C. s. lewis as crônicas de nárnia - iv - príncipe caspian

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C. s. lewis as crônicas de nárnia - iv - príncipe caspian

  1. 1. C. S. LEWISAS CRÔNICAS DE NÁRNIA VOL. IV Príncipe Caspian Tradução Paulo Mendes Campos
  2. 2. ÍNDICE1. A ILHA2. A CASA DO TESOURO3. O ANÃO4. O ANÃO CONTA A HISTÓRIA DO PRÍNCIPE CASPIAN5. AS AVENTURAS DE CASPIAN NAS MONTANHAS6. O ESCONDERIJO DOS ANTIGOS NARNIANOS7. A ANTIGA NÁRNIA EM PERIGO8. A PARTIDA DA ILHA9. O QUE LÚCIA VIU10. O RETORNO DO LEÃO11. O LEÃO RUGE12. MAGIA NEGRA E REPENTINA VINGANÇA13. O GRANDE REI ASSUME O COMANDO14. CONFUSÃO GERAL15. ASLAM ABRE UMA PORTA NO AR___________________________________ 2C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  3. 3. 1 A ILHAEra uma vez quatro crianças – Pedro, Susana,Edmundo e Lúcia – que se meteram numaaventura extraordinária, já contada num livro quese chama O leão, a feiticeira e o guarda-roupa.Ao abrirem a porta de um guarda-roupaencantado, viram-se num mundo totalmentediferente do nosso, e nesse mundo, um paíschamado Nárnia, tornaram-se reis e rainhas.Durante a permanência deles em Nárnia acharamque tinham reinado anos e anos; mas, aoregressarem pela porta do guarda-roupa àInglaterra, parecia que a aventura não tinhalevado quase tempo algum. Pelo menos ninguémnotara a sua ausência, e eles nunca contaram nadaa ninguém, a não ser a um adulto muito sábio. Tudo isso tinha acontecido havia um ano.___________________________________ 3C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  4. 4. Os quatro encontravam-se, no momento em quevamos iniciar esta história, sentados numa estaçãode trem, rodeados por pilhas de malas. Estavamde volta ao colégio. Tinham viajado juntos atéaquela estação, que era um entroncamento; dentrode alguns minutos devia chegar o trem dasmeninas e, daí a meia hora, o trem dos meninos. A primeira parte da viagem fora como seainda fizesse parte das férias; mas, agora que seaproximavam as despedidas, todos sentiam que asférias tinham acabado e que começavam outra vezas preocupações do ano letivo. Reinava grandemelancolia, e ninguém sabia o que dizer. Lúcia iapara um internato, pela primeira vez. Era uma estação rural e vazia: além deles,não havia mais ninguém na plataforma. Derepente, Lúcia deu um grito agudo e rápido, comose tivesse sido mordida por um marimbondo. – O que foi, Lúcia? – perguntou Edmundo,mas logo parou soltando um ruído parecido comhã!___________________________________ 4C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  5. 5. – Mas que coisa... – começou Pedro, quelogo também interrompeu a frase, dizendo, emvez disso: – Pare, Susana! Para onde você está mepuxando? – Nem toquei em você! – respondeuSusana. – Tem alguém me puxando. Oh, oh, oh,pare com isso! Todos notaram que os rostos dos outrostinham ficado muito pálidos. – Senti a mesma coisa – declarouEdmundo, quase sem fôlego. – Parecia quealguém estava me arrastando. Um puxão horrível!Epa! Lá vem de novo! – Também estou sentindo – gritou Lúcia. –Que coisa desagradável! – Cuidado! – exclamou Edmundo. – Vamosficar de mãos dadas. Tenho certeza que isso émagia.___________________________________ 5C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  6. 6. – Isso mesmo, de mãos dadas – disseSusana. – Será que isso não vai parar? Mais um instante, e a bagagem, a estação,tudo havia desaparecido, sem deixar um sinal. Asquatro crianças, agarradas umas às outras,ofegantes, viram então que se encontravam numlugar cheio de árvores, tão cheio de árvores quemal havia espaço para se mexerem. Esfregaram osolhos e respiraram fundo. Lúcia indagou: – Pedro, você acha possível que tenhamosvoltado para Nárnia? – Pode ser um lugar qualquer. Com estasárvores tão cerradas, não se vê um palmo adiantedo nariz. Vamos ver se encontramos um lugaraberto, se é que existe isso por aqui. Com certa dificuldade, e levando arranhõesdos espinhos, conseguiram desembaraçar-se dosarbustos. E foi outra surpresa. Tudo se tornoumais brilhante. Após andarem alguns passos,encontraram-se à beira da mata, olhando de cimapara uma praia arenosa. A distância de alguns___________________________________ 6C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  7. 7. metros, um mar incrivelmente sereno avançavasobre a areia em vagas tão minúsculas que quasenão se ouvia nenhum som. Terra à vista nãohavia, nem nuvens no céu. O sol estava ondedevia estar às dez horas da manhã, e o mar era deum azul deslumbrante. Pararam, cheirando a maresia. – Como é bom! — disse Pedro. Daí a cinco minutos, estavam todosdescalços, patinhando na água fria e transparente. – Muito melhor do que estar dentro de umtrem abafado, de volta ao latim, ao francês e àálgebra! – disse Edmundo. E durante algumtempo só se ouviu o barulho da água. – De qualquer modo – disse então Susana –, suponho que tenhamos de fazer alguns planos. Afome não deve demorar.___________________________________ 7C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  8. 8. – Temos os sanduíches que a mãe nos deupara a viagem – lembrou Edmundo. – Eu, pelomenos, estou com os meus. – Eu, não – disse Lúcia. – Deixei os meusna maleta. – Eu também – disse Susana. – Os meus estão no bolso do casaco, ali napraia – declarou Pedro. – São assim dois almoçospara quatro. Não é lá grande coisa. – Neste momento – disse Lúcia – , queromais beber água do que comer. Todos estavam com sede, como é naturalacontecer quando se brinca na água salgada, sob osol ardente. – É como se a gente tivesse sofrido umnaufrágio – observou Edmundo. – Nos livros,sempre se encontra na ilha uma fonte de águafresca e cristalina. É melhor a gente procurá-la.___________________________________ 8C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  9. 9. – Vai ser preciso voltar para aquela matafechada? – perguntou Susana. – De jeito nenhum – disse Pedro. – Se háfontes aqui, elas têm de vir para o mar; assim, seformos andando pela praia, deveremos achá-las. Foram caminhando, primeiro sobre a areiaúmida e mole, depois sobre a areia grossa que seagarra aos dedos dos pés. Edmundo e Lúciaqueriam seguir descalços e deixar os sapatos ali,mas Susana advertiu-os de que isso não seriabom: – Podemos não os encontrar depois, etalvez precisemos deles se ainda estivermos aquiao anoitecer, quando começar a esfriar. Então pararam e começaram a calçar asmeias e os sapatos. Depois de novamente calçados, iniciaram acaminhada ao longo da praia, com o mar àesquerda e a mata à direita. Fora uma ou outragaivota, era um lugar de todo tranqüilo. A mata___________________________________ 9C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  10. 10. era tão densa e emaranhada que quase não sepodia olhar para dentro dela, e nada lá dentrodava sinal de vida, nem um pássaro, nem sequerum inseto. Conchas, algas e anêmonas, ou pequenoscaranguejos nas poças das rochas, tudo isso émuito bonito; mas, quando se está com sede, fica-se logo cansado de tudo. Os quatro sentiam os péspesados e quentes. Susana e Lúcia tinham ascapas de chuva para carregar. Edmundo, ummomento antes de ser apanhado pela magia,deixara o casaco num banco da estação; assim,revezava-se com Pedro a levar o pesadosobretudo do irmão. Daí a pouco a terra começou a encurvar-separa a direita. Cerca de um quarto de hora maistarde, depois de atravessarem uma crista pontuda,o terreno descrevia uma curva bastante fechada.Estavam de costas para a parte do mar quehaviam encontrado ao saírem da mata. Olhandopara a frente, avistaram além da água outra regiãodensamente arborizada.___________________________________ 10C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  11. 11. – Será que é uma ilha? – perguntou Lúcia. – Sei lá – disse Pedro. E continuaram emsilêncio. O terreno em que pisavam seaproximava cada vez mais do terreno oposto, eeles esperavam encontrar a qualquer momento umlugar em que os dois se juntassem. Mas erasempre uma decepção. Chegaram a algunsrochedos que tiveram de escalar e do topopuderam ver bastante longe. – Ora bolas! Não adianta – disse Edmundo.– Não vamos chegar nunca à outra mata. Estamosnuma ilha! Era verdade. Nesse ponto, o canal que osseparava da outra costa não tinha mais de trintaou quarenta metros. Mas era o seu ponto maisestreito. – Olhem! – disse Lúcia de repente. – Que éaquilo? – e apontou para uma coisa sinuosa,comprida e prateada que se via na praia. – Um riacho! Um riacho! – gritaram todos___________________________________ 11C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  12. 12. e, mesmo cansados, não perderam um segundopara descer os rochedos e correr para a águafresca. Como sabiam que bem mais acima, longeda praia, a água seria melhor para beber,dirigiram-se logo para o lugar em que o riachosaía da mata. O arvoredo ainda era denso, mas oriacho transformara-se num fundo curso d’água,deslizando entre altas margens musgosas, demodo que uma pessoa inclinada podia segui-lopor uma espécie de túnel vegetal. Ajoelhando-sejunto da primeira poça borbulhante, beberam atéficar saciados, mergulhando o rosto na água, edepois os braços até os cotovelos. – Bem... – disse Edmundo. – E aquelessanduíches? – Não seria melhor economizá-los? –atalhou Susana. – Pode ser que mais tardeprecisemos ainda mais deles. – Seria ótimo – observou Lúcia – sepudéssemos prosseguir sem ligar para a fome,como quando a gente estava com sede.___________________________________ 12C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  13. 13. – É... mas e os sanduíches? – repetiuEdmundo. – Não vale a pena economizá-los, poispodem estragar. Aqui faz muito mais calor do quena Inglaterra, e eles estão em nossos bolsos já háalgumas horas. Assim, dividiram os dois sanduíches porquatro. Ninguém matou a fome, mas era melhordo que nada. Depois, começaram a imaginar oque seria a refeição seguinte. Lúcia queria voltarao mar e apanhar camarões, mas desistiu quandoalguém observou que ninguém tinha uma rede.Edmundo sugeriu que apanhassem nos rochedosovos de gaivota, mas, pensando melhor, ninguémse lembrava de já ter visto um ovo de gaivota.Mesmo que encontrassem algum, não saberiamcozinhá-lo. Pedro não teve coragem de dizer queos ovos, mesmo crus, valeriam a pena. Susanaainda achava que não deviam ter comido ossanduíches tão cedo. Finalmente Edmundo disse: – Só há uma coisa a fazer: temos deexplorar a mata. Ermitões e cavaleiros andantes, eoutra gente parecida, sempre conseguiram viver,___________________________________ 13C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  14. 14. de uma ou de outra forma, dentro de uma floresta.Encontravam raízes, sementes, sei lá o que mais... – Que tipo de raízes? – indagou Susana. – Acho que raízes de árvores – disse Lúcia. – Vamos embora – disse Pedro. Edmundotem razão. Temos de tentar qualquer coisa. Começaram a andar ao longo do riacho.Não foi nada fácil. Quando não eram obrigados ase abaixar sob os ramos, tinham de passar porcima deles. Andaram aos trambolhões entremoitas de flores, rasgando as roupas, molhandoos pés no riacho. E, em torno, apenas um grandesilêncio. – Olhem! Olhem! – exclamou Lúcia. –Parece uma macieira.___________________________________ 14C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  15. 15. E era. Subiram arquejantes pela encosta,abrindo caminho pelo mato, e acabaramencontrando uma grande árvore carregada demaçãs douradas, rijas, sumarentas. Não podia sermelhor. – E esta árvore não é a única – disseEdmundo, de boca cheia. – Olhe ali uma outra,outra lá... – Há dezenas, não há dúvida – disseSusana, deitando fora a semente da primeira maçãe tirando outra da árvore. – Isto aqui deve ter sidoum pomar, muito tempo atrás, antes que o matocrescesse. – Houve então um tempo em que esta ilhafoi habitada – disse Pedro. – E o que é aquilo? – perguntou Lúcia,apontando para a frente. – É um muro, um velho muro de pedra –disse Pedro.___________________________________ 15C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  16. 16. Abrindo caminho entre os ramoscarregados, alcançaram o muro. Era muito antigo,arruinado aqui e ali, cheio de musgos etrepadeiras, mais alto do que quase todas asárvores. Ao chegarem mais perto, encontraramum grande arco, que deveria ter tido antes umportão, mas agora estava quase totalmenteocupado pela mais frondosa de todas asmacieiras. Tiveram de quebrar alguns ramos parapoder passar. Quando atravessaram, começaram apiscar, pois a luz do dia se tornara de repentemuito mais intensa. Achavam-se num amploespaço aberto, cercado de muros. Sem árvores: sómato rasteiro, malmequeres, hera e paredescinzentas. Mas o lugar era claro e sereno,pairando ali uma certa melancolia. Os quatrodirigiram-se para o centro dele, satisfeitos porqueagora podiam esticar braços e pernas.___________________________________ 16C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  17. 17. 2 A CASA DO TESOURO – Isto aqui não era um jardim! – disseSusana momentos depois. – Aqui havia umcastelo, e este deve ter sido o pátio. – É isso mesmo – concordou Pedro. –Aquilo ali, não há dúvida, é a ruína de uma torre.Aquilo lá deve ter sido um lanço de escada quelevava para o alto da muralha. Olhem aquelesdegraus naquela porta: deve ter sido a entrada dosalão nobre. – Pela aparência, isso foi há séculos – disseEdmundo. – É, há séculos – falou Pedro. – Gostaria de___________________________________ 17C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  18. 18. saber quem viveu neste palácio e há quantotempo! – Tudo isso me causa uma sensaçãoestranha – observou Lúcia. – Verdade, Lu? – perguntou Pedro, olhandofixamente para a irmã. – Porque comigo estáacontecendo a mesma coisa... A coisa maisestranha que nos aconteceu neste dia tão estranho.Pergunto a mim mesmo onde estaremos... o quepode significar tudo isso... Enquanto falavam, atravessaram o pátio etranspuseram a porta do antigo salão, agora muitosemelhante ao pátio, pois o telhado desaparecera,e havia muito o salão não passava de um enormerelvado salpicado de malmequeres, embora maisestreito e curto do que o pátio e com as paredesmais altas. Do outro lado, cerca de metro e meiomais alto que tudo, destacava-se uma espécie deterraço. – Vocês acham que isto seria realmente umsalão? – perguntou Susana. – Sendo assim, que___________________________________ 18C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  19. 19. vem a ser aquele terraço? – Boboca! – replicou Pedro (que, derepente, ficara bastante excitado). – Não estávendo? Aquilo era o estrado da mesa real, aoredor da qual se sentavam o rei e os grandessenhores. Parece até que você se esqueceu de quenós mesmos fomos reis e rainhas e tivemos umestrado igual no nosso salão nobre. – No castelo de Cair Paravel – continuouSusana, numa voz cantante e sonhadora – , na fozdo grande rio de Nárnia. Como poderia meesquecer? – Parece que estou vendo o nosso castelo! –disse Lúcia. – Este salão deve ter sido muitoparecido com o grande salão onde demos tantosbanquetes. Podíamos fazer de conta que estamosde novo em Cair Paravel. – Infelizmente sem banquete... – comentouEdmundo. – Está anoitecendo. Vejam como assombras estão compridas. E já repararam comoestá frio?___________________________________ 19C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  20. 20. – Se temos de passar a noite aqui, o melhoré fazer uma fogueira – propôs Pedro. – Eu tenhofósforos. Vamos procurar lenha seca. A proposta era sensata. Durante meia horatrabalharam a valer. O pomar que tinhamatravessado não era grande coisa para umafogueira. Experimentaram o outro lado do castelo.Passando por uma porta lateral, encontraram-senum labirinto de corredores e velhas salas, quenão passavam agora de um emaranhado deespinheiros e rosas-bravas. Descobriram umabrecha na muralha e, penetrando num maciço deárvores mais antigas e frondosas, acharam muitosramos caídos, madeira meio apodrecida, lenhafina e folhas secas. Juntaram uma boa pilha delenha sobre o estrado. Junto à parede do lado defora, acabaram descobrindo o poço, todo cobertode ervas. Quando as afastaram, viram que a águacorria lá embaixo, fresca e cristalina. A volta dopoço, de um dos lados, havia vestígios de umpavimento de pedra. As meninas foram colhermais maçãs, e os meninos acenderam o fogo sobreo estrado, bem no cantinho entre as duas paredes,___________________________________ 20C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  21. 21. que lhes parecia o lugar mais quente e abrigado.Foi difícil fazer pegar o fogo, mas por fimconseguiram. Sentaram-se os quatro de costaspara a parede, voltados para a fogueira. Tentaramassar maçãs espetadas em pedaços de pau, masmaçãs assadas só são boas com açúcar. – Alémdisso, ficam tão quentes que não podem sertocadas com a mão, e quando esfriam já não valea pena comê-las. Tiveram, portanto, de sesatisfazer com maçãs cruas, o que levou Edmundoa afirmar que, afinal, a comida do colégio não eratão ruim assim. – Não ia achar ruim se tivesse aqui agoraum bom pedaço de pão com manteiga –acrescentou ele. Mas o espírito de aventura já acordaraneles, e nenhum dos quatro, na realidade, preferiaestar no colégio. Depois de comer a última maçã, Susanalevantou-se e foi ao poço beber água. Voltou comalguma coisa na mão.___________________________________ 21C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  22. 22. – Olhem! Vejam o que encontrei. –Entregou a Pedro o que trazia e sentou-se. Pelo jeito e pela voz, parecia que Susana iachorar. Edmundo e Lúcia, ansiosos por ver o quePedro tinha na mão, inclinaram-se para a frente...para um objeto pequeno e brilhante, que refletia aluz da fogueira. – Confesso que não estou entendendo –disse Pedro, com a voz embargada, passando aosoutros o objeto. Era uma pequena peça de xadrez, detamanho comum, mas extraordinariamentepesada, por ser de ouro maciço. Tratava-se de umcavalo cujos olhos eram dois rubis minúsculos, oumelhor... um deles, porque o outro se perdera. – Nossa! – disse Lúcia. – É exatamenteigual a um daqueles cavalos de ouro com quecostumávamos jogar em Cair Paravel... quandoéramos reis e rainhas. – Nada de tristeza! – disse Pedro a Susana.___________________________________ 22C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  23. 23. – Não posso evitar – falou Susana. – Estou-me lembrando daqueles bons tempos. Costumavajogar xadrez com faunos e gigantes simpáticos.Fiquei me lembrando das sereias que cantavam...do meu lindo cavalo... e... e... – Bem – interrompeu Pedro, num tom devoz bastante diferente. – Vamos deixar defantasias e pensar a sério. – Em quê? – perguntou Edmundo. – Será que ninguém adivinhou ondeestamos? – Fale logo – disse Lúcia. – Estou sentindoque há um mistério neste lugar. – Vamos, Pedro, estamos ouvindo – disseEdmundo. – Muito bem: estamos nas ruínas de CairParavel. – Ora! – exclamou Edmundo. – Como é___________________________________ 23C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  24. 24. que você sabe? Estas ruínas têm séculos. Reparenaquelas árvores. Olhe para aquelas pedras. Hácentenas de anos que não vive ninguém aqui. – Certo – concordou Pedro. – Aí é que estáo problema. Mas vamos deixar isso para depois.Consideremos as coisas uma por uma. Primeiro:este salão é exatamente igual ao de Cair Paravel,na forma e no tamanho. Imaginando um telhado eum chão colorido, em vez da relva, e tapeçariasnas paredes, temos o salão nobre dos banquetes. Todos ficaram calados. – Em segundo lugar – continuou Pedro – , opoço é exatamente no local do nosso. E também éigualzinho em forma e tamanho. Ninguém o interrompeu. – Em terceiro lugar: Susana acaba deencontrar uma das nossas peças de xadrez... ouuma peça igualzinha às nossas. Em quarto lugar:não se lembram de que, na véspera da chegadados embaixadores do rei dos calormanos,___________________________________ 24C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  25. 25. plantamos um pomar logo depois do portãonorte? O mais poderoso espírito das árvores, aprópria Pomona, veio abençoá-lo. E foramaqueles animaizinhos simpáticos, as toupeiras,que cavaram tudo. Será possível que tenham seesquecido da engraçada dona Alvipata, atoupeira-chefe, encostada na enxada, dizendo:"Acredite, Real Senhor, um dia ainda há de ficarcontente por ter plantado estas árvores frutíferas."E ela estava com a razão!... – Eu me lembro e muito bem – disse Lúciabatendo palmas. – Mas repare, Pedro – disse Edmundo – ,tudo isso que você está dizendo deve serbobagem. Para começar, o pomar que plantamosnão chegava até os portões! Não seríamos tãobobos para fazer uma coisa dessas. – É claro que não: foi o próprio pomar queavançou até aqui – explicou Pedro. – Além disso – continuou Edmundo – ,Cair Paravel nunca foi uma ilha.___________________________________ 25C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  26. 26. – Já pensei nisso também. Mas era... comoé mesmo que se diz... uma península. Quase umailha. Você não acha que pode ter virado uma ilha?É possível que alguém tenha aberto um canal. – Espere aí... – disse Edmundo. – Fazsomente um ano que deixamos Nárnia. E quer meconvencer de que, em um ano, os castelos caíram,as florestas cresceram, as árvores que plantamosse alastraram... e sei lá mais o quê? Tudo isso éimpossível! – Tenho uma idéia – disse Lúcia. – Se istoé realmente Cair Paravel, deve haver uma portajunto ao estrado. Devemos estar de costas paraela. Vocês se lembram... era a porta que dava paraa sala do tesouro. – Parece que não há porta nenhuma – dissePedro, levantando-se. A parede por detrás deles estava coberta dehera. – É fácil verificar – declarou Edmundo,___________________________________ 26C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  27. 27. agarrando um pedaço de lenha. E começou agolpear a parede revestida de hera. Tum-tum, batia a madeira contra a pedra,tum-tum... De repente, bum, um barulho muitodiferente, um som oco de pancada na madeira. – Opa! Acertamos em cheio! – exclamouEdmundo. – Seria melhor arrancar esta hera toda –propôs Pedro. – Deixem isso pra lá! – protestou Susana. –Amanhã teremos muito tempo. Se temos depassar a noite aqui, não acho a menor graça umaporta atrás de mim e um buraco escuro, de ondepode sair sei lá o que, fora a umidade e ascorrentes de ar. E não demora a ficar escuro. – Que idéia é essa, Susana?! – disse Lúcia,lançando um olhar de reprovação. Mas os doismeninos já estavam tão entusiasmados que nãoderam ouvidos ao conselho de Susana.Arrancavam a hera com as mãos e com o canivete___________________________________ 27C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  28. 28. de Pedro, até que este se partiu. Pegaram então ocanivete de Edmundo e continuaram. Nãodemorou para que o lugar onde estavam sentadosficasse coberto de hera. Mas, finalmente, a portaapareceu. – Fechada, como era de esperar –comunicou Pedro. – Mas a madeira está podre – disseEdmundo. – É fácil arrancá-la aos pedaços, e agente até arranja mais lenha para a fogueira.Ajudem aqui! Não foi tão fácil quanto supunham. Antesde terem terminado, o salão nobre estava envoltoem penumbra e as primeiras estrelas brilhavam.Susana não foi a única a sentir um ligeiro calafrioquando os meninos, de pé sobre um monte demadeira, esfregaram as mãos e olharam para oburaco frio e escuro que acabavam de abrir. – Precisamos de uma lâmpada – dissePedro.___________________________________ 28C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  29. 29. – Para quê? – perguntou Susana. – Comodisse Edmundo... – Disse, mas já não digo! É verdade quenão estou entendendo muito bem, mas logoveremos. Suponho, Pedro, que você vai descer. – Não tem outro jeito! Vamos, Susana!Coragem! Não vamos bancar as crianças, agoraque voltamos para Nárnia. Aqui, você é rainha. Ebem sabe que ninguém pode dormir descansadocom um mistério destes por desvendar. Tentaram fazer archotes de varascompridas, mas não deu certo. Se voltavam aponta acesa para cima, a chama se apagava; se avoltavam para baixo, ficavam com as mãoschamuscadas e os olhos ardendo. Por fim,decidiram usar a lanterna que Edmundo ganharacomo presente de aniversário, menos de umasemana atrás. Edmundo, com a luz, entrouprimeiro; depois Lúcia, Susana e Pedro, fechandoo cortejo. – Estou no alto de uma escada – anunciou___________________________________ 29C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  30. 30. Edmundo. – Conte os degraus – sugeriu Pedro. – Um, dois, três – foi contando Edmundo,descendo com cuidado, até chegar a dezesseis. –Pronto, cheguei ao fim! – Estamos em Cair Paravel! – exclamouLúcia. – Eram exatamente dezesseis degraus. – Eninguém mais falou, até que todos se juntaram nofundo da escada. Foi então que Edmundocomeçou, lentamente, a descrever um círculo coma lanterna. – O-o-o-oh! – disseram as crianças aomesmo tempo. Pois todos se convenceram de que era naverdade a velha sala de Cair Paravel, onde tinhamreinado como reis e rainhas de Nárnia. Ao centrohavia uma espécie de corredor e, de cada um doslados, a pequena distância umas das outras,erguiam-se ricas armaduras, como cavaleirosguardando um tesouro. Entre as armaduras havia___________________________________ 30C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  31. 31. prateleiras cheias de coisas preciosas: colares,pulseiras, anéis, vasos de ouro, grandes dentes demarfim, diademas e correntes de ouro, e muitaspedras preciosas amontoadas ao acaso, como sefossem batatas – diamantes, rubis, esmeraldas,topázios e ametistas. Debaixo das prateleirasenfileiravam-se grandes arcas de carvalho,reforçadas com barras de ferro, muito bemacolchoadas por dentro. Fazia um frio horrível, eo silêncio era tal que podiam ouvir a própriarespiração. Os tesouros estavam cobertos depoeira. A sala, abandonada havia tanto tempo,entristecia-os e assustava-os um pouco. Foi porisso que, nos primeiros instantes, ninguémconseguiu falar. Depois, começaram a andar de um ladopara o outro, a pegar as coisas, examinando-asbem. Era como se encontrassem velhos amigos.Se você estivesse lá, teria escutado exclamaçõescomo estas: – Olhem! Os anéis da nossa coroação!Lembram?...___________________________________ 31C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  32. 32. – Aquela não é a armadura que você usouno grande torneio das Ilhas Solitárias? – Lembram que o anão fez isto para mim? – E quando eu bebi naquela taça enorme? – Lembram... Vocês lembram?... E, derepente, Edmundo disse: – Não podemos gastar as pilhas destamaneira. Sei lá quantas vezes vamos precisar dalanterna. O melhor é cada um pegar o que lheinteressa e irmos lá para fora. – Temos de levar os presentes – dissePedro. Pois, há muito tempo, num Natal passadoem Nárnia, Susana, Lúcia e Pedro tinhamrecebido alguns presentes que, para eles, valiammais do que todo o reino. Edmundo nada receberaporque não estava com eles. (A culpa tinha sidosó dele: se quiserem saber como foi, podem ler nolivro O leão, a feiticeira e o guarda-roupa.)___________________________________ 32C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  33. 33. Todos concordaram com Pedro eavançaram pelo corredor, em direção à porta maisafastada da sala do tesouro, onde encontraram ospresentes. O de Lúcia era o menor: só umfrasquinho. Mas o frasquinho não era de vidro,era de diamante, e estava ainda cheio do elixirmágico que podia curar quase todos os ferimentose doenças. Lúcia não disse nada e pareceu muitosolene ao retirar o frasco do lugar onde estava eguardá-lo consigo. O presente de Susana tinhasido um arco e flechas e uma trompa. O arcoainda estava lá, bem como a aljava de marfimcheia de setas emplumadas, mas... – Susana, onde está a trompa? – perguntouLúcia. – Puxa vida! – disse Susana, depois depensar um pouco. – Agora é que me lembro: euestava com ela no último dia, quando fomos caçaro Veado Branco. Devo ter perdido a trompa,quando voltávamos para... para o nosso mundo. Edmundo assoviou. Perda irreparável, na___________________________________ 33C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  34. 34. verdade, porque a trompa era mágica: era tocar enunca faltava o auxílio necessário. – Justamente o que mais poderia nos ajudaragora – disse Edmundo. – Não faz mal – disse Susana – , aindatenho o arco. – Será que a corda ainda está boa, Su? –perguntou Pedro. Fosse pela magia na atmosfera da sala dotesouro ou por qualquer outra coisa, a verdade éque tudo estava funcionando bem. Havia duascoisas que Susana fazia realmente bem: manejar oarco e nadar. Agarrou o arco e deu um puxão nacorda, que começou a vibrar. Um som agudoencheu a sala. E aquele som despertou nascrianças, mais que tudo, a lembrança dos velhostempos, as batalhas, as caçadas, as festas... Depois que Susana colocou a aljava aoombro, Pedro foi buscar o seu presente: o escudocom o grande leão vermelho e a espada real.___________________________________ 34C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  35. 35. Bateu com os dois no chão para sacudir o pó.Colocou depois o escudo no braço e prendeu aespada na cintura. A princípio receou que estaestivesse enferrujada e não saísse da bainha.Engano. Com um movimento rápido, ergueu aespada bem alto, iluminando-a à luz da lanterna. - É a minha espada Rindon: aquela com quematei o lobo! Sua voz tinha uma nova vibração: todossentiram que se tratava outra vez de Pedro, oGrande Rei. E em seguida se lembraram de quetinham de poupar as pilhas. Subiram a escada, atiçaram a fogueira edeitaram-se juntinhos para não desperdiçar ocalor. O chão era duro e incômodo, mas acabaramadormecendo.___________________________________ 35C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  36. 36. 3 O ANÃO Dormir ao ar livre tem um grandeinconveniente: a gente acorda cedo demais. Elogo que acorda não há remédio senão levantar-se, porque o chão é duro e incômodo. A situaçãoainda piora se para a primeira refeição só houvermaçãs, e se o jantar da véspera tiver consistidojustamente em maçãs. Depois de Lúcia ter dito –com toda a razão – que fazia uma magníficamanhã, ninguém encontrou mais nada agradávelpara dizer. Edmundo exprimiu o que todossentiam: – Temos de deixar a ilha!___________________________________ 36C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  37. 37. Após beberem água do poço e lavarem orosto, seguiram o riacho até a praia e começarama olhar o canal que os separava do continente. – Vamos ter de atravessar a nado – falouEdmundo. – É fácil para Su – disse Pedro. (Susanaganhara prêmios de natação no colégio.) – Para osoutros, não sei, não. Por “outros” ele queria dizer Edmundo, quemal conseguia dar duas braçadas, e Lúcia, quemal se agüentava à tona. – Seja como for – observou Susana – , émuito possível que haja correntes aqui. Papai vivedizendo que a gente não deve nadar em lugaresdesconhecidos. – Escute, Pedro – disse Lúcia – , sei quepareço um prego nadando, no colégio; mas não selembra de que todos nós nadávamos muito bem___________________________________ 37C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  38. 38. há muito tempo... se é que foi há muito tempo...quando éramos reis e rainhas em Nárnia?Também montávamos muito bem e fazíamos umaporção de coisas. Você não acha que... – Ora – replicou Pedro – , naquele tempoéramos pessoas grandes. Reinamos durante anos eanos e aprendemos a fazer tudo. Mas agoraestamos com a nossa verdadeira idade. – Oh! – exclamou Edmundo, num tom devoz que obrigou todos a prestarem atenção. – Jáentendi tudo! – Entendeu o quê? – perguntou Pedro. – Tudo! Ontem à noite estávamosintrigados porque saímos de Nárnia há apenas umano, mas Cair Paravel parece desabitado háséculos. Não se lembra? Embora tenhamospassado muito tempo em Nárnia, quandoretornamos pelo guarda-roupa parecia que nãohavia passado tempo algum. É ou não é?___________________________________ 38C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  39. 39. – Continue – disse Susana – , acho queestou começando a compreender. – Isso quer dizer – prosseguiu Edmundo –que quando se está fora de Nárnia a gente perdetoda a noção de como o tempo passa aqui. Porque então havemos de achar impossível que emNárnia tenham passado centenas de anos,enquanto para nós passou apenas um? – Puxa vida! – exclamou Pedro. – Achoque você tem razão. Vendo as coisas desse jeito,já se passaram mesmo séculos desde quereinamos em Cair Paravel! Agora, voltamos aNárnia como se fôssemos cruzados, ou anglo-saxões, ou antigos bretões, ou alguém de regressoà Inglaterra dos tempos modernos! – Todos vão ficar emocionados ao nosver... – começou Lúcia, quando foi interrompidapor alguém: – Silêncio! Olhem ali! Estava acontecendo alguma coisa.___________________________________ 39C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  40. 40. Na terra firme, um pouco à direita, haviauma floresta; todos tinham certeza de que a foz dorio ficava além dela. Agora, torneando aquelaponta, surgira um barco. Passou, deu meia-volta ecomeçou a avançar ao longo do canal na direçãodeles. Um homem remava e um outro estavasentado no leme com um embrulho na mão, umembrulho que se torcia e contorcia como seestivesse vivo. Os homens pareciam soldados. Usavamcapacetes de aço e leves cotas de malha. Ambostinham barba e a expressão severa. As criançasfugiram da praia e se esconderam no mato, ondeficaram imóveis, à espreita. – Aqui está bom! – disse o soldado doleme, quando o barco parou em frente deles. – Não seria bom amarrar uma pedra nos pésdele, cabo? – sugeriu o outro, descansando osremos. – Besteira! – grunhiu o primeiro. – Alémdisso, não trouxemos pedra. De qualquer jeito,___________________________________ 40C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  41. 41. com pedra ou sem pedra, ele vai se afogar, pois ascordas estão bem amarradas. Levantou-se e ergueu o fardo. Pedropercebeu que era mesmo uma coisa viva: umanão, de pés e mãos amarrados, que tentava comtoda a força libertar-se. Ouviu-se qualquer coisasibilando. O soldado levantou os braços,deixando o anão cair no fundo do barco, e tomboudentro da água. Então, nadou desesperadamentepara a margem oposta: a seta de Susana acertara-lhe o elmo. Pedro voltou-se e viu Susana muitopálida, mas senhora de si, preparando umasegunda seta, que não chegou a atirar. Porque,assim que o outro soldado viu cair ocompanheiro, soltou um grito e atirou-se na água,e desajeitadamente chegou ao outro lado,desaparecendo entre os arbustos. – Depressa! Antes que ele seja arrastadopela corrente! – gritou Pedro. Susana e ele, tal qual estavam,mergulharam e, antes que a água lhes chegasse___________________________________ 41C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  42. 42. aos ombros, agarraram o barco. Em pouco tempo,tinham arrastado o anão para a margem, eEdmundo pôs-se ativamente a cortar as cordascom o canivete. Quando por fim o anão se viulivre, sentou-se, esfregou os braços e as pernas eexclamou: – Digam o que disserem, vocês nãoparecem fantasmas! Como quase todos os anões, era muitoatarracado e peitudo. De pé, devia ter cerca de ummetro de altura; usava uma barba imensa e suíçasde cabelos ruivos e rebeldes, que lhe encobriamquase todo o rosto, deixando apenas à vista umnariz que mais parecia um bico e os negrosolhinhos cintilantes. – Seja como for – continuou ele – ,fantasmas ou não, vocês me salvaram a vida.Muito obrigado. – E por que haveríamos de ser fantasmas? –perguntou Lúcia.___________________________________ 42C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  43. 43. – A vida toda me disseram que nestesbosques ao longo da costa havia mais fantasmasdo que árvores. É o que reza a lenda. Por isso,sempre que desejam eliminar alguém, é para cáque o trazem, como fizeram comigo. Queriamentregar-me aos fantasmas. Por mim, semprepensei que iriam me cortar o pescoço ou afogar-me. Nunca acreditei muito em fantasmas. Masaqueles valentões que vocês alvejaramacreditavam. Tinham mais medo do que eu. – Ah! – exclamou Susana. – Foi por issoentão que fugiram! – O quê?! – disse o anão. – Fugiram – confirmou Edmundo – ,fugiram para a terra. – Não atirei para matar – falou Susana. Ela não queria que pensassem que pudesseerrar o alvo a uma distância tão pequena. O anãoresmungou:___________________________________ 43C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  44. 44. – Hum! Isso é mau. Pode trazer futurascomplicações. A não ser que eles fiquem de bicocalado para salvarem a pele. – Por que queriam afogá-lo? – perguntouPedro. -Porque sou um terrível criminoso, semdúvida alguma – disse o anão, alegremente. –Mas isso é uma história comprida. Neste instantesó estou pensando se vocês me convidariam paracomer alguma coisa. Não fazem idéia do apetiteque dá ser condenado à morte. – Só temos maçãs – lamentou-se Lúcia. – E melhor do que nada, mas peixe fresco éainda melhor – disse o anão. – No fim, parece quevocês é que serão meus convidados. Vi no barcocaniços de pesca. Aliás, o barco tem de ser levadopara o outro lado da ilha: não convém que aspessoas do continente apareçam por aqui e dêemcom ele. – Eu já devia ter pensado nisso! – falou___________________________________ 44C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  45. 45. Pedro. Acompanhadas pelo anão, as quatrocrianças entraram no barco. O anão assumiuimediatamente o comando das operações. Comoos remos eram grandes demais para ele, Pedroremou, e o anão foi conduzindo o barco para onorte, ao longo do canal, virando depois paraleste e contornando o extremo da ilha. Daí via-setodo o curso do rio, todas as baías e cabos dacosta. Pareceu-lhes que alguns lugares não lheseram estranhos, mas a floresta, que cresceramuito, dava a tudo um ar diferente. Quandochegaram ao mar alto, o anão começou a pescar.Apanharam uma grande quantidade de trutascoloridas, um peixe muito bonito, que selembravam de já terem comido em Cair Paravel. Depois, levaram o barco para uma angra,onde o amarraram. O anão, que era muitoeficiente (existem anões maus, é verdade, masnão conheço nenhum que seja bobo), abriu ospeixes, limpou-os e disse: – Só nos falta a lenha.___________________________________ 45C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  46. 46. – Temos alguma no castelo – falouEdmundo. O anão pôs-se a assoviar baixinho. – Com trinta diabos! Quer dizer que existemesmo um castelo? – Só as ruínas – informou Lúcia. O anão olhou para todos os lados com umaexpressão esquisita. – E quem é que... – mas não terminou afrase, dizendo: – Não interessa. Vamos primeiro àcomida. Só quero que me digam uma coisa: vocêsjuram mesmo que ainda estou vivo? Têm certezade que não morri afogado? Sabem mesmo se nãosomos todos fantasmas? Depois de o terem tranqüilizado, oproblema era saber qual a melhor maneira delevar o peixe. Não tinham cesto nem corda para oprenderem. Acabaram utilizando o chapéu deEdmundo, pois só ele tinha chapéu. Claro queEdmundo teria ficado uma fera se não estivessecaindo de fome.___________________________________ 46C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  47. 47. O anão, a princípio, não se sentiu muitobem no castelo. Olhava para todos os cantos,fungava e dizia: – Hum! Tem um ar esquisito. E cheira afantasma. Mas, quando chegou a vez de acender ofogo e de mostrar como se assam trutas frescas,animou-se. Comer peixe tirado da brasa com umcanivete, para cinco pessoas, não é mole; por isso,quando a refeição acabou, não é de admirar quehouvesse alguns dedos queimados. Mas, comoeram nove horas e estavam acordados desde ascinco, ninguém ligou muito para as queimaduras.Depois de arrematarem com um gole de água dopoço e uma maçã, o anão tirou do bolso umcachimbo do tamanho do seu braço, encheu-ocom cuidado e, soprando uma grande baforada defumo aromático, disse apenas: – Muito bem!___________________________________ 47C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  48. 48. – Conte-nos primeiro a sua história –propôs Pedro. – Depois lhe contaremos a nossa. – Como foram vocês que me salvaram avida, é justo que lhes faça a vontade. Mas nem seipor onde começar. Antes de tudo, tenho deconfessar que sou um mensageiro do rei Caspian. – De quem? – perguntaram os quatro aomesmo tempo. – De Caspian X, rei de Nárnia (longo seja oseu reinado!). Isto é, ele é que devia ser rei deNárnia, e esperamos que ainda venha a ser umdia. Por enquanto, é apenas o nosso rei, o rei dosantigos narnianos... – Por favor – disse Lúcia – quem são osantigos narnianos? – Somos nós, é claro – respondeu o anão. –Somos uma espécie de rebeldes.___________________________________ 48C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  49. 49. – Já estou começando a entender – falouPedro. – Então Caspian é o chefe dos antigosnarnianos? – Sim, de certa forma – respondeu o anão,cocando a cabeça, meio atrapalhado. – Se bemque ele seja, na verdade, um dos novos narnianos,um telmarino, não sei se me compreendem. – Não entendo patavina! – disse Edmundo. – Isto é mais complicado que a história daInglaterra – declarou Lúcia. – Que espeto! – exclamou o anão. – Eu éque não soube me explicar direito. Prestematenção. Acho que, no fim das contas, é melhorrecuar até o princípio da história para contar-lhescomo Caspian cresceu na corte do tio e comoagora passou para o nosso lado. Mas é uma longahistória. – Melhor! – gritou Lúcia. – Adoramoshistórias! Foi assim que o anão se ajeitou paracontar a sua história. Não irei contá-la para você___________________________________ 49C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  50. 50. com as palavras dele, nem com as perguntas dascrianças, porque seria uma confusão danada, esem fim. Mas o principal da história é oseguinte...___________________________________ 50C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  51. 51. 4 O ANÃO CONTA A HISTÓRIA DO PRÍNCIPE CASPIAN O príncipe Caspian vivia num grandecastelo no centro de Nárnia, com seu tio Miraz,rei de Nárnia, e sua tia, que tinha cabelo ruivo ese chamava Prunaprismia. Seu pai e sua mãetinham morrido, e não havia ninguém queCaspian estimasse tanto quanto a sua velha ama.Embora fosse príncipe e tivesse belíssimosbrinquedos, o seu momento preferido era aqueleem que, depois de arrumados os brinquedos, aama começava a contar-lhe histórias. Caspian não gostava dos tios, mas, uma ou___________________________________ 51C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  52. 52. duas vezes por semana, o tio mandava chamá-lo eos dois passeavam durante meia hora, no terraçodo castelo. Um dia, enquanto passeavam, o rei lhedisse: – Já é tempo de você aprender a montar e amanejar a espada. Sabe que sua tia e eu não temosfilhos, de modo que, quando eu me for, vocêprovavelmente será rei. Não gostaria disso? – Não sei, titio – respondeu Caspian, – Não sabe como? O que você podia quererde melhor? – Bem... é que eu gostaria... – Gostaria de quê?! – Gostaria... gostaria de ter vivido nosvelhos tempos – disse Caspian, que ainda nãopassava de um garotinho. Até aí, o Rei Miraz tinha falado naqueletom de voz indiferente que certos adultos___________________________________ 52C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  53. 53. costumam usar e que mostra que não têm omínimo interesse no que lhe estão dizendo. Masnesse instante, de repente, fitou Caspian commuita atenção. – O quê?! De que velhos tempos estáfalando? – Titio não sabe? Dos tempos em que tudoera diferente. Em que os animais falavam, em queas fontes e as árvores eram habitadas por bonitascriaturas, chamadas náiades e dríades. E haviatambém anões, e os bosques estavam povoados depequeninos faunos, que tinham patas iguais àsdos bodes, e... – Conversa! – interrompeu o tio. –Conversa para tapear criança. Você já está grandedemais para isso. Na sua idade, devia estarpensando em batalhas e aventuras, e não emcontos da carochinha. – Mas naquele tempo também haviabatalhas e aventuras. Maravilhosas aventuras!Houve até uma Feiticeira Branca, que pretendia___________________________________ 53C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  54. 54. ser rainha de Nárnia. Era tão má que, enquantoela reinou, foi sempre inverno. Vieram então, nãosei de onde, dois meninos e duas meninas, quemataram a feiticeira e foram coroados reis erainhas. Eram Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia.Reinaram durante muito tempo, e todos forammuito felizes... e tudo isso foi por causa deAslam... – Quem é esse Aslam? – indagou Miraz. Se Caspian fosse um pouco maisexperiente, teria percebido, pelo tom de voz dotio, que o melhor era calar-se. Mas continuou: – Não sabe? Aslam é o Grande Leão, quevem de além-mar. – Quem andou botando essas bobagens nasua cabeça? – a voz do rei era ameaçadora.Caspian teve medo e não respondeu. – Nobre príncipe – insistiu Miraz, largandoa mão de Caspian – , exijo que me responda. Olhenos meus olhos e diga-me quem tem lhe contado___________________________________ 54C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  55. 55. essas refinadas mentiras. – Foi... foi a ama – gaguejou Caspian,desandando a chorar. – Acabe imediatamente com isso! –ordenou o tio, agarrando-o pelos ombros esacudindo-o com força. – Já falei! E não mevenha de novo com essas tolices. Esses reis erainhas nunca existiram. Onde é que você já viudois reis ao mesmo tempo? Aslam é purainvencionice. Não há leão nenhum, fiquesabendo! E os animais nunca falaram!Compreendeu? – Compreendi – soluçou Caspian. – E, agora, ponto final nesta conversa. O rei chamou um lacaio e ordenoufriamente: – Leve Sua Alteza aos seus aposentos ediga à ama que compareça aqui imediatamente!___________________________________ 55C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  56. 56. Só no dia seguinte Caspian percebeu o quetinha feito, ao descobrir que a ama fora despedidasem poder sequer dizer-lhe adeus. Foi informado,então, que iria ter um preceptor. Sentiu muita falta da ama e derramoumuitas lágrimas de saudade. Muito infeliz, voltoua pensar nas velhas histórias de Nárnia, aindamais do que antes. Todas as noites sonhava comanões e dríades, e tentava desesperadamente fazercom que os gatos e cães do castelo falassem comele. Mas só conseguia que os gatos rosnassem eque os cães sacudissem a cauda. Caspian tinha certeza de que ia detestar opreceptor; mas quando este apareceu, passadauma semana, viu que era uma dessas pessoas aquem é impossível querer mal. Nunca tinha vistoum homem tão baixo e tão gordo. Usava umabarba pontuda e prateada, que lhe descia até acintura; o rosto, moreno e enrugado, era muitofeio, mas ao mesmo tempo muito bondoso einteligente. Sua voz era grave, mas ele tinha olhostão alegres que só quem o conhecesse bem podia___________________________________ 56C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  57. 57. dizer quando ele estava brincando ou falando asério. Seu nome era doutor Cornelius. De todas as aulas que tinha com o doutorCornelius, aquela de que Caspian mais gostavaera História. Tirando as histórias que a ama lhecontara, nada sabia até então da história deNárnia. Foi assim com grande espanto queaprendeu que só recentemente a família real seinstalara no país. – Foi um antepassado de Vossa Alteza,Caspian I, que conquistou Nárnia e fez dela o seureino – disse o doutor Cornelius. – Foi ele quemtrouxe a sua gente para cá. Porque vocês não sãonarnianos de origem, mas telmarinos. Vieramtodos de Teimar, para lá das MontanhasOcidentais. Por isso, Caspian I é chamado deCaspian, o Conquistador. – Mas, doutor Cornelius, quem vivia emNárnia antes que viéssemos de Teimar?___________________________________ 57C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  58. 58. – Antes da conquista dos telmarinos nãohavia homens em Nárnia... ou melhor, haviapoucos. – O que, então, o meu antepassado venceu? – O que não, Alteza, quem – corrigiu opreceptor. – Acho que está na hora de deixarmosa História e passarmos à gramática. – Ainda não, por favor. Só queria saber sehouve alguma batalha, e por que é que chamamCaspian de Conquistador, se não havia ninguémcom quem lutar? – Eu falei que havia poucos “homens” emNárnia – disse o doutor Cornelius, olhando de ummodo muito estranho para o jovem príncipe. Durante um momento, Caspian nãopercebeu nada, mas de repente teve umsobressalto. – Quer dizer que havia outras coisas? –perguntou, ansiosamente. – Quer dizer que era___________________________________ 58C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  59. 59. mesmo como nas histórias? Havia...? – Psiu! Nem mais uma palavra! –interrompeu-o doutor Cornelius. – Já esqueceuque a ama foi despedida por falar da antigaNárnia? O rei não gosta dessa conversa. Se meapanha revelando-lhe segredos, dá-lhe uma surrade chicote e corta a minha cabeça. – Mas por quê?! – indagou Caspian. – Vamos à gramática – disse o doutorCornelius, voltando a falar alto. – Queira VossaAlteza abrir na página 4 do seu Jardimgramatical ou Árvore morfológicaaprazivelmente ao alcance de talentos jovens. A partir desse momento, só falaram deverbos e substantivos até a hora do almoço; masacho que Caspian não aprendeu muito. Estavamuito nervoso. Tinha certeza de que o doutorCornelius não lhe teria dito tanta coisa, caso nãotivesse a intenção de dizer-lhe outras, mais cedoou mais tarde.___________________________________ 59C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  60. 60. Não se enganou. Dias depois, o preceptordisse-lhe: – Esta noite vou dar-lhe uma lição deastronomia. Tarde da noite, dois nobres planetas,Tarva e Alambil, vão cruzar-se a menos de umgrau um do outro. Há mais de dois séculos quenão se observa essa conjunção, e Vossa Altezanão viverá para vê-la novamente. É melhor que vádeitar-se um pouco mais cedo; quando seaproximar o momento, irei acordá-lo. Isso não tinha nada a ver com a antigaNárnia, que era o que interessava a Caspian, mas,de qualquer forma, levantar-se no meio da noite ésempre uma aventura, e ele ficou contente. Quando sentiu que o sacudiam de leve,achou que tinha dormido apenas alguns minutos.Sentou-se na cama e viu que o luar invadia oquarto. Doutor Cornelius, envolto num mantocom capuz e segurando uma lamparina, estava aopé da cama. Caspian lembrou-se logo do quetinham combinado. Levantou-se e vestiu-se.___________________________________ 60C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  61. 61. Embora fosse verão, a noite estava mais fria doque esperava. Mais satisfeito ficou quando opreceptor o envolveu numa capa igual à sua e lheentregou um par de chinelos quentes e macios. Assim vestidos, dificilmente seriamreconhecidos nos corredores escuros. Sem fazerbarulho, aluno e mestre saíram do quarto. Passaram por muitos corredores, subiramvárias escadas, até que, entrando por umaportinha que dava para um torreão, chegaram aoar livre. Lá embaixo, cheios de sombra oureflexos, estendiam-se os jardins do castelo,enquanto no alto brilhavam a lua e as estrelas.Chegaram enfim à porta que dava para a grandetorre central. Caspian estava cada vez maisexcitado, pois nunca lhe fora permitido subiraquela escada. Era íngreme e comprida, mas,quando chegou ao terraço da torre, recobrou oalento. Valera a pena. À direita, muito ao longe,divisavam-se as Montanhas Ocidentais. Àesquerda, rebrilhava o Grande Rio. Tudo estavatão calmo, que se ouvia o rugir da água no Dique___________________________________ 61C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  62. 62. dos Castores, a um quilômetro de distância. Nãotiveram dificuldade em localizar as duas estrelas.Estavam muito baixas na linha do horizonte, aosul, pertinho uma da outra, e brilhavam comoduas luzinhas. – Vão bater? – perguntou Caspian, receoso. – Não, meu príncipe – disse o doutor,baixinho. – Os grandes senhores do céu superiorconhecem muito bem os passos de sua dança.Olhe bem para elas. Seu encontro é auspicioso eindica que um grande bem vai acontecer ao tristereino de Nárnia. Tarva, o Senhor da Vitória,saúda Alambil, a senhora da Paz. Estão chegandoao ponto máximo de aproximação. – Que pena aquela árvore estar na frente! –disse Caspian. – Veríamos muito melhor da torreocidental, embora não seja tão alta. Por uns momentos, o doutor Cornelius, deolhos fixos em Tarva e Alambil, ficou emsilêncio. Respirou fundo e voltou-se paraCaspian:___________________________________ 62C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  63. 63. – Acaba de ver o que nenhum homem hojevivo jamais viu ou verá. Tem razão: teríamosvisto ainda melhor da outra torre. Mas tive ummotivo para trazê-lo aqui. O aluno levantou os olhos, mas o mestretinha o rosto quase todo encoberto pelo capuz. Odoutor continuou: – A vantagem desta torre é que temos seissalas vazias abaixo de nós e uma longa escada;além do mais, a porta ao fundo está fechada àchave. Ninguém poderá ouvir-nos. – Vai então dizer-me o que não quis dizeroutro dia? – perguntou Caspian. – Vou, mas não se esqueça de uma coisa:só aqui, no alto da Grande Torre, poderemos falardesse assunto. Promete? – Prometo – disse Caspian. – Mas, porfavor, continue. – Preste atenção: tudo o que lhe disseram___________________________________ 63C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  64. 64. sobre a antiga Nárnia é verdade. Nárnia não é aterra dos homens. É a terra de Aslam, das árvoresdespertas, das náiades visíveis, dos faunos, dossátiros, dos anões e dos gigantes, dos centauros edos animais falantes. Foi contra eles que lutouCaspian I. Foram vocês, os telmarinos, quecalaram os animais, as árvores e as fontes; quemataram e expulsaram os anões e os faunos; sãovocês que pretendem agora desfazer até alembrança do que existiu. O rei não consentesequer que se fale deles. – Desejaria que não tivéssemos feito nadadisso! – disse Caspian. – Mas estou muito felizpor saber que tudo é verdade, ainda que tudotenha acabado. – Muitos de sua raça desejam a mesmacoisa, em segredo. – Mas, doutor, por que me diz a sua raça?Você não é também um telmarino? – Pareço um telmarino?___________________________________ 64C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  65. 65. – De qualquer modo, você é um homem. – Acha que sou? – insistiu o doutor, numavoz mais grave, ao mesmo tempo que deixava cairo capuz, descobrindo o rosto iluminado pelo luar. Caspian compreendeu de súbito a verdade,espantado de não ter descoberto isso mais cedo. Odoutor Cornelius era tão baixinho, tão gordo, etinha uma barba tão comprida! Dois pensamentoslhe acudiram. Um de medo: “Não é um homem, éum anão e trouxe-me até aqui para me matar.” Ooutro foi de grande contentamento: “Afinal, aindahá anões, e vi um deles com os meus própriosolhos.” – Adivinhou – disse o doutor. – Ou quase.Não sou um anão puro, pois parte do meu sangueé humano. Muitos anões escaparam, depois dasgrandes batalhas, e continuaram a viver, cortandoa barba, usando sapatos de tacão alto, fazendo-sepassar por homens. A raça misturou-se com a dostelmarinos. Sou um desses meio-anões; se algumdos meus parentes, algum anão verdadeiro, ainda___________________________________ 65C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  66. 66. vivesse em qualquer parte do mundo, iriadesprezar-me como traidor. No entanto, ao longode todos estes anos, nunca esquecemos a nossagente, nem qualquer das outras felizes criaturasde Nárnia, nem os tempos de liberdade há muitoperdidos. – Sinto muito, doutor – disse Caspian – ,sabe que não foi minha culpa... – Não estou dizendo essas coisas paracensurá-lo, estimado príncipe. Há de perguntarpor que as digo. Pois muito bem! Por doismotivos. Primeiro: porque o meu velho coraçãoestá cansado de guardar esses segredos. Segundo:para que um dia, quando o meu príncipe for rei,possa ajudar-nos, pois sei que, embora telmarino,tem amor às coisas do passado. – E é verdade – assentiu Caspian. – Mascomo poderei ajudá-los? – Você pode ser bom para aqueles que,como eu, ainda restam da raça dos anões. Podereunir à sua volta sábios e magos e procurar os___________________________________ 66C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  67. 67. meios de reanimar as árvores. Pode vasculhartodos os esconderijos e lugares inóspitos, ondetalvez ainda vivam faunos e animais falantes. – Acha que ainda existem alguns? –perguntou Caspian ansiosamente. – Não sei... não sei – disse o doutor, comum suspiro fundo. – Às vezes chego a recear quenão haja mais nenhum. Passei a vida procurandoos vestígios deles. Já me aconteceu julgar ouvirum batuque de anões nas montanhas. Por vezes,nos bosques, pareceu-me vislumbrar faunos esátiros dançando. Mas, sempre que chegava aolocal onde julgava tê-los visto, não encontravanada. Muitas vezes perdi a esperança, mas sempreacontece algo que nos faz ter esperança de novo.Não sei... Mas você pode, pelo menos, procurarser um rei como o Grande Rei Pedro dos temposantigos, em vez de seguir o exemplo de seu tio. – Quer dizer que é verdade o que dizem dosreis e rainhas e da Feiticeira Branca? – Claro que é. O seu reinado foi a Idade de___________________________________ 67C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  68. 68. Ouro de Nárnia, e o país nunca o esqueceu. – Eles viveram neste castelo, doutor? – Não, meu caro príncipe. Este castelo érecente. Foi o seu bisavô que mandou construí-lo.Quando os dois filhos de Adão e as duas filhas deEva foram coroados, pelo próprio Aslam, reis erainhas de Nárnia, viveram no castelo de CairParavel. Nenhum ser vivo jamais contemplou esselugar abençoado, e é possível que as própriasruínas tenham desaparecido. Parece que ficavamuito longe daqui, na foz do Grande Rio, à beira-mar. – Ufa! – exclamou Caspian, com umarrepio. – Nos Bosques Negros? Onde... ondevivem os fantasmas? – O príncipe fala de acordo com o que lheensinaram. Mas tudo isso é mentira. Não háfantasmas lá; isso é invenção dos telmarinos. Osmonarcas de sua raça têm pavor do mar, porquenão podem esquecer que, em todas as histórias,Aslam veio de além-mar. Não se aproximam dele,___________________________________ 68C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  69. 69. nem querem que ninguém se aproxime. Por issodeixam crescer as florestas que os separam dacosta. E porque brigaram com as árvores têmmedo dos bosques. E, porque têm medo dosbosques, acham que estes são povoados defantasmas. E são os próprios reis que, odiando omar, acreditam em parte nessas histórias e levamos outros a acreditar. Sentem-se mais segurossabendo que ninguém em Nárnia ousa aproximar-se da costa e olhar o mar... olhar para o país deAslam, para o nascente... Houve um silêncio profundo. Então, doutorCornelius disse: – Vamos. Já ficamos aqui muito tempo. Éhora de voltar a dormir. – Já?! – protestou Caspian. – Podia ficarhoras e horas falando dessas coisas. – Podem começar a procurar-nos... –explicou o doutor.___________________________________ 69C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  70. 70. 5 AS AVENTURAS DE CASPIAN NAS MONTANHAS Caspian e o preceptor conversaram muitasvezes a sós no alto da Grande Torre, e o primeirofoi aprendendo muitas coisas acerca da antigaNárnia. Ocupava quase todas as suas horas livres(que não eram muitas) sonhando com os velhostempos, desejando que eles voltassem. Suaeducação agora começara a sério. Aprendeuesgrima e natação, a montar, a atirar, a tocarflauta, a caçar veados e esquartejá-los paraaproveitar-lhes a carne, além de estudarcosmografia, direito, física, alquimia eastronomia. Das artes mágicas aprendeu apenas ateoria porque, segundo o doutor Cornelius, a___________________________________ 70C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  71. 71. prática não era estudo próprio para um príncipe. – Eu mesmo – disse-lhe certa vez o doutor– sei muito pouco de magia; as experiências quefaço não têm a menor importância. De navegação (uma nobre e heróica arte,dizia o doutor) não aprendeu nada, porque o reiMiraz não gostava do mar e odiava os navios. Caspian também aprendeu muito por simesmo, a partir do que via e ouvia. Quandopequenino, não sabia explicar por que nãogostava da tia, a rainha Prunaprismia. Agoracompreendia: é que também ela não gostava dele.Ele também começou a ver que Nárnia era umpaís triste, com impostos excessivamente pesados,leis muito severas e um rei cruel. Passado algum tempo, a rainha adoeceu, ehouve grande movimento no castelo. Os médicosiam e vinham, e os cortesãos falavam em vozbaixa. Foi no começo do verão. Uma noite, nomeio de toda essa agitação, Caspian, que sedeitara havia poucas horas, foi de repente___________________________________ 71C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  72. 72. acordado pelo doutor Cornelius. – Astronomia, doutor? – perguntou ele. – Psiu! Confie em mim e faça exatamente oque lhe disser: agasalhe-se bem, pois tem umalonga viagem à sua frente. Caspian ficou muito surpreso, masaprendera a ter confiança em seu preceptor eobedeceu sem demora. Quando acabou de sevestir, o doutor lhe disse: – Trouxe-lhe um saco. Vamos colocar neletoda a comida que pudermos encontrar sobre amesa. – Mas os camareiros estão na sala! – Dormem a sono solto e não acordarão tãocedo. Sou um mago sem grandes poderes, mas osque tenho ainda chegam para provocar um sonoencantado. De fato, os camareiros ressonavam alto,___________________________________ 72C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  73. 73. estendidos nas cadeiras. Sem perda de tempo, odoutor Cornelius cortou o que sobrara do frango,pegou algumas fatias de carne de veado, pão,maçã e uma garrafinha de vinho bom, colocandotudo dentro do saco, que entregou a Caspian. – Trouxe a sua espada? – perguntou odoutor. – Trouxe – respondeu Caspian. – Vista este manto e cubra também com eleo saco e a espada. Isso! Agora vamos à GrandeTorre, pois precisamos conversar. Quando chegaram ao alto da torre (era umanoite enevoada), o doutor Cornelius lhe disse: – Nobre príncipe, tem de abandonarimediatamente o castelo e tentar a sorte por estevasto mundo. Sua vida aqui corre perigo. – Por quê? – indagou Caspian. – Porque você é o verdadeiro rei de Nárnia:___________________________________ 73C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  74. 74. Caspian X, filho e herdeiro de Caspian IX. Vidalonga para o rei! – E, de repente, para grandeespanto de Caspian, o preceptor ajoelhou-se ebeijou-lhe a mão. – O que é isso? Não estou entendendonada... – O que me espanta – disse o doutor – évocê nunca ter perguntado por que, sendo filho dorei Caspian, não era você mesmo o rei. Todos,menos você, sabem que Miraz é um usurpador.Quando começou a governar, não teve a coragemde apresentar-se como rei: intitulou-se apenaspríncipe regente. Mas então sua mãe faleceu, elaque fora tão boa rainha, a única telmarina que metratou bem. Um após outro, todos os nobres quetinham conhecido o seu pai foram morrendo edesaparecendo. Belisar e Uvilas foram atingidospor setas durante uma caçada: mero acidente,como se divulgou. A grande família dosPassáridas foi para o Norte lutar com os gigantese por lá desapareceu. Arlian e Erimon foramcondenados por alta traição, sem sequer serem___________________________________ 74C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  75. 75. julgados. Os dois irmãos do Dique dos Castoresforam trancafiados como loucos. E, para terminar,Miraz convenceu sete nobres de que, entre todosos telmarinos, eram os únicos que não temiam omar, e deviam partir para o Oceano Oriental, embusca de novas terras. Nunca mais voltaram, éclaro. Quando já não havia quem pudessedefender o meu príncipe, os bajuladores pediram-lhe que se deixasse coroar rei: e ele concordou,naturalmente. – E ele quer me matar também? –perguntou Caspian. – Sem dúvida alguma. – Mas por quê?... Por que não me matou hámais tempo? Que mal eu fiz? – Míraz mudou de opinião a seu respeito,em virtude do que aconteceu há apenas duashoras. A rainha acaba de dar à luz um filho. – O que uma coisa tem a ver com a outra?___________________________________ 75C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  76. 76. – Não entendeu?! Então, que proveito tiroudas minhas lições de história e de política? Ouça:enquanto o rei não tinha filhos, estava disposto adeixar que você fosse rei quando ele morresse.Mesmo sem ter por você grande amizade, preferiaque o trono fosse seu, e não de um estranho. Masagora, que tem um filho, quer fazer dele oherdeiro. Você passou a ser um empecilho, e elefará tudo para afastá-lo do caminho. – Ele é tão ruim assim? Será mesmo capazde me matar? – Matou também o seu pai – disse doutorCornelius. Caspian sentiu-se mal e calou-se. – Um dia poderei contar-lhe essa história –continuou o doutor – , mas não agora. Não temostempo a perder. Você tem de fugir imediatamente. – Vem comigo? – perguntou Caspian. – Não. Seria muito arriscado. É mais fácil___________________________________ 76C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  77. 77. seguir dois do que um, caro príncipe. Nobre reiCaspian, chegou a hora da coragem. Você tem departir só e imediatamente. Veja se consegueatravessar a fronteira do Sul para chegar à cortede Naim, rei da Arquelândia. Ele poderá ajudá-lo. – Nunca mais nos veremos? – perguntouCaspian, com a voz trêmula. – Espero que sim, nobre rei – respondeu odoutor. – Pois não é você o único amigo com queposso contar? Tenho as minhas artes mágicas...Mas, por ora, o importante é ganhar tempo. Aquiestão dois presentes. Esta bolsinha de ouro... bempouco, é certo, quando todos os tesouros docastelo pertencem a você, de direito. E aqui estáoutra coisa mais valiosa. Passou às mãos de Caspian um objeto queele mal distinguiu, mas que, pelo tato, percebeuque era uma trompa. – É o mais sagrado tesouro de Nárnia –disse doutor Cornelius. – Quando era jovem,passei por muita coisa e proferi muitas palavras___________________________________ 77C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  78. 78. mágicas, na esperança de encontrar a trompa quepertenceu à rainha Susana. Ficou aqui quando eladesapareceu de Nárnia, ao findar a Idade de Ouro.Quem quer que a toque, receberá um estranho, ummisterioso auxílio – que ninguém sabe dizer.Pode ser que tenha o poder de trazer do passado arainha Lúcia e o rei Edmundo, a rainha Susana e oGrande Rei Pedro, para restaurar a ordem naturaldas coisas. Pode ser que tenha o poder de invocaro próprio Aslam. Fique com ela... mas só a utilizequando estiver em grande dificuldade. Depressa!A portinha que dá para o jardim está aberta. É láque nos separamos. – Posso levar Destro, meu cavalo? – Já está selado, à sua espera, no alto dopomar. Enquanto desciam a longa escada emcaracol, o doutor Cornelius, muito baixinho, foidando instruções e conselhos. Caspian sentiu quelhe faltava a coragem, mas procurou não esquecernada. Uma rajada de ar fresco no jardim, um___________________________________ 78C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  79. 79. caloroso aperto de mão do doutor, o relincharalegre de Destro – e assim Caspian X deixou opalácio de seus pais. Ao olhar para trás, viu os fogos de artifíciocom que se festejava o nascimento do novopríncipe. Cavalgou à toda para o Sul, atravessando afloresta por veredas e atalhos enquanto ainda seencontrava em terreno conhecido. Preferiu depoisa estrada principal. A viagem inesperada excitaratanto o cavalo quanto o dono. Caspian, que sedespedira do doutor com lágrimas nos olhos,sentia-se agora cheio de coragem e, até certoponto, feliz, ao pensar que era o rei correndorumo à aventura, espada à cinta, levando consigoa trompa mágica da rainha Susana. Quando,porém, o dia começou a clarear, acompanhado dechuviscos, e ele olhou em torno e viu apenasbosques desconhecidos, regiões áridas emontanhas azuis, o mundo pareceu-lhe imenso emisterioso, e ele sentiu-se pequenino e assustado.___________________________________ 79C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  80. 80. Assim que o dia clareou de todo, deixou aestrada e encontrou uma clareira relvada, ondepodia descansar. Tirou a sela de Destro para queeste pastasse à vontade, comeu um pouco defrango, bebeu um pouco de vinho e adormeceu. Atarde já ia alta quando acordou. Comeu mais umpouco e recomeçou a viagem. Ao anoitecer, achuva caía em bátegas. Os trovões enchiam o ar, eDestro começou a ficar nervoso. Entraram por umimenso pinhal, e Caspian lembrou-se das muitashistórias que ouvira sobre as árvores, inimigas dohomem. Afinal (pensou) ele era um telmarino,pertencia à raça que derruba árvores e estava emguerra aberta com todas as coisas selvagens.Ainda que fosse diferente dos outros telmarinos,as árvores não podiam saber de nada. E não sabiam mesmo. O vento viroutempestade, e as árvores rugiam e estalavam nocaminho. Houve então um grande estrondo, e umaárvore caiu atravessando a estrada assim que elespassaram. – Calma, Destro, calma! – repetia Caspian,___________________________________ 80C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  81. 81. acariciando a cabeça do cavalo. Mas ele mesmoestava trêmulo, sabendo que escapara à morte porum triz. Os relâmpagos faiscavam, e o ribombardos trovões parecia despedaçar o céu. Destrocorria em disparada; Caspian, ainda que bomcavaleiro, não tinha força para dominá-lo. A custoconseguia manter-se na sela, certo de que suavida estava presa por um fio naquela loucacavalgada. Eis que, de súbito, quase sem tertempo para sentir a dor, alguma coisa lhe bateu nafronte e ele perdeu os sentidos. Quando voltou a si, Caspian estava deitadoperto de uma fogueira, sentindo uma horrível dorde cabeça. Ouviu falar baixinho: – Temos de resolver o que vamos fazer comele, antes que acorde. – Matá-lo! – disse outra voz. – Nãopodemos deixá-lo vivo: iria trair-nos. – Deveríamos ter feito isso na hora, ouentão deixado ele sozinho – atalhou uma terceiravoz.___________________________________ 81C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  82. 82. – Não podemos matá-lo agora; não depoisde termos tratado seus ferimentos. Seria o mesmoque assassinar um hóspede. – Senhores – disse Caspian, numa voz queera quase um murmúrio – , decidam o quequiserem a meu respeito, mas peço-lhes quetratem bem do meu cavalo. – Seu cavalo fugiu muito antes de oencontrarmos – disse uma voz roufenha, queparecia vir da terra. – Não se deixem iludir com palavrinhasdoces – falou a segunda voz. – Por mim, insistoem... – Calma aí! – exclamou a terceira voz. – Éclaro que não vamos matá-lo. Você devia tervergonha, Nikabrik. O que acha você, Caça-trufas? Que vamos fazer com ele? – Vou dar-lhe de beber – disse a primeiravoz, provavelmente a de Caça-trufas. Umasombra escura aproximou-se. Caspian sentiu que___________________________________ 82C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  83. 83. um braço lhe amparava cuidadosamente as costas– se é que era mesmo um braço. O rosto que seinclinou era também um tanto esquisito: pareceu-lhe que estava coberto de pêlos e que tinha umenorme nariz, com umas engraçadas manchasbrancas dos lados. “Deve ser máscara”, pensouCaspian, “ou então estou delirando.” Uma taça de um líquido quente e adocicadotocou seus lábios, e ele bebeu. Nesse instante, umdos outros atiçou o fogo, fazendo levantar umalabareda. Caspian quase gritou de susto, ao ver orosto que o fitava. Não era um homem, mas umtexugo! No entanto, o rosto deste era maior, maisamistoso e mais inteligente do que o dos texugosaos quais estava habituado. Fora ele que falara,sem dúvida. Viu também que estava deitado numagruta, sobre uma cama de urzes. Ao pé do fogoencontravam-se dois homenzinhos barbudos,muito mais gordos, baixos e peludos que o doutorCornelius. Caspian percebeu logo que eram anõesverdadeiros, dos antigos, em cujas veias nãocorria uma só gota de sangue humano. Haviaencontrado enfim os antigos narnianos. Sua___________________________________ 83C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  84. 84. cabeça começou a rodar de novo. Nos dias seguintes, aprendeu a conhecê-lospelo nome. O texugo chamava-se Caça-trufas. Erao mais velho e o mais bondoso dos três. O anãoque desejara matá-lo era um anão negro (isto é,tinha o cabelo e a barba negros, ásperos e duroscomo crina de cavalo): seu nome era Nikabrik. Ooutro era um anão vermelho, com cabelo da cordos pêlos de uma raposa: chamava-se Trumpkin.Na primeira tarde em que Caspian teve forçaspara sentar-se e falar, Nikabrik disse o seguinte: – Agora temos de resolver o que fazer como humano. Vocês acham que lhe fizeram umgrande favor, impedindo que eu o eliminasse.Agora, acho que a solução é conservá-loprisioneiro pelo resto da vida. Porque não estounada disposto a deixá-lo solto por aí... para queum belo dia encontre os outros de sua raça e nosdenuncie. – Com mil diabos, Nikabrik! – protestouTrumpkin. – É preciso ser tão descortês? No fim___________________________________ 84C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  85. 85. das contas, o pobre coitado não teve culpa debater com a cabeça numa árvore aqui na frente danossa caverna. E, por mim, acho que ele não temcara de traidor. – Mas – disse Caspian – vocês ainda nãosabem se eu quero voltar para junto dos meus.Para ser franco, não quero. Preferia ficar por aquimesmo... se me deixassem. Tenho procurado porvocês a vida toda!... – Esta é boa! – rosnou Nikabrik. – Você éou não é um telmarino e um humano? Como nãoquer voltar? – Mesmo que quisesse, não podia –respondeu Caspian. – Quando caí do cavalo,estava fugindo para salvar a minha vida. O reiquer me matar. Se tivessem me matado, teriamfeito a vontade dele. – O quê?! – exclamou Caça-trufas. – Que conversa é essa? – perguntouTrumpkin. – Com a sua idade, que fez você para___________________________________ 85C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  86. 86. cair no desagrado de Miraz? – Miraz é meu tio – começou a dizerCaspian, e nesse instante Nikabrik levantou deum salto e agarrou o punhal. – Não disse?! – gritou ele. – Não só ételmarino, mas parente e herdeiro do nosso maiorinimigo. Vocês estão malucos?! Querem mesmodeixar viver esta criatura?! – Teria apunhaladoCaspian ali mesmo, se Trumpkin e o texugo nãose tivessem metido no meio, impedindo-lhe oavanço. – De uma vez por todas, Nikabrik – disseTrumpkin – ou você se controla ou Caça-trufas eeu nos sentamos em cima de sua cabeça... Nikabrik, mal-humorado, prometeu ter maiscalma, e os outros dois pediram a Caspian quecontasse a sua história. Quando acabou, houveum momento de silêncio. – É o caso mais estranho que conheço! –disse Trumpkin.___________________________________ 86C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  87. 87. – Não acho graça nenhuma! – rosnouNikabrik. – Não sabia que os humanos sedivertem falando de nós. Quanto menos souberemde nós, melhor. Foi então a velha ama? Eramelhor que ela tivesse ficado de bico calado. E,ainda por cima, esse preceptor, um anãorenegado. Odeio eles! São piores que oshumanos! Ouçam o que eu digo: tudo isso só vainos trazer aborrecimentos! – Não diga besteira, Nikabrik! – disseCaça-trufas. – Vocês, anões, são tão esquecidos einconstantes quanto os humanos. Eu, não, sou umbicho; mais que isso, sou um texugo, e os texugossabem o que querem. Não andam por aí sempre amudar de idéia. E eu digo que um grande bemestá por vir. Temos conosco o verdadeiro rei deNárnia: um verdadeiro rei, que volta à verdadeiraNárnia. E nós, os bichos, estamos lembrados(mesmo que os anões tenham esquecido) queNárnia só foi feliz quando teve no trono um filhode Adão. – Espere aí, Caça-trufas – falou Trumpkin –___________________________________ 87C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  88. 88. , não vá dizer que pretende entregar nosso paísaos humanos? – Quem disse isso? – replicou o texugo. –Nárnia não é terra dos homens (quem vai meensinar isso?), mas é uma terra que deve sergovernada por um Homem. Nós, os texugos,temos razões de sobra para acreditar nisso. Pois oGrande Rei Pedro também não era um Homem? – Você acredita nessa história? – perguntouTrumpkin. – Já disse! Nós não mudamos de opiniãotodos os dias. Não esquecemos facilmente.Acredito no rei Pedro e nos outros que reinaramem Cair Pa-ravel, com a mesma certeza queacredito no próprio Aslam. – Com a mesma certeza? Mas quem é queainda acredita em Aslam? – indagou Trumpkin. – Eu acredito – disse Caspian. – E, mesmoque não acreditasse antes, acreditaria agora. Entreos humanos, os que se riem de Aslam também___________________________________ 88C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  89. 89. zombariam se eu lhes dissesse que existem anõese animais falantes. Já cheguei a perguntar a mimmesmo se Aslam de fato existiria, mas a verdadeé que também muitas vezes duvidei da existênciade gente como vocês. E vocês não estão aí? – Tem razão, rei Caspian – disse Caça-trufas. – Enquanto for fiel à antiga Nárnia vocêserá o meu rei, haja o que houver. Vida longa aorei! – Você me faz perder a cabeça, texugo! –resmungou Nikabrik. – O Grande Rei Pedro e osoutros talvez tenham sido Homens, mas eram comcerteza de uma raça diferente. Este não, este é umdos malditos telmarinos. Aposto que já andoucaçando para se divertir! Diga que não, diga! –acrescentou, voltando-se bruscamente paraCaspian. – Sim, é verdade – concordou Caspian. –Mas nunca na minha vida cacei animais falantes. – Dá tudo na mesma! – resmungouNikabrik.___________________________________ 89C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  90. 90. – Ah, isso não! – falou Caça-trufas. – Evocê bem sabe disso! Sabe muito bem que osanimais que hoje se encontram em Nárnia não sãocomo os de antigamente. São até menores do queantes! Entre eles e nós há uma diferença muitomaior do que entre vocês e os meio-anões. Houve ainda muita discussão, masacabaram todos concordando que Caspian ficaria.Prometeram até que, logo que estivesse bom,seria apresentado ao que Trumpkin chamava “osOutros”. Pois, ao que parece, naquelas regiõesselvagens viviam ainda, escondidas, inúmerascriaturas sobreviventes da antiga Nárnia.___________________________________ 90C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  91. 91. 6 O ESCONDERIJO DOS ANTIGOS NARNIANOS Começara o tempo mais feliz da vida deCaspian. Numa bela manhã de verão, em que arelva estava coberta de orvalho, ele partiu com otexugo e os dois anões, através da floresta, rumoao alto de um monte, descendo depois a encostainundada de sol, de onde se avistavam os camposverdejantes de Arquelândia. – Vamos visitar primeiro os três UrsosBarrigudos – disse Trumpkin. Avançando por uma clareira, chegaram aum velho carvalho oco e revestido de musgo, emcujo tronco Caça-trufas deu três pancadinhas com___________________________________ 91C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  92. 92. a pata, sem que obtivesse resposta. Bateu de novoe lá de dentro uma voz rouca protestou: – Váembora. Ainda não está na hora de acordar. Mas, quando o texugo bateu pela terceiravez, ouviu-se um ruído como de tremor de terra,abriu-se uma porta e apareceram três enormesursos castanhos, muito barrigudos mesmo, apiscar os olhinhos. Depois que terminaram delhes contar tudo o que passava (o que demoroumuito tempo, pois estavam caindo de sono), elesconcordaram com Caça-trufas: um filho de Adãodevia ser o rei de Nárnia – e todos beijaramCaspian, com uns beijos molhados e barulhentos.E o rei foi logo convidado para comer mel.Caspian não gostava muito de mel, sem pão,àquela hora da manhã, mas por delicadeza achouque deveria aceitar. Só depois de muito tempodeixou de sentir as mãos meladas. Continuaramdepois a andar e chegaram perto de umas faiasmuito altas. Aí, Caça-trufas gritou: – Farfalhante!___________________________________ 92C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  93. 93. Quase imediatamente, saltando de ramo emramo, apareceu acima da cabeça dos visitantes ummagnífico esquilo vermelho. Era muito maior queos esquilos mudos que Caspian encontrava àsvezes no jardim do castelo; na verdade, era quasedo tamanho de um cachorro. Bastava olhar paraele para se ver que falava. O problema erajustamente fazê-lo calar, pois, como todos osesquilos, era um grande falastrão. Deu as boas-vindas a Caspian e ofereceu-lhe uma noz. Caspianagradeceu e aceitou. Mas, quando Farfalhante seafastou para ir buscá-la, Caça-trufas disse-lhebaixinho: – Não fique olhando. É falta de educaçãoentre os esquilos seguir alguém que vai àdespensa... ou olhar como se quisesse saber ondeele guarda as coisas. Farfalhante voltou com a noz, que Caspiancomeu. O esquilo perguntou se poderia ser útil,levando algum recado a outros amigos. – Posso ir a quase todo lugar sem botar o pé___________________________________ 93C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  94. 94. no chão. Caça-trufas e os anões acharam que erauma excelente idéia e pediram a Farfalhante quelevasse recados a muita gente de nomesesquisitos, convidando a todos para uma reuniãono Gramado da Dança, à meia-noite, dali a trêsdias. – É bom avisar também os três UrsosBarrigudos – acrescentou Trumpkin. –Esquecemos de lhes dizer. A visita seguinte foi aos sete irmãos doBosque Trêmulo. Era um lugar solene, entrerochedos e altas árvores. Avançaram comcuidado. Trumpkin chegou junto a uma pedraachatada, do tamanho da tampa de uma talha deágua, e bateu nela com o pé. Depois de demoradosilêncio, alguém arredou a pedra. Apareceu entãoum buraco redondo e escuro, do qual saíambaforadas de fumaça e calor, e de onde emergiu acabeça de um anão, muito parecido comTrumpkin. Conversaram durante muito tempo.___________________________________ 94C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  95. 95. Embora o anão parecesse mais desconfiado doque o esquilo ou os ursos, acabou convidandotodos para entrar. Caspian desceu por uma escadaescura, que levava a uma caverna iluminada.Estavam numa forja, e o clarão vinha da fornalha.A um canto passava um riacho subterrâneo. Doisanões trabalhavam no fole, um terceiro, com umpar de tenazes, segurava na bigorna um pedaço demetal em brasa, que um quarto anão batia. Outrosdois, limpando as pequenas mãos calosas numpano engordurado, foram ao encontro dosvisitantes. Não foi fácil convencê-los de queCaspian era amigo, mas, uma vez convencidos,gritaram: “Viva o rei!” Seus presentes eram preciosos: cotas demalha, elmos e espadas para Caspian, Trumpkin eNikabrik. Também quiseram dar o mesmo aotexugo, mas este disse que era bicho, e bicho quenão soubesse defender-se com as patas e osdentes não tinha o direito de viver. Caspianjamais vira armas tão perfeitas, e foi com grandealegria que aceitou a espada feita pelos anões, emtroca da sua que, comparada com aquela, parecia___________________________________ 95C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  96. 96. frágil e tosca. Os sete irmãos (todos eles anõesvermelhos) prometeram não faltar ao encontro noGramado da Dança. Um pouco adiante, numa ravina seca erochosa, ficava a caverna dos cinco anões negros.Olharam desconfiados para Caspian, até que omais velho disse: – Se ele é contra Miraz, será o nosso rei.Outro propôs: – Gostaria de ir ao despenhadeiro, ondeainda vivem dois ogres e uma feiticeira? – Não! – disse Caspian. – Também acho que não – concordou Caça-trufas. – Não queremos essa gente conosco. Nikabrik era de opinião contrária, masTrumpkin e o texugo conseguiram fazê-lo calar. Caspian sentiu um calafrio ao saber quetambém as criaturas más das histórias antigas___________________________________ 96C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  97. 97. tinham deixado descendência em Nárnia. – Perderíamos a amizade de Aslam, se nosaliássemos a essa ralé horrorosa – disse Caça-trufas, quando saíram da caverna dos anõesnegros. – Aslam? – indagou Trumpkin, falandoalegremente e em tom de ligeiro desprezo. –Muito mais do que isso: vocês perderiam a minhaamizade! – Você acredita em Aslam? – perguntouCaspian a Nikabrik. – Acredito em qualquer um, ou emqualquer coisa que possa reduzir a pó os bárbarostelmarinos ou expulsá-los de Nárnia. Seja lá quemfor, Aslam ou a Feiticeira Branca. Estáentendendo? – Cale-se! – ordenou Caça-trufas. – Vocênão sabe o que está dizendo. Ela foi muito pior doque Miraz e toda a sua raça.___________________________________ 97C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  98. 98. – Para os anões, não – insistiu Nikabrik. A visita seguinte foi mais agradável. Asmontanhas deram passo a um vale arborizado,atravessado por um rio caudaloso. As margens dorio estavam atapetadas de papoulas e rosas; no arpairava o zumbido das abelhas. Caça-trufasgritou: – Ciclone! Passado um instante, ouviu-se o ressoar decascos, cada vez mais alto e mais próximo, atéque o vale inteiro tremeu. Por fim, pisando eesmagando flores, apareceu o grande centauroCiclone e seus três filhos, as mais imponentescriaturas que Caspian vira em toda a vida. Osflancos do centauro eram de um castanho escuro ebrilhante; a barba, que lhe cobria o peito, eravermelho-dourada. Profeta e vidente, o centauronão precisou perguntar ao que vinham. – Viva o rei! – gritou. – Os meus filhos e euestamos prontos para a guerra. Quando se trava abatalha?___________________________________ 98C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  99. 99. Até aquele momento, nem Caspian nem osoutros tinham pensado em guerra. Nutriam a vagaidéia de uma ou outra incursão nas terras dealgum humano, ou talvez de um ataque a umgrupo de caçadores, caso estes se aventurassem apenetrar nas regiões selvagens do Sul. No mais,porém, pensavam apenas em viver isolados nosbosques e cavernas, tentando reconstruir qualquercoisa parecida com a antiga Nárnia. – Você fala de uma guerra de verdade paraexpulsar Miraz? – perguntou Caspian. – E o que mais poderia ser? – indagou ocentauro. – Que outro motivo teria Vossa Altezapara andar de cota de malha e espada à cinta? – Será possível, Ciclone? – perguntou otexugo. – É o momento oportuno – respondeu ele. –Eu observo os céus, texugo, porque compete amim vigiar, como a você compete não esquecer.Tarva e Alambil encontraram-se nos salões dofirma-mento, e na terra voltou a surgir um filho de___________________________________ 99C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  100. 100. Adão para governar e dar nome às criaturas. Ahora do combate soou. O nosso encontro noGramado da Dança deve ser um conselho deguerra. Falou de tal maneira que nem por ummomento alguém duvidou. Caspian e os outrosachavam agora perfeitamente possível ganharuma batalha. Estavam certos de que, fosse comofosse, deveriam ir em frente. Como já passasse do meio-dia,descansaram junto dos centauros e comeram oque estes tinham a oferecer: bolos de aveia,maçãs, salada, vinho e queijo. Era perto o lugar que pretendiam visitar,mas tiveram de dar uma grande volta, evitandouma região habitada pelos homens. A tarde já iaadiantada quando se acharam em terreno plano.Num buraco em uma valeta verdejante, Caça-trufas chamou alguém, e de lá saiu a última coisaque Caspian poderia esperar: um rato falante. Claro que era maior que um rato comum –___________________________________ 100C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  101. 101. mais de trinta centímetros, quando ficava em pésobre as patas traseiras – , e suas orelhas eramquase tão compridas quanto as de um coelho, sóque mais largas. Chamava-se Ripchip e tinha umar marcial e alegre. Da cinta pendia-lhe umminúsculo florete, e retorcia os longos pêlos dofocinho como se fossem bigodes. – Somos doze, Real Senhor – disse, comrápida e graciosa vênia – , e todos os recursos domeu povo estão incondicionalmente à suadisposição. Caspian teve de fazer um enorme esforçopara não rir, pois não pôde evitar o pensamentode que Ripchip e todo o seu exército podiamfacilmente ser carregados às costas, dentro de umcesto de roupa. Tomaria um tempo enorme enumerar todosos animais que Caspian conheceu nesse dia:Escava-terra, a toupeira, os três Trincadores(texugos como Caça-trufas), Camilo, a lebre,além de Barbaças, o ouriço. Descansaram___________________________________ 101C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV
  102. 102. finalmente junto de um poço à beira de umacampina relvada, à volta da qual cresciamchoupos altos cuja sombra, ao poente, sealongava sobre o campo. As margaridascomeçavam a fechar as pétalas, e os pássarosbuscavam os ninhos. Depois de cearem o quetinham trazido, Trumpkin acendeu o cachimbo(Nikabrik não fumava). O texugo disse: – Se pudéssemos despertar o espírito destasárvores e deste poço, poderíamos hoje nos dar porsatisfeitos. – E por que não? – perguntou Caspian. – Não temos poder sobre eles. Desde queos humanos invadiram o país, derrubando asárvores e secando as fontes, as dríades e asnáiades mergulharam num sono profundo. Quemsabe se algum dia voltarão a acordar? Essa é anossa grande perda. Os telmarinos têm horror aosbosques, e bastaria que as árvores avançassempara eles em fúria, para que os nossos inimigos___________________________________ 102C.S.Lewis – Crônicas de Nárnia – Vol. IV

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