A cidade e_as_serras
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A cidade e_as_serras A cidade e_as_serras Document Transcript

  • A cidade e as serras (Eça de Queirós) No dia 16 de agosto de 1900, faleceu em Paris, 1. BIOGRAFIA E BIBLIOGRAFIA três meses antes de completar 55 anos, Eça de Quei- rós, considerado o representante máximo do Realis- mo-Naturalismo em Portugal. José Maria Eça de Queirós nasceu a 25 de novem- bro de 1845, em Póvoa de Varzim, Portugal. Em 1861, aos 16 anos, iniciou seus estudos de Direito na Uni- OBRAS versidade de Coimbra. Em 1865, ocorreu a famosa • Primeira fase: Prosas bárbaras, O mistério daReprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Questão Coimbrã, da qual, entretanto, Eça de Quei- estrada de Sintra (1870). rós não participou. No ano seguinte, concluiu seu • Segunda fase: O crime do padre Amaro (1875), curso, foi para Lisboa e de lá para Évora. Em 1868, O primo Basílio (1878), O mandarim (1879), A relí- regressou a Lisboa, e participou do grupo do Cená- quia (1887) e Os Maias (1888). culo junto a outros escritores realistas e ao qual se • Terceira fase: A ilustre casa de Ramires (1900), integrará o poeta Antero de Quental no ano seguinte. A correspondência de Fradique Mendes (1900), A Em 1869, Eça viajou para o Cairo, onde assistiu à cidade e as serras (1901), A capital (1925), O conde inauguração do Canal de Suez e fez uma reportagem d’Abranhos (1925). que apareceria em O Egito (1926). O seu nome fir- mou-se no cenário cultural português em 1871, du- rante as Conferências Democráticas do Cassino 2. INTRODUÇÃO Lisbonense, quando foi brilhante em sua palestra so- bre o Realismo (A nova literatura ou O realismo como nova expressão da arte). Mais tarde as conferências A cidade e as serras é um romance da terceira fase foram proibidas e ele fundou com Ramalho Ortigão de Eça de Queirós, iniciada com a publicação de A o folheto mensal As farpas. Também em 1869 foi ad- ilustre casa de Ramires. Ao contrário da fase anteri- ministrador do Concelho em Leiria. or, marcada por sátiras destrutivas à sociedade portu- Em 1872, depois de ter sido preterido num con- guesa, nesta fase encontramos uma espécie de curso para cônsul de Portugal no Brasil, Eça foi no- pacificação no artista, que substitui o pessimismo meado cônsul para Havana. Entre 1874 e 1878, serviu amargo das obras anteriores por uma visão mais oti- em Bristol, Inglaterra, e depois foi transferido para mista de sua pátria. Especificamente nesta fase, o tom Paris. amargurado do autor socialista, que vê sua pátria Os últimos 27 anos de vida, Eça de Queirós pas- mergulhada na decadência socioeconômica e moral, sou-os fora de Portugal. Em Paris, surgiram obras li- é substituído por momentos de esperança e reconcili- terárias, um casamento e quatro f ilhos. Entre ação com o caráter do homem lusitano. Na visão de problemas com sua saúde e a dos filhos, houve muito Eça, esse brotar da esperança só poderia vir do interi- trabalho, correções de provas de livros, páginas e pá- or de Portugal, onde a alma nacional ainda não havia ginas de manuscritos entregues apressadamente aos sido contaminada pelos falsos valores burgueses dos editores e também tarefas diplomáticas. Tanta ocupa- grandes centros. Nesse espaço, aparentemente desli- ção e dificuldade não impediram o artista do prazer gado dos valores tecnológicos do mundo urbano, cul- das viagens com seus familiares a Portugal, onde fa- tivava-se ainda os grandes preceitos e sonhos que zia visitas e participava das reuniões com os amigos sempre marcaram a alma lusíada. No campo, havia, do grupo Os vencidos da vida. O grupo era formado ainda, uma vida sempre renovada pelo trabalho junto por “ex-realistas”, os mesmos companheiros do Ce- da natureza, pelos bons ares da região serrana e tam- náculo da juventude: Ramalho Ortigão, Antero de bém pela boa comida típica do interior, sempre rega- Quental, Teófilo Braga e tantos outros. da com os confiáveis vinhos locais. 1
  • É o elogio a esse mundo tantas vezes esquecido casa um retrato de seu salvador e embaixo a bengalapor causa do burburinho dos grandes centros que vai que ele apanhara. Ao saber que d. Miguel seguira paramarcar a segunda parte de A cidade e as serras. Em- o desterro em Sines, afirma que também não ficarábora o núcleo do romance seja a oposição entre a ci- em Portugal. Embarca para a França com a mulher edade e o campo, é neste que o protagonista encontrará com o filho, Cintinho, “menino amarelinho, molezi-o refúgio e o refrigério para sua alma cansada de pro- nho, coberto de caroços e leicenços4”. (QUEIRÓS,curar felicidade na cultura e na ciência. Toda a pri- Eça de. Op. cit., p. 9.)meira parte do romance passa-se em Paris, onde Em Paris, Jacinto Galião compra o palacete nosJacinto vive e de onde não pretende sair, porque só se Campos Elísios e, um tempo depois, morre de indi-sente seguro e protegido no meio da multidão, da tec- gestão. A viúva permanece em Paris e deixa que onologia e do conforto. Jacinto exalta os valores dessa menino decida para onde ir quando crescer. Cintinhovida urbana, tecnológica e culta, mas ainda assim cresce sempre doente, casa-se com a filha rechon-percebemos que o narrador, Zé Fernandes, não pou- chuda do Desembargador Velho. Deixa-a grávida an-pa sua ironia ao descrever a alta sociedade que cerca tes de morrer. Três meses e três dias depois de suaseu amigo. A segunda parte revela um outro Jacinto, morte, nasce Jacinto, que cresce saudável e tem faci-que descobriu na vida campestre a alegria de viver lidade para aprender as letras, a tabuada e o latim.que lhe faltava em Paris. Esse novo Jacinto reencon- Jacinto é sempre admirado pelos colegas por sua in-tra a felicidade na vida simples em sua quinta de Tor- teligência e não padece sofrimentos, do amor, só ex-mes e passa a desprezar o mundo artificial e agitado perimentou o mel. Por ser sempre um indivíduo de Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.que o cercava em Paris. É desse conflito que nasce a sorte, para quem a vida sempre sorri e traz alegrias enarrativa. prazeres, os amigos chamam-no “Príncipe da Grã- Ventura”. Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontra- 3. ANÁLISE E RESUMO DA OBRA mos e acamaradamos em Paris, nas escolas do Bairro Latino, para onde me mandara meu bom tio Afonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aqueles I. “O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com malvados me riscaram da Universidade por eu tercento e nove contos de renda em terras de semeadu- esborrachado, numa tarde de procissão, na Sofia, a cara sórdida do Doutor Pais Pita.5ra, de vinhedo, de cortiça e de olival.” (QUEIRÓS, QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 11.Eça de. A cidade e as serras. Rio de Janeiro: Ediouro,s/d, p. 9.) Jacinto nasceu rico e possui terras no Alen- Já em 1875, Jacinto concebe a idéia de que “o ho-tejo. “A sua quinta1 e casa senhorial de Tormes, no mem só é superiormente feliz quando é superiormenteBaixo Douro, cobriam uma serra. [...] Mas o palácio civilizado”. (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 11.) Paraonde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em ele, homem civilizado é aquele que adquire todos osParis, nos Campos Elísios, nº 202.2” (QUEIRÓS, Eça conhecimentos da cultura e multiplica a potência dede. Op. cit., p. 9.) seu corpo através dos mecanismos inventados. A história de Jacinto em Paris começa com seu Este conceito de Jacinto impressionara os nossos ca-avô, o gordíssimo e riquíssimo d. Galião, que uma maradas de cenáculo, que tendo surgido para a vida inte-tarde, em Portugal, escorrega numa casca de laranja lectual, de 1866 e 1875 6 [...] estavam largamentee cai sobre o lajedo. D. Galião é socorrido por um preparados a acreditar que a felicidade dos indivíduos,homem moreno, que o levanta com facilidade, apa- como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvi- mento da mecânica e da erudição.nha-lhe a bengala e diz: “— Oh Jacinto Galião, que QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 12.andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?”(QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 9.) É o próprio infan- Um dos moços do cenáculo, Jorge Calende, reduzte d. Miguel3. Desde essa tarde, Galião passa a admi- a teoria de Jacinto a uma forma algébrica: suma ci-rar ainda mais o infante, a ponto de dependurar em ência x suma potência = suma felicidade.1 Chácara ou sítio.2 Através do narrador José Fernandes fica-se sabendo que Jacinto vive confortavelmente em Paris desde o nascimento e não em suapropriedade em Tormes.3 O infante D. Miguel, irmão de D. Pedro I do Brasil, governa Portugal e entra em luta com D. Pedro pela coroa portuguesa.4 Furúnculos.5 O comportamento agressivo de José Fernandes não é fruto apenas da juventude, mas resultado de sua origem interiorana.6 O início desse período coincide com a formação do grupo de intelectuais de Lisboa chamado Cenáculo, do qual fizeram parte Eça deQueirós, Ramalho Ortigão, Teófilo Braga, Antero de Quental e outros importantes intelectuais realistas. 2
  • Jacinto vive de acordo com sua teoria, acreditan- acompanha José Fernandes à estação faz o narrador do que devemos nos “cercar de civilização nas máxi- sentir saudades de si mesmo. mas proporções para gozar nas máximas proporções Durante todo o período que permanece em Portu- a vantagem de viver”. Para Jacinto, a idéia de civili- gal, José Fernandes recebe apenas algumas linhas de zação não se separava da imagem de uma enorme ci- Jacinto, escrevinhadas à pressa no tumulto da civili- dade, “com todos os seus vastos órgãos funcionando zação. Com a morte do tio num setembro muito quen- poderosamente”. te, Zé Fernandes volta a Paris. “— Aí tens, o fonógrafo!… Só o fonógrafo, Zé II. José Fernandes permaneceu sete anos em Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha su- Guiães. Já em Paris, encontra Jacinto quando desce perioridade de ser pensante e me separa do bicho. a avenida dos Campos Elísios em direção ao 202. Acredita, não há senão a cidade, Zé Fernandes, não “O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o há senão a cidade!7” (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. meu chapéu rolou na lama.” (QUEIRÓS, Eça de. Op. 12-13.) cit., p. 16.) José Fernandes nota as mudanças no Jacinto treme com o terror da fragilidade e da so- palacete: um elevador liga os dois andares. É espa- lidão do campo, um mundo que não lhe é fraternal: çoso, tapetado, com um divã , uma pele de urso, um roteiro das ruas de Paris e prateleiras gradeadas com Se gemesse com fome nenhuma árvore, por mais car- charutos e livros. A temperatura da antecâmara em regada, lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva de um ramo. Depois, em meio da natureza, ele assistia à sú- que desembarcam é controlada por um criado, sem- bita e humilhante inutilização de todas as suas faculdades pre atento ao termômetro. Na biblioteca, José Fer-Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. superiores. nandes tropeça numa pilha monstruosa de livros QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 13-14. novos. Há mais de trinta mil volumes no palacete. José Fernandes não contém a admiração: “— Oh Para ele, o campo esteriliza toda a intelectualida- Jacinto! Que depósito!” Estranha ainda os aparelhos, de e resta apenas a bestialidade. lâminas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, friezas, Durante um passeio ao campo, às flores de Mont- rigidez de metais. morency, Zé Fernandes testemunha que esses senti- mentos são reais. Jacinto fica cheio de desconfiança — E acumulaste civilização, Jacinto! Santo Deus... Está e terror, teme as víboras e outras formas rastejantes. tremendo, o 202! Ele espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a As flores desconhecidas parecem-lhe venenosas. antiga vivacidade: — Sim, há confortos... Mas falta muito! A humanidade Depois de uma hora, naquele honesto bosque de ainda está mal apetrechada, Zé Fernandes... E a vida con- Montmorency, o meu pobre amigo abafava, apavorado, serva resistências. experimentando já esse lento minguar e sumir da alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desanuviou QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 17. quando penetramos no lajedo e no gás de Paris […]. São interrompidos pela campainha do telefone. Zé QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 14. Fernandes aproveita para examinar sobre a mesa de Jacinto está então com vinte e três anos, e é um trabalho uma estranha e miúda legião de instrumen- moço soberbo e bem vestido. tos de metal. Tenta manejar um, mas uma ponta pica Em fevereiro de 1880, José Fernandes recebe uma seu dedo. carta do tio que pede a sua volta a Guiães para ge- Nesse instante rompeu de outro canto um tique-tique- renciar seus bens. Afonso Fernandes sofre das he- tique8 açodado, quase ansioso. Jacinto acudiu com a face morróidas. José Fernandes pensa na sopa dourada no telefone: de sua tia Vicência e sente saudades da serra. Arru- — Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel ma as malas assoviando um fado meigo. À tarde que deve estar a correr. QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 17. comunica a Jacinto que parte para Guiães. Jacinto recua com um surdo gemido de espanto e piedade: Jacinto não se interessa pelas notícias que Zé Fer- “— Para Guiães!… Oh Zé Fernandes, que horror!” nandes lê para ele. Pede que o amigo espere pois tem (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 15.) uma carta para escrever. Depois de desenvolver sua Durante toda a semana, aconselha José Fernandes curiosidade por todo o aposento da biblioteca, Zé a levar consigo confortos para conservar “uma pouca Fernandes depara-se com um aparelho com um funil de alma dentro de um pouco de corpo.” (QUEIRÓS, e um cordão que emerge de um orifício. Do aparelho Eça de. Op. cit., p. 15.) A mágoa com que Jacinto sai uma voz a sussurar: 7 Jacinto exalta a vida urbana, com sua agitação e movimento contínuo, como a suma felicidade, em detrimento da vida no campo, rudimentar e bruta. 8 Fig.: onomatopéia. 3
  • “— … E assim, pela disposição dos cubos diabó- Zé Fernandes desce os Campos Elísios, cogitandolicos, eu chego a verificar os espaços hipermági- a rudeza e o atolado atraso de sua Guiães, “onde des-cos!…” (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 19.) Jacinto de séculos a alma das laranjas permanece ignorada eexplica que é o conferençofone, exatamente como o desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, porteatrofone, mas aplicado às escolas e conferências. todos aqueles pomares que ensombram e perfumamJosé Fernandes fica sabendo que a voz do conferen- o vale, da Roqueirinha a Sandofim!” E conclui: “Bemçofone é o coronel Dorchas com suas cansativas li- se afirmara este Jacinto, na verdade, como Príncipeções de metafísica. da Grã-Ventura!” (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 21.) Jacinto convida Zé Fernandes para jantar com ele III. Já hospedado no 202, Zé Fernandes vai dia-e uns amigos: um psicólogo feminista e um pintor riamente ao quarto de Jacinto às nove horas da ma-mítico. Zé Fernandes recusa, porque está mal vestido nhã. Encontra o amigo banhado, barbeado,com as roupas feitas pelo alfaiate da serra. Precisa friccionado e envolto num roupão de pêlo de cabraentrar em toda aquela civilização lentamente, com do Tibete diante de sua penteadeira atulhada de uten-cautela para não rebentar. “Logo na mesma tarde a sílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepéro-eletricidade, e o conferençofone, e os espaços hiper- la. Jacinto penteia-se com diversas escovas, quemágicos e o feminista e o etéreo, e a simbolia devas- diariamente mudam.tadora, é excessivo! Volto amanhã.” (QUEIRÓS, Eça Os compromissos sociais de Jacinto seguem-se aode. Op. cit., p. 19.) Jacinto sugere que venha antes do ritual do banho. Jacinto consulta a agenda para saberalmoço com as malas, para instalar-se no 202. De- as ocupações do dia. Entedia-se com essas ocupações. Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.pois, chama seu criado Grilo por um tubo, para co- A todo momento exclama: “É uma seca”11. Quandomunicar que Zé Fernandes ocupará o quarto do avô sobra tempo na agenda, Jacinto e Zé Fernandes passei-Jacinto. Manda Grilo entregar a carta a madame de am depois do almoço. Zé Fernandes descobre que todoOriol e preparar seu banho, água tépida a 17 graus. o movimento das pessoas nos boulevards aflige Jacin- Curioso, José Fernandes quer saber para que ser- to pela brutalidade da pressa, do egoísmo. E tambémvem os instrumentozinhos. Jacinto explica que são percebe nas palavras do amigo um imenso fastio deutilizados no escritório: um arranca penas velhas, todas as coisas que sempre exaltara na cidade. Arrefe-outro numera rapidamente as páginas de um manus- ce12 a devoção de Jacinto pela vida urbana, que chegacrito, outro raspa emendas, outro cola estampilhas, mesmo a concordar com Zé Fernandes quando esteimprime datas, derrete lacres, cinta9 documentos. chama Paris de “grosseiro bazar”. Ainda assim, Jacin- Jacinto conduz o amigo à sala de jantar para ten- to insiste que Paris é um maravilhoso organismo.13tá-lo a ficar. Zé Fernandes espanta-se com o que vê: a Numa das noites de sábado, rebenta no lavatóriocada talher correspondem seis garfos, só dois copos um tubo ou a torneira. O vapor quente atinge o Grilo.para dois tipos de vinhos, um Bordéus rosado e cham- Todo o 202 mostra a rebelião das forças da natureza.panhe. Há vários tipos de águas em garrafas bojudas “Diante do portão, atraídas pela fumarada que se es-num aparador. Zé Fernandes pergunta se Jacinto ain- capava das janelas, estacionava polícia, uma multi-da é o mesmo tremendo bebedor de água. Jacinto olha dão. E na escada esbarrei com um repórter, de chapéupara as garrafas desconsolado e nega a pergunta do na nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente ‘seamigo. Disse que é porque as águas da cidade estão havia mortos?’” (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 26.)contaminadas, atulhadas de micróbios. Não encontra A agitação da imprensa ao divulgar o fato aumentouuma boa água que o satisfaça. “Até sofro sede.”10 Afir- ainda mais o enfado do rico Jacinto. Zé Fernandesma também não ter nunca apetite. Os convidados te- aproveita que Jacinto lhe estende um telegrama derão laranjas geladas em éter de sobremesa. Zé seu amigo o grão-duque Casimiro, para perguntarFernandes espanta-se. Jacinto explica: “— É novo… quem é Diana, que está sempre a escrever, telefonarParece que o éter desenvolve, faz aflorar a alma das ou telegrafar para o amigo. Jacinto revela que é umafrutas”… José Fernandes murmura: — “Eis a civili- cocotte14 que divide com outros sete homens ricoszação!” para diminuir os custos dos gastos luxuosos da moça.9 Coloca faixa de papel ou tecido em documentos.10 A ironia de Eça de Queirós é clara nesse capítulo, porque mostra que todo o elogio da vida urbana perde seu sentido quando o serhumano não consegue viver bem com os benefícios da vida civilizada.11 A expressão, comum em Portugal, significa “que chato”.12 Enfraquece.13 O protagonista começa a dar sinais de um imenso tédio com a agitação da cidade grande.14 Cortesã, prostituta de luxo. 4
  • Zé Fernandes descobre também que Jacinto nunca se O psicólogo pede desculpas e prontifica-se a fa- envolveu sexualmente com a moça. zer uma retificação para retirar o preto e colocar o Madame de Oriol chega para uma visita. Está cu- lilás. riosa com a inundação do dia anterior, mas decepio- Zé Fernandes percebe que os dois homens de ma- na-se por encontrar tudo seco. Jacinto diz que é uma dame de Trèves, o marido, conde de Trèves, e o ban- pena não ter ao menos caído uma parede. Depois da queiro judeu, Davi Efraim, tentam convencer Jacinto saída de madame de Oriol para ouvir um sermão nas a entrar numa sociedade: a Companhia das Esmeral- Madalenas, Jacinto convida Zé Fernandes para “pas- das da Birmânia. Aparece também Antônio de Tode- sar o domingo nalguma coisa simples e natural”. lle, “moço já calvo, de infinitas prendas […], conhecia “— Vamos ao Jardim das Plantas, ver a girafa!” todos os enredos17 de Paris”. A mulher não pode vir 18 IV. “Nessa fecunda semana, uma noite, recolhía- porque esfolou o joelho numa queda de velocípede . mos ambos da Ópera, quando Jacinto, bocejando, me No bilhar, está o grande Dornan, poeta neoplatônico anunciou uma festa no 202”. (QUEIRÓS, Eça de. Op. e místico, a fumar um imenso charuto. “… diante dele, cit., p. 29.) A festa é uma homenagem ao grão-du- de pé, Joban, o supremo crítico de teatro, ria com a que, que vai “mandar um delicioso peixe e muito raro calva escarlate de gozo, [...].” (QUEIRÓS, Eça de. que se pesca na Dalmácia”. Apesar da festa, Jacinto Op. cit., p. 33.) sente que tudo é uma maçada. O jantar é preparado O anúncio da chegada do grão-duque Casimiro com requinte: orquestra de ciganos, baixelas dos tem- pelo Grilo interrompe a todos. “Precedido por Jacin- pos de d. Galião, toalhas bordadas a seda, cristais la- to, o grão-duque surgiu. Era um possante homem, deReprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. vrados e filigranados de ouro. Às nove horas, falta barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. […] veio energia. Jacinto manda buscar o engenheiro da Com- apertar a mão às senhoras que mergulhavam nos ve- panhia Central de Eletricidade. Por precaução, um ludos e sedas em mesuras de corte.” (QUEIRÓS, Eça criado compra velas. O Grilo desenterra dos armári- de. Op. cit., pp. 34-35.) Pergunta pelo peixe e se foi os os candelabros e os castiçais dos tempos de d. preparado pela receita que mandou. Critica a comida Galião. “A eletricidade permaneceu fiel, sem amu- de Paris. os.” (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 30.) Quando todos resolvem ouvir o teatrofone, Zé Zé Fernandes encontra a condessa de Trèves com Fernandes aproveita para recordar sua aldeia. É inter- o ilustre historiador Danjon no gabinete de Jacinto. rompido pelas falas das senhoras, mas retorna nova- Ela elogia a infinidade de objetos úteis, mesmo sem mente à sua terrinha em pensamento. entender-lhes a utilidade. “Naquele gabinete de sun- Um moço de loura penugem reclama que falta um tuosa mecânica ela somente se ocupara em exercer, general com sua espada e um bispo com seu bácu- 19 com proveito e com perfeição, a arte de agradar. Toda lo . Perguntado para quê, responde que é “para uma ela era uma sublime falsidade.”15 (QUEIRÓS, Eça de. bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido ra- Op. cit., p. 31.) malhete de flores da civilização, com um grão-duque Também estão presentes à festa de Jacinto o diretor no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada da do Boulevard e o psicólogo feminista. Este último lan- porta!… Que belo fim de ceia, num fim de século!” çara recentemente um romance, Couraça, com grande (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 37.) euforia do público. O psicólogo exalta sua obra quan- Enquanto o grão-duque conta uma história de ca- do é interrompido pelo duque de Marizac, que diz ha- çada, Jacinto é informado de que ocorrera um desas- ver um erro no livro. Marizac critica o fato de uma tre; e anuncia aos presentes que o peixe encalhara no 20 duquesa requintada usar um colete de cetim preto. elevador dos pratos . O grão-duque atira longe o guardanapo e diz: “— Essa é forte!... Pois um peixe O psicólogo emudecera, colhido, trespassado! Marizac que me deu tanto trabalho! Para que estamos nós aqui era uma tão suprema autoridade sobre a roupa íntima das então a cear? Que estupidez! E por que o não trouxe- duquesas, que à tarde, em quartos de rapazes, por impul- sos idealistas e anseios de alma dolorida — se põe em ram à mão, simplesmente? Encalhado… Quero ver! colete e saia branca!...16 Onde é a copa?” (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 38.) QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 32. Todelle sugere que pesquem o peixe. Madame de 15 Esse será o comportamento mais comum dentro da alta sociedade parisiense a ser criticado pelo narrador. 16 A ironia queirosiana fica evidente nessa passagem, na qual o narrador atribui à personagem a suprema autoridade sobre peças íntimas de duquesas, mas revela que o faz junto com rapazes, ao utilizá-las. 17 A palavra tem o sentido de fofocas, no contexto. 18 Modelo de veículo semelhante à bicicleta de agora, mas com três rodas. 19 Bastão de extremidade arqueada usado pelos bispos. 20 O defeito no elevador é mais uma crítica do autor à tecnologia exaltada por Jacinto. 5
  • Oriol oferece um de seus ganchos. “O psicólogo pro- que foge aos uivos. Jacinto adquire também umaclamou que nunca se pescara com tão divino anzol.” máquina para lhe abotoar as ceroulas.24Mas a pescaria é em vão, o grão-duque desiste quan- Jacinto também não se cansa de acumular erudi-do todos bradam que abandone o peixe. ção. Compra quantidades enormes de livros que in- Três dias depois da festa, Jacinto recebe a notícia vadem não apenas a biblioteca, mas toda a casa. Zéde que uma tormenta destruiu a velha igrejinha onde Fernandes sofre com as manias de Jacinto: “E imen-estavam sepultados seus antepassados desde o tempo sa foi a minha indignação quando uma manhã, cor-de El-Rei d. Manuel. Jacinto acha uma coisa estra- rendo urgentemente, de mãos nas alças, encontrei,nha e chega a repetir a expressão. Durante toda a noi- vedada por uma tremenda coleção de estudos sociais,te, interroga Zé Fernandes a respeito da serra e de a porta do water-closet!” (QUEIRÓS, Eça de. Op.Tormes. “E telegrafou ao Silvério que desentulhasse cit., p. 41.) Uma noite, cansado de um passeio a Ver-o vale, recolhesse as ossadas, reedificasse a igreja, e, salhes, Zé Fernandes encontra sete volumes de umpara esta obra de piedade e reverência, gastasse o di- dicionário sobre a cama. Atira longe os volumes, dor-nheiro, sem contar, como a água de um rio largo.”21 me e sonha com uma Paris construída de livros. As(QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 40.) pessoas possuem cara de livros e, na praça da Con- córdia, há uma pilha de livros formando uma monta- V. nha escarpada. Trepa na montanha até para além da No entanto Jacinto, desesperado com tantos desas- terra e das nuvens. Sobe ao Paraíso, onde avista Deustres humilhadores — as torneiras que dessoldavam, os ele- a ler Voltaire numa edição barata e a sorrir. Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.vadores que emperravam, o vapor que se encolhia, aeletricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer Uma porta faiscou e rangeu, como se alguém pene-as resistências finais da matéria e da força por novas e trasse no Paraíso. Pensei que um santo novo chegara damais poderosas acumulações de mecanismos. E nessas Terra. Era Jacinto, com o charuto em brasa, um molho desemanas de abril, enquanto as rosas desabrochavam, a cravos na lapela, sobraçando três livros amarelos que anossa agitada casa, entre aquelas quietas casas dos Cam- Princesa de Carman lhe emprestara para ler!25pos Elísios que preguiçavam ao sol, incessantemente tre- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 42.meu, envolta num pó de caliça e de empreitada, com obruto picar de pedra, o retininte martelar de ferro. Nos si- Durante três meses, Zé Fernandes torna-se aman-lenciosos corredores, onde me era doce fumar antes do te de uma mulher que avistara diante da estação dealmoço um pensativo cigarro22 (grifo nosso), circulavam ônibus: “… uma criatura seca, muito morena, quaseagora, desde madrugada, ranchos operários, de blusasbrancas, assobiando o Petit-Bleu […] E os pedaços de tisnada, com dois fundos olhos taciturnos e tristes,soalho levantado mostravam tristemente, como num ca- uma mata de cabelos amarelados, toda crespa e re-dáver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os belde, sob o chapéu velho de plumas negras.” (QUEI-sensíveis nervos de arame, os negros intestinos de ferro RÓS, Eça de. Op. cit., p. 42.) Zé Fernandesfundido.23 pergunta-lhe o nome, já dentro de um café, ela res- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 40-41. ponde que se chama madame de Colombe e dá o en- Jacinto passa a adquirir novas máquinas que tor- dereço: Rua do Hélder, 16, quarto andar, porta ànam a vida mais fácil. Na copa, há três geleiras su- esquerda. “Amei aquela criatura. Amei aquela criatu-cessivamente abandonadas, utilizadas para refrescar ra com amor, com todos os amores, que estão no amor,a soda-water e os medocs ligeiros. Um instrumento- o amor divino, o amor humano, o amor bestial, comozinho astuto serve para arrancar delicadamente os pés Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu ama-dos morangos; outro, de prata e cristal, para remexer va Julieta, como um bode ama uma cabra.”26 (QUEI-freneticamente a salada. Zé Fernandes experimenta o RÓS, Eça de. Op. cit., p. 43.) Zé Fernandes entregaúltimo e espirra vinagre sobre os olhos de Jacinto, todas as posses que trouxe de Guiães para madame21 O desastre ocorrido em Tormes teve o efeito de trazer de volta a Jacinto a lembrança do lugar de origem de seus antepassados.Jacinto acha estranho o acontecimento, porque lhe parecia um agouro que se somava aos desastres ocorridos naquele e nos diasanteriores.22 Fig.: hipálage, que consiste no deslocamento de um adjetivo do termo próprio para outro próximo.23 Em mais de uma passagem pode ser encontrada a figura da prosopopéia ou personificação (comparação de objetos a seres inanima-dos). O trecho apresenta também um confronto entre um elemento da natureza (“... enquanto as rosas desabrochavam...”) e o mundoartificial da cidade (as estruturas e a reforma do 202).24 O episódio é uma fina ironia do autor contra a tecnologia da vida moderna que chega a atingir absurdos e ridículos.25 O parágrafo é uma ironia, já que, não satisfeito com a quantidade enorme de livros que possuía, sem ter sequer tempo para ler, aindatomava mais três emprestados.26 A passagem é uma ironia típica do Realismo relativa ao amor, definido aqui, em gradação, desde uma referência sublime até a maisvulgar. 6
  • Colombe. Uma tarde encontra a porta fechada e des- ris. Jacinto concorda que toda aquela grandeza de cobre com uma comadre barbuda que a amante não civilização é apenas ilusão. Zé Fernandes aproveita- mora mais ali: se da vitória sobre Jacinto: “— Abalou-se esta manhã, para outra terra, com Certamente, meu Príncipe, uma ilusão! E a mais amar- outra porca!” ga, porque o homem pensa ter na cidade a base de toda Zé Fernandes sai dali arrasado e decide jantar. a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua misé- Encomenda lagosta, pato e Borgonha, mas primeiro ria. Vê, Jacinto! Na cidade perdeu ele a força e beleza toma uma garrafa de champanhe, depois o Borgo- harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser ressequido e escanifrado ou obeso […]. nha, e depois conhaque, e depois hortelã-pimenta gra- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 48. nitada em gelo. Em casa de Jacinto, repele o chá de macela oferecido pelo Grilo e deita-se sobre a cama Diante da concordância de Jacinto, Zé Fernandes que fora de d. Galião. prossegue o seu filosofar fácil: E, sobre a minha sepultura, que tão irreverentemente se […] E se ao menos essa ilusão da cidade tornasse feliz assemelhava ao meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o a totalidade dos seres que a mantêm... Mas não! Só uma pato, vomitei a lagosta. Depois num esforço ultra-humano, estreita e reluzente casta goza na cidade os gozos especi- com um rugido, sentindo que, não somente toda a entranha, ais que ela cria. O rés, a escura, imensa plebe, só nela mas a alma se esvaziava toda, vomitei madame Colombe!27 sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem! QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 44. […] Mas quê, meu Jacinto! A tua civilização reclamava in- saciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nestaReprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Refeito na manhã seguinte, depois de um bom amarga desarmonia social, se o Capital der ao Trabalho, banho, Zé Fernandes começa a perceber que, apesar por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irre- de todas as reformas, Jacinto continua melancólico e mediável, é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfalfada28 miséria é a condição do es- triste. Conversa com o Grilo e ouve do criado que plendor sereno da cidade. Se nas suas tigelas fumegasse Jacinto sofre de fartura. Pensa: a justa ração de caldo — não poderia aparecer nas baixelas de prata a luxuosa porção de foie-gras29 e túberas30 que Pobre Jacinto! Um jornal velho, setenta vezes relido são o orgulho da civilização. Há andrajos em trapeiras — desde a crônica até aos anúncios, com a tinta delida, as para que as belas madamas de Oriol, resplandecentes de dobras roídas, não enfastiaria mais o solitário, que só pos- sedas e rendas, subam, em doce ondulação, a escadaria suísse na sua solidão esse alimento intelectual, do que o da Ópera. Há mãos regeladas que se estendem, e beiços parianismo enfastiara o meu doce camarada! sumidos que agradecem o dom magnânimo de um sou — QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 46. para que os Efrains tenham dez milhões no Banco de Fran- ça […] — para que os Jacintos, em janeiro, debiquem, bo- Jacinto está enfastiado no meio de seus aparelhos e cejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em de seus milhares de volumes repletos de saber. “… e Champagne e avivados de um fio de éter!31 exprimindo, na face e na indecisão mole de um boce- — E eu comi dos teus morangos, Jacinto! Miseráveis, jo, o embaraço de viver!” tu e eu! Ele murmurou, desolado: VI. Todas as tardes, às quatro horas, Jacinto visi- — É horrível; comemos desses morangos... E talvez por uma ilusão! ta Madame de Oriol. Numa dessas tardes, o telefone QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 49-50. toca, avisando Jacinto que a sua doce amiga jantava em Enghien com os Trèves. Como é domingo, Zé Depois de todo o discurso socialista, Zé Fernan- Fernandes e Jacinto aproveitam para subir a Basílica des anuncia que está com sede. Descem a escadaria e do Sacré-Coeur. encontram um amigo de Jacinto, Maurício de Mayo- Jacinto acaba gostando dos bairros estreitos e ín- lle. Este abandonara a agitação social de Paris e mu- gremes, das mulheres despenteadas cosendo à solei- dara-se para Montmartre. Depois Zé Fernandes, que ra das portas “— o meu fastidioso camarada sorriu não entendera absolutamente nada da conversa entre àquela liberdade e singeleza das coisas”. Jacinto acha Jacinto e o amigo, pergunta quem é o bruxo. Jacinto tudo curioso, menos a basílica. Do terraço, Zé Fer- resume, depois de um bocejo, quem é o rapaz e as nandes e Jacinto contemplam Paris sob um céu cin- filosofias orientais que segue. Também ele, Jacinto, zento. Zé Fernandes aproveita para provocar Jacinto já as experimentara. com perguntas sobre a riqueza e a civilização de Pa- Zé Fernandes e Jacinto vão jantar. Zé Fernandes diz: 27 A passagem mostra a influência do Naturalismo na obra de queirosiana. 28 Cansativa, estafante. 29 Patê produzido a partir do fígado de gansos. 30 Mesmo que trufa, tipo de cogumelo subterrâneo muito utilizado na culinária. 31 O narrador faz um discurso socialista, aliás bem ao modo das intenções engajadas de Eça de Queirós, que logo depois retoma sua fortíssima ironia, pois Zé Fernandes irá aproveitar-se exatamente dos prazeres oferecidos pelo dinheiro que acabara de condenar. 7
  • — Pois venha agora para a minha rica sede esse troso fato de viver! E assim o saudável, intelectual,vinhozinho gelado! Grandemente o mereço, caramba, que riquíssimo, bem-acolhido Jacinto tombara no pessimismo.”superiormente filosofei!...E creio que estabeleci definitiva- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 57.mente no espírito do senhor d. Jacinto o salutar horror dacidade! Jacinto deu ordem ao copeiro: — Mande gelar duas Passara a ler todos os autores pessimistas, do Ecle-garrafas de champagne Saint Marceaux... Mas antes, um siastes a Schopenhauer. Jacinto encontrara a ocupa-Barsac velho, apenas refrescado... Água de Evian... Não, ção de maldizer a vida. Divide-se inconsciente emde Bussang! Bem, de Evian e de Bussang! E, para come-çar, um bock. Depois, bocejando, desabotoando lentamente diversas tarefas: funda um hospício no campo paraa sobrecasaca cinzenta: — Pois estou com vontade de velhinhos desamparados, outro para crianças débeisconstruir uma casa nos cimos de Montmartre, com um mi- no Mediterrâneo, estuda o teosofismo… Por ocasiãoradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descansar de de seu aniversário, recusa-se a ligar aos amigos paratarde e dominar a cidade…32 convidá-los para um champanhe. Manda mesmo o QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 53. Grilo dizer que não está em Paris, que fora para o VII. Zé Fernandes acompanha Jacinto todas as campo, que morrera.tardes, a pedido deste, aos seus encontros com Ma- Jacinto, à meia-noite, percorre seu gabinete à pro-dame de Oriol. Esta não se sente contrariada pela pre- cura de um livro, depois de reclamar que é uma seca,sença de Zé Fernandes, ao contrário, pois é mais um pois não há o que ler.36 Acaba levando para o quartovassalo para admirá-la, tanto que passa a chamá-lo um exemplar antigo do Diário de Notícias. 33de cher Fernandes. VIII. Jacinto decide partir para Tormes. Zé Fer- nandes assusta-se quando é comunicado pelo amigo Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Madame de Oriol preocupa-se apenas em cuidardo corpo e falar de si mesma. No inverno, enquanto sobre tal intenção. As obras da capela foram conclu-as criancinhas sem abrigo morrem de frio debaixo ídas e os restos mortais dos antepassados de Jacintodas pontes, ela começa a preparar seus vestidos de serão transladados de volta para ela. Jacinto concluipatinagem. “E preparava também os de caridade — que é um dever de decência e também elegante acom-porque era boa, e concorria para bazares, concertos e panhar a instalação dos restos mortais do avô no novotômbolas, quando fossem patrocinados pelas duque- jazigo. Sabe por Zé Fernandes que a casa de Tormes 34 está inabitável. Como a partida só se dará em abril,sas do seu “rancho.” (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit.,p. 55.) Jacinto decide mandar pintar, assoalhar e envidraçar Numa dessas tardes, os dois amigos encontram o a casa. Mandará de Paris tapetes e camas; um estofa-marido de madame de Oriol, que lhes conta sobre a dor de Lisboa forrará e disfarçará algum buraco.indisposição da mulher depois de uma discussão que Movido por grande energia, Jacinto passa a encai-tiveram. Madame de Oriol tinha por amante um em- xotar os confortos necessários a sua estada em Tor-pregado. O marido dissera à mulher: “Amantes da mes. Antes contrata uma companhia de transportesnossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer dormir com para enviar seus objetos. O dono garante conhecer oos criados que emigre para o fundo da província, para lugar. Os caixotes são montados com camas de pena,a sua casa de Corbelle. E lá até com os animais… Foi banheiras de níquel, lâmpadas Carcel, divãs profun-o que eu lhe disse! Ficou uma fera”. (QUEIRÓS, Eça dos, cortinas, tapetes, fornalhas, geleiras, bocais dede. Op. cit., p. 55.) trufas, latas de conservas, garrafas de águas mine- rais, um imenso pára-raios… Zé Fernandes finalmente segue para sua viagem Quando o tédio volta a tomar conta de Jacinto, Zépelas cidades da Europa. Volta numa manhã de outu- Fernandes sugere que é hora de partirem para Tormes.bro ao 202. Encontra Jacinto ainda mais entediado e Depois dos últimos preparativos, finalmente Jacinto eaborrecido do que quando partiu. Zé Fernandes deixam Paris de trem em direção a Por- O 202 estourava de confortos; nenhuma amargura de tugal. A viagem parece um tormento para Jacinto, quecoração o atormentava; e todavia era um triste. Por quê?… se sente doente ao deixar a civilização. Em Medina,E daqui saltava, com certeza fulgurante, à conclusão de Espanha, o comboio chega atrasado e o trem para Sa-que a sua tristeza, esse cinzento burel35 em que a suaalma andava amortalhada, não provinha da sua individua- lamanca já está de partida. Na pressa, esquecem aslidade de Jacinto — mas da vida, do lamentável, do desas- malas. Ao chegarem, Jacinto reclama que entra em32 Depois de todo um discurso social, Zé Fernandes e Jacinto aproveitam-se da riqueza material para se deleitarem com bebidas finasnum bom restaurante de Paris. Isso faz o leitor concluir que tudo não passara realmente de filosofias pouco sérias de Zé Fernandes.33 Querido.34 De modo geral, o narrador trata Madame de Oriol com ironia, pois a superficialidade da personagem é indiscutível.35 Luto, pesar.36 A atitude de Jacinto beira o absurdo ou ridículo, pois tem mais de setenta mil livros em sua biblioteca. 8
  • Portugal imundo, porque não há nem uma camisa, uma Zé Fernandes dorme, mas é acordado por Jacinto. escova ou uma gota de água-de-colônia. Percebe que o amigo mudara e já não corcovava. Na estação, descobrem que Grilo, Anatole e todas Sobre a sua arrefecida palidez de supercivilizado, o ar as bagagens não estão no mesmo trem. Jacinto está montesino, ou vida mais verdadeira, espalhara um rubor só com a roupa do corpo e uma bengala. Também os trigueiro e quente de sangue renovado que o virilizava so- empregados Silvério e Melchior não se encontram na berbamente. Dos olhos… saltava agora um brilho de meio- estação a esperá-lo.37 dia, resoluto e largo, contente em se embeber na beleza das coisas. Ao chegarem a Tormes, descobrem com Melchior QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 84. que a casa não está pronta, já que Silvério espera por Jacinto só em setembro. Os caixotes também não fo- Resolvera ficar em Tormes quando, na manhã se- ram entregues. Desesperado, Jacinto decide que se- guinte depois da chegada, sentiu-se como desanuvia- guirá para Lisboa no dia seguinte. Os dois acabam se do, desvencilhado. Nesse dia almoçara uma pratada arrumando na casa, mas sem nenhum conforto, já que de ovos com chouriço e passeara pelo campo. Resol- nem camas ou banheira há. Jantam com Melchior. vera ficar por dois meses: “Enquanto houver chouri- Jacinto farta-se com o caldo, o arroz com favas, o ços, e a água da fonte, bebida pela telha ou numa folha frango assado no espeto e a salada. Elogia o vinho de couve, me souber tão divinamente!” divino de Tormes. Zé Fernandes observa, admirado, as reformas con- Depois do jantar, Jacinto e Zé Fernandes voltam cretizadas por Jacinto. Causa-lhe maior admiração para a casa e contemplaram o céu: “Na cidade (comoReprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. ainda a beleza de uma moça, Ana Vaqueira, mas Ja- notou Jacinto) nunca se olham, nem lembram os as- cinto diz-lhe: tros — por causa dos candeeiros de gás ou dos glo- bos de eletricidade que os ofuscam”.38 (QUEIRÓS, — Não! Não nos iludamos, Zé Fernandes, nem faça- mos Arcádia. É uma bela moça, mas uma bruta... Não há Eça de. Op. cit., p. 79.) Jacinto recolhe-se numa mo- ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais desta e áspera camisa emprestada por Melchior da beleza do que numa linda vaca turina. […] Mas temos aqui mulher e também um tamanco. Divide com Zé Fer- a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o nandes o exemplar do jornal. Zé Fernandes promete seu egoísmo...40 São porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé Fernandes, é para mim providenciar algumas coisas essenciais ao conforto um repouso. do amigo. Jacinto pede-lhe também alguns objetos QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 86. de uso pessoal e lençóis do Hotel de Bragança. IX. Zé Fernandes parte de madrugada, sem acor- Zé Fernandes fica sabendo por Jacinto que os caixo- dar Jacinto. Só uma semana depois, ao deparar-se com tes foram mandados para Alba-de-Tormes, na Espanha. suas malas, lembra-se do amigo. Telegrafa para o Jacinto não sente mais falta dos objetos, pois está sabo- Hotel de Bragança. Uma semana depois ainda não reando a delícia de ter apenas uma escova para alisar o obtivera resposta. Fica sabendo através de Severo, cabelo de manhã. Sente-se útil com a vida que leva. sobrinho de Melchior, que Jacinto ainda está em Tor- Zé Fernandes e Jacinto vagueiam pela quinta. Ja- mes. No dia seguinte, domingo, Zé Fernandes segue cinto começa a filosofar: para Tormes. — Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como A casa está em melhor estado que no dia da che- tudo é animado de uma vida forte e profunda!… Dizes tu gada. Zé Fernandes encontra alguns livros, entre eles agora, Zé Fernandes, que não há aqui pensamento… um Virgílio. Zé Fernandes abre o livro e murmura, — Eu?! Eu não digo nada, Jacinto… apropriando-se de um verso: — Pois é uma maneira de refletir muito estreita e muito grosseira… Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota — Ora essa! Mas eu… Et fontes sacros, frigus captabis opacum…39 — Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, (QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 84.) meu caro doutor… 37 Esse episódio foi tirado de um fato vivido por Eça de Queirós com seu sobrinho Luís Grande, durante uma viagem à propriedade de Eça em Santa Cruz. O rendeiro José Pinto não havia recebido a tempo o aviso da chegada dos dois à quinta de Vila Nova. Os dois subiram à quinta com cavalos emprestados pelo chefe da estação e desencontraram-se do rendeiro. A mulher desse serviu-lhes arroz de favas com toucinho e salpicão, ovos, broa de milho e infusa de vinho. Quando José Pinto chegou, os dois fartavam-se à mesa com gosto. A casa também não apresentava condições de ser habitada. 38 O final do capítulo deixa claro o processo inicial de aceitação de Jacinto da vida no campo. Ele se sente desconfortável por causa das instalações precárias, mas regala-se com a comida simples servida pelo empregado e com o vinho da região. Alimenta-se como há muito não fazia em Paris. O processo de adaptação será gradual, como se verá, mas, acostumado aos luxos e confortos de seu palacete, suas atitudes já são positivas. 39 “Afortunado Jacinto, na verdade! Agora, entre campos que são teus / e águas que te são sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!” 40 A passagem mostra concepções naturalistas. 9
  • — Que não sou! por Silvério com um guarda-chuva vermelho, abri- — A vida é essencialmente vontade e movimento; e gam-se num alpendre. Jacinto fica sabendo pelo Sil-naquele pedaço de terra, plantado de milho, vai todo ummundo de impulsos, de forças que se revelam, e que atin- vério que existe miséria, fome e doença em suas terras.gem a sua expressão suprema, que é a forma. Não, essa Depois de ver um menino de um colono, Jacintotua filosofia está ainda extremamente grosseira... pergunta se há gente que trabalha para ele que tem — Irra! Mas eu não… fome. Silvério diz: — E depois, menino, que inesgotável, que miraculosadiversidade de formas e todas belas!41 Pois está bem de ver, meu senhor, que há para aí ca- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 87. seiros que são muito pobres. Quase todos... É uma misé- ria, que se não fosse algum socorro que se lhes dá, nem Jacinto fala da mesmice das cidades em compara- eu sei!… Este Esgueira, com o rancho de filhos que tem, éção com a diversidade de formas da natureza: “A uma desgraça... Havia Vossa Excelência de ver as casitasmesmice — eis o horror das cidades!” Depois da canja em que eles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, aco- lá…e do cabrito servidos no jantar, Jacinto passa a atacar QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 102-103.o pessimismo: Jacinto decide ver a casa. Sai de lá desconsolado Oh! Que engenhosa besta, esse Schopenhauer! Emaior besta eu, que o sorvia, e que me desolava com sin- com as condições da moradia e a doença da mulherceridade! E todavia — continuava ele […] o pessimismo é do empregado.uma teoria bem consoladora para os que sofrem, porque Depois de retornarem para o almoço. Jacinto diz:desinvidualiza o sofrimento, alarga-o até o tornar uma lei Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.universal, a lei da própria vida […] Antes de tudo — continuava Jacinto — mande já hoje QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 89. chamar esse doutor Avelino para aquela pobre mulher... E os remédios que os vão buscar logo a Guiães. […] Escute! Zé Fernandes adormece, mas é acordado pelo riso E quero, Silvério, que lhe leve dinheiro, para os caldos,de Jacinto que lê Dom Quixote. para a dieta, uns dez ou quinze mil-réis... Bastará? QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 104-105. A cerimônia de transladação dos ossos é realizadade forma simples, porque os ossos do avô Galião não Determina que todos devem receber a mesmase encontravam ali. O abade louva a atitude de Jacin- quantia e construir casas novas para todos os rendei-to, que veio de tão longe para cumprir aquele dever ros. Silvério aumenta o custo de cada uma das vinte ede bom neto. três casas para duzentos mil-réis, com o propósito de Jacinto demonstra o desejo de plantar árvores, mas mudar os planos de Jacinto. Este calcula que dará unsentristece-se ao saber que demoram muito para cres- seis contos e determina uns dez contos de gastos,cer. Logo surgem novas idéias para reformar a pro- porque quer dar mobília e algumas roupas a toda aque-priedade, transformando-a numa moderna produtora la gente.de queijos finos. Zé Fernandes procura demonstrar o Silvério diz: “— Mas então, Excelentíssimo Se-absurdo da idéia do amigo, mas Jacinto não se im- nhor, é uma revolução.” Resolve obedecer, porque per-porta em tomar um grande prejuízo. Silvério não se cebe que não se trata de uma brincadeira de Jacinto,mostra muito disposto à tarefa de alterar a proprieda- que resolveu também rever os contratos dos rendei-de e procura, sempre que pode, mudar os planos de 42 ros para aumentar os salários.Jacinto, sugerindo que o faça em outra de suas terras. XI. Zé Fernandes está sempre no caminho entreMas as idéias trazem a Jacinto renovada esperança e Guiães e Tormes, o que chega mesmo a causar ciú-vida. “E cada um desses tão simples dizeres lhe era mes em tia Vicência. Esta manifesta sua curiosidadedoce, como se por mão deles penetrasse mais funda- em conhecer o Príncipe. Zé Fernandes convidara Ja-mente na intimidade da terra, e consolidasse a sua 43 cinto para o seu natalício . Sua intenção é de queencarnação em ‘homem do campo’, deixando de ser Jacinto conheça algumas mulheres, “porque Tormesuma mera sombra circulando entre realidades.” tinha uma solidão monástica”. Comunica ao amigo(QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 99.) seus pensamentos: “E esta Tormes, Jacinto, esta tua X. Apesar da previsão de chuva, Jacinto sai com reconciliação com a natureza, e o renunciamento àsZé Fernandes para ir à Corujeira antes do almoço. mentiras da civilização é uma linda história. Mas,São pegos por uma grossa chuva oblíqua. Socorridos caramba, faltam mulheres!” Jacinto compara as mu-41 A completa conversão de Jacinto à vida campestre pode ser notada nesse diálogo, quase monólogo, no qual ele atribui a Zé Fernan-des pensamentos que eram seus em relação ao campo. A defesa da vida campestre é agora seu ponto de vista.42 Sentindo-se útil, Jacinto resolve determinar o fim da miséria em sua propriedade. Enquanto ele se preocupa com a desgraça alheia, ZéFernandes e Silvério mostram-se indiferentes aos problemas existentes no lugar, aparentemente acostumados com a exploração dotrabalho na região.43 Aniversário. 10
  • lheres do lugar com legumes. Zé Fernandes fala so- Fernandes pretende ainda mostrar a tulha, mas Jacin- bre sua prima Joaninha, a quem Jacinto chegara a cri- to reclama que precisa sentar-se. Zé Fernandes fica ticar ao ver uma foto em Paris. com piedade e deixa Jacinto ir até o quarto para des- As reformas em Tormes prosseguem. Jacinto fis- cansar. Depois vai verificar a disposição das escovas caliza as obras a cavalo, e já planeja outras melhori- e toalhas de renda no quarto dos convidados, pois em as, entre elas a construção de uma escola. Tudo aquilo breve todos lavarão as mãos e escovarão a poeira da traz a Zé Fernandes um certo temor de que Jacinto estrada. retome seu maníaco furor de acumular civilização e XIII. “Ai de mim! A festa do meu aniversário não noções. Parece a Zé Fernandes a invasão da serra pelo se passou com brilho, nem com alegria!” A presença livro. de Jacinto traz um certo embaraço aos presentes. Zé As transformações criadas e o benefício que Ja- Fernandes procura estabelecer maior aproximação cinto traz às pessoas do lugar fazem dele o benfeitor entre os convidados, mas acaba piorando as coisas. dos pobres. Todos os humildes o saúdam e alguns tra- Como Jacinto elogia a comida, Zé Fernandes apro- zem presentes. João Torrado, um velho adivinho do veita para recordar o arroz-doce preparado pelo cozi- lugar, chega mesmo a ver em Jacinto a figura do rei nheiro de Jacinto por ocasião do aniversário do amigo d. Sebastião44. em Paris, mas o assunto não parece interessar a nin- XII. Finalmente chega o dia do aniversário de Zé guém. Mesmo quando conta o acidente com o peixe Fernandes, dia 3 de setembro, um domingo. Zé Fer- pescado pelo grão-duque que encalhou no elevador, nandes espera por Jacinto na varanda do quarto de tio não causa nenhum riso, porque os convidados sequerReprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Afonso. É a primeira visita de Jacinto à sua casa. Tia compreendem o mecanismo do elevador. Vicência convidara diversas pessoas da serra para o Iniciada a sessão de brindes erguidos, primeiro a jantar. Zé Fernandes recebe a notícia de que sua pri- Zé Fernandes, depois por este à visita de Jacinto, d. ma Joaninha não pode comparecer, porque seu pai, Teotônio ergue um brinde ao ausente, o que causou tio Adrião, está com furúnculo e ela não deseja dei- estranheza a Jacinto. Zé Fernandes descobre através xá-lo só. do doutor Alípio que o ausente é d. Miguel.45 D. Teo- Zé Fernandes, depois de desejar as melhoras ao tônio considera Jacinto um ferrenho miguelista e sua tio através do rapaz que trouxe o recado, volta à va- vinda uma missão política. Alguns acreditam que o randa. Pouco depois chega Jacinto, acompanhado do próprio príncipe d. Miguel está com Jacinto em Tor- Grilo e de outro criado. Cumprimentam-se. Jacinto mes, disfarçado de criado. Zé Fernandes sabe que o louva a casa. No quarto, agradece os cuidados de tia criado é Batista, e fica furioso com aquela disparata- Vicência que enche de flores dois vasos da China. da invenção que parece cercar Jacinto de hostilidade. “Então, estreitamos os ossos num grande abraço, A ameaça de chuva faz os convidados partirem. pelo natalício… “Trinta e oito, hem, Zé Fernandes?” Zé Fernandes e Jacinto divertem-se com os boatos. “— Trinta e quatro, animal.” Jacinto oferece a Zé Fer- Zé Fernades conta a tia Vicência a história de d. Mi- nandes os presentes que trouxe: um alfinete de gra- guel em Tormes. Ela ri. vata, com um safira, uma cigarreira de aro fosco, — Mas o senhor Jacinto, não é? adornada de florido ramo de madeira em delicado es- — Eu, minha senhora, sou socialista... malte, e uma faca para livros de velho lavor chinês. Acudi explicando à tia Vicência, que socialista era ser Para tia Vicência, uma caldeirinha de água benta, em pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o prata lavrada, que pertencera à princesa de Lamballe. melhor, o verdadeiro: — O meu Afonso, que Deus haja, era liberal… Meu pai Jacinto almoça com grande apetite, o que cativa também, e até amigo do Duque da Terceira… tia Vicência. Depois Zé Fernandes e Jacinto passei- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 117. am pela propriedade. Jacinto acha tudo muito bonito. Ao voltar para a casa, Zé Fernandes aproveita para Um trovão interrompe a conversa e obriga tia Vi- mostrar ao amigo algumas preciosidades literárias: cência a preocupar-se com os convidados ainda na uma crônica de d. João I, por Fernão Lopes, a primei- estrada. A boa mulher saiu para acender duas velas ra edição de Imperador Clarimundo, uma Henríada no oratório, guardar as pratas e rezar o terço com a com a assinatura de Voltaire e outras maravilhas. Zé Gertrudes. 44 D. Sebastião governou Portugal entre 1568 e 1578, ano que desapareceu em Alcácer-Quibir, depois de uma desastrosa campanha para a reconquista do domínio português na África e a propagação do Cristianismo. O mito do sebastianismo é crença corrente em Portugal, onde se acredita que o rei voltará ao mundo para erguer o Quinto Império. 45 Deve-se recordar nesse ponto uma passagem inicial desse romance, quando o avô de Jacinto deixa Portugal porque D. Miguel seguira para o exílio. Notamos que a volta do miguelismo também continuava causando fortes temores entre as pessoas da serra, apesar de tantas décadas passadas. 11
  • XIV. No dia seguinte, Jacinto e Zé Fernandes vão de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobriaaté a Flora da Malva para saber do tio Adrião. Tia todo de rosas”.Vicência elogia tanto a sobrinha Joaninha, que Zé Fer-nandes tem medo que Jacinto se decepcione ao co- XV.nhecê-la. No caminho, os dois amigos param na E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que setaberna do Torto para Zé Fernandes tomar um vinho vindimam, cinco anos passaram sobre Tormes e a serra.branco. Jacinto reprova a atitude do amigo, mas deli- O meu Príncipe já não é o último Jacinto, Jacinto ponto final — porque naquele solar que decaíra, correm agoracia-se com o vinho. Encontram o profeta João Torra- com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, mi-do na taberna. João louva Jacinto: — “Bendito seja o nha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha ami-pai dos pobres”. zade. E, pai de família, principiara a fazer-se monótono, Zé Fernandes aproveita para questionar o fato de pela perfeição da beleza moral, aquele homem tão pito- resco pela inquietação filosófica, e pelos variados tormen-ele dizer que d. Sebastião voltou. João Torrado mur- tos da fantasia insaciada.mura: QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 122. Talvez voltasse, talvez não voltasse… Não se sabe Jacinto torna-se um conhecedor da atividade agrí-quem vai, quem vem. A gente vê os corpos, mas não vê asalmas que estão dentro. Há corpos de agora com almas cola e bem responsável com suas contas. Cuida dedoutrora. Corpo é vestido, alma é pessoa… Na feira da suas propriedades para que seus filhos encontremRoqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa, nelas ninhos feitos.48quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros… Em A chegada dos caixotes, dois meses antes do nas- Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.ruim corpo se esconde bom senhor! cimento de Teresinha, traz a Zé Fernandes a impres- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 120. são de que a cidade invadirá o campo. Jacinto, Jacinto fica pasmo de ainda haver sebastianistas entretanto, manda guardar no sótão os confortos com-em Portugal. Zé Fernandes diz-lhe: plicados e retira dos caixotes apenas tapetes, corti- nas, poltronas e sofás. Depois vêm operários para — Todos o somos ainda em Portugal, Jacinto! Na serra instalar telefones em sua casa, no sogro, no médico eou na cidade cada um espera o seu d. Sebastião. Até aloteria da Misericórdia é uma forma de sebastianismo. Eu outro na casa de Zé Fernandes.todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro, espreito, a Uma tarde, Zé Fernandes encontra o Grilo no po-ver se chega o meu. Ou antes a minha, porque eu espero mar. Zé Fernandes comenta o estado de Jacinto. Gri-uma d. Sebastiana. E tu, felizardo?46 lo responde: — Eu? Uma d. Sebastiana? Estou muito velho, ZéFernandes… Sou o último Jacinto; Jacinto ponto final… — Sua Excelência brotou!Que casa é aquela com os dois torreões? Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequi- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 120. do galho de cidade, plantado na serra, pegara, chupara o humo do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, É a Flor da Malva. Jacinto fica sabendo que Joa- engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores,ninha vive a cuidar das crianças do lugar. Procuram a forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derra- mando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por elamoça no pomar, mas não a encontram. Dirigem-se à nutridos, cem casais em redor a bendiziam.casa. Jacinto sente-se familiarizado com vários obje- QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 123. 47tos. A casa parece-lhes vazia, mas Joaninha surgenuma das portas: XVI. Jacinto planejou muitas vezes passar uns três meses em Paris, para mostrar a Joaninha a cidade, mas […] corada do passeio e do vivo ar, com um vestido adia sempre a viagem. Zé Fernandes é que vai a Paris,claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais doce-mente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua mas não suporta durante muito tempo a cidade. Vive diaspele, e o louro ondeados dos seus belos cabelos, linda- de tédio, exatamente como antes ocorrera com Jacinto.mente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, As mesmas caras e as mesmas fofocas cercam Zé Fer-luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, nandes todo o tempo em que está em Paris. Ao visitar ocorada e cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisi- 202, percebe que nada ali lembra mais os tempos de ca-nha, de grandes laços azuis. QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 122. maradagem com Jacinto. Tudo está coberto por lonas. Aconselhado pelo grão-duque, Zé Fernandes vai Nessa tarde de setembro, Jacinto fica conhecendo ao teatro de variedades, mas detesta a peça por causaJoaninha, com quem se casa em maio, “na capelinha de sua vulgaridade e da exploração barata do sexo.46 É interessante perceber que o mito do sebastianismo parece transformar-se com o passar dos séculos, mas não deixa de representara própria esperança de cada português.47 Essa familiaridade parece prenunciar o desfecho do capítulo, pois Jacinto acaba se casando com Joaninha.48 Eça de Queirós também possuía um castelo numa quinta em Tormes, do qual cuidou com carinho nos últimos anos de sua vida naesperança de ver os filhos gozarem seus frutos na serra. 12
  • Resolve visitar a escola em que estudou, mas fica chocado com o desrespeito e a brutalidade dos alu- 5. ESTRUTURA DA OBRA nos diante da tolerância dos professores. Sente-se ofendido por um estudante e acaba por esmurrar o A cidade e as serras é um romance dividido em rapaz. Decide deixar Paris. Da janela do trem, lança 16 capítulos, mas apresenta também uma divisão de uma despedida à cidade: conteúdo em duas partes. A primeira parte exalta os — Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu valores da vida no grande centro urbano de Paris (ca- vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas! pítulos 1 ao 8). Nessa primeira parte, Jacinto consi- O que tens de bom, que é o teu gênio, elegante e claro, lá o receberei na serra pelo correio. Adeusinho!”49 dera a vida no campo desumana e absurda, sente-se QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 130. desprotegido longe do conforto encontrado na cultu- ra e na tecnologia. A segunda parte (capítulo 9 ao 16) Jacinto e a família esperam por Zé Fernandes na esta- é uma clara oposição à primeira, pois destaca o elo- ção. Jacinto convida o amigo a ficar com ele em Tormes gio à vida no campo, considerada prazerosa e distan- para contar as novidades de Paris. Todos sobem a serra. te das futilidades e artificialismos da vida na cidade. E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, Essa oposição é, sem dúvida, o grande cerne desse através da natureza campestre e mansa, o meu Príncipe, romance, que entremeia a narrativa com dissertação atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da serra, a minha (argumentação). prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dous primei- A) Foco narrativo: O romance é narrado em pri-Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. ros representantes da sua abençoada tribo, e eu, tão lon- meira pessoa, pelo personagem-narrador José Fernan- ge de amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, des, amigo do protagonista Jacinto desde os tempos e Deus contente de nós, serenamente e seguramente su- de escola no bairro latino em Paris. Zé Fernandes, bíamos — para o Castelo da Grã-Ventura! como é chamado, conta com admiração a história de QUEIRÓS, Eça de. Op. cit., p. 131. Jacinto, a quem chama de Príncipe da Grã-Ventura. B) Espaço: A narrativa apresenta dois espaços principais, que são Paris e Portugal (Tormes). A divi- 4. SÍNTESE DO ENREDO são do espaço não é recurso meramente narrativo, mas o grande centro dessa obra. O espaço é vital na com- preensão do enredo. O primeiro espaço é nitidamen- José Fernandes conta a história de seu amigo Ja- te urbano e representa a visão de Jacinto de que a cinto, rico herdeiro de fidalgos portugueses, que nas- suprema felicidade só pode nascer do máximo de ceu e sempre viveu em Paris, gozando a suposta cultura e de progresso. Dessa forma é considerado, felicidade que lhe proporciona uma grande renda men- inicialmente, como positivo, enquanto o protagonis- sal. Cercado pelo luxo e pelo conforto, Jacinto mora ta aproveita para criticar a vida no campo, considera- num palacete nos Campos Elísios, no número 202, da por ele abominável. O segundo espaço, considerado mas está sempre insatisfeito e entediado, apesar de inicialmente de forma negativa, revela-se para o pro- considerar a cultura e a tecnologia os únicos meio de tagonista como o lugar ideal, onde a simplicidade do se atingir a suprema felicidade. modo de vida, aliada a pessoas natural e espontanea- Um acidente na capelinha da propriedade de Ja- mente bondosas e compreensivas, a uma comida sa- cinto em Tormes, Portugal, onde estão enterrados os borosa, a boas águas e a um ar puro, terminam por ossos de seus avós, leva o rico herdeiro de volta à convencer Jacinto a permanecer para sempre em sua terra natal de seus antepassados. Jacinto reencontra propriedade de Tormes. uma grande alegria de viver, depois de sentir-se útil C) Tempo: O tempo é cronológico, estabelecido pela primeira vez. Ele promove uma série de trans- num período entre 1866, momento que Jacinto e José formações na propriedade: constrói casas decentes Fernandes se conhecem em Paris, e 1889, aproxima- para os empregados, aumenta seus salários e dá-lhes damente, quando José Fernandes retorna a Tormes médico e remédios. Sua atitude gera mudanças em depois de um passeio em Paris. toda a região e prosperidade. Jacinto casa-se com a D) Personagens: prima de José Fernandes, Joaninha, com quem tem 1. Jacinto: É chamado pelo narrador de Príncipe um casal de filhos. Torna-se um indivíduo organiza- da Grã-Ventura. Nasceu e foi criado em Paris, onde do e responsável e nunca mais retorna a Paris. seu frágil e doentio pai conheceu sua mãe e se casou. 49 Essa despedida parece encerrar definitivamente qualquer valoração da vida urbana, o que deixa clara não somente a posição final do romance de defesa da vida campestre de onde só frutos positivos são trazidos para Portugal, mas também do autor Eça de Queirós, cujo pessimismo é atenuado em A cidade e as serras. 13
  • Jacinto é neto de Jacinto Galião, que se mudou para até mesmo dispensáveis. O autor não procura aprofun-Paris depois da queda de d. Miguel. Jacinto é apaixo- dar-se na análise do material humano e detém-se maisnado por cultura e tecnologia, fazendo-se cercar de no confronto entre a vida na cidade e no campo.todas as modernidades, o que considerava indispen- Outros aspectos do Realismo e Naturalismo podemsáveis para atingir-se a felicidade. Tem mania de acu- ser observados na visão materialista do mundo e no an-mular livros e objetos tecnológicos. Odeia a vida no ticlericalismo nitidamente demonstrados nas atitudes decampo, mas acaba apaixonando-se pela serra de Tor- Jacinto e Zé Fernandes no transcorrer da narrativa. Aomes, berço de seus antepassados, quando vai a Portu- contrário do comportamento das duas personagens, agal para promover o translado dos ossos dos avós. simplicidade e inocência de tia Vicência levam-na a crer 2. José Fernandes (Zé Fernandes): Diferente de cegamente na religião, chegando a acender duas velasseu grande amigo Jacinto, é um homem rústico nas- para proteger os amigos depois de sua partida.cido na serra. Não se deixa contaminar completamente O estilo de Eça de Queirós é marcado por traçospelas idéias do amigo, mas sabe aproveitar-se do con- pessoais que não podem nem devem deixar de serforto e do luxo cultivados por ele. Apesar de ter estu- mencionados. Sua ironia corrosiva é um dos pontosdado em Paris, sua educação é apenas superficial, altos de sua prosa e gera verdadeira paixão entre osporque se mantém preso a seus valores rurais. leitores mais aficionados. A ironia, entretanto, não 3. Joaninha: Moça simples e boa, nascida na ser- disfarça o forte pessimismo social de seus livros, quera. É prima de Zé Fernandes. Jacinto casa-se com ela. é outra forte herança realista. Os realistas não preten- 4. Tia Vicência: Tia de Zé Fernandes, é uma se- diam reformar a sociedade com suas críticas contun- Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.nhora simples, boa e religiosa. Sua excelência na cozi- dentes e mordazes, mas apenas retratar a realidade.nha agrada não apenas o sobrinho, mas também Jacinto. Não havendo, portanto, qualquer falso moralismo 5. Grilo: Criado de Jacinto desde que este era embutido nessas constatações.menino, costuma aceitar todas as decisões do patrão Sem dúvida, a linguagem e o estilo são as caracte-sem reclamar. É um homem simples e ignorante, mas rísticas inconfundíveis da literatura de Eça de Quei-consegue definir sempre com precisão os estados de rós. A partir de construções sintáticas de acentoalma de Jacinto, para surpresa do narrador. nitidamente lusitano, consegue atingir uma graça e uma 6. Outras personagens de Paris: Madame de Oriol, leveza que dão à sua prosa uma espontaneidade só con-madame de Trèves, grão-duque Casimiro, Efraim etc. seguida com muito esforço. O emprego de estrangei- 7. Outras personagens da serra: D. Teotônio, rismos (principalmente expressões em francês), chegaSilvério, Melchior, Ana Vaqueira, Ricardo Veloso, a parecer natural, quase espontâneo, graças à simplici-doutor Alípio, Melo Rebelo, Gertrudes, tio Adrião etc. dade e naturalidade das construções sintáticas. A descrição minuciosa parece colocar o leitor den- tro da cena, como uma personagem muda e atenta, 7. ESTILO DE ÉPOCA recriando de forma viva o cenário e as personagens, que são de uma autenticidade indiscutível, ainda que E ESTILO INDIVIDUAL se caracterizem, na maior parte, como meros tipos sociais. É belíssimo o efeito obtido pelas descrições, O Realismo e o Naturalismo são dois estilos da dando ao leitor uma completa visão da capacidade desegunda metade do século XIX, que reagem às idea- o narrador apegar-se ao detalhe e tornar vivo o qua-lizações românticas. Na prosa literária portuguesa, o dro em que se passa a ação. O cenário, seja natural ouRealismo e o Naturalismo não se separam nitidamen- não, nada deixa a desejar em termos de descriçãote, o que acarreta a presença de passagens naturalis- minuciosa. Vale ressaltar que boa parte das descri-tas em obras consideradas realistas. O Naturalismo ções mostra a influência de Flaubert que utilizou umaradicaliza e intensifica a visão materialista, crítica e técnica impressionista de construção de cenários. Eçacientificista do mundo; volta-se para os aspectos mais capta cada ambiente através de uma perspectiva su-sórdidos do comportamento humano, o que não ocorre gestiva de acordo com as personagens e seus estados.no Realismo. Um bom exemplo disso pode ser en-contrado no episódio em que Zé Fernandes, frustra-do por não encontrar mais a vulgaríssima madame 7. PROBLEMÁTICAColombe em sua casa, come e bebe em demasia, ter- E PRINCIPAIS TEMASminando por vomitar tudo e esquecer a amante. De modo geral, não há nas obras de Eça de Queiróso psicologismo que marcou a literatura realista. Em A Não há como não perceber algo de autobiográficocidade e as serras, as personagens são superficiais e em A cidade e as serras: muito de determinado perí- 14
  • odo da vida de Eça de Queirós está presente na cons- dade, melhorando a vida de seus empregados. Mas é trução desse romance. Suas vivências foram, pelo bom lembrar que suas atitudes causaram verdadeiro menos em parte, transpostas para a obra através de espanto na população das serras, que a princípio não Jacinto e Zé Fernandes, como foi comentado em no- viu com bons olhos essas melhorias. tas de rodapé. Os cenários descritos pelo narrador Vale ainda ressaltar a tendência nacionalista da foram vistos pelo autor, que soube lhes dar vida e obra que ultrapassa a mera descrição de cenário e minúcias ao recriá-los na obra. Esta parece ter sido a costumes locais para retomar o miguelismo e o se- de exaltar a beleza de sua terra natal e ressaltar os bastianismo, já explicados anteriormente. usos e costumes locais, suas comidas e bebidas típi- Outro tema importante é a crítica à vida moderna cas. e aos confortos tecnológicos, ambos resultantes do A construção das personagens, na primeira parte progresso científico do século XIX. O elogio ao pro- da obra, mantém a tendência caricatural que acen- gresso é dominante na primeira parte da obra, mas as tuou a sátira queirosiana em sua segunda fase. Os falhas dos “confortos” tornam evidente que a felici- nobres freqüentadores do 202 comportam-se com ar- dade não é conquistada apenas por meio das máqui- tificialismo, vestem-se e falam de maneira ridicula- nas, que não podem ou não devem preencher a vida mente afetada. São caricaturas sociais, personagens humana, mas ser complemento ao estado de realiza- de fundo para ajudarem a tornar a vida de Jacinto ção que deve vir de dentro do indivíduo. insuportavelmente tediosa. As personagens da segun- Sem dúvida, embora A cidade e as serras não seja da parte escapam a essa visão maliciosa e ferina do a obra-prima das obras produzidas por Eça de Quei-Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. narrador, que cede aos apelos emocionais e substitui rós, encontram-se nela bons motivos para nos delei- a crítica maldosa por uma certa ternura e compreen- tarmos com a história desse Jacinto. Sem dúvida, são dos defeitos e dificuldades humanos. nesse caso, o prazer da leitura nasce lentamente, pelo Sem dúvida, o grande tema do livro é a compara- reconhecimento do estilo inconfundível de Eça de ção entre a cidade e o campo, na qual prevalece o Queirós, com suas peculiares ironias, ou quando nos elogio ao segundo. O grande sonho do grupo de es- deparamos com metáforas absolutamente inéditas, não critores realistas encabeçados por Antero de Quental raro nascidas do emprego do próprio advérbio, ou e Eça de Queirós era viver em Paris, a cidade e suas ainda quando as trapalhadas de Jacinto e Zé Fernan- luzes, seu movimento constante, o progresso que a des propiciam agradáveis gargalhadas. Além do mais, tudo e a todos move incessantemente. Todavia, eles a obra é, indiscutivelmente, um pedaço desse mundo descobriram uma outra Paris, marcada pela miséria e fictício, mas tão densamente real, surgido desse gran- pelo sofrimento daqueles que sempre trabalharam para de escritor que foi Eça de Queirós. o bem-estar dos privilegiados. Os sonhos socialistas do antigo Cenáculo não foram esquecidos, mas frus- trados pela realidade do grande centro urbano. Paris não lhes mostrou um cenário de justiça social e liber- 8.BIBLIOGRAFIA dade; pelo contrário, demonstrou claramente o agra- vamento das diferenças e distâncias sociais. Antero QUEIRÓS, Eça de. A cidade e as serras. Int. Osmar foi o primeiro a sofrer essa decepção e voltar para Barbosa. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d. Portugal. A angústia de Eça veio mais tarde, depois POUSADA, Antônio. Vida, paixão e morte de Eça de de ter sido nomeado cônsul português na cidade. As Queiroz. São Paulo: Clube do Livro, 1966. personagens parisienses descritas na obra não foram conhecidas suas, já que sua casa não era freqüentada por pessoas locais ou literatos franceses, mas pelos Por que se pode afirmar que, em A cidade e as serras, compatriotas e brasileiros, como atesta Antônio Pou- Eça de Queirós está empenhado em “ridicularizar o pro- sada em Vida, Paixão e Morte de Eça de Queiroz. gresso técnico, embora o seu alcance efetivo diga antes Também Eça não encontrou a Paris de seus sonhos. respeito à ociosidade endinheirada e ao conceito de civili- Quanto ao sonho socialista da juventude, ele transpa- zação como ‘armazenamento’ de comodidades”? rece nessa obra ironizado pelo discurso de José Fer- nandes, que termina cheio de fome e exige um bom Que episódios da primeira parte de A cidade e as ser- vinho para molhar a garganta, já que o merecia por ras denunciam críticas aos problemas decorrentes da tec- ter feito um belo discurso. Aliás, tudo não passa de nologia na vida do protagonista Jacinto? bela oratória. Esse sonho da justiça social parece realizar-se nas O criado Grilo afirma que Jacinto está enfastiado. De reformas empreendidas por Jacinto em sua proprie- que maneira essa observação pode ser comprovada pelo 15
  • comportamento do protagonista de A cidade e as serras rado e infeliz, que se comporta de maneira absolutamenteem seus últimos tempos em Paris? ridícula diante dos excessos tecnológicos que se acumulam em seu apartamento nos Campos Elísios: aparelhos inúteis e descartáveis, elevador para apenas dois andares e com bibli- Os exageros de Jacinto chegam a tal ponto que Zé Fer- oteca e divã; instrumento de culinária sem função; acúmulonandes chega a ter um estranho sonho com os livros. Co- de livros por todos os cantos etc. Nem mesmo toda a tecnolo-mente o que desencadeou o sonho do narrador e com o gia do mundo será capaz de dar a Jacinto a felicidade e oque ele sonhou. prazer de viver pelo qual ele tanto anseia. 2. Dois episódios comprovam o absurdo dos exageros tecnoló- Antes de partir para as serras portuguesas em Tormes, gicos de Jacinto e suas conseqüências desastrosas em sua vida. O primeiro dá-se com a explosão do cano ou torneira de va-Jacinto despacha todo tipo de objeto que considera neces- por quente que quase queima o criado de Jacinto. O segundosário para uma sobrevivência mínima durante sua estada. episódio refere-se ao jantar em que falta energia elétrica e oTambém manda reformar a casa, consertar o telhado, co- peixe enviado especialmente pelo grão-duque Casimiro en-locar vidros nas janelas, arrumar o assoalho. Que inciden- calha no elevador da cozinha.tes tornam a chegada de Jacinto diferente dos planejamentos 3. Jacinto está entediado e considera tudo uma “seca”, uma “ma-iniciais do fidalgo? çada”, não mostra ânimo nem mesmo com seus aparelhos e afirma que não há livros para ler, apesar dos 30 mil volumesLeia o texto a seguir para responder à questão: que se espalham por todos os espaços do palacete. Jacinto não tem ânimo para sair ou mesmo dar festas e receber os — Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como amigos. Considera todos os amigos uma “maçada”, com ex-tudo é animado de uma vida forte e profunda!... Dizes tu ceção de Zé Fernandes, e manda mesmo o empregado dizeragora, […], que não há aqui pensamento... que não está em casa no dia do próprio aniversário. Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. — Eu?! Eu não digo nada […]. 4. Zé Fernandes corre para o banheiro com urgência e com as […] calças nas mãos, mas encontra a porta vedada por uma cole- — A vida é essencialmente vontade e movimento; e ção de estudos sociais. À noite, encontra sete volumes de umnaquele pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um dicionário na cama. Zé Fernandes sonha com uma Paris cons-mundo de impulsos, de forças que se revelam, e que atin- truída de livros. Depois sobe numa montanha e chega até ogem a sua expressão suprema, que é a forma. Não, essa paraíso, onde avista Deus sorrindo ao ler uma edição baratatua filosofia está ainda extremamente grosseira… de Voltaire. — Irra! Mas eu não… 5. Apesar de todas as precauções, Jacinto chega a Portugal em — E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa abril, quando não era esperado antes de setembro pelo em-diversidade de formas e todas belas! pregado Melchior. Primeiro toda a bagagem que acompanhara QUEIRÓS, Eça de. Op. cit. p. 87. os dois amigos e também os criados desaparece na mudança de trens. Depois o fidalgo e Zé Fernandes são obrigados a Durante a leitura da passagem transcrita, percebe-se subir a serra em animais alugados, porque ninguém os espe-que uma das personagens faz um discurso favorável à vida rava na estação ferroviária. Finalmente, a casa não estava pron-no campo, enquanto a outra apenas se limita a defender-se ta para recebê-los e todas as encomendas enviadas de Parisde algo que nunca disse. através de uma transportadora foram parar na Espanha.a) Quem são as personagens que participam desse diálo- 6. a) As personagens são Jacinto e Zé Fernandes. b) Jacinto mostra-se favorável à vida no campo, enquanto go? Zé Fernandes limita-se a defender-se de posições que nun-b) Qual a posição de cada uma delas? ca foram expressadas por ele.c) O que causa estranheza à segunda personagem e ao lei- c) O que causa estranheza no posicionamento de Jacinto é que tor? ele nunca foi favorável à vida no campo, ao contrário, de- fendia a vida numa grande metrópole como a única formaRespostas de felicidade. Para Jacinto “a felicidade dos indivíduos, 1. Eça de Queirós procura denunciar na figura do protagonista como a das nações, se realiza pelo ilimitado desenvolvi- Jacinto uma visão canhestra da civilização como acúmulo de mento da mecânica e da erudição”, era tudo uma questão comodidades ou confortos. Jacinto é um indivíduo endinhei- de tecnologia e livros, muitos livros. 16