Reforço geral de literatura portuguesa para enade
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Reforço geral de literatura portuguesa para enade Document Transcript

  • 1. Material de reforço para Enade 2011Literatura Portuguesa1- BocageManuel Maria Barbosa de Bocage (1765-1805) Bocage nasceu em Setúbal, Portugal. Teve uma vida cheia de aventuras eboêmia, entre bares e recitais poéticos. Pertenceu à Nova Arcádia na qual era conhecidopelo pseudônimo de Elmano Sadino. Contudo, era um rebelde e logo abandonou aÁrcadia, cujo estilo atacou. Escreveu poemas satíricos que chegaram a levá-lo preso.Faleceu pobre e doente. As suas obras tiveram várias edições ainda em vida : Rimas, tomo I (1791),Rimas, tomo II (1799) e Rimas, tomo III (1804). Em 1811 foram publicadas as ObrasCompletas no Rio de Janeiro. Ficaram famosos os seus Sonetos, os seus Epigramas e osseus Apólogos.Sua obra pode ser dividida da seguinte maneira: Poesia erótico- satírica: linguagem obscena e agressiva Poesia lírica:  1ª fase: obediência aos clichês árcades  2ª fase: dissidência com o Arcadismo e aproximação do Romantismo Entre os temas mais explorados podemos destacar: o amor, a morte, o destino, anatureza e o conflito entre a razão e o sentimento. É considerado um pré-romântico.Poema satíricoMagro, de olhos azuis, carão moreno,Bem servido de pés, meão na altura,Triste de facha, o mesmo de figura,Nariz alto no meio, e não pequeno;Incapaz de assistir* num só terreno,Mais propenso ao furor do que à ternura;Bebendo em níveas mãos, por taça escura,De zelos infernais letal veneno;Devoto incensador de mil deidades(Digo, de moças mil) num só momento,E somente no altar amando os frades,Eis Bocage em quem luz algum talento;Saíram dele mesmo estas verdades,
  • 2. Num dia em que se achou mais pachorrento.assistir- no sentido de morarpachorrento- cheio de pachorra, sem pressa, calmo.(BOCAGE. Sonetos e outros poemas. São Paulo:FTD, 1994, p.94)Podemos observar nesses versos como o poeta confessa sua vida boêmia, seu espíritoinquieto,cheio de prazeres e um certo repúdio à religião.Era considerado um homem bonito.Poema lírico- 1a faseÓ tranças, de que Amor prisão me tece,Ó mãos de neve, que regeis meu fado!Ó Tesouro! ó mistério! ó par sagrado,Onde o menino alígero adormece!Ó ledos olhos, cuja luz pareceTênue raio do sol! Ó gesto amado,De rosas e açucenas semeadoPor quem morrera esta alma, se pudesse!Ó lábios, cujo riso a paz me tira,E por cujos dulcíssimos favoresTalvez o próprio Júpiter suspira!Ó perfeições! Ó dons encantadores!De quem sois?... Sois de Vênus? –É mentira; Sóis de Marília, sois de meus amores.(BOCAGE. Sonetos e outros poemas. São Paulo:FTD, 1994, p.25)Alígero- que tem asas, é velozLedo- que revela ou sente felicidade, alegreAçucenas- floresNesse soneto, destacamos as seguintes características árcades:Pastoralismo: a amada é uma pastora, Marília. Referências à mitologia greco-latina:“Vênus”,”Júpiter”.Há a busca do equilíbrio e da perfeição através do uso do soneto e da descrição da belamulher: “Ó perfeições! Ó dons encantadores!”Poema lírico- 2a fase- Pré-românticoMeu ser evaporei na lida insanaDo tropel de paixões, que me arrastava;Ah!, cego eu cria, ah!, mísero eu sonhavaEm mim quase imortal a essência humana.De que inúmeros sóis a mente ufanaExistência falaz me não doirava!Mas eis sucumbe a Natureza escravaAo mal que a vida em sua origem dana.
  • 3. Prazeres, sócios meus e meus tiranos!Esta alma, que sedenta em si não coube,No abismo vos sumiu dos desenganos.Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube,Ganhe um momento o que perderam anos.Saiba morrer o que viver não soube.(BOCAGE. Sonetos e outros poemas. São Paulo:FTD, 1994, p.90)Lida: labuta, trabalho, no sentido de vidaFalaz: que ilude Nesse soneto, ainda de concepções clássicas, podemos destacar o pré-romantismo de Bocage. O uso da razão e do universalismo dão lugar à emoção, aoindividualismo: ―meu ser‖, ―em mim‖ No final da vida, eu-lírico demonstra extremo sofrimento, arrependido da vidainsana que teve e roga por morrer em condições melhores. Temas românticos como amorte e a religião são desenvolvidos.Características do Arcadismo( Neoclassicismo) Segue-se o conceito aristotélico de arte ( A arte como imitação da Natureza) Racionalismo Busca do equilíbrio e da perfeição Temas bucólicos, ligados à natureza e a tranqüilidade rural Temas clássicos, considerados clichês árcades:  Fugere urbem- ―fuga da cidade‖: Só existe felicidade no campo.  Aurea medioritas- ―equilíbrio do ouro‖:: Espera-se uma vida simples  Locus amoenus-― lugar tranqüilo: Onde os namorados se encontram  Inutilia truncat ―corte do inútil‖: Fora todos os excessos barrocos da linguagem. Pastoralismo- os poetas fingem-se de pastores . Suas amadas são pastoras, para isso usam pseudônimos latinos: Marília, Elmano...2- Fernando Pessoa Fernando Antônio Nogueira Pessoa (1888-1935), considerado por muitos comoo maior poeta português, nasceu em Lisboa, mas, após o falecimento de seu pai, mudou-se com a mãe e o padrasto para Durban, África do Sul, onde passou sua infância e parteda adolescência. Frequentou várias escolas, recebendo uma educação inglesa. Regressoua Portugal em 1905 fixando-se em Lisboa, onde iniciou uma intensa atividade literária.Esforçou-se por renovar a literatura portuguesa através da criação da revista Orpheu,veículo de novas idéias e novas estéticas. Colaborou em várias revistas e, em 1934,ganhou segundo lugar do concurso literário promovido pelo Secretariado dePropaganda Nacional, categoria B, com a obra Mensagem, que publicou no mesmo ano.Faleceu em 1935,com 47 anos. A maior parte de suas obras foi publicada após suamorte. ( fonte: Projecto Vercialhttp://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/pessoa.htm)
  • 4. Para termos a dimensão do impacto da obra pessoana a Literatura Portuguesa,basta dizer que esta pode ser dividida em três grandes blocos: 1-Antes de Camões 2- Após Camões 3- Após Fernando Pessoa Assim, a produção literária de Fernando Pessoa é riquíssima e redimensionou acultura portuguesa. Ele incorporou as formas tradicionais da lírica portuguesa econseguiu ultrapassá-las de forma extremamente criativa. Participou inicialmente doSaudosismo (movimento que visava resgatar as tradições portuguesas), superou-o edifundiu outras tendências vanguardistas como o Paulismo, Interseccionismo eSensacionismo. Em sua poesia experimental, criou diversas ―personalidades poéticas‖,―máscaras‖, como personagens em uma peça teatral, os chamados heterônimos, cada umcom seu estilo e personalidade. Por isso também é considerado um grande poetadramático. O próprio autor nos apresenta sua obra dividida em poesia ortônima, em queassina com seu próprio nome, Fernando Pessoa ―ele mesmo‖ ; e a poesiaheterônima, para qual criou vários heterônimos como os famosos Alberto Caeiro,Álvaro de Campos, Ricardo Reis e , os menos conhecidos, como Bernardo Soares,Alexandre Search, Antônio Mora, C Pacheco e Vicente Guedes. Podemos ainda observar na obra pessoana influências do realismo expressionistade Cesário Verde, da dor existencial de Camilo Pessanha, do Cubismo e do Futurismo,vanguardas artísticas européias. Com Pessoa, vários mitos são derrubados e um novo mito surge : o fazer poético. Há a consciência do poder da palavra poética e uma constante tentativa deemocionalizar o racional e de racionalizar a emoção, ou seja, um intercâmbio entre opensamento e a emoção.Poesia ortônima- Fernando Pessoa “ ele mesmo”. Como já dissemos, Fernando Pessoa foi capaz de incorporar a tradição da líricaportuguesa e superá-la. Assimilou o passado lírico e a ele acrescentou as inquietaçõesdo homem do século XX. Esse aspecto encontra-se nítido em sua poesia ortônima. Nopoema Ela canta, pobre ceifeira podemos identificar esse resgate da mais bela lírica aoestilo dos Cancioneiros medievais e de Camões , assim como um posicionamentoestético que o autor irá sempre reiterar, o fato de que o poema é construído pela razão, enão pelo sentimento: “ o que em mim sente ,’sta pensando”. Assim, o amor nãocostuma ser um tema comum e quando aparece é pouco romântico.Ela canta, pobre ceifeira1Ela canta, pobre ceifeira,Julgando-se feliz talvez;Canta, e ceifa, e a sua voz, cheiaDe alegre e anônima viuvez,1 Todos os poemas de Fernando Pessoa aqui utilizados encontram-se no livro PESSOA,Fernando. O Eu Profundo e Outros Eus: Seleção Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2006.
  • 5. Ondula como um canto de aveNo ar limpo como um limiar,E há curvas no enredo suaveDo som que ela tem a cantar.Ouvi-la alegra e entristece,Na sua voz há o campo e a lida,E canta como se tivesseMais razões pra cantar que a vida.Ah, canta, canta sem razão !O que em mim sente stá pensando.Derrama no meu coraçãoa tua incerta voz ondeando !Ah, poder ser tu, sendo eu !Ter a tua alegre inconsciência,E a consciência disso ! Ó céu !Ó campo ! Ó canção ! A ciênciaPesa tanto e a vida é tão breve !Entrai por mim dentro ! TornaiMinha alma a vossa sombra leve !Depois, levando-me, passai ! Ceifeira seria uma camponesa que trabalha nos campos. O eu lírico valoriza suasimplicidade, sua ―inconsciência‖. Há extrema musicalidade, ritmo e a profundidadede suas reflexões. O poema a seguir representa muito bem a perspectiva ideológica de FernandoPessoa, inclusive na criação de seus heterônimos, a poesia como ficção, comofingimento e uso da razão.AutopsicografiaO poeta é um fingidor.Finge tão completamenteQue chega a fingir que é dorA dor que deveras sente.E os que leem o que escreve,Na dor lida sentem bem,Não as duas que ele teve,Mas só a que eles não têm.E assim nas calhas de rodaGira, a entreter a razão,Esse comboio de cordaQue se chama coração. Observe no trocadilho: finge+dor=fingidor, como a poesia é mera ficção.Nos versos finais, o eu-lírico valoriza a razão e considera o sentimento, metaforizadopelo coração, como um brinquedo, um comboio de corda ( um trenzinho).
  • 6. Como experiência estética, Fernando Pessoa desenvolve poemas a partir dasconcepções do Paulismo e do Interseccionismo. O objetivo maior era realmente aexperimentação estética, trabalhar com as palavras de forma lúdica, explorando seussignificados e sons. Veja a seguir as definições para esses termos, retiradas doDicionário de Literatura de Jacinto do Prado Coelho (1979), assim como trechos que osexemplificam:Paulismo“O próprio paulismo (termo que deriva do poema que começa «Pauis de roçarem ânsias pela minh almaem oiro») é uma invenção de Fernando Pessoa que consiste num refinamento dos processos simbolistas.Como observou Gaspar Simões, «Pauis» ilustra, bem melhor que a poesia saudosista, os caracteres quePessoa atribuíra a esta num artigo d A Águia: o vago, o complexo, o subtil [...] O estilo paúlico define-se pela voluntária confusão do subjectivo e do objectivo, pela «associação de ideias desconexas», pelasfrases nominais, exclamativas, pelas aberrações da sintaxe («transparente de Foi, oco de ter-se»), pelovocabulário expressivo de tédio, do vazio da alma, do anseio de «outra coisa», um vago «além» («ouro»,«azul», «Mistério», pelo uso de maiúsculas que traduzem a profundidade espiritual de certas palavras(«Outros Sinos», «Hora»).(Coelho, Jacinto do Prado, DICIONÁRIO DE LITERATURA (in Modernismo), 3.ª edição, 2.º volume,Porto, Figueirinhas, 1979)Impressões de CrepúsculoPauis de roçarem ânsias pela minhalma em ouro...Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louroTrigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minhalma...Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!...Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgadoDum canto de vaga ave... Azul esquecido em estagnado...Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejoQue não é aquilo que quero aquilo que desejo...29-03-1913Paul- pântanoDobre- o som do sino Note o tom vago e de mistério que nos relembram o Simbolismo.Há personificações inusitadas e analogias surpreendentes como ―Silêncio que as folhasfitam em nós...‖ É um poema de difícil interpretação, assim, é essencial apreciá-lo e nãoentendê-lo de imediato.Interseccionismo“Processo típico da poesia do Modernismo, paralelo às sobreposições dinâmicas da pintura futurista, ede que Fernando Pessoa nos deu exemplos acabados nas seis partes de Chuva Oblíqua (in Orpheu n.º 2,1915) - demonstração brilhante de inteligência estética e de capacidade inovadora. Cruzam-se aí apaisagem presente e a ausente, o actual e o pretérito, o real e o onírico. Mas Pessoa cedo poria de ladoesta experiência lúdica, dos «arredores da sua sinceridade».”(Coelho, Jacinto do Prado, DICIONÁRIO DE LITERATURA (in Modernismo), 3.ª edição, 2.º volume,Porto, Figueirinhas, 1979)
  • 7. Chuva Oblíqua IATRAVESSA esta paisagem o meu sonho dum porto infinitoE a cor das flores é transparente de as velas de grandes naviosQue largam do cais arrastando nas águas por sombraOs vultos ao sol daquelas árvores antigas...O porto que sonho é sombrio e pálidoE esta paisagem é cheia de sol deste lado...Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrioE os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo... [8-3-1914]MensagemSugestão: Antes de ler o poema Mensagem por completo, veja o Roteiro de Leitura:Mensagem de Fernando Pessoa de Carlos Felipe Moisés da Editora Ática, 1996. Ao falarmos da poesia ortônima de Pessoa, não podemos deixar de lado aMensagem, única obra publicada em vida pelo autor em 1934. O livro é composto pordiversos poemas, com estruturas diferenciadas, sem um padrão fixo. Nela encontramosdesde características do saudosismo, como forma de resgatar valores portugueses, atéexemplos de inovação e vanguardismo. Os poemas foram escritos em épocas diferentese não estão ordenados cronologicamente. Há, por exemplo, poemas iniciais de 1928 eoutros finais de 1918. O poeta refere-se a vários episódios da história de Portugal, principalmente àfigura de D. Sebastião, resgatando o mito sebastianista, e às grandes navegações. Contudo, não é um épico como Os Lusíadas, não é um poema narrativo. Apesarde se referir a Portugal, os poemas de a Mensagem correspondem a toda humanidade,a todos nós. É um livro por vezes misterioso e bastante complexo, mas sobretudofascinante.Mito sebastianista- D. Sebastião , com apenas 24 anos, desapareceu na batalha deAlcácer-Quibir em 1578, na África. Em 1580, Portugal cai sob o domínio espanhol.Alguns anos depois, o humilde sapateiro e poeta popular Gonçalo Eanes Bandarracompôs diversas trovas que profetizavam a volta de D. Sebastião. Eis a origem do mitosebastianista, o rei, como um messias, voltaria para restituir a Portugal as glóriaspassadas. D. Sebastião passou a ser conhecido como o Desejado ou o Encoberto.Trecho do poema MensagemQUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGALLouco, sim, louco, porque quis grandezaQual a Sorte a não dá.Não coube em mim minha certeza;Por isso onde o areal está
  • 8. Ficou meu ser que houve, não o que há.Minha loucura, outros que me a tomemCom o que nela ia.Sem a loucura que é o homemMais que a besta sadia,Cadáver adiado que procria?Nesse poema, temos a voz de D. Sebastião. Os feitos do rei são vangloriados, assimcomo sua a coragem e a audácia. Não haveria conquistas se o homem se contentasse emesperar pelo destino, ao invés de inventá-lo.Poesia Heterônima No livro Alguma Prosa de Fernando Pessoa, editora Nova Fronteira,encontramos o texto ― Gênese e justificação da heterôminia‖ (Anexo) , em que o autornos dá mais detalhes sobre seus heterônimos.Há também textos atribuídos a Caeiro, Reis e Campos, em que um poeta analisa a obrado outro. Ao criar seus heterônimos, Fernando Pessoa não lhes concebe somente umestilo, mas uma biografia. Cada heterônimo possui data de nascimento, uma profissão,uma formação , uma história. Os poetas se conhecem e trocam experiências estéticasentre si.Alberto Caeiro Segundo Fernando Pessoa, Alberto Caeiro nasceu em 16 de abril de 1914. É omestre de todos os heterônimos, inclusive do próprio Pessoa, pois divulga a essência doSensacionismo. Caeiro é um homem de formação rudimentar que abandonou tudo paraviver no campo como um simples poeta e nada mais. É o mais objetivo de todos ealmejava registrar as sensações, sem a mediação do pensamento. É pagão e anti-espiritualista. Para definir o Sensacionismo, que aparece em vários poemas de FernandoPessoa e de seus heterônimos, não somente em Caeiro, usaremos as palavras do próprioFernando Pessoa:Sensacionismo“1- A única realidade da vida é a sensação. A única realidade em arte é a consciência da sensação.2- Não há filosofia, ética ou estética, mesmo na arte, seja qual for a parcela que delas haja na vida. Naarte existem apenas sensações e a consciência que dela temos.[...]3- A arte, na sua definição plena, é a expressão harmônica da nossa consciência das sensações, ou seja,as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objeto que seja uma sensação paraos outros. [...]4- Os três princípios da arte são: 1) cada sensação deve ser plenamente expressa [...]; 2) a sensaçãodeve ser expressa de tal modo que tenha a capacidade de evocar - como um halo em torno de umamanifestação central definida - o maior número possível de outras sensações; 3) o todo assim produzidodeve ter a maior parecença possível com um ser organizado, por ser essa a condição da vitalidade.Chamo a estes três princípios 1) o da Sensação, 2) o da Sugestão, 3) o da Construção.”(PESSOA, Fernando. Alguma Prosa.Rio de Janeiro: Nova Aguilar, p.37 )
  • 9. O mais famoso poema de Alberto Caeiro é o Guardador de Rebanhos. Veja aseguir alguns trechos, nos quais podemos observar os conceitos do Sensacionismosendo colocados em prática.O Guardador de Rebanhos(1911-1912)VHá metafísica bastante em não pensar em nada.O que penso eu do mundo?Sei lá o que penso do mundo!Se eu adoecesse pensaria nisso.Que idéia tenho eu das cousas?Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?Que tenho eu meditado sobre Deus e a almaE sobre a criação do Mundo?Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhosE não pensar. É correr as cortinasDa minha janela (mas ela não tem cortinas).O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!O único mistério é haver quem pense no mistério.IXSou um guardador de rebanhos.O rebanho é os meus pensamentos.E os meus pensamentos são todos sensações.Penso com os olhos e com os ouvidos.E com as mãos e os pésE com o nariz e a boca.Pensar uma flor é vê-la e cheirá-laE comer um fruto é saber-lhe o sentido.Por isso quando um dia de calorMe sinto triste de gozá-lo tanto,E me deito ao comprido na erva,E fecho os olhos quentes,Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,Sei a verdade e sou feliz. Nesses dois poemas , podemos observar a linguagem simples e objetiva deCaeiro. Os versos são livres e brancos, sem rimas, como uma poesia em prosa. O sentiré colocado acima do pensar e a sensação é a essência. Pelo uso constante de termos da natureza, podemos dizer que Caeiro era umpoeta bucólicoRicardo ReisRicardo Reis nasceu em 19 de setembro de 1887, era médico e recebeu uma educaçãoclássica. Contrário à proclamação da República, migra para o Brasil. Tinha uma formahumanística de ver o mundo. Também valoriza as sensações como o mestre Alberto
  • 10. Caeiro, mas coloca o pensamento como fator inerente à criação artística, ou seja, sem arazão não é possível criar. Pode ser considerado um poeta neoclássico pois resgata oespírito da Antigüidade Clássica, contudo prega um paganismo da decadência.LídiaVem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamosQue a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.(Enlacemos as mãos.)Depois pensemos, crianças adultas, que a vidaPassa e não fica, nada deixa e nunca regressa,Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,Mais longe que os deuses.Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.Mais vale saber passar silenciosamenteE sem desassossegos grandes.Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,E sempre iria ter ao mar.Amemo-nos tranqüilamente, pensando que podíamos,Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outroOuvindo correr o rio e vendo-o.Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-asNo colo, e que o seu perfume suavize o momento -Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,Pagãos inocentes da decadência.Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depoisSem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamosNem fomos mais do que crianças.E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,Pagã triste e com flores no regaço.12-6-1914 Esse poema de Ricardo Reis, à primeira vista, parece-nos um poema árcade,voltado para os clichês do pastorialismo e do locus amoenus. Contudo, percebe-se a modernidade pela estrutura dos versos e pelo tom dealienação e desesperança do eu –lírico. Como se dissesse: ―não vale a pena sentir‖Álvaro de Campos
  • 11. Campos nasceu em 15 de outubro de 1890, era engenheiro. É o mais moderno,mais sincero e o mais irreverente. Extrai sua razão de ser de um imenso desespero. Temuma primeira fase decadente-simbolista, que pode ser observada no poema Opiário :É antes do ópio que a minha alma é doente.Sentir a vida convalesce e estiolaE eu vou buscar ao ópio que consolaUm Oriente ao oriente do OrienteEstiolar- enfraquecer, definhar Possui uma segunda fase, a futurista. É uma fase intensa, de energia explosiva. Inspira-se na poética reformista do escritor norte-americano Walt Whitman ( 1819- 1892).Os poemas dessa fase são Ode triunfal, Ode marítima, Saudação a Walt Whitman A seguir, um trecho de Ode triunfal, no qual a modernidade e as máquinas sãoidealizadas. É um poema tipicamente moderno, que rompe com as estruturastradicionais, utilizando inclusive onomatopéias:ODE TRIUNFALÀ dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábricaTenho febre e escrevo.Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!Em fúria fora e dentro de mim,Por todos os meus nervos dissecados fora,Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! A terceira fase de Álvaro de Campos é mais pessoal. É bastante agressiva,expressa revolta contra si e contra os outros. Há uma sede de libertação total. Sãopoemas intensos com os quais muitas gerações se identificaram. Veja a seguir, trechos dos poemas Tabacaria, Poema em linha reta e Lisbonrevisited, de conteúdo intenso, vibrante que conquistaram tantas gerações e sócomprovam que Fernando Pessoa é um dos maiores poetas da Língua Portuguesa: TABACARIANão sou nada.Nunca serei nada.Não posso querer ser nada.À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.Janelas do meu quarto,Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é(E se soubessem quem é, o que saberiam?),Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
  • 12. Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,E não tivesse mais irmandade com as coisasSenão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da ruaA fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitadaDe dentro da minha cabeça,E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.(.....)15/01/1928POEMA EM LINHA RETANunca conheci quem tivesse levado porrada.Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,Indesculpavelmente sujo,Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,Que tenho sofrido enxovalhos e calado,Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachadoPara fora da possibilidade do soco; (......)(sem data)LISBON REVISITED(l923)NÃO: Não quero nada.Já disse que não quero nada.Não me venham com conclusões!A única conclusão é morrer.Não me tragam estéticas!Não me falem em moral!Tirem-me daqui a metafísica!Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistasDas ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —Das ciências, das artes, da civilização moderna!Que mal fiz eu aos deuses todos?Se têm a verdade, guardem-na!Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.Com todo o direito a sê-lo, ouviram?Não me macem, por amor de Deus!
  • 13. Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.Assim, como sou, tenham paciência!Vão para o diabo sem mim,Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!Para que havemos de ir juntos?Não me peguem no braço!Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.Já disse que sou sozinho!Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!Ó céu azul — o mesmo da minha infância —Eterna verdade vazia e perfeita!Ó macio Tejo ancestral e mudo,Pequena verdade onde o céu se reflete!Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!Para saber mais sobre Fernando Pessoa e o Modernismo em Portugal, consulte osseguintes sites:http://www.revista.agulha.nom.br/pessoa.htmlhttp://www.casafernandopessoa.com/http://www.portalpessoa.org/http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/pessoa.htmhttp://www.instituto-camoes.pt/cvc/literatura/modernismo.htm3- Eça de Queirós - As cidades e as serrasJosé Maria Eça de Queirós (1845-1900) nasceu na Póvoa de Varzim e faleceu emParis. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, tornando-se amigo de Antero deQuental, entre outros. Participou nas Conferências do Cassino e é um dos artistas daGeração de 70. Foi nomeado cônsul, tendo viajado pelo Egito, Cuba, Londres e Paris.Das suas obras, destacam-se Uma campanha alegre (1871), O crime do padre Amaro(1875-1876), O primo Basílio (1878), A relíquia (1887), Os Maias (1888), A ilustrecasa de Ramires(1900), A correspondência de Fradique Mendes (1900), A cidade e asserras (1901- postumamente), Contos (1902) e Prosas Bárbaras (1903). Traduziu oromance de Rider Haggard, As minas de Salomão. É considerado um dos maioresromancistas portugueses do século XIX.Seu estilo é marcado pela crítica e pela ironia.fonte: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/queiros.htmVidas lusófonas : http://www.vidaslusofonas.pt/eca_de_queiros.htm
  • 14. Fundação Eça de Queirós : http://www.feq.pt/eca_de_queiroz.htmlSegundo Benjamim Abdala Júnior, a obra de Eça e Queirós pode ser dividida em 3fases:1ª fase- Neorromântica, composta de algumas notas marginais.2ª fase- Realista –naturalista, em que se destacam O crime do padre Amaro, O primoBasílio e Os Maias3ª fase- Afastamento do Naturalismo, com destaque para A ilustre casa de Ramires e ACidades e as Serras. Interessante notar que o romancista insere uma certa ―fantasia‖,como fica evidente nessa sua última obra, em que Jacinto dispõe de excêntricasmodernidades. Quanto a essa última fase, Abdala Júnior completa:―Não temos mais o ceticismo irônico dos romances naturalistas, nem mesmo a insatisfaçãomelancólica das narrativas da primeira fase. Ao invés do pessimismo problemático, afirma-se ootimismo fácil, que deixaria satisfeito qualquer político da monarquia constitucional portuguesa,que o escritor anteriormente tanto criticara.( ABDALA, JR,1985, P.114‖ A Cidade e as Serras foi publicado após a morte de Eça de Queirós. Seu foconarrativo é interessante, o narrador em primeira pessoa não é o protagonista, é o quechamamos de narrador-testemunha. O narrador José Fernandes conta as peripécias eatribulações de Jacinto de Tormes, fidalgo português nascido em Paris:―Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como há sete anos, neste velho Paris... Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha iniciação: –Oh Jacinto, para que servem todos estes instrumentozinhos? Houve já aí umdesavergonhado que me picou. Parecem perversos... São úteis? Jacinto esboçou, com languidez, um gesto que os sublimava.–Providenciais,meu filho,absolutamente providenciais, pela simplificação que dão ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as penas velhas; o outro numerava rapidamente aspáginas de um manuscrito; aqueloutro, além, raspava emendas...(QUEIRÓS,2009, P.28)‖ Observe que a narração é em primeira pessoa, mas o protagonista da história éJacinto.,um milionário e um homem culto, que se cercava de luxo e de inúmerosamigos influentes e superficiais.―No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas,penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado,envolto num roupão branco de pêlo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda decristal, (por causa dos micróbios) eatulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola que o homem doséculo XIX necessita para não desfeiar o conjunto sumptuário da Civilização e manter nela oseu Tipo. (QUEIRÓS, 2009, P.33)‖ Mas sua vida era entediante, sem graça. Nada lhe dava prazer. Certo diaprecisou viajar para Portugal para reformar o cemitério de seus antepassados napropriedade rural de Tormes, Em um primeiro momento, Jacinto sente-se perturbado ater que viver no campo e abandonar os confortos da civilização. Contudo, aos poucos,apaixona-se pela vida no interior , casa-se e se torna um homem feliz, sem abandonaralguns privilégios da civilização.
  • 15. É uma clara defesa do retorno de Portugal às origens rurais, sem abrir mão dasmodernidades. Eça faz as pazes com sua terra natal. Veja esse trecho do último capítulo: ―Em fila começamos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor de estio.Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, comum aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava,num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam umbrilho mais vivo, numa pressamais animada. Vidraças distantes de casas amáveis, flamejavam com um fulgor de ouro. A serratoda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre averdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, de dentro do seu cesto,com a haste bem segura na mão. Era a bandeira do Castelo, afirmara ele. E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da natureza campestre emansa,–o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha primaJoaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu–, tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eternasolidez, com a alma‖. Grifos nossos (QUEIRÓS, 2009, p. 283) Observe como a serra é descrita em toda sua beleza e plenitude. O Príncipe,Jacinto, está mais moreno, casado com Joaninha, feliz passeando com seu filho. As ―amarguradas ilusões e falsas delícias‖ são uma referência à vida que Jacinto tinha juntoà Civilização.4- José Saramago - Ensaio sobre a cegueira José Sousa Saramago nasceu na pequena aldeia de Azinhaga em 1922, masdesde menino viveu com seus pais em Lisboa, mudando constantemente de casas,vivendo em condições de bastante pobreza. Fez o curso técnico de torneiro mecânico,profissão que exerceu vários anos. Trabalhou como jornalista em vários jornais, entreeles o Diário de Notícias, do qual acabou se tornando diretor. Não teve formaçãoacadêmica e conheceu a literatura por conta própria, explorando bibliotecas, foi um autode data. Sua imaginação foi alimentada pelo cinema e por seus avôs maternos, pessoassimples, sem estudo e primorosos contadores de histórias. É um dos escritores portugueses mais lidos e traduzidos no estrangeiro. Em 1991ganhou o Grande Prêmio APE, com o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo, e oPrêmio Camões em 1996 por toda a obra. Em 1998, ganhou o prêmio mais importantepara um escritor: o Prêmio Nobel da Literatura. Foi a primeira vez que um escritor em Língua Portuguesa ganhou esse prêmio. Saramago tem sido muito lido, estudado e admirado no Brasil. Sua obraMemorial do Convento já foi diversas vezes solicitada em vestibulares e concursos.Provavelmente a mais famosa atualmente seja Ensaio sobre a cegueira, que já foiadaptada para o cinema por Fernando Meireles. Em geral, Saramago procurou resgatar, através de suas obras, o passadohistórico de Portugal, recontando-o sobre outros prismas. O fluxo narrativo e apontuação estranha (sem travessões, sem vírgulas) tornaram-se sua marca registrada.Além do mais, sua postura crítica, irônica e assumidamente ateia, provou diversaspolêmicas ao longo de sua vida. Comentaremos brevemente alguns de seus romances, mas nos concentraremosno mais modelar e que, de certa forma, impulsionou sua carreira: Memorial doconvento.
  • 16. Vejamos algumas de suas obras, em uma lista bastante extensa:: Terra dopecado (romance, 1947; 2ª ed. 1997), Os poemas possíveis (poesia, 1966), Manual depintura e caligrafia (1977), Objeto quase (1978), Levantado do chão (1980); Que fareidom este livro? (teatro, 1980), Viagem a Portugal (1981), Memorial do convento(romance, 1982), O ano da morte de Ricardo Reis (romance, 1984), A jangada de pedra(romance, 1986), História do cerco de Lisboa (romance, 1989), O evangelho segundoJesus cristo (romance, 1991), In nomine Dei (teatro, 1993), Cadernos de Lanzarote(1994, diário i), Cadernos de Lanzarote (1995, diário ii), Ensaio sobre a cegueira(1995), O conto da ilha desconhecida(1997), Cadernos de Lanzarote (1996, diário iii),Cadernos de Lanzarote (1997, Diário iv), Todos os nomes (romance, 1997), Cadernosde Lanzarote (1998, diário v), A caverna (romance, 2000), O homem duplicado(romance, 2002), Ensaio sobre a lucidez (romance, 2004), A maior flor do mundo (literatura infantil, 2001), As intermitências da morte (romance, 2005), Pequenasmemórias (2006), Viagem de elefante(2008), Caim(2009) O grande escritor faleceu em 18/06/2010 na ilha de Lanzarote, arquipélago dasCanárias, na Espanha, onde morava há anos, em uma espécie de auto-exílio, comoprotesto à censura de seu livro Evangelho segundo Jesus Cristo, em 1991.FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO. Disponível em http://www.josesaramago.orgEntrevista para o Jornal da Globo Disponível em http://youtu.be/4XDmsXWlDqEEnsaio sobre a CegueiraEsse romance pode ser incluído em uma nova fase de Saramago, pois não há um cunhohistórico e sim uma reflexão filosófica sobre a condição humana.O fantástico e o insólito dominam a narrativa, em que as personagens não possuemnome ( o ―Médico’, ―A Mulher do Médico‖, ―A Rapariga dos óculos escuros‖.Segundo João Marques Lopes, a ideia de escrever Ensaio sobre a cegueira surgiuquando o escritor almoçava em um restaurante de Lisboa e não teria como influência,um fato ocorrido anteriormente, o deslocamento de sua retina, mas sim de uma espéciede inspiração, pensou em o que aconteceria se todos ficassem cegos. O enredo se inicia quando um motorista está parado no farol e fica, de repente,cego. Mas não é uma cegueira comum, é uma ― cegueira branca‖, leitosa. A partir dessefato, várias pessoas são contaminadas e ficam cegas. São trancafiadas em um velhohospital, como criminosos. Passam por situações sub-humanas, é a barbárie. Somente Amulher do médico é capaz de enxergar:―Tão longe estamos do mundo que não tarda que comecemos a não saber quem somos, nem noslembramos sequer de dizer-nos como nos chamamos, e para quê, para que iriam servir-nos osnomes, nenhum cão reconhece outro cão, ou se lhe dá a conhecer, pelos nomes que lhes forampostos, é pelo cheiro que identifica e se dá a identificar, nós aqui somos como uma outra raça decães, conhecemo-nos pelo ladrar, pelo falar, o resto, feições, cor dos olhos, da pele, do cabelo,não conta, é como se não existisse, eu ainda vejo, mas até quando.‖ (SARAMAGO, 1998,P.64).‖Observe como os seres humanos tornam-se animais ou objetos em meio ao caos:―Sentada, lúcida, a mulher do médico olhava as camas,os vultos sombrios,a palidez fixa de umrosto, um braço que se moveu a sonhar. Perguntava-se se alguma vez chegaria a cegar comoeles, que razões inexplicáveis a teriam preservado até agora. Num gesto cansado, levou as mãosà cara para afastar o cabelo, e pensou. Vamos todos cheirar mal. Nesse momento principiaram a
  • 17. ouvir-se uns suspiros, uns queixumes, uns gritinhos primeiro abafados, sons que pareciampalavras, que deveriam sê-lo, mas cujo significado se perdia no crescendo que ia transformandoem grito, em ronco, por fim em estertor. Alguém protestou lá no fundo, Porcos, são como osporcos. Não eram porcos, só um homem cego e uma mulher cega que provavelmente nuncasaberiam um do outro mais do que isso. (SARAMAGO,,1998, p.97-98).‖ É evidente a alegoria à cegueira da humanidade, não vemos o outro, não vemosos problemas que nos cercam, alienados e perdidos em meio ao caos. A misériahumana e a presença da escatologia tornam-se evidentes. Mas não pense que o texto traz uma mensagem pessimista, pelo contrário. Épreciso termos consciência da alienação em que nos encontramos para agirmos,mobilizar-nos contra ― a falta de humanidade do se humano.‖O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade deter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora ecomovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dosmaiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá umaexperiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramagonos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são astarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisaque não tem nome, essa coisa é o que somos".Sinopse: http://www.companhiadasletras.com.br/O filme de Fernando Meireles faz uma leitura interessante, vale a pena vê-lo ocontrastá-lo com a obra de Saramago.ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA (Blindness). Dir. Fernando Meirelles,120 min.BRASIL/CANADÁ/JAPÃO. 2008.Elenco: Mark Ruffalo, Julianne Moore, Alice Braga, Gael García Bernal.Literaturas africanas em Língua PortuguesaPara saber sobre as literaturas lusófonas, acesse os seguintes sites:LUSOFONIA: http://lusofonia.com.sapo.pt/. Acessado em 10 jul 2011REVISTA CRIOULA. Disponível emhttp://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/index.php. Acessado em 04 abr 2008.REVISTA VIA ATLÂNTICA:http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/index.html. Acessado em 10 abr 2008Moçambique1- Mia Couto -Terra sonâmbulaUm dos autores que se destacam na atualidade é Mia Couto ( Antônio Emílio LeiteCouto), nascido em Beira, Moçambique em 1955 é considerado por muitos como umdos melhores de sua geração. Segundo o autor, o apelido ―mia‖ se refere a sua paixãopor gatos. Jornalista e biólogo,possui uma vasta produção de contos e romances, em umestilo original, envolvente, cheio de neologismos e fatos insólitos, circulando entre o
  • 18. fantástico e o real. Suas obras têm sido traduzidas em diversas línguas e várias sãopublicadas no Brasil. A seguir uma listagem com algumas de suas obrass: Raiz de Orvalho(1983),Vozes anoitecidas (1986),Cada Homem é uma Raça (1990), Cronicando (1991), TerraSonâmbula (1992), Estórias abensonhadas (1994), A Varanda do Frangipani (1996), Oúltimo voo do flamingo (2000), Um rio chamado tempo,uma casa chamada terra( 2002),Fio de Missangas (2004), Chuva pasmada(2004),Outro pé da sereia (2006), O beijo dapalavrinha (2008),Venenos de Deus, Remédio do Diabo (2008) A seguir alguns trechos de Terra sonâmbula, romance que retrata o pós-guerraem Moçambique, uma terra devastada pela qual pessoas caminham perdidas,sonâmbulas, em busca de um horizonte. Há dois focos narrativos, primeira e terceirapessoa.Histórias e personagens se cruzam. Primeiramente , temos o uso da 3ª pessoa , um narrador onisciente :―Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam,focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em coresque se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza,esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E osviventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está maisdeitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carrosincendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam omundo a desflorir. Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como secaminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando ovindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda asua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. (…) (COUTO, 1992, P. 1) ―Vocabulário:Bermas: caminhos estreitosEmbondeiros: árvores típicas da região Nos capítulos em que usa a 3ª pessoa, temos a história do menino Muindiga e ovelho Tuhair, sobreviventes da guerra,perdidos em busca de alimento e um lugar paradormir. Muidinga encontra uns cadernos os cadernos do sonhador Kindzu, que olevam a suportar tanta miséria e crueldade. Assim, quando lemos as narrativas de Kindzu, em forma de diários, temos o usoda 1ª pessoa. O rapaz vive durante a guerra. relata sua infância, suas aventuras e seussonhos.:―Depois, os tiroteios foram chegando mais perto e o sangue foi enchendo nossos medos. Aguerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulavaagora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saímos, de noite não sonhávamos. O sonhoé o olho da vida. Nós estávamos cegos. Aos poucos, eu sentia a nossa família quebrar-se comoum pote lançado no chão. Ali onde eu sempre tinha encontrado meu refúgio já não restava nada.Nós estávamos mais pobres que nunca. ( COUTO, 1992, P. 10)‖ Nas narrativas de Kindzu é que encontramos os relatos mais fantásticos, em umamistura de religiosidade e crenças africanas. No trecho a seguir, o rapaz conversa comseu pai morto:―Meu pai me surgiu no sonho, perguntando:- Queres sair da Terra?- Pai, eu já não aguento aqui. Fecho os olhos e só vejo mortos, vejo a morte dos vivos, a mortedos mortos.
  • 19. -Se tu saíres terás que me ver a mim: hei-de-te perseguir, vais sofrer para sempre as minhasvisões... ( COUTO, 1992, P. 25)‖ Nessa obra riquíssima, Mia Couto expõe toda a sua habilidade com amanipulação da linguagem, assim como seu talento para contador de histórias. Um aspecto que chama atenção nessa obra é a importância dada tanto a leituracomo para a escrita literária, como forma de humanização e veículo para a própriasobrevivência. É através da leitura que Muindinga consegue sobreviver à miséria, àfome e a falta de perspectiva. O velho Tuhair não sabe ler , mas não consegue dormirsem ouvir as histórias de Kindzu.Já o jovem guerreiro precisa escrever para encontrar um rumo para sua vida, refletirsobre seu passado e almejar um certo futuro:―Os cadernos de Kindzu se tinham tornado o único acontecer naquele abrigo. Procurar lenha,cozinhar as reservas da mala, carregar água: em tudo o rapaz se apressava [...}. ―Os escritos deKindzu lhe começam a ocupar a fantasia‖. (COUTO, 1992, p.25- 37).‖Veja uma entrevista com Mia Couto:. Disponível emhttp://www.youtube.com/watch?v=SzNedHwwPmI.Filme: Terra Sonâmbulahttp://www.youtube.com/watch?v=3zR5TH-YixESinopse:Sinopse:Duas histórias separadas pela guerra e unidas por um diário. Entre a Guerra Civil e ashistórias de um diário perdido, Muidinga e Tuahir são os heróis deste filme. Muidinga lêno diário, encontrado ao lado de um cadáver, a história de uma mulher que encerradanum navio procura o filho. Muidinga convence-se que é o menino procurado no diário.Vai então ao encontro da mulher, com Tuahir, um velho seco e cheio de histórias que otrata como filho. A viagem é dura: eles movem-se entre refugiados em estado de delírio.Para não enlouquecerem, têm-se um ao outro. A estrada por onde caminham, comosonâmbulos, é mágica: entende os seus desejos e move-os de um lugar a outro, não osdeixando morrer enquanto eles não alcançarem o tão sonhado mar. Os dias são de fuga,dos guerrilheiros e da fome, as noites são de busca de uma história de aventuras.Ficha Técnica:Realização: Teresa PrataArgumento: Teresa Prata (adaptação da obra de Mia Couto)Produtor: António da Cunha Telles e Pandora da Cunha TellesAno: 2007Gênero: DramaDuração: 98’2- Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos) - Mayombe.Pepetela, de nome próprio Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, nasceu emAngola, na província litoral de Benguela, aos 29 de Outubro de 1941. Descendente deuma família colonial, os seus pais eram, no entanto, já nascidos em Angola.
  • 20. Foi em sua cidade natal que Pepetela fez o ensino primário, depois partiu paraLubango, onde seria possível prosseguir os estudos.No Liceu Diogo Cão, Pepetelacompletou o ensino secundário. Lisboa, em 1958, foi o destino acadêmico que se seguiu, no Instituto SuperiorTécnico que o autor freqüentou até 1960 quando ingressou no curso de Engenharia.Uma vez mais houve a mudança, desta vez para freqüentar o curso de Letras apenasdurante um ano, pois, ainda em 1961, Pepetela fez a opção política que viria a mudar orumo da sua vida e a marcar toda a sua obra, tornando-o um narrador de uma história deAngola que vivenciou. Assim, através de seu espírito intelectual e revolucionário,assume-se, na maioria de suas obras, como testemunha da história angolana. Após a sua fuga para o exílio, Pepetela tornou-se militante do MPLA em1963.Em Argel, licenciou-se em Sociologia. Já no período de guerra, foi durante muito tempo responsável pela Educaçãojunto à Frente Leste, considera-se, dessa forma, que o livro As Aventuras de Ngungafoi escrito nessa altura com a intenção de ser usado para fins educacionais. Em plenaluta armada, apareceram trezentos exemplares mimeografados. O menino Ngunga eraum exemplo a ser seguido, sendo que aprender a ler era também defender a revolução. Já em Angola, depois da Independência, integrou os quadros do MPLA, sendoenviado primeiro para Benguela, em 1975, como diretor do Departamento deOrientação Política do MPLA, mas, perante a situação de guerra, assumiu as funçõesmilitares como Comandante. Durante a invasão sul africana fez o recuo de Benguela,nessa altura doente, com uma hepatite grave, regressou a Luanda por altura daindependência do país em novembro. Recuperado da doença, deixou as Forças ArmadasAngolanas e foi para o Lubango dar aulas. Através da leitura de Mayombe, podemos ter um panorama bem realista doconfronto armado que ocorrera. Pepetela regressou a Luanda em outubro de 1976quando foi nomeado Vice - Ministro da Educação, cargo que exerceu até 1982. Grande parte da sua produção foi publicada após a independência, como ocorreucom muitos dos ficcionistas angolanos. Os dias de alta tensão entre o colonizador e ocolonizado são vivenciados pela maioria de seus heróis. Há também o resgate dotradicional mesclado às questões históricas. O tema comum a todas às suas obras é aconstrução da nacionalidade, a formação da nação angolana.Muana Puó - Romance escrito em 1969 e publicado em 1978. Mayombe - Romance escrito entre 1970 e1971 e publicado em 1980. As Aventuras de Ngunga - Romance escrito e publicado em 1973. A Corda -Peça teatral escrita em 1976. A Revolta da Casa dos Ídolos - Peça teatral escrita em 1978 e publicada em1979. O Cão e os Calus - Romance escrito entre 1978 e 1982 e publicado em 1985. Yaka - Romanceescrito em 1983 e publicado em 1984 no Brasil e em 1985 em Portugal e em Angola. Lueji, oNascimento de um Império - Romance escrito entre 1985 e 1988 e publicado em 1989. Luandando -Crônicas sobre a cidade de Luanda escritas e publicadas em 1990. A Geração da Utopia - Romance quecomeçou a ser escrito em 1972 e publicado em 1994. A Gloriosa Família, o Tempo dos Flamingos -Romance publicado em 1997. O Desejo de Kianda - Romance escrito em 1994 e publicado em 1995. AParábola do Cágado Velho - Romance. Começou a ser escrito em 1990 e foi publicado em 1997. AMontanha da Água Lilás, fábula para todas as idades - Romance publicado em 2000. Jaime Bunda, oagente secreto - Romance publicado em 2002. http://www.vidaslusofonas.pt/pepetela.htmTrecho- “Pepetela- Romance e utopia na história de Angola” de Rita Chaves― Organizados contra um inimigo comum e mais poderoso, os guerrilheiros devem vencertambém os fantasmas deixados como herança pelo sistema colonial : o racismo, o tribalismo, oregionalismo como conflito. O ―tuga‖, como eram chamados os portugueses, já não tem sequerestatuto de personagem essencial. Como uma espécie de figuração é só uma sombra que corta ocaminho dos guerrilheiros. Embora a situação da guerra colonial seja evidente no texto, oromance, escrito mesmo nos intervalos do combate por um escritor fisicamente empenhado naluta, avança no tempo e refere-se a problemas que virão depois. Prevista, a vitória é assumidacomo um dado de realidade e essa certeza converte-a numa forma de inexorabilidade que ergue
  • 21. impasses e registra a necessidade de soluções. A situação aguda da crise não esbate aconsciência de que a vitória significará harmonia; a relativização do alcance dos resultados éindício da profundidade de visão de quem não hesita em investir na ação. As várias falas dosnarradores, compondo um vivo mosaico de propostas e sensibilidades, sinalizam para aprecariedade da integração que ali se vive. Contra os riscos da desagregação como norma, seabre uma rede utópica permeada também pelas nuances de um discurso edificante.‖Trecho do texto: “O romance como documento social” de Carlos Serrano:―O romance de Pepetela é aqui tomado como um documento social pois, apesar de ficção, ele éescrito no momento de vivência do autor, onde o escritor, o militante e o cientista social, serelacionam intimamente para, através desta obra, captarem, uma realidade que faria parte deuma ―história imediata‖.Este ―olhar de dentro‖ ou ―observação participante‖, procedimentometodológico tão caro a uma antropologia, podem constituir de certa forma a estratégiavivenciada pelo autor para explicitar os diversos discursos dos ―narradores‖ (personagens) eatores sociais, tornando-os sujeitos da história e revelando a consciência de si na luta delibertação nacional.Pepetela, ao dar primazia ao ―narrador‖, revela ainda esta dimensão da oralidade, comum àssociedades africanas, e importante no resgate das suas identidades. Identidade que se constróipela memória dos narradores fictícios (personagens e/ou atores e pelo próprio autor).Convém referir aqui o romance Mayombe, do autor angolano Pepetela, como um modelo deanálise da organização do Combate, que retrata a luta por meio de personagens que vivem aproblemática dos valores e contradições do momento político em questão. Sendo narrado pordiversos militantes, temos deste modo visões múltiplas e pessoais do tempo e do espaço poraquelas vivenciados. Este romance parece-nos altamente pedagógico pela forma com que nelese explicitam as contradições existentes dentro desse processo, relacionadas sobretudo àdiversidade cultural e étnica dos elementos que compunham o Exército de Liberação Nacional.É narrado por uma multiplicidade de pessoas, todas militantes do MPLA, que participaram daguerrilha em Mayombe, floresta tropical em Cabinda, constituindo a 2ª Região político-militardo MPLA. O partido está ausente mas ele se faz presente mediante a fala do delegado local. Ospersonagens que assumem a narrativa do romance fazem-no sempre na primeira pessoa. Cadapersonagem desenvolve uma reflexão autônoma a respeito das suas motivações enquantolutadores pela independência, motivações estas que são singulares na medida em que as origensde cada indivíduo se tornam e se apresentam diferentes.‖Trecho do romance―Meu pai era um trabalhador bailundo da Diamang, minha mãe era um kimbundo do Songo. Omeu pai morreu tuberculoso com o trabalho das minas, um ano depois de eu nascer. Nasci naLunda no centro do diamante. O meu pai cavou com a picareta a terra virgem, vagões de terra,que ia ser separada para dela se libertarem os diamantes. Morreu num hospital da companhia,tuberculoso. O meu pai pegou com as mãos rudes milhares de escudos de diamantes. A nós nãodeixou um só, sequer o salário de um mes. O diamante -lhe no peito, chupou-lhe a força,chupou, até que ele morreu .O brilho do diamante são as lágrimas dos trabalhadores daCompanhia. A dureza do diamante é ilusão : não é mais que gotas de suor esmagadas pelastoneladas de terra que o cobrem.Nasci no meio de diamantes sem os ver. Talvez porque nasci no meio de diamantes, aindajovem senti atrações pelas gotas do mar imenso, aquelas gotas-diamante que chocam contra ocasco dos navios e saltam para o ar, aos milhares, com o brilho leitoso das lágrimas escondidas.O mar foi por mim percorrido durante anos, de norte para sul, até a Namíbia, onde o desertovem misturar-se com a areia da praia, até ao Gabão e ao Ghana, e ao Senegal, onde o verde daspraias vai amarelecendo, até de novo se confundir com elas na Mauritânia, juntando a África doNorte à África Austral, no amarelo das suas praias. Marinheiro do Atlântico, e mesmo do Índicoeu fui. Cheguei até a Arábia, e de novo, encontrei as praias amarelas de Moçâmedes e Benguela,onde cresci. Praias de Benguela, praias da Mauritânia, praias da Arábia, não são as amarelaspraias de todo o Mundo?.......................................................................................................
  • 22. Onde eu nasci, havia homens de todas as línguas vivendo nas casas comuns e miseráveis daCompanhia. Onde eu cresci, no Bairro Benfica, em Benguela, havia homens de todas as línguas,sofrendo as mesmas amarguras. O primeiro bando a que pertenci tinha mesmo meninos brancos,e tinha miúdos nascidos de pai umbundo, tchokue, kimbundo, fiote, kuanhama...........................................................................................................................Querem hoje que eu seja tribalista?De que tribo ? pergunto eu. de que tribo, se eu sou de todas as tribos, não só de Angola, comode África ? Não falo eu o swahili, não aprendi eu o haussa com um nigeriano ? Qual é a minhalíngua, eu, que não dizia uma frase sem empregar palavras de línguas diferentes ? E agora, queutilizo para falar com os camaradas, para deles ser compreendido ? O português . A que tribopertence a língua portuguesa ?Eu sou o que é posto de lado porque não seguiu o sangue da mãe kimbundo ou o sangue do paiumbundo. Também Sem Medo, também Teoria, também o Comissário, e tantos outros mais.A imensidão do mar que nada pode modificar ensinou-me a paciência. O mar une, estreita, omar liga. Nós também temos o nosso mar interior, que não é nem o Kuanza, nem o Loje, nem oKunene. O nosso mar, feito de gotas-diamante, suores e lágrimas esmagados, o nosso mar é obrilho da arma bem oleada que faísca no meio da verdura do Mayombe, lançando fulgurões dediamante ao sol da Lunda. Eu, Muatiânvua, de nome de rei, eu que escolhi a minha rota no meiodos caminhos do Mundo, eu, ladrão, marinheiro, contrabandista, guerrilheiro, sempre à margemde tudo ( mas não é a praia uma margem ? ) , eu não preciso de me apoiar numa tribo parasentir a minha força. a minha força vem da terra que chupou a força de outros homens, a minhaforça vem do esforço de puxar o cabo e dar à manivela e de dar murros na mesa duma tabernasituada algures no Mundo, à margem da rota dos transatlânticos que passam, indiferentes, semnada compreenderem do que é o brilho-diamante da areia duma praia.‖Mayombe, p. 138-140Literatura FrancesaRealismo( Influências sobre Machado de Assis e Eça de Queirós)1- Gustave Flaubert- Madame Bovary Flaubert foi um dos autores mais importantes do Realismo, influenciado pelas teoriascientíficas, pela Revolução Industrial e pela linha filosófica de Augusto Comte, o positivismo.Ele levou à perfeição o ideal do romance realista de harmonizar a arte e a realidade. Sua obra secaracteriza pelo cuidado minucioso com a linguagem e pela estrutura do enredo. Influencioutoda uma geração de escritores, inclusive Eça de Queirós. Seu romance de estreia foi Madame Bovary, um retrato crítico da hipocrisia dasociedade burguesa e romântica. A obra foi resultado de cinco anos de um trabalho minucioso.Em linhas gerais, o enredo gira em torno da história de Emma, uma moça sonhadora que se casacom um médico provinciano, Charles Bovary. Sua vida é sem graça, ociosa, muito diferente deseus ideais. O marido é um simplório. Emma sente-se muito infeliz, repugna seu marido e, parafugir de sua vida medíocre, entrega-se ao adultério. Materialista e inconsequente, gasta o quenão possui e envolve-se em dívidas absurdas. Atualmente o termo ― bovarismo‖ é utilizado para demonstrar a incapacidade de se lidarcom o mundo real. Veja a seguir um trecho do texto do professor Antônio Apolinário Lourenço a respeitodos 150 anos da publicação de Madame Bovary e sua influência na obra de Eça de Queirós:Concretizaram-se, no ano há pouco terminado, cento e cinquenta anos sobre a publicação emlivro de Madame Bovary, o genial romance de Flaubert. Estranhamente, a efeméride passouentre nós praticamente despercebida, apesar da enorme influência que essa obra e o seu autorexerceram sobre a literatura portuguesa, a partir do final do século XIX.
  • 23. Para Eça de Queirós, em particular, Gustave Flaubert foi permanentemente um mestre eum modelo. Logo em 1871, quando o futuro autor d’Os Maias apresentou no CasinoLisbonense a sua conferência sobre o realismo na arte, com um discurso demasiado colado aodo livro de Proudhon intitulado Du Principe de l’art et de sa destination sociale, os parágrafosmais originais foram justamente aqueles que dedicou a Madame Bovary. A conferência, comose sabe, é apenas conhecida pelos relatos da imprensa da época (neste caso, o Diário Popular de15 06 1871): Para exemplificar a doutrina do realismo, citou o Sr. Eça de Queirós Madame Bovary, océlebre livro de Gustave Flaubert, no qual o adultério tantas vezes cantado pelos românticoscomo um infortúnio poético que comove perniciosamente a susceptibilidade das almascândidas, nos aparece pela primeira vez debaixo da sua forma anatómica, nu, retalhado edescosido fibra a fibra por um escalpelo implacável. O efeito é surpreendente e terrível. Constatamos, assim, que foi a leitura de Madame Bovary que fez Eça compreender asuperioridade civilizacional e ética do Realismo sobre o Romantismo. Outros autores, como osirmãos Goncourt e Émile Zola, em França, sentiram, perante Madame Bovary, umdeslumbramento idêntico ao de Eça. E enquanto Edmond et Jules de Goncourt criavam, comGerminie Lacerteux, uma espécie de Bovary das classes baixas, Zola procuraria, igualmente apartir do romance de Flaubert, desenhar o modelo técnico-narrativo do romance naturalista.2Observe que o tema do adultério já aparecia no Romantismo, mas como um infortúnio, um azardo destino. Já no Realismo, ele aparece de forma crua, direta.“Madame Bovary é um romance escrito por Gustave Flaubert que resultou num escândalo aoser publicado em 1857. Quando o livro foi lançado, houve na França um grande interesse peloromance, pois levou seu autor a julgamento. Madame Bovary é uma obra capital naliteratura do seu tempo, um daqueles livros que dão início a uma época literária.Tomando propositadamente um tema sem grandeza aparente, Flaubert quis obrigar oseu talento a enfrentar dificuldades técnicas que o levassem a vencer o romantismoexacerbado que o dominava. O resultado foi a obra-prima que o leitor tem em mãos eque Émile Zola descreveu da seguinte maneira: «Quando Madame Bovary apareceu, foiuma completa revolução literária. Teve-se a impressão de que a fórmula do romancemoderno, esparsa pela obra colossal de Balzac, fora reduzida e claramente enunciadanas quatrocentas páginas de um único livro. Estava escrito o código da nova arte».‖Há três versões do filme Madame Bovary: dos diretores Jean Renoir [1933] ,VincenteMinelli [1949] e Claude Chabrol [1991].Título Original: Madame Bovary Gênero: Drama Tempo de Duração: 136 minutosAno de Lançamento (França): 1991 . Direção: Claude Chabrol.Elenco: Isabelle Huppert, Jean-François Balmer, Christophe Malavoy, Jean Yanne, Veja um trecho do filme de Chabrol no vídeo:http://www.youtube.com/watch?v=LjSENBFJ-Y0&feature=relatedLeia um trecho do romance em que Charles Bovary atende a um doente que machucaraa perna, o pai de Emma. É a primeira vez que vê sua futura esposa:2 LOURENÇO, A.A.Madame Bovary, 150 anos depois Disponívelem:<http://olamtagv.wordpress.com/textos-seleccionados/madame-bovary-150-anos-depois> acessado em fevereiro de 2008.
  • 24. ― Uma jovem, com um vestido de merino azul enfeitado com três folhos, apareceu à portada casa, para receber mo o Sr. Bovary, e o fez entrar na cozinha, onde ardia um bom fogo. FO almoço dos criados fervia ao redor em pequenas panelas de diferentes tamanhos. Algumasroupas úmidas secavam na lareira. A pá, as pinças e os foles,, todos de proporções colossais,brilhavam como aço polido enquanto, ao logo dos muros, estendia-se uma abundante bateria decozinha, onde se refletiam, de forma desigual, a chama clara do fogão juntamente com osprimeiros raios do sol que entravam pelas vidraças. (...)Charles surpreendeu-se com a brancura de suas unhas. Eram brilhantes, a com extremidadesfinas mais limpas do que os marfins de Dieppe* e amendoadas. Suas mãos, contudo, nãoeram bonitas, não eram suficientemente pálidas, talvez, e um pouco secas nas falanges;eram demasiado longas também e sem suavidade nos contornos. O que tinha de belo eramos olhos: embora fossem castanhos, pareciam pretos, por causa dos cílios, e seu olharatingia o interlocutor com franqueza e com uma cândida ousadia.FLAUBERT( 2010, p.27 e28)‖*Dieppe: cidade francesa Notamos aqui algumas características realistas que veremos a seguir, como adescrição detalhada e a não idealização da mulher, como faziam os românticos. Emmaparece uma pessoa comum, não uma deusa. Suas mãos não são bonitas, mas seus olhaspossuem um certo mistério.Naturalismo ( Influências sobre Eça de Queirós e Aluízio Azevedo)2- Émile Zola-Germinal Émile Zola foi o fundador e o principal representante do movimento literárionaturalista. Inspirado na filosofia positivista e na medicina da época, Zola acreditavaque a conduta humana é determinada pela herança genética, pela fisiologia das paixõese pelo ambiente, conforme vimos, trata-se do Determinismo de Taine. Zola afirmou no ensaio "O romance experimental" (1880), que odesenvolvimento dos personagens e das situações deve ser determinado de acordo comcritérios científicos similares aos empregados nas experiências de laboratório. Para ele,a realidade deveria ser descrita de maneira objetiva, por mais sórdidos que pudessemparecer alguns aspectos. As características mais marcantes de sua obra, presentes também nos demaisautores naturalistas, são:―1) Em primeiro lugar, a visão do homem como um animal, movido pela eternasatisfação de suas necessidades biológicas e pela adaptação ao seu meio. Repetidasvezes, Zola descreve as ações e o comportamento de seus personagens humanos comopróprias de animais, ou então descreve animais como dotados de comportamento quasehumano (como o cavalo Batalha, o "filósofo").2) Em segundo lugar, a ação humana é muito influenciada por questões patológicas naobra de Zola. O desenvolvimento da vida de seus personagens depende muito dasdoenças as quais os mesmos estão submetidos. Obviamente, isso decorre da busca defundamentação científica para descrever o comportamento humano pelo autor. Assim,enquanto os mineradores, por estarem em contato com mais doenças, já são descritosfisicamente e psicologicamente como adultos logo na puberdade, os jovens burguesesmesmo depois dos vinte anos ainda são vistos como crianças.
  • 25. 3) O determinismo pelo meio. Sendo o homem um animal como todos os outros, viveem busca de se adaptar ao seu meio. Portanto, o meio é um fator determinante aocomportamento humano; é mais forte do que qualquer ação individual. No livro, pormais que fosse sofrida a vida dos mineiros de Montsou, eles nunca conseguiam viversem trabalhar nas minas, ou então ir embora. Eles parecem biologicamente presos a suacondição, passando de geração para geração.4) O instinto. Apesar de viver em uma época em que as pessoas intelectualizadas tinhamplena fé no desenvolvimento científico e na racionalidade humana, Zola põe nairracionalidade, isto é, nos surtos emocionais de seus personagens, um fator de extremaimportância no enredo. Por exemplo, a revolta dos mineradores contra seus patrõesdecorre muito mais do simples ódio de classe do que um movimento racional paraelevar os seus salários.5) O niilismo. O sofrimento e a injustiça são elementos freqüentes no comportamentohumano. Mas, para uma sociedade de animais medíocres, irracionais e presos ao seumeio, por mais revoltante que ele seja, como a sociedade humana, melhoras sãopraticamente impossíveis.Em termos de enredo, o livro conta a história de Etienne, um trabalhador qualificadocom impulsos socialistas, que por ser demitido de seu antigo emprego por brigar comseu ex-patrão, consegue um emprego de minerador em Montsou. Trabalhando com osdemais mineradores, muito mais embrutecidos que ele, Etienne acaba se incorporandoao ambiente de pobreza, promiscuidade e ignorância da comunidade de mineradores.Contudo, por sua natureza socialista e intelectual o faz tornar-se um líder carismático desua comunidade, incitando os trabalhadores contra seus patrões. Contudo, antes deprovocar um luta de classes no sentido marxista do termo, o personagem provoca umarevolta dos humanos contra o seu meio natural, que é muito mais forte do que eles.A corrente de romance naturalista, mesmo que tenha sido fundamental para odesenvolvimento da literatura ocidental no final do século XIX, e tendo influenciadomuitas das escolas modernas, tem a sua metodologia de análise do comportamentohumano bastante ultrapassada aos olhos da ciência dos dias atuais. Atualmente, ospesquisadores sociais não acreditam mais no determinismo sobre o homem, isto é,fatores ambientais, patológicos e sociais podem influenciar o comportamento humanoem uma escala que depende de indivíduo para indivíduo. Mas há um fator deindividualidade (presente inclusive no DNA de cada pessoa) que não pode serdescartado sobre o comportamento, que diferencia as pessoas entre si, e que as fazemtomar ações distintas e criativas, podendo dessa forma se desvincular de seu meiosocial.‖ A história de Germinal é baseada em fatos verídicos e retrata a primeira greve demineiros no Norte da França no final do século XIX. Zola viveu dois meses nessasminas de carvão para poder descrever fielmente o que acontecia. É a época da criaçãoda I Internacional Operária, fundada com a participação de Karl Marx em Londres –momento de ebulição política, crise econômica, falências, miséria e fome na Europa.
  • 26. Veja um trecho retirado do primeiro capítulo, quando Etienne chega às minaspara procurar emprego:―Como continuar assim pelos caminhos, sem destino, não sabendo sequer onde abrigar-se dovento frio? Sim, era de fato uma mina, os raros lampiões iluminavam o pátio, uma portasubitamente aberta permitira-lhe vislumbrar as fornalhas das caldeiras das máquinas envoltasnuma claridade viva. Encontrava explicação até para o escapamento da bomba, essa respiraçãogrossa e ampla, resfolegando sem descanso, e que era como a respiração obstruída do monstro.O encarregado da descarga dos vagonetes, de costas curvadas, nem mesmo levantara os olhospara Etienne. No momento em que este ia apanhar seu pequeno embrulho que estava no chão,um acesso de tosse anunciou-lhe a volta do carroceiro. Lentamente ele surgiu do escuro, seguidopelo cavalo baio que puxava outros seis vagonetes cheios.— Há fábricas em Montsou? — perguntou o rapaz.O velho escarrou preto antes de responder em meio à ventania:— Fábricas é o que não falta. Você precisava ver há três ou quatro anos: tudo produzindo,faltava mão-de-obra, nunca se ganhou tanto. E, de repente, começa-se a apertar o cinto. Umaverdadeira desgraça cai sobre a região, o pessoal é despedido, as oficinas começam a fecharuma após outra. Talvez não seja culpa do imperador, mas que necessidade tem ele de ir lutar naAmérica? E isso tudo sem contar os animais que morrem de cólera, como as pessoas.(ZOLA,2006 p. 4 e 5)‖Observamos o descritivismo, já existente no Realismo, mas de uma forma maiscontundente. Aspectos escatológicos, como o home cuspir, são comuns nessa estética.Filme: Germinal. Dir. Claude Berri. FRANÇA, 158 minutos. 1993.(Com Gerárd Depárdieu)Vídeo com trecho do filme Germinal :http://www.youtube.com/watch?v=eNORsDsZxSE