentecausando escolioses e doenças diversas ligadas a noção de inferioridade. Hoje, encontra-se aao uso de tinturas, salários miseráveis etc. concepção adleriana da diferença dos sexos Como enfatiza o escritor Manès Sperber, seu entre os teóricos do gênero* (gender).notável biógrafo e discípulo durante algum No dia 1º de fevereiro de 1911, Adler voltoutempo, Adler não teve a mesma concepção que à carga, em uma comunicação sobre o protestoFreud da sua judeidade*. Ainda que não fosse masculino, questionando as noções freudianasmovido, como Karl Kraus* e Otto Weininger*, de recalque* e de libido*, julgadas pouco ade-por um sentimento de “ódio de si judeu”, pre- quadas para explicar a “psique desviante e ir-feriu escapar à sua condição. Em 1904, conver- ritada” do eu* nos primeiros anos da vida. Efe-teu-se ao protestantismo com as duas filhas. tivamente, Adler estava edificando uma psico-Essa passagem para o cristianismo não o impe- logia do eu, da relação social, da adaptação, semdiu de continuar sendo, durante toda a vida, um inconsciente* nem determinação pela sexuali-livre-pensador, adepto do socialismo reformis- dade. Assim, distanciava-se do sistema de pen-ta. Observe-se que ele não tinha nenhum laço samento freudiano. Baseava-se nas concepçõesde parentesco com Viktor Adler (1852-1918), desenvolvidas em sua obra de 1907, A compen-fundador do Partido Social-Democrata Aus- sação psíquica do estado de inferioridade dostríaco. órgãos. Em 1902, depois de ficar conhecendo Freud, A noção de órgão inferior já existia na his-começou a freqüentar as reuniões da Sociedade tória da medicina, em que muitos clínicos ob-Psicológica das Quarta-Feiras, fazendo ami- servaram que um órgão de menor resistênciazade com Wilhelm Stekel*. Permaneceu no cír- sempre podia ser o centro de uma infecção. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 21. 8 Adler, IdaAdler transpunha essa concepção para a psico- regularmente, para conferências e permanên-logia, fazendo da inferioridade deste ou daquele cias prolongadas.órgão em um indivíduo a causa de uma neurose Em 1930, recebeu o título de cidadão detransmissível por predisposição hereditária. Se- Viena, mas quatro anos depois, pressentindogundo ele, era assim que apareciam doenças do que o nazismo* dominaria a Europa inteira,ouvido em famílias de músicos ou doenças dos pensou em emigrar para os Estados Unidos. Foiolhos em famílias de pintores etc. durante uma viagem de conferências na Europa, A ruptura entre Freud e Adler foi de uma quando se encontrava em Aberdeen, na Escócia,violência extrema, como mostram as críticas que caiu na rua, vítima de uma crise cardíaca.recíprocas que trocaram trinta e cinco anos de- Morreu na ambulância que o conduzia ao hos-pois. A um interlocutor americano que o ques- pital, a 28 de maio de 1937. Seu corpo foitionava sobre Freud, Adler afirmou, em 1937, cremado no cemitério de Warriston, em Edim-que “aquele de quem nunca fora discípulo era burgo, onde foi celebrada uma cerimônia reli-um escroque astuto e intrigante”. Por sua vez, giosa.informado da morte de seu compatriota, Freud • Alfred Adler, La Compensation psychique de l’étatescreveu estas palavras terríveis em uma céle- d’infériorité des organes (1898), Paris, Payot, 1956; Lebre carta a Arnold Zweig*: “Para um rapaz Tempérament nerveux: éléments d’une psychologiejudeu de um subúrbio vienense, uma morte em individuelle et applications à la thérapeutique (1907), Paris, Payot, 1970 • Les Premiers psychanalystes,Aberdeen é por si só uma carreira pouco comum Minutes de la Société Psychanalytique de Vienne,e uma prova de seu progresso. Realmente, o 1906-1918, 4 vols. (1962-1975), Paris, Gallimard,mundo o recompensou com generosidade pelo 1976-1983 • Manès Sperber, Alfred Adler et la psycho-serviço que ele lhe prestou ao opor-se à psica- logie individuelle (1970), Paris, Gallimard, 1972 • Henri F. Ellenberger, Histoire de la découverte de l’incons-nálise.” Em “A história do movimento psicana- cient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974),lítico” (1914), Freud contou de maneira parcial Paris, Fayard, 1994 • Paul E. Stepansky, Adler dansa história dessa ruptura. Seus partidários humi- l’ombre de Freud (1983), Paris, PUF, 1992.lharam os adlerianos, e estes arrasaram os freu-dianos. Foi preciso esperar pelos trabalhos da ➢ CISÃO; COMUNISMO; FREUDO-MARXISMO; HIS- TORIOGRAFIA; NEOFREUDISMO; PSICOTERAPIA;historiografia* erudita, principalmente os de RÚSSIA.Henri F. Ellenberger* e os de Paul E. Stepansky,para se formar uma idéia mais exata da reali-dade dessa dissidência. Adler, Ida Em 1911, Adler demitiu-se da Sociedade das ➢ BAUER, IDA (CASO DORA).Quarta-Feiras, da qual era presidente desde1910, e deixou a Zentralblatt für Psychoana-lyse*, que dirigia com Stekel. Em 1912, publi- afânisecou O temperamento nervoso, em que expôs o Termo derivado do grego (aphanisis: fazer desapa-essencial da sua doutrina, e um ano depois recer), introduzido por Ernest Jones* em 1927 parafundou a Associação para uma Psicologia In- designar o desaparecimento do desejo* e o medodividual, com ex-membros do círculo freudia- desse desaparecimento, tanto no homem quantono, entre os quais Carl Furtmuller (1880-1951) na mulher.e David Ernst Oppenheim (1881-1943). Foi em seu artigo de 1927 sobre a sexuali- Depois de combater na Grande Guerra, dade feminina*, apresentado no congresso daAdler voltou a Viena, onde pôs suas idéias em International Psychoanalytical Association*prática, fundando instituições médico-psicoló- (IPA) e intitulado “A fase precoce do desenvol-gicas. Reformista, condenou o bolchevismo, vimento da sexualidade feminina”, que Ernestmas sem militar pela social-democracia. Em Jones explicou que o medo da castração* no1926, seu movimento adquiriu dimensão inter- homem assumia, na mulher, a forma de umnacional, notadamente nos Estados Unidos*, medo da separação ou do abandono. Chamouúnico país em que teve uma verdadeira implan- então de afânise ao que existe em comum emtação. Adler começou então a visitar esse país ambos os sexos quanto a esse medo fundamen- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 22. Ajase, complexo de 9tal, que decorre, segundo ele, de uma angústia Em 1925, publicou um livro pioneiro sobreligada à abolição do desejo ou da capacidade de adolescentes, Juventude abandonada, para odesejar. qual Freud redigiu um prefácio em que se lê: “A Em 1963, Jacques Lacan* criticou essa no- criança se tornou o objeto principal da pesquisação, para situar a abolição na vertente de um psicanalítica. Tomou assim o lugar do neuróti-esvaecimento (ou fading) do sujeito*. co, primeiro objeto dessa pesquisa.” Aichhorn mostrava que o comportamento anti-social era• Ernest Jones, Théorie et pratique de la psychanalyse, análogo aos sintomas neuróticos e situava suasParis, Payot, 1969 • Jacques Lacan, O Seminário, livro causas primeiras em “laços libidinais anor-11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise(1964) (Paris, 1973), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, mais” da primeira infância. Militava pela utili-1979. zação, por parte dos educadores, da técnica psicanalítica*, defendendo a idéia de que o pe-➢ CLIVAGEM (DO EU); OBJETO, RELAÇÃO DE; OBJE- dagogo podia tornar-se, para a criança, um paiTO (PEQUENO) a. substituto, no seio de uma transferência* posi- tiva. Em 1932, aposentou-se para trabalhar par- ticularmente. Em 1938, não deixou Viena, co-África mo a maioria dos colegas, porque seu filho fora➢ ANTROPOLOGIA; COLLOMB, HENRI; ETNOPSICA- preso pelos nazistas e deportado como prisio-NÁLISE; FANON, FRANTZ; HISTÓRIA DA PSICANÁ- neiro político para o campo de concentração deLISE; LAFORGUE, RENÉ; MANNONI, OCTAVE; Dachau.SACHS, WULF. Foi por essa razão que aceitou dirigir, entre 1938 e 1944, como “psicólogo clínico”, a for- mação psicanalítica do Instituto Alemão de Pes-Aichhorn, August (1878-1949) quisas Psicológicas e Psicoterapêuticas de Ber- lim, criado por Matthias Heinrich Göring*. De-psicanalista austríaco pois da Segunda Guerra Mundial, participou, Nascido em Viena*, August Aichhorn era com a ajuda de Anna Freud, da reconstrução dafilho de um banqueiro cristão e socialista. Es- WPV e foi nomeado diretor do Internationaltudou construção mecânica, que abandonou pa- Journal of Psycho-Analysis* (IJP).ra ser professor primário e consagrar-se à peda-gogia e aos problemas da delinqüência infantil • August Aichhorn, Jeunesse à l’abandon (Viena,e juvenil. Em 1918, tornou-se diretor da ins- 1925), Toulouse, Privat, 1973 • Sigmund Freud, “Pre- fácio a Juventude abandonada, de Aichhorn” (1925),tituição de Ober-Hollabrunn, situada a noroeste ESB, XIX, 341-8; GW, XIV, 565-7; SE, XIX, 273-5; OC,de Viena, e em 1920 de outra, antes de trabalhar XVII, 161-3 • Kurt Eissler, “August Aichhorn: a biogra-com a municipalidade da cidade. Analisado por phical outline”, in Searchlights on Delinquency, NewPaul Federn*, aderiu à Wiener Psychoanaly- Psychoanalytic Studies, N. York, International Univer-tische Vereinigung (WPV) em 1922 e formou sities Press, IX-XIII • Geoffrey Cocks, La Psychothéra- pie sous le IIIe Reich (1985), Paris, Les Belles Lettres,um pequeno círculo de estudos sobre a delin- 1987 • Élisabeth Young-Bruehl, Anna Freud: uma bio-qüência com Siegfried Bernfeld* e Wilhelm grafia (1988), Rio de Janeiro, Imago, 1992.(Willi) Hoffer (1897-1967). Personagem não-conformista, corpulento, ➢ ALEMANHA; ANNAFREUDISMO; NAZISMO; PSICA-sempre vestido de preto, uma piteira nos lábios, NÁLISE DE CRIANÇAS; SOCIEDADE PSICOLÓGICAtinha tal respeito por Sigmund Freud* que nun- DAS QUARTAS-FEIRAS.ca ousava tomar a palavra nas reuniões da WPV.Durante longos anos, ninguém suspeitou de queestava apaixonado por Anna Freud, filha do Aimée, casomestre. Só revelou a esta o seu segredo às ➢ ANZIEU, MARGUERITE.vésperas de sua morte. De qualquer forma, foigraças a ele que, durante sua juventude emViena, ela descobriu o mundo dos marginais e Ajase, complexo dedos excluídos. ➢ JAPÃO (KOSAWA HEISAKU). Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 23. 10 AlemanhaAlemanha XIX, essa ciência da alma que florescera na esteira do romantismo e de que se nutriam os Sem o advento do nazismo*, que a esvaziou trabalhos freudianos. Thomas Mann* seria umda quase totalidade de seus intelectuais e erudi- dos poucos a reconhecer o valor científico dessetos, a Alemanha teria sido o mais poderoso paísde implantação da psicanálise*. Se fosse neces- freudismo julgado excessivamente literário pe-sário comprovar essa afirmação, bastariam os los psicólogos universitários.nomes de seus prestigiosos fundadores, que se No campo da filosofia, a psicanálise passavanaturalizaram americanos, quando não morre- por ser aquele “psicologismo” denunciado porram antes de poder emigrar: Karl Abraham*, Edmund Husserl desde seus primeiros traba-Max Eitingon*, Otto Fenichel*, Ernst Simmel*, lhos. Assim, ela foi criticada em 1913 por KarlOtto Gross*, Georg Groddeck*, Wilhelm Jaspers (1883-1969) em uma obra monumental,Reich*, Erich Fromm*, Karen Horney*. Psicopatologia geral, que teve um grande papel na gênese de uma psiquiatria fenomenológica, Como em quase todos os países do mundo,as teses freudianas foram consideradas, na Ale- principalmente na França*, em torno de Eugènemanha, como um pansexualismo*, uma “porca- Minkowski*, de Daniel Lagache* e do jovemria sexual”, uma “epidemia psíquica”. Tratada Jacques Lacan*. Em 1937, Alexander Mitscher-de “psiquiatria de dona de casa” pelos meios da lisch* tentou convencer Jaspers a modificar amedicina acadêmica, a psicanálise foi mal acei- sua opinião, mas chocou-se com a hostilidadeta pelos grandes nomes do saber psiquiátrico, e do filósofo, que manteve-se surdo aos seus ar-principalmente por Emil Kraepelin*. Reprova- gumentos.vam o seu estilo literário e a sua metapsicolo- Segundo Ernest Jones*, o ano de 1907 mar-gia*, embora Freud tivesse assimilado em seus cou o início do progresso internacional da psi-trabalhos uma parte importante da nosologia canálise e o fim do “esplêndido isolamento” dekraepeliniana. Entretanto, foi mesmo no campo Freud. Ora, nesse ano, dois assistentes de Eugendo saber psiquiátrico que ela acabou por ser Bleuler* na Clínica do Hospital Burghölzli sereconhecida, graças à ação de alguns pioneiros. juntaram a ele: Max Eitingon e Karl Abraham,Na virada do século XX, eles começaram a futuro organizador do movimento berlinense:descobrir a obra freudiana, praticando a hipno- “Tenho a intenção de deixar Zurique dentro dese* ou interessando-se pela sexologia*; entre um mês, escreveu-lhe em 10 de outubro deeles, Arthur Muthmann (1875-1957). Es- 1907. Com isso, abandono a minha atividadetimulado por Sigmund Freud* e Carl Gustav anterior [...]. Na Alemanha como judeu, na Suí-Jung* a desenvolver atividades psicanalíticas, ça como não-suíço, não consegui ir além de umnão se afastou do método catártico e rompeu posto de assistente. Agora, vou tentar trabalharcom o freudismo* em 1909. Por sua vez, Her- em Berlim como especialista em doenças ner-mann Oppenheim (1858-1918), neurologista vosas e psíquicas.” Sempre à procura, desde ojudeu berlinense, recebeu favoravelmente os fim de sua amizade com Wilhelm Fliess*, detrabalhos clínicos da psicanálise, antes de criti- uma renovação do poder alemão, Freud lhecá-los duramente, como aliás Theodor Ziehen respondeu: “Não é mau para um jovem como(1862-1950), inventor da noção de complexo* você ser empurrado violentamente para a ‘vidae titular da cátedra de psiquiatria de Berlim. ao ar livre’, e sua condição de judeu, aumentan- No nível universitário, a resistência se ma- do as dificuldades, terá, como para todos nós, onifestou de modo mais determinado. Como su- efeito de manifestar plenamente as suas capaci-blinha Jacques Le Rider, “a psicologia alemã dades [...]. Se minha amizade com o doutor W.construíra a sua reputação sobre a pesquisa em Fliess ainda subsistisse, o caminho estaria aber-laboratório, sobre um método científico do qual to para você; infelizmente, esse caminho estáa física e a química eram o modelo ideal, e cujo agora totalmente fechado.”espírito positivo pretendia banir qualquer es- Depois da Suíça*, a Alemanha tornou-sepeculação, reconhecendo apenas um saber sin- assim a segunda “terra prometida” da psicaná-tético: a biologia”. A escola alemã de psicologia lise. No ano seguinte, foi a vez dos Estadosreagiu contra a Naturphilosophie do século Unidos*. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 24. Alemanha 11 Desde a sua chegada, Abraham começou a sem recebido uma formação psicanalítica e queorganizar o movimento. No dia 27 de agosto de acolhessem gratuitamente pacientes de baixa1908, fundou a Associação Psicanalítica de renda.Berlim, com Otto Juliusburger*, Ivan Bloch, Ativado por Simmel e Eitingon, sob a dire-Magnus Hirschfeld*, Heinrich Körber. Esse ção de Abraham, esse programa recebeu o apoiogrupo assumiu uma importância crescente. Três das autoridades governamentais e dos meioscongressos se realizaram em cidades alemãs: acadêmicos. Ernst Freud* preparou locais naNuremberg em 1910, onde foi criada a Interna- Potsdamer Strasse, e a famosa Policlínica abriutional Psychoanalytical Association* (IPA), suas portas a 14 de fevereiro de 1920, ao mesmoWeimar em 1911, do qual participaram 116 tempo que o Berliner Psychoanalytisches Ins-congressistas, Munique em 1913, quando se titut* (BPI).consumou a partida de Jung e seus partidários. Esse Instituto não só permitiria aperfeiçoarUm ano depois, Freud pediu a Abraham que os princípios da análise didática* e formar asucedesse a Jung na direção da IPA. maioria dos grandes terapeutas do movimento A derrota dos impérios centrais modificou o freudiano, mas também serviria de modelo paradestino da psicanálise. Se a Sociedade Psicana- todos os institutos criados pela IPA no mundo.lítica Vienense (WPV) continuou ativa, em ra- Quanto à Policlínica, esta foi um verdadeirozão da presença de Freud e do afluxo dos ame- laboratório para a elaboração de novas técnicasricanos, perdeu toda a sua influência em bene- de tratamento. Em 1930, no seu “Relatóriofício do grupo berlinense. Arruinados, os ana- original sobre os dez anos de atividade do BPI”,listas austríacos emigraram para a Alemanha a Eitingon expôs um balanço detalhado da expe-fim de restabelecer suas finanças, seguidos pe- riência: 94 terapeutas em atividade, 1.955 con-los húngaros, obrigados a fugir do regime dita- sultas, 721 tratamentos psicanalíticos, entre ostorial do almirante Horthy, depois do fracasso quais 363 tratamentos terminados e 111 casosda Comuna de Budapeste. Vencida sem ser de cura, 205 de melhora e apenas 47 fracassos.destruída, a Alemanha podia assim reconquistar A esse sucesso, acrescentavam-se as atividadesum poder intelectual que o antigo reino dos de Wilhelm Reich e Georg Groddeck, que con-Habsburgo perdera. Berlim tornou-se pois, se- tribuíram também para a difusão do freudismogundo as palavras de Ernest Jones, o “coração na Alemanha.de todo o movimento psicanalítico internacio- Centro da divulgação clínica, Berlim conti-nal”, isto é, um pólo de divulgação das teses nuava sendo pioneira de um certo conservado-freudianas tão importante quanto fora Zurique rismo político e doutrinário. E foi Frankfurt queno começo do século. se tornou o lugar da reflexão intelectual, dando Em 1918, Simmel reuniu-se a Abraham e a origem à corrente da “esquerda freudiana”, sobEitingon, seguido dois anos depois por Hanns a influência de Otto Fenichel, e à instituição doSachs*. A Associação Berlinense se vinculara Frankfurter Psychoanalytisches Institut.então à IPA, sob o nome de Deutsche Psychoa- Criado em 1929 por Karl Landauer* e Hein-nalytische Gesellschaft (DPG). Estava aberto o rich Meng*, esse instituto se distinguia do decaminho para a criação de institutos que permi- Berlim por sua colaboração intensa com o Ins-tissem simultaneamente formar terapeutas (“re- titut für Sozialforschung, em cujos locais seproduzir a espécie analítica” como dizia Eitin- instalara, e onde trabalharam notadamentegon), e enraizar os tratamentos psicanalíticos Erich Fromm*, Herbert Marcuse*, Theodorem um terreno social. Desde o início da Socie- Adorno (1903-1969), Max Horkheimer (1895-dade Psicológica das Quarta-Feiras*, já existia 1973). Núcleo fundador da futura Escola dea idéia de uma psicanálise de massa, capaz de Frankfurt, esse instituto de pesquisas sociaistratar dos pobres e despertar as consciências. No fundado em 1923 originou a elaboração daCongresso de Budapeste em 1918, Freud esti- teoria crítica, doutrina sociológica e filosóficamulara esse projeto de transformar ao mesmo que se apoiava simultaneamente na psicanálise,tempo o mundo e as almas. Pensava em criar na fenomenologia e no marxismo, para refletirclínicas dirigidas por médicos que tives- sobre as condições de produção da cultura no Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 25. 12 Alemanhaseio de uma sociedade dominada pela raciona- Em 1930, a DPG tinha 90 membros, nalidade tecnológica. maioria judeus. Já em 1933, estes tomaram o Em 1942, em uma carta iluminada a Leo caminho do exílio. Em 1935, um terço dosLowenthal, Horkheimer explicou claramente a membros da DPG ainda residia na Alemanha,dívida da Escola de Frankfurt para com a teoria entre os quais nove judeus. Tornando-se se-freudiana: “Seu pensamento é uma das Bild- nhores desse grupo, alijado de seus melhoresungsmächte [pedras angulares] sem as quais a elementos, Boehm e Müller-Braunschweig fun-nossa própria filosofia não seria o que é. Nestas daram o seu colaboracionismo sobre a seguinteúltimas semanas, mais uma vez, tenho cons- tese: para não dar aos nazistas um pretextociência da sua grandeza. Muito se disse, como qualquer para proibir a psicanálise, bastava an-sabemos, que o seu método original correspon- tecipar as suas ordens, excluindo os judeus dadia essencialmente à natureza da burguesia DPG, disfarçando essa exclusão de demissãomuito refinada de Viena, na época em que ele voluntária. Deu-se a essa operação o nome defoi concebido. Claro que isso é totalmente falso “salvamento da psicanálise”.em geral, mas mesmo que houvesse um grão de Ernest Jones, presidente da IPA, aceitou essaverdade, isso em nada invalidaria a obra de política, e em 1935, presidiu oficialmente aFreud. Quanto maior for uma obra, mais estará sessão da DPG durante a qual os nove membrosenraizada em uma situação histórica concreta.” judeus foram obrigados a se demitir. Um único Única instituição alemã a difundir cursos na não-judeu recusou essa política: chamava-seuniversidade, o Instituto Psicanalítico de Frank- Bernhard Kamm e deixou a Sociedade em soli-furt teria um belo futuro. Não formando didatas, dariedade aos excluídos. Originário de Praga, acabava de aderir à DPG. Tomando imediata-mostrou-se mais aberto aos debates teóricos do mente o caminho do exílio, instalou-se em To-que seu análogo berlinense. peka, no Kansas, com Karl Menninger*. Em 1930, graças à intervenção do escritor Como afirmou muito bem Regine LockotAlfons Paquet (1881-1944), a cidade concedeu em um artigo de 1995, Freud qualificou dea Freud o prêmio Goethe. Em seu discurso, lido “triste debate” todo esse caso. Mas, em umapor sua filha Anna, Freud prestou homenagem carta a Eitingon, de 21 de março de 1933,à Naturphilosophie, símbolo do laço espiritual mostrou-se mais preocupado com os “inimigosque unia a Alemanha à Áustria, e à beleza da internos” da psicanálise, notadamente os adle-obra de Goethe, segundo ele próxima do eros rianos e Wilhelm Reich. Assim, concentrou to-platônico encerrado no âmago da psicanálise. dos os seus ataques contra Harald Schultz- Depois da ascensão de Hitler ao poder, Mat- Hencke, julgado mais perigoso por suas po-thias Göring, primo do marechal, decidido a sições adlerianas do que por seu engajamentodepurar a doutrina freudiana de seu “espírito pró-nazista. Esse erro de apreciação foi expres-judaico”, pôs em prática o programa de “ariani- so com toda a liberdade no relato que Boehmzação da psicanálise”, que previa a exclusão dos fez, em agosto de 1934, de uma visita a Freud:judeus e a transformação do vocabulário. Rapi- “Antes de nos separarmos, Freud expressoudamente, conquistou as boas graças de alguns dois desejos relativamente à direção da Socie-freudianos, dispostos a se lançarem nessa aven- dade [DPG]: primeiro, Schultz-Hencke nuncatura, como Felix Boehm* e Carl Müller-Braun- deveria ser eleito para o comitê diretor da nossaschweig*, aos quais se reuniram depois Harald Sociedade. Eu lhe dei minha palavra no sentidoSchultz-Hencke* e Werner Kemper*. Nenhum de jamais participar de uma sessão com ele.deles estava engajado na causa do nazismo. Segundo: ‘Livrem-me de W. Reich.’”Membros da DPG e do BPI, um freudiano Em 1936, Göring realizou enfim o seu so-ortodoxo, o segundo adleriano e o terceiro neu- nho. Criou o Deutsche Institut für Psycholo-tro, simplesmente tinham ciúme de seus colegas gische Forschung (Instituto Alemão de Pesqui-judeus. Assim, o advento do nacional-socialis- sa Psicológica e Psicoterapia), logo chamado demo foi para eles uma boa oportunidade de fazer Göring Institut, no qual se reuniram freudianos,carreira. junguianos e independentes. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 26. Alemanha 13 Longe de se contentar com essa forma de Leonardo Conti (1900-1945), primeiro presi-colaboração, Felix Boehm foi a Viena, em dente dos médicos do Reich, depois de todas as1938, para convencer Freud da necessidade do organizações de saúde do partido e do Estado,“salvamento” da psicanálise na Alemanha. De- das quais, aliás, dependia o Göring Institut. Empois de escutá-lo durante um longo tempo, o outubro de 1939, ocorreu o recenseamento dosmestre, furioso, levantou-se e saiu do recinto. hospícios e asilos, que foram classificados emDesaprovava a tese do pretenso “salvamento”, três grupos. Alguns meses depois, em janeiroe desprezava a baixeza de seus partidários. To- de 1940, em Berlim, na antiga prisão de Bran-davia, recusou-se a usar sua autoridade junto a denburg-Havel, os especialistas em “eutanásia”Jones e não interveio para evitar que a IPA começaram a exterminar esses doentes usandoentrasse na engrenagem da colaboração. Era um gás, o monóxido de carbono.tarde demais, pensava ele. Jones aplicara a sua Depois da vitória dos Aliados, o Institutopolítica a partir de uma posição, inicialmente Göring e o BPI foram reduzidos a cinzas. Sem-compartilhada por Freud, que consistia em pri- pre presidente da IPA e gozando do apoio devilegiar a defesa de um freudismo nu e cru John Rickman*, Jones ajudou os colaboracio-(contra os “desvios” adleriano ou reichiano), nistas a reintegrar-se à IPA. A Müller-Braun-em detrimento de uma recusa absoluta de qual- schweig e a Boehm, confiou a reconstrução daquer colaboração nas condições oferecidas por antiga DPG, e a Kemper a missão de desenvol-Boehm e Müller-Braunschweig. ver o freudismo no Brasil*. Como em 1933, Ao longo de toda a guerra, cerca de 20 mostrou-se mais preocupado em restaurar afreudianos prosseguiram suas atividades tera- ortodoxia em matéria de análise didática do quepêuticas sob a égide do Instituto Göring, con- em proceder à exclusão de antigos colaboracio-tribuindo assim para destruir a psicanálise, da nistas. Assim, validou posteriormente a tese doqual se tinham tornado donos. Trataram de pa- suposto “salvamento”, oferecendo à geração*cientes comuns, provenientes de todas as clas- seguinte uma visão apologética do passado.ses sociais e atingidos por simples neuroses* ou Mas como a Alemanha devia ser punida pelospor doenças mentais: psicoses*, epilepsias, re- seus erros, foi posta em quarentena pela IPA atétardos — com a exceção dos judeus, excluídos 1985, data em que alguns historiadores come-de qualquer tratamento e enviados imediata- çaram a publicar trabalhos críticos, mostrandomente para campos de concentração. Boehm as conseqüências desastrosas da política de Jo-encarregou-se pessoalmente da “perícia” dos nes e revelando o passado dos cinco principaishomossexuais e Kemper da “seleção” dos neu- responsáveis pela “arianização” da psicanálise.róticos de guerra. Johannes Schultz* “experi- Em 1950, acreditando escapar ao opróbriomentou” nesse quadro os princípios de seu trei- que pesava sobre a DPG, Müller-Braunschweignamento autógeno. se separou de Boehm para criar uma nova so- Nas fileiras da extinta DPG, John Rittmeis- ciedade, a Deutsche Psychoanalytische Verein-ter*, August Watermann*, Karl Landauer* e Sa- igung (DPV). Esta foi integrada à IPA no anolomea Kempner* foram assassinados pelos na- seguinte (a DPG nunca conseguiu isso), en-zistas, como também vários outros terapeutas quanto Schultz-Hencke desenvolvia a sua pró-húngaros ou austríacos que não conseguiram pria doutrina: a neopsicanálise. A DPG e a DPVexilar-se. continuaram a propagar a mesma idealização Enquanto se desenrolavam os “tratamentos” do passado, a fim de justificar a antiga políticado Instituto Göring, a direção do Ministério da de colaboração.Saúde do Reich se encarregava de aplicar aos A partir de 1947, só Alexander Mitscherlichdoentes mentais “medidas de eutanásia”. Após conseguiu salvar a honra do freudismo alemãoo episódio da substituição de Ernst Kretschmer* e da DPV, criando a revista Psyche, fundandopor Carl Gustav Jung à frente do Allgemeine em Frankfurt o Instituto Freud e obrigando asÄrtzliche Gesellschaft für Psychotherapie novas gerações a um imenso trabalho de reme-(AAGP), a psiquiatria alemã sofrera a mesma moração e lembrança. Desterrada de sua antigaarianização que a psicanálise, sob a direção de capital, a psicanálise pôde renascer na Repúbli- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 27. 14 Alexander, Franzca Federal, ao passo que, na Alemanha Oriental, nées brunes. La Psychanalyse sous le IIIe Reich, textos traduzidos e apresentados por Jean-Luc Evard, Paris,era condenada como “ciência burguesa”. Confrontation, 1984 • On forme des psychanalystes. Assim, a cidade de Frankfurt esteve na van- Rapport original sur les dix ans de l’Institut Psychana-guarda do movimento psicanalítico alemão du- lytique de Berlin, apresentação de Fanny Colonomos,rante a segunda metade do século. Voltando a Paris, Denoël, 1985 • Chaim S. Katz (org.), Psicanálise e nazismo, Rio de Janeiro, Taurus, 1985 • Geoffreydar vida à sua escola, Adorno e Horkheimer Cocks, La Psychothérapie sous le IIIe Reich (Oxford,desempenharam um grande papel, com Mit- 1985), Paris, Les Belles Lettres, 1987 • Regine Lockot,scherlich, nesse desenvolvimento, do qual Erinnern und Durcharbeiten, Frankfurt, Fischer, 1985;emergiu uma nova reflexão clínica e política “Mésusage, disqualification et division au lieu d’expia-sobre a sociedade alemã do pós-nazismo, assim tion”, Topique, 57, 1995, 245-57 • Ici la vie continue de manière surprenante, seleção de textos traduzidos porcomo trabalhos eruditos: os de Ilse Grubrich-Si- Alain de Mijolla, Paris, Association Internationale d’His-mitis, por exemplo, a melhor especialista em toire de la Psychanalyse (AIHP), 1987.manuscritos de Freud. Com doze institutos deformação, distribuídos pelas principais cidades ➢ COMUNISMO; ESCANDINÁVIA; FREUDO-MARXIS-(Hamburgo, Freiburg, Tübingen, Colônia etc.) MO; HUNGRIA; ITÁLIA; JUDEIDADE; LAFORGUE, RE-e cerca de 800 membros, a DPV é hoje uma NÉ; MAUCO, GEORGES.poderosa organização freudiana. Entretanto, desde 1970, como por toda aparte, o surgimento de múltiplas escolas de Alexander, Franz (1891-1964)psicoterapia* contribuiu para fender as posições médico e psicanalista americanoda psicanálise. Além disso, asfixiada por um De origem húngara, Franz Alexander emi-sistema médico que permitia às caixas de assis- grou para Berlim em 1920, quando o regime dotência médica reembolsarem os tratamentos, almirante Horthy obrigou a maioria dos psica-sob condição de uma “perícia” prévia dos casos, nalistas a deixar o país. Conhecia bem a Alema-ela se banalizou e tornou-se uma prática como nha*, onde se iniciara na filosofia, seguindo osas outras, pragmática, esclerosada, rotineira e ensinamentos de Husserl. Em Budapeste, es-limitada a um ideal técnico de cura rápida. tudou medicina e com Hanns Sachs*, vindo deNessa data, Mitscherlich pensou que ela estava Viena*, fez a sua análise didática*, tendo sido odesaparecendo na Alemanha. primeiro aluno do prestigioso Instituto Psicana- Alguns anos depois, a obra de Lacan, im- lítico de Berlim (Berliner Psychoanalytischespregnada de hegelianismo e de heideggerianis- Institut*). Tornando-se professor, formaria, co-mo, apareceu no cenário universitário alemão, mo didata ou supervisor, muitos representantesessencialmente nos departamentos de filosofia. da história do freudismo*, entre os quais CharlesNo plano clínico, o lacanismo* nunca conseguiu Odier*, Raymond de Saussure*, Marianneimplantar-se, a não ser em pequenos grupos Kris*. Seria também, no início dos anos 30, omarginais, compostos de não-médicos e sem analista de Oliver Freud*, filho de Sigmundrelação com os grandes institutos da IPA. Freud*. Logo de saída, aceitou a segunda tópica*,• Sigmund Freud, “A história do movimento psicanalíti-co” (1914), ESB, XIV, 16-88; GW, X, 44-113; SE, XIV, assim como a noção de pulsão de morte* e7-66; Paris, Gallimard, 1991 • Sigmund Freud e Karl sempre manifestou grande interesse pela crimi-Abraham, Correspondance, 1907-1926 (Frankfurt, nologia*. Tinha a habilidade de “encenar” os1965), Paris, Gallimard, 1969 • Martin Jay, L’Imagina- conceitos freudianos, como na sua comunica-tion dialectique. Histoire de l’École de Francfort, 1923- ção de 1924, no congresso da International Psy-1950 (Boston, 1973), Paris, Payot, 1977 • HannahDecker, Sigmund Freud in Germany. Revolution and choanalytical Association* (IPA) de Salzburgo,Reaction in Science, 1893-1907, N. York, New York na qual explicou o problema da neurose* emInternational Universities Press, 1977 • Jacques Le termos de “fronteira”. Comparou o recalque* daRider, “La Psychanalyse en Allemagne” in Roland Jac- pulsão* proveniente do isso* a uma mercadoriacard (org.), Histoire de la psychanalyse, vol.2, Paris,Hachette, 1982, 107-43 • Eugen Kogon, Hermann proibida e barrada na fronteira de um Estado: oLangbein, Adalbert Rukerl, Les Chambres à gaz, secret país do eu*. O supereu* era representado comd’État (Frankfurt, 1983), Paris, Minuit, 1984 • Les An- os traços de um fiscal aduaneiro pouco inteli- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 28. Allendy, René 15gente e corruptível, e o sintoma neurótico era diana e a questionar a duração canônica dosassimilado a um contrabandista que subornava tratamentos e das sessões, o que lhe valeuo fiscal para atravessar a fronteira. conflitos com a American Psychoanalytic As- Essa evocação não deixava de ter uma rela- sociation (APsaA). Em 1956, participou, comção com o destino do próprio Alexander, ho- Roy Grinker, da criação da American Academymem dinâmico, adepto das mudanças e das tra- of Psychoanalysis (AAP), mais aberta do que avessias de territórios. Viajante incansável, logo APsaA a todas as novidades terapêuticas.pensou em emigrar para os Estados Unidos*. Em 1950, no primeiro congresso da As-Depois de uma primeira permanência e de uma sociação Mundial de Psiquiatria, organizadopassagem por Boston, instalou-se definitiva- por Henri Ey* em Paris, declarou: “A psicaná-mente em Chicago, entre 1931 e 1932, enquan- lise pertence a um passado em que ela teve queto Freud, com quem manteve uma correspon- lutar contra os preconceitos de um mundo pou-dência (ainda não publicada), procurava retê-lo co preparado para recebê-la [...]. Hoje, pode-na Europa, mesmo desconfiando dele: “Gosta- mos permitir-nos divergir entre nós, porque aria de ter uma confiança inabalável em Alexan- pesquisa e o progresso só são possíveis em umder, escreveu a Max Eitingon* em julho de 1932, clima de liberdade.”mas não consigo. Sua simplicidade real ou si- • Franz Alexander, The Scope of Psychoanalysis. Se-mulada o afasta de mim, ou então não superei lected Papers, 1921-1961, N. York, Basic Books, 1961;minha desconfiança em relação à América.” Medicina psicossomática (Paris, 1967), P. Alegre, Artes Em Chicago, Alexander criou um instituto Médicas, 1989 • Franz Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grotjahn (orgs.), A história da psicanálisede psicanálise (Chicago Institute for Psychoa- através de seus pioneiros (N. York, 1956), Rio denalysis), tão dinâmico quanto o de Berlim, e Janeiro, Imago, 1981 • Léon J. Saul, “Franz Alexander,animou-o até o fim de seus dias. A psicanálise*, 1891-1964”, Psychoanalytic Quarterly, vol.XXXIII,pela qual nutria verdadeira paixão, foi a princi- 1964, 420-3.pal atividade de sua vida. Curioso a respeito de ➢ BETTELHEIM, BRUNO; CRIMINOLOGIA; KOHUT,tudo, filosofia, física, teatro e literatura, foi HEINZ; LANGER, MARIE; MITSCHERLICH, ALEXAN-assim o iniciador de uma das principais cor- DER; PSICOSSOMÁTICA, MEDICINA; TÉCNICA PSICA-rentes do freudismo americano, conhecida sob NALÍTICA.o nome de Escola de Chicago. Essa corrente, onde se encontrava a inspira-ção ferencziana da técnica ativa, visava trans- alfa, funçãoformar o tratamento clássico em uma terapêu- ➢ BION, WILFRED RUPRECHT.tica da personalidade global. Dedicando-se aoproblema da úlcera gastro-duodenal, Alexanderficara impressionado com o seu freqüente apa- Allendy, René (1889-1942)recimento nas pessoas ativas. A partir daí, mos- médico e psicanalista francêstrou que na origem da doença encontra-se uma A obra escrita desse médico, que foi emnecessidade de ternura nascida na infância, que 1926 um dos doze fundadores da Sociedadese opõe ao eu e se traduz pela emergência de Psicanalítica de Paris (SPP), é tão consideráveluma intensa agressividade. Em suma, quanto quanto a sua personalidade é estranha e atémais a atividade é importante, mais o sentimen- esquecida. Assinou cerca de 200 artigos e 20to infantil inconsciente se desenvolve. Este se obras sobre temas tão diversos quanto a influên-traduz por uma demanda de alimento, que acar- cia astral, os querubins e as esfinges, a teoriareta uma secreção gástrica excessiva, seguida dos quatro temperamentos, a grande obra dosde úlcera. Diante desses sintomas, Alexander alquimistas, as modalidades atmosféricas, a tá-preconizou a associação de duas terapêuticas: bua de esmeralda de Hermes Trismegisto, ouma ligava-se à exploração do inconsciente e tratamento da tuberculose pulmonar, a lycosaprivilegiava a palavra; outra, orgânica, tratava tarentula, o sonho* etc.da úlcera. Essa posição o levou a inventar uma Defendeu sua tese de medicina em novem-medicina psicossomática* de inspiração freu- bro de 1912, oito dias antes de se casar com Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 29. 16 AmbulatoriumYvonne Nel Dumouchel, de quem o poeta An- • René Allendy, Journal d’un médecin malade, ou six mois de lutte contre la mort, Paris, Denoël e Steele,tonin Artaud faria, em sua correspondência, 1944 • Élisabeth Roudinesco, História da psicanáliseuma de suas “cinco mães adotivas”. Atingido na França, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorgepor gases de combate durante a Primeira Guerra Zahar, 1989 • Deirdre Bair, Anaïs Nin. Biographie (N.Mundial, reconhecido depois como tuberculo- York, 1995), Paris, Stock, 1996.so, Allendy decidiu curar-se por conta própria. ➢ FRANÇA.Em 1920, tornou-se membro titular da Socie-dade Francesa de Homeopatia e, três anos de-pois, ficou conhecendo René Laforgue*, com Ambulatoriumquem fez sua análise didática*. Este o introduziu ➢ HITSCHMANN, EDUARD.no serviço do professor Henri Claude* no Hos-pital Sainte-Anne. Allendy praticamente não formou analistas Américano seio da SPP, mas seu consultório e seu pala- ➢ AMERICAN PSYCHOANALYTIC ASSOCIATION;cete do XVI arrondissement de Paris foram ANNAFREUDISMO; ARGENTINA; ASSOCIAÇÃO BRA-freqüentados por escritores e artistas, em es- SILEIRA DE PSICANÁLISE; ASSOCIATION MONDIALEpecial René Crevel (1900-1935) e Anaïs Nin DE PSYCHANALYSE; BRASIL; CANADÁ; EGO PSY-(1903-1977), de quem foi amante. Esta contou CHOLOGY; ESTADOS UNIDOS; FEDERAÇÃO PSICA-em seu Diário apenas alguns fragmentos desse NALÍTICA DA AMÉRICA LATINA; FREUDISMO; HIS-incrível tratamento psicanalítico que durou um TÓRIA DA PSICANÁLISE; HISTORIOGRAFIA; IGREJA;ano, em 1932-1933, em condições particular- KLEINISMO; LACANISMO; SELF PSYCHOLOGY.mente transgressoras. E só em 1995 a verdadefoi conhecida, graças a Deirdre Bair, sua bió-grafa, que reconstituiu detalhadamente o que foi American Psychoanalyticessa relação. Association (APsaA) Se Allendy foi seduzido por essa mulher, que (Associação Psicanalítica Americana)exibia os seios durante as sessões, beijou-a le- Fundada por Ernest Jones* em 1911, a Ame-vemente nas faces quando ela decidiu inter- rican Psychoanalytic Association (APsaA) é aromper o tratamento, provocando o seu furor. única associação regional (regional as-Assim, ela retornou e a análise se transformou sociation) da International Psychoanalyticalentão em sessões de masturbação comparti- Association* (IPA). Reúne sociedades psicana-lhada, antes que, em um hotel, Allendy se en- líticas ditas “filiadas” (affiliate societies), dastregasse com ela a práticas sadomasoquistas. quais dependem os institutos de formação (trai- ning institutes). Essas sociedades são reco- Foi depois dessa “análise” que Anaïs Nin nhecidas pela IPA através de sua filiação àdeitou-se com o pai, Joaquin Nin, que excla- APsaA. Somam um total de quarenta, havendomou, no momento do ato sexual: “Tragam aqui entre elas cinco grupos de estudos (studyFreud e todos os psicanalistas. O que diriam groups). A elas se juntam 19 institutos dis-disto?” Quando ela contou a cena a Allendy, tribuídos pelas principais cidades dos Estadoseste ficou horrorizado e lhe relatou todo tipo de Unidos* e quatro sociedades norte-americanashistórias de incesto* que terminaram em tragé- provisórias, que não fazem parte da APsaA masdia. Concluiu a sessão dizendo à sua “paciente” estão diretamente ligadas à IPA: o Institute forque ela era “um ser contra a natureza”. Ela Psychoanalytic Training and Research, o Losrespondeu orgulhosamente que o sentimento Angeles Institute and Society for Psychoanaly-que tinha pelo pai era um amor “natural”. De- tic Studies, The New York Freudian Society e opois dessa farsa sinistra, Anaïs Nin foi consultar Psychoanalytic Center of California.Otto Rank*. Decorridos setenta anos desde sua fundação, No fim da vida, Allendy contou sua própria a APsaA continua a ser a maior potência freu-agonia, de modo comovedor, no Diário de um diana da IPA, com cerca de 3.500 psicanalistasmédico doente, obra póstuma. para 263 milhões de habitantes, isto é, pouco Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 30. análise didática 17mais de um terço do efetivo global da IPA, ou análise didáticauma densidade de 13 psicanalistas por milhão al. Lehranalyse ou didaktische Analyse; esp. aná-de habitantes. A eles se somam os psicanalistas lisis didáctico; fr. analyse didactique; ing. trainingnorte-americanos de todas as tendências que analysisnão fazem parte da IPA, e que são aproximada- Termo empregado a partir de 1922 e adotado, emmente oito a nove mil. 1925, pela International Psychoanalytical Associa- Além da APsaA, existem outras duas gran- tion* (IPA), para designar a psicanálise* de quemdes organizações que não têm o estatuto de se destina à profissão de psicanalista. Trata-se deassociações regionais: a Federação Européia de uma formação obrigatória.Psicanálise* (FEP), que vem progredindo gra- Foi Carl Gustav Jung* quem primeiro teveças à reconstrução da psicanálise, depois de a idéia, trabalhando com Eugen Bleuler* na1989, nos antigos países comunistas, e a Fede- Clínica do Burghölzli, de “tratar os alunos co-ração Psicanalítica da América Latina (FE- mo pacientes”, e foi também ele, como sublinhaPAL), ainda em expansão, cada qual composta Sigmund Freud* num artigo de 1912, quempor cerca de três mil membros. “ressaltou a necessidade de que toda pessoa que• Roster. The International Psychoanalytical As- quisesse praticar a análise se submetesse antessociation Trust, 1996-1997. a essa experiência, ela mesma, com um analista qualificado”.➢ ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICANÁLISE; AS- No começo do século, Freud adquiriu oSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE; AUS- hábito de tratar através da psicanálise alguns deTRÁLIA; CANADÁ; FREUDISMO; HISTÓRIA DA PSICA-NÁLISE; ÍNDIA; JAPÃO; KLEINISMO. seus discípulos que apresentavam distúrbios psíquicos, como Wilhelm Stekel*, por exem- plo. Jung fez o mesmo na clínica de Zurique,amor de transferência onde alguns internos que tinham ido tratar-se➢ TRANSFERÊNCIA. adotaram posteriormente o método de trata- mento que os havia “curado”, preocupados em ajudar seus semelhantes. Por outro lado, váriosanaclítica, depressão dos grandes pioneiros da psicanálise, de Poulal. Anlehnungsdepression; esp. depressión anaclí- Bjerre* a Victor Tausk*, passando por Herminetica; fr. dépression anaclitique; ing. anaclitic de- von Hug-Hellmuth* e até Mélanie Klein*, erampression afetados pelos mesmos males psíquicos que seus pacientes e, tal como Freud com sua auto-Termo criado por René Spitz* em 1945, para desig- análise*, experimentaram os princípios da in-nar uma síndrome depressiva que afeta a criançaprivada da mãe depois de ter tido uma relação vestigação do inconsciente*. Nesse sentido,normal com ela durante os primeiros meses de Henri F. Ellenberger* teve razão em observarvida. que a análise didática derivou, simultaneamen- A depressão anaclítica distingue-se do hos- te, da “doença iniciática” que confere ao xamãpitalismo*, outro termo cunhado por Spitz para seu poder de cura e da “neurose criadora”, taldesignar, dessa vez, a separação duradoura en- como a vivenciaram e descreveram os grandestre a mãe e o filho, gerada por uma estada pioneiros da descoberta do inconsciente.prolongada deste último no meio hospitalar, e O princípio da análise didática enraizou-seque acarreta distúrbios profundos, às vezes ir- espontaneamente no cerne da Sociedade Psico-reversíveis ou de natureza psicótica. A depres- lógica das Quartas-Feiras*, e depois foi sendosão anaclítica pode desaparecer quando a crian- elaborado conforme as reflexões do movimentoça se reencontra com a mãe. sobre a contratransferência*. Não havendo ne- Na literatura psicanalítica inglesa e norte- nhuma regra estabelecida, Freud e seus discípu-americana, o adjetivo “anaclítico” é equiva- los não hesitavam em aceitar em análise aslente ao apoio*. pessoas íntimas (amigos, amantes, concubinas) ou os membros de uma mesma família (mu-➢ APOIO. lheres, filhos, sobrinhos) e em misturar estrei- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 31. 18 análise didáticatamente as relações amorosas e profissionais. Essa crise da formação psicanalítica marcouFoi assim que Jung tornou-se amante de Sabina todos os debates da segunda metade do séculoSpielrein*, Freud analisou sua própria filha e se XX e esteve na origem de numerosos conflitosviu implicado num incrível imbróglio com Ruth dentro do movimento freudiano, desde as Gran-Mack-Brunswick*, Sandor Ferenczi* foi ana- des Controvérsias*, ao longo das quais se opu-lista de sua mulher e da filha desta, por quem se seram kleinianos e annafreudianos, até a cisão*apaixonou, e Erich Fromm* tornou-se terapeuta francesa de 1963, que levou Jacques Lacan* ada filha de Karen Horney*, de quem tinha sido deixar a IPA.companheiro. No interior da legitimidade freudiana, tanto Em 1919, no congresso da IPA em Budapes- nos Estados Unidos* quanto na Grã-Bretanha*te, Hermann Nunberg* propôs pela primeira ou na Argentina*, inúmeros psicanalistas con-vez que uma das condições exigidas para o testaram a rigidez burocrática das regras da aná-tornar-se analista fosse ter feito análise. Mas lise didática, dentre eles Siegfried Bernfeld*,Otto Rank*, apoiado por Ferenczi, opôs-se a Donald Woods Winnicott*, Masud Khan*, Ma-que a moção fosse votada. Entretanto, a idéia rie Langer* etc.seguiu seu curso e, em 1920, a criação do famo-so Berliner Psychoanalytisches Institut* (Ins- • Sigmund Freud, “As perspectivas futuras da terapiatituto Psicanalítico de Berlim, ou BPI), integra- psicanalítica” (1910), ESB, XI, 127-40; GW, VIII, 104-do à Policlínica do mesmo nome, desempenhou 15; SE, XI, 139-51; in La Technique psychanalytique, Paris, PUF, 1953, 23-42; “Recomendações aos médi-um papel decisivo na instauração dos princípios cos que exercem a psicanálise” (1912), ESB, XII, 149-da análise didática no seio da IPA. Assim, em 63; GW, VIII, 376-87; SE, XII, 109-20; ibid., 61-71,1925, no Congresso de Bad-Homburg, ela foi “Análise terminável e interminável” (1937), ESB, XXIII,tornada obrigatória por Max Eitingon* para 247-90; GW, XVI, 59-99; SE, XXIII, 209-53; in Résul- tats, idées, problèmes, II, Paris, PUF, 1985, 231-69 •todas as sociedades psicanalíticas, juntamente On forme des psychanalystes. Rapport original sur lescom a supervisão*. dix ans de l’Institut Psychanalytique de Berlin, apresen- A partir dessa data, começaram a ser enca- tação de Fanny Colonomos, Paris, Denoël, 1985 • Maxrados como transgressões os costumes anárqui- Eitingon, “Allocution au IXe Congrès Psychanalytique”cos da época anterior. Aos olhos dos dirigentes (1925), in Moustapha Safouan, Philippe Julien e Chris- tian Hoffmann, Malaise dans l’institution, Estrasburgo,da IPA, a instauração de regras padronizadas Arcanes, 1995, 105-13 • Sandor Ferenczi, “Elastici-deveria permitir que se socializassem as rela- dade da técnica psicanalítica” (1928), in Psicanálise IV,ções entre professor e aluno e que fossem afas- Obras completas, 1927-1933 (Paris, 1982), S. Paulo,tadas as práticas de idolatria e imitação de Martins Fontes, 1994, 25-34; “O processo da formaçãoFreud. Ora, ao longo dos anos, a IPA se havia psicanalítica” (1928), ibid., 209-14; “O problema do fim da análise” (1928), ibid., 15-24 • Michael Balint, “Atransformado num vasto aparelho atormentado propos du système de formation psychanalytique”pelo culto da personalidade. Em 1948, Michael (1948), in Amour primaire et technique psychanalyti-Balint* comparou o sistema de formação analí- que, Paris, Payot, 1972, 285-308 • Siegfried Bernfeld,tica às cerimônias iniciáticas: “Sabemos que o “On psychoanalytic training”, The Psychoanalytic Quarterly, 31, 1962, 453-82 • Edward D. Joseph eobjetivo geral de todos os ritos de iniciação é Daniel Widlöcher (orgs.), L’Identité du psychanalyste,forçar o candidato a se identificar com seu ini- Paris, PUF 1979 • Serge Lebovici e Albert J. Solnitciador, a introjetar o iniciador e seus ideais, e a (orgs.), La Formation du psychanalyste, Paris, PUF,construir, a partir de suas identificações*, um 1982 • Élisabeth Roudinesco, História da psicanálisesupereu* forte que o domine pela vida afora.” na França, 2 vols. (Paris, 1982, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989, 1988; Jacques Lacan. Esboço de Reencontrou-se assim, na análise didática, o uma vida, história de um sistema de pensamento (Pa-poder de sugestão* que Freud havia banido da ris, 1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994 •prática da psicanálise. Em conseqüência disso, Moustapha Safouan, Jacques Lacan et la question deseus herdeiros passaram a correr o risco de se la formation des analystes, Paris, Seuil, 1983; Le Trans-transformar em discípulos devotos de mestres fert et le désir de l’analyste, Paris, Seuil, 1988 • Ernst Falzeder, “Filiations psychanalytiques: la psychanalysemedíocres, quer por se tomarem por novos pro- prend effet”, in André Haynal (org.), La Psychanalyse:fetas, quer por aceitarem em silêncio a esclerose cent ans déjà (Londres, 1994), Genebra, Georg, 1996,institucional. 255-89. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 32. análise existencial 19➢ ALEMANHA; ÉCOLE FREUDIENNE DE PARIS; Sφren Kierkegaard (1813-1855) e do antigoPASSE; SACHS, HANNS; TÉCNICA DA PSICANÁLISE; tratamento anímico valorizado pelos pastoresTRANSFERÊNCIA. protestantes, considera a neurose* um “mundo inautêntico”, do qual o doente deve conscienti- zar-se através do encontro com um terapeuta. Aanálise direta segunda, inventada por Ludwig Binswanger aal. Direkte Analyse; esp. análisis directo; fr. analyse partir das teses de Edmund Husserl (1859-directe; ing. direct analysis 1938) e Martin Heidegger (1889-1976), tomaMétodo de psicoterapia* de inspiração kleiniana, por objeto a estrutura da existência individualinventado pelo psiquiatra norte-americano John na neurose e na psicose*, a fim de estudar oRosen para o tratamento das psicoses*. devir do tempo, do espaço e da representação Foi no contexto da evolução da técnica psi- em cada sujeito.canalítica*, e em seguida a grandes inovações Entre os adeptos franceses da análise exis-propostas pelos diferentes discípulos de Sig- tencial encontramos Eugène Minkowski*, omund Freud*, que se criou esse método “ativo”, Jean-Paul Sartre de O ser e o nada e o jovempelo qual o analista intervém de maneira direti- Michel Foucault (até 1954). Quanto a Jacquesva, e às vezes violenta, para fazer interpretações Lacan*, se não adotou a análise existencial,ao paciente, ocupando na transferência* a posi- efetivamente passou pela fenomenologia no en-ção de uma mãe idealizada ou de uma “boa tre-guerras, antes de refundir filosoficamente amãe”. Trata-se de compensar o eu* fraco do obra freudiana com base em outros postulados.sujeito* através de um ambiente linguageiroque remeta à situação pré-natal, a fim de superar Na Áustria, é a teoria personalista de Igoras deficiências e carências da relação arcaica Caruso*, baseada na idéia da “psicologia pro-com a mãe. funda”, que melhor representa a corrente da psicoterapia existencial. A ela vem somar-se a• John Rosen, L’Analyse directe (N. York, 1953), Paris, logoterapia (terapia pela vontade de sentido) doPUF, 1960. psiquiatra austríaco Viktor Frankl, que rejeita a➢ BION, WILFRED RUPRECHT; BORDERLINE; ES- doutrina freudiana da pulsão* e do isso*, pri-QUIZOFRENIA; INVEJA; OBJETO (BOM E MAU); PO- vilegiando um inconsciente* espiritual ou exis-SIÇÃO DEPRESSIVA/POSIÇÃO ESQUIZO-PARA- tencial, isto é, a chamada parte “nobre” doNÓIDE; SELF PSYCHOLOGY. psiquismo (o eu*, o consciente*). Na Grã-Bre- tanha*, é essencialmente em Ronald Laing* que encontramos a temática existencial.análise existencial (Daseinanalyse)Termo cunhado na língua alemã em 1924, pelo • Jean-Paul Sartre, O ser e o nada (Paris, 1943),psiquiatra Jakob Wyrsch, para designar o método Petrópolis, Vozes, 1997 • Ludwig Binswanger, Le Rêve et l’existence (Zurique, 1930), Paris, Desclée de Brou-terapêutico proposto por Ludwig Binswanger*. Es- wer, 1954; Discours, parcours et Freud (Berna, 1947),te mistura a psicanálise freudiana com a fenome- Paris, Gallimard, 1970 • Viktor Frankl, La Psychothéra-nologia heideggeriana e toma por objeto a exis- pie et son image de l’homme, Paris, Resma, 1970 •tência do sujeito*, segundo a tríplice dimensão do Jean-Baptiste Fagès, Histoire de la psychanalysetempo, do espaço e de sua relação com o mundo. après Freud (Toulouse, 1976), Paris, Odile Jacob, 1966Por extensão, a análise existencial acabaria por • Michel Foucault, “Introduction” (1954), in Dits et Écrits,abranger todas as correntes fenomenológicas de vol.1, Paris, Gallimard, 1994 • Henri F. Ellenberger, Lapsicoterapia*. Psychiatrie suisse, série de artigos publicados de 1951 a 1953 em L’Évolution Psychiatrique, Aurillac, s/d.; Na França, na Suíça e na Áustria desenvol- Médecines de l’âme. Essais d’histoire de la folie et desveu-se uma escola de psicoterapia marcada pela guérisons psychiques, Paris, Fayard, 1995.dupla corrente filosófica da fenomenologia e doexistencialismo. Duas formas de prática estão ➢ ANÁLISE DIRETA; ESQUIZOFRENIA; GESTALT-ligadas a ela: a psicoterapia existencial e a TERAPIA; MELANCOLIA; NEOFREUDISMO; REICH,Daseinanalyse (Dasein: ser-aí, existência) ou WILHELM; SELF PSYCHOLOGY; TERAPIA DE FAMÍ-análise existencial. A primeira, derivada de LIA. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 33. 20 análise leiga (ou profana)análise leiga (ou profana) cadeado em 1926 pelo próprio Sigmundal. Laienanalyse; esp. análisis profano; fr. analyse Freud*, com a publicação de A questão daprofane; ing. lay-analysis análise leiga*.Chama-se análise leiga ou análise profana, ou ain- Ferrenho defensor da análise leiga e da prá-da psicanálise* leiga ou profana, à psicanálise pra- tica da psicanálise por não-médicos, Freud foiticada por não-médicos. Os dois adjetivos (leiga e muito duramente combatido por seus própriosprofana) significam também que a psicanálise, na discípulos, sobretudo Abraham Arden Brill*, eótica freudiana, é uma disciplina perfeitamente dis- pelos membros da poderosíssima Americantinta de todos os tratamentos da alma e de todas Psychoanalytic Association (APsaA), que pre-as formas de confissões terapêuticas ligadas às tendiam restringir aos médicos a prática dadiversas religiões. Por conseguinte, ela deve cons- psicanálise.truir seus próprios critérios de formação profis- Em virtude da emigração maciça de psica-sional, sem se subordinar nem à medicina (da qual nalistas europeus para os Estados Unidos*, ema psiquiatria faz parte) nem a qualquer Igreja*, seja conseqüência do nazismo*, Freud e seus parti-esta ligada ao protestantismo, ao catolicismo, ao dários perderam a batalha da análise leiga du-judaísmo, ao islamismo ou ao budismo, nem tam- rante o entre-guerras. Na Europa, nesse período,pouco às religiões animistas ou às seitas. foi nos Países Baixos* que os conflitos entre os Sob esse aspecto, a única formação aceitável defensores e os adversários da análise leigapara um psicanalista, sejam quais forem seu assumiram um toque dramático, tingido de anti-grau universitário e sua religião, é submeter-se semitismo e xenofobia.a uma análise didática* e, em seguida, a uma A partir de 1945, com o desenvolvimentosupervisão*, de acordo com as regras ditadas considerável da psicologia e de seu ensino uni-pela International Psychoanalytical Associa- versitário nos grandes países democráticos, ation* (IPA) a partir de 1925. Essas regras, aliás, questão da análise leiga colocou-se em novoscom algumas variações, são aceitas pela totali- termos. Maciçamente, a psicanálise passou en-dade dos praticantes que reivindicam o freudis- tão a ser praticada, com efeito, não mais apenasmo* no mundo, quer sejam ou não membros da por médicos ou psiquiatras, mas por psicotera-IPA, pertençam ou não a suas diversas correntes peutas que haviam recebido formação como— lacanismo*, Self Psychology* etc. psicólogos, em geral na universidade. Depois Como a psicanálise se inscreve na história de ter sido engolida pela psiquiatria, ela corriada medicina, na medida em que é um dos gran- o risco de ser tragada pela psicologia e confun-des componentes da psiquiatria dinâmica*, ela dida com as diferentes psicoterapias*. Por isso,foi implantada na maioria dos países por inter- os psicanalistas reafirmaram vigorosamente amédio da medicina e da psiquiatra. Por conse- existência de suas próprias instituições, as úni-guinte, foi essencialmente praticada, desde sua cas capazes de definir os critérios da formaçãoorigem, por homens e mulheres que receberam psicanalítica: análise didática e supervisão.formação médica ou psiquiátrica, conforme as • Sigmund Freud, A questão da análise leiga (1926),regras de transmissão do saber próprias de cada ESB, XX, 211-84; GW, XIV, 209-86; SE, XX, 183-258;país. Aliás, paradoxalmente, é isso que lhe as- OC, XVIII, 1-92.segura sua laicidade, já que a medicina está mais ➢ HISTÓRIA DA PSICANÁLISE; LAGACHE, DANIEL;ligada à ciência do que à religião. Nos países em PSICOLOGIA CLÍNICA; PSICOTERAPIA INSTITUCIO-que a psiquiatria não se desenvolveu e onde a NAL; REIK, THEODOR.loucura* é tida como um fenômeno de origemdivina ou demoníaca, a psicanálise não foi im-plantada. análise mútua Todavia, há uma contradição entre a autono- ➢ FERENCZI, SANDOR; TÉCNICA PSICANALÍTICA.mia necessária da psicanálise e os critérios desua prática profissional, quando esta decorre doofício de psiquiatra ou médico. Foi essa tensão análise origináriaque esteve na origem do grande conflito desen- ➢ AUTO-ANÁLISE. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 34. Andersson, Ola 21análise profana em Estocolmo. O pai, Carl Andersson, era fun-➢ ANÁLISE LEIGA. cionário e, como inspetor das escolas primárias durante o período entre as duas guerras, foi temido por uma geração de professores, poranálise selvagem causa da severidade de seus julgamentos.➢ GRODDECK, GEORG; INTERPRETAÇÃO. Foi em Lund que Ola Andersson estudou letras antes de abraçar a carreira de professor. A partir de 1947, exerceu sua profissão em dife-análise transacional rentes instituições, primeiro em um centro deal. Vermittelnd Analyse; esp. análisis transacional; formação para trabalhadores sociais, filiado àfr. analyse transactionnelle; ing. transactional ana- Igreja sueca, depois em uma escola de psicote-lysis rapia de inspiração religiosa, e enfim no depar-Método de psicoterapia* inventado pelo psicana- tamento de pedagogia na Universidade de Es-lista norte-americano Eric Berne (1910-1970), cen- tocolmo.trado na análise do eu* em suas relações com o Com a idade de 20 anos, interessou-se pelaoutro. psicanálise. Em 1948, fez contato com um dos Nascido em Montreal e havendo depois pioneiros da Sociedade Psicanalítica Sueca,emigrado para os Estados Unidos*, Eric Berne que o enviou a René De Monchy*, recentemen-afastou-se do freudismo* clássico ao se instalar te estabelecido na Suécia, com quem fez umaem São Francisco, após a Segunda Guerra Mun- análise didática de cinco anos. Começou depoisdial. Foi ali que aperfeiçoou o método que o outro período de análise com Lajos Székelytornou célebre. Próximo da terapia de família*, (1904-1995), emigrado da Hungria* e tambémeste consistia em restabelecer a comunicação ele analisando de De Monchy.ou “transação” entre os membros de uma mes- Fugindo dos conflitos internos na Sociedadema família ou grupo social dados, a partir de Psicanalítica Sueca, que ocorreram depois douma análise das relações do eu com seu círculo. retorno de De Monchy aos Países Baixos*, An- dersson decidiu dedicar-se essencialmente ao• Eric Berne, Des jeux et des hommes. Psychologie ensino, à pesquisa histórica e à tradução da obrades relations humaines (1964), Paris, Stock, 1966. freudiana. E, se foi membro titular da Socie-➢ ANÁLISE EXISTENCIAL; GESTALT-TERAPIA; NEO- dade, desempenhou nela apenas um papel se-FREUDISMO; SCHULTZ, JOHANNES; TÉCNICA PSI- cundário.CANALÍTICA; TERAPIA DE FAMÍLIA. Em dezembro de 1962, defendeu uma tese sobre as origens do freudismo, o que lhe valeu o título prestigioso de Dozent. Publicou-a ime-Andersson, Ola (1919-1990) diatamente e, assim, graças a esse trabalho ma-psicanalista sueco gistral, pôde relacionar-se com Henri F. Ellen- Pioneiro da historiografia* erudita, Ola An- berger* que, por sua vez, começava a “revisar”dersson teve um destino curioso no movimento a historiografia oficial do freudismo na perspec-freudiano. O único livro que escreveu, publica- tiva da constituição de uma história erudita. Nodo em 1962 com o título de Studies in the seu próprio trabalho, Andersson empreendeuPrehistory of Psychoanalysis. The Etiology of então a primeira grande revisão de um caso prin-Psychoneuroses (1886-1896), foi completa- ceps dos Estudos sobre a histeria*: o caso “Em-mente ignorado na Suécia nos meios psicanalí- my von N.”. Descobriu seu nome verdadeiro,ticos, embora seu autor ocupasse funções aca- Fanny Moser*, expôs a sua história no congres-dêmicas importantes e fosse responsável pela so da International Psychoanalytical Associa-tradução sueca das obras de Sigmund Freud*. tion* (IPA) de Amsterdam em 1965, e esperou Nascido no norte do país, em Lulea, Ola 14 anos para publicar um artigo sobre esse temaAndersson era de uma família de proprietários na The Scandinavian Psychoanalytic Review.rurais protestantes e puritanos, que levavam Aliás, Andersson renovou completamente ouma vida itinerante antes de se estabelecerem estudo das relações de Sigmund Freud com Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 35. 22 Andreas-Salomé, LouJean Martin Charcot*, Hippolyte Bernheim* e Peters, seu melhor biógrafo, que seus argumen-Josef Breuer*. Evidenciou também as fontes do tos em favor de um casamento que permitisse apensamento freudiano, em especial os emprés- cada parceiro a liberdade regeneradora de fes-timos feitos aos trabalhos de Johann Friedrich tins de amor periódicos eram bastante fantasio-Herbart*. Entretanto, ao contrário de Ellenber- sos, não só porque contrariavam mandamentosger, continuou apegado, como membro da IPA, morais da maioria das religiões, mas tambémà ortodoxia oriunda de Ernest Jones*, cujo porque eram incompatíveis com o poderosotrabalho biográfico admirava, o que o impediu instinto possessivo, profundamente enraizadode empenhar-se mais na história erudita. Sofreu no homem.”muito com seu isolamento no seio da Sociedade Entretanto, durante toda a vida, ela não dei-Psicanalítica Sueca, a ponto de pedir a Ellenber- xou de pôr em prática esse conflito, mesmoger, em 1976, que o ajudasse a emigrar para os fazendo crer (erroneamente) que era um mons-Estados Unidos*. Mas nunca realizou essa in- tro de narcisismo* e de amoralidade. Ironizavatenção. as invectivas, os boatos e os escândalos, decidi- Andersson deixou instruções para que, de- da a não se dobrar às imposições sociais. Depoispois de morto, seu corpo fosse cremado e suas de Nietzsche (1844-1900) e de Rilke (1875-cinzas dispersadas. Seus dois filhos mudaram 1926), Freud ficou deslumbrado por essa mu-de sobrenome, preferindo usar o da mãe, como lher, a quem amou ternamente e que revolucio-permite a lei sueca. O nome desse psicanalista, nou a sua existência. Efetivamente, eles se pa-ao mesmo tempo integrado e marginal, foi real- reciam: mesmo orgulho, mesma beleza, mes-mente apagado da história intelectual de seu mos excessos, mesma energia, mesma cora-país, a ponto de não figurar na Enciclopédia gem, mesma maneira de amar e possuir febril-nacional sueca, ele que havia escrito tantos mente os objetos de eleição. Um escolhera aartigos em diversas enciclopédias suecas. abstinência sexual com a mesma força e a mes-• Ola Andersson, Freud avant Freud. La Préhistoire de ma vontade que levavam a outra a satisfazer osla psychanalyse (Estocolmo, 1962), Paris, Synthélabo, seus desejos. Tinham em comum a intransigên-col. “Les empêcheurs de penser en rond”, 1997 • Henri cia, a certeza de que jamais a amizade deveriaF. Ellenberger, Médecins de l’âme. Essais d’histoire de mascarar as divergências, nem limitar a liber-la folie et des guérisons psychiques, Paris, Fayard,1995. dade de cada um. Nascida em São Petersburgo, em uma famí- lia da aristocracia alemã, Lou Salomé era filhaAndreas-Salomé, Lou, née Lelia de um general do exército dos Romanov. Com(Louise) von Salomé (1861-1937) a idade de 17 anos, recusando-se a ser confir-intelectual e psicanalista alemã mada pelo pastor da Igreja evangélica reforma- Mais por sua vida do que por suas obras, Lou da, à qual pertencia sua família, colocou-se sobAndreas-Salomé teve um destino excepcional a direção de outro pastor, Hendrik Gillot, dândina história do século XX. Figura emblemática brilhante e culto, que se apaixonou por ela logoda feminilidade narcísica, concebia o amor se- que a iniciou na leitura dos grandes filósofos.xual como uma paixão física que se esgotava Lou recusou o casamento, ficou doente e deixoulogo que o desejo* fosse saciado. Só o amor a Rússia*. Instalando-se em Zurique com a mãe,intelectual, fundado na mais absoluta fideli- procurou na teologia, na arte e na religião umdade, era capaz, dizia ela, de resistir ao tempo. meio de acesso ao mundo intelectual com que Em seu pequeno opúsculo sobre o erotismo, sonhava.publicado um ano antes de seu encontro com Graças a Malwida von Meysenburg (1816-Sigmund Freud*, Lou comentou um dos gran- 1903), grande dama do feminismo alemão, fi-des temas da literatura — de Madame Bovary a cou conhecendo o escritor Paul Rée (1849-Ana Karenina — segundo o qual o conflito 1901), que lhe apresentou Nietzsche. Persuadi-entre a loucura* amorosa e a quietude conjugal, do de que encontrara a única mulher capaz dequase sempre impossível de superar, deve ser compreendê-lo, este lhe fez um pedido soleneplenamente vivido. “Lou sabia, escreveu H.G. de casamento. Lou recusou-se. A esses dois Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 36. Andreas-Salomé, Lou 23homens, profundamente apaixonados por ela, como uma criança: “O tempo suavizara os seuspropôs então constituírem uma espécie de trin- traços, escreveu H.G. Peters, e ela acrescentavadade intelectual, e em maio de 1882, para selar a isso uma certa feminilidade, usando peleso pacto, fizeram-se fotografar juntos, diante de macias, xales e adornos de plumas sobre asum cenário de papelão: Nietzsche e Rée atrela- espáduas [...]. Sua beleza física era igualada,dos a uma charrete, Lou segurando as rédeas. senão superada, pela vivacidade do seu espírito,Essa foto faria escândalo. Desesperado, Nietz- pela sua alegria de viver, sua inteligência e suasche escreveu no Zaratustra esta frase famosa: calorosa humanidade.”“Vais encontrar as mulheres? Não esqueças o Freud não se enganou. Compreendeu logochicote.” que Lou desejava verdadeiramente dedicar-se à Foi a adesão ao narcisismo nietzschiano, e psicanálise e que nada a deteria. Assim, admi-de modo mais geral o culto do ego, caracterís- tiu-a entre os membros da Wiener Psychoana-tico da Lebensphilosophie (filosofia da vida) fin lytische Vereinigung (WPV). Sua presença mu-de siècle, que preparou o encontro de Lou com da mostrava aos olhos de todos uma continui-a psicanálise*. Em todos os seus textos, como dade entre Nietzsche e Freud, entre Viena* e aobservou Jacques Le Rider, ela procurava en- cultura alemã, entre a literatura e a psicanálise.contrar um eros cosmogônico, capaz de com- Evidentemente, Freud estava apaixonado porpensar a perda irreparável do sentimento de ela e por isso sempre enfatizaria, como que paraDeus. se defender do que sentia, que esse apego era Em junho de 1887, Lou casou-se com o estranho a qualquer atração sexual. Em seuorientalista alemão Friedrich-Carl Andreas, que artigo de 1914 sobre o narcisismo, era nela queensinava na Universidade de Göttingen. O ca- pensava quando descreveu os traços tão parti-samento não foi consumado, e Georg Lede- culares dessas mulheres, que se assemelham abourg, fundador do Partido Social-Democrata grandes animais solitários mergulhados naalemão tornou-se seu primeiro amante, algum contemplação de si mesmos.tempo antes de Friedrich Pineles, médico vie- Instalando-se em Viena em 1912, Lou assis-nense. Essa segunda ligação terminou com um tiu ao mesmo tempo às reuniões do círculoaborto e uma trágica renúncia à maternidade. freudiano e às de Alfred Adler*. EnciumadoLou instalou-se então em Munique, onde ficou mas respeitoso, Freud a deixava livre, semconhecendo o jovem poeta Rainer Maria Rilke: deixar de fazer algumas maldades. Uma noite,“Fui tua mulher durante anos, escreveria ela em sentindo sua ausência, escreveu-lhe: “Senti suaMinha vida, porque foste a primeira realidade, falta ontem à noite na sessão, e fico feliz porem que o homem e o corpo são indiscerníveis saber que sua visita ao campo do protesto mas-um do outro, fato incontestável da própria vida culino é estranha à sua ausência. Tomei o mau[...]. Éramos irmão e irmã, mas como naquele hábito de dirigir sempre minha conferência apassado longínquo, antes que o casamento entre uma certa pessoa do meu círculo de ouvintes, eirmão e irmã se tornasse um sacrilégio.” ontem não parei de fixar, como que fascinado, A ruptura com Rilke não pôs fim ao amor o lugar vazio reservado para você.”que os unia, e como diria Freud em 1937, “ela Logo ela abraçou exclusivamente a causa dofoi ao mesmo tempo a musa e a mãe zelosa do freudismo*. Foi então que se apaixonou porgrande poeta [...] que era tão infeliz diante da Viktor Tausk*, o homem mais belo e mais me-vida”. lancólico do círculo freudiano. Tornou-se sua Foi em 1911, em Weimar, no congresso da amante. Ele tinha quase vinte anos menos queInternational Psychoanalytical Association* ela. A seu lado, ela iniciou-se na prática analíti-(IPA), que ela se encontrou com Freud pela ca, visitou hospitais, observou casos que lheprimeira vez, graças a Poul Bjerre*. Pediu-lhe interessavam, encontrou-se com intelectuaisimediatamente que a “iniciasse” na psicanálise. vienenses. Com ele e com Freud, reconstituiuFreud começou a rir: “Acha que eu sou o Papai um trio semelhante ao que formara com Nietz-Noel?”, disse ele. Embora ela tivesse apenas sche e Rée. Mais uma vez, a história acabariacinco anos a menos que ele, comportava-se em tragédia. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 37. 24 Andreas-Salomé, Lou Introduzida no círculo da Berggasse, tornou- Para comemorar o seu 75º aniversário, Louse familiar da casa e apegou-se particularmente decidiu dedicar a Freud um livro, para expressara Anna Freud*. Depois das reuniões das quar- sua gratidão e alguns desacordos. Criticavatas-feiras, Freud a conduzia a seu hotel; depois principalmente os erros cometidos pela psica-de cada jantar, a cumulava de flores. nálise a respeito da criação estética, reduzida A iniciação de Lou na psicanálise passou abusivamente, dizia ela, a um caso de recalque.também por uma longa correspondência com Freud aceitou sem reservas a argumentação,Freud. Progressivamente, ela abandonou a lite- mas tentou conseguir que ela mudasse o títuloratura romanesca pela prática do tratamento, da obra (Minha gratidão a Freud). Ela nãoque lhe proporcionava uma satisfação desco- cedeu. “Pela primeira vez, escreveu ele, fiqueinhecida. Em Königsberg, onde passou seis me- impressionado com o que existe de refinada-ses em 1923, analisou cinco médicos e seus mente feminino no seu trabalho intelectual.pacientes. Em Göttingen, na sua casa, traba- Quando, irritado pela eterna ambivalência, eulhava às vezes durante dez horas, a tal ponto que desejaria deixar tudo em desordem, você inter-Freud a advertiu em uma carta de agosto de veio, classificou, organizou e demonstrou que1923: “Fiquei sabendo com temor — e pela assim as coisas também poderiam ser agradá-melhor fonte — que todos os dias você dedica veis.”até dez horas à psicanálise. Naturalmente, A partir de 1933, Lou assistiu com horror àconsidero isso uma tentativa de suicídio mal instauração do regime nazista. Conhecia o ódiodissimulada, o que muito me surpreende, pois, que lhe consagrava Elisabeth Forster (1846-que eu saiba, você tem muito poucos sentimen- 1935), irmã de Nietzsche, que se tornara adeptatos de culpa neurótica. Portanto, insisto que pare fervorosa do hitlerismo. Conhecia os desviose de preferência aumente o preço de suas con- que esta impusera à filosofia do homem de quem fora tão próxima e que tanto admirava.sultas em um quarto ou na metade, segundo as Não ignorava que os burgueses de Göttingen aflutuações da queda do marco. Parece que a arte chamavam A Feiticeira. Mas decidiu não fugirde contar foi esquecida pela multidão de fadas da Alemanha. Alguns dias depois de sua morte,que se reuniram em torno do seu berço quando um funcionário da Gestapo foi à sua casa paravocê nasceu. Por favor, não jogue pela janela confiscar a biblioteca, que seria jogada noseste meu aviso.” porões da prefeitura: “Apresentou-se como ra- Empobrecida pela inflação que assolava a zão para esse confisco, escreveu Peters, que LouAlemanha* e obrigada a manter os membros de fora psicanalista e praticara aquilo que os nazis-sua família arruinados pela Revolução de Ou- tas chamavam de ciência judaica, que ela foratubro, Lou não conseguia suprir suas neces- colaboradora e amiga íntima de Sigmund Freudsidades. Embora nunca pedisse nada, Freud lhe e que a sua biblioteca estava apinhada deenviava somas generosas e dividia com ela, autores judeus.”como dizia, a sua “fortuna recentemente adqui-rida”. Convidou-a para sua casa em Viena, onde • Lou Andreas-Salomé, Fenitschka (Stuttgart, 1898),passaram juntos dias “cheios de riqueza”. Freud Paris, Des Femmes, 1985; “Érotisme” (Frankfurt, 1910, Munique, 1979), in Eros, Paris, Minuit, 1984; Rainerdeu-lhe, como sinal de fidelidade, um dos anéis Maria Rilke (Leipzig, 1928), Paris, Marendell, 1989; Mareservados aos membros do Comitê Secreto*. gratitude envers Freud (Viena, 1931, Paris, 1983),Chamava-a “caríssima Lou” e lhe confiava os Seuil, col. “Points”, 1987, traduzido com o título Lettreseus pensamentos mais íntimos, principalmente ouverte à Freud; Ma vie (Zurique, 1951, Frankfurt 1977), Paris, PUF, 1977; L’Amour du narcissisme, Pa-a respeito de sua filha Anna, cuja análise se fazia ris, Gallimard, 1980; Carnets intimes des dernièresem condições difíceis. Lou tornou-se confi- années (Frankfurt, 1982), Paris, Hachette, 1983; Endente da filha de Freud e até sua segunda analis- Russie avec Rilke, 1900. Journal inédit, Paris, Seuil,ta, quando isso se tornou necessário. Ao longo 1992 • Freud/Lou Andréas-Salomé: correspondência completa (Frankfurt, 1966), Rio de Janeiro, Imago,da correspondência, pode-se ver como Freud e 1975 • Nietzsche, Rée, Salomé, Correspondanceela evoluem para a velhice e conservam ambos (Frankfurt, 1970), Paris, PUF, 1979 • Sigmund Freud,uma coragem exemplar diante da doença. “Lou Andreas-Salomé” (1937), ESB, XXIII, 333-4; GW, Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 38. antipsiquiatria 25XVI, 270; SE, XXIII, 297-8 • H.F. Peter, Lou: minha irmã, Tal como o kleinismo e a Ego Psychology*,minha esposa (N. York, 1962), Rio de Janeiro, Jorge da qual se aproxima, a corrente annafreudianaZahar, 1986 • Rudolph Binion, Frau Lou, Nietzsche’sWayward Disciple, Princeton, Princeton University desenvolveu-se no interior da InternationalPress, 1968 • Angela Livingstone, Lou Andreas-Salo- Psychoanalytical Association* (IPA), essen-mé (Londres, 1984), Paris, PUF, 1990. cialmente na Grã-Bretanha* e nos Estados Uni- dos*, onde os vienenses emigrados, muito liga-➢ BERNAYS, MINNA; BONAPARTE, MARIE; FREUD, dos à família de Freud, esforçaram-se por de-MARTHA; JUDEIDADE; NAZISMO; RÚSSIA; SEXUALI- fendê-lo, numa espécie de vínculo de identi-DADE FEMININA. dade que se somava às vicissitudes do exílio. O annafreudismo e o kleinismo fazem parte, tal como o lacanismo* e diversas outras cor-androginia rentes externas à IPA, do chamado freudismo*,➢ BISSEXUALIDADE. na medida em que todos se reconhecem, afora suas divergências, na doutrina fundada por Freud, e em que se distinguem claramente dasangústia outras escolas de psicoterapia* pela adesão à➢ FOBIA; INIBIÇÕES, SINTOMAS E ANGÚSTIA. psicanálise*, isto é, ao tratamento pela fala, como único ponto de referência do tratamento psíquico, e aos conceitos freudianos fundamen- tais: o inconsciente*, a sexualidade*, a transfe-annafreudismo rência*, o recalque* e a pulsão*.al. Annafreudianismus; esp. annafreudismo; fr. an-nafreudisme; ing. Anna-Freudianism • Anna Freud, O ego e os mecanismos de defesa Na história do movimento psicanalítico, (Londres, 1936), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1982, 6ª ed. • Joseph Sandler, L’Analyse de défense.deu-se o nome de annafreudismo, em oposição Entretiens avec Anna Freud (N. York, 1985), Paris,ao kleinismo*, a uma corrente representada PUF, 1989.pelos diversos partidários de Anna Freud*. Foidepois do período das Grandes Controvérsias* ➢ GERAÇÃO; INDEPENDENTES, GRUPO DOS; LA-— que levou, em 1945, a uma clivagem entre CANISMO; SELF PSYCHOLOGY.três tendências no interior da British Psychoa-nalytical Society (BPS) — que esse termo seimpôs, para designar uma espécie de clas- Anna O., casosicismo psicanalítico pós-freudiano, encarnado ➢ PAPPENHEIM, BERTHA.pela filha de Sigmund Freud* e que remetia, aomesmo tempo, à origem vienense da doutrinafreudiana e a um certo modo de praticar a ansiedadeanálise, privilegiando conceitos como os de eu* ➢ ANGÚSTIA.e de mecanismos de defesa*. A divisão entre okleinismo* e o annafreudismo, que se superpõeà divisão entre psicose* e neurose*, passa pela antipsiquiatriaquestão da psicanálise de crianças*. Foi a cor- al. Antipsychiatrie; esp. antipsiquiatría; fr. antipsy-rente kleiniana e pós-kleiniana, com efeito, que chiatrie; ing. antipsychiatryestendeu o tratamento psicanalítico, centrado Embora o termo antipsiquiatria tenha sidona neurose e no complexo de Édipo*, às crian- inventado por David Cooper* num contextoças pequenas, aos borderlines e à relação arcai- muito preciso, ele serviu para designar um mo-ca com a mãe, enquanto os annafreudianos vimento político de contestação radical do sa-concebiam o tratamento das psicoses a partir do ber psiquiátrico, desenvolvido entre 1955 edas neuroses, introduzindo nele uma dimensão 1975 na maioria dos grandes países em que sesocial e profilática que está ausente da doutrina haviam implantado a psiquiatria e a psicaná-kleiniana, a qual só leva em conta a realidade lise*: na Grã-Bretanha*, com Ronald Laing* epsíquica* ou o imaginário* do sujeito*. David Cooper*; na Itália*, com Franco Basa- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 39. 26 antropologiaglia*; e, nos Estados Unidos*, com as comuni- participantes da comuna de 1871, que haviamdades terapêuticas, os trabalhos de Thomas atirado nos relógios para acabar com “o tempoSzasz e a Escola de Palo Alto, de Gregory dos outros, o dos opressores, e assim reinventarBateson*. Sob certos aspectos, a antipsiquiatria seu próprio tempo”.foi a seqüência lógica e o desfecho da psicote- Na França*, não houve nenhuma verdadeirarapia institucional*. Se esta havia tentado refor- corrente antipsiquiátrica, de um lado porque amar os manicômios e transformar as relações esquerda lacaniana ocupou parcialmente o ter-entre os que prestavam e os que recebiam cui- reno da revolta contra a ordem psiquiátrica,dados, no sentido de uma ampla abertura para através da corrente da psicoterapia institucio-o mundo da loucura*, a antipsiquiatria visou a nal, e de outro, em função de Michel Foucaultextinguir os manicômios e eliminar a própria (1924-1984) e Gilles Deleuze (1925-1995), cu-idéia de doença mental. jos trabalhos cristalizaram a contestação “anti- Nunca houve uma verdadeira unidade nesse psiquiátrica” a uma dupla ortodoxia, freudianamovimento e, embora Cooper tenha sido seu e lacaniana.principal iniciador, os itinerários de cada um de • Michel Foucault, História da loucura na idade clássicaseus protagonistas devem ser estudados em se- (Paris, 1961), S. Paulo, Perspectiva, 1978 • Davidparado. Além disso, foi justamente por ter sido Cooper, Psiquiatria e antipsiquiatria (Londres, 1967),uma revolta que a antipsiquiatria teve, ao mes- S. Paulo, Perspectiva • Mary Barnes e Joseph Berke,mo tempo, uma duração efêmera e um impacto Mary Barnes. Un voyage à travers la folie (Londres, 1971), Paris, Seuil, 1973 • Gilles Deleuze e Félix Guat-considerável no mundo inteiro. Ela foi uma tari, O anti-édipo — Capitalismo e esquizofrenia (Paris,espécie de utopia: a da possível transformação 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1976 • Octave Manonni,da loucura num estilo de vida, numa viagem, “Le(s) mouvement(s) antipsychiatrique(s)”, Revue In-num modo de ser diferente e de estar do outro ternationale de Sciences Sociales, XXV, 4, 1973, 538- 52 • Maud Mannoni, Educação impossível, (Paris,lado da razão, como a haviam definido Arthur Seuil, 1973), Rio de Janeiro, Francisco Alves • ThomasRimbaud (1854-1891) e, depois dele, o movi- Szasz, Le Mythe de la maladie mentale (N. York, 1974),mento surrealista. Por isso é que se interessou Paris, Payot, 1975; A fabricação da loucura (Londres,essencialmente pela esquizofrenia*, isto é, por 1971), Rio de Janeiro, Zahar, 1978.essa grande forma de loucura que havia fasci- ➢ CRIMINOLOGIA; CULTURALISMO; DIFERENÇA SE-nado o século inteiro, desde Eugen Bleuler* até XUAL; DUPLO VÍNCULO; FREUDO-MARXISMO; GUAT-a Self Psychology*, passando pelo kleinismo*. TARI, FÉLIX; MANNONI, OCTAVE; SECHEHAYE, Assim como o movimento psicanalítico ha- MARGUERITE; SULLIVAN, HARRY STACK; SURREA-via fabricado sua lenda das origens através da LISMO.história de Anna O. (Bertha Pappenheim*), aantipsiquiatria também reivindicou a aventurade uma mulher: Mary Barnes. Essa ex-enfer- antropologiameira, reconhecida como esquizofrênica e in- O debate entre os antropólogos e os psica-curável, tinha cerca de 40 anos ao ingressar no nalistas começou após a publicação, em 1912-Hospital de Kingsley Hall, onde Joseph Berke 1913, do livro Totem e tabu*, de Sigmunda deixou regredir durante cinco anos. Através Freud*, e deu origem a uma nova disciplina, adessa descida aos infernos e de uma espécie de etnopsicanálise*, cujos dois grandes represen-morte simbólica, ela pôde renascer para a vida, tantes foram Geza Roheim* e Georges Deve-tornar-se pintora e, mais tarde, redigir sua “via- reux*. Seu principal contexto geográfico inicialgem”. foi a Melanésia, isto é, a Austrália*, onde ainda Como utopia, a explosão da antipsiquiatria viviam aborígines que, no final do século, eramfoi radical, e Cooper sublinhou isso ao discursar considerados o povo mais “primitivo” do pla-em Londres, na tribuna do congresso mundial neta, e as ilhas situadas a sudoeste do oceanode 1967, o qual almejava inscrever a antipsi- Pacífico (Trobriand e Normanby), habitadas pe-quiatria no quadro de um movimento geral de los melanésios propriamente ditos e pelos poli-libertação dos povos oprimidos. Com efeito, nésios. Posteriormente, o campo de eleição foiCooper prestou uma vibrante homenagem aos o dos índios da América do Norte. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 40. antropologia 27 Com exceção da experiência de Henri Col- sobre o tabu. Ele se empenhou na redação delomb* em Dacar, dos debates sobre a coloniza- Totem e tabu para descobrir a origem histórico-ção francesa entre Frantz Fanon* e Octave biológica (e já não apenas individual) do com-Mannoni* e, é claro, do papel singular de Wulf plexo de Édipo*, da proibição do incesto* e daSachs na África do Sul, o continente africano religião.quase não se fez presente nos trabalhos de et- O pensamento darwinista deu origem a umanopsicanálise e antropologia psicanalítica. nova organização da etnografia como discipli- Derivada do grego (ethnos: povo, e logos: na, evoluindo sua terminologia de maneira ra-pensamento), a palavra etnologia só veio a sur- dicalmente diferente nos mundos anglófono egir no século XIX. Todavia, o estudo compara- francófono.tivo dos povos remonta a Heródoto. Se, de Na França*, a palavra ethnologie, etnologia,acordo com os antigos, o mundo estava es- surgiu em 1838, para designar o estudo compa-taticamente dividido entre a civilização e a rativo dos chamados costumes e instituiçõesbarbárie (externa à cidade), a questão colocou- “primitivos”. Dezessete anos depois, foi su-se de outra maneira na era cristã. Os missioná- plantada pelo termo antropologia, ao qual orios e conquistadores se indagaram, com efeito, médico Paul Broca (1824-1881) associou seuse os indígenas tinham alma ou não. nome, ao fazer dela uma disciplina física e No século XVIII, a etnografia incumbiu-se anatômica que logo desembocou, no contextoda tarefa de pesquisar em campo o fundamento da teoria da hereditariedade-degenerescência*,das diferenças entre as culturas. Tratava-se, pa- no estudo das “raças” e das “etnias”, concebidasra a filosofia do Iluminismo, não mais de dividir como espécies zoológicas.o mundo entre a barbárie e a civilização, entre No mundo anglófono, ao contrário (na Grã-uma humanidade sem Deus e uma humanidade Bretanha* e, depois, nos Estados Unidos*), ahabitada pela consciência de sua espiritualida- palavra ethnology cobriu o campo da antropo-de, mas de estudar o fato humano em sua diver- logia física (no sentido francês), enquanto sesidade, à luz do princípio do progresso. Daí a cunhou, em 1908, o termo social anthropology,idéia de uma possível evolução do estado de para designar a cátedra de antropologia de Fra-selvageria para o de civilização. zer na Universidade de Liverpool. Foi nesse No século XIX, essa visão progressista da contexto puramente anglófono, e através dosevolução humana assumiu uma feição biológi- debates entre a antropologia funcionalista deca, sob a influência do pensamento darwiniano. Bronislaw Malinowski*, o kleinismo univer-À antiga idéia de que o retorno à animalidade salista de Geza Roheim* e a ortodoxia de Ernestseria a origem de todas as falhas morais do Jones*, que se discutiram as teses enunciadasespírito humano, Charles Darwin (1809-1882) por Freud em Totem e tabu. Observe-se queopôs a tese da continuidade. Não apenas o Charles Seligman (1873-1940) e William Ri-homem já não estava, por essência ou por natu- vers (1864-1922), dois antropólogos de forma-reza, excluído do mundo animal, como também ção médica, foram os primeiros a tornar co-ele próprio se tornava um animal evoluído, um nhecidos no meio acadêmico da antropologiamamífero superior. Do ponto de vista etnológi- inglesa os trabalhos freudianos sobre o sonho*,co (no sentido moderno do termo), o evolucio- a hipnose* e a histeria*. Mais tarde, esse traba-nismo darwiniano consistiu, portanto, em im- lho teve seguimento através da escola cultura-putar as semelhanças reconhecidas em culturas lista norte-americana, desde Margaret Mead*distintas e geograficamente afastadas a um de- até Ruth Benedict (1887-1948), passando porsenvolvimento independente mas idêntico das Abram Kardiner* e pelo neofreudismo*.civilizações. Daí nasceu a tese de que o primi- Assim, tanto na Grã-Bretanha quanto nostivo se assemelha à criança, que se assemelha Estados Unidos, as teses freudianas foram as-ao neurótico. Foi nesse darwinismo que Freud similadas pela antropologia, ao mesmo tempose inspirou, através dos trabalhos de James que eram contestadas por sua ancoragem numGeorge Frazer (1854-1941) sobre o totemismo modelo biológico obsoleto e já abandonado.e de William Robertson Smith (1846-1894) Nesses dois países, com efeito, o saber antropo- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 41. 28 antropologialógico moderno construiu-se, na passagem para sentido francês, desenvolveu-se com a criaçãoo século XX, rompendo com o darwinismo e em Paris, em 1927, por Marcel Mauss, Paulcom o evolucionismo: através do ensino de Rivet (1876-1958) e Lucien Lévy-Bruhl (1857-Franz Boas (1858-1942), por um lado, verda- 1939), do Instituto de Etnologia, que realizoudeiro pai fundador da escola norte-americana, pesquisas lingüísticas, descrições de dados físi-que criticou todas as teses relativas à oposição cos, estudos sobre os costumes e as instituiçõesentre o primitivo e o civilizado, o selvagem e a e, por fim, trabalhos sobre a religião e o sagrado.criança, o animal e o humano etc., e por outro, Esse instituto, portanto, englobava o que osdo de Malinowski, Rivers e Seligman, que re- anglófonos chamavam de ethnology e socialnunciaram aos quadros do evolucionismo de anthropology. Dentro dessa mesma visão, PaulFrazer em prol do funcionalismo ou do difusio- Rivet criou o Museu do Homem, que abriu suasnismo. portas em 1935 no Palácio de Chaillot, assim Desse modo se constituiu, pouco a pouco, substituindo o velho museu etnográfico do Tro-uma corrente de antropologia psicanalítica, li- cadéro, com seu jeito colonial, inaugurado pormitada, no plano científico, ao mundo anglo- Broca em 1878. Os grandes fundadores da et-americano, e, do ponto de vista geográfico, a nologia francesa do entre-guerras seriam mili-experiências de campo conduzidas na região tantes de esquerda, antes de se tornarem heróisnorte do continente norte-americano e na Me- da Resistência. Quanto à antiga escola de antro-lanésia. pologia, ela evoluiria para o racismo, o anti-se- Na França, apenas Marie Bonaparte* apai- mitismo e o colaboracionismo, em especial sobxonou-se, em caráter pessoal, pelas questões a influência de Georges Montandon, ex-médicoantropológicas. Aliás, deu apoio tanto a Mali- e adepto das teses do padre Wilhelm Schmidtnowski quanto a Roheim. Quanto aos etnólo- (1868-1954). Fundador da Escola Etnológicagos, eles não travaram nenhum debate a propó- de Viena e diretor, em 1927, do museu etnográ-sito das teses freudianas durante o entre-guer- fico pontifical de Roma, Schmidt acusariaras, tendo elas sido ignoradas, em especial por Freud de querer destruir a família ocidental.Marcel Mauss (1872-1951), fundador e mais Quanto a Montandon, ele participaria do exter-ilustre representante da escola francesa. Como mínio dos judeus durante o regime de Vichy enumerosos eruditos de sua geração, e muito seria amigo do psicanalista e demógrafoembora abordasse todos os temas próprios da Georges Mauco*.psicanálise (o mito, o sexo, o corpo, a morte, o Foi preciso esperar pela segunda metade dosimbólico etc.), ele desconfiava de Freud e de século XX para que fosse introduzida na Fran-seu sistema interpretativo. Nesse campo, prefe- ça, através de Claude Lévi-Strauss, a termino-riu apoiar-se nos trabalhos, amiúde antifreudia- logia anglófona. Em 1954, ele livrou o termonos, dos psiquiatras e psicólogos acadêmicos: “antropologia” de todas as antigas imagens daPierre Janet*, Théodule Ribot (1839-1916) e hereditariedade-degenerescência, a fim de defi-Georges Dumas (1866-1946). Não obstante, nir uma nova disciplina que abarcasse, ao mes-mostrou-se prudente em seu comentário de To- mo tempo, a etnografia, como primeira etapa detem e tabu, sublinhando que “essas idéias têm um trabalho de campo, e a etnologia, designadauma imensa capacidade de desenvolvimento e como segunda etapa e primeira reflexão sinté-persistência”. Nesses anos, alguns escritores se tica. Segundo essa nova organização, a antro-interessaram pelo aspecto antropológico da pologia tinha um papel confederativo: na ver-obra freudiana; dentre eles, Michel Leiris dade, tomava por ponto de partida as análises(1901-1990) e Georges Bataille (1897-1962) produzidas pelos outros campos do saber e delesvalorizaram a noção do sagrado e criticaram pretendia extrair conclusões válidas para oviolentamente os princípios da psiquiatria colo- conjunto das sociedades humanas. Nesse con-nial, sem contudo originar uma corrente de et- texto, Lévi-Strauss foi o primeiro antropólogonopsicanálise ou de antropologia psicanalítica. de língua francesa a ler e comentar a obra de Enquanto a anthropology, no sentido inglês, Freud, numa época em que já fazia mais detornou-se uma ciência social, a ethnologie, no trinta anos que ela estava integrada nos traba- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 42. antropologia 29lhos da antropologia anglo-americana. Note-se Foi dentro dessa orientação que ele estabe-que Georges Devereux, cuja obra foi essencial- leceu uma analogia entre a técnica de curamente redigida em língua inglesa, orientou-se xamanista e o tratamento psicanalítico. Na pri-para a psicanálise no fim da Segunda Guerra meira, dizia, o feiticeiro fala e provoca a ab-rea-Mundial. ção*, isto é, a liberação dos afetos do enfermo, Se Marcel Mauss, sobrinho de Émile Durk- ao passo que, na segunda, esse papel cabe aoheim, havia desvinculado a etnologia da socio- médico que escuta, no bojo de uma relação nalogia durkheimiana, embora se inspirasse em qual é o doente quem fala. Além dessa compa-seus modelos, Claude Lévi-Strauss passou da ração, Lévi-Strauss mostrou que, nas socie-etnologia para a antropologia, unificando os dades ocidentais, tendia a constituir-se umadois campos (anglófono e francófono) em torno “mitologia psicanalítica” que fizesse as vezesde três grandes eixos: o parentesco (em vez da de sistema de interpretação* coletivo: “Assim,família e do patriarcado*), o universalismo re- vemos despontar um perigo considerável: o delativista (em vez do culturalismo*) e o incesto. que o tratamento, longe de levar à resolução deSituou-se prontamente como contemporâneo um distúrbio preciso, sempre respeitando o con-da obra freudiana, à qual se referiu, como ao texto, reduza-se à reorganização do universo doCurso de lingüística geral de Ferdinand de paciente em função das interpretações psicana-Saussure (1857-1913), sublinhando, em Tristes líticas.” Se a cura, portanto, sobrevém atravéstrópicos, o que ela lhe havia trazido: “... [essa da adesão a um mito, agindo este como umaobra] me revelou que [...] são as condutas apa- organização estrutural, isso significa que esserentemente mais afetivas, as operações menos sistema é dominado por uma eficácia simbóli-racionais e as manifestações declaradas pré-ló- ca. Daí a idéia, proposta já em 1947 na “Intro-gicas que são, ao mesmo tempo, as mais signi- dução à obra de Marcel Mauss”, de que o cha-ficativas.” mado inconsciente* não seria outra coisa senão Foi em contato com índios do Brasil* (ca- um lugar vazio onde se consumaria uma auto-diueus, bororos, nhambiquaras) que ele se tor- nomia da função simbólica.nou etnólogo, entre 1935 e 1939. Mas, ao con- A partir de 1949, sobretudo em As estruturastrário de Marcel Mauss, por um lado, que não elementares do parentesco, Lévi-Strauss deu àteve nenhuma experiência direta de campo, e de famosa questão da proibição do incesto umMalinowski, por outro, cujo contato com o novo esclarecimento. Em vez de buscar a gê-trabalho de campo teve um efeito de revelação, nese da cultura numa hipotética renúncia dosLévi-Strauss foi, sem sombra de dúvida, o pri- homens à prática do incesto, como tinham feitomeiro etnólogo a teorizar a viagem etnológica Freud e seus herdeiros, ou, ao contrário, de oporsegundo o modelo de uma estrutura melancóli- a essa origem o florilégio da diversidade cultu-ca: todo etnólogo redige uma autobiografia ou ral (desde Malinowski até os culturalistas), eleescreve confissões, diria ele, em essência, por- contornou essa bipolarização para mostrar queque tem que passar pelo eu* para se desligar do a proibição realizava a passagem da natureza àeu. Por isso ele proporia comparar a experiência cultura.de campo com uma análise didática*. Exilado Essa nova expressão da dualidade nature-em Nova York durante a Segunda Guerra Mun- za/cultura reativou o debate sobre o universa-dial, ali deparou com um novo “campo”: o das lismo, sem no entanto dar origem a uma cor-diferentes teorias dos etnólogos e lingüistas rente francesa de antropologia psicanalítica. Enorte-americanos (Roman Jakobson, Franz foi Jacques Lacan* quem se inspirou na concei-Boas etc.) nas quais se iria inspirar para cons- tuação lévi-straussiana para elaborar, em espe-truir uma abordagem estrutural da antropolo- cial, sua teoria do significante* e do simbólico.gia. Sob esse aspecto, Lévi-Strauss transfor-mou-se numa espécie de etnólogo dos etnólo- • Pierre Bonte e Michel Izard, Dictionnaire de l’ethno- logie et de l’anthropologie, Paris, PUF, 1992 • Marcelgos, a ponto de considerar as teorias antropoló- Fournier, Marcel Mauss, Paris, Fayard, 1994 • Jeangicas como mitologias comparáveis aos mitos Jamin, “L’Anthropologie et ses acteurs”, in Les Enjeuxelaborados pelo pensamento selvagem. philosophiques des années 50, Paris, Centre Georges- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 43. 30 Anzieu, MargueritePompidou, 1989, 99-115 • Ernest Jones, Essais de mo modo que os médicos que os tratam, sãopsychanalyse appliquée, vol. II (Londres, 1951), Paris, atores de uma aventura sempre dramática, naPayot, 1973 • Claude Lévi-Strauss, “Introduction àl’oeuvre de Marcel Mauss” (1947), in Marcel Mauss, qual se tecem laços genealógicos de naturezaSociologie et anthropologie (Paris, 1950), Paris, PUF, inconsciente.1968, IX-LII; As estruturas elementares do parentesco Marguerite Pantaine provinha de uma famí-(Paris, 1949), Petrópolis, Vozes, 1976; “O feiticeiro e lia católica e interiorana do centro da França*.sua magia” (1949), in Antropologia estrutural (Paris,1958), Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975, 193- Criada por uma mãe que sofria de sintomas213; Race et histoire (Paris, 1952), Paris, Gonthier, persecutórios, sonhou desde muito cedo, à ma-1967; Tristes trópicos (Paris, 1955), S. Paulo, Compa- neira de Emma Bovary, sair de sua situação e senhia das Letras; Le Totémisme aujourd’hui, Paris, PUF, tornar uma intelectual. Em 1910, ingressou na1962 • Claude Lévi-Strauss e Didier Eribon, De près etde loin, Paris, Odile Jacob, 1988 • R. Lowie, Histoire de administração dos correios e, sete anos depois,l’ethnologie classique (N. York, 1937), Paris, Payot, casou-se com René Anzieu, também funcioná-1971 • Marcel Mauss, “Rapports réels et pratiques de rio público. Em 1921, quando grávida de seula psychologie et de la sociologie” (1924), in Sociologie filho Didier, começou a ter um comportamentoet anthropologie (Paris, 1950), Paris, PUF, 1968, 281-310 • Werner Muensterberger (org.), L’Anthropologie estranho: mania de perseguição, estados de-psychanalytique depuis Totem et tabou (Londres, pressivos. Após o nascimento do filho, instalou-1969), Paris, Payot, 1976 • Jean Poirier, Histoire de se numa vida dupla: de um lado, o universol’ethnologie, Paris, PUF, 1974 • Bertrand Pulman, “Aux cotidiano das atividades de funcionária dos cor-origines du débat anthropologie et psychanalyse:W.H.R. Rivers (1864-1922)”, L’Homme, 100, outubro- reios, de outro, uma vida imaginária, feita dedezembro de 1986, 119-41; “Aux origines du débat delírios. Em 1930, redigiu de enfiada dois ro-anthropologie et psychanalyse: Seligman (1873- mances que quis mandar publicar, e logo se1940)”, Gradhiva, 6, verão de 1989, 35-49; “Les anthro- convenceu de estar sendo vítima de uma tenta-pologues face à la psychanalyse”, Revue Internatio-nale d’Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991, 425-47; tiva de perseguição por parte de Hughette Du-“Ernest Jones et l’anthropologie”, ibid., 493-521 • Élisa- flos, uma célebre atriz do teatro parisiense dosbeth Roudinesco, Jacques Lacan. Esboço de uma anos 30. Em abril de 1931, tentou matá-la comvida, história de um sistema de pensamento (Paris, uma facada, mas a atriz se esquivou do golpe e1993), S. Paulo, Companhia das Letras, 1994. Marguerite foi internada no Hospital Sainte-➢ ANTIPSIQUIATRIA; AUSTRÁLIA; ELLENBERGER, Anne, onde foi confiada a Jacques Lacan, queHENRI F.; FANON, FRANTZ; IGREJA; ÍNDIA; ITÁLIA; fez dela um caso de erotomania e de paranóia*JAPÃO; JUDEIDADE; LANZER, ERNST; MANNONI, de autopunição.OCTAVE; REAL; SACHS, WULF; SAUSSURE, RAY- A continuação da história de Marguerite An-MOND DE; SULLIVAN, HARRY STACK. zieu é um verdadeiro romance. Em 1949, seu filho Didier, havendo concluído seus estudos de filosofia, resolveu tornar-se analista. Fez suaAnzieu, Marguerite, née Pantaine formação didática no divã de Lacan, enquanto(1892-1981), caso Aimée preparava uma tese sobre a auto-análise* de A história do caso Aimée, narrada por Jac- Freud sob a orientação de Daniel Lagache*,ques Lacan em sua tese de medicina de 1932, sem saber que sua mãe tinha sido o famoso casoDa psicose paranóica em suas relações com a Aimée. Lacan não reconheceu nesse homem opersonalidade, ocupa na gênese do lacanismo* filho de sua ex-paciente, e Anzieu soube daum lugar quase idêntico ao do caso Anna O. verdade pela boca da mãe, quando esta, por um(Bertha Pappenheim*) na construção da saga acaso extraordinário, empregou-se como go-freudiana. Foi Élisabeth Roudinesco quem re- vernanta na casa de Alfred Lacan (1873-1960),velou pela primeira vez, em 1986, a verdadeira pai de Jacques. Os conflitos entre Didier Anzieuidentidade dessa mulher, e depois reconstruiu, e seu analista foram tão violentos quanto os queem 1993, a quase totalidade de sua biografia, a opuseram Marguerite a seu psiquiatra. De fato,partir do testemunho de Didier Anzieu e dos ela acusava Lacan de havê-la tratado como ummembros de sua família. Sob esse aspecto, a “caso”, e não como um ser humano, mas cen-história desse grande caso princeps ilustra es- surava-o sobretudo por nunca lhe ter devolvidoplendidamente o quanto os “doentes”, do mes- os manuscritos que ela lhe confiara no passado, Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 44. apoio 31quando de sua internação no Hospital Sainte- Esse processo se repete em relação a todasAnne. as funções corporais a que correspondem as pulsões de autoconservação, com a constituição• Jacques Lacan, Da psicose paranóica em suas re- de zonas erógenas correspondentes, anal, geni-lações com a personalidade (Paris, 1932), Rio de tal etc. No decorrer desse processo de diferen-Janeiro, Forense Universitária, 1987 • Didier Anzieu,Une peau pour les pensées. Entretiens avec Gilbert ciação, a pulsão sexual abandona o objeto ex-Tarrab, Paris, Clancier-Guenaud, 1986 • Élisabeth terno e passa progressivamente a funcionar deRoudinesco, História da psicanálise na França, vol. 2 modo auto-erótico.(Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988; Jac- Na última parte de seus Três ensaios sobreques Lacan. Esboço de uma vida, história de umsistema de pensamento (Paris, 1993), S. Paulo, a teoria da sexualidade, Freud vai além dessaCompanhia das Letras, 1994; Genealogias (Paris simples conceituação e descreve a instauração1994), Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1995 • Jean do modelo original de escolha de objeto. NumAllouch, Marguerite ou a Aimée de Lacan (Paris, 1990), primeiro tempo, o objeto da pulsão sexual éRio de Janeiro, Companhia de Freud, 1997. “externo ao próprio corpo”. Mais tarde, quando “se torna possível para a criança formar a repre- sentação global da pessoa a quem pertence oapoio órgão que lhe proporcionava satisfação”, a pul- são sexual perde esse objeto e se torna auto-eró-al. Anlehnung; esp. apuntalamiento; fr. étayage;ing. anaclisis tica, “e é somente depois de ultrapassado o período de latência que se restabelece a relaçãoTermo adotado (de preferência a anaclítico) para original [...]. A descoberta do objeto, para dizertraduzir o conceito de Anlehnung, utilizado por a verdade, é uma redescoberta.”Sigmund Freud*, que designa a relação original Em 1914, em seu artigo “Sobre o narcisis-entre as pulsões* sexuais e as pulsões de autocon-servação, só vindo aquelas a se tornar indepen- mo: uma introdução”, Freud modifica sua con-dentes depois de se haverem apoiado nestas. É cepção do dualismo pulsional e distingue doisesse mesmo processo de apoio que se prolonga, tipos de escolha de objeto. O primeiro, já des-no correr do desenvolvimento psicossexual, na crito desde 1905, não é modificado, mas passafase da escolha do objeto de amor, que Freud a ser chamado de escolha objetal por apoio.esclarece falando de um tipo de escolha objetal por Essa escolha se efetua, é claro, segundo o mo-apoio. delo do apoio da pulsão sexual: “Tal apoio”, Desde a primeira versão de seus Três ensaios escreve Freud, “continua a se revelar no fato desobre a teoria da sexualidade*, Freud definiu a que as pessoas que têm a ver com a alimentação,função de apoio, ou, literalmente, de apoiar-se a higiene e a proteção da criança tornam-se osem, para esclarecer o processo de diferenciação primeiros objetos sexuais.” O segundo tipo deque se efetua entre as pulsões sexuais e as escolha objetal, chamado escolha narcísica depulsões de autoconservação baseadas nas fun- objeto, efetua-se não à maneira da busca de umações corporais. relação com um objeto externo, mas segundo a O primeiro exemplo observado é o da ativi- busca da relação do indivíduo consigo mesmo.dade oral do lactente. No próprio curso da sa- Jean-Bertrand Pontalis e Jean Laplanche sa-tisfação orgânica da necessidade nutricional, lientam que o conceito de apoio, no entanto,obtida mediante a sucção do seio materno, o nem sempre recebeu a atenção que sua impor-seio, objeto primário, torna-se fonte de prazer tância requer na doutrina freudiana. Pensandosexual, zona erógena. Efetua-se uma dissocia- nisso, sublinham que a essência do processo deção da qual nasce um prazer erótico, irredutível apoio decorre da simultaneidade de uma opera-àquele que é obtido unicamente pela satisfação ção dupla, “(...) uma relação e uma oposiçãoda necessidade. Nesse momento aparece uma entre as pulsões sexuais e as pulsões de auto-necessidade de repetir a atividade de sucção, conservação”. Mais tarde, Jean Laplanche tor-apesar de a satisfação orgânica ter sido alcan- naria a esclarecer a importância e o sentidoçada, necessidade esta que vai se tornando auto- desse conceito: “O que é descrito por Freud énomamente pulsional. um fenômeno de apoio da pulsão*, o fato de que Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 45. 32 a posterioria sexualidade nascente apóia-se num outro pro- Argentinacesso, ao mesmo tempo similar e profunda- Em 1914, em seu artigo sobre a história domente divergente: a pulsão sexual apóia-se nu- movimento psicanalítico, Sigmund Freud* es-ma função não sexual, vital (...).” creveu: “Um médico, provavelmente alemão, vindo do Chile, declarou-se a favor da exis-• Sigmund Freud, Três ensaios sobre a teoria da sexua-lidade (1905), ESB, VII, 129-237; GW, V, 29-145; SE, tência da sexualidade infantil no CongressoVII, 123-243; Paris, Gallimard, 1987; “Um tipo especial Internacional de Buenos Aires (1910) e elogioude escolha de objeto feita pelos homens” (1910), ESB, os sucessos obtidos pela terapia psicanalítica noXI, 149-62; GW, VIII, 66-77; SE, XI, 165-75; OC, X, tratamento dos sintomas obsessivos.” Esse mé-187-200; “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914),ESB, XIV, 89-122; GW, X, 138-70; SE, XIV, 67-102; in dico chileno se chamava Germán Greve. Dele-La vie sexuelle, Paris, PUF, 1969, 81-105 • Jean La- gado pelo seu governo a esse congresso deplanche, Vida e morte em psicanálise, (Paris, 1970) P. medicina, mostrou-se entusiasmado com as te-Alegre, Artes Médicas, 1985 • Jean Laplanche e Jean- ses freudianas, expondo-as sem deformá-lasBertrand Pontalis, Vocabulário da psicanálise (Paris,1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1991, 2ª ed. muito. Entretanto, sua conferência não teve ne- nhuma repercussão entre os especialistas argen- tinos em doenças nervosas e mentais.➢ ANACLÍTICA, DEPRESSÃO; ESTÁDIO; NARCISIS-MO; OBJETO, RELAÇÃO DE; OUTRO; SEXUALIDADE. Nessa época, como em todos os países do mundo, a psicanálise* suscitava na Argentina muitas resistências, sintoma de seu progresso atuante. E foi através de polêmicas e combatesa posteriori que ela encontrou o caminho de uma implanta-al. Nachträglichkeit, Nachträglich; esp. posteriori- ção bem-sucedida.dad, con posterioridad; fr. après-coup; ing. deferred Independente desde 1816, depois de ter-seaction, deferred submetido à colonização espanhola, a Argenti-Palavra introduzida por Sigmund Freud*, em 1896, na viveu sob o reino dos caudilhos durante todopara designar um processo de reorganização ou o século XIX. A partir de 1860, a cidade dereinscrição pelo qual os acontecimentos traumáti- Buenos Aires, sob a influência da sua classecos adquirem significação para o sujeito* apenas dominante, os portenhos, esteve na liderança danum a posteriori, isto é, num contexto histórico e revolução industrial e da construção de umsubjetivo posterior, que lhes confere uma nova Estado moderno. Em 1880, realizou-se a uni-significação. No Brasil também se usa “só-de- dade entre as diferentes províncias e a cidadepois”. portuária se tornou a capital federal do país. Em Esse termo resume o conjunto da concepção cinqüenta anos (1880-1930), a Argentina aco-freudiana da temporalidade, segundo a qual o lheu seis milhões de imigrantes, italianos ousujeito constitui seu passado, reconstruindo-o espanhóis na maioria; três vezes o volume deem função de um futuro ou de um projeto. sua população inicial. Fugindo dos pogroms, os Na história do freudismo*, foi Jacques La- judeus da Europa central e oriental se mis-can* quem deu a esse termo, em 1953, sua turaram a esse movimento migratório e se ins-maior extensão, no contexto de sua teoria do talaram em Buenos Aires, fazendo da capital osignificante* e de uma concepção da análise centro de um cosmopolitismo aberto a todas asbaseada no “tempo para compreender”. idéias novas. Com a revolução industrial e a instauração• Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse de um Estado moderno, constituiu-se então,(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956 • Jacques Lacan, contra a tradição dos curandeiros, uma medici-Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,1998 • Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis, Vo- na baseada nos princípios da ciência positivacabulário da psicanálise (Paris, 1967), S. Paulo, Mar- importada da Europa, e mais particularmentetins Fontes, 1991, 2ª ed. dos países latinos: França* e Itália*. Fundador do asilo argentino, Lucio Melendez repetiu no➢ CENA PRIMÁRIA; PANKEJEFF, SERGUEI CONS- seu país o gesto de Philippe Pinel*, criando umaTANTINOVITCH; SEDUÇÃO, TEORIA DA. organização de saúde mental dotada de uma Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 46. Argentina 33rede de hospitais psiquiátricos e edificando uma Professor de psicologia e de medicina legal,nosografia inspirada em Esquirol. Domingo Beltrán publicou duas obras, uma sobre a con-Cabred, seu sucessor, prosseguiu a obra, adap- tribuição da psicanálise para a criminologia,tando a clínica da loucura* aos princípios da outra sobre os seus fundamentos, nas quaishereditariedade-degenerescência*. Na mesma apresentava a doutrina freudiana de modo po-época, começaram a afirmar-se as pesquisas em sitivo, mas sob o aspecto de uma moral natura-criminologia* e em sexologia*, enquanto o en- lista, da qual devia ser eliminado todo vestígiosino da psicologia, em todas as suas tendências, de pansexualismo*. Quanto a Honorio Delgado,tomava uma extensão considerável, com a cria- psiquiatra e médico higienista peruano, maisção, em 1896, de uma primeira cátedra univer- adleriano que freudiano, desempenhou a partirsitária em Buenos Aires. de 1915 um papel importante na difusão da Assim, o terreno estava pronto para receber psicanálise na América Latina. Trocou algumaso pensamento freudiano, mas também todas as cartas com Freud, redigiu a sua primeira biogra-escolas de psicoterapias* fundadas na hipnose*, fia e tornou-se membro da International Psy-na histeria*, na sugestão*. E houve um interesse choanalytical Association* (IPA) por uma filia-indiferenciado pelos trabalhos de Freud, de ção à British Psychoanalytical Society (BPS),Pierre Janet*, de Jean Martin Charcot* e de antes de se afastar do movimento e afirmar queHippolyte Bernheim*. fora “o primeiro freudiano” do continente sul- Em 1904, José Ingenieros, psiquiatra e cri- americano.minologista, publicou o primeiro artigo que A partir de 1930, a Argentina sofreu os re-mencionava o nome de Freud. Depois, durante flexos dos acontecimentos na Europa. A classeos anos 1920, vários autores apresentaram a política foi dividida entre partidários e adversá-psicanálise ora como uma moda ou uma epide- rios do fascismo, ao passo que, nos debatesmia (Anibal Ponce), ora como uma etapa da intelectuais, freudismo e marxismo cristaliza-história da psicologia (Enrique Mouchet). Em vam o sonho de liberdade. Nessa sociedade1930, Jorge Thénon afirmou que ela era exces- construída como espelho da Europa, e na qualsivamente metapsicológica, sem com isso ne- a partir de então os filhos dos imigrantes subiamgar o seu interesse. ao poder, a psicanálise parecia ser capaz de Curiosamente, enquanto uma notável tradu- proporcionar a cada indivíduo um conhecimen-ção espanhola das obras de Freud estava em to de si, de suas raízes, de sua origem, umapreparação em Madri, sob a direção de José genealogia. Nesse sentido, ela foi menos umaOrtega y Gasset*, os autores argentinos se refe- medicina da normalização, reservada aos ver-riam a versões francesas. Do mesmo modo, dadeiros doentes, do que uma terapia de massa,importavam as polêmicas parisienses, às quais a serviço de uma utopia comunitária. Daí o seuacrescentavam — imposição da latinidade — sucesso, único no mundo, junto a todas as clas-as críticas italianas. Assim, os argumentos de ses médias urbanizadas. Daí também a sua ex-Enrico Morselli (1852-1929) tiveram uma re- traordinária liberdade, a sua riqueza, a sua ge-percussão favorável, enquanto o temível nerosidade e a sua distância em relação aosCharles Blondel tinha um franco sucesso ao dogmas.declarar, por ocasião da sua viagem de confe- Enrique Pichon-Rivière* e Arnaldo Rasco-rências em 1927, que Henri Bergson (1859- vsky, ambos psiquiatras e filhos de imigrantes,1941) era o verdadeiro descobridor do incons- um de cultura católica, outro de família judaica,ciente* e Freud uma espécie de Balzac fracas- se entusiasmaram pelo freudismo no períodosado. entre as duas guerras. Como o escritor Xavier Em reação a essa confusão, desenhou-se Bóveda, que convidou Freud a exilar-se emuma outra orientação, com as publicações e as Buenos Aires, sonhavam salvar a psicanálise dointervenções menos críticas de Luis Merzba- perigo fascista, oferecendo-lhe uma nova terracher em 1914, de Honorio Delgado em 1918, prometida. Em 1938, reuniram um círculo dede Gonzalo Lafora* em 1923 e de Juan Beltrán eleitos, que formou o núcleo fundador do freu-entre 1923 e 1928. dismo argentino: Luis Rascovsky, irmão de Ar- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 47. 34 Argentinanaldo, Matilde Wencelblat, sua mulher, Simon rem “sem muito drama de consciência”, dasWencelblat, irmão desta, Arminda Aberastury* vantagens da profissionalização. Foi a épocae enfim Guillermo Ferrari Hardoy e Luisa Gam- das grandes migrações, no interior do conti-bier Alvarez de Toledo. Restava apenas esperar nente latino-americano, facilitadas pelo desen-a chegada dos imigrantes, Angel Garma* e Ma- volvimento da aviação civil. Tendo adquiridorie Langer*, e a volta de Celes Ernesto Cárca- uma tradição clínica e uma verdadeira identi-mo*. dade freudiana, os argentinos formaram então, Formados segundo as regras clássicas da pela análise didática, seja em Buenos Aires, sejaanálise didática*, os três tiveram como primeira em seus próprios países, a maioria dos terapeu-tarefa, no seio do jovem grupo argentino, ser os tas dos países de língua espanhola que, por suadidatas e supervisores de seus colegas. Daí uma vez, se integrariam à IPA, constituindo grupossituação muito peculiar, que determinou certa- ou sociedades: Uruguai, Colômbia, Venezuela.mente a vivacidade própria a essa nova acade- Depois de 1968, o movimento de revoltamia de intelectuais portenhos. Longe de repro- estudantil atingiu as sociedades psicanalíticasduzir a hierarquia dos institutos europeus e nor- da IPA. Apoiados pelos didatas, os alunos emte-americanos, em que dominava a relação pro- formação entraram em rebelião para impor umafessor/aluno, os pioneiros argentinos formaram, transformação radical dos currículos, a aboliçãoantes, uma “república de iguais”. do mandarinato dos titulares e a abertura da Fundada em 1942 por cinco homens e uma psicanálise às questões sociais. No congresso demulher (Pichon-Rivière, Rascovsky, Ferrari Roma, em julho de 1969, enquanto a contes-Hardoy, Cárcamo, Garma, Langer), a Asocia- tação se organizava em torno de Elvio Fachinel-ción Psicoanalítica Argentina (APA) foi reco- li*, um grupo argentino assumiu o nome denhecida no ano seguinte pela IPA, no momento Plataforma. Sob a égide de Marie Langer eem que era publicada a sua revista oficial: Re- Fernando Ulloa, adotou como objetivo estendervista de Psicoanálisis. Posteriormente, Ferrari a revolta a todas as instituições psicanalíticas doHardoy emigrou para os Estados Unidos*. mundo. Unido à Federação Argentina de Psica- Esses pioneiros argentinos pertenciam à ter- nálise (FAP), sob a direção de Emilio Rodrigué,ceira geração* psicanalítica mundial, muito outra figura eminente da escola argentina, oafastada do freudismo* clássico e aberta a todas grupo Plataforma prosseguiu as suas atividadesas novas correntes. A escola argentina nunca se durante dois anos. No congresso da IPA emlimitaria a uma única doutrina. Acolheria todas Viena, em julho de 1971, o grupo se separou dacom um espírito de ecletismo, inscrevendo-as APA para continuar a luta fora da instituição.quase sempre em um quadro social e político: Outro círculo assumiu então o nome de Docu-marxista, socialista ou reformista. Ao longo dos mento. Seus membros apresentaram um projetoanos e através de suas diversas filiações*, ela (um documento) de reformulação dos procedi-conservaria o aspecto de uma grande família e mentos da análise didática na APA. Mas, no fimsaberia organizar suas rupturas sem criar cliva- do ano, diante da impossibilidade de qualquergens irreversíveis entre os membros de suas diálogo, 30 psicanalistas se demitiram, em com-múltiplas instituições. panhia de 20 candidatos, criando assim a pri- Durante o período de grande desenvolvi- meira cisão* na história do movimento psicana-mento da psicanálise (1950-1970), surgiram lítico argentino. Nunca se reintegrariam à APA.fortes atividades literárias e intelectuais, en- Essa ruptura teve como efeito cindir a APAquanto o populismo reformista de Juan Perón em duas tendências rivais, que se enfrentaram(1895-1974) e as políticas conservadoras dos durante seis anos, antes de encontrar um modusregimes militares instauravam um clima de re- vivendi. Em um primeiro tempo, a 20 de janeiropressão e incerteza, que punha constantemente de 1975, um grupo separatista assumiu o nomeà prova os frágeis princípios de uma democracia de Ateneo Psicoanalítico, não para deixar asempre ameaçada. Nesse contexto, era impos- APA, mas para fazer-se admitir, segundo umsível para os psicanalistas da APA, como obser- procedimento legal, como sociedade provisóriavou Nancy Caro Hollander, não se aproveita- da IPA. Diante da velha sociedade eclética, que Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 48. Argentina 35não modificara os seus métodos, o Ateneo que- foram assassinadas e torturadas, sob o rótulo deria promover uma reflexão sobre a análise di- desaparecidos.dática amplamente apoiada nos princípios do Instalado com o fim de exterminar todos oskleinismo e do pós-kleinismo, a fim de res- oponentes à livre dominação do capitalismo deponsabilizar a instituição. Em julho de 1977, no mercado, o terrorismo estatal atingiu primeira-congresso de Jerusalém, o grupo obteve a sua mente as massas populares e seus represen-filiação, sob o nome de Asociación de Psicoa- tantes organizados. E foi em nome da defesa denálisis de Buenos Aires (APdeBA). Depois, um “ocidente cristão” e da segurança nacionalesta manteria relações cordiais com a APA. que as forças armadas decidiram erradicar o Nessa data, a América Latina estava a ponto freudismo e o marxismo, julgados responsáveisde tornar-se o continente freudiano mais pode- pela “degeneração” da humanidade. Ao contrá-roso do mundo, sob a égide da COPAL (futura rio dos nazistas, não erigiram um instituto comoFEPAL*) e em ligação com os grupos brasilei- o de Matthias Heinrich Göring* e não aboliramros, capaz de rivalizar com a American Psy- a liberdade de associação. A perseguição foichoanalytic Association* (APsaA) e a Federa- silenciosa, anônima, penetrando no coração dação Européia de Psicanálise* (FEP). subjetividade. Presidida por Serge Lebovici, a direção da Confrontados com o terror e a planificaçãoIPA constatou essa nova divisão do mundo e dessa estratégia de torturas, os psicanalistaspropôs um estranho recorte em três zonas: 1) reagiram de modo diverso: seja utilizando otudo o que se encontra ao norte da fronteira quadro do tratamento para ajudar os militantesmexicana; 2) tudo o que se encontra ao sul da e testemunhar as atrocidades, seja pela emigra- ção pura e simples, seja pelo exílio interno e amesma fronteira; 3) o resto do mundo. retirada para uma prática privada, cada vez mais As duas cisões se produziram no momento vergonhosa e culpabilizante.em que a Argentina saía de um regime militar Marxista e veterana das Brigadas Interna-clássico, fundado no populismo e herdado do cionais, Marie Langer encontrou-se, desde ovelho caudilhismo, para um sistema de terror seu exílio no México, na vanguarda dos com-estatal. Ora, se o primeiro feria as liberdades bates, arrastando consigo todos os psicanalistaspolíticas, não limitava a liberdade profissional politizados do país. Foi nessa época que ose associativa, da qual dependia o funcionamen- argentinos, como outrora os judeus europeus,to das instituições psicanalíticas. O segundo, ao emigraram em grande número para os quatrocontrário, visava erradicar todas as formas de cantos do mundo, a fim de formar novos gruposliberdade individual e coletiva. Por conseguin- freudianos ou integrar-se aos que já existiam nate, poderia destruir a psicanálise, como fizera Suécia*, na Austrália*, na Espanha*, nos Es-outrora o nazismo*. tados Unidos, na França. Em 1973, quando Perón voltou ao poder, Quanto à direção da IPA, decidiu ficar “neu-nomeou Isabelita, sua nova esposa, para o posto tra”, a fim de não dar pretexto ao regime parade vice-presidente e fez de seu secretário José destruir as suas instituições. E quando foi pres-Lopez Rega o ministro dos assuntos sociais do sionada a intervir em casos de analistas “desa-país. Este apressou-se a criar a Tríplice A parecidos”, os representantes oficiais de suas(Aliança Argentina Anticomunista), conhecida sociedades componentes lhe pediram que nãopor seus esquadrões da morte, que serviram de fizesse nada, para evitar represálias. Depois deforça suplementar para o exército, em suas ope- três anos de debates, por iniciativa da Sociedaderações de controle da sociedade civil. Um ano australiana, a violação dos direitos humanos nadepois, Perón morreu e Isabelita assumiu a sua Argentina foi condenada em votação aberta nosucessão, sendo substituída em março de 1976 congresso da IPA em Nova York, em 1979, apelo general Jorge Videla, que instaurou du- despeito da posição do presidente em exercício,rante nove anos um dos regimes mais sangren- Edward Joseph, que não hesitou em qualificartos do continente latino-americano, com o do de “boatos” os crimes cometidos pelo regimegeneral Pinochet no Chile: trinta mil pessoas do general Videla. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 49. 36 Argentina Na França, René Major, membro da Socie- grupo: a Escuela Freudiana Argentina (EFA).dade Psicanalítica de Paris (SPP), decidiu rea- Depois de sua morte, ocorrida alguns mesesgir. Em fevereiro de 1981, organizou um encon- mais tarde, a EFA teve uma vida turbulenta, poistro franco-latino-americano, durante o qual Jac- a fragmentação da antiga EFP conduziu a umaques Derrida tomou a palavra para denunciar a reorganização mundial do campo lacaniano.maneira pela qual a direção da IPA recortava o Nesse contexto, a EFA deu origem, por cisõesmundo, esquecendo “o mapa situado sob o ma- sucessivas, a uma floração de pequenos grupospa”, a “quarta zona”, a da tortura: “O que se representativos das múltiplas tendências do la-chamará doravante América Latina da psicaná- canismo e do pós-lacanismo. Estes se reorgani-lise é a única zona no mundo em que coexistem, zariam mais uma vez depois da queda de Videla.enfrentando-se ou não, uma forte sociedade Durante todo o período de terror estatalpsicanalítica e uma sociedade (civil ou estatal) (1976-1985), o interesse pelo pensamento depraticando em grande escala uma tortura que Lacan progrediu na Argentina de maneira cu-não se limita mais a formas brutalmente clás- riosa. Recebido como uma contracultura sub-sicas e facilmente identificáveis.” versiva e de aspecto esotérico, a doutrina do Onze anos depois, em um artigo de 1992, mestre permitia aos que a faziam frutificar mer-Leon Grinberg, exilado na Espanha, descreveu gulhar em debates sofisticados sobre o passe*,as conseqüências atrozes desse período, apre- o matema* e a lógica, e esquecer, ou mesmosentando testemunhos assustadores. ignorar, a sangrenta ditadura instaurada pelo A partir de 1964, o lacanismo começou a regime. Como seus colegas politizados da IPA,implantar-se, depois que Pichon-Rivière convi- os lacanianos marxistas e militantes se exilaramdou Oscar Masotta*, jovem filósofo sartriano, a ou resistiram ao terror. Quanto aos outros, fo-fazer uma conferência no seu Instituto de Psi- ram alvo de muitas críticas posteriores. Foramcologia Social. Mencionada pela primeira vez acusados de não ter combatido a opressão eem 1936, em um artigo do psiquiatra Emilio acomodar-se, assim como fez a direção da IPA.Pizarro Crespo, a obra de Jacques Lacan* não A partir de 1985, com o restabelecimento daera conhecida, 30 anos depois, nos meios psica- democracia, todas as sociedades psicanalíticasnalíticos argentinos. Mas então a situação es- argentinas tiveram uma expansão considerável:tava madura para que fosse acolhida, nesse país três sociedades componentes da IPA e um grupoaberto às vanguardas européias, uma forma de de estudos (APA, ABdeBA, Asociación Psicoa-renovação do pensamento freudiano. Em 1967, nalítica de Mendoza, Círculo de Córdoba), reu-um psicanalista da APA, Cesar Liendo, citou nindo mais de mil membros para uma popula-pela primeira vez os trabalhos de Lacan e de ção de 34 milhões e meio de habitantes, ou sejaseus discípulos na Revista de Psicoanálisis. uma densidade (apenas para a IPA) de 29 psica-Depois, Willy Baranger* e David Liberman nalistas por milhão de habitantes, uma das taxascontinuaram no mesmo caminho. Analistas da mais elevadas do mundo.APA organizaram encontros com Octave Man- A obra de Lacan foi ensinada em todas asnoni*, Maud Mannoni e Serge Leclaire*, que universidades pelos departamentos de psicolo-também deram seu apoio a Masotta. gia e serviu de doutrina de referência para psi- Em 1974, dezenove psicanalistas fundaram cólogos clínicos que desejavam ter acesso àa Escuela Freudiana de Buenos Aires (EFBA), profissão de psicanalista através da análise lei-a partir do modelo da École Freudienne de ga*. O movimento se dividiu em cerca de ses-Paris*. Entre eles estavam Isidoro Vegh e Ger- senta grupos, em várias cidades, perfazendo ummán Leopold Garcia. Essa iniciativa, a primeira total de aproximadamente mil terapeutas. Nodo gênero, assinalou o início de uma formidável fim dos anos 1990, o número de psicanalistasexpansão do lacanismo na Argentina, enquanto de todas as tendências se elevava pois a 2.500,Masotta se exilara na Espanha. Cinco anos de- ou seja 57 por milhão de habitantes, um poucopois, uma cisão irrompeu. De Barcelona, Ma- menos do que na França.sotta lançou o anátema contra seus antigos ami- Diante do cisionismo em cadeia e da perdagos da EFBA e anunciou a criação de um novo da casa-mãe, que não garantia mais a unidade Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 50. Associação Brasileira de Psicanálise 37da doutrina depois da morte de Lacan, os anti- rest of the world” (1981), in Psyché, Paris, Galilée, 1987, 327-53 • Raúl Giordano, Notice historique dugos fundadores da EFBA, aliados a muitos ou- mouvement psychanalytique en Argentine, monografiatros latino-americanos do Uruguai, da Venezue- para o CES de psiquiatria, sob a direção de Georgesla, do Brasil* etc., tomaram a iniciativa de rom- Lantéri-Laura, Universidade de Paris-XII, s/d. • Léonper com o espelho parisiense. Assumiram o Grinberg, “La Mémoire accuse: des psychanalystes sous les régimes totalitaires”, Revue Internationalenome de Lacano-Americanos. Sob essa apela- d’Histoire de la Psychanalyse, 5, 1992, 445-72 • Nancyção, federalizou-se um movimento que cobria Caro Hollander “Psychanalyse et terreur d’État en Ar-o conjunto do continente americano, que des- gentine”, ibid., 473-516 • Alain Rouquié, L’État militaireconfiava de toda rigidez institucional e se preo- en Amérique Latine, Paris, Seuil, 1986 • Enrique Torres, “Psicoanálisis de provincia”, conferência inédita pro-cupava em iniciar um processo de “descoloni- nunciada em Buenos Aires em outubro de 1994 • Hugozação”, de emancipação de Paris. Por sua vez, Vezzetti, La locura en la Argentina (1983), B. Aires,a APA integrou o ensino de Lacan aos seus Paidos, 1985; “Psychanalyse et psychiatrie à Buenosprogramas de formação e aceitou em suas filei- Aires”, L’Information Psychiatrique, 4, abril de 1989,ras clínicos lacanianos que respeitassem as re- 398-411; “Freud en langue espagnole”, Revue Interna- tionale d’Histoire de la Psychanalyse, 4, 1991, 189-gras de duração impostas pelos padrões da IPA. 205; Aventuras de Freud en el pais de los argentinos, Sob a influência de Jacques-Alain Miller, B. Aires, Paidos, 1996; (org.), Freud en Buenos Airesabriu-se outro caminho, contrário ao dos Laca- (1910-1939), B. Aires, Punto Sur, 1989.no-Americanos, com a criação, em 1992, da ➢ ASSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE;Escuela de la Orientación del Campo Freudiano BLEGER, JOSÉ; BRASIL.(EOL), visando integrar o lacanismo argentinoe latino-americano a uma estrutura centraliza-da: a Association Mondiale de Psychanalyse*. Arpad, o homenzinho-galo (caso)Mas, a despeito de um real poder, a EOL conti- ➢ TOTEM E TABU.nuou minoritária, certamente por causa do seusectarismo. Em 1991, pela primeira vez desde a sua Arquivos Freud ou Sigmund Freudcriação, a IPA realizou o seu congresso anual Archives (SFA)em Buenos Aires. Nessa ocasião, Horacio Et- ➢ BIBLIOTECA DO CONGRESSO.chegoyen foi eleito presidente. Técnico do tra-tamento de tendência kleiniana, analisado porHeinrich Racker* e membro da ABdeBA, foi o Ásiaprimeiro presidente de língua espanhola do mo- ➢ ANTROPOLOGIA; ETNOPSICANÁLISE; HISTÓRIAvimento freudiano. Na grande tradição do freu- DA PSICANÁLISE; ÍNDIA; JAPÃO; WULFF, MOSHE.dismo argentino, promoveu durante o seu man-dato uma política liberal, aberta a todas as cor-rentes. Associação Brasileira de Psicanálise (ABP)• Analitica del Litoral, 5, dossiê “La entrada del pensa-miento de Jacques Lacan en lengua española (1)”, Criada em maio de 1967 por Mario Martins,Santa Fé, 1995 • Asociación Psicoanalítica Argentina e depois presidida por Durval Marcondes*, a(1942-1982), documentos publicados pelo departa- Associação Brasileira de Psicanálise (ABP) émento de história da psicanálise da APA, B. Aires, uma federação reconhecida pela International1982; Asociación Psicoanalítica Argentina (1942- Psychoanalytical Association* (IPA). Trinta1992), documentos publicados pelo comitê diretor daAPA, B. Aires, 1992 • “Lettres de Sigmund Freud à anos após sua criação, acabaria congregandoHonorio Delgado (1919-1934)”, apresentadas por Al- seis sociedades da IPA no Brasil*: duas no Riovaro Rey de Castro, Revue Internationale d’Histoire de de Janeiro (SPRJ e SBPRJ), uma em São Paulola Psychanalyse, 6, 1993, 401-27 • Jorge Balán, Cuén- (SBPSP), uma em Porto Alegre (SPPA), umatame tu vida. Una biografía colectiva del psicoanálisis em Pelotas (SPP) e uma em Recife (SPR). Aargentino, B. Aires, Planeta, 1991 • Mariano Ben Plot-kin, “Freud, politics and the ‘Porteños’: The reception estas juntam-se três grupos de estudos: Portoof psychoanalysis in Buenos Aires (1910-1943)”, inédi- Alegre (GEPdePA), Ribeirão Preto (GEPRP) eto, 1996 • Jacques Derrida, “Géopsychanalyse and the Brasília (GEPB). Esses nove grupos elevam a Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 51. 38 associação livre, regra da1.456 o número de psicanalistas brasileiros que apoiaria nela para fundar um método radical-são membros da IPA. Como tal, a ABP não é mente novo de exploração do inconsciente: amembro da Federación Psicoanalitica de Ame- associação livre* ou livre associação.rica Latina* (FEPAL), que reúne todas as socie- Inventado por Francis Galton (1822-1911),dades do continente latino-americano, embora esse teste foi empregado por Wilhelm Wundtnão tenha, como a American Psychoanalytical (1832-1920) e Emil Kraepelin*, antes de serAssociation (APsaA)*, o estatuto de associação introduzido por Eugen Bleuler* na Clínica doregional. Burghölzli, onde Jung o usou em larga esca- la em experimentos que tinham por objetivo• Anuário Brasileiro de Psicanálise. Ensaios, publica-ções, calendário, resenhas, artigos, Rio de Janeiro, definir uma nova teoria do complexo. Ele dis-Relume Dumará, 1991 • Roster, The International Psy- tinguia as associações internas ou semânticas,choanalytical Association Trust, 1996-1997. características da introversão*, de outras, cha- madas externas ou verbais, mais relacionadas com a extroversão (exteriorização de si). De-associação livre, regra da pois de aplicar abundantemente o teste, Jung➢ REGRA FUNDAMENTAL. desistiu, em parte sob a influência de Freud. Mas nunca o renegou. Atualmente, o teste é utilizado pelos representantes da escola de psi-Associação Mundial de Psicanálise cologia analítica.➢ ASSOCIATION MONDIALE DE PSYCHANALYSE(AMP). • Carl Gustav Jung, “Diagnostische Assoziationsstu- dien” (Leipzig, 1906, 1909), Gesammelte Werke, II, Zurique, Rascher Verlag • Freud/Jung: correspondên- cia completa (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Imago, 1982Associação Psicanalítica • Henri F. Ellenberger, Histoire de la découverte deInternacional (API) l’inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbanne, 1974), Paris, Fayard, 1994.➢ INTERNATIONAL PSYCHOANALYTICAL ASSOCI-ATION. ➢ REGRA FUNDAMENTAL; RORSCHACH, HER- MANN.associação verbal, teste deal. Assoziationsexperiment; esp. test de associa-ción verbal; fr. test d’association verbale; ing. as- Association Mondiale desociative experiment Psychanalyse (AMP) (Associação Mundial de Psicanálise)Técnica experimental usada por Carl Gustav Jung*,a partir de 1906, para detectar os complexos* e Fundada em fevereiro de 1992 por Jacques-isolar as síndromes específicas de cada doença Alain Miller, genro de Jacques Lacan*, a Asso-mental. Consiste em pronunciar diante do sujeito* ciation Mondiale de Psychanalyse (AMP) fun-uma série de palavras, cuidadosamente escolhi- damenta-se num texto a que seus fundadoresdas, pedindo-lhe que responda com a primeira deram o nome de pacto de Paris. Reúne cincopalavra que lhe vier à cabeça e medindo seu tempo instituições que tomam por referência a Écolede reação. Freudienne de Paris* (EFP), mas nenhuma de- Historicamente, essa técnica está ligada à las foi criada por Lacan: a École de la Causenoção de associação de idéias, já utilizada por Freudienne (ECF, França*, 1981), a Escuela delAristóteles, que definira seus três grandes prin- Campo Freudiano de Caracas (ECFC, Venezue-cípios: a contigüidade, a semelhança e o la, 1986), a École Européenne de Psychanalysecontraste. No século XIX, a psicologia intros- (EEP, França, 1990), a Escuela de la Orienta-pectiva e a filosofia empirista conferiram-lhe ción Lacaniana (EOL, Argentina, 1992) e a Es-tamanha importância que o associacionismo cola Brasileira de Psicanálise (EBP, Brasil*,transformou-se numa verdadeira doutrina, na 1995).qual se inspirariam todas as correntes da psico- Três outras estruturas estão ligadas à AMP:logia e, em especial, Sigmund Freud*, que se a Association de la Fondation du Champ Freu- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 52. atenção flutuante 39dien (AFCF), que coordena grupos de muitos filiadas à International Psychoanalytical As-países que não entram no quadro das cinco sociation* (IPA).escolas; a Fédération Internationale des Biblio- A AMP, além disso, é a única instituiçãothèques du Champ Freudien, que congrega di- lacaniana do mundo que se atribui a tarefa deversos organismos encarregados da difusão do exportar para qualquer país um modelo de en-pensamento lacaniano, e o Institut du Champ sino e de formação dos terapeutas que obedeceFreudien, órgão de formação psicanalítica que a uma doutrina única. Portanto, ela é diferentese divide em seções conforme os diferentes da IPA, que tem por modelo uma associaçãopaíses. Esse conjunto agrupa cerca de 1.800 centralizada, sem dúvida, mas que aceita asmembros (dentre os quais 350 encontram-se na tendências e o debate e que procede a eleiçõesFrança, 318 no Brasil, 200 na Argentina e cerca conformes aos regulamentos associativos.de 100 na Espanha*). Centralizada e governada Ainda diversamente da IPA, a qual, é claro,a partir de Paris por seu presidente (Jacques- encarna a legitimidade freudiana, uma vez queAlain Miller), a quem são delegados todos os Freud foi seu fundador, a AMP retira seu poder,poderes, sem controle nem elegibilidade, a antes de mais nada, da transmissão dos bens eAMP é uma instituição de vocação globali- do direito moral legados por Lacan a sua famí-zante, mais hispanófona do que francófona e lia.mais latino-americana do que realmente inter- Se a AMP não admite nenhuma divergêncianacionalista. Seus membros, em número majo- doutrinária, por outro lado não impõe nenhumaritário, são psicólogos que se beneficiaram da regra técnica: daí a generalização da duraçãoexpansão da análise leiga* decorrente do desen- cada vez mais curta das sessões e, acima devolvimento dos estudos de psicologia na maio- tudo, a atribuição de um poder ilimitado aoria das universidades do mundo, após a Segun- analista, que pode impor ao paciente suas pró-da Guerra Mundial. prias regras ou até seu compromisso com uma A AMP é um aparelho institucional que tem causa.por objetivo centralizar filiais, coordená-las econtrolá-las, a partir da aplicação de um dogma. • Annuaire et textes statutaires, École de la CauseAssim, em nome da teoria do objeto (pequeno) Freudienne, ACF, Paris, 1995 • Escola Brasileira de Psicanálise, Paris, 1995 • Os poderes da palavra,a*, a AMP aboliu em suas instituições a própria textos reunidos pela Association Mondiale de Psycha-idéia de autoria: os livros publicados sob sua nalyse, com uma “Nota preliminar” de Jacques-Alainresponsabilidade são, essencialmente, manifes- Miller e um “Prefácio” de Judith Miller (Paris, 1996), Riotos coletivos não assinados, porém acompa- de Janeiro, Jorge Zahar, 1996.nhados de uma longa lista de nomes reunidosem cartéis, seções e subgrupos, aos quais se ➢ ANÁLISE DIDÁTICA; HISTÓRIA DA PSICANÁLISE;acrescentam prefácios redigidos por Jacques- SOCIEDADE PSICOLÓGICA DAS QUARTAS-FEIRAS;Alain Miller e Judith Miller, sua esposa. SUPERVISÃO; TÉCNICA PSICANALÍTICA. Das 23 sociedades psicanalíticas oriundasda dissolução da EFP em 1981, quatro anuncia-ram um projeto de tipo federativo, com vocaçãoeuropéia ou internacional: a Association Freu- atenção flutuantedienne (AF), fundada em 1981 e que se tornou al. Gleichschwebende Aufmerksamkeit; esp. aten-internacional em 1992 (AFI), o Inter-Associatif ción (parejamente) flotante; fr. attention flottante;de Psychanalyse (I-Ap), a Fondation Euro- ing. suspended attentionpéenne pour la Psychanalyse (FepP), ambas Termo criado por Sigmund Freud*, em 1912, paracriadas em 1991, e, por último, a Association designar a regra técnica segundo a qual o psi-Mondiale de Psychanalyse (AMP). Nenhuma canalista deve escutar seu paciente sem privilegiardessas sociedades continua a aplicar os princí- nenhum elemento do discurso deste e deixandopios de formação didática próprios da EFP e a que sua própria atividade inconsciente entre emmaioria delas adotou um modelo institucional ação.de tipo associativo, próximo do das sociedades ➢ REGRA FUNDAMENTAL. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 53. 40 ato falhoato falho Aubry, Jenny, née Weiss (1903-1987)al. Fehlleistung; esp. acto fallido; fr. acte manqué; psiquiatra e psicanalista francesaing. parapraxis Nascida em uma família da grande burgue-Ato pelo qual o sujeito*, a despeito de si mesmo, sia parisiense, Jenny Aubry era neta de Émilesubstitui um projeto ao qual visa deliberadamente Javal, inventor do oftalmômetro. Sua irmã,por uma ação ou uma conduta imprevistas. Louise Weiss (1893-1983) foi uma célebre su- Tal como em relação ao lapso*, Sigmund fragista. Estimulada pela mãe, fez estudos mé-Freud* foi o primeiro, a partir de A interpreta- dicos, de neurologia e de psiquiatria infantil,ção dos sonhos*, a atribuir uma verdadeira antes de casar-se com Alexandre Roudinescosignificação ao ato falho, mostrando que é pre- (1883-1974), médico de origem romena, deciso relacioná-lo aos motivos inconscientes de quem se divorciou em 1952. Teve como profes-quem o comete. O ato falho ou acidental torna- sores Clovis Vincent, ele próprio aluno de Jo-se equivalente a um sintoma, na medida em que seph Babinski*, e Georges Heuyer (1884-é um compromisso entre a intenção consciente 1917), um dos primeiros médicos franceses ado sujeito e seu desejo* inconsciente. acolher a psicanálise* em seu serviço. Foi ali Foi em 1901, em A psicopatologia da vida que ela conheceu Sophie Morgenstern*. Nascotidiana*, que Freud deu, com grande senso vésperas da guerra, foi nomeada médecin desde humor, os melhores exemplos de atos falhos, hôpitaux, tornando-se assim a segunda mulherutilizando inúmeras histórias fornecidas por a obter esse título na França.seus discípulos, tais como esta, contada por Hostil, desde junho de 1940, ao governo deHanns Sachs*: num jantar conjugal, a mulher Vichy, entrou para uma rede da Resistência.se engana e, em vez da mostarda pedida pelo Utilizando seus conhecimentos, protegeu crian-marido, coloca junto ao assado um frasco do ças judias colocando-as no colégio de Annel, noqual costuma servir-se para tratar de suas dores Loiret, onde trabalhava com Solange Cassel, ede estômago. Os vienenses sempre tiveram no Hospício de Brévannes, onde exercia asacentuada predileção pelos intermináveis rela- funções de chefe de serviço. Em 1943 e 1944,tos de lapsos e atos falhos, os quais transforma- no Hôpital des Enfants Malades, redigiu falsosvam em histórias engraçadas. certificados, para desviar os jovens recrutas do Nesse campo, dando-lhes seguimento, Jac- Serviço de Trabalho Obrigatório (STO).ques Lacan* se revelaria um dos melhores co- Em 1948, começou a se interessar pela pre-mentadores de Freud. Em 1953, especialmente, venção das psicoses infantis e pelas experiên-em “Função e campo da fala e da linguagem em cias de René Spitz* e da escola inglesa, princi-psicanálise”, ele daria a seguinte definição do palmente as de John Bowlby*. Depois de umato falho: “Quanto à psicopatologia da vida encontro decisivo com Anna Freud* e uma via-cotidiana, outro campo consagrado por uma gem aos Estados Unidos*, orientou-se para aoutra obra de Freud, está claro que todo ato psicanálise. Realizou sua análise didática comfalho é um discurso bem-sucedido, ou até es- Sacha Nacht* e fez uma supervisão* com Jac-pirituosamente formulado (...).” ques Lacan*, que ela acompanhou na Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP) e depois na École• Sigmund Freud, A psicopatologia da vida cotidiana Freudienne de Paris* (EFP). Foi com o sobre-(1901), ESB, VI; GW, IV; SE, VI; Paris, Payot, 1973 • nome do segundo marido (Pierre Aubry), queJacques Lacan, Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro, publicou seus trabalhos depois de 1953.Jorge Zahar, 1998. A partir de 1946, desenvolveu uma expe-➢ CHISTES E SUA RELAÇÃO COM O INCONSCIENTE, riência pioneira na França*, implantando noOS. quadro hospitalar não-psiquiátrico a prática e a teoria psicanalíticas. Na Fundação Parent-de- Rosan, ligada ao Hospital Ambroise-Paré, fez um filme sobre crianças doentes de hospita-atuação lismo*. Depois, em 1953, publicou um livro➢ ACTING OUT. coletivo, várias vezes reeditado. Nele, relatou a Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 54. Austrália 41experiência de sua equipe, mostrando os resul- critores e poetas. Em 1928, André Bretontados inéditos obtidos pela psicanálise na pre- (1896-1966) e Louis Aragon (1897-1982) avenção e no tratamento das psicoses* no meio imortalizaram em sua celebração do cinqüente-hospitalar. nário da histeria de Jean Martin Charcot*, opon- Na policlínica do Boulevard Ney, ligada ao do-se assim à revisão de Joseph Babinski*:Hospital Bichat, estendeu seu trabalho de pre- “Nós, surrealistas, fazemos questão de celebrarvenção ao campo dos atrasos escolares, desen- o cinqüentenário da histeria, a maior descobertavolvendo uma terapêutica de massa nas escolas poética do fim do século, e isso no mesmomaternais. Enfim, entre 1964 e 1968, criou um momento em que o desmembramento do con-serviço de clínica psicanalítica (a primeira na ceito de histeria parece fato consumado.”França) no Hôpital des Enfants Malades. Atra- • Iconographie photographique de la Salpêtrière, edi-vés de todas as suas atividades, Jenny Aubry tada por Désiré-Magloire Bourneville e Paul Regnard,procurava, ao mesmo tempo, provar a origem Paris, Bureaux du Progrès Médical, Delahaye e Le-psíquica das carências afetivas nas crianças crosnier, I, 1876-1877, II, 1878, III, 1879-1880 • Laabandonadas ou perturbadas por internações Révolution surréaliste, 9-10, 1927, Paris, Jean-Michelem instituições e tratá-las pela psicanálise. Place, 1980. Por seu trabalho com lactentes ou crianças ➢ ESTUDOS SOBRE A HISTERIA; FRANÇA; HIPNO-pequenas, Jenny Aubry formou, como Fran- SE.çoise Dolto*, mas de maneira diferente, umageração de psiquiatras hospitalares de crianças,que prosseguiriam no caminho traçado. A partir Aulagnier, Piera (1923-1990)de 1969, instalada em Aix-en-Provence, for- psiquiatra e psicanalista francesamou novamente muitos alunos, contribuindo De origem milanesa, Piera Aulagnier viveuassim para uma forte expansão da psicanálise no Egito durante a Segunda Guerra Mundial,nessa região mediterrânea, que durante muitos antes de estudar medicina em Roma. Instalou-anos fora o campo de Angelo Hesnard*. se em Paris, onde fez sua análise didática com• Jenny Aubry, Enfance abandonnée (1953), Paris, Jacques Lacan*. Participou da fundação daScarabée-Métailié, 1983 • Jenny Aubry, H.P. Klotz, École Freudienne de Paris* (EFP), que deixariaJacques Lacan, Ginette Raimbault, P. Royer, “La Place em 1969, em razão de uma discordância sobrede la psychanalyse dans la médecine” (1966), Le o passe*, para criar em 1969, com FrançoisBloc-Notes de la Psychanalyse, 7, 1987, 9-38 • Élisa-beth Roudinesco, História da psicanálise na França, Perrier* e Jean-Paul Valabrega, a Organizaçãovol.2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988 Psicanalítica de Língua Francesa (OPLF), tam-• Marcelle Geber, “Jenny Aubry”, artigo inédito. bém chamada Quarto Grupo. Especialista em clínica das psicoses e representante da terceira➢ PSICANÁLISE DE CRIANÇAS. geração* francesa, fundou a revista Topique. • Piera Aulagnier, La Violence de l’interprétation, Paris, PUF, 1975 • Élisabeth Roudinesco, História da psica-Augustine nálise na França, vol. 2 (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Na Iconografia fotográfica da Salpêtrière, Jorge Zahar, 1988.editada por Désiré-Magloire Bourneville(1840-1909) entre 1876 e 1880, Augustine, umadas figuras mais célebres da histeria* no fim do Austráliaséculo XIX francês, foi representada, não longe Terra de emigração onde os aborígines fo-de Rosalie Leroux e da famosa Blanche Witt- ram exterminados pelo fogo cruzado dos colo-mann, que se vê no quadro do pintor André nos e dos desterrados, eles próprios vítimas daBrouillet (1857-1920) intitulado Uma lição clí- barbárie penitenciária, a Austrália foi ao mesmonica na Salpêtrière, exposto no Salão dos In- tempo um membro desprezado do Império Bri-dependentes de 1887. tânico e um dos continentes de eleição da an- Fotografada muitas vezes em atitudes pas- tropologia* moderna. A implantação do freudis-sionais, Augustine suscitou comentários de es- mo* se fez de duas maneiras distintas: por um Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 55. 42 Austrálialado, através das expedições etnológicas du- refúgio. Só Clara Lazar-Geroe (1900-1980),rante as quais foram debatidas as teses freudia- proveniente de Budapeste, aceitou instalar-senas de Totem e tabu* — de Bronislaw Malinow- em Melbourne em 1940, tornando-se assim aski* a Geza Roheim* —; por outro lado, pela primeira didata do país reconhecida apta pelainstalação de um movimento psicanalítico sub- IPA para formar alunos. Analisada por Michaelmetido ao espírito colonial inglês, e que sempre Balint*, ela criou em 1952, com Roy Winn epermaneceu limitado a um pequeno grupo de dois outros clínicos húngaros vindos de Lon-homens. Nem fundadores, nem chefes de esco- dres, Vera Roboz e Andrew Peto, a Sociedadela, esses pioneiros, autóctones ou imigrantes, se Australiana de Psicanalistas, que foi ligada àinstalaram na dependência em relação à Inter- BPS até 1967. Nessa data, no congresso da IPAnational Psychoanalytical Association* (IPA), em Copenhague, a Sociedade foi admitida co-preocupados principalmente em assemelhar-se mo grupo de estudos. Enfim, em 1973, no con-a seus colegas europeus. gresso de Paris, foi recebida como sociedade Em 1909, Donald Cameron, ex-pastor da componente, sob o nome de Australian Psy-Igreja presbiteriana que se tornara médico, or- choanalytical Society (APS), dispondo imedia-ganizou em Sydney um pequeno grupo de lei- tamente de três ramos (Sydney, Melbourne,tura dos textos freudianos. Fez várias conferên- Adelaide) para organizar um número muito res-cias, que suscitaram reações hostis. Dois anos trito de membros: apenas 62 em meados dosdepois, Andrew Davidson, médico, convidou anos 1990, para uma população de dezoito mi-Sigmund Freud* a pronunciar uma conferência lhões de habitantes.no Congresso médico australiano de Sydney, Como muitas outras regiões do mundo (Es-em companhia de Carl Gustav Jung* e de Ha- candinávia*, Canadá* etc.), a Austrália foi, avelock Ellis*. Os três não compareceram, mas partir dos anos 1960, o centro de um desenvol-enviaram textos que foram lidos. A comunica- vimento de todas as teorias originárias da escolação de Freud, redigida em inglês, tinha como inglesa ou da escola americana: kleinismo*tema a psicanálise*, e foi a ocasião de um novo (Ronald Fairbairn*), pós-kleinismo (Wilfredataque contra as teses de Pierre Janet*. Com Ruprecht Bion*), independentes* (Michael Ba-uma extrema concisão, Freud lembrava que a lint, Donald Woods Winnicott*), Self Psycholo-psicanálise permitira isolar a histeria* de toda gy*.etiologia hereditária, atribuindo-lhe como cau- Quinze anos depois, a entrada em cena dosa primeira um conflito psíquico ligado a uma lacanismo*, importado da Argentina* por Oscardissociação (clivagem*), tendo por origem o Zentner, modificou o panorama psicanalíticorecalque*. australiano. Em 1977, Zentner fundou a Freu- Depois da Primeira Guerra Mundial, come- dian School of Melbourne, a partir do modeloçou o processo de imigração e intercâmbio entre da Escuela Freudiana de Buenos Aires (EFBA),Londres e Sydney. Foi assim que Roy Coupland criada em 1974 por Oscar Masotta*, que por suaWinn (1890-1963) voltou à Austrália, depois de vez seguia o modelo da École Freudienne dese formar na British Psychoanalytic Society Paris*. Como em todos os países de língua(BPS). Foi o primeiro médico australiano a inglesa, a doutrina lacaniana foi então ensinadapraticar a psicanálise e a introduzi-la nos meios na universidade, nos departamentos de literatu-hospitalares. Durante o período entre as duas ra e de filosofia, e também por grupos feminis-guerras, vários artigos, publicados em revistas tas. No plano clínico, ela conseguiu desenvol-especializadas, foram dedicados à sexualidade* ver-se, como na Argentina e no Brasil*, noinfantil e à importância do freudismo para a campo das psicoterapias* e da psicologia, istopsiquiatria e a medicina. é, fora dos circuitos clássicos da medicina, nos Apesar dos apelos de Ernest Jones*, sempre quais, sob a influência da política de Jones, opreocupado em difundir um freudismo de ins- freudismo se instalara amplamente. Nesse as-piração médica e positivista no Império Britâ- pecto, o lacanismo favoreceu na Austrália,nico, os clínicos da Europa, perseguidos pelo contra uma IPA medicalizada, o progresso danazismo*, não escolheram a Austrália como análise leiga*. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 56. autismo 43• Sigmund Freud, “Sobre a psicanálise” (1913), ESB, precoce. Kanner descreveu um quadro clínicoXII, 265-76; SE, XII, 205-11 • Ernest Jones, A vida e a diferente do da esquizofrenia infantil e encarouobra de Sigmund Freud, vol.2, (N. York, 1955), Rio deJaneiro, Imago, 1989 • F.W. Graham, “Obituary Clara o autismo como uma afecção psicogênica, ca-Lazar-Geroe (1900-1980)”, International Review of racterizada por uma incapacidade da criança,Psycho-Analysis, vol.7, parte 4, 1980, 522-3 • Jacquy desde o nascimento, de estabelecer contato comChemouni, História do movimento psicanalítico (Paris, seu meio. Cinco grandes sinais clínicos permi-1990), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991 • Reginald T.Martin, “Australia”, in Psychoanalysis International. A tiriam, segundo ele, reconhecer a psicose* au-Guide to Psychoanalysis Throughout the World, vol.2, tística: o surgimento precoce dos distúrbios (lo-Peter Kutter (org.), Frankfurt, Frommann Verlag, 1995, go nos dois primeiros anos de vida), o extremo27-40. isolamento, a necessidade de imobilidade, as estereotipias gestuais e, por fim, os distúrbios da linguagem (ou a criança não fala nunca, ouÁustria emite um jargão desprovido de significação,➢ VIENA. incapaz de distinguir qualquer alteridade). Depois de postular uma origem psicogênicaautismo para o autismo e afastar a questão do aspectoal. Autismus; esp. autismo; fr. autisme; ing. autism dos distúrbios precoces, e portanto, das psicoses infantis, Kanner evoluiu para um organicismoTermo criado em 1907 por Eugen Bleuler* e deriva- que o levou a encetar uma polêmica com odo do grego autos (o si mesmo), para designar oensimesmamento psicótico do sujeito* em seu maior especialista norte-americano no trata-mundo interno e a ausência de qualquer contato mento de crianças autistas, Bruno Bettelheim*.com o exterior, que pode chegar inclusive ao mu- Além de Bettelheim, foram a corrente anna-tismo. freudiana, por um lado, com os trabalhos de Designa-se pelo adjetivo “autista” a pessoa Margaret Mahler* sobre a psicose simbiótica, eafetada pelo autismo, e pelo adjetivo “autístico” a corrente kleiniana, por outro, que melhor es-tudo aquilo que caracteriza o autismo. Por exem- tudaram e trataram o autismo, amiúde complo, um delírio autístico, uma criança autista. sucesso, com a ajuda dos instrumentos forneci- É numa carta de Carl Gustav Jung* a Sig- dos pela psicanálise*. Nesse contexto, Francesmund Freud*, datada de 13 de maio de 1907, Tustin trouxe uma nova visão sobre essa ques-que descobrimos como Bleuler cunhou o termo tão na década de 1970, ao propor uma clas-autismo. Ele se recusava a empregar a palavra sificação do autismo em três grupos: o autismoauto-erotismo*, introduzida por Havelock El- primário anormal, resultante de uma carêncialis* e retomada por Freud, por considerar seu afetiva primordial e caracterizado por uma in-conteúdo por demais sexual. Por isso, fazendo diferenciação entre o corpo da criança e o dauma contração de auto com erotismo, adotou a mãe; o autismo secundário, de carapaça, quepalavra autismo, depois de ter pensado em ip- corresponde em linhas gerais à definição desismo, derivada do latim. Posteriormente, Kanner; e o autismo secundário regressivo, queFreud conservou o termo auto-erotismo para seria uma forma de esquizofrenia sustentadadesignar esse mesmo fenômeno, enquanto Jung por uma identificação projetiva*.adotou o termo introversão*. A partir de 1980, e apesar da evolução da Em 1911, em seu principal livro, Dementia psiquiatria para o biologismo, o cognitivismo epraecox ou grupo das esquizofrenias, Bleuler a genética, nenhum trabalho de pesquisa conse-designou por esse termo um distúrbio típico da guiu comprovar (como de resto não o fez emesquizofrenia* e característico dos adultos. relação à esquizofrenia e à psicose maníaco- Em 1943, o psiquiatra norte-americano Leo depressiva) que o autismo verdadeiro (quandoKanner (1894-1981), emigrado judeu e originá- não existe nenhuma lesão neurológica anterior)rio do antigo Império Austro-Húngaro, trans- seja de origem puramente orgânica. Por conse-formou a abordagem do autismo ao fazer a guinte, somente a doutrina psicanalítica (emprimeira descrição, a partir de onze observa- qualquer de suas tendências) foi capaz, nesseções, do que denominava de autismo infantil campo, sem excluir a priori a eventualidade de Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 57. 44 auto-análisecausas múltiplas, de explicar a dimensão psíqui- altera o conhecimento que temos da história doca dessa doença e, acima de tudo, de romper campo em questão (a mecânica, a biologia),com o niilismo terapêutico dos adeptos do or- sem modificar o campo em si, ao passo que noganicismo, assim permitindo cuidar das crian- outro caso dá-se o inverso: o reexame do textoças autistas em escolas, clínicas e centros es- transforma o próprio campo. Desenvolveu-sepecializados. um debate interminável, nessa perspectiva de uma distinção entre ciência “natural” e discur-• Eugen Bleuler, Dementia praecox ou groupe des sividade, sobre a questão não da auto-análiseschizophrénies (Leipzig, 1911), Paris, EPEL-GREC,1993 • Carl Gustav Jung, Correspondance (1906- como investigação de si por si mesmo, mas1909), Paris, Gallimard, 1975 • Leo Kanner, “Autistic como momento fundador, para o próprio Freuddisturbances of affective contact”, Nervous Child, 2, e, portanto, para o freudismo*, de um campo de1943, 217-50 • Bruno Bettelheim, A fortaleza vazia discursividade: o da psicanálise, sua doutrina e(1967), S. Paulo, Martins Fontes, 1987 • Frances Tus-tin, Autismo e psicose infantil (Londres, 1970), Rio de seus conceitos.Janeiro, Imago, 1975 • M. Rutter e S. Schloper (orgs.), A questão da auto-análise como inves-L’Autisme. Une réevaluation des concepts et des trai- tigação de si por si mesmo foi resolvida desdetements (N. York, 1978), Paris, PUF, 1991 • Phyllis muito cedo pelo movimento psicanalítico. EmTyson e Robert L. Tyson, Teorias psicanalíticas dodesenvolvimento (New Haven, Londres, 1990), P. Ale- 14 de novembro de 1897, numa carta a Wilhelmgre, Artes Médicas, 1993 • Jacques Postel, “Autisme”, Fliess*, Freud declarou: “Minha auto-análisein Grand dictionnaire de la psychologie, Paris, Larous- continua parada. Agora compreendi por quê. Ése, 1991, 86-7 • Pierre Morel (org.), Dicionário biográ- que só posso me analisar servindo-me de co-fico psi (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar,1997. nhecimentos objetivamente adquiridos, como em relação a um estranho. A verdadeira auto-➢ ANNAFREUDISMO; AUBRY, JENNY; DOLTO, FRAN- análise é impossível, caso contrário já não ha-ÇOISE; KLEINISMO; OBJETO, RELAÇÃO DE; PSICANÁ- veria doença. Como meus casos têm me criadoLISE DE CRIANÇAS; WINNICOTT, DONALD WOODS. alguns outros problemas, vejo-me forçado a interromper minha própria análise.” Essas reservas incitaram Freud a tomar seusauto-análise discípulos em análise, quer para que se tratas-al. Selbstanalyse; esp. autoanálisis; fr. auto-ana- sem como verdadeiros doentes, quer para quelyse; ing. self-analysis se tornassem psicanalistas. Estes, em seguida, Na doutrina freudiana e na história do mo- instauraram os princípios gerais da análise di-vimento psicanalítico, a situação da auto-aná- dática* e da supervisão*, que posteriormentelise sempre foi tão problemática quanto a da permitiriam dar esteio ao avanço da profissão.cientificidade da psicanálise*. Essa nova “ciên- Em conseqüência disso, a auto-análise comocia”, inventada por Freud, realmente se carac- investigação de si mesmo foi banida dos pa-teriza pelo fato de dever sua existência aos drões da formação, a não ser como prolonga-enunciados de um pai fundador, autor e criador mento da análise pessoal.de um sistema de pensamento. Em situações excepcionais, Freud interes- Como assinalou Michel Foucault (1926- sou-se por algumas tentativas de auto-análise,1984) numa conferência proferida em 1969, é como mostra seu comentário de 1926 sobre umpreciso, nesse contexto, estabelecer bem a dife- artigo de Pickworth Farrow dedicado a umarença entre a fundação de um campo de cienti- lembrança infantil que remontava aos seisficidade, caso em que a ciência se relaciona com meses de idade: “O autor [...] não conseguiua obra do instaurador como o faria com coorde- chegar a um acordo com seus dois analistas [...].nadas primárias, e a fundação de uma discursi- Assim, voltou-se para uma aplicação conse-vidade de tipo científico, através da qual um qüente do processo de auto-análise de que meautor instaura em seu próprio nome uma pos- servi, no passado, para analisar meus própriossibilidade infinita de discursos, passíveis de ser sonhos. Seus resultados merecem ser levadosreinterpretados. No primeiro caso, o reexame de em consideração, em virtude de sua originali-um texto (de Galileu ou Darwin, por exemplo) dade e de sua técnica.” Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 58. auto-análise 45 Depois de haver definido solidamente os significação, foi um dos grandes desafios daprincípios da análise didática, a comunidade historiografia* freudiana, primeiramente ofi-freudiana aceitou a idéia de que somente Freud, cial, com os trabalhos de Ernest Jones* e Didiercomo pai fundador, havia realmente praticado Anzieu, depois acadêmica, com Ola Anders-uma auto-análise, isto é, uma investigação de si son* e Henri F. Ellenberger*, e por fim revisio-mesmo não precedida de uma análise. Por isso, nista, com a elucidação que Frank J. Sullowayela desenhou um quadro de filiações* em que o fez dos empréstimos que Freud tomou de Fliess.mestre ficou ocupando um lugar original: ele se Foi Jones quem popularizou, em 1953, ohavia “autogerado”. Assim, a auto-análise dei- termo auto-análise. Ele fez de Fliess um falsoxou de ser uma questão teórica e clínica para se estudioso, demoníaco e iluminado, que nuncatornar a grande questão histórica da psicanálise. produziu nada de interessante. Quando a Freud,Passou-se então a indagar exclusivamente so- transformou-o num verdadeiro herói da ciência,bre a auto-análise de Freud, e portanto, sobre o capaz de inventar tudo sem nada dever a suanascimento e as origens da doutrina psicanalí- época. E, para explicar o amor desmedido quetica. esse deus nutria por Satã, entregou-se a uma Freud mudou de opinião várias vezes quanto interpretação psicanalítica das mais ortodoxas:à duração dessa auto-análise, mas, ao tomarmos Fliess teria ocupado junto a Freud o lugar de umconhecimento de suas cartas a Fliess, cons- sedutor paranóico e de um substituto paterno,tatamos que ela se desenrolou entre 22 de junho do qual este último se haveria desfeito valente-e 14 de novembro de 1897. Durante esse perío- mente, através de um “trabalho hercúleo” quedo crucial, o jovem médico abandonou a teoria lhe permitiu ter acesso à independência e àda sedução* em favor da teoria da fantasia* e verdade. Essa interpretação foi retirada da fa-fez sua primeira interpretação do Édipo de Só- mosa declaração de Freud a Sandor Ferenczi*:focles. “Tive êxito onde o paranóico fracassa.” Com Tal como Freud, os diferentes comentadores algumas variações, ela foi adotada durante unsalongaram a duração dessa experiência origi- vinte anos pela comunidade freudiana.nal, fazendo-a iniciar-se em 1895, com a publi- Em 1959, Didier Anzieu a criticou, avalian-cação dos Estudos sobre a histeria*, e situando do a auto-análise de Freud à luz de seus traba-seu fim em 1899, no momento em que foi lhos posteriores e, em particular, de A interpre-lançada A interpretação dos sonhos*. Eles tação dos sonhos.sublinharam que o período de junho a novem- Em seguida, os trabalhos da historiografiabro de 1897 correspondeu a uma auto-análise erudita modificaram radicalmente a idéia que“intensiva”. se podia ter desse episódio. Ellenberger fez dele De qualquer modo, como salientou Patrick um momento essencial de toda forma de “neu-Mahony, uma coisa é certa: essa auto-análise rose criadora” e, depois dele, Sulloway foi onão foi um tratamento pela fala, mas pela escri- primeiro, em 1979, a mudar de campo e estudarta. Seu conteúdo figura nas 301 cartas que Freud a auto-análise de Freud como o episódio dra-enviou a Fliess entre 1887 e 1904. Ora, essa mático de uma rivalidade científica entre doiscorrespondência foi alvo de uma censura e, homens. Não obstante, numa perspectivamais tarde, de um escândalo. Publicada pela continuísta, ele rejeitou a idéia de que Freudprimeira vez em 1950, por Marie Bonaparte*, houvesse inventado uma nova teoria da sexua-Ernst Kris* e Anna Freud*, sob o título de O lidade* e da bissexualidade* e fez dele umnascimento da psicanálise, continha somente herdeiro da doutrina fliessiana.168 cartas, das quais apenas 30 estavam com- Marcado pela tradição francesa da históriapletas. Faltavam, portanto, 133, que só seriam das ciências (a de Alexandre Koyré), Jacquespublicadas em 1985, por ocasião da primeira Lacan* rompeu radicalmente com a concepçãoedição não expurgada, feita em língua inglesa de Jones em 1953. Num belo comentário sobrepor Jeffrey Moussaieff Masson. o sonho “da injeção de Irma*”, e sem conhecer Sob esse aspecto, o estudo da auto-análise a história de Emma Eckstein*, ele mostrou quede Freud, de sua duração, seu conteúdo e sua na origem de uma descoberta há sempre uma Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 59. 46 auto-erotismodúvida fundadora. Nenhum estudioso passa su- Biologist of the Mind, N. York, Basic Books, 1979 • Patrick Mahony, “L’Origine de la psychanalyse: la curebitamente da “falsa” para a “verdadeira” ciên- par écrit”, in André Haynal (org.), La Psychanalyse: centcia, e toda grande descoberta é tão somente a ans déjà (Londres, 1994), Genebra, Georg, 1996, 155-história de um encaminhamento dialético em 85.que a verdade está intimamente misturada aoerro. Essa foi também a tese de Jean-Paul Sartreem Le Scénario Freud, postumamente publi- auto-erotismocado. al. Autoerotismus; esp. autoerotismo; fr. auto-éro- Numa perspectiva idêntica, Octave Manno- tisme; ing. auto-erotismni* substituiu o termo auto-análise, em 1967,pela expressão, mais exata, análise originária. Termo proposto por Havelock Ellis* e retomado porSublinhou o lugar ocupado pelas teorias flies- Sigmund Freud* para designar um comportamentosianas na doutrina de Freud e mostrou que a sexual de tipo infantil, em virtude do qual o sujeitorelação entre os dois homens foi a expressão de encontra prazer unicamente com seu próprio cor- po, sem recorrer a qualquer objeto externo.uma divisão complexa entre o saber e o delírio,entre a ciência e o desejo*. ➢ AUTISMO; BLEULER, EUGEN; INTROJEÇÃO; LIBI-• Sigmund Freud, La Naissance de la psychanalyse DO; NARCISISMO; SEXOLOGIA; SEXUALIDADE; TRÊS(Londres, 1950), Paris, PUF, 1956; “Nota preambular ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE.a um artigo de E. Picworth Farrow” (1926), ESB, XX,324; GW, XIV, 568; SE, XX, 280; OC, XVIII, 105 •Freud/Fliess: correspondência completa, 1887-1904,Rio de Janeiro, Imago, 1997 • Sigmund Freud e San- automatismo mental (ou psicológico)dor Ferenczi: correspondência, vol.i, 1908-1914 (Pa- Termo utilizado na psiquiatria ou na psicologiaris, 1992), Rio de Janeiro, Imago, 1994, 1995 • ErnestJones, A vida e a obra de Sigmund Freud, 1, 1856-1900 para designar o funcionamento espontâneo da vi-(N. York, 1953), Rio de Janeiro, Imago, 1989 • Jacques da psíquica normal ou patológica, fora do controleLacan, O Seminário, livro 1, Os escritos técnicos de da consciência* e da vontade. A idéia se inscreveFreud (1953-1954) (Paris, 1975), Rio de Janeiro, Jorge numa concepção organicista da doença mental eZahar, 1979 • Didier Anzieu, A auto-análise de Freud e remete a uma teoria hereditarista ou subliminar doa descoberta da psicanálise (Paris, 1988), P. Alegre, inconsciente*.Artes Médicas, 1989 • Octave Mannoni, “L’Analyseoriginelle” (1967), in Clefs pour l’imaginaire, Paris,Seuil, 1969, 115-31 • Michel Foucault, “Qu’est-ce qu’un ➢ CLÉRAMBAULT, GAËTAN GATIAN DE; ESPIRITIS-auteur?” (1969), in Dits et écrits, vol.I, 1954-1969, Paris, MO; HEREDITARIEDADE-DEGENERESCÊNCIA; HIP-Gallimard, 1994, 789-21 • Frank J. Sulloway, Freud, NOSE; JANET, PIERRE. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra A Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 60. BBabinski, Joseph (1857-1932) Balint, Michael, né Mihalymédico e neurologista francês Bergsmann (1896-1970) Nascido em Paris, em uma família de imi- médico e psicanalista inglêsgrantes poloneses católicos, Joseph Babinski Nascido em Budapeste em uma família dafoi o aluno preferido de Jean Martin Charcot*. pequena burguesia judaica, Michael Bergs-No célebre quadro de André Brouillet (1857- mann era filho de um clínico geral, que confes-1920) Uma lição clínica na Salpêtrière, ele é sava sua decepção por não ter podido tornar-sevisto à esquerda do mestre, em uma sessão de um especialista. Amado pela mãe, mulher sim-hipnotismo, segurando uma mulher histérica ples e inteligente, o jovem Michael contrariou(Blanche Wittmann), mergulhada no sono. Em a autoridade paterna, mas decidiu estudar me-1901, oito anos depois da morte de Charcot, dicina. Como muitos judeus húngaros cujosreviu a sua definição de histeria*, dando-lhe o antepassados adotaram nomes alemães, deci-nome de pitiatismo, do grego peithos (persua- diu, no fim da guerra, “magiarizar-se” parasão) e iatos (curável). Esse desmembramento, afirmar assim que pertencia à nação húngara.que esvaziava notadamente a etiologia sexual Tomou então o sobrenome de Balint. Na uni-construída por Sigmund Freud* e reavivava o versidade, ficou conhecendo Alice Szekely-debate sobre a simulação, era na verdade a Kovacs, estudante de etnologia, que despertouconseqüência da decisão de Babinski de tomar seu interesse pela psicanálise.*.o caminho da fundação da neurologia moderna. A mãe de Alice, Wilma Prosnitz, tendo se Efetivamente, para delimitar com precisão o casado muito jovem com um homem que nãocampo de uma semiologia lesional, era preciso amava (Szekely), desposara em segundas núp-dinamitar a doutrina de Charcot, amputando-a cias Frederic Kovacs, arquiteto que conhecerade suas pesquisas sobre a histeria, e deixando em um sanatório, onde ela se tratava de umaassim para os psiquiatras, e não mais para os tuberculose. Ele próprio estava em tratamentoneurologistas, o tratamento de uma neurose* com Georg Groddeck*, por distúrbios somáti-considerada a partir de então como uma doença cos diversos. Depois do casamento, adotou osmental. três filhos de Wilma, e esta se tornou psicanalis- A partir de 1908, a noção de pitiatismo foi ta, com o nome de Wilma Kovacs (1882-1940),longamente discutida na França pelos grandes depois de fazer uma análise com Sandor Fe-nomes da psiquiatria dinâmica*. Por volta de renczi*, que a curou de uma grave agorafobia.1925, essa palavra caiu em desuso; os surrealis-tas celebraram nesse ano o cinqüentenário da Em 1921, Michael casou-se com Alice ehisteria e da implantação das teses freudianas. instalaram-se em Berlim. Analisado por Hanns Sachs* e supervisionado por Max Eitingon*, no• Élisabeth Roudinesco, História da psicanálise na quadro do prestigioso Berliner Psychoanaly-França, vol.1 (Paris, 1982), Rio de Janeiro, Jorge tisches Institut* (BPI), Balint orientou-se para aZahar, 1989 • Pierre Morel (org.), Dicionário biográficopsi (Paris, 1996), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997. medicina psicossomática*, tratando de pa- cientes no Hospital de Caridade. Depois, voltou➢ CONTRIBUIÇÃO À CONCEPÇÃO DAS AFASIAS; a Budapeste, onde fez um período de análiseFRANÇA; JACKSON, HUGHLINGS; SEXUALIDADE. com Ferenczi. Cinco anos depois da morte des- 47 Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 61. 48 Balint, Michaelte, tomou o caminho do exílio e chegou em 1939 Também contribuíram para a humanização des-a Manchester com sua mulher e seu filho. Foi sas duas disciplinas. Foi por isso que tiveramobrigado, como todos os imigrantes, a refazer tanto sucesso na Grã-Bretanha*, e em todos osos estudos de medicina e teve que enfrentar, outros países, especialmente na França*, onde aalém do exílio, a dor de perder de uma só vez psicanálise era menos dependente da psiquia-quase todos os membros da família. Alice Balint tria.(1898-1939), sua mulher, e Wilma Kovacs, sua Em 1954, foi o primeiro convidado estran-sogra, a quem era muito apegado, morreram geiro da Sociedade Francesa de Psicanálisecom um ano de intervalo. Depois da guerra, (SFP). Foi nessa ocasião que Ginette Raimbaultficou sabendo que seus pais tinham se suicidado lhe foi apresentada. Aluna de Jenny Aubry* epara escapar à deportação. membro da École Freudienne de Paris (EFP), Depois de alguns anos de celibato, Balint ela introduziu a prática dos grupos Balint nocasou-se novamente com uma ex-analisanda, Hôpital des Enfants Malades em 1965, no ser-Edna Oakeshott, que se tornara psicanalista. viço do professor Pierre Royer. Enid e MichaelCertamente, a situação não era muito confortá- Balint assistiram a várias reuniões. E foi Judithvel e o casal não tardou a passar por dificul- Dupont, membro da Associação Psicanalíticadades. da França (APF), neta de Wilma Kovacs, filha A partir de 1946, Balint mudou de vida. de Olga Dormandi (née Szekely) e sobrinha deInstalando-se em Londres, começou a trabalhar Alice Balint, que traduziu a sua obra para ona Tavistock Clinic, onde encontrou os grandes francês, tornando-se também executora testa-astros da escola psicanalítica inglesa: John Ri- mentária da obra de Ferenczi. Tudo isso contri-ckman*, e Wilfred Ruprecht Bion*. Foi lá tam- buiu para a afirmação da escola húngara nabém que ficou conhecendo Enid Albu-Eich- França e para o desenvolvimento de uma cor-holtz, sua terceira mulher. Analisada por Do- rente particular da historiografia* freudiana, cu-nald Woods Winnicott*, Enid Balint (1904- jos traços se encontram na revista Le Coq Hé-1994) iniciou Michael em uma nova técnica, o ron, criada em 1971. Na Suíça, André Haynal,case work. Tratava-se de comentar e trocar re- depois de receber manuscritos e correspon-latos de casos no interior de grupos compostos dências de Enid Balint, abriu em Genebra osde médicos e de psicanalistas. Essa experiência Arquivos Balint.deu origem ao que se chama de grupos Balint. Grande técnico do tratamento, Balint soubeApesar de sua separação em 1953, Michael e aliar o espírito inovador de seu mestre FerencziEnid continuaram a trabalhar juntos. à tradição clínica da escola inglesa. Nesse as- Na dupla linhagem de Ferenczi e da escola pecto, foi realmente o “húngaro selvagem” dainglesa, Balint definiu uma noção nova, a “falha British Psychoanalytical Society (BPS), cujosbásica”, designando sob essa apelação uma “zo- rituais e cuja esclerose ele criticou com muitona” pré-edipiana caracterizada pela ausência, humor, prestando homenagem, na primeira oca-em certos indivíduos, de uma terceira parte sião, aos costumes mais liberais da antiga socie-estruturante, e conseqüentemente de toda reali- dade de Budapeste: “Sua gentileza, sua huma-dade objetal externa. O sujeito* fica então sozi- nidade, sua compreensão, escreveu André Hay-nho e sua principal preocupação é criar algo a nal, sua repugnância pelas relações autoritáriaspartir de si mesmo. A existência dessa falha não ou de dependência só se igualavam à sua in-permite a instauração de uma contratransferên- dependência de espírito. Sua convicção de quecia*. Nesse caso, o analista é obrigado a proce- a psicanálise poderia evoluir graças à contribui-der a um novo arranjo do quadro técnico, que ção de pensadores independentes, animados depermita aceitar a regressão do paciente. um desejo exclusivo de verdade [...] o persuadiu Os grupos Balint permitiram, aliás, estender de que ela é uma das disciplinas mais impor-a técnica psicanalítica* a uma melhor com- tantes a serviço do homem e da humanidade.preensão das relações entre os médicos e os Assim, ele se sentiu bastante afetado pela mes-doentes, notadamente em terreno hospitalar, quinhez de certas pessoas empenhadas em pes-nos serviços de pediatria e de medicina geral. quisas nesse campo.” Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 62. Bateson, Gregory 49• Michael Balint, Le Médecin, son malade et la maladie Proveniente de uma família veneziana e for-(Londres, 1957), Paris, Payot, 1960; Amour primaire et mado em psiquiatria em Pádua, Basaglia foitechnique psychanalytique (Londres, 1965), Paris,Payot, 1972; A falha básica (Londres, 1968), P. Alegre, nomeado em 1961 diretor do Hospital Psiquiá-Artes Médicas, 1993; Six minutes par patient. Interac- trico de Gorizia, pequena cidade italiana situadations en consultation de médecine générale (Londres, perto da fronteira iugoslava. Inspirando-se nos1973), Paris, 1976 • Michael Balint e Enid Balint, Te- trabalhos do psiquiatra anglo-americano Max-chniques psychothérapeutiques en médecine (Lon-dres, 1961), Paris, Payot, 1966 • Michel Balint, E. well Jones (1907-1990) sobre as comunidadesBalint, E. Gosling, R. e P. Hildebrand, Le Médecin en terapêuticas, pôs em prática um novo tratamen-formation (Londres, 1966), Paris, Payot, 1979; La Psy- to da loucura*, considerando-a ao mesmo tem-chothérapie focale. Un exemple de psychanalyse ap- po como doença mental e resultado de umapliquée (Londres, 1972), Paris, Payot, 1975 • GinetteRaimbault, Médecins d’enfants, Paris, Seuil, 1973 • marginalização econômica. Sua crítica radicalAndré Haynal, La Technique en question. Contro- de qualquer forma de instituição asilar o levou,verses en Psychanalyse, Paris, Payot, 1987; “Cente- dez anos depois, a criar a associação Psichiatrianaire: Michael Balint 1896-1970”, Psychothérapies, Democratica. Suas teses foram vigorosamentevol.XVI, 4, 1996, 233-5. defendidas e compartilhadas por boa parte da esquerda italiana. Trabalhando no hospital de Trieste, pros-Baranger, Willy (1922-1994) seguiu as suas experiências, substituiu o confi-psicanalista argentino namento por instalações terapêuticas em am- Nascido em Bône, na Argélia, Willy Baran- biente aberto (apartamentos e habitações cole-ger estudou filosofia em Toulouse e emigrou tivas) e demonstrou a inutilidade tanto do asilopara a Argentina* em 1946. Em Buenos Aires, clássico quanto da obstinação farmacológica nointegrou-se à Asociación Psicoanalítica Argen- tratamento da loucura.tina (APA), para instalar-se depois no Uruguai, Em 1979, sua experiência foi coroada deonde criou a Asociación Psicoanalítica del Uru- sucesso: depois de uma ampla consulta feitaguay (APU). Voltando a Buenos Aires em 1966, pelos partidos políticos aos psiquiatras, o parla-publicou várias obras de inspiração kleiniana e mento aprovou uma lei que suprimia o hospitalinteressou-se particularmente pela obra de Jac- psiquiátrico e reintegrava os doentes mentaisques Lacan*. seja ao hospital geral, seja a comunidades tera- pêuticas. Como todas as experiências do movimentoBasaglia, Franco (1924-1980) antipsiquiátrico, a de Basaglia foi posterior- mente questionada pelo retorno das teses orga-psiquiatra italiano nicistas e pela utilização maciça da farmacolo- Na história da antipsiquiatria*, Franco Basa- gia.glia ocupa uma posição bem diferente da deRonald Laing* e de David Cooper*, em razão • Franco Basaglia, L’Institution en négation (Turim,da situação muito peculiar da psicanálise* na 1968), Paris, Seuil, 1970 • Frank Chaumon et al., “Psychiatrie”, Encyclopaedia universalis, 1981, 327-Itália*. Na mesma medida em que Laing e Co- 33; • “Franco Basaglia (1924-1980)”, ibid., 527-8.oper procuraram destruir a instituição asilar apartir de uma reflexão existencial sobre o es- ➢ BION, WILFRED RUPRECHT; BURROW, TRI-tatuto da esquizofrenia*, Basaglia foi primeira- GANT.mente um militante político, cuja trajetória seinscreve na história do marxismo e do comunis-mo*. Nesse aspecto, ao contrário de Cooper e Bateson, Gregory (1904-1980)principalmente de Laing, que foram profun- antropólogo americanodamente marcados pela escola inglesa de psica- Nascido em Cambridge e filho de um grandenálise, Basaglia teve poucas relações com o geneticista, Gregory Bateson estudou zoologia,freudismo, que considerava como veículo pri- antes de se orientar para a antropologia*. Fezvilegiado de uma concepção capitalista da estudos de campo na Nova Guiné e nas popu-adaptação do indivíduo à sociedade. lações do rio Sépik, onde, em 1932, ficou co- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 63. 50 Baudouin, Charlesnhecendo Margaret Mead*, que se tornaria sua • Charles Baudouin, Psychologie de la suggestion et de l’auto-suggestion, Neuchâtel, Delachaux et Niestlémulher. 1924; Psychanalyse de Victor Hugo (Genebra, 1943), Inicialmente especialista em análise dos ri- Paris, Armand Colin, 1972; L’Oeuvre de Jung, Paris,tuais e das relações entre homens e mulheres, Payot, 1963 • Mireille Cifali “De quelques remous hel-Bateson voltou-se depois para o estudo da lou- vétiques autour de l’analyse profane”, Revue Interna-cura* e instalou-se na Califórnia, no Veteran’s tionale d’Histoire de la Psychanalyse, 3, 1990, Paris, PUF, 145-57.Hospital de Palo Alto, onde se dedicou ao tra-tamento e à observação de famílias de esquizo- ➢ ANÁLISE LEIGA; QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA, A.frênicos, o que fez dele um pioneiro da antipsi-quiatria* e da terapia familiar*. Na perspectivada Escola de Palo Alto, explicava que a esqui- Bauer, Ida, sobrenome de casadazofrenia* era o resultado de uma disfunção fun- Adler (1882-1945), caso Doradada sobre o que ele chamava de double bind(duplo vínculo*). Essa expressão teve sucesso e Primeiro grande tratamento psicanalíticofoi retomada depois por todos os clínicos da realizado por Sigmund Freud*, anterior aos doesquizofrenia. Homem dos Ratos (Ernst Lanzer*) e do Homem dos Lobos (Serguei Constantinovitch Panke-• Gregory Bateson, La Cérémonie du naven (Cam- jeff*), a história de Dora, redigida em dezembrobridge, 1936), Paris, Minuit, 1971; Vers une écologie de 1900 e janeiro de 1901 e publicada quatrode l’esprit, 2 vols. (N. York, 1972), Paris, Seuil, 1977, anos depois, desenrolou-se entre a redação de A1980; Perceval le fou. Autobiographie d’un schizo- interpretação dos sonhos* e a dos Três ensaiosphrène (Londres, 1962), Paris, Payot, 1975. sobre a teoria da sexualidade*. Originalmente,➢ CULTURALISMO. Freud queria dar a esse “Fragmento da análise de um caso de histeria” o título de “Sonho* e histeria*”. Através desse caso, ele procurou pro- var a validade de suas teses sobre a neurose*Baudouin, Charles (1893-1963) histérica — etiologia sexual, conflito psíquico,psicanalista suíço hereditariedade sifilítica — e expor a natureza Nascido em Nancy, Charles Baudouin es- do tratamento psicanalítico, muito diferente datudou letras e depois foi para Genebra em 1915, catarse* e da hipnose*, e já então fundamentadoatraído pelo desenvolvimento do Instituto Jean- na interpretação* do sonho e na associaçãoJacques Rousseau. Foi lá que descobriu a psi- livre*.canálise*. Formado por Carl Picht, junguiano, e Ao longo dos anos, o texto adquiriu umpor Charles Odier*, sofreu em 1920 um proces- estatuto particular: trata-se, com efeito, do do-so por exercício ilegal da medicina, depois de cumento clínico que mais se comentou, desdeter dado “cursos” de iniciação à sugestão*. Hen- sua publicação. Dezenas de artigos, vários li-ri Flournoy* se opôs à sua candidatura à Socie- vros, um romance e uma peça teatral foramdade Psicanalítica de Paris (SPP). criados a propósito de Dora, e o caso dessa Autor de cerca de trinta obras e artigos de jovem tornou-se o objeto privilegiado dos es-inspiração psicobiográfica, fundou as Éditions tudos feministas. Aliás, muitas vezes foi aproxi-du Mont-Blanc, que publicaram as obras de mado do caso de Bertha Pappenheim*. A maio-alguns psicanalistas da primeira geração fran- ria dos comentadores observou que esse trata-cesa. Criou, em 1924, um instituto internacional mento não foi tão “bem-sucedido” quanto osde “psicagogia” e procurou conciliar a prática outros dois. De fato, Freud teve muitas dificul-da psicanálise com a da “sugestão” e do método dades com sua paciente, e não as mascarou.de Émile Coué (1857-1926), este adepto de uma Como observou Patrick Mahoney a propósitopsicoterapia* baseada no auto-controle pela de Ernst Lanzer, “Quando comparamos asvontade e pela auto-sugestão. Baudouin sempre contratransferências* de Freud com seus prin-quis ficar próximo, ao mesmo tempo, das teo- cipais pacientes, temos a sensação de que elerias freudianas e das de Pierre Janet* e de Carl simpatizava mais com o Homem dos Ratos doGustav Jung*. que com Dora ou com o Homem dos Lobos. Se Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 64. Bauer, Ida 51Freud foi um procurador com Dora, foi um do assunto com seu pai. Este interroga o maridoeducador amistoso com Lanzer.” da amante, que nega categoricamente os fatos Para a publicação desse primeiro tratamento pelos quais é recriminado. Preocupado em pro-exclusivamente psicanalítico, conduzido com teger seu romance extraconjugal, o pai culpadouma mocinha virgem de 18 anos de idade, faz com que a filha passe por mentirosa e aFreud tomou precauções inauditas. Na época, encaminha para tratamento com um médicode fato, a cruzada que se travava contra o freu- que, alguns anos antes, prescrevera-lhe um ex-dismo* consistia em fazer com que a psicaná- celente tratamento contra a sífilis.lise* passasse por uma doutrina pansexualista, A entrada de Freud em cena transforma essaque tinha por objetivo fazer os pacientes (sobre- história de família numa verdadeira tragédia dotudo as mulheres) confessarem, por meio da sexo, do amor e da doença. Sob esse aspecto,sugestão*, “sujeiras” sexuais inventadas pelos sua narrativa do caso Dora assemelha-se a umpróprios psicanalistas. Na Grã-Bretanha* e no romance moderno: hesitamos entre ArthurCanadá*, por exemplo, Ernest Jones* suporta- Schnitzler*, Marcel Proust (1871-1922) e Hen-ria o peso de acusações dessa ordem. rik Ibsen (1828-1906). Com efeito, o drama Logo em sua introdução, portanto, Freud inteiro gira em torno da introspecção através daresolveu responder de antemão a esse tipo de qual a heroína (Ida) mergulha, progres-objeção, mostrando que sua teoria não era uma sivamente, nas profundezas de uma subjetivi-trama diabólica, destinada a perverter mocinhas dade que se oculta de sua consciência. E a forçae mulheres: “Pode-se falar de toda sorte de da narrativa prende-se ao fato de que Freud fazquestões sexuais com moças e mulheres, sem surgir uma impressionante patologia por tráslhes causar nenhum prejuízo e sem acarretar das aparências de uma grande normalidade.suspeitas sobre si mesmo, desde que, em pri- Com isso ele pode restituir a Dora uma verdademeiro lugar, se adote uma certa maneira de que sua família lhe roubara, ao chamá-la defazê-lo e, em segundo, se desperte nelas a con- simuladora.vicção de que isso é inevitável (...). A melhor Nascida em Viena*, numa família da bur-maneira de falar dessas coisas é sendo seco e guesia judaica abastada, Ida era a filha caçuladireto; e ela é, ao mesmo tempo, a que mais se de Philipp Bauer (1853-1913) e Katharina Ger-afasta da lascívia com que esses assuntos são ber-Bauer (1862-1912). Acometido por umatratados na ‘sociedade’, lascívia esta com que afecção sifilítica antes do casamento, Phillip sóas moças e mulheres estão plenamente habitua- enxergava de um olho desde que ela nascera.das. Dou aos órgãos e aos fenômenos seus Freud o descreveu como um homem ativo enomes técnicos e comunico esses nomes, na muito talentoso: “A personalidade dominanteeventualidade de eles serem desconhecidos.” E era o pai”, escreveu, “tanto por sua inteligênciaacrescentou em francês: “J’appele un chat un e suas qualidades de caráter quanto pelas cir-chat.” cunstâncias de sua vida, que condicionaram a A história de Ida Bauer é a de um drama trama da história patológica e infantil de minhaburguês, tal como encontrado nas comédias cliente.” Grande industrial, ele desfrutava deligeiras do fim do século XIX: um marido fraco uma bela situação financeira e era admiradoe hipócrita engana sua mulher, uma dona de pela filha. Em 1888, contraiu tuberculose, o quecasa ignorante, com a esposa de um de seus o obrigou a se instalar com toda a família longeamigos, conhecida numa temporada de férias da cidade. Assim, optou por residir em Merano,em Merano. A princípio enciumado, depois in- no Tirol, onde travou conhecimento com Hansdiferente, o marido enganado tenta, de início, Zellenka (Sr. K.), um negociante menos abas-seduzir a governanta de seus filhos. Depois, tado que ele, casado com uma bela italiana,apaixona-se pela filha de seu rival e a corteja Giuseppina ou Peppina (Sra. K.), que sofria dedurante uma temporada em sua casa de campo, distúrbios histéricos e era uma assídua freqüen-situada às margens do lago de Garda. Hor- tadora de sanatórios. Peppina tornou-se amanterorizada, esta o rejeita, pespega-lhe uma bofe- de Phillip e cuidou dele em 1892, quando eletada e conta a cena a sua mãe, para que ela fale sofreu um descolamento da retina. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 65. 52 Bauer, Ida Nessa época, havendo retornado a Viena, morek, dez anos mais moça que ele, e que seriaPhillip instalou-se na mesma rua que Freud e sua amante até sua morte. Secretário do Partidofoi consultá-lo (como médico) por conta de um Social-Democrata de 1907 a 1914 e, depois,acesso de paralisia e confusão mental de origem assessor de Viktor Adler no ministério de As-sifilítica. Satisfeito com o tratamento, encami- suntos Exteriores em 1918, viria a ser uma dasnhou-lhe sua irmã, Malvine Friedmann (1855- grandes figuras da intelectualidade austríaca no1899). Afetada por uma neurose grave e imersa entre-guerras. No entanto, apesar de seu talentona infelicidade de uma vida conjugal atormen- excepcional, nunca se refez do desmoronamen-tada, ela morreu pouco depois, vítima de uma to do Império Austro-Húngaro e despendeucaquexia de evolução rápida. mais energia atacando Lenin do que combaten- Katharina, a mãe de Ida, provinha, como o do Hitler: “Essa ingenuidade”, escreveu Wil-marido, de uma família judia originária da Boê- liam Johnston, “ainda era uma herança do Im-mia. Pouco instruída e bastante simplória, sofria pério de antes da guerra, no qual a tradiçãode dores abdominais permanentes, que seriam protegia os dissidentes. Bauer insistiu, até 1934,herdadas pela filha. Nunca se interessara pelos em fazer cruzadas típicas do pré-guerra contrafilhos e, desde a doença do marido e da desunião a Igreja e a aristocracia, num momento em que,que se seguira a ela, exibia todos os sinais de justamente, deveria ter-se associado a seus ini-uma “psicose doméstica”: “Sem mostrar ne- migos de outrora para repelir o fascismo. Pou-nhuma compreensão pelas aspirações dos fi- cas cegueiras tiveram conseqüências tão pesa-lhos, ela se ocupava o dia inteiro”, escreveu das.”Freud, “em limpar e arrumar a casa, os móveis Portanto, foi em outubro de 1901 que Idae os utensílios domésticos, a tal ponto que usá- Bauer visitou Freud para dar início a esse trata-los e usufruir deles tinha-se tornado quase im- mento, que duraria exatamente onze semanas.possível (...). Fazia anos que as relações entre Afetada por diversos distúrbios nervosos —mãe e filha eram pouco afetuosas. A filha não enxaquecas, tosse convulsiva, afonia, depres-dava a menor atenção à mãe, fazia-lhe duras são, tendências suicidas —, ela acabara de so-críticas e escapara por completo de sua influên- frer uma terrível afronta.cia.” E era uma governanta quem cuidava de Consciente, desde longa data, do “erro” pa-Ida. Mulher moderna e “liberada”, esta lia livros terno e da mentira em que se apoiava a vidasobre a vida sexual e dava informações sobre familiar, ela havia rejeitado as propostas amo-eles à sua aluna, em segredo. Abriu-lhe os olhos rosas que Hans Zellenka (Sr. K.) lhe fizera àpara o romance do pai com Peppina. Entretanto, margem do lago de Garda e o esbofeteara. Edepois de tê-la amado e de lhe ter dado ouvidos, então tinha eclodido o drama: ela fora acusadaDora se desentendera com ela. por Hans e por seu pai de ter inventado a cena Quanto ao irmão, Otto Bauer (1881-1938), de sedução. Pior ainda, fora reprovada por Pep-ele pensava sobretudo em fugir das brigas fami- pina Zellenka (Sra. K.), que suspeitava que elaliares. Quando tinha que tomar algum partido, lesse livros pornográficos, em particular A fisio-alinhava-se do lado da mãe: “Assim, a cos- logia do amor, de Paolo Mantegazza (1831-tumeira atração sexual havia aproximado pai e 1901), publicado em 1872 e traduzido para ofilha, de um lado, e mãe e filho, do outro.” Aos alemão cinco anos depois. O autor era um sexó-9 anos de idade, ele se tornara um menino logo darwinista, profusamente citado por Ri-prodígio, a ponto de escrever um drama em chard von Krafft-Ebing* e especializado nacinco atos sobre o fim de Napoleão. Depois, descrição “etnológica” das grandes práticas se-rebelara-se contra as opiniões políticas do pai, xuais humanas: lesbianismo, onanismo, mas-cujo adultério aprovava, por outro lado. Tal turbação, inversão, felação etc. Ao encaminharcomo o pai, Otto levou uma vida dupla, marca- sua filha a Freud, Philipp Bauer esperava queda pelo segredo e pela ambivalência. Casou-se este lhe desse razão e que tratasse de pôr fim àscom uma mulher dez anos mais velha, já mãe fantasias* sexuais da moça.de três filhos, mantendo ao mesmo tempo um Longe de subscrever à vontade paterna,romance prolongado com Hilda Schiller-Mar- Freud enveredou por um caminho totalmente Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 66. Bauer, Ida 53diverso. Em onze semanas e através de dois tarde, deu à luz um filho, que posteriormentesonhos — um referente a um incêndio na resi- faria carreira musical nos Estados Unidos*.dência da família e outro à morte do pai —, ele Em 1923, sujeita a novos distúrbios — ver-reconstituiu a verdade inconsciente desse dra- tigens, zumbidos no ouvido, insônia, enxaque-ma. O primeiro sonho revelou que Dora era da- cas —, por acaso chamou à sua cabeceira Felixda à masturbação e que, na realidade, estava Deutsch*. Contou-lhe toda a sua história, falouenamorada de Hans Zellenka. Por isso havia do egoísmo dos homens, de suas frustrações epedido ao pai que a protegesse da tentação desse de sua frigidez. Ouvindo suas queixas, Deutschamor. Quanto ao segundo, ele permitiu ir ainda reconheceu o famoso caso Dora: “Desse mo-mais longe na investigação da “geografia se- mento em diante, ela esqueceu a doença e ma-xual” de Dora e, em especial, trazer à luz nifestou um imenso orgulho por ter sido objetoseu perfeito conhecimento da vida sexual dos de um texto tão célebre na literatura psiquiátri-adultos. ca.” Então, discutiu as interpretações de seus Freud se deu conta de que a paciente não dois sonhos feitas por Freud. Quando Deutschsuportou a revelação de seu desejo pelo homem tornou a vê-la, os ataques tinham passado.a quem havia esbofeteado. Por isso, deixou-a Em 1955, havendo emigrado para os Es-partir quando ela resolveu interromper o trata- tados Unidos, Deutsch teve notícia da morte demento. Como agir de outro modo? O pai, de Dora, ocorrida dez anos antes. Através deinício favorável à análise, logo percebeu que Ernest Jones*, ficou sabendo que ela haviaFreud não havia aceitado a tese da fabulação. morrido em Nova York, e, através de um colega,Por conseguinte, desinteressou-se do tratamen- soube como se haviam desenrolado seus últi-to da filha. Por seu lado, esta não encontrara em mos anos de vida. Dora tinha voltado contra oFreud a sedução que esperava dele: ele não fora próprio corpo a obsessão de sua mãe: “Suacompassivo e não soubera empregar com ela constipação, vivida como uma impossibilidadeuma relação transferencial positiva. Nessa épo- de ‘limpar os intestinos’, causou-lhe problemasca, com efeito, ele ainda não sabia manejar a até o fim da vida. Entretanto, habituada a essestransferência* na análise. Do mesmo modo, distúrbios, ela os tratou como um sintoma co-como sublinharia em uma nota de 1923, foi nhecido, até o momento em que eles se revela-incapaz de compreender a natureza da ligação ram mais graves do que uma simples conversão.homossexual que unia Ida (Dora) a Peppina. No Sua morte — de um câncer de cólon, diagnos-entanto, fora a própria Sra. K. que fizera a moça ticado tarde demais para que uma operaçãoler o livro proibido, para depois acusá-la. E fora pudesse ter êxito — veio como uma bênção paratambém ela quem lhe havia falado de coisas seus parentes. Ela fora, nas palavras de meusexuais. informante, uma das ‘histéricas mais repulsi- Esse tema da homossexualidade* inerente à vas’ que ele já havia conhecido.”histeria feminina seria longamente comentado • Sigmund Freud, “Fragmento da análise de um casopor Jacques Lacan* em 1951, enquanto outros de histeria” (1905), ESB, VII, 5-128; GW, V, 163-286;autores fariam questão de demonstrar ora que SE, VII, 1-122; in Cinq psychanalyses, Paris, PUF,Freud nada entendia de sexualidade feminina*, 1954, 1-91 • Felix Deutsch, “Apostille au ‘Fragment d’une analyse d’hystérie (Dora)’” (1957), Revue Fran-ora que Dora era inanalisável. çaise de Psychanalyse, XXXVII, janeiro-abril de 1973, Ida Bauer nunca se curou de seu horror aos 407-14 • Jacques Lacan, “Intervenção sobre a transfe-homens. Mas seus sintomas se aplacaram. Após rência” (1951), in Escritos (Paris, 1966), Rio de Janeiro,sua curta análise, ela pôde vingar-se da humi- Jorge Zahar, 1998, 214-28; O Seminário, livro 2, O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-lhação sofrida, fazendo a Sra. K. confessar o 1955) (Paris, 1978), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985;romance com seu pai e levando o Sr. K. a O Seminário, livro 17, O avesso da psicanálise (1969-confessar a cena do lago. Transmitiu então a 1970) (Paris, 1991), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992verdade ao pai e, depois disso, suspendeu qual- • Henri F. Ellenberger, Histoire de la découverte de l’inconscient (N. York, Londres, 1970, Villeurbane,quer relacionamento com o casal. Em 1903, 1974), Paris, Fayard, 1994 • Arnold Rogow, “A furthercasou-se com Ernst Adler, um compositor que footnote to Freud’s ‘Fragment of an analysis of a casetrabalhava na fábrica de seu pai. Dois anos mais of hysteria’”, in Journal of the American Psychoanaly- Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 67. 54 Beirnaert, Louistical Association, 26, 1978, 311-30 • Hélène Cixous, permaneceu ligado ao da França*, e em parte aoPortrait de Dora, Paris, Des femmes, 1986 • Charles dos Países Baixos*.Berheimer e Claire Kahane (orgs.), In Dora’s Case:Freud-Hysteria-Feminism, N. York, Columbia Universi- Desde os anos 1900, a polêmica a respeitoty Press, 1985 • Harry Stroeken, En analyse avec Freud do freudismo* se desenvolveu entre os neuro-(1985), Paris, Payot, 1987 • William M. Johnston, L’Es- logistas e os psiquiatras. A psicanálise era entãoprit viennois. Une histoire intellectuelle et sociale, 1848- considerada como um método de investigação1938 (N. York, 1972), Paris, PUF, 1985 • Hannah S.Decker, Freud, Dora and Vienna, 1900, N. York, The útil em inquéritos judiciários e na detecção dasFree Press, 1991 • Lisa Appignanesi e John Forrester, simulações. Era confundida com o teste de as-Freud’s Women, N. York, Basic Books, 1992 • Jacque- sociação verbal* de Carl Gustav Jung*. Princi-line Rousseau-Dujardin, “L’Objet: comment le sujet s’y palmente, a prática freudiana não era distingui-retrouve. Une lecture (entre autres) de Dora”, in LeDouble, Centre d’Arts Plastiques de Saint-Fons, 1995, da de todas as outras formas de terapia. A pri-42-52 • Patrick J. Mahony, Freud’s Dora. A Psychoana- mazia da sexualidade* foi qualificada de pan-lytic, Historical and Textual Study, New Haven, Lon- sexualismo* pelo corpo médico, como em todosdres, Yale University Press, 1996. os outros países.➢ DIFERENÇA SEXUAL; ESTUDOS SOBRE A HIS- Depois da Primeira Guerra Mundial, JuliaanTERIA; SEDUÇÃO, TEORIA DA; SEXOLOGIA. Varendonck* foi o verdadeiro pioneiro da psi- canálise na Bélgica. Formado em Viena*, reco- nhecido por Sigmund Freud* e membro da Ne-Beirnaert, Louis (1906-1985) derlandse Vereniging voor Psychoanalysepadre e psicanalista francês (NVP), instalou-se em Gand e trabalhou duran- Nascido em Ascq, Louis Beirnaert entrou te um breve período, antes de morrer sem deixarpara a Companhia de Jesus em 1923 e tornou-se posteridade.professor de teologia dogmática. Durante a Se- Foi necessário esperar o período entre asgunda Guerra Mundial, participou da Resis- duas guerras para que alguns marginais e auto-tência anti-nazista em uma rede gaullista. didatas fundassem verdadeiramente o movi-Orientou-se depois para a psicanálise e foi ana- mento belga: Fernand Lechat*, Camille Lechat,lisado por Daniel Lagache, antes de se tornar sua esposa, e Maurice Dugautiez*. Usando oum dos íntimos companheiros de Jacques La- título de psiquistas, instituíram em 1920 umcan* e desempenhar um papel importante na Círculo de Estudos Psíquicos, no qual se prati-história das relações entre a psicanálise e a cavam igualmente as ciências ocultas, o espiri-Igreja* católica, notadamente a propósito da tismo*, a hipnose* e a psicanálise. Logo, Lechatquestão da detecção das vocações. Cronista da e Dugautiez criaram a revista Le Psychagogue,revista Études, redigiu vários textos importan- fizeram contato com a Sociedade Psicanalíticates sobre a mística, e principalmente sobre Iná- de Paris (SPP), criada em 1926, e se iniciaramcio de Loyola (1491-1556). na análise didática* com Ernst Paul Hoffmann*, vindo de Viena e refugiado na Bélgica de 1938• Louis Beirnaert, Aux frontières de l’acte analytique. LaBible, saint Ignace, Freud et Lacan, Paris, Seuil, 1987. a 1940. Desde essa época, surgiu o conflito em torno➢ IGREJA. da análise leiga* (entre médicos e não-médi- cos), que marcaria o pós-guerra na Bélgica, mas que já atravessava o movimento internacional.Bélgica Lechat e Dugautiez viram-se contestados como A introdução da psicanálise* na Bélgica se- marginais e até “charlatães” por Jacques Deguiu o mesmo movimento de todos os outros Busscher, médico membro da NVP bastantepaíses da Europa*. Mas, dividido entre duas favorável às teses freudianas. Ele próprio nãolínguas, entre médicos e leigos (os não-médi- praticava a psicanálise, mas lutava para que estacos), perpassado pela história do nazismo* e fosse reservada apenas aos médicos.pela renovação lacaniana, o movimento psica- Paralelamente, os meios intelectuais se inte-nalítico belga teve como característica nunca ressavam pelo pensamento freudiano. Assim,conseguir encontrar sua autonomia. Seu destino Hendrik (Henri) De Man (1885-1953), futuro Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 68. Bélgica 55presidente do Partido Operário Belga, escreveu fenomenologia, os representantes da jovem ge-a Sigmund Freud em 1925. Aliás, sociólogos, ração* psicanalítica — a terceira da Bélgica —pedagogos e professores universitários, assim fizeram análises didáticas fora de seu país. Nacomo os jesuítas ligados à Universidade Cató- França com Lacan, na Suíça* com Gustav Ballylica de Louvain começaram a comentar as obras (1893-1966) ou Maeder Boss.de psicanálise e a inspirar-se nelas. Recusando curvar-se às exigências ortodo- Em 1924, foi publicado um número especial xas da SBP, eles acabaram por fundar sua pró-da revista Le Disque Vert, inteiramente dedica- pria instituição em 1969, a Escola Belga dedo à psicanálise. Franz Hellens, seu diretor, Psicanálise (EBP), calcada na École Freudien-conseguira reunir, para tratar desse tema, nomes ne de Paris* e dotada de um programa de ensinoprestigiosos da literatura e do saber médico. Foi idêntico: retorno a Freud, ensino da filosofia, daum verdadeiro acontecimento. antropologia*, da lingüística. Favorável à aná- Na abertura, havia uma carta de Freud. Vi- lise leiga, essa escola reuniu os não-médicosnham depois artigos de psicanalistas e escri- que, inicialmente, eram majoritários.tores franceses. No conjunto, o número expri- Entretanto, diante da SBP, preocupada commia bem os motivos da batalha dos anos 1920 sua respeitabilidade, a EBP permaneceu à pro-em torno do freudismo. Alguns o condenavam cura de uma verdadeira identidade. Ligados àcomo moda efêmera, outros insistiam na serie- Universidade de Louvain, seus fundadores fa-dade do que lhes parecia uma verdadeira dou- voreceram a implantação do lacanismo* na Bél-trina. gica, por uma via católica e universitária. O Durante o período da ocupação nazista, Le- filósofo Alphonse de Waehlens (1911-1981),chat e Dugautiez continuaram a praticar a psi- leitor de Husserl, tradutor de Heidegger e amigocanálise. Em março de 1947, sob o patrocínio de Maurice Merleau-Ponty (1908-1967), de-da SPP, fundaram a Associação dos Psicanalis- sempenhou então um papel importante. Mem-tas da Bélgica (APB), que seria reconhecida bro da École Freudienne de Paris (EFP) de 1964pela International Psychoanalytical Associa- a 1971, começou acompanhando o Semináriotion* (IPA), no congresso de Zurique de 1949, de Lacan, assistiu às suas apresentações decom o firme apoio de Marie Bonaparte*. Essa doentes, antes de tomar as suas distâncias efundação permitiu à psicanálise desenvolver-se militar mais firmemente do que nunca por umana parte francófona do país. psicanálise de inspiração fenomenológica. A adesão à IPA teve como efeito obrigar a Em 1980, a dissolução da EFP acarretou aAPB a se normatizar, isto é, no contexto belga, fragmentação da EBP e a criação de uma mul-a adotar o ponto de vista da medicalização. tidão de pequenos grupos dependentes de diver-Foram mulheres médicas que tomaram a dire- sas escolas neolacanianas parisienses: Escolação da associação e afastaram os fundadores da Causa Freudiana (ECF), Associação Freu-autodidatas. A APB modificou então os seus diana (AF) etc. Com essa disseminação, a EBPestatutos e, em 1960, assumiu o nome de Socie- continuou ligada à Universidade de Louvain,dade Belga de Psicanálise (SBP). Composta de em torno de Jacques Schotte e Antoine Vergote,uma grande maioria de médicos, não se preo- considerando-se pluralista, aberta e democráti-cupou mais com a pesquisa intelectual. No fim ca, não sendo exclusiva a referência a Lacan edos anos 1990, contava com 60 membros, para à sua doutrina.uma população global de dez milhões de habi-tantes, ou seja seis psicanalistas (IPA) para um • Le Disque Vert. Freud et la psychanalyse, Paris- Bruxelas, 1924 • Variétés. Le Surréalisme en 1929,milhão de habitantes. número especial, junho de 1929 • Winfried Huber, Nesse contexto, os jovens terapeutas mais Herman Piron, Antoine Vergote, La Psychanalysebrilhantes preferiram voltar-se para as teses de science de l’homme, Bruxelas, Dessart, 1964 • BulletinJacques Lacan*, cuja doutrina estava banida da Interne de l’EBP, 2 de março de 1977 • Charles Fran- çois, Le Mouvement de l’hygiène mentale en BelgiqueSBP, no momento em que começava a florescer et la formation des psychothérapeutes, tese, Universi-na França, no seio da Sociedade Francesa de dade de Liège, 1978-1979. Arquivos Michel CoddensPsicanálise (SFP, 1953-1963). Marcados pela e Didier Cromphout. Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 69. 56 Bellevue, Clínica Psiquiátrica de➢ CISÃO; FEDERAÇÃO EUROPÉIA DE PSICANÁLI- aqueles que considerava como adversários ouSE; QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA, A. falsos eruditos: Richard von Krafft-Ebing* ou Wilhelm Fliess*. Deve-se acrescentar que Be- nedikt ficou tributário de uma concepção doBellevue, Clínica Psiquiátrica de psiquismo fundada na consciência.➢ BINSWANGER, LUDWIG. Na “Comunicação preliminar” de 1893, que seria incorporada aos Estudos sobre a histeria*, Freud e Josef Breuer* o citaram como tendoBenedikt, Moriz (1835-1920) publicado “ocasionalmente” observações sobre o assunto. Na Interpretação dos sonhos*, Freudmédico austríaco também evoca sua obra Hipnotismo e sugestão, O escritor Hermann Bahr (1863-1920) dizia publicada em 1894.que “o vienense é um homem que detesta e Sua contribuição mais interessante para adespreza os outros vienenses, mas não consegue história da psiquiatria dinâmica* foi um artigoviver fora de Viena”. Se essa frase se aplica a de 1914 que se referia ao que ele chamava emSigmund Freud*, ela convém ainda mais a Mo- inglês the second life, isto é, a vida interiorriz (ou Moritz) Benedikt, cujo destino trágico secreta de cada indivíduo. Essa segunda vida,foi conhecido graças à sua autobiografia publi- que aliás era a expressão de seu próprio itinerá-cada em 1906 e aos trabalhos do historiador rio de médico vienense atormentado pela inau-Henri F. Ellenberger*. tenticidade daquela sociedade fin de siècle, se Esse médico, originário de uma família judia construía, segundo ele, como um sistema dede Burgenland, passou a vida fazendo descober- representações e ruminações que o indivíduotas sobre as doenças nervosas e seu tratamento, conservava em seu foro íntimo, sem desejarsem nunca conseguir ser reconhecido como um manifestá-las. Mais freqüente na mulher, ela erainovador. De certa forma, foi um pioneiro da dominante nos jogadores, nos excêntricos, nossombra que ia de decepção em decepção, de criminosos, nos neurastênicos. A primeira pro-conversão a renegação, à maneira de muitos vidência do terapeuta era ser o explorador dessejudeus vienenses nessa época, sempre à procura sistema, pois ele encerrava segredos patogêni-de identidade e atormentados pelo “ódio de si cos. Benedikt foi também um dos primeirosjudeu”. Benedikt se identificou a todos os inte- estudiosos a detectar as causas sexuais da his-lectuais malditos esquecidos pela ciência ofi- teria. Antes de morrer solitário e esquecido,cial. Não só permaneceu um médico obscuro tinha-se voltado para as ciências ocultas, que noporém talentoso, mas também sofreu por ser, entanto desprezara no início da sua carreira.pelo sobrenome, homônimo de um jornalistacélebre da Neue Freie Press. • Henri F. Ellenberger, Médecines de l’âme. Essais Especialista em histeria*, praticante de hip- d’histoire de la folie et des guérisons psychiques, Paris,nose* e amigo de Jean Martin Charcot*, afirma- Fayard, 1995.va, já em 1864, que a histeria era uma doença ➢ JUDEIDADE; PSIQUIATRIA DINÂMICA; SEXUALIDA-sem causas uterinas. Quatro anos depois, inte- DE; WEININGER, OTTO.ressou-se pela eletroterapia, mas, em 1891, vol-tou atrás e começou a militar contra o hipnotis-mo. Enfim, foi um dos primeiros a falar dehisteria masculina. Erna Lesky, historiadora da Benussi, Vittorio (1878-1927)medicina vienense, explicou em 1965 as razões psicanalista italianodos repetidos fracassos desse terapeuta brilhan- Nascido em Trieste, Vittorio Benussi ficoute em se afirmar como um verdadeiro inovador: dividido, durante toda a vida, entre suas duasembora tivesse recebido sólida formação, ele pátrias, a Áustria e a Itália*. Depois de estudarnão podia resolver-se a aceitar os fatos e sempre psicologia em Roma, no departamento dirigidose deixava levar por sua louca imaginação. por Sante De Sanctis (1862-1935), estudouAlém disso, preferia a polêmica ao lento traba- mais especialmente a psicologia experimentallho da razão e não cessava de atacar todos na Áustria e fez uma análise com Otto Gross* Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 70. Bernays, Anna 57em Graz. Depois da queda do Império Austro- mesmo nome, o Instituto Psicanalítico de Ber-Húngaro, recusou um cargo em Praga por ra- lim foi inaugurado em 14 de fevereiro de 1920,zões políticas e voltou à Itália, onde obteve a em instalações arranjadas por Ernst Freud* nacátedra de psicologia na Universidade de Pá- Potsdamer Strasse. Verdadeiro laboratório dedua. Rigoroso ao extremo, como mostram seus formação de terapeutas, desempenhou durantetrabalhos experimentais, Benussi foi também dez anos um papel considerável na elaboraçãoum poeta e uma espécie de guru, que estudou a dos princípios da análise didática* e serviu desugestão* hipnótica e a psicologia do testemu- modelo para todos os outros institutos pos-nho. teriormente criados no âmbito da International Em 1926, no clima antipsicanalítico alimen- Psychoanalytical Association* (IPA). Até suatado pela publicação do livro do célebre psi- ida para a Palestina, Eitingon presidiu a comis-quiatra Enrico Morselli (1852-1929), deu uma são de ensino, e foi em 1923 que, pela primeirasérie de cursos sobre os fundamentos da psica- vez no mundo, a formação analítica foi subme-nálise e formou um certo número de alunos, tida às três prescrições hoje sistemáticas: aná-entre os quais Cesare Musatti*, que se tornaria lise didática, ensino teórico e supervisão*.seu assistente e o sucederia depois de sua morte, Proveniente de Viena*, Hans Sachs* foi oe Novello Papafava, militante anti-fascista, primeiro psicanalista exclusivamente didata doamigo da grande figura da luta contra o regime BPI. Formou 25 pessoas, dentre elas os maismussolinista que foi Piero Gobetti (1901- brilhantes representantes do freudismo* inter-1926), e autor de um ensaio de inspiração freu- nacional. Ao longo dos anos e em razão dodiana sobre os fundamentos do fascismo italia- afluxo de emigrados húngaros que fugiam dono. Benussi ficou conhecendo em Groningen, regime do almirante Horthy, e, mais tarde, donesse mesmo ano de 1926, Ludwig Binswan- afluxo de vienenses obrigados a se exilar porger* e Karl Jaspers (1883-1969). Por razões razões econômicas, o Instituto tornou-se odesconhecidas, suicidou-se em 1927, pouco maior centro de formação analítica do mundo,tempo antes de um congresso de psicologia ao mesmo tempo que se desenvolvia na policlí-italiana, que devia realizar-se em sua homena- nica toda sorte de tratamentos terapêuticos, gra-gem em Pádua. tuitos para os desfavorecidos e pagos em graus Seus trabalhos de psicologia experimental variáveis pelos outros pacientes. Em 1930, naforam escritos e publicados em língua alemã, ocasião em que Eitingon publicou seu “Relató-mas foi em italiano que escreveu suas contri- rio original sobre os dez anos do BPI”, Berlimbuições clínicas, reunidas e publicadas em 1932 se tornara, nas palavras de Ernest Jones*, “osob o título Sugestão e psicanálise por sua coração de todo o movimento psicanalítico in-ex-aluna Silvia Musatti de Marchi. ternacional”. Depois do advento do nazismo* na Alema-• Contardo Calligaris, “Petite histoire de la psychana- nha*, o BPI foi integrado ao instituto alemãolyse en Italie”, Critique, 333, fevereiro de 1975, 175-95• Michel David, La psicoanalisi nella cultura italiana dirigido por Matthias Heinrich Göring*, assim(1966), Turim, Bollati Boringhieri, 1990; “La Psychana- se prestando à sinistra comédia da “arianiza-lyse en Italie”, in Roland Jaccard (org.), Histoire de la ção” da psicanálise, isto é, de sua destruiçãopsychanalyse, vol.2, Paris, Hachette, 1982 • Silvia sistemática como “ciência judaica”.Vegetti Finzi, Storia della psicoanalisi, Milão, Mon-dadori, 1986. • On forme des psychanalystes. Rapport original sur les dix ans de l’Institut Psychanalytique de Berlin, apre-➢ SUICÍDIO. sentação de Fanny Colonomos, Paris, Denöel, 1985.Berliner Psychoanalytisches Institut Bernays, Anna, née Freud(BPI) (1859-1955), irmã de Sigmund Freud(Instituto Psicanalítico de Berlim) Nascida em Freiberg e terceira entre os fi- Criado por Max Eitingon*, Karl Abraham* lhos de Jacob e Amalia Freud*, Anna era tam-e Ernst Simmel* no âmbito da policlínica do bém a primeira das cinco irmãs de Sigmund Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 71. 58 Bernays, MinnaFreud* e a única que foi poupada do extermínio Bernays, Minna (1865-1941),dos judeus pelos nazistas. Em suas lembranças, cunhada de Sigmund Freudmanifestou o mesmo ciúme que seu irmão sen- Na história da vida privada de Sigmundtira em relação a ela, quando era criança. Con- Freud*, Minna Bernays, irmã mais nova detou até que ponto Amalia privilegiava o filho Martha Freud* (née Bernays), ocupa um lugarmais velho: ele tinha direito a um quarto só para determinante, não só pelos laços íntimos queele, enquanto as irmãs se apertavam no resto do mantinha com o cunhado (e que duraram todaapartamento. Quando Amalia quis dar aulas de a vida), mas também porque essa amizade sepiano a Anna, Sigmund se opôs e ameaçou tornou uma das grandes questões da historio-deixar a casa. Quando ela tinha 16 anos, ele a grafia* freudiana, e em especial da correnteimpediu de ler as obras de Honoré de Balzac revisionista.(1799-1850) e de Alexandre Dumas (1802- Em 1882, quando Freud se apaixonou por1870). Essa atitude tirânica estava ligada ao fato Martha, também se sentiu muito atraído porde que Freud fora muito ciumento de seu irmão Minna, cuja inteligência e espírito cáustico oJulius Freud*, nascido depois dele, e posterior- encantavam. Escreveu-lhe cartas íntimas, nasmente se sentira culpado de sua morte. Tinha quais lhe fazia muitas confidências, chamando-então dirigido sua rivalidade contra a jovem a de “meu tesouro, minha irmã”. Nessa época,irmã, vista como “usurpadora” porque lhe to- a jovem estava noiva de um amigo de Freud,mava uma parcela do amor da mãe. Mas essa Ignaz Schönberg (1856-1886), que contraiu tu-hostilidade também mostra a que ponto Freud berculose e morreu no começo do ano de 1886.obedecia, em certas questões, à concepção vi- Minna se decidiu então a ficar solteira e ocupar-toriana da educação das meninas, própria da se de sua mãe em Hamburgo, trabalhando tam-sociedade vienense do fim do século. Suas difí- bém algumas vezes como dama de companhia.ceis relações com essa irmã estimularam certa- Em 1896, instalou-se em Viena* na casa damente suas reflexões sobre as rivalidades edi- irmã e do cunhado, o apartamento do númeropianas e sobre os laços familiares em geral. 19 da Berggasse, onde ocupava um cômodoPosteriormente, Freud se mostrou bem mais sem entrada independente. Assim, tinha queafetuoso com suas quatro outras irmãs, cujo passar sempre pelo quarto do casal Freud paradestino foi trágico. chegar ao seu. Ao longo dos anos, tornou-se a Em outubro de 1883, Anna Freud casou-se “tia Minna” para os cinco filhos da família, aoscom Eli Bernays, irmão de Martha Bernays, quais dedicou muito tempo e toda a sua energia.futura mulher de Freud, com o qual este não Enquanto Freud mantinha a mulher e os filhostardou a se indispor por causa de uma banal afastados da sua vida profissional, confiavahistória de dinheiro. Novamente manifestou seu suas dúvidas, interrogações e certezas à cu-ciúme querendo que Martha, sua noiva, tomasse nhada ternamente amada. Chegou até a viajarpartido por ele, o que ela não fez. Por isso, não em sua companhia, principalmente à Itália. Emassistiu ao casamento da irmã. Tempos depois, suas cartas, ele a mantinha informada sobredeu fim à briga e ajudou os Bernays a emigrar todos os assuntos da família, falando-lhe tantopara os Estados Unidos*, onde Eli se tornou um de Martha quanto de suas descobertas intelec-homem de negócios muito rico. Anna teve cinco tuais. Ela respondia com a firmeza de umafilhos e morreu em Nova York quase centenária. mulher que ocupava uma posição sólida entre os familiares. Em 1938, já doente e quase cega,• Anna Freud-Bernays, “My brother S. Freud”, The conseguiu exilar-se em Londres, onde morreuAmerican Mercury, 51, 1940 • Ernest Jones, A vida e dois anos depois do cunhado.a obra de Sigmund Freud, vol.1 (N. York, 1953), Rio de Carl Gustav Jung*, que recusava a teoriaJaneiro, Imago, 1989 • Lydia Flem, La Vie quotidiennede Freud et de ses patients, Paris, Hachette, 1986 • freudiana da sexualidade*, tinha entretanto umPeter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N. gosto pronunciado pelas histórias picantes daYork, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995. vida privada. Tendo tido, ele próprio, aventuras extra-conjugais, notadamente com Sabina➢ BERNAYS, MINNA; FREUD, MARTHA. Spielrein*, não hesitava em divulgar boatos, Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 72. Bernays, Minna 59verdadeiros ou falsos, sobre as ligações carnais tamente ao constatar a existência de um branco,dos amigos e dos contemporâneos. Assim, foi entre 1893 e 1910, na numeração das cartas.o primeiro, no círculo de Freud, a deixar enten- Ora, era precisamente durante esse período queder que talvez este tivesse sido amante da cu- a relação sexual teria podido ocorrer. Gay nãonhada. Em 1957, em uma entrevista com John acreditava na existência dessa cena incestuosaBillinsky, contou que, em março de 1907, Min- original, mas mostrava como herdeiros legíti-na Bernays, muito “desorientada”, lhe confes- mos, censurando a vida privada dos pensadores,sara que Freud estava apaixonado por ela e “sua suprimiam dados inutilmente, e justamenterelação era verdadeiramente muito íntima”. De- com isso favoreciam a difusão das interpreta-clarou lembrar-se do “suplício” que sofrera ao ções mais fantasiosas.ouvir essa “revelação”. Para Albrecht Hirschmüller, especialista Não era preciso tanto para abalar a comuni- alemão na publicação da correspondência dedade freudiana e reavivar assim as acusações Freud com os membros de sua família, Gaycontra a psicanálise. Essa doutrina, que via sexo teria cometido um erro e a numeração das fa-por toda a parte, ia finalmente ser surpreendida mosas cartas não teria tido interrupção. A cor-em flagrante delito de incesto*, na própria pes- respondência de Freud com a cunhada não con-soa de seu fundador hipócrita? Ernest Jones*, tinha, segundo ele, nenhum elemento que pu-biógrafo oficial do mestre, afirmou inutilmente desse comprovar a existência de tal ligação: “Apor muitas vezes que o grande homem fora correspondência é muito aberta e muito íntima,“monógamo em um grau incomum”, mas não escreveu Hirschmüller. Ela mostra que as re-pôde impedir que o boato fizesse estragos. Pior lações de Freud com a cunhada faziam parte deainda, a correspondência entre Minna Bernays uma rede de relações familiares [...]. Uma rela-e o cunhado continuava inacessível a todos os ção carnal teria causado muitos problemas epesquisadores e zelosamente guardada pelo destruído os laços com Martha, que eram fun-muito ortodoxo Kurt Eissler, responsável pelos damentais para Freud, mas diferentes dos queArquivos Freud, depositados na Biblioteca do mantinha com Minna. Foi a opinião que formei,Congresso* de Washington. depois de ter estudado tudo o que encontrei nos No fim dos anos 1970, o historiador revisio- arquivos de Freud sobre a família Bernays.”nista Peter Swales relançou a questão, dando- Assim, a relação carnal foi inventada porlhe um conteúdo teórico. Preocupado em reen- Jung, a partir de um testemunho mal compreen-contrar os vestígios originais de todas as preva- dido de Minna, antes de se tornar uma fantasiaricações cometidas pelo fundador, começou a maior na historiografia revisionista e antifreu-pesquisar a questão e fez em Nova York, em diana.novembro de 1981, uma conferência que tevegrande repercussão. Tomando como ponto de • Ernest Jones, A vida e a obra de Sigmund Freud, vols.partida a confidência de Jung, explicou que 1 e 2 (N. York, 1953 e 1955), Rio de Janeiro, Imago,Freud tivera uma ligação sexual com Minna. 1989 • John M. Billinsky, “Jung and Freud (the end ofEle a teria até mesmo engravidado e obrigado a romance)”, Andover Newton Quarterly, X, 1969, 39- 43 • Max Schur, Freud: vida e agonia, uma biografiaa abortar. O método utilizado não fornecia a (N. York, 1972), Rio de Janeiro, Imago, 1981 • Lamenor prova da realidade de uma tal ligação. Maison de Freud, Berggasse 19 Vienne, fotografias eTratava-se de uma espécie de paródia de inter- prefácio de Edmund Engelman, notícia biográfica depretação psicanalítica, que pretendia encontrar Peter Gay (N. York, 1976), Paris, Seuil, 1979 • Peter Swales, “Freud, Minna Bernays and the conquest ofna obra de Freud “revelações” autobiográficas Rome: new light on the origins of psychoanalysis”, Newcapazes de explicar o mais claramente possível American Review. A Journal of Civility and the Arts, 1,os atos de sua vida privada. verão de 1982, 1-23 • Janet Malcolm, Tempête aux A esse delírio de interpretação*, o historia- Archives Freud (N. York, 1983), Paris, PUF, 1986 •dor Peter Gay, novo biógrafo de Freud, respon- Peter Gay, Freud: uma vida para o nosso tempo (N. York, 1988), S. Paulo, Companhia das Letras, 1995;deu relatando a perturbação que sentira ao con- Lendo Freud (New Haven, 1990), Rio de Janeiro,sultar, na Biblioteca do Congresso, a correspon- Imago, 1992 • Élisabeth Roudinesco, Genealogiasdência entre Freud e Minna Bernays, mais exa- (Paris, 1994), Rio de Janeiro, Relume Dumará, 1995 • Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 73. 60 Bernfeld, SiegfriedAlbrecht Hirschmüller, carta inédita a Élisabeth Roudi- savam pela infância e pela adolescência emnesco de 13 de setembro de 1996. situação de dificuldade: Wilhelm (Willi) Hoffer➢ FLIESS, WILHELM; SEDUÇÃO, TEORIA DA. (1897-1967), Anna Freud, August Aichhorn*. Todos tinham como objetivo estender a doutri- na freudiana às questões sociais.Bernfeld, Siegfried (1892-1953) Em 1925, publicou duas obras importantes, uma dedicada à psicologia da adolescência, ou-psicanalista americano tra centrada no mito de Sísifo, na qual denun- Militante sionista e austro-marxista, apre- ciava os métodos educativos alemães que pode-ciador de mulheres, fumante inveterado de ci- riam, segundo ele, favorecer a instauração degarros americanos, grande conhecedor das ori- uma ditadura.gens do freudismo*, pioneiro da análise leiga* Nesse ano, separado da primeira mulher, foie da psicologia da adolescência, Siegfried Bern- a Berlim e cruzou o destino de todos aquelesfeld foi uma das figuras principais do primeiro que se tinham agrupado em torno de Karl Abra-círculo psicanalítico vienense, antes de se tor- ham* e de Eitingon. Fez uma análise de doisnar, em 1941, fundador da San Francisco Psy- anos com Hanns Sachs*, e retornou a Viena emchoanalytical Society (SFPS). 1932, depois de se casar com a atriz Élisabeth Nascido em Lemberg, na Galícia, em uma Neumann, aluna de Erwin Piscator (1893-família judia de negociantes de têxteis, ins-talada no subúrbio de Viena*, estudou botânica 1966), futura artista de Hollywood, de quem see zoologia, que lhe deram um sólido conheci- separaria em 1934, para se casar com a terceiramento das ciências da natureza. Depois, orien- mulher e preciosa colaboradora: Suzanne Cas-tou-se para a psicologia e a pedagogia. Desde a sirer-Paret. De origem francesa e mãe de doisjuventude, interessou-se pelo hipnotismo, que filhos, Peter e Renate, ela tinha recebido depraticou com seu jovem irmão, e logo o método Freud a sua formação didática.da associação livre*. Militante sionista e socia- De modo geral, Bernfeld insistia no fato delista, começou a se interessar pela psicanálise* que o homem sempre está em uma “posiçãoatravés da pedagogia e das experiências de Ma- social” e que essa dependência do social é de-ria Montessori*. Em 1915, casou-se com Anne terminante na construção do eu*. Daí a idéiaSalomon, estudante de medicina e militante essencial de que a neurose e a delinqüênciamarxista, com quem teve duas filhas: Rosema- resultam ambas da maneira pela qual os in-rie e Ruth. divíduos são educados na infância. Em 1918, Bernfeld organizou em Viena uma Em 1934, depois da tomada do poder pelosimensa reunião da juventude sionista, durante a nazistas, Bernfeld se exilou com sua filha Ruth,qual Martin Buber (1878-1965) pronunciou um sua mãe, Suzanne, Peter e Renate. Instaladosdiscurso célebre. Um ano depois, criou uma em Menton, no sul da França*, os Bernfeldinstituição, o Kinderheim Baumgarten, espe- passaram por Paris em 1935, apenas o tempo decializado no acolhimento às crianças judias ór- ficar conhecendo René Spitz* e René Lafor-fãs de guerra. Essa instituição devia dar-lhes gue*. Em seguida, depois de uma longa viagemuma formação que lhes permitisse emigrar para que os conduziu de Amsterdam a Londres, dei-a Palestina. Desde a sua abertura, o instituto xaram definitivamente a Europa e foram pararecebeu 240 pensionistas, entre os quais crian- os Estados Unidos*. Em setembro de 1937,ças de menos de cinco anos, desnutridas, retar- estabeleceram-se em São Francisco. Manfreddadas ou traumatizadas. Tornando-se membro Bernfeld, irmão de Siegfried, morreu no campoda Wiener Psychoanalytische Vereinigung de concentração de Theresienstadt e uma parte(WPV) no mesmo ano, Bernfeld encontrou-se da família deste foi exterminada no campo decom Sigmund Freud*, que o recomendou a Max Auschwitz.Eitingon* para a Policlínica de Berlim. Final- Ao contrário de muitos outros imigrantesmente, em 1922, instalou-se como psicanalista vienenses que adotaram facilmente os ideaisem Viena, tornou-se íntimo de Anna Freud* e pragmáticos do freudismo americano, Bernfeldlogo formou um grupo com os que se interes- conservou durante toda a vida esse “espírito Dicionário de Psicanálise (PSI) 1ª revisão – 06.05.98 2ª revisão – 22.07.98 3ª revisão – 11.09.98 4ª revisão – 22.09.98 – Letra B Produção: Textos & Formas Para: Ed. Zahar
  • 74. Bernheim, Hippolyte 61vienense” contestatório e profundamente mar- furt, Suhrkamp, 1992; “Der soziale Ort und seine Be-cado pela teoria das pulsões*. Foi por isso que, deutung für Neurose, Verwahrlosung und Pädagogik”, Imago, 15, 1929, 299-312; “An unknown autobiogra-desde que chegou à Califórnia, ficou ao mesmo phical fragment by Freud”, American Imago, 4, 1, 1946tempo fascinado pela beleza selvagem da costa • Siegfrield Bernfeld e Suzanne Cassirer-Bernfeld,oeste e muito decepcionado pela redução da “Freud’s early childhood”, Bull. Menninger Clinic, 1944,psicanálise a uma psicologia do eu, à sua “mas- 8, 107-15; “On psychoanalytic training”, The Psychoa-sificação”: “Os ‘psicanalistas’ que encontrei nalytic Quarterly, 31, 1962, 453-82 • Jacques Lacan, O Seminário, livro 7, A ética da psicanálise (1959-1960)aqui, escreveu a Anna Freud em 1937, são (Paris, 1986), Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995, 2ª ed.pessoas muito medíocres [...]. A palavra psica- • Franz Alexander, Samuel Eisenstein e Martin Grot-nálise é tão conhecida aqui quanto nos confins jahn (orgs.), A história da psicanálise através de seusdo leste. O nome de Freud é menos corrente, e pioneiros, (N. York, 1966), Rio de Janeiro, Imago, 1981de preferência é pronunciado ‘Frud’ [...]. Se- • Gregory Zilboorg, “S. Bernfeld, Obituary”, in Psychoa- nalytic Quarterly, 1953, 22, 571-2 • Hedwig Hoffer,gundo a geografia dos californianos, Viena se “Obituary, Siegfried Bernfeld, 1892-1953”, IJP, 1955,encontra exatamente na fronteira americano- 66-9 • Moustapha Safouan, Jacques Lacan et la ques-européia. Depois de um número considerável tion de la formation des analystes, Paris, Seuil, 1983 •de discos de música vienense que eles tocam Karl Fallend e Johannes Reichmayr, Siegfried Bernfeldem su