Os Novos Meninos do Morro
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Os Novos Meninos do Morro

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Os Novos Meninos do Morro Document Transcript

  • 1. DESEJO que nossos filhos um dia possam recitar esta quadra ... Fui lá no Morro para ver os meninos fui lá no Morro para ver nossa raiz, vim lá do Morro pra mudar os destinos vim lá do Morro pra fazer um país. 1 2 APESAR DE TUDOMORRO DA LIBERDADE Apesar de ver tanto sofrimento, tanta gente vivendo como cachorroTem coisa que a vida faz agradeço a Deus, por mim.que é cristalina em verdade. Ainda vejo linda a madrugada do Morro.É como o MORRO que trazjá no nome a LIBERDADE. 3 4
  • 2. OS NOVOS SÓIS PRECE DOS MENINOS DO MORRO Contemplo o Templo UniversalQuais luzes me trarão os novos sóis? e rememoro inúmeras passagens de minha vida.Penso serem aquelas que imaginei, Vou delineando vidas, gestos, posturas,que ao longo da luta planejei, comportamentos,que estabeleci como meta firme, seres pensantes, animais, festejos, festanças,que delineei durante tantas noites, esperançasque sonhei sem nenhuma ambição. e compondo um quadro muito claro da evolução, do pensamento, do comportamento, do sexoSeguir a seqüência dos planos, em meio a essa fotografia em preto e branco daapresentar-se como verdade infinita, vida passada.no aguardar do tempo, dos anos,para ao escrever uma página bonita, E foram, penso, bobagensdevolver à imaginação primeira, cometidas instintivamente,ao seio daquela gente aflita, repleto ato em coragemo verbo discursado na algibeira, fez-se prazerosamente.nos versos de uma palavra bendita. E foram tantas emoçõesQuais luzes me trarão os novos sóis? que agora me causam vergonha,Estou certo que virá a quebra dos grilhões mas que representaram comoçõesque prendem o povo à absoluta miséria, em gestos de quem chora e sonha.carregando seus problemas, como caracóisem bando, em contrabando, aos milhões E nessa composição de glóriasem busca de um som que emita palavra séria. cometidas pelo meio da idade, segui a compor a históriaQuais luzes virão do futuro? de um trecho de minha cidade.Essa chama que em meu peito ardese faz claro até mesmo no escuro E representou-se em alegriadonde reluz a palavra LIBERDADE. revestindo-se de festa e fantasia, 5 6confundindo-se com pura orgia, para que eu possa ver tantas falhas minhasmas quebrando o gelo do dia-a-dia. na certeza de um passado que não mais voltará. Retorno à lembrança de tantos sonos distantes,E foi preciso que passassem os dias, sonos, não sonhos, sonos sem cobertor,foi necessário percorrer o tempo, nas longas noites com amigos guardando ospara sentirmos que o conjunto das alegrias instantesestabeleceu a cisma entre pensamentos. com o corpo da inocência como protetor.Ofertou a todos o amadurecimento precoce E foi assim, entre tantos outros devaneios,acompanhado de razões e frases, que sobrevivi equilibrado em uma navalha,efeito firme de verdade em overdose na certeza de equilíbrio entre acelerador e freio,no eliminar de desnecessárias fases. na certeza de que a vida não perdoa a quem muito falha.Tantos agudos pensares correm-me o corpoque exportam de si muitos juízos. E o futuro ?E como dardos jogados ao vento sem escopo Quais verdades virão novas com o trovãoretornam à terra sem maiores prejuízos. dos deuses que comandam os furacões? Serão compostos de componentes durosE se acometem febres de pensamentos de amigos ou somente quentes como lavas de vulcão?que carrego até hoje presentes em mim, Quem tem conta sobrando para apontar o dedona sombra, no instinto, carrego comigo e sem segredo agendar o que virá,numa fila longa que não enxergo o fim. na expulsão dos agouros de medo e na presença firme dos olhos a enxergar?Escorrem os versos de poemas inacabadosfuturas emoções Quantos muros ainda hão de caire apresentam-se versos de poemas imperfeitos. para que a atrofia de grupos degenere-se?E nos versos decorrentes desses trechos E sem ilusões cantem um novo porvir malfamados e a terra se faça pura e regenere-se.revela-se um dos meus defeitos. O futuroMas sei que são emoções tão breves a Deus pertence, como disse o poeta ageu.que deleito-me entre as mesmas enquanto possam O futuro a nós pertence. durar para quem o passado percebeu! 7 8
  • 3. O MORRO OUTRA VEZ MORRO ESPERANÇA IMORTALO Morro tem sua escola,tem seu sambatem seu som. Morro dos fortes braços,O Morro tem sua esmola, construído de invasões,tem seus bambas, guardas ainda os traços,tem seu Dom. manténs vivo os corações.O Morro tem seu asfalto,tem sua gente, De quem te vê simplesmentetem seus carros. como um lugar abençoado,O Morro tem seu arauto, a resistir fortementetem carentes, contra a fome, mal educado.tem escarros.O Morro tem sua favela, A acreditar até o fimtem barracos, que serás feliz um dia,tem doenças. e essa tristeza em mimO Morro tem sua costela, será somente alegria.tem seus fracos,mas tem crença.O Morro tem gente ruim,tem gente boa também.O Morro é tudo pra mim,é tudo o que a gente tem! 9 10SAUDADE IGARAPÉ DO 40 Quarenta ainda é minha maior chaga, ainda hoje é meu sofrimento,Vi um menino correndo fonte de todas minhas lágrimaspelas ruas lá do Morro, por entre meus olhos, meu tormento.sobrando ingenuidademisturando-se aos cachorros. Favela velha com medo da chuva, palafita antiga com medo da enchente,Fazendo mil piruetas, gente dura, feito ferro não se curva,brincando de cangapé, resto de povo, sucata de gente.arremedando caretasaporrinhando o “Seo Zé”. Sucata de gente, pensa a sociedade, resto de povo, pensa a burguesia.Sentando-se na sarjeta, És meu povo, és minha verdade,“se apresentando” à mulher, és minha luta, és minha companhia.carregando uma maletapor um dinheiro qualquer. Logo virão novos tempos, logo seremos nós um temporal,Montando uma burra preta, logo não haverão contratempos,vendendo seu picolé, logo seremos só carnaval.alugando bicicleta,“desmentindo” o seu pé. Carnaval sem ilusões, sem derrota, sem quarta-feira,Escondendo a muleta carnaval de alegria.do filho do “Seo Mané”, Será pela vez primeirade sandália “pau na greta”, que nesse país, um povo humildesonhando ser Rei Pelé. acordará terça-feira, como num domingo?Vi o menino correndomagro, amarelo, plebeu, Festa, descanso, comemoraçãodanado, alegre, viçoso. um povo felizOntem, esse menino era eu. sem chagas no coração. 11 12
  • 4. SUBÚRBIO DA VIDANasci no subúrbionasci lá no Morrovivi feito cachorrocomendo pelo meio-fio UMA FÊMEAsubindo nas goiabeiraslevando a vida por um fiosoltando a poeira do destino Nessa ultima folha do blocomenino em desvairio de papel que hoje escrevimenino em desatino vou registrar meu discurso eu estou pensando em tiNascido no subúrbiono lodo da sociedade Rainha do povoonde a mentira é verdade irmã do direitoonde a verdade é prelúdio parceira da mente mãe do meu peitoLá onde a vida vale ponta de canetabem menos que um vintém verso acabadolá onde a vida é instrumento dona do planetaonde a vida não é ninguém chicote do erradoBem onde um moço como eué só um moço, nada mais Mãe do amoré onde a presença de Morfeu mãe da verdadesó serve pros carnavais. mãe doce sabor mãe “LIBERDADE”Onde não há sonho,só há sono de tanta fome Nome do Morropermanente pesadelo medonho palavra, presenteque a vida dos moços consome luz de todos nós guia da genteÉ onde nascié onde haverei de ficaré onde cresciO Morro que vou libertar 13 14SAUDADES SOLTO NO ARNão é possível compor um canto Solto no ar vai meu sonho,sem que me venha à mente um manto, sonho estrelado e reluzente,vago de tão vaga lembrança construído sob a terra,a relatar-me quanto boas foram tantas canções feito pequena semente.compostas ao som dos bem-te-vis,das arvores comuns de todos os cantos, Solto no ar vai meu sonho,dos caminhos que conduziam sempre trilhando o destino feito,ao mesmo lugar, ao mesmo riacho deste menino do Morroque se chamava “QUARENTA”. acalentando no leito.É impossível não discorrer na memória Pelas distancias correntes,a lembrança daquela instância tão alegre que capitulam no peito,tão medrosa e tão cadente, de outros meninos de láde tantos sonhos soltos pelos caminhos que já têm sonhos desfeitos.que, ao final das tardes,nos levavam, depois do “BANHO NAS PEDRAS”, Um dia um desses meninosde volta à rua empoeirada e escura me disse que estava triste,do meu Morro da Liberdade. sem esperança de vida, pôs-me até o dedo em riste.É impossível dizer que não foi bom,Assim como hoje me é impossível dizer Foi então que soltei meu sonhoque farei uma canção pra vagar pelo céu,ou que entoarei um canto, enquanto luto pela terra,sem que sinta SAUDADES. giro feito carrossel, pra mostrar ao menino que sou juiz, nunca réu. 15 16
  • 5. RUA ESCURA DO MORRO VENTO DO MORRORua escura,parceira dos tolos,que se escondem da vidaencostados nos tijolos. Vento que esquenta meu rosto, vento quente de minha árida terra,Bebericando as bebidas, traz-me nesse quente agostoas mais baratas do bar, o gosto dos ventos da serra.aumentando as feridasque lhes estão por matar. Vento que alivia o calor dos dias quentes de meu chão,Rua escura traz-me o néctar do amor,de luzes quebradas, liberta meu frio coração.guardas segredos noturnosdas meninas estupradas. Vento que vem lá da serra, vento puro da serrana liberdade,Que já nem lembram do dia, Venta forte em minha terrana noite que aconteceu, e varre toda a maldade.a transa, digo agonia,da honra que se perdeu. Vento valente e tão leve venta forte sobre nós,Rua escura, já só nos resta você, vento,és bonita por sob teus arvoredos, pra varrer tantos homens sós.não falarei mal de ti,pois guardas também meus segredos. 17 18 subindo a “São Pedro” rumo ao “Adalberto Vale”NOVO AMANHÃ um pequeno estudante uma luz uma esperança uma certeza o amanhã melhorSurge o sol N alto do Morro.um raioa luzum ensaioque me conduze de soslaiome seduza luzo solum raioa esperançauma vidamuitas lembrançasuma feridapor entre as praçasruas, avenidasum novo afãum raioum soluma luzuma manhãuma camisa brancaapertadauma calça curtadesbotadauma cabeleira lisapenteada 19 20
  • 6. OS MENINOS DO MORRO contraditório,ou nova esperança medroso e terminal.É entardecer e olho por sobre a vidabuscando ao longe enxergar os destinos incertos Sinto pequenos pulsos desnorteados a empurrar odesses meninos que correm sobre as sarjetas peito enlameadas e distancio-me dos presentes sonhosdescalços, sem sobrenomes e sem estudos, diante da imensidão desse exército desem esgotos para tragar-lhes as epidemias, desnaturadosa cólera que germina em seus ventres que vejo além de meus próprios olhos,e nesse pensar vou vagando e me afastando de na profundeza do cume negro de minha curta noventa e três visãopercorrendo outros caminhos que datam longe e, então, formigam meus braçosquando corria sarjetas e esmiuçava formigas como sangue grosso em paralisia,rompendo-as ao solo com o corpo dos meus como corpo inerte e barriga vazia. pés descalços. E nessa seqüência interminável de tantos claros,Feito esses mesmos meninos que escorrem agora transtornos presentes,sobre as sarjetas fedorentas e repletas de lodo percebo ao fundo de dedos tão ralosreservada ao longo dessas vidas aos meninos as “juntas” se fazerem ausentes pobres, e vou morrendo dentro de mim mesmofilhos das favelas e das palafitas e vai sumindo de meu pulsante ser,edificadas sob sol e chuva, a lembrança da felicidade onipresenteresistindo a tudo, mesmo aos ditos bons homens que sustentou-se por longas lutas,resistindo a tudo, mesmo aos ditos maus homens guardada sob o escuro da esperança.resistindo a tudo, mesmo aos ditos vendavaisdeslizantes entre arrotos de palavras frias e vazias, Então sinto-me sómas bem compostas e verdadeiras peças teatrais. não mais que sozinho recolhido ao meu cantinho,É entardecer e fico a olhar o horizonte, o cantinho do mundo que construí,recolhido ao mais íntimo e depressivo comandando tão pequenino exércitopensamento composto de loucos,revolucionário, loucos despojados,reacionário, posto de desesperados. 21 22Fui o Menestrel da tropa, traduzo,o bordel da cidade, conduzoo condutor da verdade, os pensares mais confusosa esperança da vida em convulsões de alegria e tristeza,com a pele menos curtida. em confusões de feiura e beleza, em mistura de morte e vida,E estabelecendo, pela vitória, lá fora a liderança em contraste de verdade e mentira,fui transformando seres homens em crianças as formas de esperança de uma nova ordeme escrevendo pela lei da brincadeira de vida,as linhas tortas da lição mais verdadeira de esperança,que traduz-se sem meios termos de nova sensaçãoem construir própria bandeira de nova emoção,na constituição de vida independente. de novas palavras, que possam levantar tantos seres,É entardecer e não cessam meus devaneios, que possam elevar outros prazerespois não pode o homem que vê e que possam, definitivamente, conduzir-menegar o que a vida o faz perceber à fonte de energia e juventudee tudo o que mais verdadeiro percebo. onde meu corpo se fez banhar há tantos anos passados.São os perdidos olhares famintos,desses a quem prestei juramento, Se foi o pequeno lagonunca a eles, mas sempre a mim mesmo, não sei,de entregar-lhes minha própria existência se foi às margens de nosso doce riachopor completo, por inteiro não sei,na construção de um espaço, se foi na cacimba do “buraco da vovó”na construção da jogada, não sei,na composição de uma canção,na formação de um poemeto, Só sei que ao longo de tantas batalhas,na concepção de uma idéia, vencidas poucas,na oferenda de todo meu existir. perdidas uma imensidão, meu corpo soldado desta missãoÉ entardecer e daqui de cima, onde me encontro foi cansando e cansado estou agora, de tanto ver tantos penaresa ver passar e contar as horas, desses Meninos do Morro, 23 24
  • 7. que como lodo Que pela lei do direito,escorrem pelas sarjetas do destino conquistado com o próprio peito,esperando pela clemência do Deus Divino são queridos amigos do mesmo Morro ondea apontar-lhes o caminho mais curto criei-mee o fardo da vida mais leve e onde os mesmos criaram-separa que possam conduzir seus pensamentos e jamais as bocas calaram-see da própria vida retirar ensinamentos, numa voz única que sempre lutou pelo Morrocomo aqueles que da vida eu mesmo enxerguei e sempre aos trancos conquistou a Liberdade.de ser plebeu, e ao menos no carnavalsentir-me, por uns minutos, um rei. Assim, ao findar o entardecer desses pensamentos, por onde passeei e sob devaneios de genteAinda é entardecer e deslizo atordoado grande,pelas palavras, pelo real, recobro o momento feliz de perceberos fatos, os atos, o dia-a-dia, que novas horas e novos dias construídosa rotina dessas vidas em romaria com a força daquele vendaval de moços felizesa caminhar pelas valas e pelos becos. que por essas bandas fincaram raízes edifica-se a nova história dos novosPelas manhãs, pelas tardes, Meninos do Morro.pelas noites, pelas madrugadassem sentidos, sem pisar na estrada,levitando e deixando o próprio tempo escorrer,sequer lutando pela vida,somente brigando pra não morrer,sequer ganhando a comida,somente deixando a comida os comer.Ainda é entardecer e ao longe escutoos chamados de outros meninos,agora vestidos de homens feitos.Foram outrora meninos também das sarjetase embora carreguem diversos defeitossão soldados companheiros dos versos que antes falei. 25 26LEMBRANÇA DO MORRO INOCENTE Não faz mal, tem brincadeira de casinhaQuando deito os olhos por sobre a rua onde as meninas são sempre as donas de casa,e acompanho o trânsito de tantos meninos, e pela obra da sociedade quis o homemremonto em minha mente viva e nua que ela deitasse como se adulta fosse.a lembrança da infância, de tantos desatinos. Se vamos balar passarinhos na mataNa bolinha de gude o Escurinho era rei do cajual ou das bandas do Japiim,No papagaio de papel o Denival era fome, levaremos o Rai que é o melhor na pontariacangapé todos jogavam, era lei e vamos, na volta, fazer canja de “tesoura”.correr de manja nos becos sem nome. E às seis da tarde, já noitinhaEra noite, era dia, era Liberdade quando os ventos soprarem mais frio,soltando pulos no caminho do Quarenta, vamos correndo pra casa sem olhar pra trazarmando arapucas, trepando em sorveiras, com no corpo a correr um arrepio.mergulhando na água doce da felicidade. Pois já não é mais hora de estar na rua,Ainda tardinha jogar bola no Maracanãzinho, pelos caminhos escuros podemos nos encantar,com a bola encharcada a cair no chavascal, e não mais mergulhar nas pedrase os espinhos do mato maltrato em pé-craque num último pulo para se banhar.dos meninos guardadores dos sonhos de Natal. Voa pensamento distanteSem bicicleta, o patinete bem feito Voa longe no Morro inocente...de rolamentos colhidos lá nas oficinas,fazendo inveja a tantos que sem efeitonão aprenderam a dar cantadas nas meninas. 27 28
  • 8. TRINCAS PARA O MORRO AH! ESSES MENINOS ...O Morro vai Esses meninoso Morro volta são divinosas vezes revolta. espalham cantos por todos os cantosO Morro toma e vão desenhando ilusõeso Morro devolve e vão construindo sonhosas vezes envolve. e vão enganando a vida e vão dominando a própria morteO Morro maltratao Morro ensina Ah! Esses santos meninosas vezes parece sina. são cristalinos espalham alegriaO Morro chora por toda confrariao Morro canta e vão expulsando a tristezaas vezes encanta. e vão expelindo emoção e vão conduzindo o destinoO Morro é asfalto e vão controlando a cidadeo Morro é barroas vezes é um sarro. São pintores, escultores, são doutores, vereadores,O Morro é céu são padres, deputados,o Morro é chão pensam serem senadores,é dono do meu coração. são perfeitos são até prefeitosO Morro é nobreo Morro é plebeu Ah! Esses pobres Meninos do Morro sãoo Morro sou eu. vencedores. 29 30 CHICO BOLSEIRO Negro. a beira do riacho observa seu lugar, agachado, olha o rio e vê os arbustos verdes, repletos de pés de sorva, tucumã, buritis. Arruma-se dentro de sua casa de palha e paxiúba, limpa, fresca, soberanamente palaciana,QUADRA PRO ZÉ própria propriedade tão sonhada, lá no Ceará, onde não existia nada, nada, nada. Negro. Negro Francisco “Seo” Chico Bolseiro, a construir bolsas de palha e vender aos montesVeio um dia não sei donde, para os feirantes do mercado grande,assim como uma dessas estrelas que cai. sustentando a vida com suas bolsas,Fez-se parceiro, irmão, companheiro salvando vidas com sua reza,fez-se muitas vezes pai. gerando vidas com sua mãos, Alegrando vidas com sua sanfona (harmônica), Arrumando vidas com doações de terrenos. Chico Bolseiro, hoje presente na memória desses meninos, que sem nenhuma celeuma agradecem a um dos mais famosos “primatas” do Quarenta, do Morro do Tucumã, do Morro da Liberdade. Chico Bolseiro, lutador da vida, desbravador de florestas e riachos, desbravador do Morro da Gente. Obrigado. 31 32
  • 9. MOÇA NO MORROPara Baré Saraiva Lá vai a moça descendo na escola na diretoria de fraque e cartolaLá vai a moça Lá vai a mãezinhadescendo a ladeira vai mudar de vidasambando na rua cuidar do Edumorena faceira cuidar da comidaLá vai a moça Lá vai a mãezinhacom o dente de ouro coruja tambémde novo na rua esquecer de tudodo bloco um tesouro ninar seu nenémLá vai a moça Lá vai a mãezinhavendendo bandeira quebrar outro ovofugindo de casa junho ver a Brunanamoradeira que é o bicho novoLá vai a moça Lá vai a Barécom os seios - decote cuidar do que temvestido aos joelhos, tem Bruna e Eduem busca da sorte. tem a mim tambémLá vai a moça,Datilografia,no final da tardeseja quente ou fria. 33 34BAIXINHO(Ao Nicéias Magalhães Reis) Amigo, meu amigo em tudo,Como descrever em tão poucas linhas desses que dá noticia boa,tudo o que por ti sinto, às vezes penso até que és mudoirmão que sou teu. não vives a falar, assim, à tôa.Mesmo sofrendo nunca definhase assim correndo por entre labirintos Amigo, meu amigo do Morro,entregas tudo, de ti, a Deus. do tempo dos galos e dos quintais, nunca pedimos socorroArtista sois, artista sim, fomos pra rua, “correr atrás”.desses que o Morro criou,livres a escrever ilusões sem fim Amigo, meu amigo das barras,a fazer real tudo o que a gente sonhou. que desmontamos em parceria, desatamos do povo as amarrasPai tu és de verdade, à cidade, ofertamos alegria.concebestes o Jeferson, louro tesouro teu,e quando vais á luta, lá na cidade Líder, incontestável líder calado,ele chora, tu choras. sois vós somente o trabalho,Será que ele adoeceu? vida, futuro, presente, passado, malandro, passado na casca do alho.Esposo és tu muito mais que marido,Raimundinha que o diga a todos nós, Menino sois assim como teu filho ésois simples, brando, contido, menino sois, menino assim como eu.ordeiro, caseiro sois vós. Amigo, continuamos de pé, amigo, irmão, presente que Deus me deu.Valente, como valente é o bem-te-vibonito cantar, feito tu,que apesar do tamanho nunca vifugir com medo de Urubu. 35 36
  • 10. NEGO DICOQuantos meninos do Morro seguem o mesmo caminho,prosseguindo pela escola uma vida em desalinho, Ao registrar esse fatoconstruindo só histórias de uma vida irreal, quero por telepatia,não sei o que lhes vêm a cabeça, se bonança ou devolver-lhe Nego, o tatotemporal. devolver-lhe a alegria.Faz-se vida sem um prumo, Que não seja pelas dosessem um tino forte a seguir levando de cachaça a ingerir,e a cada dia amanhecido sem rumo, mas que seja por mil vozesno mundo se embriagando, dos amigos a aplaudir.segue o nego a só comporpeças que ninguém vai ler. Sua recuperação como menino na esperança da felicidade,Daqui a pouco o tremular da dor que alimentamos pequeninosnão lhe deixará escrever, no Morro da Liberdade.mesmo com todos os errosque a gramática oferece,ver suas peças, ver seus cantosa qualquer um arrefece.Sinto pena, sinto dósinto a vida a se esvair,sinto na garganta um nó,sinto medo em prosseguir. 37 38CANÇÃO AO MEU POETA Pelas mãos de meu amigo poetaAo Compositor e amigo Gilsinho Nogueira. deslizam sambas de poesia sem fim que tocam fundo no povo do Morro e por conseqüência calam dentro de mim Eu, amigo e companheiro do criador eu, arremedo de compositor,Na balada de mais uns acordes comuns alegro-me com suas cançõesfeitos sob a luz da inspiração do poeta e vibro junto às suas vibraçõesirá o povo de nosso Morro cantar mais um sambapeça cheia de graça, de poesia repleta E nesse enlace de amizade e amor vamos juntos, tragando a vida,Nos sons de mais uma composição sendo parceiros, enxergando a florirá o Morro descer a avenida cantando e montando um jardim na Avenidasotaques de um leve coraçãoque brinca samba e faz samba brincando Enfim, escrever ao meu poeta faz-me bem e conforta-me a alma,Nos leves sopros da lira no meio desta noite, segunda, sem festadesse menino de tão belo sorriso seu samba e seus acordes me trazem a calma.a musicalidade toda hora transpirapela pele, pelas mãos, pelo juízoPelo peito de meu amigo poetaque pelo samba até já vi chorarpulsa a veia repletao dom de escrever algo a cantar 39 40
  • 11. A MADRUGADA DO SAMBA A sarjeta serve de canto mais alto pra quem só quer ver o samba ir rolando,Fim de festa no morro. seja de enredo, ou de partido altoque fim de festa que nada, são vozes sem tom que vão se encorpando.agora sim vai começara festa que a gente sabe fazer São versos cantados com fundo e poesiabem mais completa que a do palco são sambas levados sem tom comercial,do palco da escola, do hotel, da feira, são obras de arte em sinfoniado aniversário, da recepção, da gafieira. são sinfonias que ecoam além do carnaval.Festa de mesa de bar Essas noites divinas as vezes não tem fimenvolto em bebidas amargas e doces, acontecem sob o olhar calmo da lua,sem vozes afinadas a entoar iluminadas pelo clarão das estrelas, enfimprimeiro quem um samba novo trouxe. postas no morro, na beira de qualquer rua.São banquinhos de madeira que acomodam São os amigos que se encontram na batucada,são cadeiras de ferro em que sentam, são os amigos que remontam do samba as raízes,são lugares que a ninguém incomodam são os amigos em estado de graça marcada,são olhares que ao leve som se esquentam. são meninos, nas noites, bem mais felizes.A gente nem liga para os bêbados que vomitamaquilo tudo que foi além da conta,a gente se liga naqueles que hesitamo verso que vem na língua, bem na ponta. 41 42NAÇÃO NAGÔ BRASILPor ocasião da escolha do enredo para ocarnaval de 89, Mãe Zulmira, O Amanhecer de Viremos nós,Uma Raça. Fortes, maiores que eles, menores que ninguém,Viremos nós, realizando o sonhomais fortes na raça, de sermos nós os artistasmaiores na tradição, ou gente, simplesmenteenormes em humildade. de Escola de Samba, mas gente.Virá o povo Nossa forçadono da festa começa com o canto,soberano nosso exemplo de força à prova,verdadeiro dono da cultura. de qualquer um deles.Virá nossa Escola de Samba Motivadospujante e bela, viremos nósesbanjando energia, levantando a bandeiraexalando alegria, do povo brasileiro,brindando emoções. povo pobre,E nós, Meninos do Morro honrado,perdidos no meio do povo, magro,espremidos na garganta, doente,emocionados, mas guerreiro.prenderemos o choro, Viremos nóssorrindo aos prantos, atropelando qualquer umprantos de conquista viremos nósde vitória do povo, fortes,da massa humana pobre honrados,motivada, organizada, unida magos,pelo sonho de ser doentes,um vencedor mas unidos pelo ideal da vitória final.de qualquer coisa, Faremos entãodo carnaval, talvez. o amanhecer de um povo. 43 44
  • 12. SÁBADOCABE UM VERSOPassistas da minha Escola de Samba a desfilar. Hoje é sábado é mais um sábado no Morro, correm crianças altas horas, correm por entre os cachorrosCabe um verso pros teus becos,tuas ruas e vielas, Toca o surdo da escola,cabe um verso a teus cortiços bate o tambor do batuque,onde moram todas elas. o Tinguinha pede esmola pra beber, é outro truque.Cabe um verso pra belezaque elas estampam no rosto, Dança o canário - boi novo,cabe um verso pra pureza dança o cangaço Silvino,da alma vem o bom gosto. dança do meio do povo, dançam mulher e menino.Cabe um verso até pra lamaonde nasci e me criei, Rock rola o Libermorro,cabe um verso para a fama coisas dessa mocidade,que do meu Morro herdei. rola brega no Olaria, gente de maior idade.Cabe um verso pra ilusãoque elas tem por um dia, Tantos bares e biroscassão artistas, atenção! abertas até altas horas,da Escola que se via. cheiram a mijo e bebida mas não assustam as senhoras. 45 46A menina sai do carrocom os sapatos na mão,tudo é claro, um escarrotrepadeira profissão. Gente importante vem ver o que é que o Morro tem,Sábado, a noite é mais curta, e acaba descobrindofeito o fogo do isqueiro, que aqui tem gente também.alegria a gente escutavê e sente o tempo inteiro. Gente que vive essa vida, leva essa vida brincando,Bêbados trombam no vento é boi, é samba, é macumba,tentando ouvir o pandeiro, é a vida trabalhando.depois deitam-se ao relentopois já perderam o parceiro. É sábado no Morro da Liberdade, é a vida pagando pra brincar,Logo cedo teve a missa, é sábado de verdade,esse povo reza a Deus, é noite de se alegrar.depois desce em romariaespraguejando os ateus. Se for boi dança debaixo, se for samba é pra se ver,Sobe gente e desce gente a liberdade não tarda,gente do Morro e de fora, o Morro vai amanhecer.hoje o Morro é diferente,bem melhor do que outrora. 47 48
  • 13. SÁBADO À TARDE Só sente essa nossa alegria quem da história faz parte, quem conhece essa raiz, quem impulsiona a arte.Quando é sábado no Morro,quando rompe a tarde, E arte se escreve fazendofaça chuva ou faça sol em qualquer canto do mundo,um canto dentro da gente arde. a gente faz nossa parte cantando um samba profundo.Vão se juntando os amigoschegando aos poucos, devagar, Vai lembrando grandes letrasno mesmo ponto de antes vai zoando melodias,juntando histórias a contar. que escreveram momentos nessas noites, nossos dias.E confabulando em alegriacolhidas durante a semana, Sábado é sempre assim lá no Morroaguardam por novas chegadas, nas tardes do Lateral,guardando a razão que os irmana. som, amigos, alegria ... é sempre um carnaval.Todo dia tem novidadeseja de ao menos um, Benditos os que podem veré gozação de verdade amigos em comunhão,ou um simples zum zum zum. benditos nós todos amigos, todos na mesma direção.Feita a roda, surge o sambaque chega naturalmente, E quando chega a noitinha,nos acordes de um banjo vamos todos debandando,que arrepia a gente. pros lados de casa, na estrada, felizes, só nos lembrando. 49 50CANÇÃO PARA UM DIA DE GLÓRIA Sobe o tom dos sambas ao som do banjoFinda a tarde nebulosa, e descem canções mais antigaso céu fecha mais cedo mais belas canções de letraspara que chegue logo a noite revelando vitórias e súplicas e emocionando ose os tambores rufam sons agudos que cantam e os que ouvemà beira do fogo que torra o churrasquinho que fecham os olhose presencia o trânsito das cervejas levantam a cabeça e erguem os braçoslavadas às bocas pelas mãos dos meninos a cantar e agradecer aos céus.lá do Morro da gente da Liberdade. Vai entrando a noite mais altaCedo começou a entoar mil canções e ninguém nem se importaem sons harmoniosos de tantas vozes, que seja quarta-feira de um dezembro,coral quase sempre desafinado com a vida ninguém se importa que quinta tenha trabalhoe fora do diapasão da história. pois tem samba, cerveja e motivo para beber e cantar um pouco maisHoje não. ou receber outro que chegaHoje finda a tarde na rua São Pedro guardar outro carro que estacionae o maestro do universo e engarrafa mais a São Pedro.afinou o verso de tantos meninos Não importa. Importa é contar o placarque em comunhão natalina festejam felizes, rememorar os momentos, as frasesespocam foguetes ao vento é montar as horas da manhã que passou.e de quando em vez um grita alto o campeonatono andamento dos ares ofegantes do pulmão Já é quase quinta e ainda soa o samba.que tragam tantos cigarros quanto sabores A vizinhança dorme com a canção ao fundo e também vai dormindo sorrindoChega a noite e esfria o tempo feliz, pois um dos seus filhoschegam outros meninos e esquentam o samba desceu o Morro.e nem mesmo a chuva chata e fina foi vencerconsegue esfriar tanto calor e voltou,ou sequer amenizar o fogareiro sem nunca ter saído.que vai assando os churrasquinhos 51 52
  • 14. HORIZONTE VIVOQue canto é esse que me alivia a alma?Que paz é essa que me faz cedo dormir?Será pranto soluço liberto, OLHANDO RUA ACIMAserá o truque descoberto,será o desespero do incerto,ou será que estou certo?Que voz é essa que me encarna e ouço, Olhando rua acimaque som é esse que me chega à noite? vou perdendo minha ótica no tempo,Será a voz rouca de um santo, relembrando dias que já vão longe,será a cobertura de um leve manto, por onde desvairava o pensamento da genteserá o “tempo” que esperei tanto, com o sentimento firme de construir um lugar,ou será o inicio do fim do meu pranto? escrever uma história, para poder contar sem segredos aos mais moços,Que canção é essa de tão lindo acorde? que hoje viajam rua acima e rua abaixo.Que criança é essa que me alegra sem vê-la?Será a esperança, Olhando rua cima,será perseverança, retorno à atualidade,será mesmo canção-criança, onde percebo que desde manceboou será o povo enchendo a pança? fomos escrevendo e construindo a história do Morro da Liberdade.São meus amigos,meus sonhos, Olhando rua acimameu destino, sinto que já poderia até sentarmeus filhos, e contar aos meninos meia dúzia de históriasminha cidade, de tempos mais difíceis, mais obscuros,meu país, mas curvo-me à minha missãomeus muitos horizontes vivos! missão de continuar a perceber e escrever histórias. 53 54EXPLOSÃO DE SENTIDOSSegue pela vida explodindo o homem.Cavando toda hora a própria sepultura,enterrando horas que as horas consomem, MINHA ESPERANÇAperdendo o tempo de vida da criatura.Bêbado a cambalear pelas sarjetas,em busca da porta de casa,confundindo luzes brancas e pretas,sob o efeito da bebida que o arrasa. Sou feliz, não tenha dúvidaVai o homem, guerreiro de batalhas perdidas, quando afirmar pra vocêtodas vencidas pelo inimigo em prateleiras, que apesar de tanta mágoae como um bando de panteras feridas, não tenho mágoa a esconder,rosna pelos cantos sem eira nem beira. não guardo ressentimento, não há lugar em mim pra vingança.Construindo nada além de existência, Só há expressão de sentidoausente do mundo que ainda vê o sol, repleto de esperançasem forças para pedir clemência, que os meninos de meu “gueto”,a si próprio, postado ao arrebol. muitos brancos, tantos pretos, sejam felizes também,Vai um dos nossos homens se destruindo, e às seis horassem perceber sequer que dele gostamos tanto, abrir o peitosem perceber que ao vê-lo se diluindo, Ave Mariavamos também nos diluindo em prantos. Amém.Homem, que conosco sentou-se ao sol a sonhar,senta de volta conosco, esquece um pouco a bebida,já é hora de em volta da mesa somente cantar,o novo samba que fizemos em louvor à vida. 55 56
  • 15. PENSANDO PENSAMENTO Carrego dentro de mim muitas mensagens,Embora já me venha os trinta e três, muitas mensagens de fraternidades,embora já me tenha um cansaço na espinha, paz,embora já eu seja até avô, paciência,continuo a construir fantasias, benevolência,secretas fantasias guardadas comigo diariamente. às vezes de violência,Sinto que continuo em mutação, formando um emaranhado de tantosem posição de avançar, pensamentos,de ataque guerrilheiro, que buscam a limpidez da luza evoluir dentro de mim mesmo para que logo possam organizar-sebuscando o ensinamento diário e proceder o resultadopara o fortalecimento da ousadia de tanta vida acumulada,que um dia numa velhice precocedisse-me presente onde nada mais parece novidadeaos treze de idade e onde tudo é filme gastoe levou-me ao cais assistido inúmeras vezes.a vender tomates na cuia Logo estarão organizadose ganhar a vida... madura e a minha missão será ensiná-lospor sobre os tomates verdes... a tantos meninos de tantos Morros que circundam a minha cidade... 57 58UMA OBRAa missão TRINTA E QUATRO Por ocasião da passagem de mais um aniversárioVamos construindo a obra que um dia sonhamosobservando o vôo tarde dos bem-te-visnas tardes longas da beira-riomargeando o sonho e sonhando a margem do riacho Vai se esvaindo o tempo sem penae saboreando sorvas apanhadas aos cachos de meu velho corpo que a cada dia se empenapor entre os quintais dos vizinhos como se fosse um arco ao lançar setassubindo aos pés – nós, molequinhos, que somem no infinito do próprio tempo semsem sentir a vida inocente rapidamente passar, metas.morrendo de medo do alistamento militar. São setas de nomes que esvoaçam dentro de mimFomos crescendo, rapazes lutando numa fita interminável de tantos nomes, enfim...pela vida, trabalhando cedo para sobreviver que preciso compilar por um interminável registrosem ver o tempo ir passando, de memória que já se esvanece naturalmente.nas feiras tomate a vender, Por istoconstruindo as esperanças escrevo, descrevo, transcrevo...dos sonhos da primeira linha, Tio Chico, Dimil,comendo nada às vezes, Nego Dico, Dudu Abil,comendo chibé de farinha. Ticuca, Zé Junga, Ernesto,Hoje estamos a fazer história, Figura, CV, Luís Carlos, Arnoldo, Caresto,contar a história que a vida escreveu, Luizinho, Sigmar, Rosimar, Abelarda, Xenxem,a começar pelo Morro, Chiquinho, Mangará, Danival,a terra que Deus nos deu Cachorrão, Santarém,para tomarmos de conta Gilsinho, Gilsão, Sebastião, Tatuagem, Feio,juntos sem desunião, Iron, Aldenor, Eldo, Tontonto, Agrião, Zequinha,nossa trincheira está pronta, Baleio, Nicéias, Ismar, Jairo, Tiofo, Diogo,vamos cumprir a Missão. Manuel, Dondon, Batista. 59 60
  • 16. SEMESTRE A ingratidão a mentira o despeitoEnfim, depois de trinta e quatro a podridãode tantos pares de sapato a irame seria impossível transcrever todos os a falta de “direito”.companheiros que, comigo, ao longo de Seis meses depoistrinta e quatro, foram guerreiros, conscientehomens fortes de destino e sorte jogados ao vento volto humilde para casaem mais brava confusão. alegre comigo mesmoDespedaçado sou gentevem meu pensamento sem mudanças...e derrama sobre minha existência a seiva cheirosa Eterno Menino do Morro.de quem beija a face de um homem Seis meses depois da batalhacomo se beija passando, passando em tanto lugar,uma rosa sem pudor ou preconceito. falando, olhando praças,Beijo, grandeza profunda do peito. pedindo para falar. Seis meses depois da guerra, de ver mentiras vencendo nos becos, nas ruas, vielas e ver a massa cabisbaixa indo abaixo, pela goela, 61 62 O CAMINHOseis meses depois de tudo,volto para meu lartriunfante,envolto pela vitória,envolto alegre semblante.E vejo os filhos maiorescrescidos sem perceber Percorrendo o caminho traçado há muito tempo,nos seis meses que estive fora na verdade quando tudo não passava de docelutando para vencer a ingratidão, sonhar,a mentira, vou levando as mensagens benditas ao povo,o despeito, que na verdade não sei se deseja escutar.a podridão,a ira, Porém persigo a certeza de cumprir meu devera falta de “direito”. e seguir construindo o caminho traçado,Seis meses depois, ainda que carregue no íntimo a incertezaConsciente, de que as palavras tenham um tempo certo evolto humilde para casa, marcado.alegre comigo mesmo.Sou gente E seja que for o final dessa históriasem mudanças... o certo é que um dia estarei no meu próprioEterno Menino do Morro. cantinho, com todo meu ser envolto em glória, na certeza de que percorri meu traçado caminho. 63 64
  • 17. PRIMEIRO DE JUNHO DE NOVENTA E CINCOMEUS OLHOS Inicio a minha saída da tristeza, campo por onde andei vagando nos últimos passados dias e noites.Não adianta me roubarem os olhos Esse calmo lugar por onde caminheipara tentarem enxergar o que vejo apresenta-se sempre cinza e pesadomeus olhos conduzem à visão num marcapasso lento e tenebroso,do conjunto do meu peito onde não há espaço para a vida.composto sobre os escombros E nesses dias passados, fui à tristeza levadodo meu passado imperfeito por tanto meditar sobre a humanidade e seus males,Vida do Morro meus amigos e suas vidas, suas fomes e desejostrabalho incessante mortos,sonho constante lamentos e amarguras presentes nas suas ruas eangústia permanente casas.peito reprimido Não houve nada além de pensamento e procuravoz presa na garganta de um novo sentimento ou nova loucura, remédio para a cura da cegueira que se apresentaMesmo cego eu enxerguei á face,e se roubarem meus olhos remetendo ao escuro tantas vozes e mentesjamais verão a minha verdade que nunca encontram satisfação em um dia novo pois entregam as armas antes de estar na trincheira criando um nada no horizonte. Sei que sou homem meio menino e que ainda hoje, diante de tanta idade, me saltam os pensares de criança envolvendo meu ser 65 66e carregando minha alegria para o lugar dos meusque aos poucos se vão compondo a históriadaqueles que se perderam sem escrever nada,absolutamente nada além de engraçadas lembrançasda aldeia onde nascemos e crescemos juntoscomo mortos-vivos, filhos do vento e da chuvaque cai e escorre pelas sarjetas a diluir-se só.Se eu contar que causou-me qualquer ensinamentocreia que falo a verdade, causou-me simporque quando vagueio por entre a tristezaesses meus pensares refletem claramenteo ponto da história em que todos nos encontramose vejo que, mesmo após tanta luta, nada se fez, marcando o mês da Boneca.nada mudou além de simples orgulho de brilhar Estou alegre e feliz.solitariamente, feito a Estrela Dalva em dia de Vou festejar com a Boneca sua felicidade, verão. pois em junho, dezessete, me veio elaVi que preciso guerrear muito mais, para adoçar meus braços e acariciar meu peitomesmo já tão cansado, tão mudado e tão velho, e retirar-me das tristezas criadas por esses meusmoço-velho forjado nas lutas para viver. pensaresVi que preciso sair pela estrada a falar, em que, de quando em vez me encontro.falar para todos, peregrinar pelos becos e vielas, Salve junho. Salve minha Boneca.pelas ruas e praças, pelos bares e tabernas Salve minha alegria.pregando a esperança e contando a verdade Salve dezessete. Salve minha filha.sem mudar o jeito inicial da cavalgada Salve teu dia.perseverante e paciente, na certeza da vitória, um dia.Deixei a tristeza, minha companheira dos últimos dias,porque chega junho e tem festa de roda,tem fogueira e balão, poucos a ver, mas ainda temnos lugares mais distantes do centro da cidade 67 68