O doce vermelho das beterrabas_João Batista Ferreira

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Livro de contos, 2006, 7Letras

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O doce vermelho das beterrabas_João Batista Ferreira

  1. 1. o doce vermelho das beterrabas
  2. 2. o doce vermelho das beterrabasjoão batista ferreira coleção rocinante
  3. 3. © 2006 João Batista Ferreira Produção editorial Debora Fleck Isadora Travassos Jorge Viveiros de Castro Marília Garcia Valeska de Aguirre Capa Ilustração de Rosana Toniolo Pozzobon CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO-NA-FONTESINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJF441dFerreira, João Batista, 1965-O doce vermelho das beterrabas / João Batista Ferreira.– Rio de Janeiro : 7Letras, 200696p. – (Rocinante)ISBN 85-7577-297-X1. Conto brasileiro. I. Título. II. Série.06-2600. CDD 869.93 CDU 821.134.3(81)-3 2006 Viveiros de Castro Editora Ltda. R. Jardim Botânico 600 sl. 307 Rio de Janeiro RJ CEP 22461-000 | tel: (21) 2540-0076 editora@7letras.com.br | www.7letras.com.br
  4. 4. SumárioLuz .............................................................................. 11Nós, que amávamos a Nina Simone ............................. 17Reprise ......................................................................... 25Salto ............................................................................ 28O silêncio das estrelas................................................... 37Flor .............................................................................. 43O doce vermelho das beterrabas ................................... 49Leveza .......................................................................... 52Pênalti ......................................................................... 56Lucidez ........................................................................ 59Mistérios ...................................................................... 64Máximo divisor comum ............................................... 67Vidente ........................................................................ 70Iceberg ......................................................................... 75Aniversário ................................................................... 79Palcos ........................................................................... 87Uma certa eternidade ................................................... 90
  5. 5. Para Mônica, Lucas e Virgínia.
  6. 6. Importante é a luz, mesmo quando consome; a cinza é mais digna que a matéria intactae a salvação pertence àqueles que aceitarem a loucura escorrendo em suas veias. Caio Fernando Abreu, O Ovo Apunhalado
  7. 7. JOÃO BATISTA TEM A PAIXÃO DA CLAREZA: isso é o quetransparece nas três histórias escolhidas para fazer parte des-ta antologia.* Um autor que procura a maior consciênciapossível não só sobre cada frase, mas cada palavra, cada pon-to, cada vírgula, cada parágrafo. Nem por isso seus contosse ressentem de frieza ou cerebralismo; ao contrário, todoseles revelam uma profunda simpatia e rara sensibilidade paratratar das coisas humanas. Da velha solitária, em Elefantes, àadolescente (depois mulher) confusa de Flor e ao meninocruel de Beterrabas, o que marca o texto de João Batista é oespanto em relação ao fato de estarmos vivos – todos nós,leitores, autores ou/e personagens – e, só por isso, jogadosnuma aventura quase sempre incompreensível. A qualidadede seus textos talvez venha dessa carga de vida – latejante,pungente – emboscada atrás das palavras medidas que reve-lam uma técnica segura e uma linguagem que, com muitafreqüência, aproxima-se daquela perfeição conquistada porClarice Lispector. CAIO FERNANDO ABREU, 1990.* Texto originalmente escrito como prefácio para a antologia de contosPaulistanos Desvairados, inédita, organizada por Caio Fernando Abreu.Os três contos mencionados estão no presente livro com os nomes deLeveza, Flor e O doce vermelho das beterrabas, respectivamente.
  8. 8. Luz Naquela atmosfera onde a música enfraquecia as resistências e tecia algo semelhante a uma respiração comum, a paz de um só e enorme coração, palpitando e englobando todos. JÚLIO CORTÁZAR, O Jogo da Amarelinha – Você viu? – digo com expressão de surpresa. – O quê? – O que o seu sorriso fez. – E o que foi? – Luz. Seria muito bom ficar para sempre aqui, assim – soltoe ao mesmo tempo contido – no breve aconchego do seuabraço, das mãos que deslizam dentro do meu cabelo, des-cobrem as linhas invisíveis deixadas por carinhos esqueci-dos, que acordam discretas energias que se irradiam em ondasboas por lugares incertos de um corpo cansado. Como sonâmbulo, estendo as mãos em direção ao seurosto. As pontas dos dedos vacilantes percorrem o desenhomacio da sua boca, nariz, sobrancelhas. Até flutuarem naluz do seu sorriso que, num segundo de fascínio, acendereflexos nas retinas dos meus olhos. Bem próximos, na penumbra da luz fosca projetadapelo abajur de canto, a alegria de Márcia e Eduardo. Mar-cos segura a câmera, tira várias fotos em seqüência. Isabelconvida para um brinde – ao encontro, à despedida de Mar- 11
  9. 9. cos (que aceitou o convite para trabalhos de fotografia emSão Paulo) ou outra coisa que mal escuto. Erguemos coposem direção à luminária com a tênue luz alaranjada no cen-tro da sala. Márcia e Eduardo riem. Tentam acompanhar a dançameio maluca de Isabel, a música que Danilo tenta tirar noviolão desafinado, o atabaque animado de Edinho. As fotos de Marcos registrariam aquela seqüência demomentos? Os breves instantes que poderiam conduzir aum outro imprevisível tempo? Um tempo onde não have-ria apenas mais uma noite de sábado, ainda contaminadapor vestígios das costumeiras ansiedades. Restos das ansie-dades de quase sempre – que ficavam evidentes na gesticu-lação de Márcia, indignada com outro massacre de meni-nos de rua, indignada com o sangue esparramado na calça-da suja, mostrado nos closes sensacionalistas dos telejornais.Os meninos tratados como pobres-porque-eram-vagabun-dos, a exploração do espetáculo sórdido do sofrimento, exaus-tivamente repetido, banalizado. Ou ainda ansiedades menores, agruras triviais – os con-tratempos da chuva forte na quinta-feira, por exemplo. Acidade ficou parcialmente paralisada no começo da manhãe houve muitos atrasos que encurtaram agradavelmente o dia. E assim ficamos à espera de alguma coisa indefinida –que um dia, na falta de palavra melhor (e palavras muitasvezes nos faltavam), você chamou de momentos meio-mís-ticos-meio-mágicos-meio-loucos. Momentos que, em cer-tas noites de sábado, simplesmente se faziam. Bastava ficar-mos receptivos a uma espécie de ritual espontâneo, alheiosa qualquer artifício. Bastava ficarmos entregues ao sortilé-gio (e sortilégio era outra palavra sua, palavra de estranho12
  10. 10. fascínio, cujo significado combinamos não procurar, temen-do uma compreensão que desvanecesse o encanto). Sim, o incerto exercício de abandonar o mundo noqual tudo acontecia muito rápido. O mundo no qual mui-tos de nós – no abrigo de véus e máscaras quase invisíveis –escondiam uma pedra fria na palma da mão. Ninguém gos-tava de mostrar a pedra escura. O que fazer com ela? Comose livrar dos temores adensados em pedra? Como revelar odesconforto por detrás dos gestos, colado às palavras, à se-qüência interminável das imagens perdidas no dia-a-dia?Quem entregaria um olhar mais intenso, o olhar que não sehabituava às paisagens de sempre? Marcos fotografa Danilo, que agora acerta no violão etoca para Márcia O segundo sol. E a voz de Márcia percorreintensa cada palavra dos versos, especialmente quando can-ta a vida que ardia sem explicação. Sim, a espera por alguma coisa indefinida e, ao mesmotempo, a resignação dissimulada de quem atravessa maisum fim de semana. Mais um que se vai. Alguma coisa comotodos reunidos, conduzidos pelo fio daquela melodia, te-nuemente suspensos, envolvidos numa sensação única. As fotos de Marcos registrariam o lento processo emque o antes vai se transformando no esperado agora? Conse-guiriam capturar o avanço da noite que se desdobra numtempo incerto? Capturar o momento em que não era preci-so dizer nada, apenas o encontro dos olhares para estarmosnovamente próximos? Capturar o momento em que seusorriso sinaliza que agora você está distante de massacres,tempestades, agruras? As fotos registrariam a seqüência em que ajeito a me-cha do seu cabelo, deito a cabeça em suas pernas e sou aco- 13
  11. 11. lhido num abraço terno? O momento em que percebo noseu sorriso a magia capaz de transportar o apartamento paraum lugar remoto, no remoto lugar de uma cidade perdidano mundo? Eu gostaria de ficar para sempre aqui (não começavaassim um conto do Caio?), para escutar o som ritmado doseu coração, sentir seu peito oscilar com os movimentos darespiração, no abrigo da terna energia que a impulsiona pordias e noites e noites e dias e todos os outros tempos quenão se deixam medir. Nestes momentos você seria capaz de adivinhar a per-gunta que flutuava na superfície silenciosa dos meus olhos– quem sou eu quando não há você? E adivinharia também as palavras que digo perto doseu ouvido – quando não há você, sou o espectador de umavida que não era senão a minha. Avançando automático,inconsciente, ao longo das horas, dias, meses, anos. Algu-mas vezes quase um personagem da Clarice, atordoado coma voracidade por uma vida real que tardava. Voracidade quemuitas vezes desaparecia feito relâmpago e ficava adormeci-da por muito tempo, um interminável e absurdo tempo. Gostaria de ficar para sempre assim, preso no seu abra-ço, anestesiado pelo vinho, imobilizado na fotografia queMarcos depois mostrou na TV. A fotografia em preto e bran-co revelaria o intraduzível, o que estava além da seqüênciados rostos configurados por milhares de pontinhos eletrô-nicos, a dimensão meio-mística-meio-mágica-meio-loucaque tentamos encontrar. Até que as horas finalmente esquecidas no relógio maisuma vez escapam e avançam inexoráveis para a dispersão deum resto de noite, início de amanhecer.14
  12. 12. Nas fotos que Marcos não tirou – mas que já estavampara sempre na minha memória – deslizamos sobre as luzesrefletidas no asfalto molhado, você dirige entre os grandescaminhos vazios da cidade, as sombras dos edifícios que seconfundem com as nuvens escondidas dentro da noite. Nas fotos que Marcos não tirou também não haverianosso acordar pela manhã, no centro do discreto espantode quem está novamente ali. Nem fotografias do abraço namaciez do seu corpo, do receio da claridade que fere os olhos,dos pequenos e maravilhosos acontecimentos que nasceriamnaturalmente a partir de você. Agora estou distante de um certo script, uma certa vidana qual o tempo se transformaria no ritmo morno em quetudo apenas e simplesmente parecia se repetir, numa se-qüência inacessível. Agora era mais fácil lidar com a breve inquietação noar invisível ao redor e também num canto incerto do peito.Certa inquietação com as perguntas recorrentes que se for-mulam e desvanecem, quase imediatamente, quando seuabraço se faz um pouco mais forte em volta do meu peito. Perguntas agora tão remotas como: o que está aconte-cendo? O que foi que aconteceu e não percebemos? Per-guntas que terminam por se diluir como uma névoa, quan-do minhas mãos percorrem o contorno dos seus ombros,quando beijo sua boca ainda sonolenta, entreaberta numesboço de sorriso. E então era como estar no centro de um filme, rea-lizado em tempo real, um filme sem atores, que mostra avida que queremos sem nenhuma edição. Um filme quemovimenta e descongela as fotografias que, de outro modo,ficariam paralisadas para sempre. Um filme com as cenas 15
  13. 13. no lugar certo, a música adequada, um ritmo envolvente.Neste filme, a atmosfera sugere que, lá fora e aqui dentro,logo acima dos nossos corpos, há uma espécie de céu quenos protege, uma espécie de céu que naturalmente se des-prende do sonho que você me faz sonhar acordado.16
  14. 14. Nós, que amávamos a Nina Simone Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura GUIMARÃES ROSA, Grande Sertão: Veredas – Confusão de novo! Vou à janela onde Marília está. Lá embaixo, na aveni-da, um homem sem camisa é empurrado para dentro docarro da polícia. Há muita gente ao redor da pessoa caídade bruços na calçada. – Segunda vez esta semana – Marília diz. Depois medá um beijo e vai trocar de roupa. A fumaça do incenso flutua na sala e se desmancha nocalor da noite. No edifício em frente, na janela de um apar-tamento mais próximo, consigo ver a mulher que gesticulapara crianças pulando no sofá. Em outro retângulo ilumi-nado, o homem gordo, em pé, segura o copo diante da tele-visão. Mais acima, o casal janta com as cabeças inclinadassobre os pratos, como se tivessem iniciado um cumprimen-to oriental. Há muitas pessoas em outras janelas, mas na posiçãoem que ficam não são mais que silhuetas, sombras recorta-das contra as luzes dos apartamentos. Acompanham a mas-sagem cardíaca no que parece ser um homem estendido nochão, lá embaixo. 17
  15. 15. No décimo andar de outro edifício que parece um diater sido azul, à esquerda, posso distingui-la uma vez mais –uma silhueta quase imóvel, a não ser pelo movimento damão que conduz o cigarro à boca e depois, num gesto len-to, quase um clichê cinematográfico, ao cinzeiro no para-peito. Aparentemente distante do que acontece na avenida.Apenas está ali, como em todas as outras noites. Quantasvezes, mais ou menos neste horário, me distraí com a traje-tória regular daquele movimento, com a mão brevementesuspensa sobre o abismo de fuligem e ruídos daquela parteda cidade? Certa noite, mostrei a silhueta para Marília. Mas Maríliavivia demais para suas próprias coisas. Para ela jamais have-ria o gesto, muito menos a mão suspensa sobre o precipício.E, sem o gesto, a silhueta era apenas mais uma sombra najanela, dessas que se pode encontrar em qualquer janela deedifício de cidade grande, quase todas as noites. Para Maríliajamais haveria a inevitável e estranha familiaridade que, de-pois de certo tempo, se pode adquirir com uma sombra,mesmo à distância. Sem o gesto, não haveria todas as outrascoisas – como as estórias que, depois de algum tempo, co-mecei a inventar para a silhueta. Uma mulher acende uma vela e coloca um pano bran-co sobre a cabeça do cara estirado no chão. As sombras nasjanelas, por um momento, parecem estáticas, mudas. O caraestirado no chão de repente não era mais um estranho quese deu mal. Era um morto. E mesmo com a banalização damorte, dos corpos anônimos avistados das distâncias dasjanelas, por uma fração de segundo as sombras parecemimersas numa fugidia lucidez, uma fugaz e aterradora visão18
  16. 16. de finitude, de repente tão próxima quanto a calçada sujada avenida. O aroma do incenso de Marília se diluiu por inteirono ar pesado da noite. Depois de algum tempo, comecei a inventar muitasestórias para a silhueta, mas uma delas tornou-se obsessiva,não me saía da cabeça, uma estória que recebia pequenas ougrandes variações, cada vez que a recontava. Uma estóriamais ou menos assim: Vez ou outra você sai da janela. Desaparece no apartamentopara esvaziar o cinzeiro, servir-se de bebida, ir ao banheiro oudar um jeito no aparelho de CD, que repete partes aleatóriasdas músicas, cria seqüências eventualmente interessantes, nãofossem as súbitas e caóticas mudanças nas frases melódicas. Houve uma noite em que parecia possível distinguir algocomo uma inteligência musical operando a seqüência de frag-mentos. E você foi capaz de jurar que aquilo fazia parte de umrecurso misterioso do aparelho. Você liga e desliga o aparelho, aperta novamente o play:Nina Simone canta Do I move you? Olha a foto da cantorana capa do CD e uma vez mais e inevitavelmente lembra deMárcia, da noite em que ela trouxe o disco de presente, danoite em que jantaram no chão da sala, à luz de tocos de velasencontrados na cozinha. A noite em que, sentada na poltrona amarela, Márciaabriu a bolsa e tirou a câmera de vídeo minúscula, emprestadade uma amiga. Estava bem-humorada. Vocês riram quandoela imitou Ingrid, a professora de que disciplina mesmo? Ingridera formal e rebuscada, mas simpática, engraçada. 19
  17. 17. Márcia imitou Ingrid: “esta música (Nina Simone toca-va You’ll never walk alone) não é maravilhosa, não misturamelancolia e exaltação à vida? E esta variação? Não vai daresignação a uma impulsividade contagiante? Vocês não acham?”Márcia arregalou os olhos com a solenidade divertida de Ingride continuou: “a vida é coerente e contraditória, triste e alegre.Cada dia, uma pequena vida e uma pequena morte. Será quetodo encantamento é fugaz?” Vocês riram mais um pouco. Ingrid tendia para uma vi-são intelectual sobre pessoas, músicas, filmes, mas era sempreótima companhia. Com o zoom da câmera, você amplia o olho direito deMárcia. Ela fica séria, de repente. Naquela tarde, visitou Gutono hospital. – Ele piorou – o olho gigante, triste e bonito de Márcia derepente fica úmido na tela minúscula. Todo encantamento é fugaz? A pergunta ressurgia com aslembranças das caminhadas, cinemas, bares, corpos suados e osperfumes de Márcia – surpreendentes, discretos – entranhadosnos travesseiros. – Estou quase pronta – Marília fala do quarto. Na estória que me conto, há a cena recorrente da des-pedida no aeroporto. Foi um longo abraço, seguido de beijos aflitos e tristes.Havia muita gente naquele horário, além da mãe de Márcia,sufocando-a com solicitudes e os pequenos pacotes de última hora. Até que só restaram as palavras, que você não disse comoqueria, guardadas com o gosto do último beijo. A mímica tolaatravés das paredes de vidro. Até que o avião finalmente desapareceu, num minúsculoponto escuro, engolido por um céu terrivelmente azul.20
  18. 18. Um ano fora. As primeiras cartas de Márcia misturavamentusiasmos e pequenas depressões. Não era difícil imaginá-larelendo inúmeras vezes as cartas que você escrevia – você, umapessoa subitamente transformada no correspondente invo-luntário de um mundo que ficou para trás, incrustado numadobra de tempo em que nada parecia acontecer. Não era difícilimaginá-la, sem conter as lágrimas, esquecida dos textos, osmuitos e muitos textos e livros que precisava estudar. Até que os dias foram se acumulando em semanas e, aospoucos, se empilharam em meses. O trabalho intenso e a convivên-cia com os colegas envolveram Márcia e o desânimo desapareceu. Ela descrevia pessoas como Lars, o sueco, que às vezes in-corporava personagens dos livros que lia (o que só perceberamdepois). Lars só dormia depois de ler algum texto de Cortázar.Lia dezenas de vezes os mesmos livros. Não se cansava? Larssorria, condescendente: – O leitor nunca é o mesmo – dizia. Irônico, distante,espirituoso, com opiniões definitivas sobre qualquer assunto. – Estou pronta, vamos? – Marília reaparece na sala. – Só vou terminar o disco, o cigarro. Não consigo me desgrudar do movimento silencioso eelegante da silhueta na janela. Era inevitável que o interesse de Márcia pelas cartas di-minuísse. Só restava incentivá-la, quando ela se culpava pornão responder com a mesma freqüência. Foi assim por três meses. Até que houve uma rápida men-ção “às longas cartas que se tornaram uma espécie de obriga-ção”. Uma brincadeira, você pensou na hora. Mas aquilo ficoufeito espinho escondido na palma da mão – o desconforto irra-diado para lugares incertos do seu corpo. 21
  19. 19. Semanas depois, ela insinuou que “as cartas se tornaramrepetitivas”. Referência sutil? Referência que ampliava muitosuas dúvidas. E, naqueles momentos, mais do que nunca, adistância e a dúvida se transformavam em lentes tortuosas, acen-tuavam detalhes insignificantes, abriam a alma para a inquie-tação e o tormento. Até que ela se tornou reticente. E passou a sinalizar queficaria mais. Quanto tempo mais? Márcia não sabia. Lá embaixo, a rua sórdida. A ambulância espalha umaciranda de luzes azuis e vermelhas nas caras dos curiosos aoredor. Dois homens recolhem o morto. O néon encardidoe quebrado do bar pisca vacilante: Night Fever Bar. Os men-digos, alheios ao movimento, se enrolam em jornais e tra-pos na porta da joalheria ao lado. – Se não quiser sair, tudo bem. – Marília diz. – Só terminar o disco. – O disco está repetindo a mesma parte faz um tempão. – Vou mandar consertar. A silhueta se movimentou um pouco. Está de perfil,agora. Com o tempo, sem perceber, você foi se transformandonuma sombra inerte na janela, no décimo andar de um edifí-cio caindo aos pedaços. Uma sombra com receio de olhar paratrás, para dentro do apartamento. Com receio de encontrar aslembranças de uma pessoa que se foi. Reencontrar o mesmosilêncio de Márcia que, depois de algum tempo, virou a marcado seu distanciamento e apatia. Distanciamento que apareciaainda mais quando lembrava da imagem de Márcia, na suapostura de gata arisca enrodilhada na poltrona amarela.22
  20. 20. Você se transformou numa sombra com receio de olharpara trás e encontrar a imagem de uma outra pessoa muitoparecida com Márcia? Não adiantou você falar em vender o carro, conseguiruma licença ou demitir-se da editora, Márcia não demonstrouentusiasmo quando você disse que gostaria de ir junto. Então, no tortuoso aprendizado para aliviar a tristeza,quantas vezes você se imaginou caminhando por ruas estra-nhas, o sol frio do entardecer refletido nos óculos escuros, en-quanto Márcia se entregava às leituras que remetiam a leiturassem fim? Quantas vezes se imaginou apenas acompanhante cir-cunstancial de uma viagem e aventura que jamais seriam suas?Quantas vezes anteviu o desinteresse crescente que sentiria pe-las conversas nas mesas dos bares? Era muito fácil imaginar-sedesconfortável na cadeira, assistindo as discussões alegres everborrágicas, contagiadas por uma deliciosa impetuosidadeainda meio adolescente, que você perdeu talvez cedo demais.Especificidades aborrecidas, você se diria, sentindo seu enve-lhecimento e sedentarismo, precocemente instalados. E Márciacada vez mais distante, também ela entendendo o erro. Em nenhuma das cartas para Márcia você se referiu aHelena. Bonita, Helena. Até perceber a empolgação dela pelashistórias frívolas da editora, quando se desfez o esboço de en-canto, o breve fascínio da primeira impressão. Linda, Helena.Mas eram simples olhos redondos e vazios. Em nenhuma das cartas se referiu a Marília, a que gesti-culava demais. Havia qualquer coisa que lhe agradava na voz,no cabelo de Marília. Numa das noites em que se sentiu maisdesconfortável, sem saber por que, pediu que ela sentasse napoltrona amarela. 23
  21. 21. – Assim, com a luz deste lado – disse para ela. Feito aura, espectro, para sua surpresa, Marília se trans-formou no perfil esmaecido de Márcia. Tão parecida que vocêcompreendeu, naquela noite também marcada por outra mor-te na avenida lá embaixo. Marília era tão distantemente pare-cida com Márcia que você compreendeu, sentindo pena de simesmo: não havia luz adequada, nem ângulo possível – ape-nas um jogo interminável e sinistro. A memória às vezes é também uma lente tortuosa, acen-tua detalhes insignificantes, acorda energias adormecidas, abrea alma para a inquietação e o desejo. Sinto as pernas dormentes. Há quanto tempo estounesta janela? Levo o cigarro à boca e depois ao cinzeiro noparapeito, onde desaparece a brasa vermelha. – Você voltou a fumar? – Marília me abraça. – Este foi o último, espero. Uma vez mostrei a silhueta para Marília, mas para elanão havia o gesto, e não havendo o gesto não haveria asoutras coisas que podem surgir quando se observa uma som-bra, quase todos os dias, e com quem se pode adquirir certafamiliaridade, mesmo à distância. Não haveria as estóriasque me conto, assim, sem querer, assim – por nada. – Se você não quiser sair tudo bem! – Marília fica im-paciente. – Não, vamos. Acho que o disco acabou.24
  22. 22. Reprise Não era uma personagem de ninguém, embora às vezes, mais por comodismo ou para não se sentir desamparado como obra de autor anônimo, quisesse achar que sim. CAIO FERNANDO ABREU, Aconteceu na Praça XV Como pode um homem suportar certas coisas? Umhomem como Anselmo, gerente de loja. Uma pequena loja,é bem certo, mas um homem como Anselmo, cheio de com-promissos. Como pode um homem chegar em casa e encontrar amulher em silêncio, com o olhar perdido no tapete da sala? – A TV quebrou – ela diz – Foi agora há pouco. Aimagem foi sumindo. Até que só ficou um pontinho. Tão cansado ele está, teve um dia difícil. Hoje seria a par-tida de futebol, depois aquela reprise do Último Imperador. A mulher continua ali, inerte. – Não me diga que esperava por isto? – Anselmo suspira. – Eu não disse nada. – Você sempre pensa coisas deste tipo. Anselmo se irrita com ela. Apanha um cigarro no casa-co. Imagina que ela deve estar pensando nos filhos que nãotiveram. – Não me fale em crianças. – Não falei. Ela vai para o quarto. 25
  23. 23. Anselmo fica mais irritado. Abre a boca para se lamen-tar e percebe-se ridículo. Fica uma fração de segundo ali, ogesto interrompido, a boca entreaberta para ninguém. Como pode um homem suportar certas coisas? Anselmose pergunta, enquanto pega uma garrafa de conhaque. Anselmo não está bem. Sente um vazio no estômago.Lembra que nem almoçou direito. Mas não tem fome. Abre a geladeira mesmo assim. E vê seu rosto, mais oumenos como naquela cena do filme exibido semana passa-da: focado de dentro da geladeira. Fica algum tempo ali,olhos fechados, sentindo o frio no nariz. Anselmo não está bem. O chão de repente parece semover. Seu coração parece uma fruta miúda pulando emalgum lugar do peito. Sente falta de ar. Anselmo vai cair. Senta-se na mesa. Vê suas mãos cris-padas na toalha de plástico amarela. Tenta gritar. A voz escorre pelo canto da boca. O queouve não é mais que um estertor. E começa a cair. O chão parece estar longe. Estica osbraços e se debate com o súbito espaço. Sente que a cabeçavai bater primeiro. O som denso, o rápido gemido, o san-gue escorrendo lentamente pelos vincos dos ladrilhos, ummovimento rápido nos dedos, antes que os olhos fixassemem definitivo o outro lado, a cena final de um corpo inertee a poça vermelha ao lado da cabeça. Não este filme, não. É demais para Anselmo. E então lhe ocorre a cena de outro filme, em que amulher está encolhida em seu quarto. O homem abre a portacom delicadeza e se aproxima dela. A mulher se encolhe.Ele passa a mão sobre sua cabeça. Fala com uma voz tran-qüila, que ela não sabia que ele tinha.26
  24. 24. – Como foi o dia hoje? Pelo que Anselmo lembrava, ela devia sorrir amistosa.Ela treme. Então ele lembra de outro filme em que umamenina estava numa situação parecida. A mulher se acalma. Entende que Anselmo está numacena boa agora. Neste filme, ela pode conversar com ele,neste filme ela sabe que Anselmo é outra pessoa, um ho-mem capaz de suportar certas coisas. Isso tudo é o que dirá se a mulher sair do quarto, seconseguir mexer com a mão e bater na porta da geladeira.Isso é o que dirá para a mulher, se sair dali. Mas tudo o queconsegue é fixar os olhos no filete vermelho que escorrequase em câmera lenta pelas juntas dos ladrilhos gastos dacozinha, na formiga que hesita um segundo antes de mudara sua trajetória. 27
  25. 25. Salto no pensaba en nada, nada más y caí que al fin esto es un juego todo empieza siempre una vez más y a rodar, y a rodar mi vida, y a rodar, y a rodar mi amor FITO PAEZ, A Rodar Mi Vida – Qual lugar você prefere? Bia não ouve. Estão muito perto das caixas de som.Passam entre velhos pôsteres de cinema – Rita Hayworth,em Gilda, despe lânguida a luva preta. Mastroianni pareceassistir à cena atônito, por trás das grades na Cidade dasMulheres, preso na imagem da parede oposta. O chapéu de Bia mal esconde o cabelo desgrenhado.Bia sorri para a cantora, que faz um cover razoável de Elis: asaparências enganam, aos que odeiam e aos que amam. Escolhem uma mesa perto do palco. – Saudades da Elis. – O quê? – Saudades da Elis – fala perto do rosto de André, quesente o hálito de uísque. Tiram os casacos. Um garçom aparece. – Vou continuar no uísque. – Continuar? – Bebi um ou dois em casa, pra esquentar. – Um chope, por favor.28
  26. 26. Pouco depois, os músicos fazem um intervalo. – O baterista parece o Tavinho. – Bia diz. – Não sei quem é. – Da minha antiga banda de rock. – Ah. – O cara engordou. Os músicos passam perto da mesa. Bia faz um sinal deaprovação para a cantora. – Como foi o trabalho? – André pergunta. – O de sempre. – Você parecia animada. – Estava me enganando – ela responde contundente. – Pelo menos o lugar era agradável. – Trabalhamos muito além do horário. Estou um caco. – Agora você vai descansar. – Eu sempre penso isso. – E como foi? – Diferente mesmo, só o jantar de confraternização. Anamorada-não-sei-de-quem sentou do meu lado. Bebeu pracaramba. Papo sem pé nem cabeça. De repente, apertoumeu braço, e meio vesga tascou: você também não tá feliz, né? O garçom serve as bebidas. – Obrigado. – Imagine a minha cara! Uma bêbada farejando minhasuposta infelicidade no meio daquele povo todo. Em outraépoca seria só uma piada de bêbada. André segura as mãos de Bia. Percebe o anel de pratanovo, com pequenos símbolos que não reconhece. – Mãos frias – André diz. Bia toma mais um gole de uísque. Os olhos se contraem. – O que querem dizer? 29
  27. 27. – O quê? – No anel. – A divindade que há em mim, saúda a divindade quehá em ti, algo assim. – Bonito. Ao lado de Bia, um pôster de Ingrid Bergman e Hum-phrey Bogard, frente a frente, na cena final de Casablanca, atroca de olhares resignados e tristes. – E você, como foram essas semanas? – O de sempre – André faz um sorriso torto. – E as caminhadas? – Poucas. – E o colesterol? – Comecei com os remédios. – Lembra da Scarlet, que conhecemos em Salvador? – Sim. – Publicou um livro, por conta própria. Adivinha onome? – Como fazer festa uma semana sem dormir. – Não. A última e a primeira noite. Recebi um exem-plar pelo correio. Era um blog que virou livro. Tem umashistórias engraçadas e outras que pegam assim, de repente. A mão de Bia estremece. – Numa das histórias, reencontrou uma prima pelainternet, que a convidou para um almoço. Aceitou o convi-te para experimentar uma tal especialidade da prima. Quan-do o almoço foi servido, Scarlet embestou que a especiali-dade tinha cheiro de carne de fígado, seu prato intragávelnúmero um. – Meu também.30
  28. 28. – Lembrei de você. Numa outra situação, Scarlet teriase desculpado. Mas a prima estava tão contente com a visi-ta. Parecia uma mulher resgatada de uma ilha deserta. Quan-do Scarlet viu, aquele negócio fumegante estava no prato. Asalvação veio quando tocou o telefone. A prima pediu li-cença e foi atender em outra parte da casa. Scarlet percebeuque a janela dava para a rua. Pegou a tal especialidade, enro-lou num guardanapo e vupt! Colocou mais salada no prato.A prima voltou cheia de desculpas e fez um comentário.Scarlet achou que devia ser engraçado. Caiu numa garga-lhada incontrolável. Não conseguia parar. A outra não en-tendeu nada. Bia dá uma risada. Engasga, tosse. Respira fundo. Bebemais uísque e percebe que André acompanha com apreen-são o movimento do copo até a boca. Bia chama o garçom. Pede mais um uísque. André força um sorriso. Bia enxuga os olhos com um guardanapo. – Por que é mesmo que estava contando isso? – Scarlet. – Ah, é. Na verdade, ia contar que Scarlet estava muitomal, com vontade de largar tudo. Os músicos voltam para o palco. – Sentiu saudade? – Senti, Bia. Silêncio. Apenas os sons dissonantes dos músicos afi-nando os instrumentos. O murmúrio das conversas nas ou-tras mesas. Um silêncio do qual demoram para se libertar. O olhar de Bia torna-se distante. – O que foi, Bia? 31
  29. 29. – Às vezes você não se sente num filme? – Como assim? – A vida como se fosse um filme. – Eu sinto. – E como é? – Um filme cuja graça às vezes escapa. E o pior: nãoconsigo mudar o enredo, nem o ritmo. Não há como mu-dar scripts, papéis, joguinhos de cena, premeditados ou não.Às vezes é fácil se manter no papel. E mesmo quando saiodo papel, descubro que nada é muito diferente. Como na-quela música antiga do Nei Lisboa, lembra: altas maneirasde se chegar, ao mesmo nenhum lugar. – Bia. – Esta cena, por exemplo. Um casal se encontra numbar, depois de semanas sem se ver. Parece que vai aconteceralguma coisa. Mas não vai. Estão cansados um do outro. Oque eles fazem? Nada. Não admitem. Não querem admitir.Para quê? Para não sofrer? Isso só aumenta o sofrimento.Faz de conta que não está acontecendo nada. – Bia. – Não querem a dor, têm medo da solidão. E o queencontram? – Bia. – Pensei muito nisso na viagem. Só que foi necessáriouma bêbada para dizer o que eu precisava ouvir? – Bia, gosto de você. – Bia, gosto de você. Parece tão automático. – Bia. – Não vê o que está acontecendo? Não vê o que estamosfazendo? Olhe o casal daquela mesa. A cena de outro filme,32
  30. 30. agora. Um contraponto. Veja os movimentos, o brilho nosolhares, a sedução, mensagens subliminares, sorrisos lindos. A cantora recomeça com Dos Gardênias para ti, agoraum cover da Maria Rita. – Quero é dançar – Bia diz. – Só se formos a outro lugar. – Não, aqui mesmo. – Aqui não dá pra dançar. – Claro que dá. – Não tem lugar. – Olha aquele palco lá! – Lá não dá, Bia. – Sempre quis dançar num palco. Não exatamentecomo este. Coisa melhor, mas quebra o galho. André sente o perigo rondando, como um pequenodemônio subitamente desperto. – Não é o palco que sempre quis. Bia levanta. André tenta segurá-la. Ela escapa. Um segurança a espreita. Fareja a situação à distância. Bia sobe no palco e começa a dançar. Os músicos sesurpreendem. Mas a aceitam, quando percebem as palmastímidas que a acompanham da platéia. Ela toma um grande gole do uísque do baterista, queentra no clima e começa a marcar uma batida mais surda,imitando tambores. Alguns assovios e as mãos de Bia deslizam pelo peito.Joga o chapéu para a platéia. O cabelo esvoaça. As mãosescorregam até as pernas, puxam um pouco o vestido. As palmas se entusiasmam ainda mais. André receia que ela desabe a qualquer momento. 33
  31. 31. – E vocês? Por que não dançam também? – tenta dizer,mas quase ninguém a escuta. André se aproxima. Pede que desça. Bia o empurra edá mais alguns rodopios. Sente uma rápida tontura. Vê lu-zes girando, braços em sua direção que parecem de náufra-gos ansiosos. – Alguém pode salvá-los do vazio? Da falta de amor ede tesão, da vida pesada que vocês levam? – Bia tenta gritar. As luzes giram mais depressa. Criam uma maré de on-das que se movimentam em grandes arcos, em véus lumi-nosos que se enlaçam ao corpo de Bia e a enchem de ener-gia. De repente, sente que irradia a luz que poderia ressuscitá-los. Tenta dizer qualquer coisa, mas a língua mal se move. Até que as luzes vão ficando mais lentas. O som daspalmas e os olhares radiantes se distanciam. E tudo vai tran-qüilamente girando, girando com toda tranqüilidade, comose fossem planetas na órbita de uma estrela. Fica solta, como quem flutua – asa-delta esquecida nocéu, alheia às trajetórias do espaço. E cai. André a segura com dificuldade. Recebe ajuda de ou-tra pessoa. Bia abre um pouco os olhos. – Viu como eles aplaudiram? – o olhar de Bia é des-focado e terno. – Vi, Bia. – Como gostaram da dança? – Você tomou algum remédio? – Tomei. – Qual? – Uísque.34
  32. 32. André a carrega até o carro. – Ressuscitei você com minha luz. – Vamos pra casa. – Não é mais um morto-vivo. – Você vai ficar bem. – Descobriu seu próprio brilho. – – Não consegue disfarçar o amor por mim. – – Sabe de uma coisa, André? Este nome nunca combi-nou com você. Não sei por quê. – Você precisa descansar. – Sabe de uma coisa, André? A tal mulher que disseque eu era infeliz. – – Era eu. – Como assim? – Encarnei que estava infeliz. Inventei a tal bêbada praver sua reação. – – Sabe a Scarlet? – Que que tem? – Também sou eu. – Você precisa descansar. – Já viu os planetas? – Que planetas? – Os planetas, as estrelas. – Que que tem? – Você é o maior dos planetas, André. – O quê? – O maior dos planetas. 35
  33. 33. – Ok. – O maior dos planetas. – Ok, Bia. – O maior dos planetas na órbita da estrela. – Que estrela? – Eu, porra! – Sim, Bia, você é minha estrela. André abre a porta do carro. Tem dificuldade paraacomodá-la no banco. Antes de dar a partida, olha para o rosto meio desmaiadode Bia. E uma vez mais se surpreende com sua beleza. Abeleza no formato da boca, nas coisas adoráveis e malucasque dizia, nos lábios entreabertos e agora relaxados que, aospoucos, parecem mergulhar no sono mais profundo.36
  34. 34. O silêncio das estrelas Somos, todos nós, criaturas das estrelas e das suas forças, elas nos fazem, nós as fazemos DÓRIS LESSING, Shikasta Trouxe um presente pra você. Esta flor que achei lá nocanto do muro. Não é bonito o amarelo? Vou colocar aquina sua cabeceira. Pronto. Assim ficou bom. Hoje de manhã, quando a campainha tocou para opasseio, pensei: logo você também vai junto. Quando vocêficar boa... Repito sempre isto, não é, Alice? Quando vocêficar boa, vamos passear juntos. A cidade mudou tanto des-de a última vez, que você nem imagina. Tem um edifício todo espelhado aqui perto. A genteolha e parece que não tem edifício nenhum. Só o céu e asoutras coisas em volta refletidas. O edifício é igual a um queaparecia na TV, antes do China estourar com ela. Daí, quan-do chegamos perto, sabe o que a gente viu? Nós mesmos.Foi meio estranho, aquela gente toda se olhando no espe-lho, como se nunca tivessem se visto. Fizeram também uma confeitaria. Enorme. A vitrine écolorida e iluminada, cheia de bolos e tortas, como nas re-vistas. Até guardei esta página da revista, que a Martinha 37
  35. 35. ganhou, só pra te mostrar. Tá vendo? Uma torta parecidacom esta: vermelha, assim. Sei o que você está pensando. Não quer saber de edifí-cio coisa nenhuma, só quer é sair daqui. Eu sei, Alice. Eusei. Mas pra sair, temos que melhorar. Quer que eu leia pra você? Em que parte paramosmesmo? Aqui. Descemos do carro. Caminhamos até um lugar de onde sevê o horizonte. Busco apoio em seu abraço. Você sorri com aexpressão de quem se entrega à breve vertigem do ar puro e dopôr-do-sol. Seu cabelo cheira a ervas. Anoitece. O frio nos aproxima da fogueira. A lenha úmi-da estala em faíscas aflitas. Você me embala num movimentoquase imperceptível. O movimento silencioso de um rito, ceri-mônia de passagem. As estrelas começam a aparecer, cada vez mais nítidas,sobre nossas cabeças. Tão nítidas e absurdas quanto as estrelasde um planetário que visitamos. – São de verdade – você diz, conversando com meu pen-samento – E parecem maiores e mais próximas a cada minuto. Sim, às vezes você conversa com meus pensamentos, comose pudesse ouvi-los e responde a eles da maneira mais naturalpossível. As estrelas pulsam devagar, maiores e mais próximas acada instante, como se pudessem ser provocadas por nossos olhareshipnotizados. Você gostou Alice? Foi essa parte que o Fernando leuontem. Alguns não ouviram, como sempre. Ele não liga.Fernando gosta mesmo é de escrever e de ler, quando estádisposto, pra mim, pro Edinho e pra Cida.38
  36. 36. O que você achou da parte em que ela adivinha o pen-samento dele? Pensei nas vezes em que também adivinhoseus pensamentos, nas palavras que você parece me dizer,em como seria bom ouvir você de novo. Às vezes me confundo um pouco. Não sei se as pala-vras vieram da minha cabeça ou de você. Não tem impor-tância. Talvez você não perceba, mas agora posso ouvir vocêdizer que sim, que, apesar de tudo, está contente por euestar aqui. Hoje está meio nublado, mas não deve chover, comona semana passada. Lembra que não teve passeio? Tem gen-te que não se importa, pra eles tanto faz estar aqui ou láfora. O Heitor, naquele dia, ficou olhando as árvores pelajanela e, pela cara dele, vi que ia ter aquilo de novo. Disseque as folhas estavam paradas no ar, que tudo estava paran-do. Começou a gritar. – Tudo parou, tudo parou! O tempo, meu coração, tudo! Depois ficou horas no corredor, feito estátua. Levoumuitos dias pra melhorar. Ele não mostra, mas a gente sabecomo fica contente quando pode sair, dá pra ver nos olhosdele: é como se sorrissem um pouco. Deixa ver o que mais anotei no caderno. Já contei que só escrevo escondido do Ivan? Ele inven-tou que construiu um muro enorme em volta do hospital.E acha que o muro nunca está alto o bastante. Vive repetin-do que vai colocar mais uma fileira de tijolos, arame farpa-do, concreto, aquela conversa maluca. Quer a nossa prote-ção, o doido. – Diga que o muro é bem alto! – Pede pra quase todomundo que repita o que disse. Quando alguém repete, co-meça a gritar. 39
  37. 37. – Não disse, não disse! O muro é bem alto, mas o céué aberto! – Ele mesmo responde. Caminha agitado peloscorredores. Grita. Berra pras paredes. – Quem voa vai onde quer, os passarinhos entram aquiquando querem. Vou fazer uma cobertura de concreto! Ivan não pode me ver anotando nada. Sábado passa-do, perguntou o que eu estava fazendo. – Gosto de escrever antes de dormir, respondi. Minhamemória anda fraca e, depois, quando sair daqui, vou lem-brar das coisas boas que vivi. – Tua memória é fraca porque tu engole as porcariasque te dão, cara! Ivan pensa que tomo os comprimidos. – Muita gente não vê o que a vida tem de bom. – E o que é que a vida tem de bom? – disse pra meprovocar. – As coisas que o Fernando escreve e lê, por exemplo.As pessoas que têm esperança, as pessoas que querem me-lhorar, aproveitar a vida, sair daqui, como eu e Alice. Deu uma gargalhada e não gostei. Contei da vez quearrebentei a cabeça do Saulo com um cabo de vassoura,quando roubou meu caderno. Ivan nem deu bola. Deu ou-tra gargalhada, debochou de mim. – Tu ainda acha que vai sair daqui? Ninguém vai tetirar daqui, nunca! E aquela tua Alice... Quando falou aquilo não agüentei. Agarrei o pescoçodo Ivan. Levei um soco, mas bati também. Depois nos amar-raram e fiquei esses dias sem aparecer. Me perdoe, Alice. Sabe o que o Dr. Marcelo me disse outro dia? – antesda briga, claro – disse que logo eu teria alta. Fiquei anima-40
  38. 38. do, mas depois fiquei triste. Falei que só saio quando vocêmelhorar. Você não acredita, não é? Contei pra ele que vejo sem-pre um jeito diferente nos seus olhos. Como agora. Vocêparece gostar do que digo, parece feliz. Não é por nada não, mas é muito bonita esta flor. Ébonito e vivo o amarelo. Quando achei esta flor, pensei:gosto-muito-da-Alice-muito-mais-do-que-tudo-neste-mundo. Ouviu, Alice? Todos os dias, vou falar isto pra você. Mesmo que vocênão escute, que ninguém mais acredite que você vai melho-rar. Eu acredito! Está escurecendo. Fernando vai começar outra leituradaqui a pouco. Tenho que levar o caderno de volta. Vocêgostou da parte que li antes? Vou ler de novo. Meio tonto, me apóio no seu abraço. Posso cair, digo. Vocêsorri, entregue também à breve vertigem – seu corpo balança eparece inspirar-se nas chamas em volta da lenha, que estala emfaíscas azuis e vermelhas. Você me mostra as estrelas que pul-sam devagar, maiores e mais próximas a cada instante, talvezatraídas por nossos olhares alucinados. Lembrei do que sentia quando era menino e olhava asestrelas. Tinha a impressão de que alguém nos observava láde cima. E esse alguém, lá desse lugar, também nos via numponto brilhante do céu. Sempre gostei de pensar que vive-mos numa das estrelas do céu. São muitas, infinitas, masuma é nossa. Não importa que não seja estrela, que seja umplaneta ou qualquer outra coisa. Importa é que vivemosnum dos pontos brilhantes do céu. Alguns não sabem, nunca 41
  39. 39. vão saber. Para eles, a vida será sempre a mesma. Não sabemdisso, nem das outras pessoas e coisas que estão ao seu re-dor. Eles se isolaram, sem saber, e não conseguem ver asestrelas que vivem por perto. Eu tenho você e eu vejo, Alice. Você é a estrela queprecisou descansar um pouco. Mas logo sua luz voltará. Te-nho certeza. E vou estar aqui, esperando, leve o tempo quelevar. Não tem importância. Nada tem importância semvocê. Preciso ir, agora. Durma bem, meu amor.42
  40. 40. Flor Ah, a flor do amor tem muitos nomes. GUIMARÃES ROSA, Grande Sertão: Veredas Uma rosa é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa... GERTRUD STEIN O pai lê jornal quando Nina chega em casa. – Como foi o dia na escola? – ele pergunta. – Aprendi uma coisa nova, aprendi a desenhar umaflor. – E rapidamente retira o desenho da pasta. O rosto sorridente do pai se recolhe, contraído, diantedo desenho. Inclina um pouco a cabeça – fica um instanteem silêncio. Aperta os olhos, mordisca o lábio superior. Depois pede o lápis. Faz outra flor – linhas firmes, rá-pidas – ao lado da primeira. – Tente igual a esta. Nina emudece. Junta as coisas e vai para seu quarto. Opai retoma o caderno de economia. Nina rabisca durante horas. O lápis enorme, na mãoainda gorducha e branca. Os farelos da borracha se acumu-lam mais e mais ao redor do papel. No final do dia, apesar do cansaço, os traços são aindamais nervosos. A mão está dolorida. Até que, exausta, leva os desenhos para o pai. 43
  41. 41. Ele interrompe a leitura da revista com a foto de umhomem gordo e sorridente na capa. Examina as duas flores. Sorri. Mais pelo esforço da fi-lha, pois os desenhos continuam bem diferentes. No silêncio interminável do sorriso, Nina ouve as pa-lavras caladas do pai. Naquele momento, sente, de modoassustador, o quanto espera dela. E Nina continua desenhando, em segredo, pelos anosseguintes. Produz muitos desenhos, milhares de flores qua-se idênticas às do pai. Não é mais menina quando, numa tarde fria de agos-to, descobre com indiferença: conseguiu, afinal, uma cópiaperfeita, um desenho idêntico ao dele. Sempre pensou que ficaria contente. Mas, para suasurpresa, não fica. Não importa mais. De repente, uma luz fria sobe por seu corpo, revela odesconforto aprisionado num canto escuro do peito. Não importa mais. O pai está morto. Morreu na sala, há alguns meses. Óculos atravessadosno rosto, olhos abertos em direção ao jornal desfolhado.Um braço estendido na lateral da poltrona – pêndulo deum relógio parado. Aliviada, pode enfim dormir. Sonha. – As borboletas voltaram – diz uma voz atrás do seu om-bro. – O quê? – seu rosto branco procura a voz. A claridade aperta os olhos. Mesmo assim, vê o sorriso deVera, sua professora mais bonita. – As borboletas – Vera diz. E faz um gesto largo quedescortina o jardim coberto por uma névoa de borboletas.44
  42. 42. Nina lembra, então, de antigas lições escolares – lições deVera, mais ou menos assim: – As borboletas são insetos alados que se alimentam denéctar. Além das cores do arco-íris, apresentam qualquer com-binação imaginável. Seus ovos são freqüentemente verdes, al-gumas vezes amarelos, vermelhos ou azuis e têm a superfícierecoberta por desenhos peculiares. Podem mudar sete vezes depele, enquanto lagartas, até a transformação em crisálidas, quependem das árvores sustentadas por fios de seda. Acorda com uma sede imensa. Vai beber água na cozi-nha e pensa e sente, talvez pela primeira vez – não pela pri-meira vez, mas pela primeira vez com tanta intensidade –pensa e sente o quanto foram tristes seus dias. Tosse, sufocada. Olha para os desenhos espalhados por todos os cantosda casa. Eram flores ridículas, quase traçadas a régua, umaúnica folha presa ao caule, como um peixe descamado, aspétalas são figuras quase geométricas superpostas – quadra-dos, triângulos, hipotenusas. A imagem de Vera ressurge. – As grandes borboletas tropicais do Novo Mundo cha-mam-se mórfos. Na sua maioria são azuis – um azul-celeste-metálico – ou então irisadas, segundo a posição em que se colo-cam diante do observador. As ágrias possuem grandes manchasescarlates, vermelho-sangue. A última aparição de Vera não lhe sai da mente. Borboletas. Torna-se obcecada por elas. E começa apintá-las por todos os cantos. Tenta reproduzir as borbole-tas que apareceram no jardim luminoso do sonho. Mais alguns anos se passam. Milhares de telas e tintasforam usadas. Não é mais jovem, agora. 45
  43. 43. Desiste das borboletas. Só consegue pintar flores – deuma determinada espécie de flores solitárias – que jamais sedestacariam daquilo que, um dia, se convencionou chamarpara sempre uma flor. Flores artificiais e sem graça, floresacabadas e mortas. – Mortas! Todas mortas! – geme às vezes para ninguém.Morta – escreve embaixo das telas. Até que começa a pintar no escuro, com medo do con-trole dos olhos. Medo do que a mão seria capaz de fazer.Não dorme nem se alimenta direito. Lambuza-se com astintas. Foi numa madrugada como outra qualquer. A mãoparece correr solta em meio a tubos de tinta amassados pe-daços de telas cavaletes espatifados. A mão começa a corrersolta. Tenta não pensar. A respiração acelera, a boca e oslábios ressecam e o sangue pulsa oco surdo quente noaceleradocoração até que tateando no escuro hesita antes de Acende a luz. Abre a boca para um grito.46
  44. 44. Para um som impossível, para uma voz que há muito se foi. Então vê – feito selo, feito marca eterna – a cópia idên-tica à da flor do pai. Vai à garagem. Abre velhas latas com restos de tintas,no depósito. Pinta flores por todos os cantos – nos lugarespor onde ele andava, na poltrona em que lia jornal, nasparedes sombrias da casa antiga. Nem morfos, nem ágrias. Jamais um primeiro líriobranco. Apenas flores idênticas. Nada que pudesse destacá-las do que se convencionou chamar para sempre uma flor. E com o passar das horas, com a febre que sente aopintar flores repletas de tinta, com a tinta que jorra portodos os lados, no teto, no chão, com a tinta que joga nasparedes, despreocupada de qualquer coisa que pudesse re-presentar flores, somente depois disso consegue chorar aslágrimas miúdas e grossas do amor torto que lhe dedicou. Dias depois, quando os olhos secam, percebe uma flordiferente entre tantas flores parecidas. Não muito, mas en-fim diferente. Outra pessoa talvez nem notasse. Sente-se mal com a roupa imunda. Arrebenta os bo-tões e toca a pele do corpo esquecido. Sua pele – e era tãobom que parecia inacreditável não ter se tocado por anos eanos. Grita e sorri e grita de novo – e reconhece a voz. Acende a fogueira no meio da sala. Fica um longo tem-po olhando as chamas amarelas, vermelhas, laranjas e azuisque consomem a poltrona gasta. Uma mulher que passa vê a fumaça. Bate na porta. 47
  45. 45. Nina abre, sem medo. A mulher é muito parecida comela. Tão parecida que era inevitável o longo abraço. Depoisdescobrem que não conseguem parar de se olhar, de sorrir.E assim ficam por muitas horas de um tempo que não cabianos relógios. Se alguém as visse abraçadas daquele modo, na afeiçãoe semelhança, diria que só podiam ser gêmeas. E as gêmeas-para-quem-quisesse (e esta era a últimacoisa com que se preocupariam, agora) percebem com ale-gria que, desde aquele momento, não era mais agosto.48
  46. 46. O doce vermelho das beterrabas Meus dentes estão vermelhos das beterrabas que aca-bei de comer. Gosto de comê-las todas as manhãs, na horado café. – Nosso vizinho vai soltar mais um balão negro – meuirmão vem avisar, correndo. Todas as manhãs acontece assim: meu irmão fica ob-servando o vizinho e avisa quando ele solta seus balões. Al-gumas pessoas estranham, meu irmão adora. Minha irmã está na mesa, comigo. Perdeu o sono.Contou carneirinhos a noite toda. – Carneirinhos? – pergunto, desinteressado. – É. Contei quase trinta mil. – E adormeceu? – Não. Amanheceu. Ela tenta sorrir, o olhar escuro de quem ficou muitotempo acordada. – Eram todos tão brancos – diz, acompanhando umaformiga perdida na toalha da mesa. Mastigo outra beterraba. Mais doce que a anterior. Meu irmão grita outra vez da janela. Nosso pai geme no seu quarto. Ficou assim desde quefoi assaltado na rua. Encostaram uma faca no pescoço dele.Não sai da cama faz três dias. Descobriu que pode morrer,imagino. Sempre acompanhou com interesse a morte defamiliares e conhecidos. Ou então é a saudade de nossa mãeque bateu de novo. 49
  47. 47. Nossa mãe morou nesta casa. Ela foi embora há quatroanos. Um dia ficou muito nervosa e raspou o cabelo. Nãogritou, como disseram os vizinhos maldosos. Apenas ras-pou os lindos e longos cabelos, que ficaram espalhados pelasala. Lembro de ouvi-la repetir diante do espelho, quasetodos os dias: – Preciso dar um jeito no meu cabelo. Um dia desses,ainda dou um jeito no meu cabelo. Sempre dizia isso. A tristeza de ficar sem nossa mãe foi grande. Não en-tendia por que não quis que a gente fosse com ela. Foi piordo que se tivesse morrido. Meu irmão grita mais alto da janela. Minha irmã corta no meio a formiga perdida na toa-lha. Agora são dois pedaços perdidos na toalha. Ela ri dasmetades tentando se reencontrar. – A faca está sem fio – reclama – É de tanto cortar be-terrabas – e retoma uma de nossas discussões desanimadas. – São todas cozidas e macias – respondo, mostrandouma parte de meus dentes cobertos de vermelho. É assimque costumo mostrar meu desagrado. Ela muda de assunto. – Alguém precisa tirar a poeira dos olhos abertos denosso pai. Finjo que não é comigo. Meu irmão faz silêncio, agora. O balão negro subiu,com certeza. Meu irmão descobriu a alegria dos balões. Éoutra pessoa de uns tempos para cá. Fico feliz por ele. No banheiro, olhando meu cabelo, lembro de nossamãe. Talvez um dia também dê um jeito no meu cabelo.50
  48. 48. Mas ainda não chegou a hora. Semeei muitas beterrabas emnosso quintal e a colheita será grande, melhor do que noano passado. Eu cuido da casa, de meu pai – escondido no quarto –,de minha irmã, que às vezes nos maltrata. Cuido de tudo. Quando todos dormem, às vezes parece que escuto asbeterrabas crescendo no escuro. Nestas horas, penso maisdo que nunca em nossa mãe, na alegria de meu irmão e emdeixar a casa. A cada noite que passa, sinto que está perto o dia emque vou pegar nossas coisas, parte do que resta do nosso di-nheiro, acordar meu irmão e lhe contar aquela história, tan-tas vezes repetida, da viagem para um lugar cheio de balões. Sei que ele vai estar com sono, mas vai segurar a minhamão e me acompanhar. Vou mostrar o bilhete em cima damesa, escrito para nossa irmã: Agora é sua vez de cuidar do nosso pai e da casa. Não se preocupe, a gente vai ficar bem. A gente vai mandar notícias. Sinto que nossa partida está mais próxima. Talvez hoje.De noite. De noite vai ser mais fácil. 51
  49. 49. Leveza Júlia está sentada na sauna a vapor. Júlia, a mulher enor-me, é uma pessoa doce. Tem mãos pequenas, buliçosas. Mãosdesajeitadas, que destoam da sua calma habitual. Mãos decriança que parecem agir por conta própria, quando tecembordados, tapeçarias, pinturas. Mãos que perseguem estra-nhas e repentinas coceiras em lugares distantes do seu corpo. No ano passado, Dr. Carlos, o médico com cara demenino, pediu-lhe uns exames. Ao receber os resultados, ele comentou: – Os exames não indicaram nada. Vou lhe recomendaruma pessoa – E tirou da gaveta o cartão de uma psicóloga. Todas as quintas-feiras, dez da manhã, Júlia conversacom Débora, a psicóloga dos olhos castanhos e claros. – Posso falar o que quiser? – Pode. – E você não vai se aborrecer? Débora sorri e seu olhar fica ainda mais claro. Algumas semanas depois, Júlia começa a falar de coi-sas que nunca contou para ninguém – disfarçava seus suspi-ros pois a mãe lhe dizia que suspiros revelam desejos triste-zas ou algo assim se sentia distante da filha sua vida foi per-dendo a graça as pessoas a achavam uma pessoa doce apesarde tudo mas sua doçura às vezes se perdia bastava uma dis-tração bastava qualquer coisa que a fizesse pensar no-tem-po-de-sua-vida-que-se-foi aprendeu a conviver com issoquando descobriu que as coceiras e as distrações chegavame desde que não se afligisse muito também passavam.52
  50. 50. Domingo. Acompanha Cíntia, sua filha, a uma festade aniversário. Sem disposição. Um parente distante do qualJúlia nem lembrava. A festa é num clube afastado, no meio do mato. Olugar é agradável, com muito verde e um lago com patos epeixes. Foge dos parabéns-a-você e descobre, sem querer, umasauna. Sempre quis experimentar uma sauna. O moço cheiode brincos informa o preço e depois lhe oferece um roupãoe toalhas brancas. Explica o funcionamento da sauna seca ea vapor, os tempos adequados, o chuveiro, as cadeiras comas revistas, os sucos, refrigerantes, cervejas. A sauna é uma bela surpresa, mesmo com o suor in-tenso. O cheiro de pinho melhora sua respiração, mas tam-bém a sufoca um pouco. Podia desaparecer em meio aosvapores. Volta a si com a água fria do chuveiro. Refresca-se como banho demorado. Após alguns minutos, sente-se estranhamente leve,quase invisível. Sai da sauna. Caminha como outra pessoa, alheia aodesconforto habitual de quem gostaria de ser carregada,poupar-se da complexa articulação de músculos inimagi-náveis, do quase escândalo de seus movimentos. À noite, Júlia pede ajuda ao genro para levantar-se dosofá. Ele cai por cima dela e ficam abraçados por um breveinstante. Ela ri muito. Cíntia e o genro nem tanto. Então, com orgulho misterioso, Júlia pensa na sua enor-midade e força incompreensíveis. Até que o riso se esvai. E ela se confunde toda. Nãosabe o que significa aquilo. 53
  51. 51. Mais tarde, escondida, bebe o uísque do genro, pelaprimeira vez. Liga a televisão do seu quarto. Silvio Santosnão parece engraçado hoje. Até que dorme, num relaxamento intenso. Pela manhã, para sua surpresa, acorda idêntica. Ape-nas a cabeça um pouco dolorida, a sede e a aspereza na boca. No sábado seguinte, pede para ir ao clube do qual eramsócios, mas que há muito não freqüentavam. A filha estra-nha. Júlia não diz nada. Apenas pede: – Me leva?!?! No caminho, em voz baixa, comenta com a filha: – Seria tão bom descansar. A filha, óculos escuros, está concentrada demais notrânsito, no vermelho do semáforo, no homem que ajeita ocabelo no carro parado ao lado, nos dois quilos que engor-dou no último mês. Quando chegam à portaria do clube, Cíntia descobreque esqueceu a carteirinha da mãe. Vai ao guichê de atendi-mento para pedir uma carteirinha provisória. Júlia senta-se para esperar no banco ao lado das qua-dras de tênis. Uma bolinha amarela vem parar nos seus pés.Ela a apanha, sem saber a quem devolver. – Acho que é minha, diz uma menina. Júlia tenta alcançá-la, mas a bolinha lhe escorrega damão. Apanha-a novamente e mais uma vez a deixa cair. Riem.A menina, raquete na mão, é muito parecida com sua filhaquando adolescente. O formato da testa, o nariz. A meninaagradece, com simpatia. E Júlia sente uma saudade imensada época em que a filha tinha a idade da menina. Cíntia demora a voltar. Júlia vai até o guichê de aten-dimento. Vê que a filha gesticula e discute com o atendente.54
  52. 52. Quando chega mais perto, Cíntia bate no vidro, nervosa.O atendente chama o segurança. Júlia toca no ombro da filha e depois a segura comfirmeza. Cíntia tenta se soltar. Júlia não cede. Seus rostos ficam bem próximos, como há anos nãoacontecia, como na época em que a filha era criança, comoem algumas vezes em que seus olhares se encontraram deverdade. Júlia revê, nos olhos dela, os traços do marido morto. Omesmo medo, a mesma aflição sem causa aparente. Por trásdas lágrimas, certa beleza escondida, que só a custo aparecia. E, no abraço, de repente, a natureza enorme de Júliaparece fazer sentido. A enormidade de Júlia parece corres-ponder ao tamanho de um amor que, enfim, alcança nova-mente a filha. Um amor guardado que reencontra a mulhercom quem Júlia só trocava palavras ásperas nos últimos anos. As mãos de Júlia agora perdem a agitação buliçosa, nãosão mais desajeitadas, pequenas. As mãos de Júlia agora des-lizam pelo cabelo da filha com movimentos suaves, fluidos.Mãos que se acalmaram. Ainda que por um breve momento. 55
  53. 53. Pênalti É claro que vou bater! Que história é essa, agora? Agente não decidiu isso ontem? As torcidas assoviam, vaiam. O juiz grita com os joga-dores que avançam pra cima dele, mete a mão no bolso,ameaça tirar um cartão. Enxugo o suor da testa. A manga da camisa rasgou. Sacanagem do Evaldo, pedir pra bater o pênalti no meulugar. Ele pede pra eu ter calma. É metido a espertinho,desde o início do campeonato não esconde que quer a mi-nha posição. E um babaca da TV vive falando isso. Ontemo babaca falou do meu contrato que vence no mês que vem,deu a entender um joguinho de desinteresse do Grêmio pranão aumentar o meu salário. Fico puto. O goleiro está nervoso, tenta me intimidar. O juiz dizpra ele ficar quieto, senão vai voltar a cobrança. Passo a camisa no lábio inchado por uma cotovelada.O sangue só estancou com muito gelo, mas ficou uma man-cha vermelha no azul da camisa. Que droga é essa do Evaldo pedir pra bater de novo?Não estava decidido pelo Nelsinho que eu bateria? Eu sou oartilheiro do time ou não sou? O juiz grita de novo com o goleiro, que continua pu-lando embaixo da trave. Quando Evaldo me diz vai com calma pela segundavez, olho bem pra ele – se tu disser isso de novo o pau vaiquebrar aqui na frente de todo mundo!56
  54. 54. Adilson, o capitão, escuta e tira o Evaldo de perto demim. Evaldo mostra aquela cara de bunda de sempre, masvai pra trás. O pessoal do banco faz o sinal dos sete minutos praterminar o jogo. Atrás do gol, um repórter grita no micro-fone que o placar está 2x2, que o empate dá o título pro Inter. Olho para o lugar onde vou chutar. Lado esquerdo.Lado contrário ao do ano passado, quando errei um pênal-ti, também decisivo. Sete minutos. Um chute. O campeonato, a tietagem,as fotos nas primeiras páginas, os convites e contratos quevêm depois, o assédio das mulheres. O goleiro leva cartão amarelo. Fecha outro bolo emvolta do juiz. Vou acabar contigo, seu goleirinho empetecado! Távendo esta bola laranja aqui na sua frente? Ela vai passarperto da tua orelha e tu vai lembrar deste dia pro resto davida. Alguém grita: Lembra do ano passado! Quase mandoele se foder. O juiz está de costas. Me seguro por causa daTV. Vou acabar logo com vocês. Esperem só um minuti-nho. Isso, meus amiguinhos fotógrafos, meus amiguinhoscâmeras de televisão. Preparem-se. Não vou dar porrada não.Só colocar a bola, ignorar o goleiro. Amanhã vai sair nojornal que bati com calma, despreocupado das provocações.Amanhã a Beth vai chorar outra vez ao ver minhas fotos nascapas dos jornais. O choro de alegria que ela engoliu noano passado. Eu prometi, não prometi te dar esta alegriahoje, Beth? Pra acabar com as humilhações que você sentiumais do que eu. 57
  55. 55. Vocês me tiraram sangue, seus desgraçados! Vaias e gri-tos não me assustam. Depois vocês vão acompanhar a repe-tição na TV. Que peninha vocês voltando pra casa com asbandeirinhas enroladinhas. Que peninha! O destino de vocêsestava traçado e vocês não sabiam. O juiz apita. Olho para a bola. Para o goleiro. Os olhos aflitos deletentam adivinhar o canto. A língua dele corre rápida porcima dos lábios. Inicio os seis passos até o chute. E, de repente, pareceque não sou eu quem está ali, me sinto uma outra pessoa.São outras pernas que comandam o início da rápida corri-da, um outro jogador, concentrado no lugar para onde en-viar a bola, alheio ao tumulto e à gritaria. Até que sinto apancada seca da chuteira contra a bola.58
  56. 56. Lucidez Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer. FERNANDO PESSOA, Tabacaria Antônio, o escritor, sonha com o Anjo da Morte. – Você tem três meses – sentencia o Anjo. – O quê? – espanta-se o escritor. – Três meses. – Mas sou tão jovem! – Eu não diria isso. – Claro que sou! – – Tenho escolha? – Não é bem uma escolha. – O quê, então? – Duas opções. – Quais? – Você pode esquecer que me viu e partir em paz. – E a outra? – Realizar um último desejo, mas com uma condição. – Qual? – Ficará consciente do fim que se aproxima. – Caramba! – – E o que as pessoas escolhem? – A maioria prefere esquecer que me viu. 59
  57. 57. – Normal. – – Como vou confiar em você? – É simples. – Como? – Nunca faltei com ninguém. Antônio acorda suado. Parecia real, o sonho. Duas noites depois. O Anjo reaparece. – E então? – pergunta o Anjo. – Você de novo? – – Três meses é pouco! – Não posso negociar. – É pouco! – – Talvez possamos conversar. – Não. Estou cansado de tentarem me convencer. Sem-pre dá pano pra manga. Lembra do filme do Bergman, OSétimo Selo – do desafio para a partida de xadrez? Lembrado conto do Borges, como era o nome? Pra não falar daSherazade, nas Mil e Uma Noites. – Três meses é pouco. – O que você quer fazer? – Escrevi muitos livros, mas não serei lembrado. – – Quero ser lembrado. – Ah, a posteridade! – É, a posteridade. – Kafka escreveu A Metamorfose em vinte dias. – Não tenho o gênio de Kafka. – Como é mesmo o seu nome?60
  58. 58. – Antônio. – – Quero escrever um livro para a posteridade. – Antônio acorda assustado. Mais molhado de suor doque no primeiro encontro com o Anjo. É um sonho, sabe.Mas não se convence. Na dúvida, vai para o computador. Seu bloqueio habi-tual, para sua surpresa, parece menor. Surgem imagens,idéias. Pensamentos que se desdobram em sensações e senti-mentos que alimentam outros pensamentos e, de repente,parece entregue a uma sucessão de imagens velozes e insti-gantes. Rapidamente revê seu crescimento de menino, suasdescobertas, a transformação em adulto, alegrias, decepções,encantamentos fugazes, o amor, a compaixão, a crueldade –mundo podre e sublime, cheio de paradoxos, ambigüida-des, tudo muito rápido, claro. E tudo, de repente, faz sentido. – Como não percebi isso antes? – pensa em voz alta.Tão simples. Praticamente óbvio. Fica eufórico. Sua pró-pria vida. Sim, ele mesmo. Está tudo ali. Começa a rir. A princípio uma risada amarga. Depoiso riso se transforma em gargalhada, os olhos ficam úmidos,rola no chão de tanto rir. Um belo dia, liga o computador e nada acontece. De-sespera-se. Fica deprimido por dois dias. Até que se dá conta: maisimportantes eram suas descobertas. Se emociona. Chora. Então lembra: o tempo é curto. Cada hora renderiamuito, agora. Coloca um relógio sobre a mesa. Mas precisaser rápido, não tem muito tempo. Escreverá à mão, a partirde agora, como nos velhos tempos. 61
  59. 59. Atravessa madrugadas sem dormir. Escreve sem parar.Bebe litros de café. O fluxo não se interrompe, nem quan-do a mão está amortecida e o quarto parece oscilar lenta-mente, de um lado para outro, como um corpo que balançadiante das chamas de uma fogueira. Vez ou outra, nas estó-rias que cria, se depara com o rosto do Anjo da Morte. Eleaparece próximo aos personagens que estão prestes a partir.O Anjo sorri. Antônio desvia o olhar. Mesmo assim, ficaparalisado. O lápis suspenso. No final do primeiro mês, o Anjo reaparece no sonho: – E então, como vai o trabalho? – Perdi tudo no computador. – – Estou escrevendo à mão. Na última estória de Antônio, um dos personagens éextremamente cético. É um personagem forte. Antônio sedeixa contaminar por suas dúvidas. De que vale passar osúltimos dias colocando tinta no papel? De que vale a poste-ridade, se não estará aqui para ver? Melhor se fosse aprovei-tar seus últimos momentos. Rever as pessoas, a vida queainda respira ao seu redor. De que vale aquilo tudo, se estáperto do fim? Antônio fica completamente dominado pelo persona-gem de Vitor. Vitor assumiu o comando e ordena que ele váaté a janela e jogue seus manuscritos. Um a um. Quando joga a última folha de papel, já é noite alta. Ea noite, de alguma forma, o faz entrar em contato com aenorme solidão das luzes brilhando opacas lá embaixo. Umasolidão que se estendia como manto silencioso e triste sobreaquela parte da cidade. A noite o faz entrar em contato comsua própria solidão. Quem, afinal, ele poderia encontrar nos62
  60. 60. seus últimos dias? Não havia ninguém. Uma dor fria o in-vade e também a certeza de que não sabe viver sem escrever,mesmo nos seus últimos dias. É assim que se sente maisvivo, é assim que retoma o trabalho com avidez, no meio damadrugada. O tempo é ainda mais curto, as imagens e ossentimentos, mais velozes. Lembra passagens de livros que-ridos, de autores que se associam de modo misterioso aoseu espírito – Clarice, Cortázar. Sente-se ligado a todos,numa espécie de curto-circuito. Sua letra vai ficando cada vez mais ilegível. Na data marcada, o Anjo não aparece. – O Anjo não veio? – ele diz para si mesmo, enquantocontempla a longa barba por fazer, diante da imagem páli-da no espelho do banheiro. – Não veio – ele mesmo responde. Antônio está esgotado. Emagreceu muito. Tosse semparar. Olha para os montes de cadernos ao seu redor. Apa-nha um: mal consegue ler as frases. Outro: garranchos in-compreensíveis. Até perceber que aquilo tudo não tem importância.Mais importante, agora, era atender a porta. Ver aquelamulher com uma folha de papel manuscrita, com uma letramuito parecida com a sua, que lhe pergunta com expressãoe um tom de voz que ele nem nos melhores sonhos haviasonhado: – Foi você quem escreveu isto? Ele a convida para entrar. Sente-se como se estivesse para morrer. 63
  61. 61. Mistérios Não nos une o amor, mas o espanto. Será por isso que a amo tanto? JORGE LUIS BORGES Pobre Osvaldinho, foi se apaixonar logo pela Rosana. Osvaldinho trabalha como boy no escritório de umcontador sovina. Tem cara de adulto precoce, quase sempreassustada. Usa óculos de armação escura. Rói as unhas, es-conde as mãos. O cabelo parece sempre sujo, mesmo quan-do chega com a cabeça molhada, cheirando a xampu. Temsopro cardíaco e, por mais que os médicos digam que o talsopro é benigno, o diagnóstico de prolapso-da-válvula-mitralsoou como o prenúncio de uma vida de dificuldades. Falapouco. Mesmo assim, é fácil gostar dele. Gente boa, o Osvaldinho. Mas, pobre Osvaldinho, foi se apaixonar logo pelaRosana. Bonita, sim, mas esnobe no limite do insuportável.Quando abre a boca, socorro: é o carro luxuoso da família,as viagens para a Europa, Estados Unidos, os amigos im-portantes. E o pior: fala interrompendo os outros. Ninguéma convida para as festinhas, mas ela sempre aparece. Sábado à noite, Rosana surge na porta do apartamen-to da Regina. Osvaldinho pula de um canto, como se tives-sem ligado um botão nas suas costas. – Oi – ele diz – e sorri. Normalmente não sabe conti-nuar a conversa e sente-se feio quando sorri.64
  62. 62. – Que frio, meu Deus. Escolhi a roupa errada. Estoume odiando por isso – diz Rosana. – Pegue minha jaqueta – diz Osvaldinho e até esqueceo rasgão no forro, o cuidado que tinha para escondê-lo. – Não se incomode, lá dentro melhora – ela resmunga. – Não, pode pegar – ele ficaria encarangado, só paravê-la dentro da jaqueta, tentando imaginar como seria sen-tir o perfume dela impregnado, depois. – Não se incomode – e exagera na irritação que se per-mite com ele. Osvaldinho continua solícito, enquanto ela o aluga,como sempre. – Ainda faltam três anos para o vestibular e meu pai jáme enche pra fazer Medicina. Detesto sangue. Deus me li-vre decorar cinqüenta mil nomes de nervos, cinqüenta milnomes de músculos, abrir cadáveres, acordar de madrugadae tudo mais. – A Rosana está meio nervosa, hoje – ele comenta de-pois, com Otávio. Os outros se olham. – Ela nunca está bem! – E Zeca não deixa por menos –Duvido que alguém agüente viver com aquela coisa! Os anos passam. Osvaldinho dá duro, muito duro.Sofre, mas consegue o que quer. Osvaldinho hoje é o Dr. Osvaldo. Cardiologista bemsucedido. Aposentado há dois anos. Ainda esbelto, apesarda idade. Rosana não passou no vestibular para Medicina. Ten-tou por quatro anos. Depois desistiu. E nunca trabalhou. Aquela falando alto lá dentro? É a Rosana. Reclama dafaxineira, da passadeira, da cozinheira, de mim. Até os fi- 65
  63. 63. lhos perdem a paciência. Este aqui deitado na rede? Sou eu: Dr. Osvaldo. Nos fins de semana, gosto de ficar aqui no terraço.Tomo sol, converso com meu filho, Rubens, que nos visitaregularmente. Gosto dele, cardiologista como eu. Denise, nossa filha, infelizmente mora no Canadá. Masacompanho meus netos, de vez em quando, pela internet.Eles fazem caretas para meu rosto no vídeo. Um avô remo-to e sorridente, que mora na televisão. Daqui quase sempre avisto os navios que deslizam peloGuaíba. Agora tenho tempo para pensar em muitas coisas,enquanto leio meus livros preferidos. – Agora posso pensar nos mistérios da vida, Rubens. – Mistérios da vida, pai? – É. – Como assim? – Rubens, me sirva um pouco mais de cerveja, por favor. Ouvimos novamente a voz alta de Rosana. Agora já separece com um grito. Reclama da poeira na sala. Rubens arregala os olhos, divertido. Os mesmos olhosda mãe. Levantamos os copos para um brinde. Bebemos. – Mistérios, Rubens. Agora que tenho tempo possopensar mais neles. – Quais mistérios? – Mistérios do coração, por exemplo.66
  64. 64. Máximo divisor comum – Um pouco de ousadia não faz mal a ninguém. – A sua ousadia é um tanto... – Um tanto o quê? – Você perdeu a noção dos limites. – Que limites, meu bem? – Ora, você sabe. – Falando assim, você parece muito controlada. – Sabe aquela noção do ridículo... – Esqueci que você é cheia de noções. – Só as que podem salvar os amigos. – Você é minha amiga? – Daqui a pouco, nem isso. – Puxa, desculpe, amiga. – Guarde sua ironia. – Tá bem. – Eu não devia ter vindo. – Relaxe, beba um pouco. – Se soubesse que você ficaria assim. – Relaxe. – Mas você quase implorou. – Implorei? – É, deprimido por causa da indicação. – Era importante. – Eu sei. – Sempre sonhei cobrir uma Copa do Mundo. – Você não tem jeito pra fazer lobbizinhos. – Aquele miserável do Garcia! 67
  65. 65. – Fale baixo. – E o Osvaldo, um tremendo puxa-saco! – Sorte sua ter ficado nesta mesa distante. – Que se danem! – Amanhã você vai me ligar, todo meloso. – Não vou não. – Arrependido. – Não vou. – Antes que as coisas piorem, podíamos cair fora. – Preciso cair fora é do jornal. – Ah, o doce martírio. Há quantos anos você fala isso? – Depois me chama de irônico. – Vou embora. – Fique comigo. – Vou, sim. – Por favor! – Tchau. – Eu já te disse muitas vezes, não é? – O quê? – Muitas e muitas vezes. – O quê? – Gosto muito de você, Raquel. – Não disse que ia ficar meloso? – Muito, Raquel. – Você mal consegue falar. – Muito mesmo. – Vou te levar pra casa. – É o seu lado Madre Tereza. – Vai começar de novo? – Me perdoe! – Melhor eu te deixar aqui.68
  66. 66. – Puxa, Raquel.– Queria ouvir as piadinhas que vão te mandar amanhã.– Você é muito sensível.– Sensível é você.– Conte pra mim da sua análise.– Que patético!– Desculpe.– Vamos?– Já te disse muitas vezes, não é?– Beijinho, tchau.– Você precisa das minhas pequenas loucuras.– E você precisa ir pra casa.– Minhas pequenas loucuras adolescentes.– Vamos, você está caindo.– Preciso de você.– Vamos!– Preciso do seu lado maternal.– Vamos, meu neném.– Ainda quer filhos?– Acabo de ganhar um, agora.– Puxa!– E sou uma péssima mãe.– Não.– Daquelas que abandonam os filhos quando a barra pesa.– Não, não.– Adeus, filhinho. 69
  67. 67. Vidente Amaral e José se reencontram, depois de anos. Foramgrandes amigos na escola. Amaral tem aparência jovial. Prosperou na pequena lojaherdada do pai. José não, José está um caco. – Dá cá um abraço, José! – Amaral sente a magreza dooutro, as roupas gastas – Como vai? – Levando, Amaral, levando. – Você parece triste, homem. – Um pouco, Amaral, um pouco. – O que houve? – Tenho os dias contados, Amaral. – Não diga isso! – É sério, Amaral. – Doença? – Não, não. Consultei uma vidente. – Ah, pra mim isto é tudo bobagem. – Não é. Ela já acertou comigo outras vezes. – O que ela disse? – Onze meses, Amaral. Tenho onze meses. Não passodo Natal. – Não é possível! – É sim, Amaral. Já acertou outras vezes. – Deixe disso, José! – Não ia contar, vi você tão contente. – Que é isso, José! – Não quero que sintam pena de mim. – Pare com isso.70
  68. 68. – Vivo só. E a situação está difícil, Amaral. – Ora, ora. – Não quero mais aborrecê-lo, Amaral. Me perdoe. – Deixe disso. – Tenho pensado coisas horríveis. – Não diga isso. – Mas também num último gesto. Em ajudar as pes-soas que precisam. – Como, José? – Fiz um seguro de vida e a beneficiária era minha mãe– que Deus a tenha –, que faleceu há três meses. – Puxa José, meus sentimentos. – Obrigado Amaral, obrigado. – O que houve com ela? – Velhice, Amaral, era o fim. Agora não tenho maisninguém. Para não perder tudo o que paguei, quero encon-trar uma pessoa de bem para transferir o benefício, que secomprometa a doar pelo menos parte do dinheiro para umainstituição de caridade, caso me aconteça alguma coisa. – Não diga uma coisa dessas, José! – Só que mal tenho dinheiro para pagar o seguro,Amaral. Até para outras despesas às vezes falta. – Não fique assim. Podemos dar um jeito. – Obrigado, Amaral. – Dá cá um abraço. – Você é generoso, Amaral. Não tive coragem de pedir. – O que é isso! – Você poderia ficar com uma parte do seguro, Amaral. – Pare com isso! – Uma pequena parte, digamos. – Fora de questão, José. 71
  69. 69. – Estou muito angustiado. Até o resto de vida será dedificuldades. Você poderia me adiantar uma parte, umapequena parte que fosse? Dez por cento, talvez vinte? – Não faria isso, José. Não me sentiria bem. – Pense neste seu amigo, Amaral. Por caridade. – Sinto muito. – Veja como eu estou, Amaral. – – – Muito bem, José. Você me parte o coração. As coisasnão vão muito bem, mas podemos dar um jeito. – Você é um homem bom, Amaral – José enxugou aslágrimas. – Confio em você, José – e colocou a mão pesada noombro de José, quando se despediram. Bem mais pesada doque poderia supor – Confio em você, José. Dois dias depois, José pegou o dinheiro e sumiu. Passados onze meses, reaparece. Os negócios de Amaral,que já não iam bem, pioraram – juros altos, excesso de esto-ques, concorrência cada vez maior, falta de modernização.Amaral está abatido. Nem a proximidade do Natal melho-rou a situação. E o que vê José, quando entra porta adentro, eufórico?Vê o que parece ser uma arma sobre a mesa de Amaral, aolado de uma garrafa de uísque, quase vazia. – Ela se enganou, Amaral, se enganou! Era ontem. Fi-quei deitado, esperando. Não aconteceu nada, nada. – Como é que é, José? Fale devagar. – Liguei pra ela hoje. Ela disse que pode ter cometidoum erro. Um pequeno erro, Amaral. Me pediu desculpas. – Que erro, José?72
  70. 70. – Talvez sejam onze anos, Amaral, onze anos! Onze anos!Não é uma maravilha? – É, maravilhoso. – O que há com você, Amaral? – Dívidas, José. Dívidas e mais dívidas. Mas isso não éo pior. – O que foi? – Tereza me deixou. – Nossa, Amaral! – Tereza se foi. A minha morena. A mulher da minhavida. – Da cá um abraço, Amaral. – Um abraço... pois é... – Amaral sente que José estámais gordo. Veste roupas boas. Até perfume usa. – Fiquei feliz ao conversar com a vidente, Amaral.Muito feliz. Mas depois pensei, acho que estou com umproblema. – Problema? E José sente que Amaral parece não soltá-lo do abraço. – É, um problema que tem me tirado o sono. Comoposso devolver o dinheiro ao meu bom amigo? – É uma boa idéia, José, uma boa idéia. Era também oque eu pensava, agora há pouco. Ainda mais que te adianteimais que o combinado, não foi? – É o que tenho me perguntado: como devolver, segastei quase tudo? – Quase tudo? – Amaral olha transtornado. – Você está bem, Amaral? – Estou pensando bobagens, José, bobagens. – Você não está pensando em... – Bobagens, José. 73
  71. 71. – Suicídio? – Não, José, não. – Que bobagens, Amaral? – Não me pergunte, José, não me pergunte.74
  72. 72. Iceberg O espírito julga, a alma vive. ERNESTO SÁBATO O professor Lopes concluiu o último capítulo do seuromance. Está exultante. Há anos trabalhava no livro. Abre a garrafa de vinho que guarda, também há anos,para este momento. Relê mais uma vez o último parágrafodo capítulo. Não contém as lágrimas. Fica emocionado. Muitas vezes repetiu para os alunos: sentir é mais im-portante do que entender. Entender o que estava fazen-do era também muito importante para a criação. Gostavade citar uma imagem de Bergman para se referir ao proces-so criativo – primeiro jogava o dardo no escuro, depois ten-tava descobrir onde acertou. Gostava de pensar nas técnicas narrativas que podemser usadas para contar uma história. Sim, o leitor deve sen-tir mais do que entender. Era um deleite para o professorLopes imaginar a sensação descrita por Hemingway ao omitiro final de seus contos. O essencial não se conta. A essênciadeve ficar oculta, como a parte submersa de um iceberg. Gostava de imaginar os possíveis sentimentos de JuanRulfo, ao eliminar páginas e páginas do romance PedroPáramo. Limpou as explicações e, assim, abriu o romance àimaginação do leitor. 75
  73. 73. Sem falar nos escritores que fazem inúmeras versões deseus trabalhos, até encontrar o tom satisfatório. Abreviam,amplificam. Esta técnica de composição servia apenas para a literatura? Não para o professor Lopes. O professor Lopes achaque pode aplicá-la na vida. Ainda não descobriu como, masalguma coisa lhe diz que é possível. Pensa nisso, talvez para fugir do martírio do trabalho.O professor Lopes precisa corrigir dezenas de redações es-colares. Redações nada boas. Trabalho cansativo. Mas o sensode responsabilidade o impede de ser relapso. Sente dores nas costas. Tenta se distrair com as possí-veis aplicações da teoria do iceberg. Pode aplicá-la à vida deseus conhecidos? E para ele mesmo? Hoje, no entanto, está mais inspirado, como se esti-vesse prestes a descobrir alguma coisa. A conclusão do ro-mance o deixou assim. Uma das primeiras coisas que o intrigavam ao tentaraplicar a teoria do iceberg a si mesmo eram as perguntas. Suavida era o rascunho de um romance, cuja versão final lheescapava? Sua vida era um eterno rascunho ou não? E, mes-mo como rascunho, certos capítulos eram melhores queoutros? Sim, eram. E nos capítulos melhores, alguns pará-grafos especiais? Sim, sim. E nestes parágrafos, frases inspi-radas, instantes inesquecíveis? Sem dúvida. E nos instantesinesquecíveis, aqueles sublimes, que justificam uma exis-tência? Sim. Um dos instantes mais sublimes chamava-seHelena. Jamais esqueceu Helena. Helena dos olhos amen-doados. O que isto tem a ver com o iceberg? Não sabe. Quandochega nesta parte se confunde todo.76
  74. 74. A teoria não funciona. Às vezes é assim mesmo, o queparecia um momento de iluminação se apaga feito um tí-mido fósforo. No dia seguinte, o professor Lopes está novamentediante de redações confusas. Haverá alguma razoável? É oque procura. Até que encontra uma redação melhorzinha. Há senti-mento nas palavras, calor nas frases. Está em forma de car-ta. Uma carta de amor! É de uma aluna, que se diz apai-xonada por alguém... e este alguém é... um professor. Quem?Quem? Ela não diz quem. E são tantos os professores, mui-to mais jovens do que ele. Olha o nome da aluna: Helena.Não a mesma Helena, claro. Tenta lembrar do rosto da aluna. Ela senta na primeirafila. Tem olhos bonitos, não tão bonitos como os da pri-meira Helena. Ela o olhava de um modo estranho, ficavaembaraçado. Seria ele? O professor se comove. Se isto fosse parte de uma história, o que deveria seromitido no final para alçá-la a outra dimensão? Se fosse opersonagem de um conto, qual seria seu último gesto oupensamento elíptico? Não sabe. E o pior era isso. Para suatristeza, a teoria não funciona de jeito nenhum. Outra redação descreve uma garrafa jogada ao mar, comuma mensagem. A garrafa foi encontrada numa ilha doAtlântico. O que havia na mensagem? E uma garrafa flutuando nas águas salgadas, entregueao curso das marés, de certa forma se parece com um pe-queno iceberg. O professor sente uma dor aguda na coluna. Levanta,estica as costas. Olha para as páginas do último capítulo do 77
  75. 75. seu livro. Sim, havia muitas referências indiretas a Helena.O livro era todo escrito para ela. De certa forma, era comoum grande bilhete numa garrafa, que depois seria jogada aomar.78
  76. 76. Aniversário Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse. FERNANDO PESSOA, O Guardador de Rebanhos Luíza abre um círculo com a toalha no espelho emba-çado. Vê o rosto sem a moldura familiar do cabelo crespo –agora úmido e sem volume –, sem os brincos, nem a pintu-ra discreta que costuma usar. Com os dedos enrugados, sente o contorno da boca edo nariz. Olha complacente para os seios, depois a barriga,a cintura e as pernas, levemente arqueadas para dentro. De repente fica imóvel. Perde o fluxo natural dos mo-vimentos que conduziriam ao próximo gesto. O reflexo noespelho revela outra imagem: outra Luíza, encolhida no ca-saco, dentro do frio da noite anterior, que sai do edifícioonde trabalha para o caminho até a parada de ônibus. Vêmendigos enroscados em jornais e trapos, diante de umajoalheria, pessoas ao redor de um corpo no chão com orosto coberto, a vela acesa, a polícia. Mais adiante sente ocheiro enjoativo de fritura – uma mini-van de cachorro-quente. Passa por prostitutas que gritam com o motoristado carro que arranca rápido. Uma outra Luíza, que pára diante da vitrine da lojaelegante. Aprecia uma vez mais o blazer de micro-fibra. O 79

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