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"Olhai as Periguetes": as representações das classes populares na mídia e a estetização da diferença.

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Trabalho apresentado no II Comunicon - Congresso Internacional em Comunicação e Consumo, na ESPM, São Paulo.

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  • 1.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012   “Olhai as periguetes”: a representação das classes populares na mídia e a estetização da diferença.1 Janaína Vieira de Paula Jordão2 Universidade Federal de GoiásResumoTemos visto a emergência da classe C, não só ao poder de consumo, como também à grande visibilidade namídia. Inúmeras publicações visam “apresentar” estes novos consumidores, com verdadeiros manuais do tipo“entenda tudo sobre a nova classe média”. Mas, dentro destas conceituações, percebe-se a aproximação deoutros atributos que não têm necessária conexão com qualquer faixa econômica, como disponibilidadesexual, mau-gosto, inteligência e religiosidade. Para buscar entender estas questões, foi feita uma breveanálise de alguns destes “manuais” e entrevistas de alguns formadores de opinião a meios de grandeveiculação. A partir daí, conceitos como dominação de Max Weber, distinção e violência simbólica de PierreBourdieu, estigma de Erving Goffman e subcidadania de Jessé Souza foram trazidos para guiar osquestionamentos sobre essas legitimações de desigualdades que pairam sobre o imaginário da sociedade eque vão repercutir tanto na grande mídia, quanto nas interações face-a-face.Palavras-chave: Classe C; Mídia; Consumo; Dominação; Estigma. Introdução Temos acompanhado a estabilização da economia e o aumento do poder de consumo – sejapelo maior poder aquisitivo ou pelo aumento do acesso ao crédito – da Classe C. Com isso,aumentou também o investimento em programação de entretenimento e publicidade com o objetivode falar da e com esta “nova” e ampla classe consumidora. Mas uma coisa que se pode observar, juntamente com todo esse movimento, é uma espéciede conceituação que o discurso midiático tem feito da Classe C, que parece ultrapassar o aspectoeconômico, que é o fator fundamental de diferenciação de classe, nos termos de que estamos aqui                                                                                                                        1 Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 01 – COMUNICAÇÃO, CONSUMO E DIFERENÇA, do 2º Encontro deGTs - Comunicon, realizado nos dias 15 e 16 de outubro de 2012.2 É doutoranda no programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Ciências Sociais da UniversidadeFederal de Goiás e professora no curso de Publicidade e Propaganda da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomiada UFG. É bolsista da FAPEG - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás. janainavpj@gmail.com
  • 2.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012    tratando: Classe, seguido de A/B/C/D/E. E isso, independentemente do critério que se use, se pelaFundação Getúlio Vargas (FGV), que é formulado a partir da Pesquisa Nacional por Amostras deDomicílio (PNAD), pelo IBGE; ou se pelo Critério Brasil, feito pela Associação Brasileira dasEmpresas de Pesquisa (ABEP). E é isto que este artigo vai buscar: entender, por meio de um breve mapeamento de algumaspublicações de grande circulação, quais são os outros padrões – além dos de renda – que estão,segundo a mídia – caracterizando essa classes econômica, tendo em mente que tentar apreender as regras do jogo da divulgação e da distinção segundo as quais as classes sociais exprimem as diferenças de situação e de posição que as separam, não significa reduzir todas as diferenças, e muito menos a totalidade destas diferenças, a começar por seu aspecto econômico, a distinções simbólicas, e muito menos, reduzir as relações de força a puras relações de sentido. Significa optar por acentuar explicitamente, com fins heurísticos, e ao preço de uma abstração que deve revelar-se como tal, um perfil da realidade social que, muitas vezes, passa despercebido, ou então, quando percebido, quase nunca aparece enquanto tal. (BOURDIEU, 2007, p. 25). Olhai as periguetes. Em recente entrevista à Folha de S. Paulo, o estilista Alexandre Herchcovitch, falando sobreos desejos do consumidor final no Brasil, afirmou: Vamos cair na real, gente. O Brasil tem expertise de fazer roupa popular, de "periguete". A gente também tem que olhar para isso. Pensei no banho hoje e queria falar: o que vendo mais e menos? Não vendo tanto vestido de R$ 10 mil. O que vendo muito são meus produtos de licenciamento, edredons de R$ 250, sapatos de R$ 129. Não vou deixar de fazer vestidos caros porque tenho clientes que os querem. Hoje, quem quiser sobreviver no Brasil e competir vai ter de fazer produtos para as classes C e D. (WHITEMAN, DINIZ, 2012)3 Ao passar os olhos sobre uma entrevista de um estilista, pode-se pensar que, quando ele falade periguetes, esteja caracterizando mulheres de determinado comportamento social ou sexual4, quetêm como emblema o uso de roupas mais extravagantes, ou que deixam o corpo à mostra. Mas,numa leitura mais atenta, levando em conta o todo da entrevista - que foi publicado – pode-seperceber de que ele não está falando sobre essas mulheres. Ele está falando sobre pessoas dascamadas populares, mais especificamente, das classes C e D. Ou seja, alinhavou o conceito deperiguete – uma mulher namoradeira – a um contexto de toda uma classe econômica.                                                                                                                        3 WHITEMAN, Vivian; DINIZ, Pedro. Olhai as Periguetes. 2012. Disponível em<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/47958-olhai-as-periguetes.shtml> Acesso em: 18 jun 2012.  4 Segundo o Dicionário Aurélio, periguete significa: moça ou mulher namoradeira. 2    
  • 3.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012     O mesmo parece ocorrer em matéria do site Veja a respeito da “Classe C no horário nobre”.Segundo a matéria, usualmente, grupos populares faziam parte de núcleos, em torno da tramaprincipal. Agora, duas novelas na Rede Globo têm a trama ambientada no cotidiano da nova classemédia: Cheias de Charme (19h) e Avenida Brasil (21h), esta última com 79% de seus personagensdentro deste perfil. Segundo análise feita pelo site de Veja, As casas de personagens centrais como Carminha (Adriana Esteves), em Avenida Brasil, primam por uma ostentação exagerada não necessariamente alinhada com o bom gosto clássico. No horário nobre atual, também reina o combo jeans justo, blusa curta e acessórios coloridos. A empregada doméstica Penha (Taís Araújo), de Cheias de Charme, é a maior representante desse estereótipo da moda na periferia.5 A moda e o gosto “duvidoso” aparecem na análise da revista de forma constante, como sepode observar abaixo.                                                                                                                        5  Zylberkan, Mariana. A classe C no horário nobre. Como – e por que – a Rede globo celebra a classe média emergenteem suas duas principais novelas. Veja, 20 de abril de 2012. Disponível em <http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/a-globo-e-pop > Acesso em 16 de ago 2012. 3    
  • 4.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012     Roupas justas e decotes generosos, segundo a publicação, reproduzem o estilo de parte demulheres da classe C. Ora, não reproduzem o estilo de parte de mulheres, independentemente declasse social? Mais uma vez, pode-se notar a assunção de determinada estética ao outro, o“periguetismo” às classes populares. O questionamento do gosto e a expressa distinção entre cultura popular e legítima aparecemna figura abaixo. Primeiro, coloca-se como característica comum à classe C o gosto peloexuberante. E em seguida, desqualifica o gosto pelo “gato de porcelana”, em uma clara ideia de queo dinheiro não dá acesso ao bom gosto, que seria adquirido, por exemplo, em um curso de históriada arte. 4    
  • 5.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012     O que se parece sugerir é que, apesar de a classe C ter agora o poder de consumo, a culturahegemônica a desqualifica, como se trabalhasse em uma perspectiva distintiva, em que pode-se atédiminuir as distâncias de capital econômico entre as classes, porém a classe popular continuarásendo o Outro, já que não traz consigo o mesmo capital cultural, adquirido pela educação e peloacesso aos bens culturais. Este aspecto também pode ser percebido em uma entrevista concedida por Silvio de Abreu àrevista Veja.6 Ao ser questionado sobre a demora de a novela Insensato Coração, de Gilberto Bragae Ricardo Linhares, conquistar grande audiência, o dramaturgo afirmou que “O público D/E temdificuldade de perceber as coisas. Eles precisam de tempo. O público A/B percebe com maispropriedade porque tem raciocínio mais rápido”.                                                                                                                        6  MAIA, Maria Carolina. Para Silvio de Abreu, novelas demoraram a decolar porque o brasileiro tem pensamento lento.Veja. 01 de julho de 2011. Disponível em < http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/para-silvio-de-abreu-raciocinio-lento-das-classes-populares-prejudica-a-arrancada-das-novelas > Acesso em 16 de ago de 2012. 5    
  • 6.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012     Este tipo de percepção também parece atravessar o imaginário dos criativos na publicidade.O que se tem percebido, a partir de algumas análises7, é uma assunção de uma estética e estilosespecíficos, em que narrativas mais complexas, cores frias e aspecto visual limpo, sem muitoselementos, são reservados para os públicos mais favorecidos economicamente, enquanto as coresquentes, muitos elementos e um estilo mais argumentativo são direcionados para os grupospopulares. Muitas vezes, na ausência de pesquisas de mercado, estes critérios são definidos pelosanunciantes e suas agências, a partir de suas próprias impressões subjetivas, e também pelaobservação do que a própria mídia veicula – e tenta explicar. Aliás, o que não faltam são manuais para “apresentar” este novo consumidor à sociedade. Oque mais se vêem são matérias com os títulos “Classe C chega a 54% da população e tem rendamédia de R$1.450,00”8; “Classe C quer cores, extravagância e fartura”9; “O que fazer paraconquistar as classes C, D e E”10. Em dezembro de 2011, a Revista Veja lançou um especial de 22 páginas com o título “Anova CLA$$E MÉDIA chegou e agora quer mais”11. Para “medir” (nos termos da revista) essemovimento, a VEJA apresentou sua metodologia: entrevistas pela internet de 5.959 pessoas no mêsde outubro de 2011. E afirma ser o resultado “o mais completo painel dos humores da nova classemédia brasileira” (p. 173). Falando de um contingente de mais de 100 milhões de pessoas, oespecial, que traz matérias sobre profissão, dia-a-dia, eleições, consumo, casa própria, entre outrosassuntos, afirma que esses brasileiros, dos quais 32 milhões ascenderam das classes D e E, passarama consumir bens duráveis e também descobriram outras necessidades culturais, sociais eeconômicas “ao se desgarrar da subsistência pura e simples” (p. 173). Parece sugerir, a revista, quepouco mais que a metade da população não tinha necessidades culturais, sociais e econômicas, antesda ascensão financeira, e que, até então, a vida consistia em manter-se vivo. Mais à frente, afirma                                                                                                                        7 JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Comunicando o gosto: a publicidade para a Classe C. Trabalho apresentado noComunicon – I Congresso Internacional de Comunicação e Consumo – realizado na Escola Superior de Propaganda eMarketing, ESPM, em 10 e 11 de outubro de 2011. Foram entrevistados 10 profissionais da área de criação de agênciasde publicidade a respeito de escolhas estéticas para criação de peças voltadas para a Classe C.8 Matéria veiculada na Folha Online. Disponível em < http://www1.folha.uol.com.br/mercado/1065542-classe-c-chega-a-54-da-populacao-e-tem-renda-media-de-r-1450.shtml > Acesso em 13 de abril de 2012.9 Matéria veiculada na Exame.com. Disponível em < http://exame.abril.com.br/pme/noticias/classe-c-quer-cores-extravagancia-fartura-572254?page=2&slug_name=classe-c-quer-cores-extravagancia-fartura-572254 > Acesso em 13de abril de 2012.10 Guia do Marketing. Disponível em < http://guiadomarketing.powerminas.com/o-que-fazer-para-conquistar-as-classes-cd-e-e/ > Aceso em 13 de abril de 2012.11 VEJA. A nova CLA$$E MÉDIA chegou e agora quer mais. Edição 2247, ano 44, n. 50. Editora Abril: 14 dedezembro de 2011. 6    
  • 7.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012    que esses cidadãos produziam cultura, mesmo antes, mas agora têm meios para isso. Já destemomento na leitura, já pode-se perceber o que o texto parece entender por cultura. A cultura pareceser a que se produz: por exemplo, cinema, teatro, a cultura considerada legítima, esquecendo-se deinúmeras manifestações culturais que permeiam a vida das pessoas, independentemente da situaçãofinanceira e do status de produtor. Já começam também a surgir publicações que se propõem a apresentar a Classe D, como é ocaso da Revista Época Negócios, que, na sua edição de junho de 2012, trouxe uma matéria em quejornalistas elegeram uma cidade no sertão de Alagoas – Campo Alegre - como “o melhor símboloda vida à margem do capitalismo moderno”, em matéria intitulada: O lado D do Brasil: um mercadoávido para ser descoberto”(p. 63)12. A primeira frase do texto é: “Todas as cidades do interior têmseus loucos de estimação” (p. 64). E o restante do texto faz uma caracterização quase circense dapopulação apontando tipos: “Uma mulher de vestido cruza a rua correndo. Trata-se de outrocaricato personagem que povoa as ruas deste interior classe D” (p. 67). Como se pode notar, mau-gosto na decoração da casa, ausência ou precariedade cultural,maior expressão da disponibilidade sexual feminina são algumas das características que parecemtraçar um perfil – ou uma caricatura – das pessoas das classes economicamente emergentebrasileiras. Questão de classe? Nas várias tabelas e matérias publicadas pela revista Veja13, uma mirada mais de perto nospermite notar algumas caracterizações à classe C que não lhe parecem ser específicas. Fala-se, porexemplo, que a casa é importante para nós, brasileiros, independentemente do estrato econômico. A diferença é que, se anteriormente quem tinha menor poder aquisitivo dava extremo valor à posse de um teto, agora almeja mais e se empenha por um teto sob o qual viva com qualidade e conforto. Ao se reinventar, a nova classe média brasileira assenhora-se de bens que não podia ter até então (p. 192-193). Essa não parece ser uma “diferença” que a nova classe média traz consigo. Parece ser umacaracterística usual para qualquer pessoa dentro de uma cultura de consumo, que aumente o seupadrão de vida, ou o seu poder de compra. Pelo menos, em termos metodológicos, tal afirmação                                                                                                                        12 TODESCHINI, Marcos. O lado D do Brasil: um mercado ávido para ser descoberto. Época Negócios. Junho 2012. P.63 a 69.13  VEJA. A nova CLA$$E MÉDIA chegou e agora quer mais. Edição 2247, ano 44, n. 50. Editora Abril: 14 dedezembro de 2011.   7    
  • 8.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012    seria válida caso a pesquisa mostrasse que outras pessoas de diferentes classes econômicas agem deforma diferente, o que não é o caso. O mesmo ocorre com a religiosidade. Em versão digital, a Época Negócios disponibilizouum teste intitulado: “Teste seu conhecimento sobre a classe D: responda dez perguntas e veja sevocê entende este novo mercado.”14 Em pergunta específica sobre religião (a relação da classe Dcom a religiosidade), a resposta certa afirma que a classe D não só pertence a uma igreja como éfrequentadora – muitas vezes, em mais de uma. O que chama atenção aqui é que se apontam dadossobre religiosidade sem qualquer comparação com outras classes econômicas, mas que, da formacomo são mostrados, sugerem que esta classe específica é detentora de tal característica. Aliás, a religiosidade parece estar sendo empurrada para as classes populares. Uma outrapergunta do teste quer saber a justificativa das pessoas da Classe D para não pagarem a conta deluz. As três respostas possíveis são: a) Não pago porque água e luz são coisas de Deus; b) Não pagoporque não tenho dinheiro; c) Não pago porque não posso parcelar. A resposta correta, segundo oquestionário é a). A justificativa: “Existia um efeito em cascata secular nos grandes morros: nãoexistia uma tradição de pagar contas de água e luz. Eles eram considerados direitos gratuitos.” Ora,mas a justificativa da resposta em nada tem a ver com com a proposição correta. Hábito de nãopagar nem de longe tem relação com a crença de que tais serviços são obras do divino. Um outro exemplo de caracterização forçada acontece em uma pergunta específica sobre opapel das mulheres nos lares da classe D. Segundo o questionário, 35% delas sustentam suas casas,e a justificativa é: “Apesar de ser uma classe que conserva muito traço de machismo, as mulherestêm um papel importante. Quando não comandam o lar, organizam o consumo e as compras dentrode casa”. E nas outras classes? Em que medida isso se diferencia? O teste não traz. E voltemos às periguetes: roupas justas e decotes generosos reproduzem o estilo de parte demulheres da classe C, ou de parte de mulheres? Este é um aspecto que chama a atenção: atribuir a estas fatias da população característicasque poderiam ser facilmente pensadas também para outros estratos econômicos, ou a simplesausência de comparação que comprove as afirmações. A questão é que essas conceituações têm sidotrabalhadas cotidianamente nas novelas, nas revistas (inclusive em suas análises, com conteúdojornalístico) e na publicidade. Conceituações que não se provam nem pelo menos bem                                                                                                                        14 Disponível em < http://epocanegocios.globo.com/Informacao/Visao/noticia/2012/06/teste-seus-conhecimentos-sobre-classe-d.html > Acesso em 15 de ago 2012. 8    
  • 9.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012    fundamentadas para se repetirem até terem o tom da verdade, da legitimidade, do conceitohegemônico do que sejam essas pessoas que compõem a nova classe média brasileira. Se podemos considerar como premissa o pensamento de Gilberto Freyre sobrecaracterísticas – romantizadas ou não – presentes na formação da cultura brasileira, o que parece éque a mídia tem dito: os brasileiros são os outros. E esses outros são as classes C e D. Questão de classe. Existem várias perspectivas teóricas que buscam definir um conceito de classes. Até aqui,neste trabalho, obviamente estamos falando expressamente da classe C, uma conceituação feita porcritérios econômicos, medidos por meio de renda e/ou posse de bens. Do ponto de vista teórico, oque diferencia uma classe de outra vai depender de que corrente utilizarmos. Até pela extensãodeste trabalho, não vamos fazer um apanhado das teorias a respeito do tema, mesmo porque, defato, não é exatamente este o nosso objetivo, mas sim buscar entender as relações que se dão entregrupos distintos, em que se determina quem é “nós” e quem são “eles”. Como entendemos – etrataremos mais à frente – que esta definição ocorre por meio da dominação, no sentido weberiano,aqui vamos trabalhar o conceito de classe segundo este mesmo autor. “Falamos de “classe” quando 1) uma pluralidade de pessoas tem em comum um compontente causal específico de suas oportunidades de vida, na medida em que 2) este componente está representado, exclusivamente, por interesses econômicos, de posse de bens e aquisitivos, e isto 3) em condições determinadas pelo mercado de bens ou de trabalho (“situação de classe”) (WEBER, 2004, p. 176)   A situação de classe compartilhada não transforma uma classe em comunidade, segundo oautor, mas acaba por ser um condicionador comum do destino dos indivíduos. Ou seja, o viéseconômico é o fator causal das oportunidades de vida das pessoas, mas, que por isso, não dividemsomente esta semelhança que remete ao aspecto quantitativo. Uma vez que Weber fala emoportunidades de vida, podemos entender que as pessoas dividem também certas experiênciaspessoais, determinadas formas de aquisição de bens e de trabalho e, portanto, de limites, quedesenham sua situação de classe, ou situação no mercado. Ou seja, há mais a se observar, além do aspecto econômico. Aliás, segundo Souza (2006), éjustamente o fator economicista do conceito de classe social da tradição marxista que deixa de ladoa problemática simbólica e cultural decorrente do pertencimento a uma classe (visto somente comolugar da produção ou na renda). Para o autor, isso faz com que não se percebam contradições e as 9    
  • 10.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012    “formas opacas e socioculturais de ‘racismo de classe’” (SOUZA, 2006, p. 133), que seriam maisperceptíveis caso se levassem em conta causas culturais, políticas e morais, por exemplo. A questãode classe, para este autor, é inclusive anterior à questão racial no caso brasileiro, uma vez que noBrasil, um negro que pertença a classes superiores sofre um efeito de “embranquecimento”. Ainda em relação às classes, segundo Bourdieu (2007), a posição de um indivíduo em umaestrutura social não deve ser levada em conta por uma perspectiva estática, como se estivesse emposição superior, média ou inferior em um dado momento. É preciso considerar o trajeto social,inclusive o sentido do trajeto, se ascendente ou descendente. Especialmente, num trabalho comoeste em que estamos falando de uma classe em ascensão, em direção – ao menos economicamente -a outra que ocupa lugar de prestígio. Prestígio, aliás, é, segundo Weber (2004), uma outra forma de distribuição de poder nasociedade, juntamente com as classes e os partidos. O prestígio faz a parte positiva do que Weberchama de estamentos, que não são configurados necessariamente pelo status econômico, masequivalem à honra (positiva ou negativa) que possui um grupo de pessoas. O estamento, sim, temcaráter de comunidade, mas ainda que frequentemente se apresente de maneira amorfa, podendo terna sua constituição indivíduos de diferentes classes. A honra, portanto, pode estar ou não ligada auma situação de classe, e inclusive é um status que pode com o tempo ser adquirido por uma classeespecífica, tanto por usar determinados trajes, comer alimentos proibidos aos outros, praticardeterminadas artes, quanto inclusive pela posse da propriedade, que pode adquirir um caráterestamental. Fazendo um paralelo entre classes e estamentos, temos que “as ‘classes’ diferenciam-sesegundo as relações com a produção e aquisição de bens, os ‘estamentos’, segundo os princípios deseu consumo de bens, que se manifestam em ‘conduções da vida’ específicas” (WEBER, 2004, p.185). Tais conduções de vida fazem relação com toda e qualquer manifestação de estilização davida, segundo o autor, e o que se quer é manter o monopólio de bens ou oportunidades garantidaspela diferenciação estamental. Segundo Weber, a honra estamental sempre se baseia em distância eexclusividade. Esta honra, como tal, está ameaçada em sua raiz, quando a mera aquisição econômica e o nu e cru poder econômico, que ainda traz o timbre da sua origem extra-estamental, podem proporcionar àquele que os conseguiu a mesma “honra”, ou até superior quanto ao efeito, que aquela que pretendem para si os interessados estamentais em virtude de sua condução da vida – já que, sendo quanto ao resto igual à honra estamental, a propriedade constitui, por toda parte, um fator decisivo adicional, ainda que não reconhecido. Em toda diferenciação estamental, os 10    
  • 11.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012     interessados reagem, por isso, com rigor específico, precisamente às pretensões da atividade aquisitiva puramente econômica, como tal, e isto, em geral, tanto mais quanto mais se sentem ameaçados (WEBER, 2004, p. 184). Isto é que o que se pode considerar como hipótese neste trabalho. Será que esta conceituaçãodepreciativa que se faz da classe C na mídia de massa não pode ter relação com uma proteção da“honra” que vai além da condição econômica? As repetidas investidas na questão do mau gosto, nadisponibilidade sexual, na crença religiosa fácil (a ponto de sugerir que água e luz seriam dádivasde Deus, quando a resposta trazia somente a questão habitual do não pagamento) não podem refletiruma defesa de um território simbólico da cultura (ou do acesso aos bens culturais tidos comolegítimos), da educação e de uma racionalidade das classes dominantes? Segundo Bourdieu (2007), não há nada mais falso do que acreditar que ações simbólicas, nalógica do sistema de atos e procedimentos expressivos, não signifiquem além delas mesmas: “naverdade, elas exprimem sempre a posição social segundo uma lógica que é a mesma da estruturasocial, a lógica da distinção” (p. 17). Assim, os sistemas simbólicos exprimem os desvios quedefinem a própria estrutura da sociedade enquanto sistema de significações. Ocorre, pois, uma bifurcação da cultura, em que, de um lado, estão as práticas culturais deum valor distintivo que é mais forte à medida que elas são menos compartilhadas; e de outro, pormeio de um processo de desqualificação, estão as práticas relegadas ao divertimento popular(CHARTIER, 1995). Obviamente, esta bifurcação não ocorre somente no aspecto do consumo cultural, mastambém do material. As roupas e os enfeites são, dentre todos os tipos de consumo, ao lado dalinguagem e da cultura, os que mais abrigam uma função expressiva e melhor realizam a função desociação e dissociação (BOURDIEU, 2007). E é interessante notar que as conceituações que amídia faz da classe C passam por esses dois elementos: as roupas justas e decotadas, moda “de partedas mulheres da classe C” e o desdém pelos objetos de decoração utilizados na novela. Deve-se levar em conta que a procura consciente ou inconsciente da distinção toma inevitavelmente a forma de uma busca do refinamento e pressupõe o domínio das regras desses jogos refinados que são o monopólio dos homens cultivados de uma sociedade (BOURDIEU, 2007, p. 21). Pode se pensar que, se o jogo dos sentidos é comandado por alguém, isso se dá por meio dadominação. Segundo Weber (2004), a grande maioria das comunidades econômicas têm umaestrutura que implica em dominação. Segundo o autor, a dominação é um caso especial do poder eseus detentores não estão necessariamente interessados em fatores econômicos, apesar de que isso 11    
  • 12.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012    muitas vezes possa vir a ser a consequência. Pode apresentar-se nas formas mais diversas, comoforma de impor ao comportamento de terceiros a vontade do dominador. Mas existem dois tiposradicalmente opostos: a dominação movida por uma constelação de interesses (situação demercado), ou em virtude de autoridade (poder de mando). Entendemos que a dominação de queestamos falando neste trabalho seja a movida por interesses, uma vez que ela é menos clara, nãotem regulamentos, mas, segundo Weber (2004, p. 191), justamente por isso, pode ser sentida comoalgo muito mais opressivo do que a existência de uma autoridade expressamente regulamentada aque se estabelecem deveres de obediência. É a dominação através de uma imposição de um padrão estético e de conduta, em que mídiaparece classificar os gostos e comportamentos da classe C. Para Souza (2006), como na sociedademoderna se vive na pressuposição de igualdade, a desigualdade deve ser legitimada, e, a partir daí,quando uma realidade é institucionalizada e naturalizada no cotidiano, se esquecem suas origens. A imposição da legitimidade é a forma acabada da violência simbólica, violência atenuada, que só pode ser exercida com a cumplicidade de suas vítimas e que, assim, pode dar à imposição arbitrária de necessidades arbitrárias a aparência de uma ação libertadora, infocada a partir do mais íntimo daqueles que a sofrem (BOURDIEU, 2008, p. 183). A necessidade da justificação da legitimidade surge, segundo Weber (200 , p. 197), em umasituação de existência de contrastes acentuados de qualquer natureza entre pessoas, a partir da quala que se encontra em situação mais favorável possa considerar o contraste que o privilegia comolegítimo, impondo ao outro a culpa ou o merecimento da situação desfavorável em que se encontra.Nem sempre isso é percebido como violência, ou como dominação, e por isso, muitas vezes aceita-se essa lenda.15 Entendemos que essa possibilidade de aceitação (da violência simbólica e não na recepçãodos conteúdos midiáticos, onde os estudos culturais já bem trabalharam a questão da apropriação,negociação e negação) se dê por dois motivos: um que está baseado em uma própria justificaçãointerna da legitimidade da dominação, que é a autoridade do costume, do tradicional, do “que foisempre assim”.16 E o outro porque                                                                                                                        15  Aliás, segundo Bourdieu (2008), a violência simbólica é tanto mais presente, quanto mais estiver mascarada.  16 Segundo Weber (2004) são três os fundamentos da legitimidade de uma dominação: a autoridade do “eterno ontem”,o carisma (do herói, do profeta, do demagogo…) e a legalidade, onde há a crença na validade dos estatutos legais e dasregras criadas. 12    
  • 13.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012     o desconhecimento coletivo que está na origem da moral da honra, como denegação coletiva da verdade econômica da troca, só é possível porque, neste tipo de mentira do grupo para consigo mesmo, nunca existe enganador, nem enganado (BOURDIEU, 2008, p. 212). E neste movimento contínuo de reverberação do conceito midiático do que seja a classe C,ocorre o que Bourdieu (2008) chama de operação fundamental da alquimia social: transformarrelações arbitrárias em legítimas, e diferenças em distinções oficialmente reconhecidas. Se asdistinções entre pessoas e grupos se tornam legítimas, pode-se pensar que estes passam a se tornarestigmatizados. Segundo Goffman (1988), a sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas.Quando uma pessoa tem algum atributo que destoe das características tomadas como padrão, torna-se estigmatizada, e assim, diminuída e desacreditada, como se não fosse completamente humana. Com base nisso, fazemos vários tipos de discriminações, através das quais efetivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida: construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças, tais como as de classe social (GOFFMAN, 1988, p. 8). A manipulação dos estigmas acontece, segundo o autor, sempre que há normas deidentidade em uma sociedade. Ou seja, se estamos partindo de um padrão de bom gosto, de culturalegítima, os desviantes passam a ser os estigmatizados. Assim, a sociedade diz para o estigmatizadoque ele é um ser humano normal, que faz parte de um grupo amplo, mas ao mesmo tempo édiferente, e que não há como negar essa diferença. Daí, segundo Goffman (1988), surge apossibilidade do sentimento de vergonha, quando o indivíduo percebe que um de seus atributos éimpuro, e imagina-se como um não-portador dele. Há os membros da classe baixa que, de forma bastante perceptível, trazem a marca de seu status na linguagem, aparência e gestos, e que, em referência às instituições públicas de nossa sociedade, descobrem que são cidadãos de segunda classe (GOFFMAN, 1988, p.123). Ainda segundo o autor, isso repercute na interação face-a-face, em que há a insegurança doestigmatizado sobre a recepção que o espera. Segundo Bourdieu (2008), a vergonha corporal e qualquer outra espécie de vergonha cultural – aquela resultante de um sotaque, de um falar ou gosto – encontram-se, com efeito, entre as formas mais insidiosas da dominação porque levam a viver, segundo o modelo do pecado original e da indignidade essencial, certas diferenças que, mesmo em relação às mais naturais na aparência, tais como as que têm a ver com o corpo, são o produto de condicionamentos sociais, portanto, da condição econômica e social (BOURDIEU, 2008, p. 185). 13    
  • 14.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012     Classe C de corpo ou alma. É possível pensar em uma hipótese a respeito específico do “periguetismo”, que também fazrelação com o estigma da incapacidade intelectual. Segundo Souza (2006), o nascimento doOcidente teve uma especificidade que foi a produção de uma ética do trabalho baseada na oposiçãoalma x corpo, sendo a alma (a mente, o espírito) a virturde, e sendo o corpo o mal e o pecado, comos seus “desejos insaciáveis”17. A alma deveria controlar o corpo como pressuposto de um trabalhoprodutivo e sagrado, especialmente no que tange à ética protestante. Ainda segundo Souza (2006),com o desenvolvimento do capitalismo, separam-se os indivíduos com conhecimento incorporado,ou seja, com corpo e alma trespassados, dos que dispõem apenas do próprio corpo comoinstrumento de trabalho. Mesmo depois da “decadência” da religião e passando o Estado e omercado a controlarem o acesso das pessoas aos bens e recursos escassos - entre financeiros a deprestígio – legitima-se a separação entre classes com capital cultural (dominantes) e classes quepossuem somente o próprio corpo (dominadas). Esses últimos passam a ser consideradosdispensáveis, uma espécie de “lixo social” (p. 144), subcidadãos, a quem faltam condições paraconcorrer em um mercado de trabalho que privilegia o conhecimento incorporado. Nesta perspectiva, podemos pensar que os estigmatizados, os tidos como depreciados,podem ser vistos somente como corpo. O corpo que é pecador, que tem desejos, e que deve sercontido pela alma, pela mente. Na lógica da legitimação da desigualdade, isso faria sentido: sem ainteligência, ou capital cultural, sobra o corpo, que, além de servir para o desenvolvimento dostrabalhos braçais menos valorizados na sociedade, indomado, serve aos desejos. Assim, a mulher daclasse C é avaliada segundo uma conexão dupla de conceitos depreciativos: como corpo, por sermulher (e isso independentemente de classe social); e disponível, por ser corpo da classe C sem ocontrole sublime da alma. Ou seja, periguete.                                                                                                                        17 O surgimento de oposições é trabalhado por diferentes teóricos, divergindo a respeito de épocas e até de diferentesatributos. Segundo Chartier (1995), há alguns autores que colocam o momento chave de oposição entre cultura erudita epopular por volta de 1600-1650. E há historiadores que afirmam que em 1200, uma imposição de ordem teológica,científica e filosófica separa as culturas eruditas das tradições folclóricas e quaisquer práticas tidas como supersticiosas,sendo estas últimas a cultura dos humildes. O que se pode observar, independentemente da corrente escolhida, é que aoposição sempre colocou em lados contrários classes sociais diferentes. Ou poderíamos pensar em uma oposição entrereligiosos e ateus, por exemplo, em diferentes estratos econômicos. Mas o que parece é que o fator econômico estáimbricado nas buscas de legitimação de diferenças socioculturais. 14    
  • 15.     PPGCOM  ESPM  –  ESCOLA  SUPERIOR  DE  PROPAGANDA  E  MARKETING  –  SÃO  PAULO  –  15  E  16  OUTUBRO  DE  2012     Considerações (ou questionamentos) finais. Será tudo isso um exagero, quando se trata de um grupo que está ascendendoeconomicamente, e que está tendo bastante visibilidade na mídia, a ponto de ser definido por meiode manuais e até ter papéis de destaque nas novelas de maior audiência? Talvez possa ser, sepensarmos do ponto de vista de que, na novela, as situações funcionam muito mais intra-classes, e,devido à emergência do tema, é dada uma espécie de protagonismo aos personagens. Mas, e noâmbito residencial, só para citar um exemplo corriqueiro, onde uma trabalhadora doméstica conviveem uma interação face-a-face com sua patroa? Entendemos que a aderência de um conceito comoperiguete a pessoas de sua classe social pode contribuir para minar ainda mais uma história de lutapela cidadania, para tornar ainda mais profundas distinções e desigualdades que se encontram nãosó neste tipo de relação e não só em referência a este atributo, em inúmeros setores da sociedade.Seriam inúmeros os tipos de exemplos que poderiam ser trazidos. Mas o fundamental para esteartigo foi tentar percorrer um caminho tortuoso, delicado e cheio de armadilhas, para se vislumbrare trazer à tona uma das práticas que nós temos estabelecido há muito, mas especialmente agoraneste momento de “conceituação” da Classe C, que levam à separação entre “nós” e “eles”, deforma a parecer natural que a vida de um valha mais do que a do outro.ReferênciasBOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007.______. A produção da crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. Porto Alegre, RS:Zouk, 2008.CHARTIER, Roger. “Cultura popular”: revisitando um conceito historiográfico. Estudos Históricos, vol. 8,n. 16, p. 179-192. Rio de Janeiro, 1995.GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro:Guanabara Koogan, 1988.SOUZA, Jessé. A invisibilidade da desigualdade brasileira. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.WEBER, Max. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Volume 2. São Paulo:Editora UnB, 2004. 15