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Bom Crioulo [1895]       Adolfo Caminha [1867-1897]            Versão para eBook            eBooksBrasil.com              ...
ÍNDICE  O AutorBOM CRIOULO    1234   56789   10 11 12
O Autor                  Adolfo Caminha  Nome literário: CAMINHA, ADOLFO  Nome completo: ADOLFO FERREIRA CAMI-NHA  Pseudôn...
lher e duas filhas segue para o Rio de Janeiro, ondevive como funcionário publico. Em 1891, fundou, emFortaleza, a Revista...
Bom-criouloAdolfo Caminha
1     A velha e gloriosa corveta que pena! já nem se-quer lembrava o mesmo navio doutrora, sugestivamentepitoresco, idealm...
Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, in-dício algum de criatura humana fora daquele estreitoconvés: água, somente...
O tenente que estava de quarto no passadiço con-feriu o relógio dalgibeira, um belo cronômetro de ourocomprado em Toulon, ...
Pronto! disse levando a mão ao boné com um jei-to marcial.      Toca mostra, ordenou o tenente.     Às primeiras notas da ...
da corveta caturrando...      Agüenta!     Por fim apareceu o comandante abotoando a luvabranca de camurça, teso na sua fa...
como o de uma sentinela noturna.     A luz intensa do sol caía do alto, pondo brilhos demalacacheta no cristal imenso do m...
adolescente havia uns longes de melancolia serena, as-sim como uma precoce morbidez sintomática... um se-creto arrependime...
velmente munido de um apito de prata, não se afastan-do nunca de suas obrigações.       Caboclo macho! diziam os companhei...
mentar-lhe a flexibilidade.      Não, não: com a camisa...     E solto agora dos machos, triste e resignado, Her-culano se...
dos companheiros atirando-lhes palavrões de regateiraaprendidos ali mesmo a bordo.      Bastava isto para que ele desenrol...
com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpoa corpo, aos trambolhões, acordando os que dormiampor ali o bom sono da...
Agostinho vergou o junco e, resolutamente, seminquirir cousa alguma, com um risinho de instintivamalvadez no canto da boca...
tigo.      Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro,muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desa-fiando,...
cunho de flexibilidade e destreza felinas.      Com efeito, Bom-Crioulo não era somente umhomem robusto, uma dessas organi...
O motivo, porém, de sua prisão agora, no alto mar,a borda da corveta, era outro, muito outro: Bom-Criou-lo esmurrara desap...
um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naque-le costão negro as marcas do junco, umas sobre as ou-tras, entrecruzand...
2     Inda estava longe, bem longe a vitória doabolicionismo, quando Bom-Crioulo, então simples-mente Amaro, veio, ninguém...
de sua vida, numa espécie de jaula com grades de fer-ro, Amaro, que só temia regressar à fazenda, voltar aoseio da escravi...
magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda aexistência; nunca mais o havia de esquecer, ó, nuncamais! Ele, o esc...
Amaro soube ganhar logo a afeição dos oficiais.Não podiam eles, a princípio, conter o riso diante da-quela figura de recru...
dizes, triste por não ter ficado, sonhando histórias deviagens, cousas que havia de ver, quando pela primeiravez saísse pe...
contrário marinheiro que lhe caísse nas graças era tra-tado a vinho do Porto...      Bom-Crioulo exultava!      O embarque...
Parecia-lhe ouvir ainda, na proa do transporte,como as últimas reminiscências de um sonho, a vozdos companheiros abraçando...
te, como o braço mais forte, o peito mais robusto debordo. Os grandes pesos era ele quem levantava, paratudo aí vinha Bom-...
crificando-se inutilmente. Afinal a gente aborrece...Um pobre marinheiro trabalha como besta, de sol a sol,passa noites ac...
ladrão do negro estava mesmo ficando sem vergonha!E não lhe fossem fazer recriminações, dar conselhos...Era muito homem pa...
ra-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia!Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança dequinze anos, abal...
em colher cabos e arear os metais, quando não se ocu-pava na ronda pela noite.      Bom-Crioulo metia-lhe medo a princípio...
deixara-o ele no alto mar ou nas terras por onde anda-ra. Agora tratava com desdém os superiores, abusandose esses lhe faz...
3     À calmaria equatorial da véspera sucedera, feliz-mente, uma viração fresca e reparadora, crispando alarga superfície...
ficasse flutuando, flutuando por toda a eternidade. EraBom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se,como um pássar...
contrário, sempre fora indiferente a certas cousas, pre-ferindo antes a sua pândega entre rapazes a bordo mes-mo, longe da...
erradio no azul inconsútil.      O castigo por causa do Aleixo trouxera-lhe outroprejuízo: no mesmo dia deixou ele o cargo...
cuidou primeiro em lisonjear a vaidade de Aleixo, dan-do-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio deJaneiro para que e...
irrepreensível na sua toilette de sol, a gola azul dura degoma, calças boca-de-sino, boné de um lado, coturnoslustrosos.  ...
mo horizonte da corveta ia passando uma velinha tri-angular de jangada, microscópica e fugitiva. Pela alhetade boreste vin...
dia, num comodozinho de quinze mil-réis onde cou-bessem duas camas de ferro, ou mesmo uma só, larga,espaçosa... Ele, Bom-C...
sua luz triste através das nuvens, irisando-as de umafaixa multicor e brilhante, espécie de auréola, que des-cia para o ma...
pelo meio... Chuva copiosíssima alagava o convés obri-gando os marinheiros a se arregaçar, encharcando aspilhas de cabo, n...
Marinheiros vassoiravam o convés, enquanto ou-tros iam passando o lambaz onde já não havia água. Decima, da tolda, ouvia-s...
remo: vuco, te vuco..., vuco, te vuco... Segura-te, meufilho! E o vento cada vez mais forte, zunindo no ouvi-do que nem o ...
E nada de serenar o vento!      Naquele caminhar, cedo se estaria em terra. Cousatalvez de um dia mais...      Enquanto nã...
guém se lembra de dormir, de fechar os olhos à paisa-gem translúcida e fria do luar tropical varrida pelo ventosul. Mister...
nolência profunda, espalhada por ali ao relento, numadesordem geral de ciganos que não escolhem o terrenopara repousar. Po...
fim, o seu forte desejo de macho torturado pelacarnalidade grega.      Por vezes tinha querido sondar o ânimo dogrumete, p...
Crioulo, aconchegando-se ao grumete, disse-lhe qual-quer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, semrespirar. Encolhi...
4    Amanhecera um belo dia de sol, quente, luminoso,de uma transparência fina de cristal lavado.     Logo pela madrugadin...
faixa de areia, muito estreita, do outro lado (e estendiao braço por cima do ombro do pequeno), beirando aágua, chamava-se...
do e arriando bandeiras. Entre esses havia uma grandecouraçado ao lume dágua, raso, chato e bojudo, comuma flâmula azul no...
aceno, a um simples olhar. Onde quer que estivessemhaviam de se lembrar daquela noite fria dormida sob omesmo lençol na pr...
força para resistir: a natureza pode mais que a vontadehumana...     Começou a faina de arriar escaleres, uma lufa-lufabar...
Bom-Crioulo que se debruçara na amurada, assimque o viu saltar no escaler: Inglês bruto! murmurouentre dentes, e ficou-se ...
presa, e sentiu-se alagado. Oh! ... Passou a mão nolugar úmido, tateando, e verificou, cheio de indigna-ção, cheio de tédi...
E muito carinhoso:       Espero em Deus estrear hoje...      Faltava, entretanto, a licença do grumete. Aleixonão se anima...
um quarto, e a cidade, mergulhada no crepúsculo, ador-mecia lentamente, caía pouco a pouco numa estagna-ção de praça aband...
Subiram cautelosos, por ali acima, uma escada tris-te e deserta, cujos degraus, muito íngremes, ameaça-vam fugir sob os pé...
quilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questãode cor e tampouco se importava com classe ou profis-são do sujeito....
bo! Durante quase um ano só se falou na Carola, naspernas da Carola, na portuguesa da rua do Núncio.      A pobre mulher n...
umas tintas de paleta rembrantesca, desfazendo-se emelogios à gente da marinha, gabando os homens do mar,uns benfeitores d...
intimidade entre ela, Carolina, e o negro. Palavra dhonracomo nunca vira tanta coragem num homem.       Estimava-o por iss...
sem luxo, para quando viermos à terra.      Uma cama ou duas? perguntou sorrindo a qua-rentona.     Como quiser... Marinhe...
5     Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida nosobradinho, começou a experimentar uma delícia mui-to íntima, assim co...
carnado para ocultar as nódoas.      Durante meses viveu ele uma vida calma, escru-pulosamente pautada, rigorosamente metó...
ia logo mostrar a Bom-Crioulo as moedinhas de tostãoque seu guarda-marinha lhe dera. Todos a bordo lhefaziam festa; o próp...
Bomcrioulo
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  1. 1. eBooksBrasil www.ebooksbrasil.com
  2. 2. Bom Crioulo [1895] Adolfo Caminha [1867-1897] Versão para eBook eBooksBrasil.com Fonte Digital:A Biblioteca Virtual do Estudante BrasileiroA Escola do Futuro da Universidade de São Paulo www.bibvirt.futuro.usp Digitado por Sérgio Luiz Simonato Copyright Domínio Público
  3. 3. ÍNDICE O AutorBOM CRIOULO 1234 56789 10 11 12
  4. 4. O Autor Adolfo Caminha Nome literário: CAMINHA, ADOLFO Nome completo: ADOLFO FERREIRA CAMI-NHA Pseudônimo: FÉLIX GUANABARINO. Nascimento: 29 de Maio de 1867, Aracati, CE. Falecimento: 1 de Janeiro de 1897, Rio de Janeiro. BIOGRAFIA Adolfo Caminha após ter-lhe morrido a mãe, fi-cando órfão com mais cinco irmãos, foi para a compa-nhia de parentes em Fortaleza. Seis anos depois, em1883, mudou-se para a casa de seu tio no Rio de Janei-ro que o matriculou na antiga Escola da Marinha. Em1886, saiu a publicação em versos de Vôos Incertos.No mesmo ano, fez uma viagem de instrução aos Esta-dos Unidos. Em 1887, a 16 de Dezembro, promovido a2º tenente, publicou Judite e Lágrimas de um Crente,livro de contos. Em 1888, regressa a Fortaleza e envol-ve-se em rumoroso escândalo, ao raptar a esposa deum alferes. O ministro da Marinha interfere, inutilmente,para pôr fim à situação. Em 1890, Adolfo Caminha,pressionado de todos os lados, se demite e com a mu-
  5. 5. lher e duas filhas segue para o Rio de Janeiro, ondevive como funcionário publico. Em 1891, fundou, emFortaleza, a Revista Moderna, e colaborou no jornal ONorte. Em 1893, lançou o romance A Normalista, co-laborou na Gazeta de Notícias e em O País. Em 1894,publicou No País dos Ianques, fruto de sua ida, oitoanos antes, aos Estados Unidos. Um ano depois, o ro-mance O Bom Crioulo, e Cartas Literárias. Em 1896,ano em que fundou a Nova Revista, publicou Tenta-ção. Atormentado pelas dificuldades econômicas e de-bilitado pela tuberculose, morre precocemente. Deixouinacabados os romances: Ângelo e O Emigrado. Fonte: Biblioteca Nacional
  6. 6. Bom-criouloAdolfo Caminha
  7. 7. 1 A velha e gloriosa corveta que pena! já nem se-quer lembrava o mesmo navio doutrora, sugestivamentepitoresco, idealmente festivo, como um galera de len-da, branca e leve no mar alto, grimpando serena o cor-covo das ondas!... Estava outra, muito outra com o seu casco negro,com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele es-plêndido aspecto guerreiro que entusiasmava a gentenos bons tempos de patescaria. Vista ao longe, na infi-nita extensão azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantásticade um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha car-caça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal dasvelas até a primitiva pintura do bojo. No entanto ela aí vinha esquife agourento sin-grando águas da pátria, quase lúgubre na sua marchavagarosa; ela aí vinha, não já como uma enorme garçabranca flechando a líquida planície, mas lenta, pesada,como se fora um grande morcego apocalíptico de asasabertas sobre o mar... Havia pouco entrara na região das calmarias: opano começava a bater frouxo, mole, inchando a cadasolavanco, para recair depois, com uma pancada surdae igual, no mesmo abandono sonolento; a viagem tor-nava-se monótona; a larga superfície do oceano esten-dia-se muito polida e imóvel sob a irradiação meridio-nal do sol, e a corveta deslizava apenas, tão de leve, tãode leve que mal se lhe percebia o movimento.
  8. 8. Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, in-dício algum de criatura humana fora daquele estreitoconvés: água, somente água em derredor, como se omundo houvesse desaparecido num dilúvio medonho...,e no alto, lá em cima, o silêncio infinito das esferasobumbradas pela chuva de ouro do dia. Triste e nostálgica paisagem, onde as cores des-maiavam à força de luz e a voz humana perdia-se numadesolação imensa! Marinheiros conversavam à proa, sentados uns nocastelo, outros em pé, colhendo cabos ou estendendoroupa ao sol, tranqüilamente, esquecidos da faina. Aschapas dos mastros, a culatra das peças, varais de esco-tilha, tudo quanto é aço e metal amarelo reluz forte-mente, encandeando a vista. De vez em quando há um grande rebuliço: amastreação geme, como se fora desprender-se toda, opano bate com força de encontro às vergas, chocam-secabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirarda água no bojo da velha nau. Agüenta! diz uma voz. E volta o sossego e continua a pasmaceira, o té-dio, a calmaria sem fim... Já os primeiros sintomas de indolência refletiam-se no semblante da gente, convertendo-se em bocejos eespreguiçamentos de sesta, e ainda ficavam tão longeas montanhas da costa e os carinhos da família!... Escasseavam os gêneros, e o regimen de carne-seca e das conservas em lata aproximava-se ameaça-doramente, causando apreensões à marinhagem. Tinham dado onze horas na sineta de proa.
  9. 9. O tenente que estava de quarto no passadiço con-feriu o relógio dalgibeira, um belo cronômetro de ourocomprado em Toulon, torceu o bigode, passou uma vistadolhos no aparelho, e, dirigindo-se para a espada quedescansava junto ao mastro, numa voz clara um pouco,metálica: Corneta! Era um oficial distinto, moço, moreno, os olhosvivos e inteligentes, grande calculista, jogador da sue-ca e autor de um Tratado elementar de navegação prá-tica. Ninguém a bordo o excedia na procura doslogaritmos. Calculava dolhos fechados, e senos ecosenos acudiam-lhe à ponta do lápis de um modo ad-mirável. Era, invariavelmente, o primeiro que achava ahora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair daescola pelo sei entranhado amor às matemáticas e à vidanaval. Como guarda-marinha deixava-se ficar a bordonos dias de folga, somente para não perder o hábito.Inimigo de terra, preferia o farniente de seu camarote,ali ao pé dos livros e das fotografias marítimas, aomovimento esterilizador e absorvente dos cafés e dosteatros. Corneta! repetiu, carregando o semblante numasombria expressão de constrangimento. Outras bocas foram transmitindo a ordem até quesurgiu, correndo, a figura exótica de um marinheironegro, dolhos muito brancos, lábios enormemente gros-sos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cujafisionomia acentuavam-se linhas características de es-tupidez e subserviência
  10. 10. Pronto! disse levando a mão ao boné com um jei-to marcial. Toca mostra, ordenou o tenente. Às primeiras notas da corneta, límpidas e sem econo silêncio do mar alto, houve logo um estranho bulí-cio em todos os recantos da corveta. Agora os mari-nheiros que descansavam à proa, olhavam-se por cimados ombros com ar desconfiado. Na tolda e pelas co-bertas o movimento foi-se acelerando à proporção queo toque finalizava, sobressaindo no atropelo a voz dosguardiões: Sobe, sobe, tudo para cima! de envoltacom um barulho de ferros que vinha dos porões. O mestre darmas, cabrocha pedante, muito cheiode si e de seus galões reluzentes, ia enfileirando amarinhagem por alturas, num exagero metódico de ins-trutor de colégio, arredando uns para colocar outros,advertindo estes porque não tinham a camisa abotoadae aqueles porque não tinham fita no boné, ameaçandoestoutro de levá-lo à presença de seu tenente porquerecusava-se a perfilar... Oficiais começavam a aparecer em segundo uni-forme boné e dragonas , arrastando as espadas, miran-do-se dalto a baixo, apertados no talim de pano azul,por cima da farda. Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e ofi-ciais aqueles alinhados a dois de fundo, num e noutrobordo, estes a ré, perto do mastro grande, em atituderespeitosa de quem vai assistir a um ato solene. Tinha-se feito silêncio. Uma ou outra voz segre-dava baixinho, timidamente. E agora, no silêncio damostra, é que se ouvia bem o cachoeira de água no bojo
  11. 11. da corveta caturrando... Agüenta! Por fim apareceu o comandante abotoando a luvabranca de camurça, teso na sua farda nova, o ar autori-tário, solta a espada num abandono elegante, asdragonas tremulando sobre os ombros em cachos deouro, todo ele comunicando respeito. Era homem robusto de feições e presença nobre,olhar enérgico, muito moreno, desse moreno carrega-do, cor de bronze, que o sol imprime nos homens domar, bigode largo e compacto, levemente grisalho, comuma ponta de arrogância convencional. Silêncio absoluto nas fileiras da marinhagem. Cadaolhar tinha um brilho especial de indiscreta curiosida-de. Um frêmito de instintiva covardia, como uma cor-rente elétrica, vinha à face de toda aquela genteabespinhada ali assim perante um só homem, cuja pa-lavra trazia sempre o cunho áspero da disciplina. Eraum respeito profundo chegando às raias da subserviên-cia animal que se agacha para receber o castigo, justoou injusto, seja ele qual for. Os presos..., fez o comandante, sem se alterar,dando um puxão na manga da farda. Todos os olhos voltaram-se para o fiel dartilharia,vivamente curiosos, enquanto este, obedecendo à or-dem, precipitou-se pela escada que ia ter à coberta,mudo e taciturno. O tenente continuava no passadiço, a passear comose tudo corresse às mil maravilhas naquele pequenomundo flutuante de que ele era, agora, uma espécie derei provisório. Ouvia-se-lhe o passo vagaroso e igual
  12. 12. como o de uma sentinela noturna. A luz intensa do sol caía do alto, pondo brilhos demalacacheta no cristal imenso do mar clamo. Um calorforte e asfixiante penetrava a carne, acelerando a circu-lação, congestionando, irritando o sistema nervosoatrozmente, implacavelmente. Toda a atmosfera parecia vibrar num incêndio uni-versal. E o pano, largo e frouxo, a bater, a bater comouma cousa desesperada... Calmaria estúpida! pensava o tenente consultan-do os horizontes. Ele, o grande patesca, a olhar o tem-po, sem fazer nada, por causa de um diabo de calmainterminável. Raríssimas vezes lhe acontecia aquilo: eramesmo para danar uma pessoa... Chegam os presos: um rapazinho magro, muitoamarelo, rosto liso, completamente imberbe; outro re-gulando a mesma idade, mas um pouco moreno, tam-bém grumete; e um primeira-classe, negro alto,espadaúdo, cara lisa. Vinham em ferros, um a um, arrastando os pés numpasso curto e demorado, e encaminharam-se para o meiodo convés, fazendo alto a um aceno do comandante.Este imediatamente segredou a outro oficial, que esta-va a seu lado com um livro na mão, e, dirigindo-se aoprimeiro sentenciado, o da frente, o rapazinho amare-lo, cor da terra: Sabe por que vai ser castigado? O grumete, sem levantar a cabeça, murmurou afir-mativamente: que sim, senhor... Chamava-se Herculano e no seu rosto imberbe de
  13. 13. adolescente havia uns longes de melancolia serena, as-sim como uma precoce morbidez sintomática... um se-creto arrependimento. Na gola quadrangular de flanela azul destacava adivisa branca de sua classe. As unhas metiam náusea, muito quilotadas de al-catrão, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo as-pecto deixava uma impressão desagradável e persis-tente. O comandante, depois de um breve discurso emque as palavras disciplina e ordem repetiam-se, fez umsinalzinho com a cabeça e logo o oficial imediato, umlouro, de bigode, começou a leitura do Código na parterelativa a castigos corporais. A marinhagem, analfabeta e rude, ouvia silencio-sa, com um vago respeito no olhar, aquele repisadocapítulo do livro disciplinar, em pé, à luz dura emordente do meio dia, enquanto o oficial do quarto,gozando a sombra reparadora de um largo toldo esten-dido sobre sua cabeça, ia e vinha, de um bordo a outrobordo, sem se preocupar com o resto da humanidade. Junto aos presos equilibrava-se um homem degrande estatura, largo e reforçado, tipo de caboclo nas-cido no Amazonas, trajando fardeta e boné e seguran-do com ambas as mãos, sobre o joelho em descanso, oinstrumento de castigo: era o guardião Agostinho, océlebre guardião Agostinho, especialista consumado noofício de aplicar a chibata, o mais robusto e valente detodos os guardiões, e cujo zelo em cousas de patescariatornara-se proverbial, Nos momentos de manobra difí-cil, era ele quem auxiliava o mestre na faina, invaria-
  14. 14. velmente munido de um apito de prata, não se afastan-do nunca de suas obrigações. Caboclo macho! diziam os companheiros. Se acontecia desprender-se um moitão, um caboqualquer, lá cima nos mastros, em lugar arriscado, ele,mais que depressa, galgava os enfrechates, com aquelecorpo muito pesado, transpunha o cesto da gávea, semolhar para trás, e ei-lo agarradinho aos vaus, atando edesatando, ligeiro, alvo de todos os olhares, oscilandocom o navio, em termos de precipitar-se no mar. Ho-mem de poucas palavras, muito metido consigo, tole-rante e enérgico ao mesmo tempo em matéria de servi-ço, não compreendia a disciplina sem chibata, únicomeio de se fazer marinheiro. E tinha sempre esta frase na ponta da língua: Na-vio de guerra sem chibata é pior que escuna mercante... Por isso os companheiros não o estimavam muito;pelo contrário, evitavam a sua presença, procurandointrigá-lo com o mestre e com os outros inferiores. Oguardião Agostinho, sim, que era homem valente, ca-paz de comandar um quarto... E riam às escondidas, praguejando contra o burrodo Agostinho, que nem ao menos tinha jeito para capi-tão de proa... Ele ali se achava também, no sue posto, à esperade um sinal para descarregar a chibata, implacavelmen-te, sobre a vítima. Sentia um prazer especial naquilo,que diabo! cada qual tem a sua mania... Vinte e cinco..., ordenou o comandante. Tira a camisa? quis logo saber Agostinho radian-te, cheio de satisfação, vergando o junco para experi-
  15. 15. mentar-lhe a flexibilidade. Não, não: com a camisa... E solto agora dos machos, triste e resignado, Her-culano sentiu sobre o dorso a força brutal do primeirogolpe, enquanto uma voz cantava, sonolenta e a arras-tada: Uma!... e sucessivamente: duas!... três!... vinte ecinco! Herculano já não suportava. Torcia-se todo no bicodos pés, erguendo os braços e encolhendo as pernas,cortado de dores agudíssimas que se espalhavam portodo o corpo, até pelo rosto, como se lhe rasgassem ascarnes. A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo etrêmulo que ninguém ouvia senão ele próprio no de-sespero de sua dor. Toda gente assistia aquilo sem pesar, com a friaindiferença de múmias. Corja! regougou o comandante brandindo a luva.Não se compenetram de seus deveres, não respeitam aautoridade! Hei de ensiná-los: ou aprendem ou racho-os! O caso era simples: Herculano tinha uns modosesquisitos de viver sempre retraído, pelos cantos, evi-tando a companhia dos outros, fazendo seu serviço ca-lado, não se envolvendo em sambas à noite, na proa.Tímido e esquivo, cada vez mais pálido, o olhar mortocom uma pronunciada auréola de bistre, a voz cansada,caindo de fraqueza, tinham-lhe dado o apelido ridícu-lo de Pinga... O grumete não podia se conformar com esse trata-mento, por mais inofensivo que ele fosse, e vingava-se
  16. 16. dos companheiros atirando-lhes palavrões de regateiraaprendidos ali mesmo a bordo. Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabu-lário do insulto numa cólera ameaçadora que às vezeschegava ao delírio. Os outros, porém, caíam na gargalhada: Olha o Pinga! Segura ele! Pinga é ... E lá ia uma obscenidade, um calão grosseiro. Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo aca-bava em questões de outra ordem e daí prisões, casti-gos... Ora, aconteceu que, na véspera desse dia, Hercu-lano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticaruma ação feia e deprimente do caráter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto à amurada, em pé, a me-xer com o braço numa posição torpe, cometendo, con-tra si próprio, o mais vergonhoso dos atentados. O outro, um mulatinho esperto. que tinha o hábitode andar espiando, à noite, o que faziam os companhei-ros, precipitou-se a chamar o SantAna, e, riscando umfósforo, aproximaram-se ambos para examinar.... Noconvés brilhava a nódoa de um escarro ainda fresco:Herculano acabava de cometer um verdadeiro crimenão previsto nos códigos, um crime de lesa natureza,derramando inutilmente no convés seco e estéril, a sei-va geradora do homem. Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apa-nhado em flagrante naquela grotesca situação. Investiupara o SantAna, fulo de raiva, extremamente pálido, e
  17. 17. com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpoa corpo, aos trambolhões, acordando os que dormiampor ali o bom sono da madrugadinha... Terminou o al-voroço com a prisão de ambos. Ah! seu Pinga, seu Pinga!... repetia o guardião doquarto. Não pense que, por ser branco, há de fazer dassuas... Tal fora o delito de Herculano e do seu camaradaSantAna que também ia ser castigado. O SantAna, porém, não era lá rapaz de que sofres-se calado: tinha sempre o que dizer na ocasião do cas-tigo, desculpando-se como podia perante a autoridadea fim de escapar manhosamente à ação criminal, o quenunca lhe sucedera, porque toda gente o conhecia bas-tante. Era um pobre diabo de terceira classe, moreno corde jenipapo, cabelo rente, à escovinha, olhos negros,nariz acaçapado, cara magra, e cujo nome lá estava nolivro de castigos um ror de vezes. Gago de nascença,fazia rir aos companheiros quando abria a boca paradizer qualquer cousa, principalmente se estava num deseus momentos de sobreexcitação colérica, porque,então, ninguém o compreendia. Tinha a facilidade ingênita das lágrimas: a maisleve comoção fazia-o chorar, transformando-lhe osolhos em duas fontes de úmida ternura. Pôs-se logo a gaguejar uma história de implica-ções: que estava bem sossegadinho no seu canto e oHerculano fora provocá-lo, implicar com ele... Vamos, guardião, vamos, que é tarde. Não estoupara ouvir histórias. Vá!...
  18. 18. Agostinho vergou o junco e, resolutamente, seminquirir cousa alguma, com um risinho de instintivamalvadez no canto da boca, desfechou o primeiro gol-pe: Uma! contou a mesma voz de há pouco. O rapaz empinou-se na ponta dos pés, arregalan-do muito os olhos, esfregando as mãos. Ah! gemeu com um grito de dor. Pe... pe... peloamor de... de... de Deus, seu... seu... comandante! Vamos, vamos!... Seguiram-se as outras chibatadas implacáveis, bru-tais como cáusticos de fogo, caindo uma a uma, dolo-rosamente, no corpo franzino do marinheiro. Ele não teve jeito senão suportá-las todas, uma auma, porque de nada lhe serviam os gritos, as súplicase as lágrimas... Hei de corrigi-los, bradava o comandante, acesoem súbita cólera, mal humorado sob a luz ardentíssimado meio dia tropical. Hei de corrigi-los: corja! Nenhum frêmito de comoção na marinhagem, tes-temunha habitual daquelas cenas que já não logravamproduzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodu-ção banal de um quadro muito visto. Começava a cair uma aragenzinha leve, tão leveque apenas atenuava a força cáustica do sol, inflandoas velas quase imperceptivelmente. O tenente, um pouco animado agora com a vira-ção que precede os ventos largos, tomava notas numpequeno caderno, ansioso por chamar a gente aos bra-ços. Meio dia quase e ainda não estava acabado o cas-
  19. 19. tigo. Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro,muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desa-fiando, com um formidável sistema de músculos, amorbidez patológica de toda uma geração cadente eenervada, e cuja presença ali naquela ocasião, desper-tava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro,gajeiro da proa o BOM CRIOULO na gíria de bordo. Aproxime-se, disse o comandante imperiosamen-te, carregando na voz e no semblante. Houve um sussurro longínquo, um leve, um tími-do murmúrio nas fileiras da marinhagem, assim comoo vago estremecimento que assalta os espectadores deum teatro nas mutações de cenário. Agora a cousa eraoutra, na verdade. O Herculano e o SantAna, de resto,não passavam de uns pulhas, de uns miseráveis mari-nheiros que dificilmente agüentavam no lombo vinte ecinco chibatadas: uns criançolas!... Queria-se ver oAmaro, o célebre, o terrível Bom-Crioulo. Fez-se nova leitura do Código em voz lenta e ca-denciada de ofício religioso, e o comandante, formali-zando-se dentro de sua farda muito justa e luzida: Sabe por que vai ser castigado? Sim senhor. Estas palavras, Bom-Crioulo proferiu-as num tomresoluto, sem o mais ligeiro constrangimento, firman-do o olhar, atrevidamente, nos galões de ouro daqueleoficial. Em pé, junto ao mastro, unidos os calcanhares,os braços caindo ao longo do corpo, militarmente per-filado, havia, contudo, na linha dos ombros, no jeito dacabeça, onde quer que fosse, um recolhido e traiçoeiro
  20. 20. cunho de flexibilidade e destreza felinas. Com efeito, Bom-Crioulo não era somente umhomem robusto, uma dessas organizações privilegia-das que trazem no corpo a sobranceira resistência dobronze e que esmagam com o peso dos músculos. A força nervosa era nele uma qualidade intrínsecasobrepujando todas as outras qualidades fisiológicas,emprestando-lhe movimentos extraordinários,invencíveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto eraro. Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lheà força de um exercício continuado que o tornara co-nhecido em terra, nos conflitos com soldados ecatraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado. Porque Bom-Crioulo de longe em longe sorvia oseu gole de aguardente, chegando mesmo a se chafur-dar em bebedeiras que o obrigavam a toda a sorte deloucuras. Armava-se de navalha, ia para os cais, todo trans-figurado, os olhos dardejando fogo, o boné de um lado,a camisa aberta num desleixo de louco, e então era umrisco, uma temeridade alguém aproximar-se dele. Onegro parecia uma fera desencarcerada: fazia todo mun-do fugir, marinheiros e homens da praia, porque nin-guém estava para sofrer uma agressão... Quando havia conflito no cais Pharoux, já todagente sabia que era o Bom-Crioulo às voltas com apolícia . Reunia povo, toda a população do litoral cor-ria enchendo a praça, como se tivesse acontecido umadesgraça enorme, formavam-se partidos a favor da po-lícia e da marinha... uma cousa indescritível!
  21. 21. O motivo, porém, de sua prisão agora, no alto mar,a borda da corveta, era outro, muito outro: Bom-Criou-lo esmurrara desapiedadamente um segunda classe,porque este ousara, sem o seu consentimento, maltra-tar o grumete Aleixo, um belo marinheirito de olhosazuis , muito querido por todos e de quem diziam-secousas. Metido em ferros no porão, Bom-Crioulo não deupalavra. Admiravelmente manso, quando se achava emseu estado normal, longe de qualquer influência alcoó-lica, submeteu-se à vontade superior, esperando resig-nado o castigo. Reconhecia que fizera mal, que deviaser punido, que era tão bom quanto os outros, mas, quediabo! estava satisfeito: mostrara ainda uma vez queera homem... Depois estimava o grumete e tinha certe-za de o conquistar inteiramente, como se conquista umamulher formosa, uma terra virgem, um país de ouro...Estava satisfeitíssimo. A chibata não lhe fazia mossa; tinha costas de fer-ro para resistir como um Hércules ao pulso do guardiãoAgostinho. Já nem se lembrava do número das vezesque apanhara de chibata... Uma! cantou a mesma voz. Duas!... três!... Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algodão,e, nu da cintura para cima, numa riquíssima exibiçãode músculos, os seios muito salientes, as espáduas ne-gras reluzentes, um sulco profundo e liso dalto a baixono dorso, nem sequer gemia, como se estivesse a rece-ber o mais leve dos castigos. Entretanto, já iam cinqüenta chibatadas! Ninguémlhe ouvira um gemido, nem percebera uma contorção,
  22. 22. um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naque-le costão negro as marcas do junco, umas sobre as ou-tras, entrecruzando-se como uma grande teia de ara-nha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos ossentidos. De repente, porém, Bom-Crioulo teve um estre-mecimento e soergueu um braço: a chibata vibrara emcheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Foraum golpe medonho, arremessado com uma força extra-ordinária. Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estreme-ceu de gozo ao ver, afinal, triunfar a rijeza de seu pul-so. Marinheiros e oficiais, num silêncio concentrado,alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe. Cento e cinqüenta! Só então houve quem visse um ponto vermelho,uma gota rubra deslizar no espinhaço negro do mari-nheiro e logo este ponto vermelho se transformar numafita de sangue. Nesse momento o oficial, ponteirando o óculo dealcance, procurava reconhecer uma sombra quase invi-sível que parecia flutuar muito longe, nos confins dohorizonte: era, talvez, a fumaça de algum transatlânti-co... Basta! impôs o comandante. Estava terminado o castigo. Ia recomeçar a faina.
  23. 23. 2 Inda estava longe, bem longe a vitória doabolicionismo, quando Bom-Crioulo, então simples-mente Amaro, veio, ninguém sabe donde, metido emroupas dalgodãozinho, trouxa ao ombro, grande cha-péu de palha na cabeça e alpercatas de couro cru. Me-nor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades porque passa todo homem de cor em um meio escravocratae profundamente superficial como era a Corte ingênuoe resoluto, abalou sem ao menos pensar nas conseqü-ências da fuga. Nesse tempo o negro fugido aterrava as popula-ções de um modo fantástico. Dava-se caça ao escravocomo aos animais, de espora e garrucha, mato a dentro,saltando precipícios, atravessando rios a nado, galgan-do montanhas... Logo que o fato era denunciado aqui-del-rei! enchiam-se as florestas de tropel, saiamestafetas pelo sertão num clamor estranho, medindopegadas, açulando cães, rompendo cafezais. Até fecha-vam-se as portas com medo... Jornais traziam na ter-ceira página a figura de um moleque em fuga, trouxaao ombro, e, por baixo, o anúncio, quase sempre emtipo cheio, minucioso, explícito, com todos os detalhes,indicando estatura, idade, lesões, vícios, e outros ca-racterísticos do fugitivo. Além disso o proprietário gra-tificava generosamente a quem prendesse o escravo. Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos in-teressados, e depois de curtir uma noite, a mais escura
  24. 24. de sua vida, numa espécie de jaula com grades de fer-ro, Amaro, que só temia regressar à fazenda, voltar aoseio da escravidão, estremeceu diante de um rio muitolargo e muito calmo, onde havia barcos vogando emtodos os sentidos, à vela, outros deitando fumaça, e láem cima, beirando a água, um morro alto, em ponta,varando as nuvens, como ele nunca tinha visto. Depois mandaram-no tirar a roupa do corpo (atéficou envergonhado...), examinaram-lhe as costas, opeito, as virilhas, e deram-lhe uma camisa azul de ma-rinheiro. No mesmo dia foi para a fortaleza, e , assim que aembarcação largou do cais a um impulso forte, o novohomem do mar sentiu pela primeira vez toda a almavibrar de uma maneira extraordinária, como se lhe hou-vessem injetado no sangue de africano a frescura deli-ciosa de um fluido misterioso. A liberdade entrava-lhepelos olhos , pelos ouvidos, pelas narinas, por todos osporos, enfim, como a própria alma da luz, do som, doodor e de todas as cousas etéreas... Tudo que o cerca-va: a planura da água cantando na proa do escaler, oimaculado azul do céu, o perfil longínquo das monta-nhas, navios balouçando entre ilhas, e a casaria imóvelda cidade que ficava para trás os companheiros mes-mo que iam remando igual, como se fossem um só bra-ço , e sobretudo, meu Deus!, sobretudo o ambiente lar-go e iluminado da baía: enfim, todo o conjunto da pai-sagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de li-berdade e vida, que até lhe vinha vontade de chorar,mas de chorar francamente, abertamente, na presençados outros, como se estivesse enlouquecendo... Aquele
  25. 25. magnífico cenário gravara-se-lhe na retina para toda aexistência; nunca mais o havia de esquecer, ó, nuncamais! Ele, o escravo, o negro fugido sentia-se verda-deiramente homem, igual aos outros homens, feliz de oser, grande como a natureza, em toda a pujança viril dasua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que fica-vam na fazenda trabalhando, sem ganhar dinheiro, desdea madrugada té ... sabe Deus! No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícilesquecer o passado, a mãe Sabina, os costumes queaprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentirum vago desejo de abraçar os seus antigos companhei-ros do eito, mas logo essa lembrança esvaía-se como afumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele voltavaà realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para omar crivado de embarcações... A disciplina militar, como todos os seus excessos,não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, aoregimen terrível do tronco e do chicote. Havia muitadiferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha suamaca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, afartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida,amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, umbacalhauzinho com pimenta e sangue de Cristo... Paraque vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, sóa liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou araça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mes-mas regalias o mesmo serviço, a mesma folga. E quan-do a gente se faz estimar pelos superiores, quando nãose tem inimigos, então é um viver abençoado esse: nin-guém pensa no dia damanhã!
  26. 26. Amaro soube ganhar logo a afeição dos oficiais.Não podiam eles, a princípio, conter o riso diante da-quela figura de recruta alheio às praxes militares, rudecomo um selvagem, provocando a cada passo garga-lhadas irresistíveis com seus modos ingênuos detabaréu; mas, no fim de alguns meses, todos eram deparecer que o negro dava para gente. Amaro já sabiamanejar uma espingarda segundo as regras do ofício, enão era lá nenhum botocudo em artilharia; criara famade patesca. Nunca, durante esse primeiro ano de aprendiza-gem, merecera a pena de um castigo disciplinar: seucaráter era tão meigo que os próprios oficiais começa-ram a tratá-lo por Bom-Crioulo. Seu maior desejo, po-rém, sua grande preocupação, era embarcar fosse emque navio fosse, acostumar-se a viver no mar, conhe-cer, enquanto estava moço, os costumes de bordo, sa-ber praticamente amichelar uma verga, rizar uma vela,fazer um quarto na agulha... Podia muito bem ser pro-movido logo... Invejava os que andavam no alto-mar,longe de terra, bordejando à solta por esses mundos deDeus. Como devia de ser bom para a alma e para ocorpo o ar livre que se respira lá fora, sobre as águas!... Divertia-se a construir pequenas embarcações demadeira imitando navios de guerra com flâmula no topedo mastro e portinholas, cruzadores em miniatura,iatezinhos, tudo à ponta de canivete e com a paciênciatenaz de um arquiteto. Mas, nada de o fazerem embarcar definitivamen-te! Ia para bordo, às vezes, em exercício, remando noescaler, mas voltava logo com a turma dos outros apren-
  27. 27. dizes, triste por não ter ficado, sonhando histórias deviagens, cousas que havia de ver, quando pela primeiravez saísse pela barra fora... Chegou afinal esse dia. Bom-Crioulo estava no-meado para embarcar num velho transporte que seguiapara o sul. Ora, até! fez ele, erguendo os braços com um gestode maravilhosa surpresa. Até que enfim, graças a deus,lembraram-se do Bom-Crioulo! E saiu por ali muito feliz, muito alegre, todo alvo-roçado, anunciando seu destino. Queriam alguma cousado sul? Nem uma lembrançazinha do Rio Grande?Nada, nada ?... Traze uma paraguaia, ó Bom-Crioulo, gracejavaum. Olha, eu me contento com uma dúzia dovos, deSanta Catarina... Outros encomendavam-lhe cousas impossíveis:um pedaço de gringo assado; uma terça de sangue es-panhol: a orelha de um barriga-verde... E riam todos no rancho, e todos o que estimavamé que Amaro fosse muito feliz na sua primeira viagem,que voltasse gordo e forte pra matar galego no cais dosMineiros. Alguns gabavam o comandante do transporte, ovelho Novais, bom homem, que não gostava de casti-gar e que era até amigo dos marinheiros. E o imediato? Ora, o imediato era um tal Pontes, um de suíças,que naufragara na corveta Isabel, muito feio, coitado,mas boa pessoa; também não fazia mal a ninguém, pelo
  28. 28. contrário marinheiro que lhe caísse nas graças era tra-tado a vinho do Porto... Bom-Crioulo exultava! O embarque devia se efetuar à tardinha, poucoantes de arriar a bandeira. Todo ele estava pronto, e via-se-lhe no olhar, nafala, nos modos, o grande contentamento de que estavacheio seu coração. Era uma felicidade estranha, um bemestar nunca visto, assim como o começo de uma loucu-ra inofensiva e serena, que o fazia mais homem vintevezes, que o tornava mais forte e retemperado para aslutas da vida. Suave embriaguez dos sentidos, essa quevem de uma grande alegria ou de uma tristeza imen-sa... Bom-Crioulo só experimentara prazer igual quan-do o tinham obrigado a conhecer o que é liberdade,recrutando-o para a marinha. Essa liberdade ampliava-se agora a seus olhos, crescia desmesuradamente emsua imaginação, provocando-lhe frêmitos de alucinado,abrindo-lhe nalma horizontes cor-de-rosa, largos e ig-norados. Não deixava um só inimigo, um rival sequer nafortaleza; ia bem com todos, egoísta na sua felicidade,mas levando a saudades irresistível dos que se vãoembora... Quando o escaler que o conduzia se afastou daponte, onde os companheiros acenavam com os bonés,num entusiasmo comovente, ele sentiu a quentura deuma lágrima fugitiva descer-lhe rosto abaixo, e, disfar-çando, pôs-se também a acenar, em pé na embarcação,vendo sumirem-se pouco a pouco, na bruma do cre-púsculo, os contornos da ilha e as saudações da maruja.
  29. 29. Parecia-lhe ouvir ainda, na proa do transporte,como as últimas reminiscências de um sonho, a vozdos companheiros abraçando-o: Adeus, ó Bom-Criou-lo: sê feliz! Não dormiu toda essa noite. Estendido no convéssobre o dorso, como se estivesse num bom leito macioe amplo, viu desaparecerem as estrelas, uma a uma, napenumbra da antemanhã, e o dia ressurgir glorioso,dourando os rgãos, ourejando os edifícios, cantando ohino triunfal da ressurreição. E pouco depois o esplêndido cenário da baía trans-formara-se num vastíssimo oceano deserto e resplan-decente, desdobrando-se num círculo imenso dágua,onde não verdejava sequer um canto de oásis... A gran-deza do mar enchia-o de uma coragem espartana. Alise achava, ao redor dele, a sublime expressão da liber-dade infinita e da soberania absoluta, coisas que o seuinstinto alcançava muito vagamente através de um ne-voeiro de ignorância. Dias e dias correram. A bordo todos o estimavamcomo na fortaleza, e a primeira vez que o viram, nu,uma bela manhã, depois da baldeação, refestelando-senum banho salgado foi um clamor! Não havia ossonaquele corpo de gigante: o peito largo e rijo, os bra-ços, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um con-junto respeitável de músculos, dando uma idéia de for-ça física sobre-humana, dominando a maruja, que sor-ria boquiaberta diante do negro. Desde então Bom-Cri-oulo passou a ser considerado um homem perigosoexercendo uma influência decisiva no espírito daquelagente, impondo-se incondicionalmente, absolutamen-
  30. 30. te, como o braço mais forte, o peito mais robusto debordo. Os grandes pesos era ele quem levantava, paratudo aí vinha Bom-Crioulo com seu pulso de ferro, coma sua força de oitenta quilos, mostrar como se alava umbraço grande, como se abafava uma vela em temporal,como se trabalhava com gosto. Entretanto, o seu nome ia ganhando fama em to-dos os navios. Um pedaço de bruto, aquele Bom-Cri-oulo! diziam os marinheiros. Um animal inteiro é oque ele era! Tinha um forte desejo ainda: suspirava por em-barcar em certo navio, cujo comandante, um fidalgo,dizia-se amigo de todo marinheiro robusto; excelenteeducador da mocidade, perfeito cavalheiro no tratoameno e severo. Bom-Crioulo conhecia-o de vista somente e fica-ra simpatizando imensamente com ele. Demais, o co-mandante Albuquerque recompensava os serviços desua gente, não se negava a promover os seus afeiçoa-dos. Isso de se dizer que preferia uma sexo a outro nasrelações amorosas podia ser uma calúnia como tantasque inventam por aí... Ele, Bom-Crioulo, não tinha nadaque ver com isso. Era uma questão à parte, que diabo!ninguém está livre de um vício. Mas, anunciou-se a viagem da corveta, e lá Bom-Crioulo deixou o cruzador para seguir seu novo desti-no. Contava então cerca de trinta anos e trazia a golade marinheiro de segunda-classe. Por sua vontade nãosairia mais barra fora: em dez anos viajara quase omundo inteiro, arriscando a vida cinqüenta vezes, sa-
  31. 31. crificando-se inutilmente. Afinal a gente aborrece...Um pobre marinheiro trabalha como besta, de sol a sol,passa noites acordado, atura desaforo de todo mundo,sem proveito, sem o menor proveito! O verdadeiro élevar a vida na flauta... Nessa viagem Bom-Crioulo não foi mais feliz quenas outras. Nomeado gajeiro de proa, espécie de fiscaldo mastro do traquete, a princípio dera contairrepreensivelmente de suas obrigações e podia-se vero asseio e a boa ordem que reinavam ali, desde a borlado tope té embaixo à chapa das malaguetas. Fazia gos-to a presteza com que se efetuavam as manobras. Afaina corria sempre na melhor ordem, livre de aciden-tes, como se todo o mastro fosse uma grande máquinamovida a vapor, desafiando a gente dos outros mas-tros. Agora, porém, de torna-viagem as cousas tinhammudado. O traquete era um dos últimos a estar pronto,havia sempre um obstáculo, uma dificuldade: era umcabo que pegava, um andarivelo que se partia ou cousaque faltava... Anda com isso! bradava o oficial do quarto já im-paciente. E só depois de muito tempo é que o Bom-Criouloanunciava lá de cima do mastaréu, com a voz estragada: Pronto! Diziam uns que a cachaça estava deitando a per-der o negro, outros, porém, insinuavam que Bom-Cri-oulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, dês quese metera com o Aleixo, o tal grumete, o belomarinheirito de olhos azuis, que embarcara no sul. O
  32. 32. ladrão do negro estava mesmo ficando sem vergonha!E não lhe fossem fazer recriminações, dar conselhos...Era muito homem para esmagar um! O próprio comandante já sabia daquela amizadeescandalosa com o pequeno. Fingia-se indiferente,como se nada soubesse, mas conhecia-se-lhe no olharcerta prevenção de quem deseja surpreender em fla-grante... Os oficiais comentavam baixinho o fato e muitasvezes riam maliciosamente na praça darmas entre co-pos e limonadas. Tudo isso, porém, não passava de suspeitas, e Bom-Crioulo, com o seu todo abrutalhado, uma grande pintade sangue no olho esquerdo, o rosto largo de umprognatismo evidente, não se incomodava com o juízodos outros. Não lho dissessem na cara, porque então onegócio era feio... A chibata fizera-se para o marinhei-ro: apanhava até morrer, como um animal teimoso, mashavia de mostrar o que é ser homem! Sua amizade ao grumete nascera, de resto, comonascem todas as grandes afeições, inesperadamente, semprecedentes de espécie alguma, no momento fatal emque seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse mo-vimento indefinível que acomete ao mesmo tempo duasnaturezas de sexo contrários, determinando o desejofisiológico da posse mútua, essa atração animal que fazo homem escravo da mulher e que em todas a espéciesimpulsiona o macho para a fêmea, sentiu-a Bom-Cri-oulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeiravez com o grumetezinho. Nunca experimentara seme-lhante cousa, nunca homem algum ou mulher produzi-
  33. 33. ra-lhe tão esquisita impressão, desde que se conhecia!Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança dequinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a,escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como aforça magnética de um imã. Chamou-o a si, com a voz cheia de brandura, equis saber como ele se chamava. Eu me chamo Aleixo, disse o grumete baixando oolhar, muito calouro. Coitadinho, chama-se Aleixo, tornou Bom-Cri-oulo. E imediatamente, sem tirara vista de cima do pe-queno, com a mesma voz branda e carinhosa: Pois olhe: eu me chamo Bom-Crioulo, não se es-queça. Quando alguém o provocar, lhe fizer qualquercousa, estou aqui eu, para o defender, ouviu? Sim senhor, fez o marinheirito levantando o olharcom uma expressão de agradecimento. Não tenha vergonha, não: Bom-Crioulo, gajeiroda proa. É só me chamar. Sim senhor... Olhe mais, tornou o negro segurando a mão dapequeno: Muito sossegadinho no seu lugar para nãosofrer castigo, sim? Aleixo só fazia responder timidamente: Sim se-nhor com um arzinho ingênuo de menino obediente,os olhos muito claros, de um azul garço pontilhado, eos lábios grossos extremamente vermelhos. Era filho de uma pobre família de pescadores queo tinham feito assentar praça em Santa Catarina, e esta-va se pondo rapazinho. Seu trabalho a bordo consistia
  34. 34. em colher cabos e arear os metais, quando não se ocu-pava na ronda pela noite. Bom-Crioulo metia-lhe medo a princípio, e quaseo fizera chorar uma vez porque o encontrara fumandoem intimidade com o sota de proa na coberta. O negrodeitara-lhe uns olhos!... Felizmente não aconteceu nada.Mas daí em diante Aleixo foi-se acostumando, sem osentir, àqueles carinhos, àquela generosa solicitude, quenão enxergava sacrifícios, nem poupava dinheiro, e, porfim, já havia nele uma acentuada tendência para Bom-Crioulo, um visível começo de afeição reconhecida esincera. Foi então que o negro, zelosa da sua nova amiza-de, quis mostrar ao grumete o seu grande poder sobreos outros e té onde o levava esse zelo, esse egoísmoapaixonado, esmurrando implacavelmente o segunda-classe que maltratara Aleixo. A idéia de que Bom-Crioulo sofrera por sua causacalou de tal maneira no espírito do grumete que eleagora estimava-o como a um protetor desinteressado,amigo dos fracos... Quando regressou dessa longa viagem ao sul, es-tava inda mais forte, mais viçoso e mais homem. Erauma massa bruta de músculos ao serviço de um magní-fico aparelho humano. No tocante à disciplina mudaratambém um pouco: já ninguém lhe via certos escrúpu-los de obediência e seriedade, perdera mesmo aquelear, aquela compostura de respeito que o fazia estimadopelos oficiais em Villegaignon, e o distinguia damarinhagem insubmissa e desbriada. A maioria domi-nara-o positivamente; aquele caráter dócil e tolerante,
  35. 35. deixara-o ele no alto mar ou nas terras por onde anda-ra. Agora tratava com desdém os superiores, abusandose esses lhe faziam concessões, maldizendo-os na au-sência, achando-os maus e injustos. Uma cousa, po-rém, ele soubera conservar: a força física, impondo-secada vez mais aos outros marinheiros, que não ousa-vam agredi-lo nem brincando. Sua fama de homem va-lente alargara-se de modo tal que mesmo na provínciafalava-se com prudência no Bom-Crioulo. Quem é quenão o conhecia, meu Deus? Por sinal tinha sido escra-vo e até nem era feio o diabo do negro... Do transporte em que fizera sua primeira viagempassou a servir num cruzador chegadinho da Europa.Aí a vida não lhe ocorreu muito calma. O comandante,um Varela, capitão-de-mar-e-guerra, severo e inflexí-vel como nenhum outro oficial do seu tempo, homemque não ria nunca, chamou-o a conta um belo dia, equase o deixou sem fala, simplesmente porque Bom-Crioulo dera com um remo na cabeça de outro mari-nheiro por uma questiúncula de ofício. Tal foi o seuprimeiro castigo depois de quatro anos de serviço. Pro-fundamente magoado, concentrou-se para reaparecermandrião e insubmisso, cheio de ressentimento, não seimportando, como dantes, com os seus deveres, traba-lhando por honra da firma sem vexame nem sacrifício.Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldoquer trabalhasse, quer não trabalhasse. ... que os pariu! E ia se fazendo esquerdo, cuidando mais de seusinteresses que de outra cousa, passando um mês nohospital e outro mês a bordo, ou em terra, com licença.
  36. 36. 3 À calmaria equatorial da véspera sucedera, feliz-mente, uma viração fresca e reparadora, crispando alarga superfície dágua, enchendo as velas e dando atodas as fisionomias um aspecto novo de bom humor ejovialidade. O céu tinha uma cor azul esverdeada, limpo denuvens, alto e imenso na eterna glória da luz...Avezinhas de colo branco acompanhavam a corveta,pousando nágua, trêfegas e alvissareiras, misturandosua alegria ruidosa com o surdo marulhar das vagas,num rápido espanejamento dasas. Agora, sim, todos regozijavam com a esperançade chegar breve, em paz e salvamento, à Guanabara, láonde havia sossego e abastança, lá onde a vida corriasuave e cheia de tranqüilidade, porque se estava pertoda família, defronte da cidade, sem os cuidados de quemanda no alto-mar... E depois já era tempo! Vinte dias abordejar estupidamente, sem ver um pedaço de terra,uma ilha sequer, passando mal como cão! Já era tem-po... Só uma pessoa desejava que a viagem se prolon-gasse indefinidamente, que a corveta não chegasse nun-ca mais, que o mar se alargasse de repente submergin-do ilhas e continentes numa cheia tremenda, e a velhanau, só ela, como uma cousa fantástica, sobrevivesseao cataclismo, ela somente, grandiosa e indestrutível,
  37. 37. ficasse flutuando, flutuando por toda a eternidade. EraBom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se,como um pássaro agonizante, em torno dessa única idéiao grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar nou-tra coisa, que o torturava dolorosamente... Maldita horaem que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então suavida ia correndo como Deus queria, mais ou menoscalma, sem preocupações incômodas, ora triste. Oraalegre é verdade, porque não há nada firme no mundo,mas enfim, ia-se vivendo... E agora? Agora... hum,hum!... agora não havia remédio: era deixar o pau cor-rer... E vinha-lhe à imaginação o pequeno com seusolhinhos azuis, com o seu cabelo alourado, com suasformas rechonchudas, com o seu todo provocador. Nas horas de folga, no serviço, chovesse ou caíssefogo em brasa do céu, ninguém lhe tirava da imagina-ção o petiz: era uma perseguição de todos os instantes,uma idéia fixa e tenaz, uma relaxamento da vontadeirresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se aomarujo, como se ele fora de outro sexo, de possui-lo,de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo!... Ao pensar nisso Bom-Crioulo transfigurava-se deum modo incrível, sentindo ferroar-lhe a carne, como aponta de um aguilhão, como espinhos de urtiga brava,esse desejo veemente uma sede tantálica de gozo proi-bido, que parecia queimar-lhe por dentro as vísceras eos nervos... Não se lembrava de ter amado nunca ou de haversequer arriscado uma dessas aventuras tão comuns namocidade, em que entram mulheres fáceis, não: pelo
  38. 38. contrário, sempre fora indiferente a certas cousas, pre-ferindo antes a sua pândega entre rapazes a bordo mes-mo, longe das intriguinhas e fingimentos de mulher.Sua memória registrava dois fatos apenas contra a pu-reza quase virginal de seus costumes, isso mesmo poruma eventualidade milagrosa: aos vinte anos, e sem opensar, fora obrigado a dormir com uma rapariga emAngra dos Reis, perto das cachoeiras, por sinal derapéssima cópia de si como homem; e mais tarde, com-pletamente embriagado, batera em casa de uma france-sa no largo do Rocio, donde saíra envergonhadíssimo,jurando nunca mais se importar com essas cousas... E agora, como é que não tinha forças para resistiraos impulsos do sangue? Como é que se compreendiao amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas domesmo sexo, entre dois homens? Tudo isto fazia-lhe confusão no espírito, baralhan-do idéias, repugnando os sentidos, revivendo escrúpu-los. É certo que ele não seria o primeiro a dar exemplo,caso o pequeno se resolvesse a consentir... Mas instin-to ou falta de hábito alguma cousa dentro de si revolta-va-se contra semelhante imoralidade que os outros decategoria superior praticavam quase todas as noites alimesmo sobre o convés... Não vivera tão bem sem isso?Então, que diabo! não valia a pena sacrificar o grumete,uma criança... Quando sentisse a necessidade, aí esta-vam mulheres de todas as nações, francesas, inglesas,espanholas... a escolher! Caía em si, arrependido e frio, escrupulizando ascousas, traçando normas de proceder, enchendo-se deuma ternura por vezes lânguida e piedosa o olhar
  39. 39. erradio no azul inconsútil. O castigo por causa do Aleixo trouxera-lhe outroprejuízo: no mesmo dia deixou ele o cargo de gajeirode proa, o que afinal era um descanso, um alívio detrabalho. Tudo quanto lhe fizessem estava muito bemfeito, contanto que o deixassem no seu canto, no seuramerrão: nunca pedira favores a ninguém. Olha, dizia ele ao grumete com uma ironia na vozconselheira: não te metas com oficiais. São muito bons,muito amigos da gente, enquanto precisam de nós, sóenquanto precisam, mas depois adeus, hein! dão-noscom o pé no focinho. Aleixo estava satisfeitíssimo com a vida que ialevando naquele céu aberto da corveta, querido, esti-mado por todos, invejado por meia dúzia. Nada lhe fal-tava, absolutamente nada. Era mesmo uma espécie deprincipezinho entre os camaradas, o menino bonito dosoficiais, que o chamavam de boy. Habituando-se de-pressa àquela existência erradia, foi perdendo o aca-nhamento, a primitiva timidez, e quem o visse agora,lesto e vivo, acudindo à manobra, muito asseado sem-pre na sua roupa branca, o boné de um lado, a camisaum poucochinho decotada na frente, deixando ver acova do pescoço, ficava lhe querendo bem, estimava-odeveras. Essa metamorfose rápida e sem transição per-ceptível, foi obra de Bom-Crioulo, cujos conselhos tri-unfaram sem esforço no ânimo do grumete, abrindo-lhe na alma ingênua de criançola o desejo de conquis-tar simpatias, de atrair sobre a sua pessoa a atenção detodos. Gabando-se de conhecer o mundo, Bom-Crioulo
  40. 40. cuidou primeiro em lisonjear a vaidade de Aleixo, dan-do-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio deJaneiro para que ele visse quanto era bonito. O peque-no mirou-se e... sorriu, baixando o olhar. Que bonito oquê!... Uma cara de carneiro mocho! Mas não abando-nou o trastezinho, guardando-o com zelo no fundo datrincheira, como quem guarda um objeto querido, umapreciosidade rara, e todas as manhãs ia ver-se, deitan-do a língua fora, examinando-se cuidadosamente, de-pois de ter lavado o rosto. Bom-Crioulo compreendeu o efeito da experiên-cia e tratou de completar a educação do marinheiro.Ensinou-lhe como se dava laço na gravata... (gravatanão, dizia ele, isso não se chama gravata, chama-se len-ço...); aconselhou-o que nunca usasse o boné no meioda cabeça: Um marinheiro deve usar o boné de lado,com certa graça... E a camisa? Oh, a camisa devia ser um bocadinhoaberta para mostrar a debaixo, a de meia. O hábito fazo monge. O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem pro-curar a razão de todo esse esmero. Via marinheirosimundos, mal vestidos, cheirando a suor, mas erampoucos. Havia os que até usavam essências no lenço eóleo no cabelo. No fim de alguns dias Aleixo estava outro e Bom-Crioulo contemplava-o com esse orgulho de mestre queassiste ao desenvolvimento do discípulo. Um belo domingo, em que todos deviam se apre-sentar com uniforme branco, segundo a tabela, ogrumete foi o último a subir para a mostra. Vinha
  41. 41. irrepreensível na sua toilette de sol, a gola azul dura degoma, calças boca-de-sino, boné de um lado, coturnoslustrosos. Bom-Crioulo, que já estava em cima, na tolda,assim que o viu naquela pompa, ficou deslumbrado epor um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo eraabraçar o pequeno, ali na presença da guarnição, devorá-lo de beijos, esmagá-lo de carícias debaixo do seu cor-po. Sim senhor! Parecia uma menina com aquele traje.Esta mesmo apto! Então o espelhinho sempre servira,hein? E com um gesto rápido, nervoso, disfarçando aconcupiscência: Bonitinho! O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mi-rou-se dalto a baixo, risonho, deu um muxoxo e seguiupara a forma sem dizer palavra. Depois de terminada a leitura do regulamento, feitaa revista, Bom-Crioulo chamou-o à proa, e entraramnuma longa palestra, deliciosa para o negro a julgarpela expressão cada vez mais fulgurante de suafisionomia. O mar estava relativamente calmo, apenas eriça-do por uma viração branda que ameigava o mormaço.Nuvens aglomeravam-se para o sul, crescendo embulcões pardacentos, como impelidas pela mesma for-ça, longe ainda, rente com o horizonte. Em cima, noalto do grande hemisfério que a luz do meio dia incen-diava, o azul sempre o azul claro, o azul imaculado, oazul transparente e doce, infinito e misterioso... Pare-cia que se estava muito perto de terra, porque no mes-
  42. 42. mo horizonte da corveta ia passando uma velinha tri-angular de jangada, microscópica e fugitiva. Pela alhetade boreste vinha-se chegando também o vulto sombriode um grande vapor de dois canos. Bom-Crioulo e Aleixo conversavam à sombra dabujarrona, lado a lado, indiferentes à alegria dos outrosmarinheiros, cuja atenção volvia-se agora para o tran-satlântico. Todos, menos os dois, queriam saber de quenacionalidade era o bruto. Uns afirmavam que era in-glês, por causa do tamanho; outros viam na cor dupladas chaminés o distintivo das Messageries Maritimes:devia ser o Equateur ou o Gironde um dos dois. Fazi-am-se apostas, enquanto o monstro se aproximava si-lenciosamente e a jangadinha sumia-se pouco a pou-co... Mas, olhe, você não queira negócio com outrapessoa, dizia Bom-Crioulo. O Rio de Janeiro é uma terrados diabos... Se eu o encontrar com alguém, já sabe... O rapazinho mordia distraidamente a ponta do len-ço de chita azul-escuro com pintinhas brancas, ouvin-do as promessas do outro, sonhando uma vida cor-de-rosa lá nesse Rio de Janeiro tão falado, onde havia umagrande montanha chamada Pão dAçúcar, e onde o im-perador tinha o seu palácio, um casarão bonito comparedes de ouro... Tudo avultava desmesuradamente em sua imagi-nação de marinheiro de primeira viagem. Bom-Criou-lo tinha prometido levá-lo aos teatros, ao Corcovado(outra montanha donde se avistava a cidade inteira e omar...), à Tijuca, ao Passeio Público, a toda parte. Ha-viam de morar juntos, num quarto da rua da Misericór-
  43. 43. dia, num comodozinho de quinze mil-réis onde cou-bessem duas camas de ferro, ou mesmo uma só, larga,espaçosa... Ele, Bom-Crioulo, pagava tudo com o seusoldo. Podia-se viver uma vida tranqüila. Se continu-assem no mesmo navio, não haveria cousa melhor; se,porém, a sorte os separasse dava-se jeito. Nada é im-possível debaixo do céu. E não tem que dizer isto a ninguém, concluiu onegro. Caladinho: deixe estar que eu toco os paus... Nesse momento o transatlântico defrontava com acorveta, içando a ré a bandeira inglesa, uma grande len-ço de tabaco, encarnado, e saudando com três guin-chos medonhos o navio de guerra, cuja bandeira tam-bém flutuava na popa, verde e ouro. Um mundo de gente movia-se na proa do inglês,decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil.Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco,chapéu de cortiça, no passadiço, empunhando o óculo.Lenços acenavam para a corveta que ia ficando atrás,toda em panos, lenta e soberba. E o paquete desapareceu como uma sombra, e elacontinuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, de-solada e lúgubre. Os marinheiros tinham se espalhadopela tolda e pelas cobertas, entregues à labuta, espe-rando o rancho das quatro horas. A montanha de nuvens que há pouco erguia-se fan-tasticamente lá longe, ao sul, alastrava o céu, aproxi-mando-se cada vez mais, cor de chumbo, tempestuosa,desdobrando-se em contornos de feições bizarras, comouma barreira enorme que de repente se levantasse entrea corveta e o horizonte. Meio encoberto já, o sol coava
  44. 44. sua luz triste através das nuvens, irisando-as de umafaixa multicor e brilhante, espécie de auréola, que des-cia para o mar. O aguaceiro estava iminente. Obra dos joanetes e sobres! gritou o oficial dequarto. A essa voz o movimento foi geral. Imediatamentesoaram apitos e a tolda encheu-se de marinheiros e ofi-ciais, que surgiam das escotilhas num alvoroço, cor-rendo, empurrando-se. A figura do guardião Agosti-nho destacava à proa, calma e solene, medindo amastreação. Arria, carrega! Trilaram de novo os apitos num desespero demanobra açodada: avalanches de marinheiros precipi-taram-se de um bordo e doutro, alando os cabos, atro-pelando-se em correrias de horda selvagem, batendoos pés, ao barulho dos moitões que chiavam como car-ro de bois na roça. Agüenta o leme! avisava o oficial todo embuça-do na sua capa impermeável. O tempo escurecera completamente, e a ventaniarefrescando, esfuziava na mastreação de modo sinis-tro, com a força extraordinária de titãs invisíveis. Mare céu confundiam-se na escuridão, formando um sóconjunto negro em torno da corveta, abarcando-a emtodos os sentidos, como se tudo ali dentro fosse desa-parecer debaixo das águas e das nuvens... Passavamgrandes ondas altaneiras, rugindo sob a quilha, dan-çando uma dança medonha e vertiginosa na proa, cadavez que o navio mergulhava o bojo com risco de abrir
  45. 45. pelo meio... Chuva copiosíssima alagava o convés obri-gando os marinheiros a se arregaçar, encharcando aspilhas de cabo, numa baldeação geral e inesperada. A corveta ficara somente em gáveas e mezena, ecorria, agora, sobre o mar, como se fosse um simplesiatezinho de recreio, leve, enfunada, cavalgando asondas a bordas quase rente com a água... Que orgulho para o oficial de quarto! Como elesentia-se bem naquele momento, debaixo de seu sues-te, molhado té à ponta dos pés, todo olhos para que onavio não saísse fora do rumo, cheio de responsabili-dade, calmo no seu posto, enquanto os outros descan-savam na praça darmas! De vez em quando olhava paraa popa e via, com grande júbilo dalma, a larga esteirade espuma que a corveta ia deixando atrás. Sentia-seforte, sentia-se homem! Decididamente a marinha é,por excelência, uma escola de coragem! pensava. Durou hora e meia o aguaceiro, uma chuva cerra-da e insistente de revés, que parecia não acabar mais. Océu abriu-se de repente, claro e azul; a luz tornou ailuminar os horizontes; e pouco a pouco foram desapa-recendo os últimos vestígios da brincadeira, como di-zia, depois, o tenente Souza, o da calmaria, que entravade quarto. O vento, porém, continuava rijo, açoitando os ca-bos, fustigando a superfície dágua, gemendo tristementesalmodias de violoncelo fantástico, em lufadas que fa-ziam estremecer todo o navio. Dez milhas, acusava a barquinha, dez milhas porhora. Cuidado com o leme!
  46. 46. Marinheiros vassoiravam o convés, enquanto ou-tros iam passando o lambaz onde já não havia água. Decima, da tolda, ouvia-se a voz dos oficiais conversandona bateria, sentados por ali numa desordem grotesca,fumando, rindo... O comissário, um de suíças longas,magro, estudava clarinete, embaixo, na praça darmas,com admirável paciência, equilibrando-se. A chuvareanimara-os a todos, oficiais e marinheiros,desentorpecendo-lhes o corpo. Bom-Crioulo, cansado da faina, descera à cober-ta, e conversava também com Aleixo, de quem só seseparava na hora do serviço. A umidade, o frio que entra pelas escotilhas, aqueleambiente glacial comunicava-lhe um desejo louco deamor físico, um enervamento irresistível. Unido aogrumete num quase abraço, a mão no ombro de Aleixoque, àquele contacto, experimentava uma vaga sensa-ção de carícia, o negro esquecia todos os seus compa-nheiros, tudo que o cercava para só pensar no grumete,no seu bonitinho e no futuro dessa amizade inexplicável. Tiveste muito medo? De quê? Do tempo... Não, nem por isso. E Aleixo aproveitou o ensejo para narrar um casode vento sul em Santa Catarina: Tinham saído, ele e opai, numa canoa de pesca, assim pelo meio-dia. De re-pente o mar começa a encrespar, o vento desaba... eagora? Estavam sozinhos perto da ilha dos Ratonesdentro de uma canoa que era ver uma casquinha de noz.O velho, coitado, não teve dúvida, não! puxou pelo
  47. 47. remo: vuco, te vuco..., vuco, te vuco... Segura-te, meufilho! E o vento cada vez mais forte, zunindo no ouvi-do que nem o diabo. Mas veio uma rajada de supetão,um golpe de vento medonho, e quando ele, Aleixo, quisagarrar-se ao pai, era tarde: a canoa emborcou! Emborcou? Emborcou de verdade, pois então? Sei bem quefui ao fundo e voltei à tona. Aí perdi o sentido... quan-do acordei estava na praia, são e salvo, graças a Deus! Assim mesmo foste feliz, disse o negro com inte-resse. Podias morrer afogado... Bom-Crioulo também quis contar sua história, e aconversa prolongou-se té ao anoitecer, quando todossubiram par a distribuição do serviço. Em vez de abrandar, o sueste soprava com maisforça, duro e tenaz, ameaçando levar tudo quanto eracabo e pano. A corveta, o velho esquife, como a cha-mavam, ia numa vertigem por aqueles mares, arfandosuavemente, oscilando às vezes, quando o vagalhão eramaior, com os seus dois faróis de cor o encarnado aboreste, o verde a bombordo e a lanterninha do traquete,pálida e microscópica no alto do estai da giba. Sempre em gáveas e mezena, vento em popa, gran-de e sombria na noite clara, espectral e silenciosa, elavoava desesperadamente caminho da pátria. A lua surgindo lenta e lenta, cor de fogo a princí-pio, depois fria e opalescente, misto de névoa e luz,alma da solidão, melancolizava o largo cenário dasondas, derramando sobre o mar essa luz meiga, essaluz ideal que penetra o coração do marinheiro, comu-nicando-lhe a saudade infinita dos que navegam.
  48. 48. E nada de serenar o vento! Naquele caminhar, cedo se estaria em terra. Cousatalvez de um dia mais... Enquanto não chegava a hora triste do silênciooficial, a hora do sono, que se prolongava té o romperdalvorada, marinheiros divertiam-se à proa, cantandoao som de uma viola chorosa, numa toada sertaneja,rindo, sapateando, a ver quem melhor improvisavamodinhas de pé quebrado, cantigas do mato... Não seperdia um luar como aquele! Tinham trabalhado mui-to: era preciso folgar também. Deitados no convés, deventre para o ar, outros em sentido contrário, queixosna mão um sentado pacatamente, aquele outro de per-nas cruzadas fumando todos em plena liberdade, for-mavam roda em cima do castelo, enquanto era cedo. O oficial do quarto passeando, passeando, escuta-va-os enternecido, cheio de contemplação por aquelapobre gente sem lar nem família, que morria cantando,longe de todo carinho, às vezes longe da pátria, ondequer que o destino os conduzisse. Aquelas cantigas as-sim rudes, assim improvisadas, quase sem metro e semrima, tinham, contudo, o sabor penetrante dos frutosnaturais e o misterioso encanto de confissões ingênu-as... Fazia bem ouvi-las, como que o coração dilatava-se numa hipertrofia de saudade terna e consoladora. Deixá-los cantar, os pobres marinheiros, deixá-losesquecer a vida incerta que levam deixá-los cantar!... Geme a viola, soluça uma alma em cada bordão;ressoam cantares em desafio no silêncio infinito da noiteclara... O tempo voa, ninguém se apercebe das horas, nin-
  49. 49. guém se lembra de dormir, de fechar os olhos à paisa-gem translúcida e fria do luar tropical varrida pelo ventosul. Misterioso instrumento essa viola, que fazia esque-cer as agruras da vida, embriagando a alma, tonifican-do o espírito! Bom-Crioulo não tomou parte no folguedo. Esta-va cansado de ouvir cantigas: fora-se o tempo em quetambém gostava de fazer seu pé-de-alferes, dançandoo baião, fazendo rir a rapaziada. E quando a sineta de proa badalou nove horas,viram-no passar esgueirando-se felinamente, sobraçan-do a maca. Ia depressa, furtando-se à vista dos outros,mudo, impenetrável, sombrio... Embarafustou pela es-cotilha, escadas abaixo, e sumiu-se na coberta. Que iria ele fazer? Algum crime? Alguma traição?Nada: Bom-Crioulo tratava de se agasalhar como qual-quer mortal, o mais comodamente possível. Lá em cimafazia um arzinho de gelo, caramba! A coberta sempreera um pouco mais quente. O seguro morreu de velho... Abriu a maca, estendeu-se sobre o convés caute-losamente, com mãos de mulher, examinou o lençol, e,sacando fora a camisa de flanela azul, deitou-se comum largo suspiro de conforto. Ah! estava como queria.Boa noite!... Nem uma voz rompia o silêncio regulamentar, se-não a do oficial, de hora em hora: Barca! Ventava forte ainda. O convés, tanto na coberta como na tolda, apre-sentava o aspecto de um acampamento nômade. Amarinhagem entorpecida pelo trabalho, caíra numa so-
  50. 50. nolência profunda, espalhada por ali ao relento, numadesordem geral de ciganos que não escolhem o terrenopara repousar. Pouco lhe importavam o chão úmido, ascorrentes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixoera maior o atravancamento. Macas de lona suspensasem varais de ferro, umas sobre as outras, encardidascomo panos de cozinha, oscilavam à luz moribunda emacilenta das lanternas. Imagine-se o porão de um na-vio mercante carregado de miséria. No intervalo daspeças, na meia escuridão dos recôncavos moviam-secorpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor nau-seabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humanodiluído em urina e alcatrão. Negros, de boca aberta,roncavam profundamente, contorcendo-se na incons-ciência do sono. Viam-se torsos nus abraçando o con-vés, aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruel-mente. De vez em quando uma voz entrava asonambular cousas ininteligíveis. Houve um marinhei-ro que se levantou, no meio dos outros, nu em pêlo, osolhos arregalados, medonho, gritando que o queriammatar. No fim de contas o pobre-diabo era vítima deum pesadelo, nada mais. Tudo voltou ao silêncio. E lá cima, no passadiço, o oficial de quarto, vigi-lante e imperturbável, de hora em hora: Barca! Havia um rebuliço ligeiro; o guardião apitava acor-dando a gente de serviço: Levanta, levanta! olha a bar-ca!... e as horas iam correndo assim, monotonamente. Bom-Crioulo estava de folga. Seu espírito nãosossegara toda a tarde, ruminando estratagemas comque desse batalha definitiva ao grumete, realizando, por
  51. 51. fim, o seu forte desejo de macho torturado pelacarnalidade grega. Por vezes tinha querido sondar o ânimo dogrumete, procurando convencê-lo, estimulando-lhe oorganismo, mas o pequeno fazia-se de esquerdo, repe-lindo brandamente, com jeitos de namorada, certos ca-rinhos do negro. Deixe disso, Bom-Crioulo, porte-sesério! Nesse dia Priapo jurou chegar ao cabo da luta. Ouvencer ou morrer! Ou o pequeno se resolvia ou esta-vam desfeitas as relações. Era preciso resolver aquilo. Aquilo quê? perguntou o rapazinho, muito admi-rado. Nada; o que eu quero é que não te zangues comi-go. E precipitadamente: Onde vais dormir esta noite? Lá bem à proa, na coberta, por causa do frio. Bem: havemos de conversar. Às nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixodescer, agarrou a maca e precipitou-se no encalço dopequeno. Foi justamente quando o viram passar com atrouxa debaixo do braço, esgueirando-se felinamente... Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lheo calor do corpo roliço, a branda tepidez daquela carnedesejada e virgem de contactos impuros, um apetiteselvagem cortou a palavra ao negro. A claridade nãochegava sequer à meia distância do esconderijo ondeeles tinham se refugiado. Não se viam um ao outro:sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores. Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-
  52. 52. Crioulo, aconchegando-se ao grumete, disse-lhe qual-quer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel, semrespirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se, instinti-vamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado aoconvés, o marulhar das ondas na proa, não teve ânimode murmurar uma palavra. Viu passarem, como em so-nho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo: o quar-tinho da Rua da Misericórdia no Rio de Janeiro, os te-atros, os passeios....; lembrou-se do castigo que o ne-gro sofrera por sua causa; mas não disse nada. Umasensação de ventura infinita espalhava-se em todo ocorpo. Começava a sentir no próprio sangue impulsosnunca experimentados, uma como vontade ingênita deceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe parao que ele quisesse uma vaga distensão dos nervos, umprurido de passividade... Ande logo! murmurou apressadamente, voltan-do-se. E consumou-se o delito contra a natureza.
  53. 53. 4 Amanhecera um belo dia de sol, quente, luminoso,de uma transparência fina de cristal lavado. Logo pela madrugadinha, antes de apagar-se a últi-ma estrela, a corveta acendera fogos, e demandava oporto, em árvore seca, impulsionada pela sua velhamáquina de sistema antigo um estafermo quaseimprestável, porejando vapor, abrindo-se toda emdesconjuntamentos de maquinismo secular. Enfim se chegava! Agora cada um tratava de si, de sua roupa, do quetrouxera da longa viagem ao sul, dessa viagem malditaque parecia não acabar nunca. Lá estava bem defronte, por bombordo, o PãodAçúcar, talhado a pique, sombrio, íngreme, batidopelas ondas, guardando a entrada; e mais longe para osul termo final de uma espécie de cordilheira primitivae bronca o cocuruto da Gávea, cinzento, dominando omar... E aquela ilha com ponto branco? perguntou Aleixocuriosamente, Estava ao lado do Bom-Crioulo, contemplandoembevecido a costa fluminense. Aquela ilha é a Rasa, explicou o negro. Não vês ofarol, aquilo branco?... E começou a descrever o pedaço do litoral que seia desdobrando à luz, alcantilado e fulgurante, comoessa terras lendárias de tamoios e caramurus... Aquela
  54. 54. faixa de areia, muito estreita, do outro lado (e estendiao braço por cima do ombro do pequeno), beirando aágua, chamava-se Marambaia. Lá adiante, uma monta-nha quase apagada, era o Cabo Frio... E foi indicando, um a um, com exclamações depatriotismo, os acidentes da entrada, os edifícios: asfortalezas de S. João no alto, e de Santa Cruz à beiramar, olhando-se, com sua artilharia muda; a Praia Ver-melha, entre morros; o hospício; Botafogo... Tudo aquilo, dizia ele abarcando com um gestolargo, morros e casas, tudo aquilo é a cidade de Niterói,ouviste falar? Não ... Pois é ali. Aleixo, de resto, não experimentava grande sur-presa. Entre montanhas havia ele nascido e perto domar. O entusiasmo de Bom-Crioulo nem sequer o aba-lava: fazia outra idéia do Rio de Janeiro! Mas isto ainda não é a cidade, meu tolo, explica-va o negro. Tu não viste nada por enquanto... A corveta aproximava-se de Villegaignon... Bom-Crioulo mal teve tempo de dizer ao grumete:Foi ali que eu comecei... E desapareceu entre a chusmada marinhagem. Era quase meio-dia. Escaleres de guerra vinhamem direção da fortaleza, cortando a água numa carreiramacia de out-riggers. Ouvia-se a pancada igual dos re-mos acompanhando a voga. Ao redor da barca de banhos pairavam botes decomércio. Lanchas apitavam cruzando a baía. Naviosde guerra imóveis, aproados à barra, faziam sinais, içan-
  55. 55. do e arriando bandeiras. Entre esses havia uma grandecouraçado ao lume dágua, raso, chato e bojudo, comuma flâmula azul no mastro grande. A corveta diminuiu a marcha, seguindo vagarosae dominando com seu porte de nau antiga e legendária,o conjunto de embarcações que por ali estacionavam. Pouco adiante de Villegaignon fez uma parada im-perceptível, tocando atrás: ouviu-se um grande baquenágua e logo um rumos de amarras que se desenrolam,que se precipitam... Ora, graças! exclamaram algumas vozes ao mes-mo tempo, como se houvessem combinado fazer corode alegria. Entretanto, Bom-Crioulo começava a sentir unslonges de tristeza nalma, cousa que raríssimas vezeslhe acontecia. Lembrava-se do mar alto, da primeiravez que vira o Aleixo, da vida nova em que ia entrar,preocupando-o sobre a amizade do grumete, o futurodessa afeição nascida em viagem e ameaçada agorapelas conveniências do serviço militar. Em menos devinte e quatro horas Aleixo podia ser transferido paraoutro navio ele mesmo, Bom-Crioulo, quem sabe? tal-vez não continuasse na corveta... Instintivamente seu olhar procurava o pequeno,acendia-se num desejo sôfrego de vê-lo sempre, sem-pre, ali perto, vivendo a mesma vida de obediência e detrabalho, crescendo a seu lado como um irmão queridoe inseparável. Por outro lado estava tranqüilo porque a maiorprova de amizade Aleixo tinha lhe dado a um simples
  56. 56. aceno, a um simples olhar. Onde quer que estivessemhaviam de se lembrar daquela noite fria dormida sob omesmo lençol na proa da corveta, abraçados, como umcasal de noivos em plena luxúria da primeira coabita-ção... Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre ex-traordinária de erotismo, um delírio invencível de gozopederasta... Agora compreendia que só no homem, nopróprio homem, ele podia encontrar aquilo que debal-de procurara nas mulheres. Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nun-ca em sua vida tivera a lembrança de perscrutar suastendências em matéria de sexualidade. As mulheres odesarmavam para os combates do amor, é certo, mastambém não concebia, por forma alguma, esse comér-cio grosseiro entre indivíduos do mesmo sexo; entre-tanto, quem diria!, o fato passava-se agora consigo pró-prio, sem premeditação, inesperadamente. E o mais in-teressante é que aquilo ameaçava ir longe, para mal deseus pecados... Não havia jeito, senão ter paciência, umavez que a natureza impunha-lhe esse castigo. Afinal de contas era homem, tinha suas necessi-dades, como qualquer outro: fizera muito em conser-var-se virgem té aos trinta anos, passando vergonhasque ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigadoa cometer excessos que os médicos proíbem. De qual-quer modo estava justificado perante sua consciência,tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo,para não falar em certo oficial de quem se diziam cousasmedonhas no tocante à vida particular. Se os brancosfaziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm
  57. 57. força para resistir: a natureza pode mais que a vontadehumana... Começou a faina de arriar escaleres, uma lufa-lufabarulhenta e ensurdecedora, um incessante rumor decabos e moitões, de vozes e apitos, confundindo-se emalgaravia de mercado público, ressoando clamorosa-mente no silêncio da baía. Em torno da corveta agitava-se uma multidão deescaleres e lanchas conduzindo oficiais de marinha esenhoras, que acenavam para bordo aqueles em uni-forme de visita, espada e luva branca, afetando autori-dade, aprumando-se no paineiro com essa desenvoltu-ra natural dos homens do mar; aquelas em toilletes deverão, muito rubras do sol. Houve um momento de geral precipitação, em quetodos procuravam subir a escadinha do portaló, inves-tindo a um tempo, quando a visita sanitária pôs-se aolargo. Atraca daí! gritava uma voz. Larga a canoa!bradava a outra. Ciando à ré! Abre de proa! Remaavante! Ninguém se compreendia no tumulto. Daí a apouco, porém, foi-se restabelecendo a or-dem, todo aquele alvoroço desapareceu e ouvia-se ape-nas a voz dos marinheiros conversando. Foi então queatracou um escaler coma bandeira inglesa, e um oficialruivo, de suíças, muito parecido com o rei Guilherme,da Alemanha. Era o comandante do Ironside, cruzadorbritânico. Austero, hermeticamente abotoado, subiu e des-ceu logo, sem se voltar, pisando forte nos degraus daescadinha.
  58. 58. Bom-Crioulo que se debruçara na amurada, assimque o viu saltar no escaler: Inglês bruto! murmurouentre dentes, e ficou-se com sua indignação, olhando aágua calma... Ele ali estava, enfim, na baía do Rio deJaneiro, depois de uma ausência de seis longos meses!Precisava ir à terra naquele mesmo dia para arranjar onegócio do quarto da Rua da Misericórdia, antes que opequeno se arrependesse; tinha umas compras a fazer... Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarnição passou a tarde numasensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado empequenos trabalhos de asseio e manobras rudimenta-res. Diabo de vida sem descanso! O tempo era poucopara um desgraçado cumprir todas as ordens. E não ascumprisse! Golilha com ele, quando não era logo meti-do em ferros... Ah! vida, vida!... Escravo na fazendo,escravo a bordo, escravo em toda a parte... E chamava-se a isso de servir à pátria! Anoiteceu. Noite estrelada, cheia de silêncio, pro-fundamente calma e reparadora. A guarnição da corvetadormia sem abalos um sono tranqüilo e delicioso deoito horas, ao ar livre, sobre o convés desbastado. Bom-Crioulo nem sequer pensou em Aleixo: es-tava incapaz de trocar palavra, sucumbido pela cansei-ra, o corpo mole reclamando conforto, o espírito para-do; todo ele sem ânimo para cousa alguma. Trabalharabrutalmente; não havia resistir à fadiga. Momentos háem que os próprios animais caem extenuados... Dei-tou-se a um canto, longe de todos, e adormeceu imedi-atamente num sono cataléptico. Ao primeiro toquedalvorada espreguiçou-se, abrindo os olhos com sur-
  59. 59. presa, e sentiu-se alagado. Oh! ... Passou a mão nolugar úmido, tateando, e verificou, cheio de indigna-ção, cheio de tédio, com um gesto de náusea, airreparável perda que sofrera inconscientemente duranteo sono um verdadeiro esgotamento de líquido semi-nal, de forças procriadoras, de vida, enfim, que aquiloera sangue transformado em matéria! Se ao menos ti-vesse gozado... Mas não sentira nada, absolutamentenada, mesmo em sonho! Dormira toda a noite comoum porco, e o resultado ali se achava no lençol quaseum rio de goma prolífica! E triste, desesperado, maldizendo a natureza nalinguagem torpe das galés, ergue-se e foi juntando aroupa de cama bruscamente, atabalhoadamente, comose alguém houvesse concorrido para a sua desgraça. Entrou pelo dia com ares de quem não quer se in-comodar, o semblante carregado numa sombria expres-são de aborrecimento, falando pouco e em tom gros-seiro, ameaçando: que o deixassem, que o deixassem;não queria brincadeira; ainda rachava a cabeça dum! Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se,adulavam-no, porque sabiam que o negro era meio doi-do. À tarde, porém, esse estado nervoso amainou, gra-ças ao Aleixo que lhe fora perguntar, com certo inte-resse e com uma meiguice na voz de adolescente, seele, Bom-Crioulo, estava disposto a ir à terra. Por que não? Já estava concedida a licença. Ah! pensei que tinha se esquecido. Qual esquecido! Pois eu não te disse que hojemesmo havíamos de arranjar nosso ninho?
  60. 60. E muito carinhoso: Espero em Deus estrear hoje... Faltava, entretanto, a licença do grumete. Aleixonão se animava a pedir que o deixassem ir à terra, comreceio de uma negativa. Bom-Crioulo encorajou-o Nãofosse tolo! Isso a gente dizia que voltava logo, que eraum instante, ou então forjava qualquer história... Dize ao imediato que tens um padrinho rico emterra, uma cousa assim... Aleixo criou ânimo, e daí a pouco voltava muitosatisfeito, risonho, dando pinchos. Não havia nada como a gente ser um menino bo-nito! Até os oficiais gostavam... Bom-Crioulo é que não gostou da pilhéria. Ferrouo olhar no pequeno hum! hum! como para o fulminar.Mas o grumete corrigiu prontamente: Brincadeira,menino, brincadeira... pois não se podia brincar? Isso não são brinquedos, repreendeu o negro. Euquando gosto de uma pessoa gosto mesmo e acabou-se! Já lhe disse que ande muito direitinho... Vestiram-se e abalaram no escaler das cinco ho-ras, depois da ceia. Vamos primeiro tomar um golezinho de jeribita,disse Bom-Crioulo ao saltar no cais Pharoux. Aquimesmo no quiosque ... É preciso esquentar os rins. Eu não quero. Hás de tomar nem que seja um copo de maduro. Maduro? Sim, maduro: é uma bebida muito boa. Foram andando... O relógio das barcas marcava seis horas menos
  61. 61. um quarto, e a cidade, mergulhada no crepúsculo, ador-mecia lentamente, caía pouco a pouco numa estagna-ção de praça abandonada, num triste silêncio de aldeialongínqua... Acendiam-se as luzes e rareavam os transeuntesno Largo do Paço. Um ou outro retardatário, em pé nasombra, e sujeitos que saltavam dos bondes em frente àestação das barcas, conduzindo embrulhos. O velhopardieiro dos Braganças, o sombrio casarão, em que,durante quase um século, a monarquia fez reclamo desuas pratas, imobilizava-se lugubremente, ermo e fe-chado aquela hora. Bom-Crioulo tomou à esquerda, por baixo da ar-cada do Paço, enfiando pela rua da Misericórdia, braçoa braço com o grumete, fumando um charuto que com-prara no quiosque. Lá adiante, nas proximidades do Arsenal de Guer-ra, pararam defronte um sobradinho com persianas, deaspecto antigo, duas varandolas de madeira carcomidano primeiro andar, e lá em cima, no telhado, uma espé-cie de trapeira sumindo-se , enterrando-se, dependura-da quase. Embaixo, na loja, morava uma família de pre-tos dAngola; ouvia-se naquele momento, no escuro in-terior desse coito africano, a vozeria dos negros. É aqui, disse Bom-Crioulo, reconhecendo a casa,e desaparecendo no corredor sem luz, que ia ter aosobradinho. Aleixo acompanhava-o taciturno, silenci-osos, cosendo-se à parede, como quem pela primeiravez entra num lugar estranho. Anda tolo! fez o outro, segurando-lhe o braço.De que tens medo?...
  62. 62. Subiram cautelosos, por ali acima, uma escada tris-te e deserta, cujos degraus, muito íngremes, ameaça-vam fugir sob os pés. O negro puxou o cordão que pendia da cancela elá dentro, na sala de jantar, uma campainha fez sinal,timbrando surdamente. Bom-Crioulo tornou a puxar com força. Quem é? Oh!... Sou eu, D. Carolina: tenha bondade. Já vai... E com pouco o marinheiro atirava-se nos braçosde uma senhora gorda, redonda e meio idosa, estreitan-do-a contra o peito, suspendendo-a mesmo, apesar detoda a sua gordura, com essa alegria natural de pessoasque se tornam a ver, depois de um ausência. Conta-mlá, Bom-Crioulo, anda, entra... Quem éeste pequeno? Este pequeno?... Por causa dele mesmo é que es-tou aqui. Depois conversaremos... E tu, como vais, meu crioulo? Dize, conta... Ora,se eu soubesse que era tu... Dá cá outro abraço, anda! Abraçaram-se de novo, com grande alvoroço, rin-do, gargalhando, ela de avental, muito rechonchuda, ocabelo em duas tranças, partido ao meio, Bom-Crioulofazendo-se amável, cobrindo-a de exclamações, achan-do-a mais gorda, mais bonita, mais moça!... D. Carolina era uma portuguesa que alugava quar-tos na Rua da Misericórdia somente a pessoas de certaordem, gente que não se fizesse de muito honrada e demuito boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons in-
  63. 63. quilinos, patrícios, amigos velhos... Não fazia questãode cor e tampouco se importava com classe ou profis-são do sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadiço, cai-xeiro de venda, tudo era a mesmíssima cousa! o trata-mento que lhe fosse possível dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros. Vivia de sua casa, de seus cômodos, doaluguelzinho por mês ou por hora. Tinha o seu homem,lá isso pra que negar? Mas, independente dele e de ou-tros arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhandoa vida com um emprego certo, um emprego mais oumenos rendoso para garantia do futuro. Isso de homensnão há que fiar: hoje com Deus, amanhã com o diabo. Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casana rua da Lampadosa. Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz do dia, sem ela seincomodar. Uma fortuna de jóias, de ouro e brilhante!Já era gorducha, então: chamavam-na Carola Bunda,um apelido de mau gosto, invenção da rua... Depois esteve muito doente, saíram-lhe feridaspelo corpo, julgou não escapar. E, como tudo passa, elanunca mais pode reerguer-se, chegando, por desgraça,ao ponto de empenhar jóias e tudo, porque ninguém aprocurava, ninguém a queria pobre cadela sem dono...Passou misérias! até quis entrar para um teatro comoqualquer cousa, como criada mesmo. Foi nessa época,num dia de carnaval (lembrava-se bem!), que começoua melhorar de sorte. Um clubezinho pagou-lhe algunsmil-réis para ela fazer de Vênus, no alto de um carrotriunfal. Foi um escândalo, um sucesso: atiraram-lheflores, deram-lhe vivas, muita palma, presentes, o dia-
  64. 64. bo! Durante quase um ano só se falou na Carola, naspernas da Carola, na portuguesa da rua do Núncio. A pobre mulher narrava isso com lágrimas e sus-piros de profunda e melancólica saudade, e repetia: BomTempo! Bom tempo! Esteve duas vezes amigada, tornou a cair doente,foi à Portugal, regressou ao Brasil, cheia de corpo e denovas ambições, amigou-se outra vez, e, afinal de con-tas, depois de muito gozar e de muito sofrer, lá estavana Rua da Misericórdia, fazendo pela vida, meu rico!,explorando a humanidade brejeira, enquanto o seumacacão trabalhava por outro lado em negócios de carneverde e fornecimento para os quartéis. De resto, essa aliança com o açougueiro, uma se-nhor Brás, homem de grandes barbas e muitos haveres,essa aliança pouco ou nada lhe rendia, a ela, porque osujeito era casado e só de mês em mês dava o ar de suagraça, deixando-lhe a ninharia de cento e cinqüenta mil-réis para o aluguel do sobradinho, fora a carne quemandava diariamente. Tenho quarenta anos de experiência, dizia, qua-renta anos e alguns fios de prata na cabeça. Conheçoeste mundo velho, meu amor; tudo isso pra mim é mi-séria. Estimava Bom-Crioulo desde o dia em que ele,desinteressadamente, por um acaso providencial, livrou-a de morrer na ponta uma faca; história de ladrões...Era caso até para beijar os pés do marinheiro, porquenunca vira tanta coragem e tanto desinteresse! D. Carolina buscava sempre ocasião de recordar ofato, narrando-o com todas as cores, dando-lhe mesmo
  65. 65. umas tintas de paleta rembrantesca, desfazendo-se emelogios à gente da marinha, gabando os homens do mar,uns benfeitores da humanidade. Uma noite só ao pensar tinha calafrios! vinha deassistir ao Drama no alto-mar, que se representava naPhenix, quando, ao meter a chave na porte, foi surpre-endida por dois indivíduos, cuja fisionomia não podereconhecer e que lhe pediram os anéis e dinheiro queporventura trouxesse. Ela, com efeito, além de um anel de brilhante, lem-brança dos bons tempos! e duas esmeraldas, levava cin-qüenta mil-réis. Ora, já se passava de meia noite e aRua da Misericórdia estava deserta que nem um cemi-tério. Nenhum guarda por ali! Quis abrir a boca e pedirsocorro, mas os gatunos foram dizendo logo que, se elaousasse gritar, morria. E brandiram os punhais, duaslâminas de bom aço, tamanho de facões! Ah! mas Deusé grande! Nesse momento ia passando o vulto de ummarinheiro e ela disparou correndo, sobre ele: Socor-ro! Socorro! Travou-se uma luta. O marujo saltava fu-gindo aos punhais e investindo logo, como uma fera,de navalha em punho. Felizmente (Deus sabe o que faz!)aos gritos de socorro, encheram-se as janelas de genteem camisa de dormir, soaram apitos no escuro e a polí-cia chegou a tempo de prender os ladrões, completa-mente desarmados pelo bem-vindo marinheiro. Qual-quer pessoa nos casos dela faria o que ela fez: abriucerveja para o seu protetor, que disse chamar-se Amaro,vulgo Bom-Crioulo, marinheiro de um navio da esqua-dra. E, como no sobradinho moravam praças de bordo,Bom-Crioulo deu-se a conhecer, havendo logo uma
  66. 66. intimidade entre ela, Carolina, e o negro. Palavra dhonracomo nunca vira tanta coragem num homem. Estimava-o por isso: porque era um marinheirovalente homem para quatro! Bom-Crioulo começou a freqüentar o sobradinhoonde iam outros marinheiros, e daí a grande amizadeda portuguesa por ele, não que houvesse outra inten-ção: ela sabia que o negro não era homem para mulhe-res... Vamos, conta-mlá essa viagem! Tinham-se sentado, os três, numa sala de jantar, àluz do gás. D. Carolina estufada, muitíssimo gorda,cabeceando, sem fôlego, estava ansiosa por saber notí-cias. O negro, de boné no alto da cabeça, recostado fa-miliarmente, acabava o charuto, cuja cinza abria-se devez em quando num clarão rubro e quente. Aleixo, imó-vel numa cadeira, olhava as paredes, examinando opapel do forro, os quadros oleografias de carregaçãofigurando assunto de alcova, duas em cada parede, co-locadas simetricamente , o guarda-louça quase vazio, euma coleção de estampilhas de caixa de fósforo arma-da em leque. Tudo velho e incolor, poento e maltrata-do. Respirava-se uma atmosfera de sebo e cânfora, re-novada por uma triste janelinha que abria para a espé-cie de área pertencente à loja. Bom-Crioulo resumiu em poucas palavras a via-gem da corveta: Seis meses de estupidez! O Aleixo éque trouxera um pouquinho de alegria na volta... E desfiou a história do grumete. Agora D. Carolina vais no arranjar um quartinho,mesmo que seja no sótão, rematou; mas um quartinho
  67. 67. sem luxo, para quando viermos à terra. Uma cama ou duas? perguntou sorrindo a qua-rentona. Como quiser... Marinheiro é gente que dorme aosquatro, aos cinco... aos cinqüenta! Se houvesse umacaminha larga... Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portu-guesa. O comodozinho de cima está desocupado, e, querque lhe diga? eu acho que ficavam melhor... Sempre risonha e trêfega, sufocada pelo calor, amulher piscou o olho a Bom-Crioulo. Então, já sei que vens outro... Bendita viagem!ou o mar ou as tais cantáridas!... Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, de-bruçado à janela, cuspia para baixo, para o quintalejodos africanos.
  68. 68. 5 Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida nosobradinho, começou a experimentar uma delícia mui-to íntima, assim como um recolhido gozo espiritualcerto amor à vida obscura daquela casa onde ultima-mente quase ninguém ia, e que era o seu queridovalhacouto de marujo em folga, o doce remanso de suaalma voluptuosa. Não sonhava melhor vida, conchegomais ideal: o mundo para ele resumia-se agora naquilo:um quartinho pegado às telhas, o Aleixo e ... nada mais!Enquanto Deus lhe conservasse o juízo e a saúde, nãodesejava outra cousa. O quarto era independente, com janela para os fun-dos da casa, espécie de sótão, ruído pelo cupim e tre-sandando a ácido fênico. Nele morrera de febre amare-la um portuguesinho recém chegado. Mas Bom-Criou-lo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não seimportou com isso, tratando de esquecer o caso e insta-lando-se definitivamente. Todo dinheiro que apanhavaera para a compra de móveis e objetos de fantasiarococó, figuras, enfeites, cousas sem valor, muita veztrazida de bordo... Pouco a pouco o pequeno cômodofoi adquirindo uma feição nova de bazar hebreu, en-chendo-se de bugigangas, amontoando-se de caixasvazias, búzios grosseiros e outros acessórios ornamen-tais. O leito era uma cama de vento já muito usada,sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pelamanhã, quando se levantava, um grosso cobertor en-
  69. 69. carnado para ocultar as nódoas. Durante meses viveu ele uma vida calma, escru-pulosamente pautada, rigorosamente metódica, cum-prindo seus deveres a bordo, vindo à terra duas vezespor semana em companhia de Aleixo, sem dar motivoa castigos ou recriminações. Até os oficiais estranha-vam-lhe o procedimento, admiravam-lhe os modos. Issoé cousa passageira, insinuava o tenente Souza. Brevetemo-lo aqui, bêbedo e medonho. Sempre o conhecirefratário a toda norma de viver. Hoje manso como umcordeiro, amanhã tempestuoso como uma fera. Cousasde caráter africano... O grumete, por sua vez, trazia a alma na perpétuaalegria dos que não têm cuidados. Em terra ou a bordo,não tinha de que se queixar: andava sempre limpo, nin-guém o via deitado no convés, ou emporcalhando-sede alcatrão à proa. Felizmente o imediato escolhera-opara o serviço de cabo-marinheiro, em atenção à suaconduta, reconhecendo nele um rapazinho de bons cos-tumes, amigo do asseio, obediente e trabalhador. Demodo que raro via-se Aleixo entre a marinhagem. Seulugar predileto era o passadiço ou a ré cosendo bandei-ras, tesourando flâmulas, aprendendo certos misteresdo ofício. Às vezes tinha palestras com o oficial doquarto, narrando histórias de Santa Catarina, casos daprovíncia, do tempo em que ele era um simples filho depescador, um pobre menino da beira-mar. Os outrosmarinheiros olhavam-no com inveja, tocando-se oscotovelos maliciosamente. Havia um guarda-marinha,moço bem educado e muito democrata, que, uma vezpor outra, dava-lhe dinheiro, níqueis para cigarros. Ele
  70. 70. ia logo mostrar a Bom-Crioulo as moedinhas de tostãoque seu guarda-marinha lhe dera. Todos a bordo lhefaziam festa; o próprio guardião Agostinho, seco e rís-pido, tratava-o bem, com branduras na voz. Uma vidaregalada! Em terra, no quarto da Misericórdia, nem se fala-va! ouro sobre azul. Ficavam em ceroulas, ele e o ne-gro, espojavam-se à vontade na velha cama de lona,muito fresca pelo calor, a garrafa de aguardente ali per-to, sozinhos, numa independência absoluta, rindo econversando à larga, sem que ninguém os fosse pertur-bar volta na chave por via das dúvidas... Um cousa desgostava o grumete: os caprichos li-bertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se conten-tava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite,queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia deleum escravo, uma mulher-a-toa propondo quanta extra-vagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noiteexigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queriaver o corpo... Aleixo amuou: aquilo não era cousa que se pedis-se a um homem! Tudo menos aquilo. Mas o negro in-sistiu: Ninguém o levava a capricho: Ou bem que so-mos ou bem que não somos... Que asneira! fez ogrumete. Por-se agora nu em pêlo defronte do Bom-Crioulo ! Está visto que tinha vergonha. Vergonha de quê? tornou o outro. Não és homemcomo eu? Donde veio essa vergonha? Decerto!... Ora, deixa-te de luxo, menino, vamos: tira a rou-pa...

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