Deep web só para iniciados

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Antropologia para iniciados.

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Deep web só para iniciados

  1. 1. • " SO PARA INICIADOS • ão quatro autores clássicos da an­ tropologia os personagens do livro recente de Clifford Geenz, Works and /ives - lhe anthropologisl as aUlhor (Sum­ ford, Sumford University Press, 1988, 157, p.). A primeira vista a impressllo é de que se trata de um desdobramento do artigo de 1983, no qual Geenz propunha uma et­ nografia do pensamento moderno que se seguiria à etnografia de povos exóticos. Se a questão era se saber como outros or­ ganizam seu mundo significativo, estes outros tanto poderiam estaralém-marcjuan­ to no fim do corredor: ..Agora somos todos nativos", proclamou Geenz (1983). Dentro dessa perspectiva, as várias dis­ ciplinas acadêmicas representariam "for­ mas de estar no mundo" e, para estudá-Ias, três temas seriam de especial imponância. No primeiro caso estariam os dados como descrições, medidas e observações. Argu­ mentava Geenz que, "já que os estudiosos modernos não sllo mais solitários que os buShmen" (1983:156), métodos antropoló­ gicos clássicos ,poderiam ser aplicados a ambos. O segundo tema compreenderia as Ecudol Hi•.:,...... Rio cklaneiro, ..ai. J, n.�. 1990,p. 9J..l02.. Mariza G.S. Peirano categorias lingüísticas, pelas quais o autor confessava a sua simpatia: como na etn(}­ grafia tradicional, quando O significado de termos-chaves é discernido, esclarece-se muito da maneira como se vive no mundo. Finabnente, o foco de atenção estarianaob­ servação do ciclo de vida, no qual fenôme­ nos sociais, culturais e psicológicos esta­ riam impressos no contexto de carreiras acadêmicas. É com esta expectativa, a de encontrar uma etnografia da antropologia, que se pode ler Works and /ives, publicado em 1988. O livro é construído de maneira elegan­ te. Entre uma introdução ("Seing there") e uma conclusão ("Seing here") inserem-se quatro ensaios, cada um focalizando um autor clássico da disciplina: Lévi-Strauss, Evans-Pritchard, Malinowski e Ruth Senedicl. A preocupação de Geenz. entre os temas metodológicos que havia esta­ belecido anteriormente, está no segundo deles: a linguagem. Geenz avisa no pre­ fácio que, embora temas biográficos e his­ tóricos entrem eventualmente na discussão, o estudo se restringe principalmente à questão de como os antropólogos es-
  2. 2. ESTUDOS mSTORlcos- 199015 crevem, OU, como diz o subútulo, no pro­ blema "do antropólogo como autor". A introdução, "B.ing lher." é sobre a pesquisa de campo. Já a conclusao, "B.ing her." diz respeito 11 acadl!lDia. Segundo Geertz, o texto antropológico é levado a sé­ rio porque os autores conseguem demons­ trar aqui, para seusleitores, que estiveram 111 ou que fizeram pesquisa de campo. A antropologia, desta pe.spectiva, é mais aftm com o discurso literário que próxima do discurso cienúfico: o desafio do antro­ pólogo está em conciliar sua visão íntima da experiência de campo com o relato claro e moderado na transmissão desta expe­ riência. Na introdução, Geertz assume algumas posições. Primeiro, ressalta que o exercício etnográfico coloca o antropólogo no papel de um escritor: O antropólogo nllo relata meramente, mas cria um texto literário. Segundo, ele propõe que nllo é possível se­ parar o estilo do conteúdo ou, como elabora mais adiante no livro, "the way of saying is the what of saying" (p. 68). Terceiro, como a tarefa do antropólogo é extremamente complexa, Geertz não panilha o ideal da 'Iinguagem límpida e serena e prefere ex­ pressar suas dúvidas de modo a fazer aftrmaçOes "para depois sombreá-Ias, em termos de referências tendenciais" (p. 64). Na conclusão, Geertz diz que nllo é no campo, mas na academia que o trabalho do antropólogo se legitima. Esta é uma profissão que vive da e na academia: é porque os antropólogos escrevem, publicam, são revistos, citados, ensinados, que seus textos são legítimos. O escrever antropológico implica, assim, questões morais, políticas e epistemológicas, queslÕes estas que os "fundadores da dis­ cursividade" - como então Geertz chama os quatro autores que examinou do corpo do livro - não tiveram de enfrentar. Para Uvi-Strauss,Evans-Pritchard,Malinowski e Ruth Benedict, a dificuldade em transfor­ mar a experiência em palavras era apenas um problema técnico: hoje,esta dificuldade constitui um probleil1<i moral. Embora te­ nha tido enormes dificuldades de fOllllula­ çlioa enfrentar,aqueles antropólogosforam poupados do esforço de justificar sua empreitada_ No corpo do livro, cada autor mencio­ nado recebe um capítulo. Geertz escreve quatro ensaios pouco ortodoxos, nos quais elogia trabalhos desconhecidos de autores consagrados e condena trabalhos e auto­ {CS considerados clássicos. Até aí, nada de mais. No momento em que- "agora somos todos nativos", são desejáveis, senllo bem­ vindas, as releitoras, mesmo quando o tom é irônico e mordaz. O que incomoda no livro de Geertz é que a ironia parece des­ concertante e desproposital e é usada pa­ ra provar uma tese à qual nos é veda­ do o acesso até as últimas páginas do li­ vro. Nesse meio tempo, o próprio Geertz se vê envolvido em queslÕes que são também morais, políticas e epistemológicas De um lado, Geertz ignora de maneira aparente­ mente proposital as questOes teóricas que os autores levantaram: já que tudo está na linguagem, a força retórica muitas vezes se confunde com o poder teórico de expli­ cação. Por outro lado, faz falta o contexto intelectual no qual os autores escreveram. Apenas no caso de RuthBenedict o contex­ to explica o estilo, o que torna desigual o argumento dos quatro ensaios. Finalmente, penurba a ausência de empatia com osauto­ res. Foi Flauben quem, em 1872, escreveu a Ernest Feydeau dizendo que "quando se escreve a biograrta de um amigo, deve-se escrevê-Ia como se para vingá-lo" (cf. Bar­ nes, 1985). Nem Geertz se propõe a escre­ ver biografias, nem vemos em seus autores potenciais amigos. Com exceçllo, nova­ mente, de Ruth Benedict, ele nllo os vinga mas, ao contrário, compraz-se em denun­ ciar vivos e monos, em uma tarefa freqüen­ temente ingrata. O antropólogo deixou de ser herói.
  3. 3. sóPARA 1NI0A00S " Ing,aro, por exemplo, é mosrrarcomo o melhor ou único trabalho viável de Lévi­ Strauss é Tris/es /ropiqUJ!S - quando sa­ bemos que esta nllo foi a 3J)rropologia que Lévi-Strauss quis perpebrar - ou que o obscuro relarório de guerra escrilO por Evans-Prirehard, Opera/íons on /M AIcobo, é 110 útil para desmistificar a (falsa) se­ gurança do autor quanto qualquer de suas obras mais conhecidas. Ingraro é usar O diário de campo de Malinowski apenas como pretexto para admoestar três jovens autores sobre os perigos da elaboração mo­ nográfica. Finalmente, é ingrato alçar Rum Benedict ao pamello dos clássicos porque simplesmente esta autora conseguiu a proeza de mostrar, com enorme sucesso de venda e, por conseguinte, força retórica, o estranho no familiar, "nativizando", assim, os norte-americanos. Talvez percebendo sua postura geral, quase na metade do livro Geertz fala da sua ansiedade em nao ser vislO corno alguém que procura desmas­ carar, desmistificar, desconstruir ou di­ minuir seus autores, aos quais, confessa, "incluindo E-P, eu tenho O maior apreço, quaisquer que sejam nossas diferenças de posturas sociais" (p. 59). Esta ansiedade é justificada. Quem de­ nuncia, ironiza. critica, tem o compromisso de apresentar alternativas, sob pena de que as denúncias, ironias ou críticas nao passem de manifestaçOes inconseqUemes de vir­ tuosismo retórico. Voltaremos a esseponto. Por enquanto, vejamos em mais de.taIhes o que Geertz diz sobre os nossos clássicos. Lévi-Strauss é o primeiro, e a surpresa nao demora: Geertz para quem o estru­ turalismo nunca foi abordagem de pre­ dileçllo, faz uma leitura amável e simpática de Lévi-Strauss. As posiçOes dos doi� eram tidas como opostas: enquanto para a anrropologia de Geertz os fenômenos so­ ciais sao texlOs para serem interpretados, o estruturalismo os rem como enigmas para decifrar, independentemente do sujeito, do objeto e do contexto (Geertz, 1983:449). Mais: a inlbpretaçlk' propo... por Gcatz vem unida a uma perspectiva . . enquanto o estrutwalismo de é uni'Cisalista por definiçao. Mas aqui, entre todas as obras de Uvi­ Strauss, O livro escolhido é Trlstu /ropíqUJ!s, queé vistocomo nrc've1JKl"IIue nele o autor conseguiu combinarumaCiIOI'­ me diversjdadc. Ora Lévi-Srrauss é o via­ jante, no momento seguinte éetnógrafo,ao mesmo tempo desenvolve reOexOes fI)<r sóficas e, às veus, escreve o que seria um tratado reformista (Geertz. 1983:35-9). O segredo dessa riqueza. diz Geertz, é que Lévi-Srrauss nIk' escreveu Tris/u /ropí­ qUJ!S como um meio para atingir algo; mas como um texto em si: ele é, porranto,-WII documento da mentalidade dos franceses no seu enconrro com oullas men­ talidades simbólicas (bororo, caduveu, nambiquara), as quais procura penetrar na sua coerência interna, a fim de CIICOfIllar a réplica de si própria. Tris�s /ropiqUJ!s cn­ fatiza a afinidade da memória, da música, da poesia, do mito e do sonho c é. para • Geertz, nada menos que A la recMrcM tbI /e'"Ps perdu de Lévi-Strauss. Proustiano ou nIk', o livro tem lIll'is ainda a seu favor: é ar que Lévi-Straus.. deixa claro que nAo há continuidade na passagem entre experiência e realidade e chega a afirmar que "para encontrar a rea­ lidade precisamos inicialmente repudiar a experiência, mesmo que,mais tarde, a rein­ tegremos numa SÚltese objetiva na qual a sen/i=ntali/� está excluída" (citaçlk' em Geertz, 1988:46). Esse tema, privilegiado para Geertz, é reforçado pelos temOies que Lévi-Strauss experimenta quando, ao pro­ curarosdesconhecidostupi-Icwahib,cleen­ contra SÓ estranhamento: "lá estavam eles (...) perto corno O 1é00xo 00 espelho: eu podia lOCá-los, mas nIk' podia en�Jos" (CiL p. 47). Essa experiência, que foi para Lévi-Strauss recompensa e puniçIo, ex­ plica para Geertz a opção pelo esI!utu-
  4. 4. ESlUDOSIUsroRlCOS- 1990/5 ralismo universalizante, opçllo esta que, ao dissolverocontato imediato, dissolveujun­ to o esttanhamento. Esta interpretação de Geenz é bastante sugestiva. Maséprecisoreconhecerque ela omiteOfalo de queTrislesIropiqlU!SnlIo foi escrito antes, mas paralelamente às obras "antropológicas" de Lévi-Strauss: o livro foi publicado seis anos depois de As es­ trUllUas elemenlares do parentesco e sete antes de O pe1JSamenlO selvagem. O livro é um texto livre, que hoje pode ser recu­ perado como exemplo de construçllo de texto porque não foi escrito como tal na década de 50: naquela época, a antropolo­ gia ainda vivia a questão da sua cientificidade, tanto assim que concebê-Ia como arte foi motivo de ruptura entre Evans-PritchardeRadclirre-Brown.Ocon­ texto no qual Trisles tropiques foi escrito é o mesmo que produziu, por exemplo, The savage and lhe innocenl e Akwe-Shavanle society (Maybury-Lewis, 1965 e 1967): o primeiro, um livro renexivo sobre a expe' riência elIlográfica; o segundo. a antro­ pologia propriamente dita. O que Lévi­ Strauss sacrificou. então, em termos de estranhamento elIlográfico ele aprovei!Ou. em seus clássicos O pensamenlo selvagem e ·Tolemismo haje. para enriquecer sua proposta de explorar os mecanismos simbólicos da mente humana. Assim, é saudável recuperar Trisles lrapiques. mas é preciso ter consciência de que esta recuperação significa que o sub­ metemos a uma bricolage no tempo, atribuindo-lhe valores que são fruto de nos­ sas preocupações contemporâneas. - Evans-Pritchard. É impossível não se especular se umaboa dosede capricho,para não dizer perversidade, não fez Geenz es­ colher justamente "Operations on the Akobo, 1940-1", publicado em um periódico militar inglês, como texto para analisar o trabalho de Evans-Pritchard. É o próprio GeerlZ quem diz que para seu propósito"almoSI any Une 01E-P ... wolÚd do" (p. 49), da primeira página de Witchcrafl aNuer religioll. Geenzjustif1ca aftrmando que "Opuatioos" peunite dis­ cernir inelhor os limites do discurso de Evans-Pritchard ou, na concepçllo witt­ gensteiniana, os limites do seu mundo. Em "Operations", Evans-Pritchard relata sua participaçllo na primeira fase da Segunda Guerra, descrevendo suas atividades no Sudão como um bush-ir­ regular. O texlO mostra, segundo Geenz, como Evans- Pritchard prova, de maneira exemplar, que esteve "lá", recrutando nativos, fazendo alianças com os reis anuak, criando emboscadas para os italianos. Os anuak eram difíceis de dis­ ciplinar ("gostavam demarchar ecombater, mas nlIo simplesmente marchar") e foram fundamentais na desocupação da área. No final da expedição,Evans- Pritchardéman­ dado, a contragosto, de Gila para a Etió­ pia, com a finalidade de demonstrar a do­ minação brilânica. IslO ele faz no sentido mais literal, levando uma bandeira e fin­ cando-a em todas as aldeias em que acam­ pava. Para Geenz, "Operations" mostra clara­ mente a estratégia textual de Evans­ Pritchard, baseada no contrato narrativo entre o aulOr e seus leitores. O estilo de Evans-Pritchard pressupOe que tudo deve ser dito de forma clara, confiante e sem complicação. A falta de envolvimento do autor é cuidadosamente preservada e se renete na pontuação extremamente simples e regular: nas palavras de Geenz, "aslew commas as possible, mechanjcally p/aced, and hard/y any semicolons aI ali: readers are expecled 10 know when lO brealhe" (p. 60). Outras características apontadas porGeenz: a paixãopelas frases simples do tipo sujeilO-predicado-objeto; ausência de citações em língua estrangeira; preferência pelo declarativo explícito, sem jargllo. Em suma, um estilo petulante. A insinuaçlloé a de que, mesmo no relato dramático de uma
  5. 5. · SÓPARA INJOAOOS 97 situaçãO de guerra, Evans-Pritchard nlIo abandona o 10m sereno e objetivo. Evans-Pritchard parece incomodar profundamente Geertz. Apesar de reco­ nhecer "lhe madtkning bril/jance" dos textos de E-P (p. 49), Geertz sente-se aparentemente atingido pela segurança, limpidez, equanimidade, superioridade e estilo coloquial do aUlOr (p. 49). Numa pas­ sagem que seria empobrecedor traduzir, Geertz resume sua visão: "lI would be as unwise /O assume Ihal Evans-Prirchard was anylhing less Ihan inlensively aware o[lhefigure he is cul­ ling here as ir would be lO swallow him or his slory whole. The lale has c/early been Ihrough100 manypub recirals lobe lhe oflhand account ir so induSlriously prelends lO be" (p. 57). Se o texto é seguro e limpo, é porque Evans-Pritchard não sentiu a ambigüidade na relaçao entre a experiência e o texlO. Acrescente-se ainda que Geertz não dá muito crédito a Evans-Pritchard por seus trabalhos. Para Geertz, os estudos clássicos de Evans-Pritchard apenas mostram que ele foi capaz de encontrar algo que existe na nossa cultura, mas que não existe em outra. Por exemplo. entre os azandc, descobriu a preocupaçAo com causas naturais e morais: entre os nuer, detectou a ausência da lei do Estado e da violência. Ao adotar um estilo equânime, Evans-Pritchard confirma o domínio destes termos e mostra que as diferenças, por mais dramáticas, não con· tam muilO - oráculos de veneno, "ghosl marriages", sacrifícios de pepino, todos adequam-se às categorias culturais da academia britânica e podem ser ilustrados com falOS posadas e desenhos-técnicos. Ficam algumas questões. Primeiro,se Evans-Pritchard apenas tivesse confirmado as categorias européias, lalvez-seus traba­ lhos não se preslassem à reanálise e não suscilassem os debates sobre o pensamento primitivo e cientifico (por exemplo, Tam­ biah, 1985 e Horton, 1967). Segundo, se, como diz Geertz, iIs fotografias dos livlos de Evans-Pritchard fossem apenas em­ blemáticas, como interpretar as legendas, dirigidas a uma audiência t""dicionalmente acostumada à realeza: "A wilch-dcclor divining aI lhe courl o[Prince NdorumlJ" , "A nobleman, Bavongara", "A Zantk cour­ lier, wirh some o[his wives and children"? Talvez Evans-Pritchard tenha sido mais sutil que a percepçao de Geertz. Final­ mente, sabemos que era pr0p6silO de E-P fundir a linguagem da pesquisa com a da monografia, construindo novos conceilOs que englobassem as duas, empreendimento que ele concebeu como "traduçao etnográ­ fica" (Evans-Pritchard, 1951). O problema de Geertz nAo eslava Ilio ausente. Chega a vez de MaJinowski. Ele é im­ porlante para Geertz porque foi quem nos deixou O lêgado crucial da antropologia Concebendo a experiência etnográfica como uma imersão completa, Malinowski confrontou os perigos que espreitam a inevitável vida múltipla no campo: o isolamento, o contato com a populaçao local, a memória das coisas familiares e do que se deixou para trás, as dúvidas sobre a vocação e. mais dramati camente, o capricho das paixões, as fraquezas do espírito e a falta de direçao dos pensamen­ tos. Em suma, a constituição do seI[ e, depois, o desafio literário da passagem da experiência "oul lhere" para aquilo que se diz "back here" (p. 78). Para se IOrnar um convincente "/ witness", diz Geertz, o antropólogo deve primeiro tomar-se um convincente "/". O diário de Malinowski mostra este processo. O diário mostra lambém um problema comum aos diários em geral: a crença na sinceridade, que, segundo Geertz, é uma futilidade, depois de Freud, Sartre e Marx. A nova geraçAo, contudo, parece desco­ nhecero dilema do diário, que nocaso etno-
  6. 6. 9' ESllIDOSHISTÓRICOS- 199015 gráfico é sempre pane scholarship e parte auto-reOexão. Os jovens cada vez mais optam pela construção de textos no estilo "etnográfico-tipo-diário" e invariavel­ mente confrontam-se com as ansiedades literWias decorrentes. Geenz escolhe três livros de autores da nova geração, a quem chama de "filhos de Malinowski": '(e Paul Rabinow, seleciona 'RejI�clions on fteldwor/c in Morocco; de Vincent Crapanzano, escolhe Tuhami; de Kevin Dwyer,Moroccan dialogues. A des­ . peito dos diferentes estilos, os três autores chegam, por vias diversas, ao impasse da sinceridade: Jl.abinow mostra-se um clássico no estilo éducalion sencim.enlale; Crapanzano fecha-se no círculo psicana­ lltico com seu informante, e Dwyer apresenta seus diálogos de forma integral e não-seletiva. A esses textos corrcspondcm diversas construções do "eu": Rabinow é o homem incompleto, vago para si próprio e para os outros; Crapanzano é figura escul­ pida, trabalhada e polida; Dwyer é· retoricam�nte negado ao se apresentar apenascomointerlocutorde seu informante marroquino. O desconfono que os três autores partilham em relação ao fazer• etnográfico mostra, em Rabinow, o antropólogo adaptável à experiência, em Crapanzano, o intelectual mondain, e em- Dwye(, o moralista determinado. Ao leitor de Geenz resta apenas a des­ coberta de queos três autores não são filhos de Malinowski, mas do próprio Geenz. Malinowski é pretexto. Rabinow, Crapan­ zano e Dwyer têm em comum o diálogo com Geenz (Rabinow, 19�y,.Crapanzano, 1986; Dwyer, 1982, ver Trajano, 1988) e só indireta e de forma remota com Malinows­ ki. Nesse processo, descobre-se um elo de parentesco encoberto: a filiação de Geenz a Malinowski, já insinuada anteriormente em "From che nacive's poinl of view" (Geenz, 1983, capo 3), mas tomada aqui mais explícita, embora não reconhecida. Malinowski-etnógrafo, particularista, à procura do ponto de vista do nativo � o inspirador de Geenz, o emógrafo inter­ pretativo. . Com Rum Benedict muda o tom dos ensaios. Agora, pela primeira vez, temos contexto e, mais. números. O contexto é o período enue-guenas e aquele imMiata­ mente após a Segunda Guerra. de uma antropologia que prometia aos pesqui­ sadores transformá-los em "cientistas" e da personalidade de uma mulher que inicia sua carreira já madura, em termos de idade e de realizaçãO profissional. Os números im­ pressionam: dois milhões de cópias para Padrões � cullura e 350 mil para O cri­ sdnlemo � a esplJlÚJ. Diferentemente dos outros autores. alvos de crIticas veladas e ironias finas, Rum Benedict é redimida por Geenz por haver demonstrado força de expressão retórica e compreensão do momento político. Com um estilo adulto. seus textos são breves, vIvidos e altamente or­ ganizados: são os livros cenos paraas horas cenas, diz Geenz. Em Padrões � cullura, Ruth Benedict junta os zuni, os kwakiuti e os dobu para resgatar, a panir do contraste apolínio/dionisíaco, o material etnográfico de modo que o singular das descriçOes tome-se geral pelas implicações. Em O crisdnlema � a espadtJ. ela acenrua as dife­ renças entre norte-americanos e japoneses de tal maneira que, ao descrever a in­ credulidade recIproca de uns em relação à cultura dos outros, o resultado é que o Ja­ pão surge como menos errático e arbitrá­ rio e os Estados Unidos, mais "nati­ vizados". Para os norte-americanos, naturalmente. Este processo de "nativização" dos Es­ tados Unidos é uma das realizações mais poderosas de Ruth Benedict na perspectiva de Geenz. Ela fez uso de uma estratégia simples: mostrou o estranho comofamiliar, apenas com sinais trocados. Não se trata de um.procedimento satúico: para Geenz, as ironias de Rum Benedict, são sinceras e o
  7. 7. sOPAlIAINlCAOOS 99 que mais ressalla no seuIeXIO t O alIO grau de sai.'hde que ela transmite. Rulh BenrAict, enlao, merece um lugar de destaque entre os clássicos porque esclc_eu "mais para constranger O mundo do que para diverti-lo" (p. 128). As COR­ seqllblcias perversas desta reabili1aç?lo são óbvias' se OS limilCS da antropologia eslllo demarcados pelaopçaoentre "constranger" e "divertir", nosso mundot muilO pobre. A vido que Geenz propaga do trabalho de Ruth Benedict mostra que, ao reduzir o teXID elilogr4fico à sua dimensãoretórica, a medida do sucesso da disciplina dependerá do número de cópias 'vendidas: antropo­ logia como bUI-sel/er. Recuperando Ruth Benedict para o pante"odos ancestrais, al3cando o bril3nis­ mo de Evans-Pritchard, valorizando as reOexOes etnográficas de Uvi-Strauss mas desmerecendo seus trabalhos mais reco­ nhecidos e usando Malinowski para admoeslar a nova geraçao, Clifford GeeilZ pasoeia pela tradiçao da antropologia em ensaios ora irônicos, ora espirituosos, com freq!l!ncia cUle. Geenz t aqui um leitor mais m<X'daz e desafiador do que empático.• EsICS são ensaios dirigidos a quem conhece antropologia: são texlOS para iniciados, já que Geertz nao discute contexto, mas apenas linguagem, e sugere que fazer antropologia é somente uma queslllo de convencimenlO, sugeslllo, estilo e retórica. O termo "teoria" está conspicuamente ausente.- mesmo via linguagem -, ex­ CeIO em um parágrafo sugestivo: "Cerlainly, wilh lhe appearance of lhe so-cal/ed Brilish 'school' of social. anlhropology, which is held logelher far more by INs manner ofgoing OOoUI lhings in prose lhan ir is by any sort of consensual lheory or sellled melhad. lhis 'Ihealre of language' has become lhe mosl prominenl. (Whal E-P, A.R. Radcliffe-Brown, Meyer Fortes. Max Gluckman, Edmund Leach, Raymond • Firlh, Audrey Richa,ds, S.F. Natkl, Godfrey LlellhardJ, Mary Douglas, Emrys Pelus, Lucy Mair, anti Rodney Needham share, asitú from rivairy, is lone, lhaugh some of lhem are grealer masters ofillhan olhers.)" (p. 59) Depois de mostrar que ele, Geertz, c0- nhece os autores e sabe o que está dizendo, percebe-se que sua irreverência nao é gratuil3. Geertz reconhece uma crise atual de taisproporções que chega a se perguÍlIar se o próprio empreendimenlO de escrever etnografias nlla está em. risco. O problema da inadequaç"o das palavrasà experiência,, que os "fundadores da discursividade" enfrenl3r8m , hojeé inseparável de questOes morais, polític;as e epistemológicas. Na época de Uví- Strauss, Evans Pritchard, Malinowski e Ruth Benedict, diz GeeilZ, o problema era apenas técnico: o que eles faziam podiaparecer estranho, mast!ra ad­ mirado; para eles, os sujeitos da observaçao e a audiênciapara aqualescreviam esl3vam separados e moralmente desligados. Descrevia-se para uns o que se observava em outros. Hoje dominam um medo da hipocrisia, sentimentos de desihls"o e de estranbamento, e a própria descriçao como tal é questionada. Para alguns. como Stephen Tyler, a descriçao deve ser substituída pela evocação (p. 136). A crise sentida por GeeilZ faz parte de uma tendência dominante na ideologia moderna, mas, se crises existem, elas não nasceram ontem. Malinowski, o polonês que ousou legitimar-se contra O evolucio­ nismo britânico, eerlamente' enfrentou uma crise moral e epistemográfica. Evans­ Pritchard, mesmo tendo se mostrado indiferenteao relalar asoperaçOcs mililares da Segunda Guerra, questionou a própria racionalidade dos ocidentais e seus princípios de governo. Lévi-Strauss, quem sabe, não terá optado pela via estruturalista como saIdapara o impasse moral resull3nte do encontro atnográfico? Por sua vez, Ruth •
  8. 8. 100 ESnJIlOS IIlSTORlCOS - 1990/S Benedict nao pode ser isentada de seu en­ volvimento em serviços de espionagem durante a guerra apenas porque divulgou a "nativizaçao" dolO' Estados Unidos em 24 Ungllas, Pensar, entllo, que os "fundadores da discursividade" eram legítimos no seu tempo talvez seja uma atitude fácil e simplificadora. É mais possível supor O oposto: que a antropologia era um em­ preendimento e vocação tlIo questionáveis até o meio do século que ela abrigava, na sua maioria, imigrantes e mulheres, sendo raros na hislÓria da disciplina aqueles que, comoEvans-Pritchard,tinham um lugar as­ segurado por nascimento na sua sociedade. Como qualquer outra instituição cul­ tural, diz-nos Geertz em aparente contradiçao com seus próprios ensaios, a antropologia "is ofà plau and in a time" (p. 146). A antropologia de Geertz é também de um lugar e de um tempo: os Estados Unidos dos anos 70 e 80, que par­ tilham o ideal de uma visão democrática do mundo. Esla visão da antropologia remon­ ta, se nao antes, a Franz Boas e aos estudos sobre o racismo do início do século. A proposta atual de Geertz constitui um refmamento dessa tradição pela expeclativa nela implícila de que o discurso etnográfico possa ser a ponte para o diálogo através das linhas divisórias das sociedades: linhas de separação étnicas, de religião, classe, g�nero, linguagem e raça (p. 147). A propoSIa, reaftrntadadesdeA interpretação das culturas (Geertz, 1973) e posla em prática por alguns anuopólogos por ela ins­ pirados (Fischer, 1980, por exemplo), é de que a antropologia possa "alargar a pos­ sibilidade de discurso inteligfvel entre po­ vos muito diferentes uns dos outros em interesse, aparência, riqueza e poder" (p. 147). Fazendo parte de um mundo onde é cada vez mais difícil evilar o encontro, esse programa responderia à crise moral e poUtica que se apresenta no. dias de hoje. A consciência da crise é séria e o resul­ lado incerto. Mas como Geertz não percebe ou não admite umasaídaque seja ao mesmo tempo moral e te6rica e, se é verdade, como ela prega. que "the way of saying is tire whal ofsaying", entllo ele está brincan­ do e ironizando, e não dizendo muito. Pode-se mesmo pergunlar que tipo de diálogo é possível tendo como base a irreverência e a ironia Por outro lado, Geertz pàrece não se dar conta de que, independentemente da maneira como outros clássicos escreveram (Weber, Freud, Marx etc.), seus problemas teóricos permaneceram, passado mais de um século,e o conteúdo doque produziram- não foi ofuscado pelo tempo. E um sinal da escuridao e da pobreza da nossa tradição das ciências sociais contemporâneas, diz­ nos o filósofo hindu A. K. Saran, que "aqueles que tem a grandeza de perceber a verdadeira natureza dacivilização moderna e ver que o seu destino está selado não tenham a magnanimidade de oferecer nada mais que (...) uma: ciência melancólica, ou uma arqueologia irônica (...) ou uma teoria da cultura irônica, uma secularização de segunda mão ou uma sociologia do nau­ flágio" (Saran, 1987:32). A citaÇao parece pertinente aqui. Nas mãos do próprio Geertz, a et­ nografia do pensamento moderno que ele propós em "The way we thinl< now" perde a candura: Geertz escreve com um objetivo espec{fico - criar o desejado diálogo- e a história se lransfonna em um mito que ele cria em proveito próprio. Em 1988, Geertz está longe de ver a cognição e o imaginário como temas sociais segundo a proposta de 1983: na medida do seu interesse imedialO, são a linguagem, o sucesso, as guerras ou a espionâgem que recebem seu aplauso ou reprovação. . Ler Geertz é importante, porque nos faz pensar sobre o texto antropológico como texto literário, nós que lambém vivemos o dilema da cientificidade. É bom eSIar aler-
  9. 9. sOPARA INI0A00S 101 la. noentanto. paraO puigo do esleticismo. que O próprio Oeertz reconhece e aponl8, apesarda inconsistência que demonstra em relaçao a ele: a de que os elllólogos fiquem muito presos àquestllorelÓrica e. porexem­ pio.possam acreditar que o valor dos textos sobre'latuagens ou feitiçaria se exaure nos pmeres da escrita (p. 142). É in�te que esta observaçao seja feita apenas nas últimas páginas do livro: armai. o leitor foi bombardeado com crí­ ticas à retórica nos ensaios anteriores. Mas é só neste último capítulo. quando Geenz focalizaa questllo do b<!ing here, que enten­ demos melhor o alcance de suas observa­ ções.ÉentlloqueGeertz reconheceas ener­ gias que criaram a antropologia em dois fenômenos específicos: primeiro, na expansllo imperial do Ocidente e. segundo, na crença salvacionista da ciência (p. 146). Nesse cOntexto, Evans-Pritchard leva a pior, porque é culpado das duas: a segu­ rança e o convencimento do seu estilo ser­ vem de evidências a Geenz de que ele participou da crença nos poderes da ciência e deu sua aquiescência ao poder colonial. Já Ruth Benedict, cuja contribuição à antropologia pode ser questionada, recebe os louvores de quem foi protagonista popular e democrática. E como em Trisles IropUjues ecoam diferentes gêneros literários sem que os,livros se enquadre em nenhum deles, pode-se dizer que aí nAO há ciência nem colonialismo: frente ao choque do estranharnento, Lévi-Strauss fica, bem ao agrado deGeenz, perplexo, àprocura do tempo perdido ou da triboque não consegue alcançar. O livro se transforma, entllo, no modelo contemporâneo de construção etnográfica. Enfatizando o diálogo democrático. a proposta de Geenz surge como oposta à de Evans-Pritchard, o vilão da hislÓria, e a opçao pelo discurso irOnico, CUle, pontilhado de vírgulas e intercalado por oraçOes subordinadas, repleto de citaçOes estrangeiras, exorciza um sen­ timento de culpa imperialista que Geertz aparentemente partilha. Explica-se, entllo, lanto a irrilação que lhe causa Evans­ Pritchard quanto as leilllnlS amáveis mas tendenciosas q� faz de Lévi-Strallss e Rulll BenediCL Ao leitor brasileiro cabe finalmente lembrar que tudo isso nos faz pensar que o nosso being he,. difere substancialmente daquele de Geenz. Aqui, nao só a legi­ timação da profissllo nao se dá apenas dentro dos muros da academia,como being her. e being lhe,. freqüentemente se con­ fundem. Se o estilo de Geenz resuJla de uma postura anticolonial que pretende sec, ao mesmo tempo, anticientificisla, fica claro que adotar umarelÓrica semelhante à de Geenz somente nos faria pobres imi- 13dores de um sentimento de culpa que seria palético incorporarmos. Por outro lado, ler Lévi-Strauss, Malinowski, Rulll Benedict e Evans-Piitchard àmaneira deGeenz igual- . mente significaria uma perda da bossa independência intelectual, empobrecendo a contribuição que estes autores deram à dis­ ciplina. No nosso lugar e no nosso tempo, Geertz precisa sec integrado, mas critica­ mente, depois de iniciados no fazer 30- tropológi�o. Bibliografia BARNES, Julian.1985.FIa�,,'sparrot.New York, McGraw-Hill. CRAPANZANO, VincenL 1986. Herme.' dilemma. The masking or subversion in eth­ nographic descrition." Em CUFFORD, J. e MARCUS, G. (orgs.), Writing cwlt.,o. T'" pOe/ics 4IId ,'" politics of e/lwJgraph,. Berkeley,neUniversil)l orCalifomiaPuss. p.51-76. EVANS-PR1TCHARD, E. E. 195. Social aruhropo/ogy.l.ondon. FlSCHER, MichaeJ. 1980./r"".FromuligiolU d;spwe lo revo/w;OfI. Cambrid,e. HarYlrd UJÚversiry Press. GEERTZ. Cüfforo. 1973.T'" inúrprel4lion of cwlluru. New York. Basic Boou.
  10. 10. 102 ESnJOOSHISTÓRICOS - 199015 __,,1983, LocalIrnow/edge. F."her essay. in inluprtlive anlhropolog.,. New York. Basie Books. HORTON. Robin. 1967, "Mrican lraditional thoughl and WeSlem science",Africa.J7:50- 71. MAYBURY-LEWIS. David. 1965, The .ovage antilhe innoce11I, Boston. Beacon Press, _-=-. 1967, Al<wi-Shavanle .ociety, O.Cord. Orlom Universily Press, RABINOW. Paul. 1985. "Discourse andpower. on lhe limits af ethnographic tcxts." Dialec· lica/A11lhropowgy, /O (1-2):1-13, SARAN. A. K, 1987, Max Weberanti lhe end of ComJeansociology. Trabalho apresentado - • , no seminirio Man< and Weber - Clu.ical Theory for conlemporary Societies. Max New Delhi. M&ll MIJeU., Bhavon. TAMBIAH. S. 1. 1985, Cu/I.,e, lhoI<ght anti social actiOfl. Cambridge. Harvard Univer­ sity Press. TRAJANO, Wilson. 1986, Que barulho � ..... o do. pós-m oderno.? A·.Ario Anlropolb­ gico, p, 133-51 , Mariza G.S. Peirano é doutora em anlrO­ pologia pela Universidade de Harvard e pro­ fessora de antropologia na UNB. ,

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